Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00288


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Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
DEZEMBRO DE 2005 1 QUINZENA N" 358 ANO XIX* R$ 3,00
SOLUS, TOTUS, UNUS


IPOLITICA



Jatene: de novo candidate?

Simao Jatene surpreendeu, ao receber uma inedita homenagem no reduto empresarial "jaderista".
Na semana passada, corn urn discurso violent contra o ex-senador. Como se estivesse no palanque, o
governador visou o alvo declarado. Mas pode ter atingido tambem seu correligionario, o ex-governador
Almir Gabriel, queja se anuncia como o candidate do PSDB ao governor em 2006.


mo que remotamente, se desfi-
zeram as possibilidades de uma
composiqdo entire o governador
Simrao Jatene, do PSDB, e o deputado
federal Jader Barbalho, do PMDB, duas
das maiores lideranqas atuais do Estado.
0 governador foi ao reduto jaderista no
mundo empresarial, a Federaqdo daAgri-
cultura, onde recebeu homenagem in6di-
ta, e de lI mandou um missil na direqdo
do seu antigo aliado, hoje desafeto.
0 petardo assumiu a forma de um
recado corn contundente endereqo cer-
to: os "politicos antigos que por muitas
vezes tiveram a oportunidade de servir
ao pdblico, mas preferiram se servir do
p6blico; politicos antigos que amealharam


fortunes consideriveis, nao muito bem
explicadas".
Esses acrescentou Jatene sao
politicos "que, no travesseiro e no siln-
cio de seu quarto, na hora de dormir, ain-
da que possam imaginar que enganaram
a muitos, nao enganaram suas conscien-
cias, por terem perdidos valores funda-
mentais, como 6tica, carter e honra. E
por viverem mergulhados na lama, nao
encontram outra maneira sendo enlame-
ar os outros".
A carapuqa foi lanqada para caber
como luva em Jader Barbalho. Nenhuma
novidade nas referencias. Mas a Wnfase e
a virulencia da citaqdo mostravam que o
governador decidiu reagir a uma campa-
nha de dendncias desencadeada pelo Di-


drio do Pard, de propriedade da familiar
Barbalho, e romper aberta e definitivamen-
te corn o ex-senador. A irritaqio do go-
vernador se devia as seguidas mat6rias do
journal sobre nepotismo da familia Jatene
no governor do Estado. Essas denincias
foram repercutidas por outros 6rgdos da
grande imprensa national, culminando comn
um pedido de providencias do PT ao Mi-
nist6rio Ptiblico do Estado.
Segundo porta-vozes, o governador
ficou indignado ao ver arrolados como
seus protegidos ou favorecidos por seus
atos integrantes da famflia que ji traba-
lhavam anteriormente na administration
p6blica. Todos os Jatene citados foram
colocados no mesmo saco, sem distin-
CONTINUA NA PAG 2


0 BRASIL: SEMPRE
MAIS PARA TRASH
PAGINA12

PERSEGUIAO MAIORANA
GANHA 0 MUNDO
PAGINA 7


'p
Vw"







CONTINUA;AO DA CAPA
qdo da hist6ria pessoal de cada um, como
se no Pard a praga do nepotismo se
distinguisse em relaqdo aos outros Es-
tados por sua intensidade. 0 que, de fato,
nao 6 verdade. Constataqdo que nao
anula, por6m, um fato tambm indesmen-
tivel: o nepotismo pode ser encontrado
em todos os escaninhos da administra-
qao pdblica, incluindo ajustiqa, que ago-
ra tenta combater esse mal da tradiqdo
patrimonialista no Brasil, corn 6nfase nos
Estados mais atrasados da federaqao.
Apesar do evidence emocionalismo
que deu o tom ao pronunciamento do
governador na Faepa, o ato nao foi cornm-
pletamente espontaneo. Ao mesmo tem-
po em que procurou desfazer os boatos
sobre a hip6tese de uma recomposiqdo
corn Jader, cobrindo-a corn o selo do de-
finitivamente impossivel, Jatene pode ter
voltado a pensar na reeleiqdo. Nao de
forma explicit, porque o candidate em
campanha 6 o seu antecessor, Almir Ga-
briel, mas voltando a colocar seu nome
para circular na gaiola tucana.
Nunca nenhum governador foi home-
nageado pela Federaqdo da Agricultura
da maneira como na solenidade da se-
mana passada, na qual foi conferida a
Jatene a comenda do mrrito agropecu-
ario de 2005. Se a cena foi montada corn
algum outro prop6sito nao revelado, na
prdtica ela serviu de caixa de ressonan-
cia para a afirmaqao dura do governa-
dor e palanque nao assumido para revi-
talizar sua por enquanto debilitada can-
didatura. 0 president da Faepa, Car-
los Xavier, um "jaderista" assumido, te-
ria mudado de lado, sentindo as novas
perspectives no horizonte, ou foi atro-
pelado pelas circunstancias?
Respostas formais podem aparecer
sem dificuldades, mas o aparente enig-
ma s6 sera decifrado pelos pr6ximos
acontecimentos. A influencia de Jader
Barbalho na agriculture national, ou ao
menos nos bastidores desse setor, 6 mai-
or do que a dos tucanos. Mas a conjun-
tura national pode pesar menos, no mo-
mento, no Para, do que as engrenagens
locais de poder. A queda-de-braqo das
pr6ximas semanas ajudard a entender
melhor a conjuntura.
0 torn drdstico do discurso do go-
vernador e os enc6mios que Ihe foram
reservados pelos presents fazem retor-
nar uma questao elementary: por que Si-
mao Jatene nao pode pleitear um segun-
do mandato? Por que Almir Gabriel, que
jd esteve por oito anos seguidos a fren-
te da administragdo estadual, se apre-
senta como o candidate do PSDB, atro-
pelando seu successor corn fatos supos-
tamente consumados?
Ha uma resposta bemrn simples para
isso tudo: Simao Jatene nao quer um


segundo mandate de governador. Se-
ria realmente simples se ele ji tivesse
feito tal declaraqdo. Parecia que se en-
caminhava para isso, na pratica, nao por
afirmativa, mas por omissao. Politicos
do interior nao conseguiamrn ser recebi-
dos por ele, mesmo se empenhando
para infiltrar-se em sua agenda. Mui-
tos voltavam ao ponto de origem frus-
trados, quando nao furiosos. Outros co-
meqaram a se desviar para a porta que
Ihes foi aberta.
Ao inv6s de se isolar em seu jardim
de orquideas, como prometera, Almir
Gabriel tratou foi de adubar sua horta
eleitoral. Comegou discretamente a re-
ceber os politicos excluidos das audian-
cias corn seu successor. Logo estava em
franca atividade, fazendo contatos no
seu apartamento e passando a percor-
rer o interior. Enquanto crescia, Jatene
se encolhia. Por gravidade, o poder tu-
cano Ihe caiu no colo. E o governador
nada fez para cortar esse deslocamen-
to de influencia. Uns explicavamrn: por-
que, de fato, Jatene se entediou do go-
verno. Outros, porque se sentia cons-
trangido pelo expansionismo de Almir
Gabriel, a quem, sem qualquer sombra
de ddvida, deve sua vit6ria eleitoral em
2002. Jatene jamais teria conseguido
pular do mundo academico para o poli-
tico apenas corn as pr6prias pernas.
Dai cada umrn dos dois politicos adotar
como estrat6gia um certo distanciamen-
to, evitando estar presents aos mesmos
atos. Corn certo esfor9o, Almir Gabriel
foi ao casamento do filho de Jatene, mas
as mesas nas quais se sentaram mais
pareciam duas fortalezas hostis do que
um condominio de aliados, como devia
ser se o que dizem correspondesse a re-
alidade. Jatene nao aprovou a desenvol-
tura de Almir, mas preferiu engolir o hf-
brido sapo de bico grande.
Nas ultimas semanas, entretanto,
conversas de bastidores passaram a tra-
tar da disposiqdo do governador de rea-
valiar sua candidatura. Ela estava de
certa forma sendo minada pela onda em
torno de uma reaproximaqdo corn Jader
Barbalho, boato que reforqava ainda
mais a lideranqa de Almir Gabriel no
PSDB. 0 recado de Jatene na Faepa
nao podia ser mais contundente. Mas vai
ficar nisso? Aceitard ser apenas o gran-
de cabo eleitoral de Almir Gabriel?
Seu antecessor desempenhou esse
papel em 2002. Mas corn uma diferen-
9a essencial: como j. estava no segun-
do mandate, nao podia mais se candida-
tar ao governor. Cumprida a quarente-
na, Almir estd novamente em condiqoes
de tentar uma faqanha sem paralelo na
hist6ria political do Pard: governor o Es-
tado em 16 dos dltimos 20 anos, em tres
mandates. Isso, se nao desabarem mas


novidades de Brasilia, do Tribunal Su-
perior Eleitoral, ao qual os dois foram
denunciados e ainda estao sujeitos a
perda de mandate e de direitos politicos
por crime eleitoral.
0 discurso na Faepa pode ser o sinal
de que Jatene nao se conformard ao pa-
pel de coadjuvante, quando ainda pode
aspirar a renovaqdo do mandate, direito
em tese que seu correligionario lhe esti
vedando corn a precipitaqdo de sua can-
didatura informal, sim, mas efetiva. Para
ambos, Jader Barbalho, personificaqdo
do enriquecimento ilicito no servi9o pu-
blico, pode servir de espantalho is aves-
sas. Nao para afastar os predadores, mas
para atrai-los para seus inimigos.
Jader, por culpa pr6pria e oportunis-
mo dos adversaries, se tornou uma Geni
da political brasileira. 0 estigma funcio-
na como magnetismo para as acusaq6es
de corrupqo e roubo de dinheiro publi-
co contra o home que mais enrique-
ceu no exercicio do poder piblico para-
ense nos 61ltimos anos (ou em todos os
tempos). Tern uma forqa magn6tica tao
grande que a opiniao pdblica costume
ser desviada de uma questao comple-
mentar: mas s6 ele? Todos os demais
sao querubins e Cataos?
Sera que nos seis anos em que tra-
balhou corn Jader, primieiro no governor
do Estado (de 1983 a 1987, como se-
cretirio de planejamento) e depois no
Minist6rio da Reforma e do Desenvol-
vimento Agrdrio (Mirad), A frente da
secretaria de assuntos fundidrios, Jate-
ne nao tomou conhecimento das dendn-
cias que comeqaram a ser feitas contra
seu chefe? E Almir, prefeito de Bel6m
nomeado pelo governador Jader Barba-
lho, de nada sabia? Um jornalista nao
conversou corn ele durante uma tarde
inteira de um domingo de 1985 relatan-
do-lhe tudo de errado que seu chefe fa-
zia, sem provocar-lhe nenhum ai? Por
que os dois s6 comeqaram a malhar esse
Judas em 1989, quando seus caminhos
politicos se separaram?
A costa imensamente larga de Jader,
corn muitas contas a acertar por seus
erros, omissoes e silencios, tern servido
de biombo para seus adversarios. En-
tende-se que eles virem a metralhadora
contra um alvo facil. Mas que nio fi-
quem s6 nesse movimento. Assim, aca-
baramrn nao criando nada de s6lido para
o future de um Estado que vai consu-
mindo suas reserves sem sair do rabo
da fila da federagao brasileira, sempre
entire os mais pobres, apesar de seu in-
superdvel volume de capital natural. Fica
jogando pedras na Geni (e no passado),
como na mdsica de Chico Buarque de
Holanda. E nesse vdcuo que, ao inv6s
de surgir o diferente, se desenvolve o
velho, a mesmice.


0 DEZEMBRO DE 2005 IQUINZENA Jornal Pessoal









"0 que nos une 6 o sentido do compromisso"


No dia 1 participei de um bate-papo atraves do site do Comunique-
se. Reproduzo abaixo a integra da conversa, conforme a transcrigao
feita pela revista eletr6nica, corn algumas correoes de texto e uma s6
de informagao (a minha constancia no forum, captada
imprecisamente). A reporter Miriam Dutra, alem de moderadora, foi
minha interlocutora: ela fazia as perguntas e recebia minhas respostas
por telefone, transmitindo-as atraves do computador as pessoas que
conseguiram entrar na sala de bate-papo virtual. Perguntas e respostas
tmrn que se amoldar a urn determinado tamanho para poderem ser
aceitas para transmissio. 0 Comunique-se marcou para o dia 7 o
encontro corn Ronaldo Maiorana. Depois o adiou para o dia 14.


precise sempre olhar para fora
da Amaz6nia para v6-la no es-
Spelho que a reflete. Sem isso,
n6s vamos combater moinhos
de vento ou a projeqio da image, e niao a
realidade em si. AAmaz6nia sempre foi a mais
internacionalizada das regimes brasileiras. Foi
a regiao que se incorporou mais tardiamente
ao Brasil. 0 peso dessas duas condiqies es-
maga a regiao. E 6 terrivel ter consciencia dis-
so". A paixao pelaAmazonia move L6cio Fld-
vio Pinto. Defensor das questoes ambientais,
ele enfrenta 19 processes na Justiqa, a maio-
ria movida por Ronaldo Maiorana, umrn dos
diretores das Organizaqbes Romulo Maiora-
na (ORM), que vai participar do "Papo na
Redacao" no dia 07/12.
Durante o chat, ele comentou o apoio que
a Federacao Nacional de Jornalistas estuda,
denunciando as perseguicoes que vein
sofrendo ao IFEX Internacional Freedom
of Expression Exchange. "E umrna boa iniciati-
va. Eu lameinto que o S6rgio (Murillo, presi-
dente da Fenaj) ache que toda ajuda tern que
ser solicitada. Acho que quando umrn caso se
torna pdblico e not6rio, 6 obrigaqao do 6r-
gao de classes tomar uma iniciativa. Era esse o
meu modo de proceder quando fui presiden-
te do Sindicato dos Jornalistas do Pard. Ja fiz
contatos no passado corn a Fenaj, sem muita
resposta. Ganhei dois primios Fenaj no ano
de lanqamento dessa premiaqio, em 1989. A
Federacao considerou o Jornal Pessoal o
melhorjornal do Norte e Nordeste do Brasil.
Imaginava que a Fenaj estivesse atenta a
acontecimentos envolvendo um journal que
no passado tinha em tio alta conta. Tentarei
suprir minha falta fornecendo informaq5es
para a Fenaj. E agradeqo o interesse".
Leia na integra o "Papo na Redacio" corn
Lucio Flavio Pinto:
[ 15:08:27] Alessandra Matarazzo (Fre-
elancer) pergunta para Lucio FlAvio: Oi, Lu-
cio. Tudo bem? E um prazer poder falar corn
voce!!! Voce pode nos contar como surgiu a
ideia de criar o Jornal Pessoal e como 6 fazer
umjornal que provoca a ira de pessoas pode-
rosas, como Ronaldo Maiorana?
Lucio Flaivio responded: Oi, Alessandra. Eu
decidi fazer o Jornal Pessoal porque uma
mat6ria que escrevi sobre o assassinate do
ex-deputado estadual Paulo Fontenles de
Lima foi vetada pela direcio dojornal 0 Libe-
ral, para o qual eu colaborava. Como nio ti-


nha onde publicar essa mat6ria, decidi entAo
criar um journal que pudesse ser totalmente
independent para divulgar essa reportagern
e a verdade, sempre a verdade. Nada incomo-
da mais os poderosos do que a verdade, mes-
mo quando ela 6 publicada num journal tio
pequeno como o meu. Apesar de ser um jor-
nal radicalmente pessoal, ele j ganhou o Pr6-
mio Fenaj, da Federacio Nacional de Jorna-
listas, em 1989, umrn dos mais poderosos da
ItAlia, em 1997, e agora o Premio Internacio-
nal de Liberdade de Imprensa do CPJ.
[15:15:24]-FlAvioda Silva Oliveira (Pre-
sidente Midia Comum Relacionamento da
Comunidade corn a Imprensa) pergunta para
L6cio Flavio: Caro Lucio Flavio, sou um ad-
mirador seu. Parab6ns pelo drduo trabalho
para publicar quinzenalmente o Jornal Pes-
soal. Por6m, voce nio acha que exagerou em
"0 rei da Quitanda", e que nesse artigo aca-
bou cometendo agressoes morais da forma
como se referiu ao Romulo Junior?Acha mes-
mo necessario escrever que algu6m "nio fala
umna lingua al6m da que traga corn alguma di-
ficuldade desde o nascimento"? Ou que tal
pessoa 6 poderosa, mas nio acorda cedo para
trabalhar? Vendo por esse lado, voc6 nio
acha que o Jornal Pessoal corre o risco de se
tornar demasiadamente "pessoal", e sua crf-
tica gratuita e desnecessdria?
Lucio Flavio responded: Oi, Flavio. Nio
consider que essa critical seja gratuita e des-
necessaria. Primrneiro porque todos os fatos
mencionados saio verdadeiros. Segundo por-
que Romulo Junior usufrui todos os beneff-
cios da notoriedade, mas nio quer o inus
desse mesmo privil6gio. Ele quer ser "endeu-
sado" e apreciado. Mas quando recebe criti-
ca a consider como ofensa. Ele tern um ex-
cesso de poder e, por isso, se tornou volun-
tarioso. Sua vontade 6 absolute. Logo, a crf-
tica tern o sentido de correqao, ou, como di-
zem os advogados, corrigendi. Por que ele
nio contestou a critical se a consider incor-
reta, falsa e exagerada? Todas as vezes que
eu ouqo essas reaqies, me lembro de umrn mag-
nifico text que o maiorjornalista do Para,
Paulo Maranhao, escreveu no dia em que mnor-
reu um dos maiores personagens da hist6ria
do Estado, no s6culo passado, o intendente
de Bel6m, Ant6nio Lemos. E um necrol6gio
durissimo, mas absolutamente verdadeiro.
Nesta nossa 6poca, de sincronismo e "sim,
senhor", nos desabituamos 6quilo que Jack


Anderson disse que constitui os "ruifdos da
democracia". Uma democracia que funciona
corn excess de sil8ncio 6 frdgil e falsa.
[15:22:06] Flavio da Silva Oliveira (Pre-
sidente Midia Comum Relacionamento da
Comunidade corn a Imprensa) pergunta para
Lucio Flavio: Quando 6 que teremos o Jornal
Pessoal na Internet? Voce j6 pensou na pos-
sibilidade de publicd-lo para o mundo?
Lucio Flavio responded: Eu sempre penso
nessa possibilidade, Flavio, mas atW hoje nao
tenho conseguido concretizar esse projeto.
Uma das normas do Jornal Pessoal 6 que
nunca aceitou publicidade. E o problema para
manter umrn site seria cobrir pelo menos os
custos, o que niio 6 possivel sem uma recei-
ta. Entio porenquanto ojornal continue ape-
nas no papel. Mas espero logo poder coloca-
lo na Internet.
[15:24:04] Thais de Menezes (Rep6rter
- Comunique-se RJ) pergunta para Lucio
FlAvio: Old L6cio. Comrno vai? E quanto ao
andamento dos 19 processes contra voc6?
Como esta isso?
Lucio Flavio responded: Oi, Thais. E extre-
mante dificil me manter nessa longa frente de
batalha judicial porque ha 13 processes pe-
nais e 6 cfveis, que demandamrn atenqao e rea-
qio. Depois da concessio do prremio do CPJ,
os Maiorana j6 entraram corn duas novas
aqbes: uma penal e outra civel, de indeniza-
qio por danos morais. Corn essa amplitude
de demands, esta cada vez mais dificil dar
conta dos outros encargos da vida. Se nio
quiser ser condenado, perder a primariedade
e ir para a cadeia, tenho que ficar em perma-
nente estado de alerta.
[15:26:48] -Elias Ribeiro Pinto Jr. (Co-
lunista / Comentarista / Critico Diario do
Para PA) pergunta para L6cio Flaivio: Qual
o contrast de escrever sobre uma regiio cujo
destino 6 traqado fora dela, sendo exemplo
disso, e neste caso exemplo benigno, o fato
de o reconhecimento ao seu trabalho vir prin-
cipalmente de fora da regiao?
Luicio Flavio responded: Oi, irmao. Eviden-
temrnente eu niao sou Marx, mas ele me serve
de inspiraiao. Marx escreveu contra o capi-
tal no tempo do capital, que era o Museu
Britdnico. E ele escreveu que 6 a anatomia do
homemrn que explica a anatomia do macaco.
Ou seja: estruturas mais complexes explicam
estruturas mais simples. Por isso, 6 precise
sempre olhar para fora daAmaz6nia para v&-
la no espelho que a reflete. Sem isso, nos
vamos combater mnoinhos de vento ou a pro-
jeqdo da image, e nio a realidade em si. A
Amaz6nia sempre foi a mais internacionaliza-
da das regimes brasileiras. Foi a regiio que se
incorporou mais tardiamente ao Brasil. 0 peso
dessas duas condiqoes esmaga a regiao. E 6
terrivel ter consciencia disso.
[15:29:59]- Thais de Menezes (Rep6rter
- Comunique-se RJ) pergunta para Liicio
Flavio: Uma curiosidade: voc6 realmente nao
podia deixar o Estado para receber o primio
do CPJ? Haviaalgumadecisaojudicial que le
impedia de deixar o Pard?
CONTINUE NAPAG 4


Jornal Pessoal I QUINZENA DEZEMBRO DE 2005 3







CONTINUA;AO DA PAG. 3
Lucio Flivio responded: Legalmente eu
podia sair, como posso sair at6 hoje. 0 pro-
blema 6 que havia prazos pendentes de re-
cursos. Quatro dias antes do dia da entrega
do premio, eu ajuizei cinco recursos no f6rum
de Bel6m. Na vdspera, mais dois. E dois dias
depois do premio, tive audiencia de instru-
cio e julgamento. Por causa de epis6dios
do passado, que me custaram muito caro,
inclusive a mais real das ameaqas de conde-
nacgio, no ano passado, decidi que quando
os processes esquentam, tenho que perma-
necer aqui. 0 primeiro grande objetivo dos
meus perseguidores 6 acabar corn a minha
primariedade. Ha 13 anos eles tentam e, fe-
lizmente, graqas a essa permanencia, ainda
nao conseguiram.
[15:31:50] Liliane Minami (Assessor de
Imprensa Greenpeace Brasil) pergunta
para Luicio Flavio: Old Ldcio. Gostaria de pa-
rabenizi-lo por seu trabalho, do qual sou gran-
de admiradora! Como voc6 ve a unido dos
jornalistas para apoid-lo contra a persegui-
qio que voce enfrenta em sua luta no Pard?
Lucio Flivio responded: Oi, Liliane. Na en-
trevista que deu ao Comunique-se, Ronaldo
Maiorana disse que eu estou por tris da Ci-
beraqio. Os verdadeiros autores desse mo-
vimento decidiram desencaded-lo exatamen-
te porque eu tenho estado ausente dos en-
contros que eles esperavam aproveitar para
usar em meu favor. Corn a minha aus6ncia,
decidiram tomar a lideranqa. Eu acho que por
ser autintico e decidido, esse movimento
pode ser muito important para reverter a con-
denaqio que jd me aguarda.
[15:34:21]- Dione Amaral (Assessor de
Imprensa Faculdade Seama AP) pergunta
para Lucio FlAvio: Oi Licio, tenho acompa-
nhado sua lida, sou a jornalista de Macapd
que vai fazer o projeto de mestrado, lembra?
Parece que o Ronaldo Maiorana quer te ven-
cer no cansaco mesmo n6? Nao cansa de pe-
dir indenizaqies por danos morais baseado
na defasada Lei de Imprensa.
Lucio Fliivio responded: Oi, Dione. Lem-
bro, sim. E exatamente esse o objetivo. E es-
tdo bem pr6ximos de conseguir dado o esgo-
tamento fisico que essa perseguiqio viajudi-
ciirio esti me causando. Voce sabe que uma
pessoa estressada compete pequenos erros. E
pequenos erros num processojudicial podem
ser fatais, como, por exemplo a perda de um
prazo. Estou tentando reagir a esse cansaco,
mas sei que essa capacidade tern limits. Por
isso, 6 important evitar que a Justiqa se
transform numa extensio da vontade dos
meus perseguidores.
[15:36:19]- Flivio da Silva Oliveira (Pre-
sidente Midia Comum Relacionamento da
Comunidade corn a Imprensa) pergunta para
Lucio Flavio: Lucio, o que acha dos blogs?
Voc6 tern o projeto de publicar um?
Lucio Flavio responded: Eu acho uma ex-
celente idWia, embora eu pr6prio seja um tanto
inapetente e incompetent corn esse meio.
Leio corn atenqio os blogs e tento dialogar
corn alguns dos blogueiros. No moment,
infelizmente, nao tenho tempo pra criar um.
E espero que esse tempo nio surja numa
cela da cadeia. Nao tenho as fascinantes qua-
lidades que Antonio Gramsci teve nos nove


anos que foi mantido no circere italiano por
Benito Mussolini.
[15:38:33] -Jonas dos Santos Marcon-
des (Desempregado Desempregados) per-
gunta para Licio Flaivio: Por que diz que
sera condenado?
Lucio Flivio responded: Porque 6 o ca-
minho que esti se delineando no horizon-
te. Todas as aqdes impetradas contra mim
sao recebidas, nenhuma das preliminaries
que tenho suscitado nas defesas pr6vias 6
acolhida. Meus recursos sio indeferidos
em regra e varios absurdos sio cometidos
pelo instructor dos processes. Minha espe-
ranqa esti na instAncia recursal dos tribu-
nais superiores, onde tenho obtido suces-
so, mesmo sem ter advogado que acompa-
nhe essas demands. Nao estou descrente
na Justiqa, mas tenho fundados motives
para nio crerem certosjuizes.
[15:41:02] Elias Ribeiro Pinto Jr. (Co-
lunista / Comentarista / Critico Dimrio do
Para PA) pergunta para Licio FlAvio: Do
jeito que a devastacio segue, a Amazonia tem
hora marcada para acabar?
Lucio Flavio responded: Eu sempre enca-
rei corn ceticismo as datas certas para os even-
tos hist6ricos. Em 40 anos de jornalismo, jd
fui testemunha de viArias dessas mortes anun-
ciadas, muitas das quais anunciadas, mas nio
se realizaram. 0 que esta fora de d6vida 6 que
n6s estamos perdendo e vamos continuar a
perder a oportunidade 6nica de conciliar a
atividade humana corn a floresta. Somos o
povo que mais destruiu floresta na hist6ria
da humanidade, tendo como um dos nossos
principals capitals de recursos naturais um
terqo das florestas tropicais que ainda exis-
tem no planet. E muito triste ser contempo-
raneo desse incrfvel ato de desintelig8ncia.
[15:45:09] Elias Ribeiro Pinto Jr. (Co-
lunista / Comentarista / Critico Diario
do Pari PA) pergunta para L6cio Flavio:
E o governor Lula, corn a ministry Marina a
reboque, refreou ou contribuiu para acele-
rar essa devastacio?
Licio Flivio responded: Eu acho que o rit-
mo da devastacio tern pouco a ver corn quern
ocupa os paldcios em Brasilia. A relaqdo de
causa e efeito 6 corn a atividade produtiva. A
ela interessa pouco que seja Lula ou FHC,
Marina ou Fernando Coutinho: o que inte-
ressa 6 o valor da mercadoria. Mas o que me
escandalizou foi ver no ano passado e neste
ano que ainda tern muito produtor rural na
Amaz6nia convencido de que 6 bom neg6cio
substituir floresta por pastagem. Pensei que
essa loucura tivesse sido debelada de vez,
nio pelo discurso ambientalista, mas pelo cil-
culo econbmico. E uma estupidez econbmica
fazer isso. Eu vi, certa vez, um fazendeiro des-
matar 7 mil hectares de floresta densa em Sio
F61lix do Xingu, former um pasto nessa Area e
nao colocar nenhum animal para pastar. 0 6ni-
co que havia era o dono da fazenda. Lamento
profundamente que animals como esse con-
tinuem a ter poder de mando sobre a floresta.
[15:48:57] Liliane Minami (Assessor
de Imprensa Greenpeace Brasil) pergun-
ta para Lucio Flavio: Lucio: e o que voce
pensa do acalorado debate em torno da
internacionalizaqio da Amazonia, seus
mitos e verdades?


Luicio Flivio responded: Vou contar duas
hist6rias a esse respeito. Uma vez urn almi-
rante chegou no Jari, na 6poca de proprieda-
de do miliondrio americano Daniel Ludwig, e
encontrou uma bandeira brasileira de cabeqa
para baixo. Foi urn Deus nos acuda. Logo, a
bandeira estava hasteada corretamente e o
problema foi resolvido. Da outra vez, quando
a Volkswagen apresentou o seu projeto agro-
pecudria A Sudam, o representante do Minis-
t6rio dos Transportes, que era um official do
Ex6rcito, foi contra. Mostrou que o control
do empreendimento era da Volks AG. Logo,
era empresa alem5. Corn toda a razio ele dis-
se que poupanqa national nao podia ser apli-
cada em projeto estrangeiro. 0 projeto da
Volks foi retirado de pauta. Voltou no rnms
seguinte, corn umrna correqio: onde se lia Vo-
Iks AG passou-se a ler Volks S/A. E o projeto
foi considerado nacionalizado.
[15:51:41]- Marcelo Soares** (Coorde-
nador/ Chefe de Produoo Abraji) pergun-
ta para Luicio Flaivio: Salve, L6cio. Qual 6 a
estruturajunidica de que voce dispoe para se
defender? Corn que freqUiancia tern precisa-
do se apresentar A Justiqa?
Lucio Flavio responded: Oi, Marcelo. Mi-
nha estrutura 6 do tamanho da funda que
David usou contra Golias. Conto apenas atu-
almente corn um tio, que participa da minha
defesa. Como os advogados que procurei nio
quiseram aceitar a causa, tive que participar
da minha pr6pria defesa, ji que nao tenho
dinheiro para recorrer a outras vias mais one-
rosas. A freqiUencia 6 didria, is vezes, e sema-
nal, quase sempre. A6lm disso, hi incidents
processuais semanais, que exigem a produ-
qdo de peas para apresentar em jufzo. De
morosidade judicial, eu nio posso reclamar
dos processes nos quais sou reu.
[15:52:09] Dione Amaral (Assessor de
Imprensa Faculdade Seama AP) pergunta
para Lucio FIivio: Ldcio, voc6 niao deve de-
sistir por que? Saio duas situaqes: a la 6 ca-
lar o JP e a segunda que sio as condenaqes
no process. Eu acho que voc6 teria maiores
problems corn o segundo, portanto lute, que
n6s estaremos acompanhando essa batalha.
Lucio Flavio responded: Muito obrigado.
[15:55:09] Altino Machado (Freelancer
Freelancers) pergunta para Lucio FlAvio:
L6cio, 6 evidence que, em razio de sua hist6-
ria professional, voc6 enfrenta o perigo de ser
assassinado a qualquer moment no Parai. 0
que responded a quern possa lhe sugerir pedi-
do de asilo em outro pais?
Lucio FlIavio responded: Euji tentei viver
em outros paifses, mas sou tribal demais para
ficar long da terra onde nasci. Por ironia, quan-
do em 1984 eu fui seriamente ameagado de
morte, a primeira pessoa que se ofereceu para
me defender foi Romulo Maiorana, o pai. Liga-
ram para a redaqio de 0 Liberal e disseram
para o director de redacio, Cliudio Augusto de
Si Leal: prepare a manchete, L6cio Flivio Pin-
to foi morto. Imediatamente Romulo me telefo-
nou dizendo que ia mandar dois seguranqas
para me proteger. Respondi que nunca usei e
nemrn usarei seguranqa. Tomei minhas provi-
dencias, ditadas pela inteligencia. E, felizmen-
te, desfiz a engrenagem que me ameaqava.
[15:58:55] -Flaivio da Silva Oliveira (Pre-
sidente Midia Comum Relacionamento da


A DEZEM8RO DE 2005 I'QUINZENA Journal Pessoal







Comrnunidade corn a Imprensa) pergunta para
Licio Flavio: Ldcio, se voc6 permitir, gosta-
ria de ajudi-lo a construir umrn site para o
Jornal Pessoal. Mande-me o PDF do 61ti-
mo JP. Desenvolverei, sem custos, umrn me-
canismo para que ojornal possa ser aces-
sado pelo mundo. 0 meu e-mail 6
midiacomum@bol.com.br. Fique A vontade
para decidir.
L6cio Flaivio responded: Muito obrigado,
Flavio. 0 meu Jornal Pessoal 6 tao anacr6ni-
co que ele nem 6 em PDF, 6 em Word. Mas
vou mandd-lo assim para voc&.
[16:01:55]- Vitor Ribeiro (JORNALIS-
TA NAO LOCALIZADO 0 Jornalista -
SP) pergunta para Lucio Flavio: Quero ini-
cialmente parabenizar a iniciativa do Comu-
nique-se em realizar a Coletiva On-Line corn
o Ldcio, que 6 um exemplo dejornalista. Hoje,
recebi um e-mail do president da FENAJ, o
S6rgio Murillo, no qual ele afirma que ape-
sar de voce nunca ter pedido nada para a
Federacao eles ji estudam a proposta de fa-
zer uma dendncia ao IFEX Internacional
Freedom of Expression Exchange, via Fede-
racao Internacional dos Jornalistas. Voc6
acha que esta iniciativa pode ajudar?
L6cio Flaivio responded: E uma boa ini-
ciativa. Eu lamento que o S6rgio ache que
toda ajuda tern que ser solicitada. Acho
que quando um caso se torna pdblico e
not6rio, 6 obrigaqdo do 6rg5o de classes
tomar uma iniciativa. Era esse o meu modo
de proceder quando fui president do Sin-
dicato dos Jornalistas do Pard. Ja fiz con-
tatos no passado corn a Fenaj, sem muita
resposta. Ganhei dois premios Fenaj no
ano de lanqamento dessa premiaqao, em
1989. A Federacao considerou o Jornal
Pessoal o melhor journal do Norte e Nor-
deste do Brasil. Imaginava que a Fenaj es-
tivesse atenta a acontecimentos envolven-


do um journal que no passado tinha em tdo
alta conta. Tentarei suprir minha falta for-
necendo informaqoes para a Fenaj. E agra-
deco o interesse.
[16:05:19] Altino Machado (Freelancer
- Freelancers) pergunta para L6cio Flaivio:
Voce acha que existe preconceito da 'grande
imprensa' em relaqno A sua luta pessoal?
Como reagiu ao fato de que a imprensa brasi-
leira ignorou a sua premiaqio international?
Lucio Flavio responded: Nio me causou
muita estranheza, mas no fundo do coraqdo
senti esse silencio. Em 1997, fui o primeiro
ndo-europeu a receber o Colombe d'Oro per
la Pace. Fui o primeiro brasileiroem 15 anos a
receber o Premio do CPJ. Nao acho que isso
seja uma honraria pessoal. E uma deferencia
ao que a Amaz6nia represent no mundo. Sou
apenas um instrument dessa hist6ria. Por
isso, acho que os 6rgaos de imprensa devi-
am considerar dessa maneira. E incrivel que o
editorial dedicado ao tema pelo Washington
Post, no dia da entrega do premio, naio tenha
tido nenhuma repercussao na mfdia brasilei-
ra. Talvez pelo inusitado de umjornalista es-
tar sofrendo uma perseguiqio sem paralelo
por parte de uma empresajornalfstica.
[16:07:04] -Marcelo Soares** (Coorde-
nador / Chefe de Produqio Abraji) per-
gunta para Liicio FlAvio: Que arguments
davam os advogados que se recusaram a
tender seu caso?
Lucio Flavio responded: Alguns disseram
que eram colaboradores do journal 0 Libe-
ral. Outros, que estavam sem tempo. E al-
guns marcavam encontros que nao se reali-
zavam. Como bom entendedor, entendi.
Quando os processes comeqaram, contei
corn o apoio de um amigo que naio freqUen-
tava o f6rum, nem tinha escrit6rio de advo-
cacia, mas que se dispos a assumir a causa.
E tern sido assim desde entao.


[16:09:43] Elias Ribeiro Pinto Jr. (Colu-
nista / Comentarista / Critico Diario do
Para PA) pergunta para Lucio Flavio: Dian-
te da 6bvia perseguicao de que voce 6 vitirnma
e que atinge a pr6pria sociedade paraense,
como esta sociedade tern reagido, entidades
organizadas como OAB, a pr6priajustiqa, in-
telectuais, e mesmo pessoas simples?
Lucio Flaivio responded: A OAB do Para,
quando provocada, disse que nao ia se inte-
ressar porque se tratava de rixa de familiar.
Nao aceitou o pedido subscrito por 40 advo-
gados para excluir o meu agressor da presi-
dencia da Comissao em Defesa da Liberdade
de Imprensa. Corn isso, a representante dos
advogados no Para firmou sua posiqao, co-
locando a venda nos olhos. Os grandes no-
mes da intelectualidade at6 agora niio se ma-
nifestaram. Tenho recebido muitos e como-
ventes apoios, de gente comum como eu.
Mas as instituiq5es ignoram essa persegui-
cao. Essa reaqdo define muito bemrn os cam-
pos da opiniio p6blica no Estado.
[16:12:38] Luicio Flivio (ENTREVISTA-
DO) FALA COM TODOS: Uma vez, eu vi-
nha de carro de Porto Alegre para Sio Pau-
lo. Era noite escura, chovia muito, e quase
nio viamos um metro al6m do carro. Vinha-
mos corn cuidado, mas se nao fosse umrn fogo
que algu6m acendeu coin pano embebido
corn gasoline dentro de uma lata, n6s nio
teriamos visto a tempo umn desabamrnento de
barreira que bloqueou todo o leito da estra-
da. Graqas aquele alerta an6nimrno, escapa-
mos de um acidente. Nunca soube a quern
agradecer, mas devo-lhe a vida. E assim que
encaro os que tern se manifestado em meu
favor. Gente para a qual eu nunca you poder
testemunhar o quanto me foi important essa
solidariedade. 0 que nos une 6 o sentido
comum do compromisso e 6 o compromisso
corn a verdade. Muito obrigado.


ECLUSAS
A obra inacabada das eclu-
sas da hidrel6trica de Tucuruf,
iniciada ha 26 anos, vai transbor-
dar por mais dois mandates sem
chegar ao fim: o do president
Lula da Silva, que prometeu inau-
gurar o sistema de transposiqio
do rio Tocantins antes de acabar
2006, e o do governador Simao
Jatene, que nao deu um passo
al6m da permanent cobranqa
verbal dos administradores do
Estado, de efeito ret6rico para as
arquibancadas.
Enquanto isso, os alemies
inauguraram uma obra absolu-
tamente in6dita em mat6ria de
eclusagem: conseguiram colocar
urn rio artificial em cima do Elba,
em Magdesburg. E praticamen-
te um viaduto aquitico, que pas-
sa sobre um curso d'Atgua natu-
ral. 0 canal 6 o mais extenso via-
duto da Europa, corn 918 metros
de comprimento, que une a rede


de canais da antiga Alemanha
Oriental aos da parte ocidental,
como parte do process de reu-
nificaqio do pais. Barcos de
fundo chato poderdo trafegar o
ano inteiro por essa ponte, que
objetiva facilitar o com6rcio.
Quanto ela custou, ainda nao
sei, mas demorou cinco vezes
menos do que a super-morosa
eclusa de Tucurui, que nao che-
ga A linha de chegada.
Se o governor ainda preten-
de sair das palavras, podia ado-
tar uma media prdtica em fa-
vor da obra: assinar um conve-
nio corn a Uniio, no qual am-
bos se comprometeriam a via-
bilizar as eclusas utilizando os
recursos da compensaqao de-
vida ao Estado pelo governor
federal por conta das isenq6es
As exportaqes. 0 saldo deve-
dor 6 mais do que suficiente para
cobrir o orqamento da transpo-
siqlo. Claro que sem o acata-
mento aos n6meros inflaciona-


dos da Construtora Camargo
Correa. Se necessairio, rescindin-
do o contrato anterior e inician-
do uma nova relaqdo contratual.
Fazer 6 possivel. Quando se
quer. Os alemaes estao nos dan-
do mais uma liqio nesse senti-
do, corn uma obra que impressi-
ona e alegra as pessoas capazes
de ainda se lembrar que os rios
sao a melhor e mais barata via
de transport. Menos na maior
bacia hidrogrifica do planet.


LIVRO
Meu livro, Guerra amnaz6ni-
ca: ojornalismino na linha de tiro,
ji estA disponivel nas bancas de
jornais e revistas e em algumas
livrarias. Espero que seus leito-
res perdoem varios errinhos, al-
guns deles muito chatos, como
um "consedeu" logo no texto de
abertura. Esses erros sao uma
consequiencia da press exage-
rada na elaboraqao do livro.


Ele devia estar a pronto em
tempo de ser apresentado na
solenidade de entrega do Pre-
mio Internacional de Liberda-
de de Imprensa, do CPJ (Comi-
t6 para a Proteqdo dos Jorna-
listas), em Nova York. At6 saiu
em cima da hora. Mas um inci-
dente corn os correios naio per-
mitiu que minha filha o levas-
se. E ai jd era tarde para sub-
meter os originals a uma revi-
sdo competent.
Prometo, a quem sobreviver
A leitura, que haveril uma edi-
iao mais atenta do segundo vo-
lume, se nio faltar gas a essa
empreitada e segundo volume
houver. Para que tal ocorra, es-
pero que os interessados rom-
pam a barreira de silencio e das
conveniencias e deem uma olha-
da no livro. Espero que valha a
pena compri-lo. Corn 400 pdgi-
nas, custa 30 reais. Aceito con-
vites para debate-lo em pibli-
co. Qualquer publico.


Jornal Pessoal QUINZENA DEZEMBRO DE 2005









A agressa-o na Folha"

Sob o titulo "'Jornalista premiado teme sair do pais",
a Folha de S. Paulo publicou, na sua edi(;o do dia 7, a seguinte


materia, de autoria de Sf/via Freire

O jornalista Lucio Flaivio Pinto, 56, pro-
prietirio dojornal "Pessoal", de Be-
16m (PA), recebeu no 61timo dia 22 de
novembro o Primio Internacional de Liberda-
de de Imprensa, dado pelo CPJ (Comittee to
Protect Journalists), nos Estados Unidos, mas
nio pode viajar para receber a homenagem.
Ldcio Flivio evita sair de Belem para nio
perder prazos processuais: hi na Justiqa 18
aqces contra ele em razio dos artigos que
public no journal. "No moment em que os
processes estio muito ativos, nio posso sair
daqui. Um errinho, uma falha processual for-
mal, pode me liquidar", disse.
Das 18 acesjudiciais a queresponde, 13
delas, segundo ele, foram movidas dejaneiro
para cd pela familiar Maiorana, proprietiria do
grupo ORM (Organizaqbes R6mulo Maiora-
na), maior empresa de comunicaqio do Pardi.
Segundo L6cio Flivio, desde Janeiro ele de-
dica a maior parte de seu tempo ai sua defesa
e vai ao f6rum de Bel6m pelo menos tr8s ve-
zes por semana. 0 proprio jornalista 6 quem
prepare a defesa: ele afirma que os advoga-
dos evitam defend8-lo, pois temem represili-
as do grupo de comunicaqio.
Em janeiro, Ldcio Flaivio foi agredido por
Ronaldo Maiorana, 37, editor do journal "0
Liberal", do grupo ORM, em um restaurant.
Desde entao, surgiram outras ac6es. Ronal-
do Maiorana disse que a agressio "foi um
erro", mas que defended a famflia de acusa-
q5es de Lucio Flivio.
Al6m da famflia Maiorana, pela qual ele
se diz perseguido, Lucio Flivio tamb6m foi
questionadojudicialmente por pessoas apon-
tadas por ele como grileiros. Segundo ele, o
premio nio mudou em nada sua situaqio.
Desde que foi anunciado como um dos pre-
miados, em 22 de outubro, disse que foram
apresentadas mais duas aq6es contra ele pe-
los Maiorana: "As duas acies foram um re-
cado: Vamos continuar". Na premiaqio, que
ocorreu em uma cerim6nia no hotel Waldorf
Astoria, em Nova York, L6cio Flaivio foi re-
presentado pela filha.
Para a seccional da Ordem dos Advogados
do Brasil do Para, o caso do jornalista 6 uma
briga pessoal dele corn o grupo ORM e nLio
configura cerceamento a liberdade de impren-
sa. "A liberdadede imprensatemqueserdefen-
dida em todos os seus nuances, s6 que os jor-
nalistas que escrevem alguma coisa estio su-
jeitos a reaLio da outra parte contra a qual es-
creveu. Nenhum direito 6 ilimitado", disse o pre-
sidente da OAB-PA, Ophir Cavalcante Jr. 0 re-
lat6rio annual sobre liberdade de imprensa no
Brasil feito pela ANJ (AssociaLio Nacional de
Jomais) e divulgado na semana passada tam-
b6m nio relata o caso: "Para a ANJ, e n6s dis-
cutimos muito isso internamente, 6 uma coisa
pessoal. Sio dois empresirios da irea de co-
municacio brigando", disse Fernando Martins,
secrettirio-executivo da entidade.
0 emprestirio ejornalista Ronaldo Maiora-
na, 37, editor do jomrnal "0 Liberal", de Bel6m,
disse que processou Lucio Fl6vio Pinto, dojor-


nal "Pessoal", por ele publicar agressoies pes-
soais contra sua farnmilia. "Ele mesmo disse que
eu fui pelo lado errado [ao agredi-lo]. Que o
forum correto [para a discussio] era a Justiqa.
Ele tinha razdio", disse o empresairio. Desde ja-
neiro, Maiorana disse que entrou corn quatro
ou cinco processes contra Lucio Flivio relati-
vos ao conteddo publicado por ele. Maiorana
agrediu o jornalista em janeiro deste ano, em
um restaurant, ap6s um artigo no journal "Pes-
soal" acusar o fundador do grupo Romulo
Maiorana e pai de Ronaldo de contrabandista.
Segundo o emprestirio, desde a agressaio,
as criticas contra a famflia se intensificaram:
"Ele [Lucio Flaivio] pode escrever, mas acho
desnecessirio falar de uma pessoa que esta
morta, que naio esti aqui para se defender.
Falou de minha mie coisas inveridicas. Ela
foi 6rfa, mas nio foi prostitute, corn todo o
respeito Ais prostitutes". Segundo Maiorana,
Lucio Flaivio nunca telefonou para pedir o
ponto de vista da familia em relaLio aos arti-
gos publicados. Ele afirma tamb6m que nun-
ca usou o journal "0 Liberal" para atacar o
jornalista. "Eu nunca toquei no nome dele no
journal. Nem iria usar meu journal para negar
que meu pai fora contrabandista", disse.

CARTA
Embora as declaraC5es de Ronaldo
Maiorana merecessem resposta mais
extensa, limnitei-me ao essencial numa
carta que mnandei para o journal paulista
no mesmnio dia da publicacdo da materia.
S6 o primeiro pardgrafo foi publicado:

Em relacio ai mat6ria "Jornalista premiado
teme sair do paifs", gostaria de esclarecer que
euparticipo daelaboraqio da minha defesajun-
to corn meu advogado, Benedito Barbosa Mar-
tins, que atua gratuitamente em meu favor, por
ser meu tio, mas nio a realize sozinho, como foi
publicado. Faqo pesquisas, freqiuento o forum
e contribuo corn sugesties e mat6rias de fato
para naio sobrecarregar ainda mais esse paren-
te, como fiz em relaLio a outros dois advoga-
dos que me representaram em jufzo anterior-
mente. Todos eles atuaram sem qualquer oinus
para mim, por amizade e apoio A minha causa.
Oito advogados que procurei inicialmente, em
1992, quando Rosangela Maiorana Kzan pro-
p6s cinco aqces sucessivas contra mim, corn
base na Lei de Imprensa, de 1967, se recusaram
a me patrocinar. Apresentaram outros motivos,
mas a razao real parecia ser o receio de represi-
lias por parte do maior grupo de comunicaLio
do Norte do pais. Ontem como hoje.
Nao you estabelecer polemica neste es-
paqo, por inapropriado. S6 gostaria de infor-
mar que interpelei judicialmente Ronaldo
Maiorana para que ele indique concretamen-
te onde chamei sua mae de prostitute. Lasti-
mo que ele recorra a essa forma espdria de
ardil, sem preservar a pr6pria mie, para inver-
ter os p6los da situaLio. Procura transformar
em vitima o autor das violencias, que 6 ele
pr6prio. Receio que, numa par6dia de Kafka,


OAB: porta fechada
Logo depois da agressdo de Ronaldo Mai-
orana, em 21 dejaneiro, 41 advogados assina-
ram um memorial pedindo A OAB do Pard o
afastamento do dono do grupo Liberal da Co-
missao em Defesa da Liberdade de Imprensa
da Ordem dos Advogados. A OAB/PA nio
aceitou o pedido e arquivou o process.
Os advogados recorreram entLio para o
Conselho Federal, em Brasilia. Depois de cer-
to tempo, o process foi distribufdo para a 1V
Camara, que alegou nio ter competencia para
apreciar a questLio. 0 pedido passou para a
2a camara, sendo sorteado como relator S6r-
gio Ferraz. Mas como ele sejulgou impedido,
o president da 2' Camara decidiu remeter os
autos nio para um novo relator, mas para o
pr6prio president da OAB.
Roberto Busato deu o seguinte despacho:
"Chamando o feito a ordem, cabendo, em
tese, ao Conselho Pleno, a andlise da mat6ria.
Corn efeito, o art. 109 do Regulamento Geral
autoriza o Conselho Seccional a dividir-se em
6rgLios deliberativos ou instituir comiss6es
especializadas. Essa norma, dentre outras,
afirma a autonomia administrativas dos Con-
selhos Seccionais. Pelo que se pode depre-
ender da andlise da esp6cie, a Comissio men-
cionada foi criada por deliberaLio especifica
e voluntAria do pr6prio Conselho Seccional,
cabendo a este, pois, apenas a este, a indi-
caLio e nomeaaio de seus membros. (...) Ali-
as, registre-se que os membros de comisslo
saio profissionais de confianqa, seja do Presi-
dente, seja do pr6prio Conselho, dependen-
do da circunstincia, de modo que, at6 mes-
mo por uma questio de logica elementary, 6
indevida a interferencia do Conselho Fede-
ral, ressalvadas as hip6teses especificas de
grave violaLio ao Estatuto ou ao Regulamen-
to Geral, a teor do que dispbe o art. 54, VII, da
Lei 8.906/94, ou em sede recursal, nos casos
expresses de compet6ncia das CUmaras es-
pecializadas ou do Orgao Especial. Tendo os
Conselhos Seccionais autonomia para criar e
prover comissoes, indicando os seus inte-
grantes, nio cabe ao Conselho Federal inva-
dir essa competencia para determinar que um
ou outro membro seja dela inclufdo ou exclu-
ido. Pelo exposto e invocando precedent do
Conselho Pleno do Conselho Federal, objeto
do Process no4.075/95/CP, que decidiu nio
caber representaLio sobre mat6ria que se in-
sere na autonomia dos Conselhos Seccionais,
em sede de juizo de admissibilidade, nego
seguimento ao recurso".
Agora cabe recurso ao plendrio do Con-
selho Federal, se os advogados que subs-
creveram o pedido quiserem seguir na via
crucis processual e ignorarem mais esse in-
cisivo recado.


eu acabe condenado porter deixado meu ros-
to na direqio de seu punho ensandecido, que
me golpeou covardemente num restaurant,
diante de 150 pessoas horrorizadas. E assim
que reage a alegadas ofensas, regularmente
publicadas num peri6dicojornalistico, o her-
deiro de um imp6riojornalistico, que 6 tarnm-
b6m o president da Comissio em Defesa a
[sic] Liberdade de Imprensa da OAB/PA, ins-
tituiiAo que tern como president esse que
se apresenta como jurista da arbitrariedade,
o sr. Ophir Cavalcante Junior.


6 OEZEMBRO DE 2005 I"QUINZENA Jorna.l Pessowl









Triste Unesco, esta do Brasil


Carmem Passos,jornalista paraense que
mora hi virios anos em Nova York, envious a
Maria InWs Bastos, do escrit6rio da Unesco
em Brasilia, na semana passada, uma men-
sagem eletr6nica na qual se manifestava
"surpresa e chocada ao ler o relat6rio de
agress6es a liberdade de imprensa publica-
do ontem pela a AssociaqAo de Jornais
(ANJ). Surpresa pelo fato de a ANJ nao ter
inclufdo o caso do jornalista Lucio Flavio
Pinto entire os demais. Chocada corn o fato
de que o document, segundo li no paragra-
fo terceiro da quarta pagina, 6 fruto de tra-
balho realizado conjuntamente pela ANJ e
Unesco, esta 61tima, como todos sabemos,
mant6m seus programs corn contribuiqoes
piblicas dos governor que fazem parte da
referida organizaiao".
Pergunta Carmem, que tamb6m trabalhou
em 0 Liberal: "Nio seria, portanto, natural a
Unesco zelasse pela liberdade de imprensa no
Brasil, um dos pilares da a construqao da demo-
cracia?" No entanto, observa ajomrnalista, o re-
lat6rio "veio como uma bofetada na face dos
brasileiros sejam elesjornalista ou nio resi-
dentes no Brasil ou no exterior".
Carmem observa que tern ouvido, "especi-
almente ao long das ultimas d6cadas, a neces-
sidade de mudanqas e atualizaqao das Naq6es
Unidas" e que o relat6rio, "assim como recen-
tes s6rios problems corn o program de troca
de 6leo por alimentos no Iraque, me leva a acre-
ditar que essas reforms devem ser muito mais
profundas do que sempre se imaginou. Um dos
pontos seria: como evitar que representantes/
escrit6rios nao facam exatamente o oposto do
que, em tese, 6 a missao da ONU e suas organi-
zaqoes pelo mundo afora?"
"A falta de apoio piblico da Unesco a Lu-
cio Flavio Pinto quando espancado", continue
a mensagem da jornalista, "ficou dentro dos
muros nacionais. Espero, por6m, que a publica-
qao do document da ANJ faca cair a maiscara
da administraq1o da Unesco no Brasil atual-
mente. Por qual crit6rio a Unesco nao conside-
ra o espancamento de Ldcio Flavio Pinto um
atentado a liberdade de imprensa no Brasil?
Seria porque partiu de umrn proprietdrio de mf-
dia? Assim send, quando o ex-senador e de-
putado Antonio Carlos Magalhies espancar um
jomrnalista por publicar fatos sobre ele, este tarnm-
b6m nao serdi atentado a liberdade de impren-
sa? Seria porque, al6m de dono de midia, o gru-
po de empresas do sr. Ronaldo Maiorana seria
um dos financiadores do programa"
Carmem diz que consider inegivel um fato:
"o sr. Ronaldo, em diverse oportunidade, inclu-
sive em recent entrevista ao site Comunique-
se, declarou que se arrepende do espancamen-
to e que o fez porque nao gostou do que viu
publicado, embora nunca tenha vindo a p6bli-
co diz6-lo, seja atrav6s de suas empresas ou em
carta aojornal de L6cio Flavio Pinto. A atuaqao
da Unesco neste caso envergonha nao apenas
a instituiqao, envergonha aos brasileiros e gos-
taria de saber quais critdrios houve a exclusao
do referido caso. Se, por outro lado, a Unesco
nio concorda corn tais crit6rios ou nao tern li-
berdade de opinar na confecqio do relat6rio


final, acredito que a mesma deva se retirardes-
sa rede/network, assim corn o seu nome do re-
ferido document corn um subseqtiente pedi-
do de desculpas a sociedade brasileira".

RESPOSTA
Maria Bastos responded comn a
seguinte mensagem:
Prezada Sra. Carmem Passos:
Em relacio a sua mensagem, tenho a escla-
recer o seguinte:
1. 0 relat6rio annual sobre agressoes a li-
berdade de imprensa no Brasil 6 totalmente
elaborado pela Associaqio Nacional de Jor-
nais, ANJ. Logo, nao se trata de trabalho em
conjunto corn a UNESCO, como voc8 menci-
onou, mesmo porque a Organizaqdo nio dis-
p6e de condigdes t6cnicas para o exame das
denuncias de agressao.
2. A UNESCO no Brasil ap6ia, sim, a Rede
em Defesa da Liberdade de Imprensa que for-
maliza e divulga as aqbes daANJ corn relacao
ao assunto, corn o qual trabalha, por meio do
Comite de Liberdade de Expressio, desde
1997. A UNESCO propiciou o design do web-
site da Rede e a realizaqio de events de seu
lanqamento em cinco estados brasileiros. A
ANJ tern plena responsabilidade e indepen-
dencia na gestdo da Rede.
3. 0 caso do jornalista L6cio Flaivio Pinto
recebeu da UNESCO tratamento especifico, no
limited de nossas possibilidades. Assim sendo,
lamentamos a agressao entire os dois profissio-
nais do estado do Para, mas a UNESCO nio
pode antecipar-se A conclusio dos 6rgdos en-
carregados pela investigation.
4. 0 process de reform das Nacoes Uni-
das, iniciado pelo Secretario Geral em 1997, esta
em curso e, no caso da UNESCO, 6 tema entre-
gue a conduqio pessoal do Diretor Geral, Sr.
Koichiro Matsuura. Esclarecimentos corn re-
lacao ao carAter dessas reforms devem ser
obtidos diretamente no gabinete do Diretor
Geral, em Paris.
5.0 escrit6rio da UNESCO em Brasilia tern
procurado atuar em defesa da liberdade de ex-
pressio apoiando diferentes iniciativas de or-
ganismos governamentais, nao governamen-
tais e iniciativa privada. Sabemrnos que as vi-
sbes de varios atores diferem corn relacao ao
tema e esperamos que, assim como o pluralis-
mo da midia, o caleidosc6pio de critdrios es-
pecificos utilizados para caracterizar agressoes
a liberdade de expressio possa contribuir para
o avanqo da democracia no Brasil.

CONTESTA(CAO
Informado por Carmem Passos da
correspondencia, remeti a Maria InWs
Bastos a mensagem a seguir:
Ha anos sou um defensor do important
papel que a Unesco desempenhou, em suas
origens, em favor de um melhorconhecimento
da Amaz6nia. Entendi que o projeto de criacao
do Institute Intemrnacional da Hil6iaAmaz6nica
nao foi, ao contrdrio do que sempre entendeu
uma corrente de pensamento no Brasil, um ins-
trumento da cobiqa international sobre a re-
gido, odedo de um imperialismo mal camuflado.


Estava e estou cada vez mais convencido
de que, entire o final da Segunda Guerra Mundi-
al e o inicio da Guerra Fria, a Unesco, concebida
em Paris por intelectuais notiveis, dos quais,
para citar apenas um, posso apontar Julian
Huxley, que bem os represent, foi itero fecun-
do para as id6ias de dois grandes brasileiros:
Helofsa Alberto-Torres e Paulo Carneiro.
Eles conceberam canalizar o espirito de so-
lidariedade international, que ainda subsistia,
como eco de indignaqio contra as atrocidades
perpetradas durante a maior conflagraqio bdli-
ca humana, em favorda maior reserve de recur-
sos naturais do planet, atrav6s da ciencia. In-
felizmente, a empreitada nao foi em frente. 0
pior 6 que foi mal interpretada pelos contempo-
rineos. E ignorada pelas geraqoes seguintes.
S6 agora, na revisio que alguns intelectuais
comeqaram a fazer, comrno Marcos Chor Maio, o
espirito humanitarista international daqueles
dias esta sendo reavaliado.
Assim, voltado para a saga dos dias da cri-
aqdo da Unesco, sempre tive o maior respeito
por essa agencia das Naqoes Unidas. Mante-
nho essa admiracao, mesmo depois de softer
sucessivos abalos na confianqa que deposita-
va na instituicao. A Unesco a qual recorri, na
busca de abrigo para um direito que me 6 confe-
rido pelas leis do meu pafs e por tratados inter-
nacionais, nao se mostra a altura dos seus cria-
dores. Ao menos essa Unesco corn a qual te-
nho tentado dialogar num piano elevado.
As manifestaqces de representantes da ins-
tituicio no Brasil sdo lamentiveis. Vossa Se-
nhoria, infelizmente, aprofunda esse desempe-
nho medfocre, que nao se ajusta is nobres tra-
diqbes da Unesco.
0 oficio que V. Sa. enviou a jomrnalista Car-
mem Passos, em Nova York, em resposta a urnma
manifestaqAo dessa professional, avilta o con-
ceito que a Unesco tern no mundo. E umrn amon-
toado de inverdades e subterfugios. E uma vi
tentative de fugir a responsabilidade que cabe
ao escrit6rio da Unesco em Brasilia, em virtude
da omissao corn que se tern comportado em
relacao As minhas demands. Mais do que omis-
sao: conivencia corn a violaqao de um direito
consagrado intemrnacionalmente, o da liberdade
de expressio. Violencia praticada por umn pro-
prietiriodejornal, acobertada pela organizaqao
patronal dos donos de jornais e tristemrnente
avalizada pela Unesco.
Se a parceria da Unesco corn a Associacao
Nacional dos Jomrnais 6 meramente t6cnica ou
mesmo formal, atinente a detalhes e niio ao con-
teddo da Rede de Defesa da Liberdade de Im-
prensa, impoe-se, como media profilitica, que
a instituicao elimine seu co-patrocfnio dessa
iniciativa. A afixaqio do nome da Unesco em
parceria corn o da ANJ indica co-responsabili-
dade plena e nao um secundario papel coadju-
vante, como V. Sa. advoga em seu oficio.
Diz V. Sa. que o meu "caso" recebeu da
UNESCO "tratamento especifico, no limited
de nossas possibilidades", que, pelo visto,
consisted em simplesmente lamentar "a
agressiao entire os dois profissionais do es-
tado do Para", nao podendo a UNESCO "an-
c INiUiA NA .PAG 8


Journal Pessoal -IQUINZENA DEZEMBRO DE 2005 7







CONTINUA;AO DA PAG. 7
tecipar-se a conclusao dos 6rgaos encarre-
gados pela investigaqdo".
Se fosse consultar os arquivos de sua pr6-
pria instituiqAo e dos 6rgaos representatives dos
jornalistas, desde a Federado Nacional dos Jor-
nalistas atW os sindicatos dos jomrnalistas que
abrigaram o "caso", o noticiaram e sobre ele se
manifestaram, V. Sa. nao diria que houve agres-
sao mitua entire "os dois profissionais no esta-
do do Pard". Eu fui agredido, nao agredi. Fui
agredido de surpresa, por tr-s. Meu agressor, o
sr. Ronaldo Maiorana, editor e diretor-corporati-
vo da Delta Publicidade, que edita o jomrnal "0
Liberal", advogado e president da Comissdo
em Defesa da Liberdade de Imprensa da OAB do
Pari, me pegou de surpresa, num ambiente pd-
blico, umrn restaurant freqilentado por 150 pes-
soas no moment da agressao, num parque onde
a Secretaria Executiva de Cultura do Estado tern
sua sede. Depois de me dar umrn murro, me aboto-
ar, empurrar e chutar, me ameaqou de morte. En-
quanto agredia fisica e moralmente umrn cidaddo
indefeso, contava corn a cobertura de dois sub-
oficiais da Polfcia Militar, transformado indevi-
damente em seus segurangas particulares. Nao
ataquei meu agressor, nao o ofendi. Fiquei para-
do, encarando-o, a espera que consumasse as
reiteradas ameaqas de morte, ditas aos gritos.
Como, entho, V. Sa. pode falar em agressao
entire dois jornalistas?
Quanto a nao poder se manifestar, A espera
"da conclusao dos 6rgaos encarregados da in-
vestigaqio", trata-se de espera semelhante a
de Godot, personagem de Samuel Beckett. V.
Sa., a maneira de Beckett, faz, corn essas pala-
vras, puro teatro do absurdo.
A policia civil jA realizou o inqu6rito. Con-
cluiu pelo indiciamento do agressor nos delitos
de ameaqa de morte e les6es corporais leves. 0
Minist6rio Piblico do Estado confirmou o pro-
cedimento policial e denunciou o sr. Ronaldo
Maiorana. Ele compareceu perante a 6 Pretoria
Criminal de Bel6m (agora Juizado Especial), ad-
mitiu a culpa e, para livrar-se do process, acei-
tou a proposta do MP, pagando multa equiva-
lente a 6,5 mil reais, em cestas bdsicas a institui-
q5es de caridade, conforme Ihe possibilitou a
figure da transaqdo penal. Como considered in-
suficiente o procedimento, represented de novo
ao Minist6rio Publico, que aceitou fazer nova
dendncia, por umrn terceiro crime: o exercicio ar-
bitrdrio das pr6prias razbes, que conhecemos
como fazerjustia corn as pr6prias mdos, afron-
tando, assim, o principio civilizado e democrdti-
co da justica estatal.
0 que V. S. a. quererd mais? Que haja
uma nova agressao e eu faqa a gentileza de
nao apenas sofrer as violencias fisicas, mas
morra, com o que estard definitivamente afas-
tada essa hip6tese insana e ofensiva de
agressao mdtua?
Para que V. S.a. nao possa alegar burocrdti-
co desconhecimento em relaqdo ao meu "caso",
vou relatar-Ihe alguns fatos.
No dia 14 dejaneiro, recebi uma mensagem
da assessoria de imprensa da ANJ, via e-mail,
anunciando o lanqamento, em parceria corn a
Unesco, da Rede de Liberdade de Imprensa.
No dia 17 enviei ao assessor de imprensa da
ANJ a seguinte resposta:
"Recebi a mensagem sobre o langamento
da Rede de Liberdade de Imprensa. Louvo a


iniciativa. Quero estranhar, entretanto, que en-
tre tantos casos de ameacas a liberdade de
imprensa no Brasil, nao haja a menor referen-
cia as violencias que tenho sofrido e a perse-
guiqdo que me fazem os que gostariamrn de ca-
lar a publicaqdo que edito em Beldm do Para ha
mais de 17 anos, o 'Jomrnal Pessoal'. Esses aten-
tados jA mereceram a repulsa de varias insti-
tuigoes, tanto nacionais, como Federagao
Nacional dos Jomrnalistas, ABI e sindicatos de
classes, como intemacionais. A ANJ e a Unes-
co ignorarem essas seguidas agress6es no rol
de casos incluidos no site rec6m-criado, mes-
mo havendo sido publicadas e divulgadas
notifcias a respeito, me surpreendeu.
Solicito-lhe a gentileza de encaminhar esta
mensagem aos organizadores da Rede".
Constatei que o portal levantara 172 casos
de violaqao da liberdade de imprensa. Umrn de-
les me chamou logo a atenqdo: meu querido
amigo Jos6 Ribamar Bessa Freire era citado
porque "foi agredido pelas costas quando
estava na fila de uma panificadora, no bairro
de Icaraf, em Niterni (RJ)". A agressao se devia
ao fato de que Bessa levara exageradamente
ao p6 da letra a associagao entire a palavra e o
pdo? Nao sei. Mas podia-se ler alguns outros
casos como estes:
Arep6rter Luciana Vieira de Sousa foi im-
pedida de participar do lancamento da campa-
nha Cidadao Consumidor, o Procon 6 voce, que
ocorreu na residencia official do govemador do
Distrito Federal, umrn pr6dio pdblico.
*0 fot6grafo MArcio Fernandes, do jomrnal
0 Estado de S.Paulo, registrou queixa na poli-
cia contra segurancas que trabalhavam no pa-
lanque armado para umrn comicio do PSDB na
cidade Tup5 (SP).
*0 Jomral de Santa Catarina, de Blume-
nau, Estado de Santa Catarina, denunciou
pressdo econ6mica exercida pelo vereador
Deusdith de Souza.
*0 desembargador Jirair Meguerian expe-
diu mandado de busca e apreensdo contra o
journal da Comunidade (Brasflia/DF).
A diretoria do Clube de Regatas Vasco da
Gama, do Rio de Janeiro (RJ) proibiu o acesso
de alguns jomrnalistas.
*Dois helic6pteros e um aviao da empresa
Eucatur Taxi Adreo foram incendiados.
Ora, se at6 helic6ptero podia receber a co-
bertura da liberdade de imprensa, por que nao
eu? Por isso acionei a ANJ.
No dia seguinte Ricardo Pedreira
responded:
"Caro Ldcio Fldvio,
Recebemos sua mensagemrn relative As vio-
lencias e perseguiqdes que vemn sofrendo o seu
'Jornal Pessoal'. Gostarfamos de ter mais deta-
Ihes para podermos nos manifestar. Voc8 pode-
ria nos mandar alguns exemplares, pelo e-mail
ou correio? Que tipo de violencias e persegui-
c6es estdo acontecendo? Hd algum process
judicial motivado por essas iniciativas?
Atenciosamente,
RicardoPedreira
Assessorde ImprensaANJ".

Mandei o dossi8 que tinha. Nenhum retor-
no. No dia 21, uma sexta-feira, fui agredido por
Ronaldo Maiorana. No dia seguinte, as 15:09hs,
mandei uma mensagem a mesma assessoria de
imprensa da ANJ comunicando a agressao e


anexando umrn document que eu divulgara para
o paifs. Nada. No dia 31 dejaneiro fiz a comuni-
caqdo diretamente A assessoria de imprensa da
Unesco. Voltei ao assunto para dizer que imagi-
nava, ao dar ciencia dos fatos, "que o caso pu-
desse ser do interesse do semindrio que a Unes-
co promoveria, em conjunto corn a ANJ, duas
semanas depois, em Sao Paulo, como parte da
instalaqAo da Rede em Defesa da Liberdade de
Imprensa, de cujo rol de violag9es nao consta-
va nenhum dos meus casos de perseguiqdo e
agressao". Seguiu-se um long silencio, que
meus contatos posteriores nao conseguiram
quebrar. Somente no dia 7 de marco recebi um
e-mail de Ana Lucia Guimaraes, assessora de
imprensa da Unesco, datado do dia 4, mas rece-
bido no dia 7, nos seguintes terms:
"Prezado Sr. Ldcio Flivio,
Foi corn pesar que a UNESCO (Organ iza-
qdo das Naq5es Unidas para a Educaqdo, a Ci-
encia e a Cultura) recebeu a noticia de que hou-
ve uma agressao ffsica lamentdvel entire dois
profissionais respeitados no estado do Pari.
Embora seja uma situaqco grave, pois conde-
namos qualquer tipo de violencia, informo que
a UNESCO nao possui elements nem condi-
q5es de se posicionar com relacio ao caso.
A UNESCO ap6ia a Rede em Defesa da Li-
berdade de Imprensa, rec6m-criada pela Asso-
ciaqco Nacional de Jomrnais (ANJ), a quem cabe
o recebimento e a anilise de supostos casos de
atentado A liberdade de imprensa. Corn relacio
ao II Encontro Regional sobre Liberdade de
Imprensa, que acontecerd no dia 7 de marco, em
Fortaleza, temos conhecimento de que o seu
caso sera abordado porjornalistas que partici-
pardo do event.
A UNESCO defended a liberdade de expres-
sao, que 6 um direito fundamental garantido
pela Declaraqdo Universal dos Direitos do Ho-
mem. Um ataque A liberdade de expresso 6 in-
tolerivel Ai democracia e ao estado de direito".
Respondi, no mesmo dia 7, a esse oficio:
"Agradego por sua manifestagdo, datada
do dia 4 e somente hoje por mim recebida, rela-
tiva A minha manifestaqdo do dia 31 dejaneiro.
Devo Ihe dizer que o caso nao 6 uma 'larnentui-
vel agressao entire dois respeitAiveis profissio-
nais'. Eu fui agredido. 0 outro professional me
agrediu, covardemente, corn a ajuda de dois
capangas, ambos da ativa da Policia Militar do
Estado, irregularmente fora de suas funq6es e
de seus quart6is. A agressio se deu em razdo
de urn artigojomalistico que eu escrevi. 0 agres-
sor se disse ofendido pelo artigo. Ao inv6s de
recorrer justica ou exercer o direito de respos-
ta, achou que deveria fazer justica corn as pr6-
prias mdos. Trata-se, portanto, de um atentado
A liberdade de expresso. Se tal situacqiao naio 6
capaz de interessar a Unesco, nem diga respei-
to A rede por ela apoiada, peqo desculpas por
hav8-la incomodado".
Ningu6m teve a gentileza de me responder.
Ainda tentei novo contato, mas a teia de com-
promissosjd baixara sobre a honordvel sigla da
Unesco e o silencio emudecera seus represen-
tantes no Brasil, parceiros daANJ. Um silencio
seguido de medidas tifpicas de quern apaga os
rastros. Desde entAo, foi suprimido do Portal
da Liberdade de ImprensaANJ/Unesco uma tela
na qual erarn exibidos os nomes dos "Jornais
que colaborarn financeiramente para o Progra-
maANJ deDefesa da Liberdade de Imprensa: A


8 DEZEM3RO DE 2005 1QUINZENA Jomilnl PeSSOall










Por que essas testemunhas?


0 jornalista acreano Altino Machado,
que tem um excelente blog na
internet, me mandou a seguinte
mensagem, na semana passada:

S eu caro Lucio, queria entender
o seguinte:
voce e D6a Maiorana sao amigos?
Como voce a indicou como sua testemunha,
certamente nao estO fazendo isso sem a cer-
teza de que o testemunho dela possa con-
truibuir verdadeiramente para sua defesa?
Para tanto, suponho, voce dialoga corn ela
apesar dos pesares. Gostaria de entender isso
e acho que mais pessoas tamb6m, pois 6 sur-
preendente que a mde do seu agressor seja
indicada como sua testemunha".
Mandei para Altino a seguinte resposta:
"Sua pergunta 6 pertinente.
Na maioria dos 32 processes a que jd res-
pondi ou respond najustiqa do Para, indiquei
testemunhas que nao conhecia ou corn as quais
nao fiz nenhum contato pr6vio ou posterior A
indicacio de seus nomes aojuizo. Muitas delas
me conheceram na hora de depor. Sempre pedi
que ficasse registrado que elas nao foram pro-
curadas por mim antes de deporem. Incluem-se
entire minhas testemunhas procuradores fede-
raise estaduais,juifzes e at6 duas desembarga-
doras, al6m de servidores p6blicos. Chamei-os
para falar nos autos porque tinham a ver corn as
quest6es em litigio. A rigor, seriam mais teste-
munhas informants dojuizo do que da defesa.
Na quase totalidade dos casos eu nao sabia o
que iam dizer.
Ai se inclui Lucid6a Batista Maiorana. Co-
nhecemo-nos pessoalmente desde o inicio da
d6cada de 70. Mas eu jd tinha informacoes so-
bre ela, detalhadas, atrav6s de um grande ami-
go comum, o jomrnalista Edwaldo Martins, seu
amigo de juventude. Encontrei poucas vezes
D6a Maiorana, mas todos os nosso contatos
foram muito bons, afetuosos. Meu primeiro li-
vro, Amazonia: o anteato da destruidifo, teve
seu lanqamento patrocinado pelo marido dela,
Romulo Maiorana, em 1977. Fato in6dito: o li-
vro foi lanqado nas oficinas de 0 Liberal, em
pleno funcionamento. Calculou Romulo que
mais de 800 pessoas estiveram presents. Mu-
lheres em trajes finos e alguns convidados em
palet6 e gravata transitavamrn entire mdquinas
que imprimiam ojomal. D6a participou da festa,
integralmente. Estava feliz, como o marido, que
se sentia bern enquanto mecenas, principalmen-
te quando nada teria em troca, como no meu
caso, a nao ser reconhecimento.
Quase todo dia, nos dias da semana, en-
tre 1975 e 1985, eu passava pelo gabinete de
Romulo Maiorana nojornal ou era chamado


por ele. Em alguns moments encontrei D6a
e nossa relacao era extremamente agradAvel.
Como corn seu marido. Ele e eu brigamos duas
vezes. Sempre tomei a iniciativa e pedi demis-
sdo, por nio aceitar censura a meus artigos.
Na maioria das ocasioes em que divergimos,
acabamos nos entendendo. Mas em dois mo-
mentos isso nao foi possivel e pedi o bon6.
Na primeira vez, fui paraA Provincia do Pard,
onde comecei nojornalismo professional, em
1966. Ele foi me buscar de volta.
Na segunda vez, nao houve tempo para
reconciliaq6o. JA contei varias vezes essa his-
t6ria, por isso a resume. Em 1985 eu vinha
criticando duramente Jader Barbalho, em seu
primeiro mandato como governador do Es-
tado. No auge das farpas, a pressio do gru-
po do governador, incluindo dois grandes
amigos de Romulo, aumentou sobre o dono
do journal. Romulo jA estava gravemente do-
ente. Sabendo disso, telefonei para ele, que
estava no Rio de Janeiro, em convalescenca,
e pedi minha demissio. Ele disse que nio a
aceitava. Era uma sexta-feira. Disse-me para
pegar um aviao no dia seguinte e ir almoqar
corn ele, em seu apartamento em Ipanemrna.
Conversarfamos a respeito.
Almogamos s6 nos tr&s: ele, D6a e eu. Oda-
cyl Catette, que viajou comigo, almoqou em ou-
tra dependencia. Romulo disse que niao
aceitava que eu deixasse ojomal. Tinha inteira
confianqa em mim. Agradeci, mas Ihe disse que
ele nao resistiria As pressibes e acabaria vetan-
do algum artigo mais incbmodo para o grupo
do governador, oriundo do velho PSD de Ma-
galhies Barata. Eu queria sair sem colocar em
risco nossa amizade. Nio iria contemporizar. Ele
retrucou que eu continuaria a ter toda liberdade
para escrever meu artigo didrio e nio precisaria
participar da campanha de H61io Gueiros, can-
didato de Jader Barbalho 6 sua sucessaio, no
Reporter 70, a principal coluna de opiniao e
informaqio dojomal, da qual eu era o principal
redator. Eu criticara o comportamento de Guei-
ros, inclusive em relacio a Romulo. Gueiros dis-
sera coisas terriveis ao romper corn ele, publi-
cando inconfidencias de alcova. Isso nio im-
pediu que se reconciliassem, esquecendo o pas-
sado. "0 Liberal" apoiou Gueiros, mas eu nio.
Diante de D6a, Romulo disse que eu devia
voltar a Bel6m e continuar normalmente meu
trabalho. Ele nio me criaria nenhum embaraqo.
Apoiaria seus amigos em outros espaqos do
jomrnal, inclusive na secio Em poucas linhas,
do Reporter 70. Todos sabiam que esse era o
seu canal de expressio, corn sua marca regis-
trada. Insisti mais uma vez: "Nio me vais falhar,
hein, Romulo?". Ele renovou o compromisso.
Retomei o trabalho, mas ele, na fase final
de sua vida, nao conseguiu manter esse com-


promisso. Acabou vetando um artigo meu.
Como prometi, nio aceitei o veto e pedi de-
missio. Quando ele morreu, estAvamos rom-
pidos. Mas D6a me disse que uma de suas
preocupaqces finais era se reconciliar comi-
go. Ela me disse isso enquanto nos abrag6-
vamos no vel6rio de Romulo. Eu me aproxi-
mei corn cautela. Afinal, tinha brigade corn o
journal e seu dono. Ao me ver ao lado do cai-
xio, na nave da igreja do Ros6rio, ela se vol-
tou para mim, me abraqou emocionada e cho-
ramos a morte da pessoa que queriamos tan-
to eu, independentemente de nossas evi-
dentes diferenqas.
Por isso e por muito mais indiquei D6a
Maiorana como minha testemunha. Ela
sabe suficientemente bemrn quern sou, corno
me comportei em relacio 6 sua familia e 6
empresa. Quando sua filha, Rosingela, ini-
ciou, em 1992, uma s6rie de cinco agoes con-
tra mim, eu tamb6m a indiquei como minha
testemunha. Tudo foi feito para impedir que
eu exercesse direito que a lei me confere. Tanta
confusio se armou que ela nio foi ouvida.
Manobras que agora se repetem para impedir
novamente seu testemunho.
Eu tenho o maior respeito por D6a e sei
que eladirA a verdade, se tiverque depor. Mi-
nha confianqa 6 tal que quando bloquearam
seu testemunho na primeira leva de processes
dos Maiorana eu fui ao seu pr6dio e deixei
uma carta confidencial para ela. At6 hoje nao
revelei o conte6do dessa carta. E quando, por
acaso, nos encontramos na rua, enviei-lhe outra
carta, tamb6m mantida em sigilo.
E claro que ela nio gostaria de se ver en-
volvida nessa hist6ria desgastante e, se obri-
gada a depor, nio testemunhard contra os fi-
thos que me acionam najustiqa, Romulo Jr. e
Ronaldo Maiorana. Nio gostaria de constran-
ge-la nem criar-lhe problems. Mas os respon-
sdveis por tudo isso siAo Romnulo e Ronaldo e
nio eu, que apenas me defend de suas aqoes
irresponsdveis. Chamei D6a porque ela 6 a pro-
va viva de que sempre me comportei corn dig-
nidade, lealdade e honradez na minha relaaio
corn ela e seu marido. Niao podia, portanto,
ofender a mem6ria de Romulo. Mas tamb6m
me recuso a violar meu compromisso corn a
verdade. Se, por ocasiio da morte dele, na re-
conciliaqio atrav6s de sua viuva, me compor-
tei assim, porque mudaria agora?
Para nio me alongar, reproduzo abaixo o
artigo que escrevi para o ultimo numero do
"Jornal Pessoal", ediqio 357, da segunda
quinzena de novembro. Ele responded a sua
pergunta. Obrigado por faz6-la. Deu-mrne a
oportunidade de um certo desabafo".
Como o artigo foi publicado na edicio
anterior deste journal, niao o reproduzo.


Critica (AM), A Tarde (BA), A Tribuna (SP), Sim,issomesmo:ojomrnal"0 Liberal",o meu tado A liberdadedeimprensa,masrixa familiar.
Correio Braziliense (DF), Correio Popular (SP), agressor, Ronaldo Maiorana, financial a liberda- Defamiglia. Que tristeza, dona Maria Ines Bas-
Folha de S.Paulo (SP), Gazeta do Povo (PR), de de imprensa da ANJ/Unesco. Logo, 6 um tos. Julian Huxley deve estar se revirando em
Jomal do Commercio (PE), 0 Dia (RJ), 0 Esta- cidaddo acima de qualquer suspeita. Pode agre- seu glorioso tdmulo. Enquanto a Unesco brasi-
dode S.Paulo (SP),OGlobo(RJ),0 Liberal (PA), dirumjomrnalistaqueescreveuumartigodejor- leira empresta seu nome a um compel contra
0 Popular (GO), Zero Hora (RS)". nal, do qual nao gostou, porque isso nao 6 aten- jomrnalistas realmente independents.


Journal Pessoal I QUINZENA DEZEMBRO DE 2005 9










MEMORIAL DO COTIDIANO


Marcador
Qual menino daquele tempo nao
cobiqou o marcador que o moto-
rista de 6nibus colocava no painel
de direcao, geralmente preso por
um arame? Era tirar o aparelho e
comprimir a engrenagem de mar-
cacao toda vez que um passageiro
descia, repondo a geringonqa me-
talica no mesmo lugarao reiniciara
viagem. Pois a Casa Africana, na
sua seqdo de ferragens, na rua Fru-
tuoso Guimardies, tinha marcado-
res para vender, anunciados em
1952. Nao s6 para registrar a quan-
tidade de passageiros de 6nibus o
aparelho servia: tamb6m era usa-
do para a contagem da castanha
que chegava do Tocantins e era
embarcada pelo porto de Bel6m
para o exterior. Quern ainda usa
esse aparelho?


Telefone
A Companhia Paraense de Tele-
fones provocou uma grande ce-
leuma quando, no inifcio de 1953,
estabeleceu em 225 o limited de
ligacoes que um client podia
fazer por conta de sua assinatu-
ra. As ligaqces acima desse va-
lor seriam cobradas. Muitos se
insurgiram, alegando que s6 a
empresa teria control cobre os
impulses telef6nicos. Mas a
companhia contestou o argu-
mento, mostrando que colocara
medidores pr6prios A margem de
cada aparelho. Funciondrios en-
carregados do servi9o, em dia
determinado, faziam o levanta-
mento das ligaqbes, Do total,
abatiam as 225 chamadas incluf-
das na assinatura. S6 faltou ju-
rar pela f6 da mucura.


Passarinho
Nota fdnebre da Folha do Norte
de 22 dejaneiro de 1953:
"Faleceu ontem, As 16 horas,
na residencia de seu genro, sr. Raul
Soares Pinto de Souza, o sr. Indcio
de Loiola Passarinho, velho servi-
dor aposentado do Estado. Era
casado corn a sra. d. Julia Gonqal-
ves Passarinho, de cujo cons6rcio
deixa os seguintes filhos: Saint-Cla-
ir Goncalves Passarinho, Inspetor
Regional dos Correios e Telegra-
fos neste Estado, casado corn d.
Cirene Machado Passarinho; Joao
Goncalves Passarinho, Inspetor
Federal do Consurno, em S. Paulo,
casado corn d. Celina Proenqa Pas-
sarinho; Marisanta Passarinho
Pinto de Souza, casada corn o sr.
Raul Soares Pinto de Souza, s6cio
da 'Eletroridio'; Jair Goncalves


ESTA A MELHOR MANEIRA

DE VCE EUMINAR 0 MRA

DOHACIOW*
Vocd abe que tudo fizcram Nlo imnporta que a mi clube seja
para impedir a inclusio do Pari no o Remo, o Paissandu ou a Tuna. E um
Campeonaro Nacional. Todo mundo club paracnse quc csti cm campo, e
disse que as rendas de Bclim, o utebol do Parai que cd erm juogo.
ncm pagariamn as despesas dos jogos. Mas se tudo isso aind n5o
Lembramnos isso para que vocr CO envccc vocc, lembre tSa.
compreenda uma coasa: outra coisa:
Para o torcedor paracnse, 9iMuita genre ca de olho nas
cstc Campeonato n ,o urma simples rendas do "Evandro Almrida' para
competijio dc clubs. L um desafio cxcluir a Para dos novos torneios.
quc voc tens dc accitar comrparccendo Inclusive do pr6ximo Campeonato
a todos os jogos do Nacional Nacional.
no "Evandro Almeida". Agora respond: Voce ainda
vai ficar corcendo em casa?


Passarinho, corretor em nossa pra-
qa, casado corn a sra. d. Odete San-
tana Passarinho, e Jarbas Goncal-
ves Passarinho, capitao do Ex6rci-
to Nacional, casado corn d. Rute
de Castro Passarinho.
0 extinto, que era maranhen-
se, faleceu aos 71 anos de idade
e deixa 12 netos.
Scu enterramento efetuar-se-
i hoje, iAs 11 horas (oficiais), sain-
do o feretro da residencia enluta-
da, A rua dos Apinag6s, n. 51, nao
havendo convites especiais".

Rainhas
Niio sobrou para ninguem no car-
naval paraense de 1956 no clube
da elite: Clea Chady foi, ao mes-
mo tempo, a Rainha da Assem-
bl6ia Paraense e a Rainha das
Rainhas do Carnaval, alim de re-
ceber o titulo de melhor fantasia
corn sua "Aguia de Marte". As
outras concorrentes tambem es-
tavam muito bonitas e bemrn fan-
tasiadas: Renee Fidalgo como
"Princesa de Shangri-la" e Lafs
Farah (a inica das tres a exibir as
pemas), como "Rainha do Circo".
JAi no Para Clube, a Rainha dos
Brotinhos foi Lena Vania Dantas
Ribeiro, filha do casal Deusdedi-
th Moura Ribeiro e Eunice Dan-
tas Ribeiro.

Humoristas
Em 1957, este era o cast de humrno-
ristas da Radio Marajoara, dos
Ditrios Associados, corn seus tf-
tulos: Gelmirez Melo e Silva "e
suas boas gargalhadas"; Fernan-
do Matos, o imrnpagavel; Mdrio
Tavernard. o maior; Clodomir Co-
lino, o grande; Raul Monteiro, o
garoto levado; Armando Pinho, o
Cantinflas paraense; Iracemra Oli-
veira, a formidAvel; Valria Olivei-
ra, a sapoti radioatriz; Nilza Maria,
a encantadora; Lustosa Filho, nar-
rador de grande gala; H6lio Cu-
nha, o contra-regra maravilhoso;
Antunes de Carvalho, o speaker
da luta-livre; e a orquestra da ZYE-
20. Todos eles eram reunidos em
"Marmelandia", program de hu-
mor que ia ao ar As quintas-feiras.

Liquidagao
Dizia Mayer Obadia, num anun-
ciode iniciodeano, em 1958: "Nao
e sputnik [que os russos haviam
acabado de colocar no espago\
ou estouros e sim fatos concre-
tos e nada mais". Era a "maior Ii-
quidado jamais registrada nesta
capital", corn mercadorias que
eram vendidas para a loja, no co-


10 DEZEMBRO DE 2005 I'QUINZENA Jornal Pessoil


Remo: sind


Para~~~~~~ o eits eivs
ascensdo ~ d lb, miad
brasileiro,, leba



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Os her6icos tunantes
Esta foto e para aqueles que persisted na her6ica opqdo de torcer pela Tuna Luso-Brasileira: as precarias
arquibancadas do velho estddio de futebol do Souza lotadas para um jogo do time, no final de 1962. Urn duplo
sofrimento. A Tuna nunca foi exatamnente umna voraz conquistador de campeonatos. E quern queria se proteger do
sol e da chuva, na estreita faixa coberta que ficava no alto das arquibancas (que mais pareciam poleiros),


compromnetia a visdo da partida. 0 melhor mesmo era ficar encostado no alambrado, que,
suportando a pressed mais forte do famoso ardor cruznaltino, arriava.


de vez em quando, ndo


meqo da rua Santo Ant6nio, "nao
entrarem balanqo".
Estavam em oferta componen-
tes da moda e dos costumes da
6poca: corte de tecido Tropical
Super-Pitex, pijamas de nylon e
dragon para senhoras, gravadas
plissadas para homes, isqueiros
Ronson eZippo legitimos, talco e
sabonete Yardley, aguas de nylon
"supermaravilhosas", calqas es-
puma de nylon e combinaqoes
para senhoras, maillots Catalina,
meias femininas "teia de aranha",
linha da Ilha da Madeira para bor-
dar e outros produtos a preqo
que, mais barato, "e humanamen-
te impossivel", garantia Odabia,
"que s6 anuncia verdades".


Colunistas
Em 1962 estes eram alguns dos
colunistas sociais em atividade na
imprensa paraense, com seus ve-
iculos: Wilkens (Folha Vesperti-
na), Regina Pesce (Folha do Nor-
te). Guilherme Pena (Flash), Pierre
Beltrand (0 Liberal, Radio Clube
e Radio Difusora), Silvia Braga
(Ridio Guajard), Roberto Jares
(Diarios e Emissoras Associados)
e Guaracy de Brito (Jomal do Dia).
Pierre e Silvia continual em ple-
na atividade. Os demais foram tro-
car figurinhas em outra dimensio.

Joselito
Os mais velhos devemrn se lem-
brar de Joselito, "o menino da


voz de ouro", que encantava
corn seus trinados infants.
Pois o "monumental" filme "0
rouxinol da montanha", mero
pretexto para os acordes do as-
tro, estreou no Cine Teatro Pa-
ramazon, em 1962. 0 cinema
funcionava na travessa Pieda-
de, esquina corn a Henrique
Gurjdo, por onde ji passaram
muitos estabelecimentos co-
merciais, de urn conturbado
cassino A atual boate GLS. 0
Paramazon encheu.

Atentado
Em junho de 1965 o delegado da
Ordem Politica, Eymard Pantoja,
determinou "rigorosa fiscalizaqao


CARTA I
Somente agora pude dispor de tempo para Ihe transmitir os me us mais sinceros parabens por sua merecida premiacao pelo
Comite da Liberdade de Imprensa, o que represent mais urn reconhecimento international de sua inegaveis qualidades como
jornalista e defensor da Amazonia.
Lamento que a nossa "grande" imprensa, especialmente a regional, nao faqa o mesmo, ao inves de omitir-se vergonhosa-
mente. Isto me faz lembrar o velho provyrbio: "Casa de ferreiro, espeto de pau".
Aproveito para Ihe dizer que achei muito esclarecedoras e oportunas as questoes abordadas por voc6 no JP a respeito da
exploraqao mineral e energdtica, o fator custo/beneficio social e ambiental, alem das renuncias fiscais concedidas as grandes e
poderosas empresas.
Em favor dos cidadaos brasileiros natos, classificados como pertencentes Ais classes B e C, que sustentam este pafs corn
pesada e crescente carga tributAria, porim, os governor nao podem renunciar a um centavo sequer; muito ao contrario, pois e
exatamente da suada renda deles que o Governo retira o que precisa para cobrir os prejufzos corn essas injustas rentincias fiscais.
Alias, todos os temas que voc6 aborda no Jornal Pessoal tem a maior relevincia e interesse ptiblico, regional, national e/
ou international.
Peqo a Deus que Ihe de muita saide e esteja sempre ao seu lado Ihe protegendo.
Maria Alda Brito Bezerra


nos pontos visados elements
subversivos que infestamrn nossa
capital". Policiamento especial
foi estabelecido no consulado
dos Estados Unidos e no USIS
(o service de informaqio ameri-
cano), para "evitar que sejam ati-
radas bombas de alto teor explo-
sivo" sobre esses dois pr6dios,
que ficavamrn na avenida Nazare.
Mas nada aconteceu. Era o clima
da 6poca.

Cinema
Luiz Otavio Pereira, aspirante do
Ex6rcito, levou sua noiva para ver
um filme no Cine Opera, no Lar-
go de Nazar6, em agosto de 1965.
O program era born, mas o mo-
torista Raimundo Rodrigues de
Oliveira, resident na Boaventu-
ra da Silva, comeqou a importu-
nar sua acompanhante, "como
umrn dos muitos desocupados e
atrevidos que freqUientam os ci-
nemas desta capital, para apal-
par ou dirigir galanteios a se-
nhoras e senhoritas, embora
acompanhadas". Luiz Otaivio
nao deixou por menos: deu "al-
guns bofeties bem merecidos"
no professionall do guidon",
. que, nessa noite, foi ver estrelas
na cela da Central de Policia.


Jornal Pessoal I'QUINZENA DEZEMBRODE2005 11









0 Brasil no redemoinho: o desconcerto da ciencia


Um dos chefes do governor military inicia-
do em 1964 admitiu certa vez, em conversa
informal A margemrn de uma entrevista, que a
principal defici&ncia dos seus colegas de far-
da no exercfcio da administracao publica era
a falta de dominio sobre os assuntos econo-
micos. A mat6ria raramente 6 dada nos quar-
t6is. As poucas lic6es recebidas sao insufici-
entes. Daf a transfer8ncia do mando sobre as
coisas materials A tecnoburocracia. 0 inteli-
gente, culto, ardiloso e sagaz Delfim Neto,
um amante do poder a qualquer preqo, deitou
e rolou sobre essa lacuna. Ele conhecia as
artes e mist6rios do que, em economic, 6 ci-
6ncia. Mandou mais do que qualquer general
em boa parte dos 20 anos de regime de exce-
gao. E praticamente nao pagou a conta dos
desgastes sofridos nesse period. Mandou
cobrar nos quart6is e voltou ao poder.
Delfim 6 agora deputado federal peloPMDB
paulista. Quern, entire o final da d6cada de 60 e
os anos 70, apontasse em qualquer diregao pa-
recida corn essa, seria declarado louco e colo-
cado em camisa-de-forqa. A oposiqio tamb6m
nao dominava os nimeros, mas tinha plena cer-
teza de que Delfim os manobrava. Pauteiro do
jomrnal 0 Estado de S. Paulo, que, em moment
de gl6ria, mostrou a manipulaqdo do indice de
inflaqio, mesmo admirando Delfim, recebia na
redaqao queixas dos stores produtivos preju-
dicados pela political de abertura ao capital es-
trangeiro e formacao de poupanqa atrav6s de
endividamento extemrno desbragado (competen-
temente destripado pelo semandrio alternative
Opinido, em mat6rias antol6gicas de Marcos
Toller Gomes e Aloisio Biondi, corn o suporte
dos editorials graficos de Cassio Loredano). Os
criadores gauchos, atrav6s da Farsul, diziam
cobras e lagartos de Delfim, de sua conivencia
corn os frigorificos para fazer baixar os preqos
do boi. Nada safa. A censura cortava.
Sinto-me de volta a esses tempos. Ironica-
mente, o president da repdblica originou-se
no mundo do trabalho, corn funds e justas
contas a acertar corn o "milagre econ6mico",
que Delfim montou no fecundo laborat6rio que
6 sua cabeqa (sem qualquer canal de comunica-
gao corn o coracao e outras parties mais sensi-


veis do corpo a tudo que vai al6m de estatisti-
cas). Delfim vem transitando corn desenvoltura
total pelos gabinetes do PalAcio do Planalto e
arredores, como portador de alguma poqao
magica, que cabe em sua algibeira. Corn as cha-
ves do progress na vasta cintura, era e tal-
vez ainda seja cogitado para voltar ao coman-
do da economic, enquanto 6 chamado para dar
conselhos ao president, como se fora um pron-
to-socorro de formulas e n6meros.
Por que Delfim? Porque ele tern escrito, in-
clusive em publicaqbes francamente adeptas de
Lula, como a revista Carta Capital, de Mino
Carta, que o Brasil estA marcando passo, comeqa
a retroceder e que 6 precise fazer certas mudan-
9as e ajustes na political econ6mica para evitar
resultados funestos daqui a pouco. Uma heca-
tombe, talvez. Delfimrn sabe do que estA falando e
exp6e o que pensa corn graga e alto poder de
convencimento.
0 president Luiz InacioLulada Silva, como
os chefes militares, dos quais era o oposto (mas,
conforme estamos verificando agora, nio o dife-
rente), sabe pouco ou quase nada de economic.
Nio teve nem tempo para aprender as liq6es ele-
mentares da economic dom6stica. Mal safa de
enormes dificuldades materials para sobreviver,
passou para uma reserve t6cnica: durante 14
anos foi mantido em condiqoes de entrar em cam-
po e disputar o cargo mais alto da administracao
publica brasileira, mesmo em circunstaincias
desfavoriveis. Entrou quatro vezes. S6 ganhou
na ultima. Nesse aspecto, superou todos os po-
Ifticos antes dele que aspiraram A presiddncia.
Lula se empenhou como ningu6m para a so-
frida e demorada vit6ria. Mas dedicou-se tanto a
descobrir os banzos brasileiros, a ser o que o
eleitor gostaria que fosse, a estar ajustado ao
moment certo, a se submeter ao rito desse pro-
cesso, que se esqueceu de treinar para coman-
dar um pafs com 8,5 milhoes de quil6metros qua-
drados e 170 milhoes de habitantes. Quantos
desse porte, corn esse potential, existemrn no pla-
neta? Nio mais do que media dizia. Mas, pelo
crit6rio de avaliaqao mais recent da ONU, o Bra-
sil caiu para o 310 lugar no ranking mundial.
Ningu6m precisa ser tao bemrn adestrado no
manejo economic quanto Delfim Neto. Mas


PROCESSOR
Mais uma vez a perseguiqdo judicial dos Maiorana prejudice este jomrnal. Simplesmente ndo
houve tempo para apurar uma extensa pauta de assuntos, que se acumula ji ha bastante tempo.
Como efeito indesejado dessa brutal restriqdo, a maior parte do espaco do JP tern que ser dedicado
aos meus processes. Foi o tema que me absorveu quase que exclusivamente na 61tima quinzena.
No entanto, hi uma boa noticia a dar: ajuifza da 16" vara penal de Bel6m, Maria Edwiges de
Miranda Lobato, depois de rejeitar duas exceqies de suspeiqdo que argii contra ela, aceitou a
realidade e se desvinculou dos processes. Mandou juntar seu despacho nos sete processes que
disse estarem sob sua responsabilidade (na verdade, sao mais) e os remeteu para a Corregedoria
Metropolitan de Justiqa. Eles agora serdo redistribuidos. Espero que ajustiga ganhe corn isso.


ANUNCIANTE
Das 24 piginas, em format tabl6ide, da 61tima ediqdo do Jornal da ANJ (Associaqlo
Nacional de Jornais), cinco paginas e meia sao ocupadas por publicidade. Nas paginas inter-
nas, os anunciantes sao a ind6stria de papel Nosrke Skog, a inddstria grAfica Goss/Heidelberg
do Brasil, a fAibrica de fumrno Souza Cruz, a cervejaria AmBev e a de equipamentos grAficos
Gairnmerler. A 6nica empresajomrnalistica que anuncia 6 a Delta Publicidade, que edita 0 Libe-
ral. Ocupa urn espaco nobre (e mais caro, obviamente): na contracapa.


nao pode comandar o timdo sem uma convic-
cao profunda. Se ela 6 baseada em intense lei-
tura ou sistemrtica observaqao empirica, nao e
o mais important. 0 que importa 6 a convicaio
do lider, algu6m capaz de enfrentar qualquer
audit6rio corn um projeto consistent de poder.
Nao isolado em sua cidadela vazia, como um
autista. Mas aberto aos que divergem, aos que
ate mostram saber mais, estar mais bemrn prepa-
rados. Por6m sem a forqa de comando que deri-
va da convicqao bem sustentada.
Um cidadao nao precisa ter passado por
anos de liqao em disciplines econ6micas para
perceber que o Brasil atual nao tern future, o
Brasil delineado pela political economic em vi-
gor hA 15 anos, corn nuances que se alternaram
de Collor a Lula. Certa carga de culpa cabe ex-
clusivamente a Lula, assim como certa margem
de cr6dito. Ele continuou a fazer basicamente a
mesma coisa ruim de seus antecessores e vai
ser cobrado por isso. Mas tamb6m tern direito a
reivindicar algumas coisas novas que deram
resultado e outras que, mesmo sem a participa-
iao de sua vontade, acabaram resultando em
ganhos para o pais.
Noentanto, umadiretriz inalteradade quatro
governor sucessivos, apenas corn variaqao de
6nfase (aadministraqao Sarney foi uma anomalia
de ajustamento do que era ao que podia ser),
que leva o deficit publico a absorver mais da
metade de toda riqueza national, naio garantird o
progress do Brasil. 0 future se toma aleat6rio,
equivalent a um cartao de loteria, quando num
ano R$ 170 bilhoes sio devorados pelos juros
da divida, enquanto R$ 120 bilhoes sao espargi-
dos sobre as cabegas dos miserAveis, dando-
Ihes um minimo de condiqao de compra, atraves
de programs sociais como os das bolsas.
A este movimento de especulaqao, que ele-
va os "rentistas" A camada inatingivel de privi-
legiados do sistema, e de sustentaqao de uma
base condenada a um crescimento vegetative,
A depend&ncia dos favors do Estado, agora se
d o nome de reduqao das desigualdades, a
partir de anotaqao meramente aritm6tica. Os ri-
cos estao ricos como nunca, parasitas cevados
nas tetas do governor pelo fluxo financeiro da
divida ptiblica, enquanto os pobres estao me-
nos pobres pelo empobrecimento dos que es-
tao de fora da arca de Nod (ao menos barbudo
Lula 6, para dar verossimilhanqa A legenda.
Qual o future dessa equaqao explosive? A
competencia pela resposta sai dos manuais da
economic e vai em busca de seu rumo pela
seara da hist6ria, da sociologia e da ciencia
que, no agravamento do paradoxo, acaba sen-
do a prova dos nove: as ruas, onde o clamor
costumrna se tomrnar o combustivel para o des-
conhecido, o imponderAvel e o ternivel. A clas-
se m6dia, empobrecida por causa desse nive-
lamento por baixo, que o diga. E o dird, talvez,
como sempre, de forma errada.


Jornal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto
Edligao de Arte: L A ae Faria Pnico
Produrao: Angelim Pnio
Contato: Tv Benjamin Consiamn 845 203,66 053-
040 Fones: (0911 3241-7626 e-mail
lornaaleamazon com or




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