|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
ornal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO DEZEMBRO DE 2005 2aQUINZENA N9 359 ANO XIX R$ 3,00 SOLUS, TOTUS, UNUS Tucanos ja tem candidate? 0 governador Simao Jatene garantiu aos vereadores de Belem que o nome para sua sucessao e o de Almir Gabriel, que o antecedeu. 0 PSDB pode conseguir, no Parai, o que pretendeu alcangar no pals: mais de 20 anos seguidos no poder. Como isso sera possivel? E a que prego? O ex-governador Almir Gabriel e o atual secretario especial de gestao, S6rgio Leao, formarao a chapa govemista que dispu- tara a eleiqao do pr6ximo ano pela coliga- dio "Uniao pelo Pard". Luiz Otdvio Cam- pos sera o candidate a reeleiqco para o Se- nado. 0 governador Simao Jatene ird at6 o final do seu mandate, tornando-se o prin- cipal cabo-eleitoral em 2006. Depois, po- der6 escolher um novo rumo: continuar na carreira political ou abandond-la. Foi o que o pr6prio Jatene anunciou no dia 15, na confraternizaqgo com os verea- dores de Belem. Para dissipar qualquer ce- ticismo, pediu a "base aliada" para ji co- mecar a trabalhar pela divulgaqgo dessas candidaturas. Quem quiser se juntar ao PSDB tera que aceiti-las como premissa. 0 martelo jd foi batido, garantiu o gover- nador. Mas alguns vereadores sairam do en- contro sem a conviccqo que Jatene Ihes quis transmitir. Ainda hi relutincia em acei- tar sua desistencia como fato consumado. Mesmo sem acesso ao teor do documen- to, eles fazem referencia ao resultado de uma pesquisa que aponta o governador como o mais cotado dentre todos os pos- siveis candidates. Seu indice de preferen- cia 6 superior ao de Almir Gabriel. Por que nio ele, entao? E imbativel, apostam alguns "tucanos". Se nao 6 imba- tivel, 6, pelo menos, a mais forte das alter- nativas da situacqo. Se realmente nao tiver desistido da dispute por motivo de foro intimo, pode impor sua candidatura ao pr6- prio Almir, se for bater chapa com ele na convenqgo. Mas uma divisao aberta no PSDB, irradiando-se para a coligagio, fa- voreceria seus adversaries. Daf a preocu- paqgo em aparentar unidade, embora ela seja figure de ret6rica atualmente. Um outro dado important da sonda- gem a qual todos se referem e raros co- nhecem 6 que Jader Barbalho seria o nome mais forte para a 6nica vaga de se- nador que sera colocada em jogo no pr6- ximo ano. Se essa tendencia realmente existe, talvez seja mais ficil para Jatene ou Almir ganhar a dispute para o governor do que para o Senado. Daf porque esta iltima hip6tese nem esteja sendo cogitada por CONTINUE NA PAG i TERCEIRIZAQAO TUCANA COLOCADA EM QUESTAO PAGINA 3 0 SERTAO CRESCE NA AMAZONIA PAGINA 4 iL ; Ij CONTINUA;AO DACAPA ambos. Outra conseqtiencia 6 a fdcil acei- taqlo da nova candidatura de Luiz Otdvio. 0 "senador do governador" parecia con- denado ao rebaixamento para a Camara Fe- deral na conjuntura anterior, com inflaqco de pretendentes ao Senado. A came de pescoqo ficard reservada a "Pepeca". Ou ele tem alguma carta escondida na man- ga? Um acerto dentro do PMDB? Parte da resposta vai defender da defi- niqdo do seu correligionario e chefe parti- ddrio. Jader Barbalhojd se movimentacomo candidate a cargo majoritdrio, o que signi- ficaria que ele nao se contentari mais comr a Camara Federal, em cuja atual legislature foi uma das figures menos visiveis. Ele qua- se nao apareceu em plendrio, mas teve atu- aqdo intense nos bastidores, sobretudo nos moments de crise, como linha auxiliar do governor federal dentro do PMDB. Naturalmente, essa discricgo tamb6m tem a ver com a image desgastada do politico paraense. Basta que ele se exiba em piblico para atiqar algum dos muitos inimigos que criou, virios dos quais pode- rosos, como o senador Antonio Carlos Magalhaes. Independentemente da causa desse padrdo de comportamento, Jader ja estA novamente mais afeito a uma atuaqdo senatorial do que de deputado. Tentari o complicado caminho de volta A camara alta, da qual saiu pela porta dos funds? Ou ten- tard um lance ainda mais arriscado, de voltar ao governor? 0 desastre (ao menos de imagem) do PT no exercicio da administracao federal pare- ce estar funcionando como mata-borrao para politicos que se desgastaram pelos mesmos motives nos quais o partido do president Lula da Silva se encalacrou: a corrupIo. Essa surpreendente reversdo aconteceu em Sao Paulo com Orestes Qu6rcia, que renasceu das cinzas para um folgado primeiro lugar nas sondagens preliminares. 0 fenomeno po- deria se repetir no Pard? Certamente as condiqes nao sao as mesmas por aqui, mas hd um element inquestiondvel: a falta de alternative real de poder ao PSDB, tao forte que esti im- pondo aos aliados uma chapa totalmente "Tucana". Essa 6 uma circunstancia que pode favorecer a decisao do partido de concorrer com o segundo colocado nas pr6vias e nao com o primeiro, como seria 16gico, embora outra circunstancia tam- b6m deva ter influido na estrat6gia do par- tido: a entrega da mdquina puiblica A vice- governadora Val6ria Pires Franco, do PFL. Os "tucanos" temem que Val6ria, estimu- lada pelo marido, o deputado Vic Pires Franco, do mesmo partido, tenha pianos pr6prios, que podem nao se identificar com os do "tucanato". Por isso, Jatene ficard at6 o fim do mandate. Mas esse vAcuo pode tamhem se trans- formar em fator favoravel a timaa "zebra", um candidate que consiga explorer os pon- tos fracos do "tucanato". Um desses pon- tos 6 a pratica do PSDB de alardear mais do que faz, compensando com a propa- ganda o que deixa de fazer, ou multipli- cando fantasiosamente, pelo efeito da am- pla divulgacgo, o que de fato faz. Mas quem poderi ser essa "zebra"? A busca da pergunta leva a uma cons- tataqgo: a pobreza dos quadros politicos no Estado e a falta de renovagao na elite dirigente. Sao tao frageis as ligacqes entire os politicos e seus representados que ne6- fitos descem de pdra-quedas no topo da administrator puiblica, sem fazer carreira political, embora os cargos que ocupem sejam preenchidos atrav6s de eleigao. Essa via de ascensao ripida e direta debilita o process politico, mas, ao mes- mo tempo, enfraquece a posiqao dos be- neficidrios dessa pritica. Uma pessoa pode estrear em eleicgo jd disputando o governor do Estado, como aconteceu corn o economist e professor Simao Jatene. Conta em seu favor, ele ter participado da administraqCo pdblica, em cargo de chefia, a partir de 1983. Graqas a esses antecedentes, ji possufa duas d6cadas de contato com as engrenagens internal da maquina do poder no moment em que foi apresentado como candidate a gover- nador. Mas outros nem passam por essas escalas, como a vice-governadora, Vale- ria Pires Franco. Nao deixa de ser ironico que esse tipo de escalada era apontado, durante o regi- me military, como algo bionico, pr6prio de um process autoritdrio, que impunha os candidates do "sistema" goela abaixo dos seus aliados, os politicos profissionais, de cima para baixo. A political era uma pan- tomima, quando muito um teatro. 0 go- verno, todo-poderoso em fundao dos ins- trumentos de excegao que manejava, se obrigava a participar dessa teatralizaqdo. A encenaqdo dissimulava sua essencia di- tatorial, mas dava a cada ator o papel que Ihe cabia interpreter. As coisas nao sao mais exatamente as- sim, mas permanece um tom algo pareci- do. Algu6m que 6 escolhido pelo chefe do partido ou o dono da situaqao, mesmo sem ter a menor densidade eleitoral, aca- ba se tornando competitive por dispor de uma pesada estrutura de apoio, que com- preende desde o hoje tao popularizado caixa dois at6 os velhos mecanismos da maquina official, que quase sempre tan- genciam ou fraudam a lei. Nao surpreen- de que autenticos postes eleitorais sejam eleitos e, no exercicio do mandate con- quistado, acabem se tornando lideres po- liticos. Ou desapareqam depois, como o primeiro vice-governador de Almir Gabri- el, H6lio Gueiros Jr. Quando o povo 6 uma abstragao ou uma entidade facilmente ma- nipulivel, isso nao surpreende. 0 Brasil, de fato, ja 6 uma democracia. Cheia de buracos e remendoes, mas, ao menos em tese, uma democracia. Falta- lhe, para que tenha vida mais longa e se proteja das constantes recaidas autoritari- as, nas quais o pais tem sido pr6digo, mais democrats e mais aquele componcnte vi- tal dessa preciosa invendao political: o povo. Que, como na fundadao da repliblica, con- tinua A distancia, bestificado. A nova Sudam Desde que chegou ao Se- nado, em agosto, depois de aprovado pela Camara Federal, o projeto de recriadao da Su- dam tramitou normalmente, no padrao legislative do pass de cigado. Mas em menos de 24 horas passou pela iltima das tres comissies t6cnicas as quais foi submetido e recebeu a aprovadao unanime dos 56 senadores presents A sessdo noturna do dia 13. Por que a aceleragao? Motives t6cnicos e relevantes foram apresenta- dos, mas um, o que nao foi de- clarado, parece ter pesado na mudanqa do andamento: o ano eleitoral de 2006. Se o encerramento do perio- do legislative atual nao for mera coincid8ncia para a aprovaqgo a toque de caixa, certamente o re- nascimento da desacreditada Sudam, mesmo corn todos os seus nobres prop6sitos e eleva- dos mecanismos, estarA sob suspeita novamente. Esperemos que os receios venham a se mostrar improcedentes. Ha mecanismos propostos para impedir que a nova supe- rintendencia caia na espiral de erros da antecessora e num lo- daqal de fraudes. Por isso, o substitutivo ao projeto original, apresentado pelo executive fe- deral, ainda sera submetido ao referendo dos deputados. Mas essa necessidade parece ser mero detalhe de ajuste. A Cama- ra deveri dar sua aprovagao. At6 mesmo porque sao propostas que visam um melhor control externo da nova Sudam por co- legiados distintos, algo que pode significar aperfeiqoamen- to, desde que subsista aos im- petos da hipertrofia burocritica. Al6m do problema do calen- d6rio, a superintendencia tern sob sua cabeqa o peso de qua- tro anos de promessas desde que o 6rgao que a antecedeu foi extinto, depois de 34 anos de buscas um tanto infrutiferas do que 6 seu objetivo: o desenvol- vimento regional. A Amaz6nia, sem d6vida, cresceu nesse peri- odo. Mas daf a ter-se desenvol- vido vai uma distancia conside- rAvel. Distancia a desafiar a cria- tura que agora vai ocupar seu lugar no proscenio. Sera que leva um texto convincente para ler? 0 script disponivel 6 uma inc6g- nita. Resta, entao, a velha e pru- dente attitude: esperar para ver. 2 DEZEMBRO DE 2005 *2"QUINZENA Jornal Pessoal O hospital metropolitan e a polemica terceirizagao Agiu corretamente o Minist6rio Pdblico Federal ao ajuizar, no dia 9, acao civil pdbli- ca para impedir que o governor do Pard ter- ceirize a administraclo do Hospital Metro- politano, em fase final de obras para ser inau- gurado no pr6ximo dia 20. 0 interesse da Procuradoria Regional da Repdblica na ques- tdo sejustifica: nove bilhbes de reais de re- cursos federals foram aplicados no hospi- tal, um dos mais modernos do Estado, al6m das verbas priprias alocadas pela adminis- tracgo plblica paraense. Apesar de a iniciativa privada nao ter co- locado um centavo na obra, a Secretaria de Saide cedeu a gestao do hospital A Associa- qdo Cultural e Educacional do Pard. AAcepa 6 uma organizaqdo social (OS) privada sem fins lucrativos. Ela tamb6m 6 a mantenedora do Centro de Ensino Superior do Pard, o Ce- supa, uma universidade particular. Segundo a agao do MP, o contrato, assi- nado em 21 de novembro, foi o 980 da atual gestao estadual, transferindo a Acepa a ad- ministracao de um hospital capaz de propor- cionar faturamento annual de quase 50 milhies de reais. Apesar desse valor significativo, o governor nao considerou necessArio promo- ver licitagao pliblica. Os sindicatos dos m6- dicos e dos trabalhadores em sadde nao con- cordaram com o ato e decidiram encaminhar representaqoes A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadao do MP federal, denunci- ando diversas irregularidades. Na acao protocolada na 1a vara dajustiqa federal em Bel6m, cujo titular 6 o juiz Jos6 Airton de Aguiar Portela, os procuradores Rodrigo Telles e Ubiratan Cazetta alegam que o governor do Estado nao poderia transferir a administracao de um hospital construido corn dinheiro piblico para um ente privado, por contrariar a Constituiqgo e as regras do Sis- tema Unico de Saide. Dizem ainda ter verifi- cado vArias irregularidades no contrato. A falta de licitacgo, por exemplo, contraria a lei fede- ral 8.666, de 1993, que regular a mat6ria. Os procuradores tamb6m constataram, com base nas denincias recebidas, que a Acepa tem dfvidas considerdveis com a pre- videncia social. Por causa da inadimplen- cia junto ao INSS, a empresa nao poderia assinar qualquer tipo de contrato com o poder piblico. Sintomaticamente, logo depois do rece- bimento da acgo, a Policia Federal apreen- deu documents contdbeis da entidade man- tenedora do Cesupa, sob a alegaqgo de que ela se recusava a entregar documents soli- citados pela previd6ncia para a apuraqao de irregularidades constatadas. A Acepa negou esse fato atrav6s de nota official publicada na imprensa, na semana passada. Disse que se tratava de uma arbitrariedade e que se encontra completamente regularizada, nao se negando a prestar informaqoes. 0 con- tencioso instaurado ird definir quem estd com a razdo, agora que os registros serdo submetidos A auditagem. 0 Ministdrio Piblico Federal suscita ain- da a hip6tese de procedimentos suspeitos por trAs da terceirizaqdo do Hospital Metro- politano. De um lado, o governor passou a contratar pessoal sem precisar se submeter As regras do concurso publico, jd que o hos- pital seria privatizado. Os procuradores di- zem na agio que constaram o funcionamen- to, nas instalaqdes do pr6prio hospital, de um servigo de recebimento de curriculos de interessados em trabalhar na unidade, que teria funcionado at6 outubro, antes mesmo da decislo sobre a gestlo da unidade. A terceirizacao, por outro lado, atenderia o interesse do Cesupa de montar um curso de medicine, para o qual seria necessdrio dis- por de um hospital-escola. Assumir um hos- pital pronto, modern e com receita aprecid- vel, seria o melhor que podia acontecer ago- ra, lembram os procuradores federals. Procedente ou nio, a acao judicial vai possibilitar o estabelecimento do contradit6- rio e a elucidaqgo de uma questlo grave. Em tempo curto, o Estado montarA uma rede de seis hospitals fora da capital, com investi- mento que deve chegar a 150 milh6es de re- ais. E uma iniciativa sem paralelo no setor. Tamb6m 6 inusitado que, ao inv6s de admi- nistrar diretamente esses hospitals, o gover- no os transfira A iniciativa privada. Justifica- se a decisao com o argument de que o custo da operaqgo barateia e melhora o atendimen- to ao piblico se a administraclo 6 repassada As Organizaq6es Sociais. 0 modelo estaria dando bons resultados em outros Estados, como Sao Paulo. E uma hip6tese. Mas precisa ser testa- da. Ha varios components indefinidos nes- se modelo. As OS podem ser p6blicas ou privadas. Independentemente de sua natu- reza, um fator important 6 o das disposi- qdes contratuais. E, antes da definiqdo das regras operacionais, os crit6rios de seleqio. Os defensores do procedimento adotado no Pard dizem que tudo isso foi seguido criteri- osamente, mas quem, fora do circuit dos personagens diretamente interessados ou envolvidos, pode atestar essa verdade? 0 process seletivo foi muito fechado. Por mais rigoroso que tenha sido, nio contou com participaqdo externa. Essa caracteristica 6 coerente como o modo de agir dos "tucanos", que nao gos- tam de ser fiscalizados e questionados, pre- sumindo sua excel6ncia. Mas nao preenche as exig8ncias do servico p6blico. Logo, a acgo do MP pode atrasar o cronograma e criar embaraqos, ou atW mesmo incorporar acusa- q6es insubsistentes, mas rep6e o trem no tri- Iho da racionalidade: primeiro 6 precise que a opinido p6blica esteja bem esclarecida e ap6ie a media, antes de colocd-la em pritica. Como vinha acontecendo, a carroqa estava atras dos bois. Ou dos "tucanos". Uma das marcas do process de privati- zaqao dos social-democratas brasileiros 6 onerar demasiadamente o Estado e aliviar a outra parte do contrato, o que, se nio 6 indf- cio de m6-f6, 6, pelo menos, um ponto a es- clarecer. Um exemplo ilustrativo desse tipo meio esquizofrenico de privatizaqgo 6 o da Estaqao das Docas. Todo investimento, de 20 milh6es de reais, foi assumido pelo gover- no. A gestao foi transferida a uma OS, a Pard 2000, integrada por pessoas selecionadas a dedo pelo criador da obra, o secretdrio de cultural, Paulo Chaves Fernandes. Na pritica, ele comanda o process nos dois extremes da relaqao contratual. Auto- riza a liberaqio de recursos pdblicos para a execuqao de iniciativas propostas pela OS, mas 6 quem esta por trAs da Para 2000, atra- v6s de pessoas de sua confianga. Ali s6 se faz o que ele quer. Essa forma de gestao pliblica nao seria ins6lita no s6culo XVIII, mas ji nao estamos sob o guante do des- potismo esclarecido. Muitos questionaram o modelo de ges- tao da Estacao das Docas. Discusses A par- te sobre o mdrito da questlo, um fato indis- cutivel 6 que a Pard 2000, ao final de cinco anos de existencia, nao consegue caminhar com os pr6prios p6s. Agora mesmo a Secre- taria Executiva de Cultura Ihe repassou R$ 296,5 mil para o reveillon, uma promoqgo co- mercial, com ingressos vendidos (mas com muito "penetra" chapa branca, provavelmen- te). Tudo bem que a verba servird para pagar escolas de samba, bois-bumbds, cantores, me- nestr6is, poetas, trovadores e os demais "brin- cantes" que se exibirlo para a distinta pla- t6ia. Mas o cofre da Pard 2000 6 furado? Se nao 6, "furado" 6 o esquema que a mant6m: uma ficqgo que, no final, vai co- brar seu preqo na boca do caixa pliblico. Como sempre. SCENARIOS Depois de um intervalo de tres anos, a Eletronorte voltou a planejar as ativida- des do setor el6trico sob a sua jurisdi- iao, territorialmente a maior do Brasil e, por potencia instalada, a terceira mais important do pafs. Na quinzena passa- da a empresa apresentou os "Cendrios Macroecon6micos para a Amazonia 2005-2025". Nos anteriores, a Eletronor- te e seus consultores mais erraram do que acertaram. 0 balanco talvez reco- mendasse a adogao de outra metodolo- gia. Como nao vi a nova verso, fica a ressalva, sujeita a verificaqao. Jornal Pessoal *2QUINZENA DEZEMBRO DE 2005 I 0 sertao que cresce Em 1972 foi proibida a exportagao de ma- deira em toras da Amaz6nia. Na mesma 6poca - como ainda hoje a naqgo mais poderosa do mundo, os Estados Unidos, ainda se per- mitia mandar para outros pauses suas arvores em bruto. Vi com meus pr6prios olhos, no extreme noroeste, no Oregon, a destruiqgo das ultimas grandes concentrates de flo- resta native do pais. As toras eram exporta- das para o Japio. E ningu6m achava nada de normal nesse fato. Significava que tinhamos e temos muito melhor consciencia do problema? Talvez. Ou nem tanto. Dados estatisticos do IBGE mos- tram que 55% de toda madeira em tora que circulam pelo Brasil tem origem no Para. E que apenas 10% dos municipios paraenses responded por mais de 37% da produqgo de madeira bruta national. Esses municipios es- tdo em Areas do chamado "Arco do Desflo- restamento" (que jd foi "Arco do Desmata- mento" e parece a meio caminho, na suces- sao de batismos, de acabar se consagrando como "Arco do Defloramento"). Mas Obidos jd faz parte dos 14 municipi- os paraenses com maior produqgo de toras (em 20 do ranking national). Isso significa que a investida sobre novas Areas de floresta continue, ignorando a tal da consci&ncia. Se nao mandamos madeira bruta para os estran- geiros, a enviamos para nossos irmros do Sul, que a processam e nos devolvem na for- ma de produtos acabados. Como sao merca- dorias mais caras, se com o exterior nossa balanqa commercial 6 altamente superavitAria, com nossos irmaos do Sul 6 extremamente deficitdria. 0 que ganhamos do Japao ou da Europa, transferimos para o Sul Maravilha. Sem que essa sangria seja considerada moti- vo para discursos em defesa da soberania national, ofcourse. A expansao do desmatamento 6 tdo ace- lerada que As vezes s6 nos damos conta de sua expressao quando ela j6 6 realidade pronta e acabada. Na d6cada de 70 um dos debates no Estado era se o primeiro trecho da PA-279 entlo aberto, entire Xinguara e Slo F6lix do Xingu, devia ser concluido ou nao. Mesmo sem a rodovia estadual, jd ha- via intense ocupaalo humana ao long do traqado previsto. Mas se sabia que uma vez aberto o caminho, o process se tornaria incontroldvel. Como Sao F61lix possuia mui- ta floresta native e muitas Areas indigenas, pensava-se num piano, bem estruturado, que evitasse que a expansio continuasse a ser desordenada. Hoje, Sao FMlix do Xingu 6 o segundo municipio brasileiro em rebanho bovino, ocu- pando lideranqa destacada no Pard, com seu efetivo de mais de 17 milhaes de cabeqas, ou 17% do total do pais. Se na 6poca fosse rea- lizado o levantamento de aptidio de uso em Sao F6lix, como se pretendia, ningu6m indi- caria a pecudria como vocaqio. Agora que a situaqao estd criada, o que nio faltam sio explicacqes para essa anomalia. Claro: ela se explica por causa do desmatamento. A Ama- z8nia deixou de existir nessas Areas. A Ama- z6nia propriamente dita esta sendo acuada nos espaqos que ainda nio adquiriram valor de mercado. Enquanto isso, cresce o Centro- Oeste. Quer dizer: o sertio. Joio Guimaries Rosa 6 quem tinha razio: nao h6 porteiras para o sertao. 0 Brasil, que na letra de Chico Buarque e Ruy Guerra se tomaria um imenso Portugal, esta condena- do a ser um grande sertio. S6 vereadores. Museu da guerrilla Ha 10 anos existe, em Sao Geraldo do Araguaia, um Museu da Guerrilha. Ele 6 for- mado por 68 peas de utensilios dom6sti- cos, de trabalho e de combat que militants do Partido Comunista do Brasil utilizaram nos focos de guerrilla que criaram na regiio, entire 1969 e 1974. Nao 6 nada valioso nemrn muito representative. Mas ao inv6s de apro- veitar a idWia, o prefeito Manoel Soares da Costa, do PSDB, parece estar disposto a acabar com ela no nascedouro. Segundo mat6ria de Hiroshi Bog6a no Di- dirio do Pard, o museu esti ameagado pelas diferenqas political entire o president da enti- dade mantenedora, Eduardo Lemos Porto, e o prefeito, mais conhecido como Manelio. Ele pediu de volta o pr6dio onde funciona o mu- seu, de propriedade municipal. Provocado a intervir, o Minist6rio Pdiblico do Estado obs- tou a entrega. Mas como o prefeito mandou sustar a verba do museu, tamb6m origindria da administration municipal, a instituiglo fechou as portas. Seu future 6 incerto e nio sabido. Ja que entrou na questio, o MP podia pro- vocar um ajuste de conduta entire as parties. Porto concordaria em se licenciar da funda- qlo, por period determinado, enquanto a pre- feitura se comprometia nio s6 em construir um pr6dio mais adequado, como tambdm a es- truturar o museu, profissionalizando-o. Pro- fissionalizar significaria eliminar eventuais components politicos e ideol6gicos na ges- tio do museu, pr6 ou contra a guerrilla, e faz&- lo funcionar tecnicamente, capaz de reunir o mAximo de informaqoes e testemunhos, orais e materials, sobre esse epis6dio hist6rico. A guerrilla foi e ainda 6 traumdtica na re- giio. Apesar do material jd produzido a res- peito, ela continue 6 mal conhecida e me- nos divulgada ainda. 0 museu se tornaria umrn centro de efetiva documentaqlo e estudo a respeito, da guerrilha em si e das circunstin- cias que tanto a tornaram possivel como le- varam ao seu fim. Funcionando segundo pa- droes rigorosamente t6nicos, o museum pode- ria criar uma fonte de atralio em Sao Geraldo, atraindo visitantes, curiosos e pesquisado- res para o municipio. Esse tipo de turismo segmentado, de natureza cultural, seria uma aprecidvel fonte de receita para sua popula- qgo e o poder publico. Ao inv6s de agir com inrracionalismo, con- vinha impor um pouco de intelig8ncia no tra- to da questlo. Para o bem de Sao Geraldo. DEPOIS DOS SAPOS A empresa de criaqlo de rd de Marcia Centeno Barbalho, esposa do deputado fe- deral Jader Barbalho, atualizou sua contabili- dade: na quinzena passada a Centeno & Moreira (sua razAo juridica) divulgou as de- monstratqes de suas contas relatives ao exer- cicio de 2004, podendo agora colocar em dia o seu balanco de 2005. 0 atraso, segundo o relat6rio da direto- ria, deu-se em conseqiiUncia "dos fatos de- sabonadores, ocorridos no ano de 2003, re- fletidos nos s6rios danos de ordem econbmi- co e financeiro [sic] ao nosso empreendimen- to". Mesmo assim, garante que "as ativida- des produtivas continual em pleno funcio- namento, ainda que com vendas restritas". Dai a manutenlio do elevado estoque, como no exercicio anterior, numa demonstraqlo "de que esta administraglo continue apostando num future promissor". Embora publicado no dia 6, o balanco 6 datado de maio, o que talvez indique as difi- culdades do trabalho de auditagem das con- tas. Mas elas sairam num moment sugesti- vo: exatamente quando a Sudam era recriada. No rumoroso process de extincio da Supe- rintendencia do Desenvolvimento da Ama- zonia, envolvida em dentincias de corrupqao, o projeto de ranicultura de Marcia Barbalho foi um dos mais criticados. Menos pelo seu valor material e mais pelo seu significado sim- b6lico. ResponsAvel pela indicaqlo dos que entdo dirigiam o 6rgio, Jader Barbalho foi apontado como o maior culpado e o maior beneficidrio dos desvios e vazamentos de recursos dos incentives fiscais. 0 criat6rio de ris da esposa seria um dos destines des- se desvio de dinheiro ptiblico. Normalizado exatamente quando a Sudam renasce das cinzas, corn dois bilh6es de reais em caixa, o ranArio agora vai passar pelo tes- te final da recuperaiio e da reabilitailo. Sem provocar a polemica de 2003. AFOGADILHO Todos os anos o executive e o legislative prometem acabar corn a prdtica danosa da convocaqlo de sessao extraordinAria para aprovar de afogadilho projetos de interesse do governor & associados em troca de um reforqo no caixa dos parlamentares. Mas o hAbito sempre se renova. Neste ano com a agravante de que os deputados irao aprovar em curto espaco, sem qualquer andlise, um nuimero record de projetos de toda hist6ria dessas convocaqoes. Para contemporizar, dos 35 projetos da pauta, tres sio da oposiqao. Quase todos esses projetos podiam e deviam ser submetidos durante o period ordindrio da legislature. Sao mat6rias sem ur- gencia, mas vArias delas importantes (outras fisiol6gicas). Na verdade, elas slo estocadas para o moment devido. Em uma semana pas- sario no plendrio pelo crivo de deputados interessados em levar um dinheiro a mais para as f6rias, que ningu6m 6 de ferro, quando a maioria das mat6rias, em tramitaaio normal, teria que ser discutida com a sociedade. Mais uma vergonha. 4 DEZEMBRO DE 2005 2 QUINZENA Journal IPessolI Unesco: outra vez a t6tica do silencio Sob o titulo "UNESCO defended liberdade de imprensa e repudia agressoes", a assessoria de imprensa dessa agencia da ONU para a ciencia, a educagao e a cultural em Brasilia distribuiu, no dia 14, a seguinte nota a imprensa: Sor ocasiio do lanqamento do Rela- t6rio Anual do Programa de Defesa da Liberdade de Imprensa, no ulti- mo dia 02/12/2005, produzido pela Associa- iio Nacional de Jornais-ANJ, o Escrit6rio da UNESCO no Brasil declara seu firme compro- misso de promover a defesa da liberdade de imprensa, trabalhar pela liberdade da midia em desempenhar seu papel fundamental e pelo direito do p6blico em ter acesso a infor- macao. E reitera seu repldio a qualquer tipo de agressao ou violencia contra profissionais que estejam no exercicio de sua profissao. Corn umrn papel crucial na disseminalao do conhecimento e da informacgo, 6 extremamen- te important que os veiculos de comunica- qdo e as associates profissionais encora- jem o exercfcio dojomalismo precise, profis- sional e 6tico. Uma midia independent, livre e plural reine as condi6oes para desenvol- ver um trabalho que contribua para o fortale- cimento democratic e o desenvolvimento social do Pais. A atuaaio do escrit6rio se orienta pelo apoio a iniciativas em favor da liberdade de imprensa, como 6 o caso da Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa, lanqada e mantida pela ANJ. Cumprimentamos a Associaqgo por seu Relat6rio, ao mesmo tempo em que escla- recemos que o apoio que a UNESCO da a todos os seus parceiros que sao muitos - nao implica em assumir responsabilidade pe- las aqoes e posiqoes deles. 0 Escrit6rio da UNESCO em Brasilia re- pudia viol6ncias de qualquer ordem que re- sultem de discordancias cornm relaqlo a livre manifestaaio do pensamento e opiniao, e ins- ta a todos os que se sentirem agredidos que faqam uso dos mecanismos legais disponi- veis no Brasil e do direito de resposta para resolver tais conflitos. Por outro lado, ao reafirmarmos o respei- to aos mecanismos legais de proteqlo do in- teresse de individuos e institui6oes, a UNES- CO repudia a utilizaqgo abusiva de recursos judiciais que cerceiam a liberdade de impren- sa e o acesso a informagao. A soluqgo de con- flitos de maneira pacifica 6 um dos caminhos para a construgao de uma cultural de paz". Informado sobre a nota, no dia seguinte dirigi as assessoras Ana Lucia Guimardes e Isabel Paula a mensagem a seguir: "Recebi neste moment c6pia do e-mail distribufdo a imprensa no uiltimo dia 2 pela assessoria da qual as sras. participam. Como somos todos jornalistas, gostaria que me ajudassem a me livrar da sensaqgo de complete non-sense que me ficou da leitura desse document. Queria entender come 6 possivel concili- ar o conte6do da gloriosa declaracao da Unes- co/Brasil, registrada nesse texto, com a in- transigente recusa dessa agencia da ONU de considerar o meu "caso" entire os 176 casos de violaqgo A liberdade de imprensa arrola- dos no relat6rio annual do Programa de Defe- sa da Liberdade de Imprensa, do qual vossa entidade 6 uma das promotoras. Para conciliar opostos, compor elemen- tos desavindos, nao cair do muro e se reser- var um conceito favoravel, independente- mente de jufzo alheio, a Unesco capricha no equilibrismo oportunista. E assim que cumprimenta a Associaqgo Nacional de Jornais (ANJ) pelo relat6rio pro- duzido, ao mesmo tempo em que esclarece que "o apoio que a UNESCO da a todos os seus parceiros que sao muitos nao impli- ca em assumir responsabilidade pelas aqbes e posiq6es deles". Confesso que nao entendi: a Unesco acre- dita que o relat6rio 6 bem feito, mas nao o assina. Diz que o relat6rio esta absolutamen- te certo, mas nao o endossa. A maneira do president da repiblica do Brasil, nao assu- me qualquer responsabilidade pelo que esta dito, embora esteja bem dito. Durma-se corn uma cacofonia dessas. Mas tentemos ser complacentes. 0 escrit6rio da Unesco ap6ia o docu- mento da ANJ, embora sem subscreve-lo, porque tern "firme compromisso de promo- ver a defesa da liberdade de imprensa, tra- balhar pela liberdade da midia em desempe- nhar seu papel fundamental e pelo direito do publico em ter acesso a informacgo", re- pudiando "qualquer tipo de agressao ou vi- olencia contra profissionais que estejam no exercfcio de sua profissao". Vejamos se a bela declaracgo tem algo a ver com a minha situagao ou nao. HA 40 anos sou jornalista professional. Soci6logo por formaclo acad6mica, sempre fui (e continue a ser) jornalista por profisslo. Todas as complicacoes que surgiram ao lon- go da minha vida se deveram a textos jorna- listicos que escrevi. Eles jA se contam por milhares, publicados por algumas das princi- pais empresas jornalisticas do pafs. Grande part deles em 0 Estado de S. Paulo, durante 17 anos consecutivos, e mesmo em 0 Libe- ral, no curso de 15 anos, alternados. Nunca fui desmentido no que 6 essenci- al. Mas admiti, declare e revi eventuais errors acess6rios, se provocado a me manifestar, inclusive em debates, quando algu6m se an- tecipou a mim ou por iniciativa pr6pria. Entre os meus defeitos nao esta a pretensao a per- feiqdo. Tenho consciencia de que somos, to- dos, demasiadamente humans. Embora, como o compositor Gilberto Gil (nada a ver com o ministry), consider a perfeicgo uma meta tao tangivel e longinqua quanto Deus. Todos os processes judiciais instaura- dos contra mim resultaram de mat6rias jor- nalisticas, escritas conforme as normas da profissao e regularmente publicadas em ve- iculos jornalisticos, legalmente enquadra- dos. Logo, o que sofri sao agressoes e vio- l&ncias perfeitamente caracterizadas contra quern esta legitimamente no exercicio da pro- fissao de jornalista. Por que, entao, essas violencias nao fo- ram incluidas no tao elogiado relat6rio anu- al da ANJ? Ou entao por que a Unesco nio sugeriu a sua parceira que considerasse a inclusao dos meus casos que, 6 bom res- saltar, nIo sao uns dois ou tras, mas deze- nas, desde 1992. Na nota que divulgaram para a midia, as sras. declaram ser "extremamente important que os veiculos de comunicadio e as associ- aqoes profissionais encorajem o exercfcio do jornalismo precise, professional e 6tico. Uma mfdia independent, livre e plural, retine as condigoes para desenvolver um trabalho que contribua para o fortalecimento democratic e o desenvolvimento social do Pais". Em tese, a declaracao merece aplausos demorados. Mas e "in casu"? Meu Jornal Pessoal, publicacao com- pletamente independent (nunca aceitou nem andncio, para nao constranger sua liberdade de expressao), que edito ha mais de 18 anos em Beldm do Para, dA sua humilde e pequena - mas decidida contribuiqdo ao pluralismo democrAtico. As vezes critic com dureza, mas nunca me afastei dos fatos. Nao poupo os poderosos por seus atos pliblicos finala, se usam A larga os favors da notoriedade, devem responder pelo seu usufruto; ao bo- nus, o onus, como dizem os academicos), mas preserve integralmente sua intimidade. Nun- ca avancei sobre a intimidade de ninguem. Respeito a soleira de todos os lares. A mat6- ria com a qual lido 6, sempre, de relevant interesse pliblico. Por isso, nem aqueles poderosos que me acionaram na justiqa se dispuseram a me mandar uma carta, exercendo o salutar direi- to de resposta (e meu journal 6 um dos pou- cos que reproduz integralmente as cartas recebidas, sem retocA-las ou sintetizA-las, mesmo se sao longas e ofensivas, o que me causa prejuizo, dadas as pequenas dimen- sbes do Jornal Pessoal). Esses persegui- dores tamb6m nao contestaram publicamen- te o que escrevi. E piblico e not6rio que s6 denuncio ou critic aquilo que posso pro- var, pelo qual respond integralmente. Qua- renta anos a proceder dessa maneira me cre- denciam a requerer o direito ao pliblico e not6rio do texto da lei. E o meu maior patri- m6nio professional. Orgulho-me dele. Foi conquistado com muito custo e empenho. Em 18 anos o Jornal Pessoal teve seu valor reconhecido. Em 1989 recebeu dois pr&- mios da Federaqio Nacional dos Jornalistas: um deles, pela reportagem mais complete so- bre o assassinate do deputado estadual Pau- lo Fonteles de Lima (um dos maiores crimes politicos no violent Estado do Para); o ou- tro, por ser considerado "o melhorjornal do Norte-/Nordeste do Brasil". Em 1997 fui o pri- CONTINUA NA PAG 6 Journal Pessoal 2QUINZENA DEZEMBRO DE 2005 5 CONTINUA;AO DA PAG. S meiro nio-europeu a receber o Colombe d'Oro per la Pace, concedido pela Archivio Disarmo, da Italia. Para dar uma id6ia do que 6 esse premio, um dos quatro agraciadosjun- to comigo foi o deputado federal John Hum- me, da Irlanda do Norte. No ano seguinte, ele recebeu o Premio Nobel da Paz. Finalmente, neste ano, fui o primeiro brasileiro (em 15 anos) contemplado com o Premio Internacio- nal de Liberdade de Imprensa do Comit8 para a Proteqco dos Jornalistas, de Nova York. Logo, o papel do Jornal Pessoal 6 re- conhecido, inclusive internacionalmente, como positive para o meu Estado, a minha regiao e o meu pais. Por que s6 desagrada poderosos locais intransigentes, temero- sos da verdade e violentos, como donos de satrapias e senhores medievais, corn poder de vida e morte? Eles podem ter la seus motives rec6nditos para achar que devem reagir a contrariedade corn sopapos e ameaqas, mas daf a Unesco achar que esse comportamento nao provoca a erosao de um dos pilares da democracia, que 6 a tole- rancia entire os opostos, ou, em outras pa- lavras, a pluralidade, vai uma distancia abis- sal. Ou nao vai, sras. assessoras? E af chegamos ao trecho mais desnortea- dor do seu comunicado. E quando as sras. dizem que o escrit6rio da Unesco em Brasilia "repudia violencias de qualquer ordem que resulted de discordancias com relaqgo A livre manifestaqao do pensamento e opiniao, e ins- ta a todos os que se sentirem agredidos que faqam uso dos mecanismos legais disponi- veis no Brasil e do direito de resposta para resolver tais conflitos". L Diz ainda a nota que a Unesco, ao reafir- mar "o respeito aos mecanismos legais de pro- teqgo do interesse de individuos e instituiqbes, (..) repudia a utilizagao abusiva de recursos judiciais que cerceiam a liberdade de imprensa e o acesso A informaqgo. A soluqgo de confli- tos de maneira pacifica 6 um dos caminhos para a construqao de uma cultural de paz". Depois de ler esse period final de sua mensagem, sentei-me e perguntei: o que fal- tou para que Ana Ldcia Guimaraes e Isabel de Paula, assessoras da comunicaqao da Unesco, se solidarizassem comigo e cobras- sem da ANJ a inclusdo dos meus casos no relat6rio sobre o estado da liberdade de im- prensa no Brasil em 2005? Final, as agressies e violencias que ja sofri (e continue sob a permanent ameaqa de voltar a sofrer) se enquadram por comple- to nos prop6sitos da agencia da ONU, no termo de compromisso que firmou em relalao ao exercicio da liberdade de opiniao e de ex- pressao. Se a premissa nao se seguiu a con- seqtiincia, 6 porque houve alguma interrup- q5o brusca, artificial e violent no desenvol- vimento da posiqgo. Por que, quando devia ser considerado como exemplo do atentado a liberdade de imprensa no Brasil, sou despe- jado arbitrariamente dessa vital dependencia dos direitos humans, dessa parte vital do estado democrdtico de direito? E a pergunta que Ihes deixo. Mais uma que remeto a posta-restante da Unesco, sem merecer, at6 agora, qualquer consideragio por parte dessa instituiqgo. Ainda com alguma esperanca, deixo-lhes meus cumprimentos". A esperanca foi em vdo: ndo recebi qualquer resposta do escrit6rio da Unesco no Brasil. Exata repeticdo do destino que essay reprpsentaido deu a primeira mensagem que Ihe mandei. Nada podendo contraditar, a organi- za(do adota a tecnica do silencio, mais eloqiiente do que qualquer explicaqdo que poderia tentar Trilha de fogo: a rota da soja Quem se der ao trabalho de examiner suces- sivas imagens de sat6lites que captam fontes de calor, nao teri duvida: 6 de fogo a rota de expansao da soja na Amaz6nia. Enquanto o desmatamento na region diminuiu 31% do ve- rio de 2004 para o verao de 2005, os focos de queimadas cresceram 1%. A discrepancia ja 6 um paradoxo. Mas ha outro, muito mais grave: enquanto em Mato Grosso houve uma diminui- qao de 34% nas queimadas, em todos os Esta- dos que fazem divisa com o maior produtor de soja do mundo, as taxas foram positives. 0 fogo, que encolheu em Mato Grosso, se expandiu por Rond6nia, Para e Acre, se- guindo como diretriz as estradas. Quase 10% de todos os 159 mil focos de calor registra- dos na-Amaz6nia at6 novembro deste ano se situaram em areas onde, em 2004, nao houve um inico incendio. Isto quer dizer que nes- Compadrio espui Durante todo urn ano ojornal mais influ- ente do mundo, o New York Times, segurou uma grave informaqao: o president George W. Bush ordenara secretamente a escuta ile- gal de aproximadamente 500 pessoas ou apa- relhos telefonicos. 0 journal nao divulgou a noticia a pedido da pr6pria Casa Branca. S6 a revelou no uiltimo dia 15, quando o segredo ji ameaqava vazar e a cumplicidade do NYT se tornara insuportAvel. Desde Richard Nixon essa situaqdo ins6- lita nio se repetia. A diferenqa 6 que, al6m de Bush abarcar muito mais gente corn sua ativi- dade clandestine, o NYT, que estava do ou- tro lado do balcao, agora se acomodou nas estruturas do poder. A conivencia foi justifi- cada com o argument de que a divulgacao sas Areas houve no ano passado grandes desmatamentos. No verdo de 2005 a Area des- matada, mas ainda "suja" por Arvores, galhos e folhas, foi queimada. Logo surgirAo os plan- tios de soja, ocupando enormes extensies continues onde, antes, havia floresta. Mas nao apenas soja: certamente essas frentes econ6micas tamb6m estao & cata de madeira e A formaqAo de pastagens. Visam ainda a apropriaiBo illegal de terras pdblicas. Os focos de fogo no interior de reserves indi- genas e unidades de conservaqao cresceram 6%, mesmo ainda sendo as Areas menos sus- cetiveis A invasdo e depredalio. Nao sdo in- violdveis. Mas se nao existissem o drama se- ria ainda maior. Infelizmente, a questio na Amaz6nia nao 6 destruir ou nao destruir, mas sim a escala e o tempo da destruigio. 0 mes- tre de obras da regiao 6 a irracionalidade. rio da informaqgo poderia ter efeitos nocivos sobre as investigaqges que o governor ameri- cano fazia em relacio a supostas ameaqas ter- roristas. Mas nenhum fato relevant ocorreu desde entdo. 0 silencio deliberado do grandejornal da familiar Sulzberger favoreceu o caso mais gra- ve de espionage internal nos Estados Uni- dos contra cidaddos americanos, envolven- do a ag6ncia mais secret do pais, a NSA, proibida por lei de agir dessa maneira. Os diri- gentes do New York Times nao deram a mini- ma para advertancias dos grandes jornalistas do pais, dentre eles Jack Anderson, sobre o desastre em que se envolvem quando man- tem relaq5es promiscuas com o governor. Um grave sinal dos tempos. LIXO SIDERURGICO Ha 14 usinas de ferro gusa em opera- qlo ao long dos 870 quilometros da fer- rovia de CarajAs, entire o Pard e o Mara- nhdo. Elas consomem, todos os anos, 200 mil hectares de florestas nativas. 0 supri- mento 6 feito integralmente pelo Pard, que tem metade dessas guseiras. Elas estari- am reflorestando 96 mil hectares de areas degradadas para garantir seu suprimento. Os plantios, entretanto, admitindo-se que os valores sejam exatos, a intenqio seja boa e a execugao correta, ficam do lado do Maranhio. Em reagio a esse absurdo, o governa- dor Simdo Jatene mandou taxar violenta- mente o carvio vegetal para que as flores- tas paraenses nio continuassem a ser sa- crificadas e o Estado nao ficasse no preju- izo na relagio de troca com o vizinho e os compradores seguintes na cadeia produ- tiva. A taxagio foi abusiva e, por isso mes- mo se tornou inviavel. JA foi revogada. Depois da celeuma, o que restou, como nos primitivos fornos que transformam um bem nobre (a arvore) num insumo para o primo normalmente pobre (mas temporari- amente enriquecido) do process siderir- gico, foram cinzas de ret6rica. No meio desses restos de incendio, a Companhia Vale do Rio Doce anunciou que s6 venderA min6rio de ferro para guseira corn projeto pr6prio de reflorestamento e empresdrios mineiros comeqaram a com- prar terras em Paragominas para o primei- ro reflorestamento no sitio por excelencia do carvao vegetal, essa mercadoria ante- diluviana em nossa era de consciencia eco- 16gica. Seria o fim do da fantasia no reino da lata de lixo da siderureia? Com a palavra, quem puder responder. DEZEMBRO DE 2005 2 QUINZENA Jornal Pessol I Jack Anderson morreu: democracia perde ruido "A maquina da democracia nunca deve funcionar de modo tao suave e silencioso que venha a abafar o zumbido da oposigao. Deve haver pelo menos alguns dentes que arranhem contra as gigantescas engrenagens do Governor . "Os jornalistas que aderem aos poderosos e agem como explicadores e apologistas daqueles que violam a coisa p6blica devem ser vistos como c6mplices da pilhagem". S e algu6m quiser criar os 10 mandamen- tos para a profissAo de jornalista, tera que considerar essas duas frases de Jack Anderson. Ele as escreveu mais de 30 anos atrds, quando duas das maiores insti- tuiqces da democracia americana estavam em conflito: a presidancia da repdiblica e a imprensa. Reeleito com uma votaqlo esma- gadora, Richard Nixon transformou a Casa Branca em sede de quadrilha, autorizada a cometer ilegalidades em proveito do chefe. Oltimo baluarte na resistancia a hipertrofia de poder, a imprensa fez jus As prerrogati- vas de que gozava entio (e, apesar de tudo, ainda goza hoje) no pais. Defendeu os di- reitos individuals, acuou os que violavam essas garantias constitucionais e levou o president ao primeiro impeachment da his- t6ria dos Estados Unidos. Varios jornalistas se destacaram nes- sa trincheira. Os que mais li forafm I. F. Stone e Jack Anderson. Stone morreu ha 15 anos. Anderson, aos 83 anos, se foi na quinzena passada, de mal de Parkinson. Lembro que li pela primeira vez a coluna "Carrossel de Washington" (traduqao nada fiel ao original, "Washiungton Mer- ry-Go-Round") em meados da d6cada de 60. No auge do seu prestigio, ela era dis- tribufda para mais de mil jornais e lido por 42 milh6es de pessoas. Vinha atrav6s de um servico especial de malote, ainda nao traduzida. Uma vez encontrei vArias delas no lixo, na redagAo de A Provincia do Pard. Reco- Ihi, li e gostei. Passei a buscar o pacote na origem. Ningu6m se interessava pelo ma- terial. Depois, no Rio e em SIo Paulo, tive acesso as colunas nos jornais americanos. E, em seguida, nas pAginas da Tribuna da Imprensa e de alguns outros jornais bra- sileiros, que reproduziram os artigos de Anderson. Mas foi por pouco tempo e em pouca quantidade. Apenas urn livro dele foi pu- blicado no Brasil, em 1974. As geraq6es atuais, tanto aqui quanto nos Estados Uni- dos, que mal conhecem I. F. Stone, talvez nem tenham ouvido falar de Jack Ander- son. Quando deixou de escrever, apenas 150 jornais publicavam a coluna. Os regis- tros de sua morte foram mediocres. Nao fizeram justica ao grande jornalista que ele foi. Apesar de certas esquisitices e de um tom exageradamente moralista em algumas abordagens, a refletir sua condiglo ante- rior, de pastor M6rmon, ela se tornou ins- piraqao para os que, em 6pocas que jA pa- recem antediluvianas, partilharam sua po- siqao 6tica e professional, a partir das duas premissas de suas frases maravilhosas. A primeira reconhece que a critical 6 o oxigenio da democracia e o pluralismo o seu pulmro. 0 critic nao 6 uma anomalia: 6 a fonte de vida de um sistema baseado na alternancia de poder, na tolerancia as minorias e no reconhecimento de que no contrdrio pode estar a raiz do novo, da mu- danqa, da eterna juventude. A segunda premissa 6 de que o espaqo do jornalistajamais deve se confundir com o lugar em que se assentam os que dilapi- dam o patrim6nio ou manipulam o interes- se piiblico. Como auditor em nome do povo, o jornalista que se torna conviva dos poderosos trai seus compromissos, nega a legitimidade do seu oficio, sua re- levancia social. Isso nao autoriza incivilidades e secta- rismo. E obrigaqdo do jornalista dialogar com todos, ter acesso a todas as instanci- as, penetrar em todos os escaninhos da so- ciedade. Mas desde que bem esclarecidas as posiqbes. A sua 6 a de perquirir pela ver- dade, investigar as situaqoes mal explica- das, reconstituir as origens dos fatos. Infelizmente, essas normas parecem es- tar fora de moda. Mas quanto mais se empe- nham os que querem v&-las esquecidas, para se favorecerem do olvidor geral, mais impor- tante 6 a tarefa de reavivd-las. Um compro- misso que Jack Anderson levou at6 o fim e deixou-nos como legado de sua vida glorio- sa. 0 descaso dos seus contemporaneos no moment de sua morte 6 um reconhecimen- to, na linguagem cifrada que os poderosos costumam usar, do seu significado. Se os poderosos que tanto incomodou em vida agora Ihe prestassem homenagens, seria porque sua luta foi um tanto em vao. Se ele perdeu, foi porque ganhou. Mesmo entire minorias, como tinha que ser, no mun- do inteiro o seu nome foi lembrado como aquele que fez o bom zumbido e ficou na sua, ao lado da verdade. Foi em gl6ria eter- na, portanto, que Jack Anderson partiu. Para seu definitive lugar na hist6ria, do qual nao poderao tird-lo os que Ihe quiseram impor o silencio. Conheqo pessoas que nunca haviam feito uma viagem intema- cional at6 passarem a trabalhar para o governor. Dai em diante se tornaram verdadeiros globe-trot- ters. Sei de outras que viajavam economizando trocados. Com o dinheiro do erdrio no bolso, fre- qilentam os melhores hotdis e restaurants em suas excursoes, mais demoradas do que a neces- sidade de servico exigiria. Faqo essas reflexes enquan- to leio uma tabela sobre as des- pesas da Uniao com a viagem de seus servidores. Entre janeiro e Barnabes viajantes novembro deste ano, a national gastou corn as rubrica atingiu quase 2,3 viagens de seu pessoal, bilh6es de reais. Esse 6 o item auxflio-alimenta- exatamenteo valordoim- M gi o constitui a maior posto que o Pard deixou parcela, corn quase dois de arrecadar nos 6ltimos terqos do total, ou R$ tr8s anos (2003/2005) 1,33 bilhao. DiBrias e para incentivar suas ex- passagens e locomo- portaqoes, com a pro- C6es somam R$ 950 mi- messa de ressarcimento pelo go- Ihoes. Garantidos os seus deslo- verno federal, dinheiro que nao camentos, o burocrata federal Ihe foi devolvido, conforme de- farta-se a comer bem quando vi- termina a chamada lei Kandir, se- aja. Ou, se nao come tao bem, faz gundo diz o governor estadual. que come e coloca a verba no Interessante observer que do bolso. Por isso a tecnoburocra- total de dinheiro que o tesouro cia de Brasflia (mas a daqui nio 6 exceqio), sobretudo, vive a girar pelo pais. Menos para ver, conhecer e agir conforme as peculiaridades locais, o que certamente uma parte desse ex6rcito de andari- Ihos faz, mas para criar seu p6- de-meia e gozar as delicias do turismo. Com o meu, o seu e o nosso dinheirinho. Vai queixar-se ao bispo? Nio: alegre-se. E veja como se torna- ram cultos, sofisticados e cosmo- politas esses arrivistas do servi- co plblico. Nao se tomaram or- gulho national? Jornal Pessoal *2"QUINZENA DEZEMBRO DE 2005 ANTOLOGIA 0 elogio do inimigo Introduzo nesta edicao uma nova secao no Jornal Pessoal: a antologia. Periodicamente publicarei textos recuperados dos arquivos dosjornais paraenses. Sao textos de relevant importkncia para a hist6- ria do Estado, cuja leitura ajudard os contemporineos a criar mem6ria social. 0 document inaugural 6 o artigo que Paulo Maranhao, o mais important jornalista do Para, publicou em sua Folha do Norte, em 4 de outubro de 1913. E o perfil de outra das personalidades p6blicas mais eminentes do Estado, o intendente de Belem, Ant6nio Jos6 de Lemos, que morrera na v6spera, em pleno exilio, na capital federal, depois de ter sido violentamente escorragado da privilegiada posicgo que ocupava no alto do poder no Para, por um golpe s6bito dos seus inimigos. 0 necrologio, no melhor estilo Paulo Maranhao, apareceu como "UOltimas palavras", na secgo "Gazetilhas", titulo muito usado pela im- prensa da 6poca. Serve para revelar o excess de suscetibilidades que atravanca atualmente as pol6micas atrav6s da imprensa (de cujas pigi- nas praticamente sumiram), desservindo a formacgo da opiniao p6blica e privando os paraenses do pluralismo. A tolerincia entire os opostos 6 a base do regime democritico de direito, mas, no Brasil, e em especial por aqui, terra de donos auto-assumidos, costuma ser pouco mais do que letra morta em declaragoes de principios de valor apenas formal. Hoje, por qualquer critical ou ironia, ji o criticado vai a justiga atris de reparacgo por suposto dano mora que diz haver sofrido, numa hiper- trofia do direito da personalidade sobre outra garantia constitutional, concedida a liberdade de expressao e de pensamento. Desvia-se para autos judiciais o que devia estar sendo tratado diante da sociedade, destinataria e irbitro das demands publicas numa verdadeira repobli- ca. Quem desfruta os beneficios da notoriedade, rejeita completamente o 6nus da fama, o direito que decorre do trinsito freqOentemente corn excess de desenvoltura, sem o control legal pela esfera pOblica. Acha que pode tudo e confere a si pr6prio um valor que pode sofrer uma corrosao tao brutal quanto a que o "velho Lemos" sofreu. Princi- palmente se nao ha substincia nesse poder. morto Espero que a reproducgo do artigo de Paulo Maranhao contribua para refrear os impetos de arrogancia, prepot6ncia e honra suposta- mente ofendida, aos quais a justiga paraense tem emprestado demasia- da tutela, indo muito al6m do equilibrio entire o respeito a dois preceitos constitucionais. Ao dar acolhida a um direito, quase o tornando absolu- to, esta esmagando o outro, a liberdade de imprensa, e favorecendo mais um golpe contra o home public, em favor de sua privatizaio. Thomas Jefferson, um dos pais da mais poderosa nagao atual, fez inscrever na Constituigao de seu pais (ainda em vigor passados mais de dois seculos) sua opcgo pessoal: se tivesse que escolher entire governor e impren- sa, optaria por esta, como instrument de control do governor e de expres- sho da sociedade. Se ressuscitasse entire n6s, provavelmente Jefferson ja estaria respondendo a um punhado de processes na justiga por essa firmeza de principios. A democracia sobrevive sem governor (e sem empresa, atuali- ze-se), mas nao sem imprensa livre. 0 lema jeffersoniano continue a ser uma das mais generosas fontes de inspiracgo para jornalistas que associam seu oficio aos interesses do cidadao, sem nunca negociar esse compromisso, sem se deixar intimidar pelos arreganhos de sitrapas de ocasiao. 0 necrolbgico de Paulo Maranhjo sobre Ant6nio Lemos, um dos mais impressionantes que jJ li, seria influenciado por sua posigio, de defensor de Lauro Sodr6, o grande inimigo daquele que ainda e considerado o melhor prefeito que BelIm teve no period republican de sua hist6ria. Mas 6 uma peca admirivel, que merece ser relida, tanto pelo que diz como pela maneira de dizer, num estilo clissico impecivel, que seu neto, Haroldo Maranhao, herdou integralmente e cultivou como raros. Grifei alguns trechos, a meu ver os mais significativos para os nossos dias. Dias de um cotidiano no qual os personagens supostamente mais notiveis, potentados sem fronteiras, ao serem projetados no horizonte contra o perfil das figures do passado, como Maranhio, Lemos e Sodr6, se apequenam, se reduzindo ao seu verdadeiro tamanho. Como se Bel6m fosse uma Lilliput sem o console de um Swift. O texto de Paulo Maranhao: N^ao nos causou surpresa a noticia, que o tel6grafo acaba de transmitir-nos, da morte do sr. Ant6nio Lemos. 0 que nos admirava era, contrariamente, que, atravessado por tio violentas emoNoes, sacudido por tan- tos desgostos, no litimo quartel da vida, tives- se resistido ate agora aos choques dos terrn- veis acontecimentos que Ihe arrebataram o pres- tigio e o poder. 0 destino f8-lo nascer nunma terra, viver em outra e ir morrer, enfim, a outra, realizando com ela a lenda do Judeu errante. A sua morte, que poderia ter sido um acon- tecimento, nao passou dos limits de uma sim- ples noticia. NMo comoveu nem surpreendeu ningu6m, e talvez nao fizesse brotar de ne- nhum coralio uma l6grima, fora do circulo das pessoas ligadas a ele pelos lagos de familiar. Sabe Deus se, no isolamento da sua vida, nao pedia A morte o resgate de um fardo, que Ihe devia pesar sobre os ombros, corn a vio- 16ncia brutal de um mundo! Esse infeliz que desapareceu nio teve ami- gos. Durante quinze anos foi para os que o bajulavam apenas um tema de exploraqbes. Como sucedeu a tanta gente, nao passou, durante o period Aureo da sua existencia, de um dos melhores degraus por onde ascende- ram a posigio e a fortune muitos daqueles que Ihe ficaram devendo tudo. A desgraga serviu-lhe ao menos de pedra de toque para julgar da lealdade dos homes. Corn ele ninguem caiu, nem mesmo aqueles que, en- volvidos, de improvise, pela rajada dos fatos, desceram a seu lado do poder. Destes se pode dizer que foram apenas negligentes em dispor as coisas para se retirarem a tempo de evitar a derro- ta; mas nao tardaram a libertar-se do que ficou sendo um trambolho na vida de cada um. Se nos pedissem uma prova deste conceito, n6s a darfamos no triste abandon em que, por fim, o deixaram, aceitando a nova ordem de coi- sas que teve como base o sacrificio politico do antigo chefe. Ainda que nos pese dize-lo, nem mesmo o sr. Arthur Lemos escapa a essa acusa- qdo. As combinaqbes political em que entrou tiveram todas como principal exigancia a imola- qdo do extinto de ontem e nao se ouviu uma voz, dentre o coro que Ihe entoava os louvores do servilismo, que se levantasse para protestar. Fica-se duvidando se, aldm dele, havia, no seu partido, mais algudm capaz de autenticar que tivesse ao menos um carter igual ao seu, por- que esse home possufa, em suma, um carter, que foi a litima revelaqdo do seu temperament, e talvez ficasse para sempre oculto se o ostracis- mo Ihe adviesse antes da morte. Os poucos que vieram abaixo, sob a lufada dos mesmos sucessos que o atingiram, traziam todos o aspect humilde e compungido de r6us condenados e, enquanto nao obtiveram a cer- teza de que havia quem os amparasse no Rio, nao levantaram a cabeqa abatida nem os om- bros decaidos. S6 ele, verdadeiramente, caiu de p6, e foi de p6 que, retirado dos esconderijos dos escombros de sua casa incendiada, vestin- do uma sobrecasaca sobre um pijama, quase carnavalesco na sua desgraga, atravessou a rua, mal calqado e ridicule, at6 o lugar em que o aguardava armado de seu sorriso vitoriano, como de uma carabina, o sr. Virgflio Mendonqa. Diante das conveniencias que trancavam as bocas como pesadas vergas de ferro e embola- vam as penas, sussurraram sobre a sua obra os pesados libelos da justiqa e dentre as antigas legioes de endeusadores, que o interesse redu- zira A servidao, no tempo do seu poderio, ne- nhum houve que tomasse a peito a defesa do acusado. Foram justamente estes abissinios que inutilizaram para o respeito p6blico a pessoa e a obra de um home que o acaso elevara is cul- minancias do poder. 0 julgador que tiver de inquirir das origens desse fen6meno nio pode- ri deixar de levar at6 af a sua pesquisa, trazendo A luz os fatores principals do 6dio corn que a multidao Ihe apontara a barra. Os mais pemiciosos desses fatores foram os poetas dos hinirios festivos em que o servilismo empolgou e desvairou aquela consciencia, en- fraquecida pela cidade e limitadamente horizon- tada pela incultura. Os cativos da servidao des- forravam-se incompatibilizando-o corn o senti- mento pdblico, por meio de cxagerados epinicios. CONTINUE NA PAG9 DEZEMBRO DE 2005 *2 QUINZENA Jornal PessoulI Cidade sem raiz 0 proprietario da casa a que me referi na edigao passada, localizada na travessa Arcipres- te Manoel Teodoro, no perimetro da praqa do ferro de engomar, um dos pontos mais cativan- tes do centro da cidade, derrubou tudo, deixan- do s6 a parede extema. Agora colocou o im6vel a venda. Deve ter agido assim na presunlao de que o mais valioso da sua propriedade 6 o terre- no. A velha e sugestiva carcaqa de pedra e ar- gamassa 6 mero entulho. Do ponto de vista do mercado imobilidrio, agiu certo: mais um terre- no surge numa Area valorizada de Bel6m. Da perspective da hist6ria urbana, mais um dos pequenos desastres que desfiguram a capital paraense. Perda inevitavel? Nao acho. Anos atras sugeri que a prefeitura criasse uma empresa imobiliiria justamente para se an- tecipar a essa pritica ruinosa. Se um pr6dio de valor como testemunho arquitet6nico ou hist6- rico comeqasse a se deteriorar ou nele surgisse uma placa de venda, a empresa imobiliiria muni- cipal faria contato com o proprietArio para abrir- Ihe uma possibilidade interessante de neg6cios, com terceiros ou com a pr6pria empresa. Ela teria informaqoes e condicqes para dar A preservalio do im6vel um atrativo que inexiste pela auto- regulaiao do mercado, que, quando nao 6 qui- Comite fechado A Comissio de Polftica de Incentivos ao De- senvolvimento S6cio-Econ6mico do Estado do Para 6 o 6rglo que decide sobre a concessdo de beneficios fiscais do govemo a empreendimen- tos privados. Toma suas decisoes a partir de parecer t6cnico do Grupo deAvaliaqao eAn6lise de Projetos. Antes da deliberagio, o parecer 6 submetido A Cdmara T6cnica da Comissio. Af segue para a apreciaqio e definigio dada pelos integrantes da comissio. Eles sao apenas tres: o governador e os secretarios de produqio e de indistria, com6rcio e mineracio. Ha algum cole- giado mais restrito e exclusive para ato de tama- nha relevancia para o Estado? A iltima leva de beneficios concedidos por esse conselho de stbios resultou de resoluqtes CONTINUA;AO DA PAG 8 Era a revanche proposital, bem se via, contra ojugo politico debaixo do qual sofriam os vexa- mes da subserviencia. A sua queda p6s em evi- dencia qualidades que, orientadas em sentido oposto ao mal, teriam produzido os melhores be- neficios. A cluhce political, que Ihe bafejou a exis- tencia, num long period de predominio exclusi- vo, enfeixou-lhe nas miios uma soma extraordinA- ria de elements dos quais se utilizou inabilmente. Faltou-lhe um colaboradordo bem. Debalde ele procuraria em torno de si. Cercaram-no cons- tantemente intencles piores que as suas. 0 ho- mem inculto e sempre uma cera virgem amol- davel, espdcie de terreno preparado a receber a semente que se Ihe quiser lanqar. Para o inebria- rem e para o dementarem, acalentaram-no com o filtro dulqoroso da louvaminha. Produzia-se nes- sa 6poca, na hist6ria political paraense, a mesma corrente de desvario que abalara o pensamento modern no s6culo, assinalado na hist6ria da literature corn o estigma da perversto do gosto. 0 sr. Ant6nio Lemos nao era simplesmente o chefe de um partido e o intendente de um muni- cfpio. Era, na voz dos thuriferianos, sem a ungao m6rica, costuma ser negative para os interesses coletivos. Na 6poca, a vereadora Ana Juilia Care- pa se interessou pela idWia, transformando-a num projeto de lei. Mas a iniciativa parou na muralha de resistencia e incompreensio da Cimara Mu- nicipal, Nao foi em frente. Nao seria o moment de reapreciar a question? Como exemplo a ser seguido, indico a restauragio do chal6 que fica bem na esquina da Gentil Bittencourt com a Pre- sidente Pemambuco, trabalho bem feito por um particular. Essa construgio, de nitida inspiraqio europ6ia, compunha um conjunto com outras edificacqes semelhantes na continualio das duas ruas. Hoje 6 caso singular. Ainda bem que o dono, olhando em tomrno, percebeu essa singularidade e a manteve. 0 com- prador de uma casa no mesmo estilo, em outra esquina da cidade (Sio Francisco corn Arcipres- te), si mplesmente descaracterizou-a por comple- to. Como as preocupaqies preservacionistas se restringem ao que resta do period colonial, as etapas da hist6ria posterior tem sido esqueci- das. Bel6m estA ameaqada de se tomar uma cida- de que avanqa no tempo destruindo o que fica para tris. Condenada, por isso, a esse modemo- so sem rafzes, mais horroroso do que modern nesse neologismo. datadas da v6spera, mas tamb6m de 31 de outu- bro e de 22 de marqo. Para a Mariza Industria e Com6rcio da Amaz6nia foi concedido cr6dito presumido de 44,5% sobre a importaqio de insu- mos e fretes para a fabricaqio dos seus produ- tos, a serem calculados sobre o ICMS devido nas saidas intemas e interestaduais das merca- dorias. Vantagens desse porte tambem foram au- torizadas em prol de Esplanada Industria e Co- m6rcio de Colch6es, Mineragio Buritirama e In- dustria e Com6rcio de Conservas Maiuatd. Tudo em circuit fechado, embora diga-se que os processes estilo A disposigio dos inte- ressados. 0 distinto ptblico, no entanto, nao sabe que figure entire esses interessados. Em po- tencial, 6 claro. da sinceridade, o home que fazia cover, o rival dos deuses, o cutelo da luz que decepara o pes- co0o das trevas em que estivera envolvido o Para, antes que ele raiasse, como um sol fecun- do, para a atividade politica... E fdcil afeiqoar a media dos nossos desejos qualquer espirito fraco, maxime quando a esse espirito nio so- bram virtudes nem intransigencia as fascinaqbes do mal. Para qualquer parte que se voltava, ou- via o rumor do aplauso ao erro. Encheram-no de r6gios presents e cobriram-no com o p6 de ouro da lisonja. Ja estava fora de si quando se Ihe desprendeu dos ldbios esta frase caracteristicas: - Quando eu inorrer, o meu enterro sera unma apoteose. Pobre iludido da vida! Contava que os mes- mos individuos sobre a cabeqa dos quais despe- jara a cornuc6pia simb6lica das graqas haviam de ir com ele atW o fim, para chorar a sua morte corn o mesmo retumbante eco dos louvores ve- nais, quando a sua mao era o que os levantava do nada, para os converter, com a vara mdgica do seu prestigio, em unidades polfticas valiosas. Cedo se desfez o v6u que deixou patente o fun- do escuro do coragao human. Que homes ti- nham sido essas criaturas? Que esp6cie de senti- mento faz nascer na alma o interesse do instinto de conservagao? A sua apoteose foram a pedra- da e o assobio, com que o despediram no cais. Entre a multidio que Ihe gritava os veementes apupos, as vozes mais enfurecidas e de registro mais agudo eram daqueles que haviam estado ao seu servico. Certamente teria conhecido esses sons familiares. Os braqos que se erguiam mais alto, como lanqas dispostas a acomet6-lo, para lanqar direto ao alvo a pedra com que Ihe feriam o corpo, pertenciam a individuos que Ihe estavam devendo a primeira gravata lavada. Os que sempre o combateram nao sabem assobiar nem apedrejar ningu6m. Para estes, o sr. Ant6nio Lemos mergulhara na morte antes de morrer e 6 com o respeito que os mortos nos merecem, venham de onde vierem, quaisquer que tenham sido a sua origem e os seus erros, os seus crimes e as suas virtudes, que n6s tira- mos o nosso chap6u diante do f6retro que o conduz, sem indagar quem 6 que vai dormindo dentro do esquife. Journal Pessoal *2 QUINZENA DEZEMBRODE2005 9 TROMBETAS DE NOVO Na d6cada de 70 o rio Trombetas foi inventariado. Pretendia-se construir em seu leito uma hidrel6trica que iria suprir de energia uma fabrica de alumina e su- plementar a usina de Balbina no supri- mento de Manaus. A Construtora An- drade Gutierrez, empreiteira principal na implantaqgo da mina de bauxita em Por- to Trombetas, chegou a extrair madeira da future area do reservat6rio. Trans- formou-a em lenha para o forno que se- cava o minerio destinado ao Canadi, atendendo os interesses da Alcan, se- gunda maior acionista da Mineracao Rio do Norte. Madeira boa foi consumida para que a bauxita estocada naio conge- lasse nos ponies dos navios destina- dos ao Canadd, durante o inverno. Quando a irracionalidade desse pro- cedimento foi contida, milhares de me- tros cibicos de floresta jA tinham ido ao fogo. A iniciativa pretendia ser uma correqio ao que houve em Tucuruf: a retirada da madeira do future lago de- morou tanto que milhares de irvores acabaram sendo afogados pelo rio To- cantins represado. No Trombetas o que demorou foi a hidrel6trica. Nao admiral: a flbrica de alumina para a qual devia fornecer energia jamais saiu das pran- chetas e do discurso. No local continue em atividade apenas uma mina de bau- xita. A maior do mundo, por final. Agora recomeqa a movimenta5ao em torno do projeto hidrel6trico do Trombetas. A Eletronorte tirou os pa- p6is dos arquivos e parece que preten- de incluir a nova usina no seu planeja- mento, principalmente porque pela Area irA passar a linha de transmissao de Tu- curuf at6 Manaus. 0 projeto original da hidrel6trica previa pot6ncia de mil me- gawatts, ou quatro Balbinas. Conv6m se antecipar aos barrageiros. Ill~lr ~ . .......r MEMORIALA DO COTIDIANO Familia "Preito de Saudade" publica- do, como materia paga, na Folha do Norte, em 10 de setembro de 1953: "JUSTINA MARIA FON- SECA Perecida na data de hoje, em 1936. Boa filha, boa irmdo, boa mre, foi chamada ao reino de Deus, martirizada como uma Santa: queimada. Os descendentes consan- giifneos tim sabido honrar o seu nome, o que muito enleva e orgulha o viivo, hoje entre- gue As maiores tristezas". Completando a mat6ria, uma fotografia de dona Jus- tina e do imponente mauso- 16u no cemitdrio de Santa Iza- bel, onde estavam seus des- pojos "e para onde irao os corpos dos seus descenden- tes e marido". Calgados A fdbrica de calados Cla- rk inaugurou em grande es- tilo, em 10 de outubro de 1953, sua filial de Bel6m, na rua Jodo Alfredo. Uma "enorme quantidade de cal- cados" foi transportada por via area de Sdo Paulo para Belem. Era tao grande o estoque "que exigiu avioes especiais para o seu trans- porte", segundo a matdria paga publicada na impren- sa. "Jamais o comercio de Belem foi abastecido tao fartamente de um produto como acontece agora", di- zia a nota: a carga ocupou varios caminhoes "para o seu transport do aeroporto de Val-de-Cdes". Toda essa operacqo de olho no Cirio de Nazar6, 6 claro. A Clark foi um sucesso. Passado Eram nove horas da noite de 2 de abril de 1954. Maria Wanderley Lobato, vi6va, 31 anos, resident na Pedreira, safa, sozinha, da sessao de ci- nema no "Iracema", no Lar- go de Nazar6. Ao atravessar a rua, sem prestar atenqdo ao trdnsito em mdo dupla, foi atropelada por um carro. 0 motorist era o director do Ins- tituto Agron6mico do Norte (depois Ipean e, agora, Embra- pa), o botanico Jodo Mursa Pires. Ele estacionou logo A frente, colocou a vitima em FOTOGRAFIA Gente de journal Esta foto, do inicio da d&cada de 60, mostra parte considerdvel da equipe de A Provincia do Pard em reunido risonha, france e inocente, i base de guarand (o Guard-Suco pontificando). No sentido hordrio: Edwaldo Martins (ainda ndo iniciado no colunismo social), Elddio Ribeiro, o "Malatinho" (que iria em seguida para 0 Liberal corn Romulo Maiorana), Ruth Sampaio (a "fera" das financas, num sorridente desmentido a fama atribuida), Cunha Goncalves, o eterno secretdrio Carlos Gomes Lopes, o sempre elegant Roberto Jares Martins, Hordcio Siqueira (em p, umn reporter policial de paletd, como todos os rep6rteres da jpca), junto com a mulher Terezinha, da admninistraCdo, e o reporter tambem da policia Carlos Flexa. A maioria, felizmente, ainda bem viva. u L. hJ r MP] -fr 10 DEZEMBRO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoil seu carro e a levou ao Pronto Socorro. Acompanhou o tra- tamento que Ihe foi dado e a conduziu em seguida para sua resid6ncia. Depois, pegou o "sinaleiro" que testemunhara o atropelamento e se apresen- tou a permanencia da Dele- gacia Estadual de Transito para o registro da ocorr6ncia, comprometendo-se a continu- ar o atendimento da sua inad- vertida vitima. Teste para o eleitor: quan- tos desses fatos sucessivos de um tempo civilizado da cida- de se repetiriam hoje? Uma jovem senhora ir e sair sozi- nha de um cinema, as 9 da noite. Seu atropelador, mesmo sem culpa pelo acidente, Ihe dar toda assistencia, acompa- nhando-a at6 sua casa. 0 atropelador comparecer es- pontaneamente ao 6rgdo pd- blico competent para as pro- videncias de praxe. Contar com um guard de trAnsito no local aquela altura da noite para acompanhd-lo como tes- temunha em seu favor. En- contrar o atual Detran em fun- cionamento noturno. Ficcqo. Ou ndo? Restaurant O SAPS era o Restaurante Popular de Bel6m, na Praca Magalhaes com a rua da Municipalidade (onde 6 hoje o almoxarifado da prefeitu- ra). Era uma instituicgo na cidade. 0 cardapio do dia 9 de janeiro de 1958 tinha car- ne frita com farofa, feijdo verde refogado, feijao corn legumes, arroz, leite, pdo, manteiga, banana e caf6. 0 Brasil ainda acreditava nes- sa 6poca que um povo s6 tem future se comer razoa- velmente bem. No SAPS isso era possivel. Por isso foi extinto? E o novo restauran- te piblico, recuperard essa tradi~go? IML Dos 159 exames diversos re- alizados pelo Instituto M6dico- Legal Renato Chaves, em se- tembro de 1959,66 foram para verificar les6es corporais e 37 de conjunqco carnal, os mais freqiientes. Verificaqies de 6bito foram nove e exames necrosc6picos, 8. PROGANDA Paisagem perdida Talvez poucos lembrem, mas a Marisqueira do Luiz, nos altos de urnm predio de dois andares na avenida Senador Lemos, jd foi um dos mais sofisticados restaurants de Belem. Ali se podia comer uma lagosta de primeira, preparada pelo chef Luizinho. Ele tinha seu prato tipico, urnm peixe grelado, mas tambem oferecia uma ostra ao escabeche. 0 client dispunha de umn atendimnento realmente personalizado. Depois, podia passear pela Praca Brasil ou ver um filme de origem europeia, principalmente francesa, no Cine Art. Conforme o hordrio, havia ic disposiCdo um diversificado comercio ao long da Senador Lemos, que dava ao Teligrafo a condiCdo rara na epoca de bairro semi-aut6nomo em relado ao centro da cidade. A Marisqueira fechou, o Cine Art ndo existe mais e a paisagem j um retrato na parede. E como ddi. Nosso "Clief" LUIZINHO reconienda a melhor pedida OSTRA AO ESCABECHE PEIXE GRELHADO A LUIZINHO ARROZ DE POLVO GALETO AO PRIMO CANTO FILE' A THERMIDOR MarIsqueira do Luiz Sen. Lemos, 1.063 Estacionamento PFaleltado Menestreis O grupo "Os Menestr6is" era uma organizaqco de poetas e compositores paraenses. Em maio de 1967 eles realizaram o seu "Recital dos novos poe- tas paraenses". 0 program apresentava: "Primavera 2000", de Jos6 Vilar, com in- terpretacgo de Cleodon Gon- dim; "Tempo de poesia", de Jodo de Jesus Paes Loureiro; poemas de Walter Pinheiro; "Ode a um infante qualquer", de Marily Velho; poemas de Annamaria Barbosa Rodri- gues; "Preamar", de Paulo Andr6 Barata e Ruy Guilher- me Barata, interpretada por Heliana (Jatene); poemas de Rosenildo Franco; "Canto de Exu", de Tania Botelho, corn interpretaqdo de Nana; poe- mas de Carlos Queiroz; "Bar- co da Liberdade", de Paulo Andr6 Barata e Pedro Galvao de Lima; poemas de Jos6 Maria de Vilar Ferreira; "Can- qdo partindo a beira do rio", de Vilas e Paes Loureiro; po- emas de Pdro Galvao; "Mar- cha-rancho para tua volta", de Nana; poemas de Joao de Je- sus; "Tempo de amar", mar- cha-rancho de Jos6 Guilher- me De Campos Ribeiro; e "Depois que a banda passou", de Galdino e Ruy Barata. Mogno Em 1968 a Folha do Norte noticiava que "regularmente" navios estrangeiros, sobretu- do da Booth Line, deixavam o porto de Bel6m rumo aos Es- tados Unidos carregados de mogno, "quase todo ele origi- ndrio das diversas regimes da Bel6m-Brasilia, notadamente da que se situa do Estado de Goids", atual Tocantins (que nao tem mais mogno). A ma- deira "tem grande aceitaqgo naquele Pais, onde 6 utilizada para o fabric de m6veis". Era transportada at6 o porto em grandes caminhies, jd se- mibeneficiada, na forma de tdbuas ou pranchas. Os volu- mes eram inferiores aos atu- ais, mas apareciam porque iam para o exterior. Agora, seguin- do para outros Estados, espe- cialmente Sdo Paulo, nao cau- sam o mesmo impact. Curso Em 1968 o Instituto Pr6-Uni- versitirio preparava candida- tos aos vestibulares de Direi- to, Ciencias Econ6micas, Ser- vigo Social, Biblioteconomia, Letras, Ci8ncias Sociais, Pe- dagogia, Hist6ria e Geografia. As aulas de gramitica eram dadas por Marlene Viana; li- teratura portuguesa: Jurema Bastos; literature brasileira e frances: Pedro Galvao de Lima; hist6ria do Brasil: Ro- berto Cortez; hist6ria antiga e medieval: Orlando Sampaio Silva; hist6ria modern e con- temporanea: Isidoro Alves; geografia: Didio Cruz Neto; ingl6s: Jos6 Barros Teles; la- tim: Raimundo Vieira; e ma- temAtica: Aur6lio do 0. 0 cur- so funcionava no Gindsio Mo- delo, na Dr. Morais. Jornal Pessoal *2-QUINZENA DEZEMBRO DE 2005 Neste final de 2005, quero transferir aos que me 16em, sobretudo aos jornalistas, meus colegas de profissao, uma questao que tal- vez tenha pertin8ncia suficiente para sobre- viver a festival passage de ano. Sou jornalista professional, plenamente regularizado no exercicio do meu oficio. Mi- nha carreira alcanqa 40 anos (iniciei-a aos 16). Fui testado em quase tudo que um jornalista pode ser testado. Trabalhei nos principals 6rgios da imprensa brasileira. Conquistei re- conhecimentos pelo meu trabalho, dentro e fora do pais. Tenho uma obra realizada, que se express em 11 livros individuals, dezenas de participaqbes em obras coletivas e cente- nas de palestras no Brasil e no exterior, al6m de milhares de textos publicados nas pagi- nas de jornais e de revistas. Meu maior patrim6nio, contudo, 6 minha credibilidade. Jamais fui desmentido no que meus textos contiveram de mais important. Nunca fui denunciado por procedimento in- correto ou anti6tico. Mesmo os que discor- dam de mim, aceitaram uma premissa nas nos- sas pol6micas: nio contrario os fatos; pelo contririo, sei descobri-los, por mais que este- jam escondidos. Nao sou o campeao das sim- patias nem o rei da unanimidade, mesmo por- que nio cultivo tais pretensdes. Mas acho que sou respeitado como um jornalista s6rio, ho- nesto, inteiramente dedicado ao seu oficio. Por que, entio, essa sucessao de proces- sos judiciais contra mim? Do ponto de vista dos profissionais da imprensa, hW um dado relevant, que me estimula a escrever esta nota: os autores das acqes nao contestaram de piblico o que escrevi. Nos autos dos pro- cessos judiciais, alegam que os ofendi, que disse inverdades, que tenho ma intenqgo e outras arengas argumentativas. Mas nada disseram em piblico, para o piblico. Queremr restringir a polemica aos autos judiciais, guar- dados em cart6rios, de acesso restritissimo. Fazem isso por pudor? Procedem de tal maneira porque os assuntos dos artigos que escrevi dizem respeito A mais rec6ndita das esferas de suas vidas privadas? Nao: sio temas de relevant interesse piblico. Tais como grilagem de terras, extra- 9ao illegal de madeira, trafico de influencia, apropriaqdo de patrim6nio pdblico, manipu- laqgo da opiniao pdblica, uso imoral da mi- dia, etc. Os autores dessas ages sabem que se forem para a esfera piblica serao des- mascarados. Por isso nao me mandam car- tas, no exercicio do direito de resposta, ou nao replicam diretamente com outros arti- gos aos meus. 0 que eu digo 6 a pura verda- de, verdade que a sociedade precisa conhe- cer. Mas essa verdade contraria interesses poderosos. Os detentores desses interes- ses, por isso, querem me calar. Vem tentan- do sistematicamente, ha 13 anos, com 32 pro- cessos na justica, atrav6s dos quais espe- ram me intimidar, aniquilar meus recursos de comunicacao e, se ainda assim eu continuar de p6, me colocar na cadeia ou acabar corn os meus meios de sobrevivencia. Recepcionados pela justica, que os tute- la al6m do que seria just esperar, esses ini- migos da verdade estdo conseguindo seu intent. Mal consigo dar conta deste Jornal Pessoal, que se atrasa e se empobrece. A cada ediqlo ojornal exibe as marcas da persegui- qgo. Minhas condiqbes de vida tamb6m se deterioram. Para nao tropeqar no emaranha- do de processes, tenho que me dedicar qua- se integralmente a eles, participando da mi- nha defesa em juizo. Assim, um professional que desempe- nha seu oficio sob a tutela de urn dos prin- cipios constitucionais mais importantes, o da liberdade de expressao, que 6 coluna mestra do regime democratico de direito, v8-se perseguido e punido quando esta no estrito exercicio de um direito constitucio- nal. Por que isso acontece no Brasil demo- crAtico dos nossos dias, que ji chega ao mais long dos curtos ciclos democrdticos de sua hist6ria republican, A beira de igua- lar e poder superar os 21 anos de chumbo ditatorial de 1964-85? Por que umjornalista que cumpre seu dever 6 ameaqado, agredi- do e punido judicialmente a pedido dos seus agressores poderosos? 0 Brasil de hoje 6 ou nao 6 uma democracia? E a pergunta que deixo aos cars leitores. Boas festas. E que 2006 nos faqa o que temos o direito de pedir: JUSTICA. FESTA Registro, agradeco e retribuo as mensagens de fim de ano enviadas por por Rog6rio Corr6a, Temple, Assessoria de Relaqdes Internacionais da UFPA, Heloisa Bellini, Rodrigo Mesquita, Amazon, Rosaly Brito, Jubal Cabral Filho, Nova Acr6pole, GuilhermeAugusto de Souza, Faculdade Integrada Brasil Amaz6nia (Fibra), Almirante Mario da Fonseca Hermes, Valdemiro Gomes, Mailo Velloso, Armando Avellar, Daniel Nava, Ivanilson Souza, Paulo Jares, Conselho de Economia de Sao Paulo, Assessoria de Imprensa da Amazonia cellular, Aline de Mello Brandao, SPBC Pernambuco, Agencia Notisa, IAP(Instituto deArtes do Pard), Kaluana News, Griffo, S6rgio Nunes, Geraldo Nogueira, Mais TV, Jennifer Toledo, Mauro Furlan, Agen- cia Fapesp, Alvaro Maia, deputado Henrique Afonso, deputada Sandra Batista, deputado Nicias Ribeiro, Reginaldo Forti, Macondo, Avaya, Maria Helena Barata, Tdtica Conservacgo, Conservaiao Intemacional, Isabela Santos, Milena Del Rio do Valle, P& B News, Vitae Civilis, Centro Brasileiro de Relaqbes Intemacionais, Jos6 Naumanne Pinto, Meio & Mensagem, Ipam, Benedito Carvalho, Osvaldo Ferreira Jdnior, Cemagui, Paulo Faria, Maria Alda Brito Bezerra, Jodo Jorge Hage, Vilma Reis, Paulo Ivan Faria Campos, S6rgio Bacury, Iser, Walter Rodrigues, Roberto Gama e Silva, Breno Augusto dos Santos, Luciano Guedes, Tito Barata. Webwriter, Elena e Adriano Gugliemini, Anderson, Edna e Rodrigo (Livraria Relicario). Para 2006 REGISTRO Na sua coluna semanal no journal 0 Estado do Tapajds, de Santargm, Ercio Bemerguy escreveu uma nota a meu respeito, que me permit reproduzir sem receio de parecer cabotino. As generosas palavras de Ercio tocaram as cordas da minha gratiddo. Por isso as repasso ao leitor. Poram tantas as mensagens de con- JL gratulaqoes dirigidas ao meu dile- to conterraneo e amigo Lucio Fhl- vio Pinto, que eu prefer deixar pas- sar alguns dias e dizer, somente ago- ra, o quanto fiquei feliz e orgulhoso pela homenagem que esse "moco- rongo" da gema recebeu por parte de uma instituiqdo de prestigio in- ternacional, pelos seus incontesti- veis m6ritos como soci6logo, escri- tor, jornalista e, acima de tudo, como cidaddo integro, de reconhecida idoneidade moral. Faqo minhas as palavras do sau- dosojurista e professor Otivio Men- donqa, inseridas em um de seus livros, sobre a figure admiravel e tao querida de Ldcio Flavio: "Oriundo de Santa- r6m, suas origens tapaj6nicas sio vi- siveis, a olho nu, na posiqco intelec- tual que se traqou de investigator e divulgador das realidades paraenses, defensor de suas riquezas e, sobretu- do, int6rprete dos homes dispersos em seu vasto e ignorado interior, ho- mens que possivelmente ndo o co- nhecem nem o l1em, porem cujos in- teresses ele defended com uma perse- veranqa e uma coragem tanto mais louvdveis porque espontaneas, gra- tuitas e, nao raro, incompreendidas". Valeu, Ldcio! Nao esmoreqa, con- fie em Deus, voc8 merece plena liber- dade para viver e lutar clamando pelo fim das injustiqas sociais, em defesa da Amaz8nia, apontando os erros de quem nao age com retidao, estimu- lando debates irritantes para os que temem a verdade, cru6is e desespe- radores para os que a escondem, gra- tificantes para os que a buscam sem cessar. Quem fala a verdade nao pode ser injustiqado, nao merece sofrer nenhum tipo de castigo, nenhuma condenagdo. Merece apenas estar, como sempre voce esteve, preso no coraqdo dos seus amigos, dos seus leitores, dos seus admiradores, dos seus conterraneos. Journal Pessoal Editor: Licio Flavio Pinto EdIiAo de Arte: L A de Faria Pinio Produqlo: Angelin Pinlo Contato: Tv Benjamin Corsrani 845#203'66 053- 040 Fones: (09 113241 7626 E-mail: |ornai&arraazon corn Dr |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 13 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |