Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00284


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Full Text






oral Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
AGOSTO DE 2005 1QUINZENA No 350 ANO XVIII R$ 3,00


DESMATAMENTO



0 fogo


30 anos


Tres decadas depois do escandaloso desmatamento da Volkswagen no sul do Parai, o
fogo continue a ser a ferramenta do pioneiro na floresta amazbnica. Depois de seu
uso, a mata vira past. E o future, quimera.


um escandalo quando, em 1976,
os tecnicos da Nasa, a agencia es-
pacial americana, viram as imagens
do incendio "fotografado" pelo sa-
tdlite Skylab. Era a maior queima-
da que eles ji tinham detectado a partir do
espaqo. Enviadas para o similar brasileiro
da Nasa, o Inpe (Instituto Nacional de Pes-
quisas Espaciais), em Sao Jos6 dos Cam-
pos (Sao Paulo), as imagens serviram de
base para a investigaqao sobre a exata loca-
lizaqao do incendio.
A queimada fora desencadeada pela Vo-
Ikswagen na sua fazenda de 139 mil hecta-
res em Santana do Araguaia, no sul do Pard.
A primeira informacgo que chegou a Sudam
(Superintendencia do Desenvolvimento da
Amaz6nia), responsivel pela aprovaqao do
projeto agropecuirio da Volks, aportando-1he
recursos dos incentives fiscais, era de que o
incendio abrangia um milhiao de hectares.


Seria uma verdadeira hecatombe de
fogo, cobrindo area duas vezes maior do
que a de Bel6m. Constatou-se, final, que
a queimada era de pouco menos de 10
mil hectares, ainda assim o maior foga-
r6u individual registrado pela Nasa em
todos os tempos. Aplicada sobre essa area,
queimada sem licenqa especifica do IBDF,
antecessor do Ibama (Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Natu-
rais Renovdveis), a multa seria de valor
maior do que o projeto da multinational
alema, inviabilizando-o.
A Volks acabou nio pagando a multa, mas
o impact provocado pelo incendio em sua
fazenda ficou para sempre. 0 Brasil, diante
da reaqao national e international, comeqou
um program pioneiro de monitoramento de
queimadas na Amazonia atrav6s de satdlite.
E a Volkswagen acabou desistindo de criar
boi, voltando a sua dnica especialidade antes


de enveredar pela aventura amaz6nica: a
montagem de veiculos automotores.
Passados 30 anos, na semana passada
um fato semelhante ao da Fazenda Vale do
Rio Cristalino se repetiu sem provocar nem
a mais palida reaqao, como a que houve ao
andncio do incendio em Santana do Ara-
guaia. Fiscais do Ibama e policiais milita-
res do Estado flagraram uma derrubada de
quase 9 mil hectares, feita a motosserra e
fogo, em Ourilandia do Norte, a noroeste
de onde se localizava a fazenda da Volks e
a 670 quil8metros de Belem.
Aproximadamente 2 miles de arvores
foram postas abaixo e queimadas pelo fa-
zendeiro Jos6 Dias Pereira. No ano passado
ele cometera crime semelhante, em area de
2,8 mil hectares. Foi autuado e multado, mas
como nao chegou a ser processado por cri-
me ambiental, resolve bisar o cometimen-
CONTINiU'A PAG2


JARI: A ALBRAS/
MAGICA DO ALUNORTE:
LATIFUNDIO R$1,3
BILHAO FORA

PAGINA7 PAGINA5


01S







CONTINUAAO DACAPA
to, ampliando-o. Novamente recebeu autua-
qdo e multa, desta vez no valor de 20,5 mi-
IhWes de reais, soma certamente muito supe-
rior ao que investiu em sua propriedade.
Como 6 regra nessas situaqces, talvez o
fazendeiro jamais pague a multa que Ihe foi
aplicada. Mesmo que a quitasse, por6m, ain-
da teria lucro. 0 Ibama avaliou em R$ 10
cada drvore derrubada. Mesmo que metade
delas nao pudesse ser aproveitada, R$ 20 per
capital 6 uma cotaqdo virias vezes abaixo do
valor de mercado.
Mas para nio correr riscos, o fazendeiro
preferiu simplesmente destruir a totalidade
ou a esmagadora maioria das arvores, que
para ele nao passam de estorvo. Afinal, o
que queria era colocar gado onde antes ha-
via a exuberante floresta native. Os fiscais e
militares chegaram A area da fazenda exata-
mente quando ia comeqar o trabalho de se-
meadura para a formaqio do past. Segun-
do o Ibama, esse foi o maior desmatamento
registrado neste ano na Amazonia.
A revelaqgo do inc6ndio record da tem-
porada de derrubadas, que mal esta come-
qando, ocorreu justamente quando as au-
toridades comemoravam (precipitadamen-
te, como se veria depois) a reduqdo do des-
matamento, em junho deste ano, a 10%
do que havia sido desmatado emjunho do
ano passado. Parecia que a ofensiva re-
pressora do governor, sua pregaqao missi-
ondria, a conscientizaqdo dos agents pro-
dutivos, a pressdo da opinido publica e as
medidas reguladoras finalmente estariamrn
desencadeando um refluxo na onda des-
truidora que tem arrasado a floresta ama-
z6nica, responsivel pela manutenqdo do
total de area desflorestada acima da marca
de 25 mil quil6metros anuais por varias
temporadas de fogo, ji ha duas d6cadas.
0 caso da fazenda de Ourilandia do
Norte, municipio que se formou no inicio
da d6cada de 80, a partir de um projeto de
colonizacqo da Construtora Andrade Guti-
errez, 6 de abalar o maior dos otimismos.
0 fazendeiro usou o m6todo mais primiti-
vo de destruiqdo da floresta, o fogo, o prin-
cipal motive de o Brasil, com o 140 maior
PIB (Produto Interno Bruto) do mundo,
ser o 6' maior emissor de carbon para a
atmosfera. 0 gds carbonico 6 o causador
do efeito estufa, que ameaqa a seguranca
ambiental da Terra.
A Volks, uma das maiores companhias
globais, tamb6m recorreu ao mesmo me-
todo do fazendeiro, mas na mesma 6poca
a Jari Florestal e Agropecudria, de propri-
edade do milionario americano Daniel Lu-
dwig, jd s6 fazia desmatamento mecani-
co. Por isso, era a maior compradora de
motosserras da Am6rica do Sul. A cada ano
comprava 700 novos desses equipamen-
tos, com os quais chegou a suprir seis mil
peoes em seus desmatamentos.
Aldm de utilizar uma forma rudimentar
de ataque A floresta, pelo fogo, o fazendei-
ro Jos6 Pereira fez outra opqao irracional:
substituiu uma mata original, rica em es-


p6cies vegetais, por uma monocultura de
capim, destinada, em future mais ou me-
nos incerto e nao sabido, a sustentar um
rebanho bovino. A experiencia da Volkswa-
gen nesse aspect foi realmente desastro-
sa: depois de tries compradores da fazenda
tentarem desenvolv6-la, a area acabou sen-
do desapropriada pelo governor para o as-
sentamento de colonos do movimento dos
sem-terra. 0 que era para ser uma fazen-
da modelar virou laborat6rio de como nao
ocupar terra na regiao. Destino identico ao
que foi dado em boa parte da extensdo de
uma das maiores fazendas da Amaz6nia
Legal, a Itamaraty, em Mato Grosso, do
ex-rei da soja (e, hoje, quase-um-rei-dos-
trilhos, Olacyr de Moraes).
Um terceiro fator de inc6modos para as
pessoas empenhadas por um future melhor
para a regiio 6 a localizaqdo da drea desma-
tada no interior da Estaqgo Ecol6gica da Ter-
ra do Meio, criada no comeqo do ano por
decreto do president Lula para tentar salvar
esse interflivio, uma sub-zona delimitada en-
tre os vales dos rios Xingu e Tapaj6s pela
alta densidade de mogno, a mais valiosa ar-
vore amaz6nica, corn area de 8,5 milh6es de
hectares. A fazenda de Ourilandia fica a pou-
co mais de 500 quil6metros de Altamira, a
conturbada capital da Terra do Meio.
Desde a criacao no papel dessa estaaio
e de outras unidades de conservaqco, vem
se repetindo as dendncias de que grileiros e
madeireiros estao avanqando sobre novas
areas no meio da floresta, derrubando a mata
e se apropriando das terras, que foram pro-
tegidas em tese, mas ainda estao a espera
de uma presenqa mais efetiva do poder p6-
blico para o cumprimento das regras for-
mais de procedimento. Mesmo flagrando o
desmatamento illegal na fazenda de Ourilan-
dia, os fiscais do Ibama, por falta de apoio
human suficiente e de caminhies, nao pu-
deram apreender os tratores e motosserras
que encontraram por nao ter como retird-
los do local, isolado e de dificil acesso. Po-
diam garantir, ao sair da fazenda, que as
derrubadas nao voltariam a ser feitas?
Essa impotdncia dd a tais epis6dios, que
se tornam repetitivos nos verses amaz6ni-
cos, uma roupagem de coisa velha, de fe-
n6meno que se imaginava extinto e que
emerge novamente, em plenitude, indife-
rente aos avanqos da consci6ncia coletiva
e aos clamores da opiniao piblica. Em
1972, a Sudam, que inventou o mal com a
massive colaboraqdo financeira dada aos
projetos agropecudrios de grande porte (e
poucos resultados), tentou acabar com a
implantagao de fazendas em areas de flo-
resta native, atrav6s de uma resoluqdo do
seu Conselho Deliberativo, a 2525. Passa-
dos mais de 30 anos, fazendas continuam
a ser formadas no lugar de florestas pri-
mitivas. Esse process s6 acabarA quando
nao houver mais florestas na Amaz6nia? E
a pergunta que fica no ar, e seu gosto 6
violentamente amargo.
Tdo amargo quanto a noticia que sur-
giu, tamb6m na semana passada, sobre a


exibiqdo, na Feira Agropecudria do Acre,
de um balio de propaganda do Tordon.
Esse foi o herbicida intensamente usado
na guerra do Vietnd para eliminar as folhas
das arvores, dessa forma expondo os vie-
tnamitas do Norte e vietcongs aos ataques
das tropas americanas. 0 terrivel desfo-
lhante quimico ficou mais conhecido como
agente laranja", por ser armazenado em
tambores dessa cor.
Mas ele nao causava seus efeitos noci-
vos apenas as arvores: quem entrou em con-
tato com ele passou a ter seqiielas incura-
veis em todo o organismo, inclusive os que
o aplicavam, militares e civis americanos.
Descobriu-se que esse Tordon continha
agents cancerigenos e teratog6nicos. A ver-
sao na formula 2D10 foi proibida pelo Iba-
ma, por sua alta toxicidade, podendo provo-
car cancer e mutaq6es em series humans
Mesmo assim, o Tordon, embora com
outras formulas, 6 muito usado no Brasil,
seja para a eliminacao, por via quimica, de
ervas daninhas em diversas cultures agri-
colas, seja nos desmatamentos na Amaz6-
nia. Como na guerra do Vietnam, avioes
espalham o veneno pela floresta. Rapida-
mente, as arvores desnudas estio prontas
para a imolaqdo pela tecnologia mais pri-
mitiva do ser human, que remonta a era
das cavernas: o fogo. E como se a Ama-
z6nia estivesse sob uma.
Pessoas mais bem informadas que exa-
minaram, ha quase 30 anos, as imagens
do Skylab sobre o inc6ndio armado pela
Volkswagen, se perguntaram se a multina-
cional alema nao usara o agente laranja".
Afinal, tinha apenas 10% do contingent
de desmatadores empregados por Ludwig
no Jari e derrubara drea florestada s6 um
pouco inferior ao record alcanqado na pro-
priedade do milionirio americano numa so
safra, de quase 12 mil hectares.
Se houve mesmo esse uso do agente
laranja", nao foi possivel comprovi-lo, mas
pipocavam nessa 6poca dendncias sobre o
emprego do herbicida. 0 final da guerra do
Vietnam fora precipitado e restaram gran-
des estoques do produto, que ficaram sem
uso. 0 paisagista Roberto Burle Marx foi
um dos que suscitou a possibilidade de o
agente laranja" ter sido mandado ilegalmen-
te para os confins da Amaz6nia, abreviando
o prazo necessdrio para queimar a floresta
e multiplicando sua potfncia ofensiva.
Sem os desencontros, imprecisbes e blo-
queios que se sucederam a partir da apre-
sentago das imagens do incendio na fa-
zenda da Volks, inclusive por parte de pes-
soas bem intencionadas (mas mal informa-
das sobre a Amazonia), talvez tivesse sido
possivel caracterizar o crime ambiental co-
metido. 0 "talvez" 6 uma condiqco que, pelo
visto, permanece present atW hoje, distan-
ciando o que 6 possibilidade de sua efetiva-
qdo concrete, o piano potential do nivel da
realidade. E dando ao drama amazonico da
destruiqdo um tom de fatalidade. Estdpida,
talvez, mas, justamente por isso, humana,
demasiadamente humana.


9 AGOSTO DE 2005 IQUINZENA Journal Pessoal









Amazonia, ja: nosso desaflo


Qualquer Sao Tom6 escolado reco-
menda ceticismo diante dos nimeros
que as empresas "barrageiras" costu-
mam apresentar quando iniciam ou
sugerem a construiao de uma nova
grande hidrel6trica no Brasil. Na Ama-
z6nia, a Eletronorte tem merecido essa
desconfianqa, agravada pelo chamado
"fator amazonico", uma taxa de impon-
derabilidade maior do que a pr6pria in-
certeza recomendaria numa regiio con-
siderada "pioneira" e, por isso, susce-
tivel aos imprevistos derivados de seu
desconhecimento.
Mas que cessem as resistencias di-
ante de mais uma carrada de n6meros
despejada sobre a opinido p6blica para
faze-la aceitar a segunda grande hidre-
16trica amazonica, a de Belo Monte, no
rio Xingu, no Pari, que agora esti outra
vez na berlinda. A mais recent versdo
do estudo de viabilidade econ6mica da
usina assegura que cada megawatt/hora
de energia gerada na boca da miquina
sera de 12 d6lares. Posto em Sio Pau-
lo, depois de transitar de uma linha de
transmissdo para outra, esse MWh cus-
tarA mais do que o dobro da geracgo in
situ, ou US$ 25.
Esse 6 um ndmero que sensibiliza
qualquer pessoa capaz de aplicar a es-
tatistica a vida concrete do ser human
e a natureza, vendo complexes proces-
sos sociais e ecol6gicos por tris da al-
quimia numdrica. Vale mesmo a pena
provocar desorganizaqdo (ou mesmo
caos) social e ambiental num lugar tao
suscetivel as transformaqces bruscas,
represando um rio caudaloso e de ba-
lan9o hidrico profundamente desequili-
brado, como o Xingu, antes de um co-
nhecimento suficiente sobre a bacia que
sera afetada por essa intervenqdo hu-
mana, para levar a energia produzida no
local por tres milhares de quilometros,
at6 o distant centro consumidor?
E precise pelo menos colocar essa
duvida na prancheta e dar-Ihe consisten-
cia na busca por uma resposta satisfat6-
ria. Mas se impression essa passage
do valor da geracao (US$ 12 o MWh),
no local onde sera construida a usina, para
o do consume (US$ 25), a tr6s mil quil6-
metros de distancia, talvez impression
ainda mais a enfase dos "barrageiros" ao
proclamar que, mesmo assim, o MWh de
Belo Monte em Sao Paulo 6 quase a
metade do valor da energia que 6 comer-
cializada atualmente no Sudeste do Bra-
sil, numa m6dia de US$ 42 o MWh.
Os que defended a continuaqdo do
program de aproveitamento em grande
escala da energia de fonte hidriulica da


Amaz6nia, que corresponde a metade do
potential hidreneg6tico national, acres-
centam algumas quest6es complementa-
res a essa. A primeira: se os rios amaz8-
nicos nao se transformarem em fonte de
energia, de onde virlo os megawatts adi-
cionais dos quais o Brasil precisard para
tender o crescimento do consume a par-
tir de 2010, sob pena de um novo colap-
so, ou "apagao"? Virao de t6rmicas a gas
ou de plants nucleares? A que preqos?
Esse 6 o questionamento feito a par-
tir da perspective do demandador da ener-
gia. Mas hi tamb6m um desafio, sob o
angulo do produtor: uma vez apresenta-
do o grande projeto, seja de energia bru-
ta ou de produtos transformados a partir
do seu uso intensive, qual a alternative
que se pode oferecer is populaoqes na-
tivas e aos imigrantes, atrafdos pelo anin-
cio de uma nova frente de trabalho, num
pais de desemprego aberto e subempre-
go galopante? Pode-se simplesmente
voltar ao status quo ante ou jd 6 impres-
cindivel proper uma nova situaqgo?
Uma resposta satisfat6ria requer pre-
senqa em dois fronts. Num deles 6 ne-
cessario desfazer o raciocinio dominan-
te dos "barrageiros". Eles quase sem-
pre oferecem, como solugio para a pro-
jeqdo da demand (em geral inflaciona-
da), a construqdo de novas usinas, de
preferencia de grande porte (em seus
enormes orqamentos, alguns milh6es de
d6lares sao troco). Sabe-se que essa 6
uma posigao esquernmtica, a eliminar su-
tilezas relevantes. E por isso que os pro-
gramas de conservaclo de energia e de
criacqo de fontes alternatives de ener-
gia nao conseguem a prioridade reco-
mendada. 0 custo/beneficio 6, neles,
muito mais interessante. 0 problema 6
que, em terms absolutes, nao tem tan-
to rendimento. Al6m disso, quebram es-
quemas de poder jd estabelecidos.
0 outrofront 6 o do convencimento
dos alegados beneficiarios dos grandes
projetos de que eles ganhardo ainda mais
com soluqces menores, acessiveis, efi-
cientes, de imediato efeito local, mas
que tamb6m geram desdobramentos em
amplitude national. Essa 6 uma frente
pobre de resultados. Avanqou-se ainda
pouco num modelo alternative ao que
tem sido dominant na Amaz6nia, ba-
seado na relaqdo com mercados exter-
nos, geralmente distantes em tecnolo-
gia de ponta, capital intensive e pouca
capilaridade local. Essas caracteristi-
cas fazem do grande projeto um encla-
ve, mas, ainda assim, o impact da sua
presenqa (ou mesmo de seu simples
an6ncio) nao pode ser ignorado.


E quase certo que se a usina de Belo
Monte nio sair do papel on se a Alcoa se
retirar de Juruti, desistindo da sua mine-
raFao de bauxita, esses locals nao regre-
dirio ao que eram. Inclusive porque ja
nao sio mais o que eram. 0 crescimento
populacional de Altamira em func-ao da
barrage da Volta Grande do rio 6 urn
dado concrete. A multiplicaqao da crimi-
nalidade em Juruti 6 outro fato. 0 que
fazer sem as expectativas de crescimen-
to, mesmo que efemeras ou fantasiosas?
Sem opdio concrete, viiivel, aces-
sivel, vai parecer que a corrente con-
trairia aos grandes projetos tern incon-
fessiveis interesses ocultos, corn rai-
zes no exterior e motivacao nada be-
nem6rita. Certos grupos geopolifticos
estdo argumentando que a oposirao ao
aproveitamento do potential energ6ti-
co dos rios brasileiros acabari favore-
cendo a termeletricidade, incluida a at6
recentemente condenada energia nu-
clear. E quern se poderia favorecer
dessa nova tendencia? Um dos pauses
apontados 6 a Alemanha. Na d6cada
de 70 os alemaes venderam a caixa
preta nuclear para Angra dos Reis, com-
prada pelo governor Geisel (comanda-
do por um filho de alemaies). Neste ini-
cio de s6culo o governor alemao se en-
fileirou entire os defensores de energia
limpa, a gds ou nuclear. Quer melhorar
o mundo ou o seu caixa?
A pergunta 6 boa, mas ficar nela sig-
nifica fazer ojogo obscurantista e irno-
bilista dos te6ricos da eterna conspira-
qdo international contra a Amaz6nia, ba-
seada mais em presunqio ejogo de que-
bra-cabeqa 16gico do que em fatos ana-
liticamente expostos. E precise desven-
dar os interesses externos a regiao, nela
realizados conforme um piano bem ur-
dido, mas tamb6m 6 precise continuar a
corrigir os erros flagrantes que se per-
petuam na political national de integra-
qco regional. Eles nao deixam de ser
erros s6 porque sio tamb6m apontados
por observadores estrangeiros da cena
amaz6nica. Nao se deve igualmente
descartar os recursos de fora, materials
e imateriais, com os quais se poderi cri-
ar models alternatives ao padrao da
ocupaqdo irracional e devastadora da
Amazonia, ou abreviar o tempo de co-
locA-los em aplicaqio. Nao para um fu-
turo paradisiaco, no qual, em long pra-
zo, todos nos teremos tornado peas de
museu. Para ji. E, em primeiro lugar,
para os que moram na Amaz6nia, nati-
vos ou imigrantes. Esse 6 o desafio do
moment, tio imenso e incerto quanto a
pr6pria Amaz6nia.


Journal Pessoal I'QUINZENA JULHO DE 2005 3









Contra a injustiga


0 juiz Amilcar Guimaraes, titular da
1" vara civel de Bel6m, devia assumir in-
terinamente a 4" vara no dia 14 dejunho,
substituindo ajuiza Luzia do Socorro Sil-
va dos Santos, que ficaria fora atW o dia
17. Mas, por quest6es administrativas do
Tribunal de Justica do Estado, a portaria
designando-o para acumular as duas va-
ras somente foi assinada pelo president
do TJE, desembargador Milton Nobre, no
dia 15. Seus efeitos legais foram gera-
dos, entretanto, apenas no dia seguinte,
16 de junho, quando ela foi publicada no
Didrio da Justica.
Nessa quinta-feira, por6m, o juiz Amil-
car Guimaraes nada fez na 4" vara. Resta-
va-lhe, portanto, um uinico dia para respon-
der por essa jurisdiqio quando, em plena
sexta-feira, 17, ele pediu a secretaria que
Ihe fossem remetidos os autos de uma aqco
ordindria de indenizaqio por dano moral, ji
com 400 folhas, que Cecilio do Rego Al-
meida props contra mim, em 2000.
Os autos Ihe foram conclusos e ele
s6 os devolveu a secretaria no dia 21,
terga-feira, anexando-lhes uma senten-
Ca de cinco laudas e meia, que havia pro-
duzido, me condenando a indenizar o
empreiteiro por ter-lhe causado danos ao
chami-lo de "pirata fundidrio", em ma-
t6ria publicada nestejornal.
Embora entregue no dia 21, quando a
juiza Luzia do Socorro ja estava despa-
chando normalmente na 4a vara civel, a
sentenqa estava datada de 17 de junho,
ultimo e, na verdade, o inico dia de
Amilcar Guimardes na funqdo. Eviden-
temente, a sentenqa foi p6s-datada.
A apuraqdo dessa escandalosa con-
denagco, eu a transfer a direcgo do TJE.
Na semana passada, protocolei uma re-
presentaqgo ao president do Tribunal,
pedindo a instauragio de inqu6rito admi-
nistrativo-disciplinar contra o magistrado,
a ser encaminhada ao Conselho da Ma-
gistratura. Confio nas devidas e exem-
plares providencias dojudiciario paraen-
se, conforme exige a gravidade do caso.
Uma das coisas a investigar 6 o que
ocorreu entire a tarde de quinta-feira e a
manhd de sexta-feira, quando, ao que tudo
indica, surgiu o interesse do juiz Amilcar
Guimaraes pelo process do dono da Cons-
trutora C. R. Almeida. Essa 6 uma dedu-
cio 16gica dos fatos. Se ji estivesse preve-


nido para o "caso", o magistrado teria so-
licitado os autos antes do final do expedi-
ente forense, as 14 horas, quinta-feira mes-
mo (ou at6 bem antes, antecipando-se a
publicaqdo da portaria de designaqao). As-
sim, disporia de mais tempo para examiner
os autos, bastante volumosos e densos, e
sentencid-los sem se expor a conting6ncia
de datd-los retroativamente, sujeitando-se
a vir a ser acusado de falsidade ideol6gica,
pela evidence fraude cometida.
Eu nio conheco e jamais vi o juiz.
Nenhum dos meus processes foi a ele sub-
metido, antes da aqco de C. R. Almeida.
Por que, entdo, Amilcar Guimaraies lavrou
a sentence? Ele estava apenas responden-
do pela 4a vara, numa interinidade-relam-
pago. Qualquer magistrado, com um mi-
nimo de bom senso e elementary avaliacao
da situacio, esperaria o retorno da titular,
que ocorreria no primeiro dia ttil depois
do dia 17, sexta-feira.
Os autos nao estavam prontos para
receber a sentence. Havia a pendencia
de um recurso, o agravo de instrument,
que minha advogada submetera a instan-
cia superior quando C6sar Puty Rodri-
gues, o antecessor dajuiza Luzia do So-
corro na sucessao de interinidades que
tem havido na 4' vara, decidiu nao acei-
tar a produqao de novas provas e anteci-
par ojulgamento da lide. A liminar foi con-
cedida ao agravo e s6 nao recebeu con-
firmacao por um lapso formal da defesa,
no encaminhamento de c6pia do recurso
aojulgador de origem. Mas o agravo ain-
da nao havia baixado do Tribunal para
serjuntado aos autos principals.
A ultima movimentaqdo do process
forajustamente a informaqgo que a dou-
tora Luzia prestara ao desembargador
Enivaldo da Gama Ferreira, relator do
agravo. Por isso mesmo, as paginas mais
recentes dos autos sequer estavam nu-
meradas. E continuavam sem numera-
cio quando o juiz Amilcar Guimaraes jun-
tou sua ins6lita sentenca.
Ja embarguei a sentenca para rever-
te-la, desfazendo a injustiqa. Agora, corn
a representaqIo ao TJE, espero que os
responsaveis pelo judicidrio paraense
adotem as medidas cabiveis contra o
magistrado, fazendo-nos acreditar que
realmente vive-se uma nova era najus-
tica do Estado.


NA LINHA
Antes, em algum lugar da cidade, havia reuniao secret para tratar do aumento das
tarifas de 6nibus. Agora, ao que parece, a reuniao acontece em cidade fora do Esta-
do. Com empresdrio que atua no transport coletivo, mas nao de Bel6m.
S6 nao tem boi na linha porque os bois estdo fora da cidade.


Xu-I TRANSPARENCIA
Das cinco empresas de capital fechado
consideradas de maior transparencia do
Brasil, pela clareza de seus balancos,
duas sao do Para: a Albras (Aluminio
Brasileiro) e a Alunorte (Alumina do
Norte do Brasil). Ambas sao controla-
das pela Companhia Vale do Rio Doce,
classificada, por sua vez, entire as 10
mais transparentes na categoria de ca-
pital aberto. Ja premiadas na primeira
seleqdo, a partir de uma base com 550
empresas, elas disputarao ainda, em se-
tembro, em Sao Paulo, o IX Trof6u
Transparencia Anefac-Fipesaci-Serasa,
destinado as empresas com as informa-
q6es financeiras mais transparentes.
A Anefac 6 uma associaqao que rei-
ne quase tries mil executives das mais
importantes empresas brasileiras, espe-
cialmente dos segments profissionais de
gestao administrative, financeira, contro-
ladoria, auditoria e contabilidade
A escolha 6 acertada. Os balancos da
Albras, da Alunorte e da CVRD estao,
realmente, entire os melhores do Brasil,
com padrao international. Mas ainda nao
se consegue obter informaqdes adicionais
as demonstrates financeiras quando se
tem alguma ddvida mais profunda a res-
peito de alguma de suas parties, como
mostro na mat6ria sobre o custo finan-
ceiro da Albras, publicada mais adiante.
E a Vale at6 agora nao publicou o tradi-
cional livrinho annual com seu balanco de
2004, ao contririo do que vinha fazendo,
sem qualquer interrupcio, at6 agora.
0 que aconteceu a mais rentivel
das grandes empresas do pais, com taxa
de retorno de 46%? Economia de pon-
ta de papel?

POPULACAO
A Regiao Metropolitana de Bel6m deve-
ri alcanqar dois milh6es de habitantes
ainda neste ano. A iltima estimativa dis-
ponivel 6 de 1.991.542 habitantes. 0
municipio da capital esta na porta de 1,4
milhao. Ananindeua, o segundo munici-
pio mais populoso do Pard, esta com um
terco, ou 468 mil habitantes. Santar6m
ainda conserve o terceiro lugar, mas ja
distant, com 272 mil. A ordem, a partir
daf, entire os 10 mais populosos municipi-
os, 6 a seguinte: Marabi (191 mil), Cas-
tanhal (151 mil), Abaetetuba (129 mil),
CametA (104 mil), Itaituba (96 mil), Ma-
rituba (93 mil) e Parauapebas (88 mil).
Na faixa dos 80 mil habitantes estao ain-
da Paragominas (85 mil), Breves (84 mil)
e Tucurui (83 mil).


A AGOSTO DE 2005 I QUINZENA Jornal Pessoal









Albras: uma conta secret de bilhoes


Exatamente ha 20 anos, quando co-
meqou a funcionar, a Albras, hoje a mai-
or indistria de aluminio do Brasil, a se-
gunda do continent e a oitava do mun-
do, representava um investimento de 1,3
bilhio de d6lares. Nela havia US$ 192
milh6es de capital de risco estrangeiro, o
maior, at6 entio, na hist6ria do Brasil (e,
talvez, at6 hoje). Al6m de colocar essa
parcela de dinheiro do pr6prio bolso, os
japoneses entraram com pouco mais de
US$ 400 milh6es de financiamento.
Todos os anos essa sangria finan-
ceira se apresentava como uma hemor-
ragia dificil de estancar no balanqo da
empresa. Entre 1986 e 1987, no auge
da guerra commercial entire os Estados
Unidos e o Japio, o saldo do d6bito ex-
perimentou uma variaqio estratosf6ri-
ca, de 1.000%, alcanqando um valor
equivalent a tres vezes o orqamento
do Estado do Para.
Para se proteger de um cambio im-
posto praticamente manu military pelos
Estados Unidos, o Japio foi buscar a di-
ferenqa atrav6s de uma nova modalida-
de de contrato de financiamento inter-
nacional, com dupla paridade cambial,
pulando do iene para o d6lar (e vice-
versa), conforme os interesses do em-
prestador e o diktat de Tio Sam. E con-
tra os interesses do tomador, 6 claro.
Paises pobres, como o Brasil, paga-
ram a conta do prejuizo do Japio face
aos EUA. Isso 6 o que o entio presi-
dente Jos6 Sarney chamaria de "van-
guarda do atraso", se pudesse dar no-
mes aos bois (ele foi o grande convida-
do da festa de inauguragio da Albras,
ao custo de US$ 1,3 milhio, ou 0,1% do
investimento total).
Esses complicados mecanismos de
transferencia financeira, embutidos em
contratos internacionais de long prazo,
pouco foram estudados, ontem como atu-
almente. E quando sio analisados, o re-
sultado desse trabalho raramente chega
ao conhecimento da opinido puiblica. 0
BNDES (Banco Nacional de Desenvol-
vimento Econ8mico e Social), encarre-
gado de financial a segunda etapa da
implantaqio da Albras (projetada em dois
m6dulos de 160 mil toneladas de alumi-
nio primario), resistiu a entrar no neg6-
cio. Achava que, no frigir dos ovos, a
Albras era national apenas nominalmen-
te; de fato, era uma empresa japonesa.
De T6quio, os japoneses davam as car-
tas ou embaralhavam-nas, quando Ihes
era interessante.
Durante 20 anos, analistas dos ba-
lancos da Albras se perguntaram: quan-
do o empr6stimo japon6s serd amorti-

Jornal Pessoal IQUINZENA JULHO DE 2005


zado? Chegaria ao fim algum dia? Tal-
vez esse dia ainda demorasse mais do
que se podia prever, nao fosse a relati-
va elevaqco (em alguns casos, mete6ri-
ca) das commodities internacionais nos
iltimos anos, ainda que sujeita a flutua-
clo, sobretudo pelo ingresso da gigan-
tesca demand da China, com destaque
para os semi-acabados.
Pois nao 6 que a Albras, finalmente,
conseguiu encerrar a novela financeira
com o Japdo no ano passado? E o que
proclama o balanqo de 2004. No ano pas-
sado, tanto a Albras quanto a sua vizi-
nha no distrito industrial de Barcarena
(e irma siamesa), aAlunorte (produtora
de alumina, insumo
do aluminio), conclu-
fram a amortizaao
de seus prejuizos
acumulados.
A Alunorte fe-
chou 2003 com pre-
jufzo acumulado de
R$ 312 milhoes. Para
se ter uma media do
que era a exigencia
financeira, o lucro da
Alunorte em 2003 foi
de R$ 315 milhoes, o
que significa que esse
lucro foi usado para
abater o prejuizo acu-
mulado em 2002, que
superava R$ 600 mi-
Ih6es. No ano passa-
do a Alunorte, que
entrou em operago
uma ddcada depois
daAlbras, j apresen-
tou uma reserve de
lucro de R$ 80 mi-
lhoes, depois de ter usado grande parte
do seu lucro (de R$ 417 milh6es) para
p6r fim ao prejuizo remanescente.
No final de 2003 ainda sobrou nas
contas da Albras um prejuizo acumula-
do de R$ 29 milhoes, depois que a em-
presa desbastou a montanha do prejuf-
zo acumulado com seu lucro daquele
ano, de R$ 540 milhoes. 0 lucro do ano
passado, de R$.440 milh6es, "zerou" por
complete o prejuizo e, feitos os provisi-
onamentos previstos, ainda deu margem
a uma reserve de lucro de pouco mais
de R$ 222 milhoes.
As duas empresas do p6lo de alumi-
nio de Barcarena registraram, assim, no
exercicio passado, lucro conjunto de R$
856 milh6es, com o qual, finalmente, foi
absorvido o prejuizo acumulado ainda
remanescente em 2003, que era de R$
341 milh6es. Restou no caixa mesmo


depois de feitas as devidas provisoes -
uma reserve de lucro de R$ 302. Desem-
penho notdvel.
Durante os tres meses seguintes A
apresentaqdo das demonstrates finan-
ceiras das duas empresas, tentei desco-
brir qual o saldo final do empr6stimo ca-
pitaneado pelo Eximbank japones, mas
nao consegui o retorno da parte dos ca-
nais ditos competentes da Albras.
Esse nimero 6 considerado confi-
dencial. Tdo confidencial que uma data
destinada a ser comemorada foi deli-
beradamente ignorada. A empresa nio
fez qualquer referencia externa a res-
peito. E talvez tenha razlo. Afinal, s6
ela, at6 agora, sabe
quanto Ihe custou a
amortizacgo desse
pantagru6lico em-
pr6stimo. No primei-
ro dec6nio de sua
existencia, apesar do
pagamento dos juros
e do principal, o sal-
do do financiamento
japones havia mais do
que duplicado. Duas
d6cadas depois, se-
gundo um prazo de
duraqgo que acom-
panhou pari passu a
vigencia do contrato
de subsidio de ener-
gia (no valor de US$
2 bilhaes), seria pos-
sfvel chegar a um nui-
mero parecido?
Se 6 razoavel es-
pecular corn base
nesse fundamento, o
custo de chegada do
financiamento e do favorecimento tari-
fdrio de energia terd batido em US$ 4
bilh6es, ou tres vezes o valor original da
fabrica, dinheirama que cruzou o Atlanti-
co ao lado dos lingotes do metal produzi-
do pela Albris? S6 nos exercicios de 2003
e 2004 a Albras pagou R$ 540 milh6es
aos credores internacionais e a Alunorte,
que abreviou a conta, R$ 732 milhoes.
Em dois anos, o p6lo de alumina e alumi-
nio de Barcarena enviou A banca estran-
geira quase R$ 1,3 bilhio (ou algo pr6xi-
mo de US$ 600 milh6es).
Nio esta na hora de cobrar do p6lo
de Albras e Alunorte, na nova fase que
se iniciou a partir de 2002, um novo tipo
de relacionamento com a sociedade pa-
raense? E a pergunta que fica, entalada
na consciencia de quem quer saber, da
hist6ria, o seu verdadeiro enredo e o seu
mais just final.









A corte do Brasil fora de epoca


O drama de Maria Antonieta conti-
nua apaixonante, 212 anos depois da sua
morte. E impossivel nio sentir simpatia
por ela ao ler as cartas que escreveu para
a mae, em Viena, desde que foi para Paris
casar com o delfim da Franga, o future
Luis XVI, quando tinha 15 anos de ida-
de. Dificilmente haveria outra persona-
gem mais exemplar para viver os 6iltimos
moments da mais c6lebre de todas as
monarquias europ6ias e o fim de uma era,
sepultada pela Revoluqao Francesa e
seus desdobramentos entire 1830 e 1838.
Mas 6 dificil nao dar razio a ral6 que a
decapitou. Os pobres de Paris viram nela
o simbolo de suas desditas, do escirnio
de uma nobreza que continuou suas orgi-
as indiferentemente A exaustao do eririo
e o esmagamento dos cidadaos, chama-
dos a bancar a conta suntuaria.
, Enquanto acompanhava, entire admi-
rado e indignado, o depoimento da mu-
lher de Marcos Val6rio h CPI dos Cor-
reios, aos poucos a image da rainha da
Franca foi ocupando o lugar do rosto de .
Aquela mulher era digna dos mesmos
sentiments provocados por Maria An-
tonieta e, quem sabe, do mesmo desti-
no, embora no caso da esposa do opera-
dor do caixa 2 do PT a guilhotina seja,
felizmente, apenas simb6lica.
Renilda Maria Santiago Fernandes de
Souza tamb6m 6 o simbolo de uma parte
do Brasil de hoje, de um tipo de elite cos-
mopolita, ilustrada, bonita e bem tratada,
mas sem qualquer identidade com o que
esteja fora do circuit fechado de seus in-
teresses ou al6m de seu umbigo. 0 mo-
mento decisive do depoimento foi quando
ela disse ter feito a opdio preferencial pelo
lar. Mesmo casada, ainda trabalhou como
pedagoga, durante tries anos, no centro de
treinamento do Bemge, o banco mineiro que
se lornou uma das fontes do dinheiro de


origem incerta (ou clandestine) do PT e seus
aliados politicos. Mas acertou com o mari-
do ser suprida dos funds necessirios (e
cada vez maiores) para se dedicar integral-
mente i familiar, tomando-se aquele tipo de
mulher forte que os sempre machistas, ape-
sar de aparencias em contrArio, veem por
tris de um home notavel. Mulheres no-
taveis, sim, mas na retaguarda.
Marcos Val6rio jamais teria subido
como um foguete de sucesso financeiro,
primeiro de forma um tanto discreta, a par-
tir de 1998, quando ensaiou o concubinato
corn o lado oculto da political, e depois, a
partirde 2003, de maneirafulminante, como
o intermedidrio entire dinheiro sacado sabe-
se-l-onde e dinheiro transferido sabe-se-
agora-para-quem. 0 publicitirio, version
ampliada e piorada de PC Farias, sabia que
contaria na retaguarda corn uma mulher de
bela image, convincente, forte, disposta a
tudo para preservar o projeto de ambos:
uma familiar bem sucedida.
Este 6 o trunfo corn o qual o publicitirio
mineiro contou, em vantage sobre seus
antecessores: uma parceira que se senate
com autoridade para se apresentar como
limpa, pura e superior, mesmo sendo bene-
ficidria de uma lama imensa, que o marido,
na versio dela, foi obrigado a deixar no
portal do sacrossanto lar, reduto inexpug-
ndvel da intimidade familiar contra as im-
purezas e males do mundo exterior, por obra
e graca de dona Renilda. La fora, o dr.
Jekyll. Dentro de casa, mr. Hyde.
Ao larger o emprego e se tornar "do
lar" por profissdo, Renilda comeqou a
preparar mesmo que involuntariamen-
te o Alibi que apresentou i CPI, comr
candura comovente, mas sem poder con-
vencer nem um novo Candido, o otimis-
ta, o mais cr6dulo dos personagens de
Voltaire, o grande escritor da terra adoti-
va de Maria Antonieta.


Renilda criou para si um papel e o
desempenhou com exuberante desenvol-
tura diante dos seus algozes. Nada sa-
bia sobre o que estava fora dos umbrais
de sua casa, mesmo que essas coisas
ruins fossem criadas pelo marido. Quan-
do declarou ignorar de que maneira sua
conta particular apresentava um saldo
de quatro milhoes de reais, sua hist6ria
se pareceu a piada do marido que, fla-
grado pela esposa deitado na cama da
empregada, com a dita cuja, olhou para
a mulher que estava debaixo de seu cor-
po nu e admoestou-a corn surpresa e
seriedade: "Maria, o que estAs fazendo
ai embaixo?" Isto posto, levantou-se e
foi embora, deixando as duas mulheres
sem readio diante do inesperado.
Dona Renilda pretendeu dar ao seu
depoimento o ar de verdade que falta a
piada. Encerrado o espeticulo, que pren-
deu a atenqco dos assistentes, o que fica
6 a sensadao de revolta diante dessejogo,
muito bem urdido, com personagens sim-
piticos, perfumados, competentes e in-
convincentes. Mais do que isso: nocivos.
Gente assim anda pelo mundo, freqUien-
ta museus, vai a restaurants finos, con-
versa com pessoas importantes, aprende
os segredos do alto mundo, acumula co-
nhecimento, mas nio altera em um mili-
metro sua condicao de predadora. Essas
pessoas predam, sobretudo, o patrim6nio
pLiblico, favorecendo-se da arte & enge-
nho de que se nutrem por sua condicao de
vida. E apropriam para si e os seus tudo
que conseguem acumular, milhoes e mi-
Ihoes que surgem do nada e desaparecem
na combustio do consume perfunct6rio.
Dessa gente, outro frances, Emile
Zola, disse tudo: "les beaux gens, quelle
canaille". Ah, quanta falta nos faz algu6m
como Zola para se contrapor a essas
Marias Antonietas fora de 6poca.


ADVOGADOS


Havia um ponto em comum entire os
quatro importantes e conhecidos advo-
gados que o Pari perdeu nos l1timos
dois meses: Otivio Mendonqa, Paulo
Klautau, Egydio Salles e Itair SA da Sil-
va eram personalidades p6blicas mol-
daclas pela longa (para os padres bra-
sileiros) vivencia democratic que a
Constituigao de 1946 Ihes proporcio-
nou. Distintos em muita coisa, eles ti-
nham uma identidade: a tolerancia pelo
adversirio, que resultou no gosto pela
controversial e a divergencia.
Os quatro advogados tinham origens
diferenciadas, especializaqoes diversas e
posicqes muitas vezes opostas ou mesmo


conflituosas na vida piblica, mas sempre
mantiveram um invejavel nivel de respeito,
de aprego e de consideraqao, entire si e por
todos os outros. Esse terreno comum Ihes
permitiu construir suas carreiras particula-
res sem nunca renunciar ao papel social e
politico que Ihes cabia desempenhar. Ao
morrer, nestes iltimos 60 dias, atrairam as
homenagens de um amplo e rico espectro
de discipulos, companheiros, amigos e opo-
sitores, irmanados nas ceriminias fLinebres
pelos elements que Ihes duo a verdadeira
etemidade: a admiraqio, o respeito e o afeto
pelo que foram e fizeram.
0 ultimo a ir-se foi tamb6m o mais
jovem deles, aos 73 anos de idade, o san-


tareno Itair Sa da Silva, al6m de tudo um
home que soube gozar tudo que a vida
Ihe ofereceu e ele exigiu, tanto quanto o
companheiro de necrol6gio, o gozador e
el6trico Egydio Salles, que deve continu-
ar a aprontar em outra dimensao. Essa
bela combinacao de aplicaqao e savoir-
vivre, de profissionalismo e espirito Lidi-
co, de seriedade e bonomia, de paixao e
cordialidade, nem nos autoriza o tom f6-
nebre no registro. Pelo contrario, exige o
torn de alegria pela ventura que nos foi
dada de participar em suas vidas.
Nao seri mera frase de efeito di-
zer que deixarao muitas e profundas
saudades.


A AGOSTO DE 2005 i'QUINZENA Jo(rnll[ Pe.ssouii









Jari: a magia nas terras da Fazenda Saracura


Em abril do ano passado a Jari Celu-
lose, sucessora do projeto concebido pelo
milionfirio americano Daniel Ludwig, pro-
p6s na vara 6nica da comarca de Almei-
rim, no Pard, a demarcadao e aviventa-
cio dos marcos de um im6vel rural que
declarava como sendo de sua proprieda-
de, a Fazenda Saracura. 0 registro car-
torial da irea, feito no final do s6culo XIX,
dava-lhe uma estranha media: "4 16guas
de frente e um milhao de metros de fun-
dos mais ou menos".
Na 6poca de Ludwig, o tamanho da
propriedade foi estimado em 2,7 milh6es
de hectares. Ji o grupo Orsa, de Sao
Paulo, atual detentor do acervo patrimo-
nial da Jari, constitufdo principalmente
pelo coronel (de barranco) Jos6 Jtilio de
Andrade, na primeira metade do s6culo
XX, admite que a area pode at6 ser re-
duzida a "apenas" 350 mil hectares.
Ajuiza substitute de Almeirim, Andr6a
Ferreira Bispo, recusou-se a promover a
demarcaqao judicial do im6vel porque a
Jari Celulose nao comprovou ser a pro-
prietaria das terras. A empresa apelou
para a instancia superior. Chamado a se
manifestar em nome do Ministerio P6bli-
co do Estado, o procurador Miirio Falan-
gola endossou a decisao da jufza de 10
grau, em parecer de seis piginas. Esse
entendimento foi integralmente partilha-
do pela relatora do recurso, desembar-
gadora Eliana Daher Abufaiad, em ma-
nifestacao com oito folhas.
Mas seu voto nao foi o vencedor na
2" Camara Cfvel Isolada do TJE. 0 de-
sembargador Enivaldo da Gama Ferrei-
ra apresentou um voto de vista, de tres
paginas, firmando posiqio diametralmen-
te oposta a dajuiza, do procurador dejus-
tica e da desembargadora-relatora. Bas-
tou contar com mais um voto, o da de-
sembargadora Maria Izabel Benone, para
derrubar a posidio at6 entio dominant
na instanciajulgadora, revogar a decisao
de origem e determinar o prosseguimen-
to da acdio demarcat6ria proposta pela
Jari Celulose.
Por que a discrepancia? E tao com-
plexa assirn a mat6ria, a permitir enten-
dimentos tao diametralmente opostos?
Nao, o assunto 6 claro como o c6u de
Belem neste verao solar. Mas basta en-
comendar um parecer oportunista aqui,
citar trecho de um raciocinio tortuoso ali,
colar uma jurisprudencia de p6 trocado
acoli, para criar uma espuma mal tirada
de direito, capaz de iludir o degustador
superficial da mat6ria.
Todos os direitos que a Jari Celulose
poderia ter em relalao a Fazenda Sara-
cura e is dezenas de im6veis rurais,


Jornal Pessoal I'QUINZENA JULHO DE 2005


transferidos no curso das sucessivas ope-
rag6es de compra e venda dos ativos da
empresa, teriam que se basear na deten-
cao de um titulo legitimo. A centeniria
cadeia sucess6ria do im6vel, corn todos
os seus registros e averbaq6es, efetua-
dos em diversos moments ao long do
tempo, s6 seria capaz de dar-lhe a domi-
nialidade da area se na origem houvesse
um titulo legitimo.
Mas qual 6 o document atrav6s do
qual os primeiros detentores se investi-
ram na posse das terras? E um titulo de
posse, de 1894. Esse document, 6 evi-
dente, confere direito ao seu portador.
O primeiro direito 6 o de ter sua ocupa-
dao sobre a irea reconhecida. Ao se es-
tabelecer na terra situada na margemrn
do rio Arraiolos, afluente do Jari, o por-
tador do papel tinha autorizalao estatal
para a ocupaqao.
Sem essa autorizacao, seria um es-
bulhador, um invasor e, talvez, um grilei-
ro. Corn o papel, o posseiro fixou sua pre-
senqa na irea atrav6s de "duas casas de
madeira real cobertas de palha, uma que
serve de retire e outra para morada ha-
bitual, com varanda adiante e atris, duas
salas e duas alcovas, um corredor no
centro e cozinha, barraco de madeira real,
caicaras e arranchamentos, um curizal,
inajal, muitas plantaqoes frutiferas, rocas
de mandioca corn aviamento para fabri-
co de farinha, sendo os campos de var-
zeas pela frente e terras firmes pelos fun-
dos, pr6prios para criaqao de gado e ocu-
pado pela pastagem do gado pertencen-
te a dita fazenda".
Foi sobre essa base possess6ria, ma-
terialmente descrita nos papdis da 6po-
ca, que o coronel Ignicio Cardoso Fon-
seca transferiu as pretensies de legiti-
macao aos seus herdeiros. A legitimacao
foi requerida, mas jamais foi concedida,
nem cobrada. Os registros sucess6rios e
as transaqoes comerciais foram realiza-
dos sem que a legitimacao das terras
ocorresse. S6 em 1976, Daniel Ludwig
requereu a legitimacao ao Iterpa (Insti-
tuto de Terras do Para), dentro do ultimo
ano do prazo concedido (e depois pos-
tergado) para esse fim.
Corn o pedido, a expectativa de di-
reito da Jari seria de transformar posse
em propriedade atrav6s da mediqao e
demarcagao das terras, conforme o en-
tendimento administrative do Iterpa e as
normas legais. Na mesma condicao es-
tavam outras posses, a esmagadora
maioria da montanha de pap6is trans-
mitida por vendedores a compradores do
control acionario da antiga empresa
organizada pelos sucessores de Jos6


Jilio de Andrade. 0 limited da posse le-
gitimavel pelo regime antigo era de 4.356
hectares (o equivalent a uma 16gua
quadrada, para atividades pecuarias),
reduzido, sob a Constituicao vigente em
1976, a 3 mil hectares, sem a pr6via
autorizacao do Senado. A legitimacio
nao podia extrapolar essa bitola.
Mas a Jari queria muito mais. A prin-
cipio, 2,7 milhoes de hectares, quando
a pretensao global do projeto era de 3,6
milhoes. Mas quando os limits do em-
preendimento baixaram para 1,6 milhao
de hectares, a Fazenda Saracura tam-
b6m encolheu. A empresa ji se dava
por muito satisfeita (e nao seria para
menos) se o im6vel coubesse em 350
mil hectares.
Juntando os outros pap6is, a empresa
achava de bom tamanho delimitar seus
dominios sobre 950 mil hectares. Seria
muito menos do que os 1,6 milhaio de hec-
tares que passaram para o grupo Caemi,
em 1982, mas muito mais do que os 60
mil hectares admitidos no parecer dos
procuradores do Iterpa que opinaram
sobre o pedido, Carlos Lamarao Correa
e Constantino Tork Brahuna.
Enquanto a legitimacao no 6rgao es-
tadual permanecia em suspense, pela
avocaqao dos autos do process para
Brasilia, pelo Gebam, o 6rgio criado pelo
Conselho de Seguranqa Nacional para
gerir os interesses nacionais sobre o Bai-
xo-Amazonas, a Jari procurou outro ca-
minho para transformar direito de posse
em propriedade plena.
Uma soluqao magica foi dada quan-
do a tabelia do cart6rio de Monte Ale-
gre, jA afastada do cargo, sancionou, de
forma indevida e illegal, a consolidacao
das glebas da empresa numa proprieda-
de inica, compact, de 950 mil hecta-
res. A entao corregedora geral de justi-
qa, Carmencin Cavalcanti, cancelou o
inusitado registro.
A said encontrada pela empresa,
entao, foi um termo de ajustamento de
conduta, assinado corn o representante
do Minist6rio Pdblico em Almeirim. 0
promoter Ney Tapaj6s Franco determi-
nou, como se fora exig6ncia estatal, jus-
tamente o que a empresa queria realizar:
proper a demarcalao, em no maximo 60
dias, da Fazenda Saracura. 0 promoter
teve entendimento completamente opos-
to ao do seu colega de MP, o procurador
Falangola, da juiza Andr6a e da desem-
bargadora Eliana, para os quais falta le-
gitimidade a Jari para proper a demarca-
9ao judicial, jii que nao tem titulo legitimo
de propriedade da area a demarcar.
CONTINUE NA PAG









0 grande Allende e o pequeno Lula


Quando sentou, sozinho, na bela pol-
trona em um dos luxuosos sales do Pa-
ldcio La Moneda, sede do governor, em
Santiago do Chile, e armou a metralha-
dora contra o queixo, Salvador Allende
deve ter sido invadido pela poderosa sen-
saqgo de derrota. Sabia que apenas se
antecipava ao que o aguardava quando
os militares, em torno do paldcio sitiado e
incendiado, entrassem naquela s6lida
construqdo bem ao estilo colonial espa-
nhol. A morte teria que ser o seu destino
naquele moment. Entdo, que a consu-
masse com suas pr6prias maos.
O m6dico e politico, depois de uma
trajet6ria de meio s6culo na vida pdblica,
desde simples militant do Partido Soci-
alista at6 chegar a presidencia da Repi-
blica, fora vencido pelos inimigos conser-
vadores. Mas pelo menos Ihe restava,
naquela fraqdo de tempo antes de puxar
o gatilho e estraqalhar sua cabeca, a sen-
saqdo de ter tentado o novo, cumprindo
o program de mudanqas que defender
na campanha eleitoral. Uma revoluqdo
pacifica, baseada no mandate popular
atrav6s do voto, algo inusual na Amdrica
do Sul e no mundo.
O que imortalizou Salvador Allende
foi ter dado conseqiiencia ao seu pro-
jeto, mesmo quando abandond-lo se
apresentava como a formula pessoal de
salva~go. Salvadora, sim, mas oportu-
nista, mesquinha e ingl6ria. Por seus
pr6prios erros e pela sabotage dos
oponentes, reforqados pela intervenqco
de uma poderosa nacgo estrangeira, os
Estados Unidos de Nixon & Kissinger,
o "caminho chileno para o socialismo",
corn revolucgo e democracia, se mos-
trou inviavel.
Mas Allende e a Unidade Popular ten-
taram percorr6-lo. Fizeram o Chile parti-
cipar de uma experiencia nova e em
boa media 6nica, mesmo em terms
mundiais. Esse compromisso garantiu-
Ihes um lugar definitive na hist6ria, ven-
cendo proscriq5es, interditos e camufla-


CONTINUA0AO DA PAG. 7
Apesar da decisdo tomada pelos dois
integrantes da 2" Camara Civel Isolada,
contra o voto da relatora e o parecer do
Minist6rio PNblico, o cumprimento do ac6r-
dio poderd ser suspense. A Procuradoria
Geral do Estado argitiu a sua presenqa
como terceiro interessado, alegando que
a aqgo nao foi contestada pela outra par-
te. Se o process prosseguir, contestard a
demarcaqio, por considerar que as terras
sdo de dominio pdblico. Independentemen-
te dos desdobramentos da questdo, 6 de


gens estabelecidas a partir de sua depo-
siqio, em setembro de 1973, e que pers-
sistiriam ao long de quase 30 anos.
A biografia de Luiz Inicio Lula da
Silva era mais gloriosa e impressionante
do que a de Allende e outros lideres poli-
ticos populares, esquerdistas ou socialis-
tas do mundo. Mas s6 at6 a campanha
eleitoral de 2002. Lula 6, sem d6vida al-
guma, o maior lider politico j i surgido no
meio do povo brasileiro, um "filho do Bra-
sil", conforme o titulo que Denise Para-
nagud deu A biografia que escreveu do
fundador do PT. Tinha tudo para nio ter
dado certo, at6 mesmo como pessoa.
Podia ter ficado pela estrada de Per-
nambuco a Sdo Paulo quando o "pau-
de-arara" que transportava sua familiar
de retirantes o esqueceu numa parada
intermedidria, no curso da jornada de
12 dias. Mas a mae gritou at6 que o
motorist parou e esperou Lula e o ir-
mdo se reincorporarem a caravana.
Lula podia ter morrido quando o pai o
atirou deliberadamente dagua, mesmo
sabendo que o filho nio sabia nadar,
para aliviar o peso da balsa, por ele
usada em services de travessia em
Guarujd (SP), e que ameaqava afun-
dar. 0 irmdo mais velho socorreu Lula
e o levou at6 a margem.
Lula sobreviveu a essas e a numero-
sas outras provaqoes e privaqdes, que
caracterizam a vida do cidadio comum
num pais cruelmente desigual como o
Brasil, impedindo-o de estar em igualda-
de de condig6es na dispute pelas posi-
95es mais importantes na economic, na
vida social e na political do pais. Em 1989,
Lula era o dnico candidate com o qual o
PT podia contar, nove anos depois de
criado, para disputar a presid6ncia da
Repdblica. E por muito pouco Lula nio
venceu o grande azardo dessa dispute, o
alagoano Fernando Collor de Mello, re-
presentante da mais antiga elite brasilei-
ra, a dos donos de engenho de cana-de-
at6car da Zona da Mata nordestina.


se levar em consideraqgo a natureza do
ato que autorizou a realizaqdo da demar-
caio judicial, deliberado por tao precdria
maioria (2 votos contra 1) numa camara
dajustiga, contrariamente a unanimidade
das manifestaqaes at6 entao (dojufzo sin-
gular, do Minist6rio P6blico e da relatora).
Afinal, estava em causa um bem, possi-
velmente ainda integrado ao patrim6nio
pdblico, de 154 milhbes de reais, confor-
me o valor atribuido a causa pela pr6pria
Jari (para o cdlculo de custas, que perma-


O Brasil at6 quis optar por Lula, mas
ele nao estava preparado para veneer.
Um pouco mais de maturidade Ihe teria
permitido sobreviver ao debate na TV
Globo, quando Collor revelou a hist6ria
de sua relacgo amorosa com a enfermei-
ra Miriam Cordeiro, da qual resultou uma
filha, Lurian. 0 namoro acontecera en-
tre a morte da primeira mulher e o novo
casamento, quando Lula estava desim-
pedido, e Lurian foi assumida imediata-
mente pelo pai. Mas Lula sugerira a mde
o aborto e a lembranqa desse fato o per-
turbou tanto que, a partir desse momen-
to, seu desempenho foi sofrivel, influindo
sobre o animo dos telespectadores, elei-
tores no moment seguinte.
Certamente esse incident se tornou
um dos pontos de referencia mais influ-
entes na posiqao que Lula assumiria nas
tres eleiqGes seguintes, sobretudo naquela
que, final, Ihe daria a vit6ria, em 2002.
Lula queria veneer, de qualquer maneira
- e, hoje, como estA ainda mais nitido, a
qualquer preqo. Em parte esse resultado
se deve a forqa do pr6prio Lula, lider nato,
carismitico, predestinado a comandar.
Em parte, se deve ao fato de que,
desde 1978, quando se profissionalizou
como dirigente sindical, ficando respon-
sdvel pelas quest6es previdencidrias do
Sindicato dos Metaldrgicos de Sao Ber-
nardo e Diadema, ele p6de se dedicar
integralmente a sua formaqdo como Ii-
der politico. Durante um quarto s6culo,
atW a eleiqgo para president, Lula nao
fez outra coisa, o tempo todo.
Essa combina~qo de qualidades pes-
soais e condicges externas favoriveis
tornou-o o politico brasileiro com maior
densidade eleitoral do pais. Lula se pre-
parou para veneer a maior de todas as
eleicoes, mas naio se preparou para o dia
seguinte, nem se perguntou como surgi-
ram e de onde se originaram as condi-
9es materials que Ihe permitiram viver
bem durante todo esse period, com con-
coNTINUA NAl PAG 9


necem num teto independentemente do
valor da demand, a partir de certo limited,
conforme uma regra que desfavorece os
menos afortunados, obrigados a arcar com
o pesado 6nus de litigar em juizo).
Se o executive vai adotar as provi-
dencias previstas em lei contra a aqao
demarcat6ria, o judicidrio deve tirar do
epis6dio as licqes que ele estd a sugerir,
na defesa dos mais altos interesses do
Estado. Afinal, o poderjudicidrio tamb6m
6 uma instituiqao piblica.


a AGOSTO DE 2005 ILQUINZENA Journal Pessoal








forto e tranquilidade para sua famflia en-
quanto ele percorria o Brasil, diversas
vezes, em sua pregaqco political.
Ja que o president gosta de metiforas
e parabolas, convinha que ele pensasse
sobre um pai de famflia comum que, subi-
tamente, v6 o filho aparecer com sinais
evidentes de riqueza: roupas boas, um car-
ro menor inicialmente, outro maior e mais
luxuoso em seguida, presents para os pa-
rentes, etc. 0 pai consciente cobrard a ori-
gem dessa aflu6ncia. Lula, por6m, que viu
suas condiCes de vida e de trabalho mu-
darem continuamente para muito melhor,
nao se fez essa pergunta elementary nem
a si nem aos demais da famflia.
Agora mesmo ele faz ouvidos de mer-
cador as denlincias sobre a estranha as-
sociacqo da maior empresa de telefonia
fixa, a Telemar, que aporta 95% dos re-
cursos ao capital de uma empresa forma-
da pelo filho do president, para s6 sacar
um quarto das aq6es comr direito a voto.
Atribuir esse formidavel neg6cio de cinco
milh6es de reais ao talent do filho 6
expor-se ao anedotario, como o daquele
quadro humoristico apresentado por J6
Soares na television sobre a ingenuidade
do pai, que nada v6 desfavoravel ao filho.
0 president se fechou a essas hist6-
rias nao apenas para poupar os parents
e amigos que nela aparecem como su-
postos quando nao comprovados be-
neficidrios, mas a si pr6prio, tamb6m um
beneficiario dos mesmos procedimentos
- heterodoxos, para dizer o minimo. 0
politico professional Lula nao se pergun-
tou sobre quem, por que e como Ihe pro-
porcionava comodidades como o charu-
to cubano, o uisque escoces, o vinho fran-
c8s, a casa de moradia, os jatinhos ou as
poupanqas inesperadas que Ihe permiti-
ram se tornar um proprietirio de im6veis.
Nada disso 6 corrupqao, pura e simples-
mente, ou roubo, mais grosseiramente. Mas
nio 6 mais honestidade impoluta, que se auto-
situa num piano de superioridade presumi-
damente absolute. 0 president se tem man-
tido num castelo inexpugnivel, cercado de
fosso profundo com agua e jacares por to-
dos os lados, enquanto lI fora 6 travada uma
batalha suja, na qual todas as regras sdo pos-
siveis e s6 duram at6 o moment seguinte, o
da revogaqao. Mesmo esse tipo de reduto,
por6m, acaba sendo alcanqado pelas cata-
pultas ou pelas torres m6veis.
As inegdveis qualidades de Lula, que
Ihe deram condicqes de chegar onde se
encontra, nao permitem supor que ele seja
um alienado, subitamente assolado por
esquizofrenia ou, ji agora, autismo. Ele
nio 6 um daqueles idiotas rurais que pro-'
vocavam a ira de Karl Marx. Logo, sabe
onde comeqou a lama que agora se es-
praia pelo pais, e por onde ela passou
antes de se tornar publica, emergindo dos
subterraneos do poder.


No intimo das reflexes que fez de-
pois da acabrunhante derrota para Co-
Ilor de Mello, ele deve ter-se convenci-
do de que ninguem faz omelete sem que-
brar os ovos e que o Maquiavel de ouvi-
do, de orelha de livro, de que tomou co-
nhecimento, tem razdo em subordinar os
meios aos fins.
Uma vez no cargo mais elevado da
administragco p6blica e do poder no Bra-
sil, Lula limparia as sujeiras do caminho
percorrido, apagaria as manchas, elimina-
ria as provas, e legitimaria tudo pelo que
faria para tornar o Brasil mais rico, mais
respeitado, maior no mundo. Mas fazer
como? Bern, isso Lula nio tivera tempo -
nem disposiqgo de aprender. Delegou a
tarefa aos que, na base, no dia a dia, no
mundo real, cheio de coisas pequenas e
sujas, tinham tornado possivel sua vit6ria.
E essa gente operosa, dedicada, de ori-
gem geralmente humilde, descobriu que
havia chegado ao paraiso. Daf, em tao
pouco tempo, por m6todos desastrados, ter
cometido essa impudicicia toda, como di-
ria a vov6 Zulmira, se ainda estivesse ati-
va na mente de Stanislaw Ponte Preta.
Acompanhando durante horas o de-
sempenho de "quadros dirigentes" do PT,
como Deldbio Soares, 6 impossivel nao
se perguntar: como essa pessoa p6de
subir tanto? Como p6de ter tanto poder?
Como p6de receber tanta delegaqdo, de
tanta gravidade? Um ditado popular tern
fulminante resposta: formiga que quer se
perder cria asas. 0 PT criou asas e se
perdeu. Mais dia menos dia, seguird seu
destiny a formiga maior do partido, que,
queira ou nao, 6 o resultado de toda essa
algaravia 6tica e moral.
Se isso acontecer, nao restart a Luiz
Inicio Lula da Silva o console moribun-
do mais glorioso de Salvador Allende.
Lula nao tentou nada de novo. S6 se ele-
geu, alids, por ter renunciado ao novo,
abjurando o que havia dito antes (sem
sequer, a semelhanqa do Principe tuca-
no, colocar o pensamento em letra de
forma), que passou a classificar de in-


conseqtiencia oposicionista, bravata. Du-
rante meio s6culo Lula repetiu uma lada-
inha, sem testar sua validade. Falou para
si e adorou o que ouviu.
Ao finalmente conquistar o poder, gra-
qas a truques e recursos que incorporou a
partir da derrota de 1989, Lula descobriu
que o poder 6 outro mundo, certamente
afrodisiaco e literalmente embriagador.
Entregou-se intensamente a ele, corn seu
jatao, suas mordomias, suas excurs6es in-
ternacionais e todos os privil6gios da co-
bertura. Imaginou que o andar debaixo
garantiria que nada respingaria para cima.
Os fatos estao Ihe mostrando que isso 6
impossivel. Em political, a subversao gra-
vitacional 6 possivel: quem cospe de cima
pode levar a cusparada na cara.
0 Palacio do Planalto, ao contrdrio do
La Moneda, nao esta cercado por gol-
pistas que querem derrubar o president,
insuflados por uma elite que os atos do
president contrariam. Pelo contririo, o
top da elite, o crnime de la crmnze, nunca
ganhou tanto dinheiro, nem sob o consu-
lado do principle da sociologia (que trans-
feriu a derrama como dever de casa para
o ex-companheiro, este a cumprindo
como discipulo zeloso, graqas a delega-
9go in pectori ao companheiro Palocci,
o m6dico das finanqas nacionais).
Mas a sede do poder national esti
seriamente ferida. Ningu6m ainda pode
dizer se resistird aos golpes e renascera,
como a mitol6gica f6nix. Mas a gl6ria que
teve Allende, Luiz Inicio Lula da Silva
nao a tera. Ele jamais morrera por seu
program ou por suas idWias. Continuard
a caminhar impudicamente pelo poder ou
sera colocado para fora, nao se sabe. De
qualquer modo, nao carregard mais o
patrim6nio de hist6ria que trazia consigo.
O mito virou farofa.
A estrela do PT reduziu-se a um pro-
duto de propaganda e talvez assim se eclip-
sara. Como uma promessa, que nunca se
vai poder testar. Para conquistar o poder,
a estrela se transformou em miragem, ilu-
sao, fantasia. Cara e vagabunda.


SOJA
Rondonopolis. em Mato Grosso, perdeu para Porro Franco, no Maranhao. a
fabric de processamento de soja que a ABC Inco. dilisdio de ugroneg6cios do
g rupo Algar concebeu para instalar na regiuo None. A mudanua de plans se
deteu a iuma quesico de logistica: se tornou mali ficil e barato le ar grao. furelo e
oleo de soja de Porto Franco para Itaqui, no litoral maranhense, do que de Rondo-
nopolis para Santos, em Sio Paulo. A empresa mincira %ai utilizar a estrutura
monrada terminal pritauto da Companhia Vale do Rio Doce para esrocar seus
products e embarc6-los num local com o melhor calado do pals. 0 inN estimento
para esmagar 500 toneladas de soja por dia comegard em 220 milhoes de reais.
mas poderd chegar a RS 600 milhoes quando a capacidade de processamento
alcanCar 2 mil toneladas/dia.
Um exemplo ao lado que o go% erno, os .isojeiros e a sociedade paraense podiam
analiar para aplicar em sua pr6pria situacIo.


Jornal Pessoal IPQUINZENA JULHODE 2005 9










memorial do,



COTIDIAN OO


* A Assembl6ia Legislativa aprovou
requerimento do deputado La6rcio
Barbalho, dirigido ao governor federal,
pedindo a transferencia da estacgo
ferrovidria de Sdo Braz. A localizadio
do terminal da Estrada de Ferro de
Braganca era considerada
inconvenient, por prejudicar a
expansdo urbana da cidade. Filadelfo
Cunha, deputado do PTN, sugeriu que
a sede do novo terminal ficasse no
Igarap6 das Armas (conforme ele
disse, mas das Almas, na versdo que
acabaria prevalecendo), "como
escoadouro objetivo, de vez que atendia
cargas marftimas e terrestres".
Filadelfo sabia das coisas: ele fora
director da ferrovia.
Quando Brasilia ouviu o pleito, jA
havia outro governor, o military, na
capital. Como resposta, a ferrovia de
Braganca foi simplesmente extinta e
erradicada. Ndo s6 ela como a outra
estrada de ferro entao existente no
Para, a do Tocantins.

* Ate 1963 havia uma calcada no
centro da entdo Avenida
Independencia (hoje, Magalhaes
Barata), ao long de tr&s quadras,
entire as ruas 3 de Maio e Castelo
Branco. Esse passeio central, que
servia de proteado aos pedestres na
travessia de uma via tdo larga, dando-
Ihe um toque de classes, foi suprimido
para o asfaltamento integral da
avenida. Era o veiculo automotor se
impondo sobre o home.

* 0 navio Santa Maria, da Dovar Line,
cobria a linha de Nova York, levando
cargas para o Pacifico via Trinidad. De
Bel6m seguia para Nova York, Boston,
Filad6lfia, Baltimore e Norfolk. Seus
fretes eram agenciados por Costa
Representaqoes e Comercio,
estabelecidos na Travessa Campos
Sales, 13 (fone 4870).
A Companhia Nacional de
Navegaqco Costeira, mais conhecida
por seu iltimo nome, uma autarquia
federal, transportava passageiros e
cargas. Para os primeiros tinha o
"Itahit6" e o "Rosa da Fonseca", que
saindo de Bel6m parava em Fortaleza,
Recife, Salvador e Rio de Janeiro (era
o sonho de viagem dos abastados). A


frota de cargueiros era integrada pelo
Rio Piabanha, Rio Tubardo, Rio
Jequitinhonha e Rio Paraguaqu. 0
encarregado das passagens e fretes era
a agencia de Dias Paes, na avenida
Castilhos FranCa, 80 (fone 3091).

* Ruth Passarinho, esposa do
coroner Jarbas Passarinho (que no
ano seguinte se tornaria governador
do Estado, no lugar de Aurelio do
Carmo, cassado pelo regime military ,
foi uma das professors do curso de
Relacoes Humanas promovido pelo
Diret6rio Academico da Faculdade
de Direito da Universidade Federal


do Pard. 0 padre Diomar Lopes, que
se tornaria um dos perseguidos
depois do golpe de Estado, era outro
dos palestrantes, juntamente corn
Edith Silva. A aula inaugural, sob o
tema "A mulher e a sociedade ", foi
da coordenadora do curso, Iddlia
Maues. Universitdrias de vdrias
faculdades se inscreveram e
participaram da promocao.

* Numa 6poca em que ndo havia o
Google, nem computadores, sabia-se do
que ia pelo mundo atrav6s dos recortes
do Lux Jornal. Na sua sede, no Rio de
Janeiro, e nas sucursais de Sdo Paulo,
Belo Horizonte e Recife eram
produzidos, todos os dias, pelo menos
100 mil recortes de jornais. Colados em
pap6is padronizados, esses recortes
eram enviados a milhares de clients
em todo pais, inclusive em Bel6m, onde,
em 1963, se comemoraram os 35 anos
do entdo famoso Lux Jornal. Quem era
bem informado na 6poca tinha que ter
suas pastas de recortes sobre os temas
de seu interesse.

0 0 engenheiro Arthur Carepa,
secretdrio de Obras da Prefeitura de
Belem, publicou nota official para
alertar os interessados na hasta
pdblica de venda do predio onde
funcionara o Caft Manduca. Quem
arrematasse o imdvel, localizado na
esquina da rua Campos Sales com a
travessa 13 de Maio, teria que
ajustd-lo ao Piano Diretor da
cidade. 0 Piano de Alargamento em
vigor exigia um recuo de 20 metros
pela Campos Sales e de 15 metros
pela 13 de Maio, o que significava a
perda de aproximadamente 300
metros para o arrematante.
A hasta pdblica foi realizada.
Quem fez a arremataado foi o
advogado Otdvio Meira, em nome de
seus clients, Antonio Assmar,
Eduardo Assmar e Tufic Assmar 0
lance vencedor foi de 13,1 milhoes
de cruzeiros, contra Cr$ 12,8
milhoes da Companhia de
Engenharia Rodrigues Pereira e Cr$
12,7 milhoes de Lobato Torres, por
conta prdpria. Tudo nos conformes,
menos o recuo, que ficou no "ora,
veja", como se dizia.
0 Cafe Manduca foi, durante
muitos anos, um dos principals
locals de encontro no centro velho
de Belem, principalmente de politicos
e jornalistas. Ficava a meio caminho
de dois jornais: A Provincia do Pard
e 0 Estado do Pard. Foi tema de um
livro de Oswaldo Caldeira, lanqado
no ano passado pela Secretaria de
Cultura do Estado.


10 AGOSTO DE 2005 IQUINZENA Jornal Pessoal


H .OME Onk u .bn -. i..l.Ta..m
Ingressos: A venda a paortir dos 10 hours

PROPAGANDA

0 circo

na cidade
Quem, hoje na meia idade, nio foi ver o
jogo de futebol entire cdes, uma das gran-
des atraq6es de Garcia, o "rei do circo"?
No auge da dispute, era cachorro pulan-
do furiosamente para pegar e estourar o
balo. A plat6ia vibrava, tornando esse
um dos carros-chefes do cartaz, chaman-
do para as concorridas sess6es didrias,
com tres apresentaqoes aos sdbados,
domingos e feriados. Al6m dos cachor-
ros, Romeu era "a inica zebra que tra-
balha em circo" e Rex, "o p6nei sdbio".






Ir ~"--


MUSEU
A sucessdo no Museu Paraense Emilio Goeldi foi a que todos esperavam e queriam:
Ima C61lia Guimardes Vieira, que era a vice-diretora, substituird Peter Mann de To-
ledo no comando da instituigao de pesquisa, a mais antiga da Amazonia. Mas deve
ter sido facil para a pr6pria Ima aceitar o novo encargo. No segundo posto da hierar-
quia do MPEG eja anteriormente, como ativa pesquisadora, ela deve ter constatado
como 6 dificil assegurar recursos para manter o museu a altura do nome que tem e
em condicoes de assumir novos desafios, sem os quais seu concerto se tornard mera
ret6rica e logo entrard em deterioraqao.
Apesar do apelo emotional e promocional que a Amazonia suscita, na hora de
liberar as verbas ela se perde na escala das prioridades e nos patamares hierdrqui-
cos. Os ministros de ciencia e tecnologia, superiores da instituiqgo, raramente vem
por aqui e alguns acabam nem dando o ar de sua graqa, mesmo quando 6 para
referendar um process seletivo para a constituiqCo da direCgo do museu.
Tendo concordado em oferecer seu nome ao process seletivo, Ima Vieira,
terceira mulher a dirigir o MPEG, tem todas as condicoes para fazer o "Goeldi"
alcangar uma posiqdo a altura do que a Amaz6nia dele requer. E a mulher certa,
talvez na hora certa.

SANTIDADE
A Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo "bispo" Edir Macedo, tem tries
milh6es de fi6is, que freqUientam 6 mil templos espalhados pelo pais, atendidos por
3,5 mil funciondrios. Por baixo, sua receita 6 de 30 milh6es de reais por mes, graqas
a doaqces feitas durante os cultos, raramente inferior R$ 10 per capital. Sua principal
despesa operacional, a manutenqdo desses templos, consome R$ 13 milh6es men-
sais. Admitindo-se que o custo de pessoal, numa estimativa inflacionada, atinja R$ 4
milh6es, sobram R$ 13 milhoes para digamos assim investimentos.
E por isso que o "bispo" Jodo Batista Ramos da Silva anda com R$ 10,2 milh6es
ensacados emjatinhos pelo pais. Ao ser flagrado, no mes passado, nao perdeu o riso
estereotipado no rosto confiante: ora, eram s6 10 milhoes. 0 contratempo, seguido
de sua expulsdo do PFL, sob cuja legend se elegeu deputado federal, nao o abate-
ram. Muito pelo contrario: "Nas pr6ximas eleiqces, eu vou arrebentar de votos. Ago-
ra sou conhecido em todos os cantos, em todas as esquinas", disse, retumbante,
enquanto os policiais contavam as notas seqiienciadas.
Para nao perder o mote, muito conhecido em todos os cantos de Jerusal6m
tamb6m, ficou um personagem que pode servir de inspiraqgo ao ex-pefelista:
Judas Iscariostes.


CENSURA
Ribamar Castro realize, ha virios anos,
um hercdleo trabalho de salvamento da
mem6ria da administracqo plblica repu-
blicana no Para. Na primeira pigina de
todas as edicqes do Didrio Oficial ele
public uma resenha de atos que ja sai-
ram no DO. Uma primeira seledio des-
se inventario j virou livro. Espera-se pelo
proximo volume.
O levantamento esti em 1943, na in-
terventoria de Magalhies Barata, sob o
Estado Novo, de Getulio Vargas. Num
dos litimos nimeros do Didrio aparece
um decreto-lei que ilustra sugestivamen-
te o que foi a aigo da censura getulista.
Ela nao apenas extirpava da imprensa e
das artes o que desgostava a ditadura:
criava tamb6m os fact6ides do regime,
assim manipulando as consci6ncias, os
gostos, as mentalidades.
O decreto, entire outras coisas, cria-
va a Discoteca do Estado, a cargo do
Departamento Estadual de Imprensa e
Propaganda (o filhote local do DIP, ins-
pirado no hom6nimo nazista criado por
Joseph Goebbels). A discoteca promo-
veria a "divulgagio cultural e artistic,
e gravaqces que interessem o [sic] ser-
vico pdblico".
Dentro do DEIP, o responsAvel pela
discoteca seria o director da Divisdo de
Teatro, Cinema, Diversoes e Cultura Ar-
tistica, que tamb6m era o director do Te-
atro da Paz.
Ou seja: enquanto uma face da mdo
batia, a outra acariciava, como era a po-
litica cultural do Estado Novo.


Journal Pessoal I-QUINZENA JULHO DE 2005 11


FOTOGRAFIA

No transit
Sem uma guard especializa-
da, a fiscalizaqdo do transito
de Bel6m na metade da d6ca-
da de 60 era feita por solda-
dos da Policia Militar. Eles sem-
pre apareciam nas ruas, em
duplas, quando havia blitzes,
como a que a foto registra, em
plena avenida Portugal, dian-
te de um terminal de 6nibus
(os clippers) do Ver-o-Peso,
que ji ndo existe mais, com a
mdo invertida para o fluxo dos
carros. Observe-se a singe-
leza do fardamento dos PMs
e seu porte, nada robusto.
Muito diferente dos padres
de hoje. Os models automo-
bilisticos, tamb6m. 0 mundo
ficou mais complicado.








A verdade made in England


O lamentivel incident que provocou a morte do brasilei-
ro Jean Charles de Menezes pela policia londrina nio 6 tao
simples e maniqueista como tem sido apresentado. Nao hia
d6vida que os policiais se excederam, mas evidence 6 tam-
b6m a induqdo h violencia pelo comportamento do brasileiro.
Ele estava com roupa de inverno em pleno verdo e correu
quando recebeu ordem de parar. Estes sao dois dos fatos
definidores da cena. Ha outros, 6 claro, quase tao poderosos,
embora nio tanto.
Um: a apar&ncia de Jean Charles, um home moreno.
Outro: o bairro onde ele se encontrava, de arabes. Terceiro:
a tensio geral em Londres depois dos dltimos atentados (e
por homem-bomba, que, se detectado em tempo, precisa ser
executado imediatamente para nao acionar o mecanismo da
explosio, considerada sua opqdo de suicide).
Deve ter influido no inimo dos policiais todos esses fatores,
combinados pelo tempero imperial da Gri-Bretanha e a arro-
gancia dos sdditos de sua majestade, agora incomodados pela
proximidade tao estreita de gente estranha, que provavelmen-
te consideram inferior, atraida para realizar os services des-


prezados pelos ingleses e agora incomodando na sala de visi-
ta, quando o terror se sobrepoe a necessidade econ6mica.
Com todas essas restricqes, 6 de se louvar a traditional
fleuma dos londrinos, que nao vio a paroxismos de histeria
em tais situaqoes. Ja se acostumaram a conviver com as
adversidades, venham elas dos subterrineos do metr6 ou
dos c6us, como quando Hitler mandava da Alemanha suas
bombas-voadoras para aniquilar o antigo burgo da p6rfida
Albion. E nao conseguiu, a despeito de tanto suor, 16grima e
sangue. Ou justamente por isso.
0 incident 6 lamentivel, mas as estruturas democriti-
cas e civilizadas que subsistem aos s6culos na Gra-Breta-
nha estio em pleno funcionamento. Ha uma apurayao inde-
pendente em curso sobre o que realmente aconteceu e quais
sdo as responsabilidades em causa. Mesmo que lhes desa-
grade, os ingleses vio produzir e encarar a verdade. Se vio
mudar os procedimentos, sao outros 500. No entanto, que
contrast com um pais que, em tal circunstincia, costume
preferir encomendar pizza. Agora, acompanhada de uma
cachacinha e um charuto de fumo superior.


ZUM-ZUM-ZUM
Ha alguma coisa nas ruas
de Bel6m e nao 6 6nibus
de carreira.

SUSPEITA
Ha dois movimentos suspeitos
- ou pelo menos indicativos -
dos principals personagens da
temporada de escandalos na
rep6blica. 0 primeiro diz res-
peito a todas as medidas pre-
ventivas que adotam antes de
prestar depoimentos pdblicos.
Passam dias em reunites corn
advogados, que os acompa-
nham is inquiries, para pre-
parar a defesa. Em seguida,
desaparecem de circulaCqo.
Nao 6 comportamento de
quem, nada tendo a esconder,
nada tem a temer.




Jornal Pessoal
Editor: Lucio Flavio Pinto

Edio ce Arle:
L. A. de Fana Pinto
Producao.
Angehm Pinto
Coniato Tv.Beniamin Constant 845!1
20366.05300
Fones. 091)3241-7626
e-mai. jomalf-aimriazon.com br


SILENCIO
Nestas iltimas semanas
faltou na agenda de Boris
Casoy um compromisso:
colocar-se diante de um
bom espelho, olhar-se em
profundidade e gritar um
sonoro "6s um escandalo".
0 silencio obsequioso que
adotou diante das falcatruas
dos seus patr6es da TV
Record, enquistados na
Igreja Universal do Reino
de Deus, precisa ser
passado a limpo. Se esse
tipo de aparelho 6 usado em
circuit interno.

MUTA0AO
Conheci Delcidio Amaral,
como um tipico barrageiro,
quando ele era engenheiro-
residente da Eletronorte na
construqdo da hidrel6trica de
Tucuruf, na metade da
d6cada de 80. Se me
dissessem que ele se
tornaria politico e trocaria o
PSDB pelo PT para se
beneficiary da forya do
governador de Mato Grosso
do Sul, montando uma s6lida
estrutura de poder no Estado
e no Senado, eu reagiria corn
incredulidade. 0 pr6prio
Delcidio tamb6m,
provavelmente.
0 elo entire o passado e o
present seguiu algum
desvio pelo caminho.


TESTE
Para 0 Liberal, Ananindeua continue a ser governada por um
prefeito an6nimo. Quando 6 obrigado a noticiar sobre o gover-
no do municipio vizinho da capital e o segundo mais important
do Para, ojornal fala apenas de prefeitura ou prefeito. 0 nome
de H61lder Barbalho esti exclui-
do dos programs de texto da
folha da famrlia Maiorana. Na
sexta-feira passada (29), por
exemplo, uma mat6ria sobre
a aplicago em Ananindeua
da nova tarifa de enibus re-
produz entire aspas declaraai-t
do prefeito, mas sem tird-
lo da condivgo de mula
sem cabeqa.
0 filho do deputa-
do Jader Barbalho po-
dia fazer um teste:
mandar ao departa-
mento commercial de 0
Liberal mat6ria paga
na qual seu nome 6 re- ..
ferido. Sairi? .



BANCADA
A Igreja Universal do Reino de Deus tem uma bancada no
Congress Nacional compost de 14 deputados (a
segunda maior dentre os evang6licos, abaixo apenas da
Assembl6ia de Deus) e um senador. Fazem mais milagres
do que os "bispos" da igreja. Por ser deputado federal, o
"bispo" Joeo Batista nao foi preso quando a Policia
Federal o flagrou corn a dinheirama atribuida aos fi6is. A
PF, alias, teve que sair do caso por causa da imunidade do
parlamentar. Qualquer procedimento contra ele depend
de deliberaqio do Supremo Tribunal Federal.
A bancada evang6lica tem, no total, 54 deputados
federals e 3 senadores. Et pour cause.




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