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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00285

Full Text






o al P essoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
j/ AGOSTO DE 2005 2 QUINZENA No 351 ANO XVIII R$ 3.00


ELEI(AO 2006 C
^-^~~ ~~~~ k iV~OT r-t.RDA


Primeiros candidate s


Ninguem sabe o que vaiacontecer amanha na political brasileira. Mesmo assim, os candidates comegam a
se postar em seus lugares para a corrida electoral do pr6ximo ano. 0 ex-vice-governador Hildegardo Nunes
poderM ser urn deles. Em coligap-o surpreendente.


3 entao deputado federal Jader
3 ^Barbalho jogou uma cartada
decisivaem 1982, quando con-
correu ao governor do Pard. Se
perdesse, ficaria sem manda-
to politico pela primeira vez em 16 anos,
desde o inicio de sua carreira, como ve-
reador de Bel6m. Certamente nao ven-
ceria o candidate do regime military, ainda
forte no Estado, se nao contasse com o
apoio do governadorAlacid Nunes. Para
derrotar seu ex-aliado e arquiinimigo, o
coronel Jarbas Passarinho, e tamb6m a
Oziel Carneiro, o candidate do "sistema",
ao qual servira at6 entao, o tenente-co-
ronel Alacid ficou atW o final do mandate
de governador e empregou intensamen-
te a mdquina pdblica estadual contra a
miquina federal, colocada a service do
PSD (o atual PP).


Foi corn o prazer da vinganqa que
Alacid deu posse a Jader Barbalho como
seu successor, em marqo de 1983. Mas a
alianqa nao durou muito. A pretexto de
que os alacidistas" iriam votar em Paulo
Maluf, na dispute que o ex-governador
paulista travaria no Col6gio Eleitoral pela
presid&ncia da republica, contra Tancre-
do Neves, do PMDB, Jader rompeu corn
Alacid. E varreu do governor a influencia
do seu ex-aliado.
Seus caminhos, que seguiram em pa-
ralelas excludentes, voltam agora a se
cruzar por vias e travessas. Hildegardo
Nunes, filho de Alacid, assinou ficha de
filiaqio abonada pelo ex-aliado-depois-
inimigo-mortal do pai. As acusaqes m6-
tuas de traiqdo ficaram para tris. Como
naquele filme famoso de anos atris, o
passado condena. Por isso foi ignorado.


Jader Barbalho nao tem nomes no
PMDB capazes de concorrer para va-
ler ao governor do Estado no pr6ximo
ano. 0 dele pr6prio, nem pensar. En-
quanto os parlamentares mais influen-
tes no Congresso disputavam um lugar
de destaque nas sess6es das CPIs em
vigor, Jader, colocado na lista dos "mais
mais" do Diap responsivel pela elabo-
raqdo do ranking), sumiu. Como, en-
tao, iria reaparecer na principal campa-
nha majoritdria local?
Como tamb6m nao pode contar corn
nenhum peemedebista hist6rico, Jader
espera encontrar no ex-vice-governa-
dor de Almir e adversirio de Simio
Jatene na eleiqdo de 2002 umrn nome
sem a macula e a n6doa da corrupqao,
que o acompanha por todos os lugares,
CONTINUE NA PAG 2


JUSTICE AMAZONIA:
DECIDE ACHINA,
GRILAGEM AMANHA
NO XINGU

FPAGINA3 PAGINA5







CONTINUA;AO DACAPA
sobretudo naqueles em que se desta-
ca. 0 61timo desempenho eleitoral de
Hildegardo nao esteve a altura das ex-
pectativas que ele mesmo
criou, embora todos lhe
atribuissem qualidades.
Entre elas, por6m, nao po-
dia figurar a fidelidade e a
coerencia: final, fora com-
panheiro obsequioso de
Almir Gabriel atW a v6spe-
ra da campanha eleitoral,
quando passou a critici-lo,
corn muitos motivos, 6 ver-
dade, mas sem tanta mo- .A
ral. Essa lacuna lhe pode
ter sido fatal.
E agora: o passado nao
pode ser revolvido pelos
adversarios contra seu dis-
curso de limpeza, morali- -.
dade, eficiencia e verdade? K'
Fatalmente, sim. Mas Ja- .
der Barbalho nao dispoe de
nenhum nome melhor. E
corn esse que ira para mais
umrn teste das urnas? Pro-
vavelmente aposta que o
povo tamb6m jd esqueceu
o passado, velho de mais
de 20 anos. Em 61timo
caso, ainda poderia contar corn o ex-
senador Ademir Andrade, do PSB, se
ruir o acordo corn o PT, que o mant6m
na presidencia da CDP (Companhia
das Docas do Para).
Mas a quern o grupo liderado por Ja-
der Barbalho enfrentard do outro lado?


0 candidate certo do PT at6 a actual tem-
porada de dendncias infindiveis de corrup-
9do era o deputado federal Paulo Rocha.
Flagrado como um dos beneficidrios dos
empr6stimos do publicitirio
Marcos Val6rio (primeiro
corn R$ 300 mil, depois corn
S- R$ 470 mil e, por enquanto,
corn R$ 920 mil), Paulo Ro-
cha recuou. Pediu licenga da
lideranqa do govemo na Ca-
mara Federal e saiu do foco
televisivo, que antes buscava.
Gostaria de subscrever a tris-
temente famosa frase do ge-
l neral Joao Figueiredo ao firn
de seu mandato ("me esque-
1 am"), mas talvez nao consi-
ga. Ao menos nao na hora
que lhe conviria: agora.
Se nao for o ex-todo-po-
deroso do PT no Pari, quern
S poderd ser o candidate do
I partido ao Palacio dos Des-
pachos (que nem paldcio 6)?
A senadora Ana Julia Care-
paja mandou dizer que, des-
ta vez, nao serd ela. Entre
as alternatives que restam, o
deputado Valdir Ganzer e
Edmilson Rodrigues, o ex-
prefeito de Bel6m 6 o mais
forte. Mas nao na condigao de mais cota-
do. Muito menos de favorite.
0 protagonista principal deverd ser
novamente umrn tucano, se os processes
de cassacao que deambulam pelo Tribu-
nal Superior Eleitoral nao Ihes apronta-
rem mas surpresas. Contra as aparenci-


as e as declaraqces piblicas, Almir Ga-
briel parece ter decidido tentar um ter-
ceiro mandate. Sua campanha s6 nao foi
ainda assumida, mas seu comportamen-
to j 6 de candidate. Como se lanqou sem
consultar o governador, e nem qualquer
outro correligionario ou aliado, conforme
seu habito. provocou bicos ainda maio-
res. Jatene marcou sua ausencia em duas
datas pessoalmente gratas ao anteces-
sor, deixando de ir ao casamento de uma
filha e a homenagemrn ao ex-governador
prestada pelo clube Monte Libano. A so-
lenidade foi protelada por mais de duas
horas a espera de sua excel6ncia, que
nao deu o ar da sua graqa.
Sinal de que Jatene 6 candidatissimo
a reeleiqdo? Provavelmente, mas nao
necessariamente. 0 que o governador
nao parece mais disposto a tolerar 6 a
total sem-cerimonia do doutorAlmir, que
age como se fora o dono do PSDB. Mes-
mo que venha a concordar em trocar o
palAcio chinfrim da avenida Augusto
Montenegro pelo Senado Federal, Jate-
ne se senate no direito de ter participacao
decisive na montagemrn da chapa majori-
taria da coligaqdo que venceu as tres 61-
timas eleiq6es no Estado. Nada indica
que ele esteja fascinado pela mudanqa
de domicflio politico, nias se isso se tor-
nasse inevitdvel ele teria outros candida-
tos (ou ao menos outro) a apontar, al6m
de Almir Gabriel. Mas o ex-governador
nao parece disposto a tolerar essa possi-
bilidade. Daf os resmungos e o ranger de
denotes na gaiola tucana.
Esses sao, por enquanto, os maiores
murmurios pr6-eleitorais.


IMPRENSA
Quern esta corn a razao na guerra de propaganda que vemrn travando nos 61timos
tempos: o Didrio do Pard ou 0 Liberal? Ambos e nenhum deles. Parcialmente,
os dois. Isso porque as pesquisas na qual fundamental suas mensagens de
vit6ria nunca sao divulgadas na integra, para uma andlise isenta, elucidativa. Nao
ha d6vida que 0 Liberal ainda domina amplamente o mercado de journal
impresso, corn a participaqao coadjuvante do Amaz6nia Jornal. Mas 6 inegdvel
que jamais, como agora, seu poderio esteve tao ameaqado.
Mesmo que os nimeros sejam menos grandiosos do que os apresentados, o
journal da familiar Barbalho cresceu. Basta ver umrn indicador recent desse
crescimento: o lanqamento, por 0 Liberal, de todo um caderno dedicado a
cobertura policial, corn o dobro do espago do tabl6ide que o Didrio do Parda
encarta ha vdrios anos. E um recurso de quem esta perdendo leitores. Quantos?
Poucos sabem corn precisao.
Se o combat fosse bom, o journal dos Maiorana abriria suas pesquisas e a
folha dos Barbalho se filiaria ao IVC, o mais acreditado auditor de tiragens da
imprensa escrita (como se dizia antigamente). Por enquanto, tal situaqdo
constitui mirage. Mas o alvoroqo todo dos ultimos meses tern urn diagn6stico
certo: o grupo Liberal jd nao 6 tao poderoso quanto antigamente. Exceto na base
da rua 25 de Setembro e nas suas extensoes, declaradas ou nao assumidas.
Fica uma sugestao a quern de direito: obrigar todo aquele que utiliza
pesquisas de opiniao em suas peas de propaganda a depositar a integra
das pesquisas numa instituicao pdblica, a disposiqao dos interessados.
Quern assume a sugestao?


HISTORIC
At6 o final da d6cada, as duas minas
de niquel que a Companhia Vale do Rio
Doce e a Canico Resource estao
abrindo no sul do Pard absorverao in-
vestimento de 2,3 bilh6es de d6lares,
em parties praticamente iguais, corn
capacidade para produzir 76 mil tone-
ladas numa primeira etapa. Corn isso,
praticamente irao reiniciar a hist6ria
desse metal no Brasil, transformando
o pafs no quarto maior produtor mun-
dial. Combinado corn as cinco minas
possiveis de cobre, um min6rio asso-
ciado ou complementary, o investimen-
to ird aldm de US$ 5 bilhoes (ou em
torno de 13 bilhoes de reais).
Parece que essa important hist6-
ria esti ocorrendo em Marte, nao no
Pard. 0 dominio paraense sobre esse
enredo 6 nulo. Continuard nulo se o
Estado, sem competencia especifica.
nao se estabelecer. Qualquer dono de
botequim sabe disso.


2 AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoal









Justiga confirm grilagem da CR Almeida


0 grupo empresarial liderado pelo
empreiteiro Cecilio do Rego Almeida tern
sido golpeado por decis6es judiciais em
virias parties do pais. No Para, entretan-
to, s6 na semana passada ele experimen-
tou sua primeira derrota, na tentative que
vem empreendendo de constituir a maior
propriedade rural do mundo corn base na
apropriaqao ilicita de terras publicas. Con-
cedendo liminar em acio civil p6blica pro-
posta pela Procuradoria Regional da Re-
piblica, ojuiz Fabiano Verli, da subsecao
da Justiga Federal em Santar6m, decre-
tou a indisponibilidade da Fazenda Curua.
Uma empresa sat6lite do grupo C. R.
Almeida, a Incenxil, diz que esse im6vel
possui pelo menos 5 milh6es de hectares e
6 de sua legitima propriedade, mas nunca
apresentou o titulo originario, atrav6s do
qual o Estado teria transferido a area para
o dominio particular. As terras ficam numa
regiio que ficou conhecida como a Terra
do Meio, corn a maior concentraqdo de
mogno da Amaz6nia, entire os vales dos rios
Xingu e Tapaj6s. Todos os 6rgdos, estadu-
ais e federais que ja se manifestaram so-
bre a questao afirmamrn que essas terras
pertencemrn ao patrim6nio piblico.
Corn a liminar dojuiz federal substitute
de Santar6m, a Incenxil nao podera mais
negociar as terras ou pleitear indenizaqdo
por possiveis desapropriag6es. Esta ultima
hip6tese se tornou possivel quando part
da drea grilada pela empresa foi incluida
numa reserve ambiental criada pelo gover-
no federal. 0 decreto de criaqio da Re-
serva Extrativista Riozinho do Anfrisio, em
novembro do ano passado, previa a desa-
propriaqao de im6veis localizados na drea.
A Procuradoria da Repdblica constatou,
atrav6s de plotagem, que metade da Resex
coincidia corn o perimetro da Fazenda Cu-
rua. Sem uma providencia de valor legal em
sentido contrario, os grileiros poderiam vir a
ser indenizados por uma terra que, no en-
tendimento do MPF, pertence na sua totali-
dade ao Estado do Para e a Uniao. Al6m de
se superpor a area da Resex Riozinho do
Anfrisio, a Fazenda Curuai coincidiria corn
outras ireas da Uniao: as Terras Indigenas
Xypaia, Ba6 e Curuaia, a Floresta Nacional
de Altamira e dois projetos de assentamento
do Incra (Instituto Nacional de Colonizaqio
e Reforma Agricia).
Em suma diz a acao civil p6blica
- em vista da hist6rica fraude, a Uniao
podera ser obrigada a desapropriar im6-
vel que ji lhe pertence. E, em se tratan-
do de uma area de milhoes de hectares,
ocasionara um vultoso prejuizo para os
cofres piblicos.
0 juiz Fabiano Verli reconheceu os
fundamentos juridicos para a antecipacao


da tutela a acao proposta pelo Minist6rio
P6blico Federal. Segundo seu despacho,
o pedido feito, ao contrario do que susten-
tou a Incenxil, "nao 6 juridicamente im-
possivel". Pelo contrario, observou o ma-
gistrado, "ha uma suspeita forte de que
houve tentative de grilagem". A acao ser-
vira "para que se averigde a verdade".
Para rejeitar a contestaqdo da empre-
sa, ojuiz federal se valeu de informaces
como as que foram prestadas inclusive
por um dos prepostos da Incenxil, Ro-
berto Beltrao Almeida, filho de Cecilio do
Rego Almeida. Ele admitiu em seu depo-
imento nao ter noticia "de onde seria a
sede da empresa, nunca viu seus s6cios,
nao tern idia de qual seria seu objeto
social, nao conhecia outros bens eventu-
almente de propriedade da Incenxil, nem
tinha informaqces diretas sobre sua atu-
agqo, sobre seu funcionamento, sobre a
idoneidade de seus s6cios".
Verli se espantou corn essas declara-
qoes, muito parecidas corn as que ternm sido
dadas nas CPIs que apuram os casos de
corrupqao no Congresso Nacional. "Se a
empresa 6 tao atuante como diz ser, nao
seria natural que Roberto Beltrao, um dos
responsiveis por ela, soubesse disso?",
observou o juiz federal de Santar6m.
Obtida a liminar, os procuradores da
Rep6blica Felfcio Pontes Jdnior e Ubira-
tan Cazetta esperam agora o definitive
cancelamento da matricula, registro e
averbaqces existentes no Cart6rio de
Registro de Im6veis de Altamira referen-
tes a Fazenda Curua. Querem tamb6m
que a Incenxil indenize pelos danos mo-
rais causados a coletividade e faqa a re-
composiqao do meio ambiente degrada-
do na area, tamb6m as suas custas.
Essa primeira decision certamente in-
fluird sobre a apreciaqco judicial de duas
outras aq6es em tramitaqdo contra o mes-
mo grupo, referentes a mesma area. A
primeira foi proposta na comarca de Alta-
mira pelo Instituto de Terras do Para (Iter-
pa), em 1996, pedindo tamb6m a anula-
9ao e o cancelamento dos registros e aver-
bac6es existentes no cart6rio de im6veis
local. Depois de uma tumultuada tramita-
cao pela justiqa estadual, essa acao foi
desaforada para a justica federal.
A segunda acao foi ajuizada em 2003
pelo MP Federal na subsecao da Justica
Federal em Santar6m. Ela trata da res-
ponsabilidade criminal de sete pessoas,
entire titulares da Incenxil e oficiais do
cart6rio de Altamira, acusados de come-
ter o crime de falsidade ideol6gica que
deu origem a grilagem.
No seu despacho pioneiro, o juiz Fa-
biano Verli tamb6m determinou "a ces-


saqdo de toda eventual utilizaqdo indevi-
da de forqa policial military em beneficio
de interesses especiais da Incenxil, de-
vendo a autoridade policial comunicar a
este Juizo qualquer media de forca to-
mada em beneficio da Incenxil, sem que
isto implique a impossibilidade de acoes
de urgencia". A PM do Para foi acusada
de dar cobertura illegal a empresa, que
exerce o control de toda a area como
se efetivamente fosse sua, atuando como
se fora seguranqa privada.
A decisao do membro do poder judi-
ciario federal tamb6m cria um contrast
acusador diante da atuaqio do poderju-
diciario estadual. Nas varias esferas da
justica do Para, Cecilio do Rego Almei-
da, pessoalmente ou por suas empresas
e prepostos, tern obtido decisdes favora-
veis, as mais importantes das quais fo-
ram concedidas pelos desembargadores
Joao Alberto Paiva (atualmente aposen-
tado) e Maria do C6u Cabral Duarte.
Ambos entraram corn agoes contra
mim, alegando terem sofrido ofensa mo-
ral, supostamente contida em mat6rias
que escrevi sobre as grilagens do grupo
C. R. Almeida. Nessas reportagens dis-
se palavras e afirmei fatos que agora
constam do despacho esclarecedor do
juiz federal de Santar6m. Se fosse um
cidadao comum, sem as garantias decor-
rentes do exercicio da tutela jurisdicio-
nal, Fabiano Verli talvez estivesse amar-
gando a condenacio que sofri na 16'" vara
penal de Bel6m, em queixa-crime, corn
base na lei de imprensa (de 1967), pro-
posta pelo ex-desembargador Joao Al-
berto Paiva. Ou a condenacio mais re-
cente, que me foi imposta no final deju-
nho pelo juiz Amflcar Guimaraes, pelo
crime de aplicar a expresso "pirata fun-
diario" ao impoluto cidadao Cecilio do
Rego Almeida. Ou teria que se sujeitar a
nove ages, civeis e criminals, como as
que foram interpostas contra mim em
funqdo das seguidas mat6rias que escre-
vi neste journal em defesa do patrimonio
pdblico e contra um verdadeiro grileiro, o
mais audacioso de todos, conforme o re-
conhecimento do juiz da subsecao da Jus-
tica Federal em Santar6m.
0 doutor Fabiano Verli quebrou uma
cadeia de omissoes e conivencias, que
se tern mantido em diversas instiancias
do poder pdblico em relaqdo a essa grila-
gem, do tamanho de dois pauses europeus
poderosos (B61lgica e Holanda), consti-
tuidajad ha 10 anos. Esperemos que corn
essa reversao a justica, finalmente, se
estabeleqa, contra a pirataria fundiaria no
Para. E nao contra os que combatemrn
esses pirates.


Jornal Pessoal 2QUINZENA JULHO DE 2005 3








LUCRO
Quern faturou, no Brasil, 17 bilh6es de
reais no primeiro semestre deste ano? 0
nimero de privilegiados dessa categoria
cabe nos dedos de uma 6nica mao.
Quern, sobre esse faturamento bruto,
obteve lucro liquid de R$ 5,1 bilhoes?
Talvez nem os bancos, os grandes privi-
legiados,juntamente corn certo grupo de
exportadores, pelo "modelo" de fazer
crescer o pais que os tucanos montaram
e os petistas continuaram, fielmente.
Pois a Companhia Vale do Rio Doce,
no seu 80 exercicio como empresa priva-
tizada, conseguiu bisar o feito, amplian-
do-o ainda mais. De cada R$ 3,5 que fa-
turou, um real foi parar livre e desim-
pedido no cofre da empresa, pronto
para ser reinvestido ou distribuido aos seus
acionistas, na forma de dividends sobre
o lucro liquido.
E uma espiral de ganhos, como talvez
jamais tenha sido experimentado no Bra-
sil. Espiral em pleno andarnento. Se os
ntirneros de todo o sernestre forarn ex-
cepcionais, na metade desse periodo, isto
6, no 2' trimestre do ano, forarn ainda
melhores: o lucro liquido bateu um novo
record para esse period, atingindo R$
3,5 bilh6es, urn aumento de nada menos
do que 106% sobre o lucro de R$ 1,7 bi-
lhio apurado em igual trimestre de 2004,
que ja fora notivel.
A empresa se consolidou, assim, corno
a maior exportadora do pais (3,3 bilhoes
de d6lares no semestre e US$ 6,1 bilh6es
nos dtitimos 12 meses), responsivel por
quase 15% (ou US$ 2,3 bilhoes no se-
mestre) do superdvit record alcanqado
pelo Brasil no seu com6rcio exterior (de
quase US$ 20 bilh6es).
Mesmo corn um volume desse porte,
a Vale manteve o seu perfil de estatal:
os minerals ferrosos mindrio de ferro,
pelotas, manganes e ferro ligas conti-
nuam a ser a sua especialidade. Mas
como tern investido maciqamente na ex-
pansao da produqao, favorecendo-se por
isso dos preqos excepcionalmente altos
do min6rio (reajustados em 86% nos con-
tratos em vigor), a participaqdo dos fer-
rosos foi responsavel por quase 70% da
sua receita total. Ainda assim, os produ-
tos da cadeia do aluminio entraram corn
11,5%, superando os servigos de logisti-
ca, que responderam por 9,2%. E o co-
bre de Carajds, corn 2,5% do faturamen-
to, chegou para ficar e se expandir rapi-
damente nas contas da CVRD ao long
dos pr6ximos anos.
0 principal mercado ainda 6 a Europa,
que contribuiu corn mais de 28% da re-
ceita da empresa. Mas a Asia, corn quase
26%, esti logo atris (sob a lideranqa da
China, corn 11,5% do total). 0 mercado
interno representou 24% das vendas.


Fantasma ativo


Logo depois de ser empossado como
president do Tribunal de Justiqa do Estado,
o desembargador Milton Nobre tomou uma
providencia, que estejornal vinha cobrando
ha anos: que os prepostos do suposto fazen-
deiro Carlos Medeiros fossem obrigados a
apresentar seu constituinte em came e osso,
sob pena de terem seus poderes desconsti-
tuidos ou, pelo menos, questionados. E pa-
garem o preco pela falsidade ideol6gica, den-
tre outros delitos capituliveis.
Todos sabem, inclusive os advogados
de Carlos Medeiros, que esse cidadao ndo
existe, 6 um fantasma utilitario inventado
por uma quadrilha. Mas continuamrn a con-
duzir essa nau como se o mar fosse de al-
mirante. Seus processes estao a tramitar e
seus interesses a receber patrocinio, sem
que se execute a determinagio anunciada
pelo president do TJE, de apresentaqdo
do personagem principal.
Agora a novela tern um novo desdo-
bramento com o inventario dos bens deixa-
dos por um dos integrantes da quadrilha de
Carlos Medeiros, o dito fazendeiro Marin-
nho Gomes de Figueiredo, que morreu su-
bitamente num hotel de Bel6m cinco anos
atrAis. 0 esp6lio deve incluir parte das ter-
ras pretensamente adquiridas por Marinho
de Carlos Medeiros. Um dos incidents
processuais estava para ser apreciado, mas
foi retirado de pauta, na semana passada.
Pelo visto, fantasma fundirio continue a
perambular, livre e solto, pelos corredores
forenses, atrav6s de seus representantes.
Sem precisar se materializar ou, diante des-
sa impossibilidade, serobrigado a revelar sua
identidade ficticia e ser desmascarado de vez.
A farsajd completou sua primeira d6cada.
Quosque tandem?

SOLIDARIEDADE
Por unanimidade, aAssembl6ia Legisla-
tiva do Estado aprovou um requerimento
apresentado pela deputada Araceli Le-
mos, do PT, de protest contra a conde-
naqao que me imp6s ojuiz da la vara ci-
vel de Bel6m, Amilcar Guimaries. Res-
pondendo pela 4' vara, numa interinida-
de que devia ser de quatro dias, mas, de


Para gerar esses resultados, a produ-
qdo cresceu mais de 11% em relaqdo ao
primeiro semestre do ano passado, ultra-
passando 120 milhoes de toneladas de
mindrio de ferro e pelotas. E af que a pre-
senqa chinesa mais de destaca, represen-
tando 20% das vendas do principal pro-
duto da Vale (para o Japdo vdo pouco
mais de 10%). Mas, em conjunto, a Eu-
ropa ainda e a maior client, corn 32%.


fato, se restringiu a um inico dia, ele deu
ganho de causa ao empreiteiro Cecillo
Rego deAlmeida, que moveu contra mim,
em 2000, uma acio de indenizacio por
dano moral. Alegando que ofendi o autor
da agco, por chami-lo de "pirata fundid-
rio", o juiz me condenou a pagar-lhe 8
mil reais de indenizacio, mais os juros e
as despesas processuais havidos nos 61-
timos cinco anos, tempo de tramitaqdo
do process at6 agora.
Em seu pronunciamento no plendrio da
AL, Araceli Lemos disse que tal conde-
naqio "6 um absurdo", ji que meu artigo
"nao fugiu da realidade"ji constatada nos
casos de grilagem de terras no Estado.
Lembrou que "os pr6prios deputados des-
ta casa" tentaram instalar uma Comissiao
Parlamentar de Inqu6rito para apurar os
mesmos fatos, "justamente tendo como
base a figure de Cecflio de Almeida".
Segundo o relate jornalistico da ses-
sao, tamb6m o deputado Arnaldo Jordy
(do PPS) manifestou sua "revolta e in-
dignaqio" contra a sentenqa dojuizAmil-
car Guimaries. "Em qualquer lugar do
mundo uma decisdo dessa seria conside-
rada uma piada", disse Jordy. Ele pediu
ao president do legislative estadual,
Mario Couto (do PSDB) a formaqio de
uma comissao de deputados para pedir
explicaq6es ao president do Tribunal de
Justiga do Estado, Milton Nobre.
A deputada Sandra Batista (do PC do
B) voltou a falar da CPI que seria instala-
da para investigar a grilagem da C. R.
Almeida, a partir de fatos que levaram o
pr6prio Instituto de Terras do Para (Iter-
pa) a proper uma acio de cancelamento
e anulaqio dos registros imobiliArios deti-
dos pela empresa. Destacou ainda que o
governor federal tamb6m ji se manifesta-
ra indiretamente contra a pretensdo, ao
decidir criar reserves ecol6gicas na mes-
ma regido pretendida pelo empresirio. 0
Jornal Pessoal, segundo a deputada,
"apenas deu 8nfase ao que pensa a socie-
dade em geral sobre o caso".
Depois das manifestaq5es, o reque-
rimento foi aprovado por unanimidade
no dia 16.


Nessa corrida, at6 o final da d6cada
a ferrovia de Carajds, concebida para a
transportar at6 25 milh6es de toneladas
anuais, atingirAi 100 milh6es de toneladas.
Dentro de dois anos por ela estardi pas-
sando o maior trem do mundo, corn 3,6
quilometros de extensdo. Ele darA a sen-
saqo de que um mundo de riquezas na-
turais sera transferido da Amazonia para
outros continents em cada viagem.


4 AGOSTO DE 2005 2 QUINZENA Jornail Pessoal









Os problems deles, hoje,


serao Os nossos, amanha.?


Brasil e China comegaram a cruzar
seus caminhos no final do s6culo XX. A
primeira d6cada do s6culo XXI ainda nao
terminou e os chineses ja sdo os maiores
parceiros do Brasil na Asia. Superararn
a posigdo que o Japao conquistou nos
anos 70 do s6culo passado.
Nessa d6cada, os japoneses foram
colocados diante do maior desafio des-
de o final da Segunda Guerra Mundial:
como sobreviver ao abalo do primeiro
choque do petr6leo? A resposta veio
atravds do fechamento da indistria ele-
trointensiva, sobretudo do alumfnio, e da
transferencia de fontes de suprimento
de mat6rias primas, como o min6rio de
ferro, para outros pafses.
O Brasil foi um dos mercados ultra-
marinos que tornou possivel ao Japao se
adaptar a uma energia mais cara e tdo
escassa em seu pr6prio territ6rio. 0 "mi-
lagre" brasileiro, baseado em poupanca
externa e financiamento estatal, esteve
conectado ao milagre japones, fundado
numa empreitada comum entire o gover-
no, a iniciativa privada e a sociedade,
corn base em poupanga internal real.
Como a hist6ria costumrna ser ir6nica, o
operator dessa faganha do lado brasi-
leiro era um nissei, o ministry de Minas
e Energia Shigeaki Ueki (hoje, um dis-
creto milionArio). Seu chefe (e "pai"
adotivo) era um filho de alemaes, o pre-
sidente-general Ernesto Geisel.
O capital japones se espraiou pelo
vasto territ6rio brasileiro, mas sua mais
expressive incursdo foi na Amaz6nia.
Especificamente, no seu coragdo me-
talico, a provincia mineral de CarajAs,
e na sua art6ria de aluminio, o p6lo de
Barcarena, sempre no Pard. Nessa
possessao, os japoneses deslocaram os
americanos da secular po-
siqdo de hegemonia que
desfrutavam. De CarajAs e
de Barcarena passaram a
sair 15% do suprimento de
min6rio de ferro e de alu-
minio do Japao, a um pre-
go melhor do que o interno
e o dos fornecedores mais
pr6ximos A poderosa ilha i
asiatica.
A China usou o mesmo
caminho. Diante do seu ta-
manho, era de se esperar
que logo estivesse A frente
do Japao e, quern sabe, de
qualquer outro parceiro in-

Jornal Pessoal 2QUINZENA JULHODE2005


ternacional do Brasil. Como o Japdo, a
China tern sua estrat6gia de abordagem.
Devia encontrar, no pafs foraneo (ou
outland), uma estrat6gia de recepqdo.
Ela existe, 6 claro. Mas nao 6 complete,
nem satisfat6ria. Existe por provocago,
por in6rcia ou por interesse localizado.
Como consequiencia da privatizacqo doi-
divanas do governor Fernando Henrique
Cardoso, a political pdblica se reduziu as
political empresariais ou, no maximo,
setoriais, corporativas.
A razdo da investida chinesa, como a
japonesa, 6 a violent demand por ma-
t6rias primas e a necessidade de deslo-
car processes produtivos eletrointensivos.
Nao surpreende que os locais de atendi-
mento dessas necessidades se pareamrn
cada vez mais ao pafs demandador des-
ses bens. A maneira do belo fado de
Chico Buarque e Ruy Guerra, o Pard -
locus preferencial e a Amaz6nia (e o
Brasil tamb6m, naturalmente) vao incor-
porando os problems provocados pela
atividade produtiva, que diminuem na
potencia de al6m-mar.
Hoje, um terqo da area continental da
China apresenta condiges atmosfdricas
insatisfat6rias, corn concentrates de
estados criticos em vArias provincias. A
poluicao 6 causada, principalmente, pela
queima de carvdo mineral, ainda a prin-
cipal fonte de energia do pafs (e que tal-
vez ainda ocupe essa posigao pelos pr6-
ximos anos, mesmo quando entrar em
funcionamento a maior hidrel6trica do
mundo, a de Tr8s Gargantas, 30% maior
do que Itaipu).
Neste ano, 2.800 pessoas ja morre-
ram soterradas nas profundas minas de
carvao. Outras centenas ainda morre-
raio at6 o final do ano. 0 ndmero maca-


/I1


bro se renova anualmente. Os chineses
parecem admitir, diante de sua popula-
gdo de 1,2 bilhdo de habitantes, ser esse
um prego razoavel a pagar para ter ener-
gia. 0 outro 6 despachar parte do pro-
blema para os pafses desejosos de ven-
der para a China.
O Brasil esti, afoito, na cabeqa da fila.
0 IBGE constatou, no mes passado, que
dois terqos dos 5.560 municipios brasilei-
ros enfrentam poluiqdo, originada, sobre-
tudo, da queima de massa vegetal. Dos
1.545 focos de fogo registrados num dni-
co dia (3 deste mes) pelo sat6lite meteo-
rol6gico americano NOAA-12, nos 13
pafses do continent sul-americano, 73%
se localizavam no Brasil. Mesmo os Es-
tados que jd nao contain corn cobertura
florestal expressive nao estdo se impor-
tando muito em perder o que resta das
suas matas, se esse for o prego do que
chamam de desenvolvimento. Sdo Paulo
6 um desses Estados. As queimadas fo-
ram incrementadas na terra dos bandei-
rantes no primeiro semrnestre do ano. Em
uma proporgdo menor de unidades fede-
rativas isso aconteceu. 0 Pard foi uma
dessas mal6ficas exceqoes.
Os focos de fogo se expandiram em
mais de 60% no Estado no primeiro se-
mestre (de 4,5 mil para7,2 mil), enquan-
to diminufram nos demais Estados ama-
z6nicos e brasileiros (de 43,6 mil no ano
passado para 32,3 mil focos agora). Em
parte por iniciativas como a do fazendei-
ro de OurilAndia do Norte, que simples-
mente tocou fogo em 9 mil hectares para
former pastos (ver Jornal Pessoal n"
350). Em parte, por acidentes. 0 mais
grave deles ocorreu justamente em Ca-
rajds, a mina quase cativa de japoneses
e chineses. Um acidente, 6 verdade, mas
cada vez mais previsivel. Repelido por
alguns, desejado por outros.
A avaliacqo official do Corpo de Bom-
beiros 6 de que o primeiro incendio des-
te ano na Floresta Nacional de Carajas,
em Parauapebas, atingiu 100 hectares.
O calculo feito por Viviane Lassman,
chefe da Flona, foi ao dobro: 200 hecta-
res. 0 fogo foi considerado
controlado na semana passa-
da, quando recrudesceu, atin-
gindo, at6 a ediqdo deste jor-
nal, mais 100 hectares. As
brasas que resistiram ao tra-
balho de rescaldo desencade-
aram novo inc6ndio.
A operagio de combat As
chamas tera que continuar, cui-
8- dadosa e eficientemente, por
mais algum tempo do que o
previsto. Felizmente a destrui-
gdo parece nao ter atingido a
floresta mais densa, como

c o I .............. I ............ ..
CONTINUE NA PA6 6







CONTINUAAO DAPAG.S
ocorreu em 2003, tamb6m em agosto,
quando o incendio consumiu 550 hecta-
res da Flona de Carajas.
Corn seus 325 mil hectares, essa flo-
resta national ainda 6 um oasis verde
diante da paisagem dominante ao re-
dor. As fazendas e os assentamentos
rurais colocaram abaixo aquele belo
cendrio, que dominava os vales do Ita-
caiinas e do Parauapebas, quando o
acesso a Serra s6 podia ser feito de
avido, durante o verao, ou serpentean-
do pelos rios, nas cheias. Hoje, a re-
gido parece-se muito mais ao Planalto
Central do que A Amazonia. Deixou de
ser hil6ia, virou sertao.
Um sertaio no qual os pastos das fa-
zendas se sucedem, como se a expan-
sdo da fronteira national homogenei-
zasse tudo, do Oiapoque ao Chuf. Mas
para o observador atento aquelas on-
dulaqbes continues, das quais Carajis
6 a mais destacada, advertem que logo
estario se agravando problems que
comeqam a surgir: evaporaqdo de agua
superficial, aprofundamento da agua
subterranea, compactaqdo do solo, ero-
sdo, pragas, estiagens mais prolonga-
das, desequilfbrio hidrico, etc. E pouco
provivel que a natureza, em acomoda-
qao de milenios, entregard sem reaqdo
o seu patrim6nio, dilapidado pelas en-
genhosas sa6vas humans.
0 brasileiro trata a Amaz6nia corn a
mesma inconsciencia que o leva a apos-
tar todas as suas fichas no fausto atual
das commodities, como se seus preqos
se tivessemrn nivelado pelo alto e pudes-
sem ser controlados pelos que produzem
esses bens, sem o risco de queda. 0
boom em que se encontram os vendedo-
res 6 realmente de impressionar. Os re-
cordes de produqdo de min6rio de ferro,
ferro gusa, alumina, alumfnio, bauxita e,
daqui a pouco, places de ago podem se
combinar corn grandes melhorias nos
seus precos, mas esse e um process
dominado ainda pelos compradores.
Se eles estiverem dispostos a ceder
mais do que os an6is, uma nova divisAo
de riqueza pode ocorrer. Mas se conse-
guirem manter os cord6is da comerciali-
zaqdo, o future poderd reservar desagra-
ddveis surpresas. Algumas das quais,
como a deterioraqdo ambiental e a ten-
sdo social, jd se estabeleceram na region,
como cavalos de Tr6ia.
A bela floresta de Carajas, como
uma Helena metamorfoseada, ndo tern
emrn sua defesa, nesta legend adapta-
da, os meios proporcionais aos da ame-
aqa. Por isso, sua beleza se manifesta
como algo destinado inexoravelmente
a desaparecer, como tudo mais que ain-
da 6 Amazonia neste insano projeto de
savana tropical.


Pujanga do agronegocio:


um domino em mudanga


Dos 10 municipios que estao se
tornando os novos p6los do
agroneg6cio no Brasil, segundo a
6ltima ediqao de Exame, metade se
localiza na Amazonia. 0 sexto de
maior potential, o unico do Pard na
lista, 6 Santar6m, o municipio de
maior populaqdo dentre os 10
selecionados pela revista da
Editora Abril.
A causa do destaque dado pela
publicaqo 6 o porto graneleiro
construido pela multinational
americana Cargill, que "tern
incentivado o plantio de graos na
regiao". Santar6m 6 o maior
produtor paraense de arroz e
tamb6m tern expandido as cultures
de milho e soja, al6m da criacao de
gado. A anAlise sobre esses p6los
se baseia principalmente no valor
da exportaqdo, que em Santar6m
foi de 55 milh6es de d6lares no ano
passado. No entanto, houve um
decr6scimo de 26% em relaqio a
2003. Santar6m, alias, foi o 6nico
dos 10 pdlos a apresentar queda de
faturamento corn a venda de
produtos agropecuarios para o
exterior. Todos os outros
experimentaram crescimento.
Os outros municipios da
Amaz6nia Legal arrolados sao
Primavera do Oeste (30 lugar) e
Sorriso (90), em Mato Grosso;
Balsas (20), no Maranhdo, e
Vilhena (70), em Rond6nia. Como a
participaqo atual da regiao no
agroneg6cio brasileiro como urn
todo 6 minima, esses p6los deverao
crescer nos pr6ximos anos como
parte de uma frente economic que
se expand principalmente devido a
busca de novas areas para o
cultivo de soja.
O municipio de Sorriso, em
Mato Grosso, foi o maior produtor
de soja do pais na safra do ano
passado, colhendo 3,4% do total, e
o 40 maior produtor de milho. No
entanto, dos seis maiores
esmagadores de soja do Brasil,
cinco se situam na capital de Sao
Paulo. Das 10 maiores fibricas de
soja, nenhuma fica na Amaz6nia.
Essa disposiqdo espacial diz muito
sobre quern ganha mais nessa
cadeia produtiva.


A situaqdo se reproduz
internacionalmente: embora
respond por um quarto da
producao mundial de soja, o Brasil
s6 tern 15% da capacidade de
processamento do grao. A taxa de
crescimento annual da producao, de
5%, 6 inferior a de processamento,
de 7%. Na China esses nrmeros
sao de 5% e 18%, respectivamente.
E na vizinha Argentina, de 11% e
10%. A persistirem esses numerous,
a Amaz6nia internamente e o Brasil
internacionalmente, ficario corn
peso maior no inicio do process e
nio no fim, como conviria.
A leitura dessa edicao especial
de Exame deixa bemrn ntida a
sensaqao de desnacionalizaqdo do
agroneg6cio. Das 10 maiores
empresas do setor, apenas uma, a
Sadia, 6 brasileira, no 90 lugar (corn
2,7 bilh6es de d6lares contra US$ 7
bilh6es da lider, a CBB/Ambev,
brasileira s6 na propaganda, belga
na essencia). Em segundo lugar,
mas a primeira a produzir alimentos
(US$ 5,4 bilh6es), 6 a Bunge, de
Bermudas.
Mesmo no traditional setor
cafeeiro, a lider, hoje, 6 a
americana Sara Lee, corn 20% do
mercado. Das 10 primeiras, apenas
seis sao brasileiras, mas elas detem
23% do mercado, contra 28% das
quatro maiores estrangeiras. 0
caf6, dominant tempos atrAs,
atualmente contribui corn apenas
5,2% da pauta de exportacao do
agroneg6cio, em mais de um quarto
do seu valor dependent da soja.
Da Amaz6nia, a unica empresa
corn presenqa setorial 6 a Janrf, a 9a
maior produtora de celulose do
Brasil, corn 341 mil toneladas (3,7%
do mercado), muito distant da lider,
a Aracruz Celulose, corn 2,2
milhoes de toneladas (ou um quarto
do total national). Mas das 10
lideres desse setor, quatro ji estdo
sob control estrangeiro, inclusive a
6nica fdbrica de papel de imprensa
em atividade no pais, a antiga Pisa,
hoje de propriedade da norueguesa
Norsk Skog.
E assimni que cresce o gigante
pela pr6pria natureza: cada vez
menos dono da sua natureza.


6 AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornial Pessoal









Os riscos do future e o enigma de Lula


Quern compareceu ao
"comicio das reformss, re-
alizado no Rio de Janeiro,
em 13 de marqo de 1964,
sup6s que o president Joao
Goulart estava mais forte do '
que nunca. Quem acompa-
nhou sua incursao i assem- L-
bl6ia geral dos marinheiros,
na sede do Autom6vel Clu-
be do Rio, duas sernanas
depois, podia muito bem ima-
ginar que Jango estava corn-
pletamente perdido, ou en-
tao acreditava em duendes _
(como os do "dispositivo mi- ;f
litar" do general Argemiro
Assis Brasil). No dia se-
guinte o president comeqava a cair.
Em 24 horas mais entregava os pontos
e partia para o Uruguai, corn escala em
Porto Alegre. S6 voltaria do auto-exi-
lio como cadaver.
Quern participou da marcha dos 100
mil", no centro do mesmo Rio de Janei-
ro, em rnaio de 1968, pensou que os es-
tudantes realmente eram os novos par-
teiros da hist6ria. Nada mais tendo a per-
der, ao contririo dos operdrios, eles ar-
riscariam tudo para colocar abaixo a di-
tadura, restabelecendo a democracia e,
quem sabe, at6 podendo fazer chegar
finalmente o socialismo ao solo do Bra-
sil. Mas o dobre de finados teve outro
autor, em 13 de dezembro daquele ano.
Corn a ediqio do AI-5, o que era uma
ditadura envergonhada se assumiu por
inteiro como tirania, no que viria a ser
"os anos de chumbo".
Os "sinais dos tempos" as vezes sao
fluidos, enganadores. Ha novos sinais no
ar, como nessas duas situa6es anterio-
res. 0 president Luiz Inacio Lula da
Silva, por convicqdo pr6pria e sugestao
de seus "conselheiros", parece desilu-
dido da possibilidade de restabelecer,
atrav6s de negociaqdo political, um po-
der que, atrav6s dos mesmos instrumen-
tos, antes tentara fortalecer ao maximo,
simplesmente (e literalmente) compran-
do apoios. Sem uma "volta por cima",
sua presidencia esta moribunda. Sobre-
viveri at6 o final do mandate por estra-
t6gia dos seus inimigos.
Mas Lula nao cede os pontos. Ele
nao quer s6 sobreviver. Pretende dispu-
tar um segundo mandato. Para isso, pre-
cisa preservar as fontes do seu caris-
ma, que ainda lhe dao aprovaqdo popu-
lar: ser considerado um homern hones-
to, simples, igual ao brasileiro comum,
defensor dos pobres e humildes, que,
apesar de tudo, esti empenhado em


transformar o Brasil num pais mais jus-
to, mais favoravel aos necessitados.
0 caminho da salvaqao seria colocar
o povo nas ruas, mobilizar manifestacqes
de massa em seu apoio, advertindo os
golpistas, que sempre ternm abrigo em ga-
binetesjuridicos e quart6is, de que o pre-
sidente 6 tao "pai dos pobres" quanto o
foi Gettlio Vargas.
Getdlio, alias, na 6ltima das situac6es
adversas que enfrentou, preferiu nao ten-
tar mais uma de suas insuperiveis arti-
manhas. Nao tinha mais energia para tan-
to, nem apoio popular, conv6m acrescen-
tar. A uma iniciativa radical de resisten-
cia preferiu acertar as contas diretamente
corn a hist6ria e se suicidou. Ao plano
pelo qual optou nenhum dos seus inimi-
gos tinha tutano para chegar. Eles desa-
pareceram na poeira do tempo, mesmo
os mais notaveis. Getdlio se imortalizou.
Lula nao tern essa grandeza, mas ain-
da tern uma margem de apoio popular
capaz de impressionar diante do mar de
lama no qual chapinha no Planalto & ar-
redores. Lidas em suas sutilezas e fili-
granas, por6m, as pesquisas de opiniao
sugerem que essa resistente simpatia do
povo para corn o president eleito corn
53 milh6es de votos pode ter desfaleci-
mento s6bito. Existe hoje, pode evaporar
amanha. De que forma?
Em sa consciencia, 6 muito dificil pre-
ver, tantas sao as variaveis em jogo, so-
bretudo as subjetivas. As andlises conti-
nuam a ser feitas nos segments mais
ruidosos da populaqao, os que aparecem
e se fazem ouvir. Quando as ditas cama-
das C, D e E entram em jogo, percebe-
se que sao pouco conhecidas, pratica-
mente uma inc6gnita.
Elas ap6iam o president porque ig-
noram completamente os fatos. Quando
deles tiverem noticia, mudarao de opiniao.
E o que dizem os analistas de algibeira, a


base de um empirismo que
Sdispensa arealidade, por mais
-'1' que pareqa paradoxal.
Essas pessoas, que ternm
tao pouco para sobreviver na
Sguerra de todos os dias pela
i5 ~ existencia, estariam tendo
esse pouco fornecido pelas
estruturas clientelistas do go-
verno, produtos criados tan-
to pela administraqao Lula
3 como por ela herdados de
z political sociais anteriores.
mnx Renda, por menor que seja,
esta sendo paga pelo gover-
no a dezenas e dezenas de
milhares de families, que
tamb6m tem acesso a algum
tipo de alimentaqao e a um service de
sadde um tanto mais eficiente.
Se chamadas a ir as ruas, mesmo que
ao toque de ordem unida das manifesta-
6es "espontineas", corn transport gra-
tuito e arregimentagao corporativa, elas
estariam dispostas a proteger o presiden-
te-companheiro das rasteiras de uma eli-
te predadora, insaciavel. Em tese, talvez.
Tal elite, contudo, s6 fez crescer nos dois
anos e meio da administration Lula, que
a ela cada vez mais se assemelha. 0 pre-
sidente teria qualidades suficientes de
coringa para partilhar o perfil de dono do
jatao official e marmiteiro (que, a rigor, ja
nem mais existe, obrigado agora a co-
mer as porcarias industrials de rua, que
substituiram a comida caseira da mulher-
zinha, hoje tamb6m no batente, dessa for-
ma se sujeitando ao teor de gordura que
mascara a fomrne aberta corn a fome fun-
cional, ai semelhanqa do que aconteceu
corn o analfabetismo)?
Esta 6 a grande duvida. Claro que
Lula nao 6 Collor. Por isso nao esta (ou
ainda nao esta) sujeito a ver sua convo-
caqao de caras-pintadas se transmutar
em ritual de morte, como aconteceu corn
o caqador de marajis das Alagoas. Mas
nao esta muito long das ilus6es de Joao
Goulart, 40 anos atrds. Por isso, preci-
saria ter uma andlise bem realistica da
situaqdo antes de mexer a pr6xima peqa
nojogo de xadrez, sujeito a chuvas e tro-
voadas, no qual a political brasileira se
transformou. Mas quem nao se vexa de
proclamar inoc6ncia absolute, baseada
na ignorancia cega, esti capacitado a
ver o que vai pelo mundo, como se anun-
ciava aquele telejornal cinematogrifico
de d6cadas atras?
Shakespeare, se vivo fosse, bem que
gostaria de criar uma peqa corn essa res-
posta para o drama (ou trag6dia) A brasi-
leira, que se avizinha grave.


Jornal Pessoal 2QUINZENA JULHO DE 2005 7









Justiga: luz da esperanga ou espelho da distorgaio


Certa vez, acompanhando a tramita-
qdo de um dos muitos processes na justi-
9a, verifiquei que ele fora distribuido equi-
vocadamente. Como a remessa acabava
de ser feita, corrie para o gabinete do de-
sembargador ao qual a aqao fora destina-
da. Ao ver-me abrindo a porta, o magis-
trado saudou-me, satisfeito e aliviado:
Acabei de me declarar suspeito no
process, meu amigo. Ja mandei os au-
tos em frente.
Nao tive nem tempo de alerta-lo que a
aqdo era criminal. 0 desembargador inte-
grava uma das cdmaras civeis do Tribunal
de Justiga do Estado. Logo, nem precisava
se declarar impedido de atuar no feito por
motivo de foro intimo. Bastaria devolver o
process para nova redistribuiqao.
Ja vivi epis6dios parecidos como esse
em 13 anos de continue litigancia judicial
no foro de Bel6m, invariavelmente me
defendendo de ataques. 0 desembarga-
dor que suscitara sua suspeigao, ja apo-
sentado, me tratava muito bemrn e eu a
ele. E uma pessoa culta, amdvel, aplica-
da, ainda hoje. Mas nunca fui a sua casa.
Nosso bom relacionamento era ocasio-
nal, quando cruzdvamos nossos cami-
nhos, em regra nos corredores forenses.
Sempre evitei freqilentar pessoas que
nao fossem da minha real intimidade, mes-
mo antes de me tornar alvo preferencial
de petardos judiciais retaliat6rios, a par-
tir de 1992. A preocupacdo me poupava
de perder fontes, criar incompatibilidades
e provocar suscetibilidades.
Nunca fui A casa dessas pessoas mais
do que duas vezes, quando visitd-las se
tornava necessario. Foi o caso do desem-
bargador, ji falecido, Pedro Paulo Mar-
tins. Precisava consultd-lo sobre o pro-
cesso de desapropriaqdo da gleba Con-
ceiqdo do Aura, a ele submetido quando
juiz, por porovocagdo de uma a9ao po-
pular do advogado Paulo Lamarao, em
1984. Mas escrevi criticando o magistra-
do, que reconheceu a procedencia das
minhas criticas. Permanecemos no tipo
de relagio amigdvel que tenho mantido
corn alguns outros juizes e desembarga-
dores, num padrdo ainda em vigor. Ne-
nhum deles priva da minha intimidade, ou
vice-versa. Por isso, todos estdo em con-
diq6es de julgar as a95es de que sou par-
te sem qualquer constrangimento 6tico e
moral ou impedimento legal.
Mesmo assim, alguns ja se afastaram
da funqdo jurisdicional. Respeito-lhes a
decisdo. Mas tern havido o inverso: ma-
gistrados sem condiqoes de julgar impar-
cialmente as demands e que, ainda as-
sim, mantem-se A frente delas. Certa vez,
nto aceitando esse modo de proceder, re-


queri a realizaqdo de uma reunido secret
do Conselho da Magistratura para que
nela o desembargador apresentasse as
razoes de foro intimo que haviam provo-
cado sua auto-declarada suspeigdo (nes-
se process, mas nao em outro, anterior).
Acho que tanto o judiciario quanto o
Minist6rio Piblico deviam tomar rotineira
essa providencia: convocar sessdo do co-
legiado para receber as devidas explicaqCes
da parte de quern se afasta de processes
sob a alegaqdo de motive de foro intimo.
Sobretudo quando os processes sao gra-
ves e polemicos e a declaraqao 6 dada nao
de imediato, mas depois de passado certo
tempo, as vezes mais do que razodvel. Fre-
qilentemente, no limited do prazo legal para
que essa declaraqao seja feita.
Nao 6 raro que realmente umjuiz se veja
compelido a se afastar de process no qual
esteja litigando algu6m do qual seja amigo
ou inimigo, ou deles seja patrono advogado
de sua relagdo pessoal. Mas impression o
uso (e at6 o abuso) desse recurso como ar-
tificio contra as quest6es complexes, explo-
sivas, de repercussdo piblica. Os integran-
tes do poderjudiciario edo Minist6rio Pbli-
co nao podem nunca esquecer que sao, aci-
ma de tudo, servidores publicos. E o poder
pdblico que Ihes paga os vencimentos, con-


cede-lhes as condiqces de trabalho e lhes
assegura os beneficios do cargo.
Sou dos que acham que a corporaqdo
responsdvel pela tutelajurisdicional deve ter
as melhores condiq6es de trabalho dentre
todos os servidores da administraqdo pdbli-
ca. Ela tern que responder pelo maior de-
safio human: ojulgamento de terceiros. E
um poder de vida e morte, sem o onus que
a morte acarreta. Mas 6 inadmissivel que,
corn todas as regalias de que desfrutam,
juizes, desembargadores, promotores e pro-
curadores ignorem de onde v6mn esses be-
neficios e quern os legitirnam. Devemrn apli-
car a lei, mas num context no qual o ele-
mento principal 6 a causa p6blica, a defesa
dos interesses da sociedade, o estabeleci-
mento da verdade acima de tudo e contra
todos os que queremrn impor sua vontade
unilateral e seu usufruto exclusive.
Umajustiqa sem esse compromisso vira
um mandarinato. Seus privil6gios, tornados
ilegitimos, ternm que ser suprimidos. Ao in-
v6s de servirem de proteqdo aos persegui-
dos ou de afirmaqdo da causa piblica, tor-
nam-se fontes de iniquidades. Ndo sao mais
a luz que brilha por sobre a escuriddo da
opressao e da injustiqa, mas o espelho de
tais distorgoes. E nada, na vida social, 6
mais distorcido do que umajustiqa viciada.


Eletronorte: no Para por acaso?


At6 o moment em que Silas Rondeau
foi colocado na presidencia da Eletrobris,
em substituiqdo a Luis Pinguelli Rosa, no
ano passado, a presidencia da Eletronor-
te era um cargo de propriedade do sena-
dor Jos6 Sarney, do PMDB. Corn a va-
cancia, o PTB assumiu o control da es-
tatal, a terceira mais important do siste-
ma Eletrobras. Apadrinhado por Rober-
to Jefferson, do PTB do Rio de Janeiro,
Roberto Salmeron foi entronizado na pre-
sidencia da empresa, que atua na Ama-
zonia mas tern sua sede em Brasilia.
Ao mesmo tempo em que o padrinho
denunciava a existencia de um "mensalao"
de 30 mil reais pago pelo PT a sua base
parlamentar de apoio, o protegido entrega-
va sua carta de demissdo e passava o car-
go, interinamente, para o president do con-
selho de administraqdo da estatal e director
de Engenharia da Eletrobras, Valter Car-
deal, home de confianqa da ministry de
Minas e Energia, Dilma Rousseff.
Jefferson nao lamentou a perda: dis-
se que Salmeron era uma esp6cie de ra-
inha da Inglaterra. Quem de fato man-
dava na Eletronorte era e continue a
ser Adernar Palocci, irmdo do ministry


da Fazenda e director de Engenharia da
empresa, corn quem Dilma Rousseff pre-
feria despachar.
A participaqdo da Eletronorte na no-
vela dos escandalos nao cessaria af. 0
mesmo Roberto Jefferson denunciaria a
Centrals E16tricas do Norte como um dos
elos da conexao corn a Portugal Telecom,
maior empresa privada portuguesa e dona
da operadora de cellular Vivo, dentre ou-
tros ativos (num total de 7 bilhoes de d6-
lares) no Brasil. 0 IRB (Instituto de Res-
seguros do Brasil) destinaria US$ 100 mi-
lhoes de sua reserve de US$ 600 milh6es
no exterior para que a Eletronorte rees-
tatizasse a linha de transmissao de ener-
gia de Tucuruf para Vila do Conde e Be-
16m, atualmente sob control privado.
Numa das pontas dessa linha estd um
consumo que equivale a 2% da demand
de energia de todo o Brasil.
A dendncia surgiu e sumiu sem qual-
quer comentirio official. Mas 6 suficien-
temente grave para que algu6m do go-
verno se sinta obrigado a esclarec6-la.
Nao no Pari, ao que parece, embora es-
teja no Estado 80% de toda energia ge-
rada pela Eletronorte.


A AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoal









0 verdadeiro aincora do jornalismo na TV


Eu estava certa vez de passage por
Miami quando minha atenqdo foi atraf-
da para um grupo de pessoas barulhen-
tas. Logo percebi que eram jornalistas.
Caqavam uma celebridade que acabara
de desembarcar de um taxi e rumava
pelo lobby do hotel. Enquanto preen-
chia seus dados na recepqdo, era filma-
do e fotografado.
Ao virar-se na direqdo em que eu es-
tava, descobri de quem se tratava: era
Peter Jennings, ancora e editor-senior da
rede de televisao ABC. Para a imprensa
de Miami, a presenca de Jennings na ci-
dade era noticia. Comn certeza.
No meu pouco tempo de residencia nos
Estados Unidos, dois programs de TV me
eram obrigat6rios. Pela manha, Sesame
Street, minha melhor escola de ingles (se
desaprendi de lI para c6, o demdrito 6 meu).
A noite, o World News Tonight, noticidrio
que Jennings passou a comandar exatamen-
te em 1983, no ano em que comecei minha
temporada academic em Gainesville, no
extreme norte da Fl6rida, graqas a Marian-
ne Schmink e Charles Wood.
Peter Jennings morreu muito cedo, no
dia 7, aos 67 anos (a mesa idade de
Francisco Milani, uma semana depois, no
Brasil), tamb6m de cancer de pulmao,
quatro meses depois de revelar publica-
mente que estava corn a doenqa.
Tive o impulse de ir pedir-lhe aut6gra-
fo quando o vi no hotel. Mas jornalista 6
bicho reservado, nao deve ser persona-
gem. Se se torna um, no fundo, sai per-


dendo profissionalmente, mesmo que a
fama adoce sua vida (ou a azede de vez).
Jennings devia saber disso, emborajd nao
pudesse evitar a face de celebridade.
Conquistou popularidade no princi-
pal noticidrio da ABC por sua classes,
imagem e at6 pelo sotaque do ingles ca-
nadense. Mas tudo isso era cobertura.
Debaixo dessa camada de brilho havia
um jornalista para valer, reporter dos
bons, testado indmeras vezes, especi-
almente em dificeis coberturas interna-
cionais, desde a guerra do Vietnam, em
1972. Nao era Aincora por hipdrboles
verbais ou excursies tuteladas e cir-
cunstanciais a acontecimentos sob con-
trole, como os brasileiros dos noticidri-
os equivalentes.
Para os americanos, Walter Cronkite
continue a ser o jornalista de televised nd-
mero um, mas para meus padres Jennin-
gs era o melhor, acima dos seus concor-
rentes diretos, Tom Brokaw, da NBC, e
Dan Rather, da CBS. Todos agora estao
fora do ar e diz-se que uma era do jomrna-
lismo televisivo nos Estados Unidos aca-
bou. Concordo e estendo a afirmativa
ao Brasil. No auge do sucesso, Jennings
era acompanhado por 14 milh6es de pes-
soas. William Bonner e Fitima Bernardes
tern audiencia pelo menos quatro vezes
maior no Jornal Nacional (o dobro dos
tries ancoras americanos somados). Daf
os marqueteiros de Lula apelaremrn para a
desinformaqio ou a md informaqdo como
tdbua de salvaqdo para o client.


Profissionalmente, Bonner & Ber-
nardes nao suportariam a enfase de um
levantar de sobrancelha de Jennings, edi-
torializando a leitura de seu texto. Ele
sabia o que estava dizendo, independen-
temente do redator daquelas palavras e
da presenqa do teleprompter. Afinal, foi
um reporter estupendo. E o que faz a
diferenqa nojornalismo, espeticulos mi-
didticos a parte. Mas nao 6 mais o que
faz a carreira.
Ningudm mais parece disposto a pas-
sar anos nas ruas, em ruas do mundo
inteiro, onde fatos relevantes estejam
ocorrendo, para s6 depois brilhar na pol-
trona que magnetiza audiencias em ho-
ririo nobre. A maioria dos que ingres-
sam na escola e, em seguida, nas reda-
q6es, espera cair de pira-quedas nesse
trono, sem riscos.
A prop6sito: Peter Jennings nunca
freqientou uma escola dejornalismo.
Cursou-a, da graduaqdo ao ultra-p6s-
doutorado, nas virias empresas de
que participou, desde a mais tenra ida-
de (diz a lenda que foi locutor de rdi-
dio aos 9 anos), mas, especialmente,
na ABC, onde permaneceu por quase
50 anos, sem se vender ao patrao.
Para ser o que foi, safa constantemente
para as ruas, a verdadeira academia
dojornalismo.
Numa rua da distant e ignorada Be-
16m do Pari, um fiel e agradecido admi-
rador faz aqui seu minuto de silencio pela
mem6ria de Peter Jennings.


Eclusa, adeus
Um amigo me mandou imagens da Roda Falki-
rk, uma engenhosa invenqdo dos escoceses para
permitir a navegaqdo entire dois estudrios atrav6s
de canal artificial. A roda metAilica pode acomodar
de cada vez dois barcos de 4 metros por 20 de com-
primento, fazendo-os vencer um desnivel de mais
de 30 metros entire os dois pontos do canal. A ope-
raqao nao dura mais do que 15 minutes.
E uma maravilha. Mas uma via de incriminaqdo
aos que, como n6s, dispomos de vastos rios e dei-
xamo-los bloqueados, como acontece ha duas d6-
cadas corn o Tocantins, por falta de consciencia e
de poder decis6rio. As eclusas da barrage de Tu-
curuf nao serao mais concluidas no mandate do pre-
sidente Lula. Claro: nao foi isso o que ele disse.
Mas 6 o que se deduz de mais um (o endsimo) cor-
te de verbas decidido por Brasilia. A revelia do pre-
sidente, que prometeu arrematar a obra antes de
completar o quatrienio, mas ainda nem sabe que
nao ird cumprir mais um compromisso.
Resta-nos contemplar, corn admiraqdo e triste-
za, a Roda de Falkirk.


0 corretor tenor
A definiqao cabe na media de Azevedo Barbosa, mais conhecido como
"Dentinho": 6 uma figure. Para apresentd-lo, basta uma indicaqdo singela:
6 aquele vozeirao ali. Corn seu timbre tonitruante, nao sei por que ele usa
cellular. A propagaqdo natural de sua voz 6 mais poderosa, dispensando o
aparelho de telefonia. Impossivel, por isso, uma conversa discreta corn
ele. Atrai olhares por onde passa e nao estd nem af para o escarc6u que
provoca em torno. "Dentinho" bemrn que podia ser sin6nimo de multidio,
confusao, loucura.
S6 nao 6 porque por tris dessa legiao de um home s6 ha um profissi-
onal que contribuiu muito para consolidar o mercado imobilidrio de Bel6m,
a despeito de todas as aparencias em contrdrio. Talvez s6 a forqa dessa
aparencia tumultudria tenha adiado por tanto tempo um reconhecimento
que s6 agora ele recebe, depois de d6cadas na estrada: o verdadeira-
mente consultor de im6veis Azevedo Barbosa foi eleito o corretor do
ano, titulo que recebe neste dia 19, na velha sede daAssembl6ia Paraense.
Quando, dias atris, um publicitdrio envolvido na solenidade me trans-
feriu sua d6vida sobre onde a festa seria realizada, se na velha ou na
nova (ja velha, por sinal) sede da Assembl6ia Paraense, nem hesitei: na
primeira. Quern conhece o "Dentinho" sabe de imediato por que. Malu-
co-beleza ele 6, quando quer. Quando nao quer, 6 uma pessoa fiel a sua
hist6ria, ji longa e rica. Acrescida, agora, de um titulo que lhe chega
naturalmente, last but not least.


Jornal Pessoal *2QUINZENA JULHODE 2005 9









0memo a
eI07 mo.1a


do


CO TIDIANOC


Casamentos
Foi uma festa bonita a do 800 aniversario
de Anna Maria Malcher de Aradjo Mar-
tins, a criadora e dona do restaurant IA
em Casa, no mes passado, organizada
pelo seu filho e successor, o chef Paulo
Martins. Mas foi tamb6m urn grande
acontecimento o seu casamento, em 17
dejulho de 1945. Filha de Loris Olimpio
Correa de Aradjo e Edm6e Malcher de
Araijo, a graciosa senhorinha contraiu
ndpcias corn Mario Nicolau Leal Mar-
tins, filho do "extinto capitalist" (como
dizia o noticiario da 6poca) Jos6 Leal
Martins e Odete Vale Martins.
Paraninfaram a noiva no ato civil:
Sulpicio Ausier Bentes e esposa, Mdxi-
ma Martins Bentes; Jos6 Cunha (Laura)
da Gama Malcher e a mae do noivo. No
religioso: industrial Chami6 e esposa, Ly-
gia Araujo Chamid; Benedito Frade e


Agora,



BELEM-E.U.A. A




PEIA PAN A


Carn a now sTrvic a. Pan Amk.
V__e g-or todo o a-.%-ea
iato d, BEck. -.n .,N&.v Yorki
servindo tambim a Paramnanbo.
Georvrcown. Barbados AntiAbas I
0, lx..oos .os DCJ a Pan
Ameican proDoraoniamn maior ra-
pidce. malor nnfArto e niaor ca-o
panidade de cara.
A Pin Aeican Ie otorc mWol
,,anedde de rota& A -a e h.
-Et., dueias dc cotneoes oarm ou-
rio- aided.. do E.U.A- do C.n.d".
da Euroea e do Orienca.
TcruNco ainamente ceocrimentrdos
i ode O ploros aon mais dae 16
anon ade eoetrotnica eeeoceat seca
vic inmcediveL Voce vucla ser
osnd corn um w. ae vaor
i-ntumlvt: a EooritniicL.


I.


Greg6ria Lobato; Mario Sarmanho Mar-
tin e esposa, Otdvia Meira Martin.
0 casamento civil foi na residencia
dos pais da noiva, as 10 horas. 0 ato
religioso, na Basilica de Nazard, as 11
horas.
Uma semana antes, o advogado Aloy-
sio Chaves solicitou em casamento a se-
nhorinha Maria do Faro Freitas Lopes,
filha de Antonio eAlmeirinda Lopes, exa-
tamente no dia do aniversdrio da future
primeira dama do Estado. 0 governador,
senador, deputado federal, reitor ejuiz do
trabalho jd 6 falecido.

Contrabando
Acusado de ser contrabandista, o fran-
ces Jean Dupuis teve seu passaporte
cassado pelo Itamaraty. Mesmo assim,
continuava a fazer voos entire Bel6m e
Caiena, na Guiana Francesa. At6 que, em
novembrode 1958, sua
presenqa no aeropor-
to international de Val-
de-Cans ficou proibi-
,f*""^ ~ da. Fim de carreira
para o "rei do perfu-
& me" na capital do ta-
cacd? Nao exatamen-
te. Dupuis transferiu
sua base para Soure, na
I ^ ~ilha do Maraj6. De li
JATO passou a viajar para
Caiena, em busca dos
produtos que lhe da-
S vam fama e notorieda-
de.

S I, Cinema
Andncio de cinema
-- ==MMM ernem 1958:


Preertea Agcrie d' Via
gens, on a Pan Ameraicin
hoje metnio.
Peara ond quer q.e v
nijo, viaja mothor com a





A LINHA AREA
0E MiRc EXPRIENCIA
00 MUNDC


Desde que o Nazar6 comeqou a exi-
bir o "trailer" de "E Deus... criou a mu-
Iher", que uma onda de expectativa se
espalhou pela cidade... S6 se fala em
Brigitte Bardot. Toda a gente quer ver a
mais nova e mais ousada criaqdo da fa-
mosa "vederte" do cinema francGs. Pre-
ve-se, por isso, um sucesso espetacular
domingo a noite no "Nazar6".

Radio
Do program da Rddio Clube do Pard
em 6 de novembro de 1958:
As novelas "A semente do 6dio",
as 12h30 (patrocinio de Farroz), e "Os
quatro filhos", as 17h30 (gentileza de Y.
Yamada).
Mdrio Barradas comandava "A
Mdsica em Tres Tempos", as 10 hl5, fo-
calizando "um sucesso de ontem, o su-
cesso de hoje e o sucesso do future".
-A partir das 14hl5 (graqas a Marti-
ni Importadora de M6veis e A Automo-
bilista), "Uma vesperal para voce", apre-
sentada por Vicente Santos.
As 20h30 era a vez de "Ritmos da
Panair", present da empresa de avia-
cao.
0 Pdlace Hotel de Caxambu com-
parecia corn o "Caxambu, sol e sonho",
que, sob a direqio de Edgar Proenca,
dava passage a famosa soprano Hele-
na Nobre.
0 mesmo Edgar Proenca abria o
seu "Bau velho", o programa da sauda-
de e da recordagdo", corn a participation
do m6sico Joel Pereira. A Martini dava
seu patrocinio novamente.
No fim da noite entrava no ar o
"Programa da rede brasileira de radiodi-
fusao", juntando 43 emissoras portugue-
sas e 11 portuguesas, sob o comando da
Rddio Record de Sao Paulo.
E havia ainda o "Cartaz de espor-
tes", comandado por Edyr Proenca, corn
tries inserqoes: a uma da tarde "As pri-
meiras do esporte, o madximo de noticias
corn o minimo de palavras" (patrocinio
de Inglesinha); as 18h30, "0 cartaz es-
portivo", gentileza da Drogaria C6sar
Santos; e, as 10 da noite, "As ultimas do


PROPAGANDA

Cosmopolitismo
Vinte anos atrds era possivel ir de Bel6rn a Nova York. Era um
v6o dnico, no DC-8 da Pan-American, corn escalas em Paramari-
bo, Georgetown, Barbados e Antilhas. A linha foi inaugurada em
julho de 1964. 0 DC-8 era o jato mais rdpido da 6poca. A Pan-
Am, corn sua loja no t6rreo do Grande Hotel (telefone 4604), dava
um toque de cosmopolitismo i capital paraense.
Hoje, para viajar de Bel6m para os Estados Unidos, 6 preciso ir
a outras capitals, como Manaus, Rio de Janeiro e Sao Paulo. Um
verdadeiro retrocesso.


f10 AGOSTO DE 2005 2QUINZENA Jornal Pessoal


|AL^ I ALN EM HEL-ELLB
*ELPA i ANa HOTE TE.GA 0








. 1


b~L


esporte", uma resenha de Cinorte/Mer-
cearia Estrela.

Vendas
Mayer Obadia anunciava para venda em
sua loja, na Santo Ant6nio, produtos da
onda, como desodorante Lander, sabo-
nete ingles Pears e Yardley (marca de
brilhantina e talco), colonia Bond Street,
pedras para isqueiro Ronson, batons Aris-
tocrat e canetas Scripto, al6m de corpe-
tes, aniguas. combinaqies, meias renda-
das, etc.
Mais adiante, a Paris N'Am6rica co-
municava o recebimento de "novidades
em tecidos", como camurqa terflon,
shantung flamd, bianchine flame e radia,
tudo em "modernas cores".

Maternidade
As patronesses da Maternidade do Povo
realizavam, nos sales da Assembl6ia Pa-
raense, a 1a Exposiqio de Pintura destina-
da a arrecadar funds para a nascente ins-
tituiqdo. Os irmdos Mendonqa filmariam a
inauguraqdo e exibiriam o documentirio nos
principals cinemas da cidade. Chique.


Leiteiros
Em 1958 ainda havia leiteiros em quanti-
dade suficiente em Bel6m parajustificar
a convocaqio feita por Olfvio Farias Ro-
drigues, 1V secretirio, para a reuniao de
assembl6ia geral da Associado Benefi-
cente dos Leiteiros do Para, na sede pr6-
pria da entidade, na Travessa Rui Bar-
bosa, 860. Seriam eleitos os novos "cor-
pos administrativos". E pouco provivel
que na ocasido fosse servido leite.

Supermercado
0 nome da empresa era plural (Super-
Mercados Paraenses), mas a loja, na rua
Santo Ant6nio, 85, era singular. Mas era
esse o primeiro estabelecimento comer-
cial de Bel6m a requisitar para si, em
1958, o titulo de supermercado, naquela
que era entao a principal rua de com6r-
cio da cidade. Seu funcionamento ia de
domingo a domingo (ate 12 horas), pro-
longando-se atW 22 horas aos sibados e
fechando as 20 horas nos outros dias.
Junto corn a venda dos chamados pro-
dutos de primeira necessidade, havia um
Bar Americano, para services de lanches.


Peixes
A maneira do "Sermdo aos peixes", c6-
lebre peqa orat6ria do padre Antonio Vi-
eira do s6culo XVII, Carlos A. de Men-
donga concebeu a "Ladainha aos peixes",
corn a qual saudou, em 1963, os explora-
dores do povo. Algumas das estaqces
dessa ladainha, que reflete a economic
popular da 6poca:
Voce af, peixe-agulha do subirbio,
que desonra a balanqa corn que marca o
arroz e a farinha, inventando quilos de
800 gramas.
Voc6 aif, filhote, a se vender por ca-
morim de primeira a custo milionirio.
Voc6 af, pirarara das padarias, que
aumenta o preqo e diminui o peso.
Voce af, enguia meliflua de falas
mansas a misturar milho ao cafe torra-
do.
Voce ai, boto vermelho do contra-
bando, a dar cambalhotas e a devorar
sardinhas.
Voce af, poraque das drogarias, que
vende a cura mas o enfermo more de
inanido na bolsa.
Voce af, tralhoto de quatro olhos a
nip6nica, a penetrar nas cares indefe-
sas dos que Ihe vao a quitanda.

Maquina
A Conama (Construqoes da Amaz6nia)
exibia, em 1963, um impressionante por-
tf6lio de obras: a ponte Waldir Bouhid,
em Estreito, na Belem-Brasflia, os pr6di-
os dos bancos da Lavoura, Nacional,
Moreira Gomes e Mineiro e da Caixa
Econ6mica, al6m da avenida Almirante
Tamandar6, dentre outros services.
Como estava em expansao, a empresa
comprou uma nova motoniveladora na
Automotriz. OtAivio Pires foi fazer a com-
pra corn Jose Pircs Franco e colocou a
mdquina na rua, ali mesmo, na Taman-
dare em obras, onde era a grande loja da
Automotriz. 0 canal ainda estava em
andamento.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA JULHO DE 2005 11


I


FOTOGRAFIA

Importadora
0 prddio da Importadora de Ferragens ji foi o mais famoso da avenida
President Vargas, que era XV de Agosto. Aqui, em 1962, quase 10 anos
depois da sua inauguraqao, ele comemora o dia da bandeira corn 14 bandei-
ras instaladas sobre sua imponente marquise, uma delas na cobertura, a
melhor da cidade. A avenida ainda era buc6lica, corn duas maos, tanto para
a circulaqao dos carros como para o estacionamento. As suas margens, os
"*uli". "cadilljacs"' ainmericjanos trazidos de contrabando, que davam certa
apurencia caribenha a Belem. E uma das primeiras bancas de jornais e
rev I^UiY
eora o0 lerreo d edilic' importadora estd sofrendo as primeiras mu-
dajnys. por conij de obras em algumas de suas lojas.




























N NEUTRAL DADE
Duas cenas parecidas em lo-
cais diferentes. Na Cidade
Velha, uma senhora sai de sua
casa para jogar um pedago
papel em terreno baldio situa-
do bemrn ao lado. No Reduto,
outra senhora joga outro pe-
daco de papel do s6timo an-
dar de um pr6dio na travessa
Benjamin Constant. 0 papel
pousa na entrada do edificio.
Mas ela ji esti de volta ao
interior do apartamento quan-
do isso acontece.
Essas sao duas Renildas,
nao assumidas porque ainda
nao tiveramrn a oportunidade de
fazer sua apariqdo publica.
Sao convictas defensoras do
sagrado interior de seus do-
micilios particulares e da in-
tegridade de suas families;
mas da porta para dentro.
Nada tem a ver corn o mun-
do exterior e o drama huma-
no que se desenrola al6m dos
estreitos limits de seus lares.



Journal Pessoal
Editor: Lucio Flivio Pinto

Ediao de Arte:
L. A. de Faria Pinto
Produgao:
Angelimn Pinto
Contato:
Tv.Benjamin Constant 845/203/
66.053040
Fones: (091)3241-7626
e-mail: jomal@amazon.cocm.br


Mesmo que seus maridos
laiam tremendous canalhas
da soleira em diante e
Selas pr6prias despe-
jem pelajanela ou a
partir da calqada o
Slixo interior.
As iniqiUidades se ali-
mentam essa perverse
S certeza, dessa oportu-
nista crenqa. Os omis-
sos causam mais males
do que os maus. Des-
de que o mundo 6 o ha-
bitat human tern sido
assim. Nao foi por outro
motivo que Dante Alighieri
reservou para os suposta-
mente neutros o pior lugar da
construqdo mental que em-
preendeu na Divina Comn-
dia. Quern viu 0 Jardim dos
Finzi-Contini deve ter
aprendido a liqdo.
Dona Renilda, a virtuosa
esposa do publicitairio Marcos
Valdrio, nao deve ter visto. Ela
e a legiio de zumbis que re-
presenta e lidera.

HISTORIA
Jodo Ren6r Ferreira de Car-
valho foi uma das boas expor-
taqoes do MaranhAo para a
Amazonia. Estabelecido em
Manaus, contou com o apoio
de Samuel Benchimol para


vascular o material amaz6-
nico existente em Lisboa e a
documentaqdo amazonense
guardada no Arquivo Pdblico
do Para, fazendo as c6pias
retornarem ao foco dos acon-
tecimentos, no Amazonas.
Dessas fontes primdrias resul-
tou o livro As guerras justas
e os autos de devassa con-
tra os indios da Amaz6nia
no period colonial, de
1997, seguido, no ano seguin-
te, por Momentos de histd-
ria da Amnazdnia.
Antes de conseguir a pu-
blicaqdo desses livros valiosos,
por6m, Renor fez valer sua
capacidade de pesquisa em
Manaus, Belem e MacapAi.
Voltou ao seu Maranhdo e
agora, de novo domiciflio, re-
mete Resistencia indigena
no Piaui colonial (1718-
1774), ouro documental que
s6 bons garimpeiros de veios
primarios de informaqdo con-
seguem produzir.

PESQUISA
0 Jornal Pessoal, se nao
houver nenhuma surpresa de-
sagraddvel, completard sua
maioridade na pr6xima ediqao.
Iniciado na primeira quinzena
de setembro de 1987, ele che-
gard a 18 anos de vida na pri-


meira quinzena de setembro.
Para assinalar a data, gosta-
ria que o leitor respondesse se
acha que o JP ji cumpriu o
seu papel ou se acha que ele
se tornou dispensivel, expli-
cando sua opinion.

VIRTUDES
Sempre considered a lealdade
e a generosidade as maiores
virtudes humans. A experien-
cia dos 6ltimos tempos, teste-
munhando tanta covardia e
vilania, me impoe o reconhe-
cimento de uma terceira qua-
lidade superior: a coragem.
Sou grato aos corajosos. Ge-
ralmente eles sao poucos, mas
sao essenciais.

CORRE AO
Na materia sobre a escolha
de Ima Vieira como nova di-
retora do Museu Emilio Go-
eldi, ficou faltando um "nao".
Embora fosse uninime a ex-
pectativa favordvel ao seu
nome, depois de uma longa e
proficua carreira na institui-
qio, nao deve ter sido facil
para a pesquisadora aceitar
o convite. 0 novo cargo vai
continuar a sacrificar sua
vida pessoal e familiar, o que
ela tentara evitar.


CARTA
Como cidaddo "amaz6nida" e ainda brasileiro esperanqoso em meio a tantos absurdos
que escapam aos nossos "olhos" e ouvidos a cada dia, sinto-me profundamente emocio-
nado em poder fazer parte dessa nossa hist6ria e ainda ter tido a felicidade de saber que
ainda existe Justiqa.
Foi sdbia a decisdo do Exo Juiz Fabiano Verli, da subseqdo da Justica Federal de Santa-
rem, em devolver a Unido os 5 milhies de hectares de terras, absurdamente reclamados
pelo empresario Cecilio do Rego Almeida.
Orgulhosamente parabenizo a todos aqueles que se envolveram diretamente ou indireta-
mente nessa luta, "...em vista desta hist6rica fraude...". Aos procuradores da Reptiblica,
Ubiratan Cazetta e Felicio Pontes, autores da aqdo pdblica, homes que nos remetemrn e nos
encorajam a acreditar que a Justica ainda pode ser feita, bastando que lutemos contra os
injustos e os falsos cidadaos.
Sobretudo, agradeqo aquele que durante todo esse tempo nos manteve informados, esclare-
cidos e participants desse acontecimento, tamb6m hist6rico, num moment de tamanha vergo-
nha, corn os indmeros escandalos que vivencia o nosso pais. Parab6ns, jornalista LUcio Flivio
Pinto, pois, gostaria de dividir, numa festa comunal com todos os leitores do Jornal Pessoal e
corn todos os cidadaos "amazonidas", essa vit6ria, no fundo, tdo unicamente nossa!
Michel Guedes

MINHA RESPOSTA

Fico profundamente grato corn a oportuna lembranqa e a generosa iniciativa do lei-
tor, de comemorar corn este journal uma vit6ria de todos os que ndo aceitam a conti-
nuidade da dilapidagdo do patrim6nio pdblico, seja Id quern for o autor da pirataria,
quaisquer sue sejam seus acobertadores.