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o al P essoal A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO j/ AGOSTO DE 2005 2 QUINZENA No 351 ANO XVIII R$ 3.00 ELEI(AO 2006 C ^-^~~ ~~~~ k iV~OT r-t.RDA Primeiros candidate s Ninguem sabe o que vaiacontecer amanha na political brasileira. Mesmo assim, os candidates comegam a se postar em seus lugares para a corrida electoral do pr6ximo ano. 0 ex-vice-governador Hildegardo Nunes poderM ser urn deles. Em coligap-o surpreendente. 3 entao deputado federal Jader 3 ^Barbalho jogou uma cartada decisivaem 1982, quando con- correu ao governor do Pard. Se perdesse, ficaria sem manda- to politico pela primeira vez em 16 anos, desde o inicio de sua carreira, como ve- reador de Bel6m. Certamente nao ven- ceria o candidate do regime military, ainda forte no Estado, se nao contasse com o apoio do governadorAlacid Nunes. Para derrotar seu ex-aliado e arquiinimigo, o coronel Jarbas Passarinho, e tamb6m a Oziel Carneiro, o candidate do "sistema", ao qual servira at6 entao, o tenente-co- ronel Alacid ficou atW o final do mandate de governador e empregou intensamen- te a mdquina pdblica estadual contra a miquina federal, colocada a service do PSD (o atual PP). Foi corn o prazer da vinganqa que Alacid deu posse a Jader Barbalho como seu successor, em marqo de 1983. Mas a alianqa nao durou muito. A pretexto de que os alacidistas" iriam votar em Paulo Maluf, na dispute que o ex-governador paulista travaria no Col6gio Eleitoral pela presid&ncia da republica, contra Tancre- do Neves, do PMDB, Jader rompeu corn Alacid. E varreu do governor a influencia do seu ex-aliado. Seus caminhos, que seguiram em pa- ralelas excludentes, voltam agora a se cruzar por vias e travessas. Hildegardo Nunes, filho de Alacid, assinou ficha de filiaqio abonada pelo ex-aliado-depois- inimigo-mortal do pai. As acusaqes m6- tuas de traiqdo ficaram para tris. Como naquele filme famoso de anos atris, o passado condena. Por isso foi ignorado. Jader Barbalho nao tem nomes no PMDB capazes de concorrer para va- ler ao governor do Estado no pr6ximo ano. 0 dele pr6prio, nem pensar. En- quanto os parlamentares mais influen- tes no Congresso disputavam um lugar de destaque nas sess6es das CPIs em vigor, Jader, colocado na lista dos "mais mais" do Diap responsivel pela elabo- raqdo do ranking), sumiu. Como, en- tao, iria reaparecer na principal campa- nha majoritdria local? Como tamb6m nao pode contar corn nenhum peemedebista hist6rico, Jader espera encontrar no ex-vice-governa- dor de Almir e adversirio de Simio Jatene na eleiqdo de 2002 umrn nome sem a macula e a n6doa da corrupqao, que o acompanha por todos os lugares, CONTINUE NA PAG 2 JUSTICE AMAZONIA: DECIDE ACHINA, GRILAGEM AMANHA NO XINGU FPAGINA3 PAGINA5 CONTINUA;AO DACAPA sobretudo naqueles em que se desta- ca. 0 61timo desempenho eleitoral de Hildegardo nao esteve a altura das ex- pectativas que ele mesmo criou, embora todos lhe atribuissem qualidades. Entre elas, por6m, nao po- dia figurar a fidelidade e a coerencia: final, fora com- panheiro obsequioso de Almir Gabriel atW a v6spe- ra da campanha eleitoral, quando passou a critici-lo, corn muitos motivos, 6 ver- dade, mas sem tanta mo- .A ral. Essa lacuna lhe pode ter sido fatal. E agora: o passado nao pode ser revolvido pelos adversarios contra seu dis- curso de limpeza, morali- -. dade, eficiencia e verdade? K' Fatalmente, sim. Mas Ja- . der Barbalho nao dispoe de nenhum nome melhor. E corn esse que ira para mais umrn teste das urnas? Pro- vavelmente aposta que o povo tamb6m jd esqueceu o passado, velho de mais de 20 anos. Em 61timo caso, ainda poderia contar corn o ex- senador Ademir Andrade, do PSB, se ruir o acordo corn o PT, que o mant6m na presidencia da CDP (Companhia das Docas do Para). Mas a quern o grupo liderado por Ja- der Barbalho enfrentard do outro lado? 0 candidate certo do PT at6 a actual tem- porada de dendncias infindiveis de corrup- 9do era o deputado federal Paulo Rocha. Flagrado como um dos beneficidrios dos empr6stimos do publicitirio Marcos Val6rio (primeiro corn R$ 300 mil, depois corn S- R$ 470 mil e, por enquanto, corn R$ 920 mil), Paulo Ro- cha recuou. Pediu licenga da lideranqa do govemo na Ca- mara Federal e saiu do foco televisivo, que antes buscava. Gostaria de subscrever a tris- temente famosa frase do ge- l neral Joao Figueiredo ao firn de seu mandato ("me esque- 1 am"), mas talvez nao consi- ga. Ao menos nao na hora que lhe conviria: agora. Se nao for o ex-todo-po- deroso do PT no Pari, quern S poderd ser o candidate do I partido ao Palacio dos Des- pachos (que nem paldcio 6)? A senadora Ana Julia Care- paja mandou dizer que, des- ta vez, nao serd ela. Entre as alternatives que restam, o deputado Valdir Ganzer e Edmilson Rodrigues, o ex- prefeito de Bel6m 6 o mais forte. Mas nao na condigao de mais cota- do. Muito menos de favorite. 0 protagonista principal deverd ser novamente umrn tucano, se os processes de cassacao que deambulam pelo Tribu- nal Superior Eleitoral nao Ihes apronta- rem mas surpresas. Contra as aparenci- as e as declaraqces piblicas, Almir Ga- briel parece ter decidido tentar um ter- ceiro mandate. Sua campanha s6 nao foi ainda assumida, mas seu comportamen- to j 6 de candidate. Como se lanqou sem consultar o governador, e nem qualquer outro correligionario ou aliado, conforme seu habito. provocou bicos ainda maio- res. Jatene marcou sua ausencia em duas datas pessoalmente gratas ao anteces- sor, deixando de ir ao casamento de uma filha e a homenagemrn ao ex-governador prestada pelo clube Monte Libano. A so- lenidade foi protelada por mais de duas horas a espera de sua excel6ncia, que nao deu o ar da sua graqa. Sinal de que Jatene 6 candidatissimo a reeleiqdo? Provavelmente, mas nao necessariamente. 0 que o governador nao parece mais disposto a tolerar 6 a total sem-cerimonia do doutorAlmir, que age como se fora o dono do PSDB. Mes- mo que venha a concordar em trocar o palAcio chinfrim da avenida Augusto Montenegro pelo Senado Federal, Jate- ne se senate no direito de ter participacao decisive na montagemrn da chapa majori- taria da coligaqdo que venceu as tres 61- timas eleiq6es no Estado. Nada indica que ele esteja fascinado pela mudanqa de domicflio politico, nias se isso se tor- nasse inevitdvel ele teria outros candida- tos (ou ao menos outro) a apontar, al6m de Almir Gabriel. Mas o ex-governador nao parece disposto a tolerar essa possi- bilidade. Daf os resmungos e o ranger de denotes na gaiola tucana. Esses sao, por enquanto, os maiores murmurios pr6-eleitorais. IMPRENSA Quern esta corn a razao na guerra de propaganda que vemrn travando nos 61timos tempos: o Didrio do Pard ou 0 Liberal? Ambos e nenhum deles. Parcialmente, os dois. Isso porque as pesquisas na qual fundamental suas mensagens de vit6ria nunca sao divulgadas na integra, para uma andlise isenta, elucidativa. Nao ha d6vida que 0 Liberal ainda domina amplamente o mercado de journal impresso, corn a participaqao coadjuvante do Amaz6nia Jornal. Mas 6 inegdvel que jamais, como agora, seu poderio esteve tao ameaqado. Mesmo que os nimeros sejam menos grandiosos do que os apresentados, o journal da familiar Barbalho cresceu. Basta ver umrn indicador recent desse crescimento: o lanqamento, por 0 Liberal, de todo um caderno dedicado a cobertura policial, corn o dobro do espago do tabl6ide que o Didrio do Parda encarta ha vdrios anos. E um recurso de quem esta perdendo leitores. Quantos? Poucos sabem corn precisao. Se o combat fosse bom, o journal dos Maiorana abriria suas pesquisas e a folha dos Barbalho se filiaria ao IVC, o mais acreditado auditor de tiragens da imprensa escrita (como se dizia antigamente). Por enquanto, tal situaqdo constitui mirage. Mas o alvoroqo todo dos ultimos meses tern urn diagn6stico certo: o grupo Liberal jd nao 6 tao poderoso quanto antigamente. Exceto na base da rua 25 de Setembro e nas suas extensoes, declaradas ou nao assumidas. Fica uma sugestao a quern de direito: obrigar todo aquele que utiliza pesquisas de opiniao em suas peas de propaganda a depositar a integra das pesquisas numa instituicao pdblica, a disposiqao dos interessados. Quern assume a sugestao? HISTORIC At6 o final da d6cada, as duas minas de niquel que a Companhia Vale do Rio Doce e a Canico Resource estao abrindo no sul do Pard absorverao in- vestimento de 2,3 bilh6es de d6lares, em parties praticamente iguais, corn capacidade para produzir 76 mil tone- ladas numa primeira etapa. Corn isso, praticamente irao reiniciar a hist6ria desse metal no Brasil, transformando o pafs no quarto maior produtor mun- dial. Combinado corn as cinco minas possiveis de cobre, um min6rio asso- ciado ou complementary, o investimen- to ird aldm de US$ 5 bilhoes (ou em torno de 13 bilhoes de reais). Parece que essa important hist6- ria esti ocorrendo em Marte, nao no Pard. 0 dominio paraense sobre esse enredo 6 nulo. Continuard nulo se o Estado, sem competencia especifica. nao se estabelecer. Qualquer dono de botequim sabe disso. 2 AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoal Justiga confirm grilagem da CR Almeida 0 grupo empresarial liderado pelo empreiteiro Cecilio do Rego Almeida tern sido golpeado por decis6es judiciais em virias parties do pais. No Para, entretan- to, s6 na semana passada ele experimen- tou sua primeira derrota, na tentative que vem empreendendo de constituir a maior propriedade rural do mundo corn base na apropriaqao ilicita de terras publicas. Con- cedendo liminar em acio civil p6blica pro- posta pela Procuradoria Regional da Re- piblica, ojuiz Fabiano Verli, da subsecao da Justiga Federal em Santar6m, decre- tou a indisponibilidade da Fazenda Curua. Uma empresa sat6lite do grupo C. R. Almeida, a Incenxil, diz que esse im6vel possui pelo menos 5 milh6es de hectares e 6 de sua legitima propriedade, mas nunca apresentou o titulo originario, atrav6s do qual o Estado teria transferido a area para o dominio particular. As terras ficam numa regiio que ficou conhecida como a Terra do Meio, corn a maior concentraqdo de mogno da Amaz6nia, entire os vales dos rios Xingu e Tapaj6s. Todos os 6rgdos, estadu- ais e federais que ja se manifestaram so- bre a questao afirmamrn que essas terras pertencemrn ao patrim6nio piblico. Corn a liminar dojuiz federal substitute de Santar6m, a Incenxil nao podera mais negociar as terras ou pleitear indenizaqdo por possiveis desapropriag6es. Esta ultima hip6tese se tornou possivel quando part da drea grilada pela empresa foi incluida numa reserve ambiental criada pelo gover- no federal. 0 decreto de criaqio da Re- serva Extrativista Riozinho do Anfrisio, em novembro do ano passado, previa a desa- propriaqao de im6veis localizados na drea. A Procuradoria da Repdblica constatou, atrav6s de plotagem, que metade da Resex coincidia corn o perimetro da Fazenda Cu- rua. Sem uma providencia de valor legal em sentido contrario, os grileiros poderiam vir a ser indenizados por uma terra que, no en- tendimento do MPF, pertence na sua totali- dade ao Estado do Para e a Uniao. Al6m de se superpor a area da Resex Riozinho do Anfrisio, a Fazenda Curuai coincidiria corn outras ireas da Uniao: as Terras Indigenas Xypaia, Ba6 e Curuaia, a Floresta Nacional de Altamira e dois projetos de assentamento do Incra (Instituto Nacional de Colonizaqio e Reforma Agricia). Em suma diz a acao civil p6blica - em vista da hist6rica fraude, a Uniao podera ser obrigada a desapropriar im6- vel que ji lhe pertence. E, em se tratan- do de uma area de milhoes de hectares, ocasionara um vultoso prejuizo para os cofres piblicos. 0 juiz Fabiano Verli reconheceu os fundamentos juridicos para a antecipacao da tutela a acao proposta pelo Minist6rio P6blico Federal. Segundo seu despacho, o pedido feito, ao contrario do que susten- tou a Incenxil, "nao 6 juridicamente im- possivel". Pelo contrario, observou o ma- gistrado, "ha uma suspeita forte de que houve tentative de grilagem". A acao ser- vira "para que se averigde a verdade". Para rejeitar a contestaqdo da empre- sa, ojuiz federal se valeu de informaces como as que foram prestadas inclusive por um dos prepostos da Incenxil, Ro- berto Beltrao Almeida, filho de Cecilio do Rego Almeida. Ele admitiu em seu depo- imento nao ter noticia "de onde seria a sede da empresa, nunca viu seus s6cios, nao tern idia de qual seria seu objeto social, nao conhecia outros bens eventu- almente de propriedade da Incenxil, nem tinha informaqces diretas sobre sua atu- agqo, sobre seu funcionamento, sobre a idoneidade de seus s6cios". Verli se espantou corn essas declara- qoes, muito parecidas corn as que ternm sido dadas nas CPIs que apuram os casos de corrupqao no Congresso Nacional. "Se a empresa 6 tao atuante como diz ser, nao seria natural que Roberto Beltrao, um dos responsiveis por ela, soubesse disso?", observou o juiz federal de Santar6m. Obtida a liminar, os procuradores da Rep6blica Felfcio Pontes Jdnior e Ubira- tan Cazetta esperam agora o definitive cancelamento da matricula, registro e averbaqces existentes no Cart6rio de Registro de Im6veis de Altamira referen- tes a Fazenda Curua. Querem tamb6m que a Incenxil indenize pelos danos mo- rais causados a coletividade e faqa a re- composiqao do meio ambiente degrada- do na area, tamb6m as suas custas. Essa primeira decision certamente in- fluird sobre a apreciaqco judicial de duas outras aq6es em tramitaqdo contra o mes- mo grupo, referentes a mesma area. A primeira foi proposta na comarca de Alta- mira pelo Instituto de Terras do Para (Iter- pa), em 1996, pedindo tamb6m a anula- 9ao e o cancelamento dos registros e aver- bac6es existentes no cart6rio de im6veis local. Depois de uma tumultuada tramita- cao pela justiqa estadual, essa acao foi desaforada para a justica federal. A segunda acao foi ajuizada em 2003 pelo MP Federal na subsecao da Justica Federal em Santar6m. Ela trata da res- ponsabilidade criminal de sete pessoas, entire titulares da Incenxil e oficiais do cart6rio de Altamira, acusados de come- ter o crime de falsidade ideol6gica que deu origem a grilagem. No seu despacho pioneiro, o juiz Fa- biano Verli tamb6m determinou "a ces- saqdo de toda eventual utilizaqdo indevi- da de forqa policial military em beneficio de interesses especiais da Incenxil, de- vendo a autoridade policial comunicar a este Juizo qualquer media de forca to- mada em beneficio da Incenxil, sem que isto implique a impossibilidade de acoes de urgencia". A PM do Para foi acusada de dar cobertura illegal a empresa, que exerce o control de toda a area como se efetivamente fosse sua, atuando como se fora seguranqa privada. A decisao do membro do poder judi- ciario federal tamb6m cria um contrast acusador diante da atuaqio do poderju- diciario estadual. Nas varias esferas da justica do Para, Cecilio do Rego Almei- da, pessoalmente ou por suas empresas e prepostos, tern obtido decisdes favora- veis, as mais importantes das quais fo- ram concedidas pelos desembargadores Joao Alberto Paiva (atualmente aposen- tado) e Maria do C6u Cabral Duarte. Ambos entraram corn agoes contra mim, alegando terem sofrido ofensa mo- ral, supostamente contida em mat6rias que escrevi sobre as grilagens do grupo C. R. Almeida. Nessas reportagens dis- se palavras e afirmei fatos que agora constam do despacho esclarecedor do juiz federal de Santar6m. Se fosse um cidadao comum, sem as garantias decor- rentes do exercicio da tutela jurisdicio- nal, Fabiano Verli talvez estivesse amar- gando a condenacio que sofri na 16'" vara penal de Bel6m, em queixa-crime, corn base na lei de imprensa (de 1967), pro- posta pelo ex-desembargador Joao Al- berto Paiva. Ou a condenacio mais re- cente, que me foi imposta no final deju- nho pelo juiz Amflcar Guimaraes, pelo crime de aplicar a expresso "pirata fun- diario" ao impoluto cidadao Cecilio do Rego Almeida. Ou teria que se sujeitar a nove ages, civeis e criminals, como as que foram interpostas contra mim em funqdo das seguidas mat6rias que escre- vi neste journal em defesa do patrimonio pdblico e contra um verdadeiro grileiro, o mais audacioso de todos, conforme o re- conhecimento do juiz da subsecao da Jus- tica Federal em Santar6m. 0 doutor Fabiano Verli quebrou uma cadeia de omissoes e conivencias, que se tern mantido em diversas instiancias do poder pdblico em relaqdo a essa grila- gem, do tamanho de dois pauses europeus poderosos (B61lgica e Holanda), consti- tuidajad ha 10 anos. Esperemos que corn essa reversao a justica, finalmente, se estabeleqa, contra a pirataria fundiaria no Para. E nao contra os que combatemrn esses pirates. Jornal Pessoal 2QUINZENA JULHO DE 2005 3 LUCRO Quern faturou, no Brasil, 17 bilh6es de reais no primeiro semestre deste ano? 0 nimero de privilegiados dessa categoria cabe nos dedos de uma 6nica mao. Quern, sobre esse faturamento bruto, obteve lucro liquid de R$ 5,1 bilhoes? Talvez nem os bancos, os grandes privi- legiados,juntamente corn certo grupo de exportadores, pelo "modelo" de fazer crescer o pais que os tucanos montaram e os petistas continuaram, fielmente. Pois a Companhia Vale do Rio Doce, no seu 80 exercicio como empresa priva- tizada, conseguiu bisar o feito, amplian- do-o ainda mais. De cada R$ 3,5 que fa- turou, um real foi parar livre e desim- pedido no cofre da empresa, pronto para ser reinvestido ou distribuido aos seus acionistas, na forma de dividends sobre o lucro liquido. E uma espiral de ganhos, como talvez jamais tenha sido experimentado no Bra- sil. Espiral em pleno andarnento. Se os ntirneros de todo o sernestre forarn ex- cepcionais, na metade desse periodo, isto 6, no 2' trimestre do ano, forarn ainda melhores: o lucro liquido bateu um novo record para esse period, atingindo R$ 3,5 bilh6es, urn aumento de nada menos do que 106% sobre o lucro de R$ 1,7 bi- lhio apurado em igual trimestre de 2004, que ja fora notivel. A empresa se consolidou, assim, corno a maior exportadora do pais (3,3 bilhoes de d6lares no semestre e US$ 6,1 bilh6es nos dtitimos 12 meses), responsivel por quase 15% (ou US$ 2,3 bilhoes no se- mestre) do superdvit record alcanqado pelo Brasil no seu com6rcio exterior (de quase US$ 20 bilh6es). Mesmo corn um volume desse porte, a Vale manteve o seu perfil de estatal: os minerals ferrosos mindrio de ferro, pelotas, manganes e ferro ligas conti- nuam a ser a sua especialidade. Mas como tern investido maciqamente na ex- pansao da produqao, favorecendo-se por isso dos preqos excepcionalmente altos do min6rio (reajustados em 86% nos con- tratos em vigor), a participaqdo dos fer- rosos foi responsavel por quase 70% da sua receita total. Ainda assim, os produ- tos da cadeia do aluminio entraram corn 11,5%, superando os servigos de logisti- ca, que responderam por 9,2%. E o co- bre de Carajds, corn 2,5% do faturamen- to, chegou para ficar e se expandir rapi- damente nas contas da CVRD ao long dos pr6ximos anos. 0 principal mercado ainda 6 a Europa, que contribuiu corn mais de 28% da re- ceita da empresa. Mas a Asia, corn quase 26%, esti logo atris (sob a lideranqa da China, corn 11,5% do total). 0 mercado interno representou 24% das vendas. Fantasma ativo Logo depois de ser empossado como president do Tribunal de Justiqa do Estado, o desembargador Milton Nobre tomou uma providencia, que estejornal vinha cobrando ha anos: que os prepostos do suposto fazen- deiro Carlos Medeiros fossem obrigados a apresentar seu constituinte em came e osso, sob pena de terem seus poderes desconsti- tuidos ou, pelo menos, questionados. E pa- garem o preco pela falsidade ideol6gica, den- tre outros delitos capituliveis. Todos sabem, inclusive os advogados de Carlos Medeiros, que esse cidadao ndo existe, 6 um fantasma utilitario inventado por uma quadrilha. Mas continuamrn a con- duzir essa nau como se o mar fosse de al- mirante. Seus processes estao a tramitar e seus interesses a receber patrocinio, sem que se execute a determinagio anunciada pelo president do TJE, de apresentaqdo do personagem principal. Agora a novela tern um novo desdo- bramento com o inventario dos bens deixa- dos por um dos integrantes da quadrilha de Carlos Medeiros, o dito fazendeiro Marin- nho Gomes de Figueiredo, que morreu su- bitamente num hotel de Bel6m cinco anos atrAis. 0 esp6lio deve incluir parte das ter- ras pretensamente adquiridas por Marinho de Carlos Medeiros. Um dos incidents processuais estava para ser apreciado, mas foi retirado de pauta, na semana passada. Pelo visto, fantasma fundirio continue a perambular, livre e solto, pelos corredores forenses, atrav6s de seus representantes. Sem precisar se materializar ou, diante des- sa impossibilidade, serobrigado a revelar sua identidade ficticia e ser desmascarado de vez. A farsajd completou sua primeira d6cada. Quosque tandem? SOLIDARIEDADE Por unanimidade, aAssembl6ia Legisla- tiva do Estado aprovou um requerimento apresentado pela deputada Araceli Le- mos, do PT, de protest contra a conde- naqao que me imp6s ojuiz da la vara ci- vel de Bel6m, Amilcar Guimaries. Res- pondendo pela 4' vara, numa interinida- de que devia ser de quatro dias, mas, de Para gerar esses resultados, a produ- qdo cresceu mais de 11% em relaqdo ao primeiro semestre do ano passado, ultra- passando 120 milhoes de toneladas de mindrio de ferro e pelotas. E af que a pre- senqa chinesa mais de destaca, represen- tando 20% das vendas do principal pro- duto da Vale (para o Japdo vdo pouco mais de 10%). Mas, em conjunto, a Eu- ropa ainda e a maior client, corn 32%. fato, se restringiu a um inico dia, ele deu ganho de causa ao empreiteiro Cecillo Rego deAlmeida, que moveu contra mim, em 2000, uma acio de indenizacio por dano moral. Alegando que ofendi o autor da agco, por chami-lo de "pirata fundid- rio", o juiz me condenou a pagar-lhe 8 mil reais de indenizacio, mais os juros e as despesas processuais havidos nos 61- timos cinco anos, tempo de tramitaqdo do process at6 agora. Em seu pronunciamento no plendrio da AL, Araceli Lemos disse que tal conde- naqio "6 um absurdo", ji que meu artigo "nao fugiu da realidade"ji constatada nos casos de grilagem de terras no Estado. Lembrou que "os pr6prios deputados des- ta casa" tentaram instalar uma Comissiao Parlamentar de Inqu6rito para apurar os mesmos fatos, "justamente tendo como base a figure de Cecflio de Almeida". Segundo o relate jornalistico da ses- sao, tamb6m o deputado Arnaldo Jordy (do PPS) manifestou sua "revolta e in- dignaqio" contra a sentenqa dojuizAmil- car Guimaries. "Em qualquer lugar do mundo uma decisdo dessa seria conside- rada uma piada", disse Jordy. Ele pediu ao president do legislative estadual, Mario Couto (do PSDB) a formaqio de uma comissao de deputados para pedir explicaq6es ao president do Tribunal de Justiga do Estado, Milton Nobre. A deputada Sandra Batista (do PC do B) voltou a falar da CPI que seria instala- da para investigar a grilagem da C. R. Almeida, a partir de fatos que levaram o pr6prio Instituto de Terras do Para (Iter- pa) a proper uma acio de cancelamento e anulaqio dos registros imobiliArios deti- dos pela empresa. Destacou ainda que o governor federal tamb6m ji se manifesta- ra indiretamente contra a pretensdo, ao decidir criar reserves ecol6gicas na mes- ma regido pretendida pelo empresirio. 0 Jornal Pessoal, segundo a deputada, "apenas deu 8nfase ao que pensa a socie- dade em geral sobre o caso". Depois das manifestaq5es, o reque- rimento foi aprovado por unanimidade no dia 16. Nessa corrida, at6 o final da d6cada a ferrovia de Carajds, concebida para a transportar at6 25 milh6es de toneladas anuais, atingirAi 100 milh6es de toneladas. Dentro de dois anos por ela estardi pas- sando o maior trem do mundo, corn 3,6 quilometros de extensdo. Ele darA a sen- saqo de que um mundo de riquezas na- turais sera transferido da Amazonia para outros continents em cada viagem. 4 AGOSTO DE 2005 2 QUINZENA Jornail Pessoal Os problems deles, hoje, serao Os nossos, amanha.? Brasil e China comegaram a cruzar seus caminhos no final do s6culo XX. A primeira d6cada do s6culo XXI ainda nao terminou e os chineses ja sdo os maiores parceiros do Brasil na Asia. Superararn a posigdo que o Japao conquistou nos anos 70 do s6culo passado. Nessa d6cada, os japoneses foram colocados diante do maior desafio des- de o final da Segunda Guerra Mundial: como sobreviver ao abalo do primeiro choque do petr6leo? A resposta veio atravds do fechamento da indistria ele- trointensiva, sobretudo do alumfnio, e da transferencia de fontes de suprimento de mat6rias primas, como o min6rio de ferro, para outros pafses. O Brasil foi um dos mercados ultra- marinos que tornou possivel ao Japao se adaptar a uma energia mais cara e tdo escassa em seu pr6prio territ6rio. 0 "mi- lagre" brasileiro, baseado em poupanca externa e financiamento estatal, esteve conectado ao milagre japones, fundado numa empreitada comum entire o gover- no, a iniciativa privada e a sociedade, corn base em poupanga internal real. Como a hist6ria costumrna ser ir6nica, o operator dessa faganha do lado brasi- leiro era um nissei, o ministry de Minas e Energia Shigeaki Ueki (hoje, um dis- creto milionArio). Seu chefe (e "pai" adotivo) era um filho de alemaes, o pre- sidente-general Ernesto Geisel. O capital japones se espraiou pelo vasto territ6rio brasileiro, mas sua mais expressive incursdo foi na Amaz6nia. Especificamente, no seu coragdo me- talico, a provincia mineral de CarajAs, e na sua art6ria de aluminio, o p6lo de Barcarena, sempre no Pard. Nessa possessao, os japoneses deslocaram os americanos da secular po- siqdo de hegemonia que desfrutavam. De CarajAs e de Barcarena passaram a sair 15% do suprimento de min6rio de ferro e de alu- minio do Japao, a um pre- go melhor do que o interno e o dos fornecedores mais pr6ximos A poderosa ilha i asiatica. A China usou o mesmo caminho. Diante do seu ta- manho, era de se esperar que logo estivesse A frente do Japao e, quern sabe, de qualquer outro parceiro in- Jornal Pessoal 2QUINZENA JULHODE2005 ternacional do Brasil. Como o Japdo, a China tern sua estrat6gia de abordagem. Devia encontrar, no pafs foraneo (ou outland), uma estrat6gia de recepqdo. Ela existe, 6 claro. Mas nao 6 complete, nem satisfat6ria. Existe por provocago, por in6rcia ou por interesse localizado. Como consequiencia da privatizacqo doi- divanas do governor Fernando Henrique Cardoso, a political pdblica se reduziu as political empresariais ou, no maximo, setoriais, corporativas. A razdo da investida chinesa, como a japonesa, 6 a violent demand por ma- t6rias primas e a necessidade de deslo- car processes produtivos eletrointensivos. Nao surpreende que os locais de atendi- mento dessas necessidades se pareamrn cada vez mais ao pafs demandador des- ses bens. A maneira do belo fado de Chico Buarque e Ruy Guerra, o Pard - locus preferencial e a Amaz6nia (e o Brasil tamb6m, naturalmente) vao incor- porando os problems provocados pela atividade produtiva, que diminuem na potencia de al6m-mar. Hoje, um terqo da area continental da China apresenta condiges atmosfdricas insatisfat6rias, corn concentrates de estados criticos em vArias provincias. A poluicao 6 causada, principalmente, pela queima de carvdo mineral, ainda a prin- cipal fonte de energia do pafs (e que tal- vez ainda ocupe essa posigao pelos pr6- ximos anos, mesmo quando entrar em funcionamento a maior hidrel6trica do mundo, a de Tr8s Gargantas, 30% maior do que Itaipu). Neste ano, 2.800 pessoas ja morre- ram soterradas nas profundas minas de carvao. Outras centenas ainda morre- raio at6 o final do ano. 0 ndmero maca- /I1 bro se renova anualmente. Os chineses parecem admitir, diante de sua popula- gdo de 1,2 bilhdo de habitantes, ser esse um prego razoavel a pagar para ter ener- gia. 0 outro 6 despachar parte do pro- blema para os pafses desejosos de ven- der para a China. O Brasil esti, afoito, na cabeqa da fila. 0 IBGE constatou, no mes passado, que dois terqos dos 5.560 municipios brasilei- ros enfrentam poluiqdo, originada, sobre- tudo, da queima de massa vegetal. Dos 1.545 focos de fogo registrados num dni- co dia (3 deste mes) pelo sat6lite meteo- rol6gico americano NOAA-12, nos 13 pafses do continent sul-americano, 73% se localizavam no Brasil. Mesmo os Es- tados que jd nao contain corn cobertura florestal expressive nao estdo se impor- tando muito em perder o que resta das suas matas, se esse for o prego do que chamam de desenvolvimento. Sdo Paulo 6 um desses Estados. As queimadas fo- ram incrementadas na terra dos bandei- rantes no primeiro semrnestre do ano. Em uma proporgdo menor de unidades fede- rativas isso aconteceu. 0 Pard foi uma dessas mal6ficas exceqoes. Os focos de fogo se expandiram em mais de 60% no Estado no primeiro se- mestre (de 4,5 mil para7,2 mil), enquan- to diminufram nos demais Estados ama- z6nicos e brasileiros (de 43,6 mil no ano passado para 32,3 mil focos agora). Em parte por iniciativas como a do fazendei- ro de OurilAndia do Norte, que simples- mente tocou fogo em 9 mil hectares para former pastos (ver Jornal Pessoal n" 350). Em parte, por acidentes. 0 mais grave deles ocorreu justamente em Ca- rajds, a mina quase cativa de japoneses e chineses. Um acidente, 6 verdade, mas cada vez mais previsivel. Repelido por alguns, desejado por outros. A avaliacqo official do Corpo de Bom- beiros 6 de que o primeiro incendio des- te ano na Floresta Nacional de Carajas, em Parauapebas, atingiu 100 hectares. O calculo feito por Viviane Lassman, chefe da Flona, foi ao dobro: 200 hecta- res. 0 fogo foi considerado controlado na semana passa- da, quando recrudesceu, atin- gindo, at6 a ediqdo deste jor- nal, mais 100 hectares. As brasas que resistiram ao tra- balho de rescaldo desencade- aram novo inc6ndio. A operagio de combat As chamas tera que continuar, cui- 8- dadosa e eficientemente, por mais algum tempo do que o previsto. Felizmente a destrui- gdo parece nao ter atingido a floresta mais densa, como c o I .............. I ............ .. CONTINUE NA PA6 6 CONTINUAAO DAPAG.S ocorreu em 2003, tamb6m em agosto, quando o incendio consumiu 550 hecta- res da Flona de Carajas. Corn seus 325 mil hectares, essa flo- resta national ainda 6 um oasis verde diante da paisagem dominante ao re- dor. As fazendas e os assentamentos rurais colocaram abaixo aquele belo cendrio, que dominava os vales do Ita- caiinas e do Parauapebas, quando o acesso a Serra s6 podia ser feito de avido, durante o verao, ou serpentean- do pelos rios, nas cheias. Hoje, a re- gido parece-se muito mais ao Planalto Central do que A Amazonia. Deixou de ser hil6ia, virou sertao. Um sertaio no qual os pastos das fa- zendas se sucedem, como se a expan- sdo da fronteira national homogenei- zasse tudo, do Oiapoque ao Chuf. Mas para o observador atento aquelas on- dulaqbes continues, das quais Carajis 6 a mais destacada, advertem que logo estario se agravando problems que comeqam a surgir: evaporaqdo de agua superficial, aprofundamento da agua subterranea, compactaqdo do solo, ero- sdo, pragas, estiagens mais prolonga- das, desequilfbrio hidrico, etc. E pouco provivel que a natureza, em acomoda- qao de milenios, entregard sem reaqdo o seu patrim6nio, dilapidado pelas en- genhosas sa6vas humans. 0 brasileiro trata a Amaz6nia corn a mesma inconsciencia que o leva a apos- tar todas as suas fichas no fausto atual das commodities, como se seus preqos se tivessemrn nivelado pelo alto e pudes- sem ser controlados pelos que produzem esses bens, sem o risco de queda. 0 boom em que se encontram os vendedo- res 6 realmente de impressionar. Os re- cordes de produqdo de min6rio de ferro, ferro gusa, alumina, alumfnio, bauxita e, daqui a pouco, places de ago podem se combinar corn grandes melhorias nos seus precos, mas esse e um process dominado ainda pelos compradores. Se eles estiverem dispostos a ceder mais do que os an6is, uma nova divisAo de riqueza pode ocorrer. Mas se conse- guirem manter os cord6is da comerciali- zaqdo, o future poderd reservar desagra- ddveis surpresas. Algumas das quais, como a deterioraqdo ambiental e a ten- sdo social, jd se estabeleceram na region, como cavalos de Tr6ia. A bela floresta de Carajas, como uma Helena metamorfoseada, ndo tern emrn sua defesa, nesta legend adapta- da, os meios proporcionais aos da ame- aqa. Por isso, sua beleza se manifesta como algo destinado inexoravelmente a desaparecer, como tudo mais que ain- da 6 Amazonia neste insano projeto de savana tropical. Pujanga do agronegocio: um domino em mudanga Dos 10 municipios que estao se tornando os novos p6los do agroneg6cio no Brasil, segundo a 6ltima ediqao de Exame, metade se localiza na Amazonia. 0 sexto de maior potential, o unico do Pard na lista, 6 Santar6m, o municipio de maior populaqdo dentre os 10 selecionados pela revista da Editora Abril. A causa do destaque dado pela publicaqo 6 o porto graneleiro construido pela multinational americana Cargill, que "tern incentivado o plantio de graos na regiao". Santar6m 6 o maior produtor paraense de arroz e tamb6m tern expandido as cultures de milho e soja, al6m da criacao de gado. A anAlise sobre esses p6los se baseia principalmente no valor da exportaqdo, que em Santar6m foi de 55 milh6es de d6lares no ano passado. No entanto, houve um decr6scimo de 26% em relaqio a 2003. Santar6m, alias, foi o 6nico dos 10 pdlos a apresentar queda de faturamento corn a venda de produtos agropecuarios para o exterior. Todos os outros experimentaram crescimento. Os outros municipios da Amaz6nia Legal arrolados sao Primavera do Oeste (30 lugar) e Sorriso (90), em Mato Grosso; Balsas (20), no Maranhdo, e Vilhena (70), em Rond6nia. Como a participaqo atual da regiao no agroneg6cio brasileiro como urn todo 6 minima, esses p6los deverao crescer nos pr6ximos anos como parte de uma frente economic que se expand principalmente devido a busca de novas areas para o cultivo de soja. O municipio de Sorriso, em Mato Grosso, foi o maior produtor de soja do pais na safra do ano passado, colhendo 3,4% do total, e o 40 maior produtor de milho. No entanto, dos seis maiores esmagadores de soja do Brasil, cinco se situam na capital de Sao Paulo. Das 10 maiores fibricas de soja, nenhuma fica na Amaz6nia. Essa disposiqdo espacial diz muito sobre quern ganha mais nessa cadeia produtiva. A situaqdo se reproduz internacionalmente: embora respond por um quarto da producao mundial de soja, o Brasil s6 tern 15% da capacidade de processamento do grao. A taxa de crescimento annual da producao, de 5%, 6 inferior a de processamento, de 7%. Na China esses nrmeros sao de 5% e 18%, respectivamente. E na vizinha Argentina, de 11% e 10%. A persistirem esses numerous, a Amaz6nia internamente e o Brasil internacionalmente, ficario corn peso maior no inicio do process e nio no fim, como conviria. A leitura dessa edicao especial de Exame deixa bemrn ntida a sensaqao de desnacionalizaqdo do agroneg6cio. Das 10 maiores empresas do setor, apenas uma, a Sadia, 6 brasileira, no 90 lugar (corn 2,7 bilh6es de d6lares contra US$ 7 bilh6es da lider, a CBB/Ambev, brasileira s6 na propaganda, belga na essencia). Em segundo lugar, mas a primeira a produzir alimentos (US$ 5,4 bilh6es), 6 a Bunge, de Bermudas. Mesmo no traditional setor cafeeiro, a lider, hoje, 6 a americana Sara Lee, corn 20% do mercado. Das 10 primeiras, apenas seis sao brasileiras, mas elas detem 23% do mercado, contra 28% das quatro maiores estrangeiras. 0 caf6, dominant tempos atrAs, atualmente contribui corn apenas 5,2% da pauta de exportacao do agroneg6cio, em mais de um quarto do seu valor dependent da soja. Da Amaz6nia, a unica empresa corn presenqa setorial 6 a Janrf, a 9a maior produtora de celulose do Brasil, corn 341 mil toneladas (3,7% do mercado), muito distant da lider, a Aracruz Celulose, corn 2,2 milhoes de toneladas (ou um quarto do total national). Mas das 10 lideres desse setor, quatro ji estdo sob control estrangeiro, inclusive a 6nica fdbrica de papel de imprensa em atividade no pais, a antiga Pisa, hoje de propriedade da norueguesa Norsk Skog. E assimni que cresce o gigante pela pr6pria natureza: cada vez menos dono da sua natureza. 6 AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornial Pessoal Os riscos do future e o enigma de Lula Quern compareceu ao "comicio das reformss, re- alizado no Rio de Janeiro, em 13 de marqo de 1964, sup6s que o president Joao Goulart estava mais forte do ' que nunca. Quem acompa- nhou sua incursao i assem- L- bl6ia geral dos marinheiros, na sede do Autom6vel Clu- be do Rio, duas sernanas depois, podia muito bem ima- ginar que Jango estava corn- pletamente perdido, ou en- tao acreditava em duendes _ (como os do "dispositivo mi- ;f litar" do general Argemiro Assis Brasil). No dia se- guinte o president comeqava a cair. Em 24 horas mais entregava os pontos e partia para o Uruguai, corn escala em Porto Alegre. S6 voltaria do auto-exi- lio como cadaver. Quern participou da marcha dos 100 mil", no centro do mesmo Rio de Janei- ro, em rnaio de 1968, pensou que os es- tudantes realmente eram os novos par- teiros da hist6ria. Nada mais tendo a per- der, ao contririo dos operdrios, eles ar- riscariam tudo para colocar abaixo a di- tadura, restabelecendo a democracia e, quem sabe, at6 podendo fazer chegar finalmente o socialismo ao solo do Bra- sil. Mas o dobre de finados teve outro autor, em 13 de dezembro daquele ano. Corn a ediqio do AI-5, o que era uma ditadura envergonhada se assumiu por inteiro como tirania, no que viria a ser "os anos de chumbo". Os "sinais dos tempos" as vezes sao fluidos, enganadores. Ha novos sinais no ar, como nessas duas situa6es anterio- res. 0 president Luiz Inacio Lula da Silva, por convicqdo pr6pria e sugestao de seus "conselheiros", parece desilu- dido da possibilidade de restabelecer, atrav6s de negociaqdo political, um po- der que, atrav6s dos mesmos instrumen- tos, antes tentara fortalecer ao maximo, simplesmente (e literalmente) compran- do apoios. Sem uma "volta por cima", sua presidencia esta moribunda. Sobre- viveri at6 o final do mandate por estra- t6gia dos seus inimigos. Mas Lula nao cede os pontos. Ele nao quer s6 sobreviver. Pretende dispu- tar um segundo mandato. Para isso, pre- cisa preservar as fontes do seu caris- ma, que ainda lhe dao aprovaqdo popu- lar: ser considerado um homern hones- to, simples, igual ao brasileiro comum, defensor dos pobres e humildes, que, apesar de tudo, esti empenhado em transformar o Brasil num pais mais jus- to, mais favoravel aos necessitados. 0 caminho da salvaqao seria colocar o povo nas ruas, mobilizar manifestacqes de massa em seu apoio, advertindo os golpistas, que sempre ternm abrigo em ga- binetesjuridicos e quart6is, de que o pre- sidente 6 tao "pai dos pobres" quanto o foi Gettlio Vargas. Getdlio, alias, na 6ltima das situac6es adversas que enfrentou, preferiu nao ten- tar mais uma de suas insuperiveis arti- manhas. Nao tinha mais energia para tan- to, nem apoio popular, conv6m acrescen- tar. A uma iniciativa radical de resisten- cia preferiu acertar as contas diretamente corn a hist6ria e se suicidou. Ao plano pelo qual optou nenhum dos seus inimi- gos tinha tutano para chegar. Eles desa- pareceram na poeira do tempo, mesmo os mais notaveis. Getdlio se imortalizou. Lula nao tern essa grandeza, mas ain- da tern uma margem de apoio popular capaz de impressionar diante do mar de lama no qual chapinha no Planalto & ar- redores. Lidas em suas sutilezas e fili- granas, por6m, as pesquisas de opiniao sugerem que essa resistente simpatia do povo para corn o president eleito corn 53 milh6es de votos pode ter desfaleci- mento s6bito. Existe hoje, pode evaporar amanha. De que forma? Em sa consciencia, 6 muito dificil pre- ver, tantas sao as variaveis em jogo, so- bretudo as subjetivas. As andlises conti- nuam a ser feitas nos segments mais ruidosos da populaqao, os que aparecem e se fazem ouvir. Quando as ditas cama- das C, D e E entram em jogo, percebe- se que sao pouco conhecidas, pratica- mente uma inc6gnita. Elas ap6iam o president porque ig- noram completamente os fatos. Quando deles tiverem noticia, mudarao de opiniao. E o que dizem os analistas de algibeira, a base de um empirismo que Sdispensa arealidade, por mais -'1' que pareqa paradoxal. Essas pessoas, que ternm tao pouco para sobreviver na Sguerra de todos os dias pela i5 ~ existencia, estariam tendo esse pouco fornecido pelas estruturas clientelistas do go- verno, produtos criados tan- to pela administraqao Lula 3 como por ela herdados de z political sociais anteriores. mnx Renda, por menor que seja, esta sendo paga pelo gover- no a dezenas e dezenas de milhares de families, que tamb6m tem acesso a algum tipo de alimentaqao e a um service de sadde um tanto mais eficiente. Se chamadas a ir as ruas, mesmo que ao toque de ordem unida das manifesta- 6es "espontineas", corn transport gra- tuito e arregimentagao corporativa, elas estariam dispostas a proteger o presiden- te-companheiro das rasteiras de uma eli- te predadora, insaciavel. Em tese, talvez. Tal elite, contudo, s6 fez crescer nos dois anos e meio da administration Lula, que a ela cada vez mais se assemelha. 0 pre- sidente teria qualidades suficientes de coringa para partilhar o perfil de dono do jatao official e marmiteiro (que, a rigor, ja nem mais existe, obrigado agora a co- mer as porcarias industrials de rua, que substituiram a comida caseira da mulher- zinha, hoje tamb6m no batente, dessa for- ma se sujeitando ao teor de gordura que mascara a fomrne aberta corn a fome fun- cional, ai semelhanqa do que aconteceu corn o analfabetismo)? Esta 6 a grande duvida. Claro que Lula nao 6 Collor. Por isso nao esta (ou ainda nao esta) sujeito a ver sua convo- caqao de caras-pintadas se transmutar em ritual de morte, como aconteceu corn o caqador de marajis das Alagoas. Mas nao esta muito long das ilus6es de Joao Goulart, 40 anos atrds. Por isso, preci- saria ter uma andlise bem realistica da situaqdo antes de mexer a pr6xima peqa nojogo de xadrez, sujeito a chuvas e tro- voadas, no qual a political brasileira se transformou. Mas quem nao se vexa de proclamar inoc6ncia absolute, baseada na ignorancia cega, esti capacitado a ver o que vai pelo mundo, como se anun- ciava aquele telejornal cinematogrifico de d6cadas atras? Shakespeare, se vivo fosse, bem que gostaria de criar uma peqa corn essa res- posta para o drama (ou trag6dia) A brasi- leira, que se avizinha grave. Jornal Pessoal 2QUINZENA JULHO DE 2005 7 Justiga: luz da esperanga ou espelho da distorgaio Certa vez, acompanhando a tramita- qdo de um dos muitos processes na justi- 9a, verifiquei que ele fora distribuido equi- vocadamente. Como a remessa acabava de ser feita, corrie para o gabinete do de- sembargador ao qual a aqao fora destina- da. Ao ver-me abrindo a porta, o magis- trado saudou-me, satisfeito e aliviado: Acabei de me declarar suspeito no process, meu amigo. Ja mandei os au- tos em frente. Nao tive nem tempo de alerta-lo que a aqdo era criminal. 0 desembargador inte- grava uma das cdmaras civeis do Tribunal de Justiga do Estado. Logo, nem precisava se declarar impedido de atuar no feito por motivo de foro intimo. Bastaria devolver o process para nova redistribuiqao. Ja vivi epis6dios parecidos como esse em 13 anos de continue litigancia judicial no foro de Bel6m, invariavelmente me defendendo de ataques. 0 desembarga- dor que suscitara sua suspeigao, ja apo- sentado, me tratava muito bemrn e eu a ele. E uma pessoa culta, amdvel, aplica- da, ainda hoje. Mas nunca fui a sua casa. Nosso bom relacionamento era ocasio- nal, quando cruzdvamos nossos cami- nhos, em regra nos corredores forenses. Sempre evitei freqilentar pessoas que nao fossem da minha real intimidade, mes- mo antes de me tornar alvo preferencial de petardos judiciais retaliat6rios, a par- tir de 1992. A preocupacdo me poupava de perder fontes, criar incompatibilidades e provocar suscetibilidades. Nunca fui A casa dessas pessoas mais do que duas vezes, quando visitd-las se tornava necessario. Foi o caso do desem- bargador, ji falecido, Pedro Paulo Mar- tins. Precisava consultd-lo sobre o pro- cesso de desapropriaqdo da gleba Con- ceiqdo do Aura, a ele submetido quando juiz, por porovocagdo de uma a9ao po- pular do advogado Paulo Lamarao, em 1984. Mas escrevi criticando o magistra- do, que reconheceu a procedencia das minhas criticas. Permanecemos no tipo de relagio amigdvel que tenho mantido corn alguns outros juizes e desembarga- dores, num padrdo ainda em vigor. Ne- nhum deles priva da minha intimidade, ou vice-versa. Por isso, todos estdo em con- diq6es de julgar as a95es de que sou par- te sem qualquer constrangimento 6tico e moral ou impedimento legal. Mesmo assim, alguns ja se afastaram da funqdo jurisdicional. Respeito-lhes a decisdo. Mas tern havido o inverso: ma- gistrados sem condiqoes de julgar impar- cialmente as demands e que, ainda as- sim, mantem-se A frente delas. Certa vez, nto aceitando esse modo de proceder, re- queri a realizaqdo de uma reunido secret do Conselho da Magistratura para que nela o desembargador apresentasse as razoes de foro intimo que haviam provo- cado sua auto-declarada suspeigdo (nes- se process, mas nao em outro, anterior). Acho que tanto o judiciario quanto o Minist6rio Piblico deviam tomar rotineira essa providencia: convocar sessdo do co- legiado para receber as devidas explicaqCes da parte de quern se afasta de processes sob a alegaqdo de motive de foro intimo. Sobretudo quando os processes sao gra- ves e polemicos e a declaraqao 6 dada nao de imediato, mas depois de passado certo tempo, as vezes mais do que razodvel. Fre- qilentemente, no limited do prazo legal para que essa declaraqao seja feita. Nao 6 raro que realmente umjuiz se veja compelido a se afastar de process no qual esteja litigando algu6m do qual seja amigo ou inimigo, ou deles seja patrono advogado de sua relagdo pessoal. Mas impression o uso (e at6 o abuso) desse recurso como ar- tificio contra as quest6es complexes, explo- sivas, de repercussdo piblica. Os integran- tes do poderjudiciario edo Minist6rio Pbli- co nao podem nunca esquecer que sao, aci- ma de tudo, servidores publicos. E o poder pdblico que Ihes paga os vencimentos, con- cede-lhes as condiqces de trabalho e lhes assegura os beneficios do cargo. Sou dos que acham que a corporaqdo responsdvel pela tutelajurisdicional deve ter as melhores condiq6es de trabalho dentre todos os servidores da administraqdo pdbli- ca. Ela tern que responder pelo maior de- safio human: ojulgamento de terceiros. E um poder de vida e morte, sem o onus que a morte acarreta. Mas 6 inadmissivel que, corn todas as regalias de que desfrutam, juizes, desembargadores, promotores e pro- curadores ignorem de onde v6mn esses be- neficios e quern os legitirnam. Devemrn apli- car a lei, mas num context no qual o ele- mento principal 6 a causa p6blica, a defesa dos interesses da sociedade, o estabeleci- mento da verdade acima de tudo e contra todos os que queremrn impor sua vontade unilateral e seu usufruto exclusive. Umajustiqa sem esse compromisso vira um mandarinato. Seus privil6gios, tornados ilegitimos, ternm que ser suprimidos. Ao in- v6s de servirem de proteqdo aos persegui- dos ou de afirmaqdo da causa piblica, tor- nam-se fontes de iniquidades. Ndo sao mais a luz que brilha por sobre a escuriddo da opressao e da injustiqa, mas o espelho de tais distorgoes. E nada, na vida social, 6 mais distorcido do que umajustiqa viciada. Eletronorte: no Para por acaso? At6 o moment em que Silas Rondeau foi colocado na presidencia da Eletrobris, em substituiqdo a Luis Pinguelli Rosa, no ano passado, a presidencia da Eletronor- te era um cargo de propriedade do sena- dor Jos6 Sarney, do PMDB. Corn a va- cancia, o PTB assumiu o control da es- tatal, a terceira mais important do siste- ma Eletrobras. Apadrinhado por Rober- to Jefferson, do PTB do Rio de Janeiro, Roberto Salmeron foi entronizado na pre- sidencia da empresa, que atua na Ama- zonia mas tern sua sede em Brasilia. Ao mesmo tempo em que o padrinho denunciava a existencia de um "mensalao" de 30 mil reais pago pelo PT a sua base parlamentar de apoio, o protegido entrega- va sua carta de demissdo e passava o car- go, interinamente, para o president do con- selho de administraqdo da estatal e director de Engenharia da Eletrobras, Valter Car- deal, home de confianqa da ministry de Minas e Energia, Dilma Rousseff. Jefferson nao lamentou a perda: dis- se que Salmeron era uma esp6cie de ra- inha da Inglaterra. Quem de fato man- dava na Eletronorte era e continue a ser Adernar Palocci, irmdo do ministry da Fazenda e director de Engenharia da empresa, corn quem Dilma Rousseff pre- feria despachar. A participaqdo da Eletronorte na no- vela dos escandalos nao cessaria af. 0 mesmo Roberto Jefferson denunciaria a Centrals E16tricas do Norte como um dos elos da conexao corn a Portugal Telecom, maior empresa privada portuguesa e dona da operadora de cellular Vivo, dentre ou- tros ativos (num total de 7 bilhoes de d6- lares) no Brasil. 0 IRB (Instituto de Res- seguros do Brasil) destinaria US$ 100 mi- lhoes de sua reserve de US$ 600 milh6es no exterior para que a Eletronorte rees- tatizasse a linha de transmissao de ener- gia de Tucuruf para Vila do Conde e Be- 16m, atualmente sob control privado. Numa das pontas dessa linha estd um consumo que equivale a 2% da demand de energia de todo o Brasil. A dendncia surgiu e sumiu sem qual- quer comentirio official. Mas 6 suficien- temente grave para que algu6m do go- verno se sinta obrigado a esclarec6-la. Nao no Pari, ao que parece, embora es- teja no Estado 80% de toda energia ge- rada pela Eletronorte. A AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoal 0 verdadeiro aincora do jornalismo na TV Eu estava certa vez de passage por Miami quando minha atenqdo foi atraf- da para um grupo de pessoas barulhen- tas. Logo percebi que eram jornalistas. Caqavam uma celebridade que acabara de desembarcar de um taxi e rumava pelo lobby do hotel. Enquanto preen- chia seus dados na recepqdo, era filma- do e fotografado. Ao virar-se na direqdo em que eu es- tava, descobri de quem se tratava: era Peter Jennings, ancora e editor-senior da rede de televisao ABC. Para a imprensa de Miami, a presenca de Jennings na ci- dade era noticia. Comn certeza. No meu pouco tempo de residencia nos Estados Unidos, dois programs de TV me eram obrigat6rios. Pela manha, Sesame Street, minha melhor escola de ingles (se desaprendi de lI para c6, o demdrito 6 meu). A noite, o World News Tonight, noticidrio que Jennings passou a comandar exatamen- te em 1983, no ano em que comecei minha temporada academic em Gainesville, no extreme norte da Fl6rida, graqas a Marian- ne Schmink e Charles Wood. Peter Jennings morreu muito cedo, no dia 7, aos 67 anos (a mesa idade de Francisco Milani, uma semana depois, no Brasil), tamb6m de cancer de pulmao, quatro meses depois de revelar publica- mente que estava corn a doenqa. Tive o impulse de ir pedir-lhe aut6gra- fo quando o vi no hotel. Mas jornalista 6 bicho reservado, nao deve ser persona- gem. Se se torna um, no fundo, sai per- dendo profissionalmente, mesmo que a fama adoce sua vida (ou a azede de vez). Jennings devia saber disso, emborajd nao pudesse evitar a face de celebridade. Conquistou popularidade no princi- pal noticidrio da ABC por sua classes, imagem e at6 pelo sotaque do ingles ca- nadense. Mas tudo isso era cobertura. Debaixo dessa camada de brilho havia um jornalista para valer, reporter dos bons, testado indmeras vezes, especi- almente em dificeis coberturas interna- cionais, desde a guerra do Vietnam, em 1972. Nao era Aincora por hipdrboles verbais ou excursies tuteladas e cir- cunstanciais a acontecimentos sob con- trole, como os brasileiros dos noticidri- os equivalentes. Para os americanos, Walter Cronkite continue a ser o jornalista de televised nd- mero um, mas para meus padres Jennin- gs era o melhor, acima dos seus concor- rentes diretos, Tom Brokaw, da NBC, e Dan Rather, da CBS. Todos agora estao fora do ar e diz-se que uma era do jomrna- lismo televisivo nos Estados Unidos aca- bou. Concordo e estendo a afirmativa ao Brasil. No auge do sucesso, Jennings era acompanhado por 14 milh6es de pes- soas. William Bonner e Fitima Bernardes tern audiencia pelo menos quatro vezes maior no Jornal Nacional (o dobro dos tries ancoras americanos somados). Daf os marqueteiros de Lula apelaremrn para a desinformaqio ou a md informaqdo como tdbua de salvaqdo para o client. Profissionalmente, Bonner & Ber- nardes nao suportariam a enfase de um levantar de sobrancelha de Jennings, edi- torializando a leitura de seu texto. Ele sabia o que estava dizendo, independen- temente do redator daquelas palavras e da presenqa do teleprompter. Afinal, foi um reporter estupendo. E o que faz a diferenqa nojornalismo, espeticulos mi- didticos a parte. Mas nao 6 mais o que faz a carreira. Ningudm mais parece disposto a pas- sar anos nas ruas, em ruas do mundo inteiro, onde fatos relevantes estejam ocorrendo, para s6 depois brilhar na pol- trona que magnetiza audiencias em ho- ririo nobre. A maioria dos que ingres- sam na escola e, em seguida, nas reda- q6es, espera cair de pira-quedas nesse trono, sem riscos. A prop6sito: Peter Jennings nunca freqientou uma escola dejornalismo. Cursou-a, da graduaqdo ao ultra-p6s- doutorado, nas virias empresas de que participou, desde a mais tenra ida- de (diz a lenda que foi locutor de rdi- dio aos 9 anos), mas, especialmente, na ABC, onde permaneceu por quase 50 anos, sem se vender ao patrao. Para ser o que foi, safa constantemente para as ruas, a verdadeira academia dojornalismo. Numa rua da distant e ignorada Be- 16m do Pari, um fiel e agradecido admi- rador faz aqui seu minuto de silencio pela mem6ria de Peter Jennings. Eclusa, adeus Um amigo me mandou imagens da Roda Falki- rk, uma engenhosa invenqdo dos escoceses para permitir a navegaqdo entire dois estudrios atrav6s de canal artificial. A roda metAilica pode acomodar de cada vez dois barcos de 4 metros por 20 de com- primento, fazendo-os vencer um desnivel de mais de 30 metros entire os dois pontos do canal. A ope- raqao nao dura mais do que 15 minutes. E uma maravilha. Mas uma via de incriminaqdo aos que, como n6s, dispomos de vastos rios e dei- xamo-los bloqueados, como acontece ha duas d6- cadas corn o Tocantins, por falta de consciencia e de poder decis6rio. As eclusas da barrage de Tu- curuf nao serao mais concluidas no mandate do pre- sidente Lula. Claro: nao foi isso o que ele disse. Mas 6 o que se deduz de mais um (o endsimo) cor- te de verbas decidido por Brasilia. A revelia do pre- sidente, que prometeu arrematar a obra antes de completar o quatrienio, mas ainda nem sabe que nao ird cumprir mais um compromisso. Resta-nos contemplar, corn admiraqdo e triste- za, a Roda de Falkirk. 0 corretor tenor A definiqao cabe na media de Azevedo Barbosa, mais conhecido como "Dentinho": 6 uma figure. Para apresentd-lo, basta uma indicaqdo singela: 6 aquele vozeirao ali. Corn seu timbre tonitruante, nao sei por que ele usa cellular. A propagaqdo natural de sua voz 6 mais poderosa, dispensando o aparelho de telefonia. Impossivel, por isso, uma conversa discreta corn ele. Atrai olhares por onde passa e nao estd nem af para o escarc6u que provoca em torno. "Dentinho" bemrn que podia ser sin6nimo de multidio, confusao, loucura. S6 nao 6 porque por tris dessa legiao de um home s6 ha um profissi- onal que contribuiu muito para consolidar o mercado imobilidrio de Bel6m, a despeito de todas as aparencias em contrdrio. Talvez s6 a forqa dessa aparencia tumultudria tenha adiado por tanto tempo um reconhecimento que s6 agora ele recebe, depois de d6cadas na estrada: o verdadeira- mente consultor de im6veis Azevedo Barbosa foi eleito o corretor do ano, titulo que recebe neste dia 19, na velha sede daAssembl6ia Paraense. Quando, dias atris, um publicitdrio envolvido na solenidade me trans- feriu sua d6vida sobre onde a festa seria realizada, se na velha ou na nova (ja velha, por sinal) sede da Assembl6ia Paraense, nem hesitei: na primeira. Quern conhece o "Dentinho" sabe de imediato por que. Malu- co-beleza ele 6, quando quer. Quando nao quer, 6 uma pessoa fiel a sua hist6ria, ji longa e rica. Acrescida, agora, de um titulo que lhe chega naturalmente, last but not least. Jornal Pessoal *2QUINZENA JULHODE 2005 9 0memo a eI07 mo.1a do CO TIDIANOC Casamentos Foi uma festa bonita a do 800 aniversario de Anna Maria Malcher de Aradjo Mar- tins, a criadora e dona do restaurant IA em Casa, no mes passado, organizada pelo seu filho e successor, o chef Paulo Martins. Mas foi tamb6m urn grande acontecimento o seu casamento, em 17 dejulho de 1945. Filha de Loris Olimpio Correa de Aradjo e Edm6e Malcher de Araijo, a graciosa senhorinha contraiu ndpcias corn Mario Nicolau Leal Mar- tins, filho do "extinto capitalist" (como dizia o noticiario da 6poca) Jos6 Leal Martins e Odete Vale Martins. Paraninfaram a noiva no ato civil: Sulpicio Ausier Bentes e esposa, Mdxi- ma Martins Bentes; Jos6 Cunha (Laura) da Gama Malcher e a mae do noivo. No religioso: industrial Chami6 e esposa, Ly- gia Araujo Chamid; Benedito Frade e Agora, BELEM-E.U.A. A PEIA PAN A Carn a now sTrvic a. Pan Amk. V__e g-or todo o a-.%-ea iato d, BEck. -.n .,N&.v Yorki servindo tambim a Paramnanbo. Georvrcown. Barbados AntiAbas I 0, lx..oos .os DCJ a Pan Ameican proDoraoniamn maior ra- pidce. malor nnfArto e niaor ca-o panidade de cara. A Pin Aeican Ie otorc mWol ,,anedde de rota& A -a e h. -Et., dueias dc cotneoes oarm ou- rio- aided.. do E.U.A- do C.n.d". da Euroea e do Orienca. TcruNco ainamente ceocrimentrdos i ode O ploros aon mais dae 16 anon ade eoetrotnica eeeoceat seca vic inmcediveL Voce vucla ser osnd corn um w. ae vaor i-ntumlvt: a EooritniicL. I. Greg6ria Lobato; Mario Sarmanho Mar- tin e esposa, Otdvia Meira Martin. 0 casamento civil foi na residencia dos pais da noiva, as 10 horas. 0 ato religioso, na Basilica de Nazard, as 11 horas. Uma semana antes, o advogado Aloy- sio Chaves solicitou em casamento a se- nhorinha Maria do Faro Freitas Lopes, filha de Antonio eAlmeirinda Lopes, exa- tamente no dia do aniversdrio da future primeira dama do Estado. 0 governador, senador, deputado federal, reitor ejuiz do trabalho jd 6 falecido. Contrabando Acusado de ser contrabandista, o fran- ces Jean Dupuis teve seu passaporte cassado pelo Itamaraty. Mesmo assim, continuava a fazer voos entire Bel6m e Caiena, na Guiana Francesa. At6 que, em novembrode 1958, sua presenqa no aeropor- to international de Val- de-Cans ficou proibi- ,f*""^ ~ da. Fim de carreira para o "rei do perfu- & me" na capital do ta- cacd? Nao exatamen- te. Dupuis transferiu sua base para Soure, na I ^ ~ilha do Maraj6. De li JATO passou a viajar para Caiena, em busca dos produtos que lhe da- S vam fama e notorieda- de. S I, Cinema Andncio de cinema -- ==MMM ernem 1958: Preertea Agcrie d' Via gens, on a Pan Ameraicin hoje metnio. Peara ond quer q.e v nijo, viaja mothor com a A LINHA AREA 0E MiRc EXPRIENCIA 00 MUNDC Desde que o Nazar6 comeqou a exi- bir o "trailer" de "E Deus... criou a mu- Iher", que uma onda de expectativa se espalhou pela cidade... S6 se fala em Brigitte Bardot. Toda a gente quer ver a mais nova e mais ousada criaqdo da fa- mosa "vederte" do cinema francGs. Pre- ve-se, por isso, um sucesso espetacular domingo a noite no "Nazar6". Radio Do program da Rddio Clube do Pard em 6 de novembro de 1958: As novelas "A semente do 6dio", as 12h30 (patrocinio de Farroz), e "Os quatro filhos", as 17h30 (gentileza de Y. Yamada). Mdrio Barradas comandava "A Mdsica em Tres Tempos", as 10 hl5, fo- calizando "um sucesso de ontem, o su- cesso de hoje e o sucesso do future". -A partir das 14hl5 (graqas a Marti- ni Importadora de M6veis e A Automo- bilista), "Uma vesperal para voce", apre- sentada por Vicente Santos. As 20h30 era a vez de "Ritmos da Panair", present da empresa de avia- cao. 0 Pdlace Hotel de Caxambu com- parecia corn o "Caxambu, sol e sonho", que, sob a direqio de Edgar Proenca, dava passage a famosa soprano Hele- na Nobre. 0 mesmo Edgar Proenca abria o seu "Bau velho", o programa da sauda- de e da recordagdo", corn a participation do m6sico Joel Pereira. A Martini dava seu patrocinio novamente. No fim da noite entrava no ar o "Programa da rede brasileira de radiodi- fusao", juntando 43 emissoras portugue- sas e 11 portuguesas, sob o comando da Rddio Record de Sao Paulo. E havia ainda o "Cartaz de espor- tes", comandado por Edyr Proenca, corn tries inserqoes: a uma da tarde "As pri- meiras do esporte, o madximo de noticias corn o minimo de palavras" (patrocinio de Inglesinha); as 18h30, "0 cartaz es- portivo", gentileza da Drogaria C6sar Santos; e, as 10 da noite, "As ultimas do PROPAGANDA Cosmopolitismo Vinte anos atrds era possivel ir de Bel6rn a Nova York. Era um v6o dnico, no DC-8 da Pan-American, corn escalas em Paramari- bo, Georgetown, Barbados e Antilhas. A linha foi inaugurada em julho de 1964. 0 DC-8 era o jato mais rdpido da 6poca. A Pan- Am, corn sua loja no t6rreo do Grande Hotel (telefone 4604), dava um toque de cosmopolitismo i capital paraense. Hoje, para viajar de Bel6m para os Estados Unidos, 6 preciso ir a outras capitals, como Manaus, Rio de Janeiro e Sao Paulo. Um verdadeiro retrocesso. f10 AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoal |AL^ I ALN EM HEL-ELLB *ELPA i ANa HOTE TE.GA 0 . 1 b~L esporte", uma resenha de Cinorte/Mer- cearia Estrela. Vendas Mayer Obadia anunciava para venda em sua loja, na Santo Ant6nio, produtos da onda, como desodorante Lander, sabo- nete ingles Pears e Yardley (marca de brilhantina e talco), colonia Bond Street, pedras para isqueiro Ronson, batons Aris- tocrat e canetas Scripto, al6m de corpe- tes, aniguas. combinaqies, meias renda- das, etc. Mais adiante, a Paris N'Am6rica co- municava o recebimento de "novidades em tecidos", como camurqa terflon, shantung flamd, bianchine flame e radia, tudo em "modernas cores". Maternidade As patronesses da Maternidade do Povo realizavam, nos sales da Assembl6ia Pa- raense, a 1a Exposiqio de Pintura destina- da a arrecadar funds para a nascente ins- tituiqdo. Os irmdos Mendonqa filmariam a inauguraqdo e exibiriam o documentirio nos principals cinemas da cidade. Chique. Leiteiros Em 1958 ainda havia leiteiros em quanti- dade suficiente em Bel6m parajustificar a convocaqio feita por Olfvio Farias Ro- drigues, 1V secretirio, para a reuniao de assembl6ia geral da Associado Benefi- cente dos Leiteiros do Para, na sede pr6- pria da entidade, na Travessa Rui Bar- bosa, 860. Seriam eleitos os novos "cor- pos administrativos". E pouco provivel que na ocasido fosse servido leite. Supermercado 0 nome da empresa era plural (Super- Mercados Paraenses), mas a loja, na rua Santo Ant6nio, 85, era singular. Mas era esse o primeiro estabelecimento comer- cial de Bel6m a requisitar para si, em 1958, o titulo de supermercado, naquela que era entao a principal rua de com6r- cio da cidade. Seu funcionamento ia de domingo a domingo (ate 12 horas), pro- longando-se atW 22 horas aos sibados e fechando as 20 horas nos outros dias. Junto corn a venda dos chamados pro- dutos de primeira necessidade, havia um Bar Americano, para services de lanches. Peixes A maneira do "Sermdo aos peixes", c6- lebre peqa orat6ria do padre Antonio Vi- eira do s6culo XVII, Carlos A. de Men- donga concebeu a "Ladainha aos peixes", corn a qual saudou, em 1963, os explora- dores do povo. Algumas das estaqces dessa ladainha, que reflete a economic popular da 6poca: Voce af, peixe-agulha do subirbio, que desonra a balanqa corn que marca o arroz e a farinha, inventando quilos de 800 gramas. Voc6 aif, filhote, a se vender por ca- morim de primeira a custo milionirio. Voc6 af, pirarara das padarias, que aumenta o preqo e diminui o peso. Voce af, enguia meliflua de falas mansas a misturar milho ao cafe torra- do. Voce ai, boto vermelho do contra- bando, a dar cambalhotas e a devorar sardinhas. Voce af, poraque das drogarias, que vende a cura mas o enfermo more de inanido na bolsa. Voce af, tralhoto de quatro olhos a nip6nica, a penetrar nas cares indefe- sas dos que Ihe vao a quitanda. Maquina A Conama (Construqoes da Amaz6nia) exibia, em 1963, um impressionante por- tf6lio de obras: a ponte Waldir Bouhid, em Estreito, na Belem-Brasflia, os pr6di- os dos bancos da Lavoura, Nacional, Moreira Gomes e Mineiro e da Caixa Econ6mica, al6m da avenida Almirante Tamandar6, dentre outros services. Como estava em expansao, a empresa comprou uma nova motoniveladora na Automotriz. OtAivio Pires foi fazer a com- pra corn Jose Pircs Franco e colocou a mdquina na rua, ali mesmo, na Taman- dare em obras, onde era a grande loja da Automotriz. 0 canal ainda estava em andamento. Jornal Pessoal 2 QUINZENA JULHO DE 2005 11 I FOTOGRAFIA Importadora 0 prddio da Importadora de Ferragens ji foi o mais famoso da avenida President Vargas, que era XV de Agosto. Aqui, em 1962, quase 10 anos depois da sua inauguraqao, ele comemora o dia da bandeira corn 14 bandei- ras instaladas sobre sua imponente marquise, uma delas na cobertura, a melhor da cidade. A avenida ainda era buc6lica, corn duas maos, tanto para a circulaqao dos carros como para o estacionamento. As suas margens, os "*uli". "cadilljacs"' ainmericjanos trazidos de contrabando, que davam certa apurencia caribenha a Belem. E uma das primeiras bancas de jornais e rev I^UiY eora o0 lerreo d edilic' importadora estd sofrendo as primeiras mu- dajnys. por conij de obras em algumas de suas lojas. N NEUTRAL DADE Duas cenas parecidas em lo- cais diferentes. Na Cidade Velha, uma senhora sai de sua casa para jogar um pedago papel em terreno baldio situa- do bemrn ao lado. No Reduto, outra senhora joga outro pe- daco de papel do s6timo an- dar de um pr6dio na travessa Benjamin Constant. 0 papel pousa na entrada do edificio. Mas ela ji esti de volta ao interior do apartamento quan- do isso acontece. Essas sao duas Renildas, nao assumidas porque ainda nao tiveramrn a oportunidade de fazer sua apariqdo publica. Sao convictas defensoras do sagrado interior de seus do- micilios particulares e da in- tegridade de suas families; mas da porta para dentro. Nada tem a ver corn o mun- do exterior e o drama huma- no que se desenrola al6m dos estreitos limits de seus lares. Journal Pessoal Editor: Lucio Flivio Pinto Ediao de Arte: L. A. de Faria Pinto Produgao: Angelimn Pinto Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/ 66.053040 Fones: (091)3241-7626 e-mail: jomal@amazon.cocm.br Mesmo que seus maridos laiam tremendous canalhas da soleira em diante e Selas pr6prias despe- jem pelajanela ou a partir da calqada o Slixo interior. As iniqiUidades se ali- mentam essa perverse S certeza, dessa oportu- nista crenqa. Os omis- sos causam mais males do que os maus. Des- de que o mundo 6 o ha- bitat human tern sido assim. Nao foi por outro motivo que Dante Alighieri reservou para os suposta- mente neutros o pior lugar da construqdo mental que em- preendeu na Divina Comn- dia. Quern viu 0 Jardim dos Finzi-Contini deve ter aprendido a liqdo. Dona Renilda, a virtuosa esposa do publicitairio Marcos Valdrio, nao deve ter visto. Ela e a legiio de zumbis que re- presenta e lidera. HISTORIA Jodo Ren6r Ferreira de Car- valho foi uma das boas expor- taqoes do MaranhAo para a Amazonia. Estabelecido em Manaus, contou com o apoio de Samuel Benchimol para vascular o material amaz6- nico existente em Lisboa e a documentaqdo amazonense guardada no Arquivo Pdblico do Para, fazendo as c6pias retornarem ao foco dos acon- tecimentos, no Amazonas. Dessas fontes primdrias resul- tou o livro As guerras justas e os autos de devassa con- tra os indios da Amaz6nia no period colonial, de 1997, seguido, no ano seguin- te, por Momentos de histd- ria da Amnazdnia. Antes de conseguir a pu- blicaqdo desses livros valiosos, por6m, Renor fez valer sua capacidade de pesquisa em Manaus, Belem e MacapAi. Voltou ao seu Maranhdo e agora, de novo domiciflio, re- mete Resistencia indigena no Piaui colonial (1718- 1774), ouro documental que s6 bons garimpeiros de veios primarios de informaqdo con- seguem produzir. PESQUISA 0 Jornal Pessoal, se nao houver nenhuma surpresa de- sagraddvel, completard sua maioridade na pr6xima ediqao. Iniciado na primeira quinzena de setembro de 1987, ele che- gard a 18 anos de vida na pri- meira quinzena de setembro. Para assinalar a data, gosta- ria que o leitor respondesse se acha que o JP ji cumpriu o seu papel ou se acha que ele se tornou dispensivel, expli- cando sua opinion. VIRTUDES Sempre considered a lealdade e a generosidade as maiores virtudes humans. A experien- cia dos 6ltimos tempos, teste- munhando tanta covardia e vilania, me impoe o reconhe- cimento de uma terceira qua- lidade superior: a coragem. Sou grato aos corajosos. Ge- ralmente eles sao poucos, mas sao essenciais. CORRE AO Na materia sobre a escolha de Ima Vieira como nova di- retora do Museu Emilio Go- eldi, ficou faltando um "nao". Embora fosse uninime a ex- pectativa favordvel ao seu nome, depois de uma longa e proficua carreira na institui- qio, nao deve ter sido facil para a pesquisadora aceitar o convite. 0 novo cargo vai continuar a sacrificar sua vida pessoal e familiar, o que ela tentara evitar. CARTA Como cidaddo "amaz6nida" e ainda brasileiro esperanqoso em meio a tantos absurdos que escapam aos nossos "olhos" e ouvidos a cada dia, sinto-me profundamente emocio- nado em poder fazer parte dessa nossa hist6ria e ainda ter tido a felicidade de saber que ainda existe Justiqa. Foi sdbia a decisdo do Exo Juiz Fabiano Verli, da subseqdo da Justica Federal de Santa- rem, em devolver a Unido os 5 milhies de hectares de terras, absurdamente reclamados pelo empresario Cecilio do Rego Almeida. Orgulhosamente parabenizo a todos aqueles que se envolveram diretamente ou indireta- mente nessa luta, "...em vista desta hist6rica fraude...". Aos procuradores da Reptiblica, Ubiratan Cazetta e Felicio Pontes, autores da aqdo pdblica, homes que nos remetemrn e nos encorajam a acreditar que a Justica ainda pode ser feita, bastando que lutemos contra os injustos e os falsos cidadaos. Sobretudo, agradeqo aquele que durante todo esse tempo nos manteve informados, esclare- cidos e participants desse acontecimento, tamb6m hist6rico, num moment de tamanha vergo- nha, corn os indmeros escandalos que vivencia o nosso pais. Parab6ns, jornalista LUcio Flivio Pinto, pois, gostaria de dividir, numa festa comunal com todos os leitores do Jornal Pessoal e corn todos os cidadaos "amazonidas", essa vit6ria, no fundo, tdo unicamente nossa! Michel Guedes MINHA RESPOSTA Fico profundamente grato corn a oportuna lembranqa e a generosa iniciativa do lei- tor, de comemorar corn este journal uma vit6ria de todos os que ndo aceitam a conti- nuidade da dilapidagdo do patrim6nio pdblico, seja Id quern for o autor da pirataria, quaisquer sue sejam seus acobertadores. |
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