Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00291


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Full Text



A DISPUTE SERA MESMO
ENTIRE ALMIR E JADER?

orrial Pessoal
E O FIM DO NEPOTISMO
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO NAJUSTIA DOPARA?
JANEIRO DE 2006 2 QUINZENA N 361 *ANO XIX *R$ 3,00
SOLUS, TOTUS, UNUS PAGINA



















U SUBERAL




IMPRENSA



O poder de 0 Liberal

0 major imperio jornalistico do Norte do pals vai dar um novo salto tecnologico em rela gao a
concorrencia, passando a imprimir suas publicagdes com a melhor qualidade. Mas qual o
conteDdo do que ira imprimir? Investindo em maquinas, deixa de investor no que mais conta
nojornalismo: osjornalistas. Conseguira esconder essa insuficidncia com cores mais vivas?


beral comecou a realizar pelo
menos duas faqanhas. A pri-
meira foi concluir a importa-
dio de urna das mais modernas miqui-
nas de imprimir jornais do mundo. A se-
gunda, foi retirar o equipamento em tem-
po record do porto de Belem. No mes-
mo dia em que chegou a capital paraen-
se, a miquina foi desembaraqada, ape-
sar de ser um sibado. Tres dias depois,
ja estava sendo montada na sede da em-
presa, que fica nos funds do Jardim
Botanico de Bel6m, o antigo Bosque
Rodrigues Alves.
Apesar do registro propagandisti-
co feito no pr6prio journal 0 Liberal e


na TV Liberal, o distinto pdblico nao
foi obsequiado com informaqoes sufi-
cientes para avaliar o que estava sen-
do anunciado. A maiquina importada,
uma Uniset "Full Collor" com forno se-
cador, 6 a 6nica do seu tipo vendida
pelo fabricante alemio para toda a
Am6rica Latina.
Trata-se de um pioneirismo bisado
pelo grupo Liberal: em 1989 a empresa
contratou a compra e tres anos depois
comecou a instalar a primeira impres-
sora off-set da Man Roland no conti-
nente, a Uniman 4/2-S. 0 mercado bra-
sileiro sempre preferiu outros fabrican-
tes, sobretudo o americano Goss. Por
isso, houve curiosidade e interesse ge-


rais pela inovaqio das Organizacoes
Romulo Maiorana.
Em 1972 o fundador do que viria a
ser o maior imp6rio de comunicaq5es do
Norte do Brasil promoveu um salto tec-
nol6gico na impresslo dejornais em Be-
16m, instalando o primeiro off-set do
Pard (e um dos primeiros do Brasil) na
oficina de 0 Liberal. 0 parque grdfico
do journal estava totalmente defasado
quando Romulo Maiorana o adquiriu, em
1966. Ao comprar a outrora poderosa
Folha do Norte, em 1972, 0 Liberal
ji liderava o setor.
Com apenas tr6s anos no comando
da empresa, seu filho e principal suces-
coNTINUA NA PAG i


S

F







CONTINUE AO DACAPA
sor, Romulo Maiorana J6nior, parecia
seguir nessa trilha de inovaqdo. A Uni-
man 4/2-S representava outro notivel
avanco em relaqgo a concorr6ncia: 6
capaz de imprimir 60 mil jornais a cada
hora, com capas em cores, introduzindo
a policromia na imprensa paraense. Para
que o servico fosse otimizado, por6m, era
necessirio acoplh-lo a um sistema de
esteiras, classificacdo e empacotamento
autom-niticos, que Ihe agregariam preste-
za e eficiencia. Embora significasse um
custo adicional de menos de 300 mil d6-
lares, enquanto a rotativa representava
investimento de aproximadamente US$
5 milhoes, essa complementaqio nunca
foi providenciada. Por isso, a miquina
nunca funcionou com sua velocidade nor-
mal. Provavelmente nao ultrapassava
60% da sua potencia.
Olhos mais experimentados podem
observer essa lacuna ainda hoje. Um fil-
mete de propaganda dojornal, repetido a
exaustao na television do grupo, mostra o
trabalho manual de recebimento dos jor-
nais que saem da boca da miquina, um
contrast brutal corn a velocidade do pro-
cesso industrial, o velho se chocando comr
o novo. Para que a adao dos funcionari-
os no trabalho de p6s-impressao seja
compatibilizado, a impressora tem que
funcionar a uma velocidade inferior ao a
sua plena capacidade.
Por que, entao, comprar uma maqui-
na mais veloz ainda e pelo menos tres
vezes mais cara, se a tiragem m6dia de-
clarada do journal 6 a mesma de 1989, de
50 mil exemplares? 0 ganho nao 6 de
velocidade, ji que a mais modern das
miquinas da Man Roland imprime ape-
nas cinco mil exemplares a mais por hora
do que a rotativa ainda em uso (e sub-
utilizada) pelojornal. Adiferenqa esta num
acr6scimo tecnol6gico: a nova miquina
conta com quatro torres de secagem,
enquanto a atual dispie de apenas duas
semi-torres.
Com o novo equipamento, o grupo
Liberal nao apenas vai contar corn im-
presslo em cores de mais qualidade,
como poderi encartar impresses em pa-
p6is especiais, mais finos do que o me-
lhor papel-jornal. Al6m de faturar publi-
cidade de valor elevado, em segments
de maior sofisticacio, poderd tender
encomendas de terceiros, inclusive para
imprimir revistas. Assim, o investimento
parece ser de future, deixando para tris
concorrentes efetivos ou potenciais.
0 caminho da conquista, entretanto,
nao esti isento de problems. As torres
ternm a altura de um pr6dio de cinco anda-
res. Ultrapassam o teto do audacioso pr6-
dio concebido e executado entire 1992 e
1993 para abrigar a sede dojornal, trans-
ferida do seu antigo endereqo, no centro


de Bel6m. Uma esp6cie de chap6u teri
que ser improvisado na cobertura do prd-
dio. Provocard ainda a reduqco do espa-
9o do gabinete de Romulo J6nior, no ulti-
mo andar, um dos maiores e mais luxuo-
sos da imprensa e nao s6 no Brasil,
mas em todo mundo.
Essa sede ji foi o resultado da inova-
iao de 1989, adotada, ao que parece, sem
reflexTo na extensdo necessAria. Quan-
do a miquina chegou ao porto de Bel6m,
seus novos donos descobriram que o ve-
lho pr6dio da rua Gaspar Viana nio tinha
altura nem alicerces para acomodar o
equipamento e suporta-lo em funciona-
mento. A gloriosa sede da Folha do
Norte, de Paulo Maranhio, envehecera
para esse fim. 0 equipamento ficou ar-
mazenado, no porto, durante meses, en-
quanto a nova sede era levantada, as pres-
sas (os encargos portuarios acabaram
sendo perdoados), para receb6-lo. 0 gas-
to nas obras civis equivaleu ao valor da
aquisiqlo da impressora, somando 10
milhoes de d6lares, praticamente meta-
de tornado de emprdstimo.
Uma d6cada e meia depois, a situa-
lao do mercado de jornais ja nao e a
mesma. Qualidade de impressao e van-
tagens adicionais influem sobre o pdbli-
co, antes como agora, mas seu peso ji
nio 6 tio grande, at6 mesmo porque as
melhorias sao menos notadas. 0 contei-
dojornalistico da midia impressa 6, cada
vez mais, o diferencial dela em relaiao
as outras midias, sobretudo as mais re-
centes, como a internet. Diferenqa ca-
paz de center a evasao de leitores das
piginas dos jornais.
Investir na mao-de-obra nunca foi
prioridade para o grupo Liberal, nem a
formaqao de opiniao pdblica qualificada.
Por isso, pela primeira vez em muitos
anos, a lideranqa do grupo deixou de ser
absolute. Mesmo com um segundo jor-
nal diirio, seu domino esti muito abaixo
dos 98% que apregoava nas d6cadas de
80/90. 0 avanco tecnol6gico conseguira
compensar e fazer esquecer a fraqueza
de conteido?
Esta 6, mais uma vez, a divida que fica.
Uma d6vida que nio pode ser respondida
apenas atrav6s da anilise propriamente
jornalistica, industrial ou commercial do pro-
duto. Ela requer consideraqlo pelo fator
poder. E poder, o grupo Liberal ainda tern
bastante, por forqa de suas intimas rela-
qCes corn a maioria dos governor mais re-
centes que se sucederam no Pard, corn
enfase sem paralelo em 10 anos de mando
tucano do PSDB, e pela estrutura que
montou com base nessa parceria. 0 grupo
tem o poder de fogo de dois jornais didrios,
nove emissoras que geram imagem de TV,
90 retransmissoras, oito emissoras de ri-
dio, um portal de internet e uma TV a cabo,
tudo isso com o selo da Rede Globo.


E por isso que as taxas devidas pela
armazenagem de muitos meses no porto
de Bel6m da primeira impressora Man
Roland acabaram sendo perdoadas, por
interferencia political. E agora os equipa-
mentos importados foram retirados no
mesmo dia em que chegaram a cidade,
como poucas empresas conseguiriam fa-
zer em todo pafs, ainda que tudo feito per-
feitamente dentro da lei. Como tais faqa-
nhas sao possiveis? A resposta a essa per-
gunta envolve tamb6m uma questao de po-
der. Quem tenta encontri-la e dela prestar
contas ao p6blico experiment as conse-
qiiUncias desse ato de lesa-poder. Por isso
mesmo, pesadissimas.


RIVALIDADE
Nao estou convencido de que houve
recrudescimento na rivalidade entire
paraenses e amazonenses, ao con-
tririo do que poderia sugerir um con-
flito ocorrido na semana passada, em
Manaus. Fibio Campos, de 19 anos,
matou a tiros Gilson Sales, de 25, su-
postamente por se considerar ofen-
dido com o tratamento pejorative de
paraense. A hist6ria 6 singela e iso-
lada demais para ser considerada
simb6lica de uma secular mal-que-
renca entire os dois grandes Estados
amaz6nicos, territorialmente os mai-
ores da federagao. Fibio obviamen-
te nao gosta de ser chamado de pa-
raense. Mas talvez tivesse matado o
ofensor se ele o chamasse de gay
ou de ladrao. Sua irritabilidade e in-
conseqiiencia provavelmente pesa-
ram mais do que o fator regionalista.
0 regionalismo existe e 6 lamen-
tivel. Faz os vizinhos se desgasta-
rem ao inv6s de se beneficiarem com
a proximidade. Nada indica, entre-
tanto, que a rivalidade se haja disse-
minado tanto queja provoca inciden-
tes de rua num grau tal que acarreta
risco de morte. Sou tentado a achar
que atualmente hi mais m6itua igno-
rancia do que dispute entire paraen-
ses e amazonenses. Os dois Esta-
dos ficaram tdo distantes e distintos
que parecem separados por enorme
distancia e nao por uma linha seca
problemitica. Esse dar-de-ombros
pode ser mais pernicioso do que a
litania de combat.
Um epis6dio bem mais grave foi
proporcionado por intellectual do por-
te de Marcio Souza. Se o leitor se
lembra, o autor de "Galvez" tentou
requentar a dispute, mas sem qual-
quer sucesso. 0 silencio sepultou sua
peqa, de mA inspiraqao e pior reali-
zaqio. Am6m.



JANEIRO DE 2006 *2 QUINZENA Jorn"lI Pessoal









Em campanha eleitoral,



o jornalismo 4liberal"F


A Funasa 6 a nova Sudam de Jader
Barbalho? A resposta 6 sim, segundo 0
Liberal. 0 journal dos Maiorana iniciou
uma campanha para denunciar o uso po-
litico da Fundaqco Nacional de Sa6de.
O favorecimento a prefeitos do PMDB,
al6m de servir eleitoralmente a campa-
nha do ex-senador neste ano, poderia vir
a descambar em desvio de recursos p6-
blicos semelhante ao que levou o gover-
no de Fernando Henrique Cardoso a ex-
tinguir a Superintendencia do Desenvol-
vimento da Amazonia.
Aparentemente, o journal tem razio.
De 71 conv6nios assinados pela Funasa
no ano passado, 27 foram com prefei-
tos do PMDB, o que represent quase
40% do total. A desproporqao, relativa-
mente ao peso politico do partido no
Estado e i population dos municipios que
control politicamente, se acentua em
terms de valores: os 27 convenios do
PMDB somam quase 20 milhoes de re-
ais, enquanto os 12 conv6nios com o
PTB, o segundo partido mais bem ser-
vido, totalizam menos de R$ 9 milhoes.
0 repasse para os oito convenios do
PSDB ficou abaixo de R$ 6 milh6es.
A orientaqio political aparece ainda
mais nitida quando se verifica que para
Ananindeua foram reservados R$ 9 mi-
lhoes, enquanto para Beldm foram des-
tinados R$ 7,7 milh6es. Ananindeua, corn
um terqo da populaiao da capital, tern
como prefeito o filho do ex-governador,
H61der Barbalho. A um municipio pee-
medebista de menor expressio demo-
grdfica, como Aveiro, foram previstos
R$ 1,1 milhaio. Floresta do Araguaia serad
contemplada com R$ 1,2 milhao.
Nem essas evidencias, entretanto,
permitiriam a folha dos Maiorana con-
siderar como fato consumado o que
ainda 6 possibilidade ou, por outra 6ti-
ca, ameaqa. 0 claro favorecimento ao
PMDB pode ser atenuado se houver
fundamento t6cnico em cada conve-
nio capaz de contrabalanqar o fator
politico. Mesmo este nio 6 tio escan-
dalosamente tendencioso quanto pare-
ce. 0 PSDB, por exemplo, mesmo
sendo o principal adversirio national
do PT, recebeu tres vezes mais recur-
sos do que o Partido dos Trabalhado-
res. 0 PTB teve um valor m6dio de
convenio equivalent ao do PMDB,
certamente por ser aliado national do
governor Lula, embora adversario fron-
tal dos petistas no Estado.


De qualquer modo, as critics feitas
por 0 Liberal a Coordenadoria Regio-
nal da Funasa teriam o salutar sentido
de advertencia e ameaqa contra o des-
vio da funqio publica, que estaria co-
meqando a se delinear. 0 problema 6 a
tendenciosidade explicit do journal: sua
campanha nao visa tender ao interes-
se publico apenas ou principalmente.
Aliado do PSDB paraense, ojornal ata-
ca os peemedebistas para favorecer os
tucanos. Por isso public meias verda-
des ou mentiras. E nao vai ao fundo da
questdo, tratando-a superficialmente,
conforme seu interesse.
Politicamente a Funasa vem sendo usa-
da hi bastante tempo. Rosimery Teixeira,
esposa do deputado estadual Luis Cunha,
era a coordenadora, quando o ex-prefeito
de Tucuruf pelo PMDB, Parsifal Pontes,
assumiu o cargo, em outubro, por indica-
qio de Jader Barbalho. Muitas das irregu-
laridades e erros noticiados pelojornal como
fato mais recent sao desse tempo, alguns
com origem ainda mais remota.
Se os convenios que Parsifal assinou
a partir dessa data term outro vicio al6m
de eventual tendenciosidade political, o
journal nio mostrou. Independentemente
de alguma mdcula de origem, a dilapida-
qio do patrim6nio pdblico ainda nio existe
porque os recursos nao foram liberados.
No caso de Marituba, municipio da Gran-
de Bel6m administrado pelo PSDB, se-
quer o convenio foi assinado. A alegaqio
apresentada oficialmente 6 de que a do-
cumentacio necessiria nao esti pronta.
Esse seria o maior de todos os conveni-
os, no valor de R$ 12 milhoes. Se o en-
trave nio existisse, embora com menor
n6mero de conv8nios do que o PMDB, o
PSDB chegaria a um valor pr6ximo, de
quase R$ 18 milhoes.
Naturalmente, o ideal da boa gestao
publica 6 que o dinheiro do povo seja apli-
cado em seu proveito com rigor t6cnico,
critdrio dejustiqa e eqiiidade. Raramen-
te, por6m, isso acontece. Quem destina
os recursos procura tirar vantagens de
sua aplicaqio. 0 governor Jatene favore-
ce os administradores tucanos com as
verbas pr6prias. Quando invested em drea
adversdria, se empenha atrair os dividen-
dos do gasto para si, comrno os orgaos fe-
derais, a semelhanga da Funasa. Se nio
ha malversaiao de dinheiro publico nem
os crit6rios de aplicacio slo invertidos
(ou pervertidos), e o usufruto politico 6
compativel com principios de gestio, esse


6 o tipo de aqio que prevalece nos regi-
mes politicos, seja no Para, em Sao Pau-
lo ou em Nova York.
Nao ha esse tipo de ponderagio na
campanha desencadeada por 0 Liberal.
Ojornal esta convencido de que a Funa-
sa 6 o novo bunker do inimigo, que 6
tanto concorrente commercial quanto ad-
versario politico das Organizaqces Ro-
mulo Maiorana. Coino guerra 6 guerra,
ojornalismo foi deixado de lado. Nas pri-
micias de uma campanha political que se
prenuncia violent, mat6riasjornalisticas
sao usadas conmo misses: visam destruir
o alvo escolhido e nio informer o leitor.
Por isso, ojornal se recusa a publicar
as cartas que Ihe sao enviadas pela Co-
ordenadoria Regional da Funasa, estabe-
lecendo uma proveitosa polemica.
Numa das cartas nao publicadas, por
exemplo, Parsifal Pontes escreveu, atra-
v6s de sua assessoria de imprensa:
"Depois que 0 Liberal, equivocada-
mente, denunciou irregularidade no pro-
jeto Alvorada, talvez achando que o mes-
mo se tratava de outra coisa e nao do
convenio assinado pelo entdio Governa-
dor Almir Gabriel, em 2001, o Coordena-
dor Regional oficiou ao Minist6rio Pibli-
co Federal, anexando uma c6pia do dito
relat6rio [elaborado pela Funasa na
gestdo anterior, eni junho do ano pas-
sado, constatando irregularidades na
execuado do convenio], e enviou a Pre-
sidencia da Funasa, em Brasilia, pedido
de instauraqao de Tomada de Contas
Especial do Projeto Alvorada no Pard".
Acrescentou o coordenador que "O
Liberal dd a noticia de uma forma abso-
lutamente capciosa, ultrapassando os li-
mites da parcialidade jornalistica, ao es-
crever uma manchete que leva o leitor a
pensar que haveri uma devassa na Co-
ordenaaio Regional, por algurna irregu-
laridade nesta cometida: isto 6 algo que
nio se poderia pensar que um journal que
se diz s6rio pudesse fazer".
Certamente o jornalista encarregado
da tarefa poderia contraditar os argumen-
tos da Fundaqio, alguns dos quais camu-
flam o compromisso politico. Mas para isso
as reportagens teriam que investigar mais
profundamente do que fizeram ate agora,
preenchendo lacunas com fatos e substi-
tuindo insinuaqoes por afirmativas, dei-
xando de desenvolver o discurso do ban-
dido de um lado e o do mocinho do outro,
quando, a rigor, nio ha mocinho nessa
hist6ria. De tal controversial o distinto p6-
blico saird mais bem servido do que se
continuar a ser tornado como instrumen-
to de uma campanha deliberadamente
political, com muito pouco dejornalistica.
Comojd aconteceu nas 61timas elei-
qoes, o journal dos Maiorana tomou o
seu partido, embora, na verdade, nun-
ca o tenha deixado.


Journal Pessoal 2"QUINZENA JANEIRO DE 2006 3








Funai em conflito:



tradiaio de 40 anos


A Fundadio Nacional do Indio com-
pletard 40 anos em 2007. Quantos presi-
dentes jd teve? Nio sei exatamente, mas
o n6mero pode bater em 40 ou ir al6m. A
presid6ncia da Funai 6 um dos cargos mais
instdveis da administragao ptiblica federal
brasileira. Qual a razio dessa explosivi-
dade? Certamente, as terras indigenas.
Costuma-se dizer que quando os eu-
ropeus aportaram em Pindorama, no se-
culo XVI, a terra era habitada por pelo
menos dois milh6es de indios. Hoje res-
tam apenas 700 mil, um ndmero que cres-
ceu bastante nos dltimos anos (150%
entire 1991 e 2000), a se dar cr6dito a um
polmrico levantamento recent do IBGE.
E uma minoria 6tnica de pouca expres-
sao num pais com 180 milhoes de habi-
tantes. Influiria pouco na vida national.
Nao fosse seu valioso patrim6nio natu-
ral. Corn pouco mais de 0,4% da popula-
iio brasileira, os indios term 12,5% da
superficie do pais.
E "terra demais", teria admitido o atual
president da Funai, M6rcio Gomes Pe-
reira. Ele nao disse exatamente isso. 0
que ele disse 6 que nio se pode continu-
ar a expandir indefinidamente o patrim8-
nio indigena. A quantidade de indios iso-
lados jai e insignificant, ao contrario da
realidade encontrada pela Funai em 1967,
quando substituiu o desmoralizado SPI
(Servico de Protegao ao Indio), criado 57
anos antes para cumprir o postulado hu-
manista do marechal Rondon ("morrer se
precise for, matar nunca", era o seu lema
na "pacificaaio" das tribes perdidas pe-
los sertbes brasileiros).
Ora, se os nucleamentos de indios es-
tao definidos e caracterizados, o 16gico 6
que seus direitos territoriais encontrem a
devida definicio, estabelecendo um limited


legal. S6 assim sera encerrado o long e
conflituoso ciclo das demarcacqes de re-
servas indigenas. Uma vez consagrada a
territorialidade, o process aculturativo
seguird seu curso ou seus diferentes e
problemdticos caminhos, mas ji entdo a
partir do pressuposto da base fisica.
Foi mais ou menos isso o que M6rcio
Pereira disse, embora suas palavras te-
nham sido deturpadas. Nao s6 por seto-
res da opinido pdblica penetrados por
aversao e preconceitos em relacgo aos
indios, mas pelo mais famoso dos serta-
nistas em atividade, que tamb6m presi-
diu a Funai entire 1991 e 1993: Sydney
Possuelo. Em entrevista a 0 Estado de
S. Paulo, Possuelo fez critics violentas
ao seu superior hierirquico e A political
indigenista do governor Lula. Nao s6 co-
meteu ato de insubordinaqdo funcional
como foi injusto corn M6rcio, personali-
zando um ataque que devia ser travado
no piano das id6ias.
Talvez nao por mera coincidencia,
Possuelo era o coordenador-geral do de-
partamento de indios isolados da Funai.
Por causa do grande interesse de estran-
geiros pelo selvagem (sempre o bom sel-
vagem, na matriz rousseauniana da cons-
ciense mauvaise dos colonizadores), dis-
punha de prestigio, espaqo e recursos que
ji se mostravam incompativeis com sua
tarefa. Atenuava esse esvaziamento corn
expediqoes concebidas e executadas sob
ampla cobertura da imprensa internacio-
nal, revestindo-as de tom 6pico que ji nao
express plenamente o eco da realidade.
Pode haver, por debaixo dessa viru-
lenta esgrima verbal, uma dispute de po-
der. Claro que Possuelo nao quer voltar
A presid6ncia da Funai, uma cadeira quen-
tissima demais para acomodar seu ocu-


pante por muito tempo. Mas nao quer o
esvaziamento do sector que comanda com
total liberdade de movimentos e uma
tal repercussao que o torna mais visivel
do que seu chefe formal.
Se o sertanista ignorou a brilhante car-
reira do antrop6logo, M6rcio exagerou na
reaqlo is palavras de Possuelo. De for-
ma tao desproporcional que acabard por
levantar uma escada pela qual o funcio-
nirio punido ascenderd de novo a ribalta
das atenc6es e se transformarA em ban-
deira, a ser empunhada por aqueles que,
corn diversos arguments, uns inteiramente
justos e outros despropositados, estao de-
siludidos, irritados ou indignados com as
aqces da administration Lula em mat6ria
de indios. 0 que acabard por contribuir
para novos desacertos e desgastes do que
para reencontrar um rumo certo. Assim,
6 provdvel que a Funai chegue aos 40 anos
ainda mais desgastada do que o remote
SPI. Os indios, em situacio pior.


PREMONI AO
Quando escreveu Os indios do Bra-
sil, pela Editora Vozes, M6rcio Pereira
me mandou uma dedicat6ria generosa e
bonita. Fiquei-lhe muito grato pela lem-
branqa. A hist6ria da defesa da causa
indigena Ihe deve alguns pontos positives.
Deve tamb6m bastante a Sydney Possu-
elo, um dos 6ltimos se nio o 6ltimo -
remanescente da estirpe dos grandes
sertanistas, como Chico Meireles e os
irmdos Vilas-Boas.
Na 6poca em que recebi o livro, na
d6cadade 80,jamais podia imaginarque,
um dia, M6rcio presidiria a Funai, alvo
de nossas flechadas critics. Nem que,
um dia, Possuelo atacasse M6rcio. 0
exercicio do poder provoca mutaq5es in-
criveis. Pensava nisso enquanto me re-
metia ao conflito de Meireles e os Vilas-
Boas, elevado a condiqio literdria por
Ant6nio Callado no romance Quarup.
A literature, mais uma vez, antecipa a
realidade. Quern quiser entender melhor
esse novo round, vA ao Quarup.


MEMORIAL
Nao houve familiar em fotografia como a dos irmaos Pinto: Jos6, Pedro e Luiz, todos
paraenses, foram grandes fot6grafos. Z6 e Pedro se foram hi mais tempo. Luiz seguiu o
mesmo caminho no iltimo dia 20, aos 72 anos, no Rio de Janeiro. Nao teve o registro que
merecia. Ele e Z6 conseguiram a projeqdo national que faltou a Pedro, o 6nico que perma-
neceu em Bel6m, mas, por isso mesmo, foi menos injusticado ao morrer. Desfaz-se, assim,
uma legend familiar: da segunda geraqao, apenas Guilherme, um dos tries filhos de Luiz,
seguiu a carreira do pai e dos tios pelo fotojornalismo.
Tempos atrds Luiz Pinto me telefonou. Queria um preficio para um album de fotografias
suas sobre a Amaz6nia. Escrevi e mandei. Ele ainda se comunicou mais duas vezes. 0 livro
ainda nao saira. At6 hoje nio sei se foi publicado. Se nao foi, esta 6 a oportunidade de homena-
gear um professional competent e sensivel. E uma familiar sem igual no mundo da fotografia.


MAIS UM
A Link da Amaz6nia Constru-
tora terd prazo at6 o final des-
te ano para executar as obras
de reform, recuperaiao e res-
tauraqdo do Museu do Estado,
mais conhecido como Palicio
Lauro Sodr6 at6 uma d6cada
e meia atrAs, quando servia de
sede ao governor. Custo do ser-
viqo: 5,5 milhoes de reais. Pelo
menos inicialmente.


JANEIRO DE 2006 2 QUINZENA Jornal Pessoall









Almir x Jader: esta sera-



mesmo a grande dispute?


Se nio 6, de fato, candidate ao go-
verno do Estado, Jader Barbalho nao se
importa que pensem assim, muito pelo
contrdrio. E o que se pode deduzir da
decision de seu journal, o Didrio do Pard,
de publicar, uma semana atris, uma no-
ticia produzida pela Ag6ncia Estado, de
O Estado de S. Paulo. A agencia dis-
tribuiu mat6ria, escrita pelo seu corres-
pondente em Bel6m, Carlos Mendes, di-
zendo que o deputado federal devera ser
o candidate do PMDB ao cargo.
A matdria nao teve direito a cha-
mada de primeira pagina, mas saiu
numa pdgina nobre, a terceira, ao lado
da coluna "Rep6rter Diario". 0 cr6di-
to a Agencia Estado foi dado, mas dis-
cretamente, no fim da mat6ria. Muita
gente que leu o texto achou que era de
responsabilidade do Didrio. Entendeu
que Jader 6 mesmo candidate a gover-
nador. Mas ele pr6prio ainda nao fez
nenhuma declaraqdo categ6rica a res-
peito. E, justica seja feita, essa pergun-
ta tamb6m nao Ihe foi formulada. A
grande imprensa esti engolindo todas
as questies essenciais para o bom
acompanhamento das providencias de
bastidores que antecedem a corrida
eleitoral. 0 grito de largada ainda nio
foi dado, mas os competidores ja aque-
cem os misculos.
0 ex-governador Almir Gabriel, por
exemplo, esti na raia hi muito tempo.
Talvez desde o dia em que passou a fai-
xa ao seu successor, o tamb6m tucano
Simio Jatene. A principio tentou ser dis-
creto nas suas articulaqoes, restritas ao
seu apartamento. Mas depois abriu to-
dos os portoes para contatos politicos.
A imprensa cotidiana at6 hoje nao fez o
registro desses passes. A reconstituiclo
dessa trilha seria important para avali-
ar o grande mist6rio dessa fase pr6-elei-
toral: por que o governador Jatene de-
sistiu da reeleiqdo?
Certamente sua attitude nao se deve
a uma posi~go doutrindria anti-reeleiqgo.
Jatene ji se manifestou contra o institu-
to, mas sempre, a semelhanqa do presi-
dente Lula, ressalva que a possibilidade
6 legal e deveri ser considerada, pelo
menos enquanto continuar vigente. Ha
muitas sugestbes de que, confrontado
pelo seu padrinho, a quem deveu sua elei-
qio, preferiu nao contesti-lo. Ji que Al-
mir pretend ser mais uma vez governa-
dor, que seja 6 o que dizem porta-vo-
zes empenhados em passar em frente


uma versao conciliadora, capaz de man-
ter a unidade do PSDB.
Uma vez definida a "re-candidatura"
de Almir Gabriel, Jatene nio podia esca-
par ao destino que lhe 6 imposto: perma-
necer no cargo at6 o final do mandate. 0
gesto de desprendimento teria um efeito
corrosive sobre as hostes inimigas. Corn
a cautela que faltou ao antecessor, ele
colocard a seu servico a miquina official,
um fator que costuma desequilibrar as
disputes num Estado tao grande e pobre
como o Pari, por isso mesmo suscetivel
ao clientelismo e ao fisiologismo.
Mas tamb6m imobilizara a vice-gover-
nadora, que vem tendo uma preocupante
desenvoltura e autonomia. Se Almir Ga-
briel for o candidate, a lei impede Val6ria
Pires Franco de ser sua companheira de
chapa, a nao ser que renuncie ao atual
mandate. Ela s6 poderia disputar a ree-
leicao se Simao Jatene disputasse nova-
mente o governor. Esse 6 um golpe na
sua trajet6ria independent.
Mas o PFL nao pode reclamar, pelo
menos da boca para fora: o companheiro
de Almir sera um pefelista. 0 secretario
especial S6rgio Leao ingressou no parti-
do na und6cima hora, discretamente.
Mas, para todos os efeitos formais, 6
agora do PFL. 0 partido nio perderi o
posto a que teve direito no 6ltimo arranjo
eleitoral. Apenas o comandante do parti-
do, o deputado federal Vic Pires Franco,
marido de Valdria, nao poderi colocar no
cargo pessoa de sua confianga pessoal,
como da outra vez.
Vic ou Val6ria talvez pudessem reivin-
dicar uma compensaqio a altura, dispu-
tando o Senado. Mas se arriscariam a fi-
car sem mandate na dispute por um inico
lugar, que promete ser muito acirrada? E
como situar, na anilise da situacio, a po-
sidio do senador que completard agora o
seu mandate? Embora tambem nao tenha
ainda se pronunciado formalmente, Luiz
Otavio Campos 6 candidate a reeleigao.
Inusitadamente, corn o apoio do governa-
dor Jatene e do grupo Liberal, com o qual
mant6m profundas relacqes.
Se a coligaqao situacionista vai ter seu
pr6prio candidate a vaga senatorial, por
que Luiz Otivio continuou no PMDB e
qual a razao de ganhar o apoio pdblico
do governador do PSDB (sem ser hosti-
lizado por Jader), se uma alianca local
entire os dois partidos esti descartada,
confirmando a rejeiqgo mitua a qualquer
tipo de acerto entire eles?


Essa 6 mais uma pergunta sem res-
posta. A nao ser que urn acordo ainda
nao tenha sido descartado de todo ou,
quem sabe, porque esta seria a forma de
eliminar as barreiras antepostas no rumo
que "Pepeca" ia seguir: ao Tribunal de
Contas da Uniao. Sua entronizadio foi
obstada pela reaqio do corpo funcional
da corte, que contestou a indicacao na
justiqa. Mas essa hip6tese ainda 6 facti-
vel? Pode se materializar antes de termi-
nar o prazo para a definiqdo das candi-
daturas? Uma alianqa PMDB/PSDB ain-
da nio 6 totalmente impossfvel?
Mais perguntas, nenhuma resposta.
Mas pelo menos a iltima d6vida podia
ser completamente descartada se late-
ne a tivesse eliminado de sua cogitaqao.
Teve a oportunidade de fazer isso de pd-
blico na iltima terqa-feira, durante en-
trevista no program Sem Censura, da
TV Cultura. Mas foi tio ambfguo que
provocou imediata cobranqa de um te-
lespectador. Ainda assim, Jatene nio dis-
se a frase que uma parte de seus corre-
ligiondrios gostaria de ouvir dele: Jader,
nunca mais!
Ha, portanto, muitos pontos sem n6
nesse novelo amarfanhado. Mas hi tam-
b6m imposiqoes nessejogo de alternati-
vas. Uma delas diz respeito a Jader Fon-
tenele Barbalho. Objeto de tantas sindi-
cancias, inqu6ritos e processes, ele sabe
que nao pode ficar a margem do poder.
0 mais evidence dos seus guarda-chu-
vas 6 a imunidade parlamentar.
Em ultimo caso, ele precisa continu-
ar a ser deputado federal para poder
continuar a gozar de foro privilegiado
para o processamento final na justiqa.
Por esse crit6rio, ele teria que ser can-
didato a reeleiaio. Seu interesse estri-
tamente pessoal estaria atendido. Mas
e o projeto politico? Ha um successor em
campo, seu filho, o prefeito de Ananin-
deua, HWlder Barbalho. Na eleiqio que
se seguir a deste ano, H61lder precisara
crescer al6m do limited municipal. E pre-
cisari contar com um partido mais for-
te do que o atual PMDB.
No silencio, mas contando corn a boa
vontade do governor Lula, com o qual tem
uma proficua relaiao de troca, Jader re-
estruturou o PMDB no interior do Esta-
do, dando-lhe novos misculos. Benefi-
ciou-se mais do calor da miquina fede-
ral do que o pr6prio PT, principalmente
depois da ren6ncia de Paulo Rocha ao
mandate de deputado federal para nao
ser cassado.
Esse desfalque prejudicou sensivel-
mente a capacidade do Partido dos Tra-
balhadores na dispute por cargo majori-
tdrio. Quem indicard? 0 pr6prio Paulo
Rocha terd capacidade de recuperaqdo?
E pouco provivel: nos palanques, ele
ONTINU NA PAG 6


Journal Pessoal 2QUINZENA JANEIRO DE 2006 5








ANTOLOGIA

AlienagCio de terras
Nao nos parece de boa political o silkncio que o governor do
Estado vem mantendo, nos 6ltimos dias, em torno do problema
da alienacao de terras de propriedade estadual, situadas no
municipio do Capim, as margens da rodovia Belim-Brasilia.
Com o pseudbnimo C. M., Cavaleiro de Macedo escreveu
esta nota em sua coluna "Ronda Politica", na Folha do Norte
de 10 de julho de 1959. A observacao tem valor
premonit6rio: registrava o fato e antecipava as funestas
conseqOuncias da irresponsivel alienacao a particulares de
terras devolutas no Para. Esse balc/o fundiario seria uma
das causes dos conflitos de terra que se seguiriam. Cavaleiro
era um observador atento e divertido da cena paraense. Corn


bom humor, era tambem um grande contador de causess".
"Foca" na profissio, ainda usufrui essa sua non-chalance.
Ela o levava a pegar peas, como a que aplicou no deputado
Americo Silva. 0 parlamentar do PTB lia um discurso redigido
por Cavaleiro quando empacou num trecho. Tentava
avangar, mas escorregava naquela grafia estranha. Njo se
conteve: baixou o papel, levantou a vista e, sem qualquer
pejo, gritou para o jornalista, que estava no fundo do salao,
comecando a rir: "P6, Cavaleiro, que porcaria 6 essa?". A
porcaria estava em latim.
As coisas eram assim, na era JK, de plenas liberdades
publicas, antes do castrador golpe military de 1964.


N do que a concessdo pura e simples
seja contra-indicada, mesmo quan-
do se sabe que os seus adquirentes sio
capitalistas do sul do pais, em sua gran-
de maioria, que pretendem, nada mais,
conquistar seus titulos de propriedade e,
mais tarde, quando a rodovia for uma
realidade indiscutivel, revende-las a born
prego a quem se propuser instalar pos-
tos de trdfego, restaurants, etc. Nio que
a alienaqdo ndo seja urn meio de provo-
car, de certo modo, o aproveitamento de
enormes areas inaproveitadas.
A alienaqdo, por6m, esti se proces-
sando atrav6s de um sistema errado e,
al6m de errado, inconfessivel e sus-
peito. As petiqoes propostas ou o que
quer que esteja dando inicio aos pro-


cessos de alienaqgo, estdo sendo leva-
das A tramitaqdo sem a publicidade que
seria honest Ihes dar. Os editais sao di-
vulgados pelo 6rgao official, 6 certo, mas
esse 6rgao, esti provado, tem circulagdo
reduzidissima, quase limitada ao ambito
das repartiqoes p6blicas.
Tem-se a impressao, em iltima andli-
se, que o pr6prio Governador esta alheio
a essa venda de terras, que muito tern
dado o que falar. Primeiro porque nao nos
consta que tenha havido a elaboraqgo de
um piano de loteamento dessas vastas
areas, providencia que sempre antecede
a concessies dessas natureza. Depois,
porque o Legislativo, que tem, pela Cons-
tituiqgo do Estado, art. 23, alinea a, atri-
buiqoes para resolverr acerca da aliena-


qao de bens im6veis do Estado", nio
foi convidado a se pronunciar, quer para
autorizar o loteamento e a alienagio em
geral, quer para aprovar as vendas, em
cada caso, em particular.
0 patrim6nio do Estado nao pode
estar sujeito as liberalidades constan-
tes de homes pdblicos que nio conhe-
cem ou exageram as suas responsabi-
lidades. 0 sr. Secretirio de Obras, per-
sistindo em dar andamento tio irregu-
lar a tais processes de alienaqao de ter-
ras, acabard por incorrer em crime de
responsabilidade, vindo a responder,
merecendo sanq5es exemplares, pelo
erro de acreditar que a coisa piblica
pode estar exposta a neg6cios prejudi-
cais e danosos.


CONTINUACAO DA PAG. S


atraira para si e para o PT o discurso
anticorrupqdo, de enorme carga de le-
talidade para um partido que se apre-
sentava como a personificadao da 6tica
e da moralidade. Qualquer outro candi-
dato possivel tern menor densidade elei-
toral, o que exigird muito mais da ma-
quina publica federal.
Ja no primeiro turno ou apenas no se-
gundo turno, o PT terd que apoiar outro
candidate se o nome apoiado pela sigla fi-
car no primeiro obsticulo. Talvez seja so-
bre esse refor9o que Jader Barbalho pre-
tenda alavancar o candidate do PMDB.
Se nao for ele pr6prio, quern sera?
A rejeiqco ao ex-ministro 6 forte o bas-
tante para comprometer suas possibilida-
des diante de opositor atualmente corn
menor restriqgo pr6via. Para o Senado o
peso dessa rejeicgo 6 relativamente me-
nor porque Jader conta com um quarto a
um terqo do eleitorado, o que explica sua
posicio de lideranca nas sondagens de
opiniao. Ainda assim, seja disputar o Se-
nado ou o Governo, as perspectives para
Jader Barbalho sao dificeis. Mas ele tern


outra escolha, se pretend ir al6m dos in-
teresses estritamente pessoais?
0 quadro da dispute eleitoral no Pard
mostra que duas estruturas de poder ji
estabelecidas buscam novas fontes de
sobrevivencia. Suas possibilidades de
permanencia se baseiam na falta de al-
ternativas verdadeiras. Nao ha uma li-
deranqa nova para bloquear o transito
desses dois grupos, que um dia repre-
sentaram as esperangas de renovaqgo,
de modernizaqgo e de reform do Esta-
do. As promessas foram frustradas ou
cumpridas apenas parcialmente e, as
vezes, a um custo exageradamente alto,
ou mesmo imoral.
Um observador atento da cena para-
ense constatard o deficit como o resulta-
do do balanco dos grupos de poder que
se sucederam no control politico do
Pard. Nao deverd haver novidade na dis-
puta eleitoral deste ano porque, a despei-
to de uma ansia de mudanqa, ainda nao
se apresentou uma lideranca que drene
essas expectativas. Ha lugar para zebra
na pista. S6 nao ha zebra. E pouco pro-


vdvel que Edmilson Rodrigues, o anunci-
ado candidate do PSOL, desempenhe, na
dispute pelo governor do Estado, o papel
que Ihe caiu na cabega quando foi candi-
dato a prefeito de Bel6m e venceu.
Mas havera muita ferocidade no com-
bate. Ha poderosos interesses economi-
cos por tris dos candidates potenciais.
0 grupo Liberal, favorecido pelo gover-
no tucano como nunca antes, precisa do
calor da verba official para manter em
combustao seu forno de investimentos.
Esti erguendo um peso que dificilmente
suportard apenas corn as pr6prias per-
nas. Ja o grupo de comunicacqo de Ja-
der Barbalho, sem conseguir a plena pro-
fissionalizaqco, que Ihe asseguraria a au-
tonomia empresarial, nao pode continuar
exilado desse mesmo poder.
Ja nao ha espaco suficiente para os
inimigos dividirem entire si. Na eleiqco de
2006, entire choro e ranger de dentes, al-
gum deles (ou mesmo alguns) serao ape-
ados de vez. Para infelicidade do Pard,
entretanto, 6 pouco provavel que haja algo
de verdadeiramente novo no front.


6 JANEIRO DE 2006 *2 QUINZENA Jornal Pessoal


ICallltmar*IIII~T-~ e II II I I IILel*r~r


I I ~. IL_l_' -F--~I C~II--








0 nepotismo, final,



val acabar na justiqa?


O nepotismo alcanqou 10% do quadro
funcional dojudicidrio paraense, que gravi-
ta em tomo de tres mil servidores. Algu6m
mais condescendente poderia dizer que nao
6 uma propordio escandalosa. E, sim. Mas
poderia at6 nio constituir um pecado mor-
tal para aqueles que consideram o nepotis-
mo um mal de raiz ou necessario. No en-
tanto, parents de magistrados ou servido-
res dojudicidrio ocupam os melhores car-
gos da estrutura funcional. Pelo crit6rio da
remuneraiBo, o diagn6stico nao pode ser
outro: 6 um escandalo.
Quem pensava que essa miculajamais
seria removida comeqou a experimentar
um gosto de surpresa hd duas semanas,
quando foram publicadas as listas corn
mais de 300 nomes de servidores dojudi-
cidrio que talvez naio possam mais conti-
nuar nas suas funq5es. 0 Tribunal de Jus-
tiga do Pard nao foi o primeiro a adotar a
provid&ncia, determinada pelo Conselho
Nacional de Justiga em novembro do ano
passado. Mas foi o primeiro a tornar pu-
blica a lista dos nomes de pessoas que
serio demitidas se nao provarem que nao
sio alcanqadas pelo manto do nepotismo.
0 process, agora, 6 inevitavelmente
pdblico. No ponto de largada podem ter
sido cometidas imprecisoes, erros e at6
injustiqas. Mas como esti garantida a
ampla defesa no process administrative
que foi instaurado, todas as pessoas que
tiveram seu nome citado poderdo rever-
ter o onus e garantir seus direitos.
Muitos dos ameaqados, por6m, nao s6
nio colaboraram para a boa instruqio dos
procedimentos administrativos do tribunal,
deixando de enviar-lhes as informacoes
solicitadas. Preferiram recorrer de imedia-
to ao pr6prio judicidrio. Para surpresa da
opiniio piblica, medidas liminares foram
concedidas pelo mesmo poder para sustar
a execuqido da determinaqio do president
do TJE, desembargador Milton Nobre, at6
a apreciagio do m6rito da questdo.
Esse segundo moment, por6m, pode-
ri defender da decisdo do Supremo Tri-
bunal Federal sobre a constitucionalidade
da resolucio do CNJ, o 6rglo de control
externo dojudicidrio (e por isso mal acei-
to, quando aceito, por parte considerdvel
da corporaqio, desejosa de voltar ao sta-
tus quo ante, como gostam de ressaltar
no patois juridico). A argiiqido de incons-
titucionalidade foi suscitada pelos que con-
sideram necessiria uma lei para albergar
as providencias anti-nepotistas e nao ape-
nas uma media administrative.


As 14 liminares concedidas pela de-
sembargadora Luzia Nadja do Nascimen-
to foram fundamentadas e por isso se
sustentam tecnicamente. 0 que a deli-
beraqio da magistrada suscita 6 um ques-
tionamento de ordem mais political do que
juridica: por que, ao inv6s de antecipar a
proteqio aos demandantes, ela nio pe-
diu informaqces ao president do tribu-
nal, que 6 a autoridade coatora? Natu-
ralmente, a relatora dos pedidos, que fo-
ram a ela encaminhados pelo principio da
conexio da causa, esti convencida de
que a ameaga de lesio iminente existe e
os ameacados devem contar com a pro-
tecio da justiqa. Decidiu, portanto, de
forma coerente com suas conviccoes.
Mas para a opiniao p6blica, agrada-
velmente surpresa com a presteza e pro-
fundidade das provid6ncias adotadas pelo
desembargador Milton Nobre para dar
cumprimento h resoluqio do CNJ, foi
transmitida a impressio de que o poder,
tirando com uma mao, rep6e a situacqo
de nepotismo com a outra. Essa sensa-
iBo pode, tecnicamente falando, ser fal-
sa. Mas a opiniao piblica nem sempre
esti muito bem fundamentada do ponto
de vista t6cnico quando se express. E
se firmou sua posiqio, por sua condicgo
de maioria, pode mudar as regras dojogo.
Nao hi d6vida que a sociedade brasi-
leira deseja que os crit6rios de recruta-
mento e seleqdo de pessoal na adminis-
traqdo p6blica sejam mais corretos e, em
conseqtiuncia, o governor funcione melhor.
0 nepotismo 6 uma das causes de servico
ruim ou injusto. Sob esse prisma, a reser-
va de 10% dos cargos dojudiciario, justa-
mente os mais cobiqados, por parents de
magistrados e funciondrios, 6 uma das
chagas abertas num organismo infectado.
Juizes e desembargadores indicam
parents como assessores, independen-
temente de suas qualificaqies. Mas em
geral ficam na carreira menos tempo do
que seus apadrinhados, deixando-os mui-
tas vezes como heranqa maldita para o
servico quando se aposentam. Os corre-
dores forenses sdo caminho natural para
esses fantasmas, pouco ou nada efica-
zes, mas muito bem remunerados.
Se o judicidrio conseguir quebrar o
espirito de corpo interno e levar em fren-
te a iniciativa adotada, nao s6 se purgard
dessa chaga como provocard os demais
poderes a dar uma resposta semelhante
a um mal que, no executive e no legisla-
tivo, tamb6m 6 praga.


Deslocamento


no continent

Primeira mulher eleita president do
Chile, Michelle Bachelet nao 6 casada
legalmente. Teve filhos na reladao con-
jugal com tres homes diferentes. Atu-
almente nao tem reladao estavel com
nenhum. Bonita, ningu6m duvida que
nao tem porque nao quer. Submetida a
tortura, teve que deixar seu pafs depois
do golpe military que dep6s Salvador Al-
lende, em 1973. Exilada, formou-se m6-
dica pediatra na Alemanha Oriental, a
RDA comunista. Voltou corn a demo-
cratizaqio chilena para ocupar o Mi-
nist6rio da Sa6de. Logo depois assu-
miu a Defesa, cargo que nao Ihe era
estranho, mas com o qual tivera rela-
qco traumdtica no passado: seu pai, o
brigadeiro Ricardo Bachelet, foi morto
em 1974 pela ditadura.
Trinta anos depois, o Chile volta a ser
um foco de interesse para os que que-
rem ver mudanqa para valer na Am6rica
do Sul. Foco que talvez se mostre muito
mais brilhante do que o do Brasil d'apres
Lula e da Bolivia avant Evo Morales.
Esses novos personagens na hist6ria con-
tinental conquistaram seu lugar nao exa-
tamente por serem de esquerda, embora
esse fator tamb6m tenha sua influencia,
mas exatamente por serem novidade, a
contrafaqao a uma elite que falhou, por
complete ou parcialmente.
Provavelmente foi no Chile que re-
presentantes dessa velha elite mais acer-
taram. 0 pais realmente enriqueceu desde
a deposiqao deAllende, aproveitando corn
mais eficiencia sua integraciao ao mer-
cado international, alcunhada de globali-
zaqao. Mas s6 a elite ganhou. Michelle
deve tentar provar que 6 possivel dividir
o boloja formado com muito mais gente
sem fazer soar o sinal vermelho que alar-
mou a burguesia a partir da vit6ria da
Unido Popular.
A UP tentou fazer pacificamente a
transiiqo para o socialismo. Provaria que
a democracia pode substituir a ditadura
do proletariado nessa passage. Nao
conseguiu. Agora, uma herdeira de Al-
lende, m6dica como ele, tentara um ou-
tro caminho, sem ferir as regras de um
mercado competitive, como o chileno. 0
pais serd testado para se saber se 6 sufi-
cientemente rico para todos, nao apenas
para alguns. Bachelet parece muito mais
preparada para essa reform profunda
do que Lula, Morales ou Chaves. Dai o
fascinio que o Chile voltou a ter. 0 pen-
dulo da transform do esti se deslocan-
do no continent. E precise voltar a olhar
na direqdo do Oceano Pacifico.


Jornal Pessoal 2"QUINZENA JANEIRO DE 2006 7








A vil agressaio, um ano depois


Quem fosse fazer um balanco objeti-
vo do que aconteceu desde que, um ano
atras, Ronaldo Maiorana me agrediu,
chegaria a um resultado de causar per-
plexidade: o agressor esti livre e desim-
pedido, enquanto o agredido sustenta uma
batalhajudicial com 12 processes instau-
rados contra si pelo agressor e seu ir-
mro, Romulo Maiorana Jdnior. Como esse
absurdo se tornou possivel? Ajustiqa con-
tinua a caber no retrato que dela fez Franz
Kafka em "0 Processo"?
Talvez seja necessario reavivar a
mem6ria dos cidadaos para o que acon-
teceu no dia 21 de janeiro de 2005. 0
advogado e empresirio Ronaldo Maio-
rana, com 19 anos a menos do que eu,
me agrediu por tris, sem me dar a me-
nor condigio de defesa. Estava acom-
panhado por um subtenente e um sargen-
to da Policia Militar, seus segurancas
particulares. Depois de agredir com a
cobertura dos dois capangas, me amea-
cou de morte, aos gritos, diante de 150
pessoas aproximadamente, num restau-
rante sofisticado, que funciona nas de-
pend6ncias de um parque piblico, onde
a Secretaria de Cultura do Estado tern
sua sede. Fez, aconteceu e saiu inc6lu-
me, sem a menor perturbaqdo.
Na verdade, fizera o que planejara,
para antes e depois da agressdo. Nao se
importou com o escandalo que provocou,
horrorizando pessoas de bem, cidadaos
pacatos e civilizados, que procuram aque-
le local para se confraternizar. A opinion
p6blica, razio de ser da principal empre-
sa da qual o agressor 6 um dos donos, o
grupo Liberal (s6 no nome), nao importa.
Uma vez que os veiculos do imp6rio de
comunicaqio omitiriam o fato, ele nio
existiria. E, existindo, seria carregado pelo
vento da desmemoria coletiva. Ou das
conveniencias cumplices por parte daque-
les que podiam ter se oposto a infimia, a
fim de que ela nio ficasse impune.
Mas logo uma tese juridica deprava-
da foi inoculada na mente dos desavisa-
dos: Ronaldo Maiorana me agredira para
vinegar a honra de sua familiar, ultrajada
por uma campanha sistem6tica e agres-
siva deste terrivel Jornal Pessoal. Nes-
sa par6dia de mau gosto, que teve seu
mais tonitruante eco nas depend&ncias
outrora mais nobres da OAB, inverte-
ram-se os pap6is: este nanico virou Goli-
as e o mamute se travestiu em David.
Os Maiorana jd nao suportavam os
efeitos devastadores da campanha deste
journal, que atingem todo o Estado, o pais
e o exterior (naturalmente, em funqdo de
sua parceria com a Rede Globo de Tele-
visio). No desespero, o mais jovem dos


Maiorana cometeu o ato fatal, em rela-
qao ao qual, conforme sentencia o presi-
dente paroquial da Ordem, ningu6m tern
nada a ver. Afinal, trata-se de rixa fami-
liar, a ser resolvida no braqo e na faca.
Quem di mais tratos a intelig6ncia que
se arranje. Ou se lixe, literalmente, entire
mesa, cadeiras, talheres e o chdo sobre
o qual foi atirado.
A hist6ria seria comica nao fosse,
antes de tudo, trigica. 0 pior da sua dra-
maticidade esti em que, pela omissdo e
conivencia dos que se deviam investor na
funqdo de defensores da verdade e da
decencia, pode, como as mil mentiras de
Goebbels, o chefe da propaganda nazis-
ta, se transmutar naquele tipo de verda-
de difusa que, mesmo sendo inverossf-
mil, torna-se crivel. 0 que era circuns-
crito aos estritos limits da "rixa famili-
ar" virou patologia social.
Ji vimos a reconstituicgo literdria do
fenomeno. Vou dar um s6 exemplo, tal-
vez o mais doce que posso dar: o roman-
ce Jen-Christophe, do pacifista Romain
Rolland. Corn sua narrative limpida e pre-
cisa, o autor vai juntando as peas de um
quebra-cabeqa irracional, que acaba por
se afirmar. Ele 6 a bestialidade e a bruta-
lidade, mas esse crescendo de animali-
dade foi tao progressive que parece ser
natural. Os homes de bem e, sobretu-
do, o home comum s6 se apercebemr
do mal quando ele ji se estabeleceu. E o
que, metaforicamente, explica o nazismo
para os alemaes, um povo de genios
(Bach, Mozart, Beethoven) que se cur-
vou a irracionalidade.
Qualquer pessoa que reconstituir as
origens e os passes constitutivos do an-
tagonismo entire este journal e o grupo Li-
beral, a partir da minha said da empre-
sa, da fundaqco do Jornal Pessoal e da
sucessio de 17 processes contra mim
propostos perante a justiqa por tres dos
oito integrantes da familiar, nio terd difi-
culdade alguma para desfazer a versdo
tendenciosa apresentada pela dupla "Ro-
minho" e Ronaldo.
Nossas divergencias nao sao de hoje
nem surgiram depois que deixei o grupo
Liberal. Ja tinha muitas delas quando o
fundador do imp6rio ainda estava vivo.
Em duas ocasioes o rompimento foi ine-
vitivel. Na primeira, Romulo Maiorana
me levou de volta para sua empresa. Na
segunda, nao pode repetir o gesto por-
que morreu antes. Quem testemunhou
sobre sua intengio foi a pr6pria esposa.
Mesmo que nossos caminhos nao voltas-
sem a se cruzar, Romulojamais me pro-
cessaria, como fizeram seus filhos. A
confirmaqio 6, novamente, da mulher e


legatiria. Logo, nesse aspect, seus su-
cessores nio foram fi6is B heranqa.
Talvez nio tenham podido ser, haveria
de dizer um advogado de acusadio (a
mim). 0 motive? Ressentido, invejoso ou
qualquer outro sentiment ruim que me
atribuam, eu teria me tornado mais agres-
sivo. Em parte, isso 6 verdade. Mas a ra-
dicalizaqdo nao se deve a meus maus bo-
fes: ela acompanhou a media do despre-
zo pela opinido public dos veiculos do
grupo Liberal sob o comando dos suces-
sores, sobretudo do principal executive da
empresa depois do pai, Romulo J6nior.
Romulo pai se cercava de represen-
tantes dos virios segments da socieda-
de, que ouvia antes de tomar uma decision
mais grave ou conseqiiente. Fazia seu
comercio e seujogo de pressdo, mas man-
tinha a marcajornalistica do seu neg6cio.
Por isso o seu journal era mais ecl6tico e
democrdtico. Por isso ele se curvava a
certas conting6ncias, quando elimini-las
implicaria em acabar com a pr6pria razio
de ser da sua empresa, que 6 o jornalis-
mo, traduzido na divulganio dos fatos.
Os filhos acham que sua vontade tem
forqa de lei. Podem revogar a anterior
com uma nova vontade. Nao se vexam
de um dia critical com crueza a Com-
panhia Vale do Rio Doce, arrastando opi-
nioes para uma campanha sistemditica
contra a empresa, e no dia seguinte abrir
tapete vermelho para ela, sem qualquer
rito argumentative de passage. Num
dia ojornal abriga mat6rias de denuncia
contra a direiao do Banco da Amaz6-
nia e no outro dia a instituidio se torna
celestial. A mesma alquimia 6 usada
contra a Rede/Celpa: vinagre num dia,
vinho no outro.
A pedra de toque da mutaqio 6 o mo-
vimento do caixa registrando publicidade.
Como a empresa nao di guarida h mais
leve suspeidio sobre a honorabilidade des-
sa movimentagio voldvel, quem mata a
cobra e mostra o pau compete ato de lesa-
majestade. Esse tem sido o crime perma-
nente do Jornal Pessoal: revelar o moti-
vo que inspirou a alteraqio do humor dos
donos da comunicaqao no Pari, que, em
hipertrofia de poder, julgam-se tamb6m os
donos do Estado, fiadores de qualquer
decisao que lhes interesse. A colecio des-
te journal esti i disposidio para compro-
var o que aqui se diz.
Por que este journal tem dado comba-
te maior a 0 Liberal do que ao Dicirio
do Pard? Ora, porque 0 Liberal 6 mui-
to mais poderoso. Numa 6poca em que o
dono do Didrio era mais poderoso do que
o seu pr6priojornal, eu combat o gover-
CONTINUA NA PAG 9

JANEIRO DE 2006 *2 QUINZENA Journal Pessoal









As terras da Jari: quem as definird?


Em 1967, quando assumiu o control
da Jari Com6rcio, Ind6stria e Navega-
95o, uma firma que explorava produtos
extrativos, o miliondrio americano Dani-
el Keith Ludwig imaginou que incorpo-
rara ao seu patrim6nio uma area de 3,6
milhoes de hectares na foz do rio Ama-
zonas. Logo seus assessores juridicos Ihe
fizeram ver que nao era bem assim. Da
montanha de pap6is formada pelos seus
antecessores no vale do Jari, sobretudo
o coronel Jos6 J61io de Andrade, se con-
clufa que a area era bem menor e nao
constitufa um todo continue, compact.
O reino do Jari era como um territ6rio
esburacado. Os buracos eram terras sem
dominio privado, por isso devolutas.
Para resolver seus problems, Ludwig
decidiu delimitar sua suposta proprieda-
de por limits naturais. 0 que estivesse
dentro de limits estabelecidos por aci-
dentes geogrificos era seu. Convencio-
nou-se que a propriedade somava 1,6
milhio de hectares, o equivalent a mais
da metade do Estado de Alagoas. Mas
essa convencgo nio foi aceita quando,
em 1976, Ludwig tentou legitimar 32 das
suas glebas.
0 Iterpa (Instituto de Terras do Pard)
verificou que ele nio podia ter nem 10%
do que pensava. A maioria dos seus titu-
los era de posse, um document expedi-
do na passage do s6culo XIX para o
XX como uma especie de autorizaqgo de
ocupadio de terras devolutas corn direi-
to future a se tornarem particulares, des-
de que medidas e demarcadas o que
raramente foi feito.
A legitimaqio empacou e desde en-
tdo o esforco dos donos do "projeto Jari"
tem sido o de garantir como se fora pro-
priedade o que, efetivamente, proprieda-
de nao 6. Essas terras, descritas como
se somassem 1,6 milhao de hectares, fo-


ram dadas em dupla hipoteca para asse-
gurar os empr6stimos que permitiram a
Ludwig e seus sucessores implantar uma
fibrica de celulose, uma termel6trica, um
plantio artificial de mais de 100 mil hec-
tares e toda infraestrutura na area.
Boa parte desses financiamentos foi
concedida a Ludwig. Mas quando ele saiu
do projeto, em 1982, a divida passou para
o Banco do Brasil e o BNDES, que se
creditaram junto A empresa recebendo dela
ages preferenciais (sem direito a voto).
Mas se as terras nao sao de propriedade
particular, o d6bito teria que ser executa-
do pelos bancos estatais. E o controverti-
do "projeto Jari", ji cantado em prosa e
verso, provavelmente desmoronaria.
Se isso acontecer, o impact sera
muito grande na regido, onde a empresa
diz manter quatro mil empregos na ativi-
dade industrial, de reflorestamento e de
services. Ha dois anos ela tentou garan-
tir seu empreendimento promovendo uma
inusitada unificaqAo de todos os seus tf-
tulos no cart6rio de Monte Alegre. 0 ta-
manho sofreu nova baixa, desta vez para
950 mil hectares. Mas a official de regis-
tro, ji afastada do cargo, nio tinha com-
petencia para executar o ato, que era ile-
gal e foi cancelado pela corregedoria de
justica do Pard.
Seguiu-se entdo novo litigio, tanto ad-
ministrativo quanto judicial, em tomo da
titularidade das terras. A questdo judicial
ainda esti pendente de definiqgo, mas
administrativamente o Tribunal de Justica
do Estado decidiu que na matricula das
terras da Jari sern averbado um bloqueio,
determinado pela corregedoria, i livre dis-
posigio do document. Quem consultar
os assentamentos ficard sabendo que a
dominialidade das terras esta sendo ques-
tionada emjuizo e s6 depois que uma sen-
tenca final transitar em julgado 6 que se


poderi estabelecer legalmente quem 6 o
verdadeiro dono dessas glebas.
0 long parecer do Iterpa, que esta
completando exatamente 30 anos, nao
deixa d6vida: a grande maioria das ter-
ras pertence ao Estado. Mas o Estado,
no final de dezembro, assinou um termo
condicional de anuencia" com a Orsa Flo-
restal e a Jari Celulose, os dois bracos
empresariais do grupo paulista que suce-
deu Ludwig e a Caemi no empreendimen-
to. Sob o compromisso de manter a inte-
gridade da area, respeitar as ocupaqoes
antigas e se sujeitar ao pronunciamento
dajustica sobre o contencioso com o pr6-
prio Estado, a Jari foi autorizada a im-
plantar na area (que pode pertencer ao
Estado) o seu projeto de manejo flores-
tal, aprovado pelo Ibama (Instituto Bra-
sileiro do Meio Ambiente e dos Recur-
sos Naturais Renovaveis). S6 pagard pelo
uso do patrim6nio se ele for reconhecido
como estadual.
Quando isso acontecerd, ningu6m
sabe. Mas o president do TJE, desem-
bargador Milton Nobre, ao dar o voto de
Minerva no estranho empate que se es-
tabeleceu no tribunal em torno do recur-
so administrative (dois votos em favor da
pretensdo da empresa, dois inteiramente
contra ela e dois meio-a-meio, contra o
cancelamento puro e simples dos re-
gistros e a favor do bloqueio da matricu-
la), alertou que a decisdo era de carter
precario, requerendo as providencias ca-
biveis e urgentes de quem de direito.
Mas quem exatamente? Enquanto
esse demiurgo nao se apresenta, as so-
luqoes precarias ou temporarias vao se
sucedendo e o grande impdrio que D.
K. Ludwig concebeu para o vale do Jari
prossegue, como o Jos6 meio torto do
poema famoso de Carlos Drummond
de Andrade. At6 quando.


CONTINUAAO DA PAG B
nador Jader Barbalho. E pelas piginas
de 0 Liberal, at6 um ponto em que o
dono, Romulo Maiorana, em 1986, nao
suportou as presses e me entregou numa
bandeja, como um Jodo Batista despido
de santidade. Ele jogou a toalha. Eu ape-
nas mudei de trincheira.
Desde entdo, o grupo Liberal se tor-
nou um poder comrno nio fora antes e nao
houve nenhum depois, mesmo se se con-
sidera a hist6ria da Folha do Norte. De
vez em quando relendo a folha de Paulo
Maranhao, me surpreendo com a publi-
cacgo em suas piginas de artigos que
atacam o journal, seus aliados ou seus in-
teresses. Como isso foi possivel? Sim-


ples: o articulista pagou pela inserqdo.
Uma vez faturada a mat6ria publicitiria,
Maranhdo despejava suas setas de fogo
verbal e comeqava (ou recomeqava) o
fogar6u da pol&mica.
Os veiculos da segunda geraqdo Mai-
orana se tornaram um cemit6rio de pole-
micas, um reduto hostile a qualquer coisa
que sugira restriqgo is verdades da casa,
reais ou artificiais, constatadas no mundo
ou geradas nos laborat6rios internos. Es-
ses Maiorana sdo autores de interditos
proibit6rios de aplicacqo que pretendem
ampla, geral e irrestrita. A desobediencia
ao canone da casa 6 punida no circulo do
inferno de Dante (naturalmente, em ver-


sao simplificada), destinado ao silencio, ao
frio, ao congelamento. Os rdprobos sao
mortos em vida. Como o poderoso imp6-
rio pode tudo, os de espinha dorsal menos
rija se curvam i sua vontade. Daf a falta
de graminhas no Grdo-Pard
Como nao 6 este o caso do Jornal
Pessoal, um ano depois da vil agressio
vejo-me no papel do terrivel e injusto
ofensor, a ser punido por nao ter cum-
prido a ordem real do agressor: de ca-
lar-me. Adaptando Descartes a estes
tr6picos hostis, teimo em acreditar numa
nova divisa: falo, logo existo. Continua-
rei a existir. Ou, pelo menos, continua-
rei tentando existir.


Jornal Pessoal 2-QUINZENA JANEIRO DE 2006 9









MEMORIAL DO COTIDIANO


Political
Um abaixo assinado publica-
do na Folha Vespertina em
21 de fevereiro de 1956 ates-
tava o fim da Coligaqdo De-
mocritica Paraense, uma
frente political que se formou
para derrotar Barata na elei-
qao de 1950 e que nio sobre-
viveu i derrota na eleigio de
cinco anos depois, vencida
pelo mesmo Barata contra seu
rival vitorioso, tamb6m um
military. Formado em apenas
um dia, o abaixo-assinado era
o seguinte (negritei os nomes
mais conhecidos):
N6s, que nao perdemos a
vergonha nem a mem6ria, pro-
testamos de piblico contra a
visit feita ao Palacio Amare-
lo [conmo era conhecido o
paldcio Lauro Sodre, entdo
sede do governor do Estado]
pelo soba Magalhaes Barata,
na manhd de hoje, justamente
no dia 20 de fevereiro, data em
que, hi cinco anos, subia glo-
riosamente aquelas escadas,
carregado triunfalmente pelo
povo paraense, o inclito gene-
ral de Ex6rcito Alexandre Za-
carias de Assumpqgo.
Belem, 20-2-956.
(aa) Lopo Alvarez de
Castro; Jocelyn Brasil; Na-
poledo Martins; Jos6 C. Tra-
vassos; Geraldo Palmeira;
Adriano Goncalves; Bene-
dito Monteiro; Joao Cardo-
so; Joao Milton Dantas; Ca-
semiro Lima; Floripes Lima;
Francisca Lima; Olavo Ro-
cha; Maria Rosa Lima; Joa-
quim Lopes Farias; Damiao
Ferreira; Frutuoso Mendes;
Jos6 Miranda Oliveira; Joao
Menezes Silva; Benedito Ma-
galhiies; Elias Pinho GonCal-
ves; Josefina Pinto; Manoela
Aires; Maria das Graqas Sou-
sa; Raimunda Couto Rodri-
gues; Antonio M. de Oliveira;
Mercedes Pereira Nunes;
Jos6 do Carmo Dias; Benedi-
ta Mato; Antonio Correa; De-
ocl6cio Godinho; En6as Dias
Carvalho; Lourival G. Silva;
Ernesto Frade Palmeira;
Oswaldo Falcao; Jos6 de
Melo Viana; Xisto Santana;
Josd Maria Jinior; Am6rico


Tavares; Manoel Pereira; H6-
lio Moreira; Calixto Malaqui-
as Mendes; Benedito Tava-
res; Jaime Farache; Eulice
Dantas; Francisco Rodrigues
do Carmo; Jacinto Rodri-
gues; Antonio Gonqalves;
Gerson Peres; Victor Paes
[Paz]; Hamilton Moreira;
Aminthor Cavalcante;
Adriano Menezes; FlAvio
Bentes; Waldomiro Bentes;
Alice Antunes; Maria Anto-
nia Ara6jo; Jos6 Cruz; Jos6
Alves Cabral; Maria D. Lo-
bMo; Manoel de Almeida Co-
elho; Milton Lisboa; Acioly
Ramos; Cl6vis Ferro Cos-
ta; Fernando Magalhies;
Avelino Mota; Jos6 Rodrigues;
Efraim Bentes; Alarico Ba-
rata; ClAudio Chaves; Lau-
ro Dias; George Salgado; Sin-
val Cardoso; Alberto Borda-
lo; Joao da Silva Braga; Fran-
cisco Soares; Enem6sio Mar-
tins; Rui Gama e milhares de
outras assinaturas.

Banco
Em 1957 o Bank of London
South America Limited dava
tanta importancia a Belem
que sua sede-geral, na capi-
tal londrina, serviu de modelo
para a ag&ncia na capital pa-
raense, cujas obras foram ini-


ciadas em outubro. 0 moder-
no pr6dio teria cinco andares,
todos servidos com ar condi-
cionado, um tamanho excep-
cional para a 6poca e uma co-
modidade ainda pouco usual.
Hoje, o pr6dio 6 ocupado pelo
Unibanco, no que ji foi o
grande centro financeiro da
Amazonia, a rua XV de No-
vembro. A Wall Street ao tu-
cupi ja era.

Academia
Havia apenas dois fundadores
vivos quando a Academia Pa-
raense de Letras comemorou
seus 63 anos de fundaqio, em
sete de maio de 1963. Mas
enquanto o jornalista Paulo
Maranhio (que morreria tres
anos depois) mandou repre-
sentante para a solenidade (o
tamb6m jornalista Teodoro
Brazao e Silva), 0 patriarca
Augusto Meira responded
present. E ainda leu um dis-
curso para lembrar a primei-
ra etapa da vida da APL e
pedir atenqgo especial de
seus dirigentes para a biblio-
teca da instituiqco, que nio
parecia estar bem cuidada
(ao contririo de hoje).
Na ocasiao foram distribu-
idos os premios conferidos
pela Academia no ano anteri-


Livros
Fato inusitado: em 1947 a Livraria
Economica, mais conhecida por o "sebo" de Eduardo Failache. i
"Dudu", na travessa Campos Sale,
142, publicava an6ncio de venda
de livros raros. Oferecia todo- os '
livros de viagens de Henry
Coudreau; As regioes amaz6,nics.
do Bardo de Maraj6; 0 muvrikuiian
e os idolos simbdlicos, de Barho' .
Rodrigues; As aves amaz6nicat,.
de Emflio Goeldi; Diciondrio la
lingua portuguesa e tupi,
de Lacerda, e Carta do
Baixo Amazonas, de
Paul Le Cointe.
"Dudu" ja se aposentou
e seu "sebo" deixou de
existir. 0 belo conjunto da
capela Pombo tamb6m est
chegando ao fim.


or. Meniao honrosa em poe-
sia para De Campos Ribeiro,
primeiro premio em poesia
para o tenente do Ex6rcito
(que seguiria na carreira at6
coronel) Luis Paulo Galrao e
em conto para o jornalista e
historiador Carlos Rocque.
Academicos presents a
sessio: Georgenor Franco,
Bruno de Menezes, Eldonor
Lima, De Campos Ribeiro,
Rodrigues Pinag6, Candido
Marinho da Rocha, Santana
Marques, Augusto Meira, Raul
Braga, Murilo Menezes, Joao
Rodrigues Viana, Jarbas Pas-
sarinho e Ernesto Cruz.
Detalhe: todos escreviam.

Tradigao
Emjunhode 1964, HlioGuei-
ros, entao redator-chefe de 0
Liberal, que ainda era o jor-
nal official do PSD (Partido
Social Democritico), foi pre-
so pelo novo regime, que dois
meses antes depusera o pre-
sidente Joio Goulart.
0 sindicato dosjornalistas
fez publicar na imprensa uma
nota official para "expressar
sua estranheza ao fato de ha-
ver sido preso pelas forqas mi-
litares, sem culpa formada,
seu companheiro H6lio Guei-
ros, jornalista que da sua pro-
fissio e pena nada hi prati-
cado nesta terra senao o bem
coletivo, amante da conc6rdia
e excelente amigo de toda a
imprensa regional".
Mas tratava de alertar a
nota que "nenhuma eiva de
critical ou menosprezo a quem
quer que seja, senao a ES-
TRANHEZA, repetimos, ao
que nos parece gesto de vio-
lencia a quem menos indica-
do a recebe-la".
Parece ate hoje.

Outros
Nessa 6poca, tamb6m jd esta-
vam press: Benedicto Mon-
teiro, Clo Bernardo, Raimun-
do Jinkings, Sandoval Barbo-
sa, Adelino Cerdeira, Carlos Sa
Pereira, Jocelyn Brasil, Ronal-
do Barata, Humberto Lopes e
Ant6nio Hozana. Todos acu-
sados de subversao.


10 JANEIRO DE 2006 2 QUINZENA Joinal Pessoul


Irl .-I













































PROPAGANDA

0 Miss Para
O concurso Miss Para de hoje jd ndo tern o glamour das decadas de 50 e 60 do seculo
passado. Quando integrava a promoqdo dos Didrios e Emissoras Associados (coin uIn
imperio de comnunicacdo que entdo equivalia ao da Rede Globo), o "certamne" tinha granl-
deza national e international. Mesmo nos anos 70 ainda era urn acontecimnento, como em
1972, embora de brilho muito menor. A "participaqdo especial" nesse ano foi do popular
cantor Valdick Soriano. 0 desfile acontecia no gincisio do Sesc/Senac (na Manoel Bara-
ta com a Doca). Mas e hoje?


Tempo da

inocencia
Inocente anincio de
1952, quando as
multinacionais ainda
ndo erami
multinacionais.


CARTA


Literalmente antol6gica e devassadora a mat6ria da seqco
"Antologia", do Jornal Pessoal no 360, primeira quinzena de
janeiro. A revelaqdo contida no 30 pardgrafo, da epistola do
Coronel Passarinho dirigida ao entio "Torquemada de plan-
tao", Gama e Silva ambos de triste mem6ria 6 de estarre-
cer. Note-se que todas as pessoas que foram supostamente
punidas, na forma ali mencionada (a elite da 6poca, natural-
mente), conviveram com ele antes e depois da "inquisiqco", e
convivem atW hoje como se diz jocosamente numa boa!
Foi isso, mais ou menos, o que eu quis expressar no
trecho final da minha correspondencia publicada no iltimo


ntimero (360) do Jornal Pessoal, pdgina 11, a qual, infeliz-
mente, saiu incomplete. Como o moment 6 oportuno, vale
a pena reproduzi-lo: "A vida em sociedade 6 assim: nada
como um punhado de anos de boas ages e generosidade
para aplacar cinco, dez, quinze, vinte anos de atos e fatos
desabonadores."
Rodolfo Lisboa Cerveira

Por uma falha (da) tecnica, a carta de Rodolfo
Cerveira, publicada na edigdo anterior, ficou semn
umna frase e a sua assinatura.


Journal Pessoal *2"QUINZENA JANEIRO DE 2006 11


-Ar twe sesS den/es


do1 0S ,neuws


"Ah! Eque uso a

Nova Paisa Lever

corn seu ativoA1

ElementoA&R.'


Protege as gengivas fambdem q
com a mais gosfosa espuma do mundo I


VOCE E NOSSO CONVIDADO:
DIA 20
1O Gi6ASIO "JARBAS PASSARINHO" DO SESC-SENA(


CONCUR SOSS





H- PARTICIPACAO ESPECIAL
DO CANTOR
WALDICK SORIANO
Localidades a venda na
portaria de
A PROVINCIA DO PARA
CONCURSO MISS PARA-72
PrompgAo dos DiArios e
Emissoras Associados e do
seu fabricante de











/)fLJ-,1~.


I









Aniversario melanc6lico


Sob este titulo, o advogado Frederico
Guerreiro divulgou em seu blog na
internet, "0 Intimorato", no dia 21, o
comentirio que reproduzo abaixo. Corn
tal iniciativa, quebrou a corrente de
silencio de muita gente que, como no
poema de Carlos Drummond de
Andrade, nao apenas se calou: nunca
tentou sequer falar. Do pior jeito,
Heidegger fez escola no Para, com a
li;ao da acomodagao oportunista a
feroz voz do dono, para que a
tranqOilidade dos grandes pensadores
nao seja perturbada, nem sua
notoriedade sujeita a punig;o do
silencio. Legitimas ou falsas, as
celebridades oportunistas, de que
falava Mirio Andrade, se deram as
maos para nao deixar que na roda
penetre um element inoportuno e
perigoso: a verdade.

Faz um ano que ojornalista L6cio Flivio
Pinto (Jornal Pessoal) foi agredido covarde-
mente por um dos donos das Organizagqes
Romulo Maiorana, empresajornalistica que,
pela expressividade, deveria primary pela liber-
dade de expressAo, 6tica, moral, como forma
de cumprir a funaio social de tender aos
anseios e interesses de um povo que 6 seu
substrato fundamental de venda: o consumi-
dor de journal, o leitor. Em outras palavras:
deveria ter como dever o respeito ao leitor.
Ao divulgar as priticas dos interesses
pessoais do grupo de comunicagio, L6cio
cutucou onqa corn vara curta. Na desvanta-
gem literal, a reaqlo enfeixou no campo da
violencia, da agressio descomedida por par-
te do caqula do cli Maiorana. Na esfera judi-
cial, fogo cerrado da infantaria dos Maiora-
nas. Perderam o control, agiram As avessas
do que se espera de uma empresajornalistica
do porte das ORM. Deram um exemplo de
que intelig6ncia e desempenho economic
nio slo os dois lados de uma mesma moeda.
Deram um exemplo de que um journal pode se
tornar uma fonte de poder econ6mico pari
passu corn a intimidalio. Chantagem. Infeliz-
mente, o Pard 6 ref6m de sua pr6pria condi-
qlo de desinformaqio, situadio em grande
parte advinda do imensurivel poder de imp6-
rio dessa Organizalio.
Alguns pensam que os vencedores sem-
pre serio os mais fortes. Eu nio acho. Minha
dialeticidade me impede de pensar de forma
consensual. Ldicio plantou uma semente de
antidoto aos que se acham os donos da terra.
0 que ele disse, escreveu, nada mais sao do
que fatos de not6rio saber na sociedade pa-
raense. Nos fez refletir que esses fatos pas-
saram da conta, estio prejudicando o Pard na
formaqio de seu pr6priojufzo; que hd mani-
pulaiao prejudicial ao alvedrio da sociedade,
A formaaio de uma opiniio pr6pria. A dife-
renqa: algu6m teve a coragem de dizer.
Sabe-se que, no Para, a sobrevivincia do
grande capital e dos politicos depend da
imagem que passam A opiniio piblica. Um
grupo de midia como as ORM, seu maior di-
fusor. Mat6ria-prima e offcio, respectivamen-
te, de construgio de um arcabouqo moral que


pode levar qualquer empresa sauddvel finan-
ceiramente is raias da insolvencia, qualquer
politico ao fracasso nas urnas. Vida e morte
num passe de migica. A formula Liberal.
E assim que se aproveita uma empresajorna-
listica quando faz de seu journal uma quitan-
da. Eu classificaria pior: enquadraria no meu
c6digo de 6tica esse tipo de conduta como
trifico de desinformagio cominado com ex-
torsao e enriquecimento ilifcito.
Na roda da hist6ria do jornalismo investi-
gativo do Pard, muito se deve ao trabalho do
Ldcio. Foi reconhecido por isso em virias opor-
tunidades, aqui e la fora. Por estas bandas 6
considerado por um seleto pdblico, reduzido,
mas bem informado, em busca de umjomalis-
mo alternative, sem filtro. Seus leitores con-
substanciam-se naqueles que, como eu, se
compadecem dos pedintes e mendicantes nas
ruas; que clamam por justica ao injusto; que
se indignam diante do banditismo e degrada-
gio moral de nosso povo; da turbaaio de nos-
sa floresta, nossas terras, riquezas minerals;
da pilhagem de nosso banco biogen6tico; do
conchavo de nossos politicos com os grupos
econ6micos; do leilio judicial sob a 6gide da
celeridade e de tantas outras manifestaqoes
antr6picas geradoras de desequilibrio s6cio-
econ6mico, sem que faqamos relagio
disso com interesses de qualquer que seja,
sem contaminaqio. Mas n6s somos apenas os
que sabem que o Pard poderia ser muito mais
do que 6 e 6 muito menos do que jd foi. Mas
nunca da forma com que querem, por forca,
nos fazer acreditar que evoluimos. Desafortu-
nadamente, somos apenas uma pequena par-
cela de nossa sociedade, que nao jaz absorta
com os estratagemas da midia alienate, mas
que nao tem armas para lutar contra o dominion
que tende a nos empobrecer na essencia e na
concretude. Por isso, o Ldcio se torna uma
referencia, uma voz no meio de uma multidao
de surdos-mudos.
Ldcio pode at6 pensar que realmente es-
tio ganhando, que o imp6rio cresce e se forta-
lece; que o seu trabalho Ihe trouxe o encargo
enfadonho de se defender dos tiros de canhdes
judiciais disparados pelos Majoranas, por
mesquinharias. Deve estar estafado de tanto
ir ao F6rum. E dessa forma que querem conge-
Id-lo. Querem calar pela forca do dinheiro mo-
vimentando o Judicidrio. Eu prefiro pensar que
a agressio sofrida por ele foi o pontap6 inicial
que o Ronaldo deu no pr6prio traseiro, fazen-
do dar relevincia ao que foi denunciado por
Licio em seu quinzenal, corroborando o que
foi dito. Prefiro pensar que o Ronaldo deveria
ser processado pelos pr6prios familiares por
pritica de ato prejudicial aos neg6cios. Afinal,
quantos agora nio desconfiario do produto
jornalistico do grupo ORM. Sem ddvida, en-
quanto perdurar o eco de "0 rei da quitanda",
moedas deixario de tilintar na caixa registra-
dora do grupo, mesmo que em
dimensdes acanhadas. Quiqg a information
tendenciosa serd menos descomedida, sob ris-
co de ter nio s6 um arranhio na image que
desfruta perante a sociedade local, mas um
rasgo profundo na credibilidade.
E e por isso que um ano depois devemos
refletir sobre esse triste fato que entrou para


a hist6ria dojornalismo paraense, para a his-
t6ria de um estado ref6m de um despotismo
fajuto, que tanto indigna aos que querem o
melhor para uma sociedade local que vem
perdendo muito ao long dos anos. 0 Pard
nio pode continuar ref6m de interesses par-
ticulares. Esse o amago da intolerincia des-
fechada em tapas e chutes, hi um ano.
Para o refrio da cantiga de aniversario de
primeiro aninho: Maioranas, baixem as armas!
Com o tempo seus maiores inimigos podem
ser seus pr6prios impetos por proteqlo a uma
honra subjetiva que nunca tiveram como pen-
sam que seja. E disso que se trata quando se
diz que muitos mais temem do que admiram o
seu grupo. Nio sejam tio covardes. Vio bri-
gar com algu6m do seu tamanho. Larguem de
tolice. Ignorem se nao conseguem se defen-
der no campo das letras, no terreiro da inteli-
gencia. Nio subestimem o povo de sua terra.
Essa 6 a maior agressio que aniversaria hoje
sob o simbolo da pesporrencia de um dos
seus. Amadureqam! Lembrem-se: nenhum
poder 6 ad aeternum, nem o do dinheiro. A
falta de humildade 6 gasoline jogada na fo-
gueira das vaidades. Acabam por queimar o
Narciso que mora em seus coracqes de pe-
dra. Com o tempo, a sociedade paraense per-
ceberd que no campo da verdade, da
razio, seu telhado 6 de vidro.
Jamais se esqueqam: a liberdade de ex-
presslo 6 um dos direitos e garantias funda-
mentais, sendo livre a manifestaiao do pen-
samento (Art. 50, IV, CF/88). E muito mais fun-
damental que a anacr6nica Lei de Imprensa
(Lei n' 5.257) criada nos pores do autorita-
rismode 1967.Acordem! Deixem de sofismar
sob o estigma da calinia, da difamagio ou da
injdria. Voces pariram um filho que aniversa-
ria hoje, seu beb8-monstro. Nao tornem esse
aniversario mais melanc6lico do que ji 6.
Deixem o home em paz.


LIVRO .
Meu livro, .
Guerra
Amazonica
(ediqio
Jornal .
Pessoal,
300
paginas,
R$30,00), It
continue A A
venda nas ..
bancas e
em algumas livrarias. Espero que os
leitores se interessem por ele. Poderd
ajudd-los a responder a muitas dividas
e questionamentos sobre a atuaglo da
imprensa no Pard nos ditimos anos. E a
desfazer equivocos e mitos.


Jornal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto
Ediaio de Arte: L A ae Faria Pirilo
Produrao: Arigel.m Pinto
Contato: Tv Bseranin Consiarnl a45203,66 053j
040 Fones: (091) 3211 -7626
E-mail: jCrnal7 jamazon rcm Dr


unmmmmmm




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