Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00287


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Full Text






ornal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
VOVEMBRO DE 2005 1'QUINZENA NQ 356 ANO XIX R$ 3,00
SOLUS, TOTUS UNUS
// N


BELEM: UMA CIDADE OCA
PAGINA 12
E INDEPENDENT
MESMO 0 MINISTERIO
PUBLIC?
PAGINA 2


v '


PARA



Cada vez




mais



pobre


Os numeros do empobrecimento do Para sao tao espantosos quanto o despreparo das suas
elites dirigentes. As estatisticas sao maquiladas e a propaganda prevalece sobre a leitura
rational dos numeros quando se trata de encarar a realidade. Ela mostra que o Estado se
distancia cada vez mais dos seus sonhos de progress.


Uma estatistica pode ser lida de
diferentes maneiras, mas s6
retratard a verdade que pre-
tende mensurar se for proje-
tada sobre o que interessa: a
condiqio humana. Na semana passada,
o coro official proclamou o que conside-
rou urna faqanha: o Produto Interno Bruto
do Pard cresceu mais do que o PIB bra-
sileiro entire 2002 e 2003, passando de 25
bilhbes de reais para R$ 29 bilhoes. Um
incrernento de 5,3%, contra apenas meio
por cento do PIB national.
De positive, 6 s6. 0 Para continuou
ocupando a mesma 11 posiqgo entire os
27 Estados brasileiros, embora, sob o as-
pecto da populaqio, seja o 90 maior do
pais (sua grandeza demogrifica, portan-


to, continue a ser deficientemente tra-
duzida pelo perfil econ6mico). 0 desem-
penho paraense esteve abaixo do regio-
nal no period: a regido Norte cresceu
5,4%. Por isso, embora o Para ainda seja
o Estado lider da Amaz6nia, com parti-
cipadio de 37,73% no PIB nortista, o
Amazonas estd em seus calcanhares,
com 36,24%. A perda de expressed tam-
bem ocorreu em escala national, ainda
que em discreta escala: a participaqdo
paraense diminuiu de 1,90% para 1,88%
do PIB do Brasil.
0 desempenho econ6mico do Esta-
do vem se mantendo gracas, sobretudo,
ao incremento do setor mineral, comr
suas ramificacqes metaldrgicas e side-
rdrgicas. Mas como seu efeito germi-


native 6 baixo, num tipico modelo de en-
clave, a riqueza gerada cresce sem ser
partilhada. Esse tipico fen6meno colo-
nial de concentraqdo e drenagem da
renda explica a queda do Pard no
ranking brasileiro do PIB per capital (o
PIB dividido pela populaqdo), do 21'
para o 220 lugar, com R$ 4.367. E uma
situacqo apenas melhor do que a dos
Estados da Paraiba, Ceard, Alagoas,
Tocantins, Piauf e Maranhio (o lanter-
na, com apenas R$ 2.354).
Essa lanterna, em terms regionais,
o Acre entregou ao Pard, o 6ltimo em
PIB per capital da Amazonia em 2003.
O Amazonas tamb6m perdeu uma posi-
qgo, indo do 6' para o 70 lugar entire os
CONTfiNU A NA PAC2







CONTINUA;AO DACAPA
Estados brasileiros. Mas seu PIB per
capital, de R$ 9,1 mil, 6 mais que do o
dobro do Pard. Ficou acima do valor
national, de R$ 8.694, em relacIo ao
qual o PIB per capital paraense 6 prati-
camente a metade apenas.
0 que isso significa concretamente
para o home comum? Hoje, considera-
se que vive bem quem ganha acima de
20 saldrios minimos por mes, ou seis mil
reais. No Para, os que tem um padrao de
vida decent nao sao mais do que 21 mil
pessoas, ou 1 % da populaqco em ativi-
dade no Estado. Ja a situacao de 44% da
populacgo economicamente ativa 6 dra-
matica: 28% ganham at6 um salario mi-
nimo e 16% nao possuem qualquer tipo
de rendimento. Esse contingent 6 for-
mado por 900 mil trabalhadores situados
na linha de pobreza. 0 salario m6dio do
paraense, de 516 reais, esti 30% abaixo
da m6dia brasileira.
Estes 6ltimos dados foram apurados
pelo Dieese, com base nos dados do Cen-
so do IBGE de 2000. 0 Departamento
de Estatisticas e Estudos S6cio-Econ6-
micos garante que a situacqo continue a
mesma. Pode at6 piorado, com a expan-
sio da economic informal e a queda dos
salaries dos trabalhadores mais antigos,
que sao demitidos e readmitidos num pa-
tamar mais baixo, o preco a pagar para
nao cair na informalidade.
Estatisticas mais recentes, de 2003,
da PNAD (Pesquisa Nacional de
Amostra por Domicilios), tamb6m do
IBGE, confirm que o paraense rece-


be o menor salario da regiio Norte e
um dos menores do Brasil, aqu6m da
m6dia national.
Num Estado em que a renda do tra-
balhador se contrai, sua capital se tor-
nou a capital brasileira da viol6ncia. Se-
gundo pesquisa divulgada no final do m&s
passado pela Fundaqdo Getulio Vargas,
com base em dados primarios apurados
pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatistica), entire 2002 e 2003
a violencia foi o problema mais percebi-
do pelos moradores de Bel6m. Belo
Horizonte 6 segunda capital na qual vi-
olencia constitui a maior percepcqo dos
seus habitantes.
Seguem-se no ranking Porto Ale-
gre, Recife, Fortaleza e Natal, onde a
violencia tamb6m assusta. Porto Velho
(capital de Rond6nia) 6 a cidade ama-
z6nica na posicao seguinte, a 7a. Ainda
da regiio, Cuiabi (Mato Grosso) ficou
em 100, MacapB (Amapd) em 110, Rio
Branco (Acre) em 140, Manaus (Ama-
zonas) em 170, Sao Luis (Maranhio) em
180, e Palmas (Tocantins) em 250. Boa
Vista, capital de Roraima, s6 6 conside-
rada menos violent do que Brasilia, a
melhor de todas.
A situaqcio da capital paraense, na
avaliaqio geral que seus moradores fa-
zem sobre suas condig6es de vida em
geral, s6 6 melhor do que a de Rio Bran-
co. Por esse crit6rio, Bel6m ficou em 260
lugar e a capital acreana, em iltimo lu-
gar. Exceto por Palmas, que conseguiu o
50 lugar, as capitals amaz6nicas se torna-
ram cidades ruins de se viver, ocupando


todos os iltimos lugares na classificadao
realizada pela FGV: Porto Velho 6 a 25"
em qualidade de vida, Sao Luis a 24',
Macapi a 23a, Manaus a 22'. Macei6
ocupa a posicao seguinte, mas a 20a 6 de
Boa Vista. Cuiabi, outra capital situada
na Amaz6nia Legal, 6 a 17i.
Ou seja: quando nio sao muito vio-
lentas, as cidades amaz6nicas sao muito
pobres. Ou sio as duas coisas ao mes-
mo tempo. E, nesse caso, Bel6m 6, in-
comparavelmente, a pior de todas. 0 tro-
f6u vai, sem contestalio, para todas as
61timas autoridades plblicas do munici-
pio, que contribufram muito para a cida-
de chegar a uma condigio tio triste.
Estes sao temas a considerar em pro-
fundidade e com conseqiiencia, agora
que a populacio se prepare para esco-
Iher seus novos dirigentes e represen-
tantes politicos. Essa elite naio apenas
tem permitido que um Estado potencial-
mente rico se empobreca: da causa a
esse paradoxo cruel. 0 fracasso da eli-
te paraense vem de long. 0 mais es-
pantoso 6 que se mantenha sem altera-
cio, apesar dos sucessivos de discur-
sos de mudanqa, de melhoria, de pro-
gresso. Nao 6 o povo que vota errado: 6
que nio Ihe 6 oferecida opibao a essa
longa carreira de despreparo.
No pr6ximo ano havern apenas mais
um capitulo dessa novela mediocre? 0
cardipio de candidates parece indicar
que sim. A political virou uma gangorra:
ora um lado sobre, ora 6 o outro. E nin-
gu6m surge como verdadeira novidade
nesse jogo. At6 quando?


Ministerio Piublico: independent mesmo?


Recentemente o Didrio do Pard pu-
blicou mat6rias sobre a atuaqio do Mi-
nist6rio Pdblico do Estado. Se o chefe do
MP, procurador Francisco Barbosa, re-
ferido em dois dos epis6dios relatados,
responded is mat6rias, sua carta nio foi
publicada nojornal. Se nao responded ou
seu direito de resposta nio foi acatado,
ji devia ter providenciado uma outra for-
ma de esclarecimento pdblico. A gravi-
dade das quest6es suscitadas o exigiria.
Tanto as que ojornal publicou quanto as
que ainda estio restritas aos bastidores.
0 journal publicou que o Procurador
Geral de Justica realizou uma reuniio
com todos os promotores da capital, na
sede do MP, no dia 13 do mes passado.
Seu prop6sito era tentar explicar as ra-
zies que o levaram a pedir o arquiva-
mento do process instaurado a pedido
de um promoter do interior, Acenildo Pon-
tes, para apurar o favorecimento fiscal e


tributario dado pelo governor do Estado a
Cerpasa (Cervejaria Paraense). Argu-
mentou que se nunca questionara a inde-
pendencia funcional dos promotores no
desempenho de suas atribuiq6es, por que
haveria de ser questionado pelos promo-
tores sobre sua pr6pria independencia
funcional, que o autorizava a tomar a
decision que adotou?
0 procurador-chefe tamb6m abordou
outra noticia do journal, sobre sua interfe-
rencia considerada ind6bita legalmente
- num process em primeira instincia, cu-
jos autos nem sequer haviam sido remeti-
dos ao MP (mas que caberiam a um pro-
motor e nio a um procurador, ainda mais
sendo ele o procurador geral). Era uma
acgo popular, proposta pelo defensor p6-
blico Clim6rio Mendonqa, questionando
ato do governador do Estado de nomear a
defensora piblica Anelyse Freitas coino
chefe da Defensoria Ptiblica do Estado. 0


parecer do procurador foi favorivel a Si-
mio Jatene. Barbosa sustentou que a no-
ticia era equivocada e que se limitou a
cumprir determinacio do juiz do proces-
so, para o arquivamento da agio.
0 procurador geral, segundo alguns
participants da reunido, visivelmente abor-
recido, admitiu que a depend6ncia finan-
ceira do executive estadual afetava a aiao
do Minist6rio Piblico. Se "batesse de fren-
te" com o governor, estaria arriscado a fi-
car sem dinheiro para pagar o aumento
reivindicado pelos promotores. Eles devi-
am considerar essa situacio. E tamb6m o
fato de que no dia seguinte ao arquiva-
mento da representacio contra o gover-
nador no caso Cerpasa, o Minist6rio Pi-
blico conseguiu que fossem devolvidos os
descontos indevidos de procuradores e
promotores em favor do Ipasep. 0 gover-
no se recusava a efetuar a devolucao rei-
teradamente pleiteada pelo MP,


NOVEMBRO DE 2005 IQLQUINZENA Jornal PIessoil









A alegoria de Mainardi



na republican do baananao


Se Diogo Mainardi fosse menos va-
gabundo (e nao 6, como admitiu), "o ba-
nanio dos banan6es ja estaria na rua".
Foi o que proclamou na primeira das duas
cr6nicas seguidas que escreveu na re-
vista Veja, a litima delas ainda nas ban-
cas. No meio de tantas reportagens con-
tendo denlncias sobre corrupqdo na alta
administration pliblica brasileira, os dois
textos de Mainardi estdo provocando
impact muito maior.
Por ser preguiqoso, digamos assim,
para sermos condescendentes com ele,
Mainardi nio apurou as bombdsticas in-
formacies que recebeu. Mas nao as en-
goliu em seco. Decidiu divulgd-las, na
forma literaria dos roman a clef. Ou seja:
trocando os nomes dos personagens re-
ais por designaqces caricatas. Mas sem-
pre deixando o rabo do personagem ex-
posto. Perdeu ojornalismo em consisten-
cia. Ganhou a literature em ironia mor-
daz, arrasadora. 0 efeito 6 uma bomba
de alto poder destrutivo.
O enredo da novela, que promete mais
capitulos, 6 um retrato aleg6rico da repli-
blica brasileira. Um empresdrio nordesti-
no, que 6 irmao de um senador tamb6m
cearense (atualmente na oposiqgo fede-
ral, mas situacionista em seu reduto elei-
toral), diz que deu um milhao de reais para
a campanha eleitoral (de 2002, vitoriosa)
do "bananao dos bananoes", conforme o
nome de batismo que Mainardi Ihe deu.
A operadora (telefinica) da qual 6
s6cio (surgida no process de privatiza-
qio na era FHC, a maior dessas novas
criaturas falsamente cubistas) entrou
com seis milhoes de ddlares. Esse di-
nheiro foi pago atrav6s do doleiro "biri-
bol", o mesmo do "beirutdo dos beiruties"
(politico paulista not6rio, que recentemen-
te esteve preso). Esse doleiro tem, atra-
v6s da sobrinha, uma casa de cambio no
shopping center do irmio do senador.
O intermedidrio na negociacao com o
irmio do senador foi o sobrinho do sena-
dor. Pelo lado do "bananao dos bananoes"
foi um m6dico e um professor de matemi-
tica, a dupla Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Mas a
relaqio entire essas parties ji 6 antiga, ape-
nas incorporando novos enlaces. Um dos
s6cios da operadora, por exemplo, 6 uma
empreiteira. Um dos primes do dono da
empreiteira entrega malas de dinheiro "para
o monstro" e uma das primas pagou a ci-
rurgia da filha do "bananao dos bananoes".
"E por isso que ele constr6i tantas hidrel6-
tricas", diz Mainardi.


Houve doa~go tamb6m para a cam-
panha de senador do "bigoddo dos bigo-
does". Para justificar o dinheiro, esse
senador, filho de um general do Ex6rcito,
di palestras bancadas pela operadora,
que 6 60% do Estado (atrav6s dos fun-
dos, geralmente imperceptiveis, apesar de
sua grandeza), pelas quais foi remunera-
do num padrdo de Donald Trump, aquele
que costuma cobrar dois mil d6lares por
minute de enrolagao.
No imbr6glio ha tamb6m o dono de
uma siderirgica, que cresceu estrondo-
samente com dinheiro que Ihe deram os
funds de pensdo, funds esses que apli-
caram 1,5 bilhdo nas empresas do irmao
do senador. Important numa dessas his-
t6rias de sucesso empresarial foi o s6-
cio do genro do marimbondo de fogo.
Lui-menme foi quem divulgou trechos de
grampos telefonicos instalados pelo ir-
mao do senador, que nao tem limits para
seus neg6cios e joga baixo quando eles
necessitam.
Mas nao 6 s6 entire o executive e o
legislative que se desenvolve a trama ar-
mada por Mainardi, um eximio ficcionis-
ta do realismo fantistico, embora a ex-
pressdo nlo acomode bem suas parabo-
las andrquicas e certeiras. Houve distri-
buiqdo de bolsas Vuitton aos ministros de
um tribunal em Brasilia. Ji o president
do tribunal teve ajuda em suas campa-
nhas, pret6ritas, atuais e futuras.
Para consumer a trama, hi a partici-
pacgo de jornalistas, que atuam na as-
sessoria formal ou informal das empre-
sas. Prestando-lhes services direta ou
indiretamente em mat6rias que assinam
como se fizessem jornalismo de verda-
de, por exemplo.
Qualquer uma pessoa razoavelmente
informada pode montar sua chave para
decodificar o texto aleg6rico de Diogo
Mainardi. Ele tem as qualidades do ver-
dadeiro escritor. Por isso, sua novela soa
como a melhor fotografia em 3 x 4 -
da elite brasileira dentre as que se pro-
puseram a reveld-la neste moment. E
boa ficqdo, totalmente inspirada em fa-
tos verdadeiros. Mas nao 6 jornalismo.
Quantos jornalistas ji nao ouviram
essa hist6ria, em versdo ainda mais com-
pleta? E quantos fizeram o que o autode-
clarado preguicoso Mainardi nao fez, indo
checar cada informaqao para poder di-
vulgi-la como hist6ria e nio s6 est6ria?
Mainardi ficou na posiqao dojornalista:
aquele que, atrav6s de diferentes formas


e estilos, escreve em journal. Ndo avan-
0ou at6 a posiqco do reporter: aquele que
s6 esti autorizado a passar em frente as
informad6es que checou corretamente.
Ha muitos jornalistas no mercado da
imprensa brasileira. Ji rep6rteres. hi
muito poucos. As vezes, o c6lebre jorna-
lista investigative nada mais 6 do que o
repassador de dossies, aquele que aceita
passar em frente verdades pr6-fabrica-
das, verdades dirigidas meias verda-
des, que, como se sabe, sio mais perigo-
sas do que mentiras flagrantes.
Pior do que essa constataqio 6 veri-
ficar que nenhum reporter foi tao long
quanto o escritor Diogo Mainardi na re-
velaqdo dessa superestrutura de poder -
que, na verdade, 6 um submundo de ar-
ranjos entire poderosos, a serviqo de seus
interesses pessoais, quase sempre a custa
dos interesses coletivos. Pois que venha
mais da fabulistica mainardiana, ji que o
jornalismo anda encolhido no Brasil.
Mesmo que seja a custa de fantasia utili-
tiria e acomodadio convenient.
A revista Consultor Juridico fez sua
parte. Na ediqco do dia 3 ela forneceu a
chave para entender a primeira coluna
de Mainardi. Tomara que faqa o mesmo
corn a segunda.
Ao texto do colunista de Veja acres-
centou suas observaqoes, em negrito,
como se segue:
"EU: 0 irmio (Carlos Jereissati)
do senador (Tasso Jereissatti (PSDB-
CE)) que deu 1 milhio de reais a cam-
panha do bananio dos bananoes (manei-
ra como o colunista se refere ao presi-
dente Luis Indcio Lula da Silva).
FONTE: Pode ser verdade. Pode ser
que ele tenha dado 1 milhao de reais de
sua conta particular. Mas a operadora de
que ele 6 s6cio (Telemar) deu muito mais.
EU: Quanto?
FONTE: 6 milhdes de d6lares.
EU: Quando isso aconteceu?
FONTE: No fim de setembro de
2002.
EU: Onde foi feito o acordo?
FONTE: No hotel Gran Melid World
Trade Center.
EU: Quem negociou tudo?
FONTE: Pelo lado da operadora, o
sobrinho (Carlos Jereissati Filho) do
senador.
EU: Qual deles?
FONTE: 0 que depois foi chamado
para integrar o conselho brasiliense (Con-
selho de Desenvolvimento Econbmi-
co e Social).
EU: E quais eram os negociadores
pelo lado do bananao dos banan6es?
FONTE: Dr. Jekyll e Mr. Hyde 0
m6dico ministryo Ant6nio Palloci) e o
monstro. 0 m6dico e o professor de ma-
temrtica (Delhibio Soares).
CONTiNUA NA PAG 4


Journal Pessoal IQUINZENA NOVEMBRO DE 2005







CONTINUA;AO DAPAG.3
EU: Eu nao sabia que o m6dico
(Palloci) tinha cuidado dessa area.
FONTE: Todo mundo jd falou de sua
sem-vergonhice no period (1993-1996 e
2000-2002) da prefeitura (de Ribeirao
Preto). 0 que ningu6m explorou at6 agora
foi seu papel como arrecadador de funds
para a campanha. Ele 6 o elo entire o bana-
nao dos bananoes e o dinheiro sujo.
EU: Como os 6 milhoes de d6lares
foram pagos?
FONTE: Urn doleiro.
EU: Qual?
FONTE: Esse mesmo (Vivaldo Al-
ves, o Birigiii) que esti acusando o beiru-
tio dos beiruties (Paulo Maluf) Esse
mesmo que foi poupado pelo partido go-
vernista na CPI (do Banestado que teve
o deputado Jose Mentor (PT-SP) como
relator). Ele tinha uma casa de cdmbio no
shopping center do irmio do senador (Sho-
pping Center Iguatemi, de Sao Paulo).
EU: Tern certeza?
FONTE: Claro.
EU: E 100% seguro?
FONTE: 100% seguro.
EU: Isso prova que a compra da
empresa (Gamecorp) do bananinha (FA-
bio Lula da Silva, filho do presiden-
te) dos bananoes (Lula) por parte da
operadora (Telemar) do irmao do sena-
dor (Carlos Jereissati) nao foi urn fato
isolado. 0 com6rcio entire a operadora
(Telemar) do irmao do senador (Car-
los Jereissati) e o bananao dos ba-
nanoes (Lula) 6 antigo e consolidado.
FONTE: Lembre-se tamb6m dos
outros s6cios da operadora. Ela 6 60%
do Estado. Pelo menos 3,5 milh6es de
d6lares em dinheiro p6blico foram desvi-
ados pela campanha.
EU: E mesmo.
FONTE: E tern o s6cio (S6rgio An-
drade) empreiteiro (empreiteira Andra-
de Gutierrez). Ele 6 amigo do bananao
dos bananoes. Um de seus primes (Ro-
berto Gutierrez) entrega malas de dinhei-
ro para o monstro (Delhibio Soares). Uma
de suas primas (Marilia Andrade) pagou
a cirurgia em Paris da filha do bananio dos
bananoes (Lurian, filha do president e
da enfermeira Mirian Cordeiro). Por
isso ele constr6i tantas hidrel6tricas.
EU: Nao posso publicar nada disso
sem apurar.
FONTE: E por que nao apura?
EU: Dd trabalho demais.
FONTE: Vale a pena.
EU: Eu sei.
FONTE: Repito: 6 100% seguro.
EU: 0 fato 6 que, se eu fosse menos
vagabundo, o bananao dos banan6es ja
estaria na rua".
0 jornalismo, que sempre corre ris-
cos quando diz a verdade, agradece. 0
povo brasileiro, tamb6m.


Funtelpa-TV Liberal


final, uma decisao?


Ji esta quase pronta para julgamento
uma questdo que se arrasta najustiqa pa-
raense ha oito anos: o convenio assinado
entire a Fundaqdo de Telecomunicaqoes
do Pard e a TV Liberal, durante o pri-
meiro governor Almir Gabriel. A audian-
cia que estava marcada para o dia 25 do
mrs passado foi cancelada porque o au-
tor da aqdo alegou que nada tinha a acres-
centar a instruqdo processual. Ajufza da
21? vara civel do f6rum de Bel6m, Rosi-
leide Cunha Filomeno, abriu vista dos
autos para o Minist6rio P6blico apresen-
tar sua manifestaqdo final: A partir do
parecer do MP, a juiza poderd decidir.
0 atual deputado federal Vic Pires
Franco, do PFL, apresentou uma adao
popular contra o convenio em 1997, de-
pois que este journal denunciou sua imo-
ralidade. Embora cedendo suas estac5es
retransmissoras instaladas no interior do
Estado, a Funtelpa ainda deveria pagar
mensalmente a TV Liberal no inicio 300
mil reais, agora quase 400 mil. No lugar
da programagco da TV Cultura, as esta-
coes da Funtelpa retransmitem a progra-


maqgo commercial da Rede Globo de Te-
levisdo, da qual a emissora das Organi-
zacqes Romulo Maiorana 6 afiliada.
Um auditor do Tribunal de Contas do
Estado confirmou a irregularidade e a le-
sividade ao erdrio do conv6nio, que na
verdade devia ser um contrato regular
(mas se o fosse, obrigaria o Estado a fa-
zer licitaqio p6blica, o que, evidentemen-
te, nao interessava as duas parties envol-
vidas). 0 process no TCE, completa-
mente documentado, foi sustado h espe-
ra de um pronunciamento dajustiqa, at6
hoje nao apresentado. Apesar de todas
as den6ncias, o tal convenio foi sucessi-
vamente prorrogado pelo governador Al-
mir Gabriel, do PSDB, e seu successor,
Simdo Jatene.
Vic, marido da vice-governadora Va-
l6ria Pires Franco, props a aaio popular
em represdlia ao grupo Liberal, corn o qual
havia rompido na 6poca. Feita a reconcili-
aqio, ainda que precdria, desistiu de con-
tinuar A frente do process. Mas seu lu-
gar foi ocupado pelo soci6logo Domingos
Conceiqao, que permanece como autor.


Justi a em Sao Paulo


0 empreiteiro Ceclio do RegoAlmeida
nao conseguird que ajustiqa de Sao Paulo
obrigue CartaCapital a indenizA-lo por
suposto dano moral que teria sofrido em
conseqii8ncia de uma mat6ria publicada
pela revista. A 8" Camara de Direito Priva-
do do Tribunal de Justica do Estado disse
que a publicacqo exerceu regularmente umrn
direito, narrou assuntos de relevant inte-
resse pLiblico e isto nao configura ato ilici-
to. Em votaqgo undnime, rejeitou a aqio e
absolveu a Carta Editorial S/A.
Ediqgo de 9 de dezembro de 1998 da
revista reproduziu frase atribuida a um
policial sugerindo a um empresArio, su-
posta vitima de grampo telefonico, que o
responsivel pela gravaqdo clandestine
seria Cecilio do Rego Almeida, dono da
Construtora C. R. Almeida. A iniciativa
faria parte do conturbado process de pri-
vatiza~qo da telefonia brasileira, durante
o governor de Fernando Henrique Cardo-
so. 0 empreiteiro integrou o cons6rcio
Tess, vencedor da concorrencia para a
exploraqco da telefonia cellular no interi-
or de Sao Paulo, um neg6cio avaliado em
1,3 bilhdo de reais.
Nojuizo singular, o pedido de inde-
nizagAo ja fora rejeitado. 0O empresdi-


rio recorreu a instancia superior do tri-
bunal paulista. Alegou que, contraria-
mente a sentence do juiz da 39a Vara
Civel Central, teria sofrido danos mo-
rais por causa da reportagem, na qual
Ihe foram imputados fatos que consi-
derou ofensivos h sua reputaqdo e de-
finidos como crimes.
0 relator da apelaqgo, desembarga-
dor Andr6 Augusto Salvador Bezerra,
por6m, constatou que na reportagem a
revista "limitou-se a noticiar dentincias
formuladas por policial federal e por ami-
go de empresirio aceica de grampos
clandestinos, ameaqas e chantagens que
estariam sendo feitas pelo apelante, nlo
havendo, portanto, qualquer pr6-julgamen-
to ou afirmaqgo de este efetivamente
estaria praticando tais delitos".
Para o relator, "cabe anotar que ila-
qgo contriria a essa significaria violar bem
expressamente tutelado pela Constituidio
Federal, consistent no direito de infor-
mar e de ser informado, o que nao pode
ser aceito, ainda mais quando se consi-
dera a acanhada tradidio democrditica
brasileira, cuja hist6riaji presenciou di-
versos epis6dios de censura h imprensa".
Ja no Pard...


4 NOVEMBRO DE 2005 I"QUINZENA Jornlal PIessoall









E guerra: 0 Liberal e a ameaga do Diario


Nunca, desde que assumiu a lideran-
ca no mercado de jornais impresses no
Pard, 0 Liberal enfrentou uma concor-
rencia tdo dura quanto a atual do Diairio
do Pard. Consultando todas as fontes
disponiveis de informaqio, pode-se che-
gar a conclusio de que nos dias de se-
mana a venda avulsa da folha dos Bar-
balhojjd 6 ligeiramente superior a dojor-
nal dos Maiorana, que ganha e de ca-
pote apenas aos domingos. Se soma-
dos os dois didrios, 0 Liberal e Amazo-
nia Hoje, o grupo Liberal ainda tern uma
razodvel vantage, que se expand enor-
memente aos domingos.
A conclusao 6bvia dos numeros 6 que
o Amnazdnia tirou leitores do seu irmio
mais velho e nao do concorrente. A nova
criatura acabou sendo um tiro que os
Maiorana deram no pr6prio pd. 0 Ama-
z6nia 6 o terceiro em vendagem nos dias
de semana, mas pula para o segundo lu-
gar aos domringos, enquanto o Didrio fica
imediatamente atras.
Por que esse desempenho? Por cau-
sa do preco. A um real o exemplar, o lei-
tor prefer o Diairio nos dias de sema-
na. Como aos domingos ojornal dos Bar-
balho passa para dois reais e o Amazd-
nia mant6m o prego, de R$ 1, 6 ele que


atrai os que olham primeiro o custo da
mercadoria antes de adquiri-la. E que sio
a maioria dos compradores. Nao s6 de
jornais, 6 bom lembrar: final, Bel6m 6 a
capital que mais poder de compra per-
deu nos 6ltimos anos (um retraimento de
quase 50% entire 1994 e 2003, segundo
pesquisa recente.
Essa 6 a realidade da venda de jor-
nal. Quando o assunto 6 receita publici-
tiria, a hegemonia dojornal dos Maiora-
na nio foi tio abalada, principalmente
porque continue a ser o veiculo preferido
da propaganda do governor do Estado,
ainda o maior anunciante (principalmen-
te quando quer ser, por outros motives


que nao exatamente a comunicacao corn
o contribuinte em particular e o cidadao
em geral para prestacio de contas). Em
terms empresariais, o Ditirio do Parci
como todo grupo 6 pouco al6m de
uma fachada empresarial. Ainda nao tern
solidez suficiente para ombrear-se ao con-
corrente, que niio prima por nada muito
melhor, mas tira proveito da vantage
inercial e dos arranjos politicos.
Depois da demissio de todos os sete
integrantes do departamento commercial,
numa aut&ntica interven-io feita por Ro-
mulo Maiorana J6nior no setor, a empre-
sa procura novos quadros. 0 incremento
da receita publicitiria 6 vital. Nio s6 para
cobrir o prejufzo que a manutenqdao dos
preqos da venda avulsa deve estar cau-
sando aos dois concorrentes, como para
responder aos investimentos que tem feito
na drea industrial. Algo corn a temerida-
de de um salto no escuro.
Quanto ao conteido dos seus produ-
tos, o Diario compensa corn colunistas
nacionais uma cobertura local deficien-
te, realqada por uma concepqao grafica
infeliz. Mas ambos osjornais primam por
um conteudo frigil, deficiente. Nessa vi-
trine, o que acaba prevalecendo mesmo
6 6 o preqo de venda.


Silencio (nada) Liberal


Pela segunda vez um grande jorna-
lista brasileiro conseguiu romper a mu-
ralha de silencio que o grupo Liberal
imp6s em seus veiculos a tudo que me
diz respeito. Primeiro foi Elio Gaspari,
que noticiou em sua coluna, reproduzi-
da em 0 Liberal, a agressao de Ronal-
do Maiorana contra mim. Na semana
passada foi a vez de Miriam Leitao, em
sua coluna "Panorama Econ6mico",
transmitida pela Ag6ncia Globo parajor-
nais de todo pais, incluindo a folha da
familiar Maiorana.
Analisando a relaqdo do governor
Lula com a imprensa em particular,
num context mais amplo do exerci-
cio da liberdade de imprensa, Miriam
Leitio observou:
"No Brasil, hi muitas ameagas, al6m
das diversas insinuacoes autoritirias do
governor, a liberdade de imprensa regio-
nal, por parte dos grupos de interesse e
economicos locais. 0 reporter paraen-
se Licio Flivio Pinto foi um dos esco-
Ihidos este ano para o pr6mio Internati-
onal Press Freedom do Committee to
Protect Journalistas em Nova York, no


pr6ximo dia 22. Lucio Flivio nio pode
viajar para receber porque estA respon-
dendo a 18 processes.
A maioria movida pela familiar Maio-
rana ele foi vitima at6 de agressao fi-
sica por parte de Ronaldo Maiorana e
outro process de Cecilio Rego de Al-
meida, que alega ser dono de uma ex-
tensa drea na Terra do Meio. 0 Brasil
vai fazer um papelao no Waldorf Asto-
ria, diante da imprensa international, se
Licio Flivio for impedido de ir".
A situaqio 6 delicada. Ha 13 anos,
desde que Rosangela Maiorana Kzan,
diretora administrative das Organiza-
qoes Romulo Maiorana, props cinco
ages sucessivas contra mim (quatro
com base na Lei de Imprensa do regi-
me military e outra para me impedir de
voltar a me referir a ela neste journal ,
meu nome integra o index do grupo Li-
beral. Nada pode ser dito a meu res-
peito. A agressao de Ronaldo teve
como pretexto a defesa da mem6ria
do pai, que eu teria atingido com arti-
go publicado no JP. Mesmo assim,
nenhuma linha para defender essa me-


m6ria e contraditar o alegado ofensor.
Silencio absolute. Sepulcral.
0 problema 6 que dois dos mais fa-
mosos jornalistas brasileiros resolveram
se manifestar a respeito da persegui-
qao do grupo Liberal contra mim. Am-
bos assinam duas das colunas mais di-
fundidas na imprensa national, uma
corn nfase na political, a de Gaspari, e
a outra na economic, a de Miriam. Por
acaso, as duas sao distribufdas pela
agencia de noticias das Organizaqoes
Roberto Marinho.
HA norma contratual proibindo qual-
quer corte nas colunas. E ha uma orien-
taqao nao escrita de que a supressao ou
adulteraqdo provocard a realao dos do-
nos da Rede Globo. Por isso, embora atin-
gidos diretamente pelas critics de Gas-
pari e Miriam, os Maiorana tiveram que
engolir os sapos a seco. E em silIncio. 0
que nio faz bem ao seu organismo nem.
tamb6m, a democracia e a liberdade de
imprensa, se e que suas investildas tmrn
alguma coisa a ver corn o que deveria
ser a mat6ria prima da empresa, os fa-
tos, e o que deles deriva: a verdade.


Jolrnti PCssoal I QUINZENA NOVEMBRO DE 2005








Amissa por Herzog: memoria de 30 anos


Foi a missa mais emocionante e tensa
da minha vida, aquela de 31 de outubro de
1975, a noite, na igreja da S6. Eu chegara
uns dias antes a Sao Paulo, a terceira via-
gem que fazia i sede de 0 Estado de
S.Paulo, desde que voltara definitivamente
a Bel6m, como correspondent dojomal, um
ano antes. Na v6spera, as redacqes foram
abaladas pela noticia da morte de Vladimir
Herzog. Ele tinha comparecido espontane-
amente para ser interrogado e morrera pou-
cas horas depois no centro de torturas do
DOI-Codi, a mais violent engrenagem de
repressao do regime military.
Havia entao uma onda de perseguiqco
ajornalistas, que criara um clima de medo.
Ser chamado para "prestar esclarecimen-
tos" em alguma instancia do poder signifi-
cava dar um pass rumo ao desconhecido.
O sinal de alerta foi disparado quando che-
gou a vez de Vlado. Nao era segredo que
ele pertencia ao Partido Comunista Brasi-
leiro. Mas o "partidao" desaprovava a luta
armada, contra o qual se uniram as forqas
do "sistema". Continuava a defender e pra-
ticar a luta political. Isso tamb6m era co-
nhecido por todos. Por que investor contra
o PCBao, outra de suas nomenclaturas?
Provavelmente porque os grupos de luta
armada da esquerda estavam acabando.
Mas a enorme engrenagem de terror ofi-
cial precisava se manter, com seus prop6-
sitos e desprop6sitos. Restava-lhe criar o
pr6prio inimigo parajustificar-se, um mo-
vimento parecido ao que levara os novos
donos do poder a qualificar o golpe de 31
de marco de revoluqco e, em seguida, con-
tra-revoluaio (contra a iminente revolu-
aio de Jango e seus aliados comunistas).
Oposicionistas sem capacidade de agres-
sao foram vestidos com a imagem de pe-
riculosidade. Dai a convocaqio de Vlado,
um comunista "infiltrado" na TV Cultura.
Na verdade, os que o prenderam queriam
atingir seu superior hierirquico, o secre-
tirio de cultural do Estado, Jos6 Mindlin.


E, se possivel, chegar ao governador
Paulo Egydio Martins.
Ambos podiam ser muito bem classifi-
cados como liberals. Paulo Egydio ocupa-
va, guardadas as proporqoes, em relaqdo
ao regime military de 1964, a funqdo que
Armando de Salles Oliveira assumiu dian-
te do Estado Novo, de Gettlio Vargas. Fo-
ram governadores nomeados, ou interven-
tores, com melhor ou pior simulaqdo de re-
presentatividade, que buscaram, depois, le-
gitimadio popular e o maximo de legalida-
de possivel. Armando se deu bem pior do
que Paulo Egydio, que ainda pode voltar a
sua boa vida quando deixou o cargo.
A morte de Vlado e a que se seguiu,
do operirio Manoel Fiel Filho, revelava que
o regime de terror ameaqava escapar a
qualquer forma de control por parte dos
seus chefes. 0 chefe maximo era o gene-
ral Ernesto Geisel, na presidencia da re-
p6blica. Esses chefes sabiam que nos po-
roes do regime se formaram bolsoes "ra-
dicais, mas sinceros", segundo a expres-
sao que cunharam. A dose da primeira
qualidade se tornou excessive. A da se-
gunda, refluiu. Os pores se tornaram uma
anarquia. 0 Estado podia se transformar
num Behemoth. Geisel, de familia alemi,
resolve center essa expansaio. A violen-
cia devia estar sob control central. Daf
sua intervengao. Nao queria um nazismo
a brasileira. Ficaria em Bismarck. Ele sen-
do a versao abrasileirada, claro.
Mas a intervenqao demorou. Os mi-
lhares de pessoas que aflufram naquela
noite carregada de poluicio no ar chega-
ram nervosas a igreja da S6, que Miribo
de Andrade e Paulo Duarte nunca se can-
saram de execrar, corn seu maneirismo
g6tico mais do que tardio. A nave, lotada,
acompanhava a emocionada e emocio-
nante celebragio comandada pelo arce-
bispo de Sao Paulo, dom Paulo Evaristo
Arns. Mas um olho perscrutava ao re-
dor: sabia-se da presence de policiais in-


filtrados. E a mente tentava captar algu-
ma coisa do exterior.
Quando o ato ecumenico acabou, havia
centenas de policiais civis e militares na
praqa e em quase todas as vias de acesso,
no centro velho da cidade. Cdes de guard
eram seguros por correias, mas estavam
nervosos, ferozes. Havia carros estaciona-
dos nas ruas, fechadas ao trifego por vdiri-
as blitzes que a policia montara (o gover-
nador nio exercia sua autoridade nesses
stores, pelos quais trafegavam sem peias
o coronel Erasmo Dias, o comandante da
invasdio da Pontificia Universidade Cat6li-
ca, e o atual senador Romeu Tuma, entio
delegado da Policia Federal).
Os participants da celebracio por
Vlado caminharam por aqueles corredo-
res poloneses, que talvez lembrassem a
Pol6nia do entao cardeal Woytila (mutan-
te a ideologia, os regimes totalituirios se
parecem). Havia o receio de que algum
cachorro se soltasse para morder os ini-
migos ou uma ordem superior liberasse a
pancadaria dos militares e policiais. Sur-
preendentemente, o esvaziamento da ca-
tedral foi pacifico e todos puderam retor-
nar as suas origens. Nao houve nenhum
atrito, embora o ar estivesse carregado de
p6lvora e gasoline.
Nessa noite, quem tinha olhos para ver
deve ter percebido que o regime nao era
tao forte quanto parecia nem n6s tao
fracos quanto pensivamos. Nio houve
nenhuma mudanqa brusca no dia seguin-
te, nem nos outros dias, meses e anos.
Mas o medo diminuiu. Quem jid passou
por um regime de exceaio, hifbrido corno
o nosso ou integralmente totalitirio, como
o nazista, sabe que quando o medo dimi-
nui o home se enobrece. Numa socie-
dade de homes dignos nao hai ditadu-
ras. Foi a licao que me ficou daquela mis-
sa inesquecivel de 31 de setembro de
1975. Hi 30 anos. Naquele tempo ji dis-
tante, mas nem tao longinquo.


Historia suja
No 6ltimo dia do mes passado os
credores do Banco Santos, de Edemar
Cid Ferreira, submetido a intervencao
no final de 2004 pelo Banco Central e
em seguida considerado falido e posto
em liquidadio extrajudicial, foram con-
vocados a habilitar seus cr6ditos peran-
te a 2a Vara de Falencias e Recupera-
q5es Judiciais da comarca de Sao Pau-
lo. 0 passive a descoberto apurado 6
de 2,2 bilhoes de reais, mas a sangria
pode ser muito maior. 0 Bacen nao
chegou a computer o prejuizo para os
funds de investimento e o BNDES,


que podem alcanqar valores bem altos
e indicar um roteiro sombrio para uma
investigaqao em profundidade (que nin-
gu6m se dispoe a fazer).
0 ativo do Banco Santos "6 infinita-
mente inferior" aos d6bitos, conforme
diz ojuiz Caio de Oliveira, na sentenqa.
Por isso mesmo ele prev6 que muitos
dos cr6ditos "sao de duvidosissima liqui-
daqao". Poucos serdo recuperados. Ain-
da assim, a lista dos credores quirogra-
fuirios ocupou uma pigina e meia dojor-
nal 0 Estado de S. Paulo, onde o edi-
tal foi publicado. Como a letra 6 muito
pequena, 6 dificil fazer uma leitura com-
pleta da peqa. Mas sem diivida o Banco


da Amaz6nia serd um dos lifderes em
perdas: seus cr6ditos sao de 60 milhoes
de reais. Ja o Banco do Estado do Pard
tem R$ 2,8 milh6es na fornalha. E a Jari
Celulose, R$ 3,4 bilhoes.
A grande imprensa jii nio parece
mais interessada no assunto. Mas ago-
ra 6 que ele se tornou interessante. A
leitura de milhares de pdiginas dos au-
tos 6 uma tarefa indigesta, mas con-
t6m uma hist6ria bem ilustrativa dos
procedimentos para desviar dinheiro
para enriquecimento ilicito no Brasil -
com sofisticagao, 6 claro, como con-
vem aos criminosos mais impunes do
pais: os de colarinho branch.


NOVEMBRO DE 2005 I QUINZENA Jornll IPessol: I









Novo livro: guerra jornalistica na AM


Guerra Amaz6nica 0
jornalismo na linha de tiro
(de grileiros, madeireiros,
intelectuais, etc. & cia.), 6 o
titulo do meu novo livro, que espero
colocar a disposicio dos interessados
nos pr6ximos dias, em livrarias e
bancas de jornais e revistas. Por
enquanto, nao est6 programado o
langamento dessa 17a obra individual
que escrevi. 0 interesse do leitor
determinara se haveri ou nao umrn
lancamento official.
Como chamariz para o novo livro,
reproduzo a introdu co que escrevi, um
"abre-alas ao leitor'.

Jornalismo 6 oposilao, o resto e armazem
de secos & molhados disse Millor Fer-
nandes certa vez. Nao 6 bem assim, mas
como a frase 6 inspirada, conv6m us6-la. Ain-
da mais porque, nestes nossos tempos de sin-
cronismo e cinismo, os maisjovens sao tenta-
dos a achar que jornalismo 6 marketing & rela-
qoes piblicas. Quando naio, um oficio que se
exercita a frente de um computador, navegan-
do pelo mundo virtual sem o risco de furac6es
e tempestades. Tudo 6 ass6ptico e inodoro.
Mesmo ojornalismo investigative consiste em
debulhar dossies e repassar material de fonte
secunddria. 0 bom jardineiro 6 aquele que en-
contra orquideas no turbilhao de mato que ger-
mina como praga na horta do google.
Em 40 anos de jornalismo, aprendi que o
melhor da nossa profissao 6 alcanqado em
contato direto corn pessoas de care e osso
e testemunhando acontecimentos marcantes,
vividos, reais. Nas ruas, portanto, expostos
ao sol e a chuva, adquirimos urna capacidade
que nos distingue dos demais profissionais.
Dizer que se trata de malicia significaria ex-
pressar-se incorretamente. Mas temos muito
de maliciosos em nosso ceticismo, na neces-
sidade de conferirmos cada informaqao que
nos chega e cada versao que nos 6 apre-
sentada como se fora a tAbua das leis, ou de
olharmos nos olhos do ator com pretensio
a mito. A nudez do rei nao 6 a nossa meta,
mas evitd-la pode se tornar o estigma da
covardia. Nao somos o ndufrago anarquis-
ta, negando a autoridade mal chega a praia
salvadora. Mas, por principio, jornalismo nao
rima corn burocracia, autoridade e poder. Se
as bruxas nao existem, nao cremos nelas. E
as combateremos, ao contrario do que su-
gere a legend espanhola.
0 jornalismo 6 muito mais do que tudo
isso. Sou tentado a buscar em Joio Cabral de
Mello Neto, o diplomata que entendeu muito
mais de fome & seca nordestina do que o
retirante-operdrio paulista Luiz Inicio Lula da
Silva, a inspiraiio para a metodologia desse
aprendizado. Aprendemos com as pedras, tri-
lhando um caminho sofrido e trepidante, que
talvez nos conduza a Canossa se os perso-
nagens das hist6rias que relatamos, ao inv6s
de reagir coin palavras duras, agressoes fisi-
cas ou balas, mais duras ainda, reconhece-
rem que 6 assim que se constr6i a hist6ria e 6


assim que damos nossa contribuidio ao que
interessa nessa estrada de Damasco: a me-
m6ria dos homes (e mulheres, no aposto
populista do ritual politicamente correto).
Estruturei este livro sem desnaturar o que
Ihe constitui o conteudo: o jornalismo. Nao
consider quejornalismo seja um genero mai-
or ou menor. E bom ou ruim, conforme 6 reali-
zado. Se o jornalista cumpre a tarefa que lhe
cabe, centrando-a nos fatos, mas bem atento
as suas circunstAncias, estard fornecendo
mat6ria prima para um sem-ndmero de outros
aproveitamentos. Nessa drvore frondosa co-
lherao seus frutos o cientista politico, o soci6-
logo, o economist, o antrop6logo, o psic6lo-
go & etc., neste geral incluindo-se o persona-
gem que mais interessa: o cidadaio.
Nosso oxig&nio 6 a verdade. Sem letra
maitiscula, sem grandiloqUi6ncia, sem hero-
ismo. Para que ser "escravo da verdade" vd
al6m da figure de ret6rica usual, temos que
encard-la como algo bem natural para quern
decide serjornalista. Quando safmos para a
cobertura de um acontecimento previamen-
te agendado, quando recebemos uma "visi-
ta na redaqao" ou quando somos desperta-
dos na madrugada por uma convocaqlo ao
desconhecido, a primeira arma que devemos
pegar 6 o sism6grafo dos fatos. Esse obje-
to, evidentemente, nao existe. Mas esti den-
tro da nossa cabeca, plenamente visivel, in-
tegralmente materializado. Se divisarmos os
fatos na rotina da pauta ou nas circunstan-
cias descontroladas de uma missao de envi-
ados especiais, iremos corn seguranqa atris
da verdade.
Nesse caso, a veremos. Talvez nao a en-
tendamos, por6m. Por isso, 6 necessario es-
tar sempre em ronda pelos varios comparti-
mentos do saber e do fazer humans. Baten-
do um papo corn um cientista, indo a um local
de acesso piblico, consultando o documen-
to chato que todos citam e raros 16em, en-
frentando aquele livro indigesto, cheio de
numreros frescos a espera de quem Ihes de
vida. Seguindo o conselho do sibio Gentil
Cardoso, o maior dos fil6sofos a servico da
paixao national, o futebol: 6 indispensavel
pedir e se deslocar. Quem pede tern preferen-
cia, quem se desloca recebe (a bola, no caso).
Ojornalista 6 aquele professional que mais
desenvoltamente pode se deslocar. Um dia
ele esti na entrevista coletiva corn o presi-
dente da Repiblica. No outro, "cobre" tiro-
teio na favela mais barra-pesada da cidade.
Passa dias e meses na sua base operacional.
Subitamente, amanhece na China. Se for umrn
bom professional, jamais se limitard a cumprir
um roteiro turistico. Enquanto o turista rico
pode ir a todos os points cars, ele pode che-
gar a lugares interditados a todos os dinhei-
ros. Bunkers de traficantes, por exemplo. Ou
mansarda onde o famoso rmis6gino se escon-
de. Pode at6 obrigar a que Ihe abram as por-
tas de dependencias proibidas ou ao gabine-
te de poderosos furibundos. Eles mandariam
o importuno para aquele lugar se nio tives-
sem que pensar nas conseqbiincias desse
ato. Esmurram paredes, tomam tranqiiilizan-


tes ou simplesmente vestern a mascara se te-
mem o intruso audacioso. Mas o recebem.
0 que hd a temer? Por que ceder? A cau-
sa 6 uma s6: a opiniao piblica. Se cumpri-
mos decentemente nosso oficio, somos seus
auditors, seus porta-vozes, seus emissIri-
os. Por nosso interm6dio, 6 o povo quem
quer saber. 0 que soubermos, a ele comuni-
caremos. Nio principalmente em palestras
em circuit fechado ou em recepcoes, mas
da forma mais piblica e democraitica possi-
vel: atrav6s do vefculo de comunicadao de
massa, de maior ou menor potential de difu-
sao das informaoqes apuradas. Querenmos
que essas informaqbes estejam acessiveis o
mais rapidamente possivel para que, cada
um sabendo sua hora e sua vez. faqa o que
precisa fazer. Fazer- no tempo certo, corn a
informaqio adequada a hist6ria. Ojorna-
lismo 6 isso: a ante-sala dessa depend&ncia
mais vasta da criaiao humana. S6 por isso
nos temem. S6 por isso nos abrem as portas
mais maciqas. Se nio as abrem, as arromba-
mos. Sabemos que uma porta fechada cos-
tuma esconder a verdade.
E este ojornalismo que tenho feito. Nasci
para faze-lo, acho eu, porque meu pai fez jor-
nalismo, quatro dos meus sete irmitos sao
jornalistas e me tornei jornalista desde quan-
do pude agir com base na razao operative. Fiz
journal de classes, journal de bairro, journal de
clube e, finalmente,jornal professional, a par-
tir dos 16 anos e at6 agora, 40 anos depois. E
fiz jornalismo num lugar que dele mais preci-
sa para fazer sua pr6pria hist6ria: a Amaz6-
nia. Nao a hist6ria queja vem pronta, trazida
de fora (Slo Paulo ou Nova Yoik, Brasilia ou
Pequim) por quern decide o que deve ser a
Amaz6nia dos nossos dias. Uma Amazinia
cada vez mais sem floresta, sem agua, sem
seu primeiro habitante. Uma Amazonia muito
parecida com a que esses bwanas criaram na
Africa e na Asia. Uma Amaz6nia cada vez
menos amaz6nica.
Quando descobri a urdidura do enredo,
me revoltei. Neste livro document o rastro
dessa revolta, as marcas da minha indigna-
qao, as pistas do agressor, seu ponto de fuga,
seu rito da agressio. A verdade 6 sempre sub-
versiva numa regiao aonde a verdade, talvez,
s6 venha a ser recuperada quando se tornar
element de uma arqueologia initil. A verda-
de nao tern que estar na agenda do cidadao.
E esse o desejo dos poderosos, locals e me-
tropolitanos. Contra eles me insurgi. Meu jor-
nalismo 6 o produto dessa insubmissio.
Espero que seja 6til tanto ajornalistas quan-
to a todo leitor que se dispuder a participar
dessa travessia (no sentido biblico mesmo). A
canoa de textos podia ser melhor, mais confor-
tivel e segura. Mas escrevendo este livro em
meio a uma guerra judicial, tentando escapar
ao destiny de Prometeu tropical, isto o 0 queIIC
pude fazer, na urg6ncia e na emerg6ncia de
fazer a verdade. "Isto" 6 apenas isto. E carrega
consigo minha alma, meu coralao e, quem
sabe, o hAlito do meu amor. A material prima
que me mant6m vivo e revoltado. qLue me faz
acreditar no future e trabalhar pela utopia.


Jornal Pes'soal I'QUINZENA NOVEMBRO DE 2005










0 grande anao

Havia uma "pelada" famosa em Santar6m,
aos sdbados, no terreno da familiar Meschede.
Na primeira vez em que lt fui, um jogador foi
logo me impressionando. Enquanto se forma-
vam os times, "Sulanca" fazia "embaixadas" e
outros malabarismos corn a bola, como ne-
nhum outro dos "peladeiros" o conseguia imi-
tar. Pensei: esse tem lugar garantido em qual-
quer time. Ledo engano: na hora do jogo, nin-
gu6m quis saber do "Sulanca". Ele naio ia al6m
das firulas preliminares. Era um p6ssimo joga-
dor na hora do "vamos ver".
Veio-me a cabeqa o "Sulanca" enquanto
via e ouvia o president Lula falar no ultimo
"Roda Viva", o mais important program de
entrevistas da televisio brasileira, que com-
pletou sua milesima ediiao na TV Cultura de
Sto Paulo. Numa antientrevista de antipresi-
dente, num anticendrio e seguindo um antimr-
todo de produqcdo da verdade, Lula era a per-
sonificacqo do histrionismo futebolistico do
"Sulanca", cuja maestria consistia tio-somen-
te em criar efeitos para encher os olhos da
plateia antes das coisas a sdrio.
Todas as qualidades inegiveis e mdritos in-
contestiveis de Lula tamb6m s6 tiveram valida-
de antes do ato propriamente dito. Elas servi-
ram esplendidamente para as bravatas do lider
sindical, do dirigente de partido politico e do
oposicionista. Nio hd trajet6ria mais exemplar


na hist6ria political brasileira. Lula foi um mestre
em impressionar pessoas, conquistar simpati-
as, amealhar aliados e chegar ao alvo tao lon-
ginquamente estabelecido, persistindo mesmo
depois de tantas derrotas, a primeira das quais,
para Collor, desnortearia alguem menos tenaz.
Mas Lula nao sabia, nio sabe e jamais
saberd o que fazer com o maior cargo piblico
do pais, que as urnas de 2002 tao generosa-
mente lhe conferiram. Ele faz manobras espe-
taculosas, mas nao tem a menor apetencia
pelo aprendizado, pelo trabalho sistemdtico,
pela organizaqao e operacionalizaqgo dos que
estdo sujeitos ao seu mando. E um lider nato,
mas sua lideranqa 6 perfunct6ria, improduti-
va, estdril. Atd hoje, nao se investiu no 6nus
da presidencia, apenas usufruiu suas benes-
ses. 0 dedo do gigante 6 do tamanho de uma
cabeqa de alfinete. Nao 6 assim por desvio de
carter: 6 por pura e absolute incapacidade
para o exercicio dessas atribuiqoes. Lula 6
um brilhante abre-alas. Mas nao se liga ao
resto da escola. E inevitivel que o samba atra-
vesse na avenida.
A primeira e indispensdvel qualidade de umrn
chefe 6 responder pelos chefiados. Por te-los
escolhido, por eles responded, mesmo quando
nao da causa a seus atos, em especial os desvi-
ados ou discrepantes de suas obrigacqes. Lula
comeqou a entrevista ao "Roda Viva" tendo em
conta esse principio elementary da chefia. A res-
ponsabilidade plena que assumiu, no entanto,
se manteve por apenas alguns minutes. Logo


ele estava falando dos atos e fatos da atual
crise como se nao Ihe dissessem respeito, como
se sequer fosse o chefe mdximo da naqdo (o
cac6fato 6 intencional). Como se nio tivesse
nunca said da geral, de onde pode ofender o
juiz sem se dar conta de que 6 ele pr6prio quern
estd do outro lado do imenso fosso que separa
o poder da sociedade no Brasil.
A grandeza que Lula exibia quando era
oposiqdo se dissipou por complete no exer-
cicio da presidencia. Sua autoridade moral
evaporou como perfume vagabundo, que.
final, se revelou no moment em que os tru-
ques, por melhores que sejam, sao desnuda-
dos como nada mais do que truques. Essa
miniaturizacio contrast corn o megal6mano
jufzo que Luiz Indcio Lula da Silva faz de si e
do exercicio de seu mandate. 0 guia dos po-
vos e o luzeiro da humanidade sao um produ-
to das circunstflncias. Mas ele naio se mos-
trou at6 hoje a altura do moment. Acha que
foi ele quem fez a hora.
Impermeivel A realidade e vivendo das his-
t6rias fantasiosas que cria, frequentemente
como habeas corpus em causa pr6pria, que re-
quer como parte e defere como juiz. espera-se
que ele vi ate o fim do seu mandate e nio co-
meta o erro abissal de seu odiado e tio fanta-
sista antecessor, levando consigo as ficqces
que exibiu nesta ultima segunda-feira. Segura-
mente, Sao Bernardo do Caiipo nio sera uma
nova Colombey-les-deux-Eglises. Nio hd esta-
dista para engrandecer esse retire.


CA RTA


PREMIO
Receba os meus cumprimentos pela con-
quista de mais um reconhecimento inter-
nacional a sua competdncia professional.
DesembargadorMilton
Augusto de Brito Nobre
President do Tribunal de
Justiga do Estado do Pard

Em meio a tanta noticia indesejada, me
deparei, um tanto tardiamente, com a no-
ticia de que voc6 foi selecionado para
receber o Premio Internacional da Liber-
dade de Imprensa. Fico ultra-satisfeita e
orgulhosa e acho que poucos merecemr
tanto esta premiagao em terms de vi-
venciarem o que voce tem vivenciado
na luta real de seus jornais.Vi a relevan-
cia do premio em context global, o que
engrandece ainda mais a sua conquista.
E interessante o contrast de escalas, o
que parece grande e poderoso e o que
parece pequeno e indefeso em um mi-
crocosmos podem ter reconhecimento em
terms opostos em uma dimensAo mai-
or. Tenha uma excelente cerimrnia de
recebimento do premio.
Tatiana Deane de Abreu SE
Brasilia

O JP n' 354, em Memorias do cotidia-
no, trouxe lembrangas saborosas da
minha infancia. Quando ficava doente,
pedia para a minha mae comprar Coca-
Cola, mas a Dona Maria sempre oferecia
o paraense Guarasuco, fazendo propagan-
das de que era o refrigeratee da familiar".
Essa cena infantil deixou-me alegre em
meio a saudades. Dona Maria, bengao de
Deus, recentemente, foi morar no c6u.
Bengao de bondade, de amor ao pr6ximo,
de esperanga no mundo melhor.
Quero te parabenizar pelo pr6mio inter-
nacional de Liberdade de Imprensa, anun-
ciado no dia 17 de outubro em Nova York.
Soube da noticia pelo Jornal da Cidncia, n"
563, publicagao da Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciencia. 0 principio da li-
berdade de imprensa e uma pega inegoci-
avel numa sociedade democratic.
Celia Trindade Amorim
Sao Paulo


COIMBRA
Sabendo do seu trabalho de jornalista na
denuncia da corrupgpo, da viol6ncia e do
crime contra o ambiente e os direitos hu-
manos na AmazBnia, quero expressar-lhe
o meu incentive e solidariedade, bem como
Ihe transmitir os meus sinceros parab6ns
pelo prdmio que acabou de receber do
Comith para a Protegco dos Jornalistas.
Os democrats do mundo inteiro reconhe-
cem a importAncia decisive do seu ativis-
mo e respeitam a sua imensa coragem
para enfrentar os poderosos sem escrui-
pulos. E' a forca das palavras e o poder
das convicgbes que melhor podem com-
bater as injustigas e tiranias. Quando es-
sas convicq6es se ap6iam em principios
humanistas, de liberdade e justiga social,
como os seus, tornam-se muito podero-
sas e 6 por isso que os viloes recorrem a
violencia para o aterrorizar, revelando corn
isso a sua falta de carter e no fundo a
sua falha como series humans. 0 seu
exemplo e6, pois, admiravel. Todos Ihe
devemos solidariedade e todos devemos
apoiar a sua luta.
Elisio Estanque
Socidlogo, Professor da Universidade
de Coimbra Portugal

Faco questao de Ihe dar os parabens
pela premiagco concedida pelo Comi-
te da Liberdade de Imprensa. Fico orgulho-
sa de ver um jornalista paraense alcangar
notoriedade e ter seu trabalho reconhecido.
Estou torcendo para que voc6 consiga,
se nao ir a premiagao, ao menos poder
fazer, em breve, uma viagem de estudos
ao exterior.
Ana MBrcia Souza

ENQUETE
Como ficar sem as informagoes que so
voc6 fornece? Como ficar sem as anali-
ses que so voce faz? Como me privar da
estatura moral do jornalista que voc6 ins-
pira? Por isso tudo e por muito mais,
vida long ao Jornal Pessoal (e queira
Deus, ao seu editor, protegendo-o da ar-
rogancia e da prepotencia de uns, em
contrapartida ao silencio mesquinho e/ou
covarde de outros).


Em tempo: 1) um grupo de comunica-
gao nao da uma linha sequer sobre a mi-
careta promovida pelo outro. A quem isso
interessa? Ao Para tenho certeza que nao.
2) 0 editorial de quinta-feira passada,
27/10/05, de 0 Liberal, retrata o supra-
sumo da cara de pau: sera que o conv6-
nio TV Liberal/Funtelpa atende aos inte-
resses publicos aos quais o citado editori-
al se refere?
Roberto Machado Junior

Na terra onde o pois sim e o pois nao
significam a mesma coisa; quando
voce 6 obrigado a dizer sim querendo o
nao, e nao, mesmo optando pelo sim, se
faz mister uma nota explicativa: e meu
sim de format positive, sem nuances
(fago gosto pelo galicismo), o JP nso deve
e nao pode (os naos fartos de literalismo)
parar.
Ha que passar!
Sebastijo Barros Sobrinho

OJornal Pessoal tern que continuar.
Porque nao faz parte da tirania do
dinheiro, nem da tirania da informagco,
Milton Santos (1998); tambem nso faz da
noticia um espetaculo, e nem pratica o
jornalismo canalha, Jose Arbex Jr.(2001).
O Jonal Pessoal al6m de informar, anali-
sar, reanalisar, debater bilateralmente, ser-
ve como referencia bibliogrAfica para o
mundo acaddmico nas diversas ciencias,
como: a Geografia; a Hist6ria; a Filosofia,
enfim, a todas as cibncias humans.
Leio o Jornal Pessoal desde 2002.
Nesse patamar nao existe outro nesta parte
da Amazonia. As elites nao vao te derru-
bar. Esse periodo do tempo e muito con-
fuso e confusamente percebido; no en-
tanto, nso esquegamos da microfisica e
da multidimensionalidade do poder.
Luciano Rocha da Penha

proposito da materia contida no JP n'
A 354, sobre o desenvolvimento da mi-
neragao no sudeste deste Estado, repor-
tando-se enfaticamente em cima da mi-
neradora mor do Brasil, o Diario do Para,
edigao de 26.08.05, estampou uma pagi-
na inteira com a figure, devidamente ca-


racterizada, de um alegre empregado -
imitando o Cristo do Corcovado anunci-
ando aos botocudos aqui do Para a sua
mais nova parceria com o grupo alemao
Thyssenkrupp Steel, para a construgao
da Companhia Siderurgica do Atlbntico -
CSA, em Sepetiba, municipio do Rio de
Janeiro. Os numerous do empreendimen-
to, de "grandezas impressionantes", recu-
so-me ate a enumera-los. Confesso que
nao entendi qual a intengAo da Vale com
a publicaggo daquela pega publicitaria na
imprensa local. Espero que nao esteja
querendo nos advertir, detinitivamente,
de nao passarmos de meros fornecedo-
res de materia prima e energia subsfatu-
rada. Qual a repercussao de fato tao im-
portante na grande imprensa, nos meios
politicos e empresariais, nas antes com-
bativas e hoje combalidas elites e lide-
rangas acad6micas e na sociedade em
si? E voce?
Rodolfo Lisboa Cerveira

MINHA RESPOSTA
Eu continue na minha prisao domiciliarnao
declarada. Mas ja escrevi e falei tanto
sobre a Companhia Vale do Rio Doce que
me permit esperarpela reagao dos outros
ditos stores socials. Mas agora que a CVRD
esti corn intensa programagao publicitaria
e de relagoes publicas, as reagdes sao
apenas dentro de gabinetes e ndo de pu-
blico. A intengao e essa mesma a qual o
leitor se referee como hipotese.
0 projeto da CSA, de 2,5 bilhoes de
ddlares, e do tamanho de duas usinas si-
derurgicas que estao previstas para Sao
Luis do Maranhao, de US$ 2,5 bilhdes
cada. Numa, a Vale anima dois parceiros:
a Baosteel e a Arcelor. Na outra, junta-se
a coreana Posco. A primeira foi congelada
no ultimo dia 7, por conta do excess de
oferta no mercado de ago. Ha outra usina
em andamento noporto de Pecem, no Ce-
ara, bem menor (de US$ 750 milhoes). Ea
maior fabric de alumina do mundo, em
Barcarena, com a chinesa Chalco. Apesar
da chamada Medida Provisoria do Bem, a
CVRD ainda quer mais renuncia fiscal do
governor para poder considerar viavel es-
ses empreendimentos. Dai os recados.


R NOVEMBRO DE 2005 I QUINZENA Jo0rnall PIcsI sol









As ligoes que ficam da soltura dos Maluf


Uma simula do STF estabeleceu que
o tribunal nio aprecia recurso contra de-
cisao de instancia superior que negou
media liminar. Essa sdmula vinha sendo
integralmente acatada at6 o mrs passa-
do, quando foi colocada de lado para a
libertaqco do ex-governador e ex-prefei-
to de Sio Paulo, Paulo Salim Maluf, e de
seu filho, Flivio. 0 Superior Tribunal de
Justiqa, instancia inferior ao Supremo
Tribunal Federal, negara "habeas corpus"
impetrado pelo defensor dos Maluf.
Como, entdo, o STF concedeu-o?
0 relator do pedido, ministry Carlos
Velloso, apresentou algumas raz6es t6c-
nicas para o deferimento da media, ar-
giiidas pela defesa dos Maluf. 0 doleiro
Vivaldo Alves, mais conhecido como Bi-
rigui, que denunciou o ex-prefeito como
sendo o dono dos 161 milhoes de d6lares
depositados na conta Chanani, do Safra
National Bank (dos irmdos Safra, mezzo
a mezzo brasileiros e americanos), em
Nova York, embora seja co-r6u no mes-
mo process, estava sendo tratado como
se fora testemunha e, por isso, depu-
nha em liberdade. Por que nao o mesmo
tratamento aos Maluf?
Pai e filho, depois de permanecerem
press por 41 dias na Policia Federal, ja
nao podiam mais estar constrangendo tes-
temunhas, impedindo a boa apuraqao dos
fatos, conforme foram acusados. Al6m
disso, a s6mula, que 6 um orientador de
decisoes, podia ser deixada de lado por
se tratar de prisdo cautelar e nao defini-
tiva, o que mais reforgaria o cerceamen-
to A liberdade de locomoqco dos r6us,
assegurada pela Constituiqgo.
Esses arguments merecem uma dis-
cussdo t6cnica, ainda mais porque, corn
habilidade (proporcional, evidentemente,
aos seus honordrios), o advogado dos



Pais inviavel

Com as ultimas reduqoes determi-
nadas pelo Copom (o Comit6 de Polf-
tica Economica) do Banco Central, os
juros no Brasil baixaram para 19% ao
ano. Ainda sio os maiores do mundo.
Em segundo lugar estA a Turquia, corn
15,6% ao ano. Vem atris: a Rdssia
(13%), a Indon6sia (12,7%) e a Vene-
zuela (11,5%). Nio estamos bem na
foto, mas ji nao tdo ruim, como diz o
governor.
Nao exatamente. Como nossa infla-
cio 6 de 5%, os juros reais batem em
14%. A inflacao na Turquia 6 de 8%;
logo, os juros reais baixam para 7,6%.


Maluf requereu primeiramente a soltura
de F1ivio, estendendo posteriormente o
beneficio ao pai. A dinica prova material
de constrangimento dos acusados em
cima das testemunhas era uma ligagio
telefonica que FlIvio manteve com Biri-
gui, monitorada pela PF com autorizagao
judicial. Ora, se Birigui, co-r6u no pro-
cesso, permaneceu em liberdade, por que
Flivio dela seria privado?
Ha material para uma boa esgrima
juridica, mas ela se tornou secundalria por
dois acontecimentos laterals i decision e
ao conteddo dos autos. 0 ministro-rela-
tor disse que influiu no seu animo imagi-
nar "o sofrimento de um pai preso na
mesma cela que um filho". A cena tocou
nas cordas sensiveis do coragAo do jul-
gador. Embora pai e filho estivessem res-
pondendo por crimes pesados: contra o
sistema financeiro (evasao fiscal), lava-
gem de dinheiro, corrupqgo e formacgo
de quadrilha (crimes que a PF calcula
terem alcance total de quase meio bilhao
de d6lares). Se os autores fossem outros,
um Z6 da Silva ou um Z6 Man6 qual-
quer, o impact seria o mesmo sobre a
sensibilidade dojuiz?
Na mesma 6poca, depondo na CPI
dos Correios, na mesma Brasilia, o dolei-
ro Alberto Youssef admitiu ter remetido
aproximadamente 1,5 milhao de d6lares
para contas de Paulo Maluf. Entre 1996
e 2000, Youssef comandou um esquema
de remessa illegal de dinheiro para o ex-
terior, usando como biombo o Banesta-
do, do Parand (a custa de muita propi-
na). Mandou US$ 2,5 bilhoes para a
famosa conta Beacon Hill e outras me-
nos conhecidas, em Nova York.
Ele calcula que entire 1996 e 2002 o
total de sangria em moeda forte do Bra-
sil para paraisos fiscais, que ocultam con-


E praticamente a metade do custo efe-
tivo do dinheiro no Brasil. Na Russia,
esse custo 6 de 0,6% ao ano; na Indo-
n6sia, 3,6%. Na Venezuela (com 15,9%
de inflaqdo), os juros sdo negatives.
Juros altos mais inflaqdo baixa e in-
dice de desenvolvimento insuficiente
constituem uma equaqgo confiavel?
Superficialmente o pais pode estar bem
(e estd), mas dificilmente ird muito lon-
ge com essa combinaqdo desaconse-
lhdvel, indigesta. Acumula saldos e tern
uma reserve razoavel em moeda es-
trangeira apenas para pagar juros, cri-
ando uma divida em cascata que esti


tas secrets como as dos Maluf, alcan-
qou a soma de US$ 200 bilhoes de
impressionar em qualquer part do mun-
do. Nao espanta que o Brasil tenha subi-
do tres posiq6es de 2004 para este ano
- entire os pauses mais corruptos do mun-
do, passando ao 620 lugar do total de 159
nacqes pesquisadas pela Transpar6ncia
International, entidade civil sediada em
Berlim, na Alemanha, que control a cor-
rupqdo no mundo. 0 Chile, primeiro do
continent em honestidade, ocupou a 21a
posiqao, com a nota 7,3. A do Brasil 6
exatamente inversa: 3,7. Ado Haiti, para
onde tropas brasileiras foram deslocadas
pela ONU, 6 a metade: 1,8. Meio vexa-
minoso para o nosso pais neste aspect.
Outra cena que impressionou a opi-
niao pdblica na decisao do STF foi o aper-
to de mios e o abraqo entire o relator da
concessao de liberdade, ministry Carlos
Velloso, e o advogado que a conseguiu, o
conceituado Jos6 Roberto Batochio.
Nada a estranhar na cordialidade entire
magistrado e advogado, duas parties es-
senciais do processojudicial. Mas o cum-
primento foi mais do que cordial: foi efu-
sivo, intimo, exagerado.
O STF, por maioria de 5 a 3, pode ter
decidido certo e com fundamento legal
pleno ao mandar soltar os Maluf, que ain-
da podem vir a ser novamente press, no
final do process, se final houver. Mas o
povo das ruas pode ser novamente lem-
brado que a espada dajustica s6 desaba
mesmo sobre os tres P: pobres, pretos e
prostitutes. A frase, velha e grosseira, nao
6 totalmente verdadeira. Nem totalmen-
te inveridica. A meia-verdade 6 a arma
dos bons advogados e a porta de salva-
qgo dos bandidos de alto coturno, que
podem pagA-los. E esta 6 uma verdade
incontestivel.


engolindo toda a energia do pais. Em
dezembro de 1994, o ultimo mes antes
do governor FHC, a dfivida liquid da
Uniao internala e external) era de R$
88 bilhoes. Em dezembro de 2002 es-
tava em R$ 1,1 trilhao. Em setembro
deste ano, com 46 meses de governor
Lula, bateu em R$ 1,4 trilhalo, ou 75%
do PIB brasileiro. Ou seja: para se li-
vrar desse d6bito, o pafs teria que fi-
car reduzido a 25% do que 6 atual-
mente. Literalmente depenado.
Como diria o co-autor desse mons-
trengo, que o successor continuou a mo-
delar: assim nao pode, assim nao di.


Jornal Pessoal I-QUINZENA NOVEMBRO DE 2005 A









MEMORIAL DO COTIDIANO
4.** ; pf 1 4.


Proibieao
Nota official do Departamen-
to de Seguranqa Piblica do Es-
tado de 24 de novembro de 1945:
"0 dr. chefe de Policia toma
pdblico, para conhecimento dos
interessados, que nao sera ab-
solutamente permitida a realiza-
qio de comicios politicos parti-
ddrios, no interior dos estabele-
cimentos fabris desta capital".

Testamento
Naquela 6poca os jornais
escreviam sem meias palavras:
rico era capitalist. A expressed
era de louvor. Por isso, quando
Francisco Chami6 morreu, em
fevereiro de 1954, o obitudrio
registrou o desaparecimento de
um dos maiores capitalistas do
Pard. 0 cortejo fiinebre, at6 o
cemiterio de Santa Isabel, "foi
um dos maiores que jd se reali-
zaram em nossa capital", teste-
munhou a Folha do Norte.
0 testamento de Francisco
Chami6, depositado em nome
de sua firma, a Companhia In-
dustrial do Brasil, tornou-se o
grande assunto logo em segui-
da ao seu sepultamento. Era de
quatro anos antes, lavrado no
tabelido Edgar Chermont. Nas-
cido em Tiro, no Libano, Cha-
mie naturalizou-se brasileiro.
Casou, em regime de separa-
9ao de bens, com Lfgia de Ara-
6jo Chamid. Nao tendo filhos
naturals, adotou como filhos os
sobrinhos Cl6a Thom6 Cha-
mi6, Regina Xerfan Chamie, e
Celma OlimpiaAradjo Queiroz.
Reconheceu como filho Alber-
to Queiroz, "que teve corn
dona Ercilia Costa, muito an-
tes do seu casamento". A eles
deixou metade de sua fortune.
A distribuiqao da outra me-
tade foi feita assim: 10% para
a Santa Casa de Miseric6rdia;
10% para a Beneficente Por-
tuguesa; 10% para seu irmio,
Thomaz Chami6 (que tambem
jd morrera); 10% para Wady
Chami6; 10% para Elias Cha-
mie (igualmente falecido) e
10% para ser distribuido entire
todos os empregados e auxili-
ares da CIB, "devendo ser dis-


tribuido na proporcgo dos sa-
larios que percebam A 6poca
do falecimento".
Foram designadas testa-
menteiras Ligia Aradjo Cha-
mie, Loris Olfmpio de Aradjo
e Wady Thom6 Chamie.
Um testamento generoso.

Academia
Em marqo de 1955 a Aca-
demia Conde Koma comecou
a funcionar na sede ndutica do
Clube do Remo, na rua Siquei-
ra Mendes (Cidade Velha),
"sob a orientacgo dos t6cni-
cos nip6nicos Y. Yamada e dr.
Kamiya amboss faixa preta)"
e tendo A frente Artur Salga-
do, director do clube. A instala-
qgo da academia contou ain-
da corn a "preciosa colabora-
qgo" de Antonio Carlos Sa-
b6ia, Tmoaz de Aquino Loba-
to e Manoel Rodrigues. 0 pre-


sidente do Remo era Jorge
Age. A academia fez epoca.

Campanha
Em setembro de 1961 o
Partido Social Democrdtico
convidava "os seus correligi-
onarios e o povo em geral"
para o comicio de encerra-
mento "da campanha vitorio-
sa" de Moura Carvalho e Isa-
ac Soares, candidates a pre-
feito e vice-prefeito de Bel6m.
Seria is nove horas da noite,
as proximidades da avenida
Pedro Miranda, na Pedreira.
As concentrates dos bairros
partiriam das praqas Brasil e
Floriano Peixoto, em "monu-
mental march aux flam-
beau".
Cuman? Deve ter matuta-
do o eleitor. Corn flambeau ou
sem flambeau, os dois se ele-
geram.


PROPAGANDA

Que

calhambeque!

Quem ndo gostaria de
levar esse calhambeque
para sua garage? Em
novembro de 1967,
quando o andncio foi
publicado (e Roberto
Carlos estourava comn
seu calhambeque
musical), esse era o
padrdo de mulher, a
"boazuda", como se
dizia. Barreto Janior
fazia suas altimas
incurs5es, corn direito a
Teatro da Paz e
permissdo para o uso do
traje esportivo.


S10 NOVEMBRO DE 2005 / QUINZENA Jornill Pesso.ll


HOJE TEATRO DA PAZ HOJE


AS 20,30 HORAS ANTIGAS



SBarreto Junior

APRESENTA 0 ESPETACULO MAIS ALE-

GRE DO TEATRO BRASILEIRO;




A Viuva



Calhambeque

EM 0 REI DOS MARIDOS)

l Impr6prio Ale 18 Anos)

. R E PERMITIDO TRAJE ESPORTIVO.

L... ^ LOCALIDADES A VEIDA: CASA FRANCO,







Direito
O professor Cordovil Pinto
chegou para dar sua aula da-
quele dia 21 de outubro de
1961 na Faculdade de Direi-
to da Universidade. Mal en-
trou na sala foi vaiado, "como
acontece geralmente", ates-
tou a Folha Vespertina, em
sua ediqio vespertina. 0 pro-
fessor se levantou da cadei-
ra "e depois de pedir silencio,
disse aos alunos que ou Ihe
respeitavam como professor
que era daquele estabeleci-
mento, ou o respeitavam
como home. Ato continue,
tirou de sob o palet6 um pu-
nhal de regular tamanho, que
espetou na mesa, continuan-
do, assim, a aula".
0 protest dos alunos
atraiu o director da Faculdade,
Aloysio Chaves futureo go-
vernador do Pard) e o secre-
tirio Frederico Fortuna, que
"normalizaram a situacgo, le-
vando consigo o punhal, que
posteriormente Ihe [ao pro-
fessor] foi entregue na sala
da diretoria".


Grupo
Elanir Gomes, por tras do
pseudonimo de Jeannette
Blanche, anunciou na sua pi-
gina dominical em A Provin-
cia do Parac de novembro de
1967, que surgiu um novo gru-
po cultural em Bel6m, dispos-
to a "cantar a Amazonia em
terms de arte e cultural, sem
que isso represent falta de
liberdade para se abordar ou-


tros". Seus integrantes, pela
ordem original de indicaqdo
da colunista (atualmente no
Amazonia Hoje, depois de
passar pelo Didrio do Para):
o sacal Avelino Vanetta do
Vale e Maria Licia Martins
(a Lulucha), alunos do Cold-
gio Paes de Carvalho; Luis
Dillon Figueiredo (3a s6rie ci-
entifica do Coldgio Moderno);
Roberto Guedes (3" sdrie de
Ciencias Humanas no
CEPC); L6cio Flivio Pinto
(tamb6m do 30 cldssico do
CEPC); Simao Robson Jate-
ne (3a cientifica do CEPC).
E mais Maria Ida Bernardes
Normando e Raimundo Cor-
deiro "e outros", que Lana (o
pseud6nimo seguinte de Ela-
nir) ndo cita. 0 atual gover-
nador era violonista, cantor e
compositor. Formou dupla
com sua future esposa, Elia-
na, tamb6m cantora.


Teatro
Em homenagem ao Dia do
Padre Diretor de 1961, que
caiu em 29 de outubro, o Tea-
tro Infantil Salesiano encenou
a peca "Os Brinquedos Sabi-
dos", dirigida por Paulo Amal-
do Altmann (cujas belas irmds,
S6nia e Altmann, eram atrizes
de teatro e de televised). No
elenco estavam o pr6prio Pau-
lo (hoje em Sdo Paulo, junta-
mente com Aita, enquanto
S6nia mora nos Estados Uni-
dos), Adelmar Moreira, Salim
Tuma, Alberto Martins, Geral-
do Pinheiro, Raimundo Braga
e Luiz Reginaldo Nobre.


Miss

Notas "Em Poucas Linhas" da
coluna "Rep6rter 70", de 0 Li-
beral de 13 de agosto de 1974,
escrita por Romulo Maiorana:
Como o Rep6rter 6 sempre
bem informado, aqui vdo deta-
Ihes de um badalado aconteci-
mento, ocorrido em uma das
boites da cidade, na madruga-
da de ontem. Trata-se da festa
das "bonecas", durante a qual
foi eleita, com muita cate, a es-
perada "Miss Universo". *****
Ojiri estavaconstituido pordois
casais de nossa sociedade, dois
jomalistas, um teatr6logo, uma
industrial e uma atriz. Todos,
naturalmente, muito compene-
trados de seu papel, escolhen-
do a "boneca" que merecia o
cetro e a coroa de "Miss Uni-
verso". ***** As candidatess"
somavam vinte e duas, maqui-
ladas e bem penteadas. Desfi-
laram inicialmente em traje tipi-
co e, em seguida, com longos
chiqudrrimos. ***** Ojjri, na-
turalmente, ia ter muito traba-
Iho em escolher a "soberana",
mesmo porque torcidas organi-
zadas se exibiam em favor "des-
ta" ou "daquela". ***** Quan-
do foram escolhidas as 10 "fi-
nalistas", ouviram-se gritinhos e
algumas das.que nio lograram
classificaao, foram acometidas
de singulares faniquitos. Um
m6dico, present ao aconteci-
mento, chegou a ser chamado
a um dos camarins, porque uma
derrotada estava em pranto in-
consolivel e ameaqando tomar
veneno. ***** Feita a escolha
final, a representante de Cura-


qao mereceu a votayao maior.
Ojtiri achou que era a que ti-
nha o rosto mais bonito. :'::':*:::
Mas o apresentador declarou
que ocorrera uma irregulari-
dade e seria feita nova vota-
qio. Murmurava-se, nos bas-
tidores, que a comissao orga-
nizadora s6 daria a coroa a
"Miss Gr6cia". ***** E foi o
que aconteceu, corn alguns pro-
testos dos jurados. "Miss Grd-
cia", que obtivera o quinto lu-
gar, passou imediatamente ao
primeiro. Novos gritinhos parti-
dos das "acompanhantes" das
candidatess". **** "Miss Cu-
raqao" ficou em segundo lugar
e, enquanto os jurados se reti-
ravam apressadamente, porque
a decision ndo foi bem acolhida
pelo pelo piblico, "Miss Gr6cia",
muito empolgada, recebia o ce-
tro e a coroa. ***** Isto acon-
teceu em Bel6m, perante qua-
se cento e cinqiienta pessoas.
Evoluqao ou regressao?".


FOTOGRAFIA

Paisagem

perdida
Em pleno Boulevard
Castilhos Fran(Ca, em
1955, o Posto Atlantic
ainda era chic, tendo ao
fund casaroes, hoje
desabados. Como o
pr6prio posto acabaria
sendo, para desobstruir o
trdifego pela avenida,
toniada pelos carros, e
"limpar" a paisagem.


Journal Pessoal I"QUINZENA NOVEMBRO DE 2005









ECLUSAS
Pela segunda vez o deputado
federal Jader Barbalho assume
a lideranqa na defesa das eclu-
sas de Tucurui. Na primeira vez
a iniciativa nio provocou qual-
quer resultado concrete. Agora,
o ex-ministro incorpora integral-
mente o orqamento montado
pela Construtora Camargo Cor-
rea para a conclusdo do servi-
Co. Esse valor, de 600 milhies
de reais, tem sido considerado
excessive pelos que tiveram
acesso aos calculos. E foi um
dos fatores para mais um em-
perramento no cronograma da
obra. Dificilmente ela ird em
frente com um apadrinhamento
tio caro. Mas se o governor Lula
tender o deputado do PMDB,
isto poderd indicar que nao pre-
tende ter cabega de chapa para
o governor do Estado. Estari dis-
posto a pagar um alto prego, li-
teralmente, por essa decisdo.

O Ovo
Estd provado: o FAT (Fundo de
Amparo ao Trabalhador), um
dep6sito avantajado de dinhei-
ro que sai do bolso do cidadao
comum e raramente 6 usado
em seu beneficio, 6 o verda-
deiro ovo da serpente. Ja ser-
via para enriquecer ainda mais
empresarios. De uns anos para
ci passou tamb6m a servir
para companheiro pular o bal-
cio e se "arranjar".
0 an6nimo professor de ma-
temttica Del6bio Soares pulou da
tesouraria da CUT (Central Uni-
ca dos Trabalhadores) par a pre-
sidencia do FAT, em 1989. Apar-
tir de entdo, seu manejo dos ndi-
meros se tomou tao surpreenden-
te quanto a maestria de um mi-
gico com sua cartola.
E a "nova classes batizada
ha mais de meio s6culo por Mi-
lovan Djilas, quando a esquer-
da se tornou poder pela primei-
ra vez no mundo, a partir da
Uniio Sovi6tica. 0 confeito
mudou, mas a essencia e a
mesma. 0 bolo 6 podre.


Journal Pessoal
Editor: Lucio Flbvio Pinto
Ediqao de Arle. L A ao Fara Pinio
Proauc ao: Angci.n P.nlc,
Conlalo:
T, BaaT'Ir, C'rst'al 8452i366 053-040
Fones:i061i33241-7G6
c-rTlnA*I r hl admazon CorTI br


Uma cidade oca


Parte considerdvel da Bel6m antiga esta
se tornando uma cidade oca. Muitas casas
ja nao sdo mais do que fachadas. Outras
ternm a parede frontal, geralmente de mais
de s6culo, como protecgo para um interior
completamente mudado e estilisticamen-
te desfigurado. Um dia as paredes da fren-
te cairao e a populaqco se dard conta de
que perdeu anos de hist6ria, valiosos teste-
munhos da mem6ria coletiva.
Ja 6 uma tradiqgo em Bel6m que seus
moradores extraiam o enchimento de suas
casas antigas. Como cupins, tiram o te-
ihado, remove as paredes internal e dei-
xam que a deterioraqgo, de mdos dadas
com a lei da gravidade, derrube tudo. Ago-
ra, com alguma vigilAncia institutional ou
pessoal, constr6i-se uma nova estrutura por
detris da estrutura original. Quando mui-
to, a parte mais antiga ficari como deco-
ra~go e prestaqgo de contas a cobranqa
de preservaqgo arquitet6nica da cidade.
Mas como decoracgo.
Quem anda pela Europa fica agrada-
velmente surpreso com a manutenqdo da
fisionomia de cidades antigas, que se tor-
naram metr6poles agitadas sem destruir
suas origens, como Londres, Paris e mui-
tas outras. Para mim, o exemplo mais im-
pressionante 6 o de Ferrara, na ItAlia: seus
habitantes moram em tr8s cidades integras.
Uma 6 medieval, a outra 6 a primeira cida-
de renascentista do mundo e a terceira 6
uma cidade plenamente modern. Todas
funcionam e em harmonia entire si.
Agora mesmo os alemdes, com a co-
laboraqgo dos ingleses, acabam de restau-
rar por inteiro a barroca Igreja de Nossa
Senhora de Dresden, durante meio s6culo
simbolo da selvageria destruidora da Se-
gunda Guerra Mundial. A igreja foi pulve-
rizada pelo bombardeio dos Aliados, come
dezenas de milhares de construqbes na
Europa, um continent rico em hist6ria ma-
terial e em carnificinas bdrbaras. Agora,
esta tal como era antes de desaparecer.
Claro: perdeu sua originalidade. Mas a r6-


plica parece perfeita, a julgar pelas foto-
grafias. Muitas replicas perfeitas podern
ser encontradas numa rdpida viagem de
turismo pela Europa.
Ja aqui, onde hi uma permanent guer-
ra nao declarada ao passado (e, por con-
seqiiencia, uma total inapetencia para o fu-
turo), os registros ffsicos de nossa rica his-
t6ria some, lentamente ou de sUibito. Aqui
nestejornal lamentei que o grupo educaci-
onal Ideal, renegando sua pr6pria razao
mais profunda de ser, houvesse destruido
um precioso jardim (quase um mini-bos-
que) em um antigo im6vel ao lado da sede,
na rua dos Mundurucus.
No lugar das drvores acolhedoras sur-
giu um estacionamento arido. 0 trabalho foi
completado com a demoliqco da fachada
da velha construqio.Para substituf-la, foi
construida uma horrorosa estrutura desti-
nada is atividades de ensino da empresa.
Que ela nao venha falar em responsabili-
dade social. Nada indica que a possua.
Um pass mais firme no caminho da
descaracterizaqgo da cidade, pela via da
criacqo, esti sendo dado pelo crescimen-
to vertical. Os pr6dios ji bateram na cu-
meeira de 40 andares. Sao virios em ple-
no andamento. Considere-se que esses
conjuntos habitacionais verticais nio en-
frentem problems de administraqao,
embora seja outro costume dos habitan-
tes da cidade descumprir os compromis-
sos condominiais.
Essas paredes de concrete vao provo-
car ilhas de calor. FicarB insuportivel viver
dentro delas. Bel6m esta se tornando um
arquip6lago de depresses humans entire
cumes de prosperidade, especulaqdo e co-
bica. -Para essa distorqdo contribui decisi-
vamente o legislative municipal, de onde
partem projetos com destinatirios certos
(alguns vereadores nem mais maquilam
suas iniciativas com a capa do interesse
coletivo) e beneficiarios mal disfarqados, e
a omissdo de todos.
Delenda Bel6m.


LEITURA
Enquanto esperava a entrevista de Lula, vi na TV Cultura um
program no qual as pessd'as falavam sobre os livros que gostari-
am de ler, term em suas casps, mas ainda nao leram. Uma moqa
explicou que ainda nao letr Grande Sertdo: Veredas porque pri-
meiro ia se preparar para entend6-lo. Esperava digerir virias in-
troduqoes e explicacqes e s6 entdo entrar no romance de Guima-
rdes Rosa. Quantos repetem o mesmo erro? Sabem tudo sobre o
autor, mas nao leram sua obra. Ao inv6s de ir a fonte, percorrem
infinddveis riachos. Um desvio cultural pr6prio da nossa 6poca.
As pessoas renunciam a descoberta de novo em troca da tibua
das leis. A marca pessoal desaparece.


INVERSAO
Se Almir Gabriel nio foi
m6dico como governador,
por sua desatenaio ao se-
tor saide do Estado, Simrio
Jatene nao esta sendo exa-
tamente economist ao
construir os hospitals que
esti patrocinando, como se
fosse m6dico. Um nada
proficiente no diagnostico.
Outro, no calculo.




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