Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00290


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Full Text







ornal Pessoal


A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
JANEIRO DE 2006 1@QUINZENA NQ 360 ANO XIX R$ 3,00
sOLUS, TOTUS, UNUS .


PORTO DE BELEM:
A POLEMICA
PAGINA 12

DESEMBARGADORA
NAO E DOIDA
PAGINA 5


BELEM



Crescendo contra o future


Belem vai completar 400 anos em 2016. Nos 300 anos era uma das tres grandes cidades do
Brasil. Agora, e a 9a, a 10a ou muito abaixo disso. A julgar pelo que faz agora, seu future
pode ser desfavoravel. Ela se parece a uma grande aranha, em cujas teias estao atados urn
tergo dos paraenses. 0 que a capital Ihes reserve?


Belm comecou a percorrer a ul-
tima d6cada que a levard a
uma data hist6rica: em 2016
completard 400 anos de funda-
qao. At6 um pouco antes dos 300 anos, a
capital dos paraenses era, por qualquer
crit6rio de avaliaqdo, a terceira maior e
mais important metr6pole do Brasil. A
partir de 1912 entrou em crise, arrastada
para baixo pela decadencia da economic
da borracha na Amaz6nia.
Entre 1920 e 1940, em funqgo do es-
vaziamento economic, sua populaqgo
diminuiu em terms absolutos, inclusi-
ve. A Segunda Guerra Mundial, que obri-
gou as grandes naq6es aliadas a voltar a
se interessar pelos seringais da Amazo-


nia, Ihe deu um novo sopro de vitalidade.
A integracao fisica e econ6mica da
regido ao pais, a mais tardia das ades6es
A federaqgo national, reforcou esse pro-
cesso nas d6cadas de 60 e 70. Mas ago-
ra Bel6m 6 a 10" capital brasileira em
populaqco, a 9a segundo alguns crit6rios
econ6micos e uma das piores por virias
6ticas, sobretudo as sociais. Uma das
mais violentas, ningu6m tern ddvida. E
uma das mais injustas.
Bel6m comemorou 390 anos de for-
ma bisonha, provinciana. 0 ponto alto da
programaqgo comemorativa da prefeitu-
ra foi a inauguraqdo da orla do Outeiro.
A obra se arrastou por todo ano passado,
ao custo de 2,5 milhies de reais. S6 foi


concluida porque o governor do Estado
entrou corn parte do dinheiro. A obra se
resume a alguns metros de calqada e ar-
ruamento acompanhando uma das viri-
as praias que se sucedem na ilha de Ou-
teiro, distrito municipal.
0 prefeito Duciomar Costa, do PTB,
e o governador Simao Jatene, do PSDB,
que sdo aliados, dizem que se trata de
investimento para incrementar o turismo
num local com forte apelo para essa ati-
vidade. A novidade 6 positive para quem
jd freqiienta as estreitas e belas faixas
de areia, que recebem dguas completa-
mente poluidas da baia de Guajard (atra-
entes a vista em funcao da mare, que
CONTINUE NA PAG5i


I







CONTINUA;AO DACAPA
combine a aparencia movimentada de um
mar com o bucolismo do rio). Mas o tu-
rista que for num final de semana ao
Outeiro dificilmente voltarA.
A estrada de acesso 6 p6ssima: o as-
falto esta cheio de falhas, nao ha acosta-
mento na pista, praticamente inexiste si-
nalizacgo e o trafego funciona como um
process darwiniano de selecio do mais
forte. Ha poucos onibus em uso. A maio-
ria do.s banhistas tem que recorrer as
velhissimas Kombis, que ameagam se
desfazer pelo caminho, ou vai A praia de
bicicleta. Quem dirige precisa ter muita
atenqco, nao s6 ao trifego ca6tico, como
as lombadas, nem todas assinaladas. 0
servigo 6 dos piores. S6 quem se acostu-
mou a essa selvageria nao suprime a vi-
sita a Outeiro da agenda.
E program para o "povAo", costumam
dizer os que arrebitam o nariz a referen-
cia A ilha. De fato, tudo 1d 6 precirio. Sur-
preende at6 mesmo o antigo porto da So-
tave, agora colocado sob a administrator
da CDP (a federal Companhia das Docas
do Para). A estrada que devia servir a
caminhbes 6 a mesma, uma via zigueza-
gueante que mais parece um ramal sem
importancia. A ponte que liga Icoaraci a
Outeiro 6 limitagio insuperdvel a veiculos
mais pesados. Nessas condiqges, se mui-
to, o terminal 6 um local para descarregar
carga trazida do interior por via fluvial para
reembarque no rumo do literal e vice-
versa sem qualquer vinculacgo a Be-
16m. E discrepante do uso recomendado
da ilha para o turismo. Incompatibilidade
praticamente total.
Mas tudo isso nao passa de "detalhe"
numa metr6pole que se acostumou a im-
provisacgo, ao precario e a falta de vi-
sdo. Bel6m vive e cresce ha bastante
tempo sem planejamento, reagindo a fa-
tos consumados, criando paliativos, ajus-
tando-se, adaptando-se, improvisando.
Com isso, por6m, esta criando um mons-
tro urban, que vai se agigantando e um
dia explodird, sem control.
E uma cidade da informalidade, da
clandestinidade, da economic paralela e
invisivel. Uma cidade da segregagdo e
da discriminacgo. Uma pequena parte da
sua popula~go e do seu espaqo fisico
absorve a maior parte dos investimentos,
das benfeitorias e dos confortos da cida-
de modern e agradavel. A esmagadora
maioria di o jeito, como pode, no que
sobra das prioridades concentradas na
Bel6m que interessa.
Essa Bel6m atraente, glamourosa,
que fascina seus turistas aprendizes e
apressados, 6 o que sobrou daquele Be-
16m que, no inicio do s6culo XX, era a
terceira cidade do pais, incorporando-be-
neficios antes de qualquer outra, exceto
Rio de Janeiro e Sdo Paulo. Os visitan-


tes se surpreendem e se impressionamr
porque desconhecem a hist6ria da Ama-
z6nia. Ignoram que no final do s6culo
XVIII Bel6m foi o laborat6rio do projeto
de despotismo esclarecido do poder me-
tropolitano portugues e que em meio s6-
culo a borracha s6 acumulou menos ren-
da do que o cafe. Sabe-se muito sobre
os bardes do caf6, mas pouco sobre os
coron6is da seringa.
Essa Bel6m disp6e de paldcios, man-
soes, ruas pavimentadas, arborizagio,
museus, bibliotecas numa palavra, de
um certo cosmopolitismo e bastante char-
me. Mas nela moram 140 mil pessoas em
idade de trabalhar que nao tem empre-
go. Nao tdm agora e 6 pouco provdvel
que o conquistem no future. De todas as
eventuais political piblicas em prdtica no
municipio, a mais desprezada 6 a de ge-
rar empregos, embora seja a primeira a
aparecer nos discursos de campanha elei-
toral e nas pregaqoes demag6gicas.
Um terqo da riqueza gerada na cida-
de vem de onde ningu6m sabe. Ningu6m
sabe, tamb6m, porque aquela mansdo foi
construida no subfirbio ou porque aquela
garagem relativamente humilde abriga
tres ou quatro carros, alguns deles de
luxo. Bel6m 6 uma cidade que se acos-
tumou a nao indagar sobre a origem de
dinheiro que se multiplica. Por isso, seu
perfil nao contrast tanto quando justa-
posto ao do Rio de Janeiro, capital do trd-
fico, do crime, da viol8ncia.
Bel6m nao tem morros, o que facility
pensar nesse submundo como uma tipi-
ca paisagem carioca. A maior elevaqdo
natural na cidade nao chega a 20 me-
tros. Bel6m 6 uma Veneza tropical que
nunca se assumiu como tal. Pelo contrd-
rio, sempre que precisou decidir, optou
pelo aterro, por negar sua vascularidade
aqudtica. Talvez porque, pensando pela
cabeqa do colonizador, brilhando al6m-
mar, sempre negou sua condiqgo amaz6-
nica, mais se espelhando em Paris do que
em Calcutd (por castigo, 6 cada vez me-
nos parisiense e mais calcutaense).
A Veneza que podia ser, com seus
canais trafegdveis, preferiu transformar
as drenagens em esgoto a c6u aberto,
sem circulaqgo de barcos, sem transpor-
te fluvial, sem recreacqo. Mas embele-
zou algumas laterals para que os carros
disparem e os adeptos da vida saudavel
caminhem beira-esgoto, respirando odo-
res negligenciados. A macrodrenagem
das baixadas seria a dltima possibilidade
de reconciliar a cidade com seu sitio, sua
paisagem, sua geografia e sua geopoliti-
ca, mas o colonizado nao consegue ver
v6 diante do espelho de Pr6spero.
Por isso mesmo, o especulativo cres-
cimento vertical j se prepare para levan-
tar pr6dios de 40 andares, que, finalmen-
te, irAo superar uma marca que encabula


a cidade enviesada, imposta pelo "Manu-
el Pinto da Silva" nos anos 50 do s6culo
passado. Ao arquivo a circulaqdo de ven-
to,que ainda toma a cidade propicia a vida
humana. 0 cifrdo acima de tudo, o ganho
desmedido de uma cidade que se vai tor-
nando arrivista, dissociada de sua hist6ria,
de sua 6tica, de sua irmandade.
0 "povdo" que se divirta no furdunqo
do Outeiro ou se li.vre do bangue-bangue
de todos os dias (com &nfase nos fins de
semana etflicos) nas invasoes, sementes
de bairros que mais parecem campos de
refugiados, especialmente pelo padrdo de
viol8ncia que exibem. A custa da outra
Bel6m, a 9' em IDH (Indice de Desen-
volvimento Humano), a periferia da cida-
de incha e sua metropolizaqdo andrquica
engendra uma aranha cabeludissima.
Bel6m, na dimensdo de cidade, foi su-
perada por Manaus, que jd esti pr6xima
de 1,5 milhao de habitantes e tirou da
capital vizinha o 9 lugar national em po-
pula~go. Mas os tentdculos municipals
belenenses se estendem por um espaqo
no qual se encontram 2,5 milhoes de pes-
soas. E um terqo da populadio de um
Estado demograficamente bem mais es-
praiado (enquanto a irradiadio da capital
amazonense praticamente nao vai al6m
dos seus 1,5 milhao de moradores, meta-
de da populaqdo amazonense).
Hoje, a grande Bel6m atrai mais gente
do que renda porque nao tem emprego
para oferecer as pessoas atraidas por sua
luz e, sobretudo, sua propaganda centri-
peta. A conseqUiincia 6 que a cidade dis-
criminat6ria e desigual pode se tornar viti-
ma desse seu modo excludente de ser (li-
geiramente atenuado pelas tais politicals
compensat6rias", forma politicamente cor-
reta de se referir A esmola clientelista).
Qual o future dessa cornuc6pia assi-
m6trica? Para responder, 6 precise ver
como esta o future, hoje. Atrav6s da con-
dicgo das criancas, por exemplo. Na 6l-
tima ddcada, entire 1994 e 2004, o indi-
ce de Desenvolvimento Infantil de Be-
16m caiu de 0,710 para 0,667. 0 IDI
maximo 6 um, mas a "faixa verde", fa-
vorivel as criancas, comega em 0,800.
0 indice de Bel6m ji foi o primeiro do
Para. Hoje, 6 o terceiro.
0 IDI da vizinha Manaus evoluiu, no
mesmo period, de 0,637 para 0,681. Es-
tava bem abaixo do indice de Beldm e
agora o supera. Melhor desempenho teve
a vizinha Sdo Luis: de 0,771 para 0,839.
A capital do Maranhdo, portanto, esti na
faixa verde do Unicef, o 6rgdo da ONU
voltado para a infancia e juventude, que
criou o indice.
Para que em 2016 a festa dos 400 anos
nio inclua apenas espelhinhos, pentes e ba-
langanddis, Bel6m tem que comeqar a pen-
sar no seu future. E prepard-lo. Para nao
ser surpreendida e atropelada por ele.


JANEIRO DE 2006 I"QUINZENA Jornil 'Pesso:ll









Quando sai o jornalista,


o journal vira quitanda


Abril de 1977. A secretdria do doutor
J6lio de Mesquita Neto, o Mesquita res-
ponsdvel por 0 Estado de S. Paulo, o
mais influentejornal do pais, telefona da
sede para o escrit6rio de Belem. 0 pa-
trdo manda um recado (em m6dia, fazia
dois ou tr6s contatos anuais): ele e o ir-
mdo, Ruy Mesquita, que comanda o Jor-
nal da Tarde, ji haviam lido a s6rie de
reportagens que eu pautara, coordenara
e escrevera, juntamente com outros seis
rep6rteres. Os textos, na sede havia tries
semanas, agora estavam com Rubens
Rodrigues dos Santos, um dos editoria-
listas do journal, considerado na "casa"
como especialista em Amazonia. Eu de-
via acertar com ele a liberaqdo das re-
portagens. Os Mesquita Ihe delegaram
essa competencia.
Fui a Sdo Paulo para um dia de dura
conversa com o porta-voz. Ele questio-
nou vdrios trechos da s6rie, programa-
da para sair ao long de uma semana.
As reportagens colocavam em md situ-
aqo alguns bandeirantes paulistas, ago-
ra empenhados em desbravar a frontei-
ra amaz6nica, e se opunham A ret6rica
desenvolvimentista no prolongamento da
"corrida para Oeste", uma das sagas de
entdo. Muitas pdginas estavam assina-
ladas com tinta vermelha. Para cada
t6pico tive que dar explicacqes e supe-
rar as contestaq6es de Rubens, profis-
sional veteran e escolado.
Mas aquilo era troco. Dois meses
antes eu fora convocado para compare-
cer perante a "seqgo de terras" do Con-
selho de Seguranca Nacional, em Brasi-
lia. Provavelmente fui o primeiro jorna-
lista a se reunir com os militares desse
departamento, na pr6pria sede do CSN,
reduto reservado do "sistema de segu-
ranca national", temido por jornalistas,
vedado e hostile a eles. A reporter da su-
cursal de Brasilia, que participou do le-
vantamento sobre a "questdo" agrdria e
fundidria na Amaz6nia, simplesmente
deixara a pauta (com 10 laudas, minuci-
osa) na sede do Incra.
Alarmado com o conteddo, o Incra re-
passou a pauta imediatamente para o
CSN, fonte da doutrina official sobre a
"integraqgo" da Amaz6nia. 0 secretdrio-
geral do conselho telefonou para o dou-
tor Julio Neto e Ihe pediu que fizesse o
autor da pauta comparecer ao CSN em
data ji marcada. Iria ser submetido a
uma sabatina com os militares que, exa-
tamente tres meses antes, conseguiram

Jornal Pessoal I"QUINZENA JANEIRO DE 2006


aprovar no Congresso uma lei (a 6.383)
sobre a demarcacqo de terras devolutas
da Unido, que consideravam um avanqo
estupendo na regulamentaqgo do uso da
terra na regido. A pauta punha em ddvi-
da a eficdcia dessa lei para resolver pro-
blemas, como os conflitos de terra.
Viajei para Brasilia e enquanto en-
trava, sozinho, na sede do CSN, um ad-
vogado ficava de plantdo para provi-
denciar o rem6dio legal cabivel, caso
eu nao safsse da reunido at6 um prazo
razoavel. A reporter, com a conscien-
cia pesada, me acumulou de desculpas
e gentilezas, temendo o pior em funqgo
de seu ato "destrambelhado" (nem che-
gara a ler a pauta, deixada no Incra
para as respostas devidas). Mas tudo
deu certo. A conversa foi 6tima, nao
sofri qualquer constrangimento e pude
escrever o que quis, a partir da consi-
dera~qo ao que ouvi dos oficiais da "se-
qgo de terras" do CSN.
Depois da sabatina de Rubens Ro-
drigues, a inica restricgo que subsistiu
foi ao nome de um fazendeiro, amigo
intimo da familiar. Mas o epis6dio que o
citava era completamente lateral na his-
t6ria Apenas acrescentava mais um
exemplo a outros tres, a prop6sito de im-
precisdo de titulos de propriedade de
terra. Era um minusculo boi de piranha,
que valia sacrificar em proveito da enor-
me manada. A reportagem ocupou mais
de 40 pdginas do meu segundo livro,
Amaz6nia: no rastro do saque, lanqa-
do em 1980 por uma editor tamb6m
paulista, a Hucitec, a instancias de um
intellectual igualmente paulista, o soci6-
logo Jos6 de Souza Martins. Sdo Paulo,
capitao-do-mato da destruiqgo era, tam-
b6m, sua consciencia critical, ou ao me-
nos albergava com uma mdo parte da
reacqo ao que com a outra fazia.
A serie acabaria recebendo menqgo
honrosa national do Premio Esso daque-
le ano. No dia em que foi publicada a
primeira das virias paginas, que se es-
palharam pela semana, a reportagem
mereceu o mais important dos editori-
ais do Estaddo. A autoria era fora de
d6vida: Rubens Rodrigues dos Santos, of
course. Sem condiq6es de impedir a pu-
blicaqdo das mat6rias, que fustigavam os
bravos bandeirantes paulistas, ele trata-
va de prevenir os leitores do traditional
matutino contra aquelas aleivosias publi-
cadas em outras paginas. 0 editorial s6
faltou dizer que aquelas palavras tinham


sido escritas por hicifer, ou dem6nio de
pior extraqgo moral.
No final da tarde, quando o exem-
plar do dia me chegou As maos, li e reli
o editorial, que remetia o leitor para nos-
sas execrAveis reportagens, entire risos.
Achava erradas ou injustas aquelas
consideracqes, que ja contestara no
tete-a-tete com Rubens. Mas isso era
o que menos importava. 0 important
era que ojornal comandado pelos Mes-
quita acolhera um produto com o qual
nao apenas nao concordava, mas do
qual divergia em genero n6mero e grau.
Mas que respeitava.
Afinal, nem Jdlio Neto nem Ruy Mes-
quita (este, ainda vivo) eram quitandei-
ros, com todo respeito aos nossos muy
nobres fornecedores de folhagens e tu-
b6rculos, de outra especializaqdo, contu-
do. Eram autenticos jornalistas. E a ma-
tdria de sua empresa era jornalismo. Se
nosso texto tinha consistencia bastante
para veneer as barreiras que Ihe foram
opostas, de forma explicit pelo editoria-
lista e, implicitamente, por seus patries,
tinha todo direito de romper a fita no ponto
de chegada. Ou passar o bastio ao dis-
tinto leitor, que dele fizesse o uso que bem
lhe aprouvesse, no exercicio de um dos
principios mais democraticos da vida ci-
vilizada: o livre arbitrio.
Relembro com saudade profunda esse
epis6dio, que hoje parece expurgado do
cotidiano de nossas empresas jornalisti-
cas, enquanto nao me canso de lamentar
epis6dio exatamente oposto que esta vi-
vendo um grandejornalista brasileiro. Nas
generosas ondas do projeto que preten-
dia dar ao Estaddo um estofo national
verdadeiro, que nenhum outrojornal teve
antes ou depois dele, o paraense Walter
Rodrigues saiu de Bel6m, exatamente em
1977, para ser correspondcnte em Sio
Luis do Maranhio, substituindo Raymun-
do Costa, que seguia para Brasilia. Des-
de entdo, Walter se tornou uma afiada
consciencia critical local e uma indispen-
savel fonte de referencia para todos que
quiserem saber das verdadeiras hist6rias
no feudo da familiar Sarney.
Tanto pelo seu texto lustroso como por
sua conversa enfeiticadora, Walter Ro-
drigues conquistou arduamente o direito
ao respeito e A consideraqgo em tudo que
diga respeito ao Maranhao, da political A
economic, da lidima fofoca A alta cultu-
ra. Nao deitou na cama da fama que
CONTINUE NA PAG 4








Ciencia e preconceito


A areia do desert cont6m maior biodi-
versidade do que o solo 4a Amaz6nia. A sur-
preendente conclusdo foi anunciada no dia
9 por pesquisadores da Universidade de
Duke, nos Estados Unidos, como o principal
resultado da coleta de amostras em 98 loca-
lidades nas Am6ricas do Norte e do Sul.
Bastou para que int6rpretes apressados pro-
clamassem que ha maior biodiversidade no
desert de Mojave, na Calif6mrnia, por exem-
plo, do que na floresta amaz6nica.
Inversdo complete no estado da arte?
Ndo. Se a pesquisa pode levar a uma
melhor abordagem dos desertos, em re-
lacgo a Amaz6nia apenas reafirma o que
j6 se sabe: h6 mais riqueza na cobertura
vegetal do que no solo da regido. Se, ao
inv6s de coletar amostras das camadas
do chdo, os pesquisadores tivessem reu-
nido o que estd acima dele, certamente
os resultados seriam de outra ordem.


Definitivamente, a riqueza amaz6nica 6
a sua floresta, nao o seu solo. Desflo-
restada, a riqueza de vida natural na re-
gido pode ser considerada menor do que
a de um desert.
Os brasileiros, por6m, nao se consci-
entizam desse fato elementary. Alias, os
cientistas da conceituada Duke Univer-
sity tiveram que se contentar em coletar
amostras amaz6nicas no Parque Nacio-
nal Manu, no Peru. 0 governor brasileiro
Ihes apresentou tantas restriqoes que
acabaram desistindo de trabalhar no nos-
so pais. Nacionalistas xen6fobos (e por
isso pouco inteligentes) dirdo que essa 6
a attitude certa: nada de estrangeiros se
apropriando de conhecimento em nosso
territ6rio. 0 erro cometido corn Humbol-
dt persiste, dois s6culos e meio depois.
Pessoas mais arejadas e previdentes
prefeririam que os americanos percorres-


sem a Amazonia brasileiro, acompanha-
dos de cientistas nacionais capacitados,
e ambos participassem em conjunto da
pesquisa, tanto na coleta do material pri-
mario quanto na andlise das informaqoes.
Os resultados apurados no estudo jd fo-
ram publicados na revista PNAS, de livre
acesso. Mas por enquanto os pesquisa-
dores s6 fizeram o calculo de esp6cies
contidas no solo e na areia de tr8s das 96
amostras que reuniram.
E um trabalho de relojoeiro, que de-
manda tempo, dinheiro, paciencia e com-
petencia. Ndo combine com a visdo vul-
gar, segundo a qual basta tirar um peda-
qo de terra ou um galho e logo se estard
com as chaves de todo mistdrio nas mdos.
Ciencia como arte result de 99% de
transpiraqio e 1% de inspiraqio. Mas
ainda achamos que ojeitinho providenci-
al, com um empurrdo de Deus, fard o
Brasil crescer. Por enquanto, por6m, pro-
voca dois efeitos antag6nicos: nos distan-
cia dessa meta e nos aproxima da borda
do precipicio.


CONTINUA;Ao DA PAG 3
construiu por absolute desprezo por essa
comodidade (o que lhe acarretou sdrios
problems de sadde) e pelos pregos que
os poderosos tentam constantemente fi-
xar em sua passage, testando-o como
faquir da resistencia.
Walter costuma desagradar a gregos,
troianos, goncalvinos e timbiras com sua
verve e iconoclastia, com sua rara capa-
cidade de desmontar estratagemas e ar-
dis, demolindo alibis. Mas os inimigos que
produziu resultam da incapacidade que tem
os poderosos de obter sil8ncio quando gri-
tam com pessoas que esperam do didlogo
explicaq6es, arguments, demonstrates,
nio ignorantes decibdis. Sem fatos, ten-
dem a mandar is calendas gregas um dos
mais delet6rios e infelizes hdbitos nacio-
nais: o "bate-carteira" daqueles que con-
sideram o c6digo da divindade cobrar do
interlocutor uma resposta obediente e hu-
milhante ao tristemente c6lebre "sabe corn
quem esti falando"? Walter s6 quer sa-
ber se for para bem se informar.
Ele esta sempre falando corn pessoas
de came e osso, embora mat6ria mais abs-
trata seja construida com seu precario bar-
ro: a hist6ria. Jomalista em tempo integral
e c6tico nos intervalos, os milhares de tex-
tos que produziu em tres d6cadas de Ma-
ranhio constituem a melhor e mais eluci-
dativa reconstituiqdo do que houve entire o
primeiro moment, quando os maranhen-
ses viviam no vAcuo memorialistico em re-
la~qo a miragem da Atenas brasileira, g16-
ria para tantas cabeqas privilegiadas, como
o mitico Gongalves Dias e o minuciosoAlu-
fzio de Azevedo, e o desconcertante dia-a-
dia, que se Ihe pespega a ilharga da infaus-
ta ilha uma das maiores fdbricas de alumi-


nio do continent e, em projeto, um dos
principals p6los sidernirgicos do mundo.
Walter tentou dar vida impressa aos
seus textos em uma publicagco pareci-
da a esta aqui, com existencia aut6no-
ma. Por motives varios, mas, sobretu-
do, pela inaniqdo e insanidade dessa via,
seu Colundo acabou tendo abrigo re-
lativamente certo e seguro durante oito
anos como encarte no Jornal Peque-
no. Esse didrio, ja com 56 anos, 6 ou
era um fenomeno. Tern sua razao de
ser na originalidade da biografia do pa-
trono, Ribamar Bog6a, que fez fortune
(pequena, como cabivel) a margem dos
grandes interesses do (e no) Estado, e
num certo espago que se abriu na tra-
jet6ria do Maranhdo, da terra do "ja
teve" a terra do "nao terd", entire o es-
gotamento do modelo antigo e a velo-
cidade de montagem e amadurecimen-
to do modelo novo.
Ao acolher o "jomal pessoal" de Wal-
ter Rodrigues, o dono do Jornal Pequeno,
sem disso ter exata consci8ncia (nem con-
sistencia), agiu como um Mesquita mara-
nhense do period em que o Estaddo, re-
sistindo a censura political, criou uma praxis
de resistancia e de identidade que o tempo
e a desidia se incumbiram de erodir. 0 so-
nho de uma noite de verdo democrdtico
durou at6 bastante, no caso da relaqdo en-
tre Walter e o Jornal Pequeno, mas aca-
bou no final do ano passado.
Por razoes que sempre sdo nada mais
do que pretexto, o empresario Lourival
Bogea, successor de Ribamar, criou uma
maneira de inviabilizar a coabitacgo de-
mocrAtica e despejou do antigo espaco o
seu produto mais nobre, dando razao


aquela observaqgo geralmente amar-
ga de que p6rolas destinam-se a por-
cos quando estes nao percebem o valor
do que se lhes fornecem.
Bravo e resistente, Walter perdeu o pri-
vilegiado contato que tinha todos os domin-
gos com os leitores do Jomnal Pequeno,
mas mant6m sua produqgo acessivel atra-
v6s de um blog. Ja planeja voltar a forma
pioneira, como a destejornal, realmente in-
dependente (embora pesadamente sacrifi-
cante), porque deixou muitos 6rftos na lei-
tura da imprensa conventional. Os muitos
que, sem seu mand dominical, abandona-
ram o journal que o serviam e estdo a cata
de novo contato com a verdade.
Walter Rodrigues deverd achar uma
forma de atende-los, ainda que Ihe seja
desgastante (provavelmente em dema-
sia). Mas 6 pouco provdvel que a grande
empresa jornalistica, ao descartar o me-
Ihor que cont6m, encontre o caminho para
sair da crise que lhe reduz o pliblico. Sim-
plisticamente e falsamente tamb6m -
seus pregoeiros continuarao a dizer que
o encolhimento deve-se is novas midias,
como a internet e sua cornuc6pia de ca-
nais. E mentira.
0 jornalismo se autoflagela e se ex-
pbe ao martfrio final quando se imagine
uma quitanda, repleta de bananas e aba-
caxis, mas sem seu produto autentico: o
jornalismo. E ningudm faz melhorjorna-
lismo do que os bons jornalistas. Walter
Rodrigues 6 um desses exemplos. Mais
um, infelizmente, expurgado do contato
com o grande publico. Para que, dessa
forma, as pdginas de journal se tornem
prateleiras de quitanda, mais ao gosto dos
que agora as fazem imprimir.


4 JANEIRO DE 2006 I'QUINZENA Journal Pessoll


I








Legislative age: povo A distancia


Quando a sociedade afrouxa, os seus
representantes alopram. Esta pode ser a
moral a extrair de mais uma sessdo ex-
traordindria, tremendamente onerosa, da
Assembl6ia Legislativa do Estado. Corn
a mais extensa pauta em toda a triste
hist6ria dessas sessoes, os deputados ti-
veram temas importantes, pol6micos e
graves para apreciar. Mas quase tudo
passou a toque de caixa, como queria o
executive, autor da convocaqao e dos tra-
dicionais mimos dispensados aos parla-
mentares por conta de uma semana de
reducao em suas f6rias.
A contribuiqco que 72 mil servido-
res p6blicos dao para seu piano assis-
tencial de sa6de, o PAS, foi reajustada
em 300%. Passou de 2% para 6% do
vencimento. Com o avanqo no bolso do
seu funciondrio, o Estado pretend ar-
recadar dois milhoes de reais adicionais
a cada mes. Para melhorar o precdrio
piano? Ndo: para cobrir seu prejuizo


mensal e quitar uma divida de R$ 25
milhoes com prestadores de services e
fornecedores. Ou seja: nada melhorari
no atendimento. 0 console 6 que o pla-
no continuard a existir. Do contrdrio, iria
A lona. Grande console.
Medida de tal impact devia ser pre-
cedida de uma criteriosa andlise autuari-
al. Ndo s6 em cima dos dados apurados
pelo governor: o legislative tamb6m tinha
que dispor de uma auditagem indepen-
dente. 0 enorme buraco nas contas do
PAS deve-se apenas a um desequilfbrio
estrutural, provocado por contribuicao
insuficiente dos seus associados, ou por
mr gestdo dos seus dirigentes? Ou pelas
duas hip6teses e mais algumas?
Na apreciaCgo do projeto do executi-
vo no parlamento nada disso foi dito.
Mas para mais de 18 mil funciondrios,
que ganham apenas um salario minimo
por mes, sua contribuiqco para o PAS
equivalerd a uma semana inteira de trans-


porte entire a casa e o trabalho. Ninha-
ria, claro, para quem s6 pensa a partir de
quatro digitos. Mas questdo de peso para
um quarto dos servidores piblicos que
contribuem para o PAS. Povio, portan-
to. Mas "detalhe" nas engrenagens do
poder. Afinal, ndo houve pressdo forte
de galerias, nem mesmo dos grupos mais
organizados, sobre os legisladores do pe-
riodo extraordindrio.
Os defensores p6blicos, por exemplo,
parecem ter desistido da reivindicaqio
de equiparacao ao Minist6rio Puiblico e
a Procuradoria do Estado, em troca de
um saldrio que 6 relativamente bom (so-
bretudo se comparado com os valores
do passado: R$ 6 mil), mas esti a razod-
vel distancia do que ganham os repre-
sentantes das outras instituiq6es. Quan-
do a situacgo 6 dramitica, os principios
ficam postergados para ocasiio melhor.
Mas quem tera certeza da "ocasiao
melhor"?


Mais um escandalo na tela da Globo


No Jornal Nacional da TV Globo, o
"caso" da desembargadora Tereza Murrieta
se transformou rapidamente em "escdnda-
lo", qualificativo que era evitado na aborda-
gem jornalistica local. A transformaqgo, po-
r6m, sejustificava.
Ao long de cinco anos, quando ainda era
juiza da 1a vara civel de Bel6m, Ana Tereza
Sereni Murrieta sacou pessoalmente, no cai-
xa de banco, mais de tres milhies de reais de
contas que foram abertas em nome dajusti-
9a. Di mais de R$ 600 mil ao ano. Ndo 6
dinheiro que passe despercebido em qualquer
lugar do mundo.
As retiradas, apesar de ilegais, eram efetu-
adas com absolute serenidade (para usar um
trocadilho aplicdvel) pela magistrada. De for-
ma grosseiramente fraudulent e espantosamen-
te imoral. Dinheiro depositado emjuizo por conta
de litigios pendentes de decisoes eram mano-
brados irresponsavelmente pela suposta guar-
diM da integridade dessas contas, que em ne-
nhum moment disfargou a autoria desse cres-


center rombo. Flagrada a manobra escusa e de-
nunciada sua autora pelo Minist6rio Piblico do
Estado, a punigco da ento juiza era questio de
tempo e de aplicaqdo. Ainda assim, quando j
estavam em curso os procedimentos acusat6ri-
os, ela foi promovida a desembargadora e por
merecimento. Instaurado o process, entretan-
to, a said arranjada foi uma rApida aposenta-
doria, com os vencimentos devidos. Parecia
imoral, mas nao era illegal, ao menos segundo
as normas do C6digo Judicidrio. Nada restava a
fazer senao aguardar a instruqdo do process.
Configurada a ameaqa de punicgo, a de-
fesa da desembargadora celeremente apo-
sentada recorreu a um estratagema: alegou a
possibilidade de Murrieta estar insana ao sa-
car o dinheiro das contas judiciais. A alega-
qdo nao era factivel, como agora um laudo
do antigo Instituto M6dico Legal comprova.
Mas a simples possibilidade de desequilibrio
mental nao era apenas um estratagema em
favor da impunidade: era uma ameaca A tu-
telajurisdicional do Estado.


Caso a ex-desembargadora nio estives-
se no pleno exercicio de suas faculdades
mentais, tudo que decidiu e ainda nio foi apa-
gado pela borracha processual da prescriqao
estaria nulo. Um prejuizo incalculdvel para a
imagem dajustiqa e um atropelo tremendo
para pessoas de care e osso, que ainda vao
ajuizo em busca de definigao adequada para
suas desavenqas e diferencas.
Uma vez confirmado o laudo pericial, que
considerou a r6 em condiqbes mentais nor-
mais, e decidida a lide, caberd aojudicidrio
paraense adotar as medidas necessarias para
aproveitar as liyces do "caso", agora defini-
tivamente conceituado como "escAndalo", e
corrigir as falhas nos procedimentos admi-
nistrativos ejudiciais que permitiriam os sa-
ques indevidos e mantiveram essa ilicitude
camuflada por tanto tempo. Essas providcn-
cias podiam ser adotadas antes que um novo
escandalo brote no Jornal Nacional, fazendo
ecoar o silencio conivente daqueles que di-
zem nada ter a ver com a questao.


COMERCIO DIFICIL
A soja em grao disparou na
pauta de exportaqlo do Brasil em minerio de ferro bateu em US$ 7,2 outros sdo petr6leo bruto e car- tamb6m records. Mas como
2004: chegou a 5,4 bilhoes de bilhoes (metade a mais), enquan- ne de frango), que somam mais quem ainda manda em tais mer-
d6lares. 0 min6rio de ferro ficou to o faturamento da soja perma- de US$ 20 bilhoes (ou mais de cados 6 o comprador, ndo houve
um pouco atrAs: US$ 4,7 bilh6es. neceu o mesmo. 10% do total do com6rcio exteri- mudanqa estrutural. Logo, a boa
Em 2005 as posicqes se inverte- Na pauta dos cinco princi- or). Traduzindo os ntimeros: o surpresa de hoje pode ser a mi
ram -e muito. No ano record do pais produtos da pauta de ex- Brasil ganhou muito no ano pas- surpresa de amanha, sem que
com6rcio exterior brasileiro, em portaqao, quatro sao de mat6ri- sado porque os preqos de suas possamos interferirdecisivamen-
todos os sentidos, a venda de as primas ou semi-elaborado (os commodities atingiram niveis te na mudanca desses rumos.

Jornal Pessoal V"QUINZENA JANEIRO DE 2006 5









0 grande jornalista (que nao foi tanto)


A liberdade 6 o oxigenio da criaqgo. 0
Brasil que a Constituiqdo de 1946 props
como naqao livre foi criativo como nunca -
nem antes e nem depois seria tdo positive. 0
jornalismo foi um laborat6rio e um campo de
batalha para parte dessas inovag6es, assim
como a mdsica, o cinema, o teatro e a literatu-
ra. Marcas poderosas foram criadas tanto para
o grande p6blico como para leitores mais exi-
gentes. Desde jornais como Ultima Hora a
revistas de elite como Diner's.
Nessa fase de talents vulcdnicos, o ga-
icho Tarso de Castro conseguiu se destacar.
Apareceu a tempo, no inicio da d6cada de 60,
de ser caudatirio da geraqgo de 1946. Mas
participou de uma corrente, impelida pelos
"anos JK" (ou JJJ Juscelino, Janio e Jan-
go), que se chocaria com a muralha do Al-5,
em 1968. Mesmo sofrendo o terrivel golpe,
ainda reinventaria formas de dizer o que a
censura queria vetar e agitar a sociedade con-
tra os novos inquisidores.
Tarso 6 o principal personagem de 0 Pas-
quim, a primeira lufada de vento livre numa
paisagem de calmarias opressivas. 0 sema-
nirio surgiu logo depois do Al-5 e conse-


guiu, pelas vias e travessas da linguagem,
da opqAo temAtica e da improvisaglo talen-
tosa, se manter vivo por period que nem os
mais otimistas imaginavam que fosse se tor-
nar tao extenso. Defenestrado da publica-
qao, Tarso criou novos jornais e revistas,
que teriam existencia efemera, e inovou na
grande imprensa, conseguindo o que pare-
cia impossivel: sucesso de piblico. Certa-
mente marcou 6poca.
Mas quem ler sua biografia, escrita por
Tom Cardoso (Tarso de Castro a vida de
um dos mais polemicos jornalistas brasi-
leiros, Planeta, 269 pdginas), terd desse pe-
riodo e do pr6prio personagem uma, visao
de vaudeville, tudo muito rdpido, sem a de-
vida profundidade -e tendenciosamente em
favor do biografado. 0 texto 6 bem escrito e
o livro foi editado com capricho. Mas o bi6-
grafo apenas juntou informacqes coletadas
em pesquisa e entrevistas, colocou-as no
liquidificador de texto e serviu ao client um
produto pasteurizado, pastoso, inodoro e
incolor. Pr6-digerido.
Apressado em produzir a reportagem (no
fundo, 6 do que se trata), Cardoso nao se


apercebe do absurdo de dizer, por exemplo,
que o Panfleto, journal de 1964, antes do gol-
pe military, chegou a tirar 500 mil exemplares.
Naquela impressora que usou, seria total-
mente impossivelno tempo disponivel. A de-
satenqao 6 a mesma que o leva a afirmar que
o decreto de Joao Goulart propunha a desa-
propriaqdo de 100 quil6metros de cada lado
das rodovias e ferrovias federals. De 100 qui-
l6metros foi a faixa marginal de desapropria-
95o de cada lado das estradas federals na
Amaz6nia feita em 1971, pelo governor mili-
tar. 0 ato de Jango atingia apenas 10 quil6-
metros. E deu no que deu.
Depois de 0 Pasquim, Tarso teve lampe-
jos de genio, mas nao p6de seguir a reco-
mendaqgo de Picasso: com pouca transpira-
cgo, o que criou brilhou como um raio e desa-
pareceu. Ojornalista preferiu viver com mais
intensidade fora das redaqoes, um terreno
mais adequado para seu tipo de carAter. A
bebida antecipou-lhe a vida, aos 49 anos, em
1991. Esse period de tres d6cadas para tris
merece ser reconstitufdo. t uma das fases mais
importantes da imprensa brasileira. Mas o li-
vro de Tom Cardoso fica a dever.


Encontro Delfim/Lula: misterios da economic


O ministry da Fazenda, Ant6nio Palocci,
nao admite critics ao president do Banco
Central, Henrique Meirelles. Disso deu pro-
vas na semana passada, ao puxar publica-
mente a orelha de um alto subordinado que
fizera reparos a political dejuros altos. Nin-
gu6m, medianamente informado e razoavel-
mente sensato, entende essa usura, que faz
do dinheiro brasileiro o mais caro do mundo.
Mesmo um cr6dito mais acessivel, como o do
BNDES, se torna leonino quando sai da fron-
teira brasileira. Vizinhos sul-americanosjd dis-
pensaram o oferecimento do banco, incom-
pativel com a realidade fora da terra do sam-
ba e do futebol.
Ao que parece, o president Luiz Indcio
Lula da Silva estd entire os que defendem
mudanqas no Banco Central. Mas como nao
se senate em condiq6es de enfrentar o pr6prio
Meirelles e muito menos o todo-poderoso
Palocci, resolve recorrer, no dia 4, ao depu-
tado federal Delfim Netto. No meio de um te-
lefonema de ano novo que o ex-todo-pode-
roso ministry dos governor militares deu ao


MAIORES
A Companhia Vale do Rio Doceja s6 6 menor do
que a Petrobras. 0 valor de mercado da estatal
do petr6leo chegou a 74,3 bilhoes de d6lares,
segundo o journal o ranking das 500 maiores
empresas de capital aberto do mundo,
organizado pelojomal Financial Times. Mas o
valor da CVRD, de US$ 45,6 bilhoes, 6 muito
superior ao do Bradesco, terceiro colocado, que


president, Lula o convidou para um caf6
amigo no Paldcio do Planalto. Imediato.
Delfim conhece bem o caminho. NIo s6
do tempo em que emprestava sua competan-
cia em assuntos econ6micos aos generais-
presidentes, pouco afeitos A mat6ria, mas
porque se tomou interlocutor constant do
presidente-ex-operdrio. Os dois conversaram
por duas longas horas. Trocaram impresses
(no caso do anfitrido) e afirmativas (pela par-
te do conviva) sobre os principals temas da
agenda econ6mica, incluindo tamb6m a pre-
visao de crescimento econ6mico para este
2006, a relaqco divida/PIB (que estd em qua-
se 51%; ou seja: a divida absorveria metade
de toda a riqueza national), o endeusado su-
perdvit primdrio, que estd numa boa relacao
(4,24% do PIB) por nao incluir os 180 bilhoes
de reais pagos em 2005 apenas com osjuros
exclusivamente da divida internal (hoje, mui-
to maior do que a divida externa, bicho-pa-
pio na 6poca do regime military de Delfim).
Papo vai, papo vem, Delfim confirmou
mais uma vez sua capacidade de previsao:


6 de US$ 27,7 bilhoes. Uma media dessa
facanha: das seis empresas brasileiras que
integram a lista das 500 mais valorizadas
corporaqoes do planet, tres slo bancos (os
outros dois sao o Itati e o Banco do Brasil).
Ah, sim: o Bradesco nao podia, mas 6, de
direito, um dos acionistas da CVRD. De fato,
quem manda na companhia.


vai comegar a pensar num program para um
eventual segundo governor de Lula, quem
sabe ja preparando uma minute. Com essa
tarefa, avalizada pela audiencia informal e ex-
tensa do president da repliblica, se fortale-
cera no PMDB. Como se sabe, ele deixou o
partido do regime anterior pelo do doutor
Ulysses exatamente para aguardar o momen-
to da aproximaqgo do PT.
Desta vez, o partido de Lula precisa de
mais do que uma legend decorative para a
caminhada do guia dos povos na direiio de
um segundo mandate, que ganhou muitas
barreiras ao long do caminho jA percorrido.
Delfim foi devidamente "cacifado" para sen-
tar a mesa dos banqueiros peemedebistas,
num jogo que esta mais para o do bicho do
que o de gamlo.
Bastou Delfim despedir-se e ir embora para
o president Lula decidir tirar alguns dias de
f6rias na praia da Base da Marinha em Aratu,
na Bahia. As charadas econ8micas, ao que
parece, sua excel8ncia ji havia "matado".
Antonio Delfim Netto que o diga.


LIMIT 0AO
Pe9o desculpas ao leitor por mais
um ndimero que nio atendeu a
pauta jornalistica necess6ria do
period. A perseguiqio judicial
dos Maiorana nao permitiu. Mas
se nao pude dar atengio a tanto
assunto pendente, consegui deixar
meus algozes de fora desta ediaio.


6 JANEIRO DE 2006 I"QUINZENA jornlAl Pessoall


_









Uma voz que se apaga


Em sua 6/tima edigio, que esta
nas bancas, a revista Cult, de
Sao Paulo, publicou a seguinte
material a meu respeito, que
reproduzo para o leitor que nao
acompanha a public< o.


I nspirado no pequenino I. F Stone's We-
ekly, que circulou entire 1952 e 1971 e
oi uma das mais influentes publicaqoes
dos Estados Unidos, o Jornal Pessoal do pa-
raense Lucio Flavio Pinto trava uma guer-
ra amazwnica e agoniza.
Marcos Fonseca
0 tempo todo, galhos caem no meio da
mata. De vez em quando, arvores inteiras des-
pencam e a clareira aberta da espaqo a umr
roqado, talvez um past ou campo de pouso.
Ou a estrada que seguirA em frente, derru-
bando outras Arvores e expondo o solo ge-
neroso, imido e frAgil. Outras gentes ocupa-
r5o o lugar. Os cursos de Agua, ainda o prin-
cipal caminho e meio de transport de parte
da populaqao e das mercadorias, espraiam-
se, conquistam novas margens, mas perdem
profundidade e forqa. Como as Aguas, a de-
nincia tamb6m se enfraquece. De perto, as
imagens das toras deitadas e do carvao fu-
megante sao um pAlido retrato; nao captam a
dimensio da trag6dia. Do alto, slo feridas
que impressionam, mas parecem valer mais
pela plasticidade descontextualizada, entire o
6ltimo escandalo politico e o gol da rodada.
Homer Simpson nao entende a est6tica que
exige explicacqes, decide os donos do tem-
po da TV. Tern sido assim. 0 Brasil nao co-
nhece o Brasil.
Hd anos, venho defendendo a criagdo
de uma cultural semelhante a que transfor-
mou o Nilo quase numa entidade divina no
Egito. '" Egito e um produto do Nilo ", diz a
legend milenar. Os egipcios tratam seu
grande rio com uma reverencia mitol6gica.
Os venezuelanos tem algo parecido, embo-
ra bem distant em intensidade, em relaCdo
ao Orenoco. Nds, ndo: consideramos a ba-
cia amaz6nica um dado natural, embora, ao
mesmo tempo, incompreensivel. Nao apren-
demos na escola que a Amazdnia e um pro-
duto do Amazonas. Temos 18% da agua su-
perficial doce do planet, mas nossa capa-
cidade de manejar dgua ndo tem a menor
possibilidade de comparagdo com o domi-
nio que outros povos criaram, como o ho-
landes ou o canadense. Dispomos de um ter-
Vo das reserves deflorestas tropicais ainda
existentes, as que maior biodiversidade pos-
suem, masjd nos tornamos o povo que mais
destruiu florestas na histdria da humanida-
de. Ou seja: temos um hdbito esquizofrenico
de nos inviabilizar. Isso e precise mudar, ur-
gentemente, abrindo os olhos do habitante
da regido e do brasileiro para o que consti-
tui a originalidade da Amazbnia na faixa
tropical da Terra: a incrivel combinaciio de
dgua e floresta na criaado da vida. 0 con-


ceito primordial da ocupacdo ainda e o
VTN, o Valor da Terra Nua. Quanto mais
desnuda estivert mais a terra vale. E, no en-
tanto, a floresta depend do solo quase s6
para a sua sustentaado mecdnica, jd que ndo
sabe levitar. Ela se supre da quase totalida-
de dos nutrients que a alimentam. Enquan-
to ndo entendermos que o ciclo dgua-flores-
ta e a razdo de ser da Amaz6nia, acabare-
mos por destrui-la.
A salvaqAo do que resta da Amaz6nia
segue no centro das preocupaq6es do jor-
nalista Ldcio FlAvio Pinto, mas agora ele esta
enredado nas picuinhas do exilio em Beldm
do Para. Seus textos atuais ocupam-se de
desavenqas paroquiais e -ja ensaiando pre-
coce balanco, que ademais nao faz justiqa
ao pr6prio trabalho -, valorizam relaq5es
pessoais com donos do poder local, quase
sempre em conflito. Sao os galhos que caem
no meio da mata. Nem sempre foi assim. Em
quase 40 anos de carreira, o reporter forma-
do em Sociologia ajudou a escancarar cla-
reiras em coraqbes e mentes, abriu os olhos
do mundo, levou a revisao das political para
a regido, mesmo quando a autoridade tudo
podia, protegida pela lei imposta e pelo si-
l8ncio forqado da imprensa. Era mais fAcil a
ditadura military esconder uma epidemia de
meningite em Sao Paulo do que ocultar o
avango da destruigao da floresta. De modo
que os predadores, daqui e de fora, tinham
de ser mais cautelosos, mesmo sem inter-
romper sua agAo criminosa.
0 maior de todos os crimes contra a
Amazdnia foi a abertura das grandes rodo-
vias de "integrag(do national". A Transa-
maz6nicafoi o caminho para a invasdo dos
barbaros sobre as terras altas da Amaz6-
nia. A via de mais antiga ocupacdo da re-
gido, nas margens dos rios, as vdrzeas, foi
deixada de lado, embora constitua a unica
faixa de terra estruturalmente fertil da re-
gido. 0 colonizador lancou-se sobre a terra
firme armado de seus preconceitos, que iam
da concepqdo da Amaz6nia como um "es-
paco vazio", a ser integralmente moldado
pelo migrant que chegava para a conquis-
ta, ate o desajuste a uma paisagem domina-
da pela mata e dela completamente depen-
dente. As estradas de penetraCdo serviram 'd
destruicdo da integridade do territdrio, dito
de fronteira, para integrd-lo ao espaco na-
cional (e international) definitivamente
desfigurado. A Amazdnia jd havia sofrido
anteriormente os efeitos desse tipo de incom-
preensdo. Sd que as estradas tornaram esse
desajuste profundo e, talvez, irremedidvel.
Que colonizadorfoi o pior? E dificil dizer A
diferenqa fundamental e que o colonizador
nacionalfala a mesma lingua, habitat o mes-
mo territdrio, compartilha a mesma bandei-
ra national, sob teto comum. Logo, pode
agir com maior desenvoltura e menores cons-
trangimentos. E um irmdo. Como estd mais
prdximo e tem a legitimidade de um conter-
rdneo, pode investor menos e saquear mais.
Jd o estrangeiro enfrenta resistencias maio-


res, tem liberdade inferior e precisa gastar
mais. Se sobrevivermos ao colonizador in-
terno, ndo sobreviveremos ao colonizador
externo. Um age mais intensamente no cur-
to prazo. De uma forma tdo decidida que,
talvez, ndo haja long prazo para o coloni-
zador do outland. Ao menos na fase atual,
que e a derradeira na histdria amaz6nica.
A partir do final dos anos 1960, entire Be-
l1m, Rio de Janeiro e Sao Paulo, ojornalista
atuou em todas as frentes. Mantinha pelo
menos dois vinculos empregaticios um na
grande imprensa do sul, outro em um dos prin-
cipaisjomais paraenses -, al6m de colaborar
com os veiculos da resistencia political. Tem-
po de Opinido, Movimento, Versus. Luicio
Flavio tinha informacoes para todos os pd-
blicos e patries e um principio professional
nunca negligenciado: informacao de posse
dejornalista s6 pode ter como destiny a opi-
nido p(iblica. 0 que nao cabia no jornalio ia
para o alternative. Com esse jeito de nao dei-
xar nada por dizer, ganhou respeito nos mei-
os cientificos e academicos, chegou A midia
intemacional, mas perdeu espaco no seu pro-
prio meio. Percebeu que nao sairia do papel o
projeto de uma ganiide rede de correspon-
dentes amaz6nicos, pensado sob media para
o Estaddo (0 Estado de S. Paulo) viu a aber-
tura political extinguir aos poucos a imprensa
nanica; e sentiu que as reforms grificas e
editorials decretavam o fim da grande repor-
tagem. Grande em todos os sentidos. Nao
apenas profunda, mas extensa, caudalosa. A
TV impunha o jornalismo de manchetes e o
journal seguia junto. Como explicar a Amaz6-
nia, para os de fora, sem ir fundo na hist6ria e
na cultural da civilizaqgo da floresta? Como
fugir do exotismo que desinforma, se nas pa-
ginas atuais nao cabe nem sequer a pauta
dessa grande reportagem?
Houve um retrocesso na cobertura dada
pela grande imprensa national d Amazonia
- e ndo sod Anmaz6nia, e claro. Entre 1971 e
1982, mais ou menos, o Estaddo deu condi-
Cdes excepcionais de trabalho para seus re-
pdrteres que participaram da empreitada. Foi
um esforgo notdvel de resistencia c ditadura.
Raul Martins Bastos, director do Departamen-
to de Sucursais e Correspondentes de 0 Es-
tado de S. Paulo, formou a melhor rede de
informado do pais, em certos sentidos muito
melhor do que a do governor. Atraves do seu
censor, instalado na redado, o governor po-
dia aquilatar a qualidade das informacoes
que o journal produzia. Parte dela caia na
malha fina do censor e niio chegava ao lei-
tor Mas pudemos verificar que a Amiazonia
era um tema menos suscetivel aos interditos
censoriais. Mesmo dentro do governor, havia
grupos que queriam ser bem infonnados e niio
confiavam na infonnaado official. Esses gru-
pos estimularamn e apoiaramn a cobertura jor-
nalistica do Estaddo. 0 endosso de Jtilio de
Mesquita Neto (dono, editorialista e colu-
nista dojornal)foi decisive para que a Ama-
zonia virasse prioridade, as vezes contirari-
CONTINUA NA PAG 6


Jornal Pessoal I QUINZENA JANEIRO DE 2006






CONTINUAAO DA PAG. 7
ando os interesses dos empresdrios paulis-
tas, um paradoxo dificil de aceitarpelos in-
terpretes ortodoxos, mas verdadeiro. Do
projeto participaram rep6rteres da compe-
tencia de Ricardo Kotscho, Sergio Buarque,
Elson Martins, Raymundo Costa, Raimun-
do Jose Pinto, Eliana Lucena e outros, que
apenas aglutinei e entusiasmei. Quase to-
dos os livros relevantes escritos sobre a
Amaz6nia utilizaram as materias do journal
comno fonte, alguns exageradamente e sem
dar o cridito devido, entire eles um de 1977
do nosso ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso. Ao me referir a esse trabalho, man-
do um recado aos responsdveis pela grande
imprensa: para dar uma cobertura decent
a uma regido tdo important como a Ama-
zdnia, e precise imitar o que o Estaddo fez.
Ou investor como a Editora Abril na edicdo
especial da revista Realidade sobre a Ama-
z6nia, em 1971, comandada por Raimundo
Rodrigues Pereira.
Voltou a Beldm para encontrar velhos de-
safetos e perder antigas trincheiras. 0 con-
tencioso inclufa todos os governadores, os
principals parlamentares e autoridades dos
dltimos 40 anos, aldm das grandes corpora-
qoes empresariais contrariadas em seus inte-
resses. Logo, a segunda geraqdo dos Maio-
rana, famflia proprietdria do maior grupo de
comunicaqdo do Estado, fechou-lhe as por-
tas do Liberal, journal e TV, e escancarou-lhe
as da justica. De 1992 para ca, mais de tres
dezenas de aqoes, cerca de metade movida
pelos irmaos Maiorana, e tr6s condenaq6es,
a primeira das quais anulada em instancia
superior e as outras duas em fase de apela-
gio. Daf o exflio ou prison que o imobiliza em
Bel6m e o afasta da reportagem. Sem ter quem
o defend, ojornalista vira advogado da pr6-
pria causa, numa luta que o isola cada vez
mais e coloca no lugar de suas grandes pers-
pectivas o horizonte restrito a algumas qua-
dras: entire a casa e o trabalho e de ambos atW
o f6rum, rotina quase diaria.
Durante 22 anos (1966-88) trabalhei na
grande imprensa com um pe na imprensa
alternative ou nanica. Na primeira, publi-
cava materias que tinham maior repercus-
sdo, ao mesmo tempo em que dispunha de
meios materials para buscar informagCes,
meios inexistentes ou limitados nos peque-
nos jornais. Para eles drenava abordagens
que ndo eram admitidas na grande midia.
Assim, atendia as necessidades profissionais
e os compromissos do cidaddo. Isso me dava
a sensaado de estar explorando ao mdximo
minha capacidade de gerar e divulgar in-
formacoes relevantes. Em 1988, fiz um rom-
pimento radical para me dedicar ao novo
projeto, o do Jornal Pessoal, iniciado no
ano anterior Sabia que o caminho podia
ser sem volta, mas achei que devia arriscar.
Foi mesmo sem retorno. Com isso, perdi a
enorme capacidade de movimentagdo de que
dispus em grande parte dos 17 anos de tra-
balho continue no Estaddo, emparceria corn
0 Liberal, o que me causou prejuizos sensi-
veis. Mas isso parecia inevitdvel quando
decidi me tornar um outsider complete.
Com o Jornal Pessoal Lacio Flavio acre-
ditou que poderia levar adiante o seu projeto


de jornalismo aut6nomo. 0 quinzenario de
format pequeno, 12 paginas preto no bran-
co, sem andncios, fotos e coluna social estd
imune ao v6o de passaralhos e aos cortes de
pessoal, porque uma inica demissao signifi-
caria o seu fim. LUcio Flavio reporter, reda-
tor e editor 6 toda a redaqgo. Contra todas
as probabilidades, ameaqas, boicotes e pres-
soes, a publicaqgo estA perto de completar 20
anos, colecionando uma sdrie de distincqes
nacionais e internacionais de fazer inveja.
Aldm de dois premios da Fenaj (Federaqgo
Nacional dos Jornalistas), recebeu o Colonm-
be D 'Oro pela la Pace, do Archivo Disarmo
de Roma, em 1997. Licio Flavio era o linico
nao-europeu entire os quatro laureados e ti-
nha ao seu lado o irlandes John Humme, pre-
mio Nobel da Paz no ano seguinte. No ano
passado, ganhou o Pr8mio Internacional de
Liberdade de Imprensa, outorgado pelo CPJ
(Comittee to Protect Journalists), dos Esta-
dos Unidos. Apesar disso, o jornalista pare-
ce sem forqas de manter o projeto vivo, pres-
sionado por dificuldades financeiras e desa-
nimado pela falta de repercussao de suas
denincias. Teriam os inimigos do Jornal Pes-
soal conseguido silencia-lo?
Conseguiram, sim. Dias ou semanas in-
teiras eu consume meu tempo indo ao f6-
rum, pesquisando material juridico e parti-
cipando da elaboraVdo de peCas que serao
apresentadas em juizo. Vivo em prisdo do-
miciliar ndo declarada, sem o refrigerio de
ter tempo para escrever outras coisas. Amon-
toam-se pautas, documents e anotac5es que
ndo posso tratar Mais um pouco e terei que
desistir do jornalismo. E o que meus perse-
guidores querem e e o que estdo prestes a
alcanqarplenamente. Nao acredito que ndo
seja ouvido. Acho que a minha voz ainda e
acatada e respeitada. Oproblema e que estd
sendo sufocada. Minhas fontes de renda?
Vivo como free lancer; escrevendo materials
especiais, participando de livros, dando
palestras. Em tempospassados tambem pres-
tei consultorias academicas. Durante sete
anos fui professor e pesquisador visitante
na Universidade Federal do Pard e, por um


semestre, na Universidade da Fldrida, nos
Estados Unidos. Dd para sobreviver, mas a
uiltima variacdo patrimonial na minha de-
claragdo de renda foi em 1988. De ld para
cd, empobreci. Hoje, ndo tenho reserves. Hi
II anos, estou fora do sistenma previdencid-
rio. Provavelmente, nunca me aposentarei.
Talvez se possa dizer que fiz op(co de po-
breza, se bem que nao voluntariamente.
Ha um ano, no dia 21 dejaneiro de 2005, o
empresario Ronaldo Maiorana, 37 anos, um
dos donos do grupo 0 Liberal, de Bel6m do
Para, com a cobertura de dois seguranqas,
agrediu Lucio Flavio Pinto, 56, pelas costas,
em um restaurant da cidade. Havia mais de
150 testemunhas no local, mas o agressor
escapou do flagrante. Processado, defendeu-
se alegando que sua familia 6 sistematicamen-
te ofendida nos textos do Jornal Pessoal. EstA
long de ser condenado. Ronaldo, que tam-
b6m 6 advogado, preside a comissao de li-
berdade de imprensa da OAB paraense e foi
mantido no cargo depois da agressao. 0 rela-
t6rio da Associaqco Nacional de Jornais so-
bre liberdade de imprensa nao cita o epis6-
dio. Para a entidade patronal, tratou-se de uma
briga entire "dois empresdrios da Area de co-
municaqdo". A situaqgo s6 ficou mais dificil
para o agredido. Ao long do ano, a familiar
Maiorana patrocinou novas aq5es judiciais
contra ojornalista, que se sentiu obrigado a
adiar seu piano de acabar com a publicaqio.
Hoje, ndo tenho opcdo: em defesa da dig-
nidade, devo resistir Quando deixar de re-
sistir, e porque isso se tornou fisicamente
impossivel. As possibilidades de exist&ncia
do Jornal Pessoal jd se exaurirarm. Eu vinha
planejando acabar corn ele quando veio a
agressdo. Agora, ele vive porque se tornou
um simbolo de resistencia. Virou uma legen-
da, como aquela que Dante colocou na por-
ta do inferno, sd que com outro sentido. Ao
invis de "deixai a esperanga, vds que en-
trais ", no portal do Jornal Pessoal a frase e:
"deixai a pesporrencia, vds que entrais
Ou, como colocou o Bardo de Itarare a en-
trada de A Manha: entiree sem bater". Itara-
re, como se sabe, tambnm foi espancado.


8 JANEIRO DE 2006 h"QUINZENA journal Pesso.ll


Aluminio em Juruti

Com atraso de um semestre em relaqgo ao cronograma original, a Alcoa deverA
comegar a implantar ate o final dejunho a sua mina de bauxita em Juruti, no
extreme Oeste do Para. Provavelmente o canteiro de obras serai entregue a uma
empreiteira particular. A multinational americana talvez tamb6m terceirize a
pr6pria operaqgo da mina, reservando-se para entrar no process para produzir
alumina e aluminio.
Os novos pianos da Alcoa incluem a produqdo de 500 mil toneladas anuais de
metal primdrio em Juruti mesmo, uma maior do que a da Albris, a oitava do
mundo, que fica em Barcarena. Mas s6 estaria disposta a definir a plant
industrial depois de garantir o suprimento de energia. A empresa gostaria de
participar dos projetos hidrel6tricos de Belo Monte, no rio Xingu, ou de Marabi,
no Tocantins, desde que pudesse assegurar a quantidade necessiria de energia a
um preqo variando entire 15 e 20 d6lares por megawatt. Esses seriam os valores
do contrato que a Alcoa assinou na Islandia para ter vigencia pelos pr6ximos 30
anos de funcionamento de uma fabrica, com investimento de 1,5 bilhao de
d6lares (que se destinaria ao Brasil). Seria tambem a tarifa que Ihe foi garantida
em Trinidad e Tobago e na China, duas alternatives que estaria considerando
para a instalaqlo de sua nova fabrica de aluminio.
Palavras da multinational.
I I -- --UN--M0







INEDITOS



A sobrevivencia political logo depois do AI-5


Na edicado anterior iniciei uma nova secdo deste journal, a Anto-
logia. Neste nuinero apresento mais uma atraqdo (na linguagem
Global), que se alternard com a primeira. Extrairei de nmeus pr6pri-
os arquivos documents que consider relevantes para a hist6ria
do Para, da Amaz6nia e do Brasil, mas que pennaneciam ineditos.
Comeco por uma carta que o entaio ministry do trabalho e previ-
dencia social, Jarbas Passarinho, dirigiu ao ministry da justice, Luis
Ant6nio da Gama e Silva. A carta e de marco de 1969, tres meses
depois do AI-5, o golpe dentro do golpe military de 1964. Na c6pia da
carta, que tenho coinigo, ndo estd assinalada a data. Mas minhas
infornnaces me pernnitem prever que ela e do dia 13 de marco, exata-
mente tres meses ap6s a edicdo do terrivel Ato Institucional inumero
cinco, do qual Passarinho e Gaina e Silvaforam subscritores.
A carta do ex-govemador do Par6 e um docurnento precioso de
epoca. Passarinho incorporava entao a figure do anfibio: militares
que atuavain na vida ptublica a partir dos quarteis e que, corn a
assuncdo do poder total, se tornaram politicos profissionais, a servi-
Co do movimento (ou Revolucdo) vitorioso. Passarinho e um dos
principals especimes desses anfibios, dentre os quais tambemn de des-
tacaram Mdrio Andreazza e Ney Braga.
Jd politicos profissionais, esses coron&is se viam divididos entire a
lealdade a seus companheiros defarda e os compromissos corn os cor-
religiondrios, intennedidrios e gestores da base eleitoral. De um lado,
os militares profissionais, sobretudo os da "linha dura", querendo
prosseguir e ampliar a depuraqdio do ancien regime, os "carcomidos",
comno eram denominados por outra revolucdo, a de 1930. Mas a manu-


tendio da razzia levaria i extinciio dos quadros politicos e, por
extensdo, dos "jovens turcos jd estabelecidos no powder politico.
Passarinho faz malabarismos para se posicionar nesse jogo de
presses, que sua carta revela ser bemn maior do que os pesquisadores
geralmente considerarm, ao consideraro regime military como urn "sis-
tema ", fechado e monolitico. Havia muitas fissuras e disputes inter-
nas entire as vdrias camadas de poder em acomnodacdo. A faixa de
Passarinho, apesar de destacada, era inferior ai de Gaina e Silva,
extraido do meiojuridico de Sdo Paulo (o que Ihe autorizava o trata-
mento de "professor") para gestar e referendar atos de violencia
envernizados dejuridicidade, como o AI-5, para o qualfazia questldo
de destacar sua contribuiCdo (j6 Passarinho precisou se desfazer dos
"escrnpulos da conscidncia" para assinar o nefando papel).
Passarinho desenvolve a carta sobre unma lamina miuito final.
Precisa reagir e demonstrar sua indignacdo corn a decretaqdo do
recesso da Assembleia Legislativa do seu Estado, sem seu conheci-
mento, mas sem aprofundar a critical, a ponto de desagradar o Tor-
quemada de plantdo no cargo de inquisidor-mdr. Corn estilo, faiz
malabarismos sobre essefio afiado, procurando salvar o que restou
de mundo politico depois da devastadiio do AI-5.
Os mais velhos apreciardo coin mais gosto esse docurnento indli-
to, mas todos tirardo proveito dele, a 37 anos da edicdo de urn dos
documents mais tristes da hist6ria brasileira. Para os mais curiosos,
inform que a carta ndo mefoi dada pelo seu autor. Quando ler esta
secdo, Jarbas Gonqalves Passarinho ficar6 mais surpreendido do
que qualquer outro leitor.


Meu caro Gama
Nio estranhe esta carta. Ela 6 ditada pelo
afeto que Ihe tenho. Por isso mesmo nio esti
vazada em terms cuidadosos. mas em linguagem
fraterna e sincera.
Quero dizer-lhe quanto me magoou nao ter
voce me dispensado a honra de conversar comigo
sobre o recesso da Assembl6ia Legislativa do Pard.
Implantei a Revolucao no Pard, como voce
sabe. Redimi o Estado dos erros dos seus ho-
mens pdblicos. Restaurei a dignidade do Executi-
vo, limpei o JudiciArio de seus cancros mais no-
t6rios.
Governei apoiado em preciria maioria de 20
contra 17 deputados, que permaneciam leais aos
depostos.
Ora, foi essa Assembl6ia que ap6s as eleicdes
de 1966, n6s renovamos em boa propordio e,
marcando notivel vit6ria nas urnas, constituimos
corn 33 deputados da Arena, contra 8 do MDB!
Eis af, meu caro Gama, uma afirmaqio da po-
pularidade e da forqa da Revolucaio no Pari.
O Governador Alacid nio teria qualquer pro-
blema no legislative, onde a massa de manobra
do partido 6 esmagadora. Seu lider e seu vice-
lider sao os mesmos que serviram em meu curto
Governo.
Sio esses deputados, 6 essa Assembl6ia que
o Governo acaba de fechar, como media morali-
zadora. Medida que, atente voce, me atinge por
via indireta. Sim: haviamos implantado uma con-
duta revolucioniria louvada em todo o Brasil. De
voce mesmo ji ouvi essa referencia, mais de uma
vez. Pois tudo isto vai por iguas abaixo, menos
de 2 anos depois de eleitos os novos deputados.
Eu, estando em Bel6m, depois que, com o
Governador Alacid Nunes estive em seu Gabinete
e assist ao Governador dar-lhe todas as explica-


Goes sobre a Assembl6ia, fui procurado pelos de-
putados. Disse-lhes que acreditava na reabertura
natural dos trabalhos, a 15 de marco. Isto porque
nada percebi de voce, no sentido de sancionar a
Assembl6ia, depois das explicaq6es dadas.
Ainda mais: na v6spera do ato que a p6s em
recesso, discuti por telefone, corn voc6, a consti-
tuiyio da mesa da Assembl6ia, para 1969. Voce
ainda me aconselhou a evitar a reconduqdo do
sogro do Alacid [deputado Abel Figueiredo, pai
de dona Marilda] para a Presidencia.
Instrui os companheiros do Pard neste senti-
do, atravis do deputado Gerson Peres, que veio
ao Rio s6 para isso.
No outro dia, horas depois portanto, era as-
sinado o ato que punha em recesso a Assembl6ia!
Ora, vejamos as razdes que voc6 alinhou para
a punicao da A. Legislative do Pari, que assim
reentra nas manchetes dos escandalos, donde
eu o tirei, a partir de Jun/64.
V1 Subsidies Parte fixa NCr$ 1.500,00 -
E verdade que a parte fixa 6 superior a federal,
mas a Constituicao nao manda guardar proporcio-
nalidade de todas as parcelas do subsidio.
No todo, os deputados paraenses nao perce-
biam mais de 2/3 do que percebem os congressis-
tas, pois se o fixo era maior (NCr$ 1.500,00 con-
tra NCr$ 1.200,00), o variivel era /4 (NCr$ 15,00
contra NCr$ 60,00).
Assim, o total (fico + variAvel) dava aproxi-
madamente NCr$ 2.000,00 / m8s, o que esti no
limited dos 2/3 dos congressistas.
20 Sessoes ExtraordinArias -
0 ato diz que foram realizadas 98 sess6es;
certo, mas em que prazo?
Enquanto outros faziam 20 sess6es num s6
dia, os paraenses faziam media menor de 10
sessoes extraordinirias por m&s!


Isto Ihes dava uma m6dia de NCr$ 150,00/
mes, o que prova que nao havia "industria" de
sessbes extraordinirias.
30 Verba de "representalAo" -
Votada, como aumento dos subsidies, em
Nov/68, e nao ap6s o Al-7 [Ato Institucional
nimero 7].
Errada uma coisa como a outra, mas resul-
tante de entendimentos dos deputados com o Go-
verno estadual, em face de informaqlo escrita
da Clmara dos Deputados, que dizia existir
verba equivalent para os congressistas, no valor
superior a NCr$ 1.000.00/m6s.
Na hora em que se p6e essa Assembl6ia sob
castigo, castiga-se o Governador, que 6 revoluci-
onario e surgiu em nome da Revolucao no pro-
cesso politico, onde se conduz corn acerto.
Atinge-se a mim, que sou Presidente da Are-
na do Par6 e Ministro do Governo.
Creia, meu caro Gama, que nio me atreveria a
alinhar estes comentirios, se nao os achasse jus-
tos e nao fossem dirigidos a quem., como Voce.
me dispensa tratamento fraternal.
Corre, em Beldm, que o recesso da A. Legisla-
tiva foi conseqiincia de pressio do Gen. Rodrigo
Octivio. Nada sei. Nao creio, por6m, que ele pos-
sa e eu nao deva! ser ouvido em tal caso. Por
mais que nos mereqa o Gen. Rodrigo Oct6vio e
muito merece pelo seu carter e valor nao posso
deixar de lembrar que muito honrei o meu Exdrcito
na minha vida puiblica, limpa e digna.
Estou certo de que Voce nao me praticaria
essa injustiya.
Eis ai, meu caro Gama e Silva, o meu "desa-
bafo". Fico tranqUilo, quanto ao seu entendimen-
to e o abraqo cordialmente.

JARBAS G. PASSARINHO


Journal Pessoal -IQUINZENA JANEIRO DE 2006 9









MEMORIAL DO COTIDIANO


Anti-Barata
No dia 21 de fevereiro de 1956 o
senador Magalhaes Barata, o
maior caudilho da political para-
ense, chegou a Belim, vindo do
Rio de Janeiro, que era a capital
federal. A esperA-lo no aeroporto
estavam o chefe de gabinete e o
ajudante de ordens do govema-
dor do Estado. Nada a estranhar
se no governor estivesse um "ba-
ratista". Mas quem ocupava o

Surpreendido com a calorosa
recepqao, Barata foi logo a pali-
cio agradecer a Catete. Perplexo
e revoltado ficou o advogado
Achiles Lima. Mal soube da no-
vidade, no mesmo dia enviou uma
longa carta ao govemador pedin-
do demissdo do cargo de chefe
da Consultoria Geral do Estado,
que assumira um mis e meio an-
tes, depois de ter sido secretArio
de educaqao desde o inicio da
administraqao "coligada".
Achiles estranhou e criticou
a decisao de Cattete, que ignora-
ra o senador Prisco dos Santos,


seu correligionArio, que tamb6m
chegara dias antes, sem direito A
mesma recepqgo official no aero-
porto. Lembrou que Barata viera
a Bel6m especialmente para co-
mandar a realizaclo da eleiqgo
suplementar para o governor, na
qual acabaria derrotando, por
margem minima de votos, ao can-
didato da "coligacAo", o m6dico
Epflogo de Campos. 0 consultor
demissiondrio previa que as ati-
tudes de Cattete "estdo a condu-
zir o seu Governo a uma cada vez
maior e mais perigosa colabora-
cgo com a faccqo political do Se-
nador Barata, corn resultados im-
previsiveis para a eleiqgo do nos-
so candidate a Govemador".
Como ndo queria "ser acusa-
do de ter concorrido para a volta
do Senador Barata ao poder" (que
seria uma ameaqa "a sobreviven-
cia das liberdades pliblicas, das
garantias individuals, da decen-
cia administrative, da tranqiilida-
de dos lares paraenses, numa
palavra, da Liberdade"), cafa fora
do barco do governor. E a ele nun-


ca mais retornaria, dedicando-se,
a partir daf, ao seu escrit6rio de
advocacia, que se especializou em
grandes empresas, sobretudo
multinacionais.

Pr6-Cattete
JA ojornalista JoIo Malato, em
seu "comentdrio do dia" na Fo-
Iha do Norte interpretou o ges-
to de Cattete Pinheiro como uma
liqio de civilidade que dava a
Magalhaes Barata, "quejamais
compreendeu o sentido eleva-
do dessas attitudes Quanto As
suspeitas surgidas entire os
proprios amigos do governador,
observava: "quem conhece o
que o dr. Cattete Pinheiro so-
freu da parte do sr. Barata, cer-
tamente Ihe farA ajustica de nao
acreditd-lo capaz de bandea-
mento, a menos que o queira
julgar um home destituido da
menor parcela de dignidade e
amor pr6prio". Achava que o
objetivo era mesmo dar uma li-
cgo de democracia justamente
a quem menos a praticou.

Arralal
Em 1962 a afluencia A procissAo
do Cfrio de Nazar6 continuava a
crescer, mas a concorrencia ao
arraial (os 15 dias de festas que
se seguiam a romaria) "vai dimi-
nuindo consideravelmente". 0
motive? 0 (ji falecido) m6dico
Maurfcio Coelho de Souza repe-
tia, mais uma vez, a explicagAo


que jd dera antes: a desativadio
da "Sociedade do Descanso".
A estranha confraria era for-
mada pelos que ocupavam cadei-
ras colocadas na alameda ao lado
da "barraca da santa", a Vila Leo-
poldina. Na primeira fila havia
cadeiras de embalo, seguidas de
cadeiras comuns. Quem as qui-
sesse tinha que pagar aluguel,
mas se se levantasse ficava com
direito apenas a ocupar outra ca-
deira, de igual valor, se houves-
se. Por isso, sempre havia pes-
soas a procurar um lugar e luga-
res A espera de ocupantes, asse-
gurando a freqiiuncia ao arraial
at6 altas horas da noite.
Relembrava Mauricio: "Sen-
tada, a elite social apreciava o
vai e vem do povo em continue
movimento e se entretinha em
boas palestras, ouvindo os acor-
des de banda de mdsica nos co-
retos pr6ximos. Em determinadas
noites havia uma orquestra de
pau e corda, que executava par-
tituras de operetas, em frente A
Barraca da Santa".
0 problema surgiu quando o
dono das cadeiras, que recebe-
ra de heranqa, se transferiu para
"o Sul do pais". "Em vez de en-
trar em entendimento com a Di-
retoria da Festa para que esta as
adquirisse, vendeu-as, segundo
consta, a diversas sociedades
esportivas", lamentava Mauri-
cio Coelho de Souza, em artigo
para a Folha do Norte. Daf "o


PROPAGANDA

Energia e

desenvolvimento
Quarenta anos atrAs a Forqa e Luz do Para, entao uma empresa do
Estado (que antecedeu a Celpa), completou 10 anos de funcionamen-
to com um grande present para Bel6m, que chegava a 350 anos de
fundaqgo: uma nova usina termel6trica, corn quatro geradores, em
Miramar. Elas aumentavam a capacidade de geraclo de energia na
cidade, de 30 mil para 80 mil quilowatts (ou cinco vezes a geragio de
1956, quando a Forluz foi criada). BelIm ficava livre do terrivel racio-
namento e podia se expandir, abrigando novas indlistrias e se desen-
volvendo.
Na 6poca, ningudm imaginava que, 20 anos depois, surgiria a
hidrel6trica de Tucurui, no rio Tocantins, a 350 quil6metros de Bel6m.
Cada turbina da usina tem quase cinco vezes mais pot6ncia do que
toda a geracgo da Forluz em 1966. E haverd 23 turbines funcionando
em Tucuruf atW o pr6ximo ano. 0 maior consumidor de energia na
regiAo nao 6 mais Bel6m, mas aAlbrds, a fdbrica de aluminio instalada
a 50 quil8metros da capital paraense, em Barcarena. Ela consome I 11
vezes mais energia do que a que a Forluz gerava, corn folga, para toda
Bel6m, hd 40 anos.
Ntimeros grandiosos. Menos o desenvolvimento prometido.


10 JANEIRO DE 2006 IQUINZENA Jornal Pessoal


...o ano dos


80 mil quilowatts


em Belem






NOa




196 6 um ano Impor. daores d usina termoel6trica do 23 bllheoa do cruzeiros
State para Belem, do Miramar cde uma corn aplicados em obras de owner.
a cidade complete seu 350. capacidade do 25 mil quilo- gia eldtrlca, pare a beneff
aniversario. E a FORQA E watts flca assegurda a cio do cidade a de sou povo.
LUZ oati numontando do continuidado de tornecimonto
30 para 80 mil quilowatta do energia 0o fim do ra. 1966 em trmos dex.
- mais de cinco velea a gime do racionamenio. panaao sara o sno do pro.
cidde m quo iniciou greso. Haver onergi .
m 1956. 1966 ficard ainda na danto pars as industries e
1966 sear um marco lembrana como o ano-bae pa a l n, pare a tra
dma e da fo um proceaw do va- 9a11h0 a Para o conl6rto,
no progress, nahistoria do loriza;io a creacimanto das 1Q
Para. Com a lnaugura;in oportunidadea de trabalho no 19 6 o ano do 80so
das novas unidades gera- mercado do Park, com mais mil quilowatts em Bel6ml



FORCA E LUZ DO PARA S.A
0 alos perandoproressol/








a Folha do Norte. Daf "o aban-
dono em que fica o arraial, re-
lativamente cedo", pela falta
de assento para os seus fre-
qiUentadores. 0 pior, acrescen-
tava o famoso m6dico, era que
pelas informaqoes por ele ob-
tidas, "as cadeiras, tanto as de
embalo como as comuns, es-
tdo por precos exorbitantes".

CEPC
Nota da coluna "Fatos Estudan-
tis", de Fernando Moreira de
Castro Junior, na Folha do Nor-
te, em 1962:
"Estao pr6ximas as eleiq6es
do Centro Civico Honorato Fil-
gueiras do CEPC. Tudo indica
que Haroldo Gongalves e Ma-
ria de Nazar6 Camardo sejam
candidates a presidencia. Co-
menta-se que a desavenqa ha-
vida entire os dois foi em con-
seqUiincia do candidate a vice
na chapa de Haroldo Gonqal-
ves, que 6 ojovem Milton No-
bre", o atual president do Tri-
bunal de Justiqa do Estado.


FOTOGRAFIA

TV Globo: no comepo


Ferrovia
Corn um registro de dois curtos
pardgrafos, A Provincia do Parad
noticiou, no dia 9 de junho de
1964, que na v6spera foi suspen-
so o trifego de trens nos ramais
de Icoaraci, Benjamin Constant e
da Col6nia do Prata, que integra-
vam a linha da Estrada de Ferro
de Braganqa. A ordem partira da
interventoria da Rede FerroviA-
ria Federal. 0 motivo: a operaqgo
dos ramais dava prejuizo, agra-
vando o deficit da Bragantina. A
erradicadio acabaria se esten-
dendo a toda a ferrovia.


Augusto Rodrigues, irmao de Nelson Rodrigues,
criou esta charge (reproduzida pela Folha Vesper-
tina de julho de 1957), a prop6sito das manobras
que Roberto Marinho entdo iniciava para garantir
seu canal de televised. 0 intermediario na opera-
qgo era Augusto Frederico Schmidt, misto de em-
presario e intellectual, uma das pessoas que maior
influencia exercia sobre o president Juscelino Ku-
bitscheck (redigiu alguns de seus mais c6lebres


discursos). Meio s6culo depois, jA poderosa, a Glo-
bo dedica uma mini-serie especial a JK, que jA estava
no ostracismo e perseguido pelos novos donos do
poder, os militares, quando a entao ainda inexpressi-
va emissora de TV de Roberto Marinho desbancou a
Tupi, de Assis Chateaubriand. E nao parou mais de
crescer e acumular poder. A legend da charge diz:
"Roberto Marinho: -Agiienta a mio, Schmidt, senio
nos tiram o canudo da boca".


. e. e 0 0 0 O O S 0 0 0 0 0 0 0 *0 0 0 0 0 0 0000


Piedade
Carta que "um morador" da rua
Piedade escreveu, em agosto de
1963, a coluna "Vozes da Rua",
da Folha Vespertina:
"Os moradores da rua Pieda-
de, rua distant um quarteirdo da
Praqa da Repdblica, estao sendo
prejudicados por uma verdadei-
ra nuvem de carapanas, que os
vem impedindo de poder gozar o
merecido repouso noturno.


Eu, por exemplo, estou corn
minha esposa acamada de im-
paludismo, enquanto as crian-
qas passam as noites mal dor-
midas, pois temos de um lado o
calor que nio permit o uso de
mosquiteiros e de outro os fa-
migerados carapands.
Assim, fazemos um veemente
apelo ao Dr. Schaff [trata-se do
medico JoseMiguel Scaff, que vi-
ria a ser director do Museu Eni-


lio Goeldi], chefe da Circunscriiao
da C. E. M. [Campanha de Erradi-
caqdo da Maliria], neste Estado,
para que made dedetizar os vivei-
ros desses insetos, que sao as va-
las da baixa compreendida pelas
ruas Sao Jer6nimo, 28 de Setem-
bro e Travessa da Piedade e Ben-
jamin, a fim de minorar o sofrimen-
to desses pobres moradores".
Uma Bel6m de apenas quatro
decadas atrAs.


CARTA


Quem ao lado?
Tenho acompanhado atentamente as noticias sobre as ayoes judiciais
(6nfase A agressao fisica de 21.01.05) intentada por um dos membros da
familiar proprietaria do maior matutino da Amaz6nia contra a pessoa desse
jornalista, principalmente no Jornal Pessoal, uma vez que a imprensa local
-excefao para o Diario do Pard ignorou olimpicamente o caso. A prop6sito
da iltima noticia acerca do comportamento da Unesco, correspondencias
datadas de 13.04 e 11.05.05, no ano rec6m findo, tentei imaginar o desdobra-
mento de toda esta questao no seio da comunidade que o cerca, isto 6, daque-
las pessoas que compartilham mais amiiide do seu convivio. Observa-se
nitidarnente nos seus comentArios quinzenais a fuga da maioria dos costumei-


ros parceiros, e atW uma possivel defesajuridica Ihe foi negada por um antigo
coevo, sem justificativas plausiveis, ou talvez para nao se incompatibilizar
com os "donos do poder", segundo se depreende.
0 mundo 6 o que vemos, porque a maioria das grandes fortunes e dos
grandes imp6rios (inclusive os jornalisticos) foi construida em parceria com a
corrupqao em detrimento da miseria das populaqoes perifericas. Eles infrin-
gem as leis e impoem ai sociedade humana os seus conceitos moralisticos e
dticos. Corroboram na elaboraglo de normas e regras comportamentais, mas
vivem acima delas. A vida em sociedade 6 assim: nada como urn punhado de
anos de boas aybes e fatos desabonadores. Esteja atento, ainda sobram-lhe
muitas forqas e uma r6stia de esperanqa dos que estao ao e do seu lado.


Journal Pessoal I-QUINZENA JANEIRO DE 2006 11










Shakespeare em portugues


Um present precioso, a editor
Landmark colocou ao alcance do
leitor brasileiro no final do ano
passado: uma edicgo bilingiie corn
todos os 154 sonetos de William
Shakespeare, numa edicgo elegant
de 334 piginas. 0 livro 6 s6lido:
suportard sem problema leituras e
releituras dos admiradores daquele
que pode ser considerado um dos
maiores versejadores de todos os
tempos, ombreando-se aos maiores
criadores da literature mundial, como
Dante e Cam6es. mais ou menos
contemporaneos e afins.
Shakespeare 6 inesgotdvel, como
todo cldssico. Sua simplicidade 6
traiqoeira e 6 tamb6m sua maior
qualidade. S6 nos damos conta de sua
complexidade temitica e de estilo -
depois que terminamos a leitura de suas
obras. Imediatamente dispostos a
refazer a leitura, descobrimos que 6



Mais respeito

A polemica sobre o uso do retroporto de
Bel6m ji chegou a justiga, mas nao a opi-
niao piblica. 0 Ministdrio Pdblico Federal
quer impedir que a Companhia das Docas
do Pard, uma empresa federal, transform a
area posterior do porto em terminal de con-
teineres. A prefeitura municipal endossa o
piano da CDP, trocando esse terreno por
obras que prolongariam a avenida Pedro
Alvares Cabral pela mindiscula rua de Be-
16m, hoje uma nesga de terra entire terrenos
particulares. 0 argument 6 que a cidade terd
uma nova fonte de renda e reforqari a fun-
qao econ6mica do porto, transformado, em
tres dos seus velhos galpoes, em local tu-
ristico: a Estaqdo das Docas.
No meio desse contencioso, o presiden-
te da CDP, Ademir Andrade, abusou do seu
direito de fazer reparos a uma decisao con-
trdria ao seu projeto dajuiza Rosileide Fi-
lomeno, da 21 vara civel da capital. Classifi-
cou a decisao de "uma coisa maluca". A
grosseria provocou de imediato uma escon-
dida mas endrgica nota de desagravo
que a Associaqdo dos Magistrados mandou
publicar na imprensa.
Com toda razao, a Associaqco estranhou
que o ex-senador, desconhecendo principios
elementares de direito, tenha reagido corn
palavras agressivas contra a sentenciante. 0
que devia fazer era promover o recurso cabi-
vel contra a decisao desfavordvel. Era mais
pritico, correto e decent, sobretudo quan-
do os envolvidos sao autoridades piblicas,
por isso mesmo com a obrigaqgo de dar bom
exemplo aos cidadaos. Ao inv6s de apelidar
de "coisa maluca" a decisao, o president da
companhia devia demonstrar o erro cometi-


precise voltar para assimilar o que
passou despercebido, tal a fluencia da
escrita e a cadencia do enredo.
Construida em versos, sua obra
teatral 6 um didlogo com seus ouvintes.
Ja os sonetos constituem um solil6quio
do autor a respeito de si e dos outros,
sem inibi~qes, no apice da potencia
criativa. Shakespeare concluiu o
primeiro soneto quando estava
passando dos 34 para os 35 anos
(morreria com 52). Ji se livrara do
receio de enfrentar o convencionalismo
de sua 6poca e de se encarar de frente.
Mas a linguagem 6 sempre um desvio
para o mistdrio e a ambigiiidade. Suas
poesias sdo rebuscadas, filigranadas.
Traduzi-la 6 praticamente
impossivel, como toda grande poesia. 0
escritor e politico portugues Vasco
Graga Moura, que traduziu um terco
dos sonetos ha 25 anos, provocado pela
Bertrand Editora a fazer a versto


do, nao segundo a t6cnica judicial (por Ihe
faltar compet8ncia especifica para isso), mas
em relaqAo ao conte6do da questao.
Isso, por6m, ningu6m atd agora fez para
o distinto p6blico, que pode nao estar inte-
ressado na perlenga, mas por ela serd afeta-
do. 0 porto de Bel6m nao pode ser simples-
mente arquivado porque algu6m assim o
quis, transformando-o num polemico ponto
turistico, subsidiado pelo poder piblico e
administrado corn mio de ferro pelo secre-
tirio de cultural. Mas tamb6m nao 6 aceiti-
vel que se tome estacionamento de cont&i-
neres vazios que demandam Manaus, vin-
dos do Sul do pais, ou vice-versa. E pouco
ganho para tanto desgaste de uso e de imo-
bilizagao em area nobre da cidade.
E dever de um cidadao, mas, em especi-
al, de autoridades, respeitar uma sentenga
judicial, mesmo quando nao se concorda
corn ela. Mas nem porque o ex-senador Ade-
mir Andrade se excedeu em demasia, a As-
sociacgo dos Magistrados pode ou deve
- usar contra ele um preconceito. Ademir 6
baiano, mas j estd aqui faz tempo suficien-
te para se haver tornado paraense adotivo.
E mesmo que fosse resident recent na ter-
ra, o Para bem ou mal integra uma federa-
qao. Nao tem sentido a discriminacgo contra
imigrante feita pela nota de desagravo aju-
fza da 21' vara civel. Al6m de odioso, esse
provincianismo s6 traz prejuizo.
0 assunto admite mais que isso, exige -
seriedade, discemimento e respeito muituo dos
que o tratam ou sobre ele decide. Tmrn que
decidir em favor do povo e nao em fungAo de
suas idiossincrasias ou seja lI qual for o
m6vel de suas ages. Ditas ou escondidas.


integral, trocou o verso de 12 silabas
pelo decassilabo e em tr6s semanas de
trabalho intense chegou a mais
satisfat6ria das transcriqaes dos
sonetos shakespearianos. A opcao nio
estd isenta de restricqes, mas
conseguiu aproximar o texto em
portugues da fluencia e concisdo do
original, mantendo a boa rima.
Quem quiser continuar os exercicios
do tradutor (sempre traidor), teri diante
de si amplas possibilidades de
experiment lingUifstico. Mas 6 pouco
provivel que se saia melhor do que
Vasco Graca Moura. Confiante, como
os bons tradutores (ou traidores), ele
ofereceu o original ao lado de sua
versdo. Com isso ganham todos, mas,
no fim, mais que todos, o tradutor.
Os sonetos completes sdo um
mimo para os mais exigentes.
Recomenddvel para comeqar
bem 2006.




LIVRO
Meu livro, Guerra Amaz6nica (edi-
qIo Jornal Pessoal, 300 piginas, R$
30,00), continue a venda nas bancas e
em algumas livrarias. Espero que os lei-
tores se interessem por ele. Poderd aju-
dd-los a
responder
a muitas
diividas e
questiona-
mentos so-
bre a atua-
qgo da im-
prensa no a
Pardi nos .
ii 1timos o s
anos. Ea
desfazer
equivocos
e mitos.

ERRATA
O governor federal aplicou nove mi-
lhies e nio nove bilhoes de reais no
Hospital Metropolitano, que o Estado
construiu em Ananindeua. Espero que
o leitor tenha logo percebido o evidence
erro de digitaqgo, na ediqao anterior.



Journal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto
Ediao de Arte: L. A dge Faria Pinlo
ProduVAo: Angelim Pinto
Contato: Tv Benjamin Consiant 645'203;66 053-
040 Fones: (091) 3241-7626
E-mail: |ornal@amazon com br




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