Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00283


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Full Text



BELO SARACURA:
MONTE: GIGANTE
AGORA FUNDIARIO
VAl? NO JARI

PAGINA PAGINA


A AGENDA AMAZ(^NICA DE LOjCIO FLAVIO PINTO
JULHO DE 2005* 1s/28OUINZENAs* NP 349* ANO XVIII* R$ 3,00


i


`B
s


A Amaz6nia se tornou um paraiso para os pirates fundicirios. A

situagio se tornou tao grave que o judiciario quer former uma

forga-tarefa para combat-los. Finalmente.


epresentantes de todas as ins-
tincias do poder ptiblico em
Bel~m que lidam com as ques-
ties fundidrias foram convoca-
Rdos a integrar uma forga-tare-
fa contra a grilagem de terras no ParB.
Todos concordaram com a id~ia, apresen-
tada pelo president do Tribunal de Justi-
ga do Estado, desembargador Milton No-
bre. A reuniho foi muito proveitosa: evi-
denciou, g simples presenga de represen-
tantes do Judici~rio, do Minist~rio Pliblico
e do Executivo, tanto federal quanto esta-
dual, que a a~go comum, bem planejada,
pode center esse flagelo, novamente em
expansion: a apropriaCio ilicita de bens que
integram o patriminio pdiblico.


Hoje, o principal campo de provas
da grilagem 6 a justiga. Os grileiros, se
reciciando na frente da administration
pdblica, como geralmente ocorre com
os criminosos, sofisticaram seus gol-
pes. Mais eficiente do que contratar
pistoleiros para impor a ocupa~go de
determinada grea ou se valer de frau-
dadores para inventar titulos de domf-
nio, duas das formas de usurpagio de
terras pdblicas, tornou-se colocar a
Brea cobigada sub-judice.
As duas maiores grilagens de ter-
ras da Amazinia (e do planet) estio
sub-judice. Na maior delas, com pre-
tens~es sobre 12 milhbes de hectares,
nho existe o titular do ato, que 6 o fan-


tasma Carlos Medeiros. Na outra, comn
aspiraSio de dominio sobre terras que
poderiam chegar a somar 7 milhaes de
hectares, nho hB o titulo, ao qual toda
uma cadeia dominial de mais de 80 anos
se refere, mas sem a exibigio do do-
cumento origindrio de transfer~ncia da
9rea para a propriedade privada.
Assim, uma Brea que pode chegar
pr6ximo de 20 milhaes de hectares
(quase sete vezes o tamanho da B61gi-
ca, a inspiraCio rica para o pafs neol6-
gico inventado pelo economist Edmar
Bacha, a Belinzdia, capaz de ter a mai-
or concentraqio de renda do mundo,
com sua imensa face de India brecada
co VikiinnA A A


TERRAS




Caga aos piratas









" Seu" Didi *


2 HOS
Edwaldo de Souza Martins
fez dois anos de morto no dia 17,
sob silencio quase geral, do tipo
convenient.
Quando decidiu seu tiltimo e so-
frido retorno ao colunismo social,
ji atormentado pelos diabetes e
suas seqiielas, disse que tinha um
projeto: recolocar no foco das no-
ticias os verdadeiros personagens
dessa seglio jornalistica. Vgrias
dessas figures se tornaram not8-
veis pelos prbprios m~ritos, mas
muitos foram nada mais do que
criaC~es de Edwaldo Martins. Se
ele as concebeu, ningu~m melhor
as faria ressuscitar.
A tarefa era necessiria. A co-
luna social 6, por origem, precon-
ceituosa. Ela discrimina quem deve
aparecer. Era o que um dos eter-
nos coluniveis, Roberto Jares Mar-
tins, (hoje, no segundo andar, como
diz Elio Gaspari, com propriedade),
vivia a repetir. Didi Martins ecoa-
va a frase, dura e verdadeira. As
colunas socials estavam se trans-
formando entlio em redil de alu-
guel. Transformaram-se de vez,
como regra.
Edwaldo teria evitado essa me-
tamorfose, semelhante gquela que
a moga linda fazia nos velhos ar-
raiais de Nazard, virando gorila
atris das grades? Provavelmente
nito. JB lhe faltavam as forgas ne-
cessirias. Mas o brado de protest
ficou ecoando, embora nito por
muito tempo. Estancou a pr6pria
coluna, numa sucesslio indevida,
desrespeitosa ao fundador, espelho
de quem ficou, ultraje para quem
se foi. Hoje, com singulares exce-
95es, as colunas socials viraram
uma bacia das almas. Uma bacia
que recolhe indistintamente notas
digitadas e notas com cifrio.
"Didi" Martins se foi sem resol-
ver esse e outros impasses, sem dar
so u~gio certa a vi a que viveu e
consumiu antes que o tempo tives-
se sido o suficiente para exaurir seu
potential de amizade, de afeto, de
cavalheirismo. Ficou como uma le-
genda abruptamente desfeita. Por
isso mesmo uma saudade que nito
terminal, nem vai embora. Incomo-
da quando vira ilustio, 6 doce quan-
do se acomoda na memdria.


3 JULHO DE 2005 P/2.QUINZENAS Jornal Pessoul


cwIunp 0 D 9pAPA..
por sua elite de B61gica) ainda perma-
nece nos registros imobilibrios do inte-
rior do ParB em nome de supostos pro-
prietirios particulares, embora se sai-
ba que o donor de um pretendido im6vel
niio existe e o de outro niio tem o titulo
que declara possuir.
Veja-se o exemplar caso da C. R.
Almeida, que se apropriou de grande par-
te das terras existentes na chamada Ter-
ra do Meio, no cobigado interfh~ivio Xin-
gu-Tapaj6s, estabelecendo-se por duas
vertentes. Uma, atrav~s da aquisi~gio de
um antigo empreendimento extrativista,
montado sob a razlio social de Incenxil.
A outra vertente foi seguida pela habili-
taglio no invent~rio de um pretendente A
posse de terras da regitio, Raimundo Ciro
de Moura. Os m~todos que permitiram a
fixaglio da empresa forinea nessas anti-
gas possesses pioneiras sito espantosos.
Em 1996 o Instituto de Terras do
ParB, informado da grilagem, props na
comarca de Altamira uma a~gio de anu-
laglio e cancelamento dos registros imo-
bilidrios feitos no cart6rio local em nome
da Incenxil. Para prevenir terceiros de
boa-f6, O Iterpa pedia que o juiz mandas-
se logo averbar a mar-
gem do registro que o
imbvel estava sujeito a
uma desconstitui~gio.
O juiz Torquato de n ,
Alencar determinou a '
saudivel provid~ncia */ ,
elementary, mas a aver-
baqilo niio subsistiu. A
empresa recorreu ao
TJE eodesembargador
(jB aposentado) Joio
Alberto Paiva determi-
nou, liminarmente, a
sustaglio da ordem do juiz de primeira ins-
tincia. Apartir daf foi desencadeada uma
sdrie interminivel de incidents processu-
ais, nessa a~gio do Iterpa e em todas as
outras que surgiram a partir daf, seja as
da Incenxil como as do esp61io de Rai-
mundo Ciro de Moura, que tim a C. R.
Almeida como v~rtice de origem, direta
ou indireta, assumida ou disfargada.
Atd a decision final transitada em jul-
gado, a situa~gio de fato 6 que o grupo C.
R. Almeida control efetivamente o uso
desse autantico pafs, equivalent a mais
de duas B61gicas. Pode posar de defen-
sor do meio ambiente e denunciar o cor-
te e a extraglio de madeira nessa pos-
sessio. Uma vez apreendida, a madeira
poderil ir para algu~m sob o seu contro-
le, como seria o caso do fiel depositirio
da madeira, a principio aceito e hoje con-
testado pelo Ibama (Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Na-
turais Renoviveis), que se insurgiu con-
tra sua indicaglio.


COm os registros ainda inc61umes,
apesar do empenho em contrdrio de to-
dos os drgilos pdiblicos, federals e esta-
duais, as terras podem ser apresentadas
como destiny das aplicaqdes de seqties-
tro de carbon por empresas poluidoras,
que nio pretendem reduzir suas emissies
ou s6 o fazer em escala reduzida, apro-
veitando-se da possibilidade de transfe-
rit o compromisso para as florestas do
Terceiro Mundo. Esse mercado interna-
cional, que ji 6 medido em bilh~es de
d61ares, pode estar sendo o alvo desses
grupos, gragas g perman&ncia de suas
Breas sub-judice, sem que a justiga aten-
te para essas graves circunstincias.
A situaglio jB est8 perfeitamente des-
cortinada para os que querem vC-la. Os
incidents processuais slio protelat6rios.
Quanto mais se estenderem, melhor para
quem est8 comn a posse ffsica das terras,
que, de direito, pertencem ao povo para-
ense e, por extension, ao povo brasileiro
- e niio aos supostos proprietirios parti-
culares. Em decisdes corretivas, os inte-
grantes da justiga estadual, desde o juiz
singular at6 os 6rglios recursais, estio
remetendo os processes para a justiga
federal, dada a manifestaglio de interes-
se dos representan-
tes da Unitio, que
,torna incompetent
a justiga comum es-
tadual para proces-
sar o feito.
As decis~es s6
niio slio uninimes
porque ainda hi
magistrados filia-
dos a uma causa
contriria, mas cla-
aramente minorit8-
rios no conjunto da
justiga paraense, e s6 nito geram efei-
tos imediatos porque a parte interes-
sada usa os recursos qlue a lei lhre fa-
culta para gerar novos incidents. No
entanto, essa situaglio mudard comple-
tamente se a justiga federal, dando aos
processes a celeridade qlue eles exi-
gem, p~r fimn is drividas suscitadas e
dB sua sentenga final a respeito dos
processes de interesse da Incenxil e
do esp61io de Raimundo Ciro de Mou-
ra, as duas grandes grilagens na "Ter-
ra do Meio" do Xingu.
A tutela jurisdicional deixar8, entlio,
de ser usada como element acumplicia-
dor da grilagem de terras na Amaz~nia,
por a~go ou omisslio, por (mi) consci~n-
cia ou inconsci~ncia. Para que isto ocor-
ra, o empenho comum de todas as ins-
tincias do poder ptiblico 6 fundamental.
Espera-se qlue a forga-tarefa convocada
nito seja apenas um rebate falso, para um
toque de ataque aos nefandos pirates das
terras amazonicas.



















































































Jornal Pessoal 192"QUINZENAS JULHO DE 2005 3


A Fazenda Saracura 6 um im6vel fini-
co na hist6ria fundidria mundial. Segun-
do a descrigio contida no titulo de pos-
se, expedido pelo governor em I894 (cin-
co anos depois da proclamaCio da re-
pliblica no Brasil), essa gleba teria qua-
tro 16guas de frente por um milh~io de
metros lineares de funds. Ou seja: 25
quil~metros de largura por mil quil8me-
tros de comprimento. Comegaria na
margem do rio Arroiolos, afluente do rio
Jari, no ParB, avangando al~m-mar, em
pleno Oceano Atlintico.
Evidentemente, houve um pequeno
mas formidivel erro na indicaFio da Brea
do im6vel. O milhio de metros lineares
de funds talvez tenha crescido a essa
propor~go inconcebivel pela adugho de
zeros demais. O mais provivel 6 que o
correto fosse um mil metros lineares, ou
um quil8metro. Na hipbtese fabulfstica, a
primeira, a Fazenda Saracura, herdada
por Ana, Raymundo e Lisbino, pela mor-
te, em 1895, de sua mie, Maria Pingari-
lho Fonseca, viliva do coronel (de bar-
ranco) Inicio JosC Cardoso, teria nada
menos do que 2.640.000 hectares, ou 10
vezes a drea do reservat6rio da hidrelC-
trica de Tucurui, que 6 o segundo maior
lago artificial do Brasil.
A hist6ria pareceria pura ficq8o, o
mais surrealista possivel, se nio houves-
se um antecedente. Diz a lenda que em
1971, ao datilografar um decreto-lei (de
nlimero 1.164), que o presidente-gene-
ral Garrastazu M~dici assinaria, uma se-
cretaria acrescentou um zero ao ndime-
ro original. O document considerava de
dominio da Uniho 10 quil8metros de
cada lado das estradas federals cons-
truidas, em constru~go ou simplesmen-
te projetadas na Amazinia Legal, uma
replica estilizada de decreto que o pre-
sidente Joho Goulart assinou em 1964,
pouco antes de ser derrubado pelos mi-
litares. Com o erro, a faixa passou para
100 quil~metros de cada lado. Ou 200
quil8metros na largura total.
A Jari Celulose, atual proprietiria da
Fazenda Saracura, diz que 2,6 milhdes
de hectares constituem realmente o ta-
manho do seu im6vel, embora o mais
famoso dos proprietirios dessa Brea,
antes de ela parar nas m~os do milio-
n~rio norte-americano Daniel Ludwig,
em 1967, lhe tenha atribuido "apenas"
4.356 hectares. Foi comn essa dimen-
sho que a Fazenda Saracura apareceu
na escritura que o coronel JosC Jtilio
de Andrade mandou lavrar, no dia 30
de julho de 1948, is folhas 79 do Livro
104 de Procuraqbes do tabeli~o Edgar
da Gama Chermont, em Beldm.


Atra y 6s
dessa procura-
gio, o mais ed-
lebre dos coro-
n~is da Guarda
Nacional no
Pard deu ple-
nos poderes ao
advogado Oc-
tivio Meira
para assinar,
comn a Empre-
sa Jari Limita-
da, a venda de
todas as suas
propriedades,
que somavam
mais de 150, distri-
buidas ao long do
rio, entire o ParB eI.
Amapi. A atribuiiao
dos 4.356 hectares\ e
nio quase 2,7 millhoes a Fa-
zenda Saracura tinha~ umaI razau
de ser: embora o imbvel viesse sendo
transferido por meio de escrituras plibli-
cas de compra e venda, o titulo que deu
origem a essa cadeia sucessdria era de
posse, nho de propriedade. Circunstfin-
cia pela qual devia estar inscrito no livro
2, das posses, e nho no livro 3, reservado
gs propriedades.
Esse tipo de document, que apenas
o ParB e a Bahia emitiram, na transi~go
do imp~rio para a repdblica, reconhecia
o direito de ocupa~go do detentor do pa-
pel, mas s6 lhe conferia o dominio pleno
da Brea se ele a ocupasse, beneficiasse,
medisse e demarcasse. Ou seja: se a le-
gitimasse. Daf o nome do titulo: de pos-
se. Uma criagao contraditdria, que se jus-
tificava pelo desejo do novo governor re-
publicano de promover o acesso de pio-
neiros is remotas paragens de um Esta-
do que entho possula quase 1,4 milhio
de quil~metros quadrados (o AmapB ain-
da integrava o territ6rio paraense).
A legitimaqio desses titulos estava
balizada fisicamente: devia se restringir
aos limits miximos, de 1.089 hectares,
para a inddstria extrativa e de 4.356 hec-
tares, para a indlistria pecubria, confor-
me a designaqio da 6poca. Como a Fa-
zenda Saracura era utilizada para a cri-
a~go de gado, ao dar a procuraqio ao
advogado o coronel JosC Jlilio fez a es-
timativa da Brea em 4.356 hectares. Mas
nio podia defini-la de vez. Pela simples
e incontestrivel razio de que atC essa
6poca o imbvel nio havia sido medido
nem demarcado.
Assim continue a situadio atC hoje.
No entanto, a Jari Florestal, que passou


Icem
1982)
de Lu-
d \\ I g
paT~ra~ a u-
po' .4 nIlunesz e
agora est8 sob o contro-
le da Orsa, empresa paulista do setor de
papel e celulose, em nota official publica-
da na imprensa de Bel~m, no dia 17, de-
clarou que o Tribunal de Justiga do Esta-
do reconheceu-a e declarou-a "proprie-
tiria legitima da Fazenda Saracura".
Em texto pedregoso, a empresa diz
que essa decisio, da 2a Cimara Civel
Isolada do TJE, "6 terminativa, se sobre-
pondo e encerrando qualquer discussion
ou questionamento administrative" sobre
a dominialidade da Brea, tornando-se "o
mais forte precedent para a Jari conti-
nuar reivindicando, na esfera administra-
tiva ou j judicial, o reconhecimento do seu
direito de propriedade sobre as terras que
ocupa de forma legal e ininterrupta hB
mais de meio s~culo na regiho do Jari,
especialmente as demais terras de ma-
nejo cujos titulos assume a mesma na-
tureza deste da Fazenda Saracura".
A interpretaq~o dada pela empresa ao
acbrdho nlimero 57.359, adotado sem
unanimidade pela Cimara, 6 question8-
vel. Deduz-se da decisio que a Jari po-
der8 continuar a demarcaqio administra-
tiva da gleba, sustada pelo Ibama. A ati-
tude do institute, ali~s, jB suscita refle-
xaes. Depois de ter aprovado, em 2001,
o projeto de manej o florestal da Jari, que
deve ser um dos maiores do mundo
(abrange nada menos do que 500 mil hec-
tares), o Ibama p8s em ddvida o dominio
da empresa sobre a Brea licenciada. S6
depois da aprovap~o o institute consta-
tou que as terras manejadas nho perten-
cem a quem as maneja.
coNTINAki NA PAG


Al fazenda gigante no reino do Jari





4 )ULHO DE 2005 I/20QUINZENAS Jornal Pessoul


Foi muito acidentada, no dia 27 de ju-
nho, a primeira audiancia de instru~go de
uma das seis agdes que os irmlios Ronal-
do eRomulo Maiorana J6nior propuseram
contra mim perante a 16" vara criminal de
Bel~m, privativa dos assim chamados de-
litos de imprensa. Nessa primeira agilo,
na qual Ronaldo alega que ofendi a me-
m6ria de seu pai, Romulo Maiorana (com
quem trabalhei em O Liberal e na TV
Liberal ao long de 13 anos), no artigo "O
rei da quitanda" (o pr6prio Ronaldo se-
quer foi citado nesse artigo), indiquei ape-
nas duas testemunhas de defesa. Uma
delas, Lucid~ia Batista Maiorana.
Ronaldo tentou impedir a aceitaglio de
sua m~iecomo minha testemunha, alegando
motives pessoais ede ordem legal, argumen-
tos contestados pela minha advogada.
O representante do Minist~rio Pi~blico en-
dossou aposiglio, manifestando-se pela ex-
clusio da testemunha. Reconheceu, no en-
tanto, que a decision final cabia & juiza do
feito, "que, na pior das hip6teses, poderia,
querendo, ouvir a qualquer tempo qualquer
pessoa como testemunha no present feito
colimando o esclarecimento da verdade".


Depois de intense debate entire as
parties e o representante do MP, a jufza
Maria Edwiges de Miranda Lobato de-
cidiu "ouvir as testemunhas arroladas
de vez que 6 necess~rio para o escla-
recimento da verdade, que a Sra. Lu-
cidea Maiorana ser8 ouvida como tes-
temunha informant deste Juizo, face
o parentesco comn o querelante", Ro-
naldo Maiorana.
O Dilirio da Justiga do dia 5 repro-
duziu fielmente a decisio da jufza, da-
tada de 28 de junho:
"Este Juizo decide ouvir as teste-
munhas arroladas de vez que 6 neces-
s~rio para o esclarecimento da verda-
de, que a Sra. Lucidea Maiorana seri
ouvida como testemunha informant
deste Juizo, face o parentesco com o
querelante, e a outra testemunha atra-
v~s de carta precat6ria a qual ter8 o
prazo de 60 dias para o cumprimento
da precat6ria."
Imediatamente abaixo, o Didrio da
Justiga reproduziu outro despacho da
mesma juiza, com data do dia seguinte,
29 de junho:


"Ap6s andlise dos presents autos
por este Jufzo, verificando o grau de
parentesco existente entire a testemu-
nha Lucidea Batista Maiorana e Ro-
naldo Maiorana, decide pela dispensa
da oitiva da testemunha, face niio ser
imprescindivel seu depoimento como
testemunha informante.
O que aconteceu nesse intervalo de
24 horas para que se constituisse esse
nzon-sense?
Num dia a magistrada diz que de-
cidiu transformar a testemunha de de-
fesa, D~a Maiorana, em testemunha
do juizo, "face o parentesco com o
querelante". No dia seguinte, como se
nho tivesse dado tal despacho nem hou-
vesse presidido a audi~ncia de instru-
~gio e julgamento, no qual a relagio de
parentesco foi o tema dominant, a
mesma jufza afirma que decidiu dis-
pensar a oitiva da testemunha ao ve-
rificar "o grau de parentesco existen-
te" entire a testemunha e o autor da
queixa-crime.
Cabe a pergunta dos tempos de
Sarney que justig a 6 esta?


CONTINUIFAQ DA PAG 3
A demarcaqio feita pela Jari, com
pessoal tecnico por ela contratado, pode,
no m~ximo, mesmo com o endosso judi-
cial, ter valor informative, nunca termi-
nativo. Afinal, o titulo da Fazenda Sara-
cura 6 de posse, nito de propriedade.
Logo, a empresa ter8 que legitim8-lo para
que ele mude de status. E a legitimagio
s6 poder ser feita perante o 6rglo com-
petente para tal tarefa, o Iterpa. O Insti-
tuto de Terras do ParB s6 poder8 legiti-
mar o im6vel at6 dois mil hectares. A
partir desse limited, precisar8 ter autori-
zaq8o do Senado Federal. Mesmo que a
legitimagilo se faga pelo regime legal di-
ferente, como a Jari queria quando ini-
ciou a legitimaqio de 32 de suas glebas,
em 1976, o limited sera o daqueles 4.356
hectares especificados pelo coronel Jos6
Jtilio de Andrade na procura~gio para a
venda das terras, em 1948.
Ou entito o procedimento passar8 para
a esfera judicial e nesse caso a demar-
caglio que a Jari estli fazendo de pouco
ou nada valer8. Sera precise iniciar o
complex procedimento da discriminat6-
ria judicial, gleba por gleba, atraindo com
essa ag~o preferencial todas as demais
envolvendo as terras do Jari. Essas ter-
ras, com seu tamanho global imaginado
como sendo de 950 mil hectares, foram
oferecidas em dupla garantia ao BNDES
e ao Banco do Brasil.


Em 1982, os dois bancos estatais as-
sumiram a dfyida international que Da-
niel Ludwig contraiu e nio quis pagar,
por isso retirando-se do projeto que con-
cebeu, para produzir celulose e bauxita.
A divida, na 6poca, era de 200 milhdes
de d61ares, que os dois bancos tim qui-
tado, ressarcindo-se em aqdes preferen-
ciais (sem direito a voto e ainda sem
qualquer dividend, jB que o empreendi-
mento s6 deu lucro num linico ano, des-
de que entrou em opera~gio, em 1979) e
refinanciando o saldo. A Orsa assumiu
a dfyida e pagou aos herdeiros de Au-
gusto Antunes um real pela compra do
control acion~rio da Jari.
A quanto monta essa conta de che-
gada, hoje, ningudm sabe. Mas o que jBi
foi pago deve ser pelo menos o dobro
desse valor. Para nito se tornarem dons
do Jari, estatizando-o, BNDES e Banco
do Brasil acumularam 42% das agdes da
empresa, mas nho interferem em sua ad-
ministra~gio. Um dia, se ela vier a dar lu-
cro, recebertio alguma indenizagilo pela
dinheirama derramada no projeto.
O problema 6 que a garantia real des-
sa dfyida 6 constituida pelas benfeitori-
as, miiquinas, equipamentos e as ter-
ras, dadas em dupla hipoteca. As terras
entraram nessa composiCio, com um
peso ponder Avel, porque eram uma
imensidio de quase um milhio de hec-


tares (seriam 3,6 milhaes quando a his-
t6ria comegou). E porque seriam pro-
priedades particulares efetivas. Nao 6
o que dizem os papdis, quando exami-
nados com atenglio.
Por isso, a empresa fracassa todas
as vezes que tenta transformar em do-
minio pleno a enorme papelada que se
acumulou no seu ativo, desde os atos be-
nevolentes dos governadores republica-
nos para com seu cabo eleitoral prefe-
rencial, o coronel Jos6 Jdilio, senhor de
vida, morte e votos (sobretudo os fan-
tasmas) nas barrancas do rio Jari, at6 a
liltima frustrada tentative, de unificar
todas as glebas, como se formassem um
todo compact de terras, atravis de um
mero ato monocriitico e autocrtitico -
da tabelifi do cart6rio de Monte Alegre.
Esta Giltima tentative foi brecada no
ano passado pela entho corregedora de
justiga do interior, desembargadora
Carmencim Cavalcanti. Mas, a julgar
pela nota de domingo passado, o file-
go da Jari nito acabou. A empresa pa-
rece disposta a colocar a Fazenda Sa-
racura no Guiness, seja como im6vel
rural ou, talvez, como uma pista de pou-
so de fazer inveja em Itu, a terra pau-
lista dos superlatives.
Esti at o primeiro campo de provas
para a forga-tarefa anti-grilagem proposta
pelo desembargador Milton Nobre.


Mletamorfose em 24 horas












cesstirio ouvir os oito povos indigenas
(Kayap6, Parakanti-Apiterewa, Arawe-
t6 do Igarapd Ipixuna, Assurini do Xin-
gu, Arara do Parti, Juruna, Xipaia e Cu-
r-uaia) que serlio direta ou indiretamen-
te afetados pela construglio do comple-
xo de Belo Monte. Foi justamente pela
presenga dessas populagaes indigenas
que o MP pediu e ajustiga concede a
suspension do ElA-Rima, em 2001.
O Greenpeace anunciou a intengio
de convocar outras instituigoes para re-
querer ao Procurador Geral da Repu-
blica que ajufze agao perante o Supre-
mo Tribunal Federal suscitando a in-
constitucionalidade do decreto legisla-
tivo. Alega naio ter sido cumprida a exi-
gancia do parigrafo 30. do artigo 231
da Constituiglio Fe-
deral, "que determine
que o Congresso s6
autorize a constr'uglo
de hidrel~tricas que
afetem terras indige-
nas, ap6s ouvir as po-
pulagbes indigenas a
serem atingidas, e
saber se eles aceitam .
ou nito o empreendi-
mento. Em nenhum
memento a Climara ,. ..
ou o Senado convo- :Li%
cou aqueles povos in-
digenas para mani-
festar suas opinides
sobre o projeto de
decreto legislative".
Pode estar havendo um desenten-
dimento nessa pol~mica, por aquilo que
os advogados costumam chamar de
vjcuo na lei. O decreto aprovado pelo
Congress Nacional naio autoriza a exe-
cuglio da obr-a. O que ele faz 6 r~epor o
process de licenciamento amnbiental no
pon7tode partida legal, negligenciado an-
teriormente. A partic de agora a Ele-
trobris pode iniciar a elaboraglio do
EIA-Rima, licitando o servigo e con-
tratando o executor.
Para isso, devertio ser convocadas
audiancias ptiblicas, durante as quais
sedio debatidos os documents produ-
zidos (que, evidentemente, irlio consi-
derar o material jg existente, sem tomi-
lo, por~m, como definitive), antes que
o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Re-
novilveis) possa expedir a licenga pro-
vis6ria da obra.
Quanto ipopulagio branca ou "ci-
vilizada", o procedimento agora est9 le-
galizado. Mas nito atende a determina-
glio constitutional de proteglio is po-


pulagdes indias. O dispositivo da Cons-
tituigio aplicado ao caso diz qlue o apro-
veitamento dos recursos naturais em
jreas habitadas por indios, incluindo o
potential energ~tico, s6 poderj ser efe-
tivado (hj um erro de concordlincia no
partigrafo do artigo) "com autorizagilo
do Congress Nacional, ouvidas as
comnunidades afetadas, ficando-lbes as-
segourada participagilo nos resultados dla
lavra, na forma da lei".
Parece claro qlue enquanto os "bran-
cos" podem ser ouvidos durante a ela-
boragilo do EIA-Rima, os indios tedio
qlue ser consultados pelo Congresso
Nacional antes da aprovagao do de-
creto legislative de autorizagio. Mes-
mo comn o privildgio dessa preced~n-
cia, por~m, a consul-
ta aos indios niio tem
valor deliberative. O
rito serve a uma
mera consult, con-
forme a natureza das
audi&ncias publicas
.q nos processes de li-
cenciamento. Mesmo
qlue toda a populagilo
indigena e "branca"
niio veja vantagem
alguma na usina, o
j~i~.6rglio licenciador
pode aprovii-la, res-
tando aos indios par-
ticipacilo no fatura-
Smento da usina. E ai?
O bomn sensor, sem7
o qual n to hii lei legitima, recomenda o
trabalho de convencimnento. Se o cons-
trutor nito 6 capaz de convencer os
supostos beneficidrios das vantagens
qlue lhes podem advir da obra, entlio e
melhor nito realizli-la ou, pelo menos,
tentar uma nova said, mnudando-se de
construtor, ou de responsavel (jdi que,
pelo novo modelo energ~tico, a obra irli
a leillio e o arrematante pode nito ser
quem fez o EIA-Rima, conforme ad-
missivel em mais essa falha do novo
modelo).
O nd estli dado. Ele s6 poderti ser
desatado (ou cortado) quando uma re-
forma complete substituir o remendo
em vigor. O decreto legislative despa-
chado pelo deputado Fernando Ferro
sanou a falha de origem de encaminha-
mento do projeto de uma hidreletrica.
Era inadmissivel o desrespeito a um
dispositivo constitutional categbrico. Os
estudos para a usina tinham qlue ter
como origemn uma autorizaglio legisla-
tiva. Mas na verdade a origem teria qlue
dONIN flili PAG i


A hidrel~tr~ica de Belo Monte, pre-
vista para o rio Xingou, no Parti, foi tema
de dois acontecimentos simultfineos,
mas diametralmente opostos, na semna-
na passada. Em Brasilia, o Senado deu
sua aprovagilo ao projeto de decreto le-
gislativo do deputado federal (do PT de
Pernambuco) Fernando Ferro, que j6k
havia passado As pressas pela Climara
Federal, na semana anterior, autorizando
o inicio official dos estudos para a im-
plantaglio da usina. J9 em Altamira, a
cidade mais pr6xima do local previsto
para a obra, na Grande Volta do Xingu,
foi langado o livro Tenlorc7-MB: Aler-
tas soblre as conlseqliie~ncias dos pr-o-
jetros hidrelitricos nio rio Xinlgu, or-
ganizado pelo engenheiro Oswaldo
Sevi, professor da Unicatmp, a Univer-
sidade de Campinas, em Stio Paulo.
O projeto do deputado pernambuca-
no foi con~cebido par-a resolver um im-
passe legal: a justiga federal do Pari,
acionada pelo Minist~rio P~iblico Fede-
ral, suspended os estudos sobre o im-
pacto socioambiental da grande barra-
gem, qlue vinham sendo feitos pela Uni-
versidade Federal do Par6, sob contra-
to com a Eletronorte, por intermedia-
Eao da Fadesp, a fundaglio de pesqui-
sa da UFPA. A Procuradoria da Repi-
blica no Estado argumentou qlue o EIA-
Rima s6 podia ser realizado com apro-
vaglio legislative, que niio havia. O de-
putado do PT de Pernambuco tratou de
providencidi-la.
Sinais dos tempos: as entidades qlue
at6 algumn tempo atriis andavam de
mrlos dadas com o PT tiveram qlue or-
ganizar sozinhas o langamento do vo-
lumoso livro, que 6 um libelo contra o
projeto da hidrel~trica de Belo Monte,
assinado por viirios especialistas, in-
clusive consultores da Comisslio Mun-
dial de Barragens, patrocinada pela
ONU. Jii o PT substituiu o PSDB,
embora a ele tamb~m se associando,
na defesa da obra.
O Greenpeace chamou a atengio
para o contrast entire a posiglio critical
da sociedade civil, patrocinando o lan-
gamento do livro em Altamira, e a do
parlamento, "completamente alheio aos
imensos impacts socials e ambientais
qlue o complex Belo Monte irfi causar",
beneficiando nito as populagbes das 6re-
as a serem atingidas, mas "indlistrias
qune causam ainda mais impacts soci-
ais e ambientais, em grandes empreen-
dimentos de mineragilo", segundo opor-
ta-voz da ONG, Carlos Rittl.
No entendimento do Greenpeace,
antes da aprovaglio legislative seria ne-


Jornal P-essoul ,/2-QUINZENAS JULHO DE 2005


A nova energia: final, para quem?


















































































c; IULHO DE 2005 I/20QUINZENAS Jornal Pessoul


CONIUAFBA DA PA? ?
ser mais remota ainda, o seu verdadei-
ro ponto de partida: o plano de desen-
volvimento do vale no qual o aprovei-
tamento hidrel~trico esta previsto.
Com um plano de desenvolvimento
do vale do rio Xingu, a hidrel~trica de
Belo Monte devia estar inserida no pla-
nej amento global da regikio, baseado em
estudos de qualidade sobre ela, em toda
sua amplitude, incluindo a geraqIo de
energia, mas inevitavelmente situando-
a num context geral, econ~mico e so-
cial, atC mesmo 6tnico. A hidrel~trica
seria um desdobramento desse plano
global, do qual se deduziria e nho ao
qual se reduziria. A energia 6 para os
homes todos, pessoas ffsicas e jurfdi-
cas, e nio apenas para os que dela que-
rem se apossar por terem maior capa-
cidade de apossamento.
Duas d~cadas de opera~go da hidre-
16trica de Tucuruf ji 6 hist6ria bastante
para a opinillo pdiblica aprender que um
Estado gerador de energia pode niio se
desenvolver se se limitar a vender ener-
gia bruta, como faz o ParB. As liqbes
proporcionadas pela grande usina do To-
cantins est~io sendo ignoradas na defi-
nigTo sobre a primeira grande usina do
Xingu (e tamb~m em relagio is duas
barragens projetadas para o rio Madei-
ra, em Rond~nia).
Talvez seja de alta relevincia peda-
g6gica refazer as anotaqbes sobre Belo
Monte tendo o aprendizado de Tucuruf
como pano de fundo.
Os engenheiros da Eletronorte (ul-
trapassados por Furnas em parceria
com a Construtora Norberto Odebrecht,
no Madeira, e pela pr6pria Eletrobris,
na nova situaqilo criada no Xingu pelo
recdm-aprovado decreto legislative) sus-
tentam que o nome de batismo da obra,
"Complexo Hidrel~trico Belo Monte",
niio se deve a previsio de um novo bar-
ramento a montante do rio. Utiliza-se a
expression complexx" porque Belo
Monte, no mais recent layout da obra,
sera constituida de duas casas de forga
e n~io apenas de uma, como originalmen-
te estava previsto. O detalhe 6 que a
casa de forga principal ter8 11 mil me-
gawatts, enquanto a casa de forga com-
plementar fi cara com 181 MW ou
menos de 2% da potancia da usina ni-
mero um, mais a jusante.
O arranjo 6 de p6 quebrado, mas tem
sido usado como prova de f6 de que a
Eletronorte est8 raciocinando com ape-
nas essa unidade ou "complexo"- e nio
com uma sucesslio de barragens ao lon-
go do Xingu a montante.
HA, contudo, um outro element de
sustentagio desse discurso, que visa
center as preocupaqBes com a execu-
glio, ao fim de todo discurso ecol6gico,


do projeto da d~cada de 80, que levaria
A formaqio de um conjunto de reserva-
t6rios, com Area inundada total de 14 mil
quilametros quadrados (quase cinco ve-
zes o reservat6rio de Tucurui e mais de
tr~s vezes o maior lago artificial do pafs,
o da hidrel~trica de Sobradinho, no rio
Sgo Francisco).
O discurso suplementar 6 o da ex-
cepcional integragilo de bacias hidro-
grificas conseguido pelo sistema ener-
g~tico national, algo excepcional em
terms mundiais. Atrav~s de uma ex-
tensa linha de transmission, Belo Mon-
te usufruiria a transfer~ncia de ener-
gia do sistema integrado, o que dispen-
saria a forma~gio de uma reserve de
ggua no Xingu compativel com o porte
da usina, projetada para pouco mais de
11 mil MW, uma capacidade de gera-
Sgio apenas 25% inferior a de Itaipu, a
maior hidrel~trica em operaqiao no pla-
neta. Nos quatro meses de seca no vale
do Xingu, quando nio haver8 ggua su-
ficiente para mover qualquer uma das
20 gigantescas miquinas da usina, Belo
Monte receber8 energia do muito lou-
vado Sistema Integrado Brasileiro.
Gragas a essa possibilidade de trans-
feric energia de um extreme a outro do
pafs, conforme as disponibilidades hidri-
cas de cada parcela do territ6rio nacio-
nal, a energia firme de Belo Monte seria
de 4.796 MW m~dios, ou 43% de sua
capacidade nominal de gerapho. O fator
de capacidade m~dio das usinas brasilei-
ras est8 entire 40% e 60%. Assim, Belo
Monte estaria prbxima do limited minimo
de viabilidade, o que recomenda desde
logo cautela e rigor na anilise dos ndime-
ros oficiais, que podem estar certos, mas,
estando no limited, podem estar ligeiramen-
te inconsistentes.
Ngo 6 esse, pordm, o aspect mais
important. O element principal da an8-
lise 6 o papel da linha de transmissio de
energia na viabilidade desse empreendi-
mento. Belo Monte jamais sera constru-
ida pelos que a idealizaram para tender
a demand no seu entorno. Se ela tives-
se que tender a uma demand geogra-
ficamente pr6xima, mesmo que o consu-
mo fosse multiplicado por uma indugho
excepcional, que atraisse para sua vizi-
nhanga unidades de produgli de alto con-
sumo de energia, nito seria viivel econo-
micamente para o seu porte. Ela niio te-
ria escala, como dizem os economists.
Belo Monte foi concebida para ser uma
base de langamento de energia bruta a
grande distincia.
Essa estrat~gia se reflete nos seus
custos. Sem o sistema associado de trans-
misslio de energia, cada um dos 11,2 mil
MW instalados na usina custard l2,4 d6-
lares por megawatt/hora. Conectada ao
sistema de transmissit, o custo quase


dobra: vai parar em US$ 20,5/MWh. Essa
extensa linha tanto serve de chamariz
ecol6gico, avalizando a dispensa do gran-
de reservat6rio previsto no projeto origi-
nal (e hoje considerado inaceitivel), como
a chave da equa~gio do custo e do fator
de capacidade.
O dado bruto do orgamento da usi-
na, entretanto, assusta. Se o custo da
constru~go da grande barragem che-
gar8 a US$ 12,4/MWh, o custo da li-
nha de transmissio sera de US$ 8,1/
MWh. Qualquer cidadlio, diante des-
ses n~imeros, se perguntar8 se vale
mesmo a pena barrar um rio amazbni-
co no meio da floresta para estender a
partir dele uma enorme linha de trans-
missio, sempre sujeita a significativas
perdas ao long do trajeto, para levar a
energia gerada at6 os grandes e dis-
tantes centros consumidores. Por isso
mesmo a Eletronorte separou a obra de
geraqio da obra de transmisslo, tanto
para os estudos quanto para a licita-
glio. Talvez assim fique menos eviden-
te a finalidade primordial desse proje-
to: sugar energia bruta da Amaz~nia e
transport8-la para as areas dominantes
do pafs (e, "embrulhada" em produtos
semi-elaborados, do mundo).
O cabo-de-guerra que ainda se ird
travar em torno de Belo Monte poderia
ser evitado se realmente houvesse uma
visito nova sobre a Amazinia, resultante
da aproximaqito da ciencia e da tecnolo-
gia sem a perda de sensibilidade para as
caracteristicas pr6prias da regiko, que
impdem a mudanga profunda dos mode-
los esquemiticos de ocupa~gio e o can-
celamento do modo colonial de agir so-
bre ela, ainda prevalecente. Sem essa re-
volu~go de concepplio, a trajetbria de
Belo Monte continuarir a ser problemiti-
ca, como jB se anuncia a reaq~io ao de-
creto legislative, tanto pelas ONGs quanto
pelo Minist~rio Pliblico.
Dessa demora poderio se beneficiary
tanto outros aproveitamentos hidrel~tri-
cos, como os dois jB previstos para o rio
Madeira, em Rond~nia (hB mais de dois
meses protocolados na Aneel por Furnas
e Norberto Odebrecht), quanto outras
formas de geragilo de energia, como a
nuclear. Esses empreendimentos, contu-
do, continuarlo padecendo dos mesmos
males que entravam Belo Monte: nito
estara demonstrada sua viabilidade soci-
oambiental nem que eles beneficiarlio a
populaglio, a comegar pela native; aca-
badio sendo usufruidfis pelos grandes
consumidores, alcangados a distancia por
extensas e caras linhas de transmission
em alta voltagem.
O Brasil continuard sem poder tra-
gar seu destiny, com discernimento e
dominio do que faz. E a Amaz~nia,
muito menos ainda.


















































































Jornal Pessoal ,/2-QUINZENAS jutHO DE 2005


cutem, principalmente, a condigio co-
lonial da regitio e a question da sua
internacionaliza~go.
Lcio Flgvio PINTO (2000b) consi-
dera que o modelo de desenvolvimento
imposto pelos pianos governamentais, a
partir da d~cada de 1950, para a AmazG-
nia, imp~e g regitio a condiglio de col8-
nia, tanto na dimensto national como na
international, submissa a decisaes toma-
das fora de seu territdrio. Embora consi-
dere que existam arguments verdadei-
ros no que diz respeito a explora~gio da
regilio em ambos os discursos, este au-
tor afirma que 6 papel dos amaz~nidas
proper uma pritica construtiva para a
regilio (2000c).
A solidariedade externa 6 conside-
rada, por Mgrcio Souza, uma entire as
diversas formas de manifesta~gio do co-
lonialismo na Amaz~nia que pode apre-
sentar-se soberbamente, determinando
o que a Amaz~nia deve ser, ou solidiria
e paternalisticamente. Nesse segundo
caso a solidariedade pode impedir que
os pr~prios amazinidas tomem a con-
du~gio de sua luta.
Quanto B internacionaliza~gio da re-
gitio, os tr~s autores concordam que hB
interesses externos na Amazinia, mas
Samuel Benchimol reserve este termo
para uma attitude especifica, ou seja,
"...um process de transfer~ncia e alie-
na~ilo de soberania political national em
favor de uma entidade supranacional que
passaria a exercer o dominio politico-ju-
ridico sobre uma fiea, em nome de um
grupo ou comunidade de naqdes" (BEN-
CHIMOL, 1992: 229). Este seria um pro-
cesso distinto da planetarizagio, que en-
volveria os "anseios de unidade da raga
humana e aspira~gio de integra~gio c6s-
mica" (BENCHIMOL, 1992: 230), repre-
sentando uma corrente com objetivo de
preservar o meio ambiente, niio com pro-
p6sitos politicos, mas em nome da sobre-
vivencia da Terra. Sua proposta em rela-
ghao is restriF~es em torno da explora-
glio dos recursos das florestas e das
ilguas impostas pelos pauses desenvolvi-
dos 6 clara: deve existir uma contraparti-
da por parte dos pauses beneficiados em
forma de um imposto international am-
biental (BENCHIMOL, 2001a).
Jil Licio Fliivio Pinto e Marcio Sou-
za consideram internacionalizaglio um
process mais amplo. Para o primeiro,
embora a Amaz~nia tenha estado, des-
de o period colonial, mais ligada ao
exterior do que g esfera national, atual-
mente, sua inser~gio no circuit interna-
cional 6 definitive. Como um grande
COTWUA'N' A PX Ci


Magali Franco Bueno -
Departamento de Geografia USP

Este trabalho faz parte da tese de
doutorado emz Geografia que estd
sendo desenvolvida no Programza de
Po's-Graduagdo em Geografia
Humanza do Departamento de
Geografia da Faculdade de
Filosofia e Cidnzcias Humlanas da
Universidade de Sado Paulo. Decidi
reproduzi-lo, abrindo uma excegdo
nzeste journal, porque a andlise de
Magali oferece ao leitor umza
perspective acadedmica rara. Tomara
que seu exemplo frutifique.


Introdugio
Neste trabalho serdi feita uma bre-
ve exposigito e antilise das posi-
95es de alguns intelectuais ama-
zinidas sobre a regitio. Hii um discurso
sobre a Amazinia brasileira produzido na
regillo que pode ser compreendido como
regionalismo. Embora possa ser questio-
nada a validade do conceito de regilko,
na Geografia, nito 6 possivel deixar de
reconhecer que existe uma reificaglio da
Amaz~nia, que se express tamb~m nos
discursos produzidos internamente.
Partindo da premissa que as identida-
des regionals comegam a ser formadas
em alguns segments da sociedade e
apenas com o decorrer do tempo alcan-
gam repercusslio em seu conjunto, o re-
gionalismo amaz8nico pode ser compre-
endido, num primeiro memento, por meio
da abordagem dos discursos da elite in-
telectual regional.
Para uma primeira aproxima~gio a
essa temkiica, foram selecionados al guns
temas freqtientemente abordados nas
obras de tris intelectuais amazbnidas,
como a inserglio political e econbmica da
Amazinia no centirio national e interna-
cional, quest6es relatives g internaciona-
lizagio da regilio, o papel da elite regio-
nal na sociedade amazinica e o signifi-
cado de "identidade amaz~nica" para
estes autores.
Os autores selecionados foram os
amazonenses Samuel Benchimol e Mr-
cio Souza e o paraense L~cio Fliivio Pin-
to. Esta seleglio justifica-se pela rele-
vincia destes autores, pelo reconheci-
mento existente, tanto na regitio quanto
fora dela, da sua autoridade em relagio
a temas amazinicos, pelo volume de tra-
balhos escritos dedicados a essa temi-
tica e tamb~m pelo fato de que estes
autores abordam em seus textos aspec-
tos gerais no que concern g regitio,


como os que sedio tratados aqui. Antes
da anillise dos textos, sera important
fazer um pequeno relate biogrbfico so-
bre cada um desses autores.
Samuel Benchimol nasceu em Ma-
naus AM. Bacharelou-se em Direito
pela Faculdade de Direito do Amazonas
em 1945, fez p6s-graduaglio em Sociolo-
gia e Economia na Miami University,
Oxford, Ohio, nos Estados Unidos e re-
cebeu o titulo de Doutor pela Faculdade
de Direito do Amazonas. Lecionou Soci-
ologia, Economia Politica, Politica Fiscal
elIntrodu~go hAmazinia na Universida-
de do Amazonas. Esta discipline 6 ainda
ministrada porele nessa Universidade, da
qual 6 professor em~rito desde 1998.
Publicou mais de cem trabalhos, entire
artigos e livros, a maioria sobre a Ama-
zbnia. O professor conciliava B carreira
acad~mica suas atividades como empre-
s~rio, tendo sido fundador do Grupo Be-
mol-Foglis e dirigindo um dos empreen-
dimentos pioneiros do comdrcio da Zona
Franca de Manaus. Faleceu em 05 de
julho de 2002. (BENCHIMOL, 2000;
SUFRAMA, 2000)
Miicio Souza 6 amazonense de Ma-
naus. Ingressou no cursor de Ciancias
Socials na Universidade de Slio Paulo,
mas abandonou-o antes da conclusion.
Desde os 14 anos escrevia em jornais de
Manaus. Fez trabalhos como cineasta e
produtor de television. Atua ainda como
escritor escreveu roteiros de filmes,
teatro, contos, romances e ensaios.
Lcio Flitvio Pinto nasceu em Santa-
r~m PA. E socidlogo formado pela Es-
cola de Sociologia e Politica de Slio Pau-
lo. Tem trabalhado como jornalista des-
de a d~cada de 1960 (1966), escrevendo
diariamente e sobretudo sobre a regitio
amazbnica. Trabalhou em Stio Paulo, n'O
Estado de S. Paulo e no journal O Libe-
ral, de Bel~m. Atualmente vive em Be-
16m e dedica-se 21 publicaqil do Jornal
Pessoal, que escreve e divulga autono-
mamente, ainda tratando das quest~es
afeitas B regilio. Conforme Jos6 de Sou-
za MARTINS (1980) "...6 um dos pes-
quisadores que com mais competancia se
langou no rastro desse saque [o proces-
so de transformation da Amaz8nia]. [...]
E~ tido, com just razlio, como um dos
melhores conhecedores dos problems
socials, politicos e econ~micos e escreve
diariamente hfi virios anos. O seu co-
nhecimento do mundo amazbnico 6 inti-
mo, pessoal, direto."

Inserglio da Amazania no mundo
Sobre a inserglio da Amaz~nia no
mundo, os autores aqui analisados dis-


A Amazinia na visio de seus intelectuais







CONTINUACA0 DA PAG. 7
montante do capital que circula na re-
gilio 6 international, em grande parte, a
Amazinia jii estli internacionalizada
(PINTO, 2000c). Miircio Souza tamb~m
reconhece essa inserglio e, como L~cio
Fltivio Pinto, desacredita nos beneficios
que esta possa trazer para a regitio, pois
enquanto cresce a capacidade exporta-
dora dos neg6cios multinacionais e a
renda concentra-se, os recursos natu-
rais da regitio slio exauridos e a popula-
glio 6 marginalizada.
Enquanto Marcio SOUZA (1990)
mostra-se totalmente c~tico quanto &
contribuiglio al6ctone para a Amaz8-
nia, Samuel Benchimol e L6cio Flfivio
Pinto viem a solidariedade externa com
menos ressalvas. Para Liicio Fliivio
PINTO (2001b: 2), se a atraqio de
pessoas, entidades e atC governor para
a regitio, com o intuito de conhecer efe-
tivamente a Amaz~nia pode ser um ris-
co para a soberania, pode ser tambdm
"...uma maneira de equilibrar a situa-
~gio na regitio, onde muitos desses per-
sonagens ji lii se encontram, agindo
dentro das normas legals, mas nem por
isso deixando de representar um ele-
mento de agresslio e de ameaga para
a mesma soberania, seniio em terms
formats, ao menos na prtitica." Mas
tanto quanto a solidariedade externa,
niio se deve desprezar o conhecimento
sobre a regitio produzido internamente,
a despeito de qualquer argument con-
tra o provincianismo ou o primitivismo
da intelig~ncia (PINTO, 2001a).

A Amazinia e sua
inserglio national
No que diz respeito B insergilo da
Amazinia no Brasil estes intelectuais ra-
tificam suas afirmagaes sobre posturas
colonialistas com relag~o g regitio e sua
posiglio pecif~rica no context national.
Miircio SOUZA (1990) pensa que
a situaglio perifdrica da Amaz~nia em
relagilo ao Brasil transformou-se numa
marca indel~vel, aumentando os pre-
conceitos com relaglio i regitio e cau-
sando at6 mesmo impotincia no interi-
or de sua sociedade.
Ldcio Flivio Pinto e Samuel Ben-
chimol slio os autores que tim posici-
onamentos mais claros sobre a rela-
Cgio entire a naglio brasileira e a re-
gitio amazinica. Lticio Fltivio PINTO
(1994) afirma nlio acreditar numa po-
Iftica national voltada para a regilio,
nem acreditar na na~gio, mas sim no
conceito de regitio, ou seja, numa va-
lorizaqilo do poder regional. Para se
alcan~ar isso, ele defended que seja
estabelecido um status especial para
a regiao, reconhecendo sua particula-
ridade e especificidade.


L6cio Flivio PINTO (2000c) consi-
dera que a premissa da federa~gio exis-
tente hoje no Brasil 6 uma camisa-de-
forga juridica que cofbe qualquer inten-
950 pr6pria da regitio, condenada a ser
sempre sat61ite de um poder central e
centralizador. O sistema republican nio
consider a diversidade cultural existen-
te no Brasil, "condenando" todos a se-
rem simplesmente brasileiros, desrespei-
tando as identidades regionals.
Jg Samuel Benchimol acredita na re-
divislio political dos estados da Amazania
como forma de superaglio dos problems
regionals. Com a criaqilo de condiqbes
de apoio politico e econ~mico para a cri-
agilo de novas fontes de produ~gio, ren-
da e emprego, a administration da region
seria facilitada, embora a criaqilo de no-
vos estados na regillo daria & Amazbnia
a maioria no Senado Federal, o que nio
seria aceito pelos estados mais ricos da
federaglio (2001a: 28; 2001b: 4).
Resta saber se qualquer outra forma
de organization do espago amaz~nico ou
de sua representation no Congresso Na-
cional efetivamente teria conseqtiincias
positivas nas formas de ocupaglio que tem
sido adotadas para a regitio. Como serai
visto no pr6ximo item, hfi que se consi-
derar, conforme apontam os pr6prios au-
tores, o comprometimento dos represen-
tantes que a regillo possui. Enquanto ne-
nhuma mudanga nesse sentido ocorre, a
regitio continue sujeita is political for-
muladas em Brasilia.

O papel dos amazinidas e da elite
regional na sociedade amaz8nica
Todos os autores concordam com a
necessidade de participagilo dos amaz6-
nidas nos rumos da regitio, por~m exis-
tem diverg~ncias entire os autores sobre
a capacidade de lideranga da elite regio-
nal amaz~nica.
A forma brutal com que a Amaz8nia
foi entregue ao grande capital, na vislo
de Miircio Souza (1990), deve ensinar aos
amaz8nidas que estli na hora de sua en-
trada na vida political da regilio. Mesmo
com a oposiqilo dos representantes do
grande capital, dos latifundifirios e dos
especuladores de terra, 6 necessfirio que
os amaz~nidas entrem na luta em defesa
da Amaz~nia, pois esta luta niio pode fi-
car na milo dos que nito foram criados
na regitio. Ele afirma que os amazinidas
slio discretos, mas essa discriCio nito pode
ser sininimo de coniv~ncia comn as atro-
cidades que ocorrem na Amaz~nia.
A necessidade de um compromisso
com a regitio por parte dos amazini-
das 6 compartilhada por Ldcio Flivio
PINTO. Essa intenglio fica evidence na
apresentaglio da sua Agenda AmzazB-
nica, na qual diz que o objetivo da pu-
blicagio C compartilhar comn o leitor a


tarefa de compreender a regitio, "...pro-
curando conciliar o cotidiano com a his-
t6ria, ativando a mem6ria com o t~nus
de um compromisso: nlio aceitar que a
Amaz8nia seja imolada na pira do de-
senvolvimento..." (1999 a: 3)
Para Lbcio Fliivio PINTO (1999c;
2000b) nio apenas as decisies sobre a
Amaz~nia, mas tamb~m as informag6es
sobre as questies mais importantes que
a afetam circulamn em circuit privilegia-
do, sem se difundir. Por isso, numa re-
gilio de fronteira o papel das elites 6 mais
decisive do que nas fireas jii totalmente
integradas B sociedade national.
Na percepgao de Miircio Souza e
Lcio Flivio Pinto, um dos problems da
Amaz~nia C sua elite political, que embo-
ra tenha um papel fundamental na hist6-
ria amazinica, nlio tem consci~ncia des-
sa importlincia, nem empenho em reivin-
dicar e conseguir uma posiqilo mais fa-
vortivel para a regitio no centirio nacio-
nal e international.
Para Samuel BENCHIMOL (2001)
estas quest~es niio se colocam. Pelo con-
tririo, de acordo com ele, a simples cria-
glio de novas entidades federadas na
Amazinia preencheria um "inechmeno
politico" e faria surgir novas "liderangas"
na regilio, devido i presenga de mais um
nfvel administrative do poder pdblico e da
representation no Congresso Nacional.
Com esta posiglio ele niio estli questio-
nando a capacidade de lideranga desses
politicos. E como se sua simples existin-
cia, ou a presenga de um maior nuimero
deles no Congresso Nacional garantisse
uma efetiva participagilo da Amazinia no
centirio politico national.

Identidade amaz6nica
E possivel perceber um discurso so-
bre a identidade amaz8nica nos tras au-
tores estudados aqui, embora com dife-
rentes sentidos.
Por ocasitio da realizaglio da Confe-
rincia do Meio Ambiente e Desenvolvi-
mento das Naq~es Unidas (Eco-92), Sa-
muel Benchimol (1992) escreveu um tex-
to no qual pode-se vislumbrar o que ele
entende por identidade amazinica. A par-
tir de consideraqdes sobre a importlincia
da Amazbnia brasileira e da Amaz6nia
document chamado "Estatuto do ama-
z~nida" ele aponta os direitos e deveres
de todos os amazbnidas.
A leitura deste document permit
concluir que o conceito de "amaz8nida"
de Samuel BENCHIMOL envolve todos
os brasileiros nascidos na regitio -exce-
to os indigenas independentemente de
seu sentiment de pertencimento.
O conceito de amazbnida de Ldicio
Flivio PINTO 6 o mais elaborado entire
os tris autores, considerando a identida-
de da regitio vinculada B natureza:


JULHO DE 2005 le/2-QUINZENAS Jornall P'essoull









ll L IU nU UTI NA
Os chalds de Bel~m acabarlio
em poucos anos se o poder pdiblico
nito cuidar de sua preservaglio. O
que melhor tem acontecido com es-
sas edificaqies, que se multiplica-
ram entire as d~cadas de 30 e 50, 6
sua descaracteriza~gio. Novos pro-
prietirios, em busca de modernida-
de e ajustes ao padrao vigente, fa-
zem reforms tiio profundas que
acabam por descaracterizar o estilo
dos chal~s. A regra, por~m, 6 a sim-
ples demoliglio.
Quem anda pela cidade pode
perceber que viirias dessas edifica-
95es, abandonadas, estlio jit marca-
das para morrer: telhas foram tira-
das, as portas destruidas e a vege-
ta~gl se infiltra pelas paredes. Logo,
virlio abaixo. Quando desaparece-
rem, a hist6ria de Beldm empobre-
cera mais um pouco.


APLLC
Esta mesmo muito dificil ven-
der journal. Tanto O Liberal quan-
to o Didrio do Pard' apelaram em
seus aniincios promocionais de
verito para fotos de banhistas de
biquini, vistas de triis. Mas em
matdria de apela~gio, a folha dos
Maiorana bateu o concorrente. O
primeiro antincio, de pilgina intei-
ra, centrou o foco na bunda da vis-
tosa banhista, permitindo ao curi-
oso (ou fanjitico) contar os fios da
tessitura capilar abundante, como
registraria um perito, abusando no
trocadilho.
A sugestiva pega publicittiria bem
que podia decorar a entrada da ga-
leria do Cine Opera.

LA E CA
Se os esforgos que estio sendo
feitos para proteger Lula de toda
lama dos escfmdalos recentes der
resultado, ficardi a sensaglio de que
o PT assumiu o poder no Brasil
como o PRI o exerceu no M~xico.
Todos os males resultantes sito ape-
nas a conseqtiincia da mentalida-
de de partido hnico, que se consi-
dera acima do bem e do mal, on
seril mesmo impossivel isolar o pre-
sidente dos efeitos nocivos do seu
partido? No M~xico, s6 depois de
meio s~culo a verdadeira identida-
de do PRI foi revelada. E nunca o
partido este ve s6. No Brasil 6 di-
ferente, ou serii?


"A 'identidade amazinica' 6 o produ-
to da natureza, enquanto informaglio em
estado bruto, e a construgao da consci-
Cncia, num ponto de equilibrio que reco-
nhega (preservando) o que 6 amaz8nico
porque s6 aqui ocorre, ou s6 aqui nas
condigdes em qlue se manifesta no meio
ambiente, e o ajuste e adaptagilo engen-
drados pelo home para encontrar seu
lugar nisso que 6 o locus, mais do que
centirio ou paisagem." (2000 a: 10)
Embora Llicio Fldivio Pinto consider
que niio exista ningu~m mais amazinico
do que algu~m que tenha nascido ou more
na regiao, essas nito slio condigaes sufi-
cientes para que se perceba a especifici-
dade regional. Assim, o conceito de ama-
z~nida desse autor envolve a individuali-
dade da regitio que para ele estli vin-
culada B existincia da floresta e tam-
b~m B percepplio dessa singularidade.
Matrcio SOUZA (1990) tamb~m pa-
rece ver a identidade amaz~nica na es-
pecificidade regional, por~m esta singu-
laridade estaria mais vinculada g hist6ria
e cultural da regitio do que B presenga da
floresta. Mas o pr6prio autor nito um re-
conhecimento dessa identidade amaz8-
nica na regilio. Ele afirma que o desco-
nhecimento do cartiter social do pensa-
mento e da cultural leva a Amaz6nia a
niio reconhecer seu process hist6rico,
como se este fosse apenas uma suces-
slio de realiza95es individuals. Ele acre-
dita que esta 6 uma ideologia tfpica de
sociedades marginais e colonizadas.

Consideraq~es finals
Este breve resgate da posiglio de tras
importantes intelectuais amaz~nidas so-
bre a regiho evidencia a existincia de um
discurso sobre a regitio que pode ser con-
siderado uma das expresses do regio-
nalismo amazinico.
HOBSBAWN (1990) afirma que a
consciencia national desenvolve-se desi-
gualmente entire grupos e regimes socials
de um pafs e "qualquer que seja a natureza
dos primeiros grupos socials capturados por
ela, as massas populares trabalhadores,
empregados, camponeses slio as lilti-
mas a serem por ela afetados." O mesmo
pode ser percebido com relaglio B forma-
glio da consci~ncia e da identidade regio-
nais. No caso da Amaz~nia, estli em cursor
a constituiglio de uma identidade regional,
restrita ainda a sua elite intellectual.

Refer~ncias bibliogrdificas
BENCHIMOL, Samuel. A Amaz~nia
e o terceiro milinio. Revista Parcerias
Estratigicas. Vol. no 9. Brasilia, DF:
MCT/Centro de Estudos Estrat~gicos,
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BENCHIMOL, Samuel. Amaz8nia:
a guerra na floresta. Rio de Janeiro, RJ:
Civiliza~gio Brasileira, 1992.


Jornal Fessoal IggoQUINZENAS JULHO DE 2005


BENCHIMOL, Samuel. Borealismo
ecolbgico e tropicalismo ambiental. InI:
PAVAN, Crodowaldo (Org.) Uma es-
tratigia latino-americana para a
Amaz~nia. Vol.2. Brasilia, DF: Minis-
t~rio do Meio Ambiente, dos Recursos
Hidricos e da Amazinia Legal; Stio Pau~
lo, SP: Memorial, 1996. pp.335-49.
BENCHIMOL, Samuel. Precisamos
reorganizar o espago politico amaz8nico.
Revista Amaz8nia 21 no 15. [on line]
Manaus, AM: Editora Vinte e Um, 2001.
Entrevista. [19/08/01] Disponivel na In-
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MARTINS, Jos6 de Souza. Apresen-
tagilo. In1: Amaz~nia: no rastro do sa-
que. Silo Paulo, SP: Hucitec, 1980. (ore-
1ha)
PERFIL: Samuel Benchimol. SU-
FRAMA Hoje Ano I no 1. [on line] fev/
2000b. [19/08/01] Disponivel na Internet:
mate_03.htm>
PINTO, Llicio Fliivio. A ci~ncia es"
trangeira apenas serve como arma do
capital? Agenda Amaz8nica Ano I no
1. Bel~m, PA, set/1999a. pp. 1-4.
PINTO, Llicio Fldivio. Uso do solo.
Agenda Amazinica Ano I no 3. Be-
16m, PA, nov/1999b. p.10.
PINTO, Llicio Fltivio. Como fazer a
hist6ria na Amazbnia de hoje. Agenda
Amaz8nica Ano I no4. Belim, PA, dez/
1999c. pp. 9-1.
PINTO, Lticio Fltivio. Para se salvar,
a Amaz~nia precisa da solidariedade ex-
terna. Agenda Amaz~nica Ano I no 7.
Bel~m, PA, mar/2000a. pp. 10-1-
PINTO, Lticio Fliivio. A paixilo ama-
z~nica. Agenda Amaz~nica Ano I no
9. Bel~m, PA, mai/2000b. pp. 1-12-
PINTO, Llicio Fltivio. No fogo cru-
zado. Agenda Amaz8nica Ano II no 15.
Bel~m, PA, nov/2000c. pp.1-3.
PINTO, L6cio Fliivio. Ainda hti es-
peranga para a Amaz6nia? Agenda
Amaz~nica Ano II no 16. Belim, PA,
dez/2000d. pp.1-4.
PINTO, Lticio Fliivio. O que mu-
dou a Amazinia. Agenda Amaz~ni-
ca Ano II no 21. Bel~m, PA, mail
2001a. pp.4-5.
PINTO, Llicio Flfivio. No contrapC da
colonizaglio. Agenda Amaz~nica Ano
II no 23. Bel~m, PA, jul/2001b. pp.1-2.
SOUZA, Mitrcio. "Representa~gio
regional. Cabanagem e leseira. 'S6 6 eli-
te quem age contra os interesses da re-
gitio'." hz1: D'INCAO, Maria Angela e
SILVEIRA, Isolda Maciel da. (Orgs.) A
Amaz~nia e a crise da modernizaglio.
Bel~m, PA: Museu Paraense Emilio Go-
eldi, 1994. pp. 119-23.
SOUZA, Miircio. O empate contra
Chico Mendes. 2" ed. Stio Paulo, SP:
Marco Zero, 1990.






















































E BI salkO~Celia4,JiUig? M= 8

PROPAGANDA


Nero,9 au
Ficou superlotada a prd'-estrd'ia de O.
K Nemo,maurcada para as 9,30 da ma-
nha~ do primeiro domingo de 1954, no
Moderno, a sala de cinemaz que funcio-
nava onde hoje estdi o parque de diver-
sdes de Nazard, ao lado da Baslica.
Silvanza Pampanini vivia Popdia, "a mu-
lher pwibida ", enzquanzto Gino Cervi era
Nero. A propaganda pmometia cenas das
"bacanais pagav da corte de Nemo", "a
nudez de mulhzeres lindissimas" c o cir-
co mmnanzo. Mas havia ainda "milhares
de extras" na podugdo da Art. Macar-
ronicamente, o titulo original do filme
italiano era O. K. Nemone.


'iO JULHO DE 2005 IV2,QUINZENAS Jornal Pessoul


cimento de seu primog~nito, Andr6, ocor-
rido no dia 17 de janeiro, na Maternidade
do Hospital Bel~m, quarto no 17.
* O delegado de trbnsito multava quatro
"Zepellins" e dois "Gostosdes", em 100
cruzeiros cada um. Motive: abandonaram
a linha para a qual foram designados pela
inspetoria para fazer servigos particulares.
"Os infratores, ap6s os servigos particula-
res, serho recolhidos g Inspetoria de Trin-
sito, donde sairio ap6s pagarem a multa".
* Com a falta das rondas noturnas, feitas
por um comiss~rio e dois investigadores,
em um jeep da policia, O Ver-o-Peso vol-
tava a ser cendrio para a ag~o dos des-
cuidistas, lanceiros, punguistas e aplica-
dores de golpes em geral. Os mais co-
nhecidos eram "Periquito", Fernando
Gama, "Pintho", Raimundo Santos e um
primo do "Caveirinha".

* Ani~ncio:
"Peitoral de Anacahuita: Contra a tosse,
bronquite e rouquidHo, medicinal atC na
pureza de sua f~rmula. N~o cont~m en-
torpecentes".

* O secretkiio de Produgho do Estado,
Benedito Caet6 Ferreira, advertia os
responsaveis pela elaboraCgo do primei-
ro plano quiinquienal de desenvolvimento
da Amazinia "para o espeticulo que se
vem assistindo hB dec~nios: a derrubada
impiedosa das florestas marginais da Es-
trada de Ferro de Braganga, grea onde,
por motives 6bvios, os colons preferem
trabalhar, utilizando, jB hB al guns anos,
antieconomicamente, as regioes empo-
brecidas que exigem duplo esforgo e
maior sacrificio .
SA direCio dolInstituto Sufqo-Brasileiro (na
Praga Justo Chermont, 169 Telefone:
2266), sob a direg~io de Anita Muller Helga
Schumann e Evelina Barroso Rebello, avi-
sava que as aulas recomegariam no Jardim
da Infincia em 4 de margo e do cursor pri-
mdrio em 16 de fevereiro. Mas "'os alunos
que desejarem prosseguir seus estudos nes-
te estabelecimento de ensino" deveriam se
matricular atC 30 de janeiro: "Essa media
imp~e-se em virtude do Instituto estar com
sua capacidade praticamente preenchidas".
* O Caf6 Manduca, na esquina da
Campos Sales com a 13 de Maio, ofe-
recia lanches, bebidas finas (nacionais
e estrangeiras), hiodrolitol, mate, re-
frescos e aperitivos.
* A Fazenda Uberaba anunciava sua in-
tengho de "cooperar no plano de fomento
A produgho", importando, pelo vapor "So-
lim~es", 90 reprodutores zebus, "proveni-
entes do maior centro de criaCio de gado
indiano, que 6 Uberaba, em Minas Gerais .
Tamb~m iniciava a importagio de suinos
do Rio Grande-do Sul e algumas vacas
leiteiras, "que produzem de 20 a 30 litros
de leite, em duas ordenhas didrias .


Para esse fim, o dr. Edmundo Maia,
aceitando o gentil oferecimento de seu
colega o dr. Vale Paiva, dar8 consultas
no consultbrio desse conhecido facultati-
vo, no Edificio da Importadora, sala 215,
diariamente, das 16 As 18 horas.
Informaqdes pelos fones: 3782, 3105
e 1750".

* Anbncio:
"Escrit6rio de Advocacia Haroldo Ma-
ranhio Benedito Nunes. Causas civeis,
criminals e trabalhistas. Rua 13 de Maio,
no 80 Altos Fone: 4553".

* Maria Jos6 Carrapatoso Coelho e Al-
varo Farias Coelho comunicavam o nas-


* Em janeiro Paulo Raschevsky e Raquel
Sicssu Abtibol inauguraram a Lojas
Premier, na rua 13 de Maio, 258, com
"instalaqaes modernas e bastante
amplas". A especialidade da casa era
artigos el~tricos, dentre eles eletrolas. Mas
havia tamb~m uma segio de discos, "com
complete discoteca popular e clissica".
* Morria, aos 75 anos, a veneranda se-
nhora Ana Hesketh Cavaleiro de Mace-
do Klautau, vitiva do comandante Joio
Batista de Oliveira Klautau. Tinha seis fi-
lhos (dentre os quais Aldebaro, Benedito
e Orion Klautau), 34 netos e 6 bisnetos.
* Exemplo de comentirio corriqueiro,
marcado pela acidez e virul~ncia do esti-
lo de Paulo Maranhio, com o qual a Fo-
lha do Norte brindava seus grandes ini-
migos, os baratistas do PSD, liderados
por Magalhies Barata, usando muito ve-
neno (mas sem process judicial):
"No lugar de Santa Maria, municipio de
Igarap6-Agu, Barata dirigia a palavra aos
correligiondrios, na sede do partido. Estava
a seu lado, todo vestido de branco, como uma
pombinha, Armando Correia Trampa. Ba-
rata metia os cascos nos adversririos naquela
linguagem que as prostitutes do 'bas fond'
urban invejariam. Eis senboquando darua
atiraram na sala uma lata de 'coc6' de ga-
linha e outros bichos caseiros, infuse em
lama. Barata deu a tempo um acionado jei-
toso ao corpo, aprendido com Alvaro Paz
do Nascimento, nada lhe acontecendo; mas,
Correia Trampa ficou borrifado dos detri-
tos ignominiosos. Com um gesto stibito,
extraiu das entranhas da calga um Smith
Wesson, seguramente furtado de algum
preso quando foi autoridade policial, e, gal-
gando a janela, despejou-se para a rua, a
berrar que mataria todo o mundo.
Verificou-se imediatamente que a sua
valentia tinha base alcodlica, como habi-
tualmente.
Em tempo: Barata meteu a lingua no
saco, como tamb~m sempre ocorre,
quando os horizontes se enfarruscam".

Matiria paga:
"O dr. Edmundo Maia, director da
Casa de Satide Anchieta e psiquiatra do
Hospital de Juquiri, em Sho Paulo, aten-
dendo a numerosas solicitaqaes que lhe
t~m sido feitas, resolve aceitar doen-
tes da sua especialidade durante os pou-
cos dias da sua perman~ncia nesta ca-
pital, at6 o fimn do mts corrente.


n~e~no're d



CO IDIAN 0








FOTOGRAFIA


0 temple do

CORSHIHOO

A esquina da rua Jod~o Alfredo com a ave- s
nida Portugal era uma das mais bonitas gik 38
de Belim, com seus pridios vistosos e de 4gsl ..sBk IsBsi o E.
aprni dia u orvvrmi"era da borracha ". E umz dos lugares mzais
cobigados pelos belenzenses. Ali estava a w
" Casa Corcovado", de Arthzur Costa &
Cia. Ltda, que dividia com pouquissimos i
estabelecimentos, denltre eles "O Vesd'vio" ,
um estoque sd acessivel aos bolsos m~ais
bem fornidos, a servigo de paladares apu-
rados. Para um~a cidade ainda isolada e
mal suprida de artigos finos, a "Casa Cor- (
covado", em 1954, era um sonho, mazteri- ;-~c~~8 ~~Pae~~~
alizado em produtos exdticos para a dpo- ''~.'I;~XWrf~*'PPY ;LP)PI' ; l
ca, como queifos, presunztos, salames, canes defumadas, frutas "do sul" e um item extremlamenlte valorizado na terra: a
manteiga de boa qualidade. Tudo isso, hloje,' e oferecido nos supermercados. Mas certamente semt o mesmlo glamour:


Jornal Pessoal ,/2"QUINZENAS JULHO DE 2005 11


* Era sortido o portf61io da Fibrica Naza-
rd, estabelecida & Travessa Frutuoso Gui-
maries, 211/223, bem no centro velho de
Bel~m: produzia aguardentes Coaracy e
Nazard, bagaceira Rosa, cachaga Doido
Por Ela, conhaque de alcatrito Machado,
quinado D. Pedro II e xaropes diversos.
Tambim eram de sua lavra o azeite de
dendC Flor, o azeite de patu8 Tupi c o azeite
Lagosta, al~m das farinhas de arroz, cari-
m$t araruta, macaxeira e suruf.
* Jorge Age & Companhia, exportadores
e importadores, podiam anunciar que em
seu curtume pr6prio trabalhavam com pe-
les de crocodiles, cobras, lagartos e ou-
tros bichos, sem incorrer em crime ecold-
gico. Prestavam servigos em comiss~es,
consignaqbes e por conta pr6pria, com sua
matriz estabelecida na Wall Street para-
ense, a fRua 15 de Novembro.
* Jg a E. Blanco & Cia, com seu escrit~rio
na Avenida Castilhos Franga, o reduto do
atacado, transacionava especialmente com


cacau, couros vacuns, magaranduba, bala-
ta, ucutiba, sementes oleaginosas, madeiras,
am~ndoas e babagu, 61eo de copalba, andi-
roba, patu5, gmudes de gurijuba e pescada.
* O belenense continuava a varrer sua casa
com a legitima vassoura Vitiva Alegre, po-
duzida pela fabrica Luzitana (com z mes-
mo), na rua Manoel Barata, 590. A. J. Ro-
drigues assegurava o seu produto aconse-
lhando a clientele a exigir do vendedor da
vassoura o r~tulo comn a criadinha, "que lhe
garante as legitimas 'Vidiva Alegre'". .
* Em janeiro, Romulo Maiorana e Nelsin-
do Valenga chegaram a Beldm, vindos de
Recife, para instalar na capital paraense
a Duplex Publicidade Limitada. Ficaram
hospedados no Central Hotel e montaram
o escrit~rio da empresa na rua Jolio Al-
fredo. Contrataram um redator, dois cor-
retores de publicidade, dois desenhistas e
dois pintores para produzir places e pai-
n~is informativos nas estradas e colocar
"placards" nas paradas de inibus da ca-


pital paraense. Logolangariam ainda uma
novidade na cidade: anuncios em ndon em
tris dimensaes, algo que ainda s6 havia
no Rio de Janeiro e em Slio Paulo. Assim
comegavam os neg6cios do que viria a ser
o imp~rio RM.
* A Perfumaria Flora, na rua 28 de Se-
tembro, que perfumava a cidade e seus
moradores, produzia produtos do toucador
Florilis; Agua de col~nia, banho, extrato,
logli e sanchet Noite de Slio Joho; igua
de colinia, extrato e sanchet "Bouquet Pau
D'Angola" e "Capim Cheiroso" (de pa-
tchouli); pd desodorante Saniodor.
* Funcionavam 11 fibricas de guaran8 e
cinco de cachaga em Bel~m: GuaranB
Soberano, GuaranB Vigor, GuaranB Fiel,
Guarand Simies, GuaranB Vit6ria, Gua-
ran8 Globo, GuaranB Triunfo, Guarand
Brasil, Guarand Real, GuaranB Luz~ia,
GuaranB IgarapC-Miri, Cunha e Capela,
Diamantino Santos, Ferreira & Pinho,
Tavares & Lemos e Augusto Moutinho.


absurda, que nito corrigir8 o
erro nem desculpard a agres-
slio, mas um dia tal reflextio,
no minimo, causar8 a mesma
dor que hoje sentimos, eis que
a consci~ncia tamb~m pesa.
Com esse ato o Sr. Juiz ti-
rou a venda da justiga, e ten-
tar8, em viio, tapar a boca da
imprensa amordagando um jor-
nalismo e jornalista sdrio, in-
vestigativo, imparcial, just, de
tamanha importincia para a
sociedade amazinica, que S.


Exa. o juiz, nem sequer se dera
ao trabalho de levar em conta,
esse mero detalhe de tito no-
t6ria importincia, pois, perce-
beria que a balanga se mos-
traria em desigual pesagem.
O Sr. Juiz apunhalou com
uma espada, de simbologia
just, as costas de uma das -
ou se niio Linica pessoa que
tem coragem suficiente pra
desvendar, revelar, noticiar os
atos espdirios e impunes que
homes, como o tal grileiro,


praticam na Amaz~nia, eis que
a mesma espada nito lhe feri-
rB, pois 6 pura a simbologia,
como 6 just tudo o que vocC
faz por nds, amazbnidas nos
esclarece simplesmente.
Meus sinceros votos de
"continue" e profundo pesar,
pois senti igual dor diante do
erro de tamanha "injustiga dos
homess, personificada na fi-
gura desse Juiz.
Michel Guedes


Prezado L~cio,
Lendo a mais recent pu-
blica~gio de o Jornal Pesso-
al (no 348), paralisei estarre-
cido, indignado e revoltado
com a tamanha injustiga atri-
buida a vocC jornalista sC-
rio, patrimbnio da Amaz~nia.
S" Exa o Juiz Amilcar Guima-
r~es em sua decisito com cer-
teza nito dormir8 um sono
tranquiilo, pois creio que a jus-
tiga verdadeira o far8 retomar
a consci~ncia de uma decision










0 impirio em 3 x 4


JOTrna PeSSORI
Editor: Lurcio Flavio Pinto

Edlrao de Arie.
L. A. de Frla Pinto

AngellmPinto
Conalo- Tv.Benjamin Constant
845205'66.053-040
Fones:1O91i) 324 1-7626
e-mad- lomal @ amazon co~m, bt


Do CCBEU atravessivamos a Na-
zar6 para ir ao Consulado e ao USIS
(mas nho abusis, como dirfamos depois),
de onde safamos carregados de publi-
caqaes, cedidas gratuitamente, algumas
das quais nho se reduziam a mera pro-
paganda. Havia editors subsidiadas pelo
governor americano no Brasil, em forma
de rodizio. No meio de catilinirias con-
tra a Uniko Sovi~tica e de anticomunis-
mo (recheado de antiintelectualismo),
surgiam boas coisas. Havia um crit~rio
de qualidade, que permitia contratar pes-
soas de alto valor (presumo que esta
tenha sido a causa do long period de
trabalho de Jos6 J. Veiga em Selegdes
do Reader's Digest, conforme o titulo
redundante que lhe demos).
Mais de quatro d~cadas depois, a
mudanga C radical. O investimento qlue
Tio Sam faz nas pequenas plataformas
americanas em Bel~m 6 troco compa-
rativamente B estrutura do passado. As
sutilezas foram deixadas de lado. O cam-
po cultural foi abocanhado pelo front
military e a civilizaFio construida al~m
do rio Grande jB nio exerce o fascinio
da 6poca em que nossos acalantos re-
cebiam forte contribui~go dos grandes
autores de can95es, como Cole Porter,
Gerswin, Kern e muitos outros, e dois
de cada 10 imagens fixadas na nossa
mem6ria tinha direta ou indiretamen-
te sua matriz made in USA.
Com Bush encurtando as r~deas, o
imp~rio americano entrou num ciclo pe-
rigoso, semelhante g ladeira abaixo do
imp~rio romano final. Com uma diferen-
ga: incomparavelmente mais cedo e de
forma muito mais abrupta. Uma amos-
tra gratis (mas nio tanto) dessa trajet6-
ria num rinchio tropical meio esquecido
6 representada pela hist6ria do CCBEU.
Vida longa para o "Centro", como o
cham~vamos.


O Centro Cultural Brasil-Estados
Unidos est8 comemorando meio s~culo
de vida. A estrada do CCBEU jB 6 lon-
ga. Sou de uma turma dos primeiros tem-
pos, quando a instituigio, bem postada
na esquina da avenida Nazard com a
Rui Barbosa, ainda caminhava para sua
primeira d~cada. Nos anos 60 os EUA
ainda consideravam, para seus prop6si-
tos de imp~rio mundial, tito eficiente o
artefato b61ico quanto uma ferramenta
cultural. Poupariam munigio e ganhari-
am em efeitos com sua propaganda do
amzerican way of life mais do que com
seus silos de armamentos.
Os filtimos grandes presidents da
naqio sabiam disso. Tentaram comba-
ter ou controlar o complex militar-in-
dustrial, acantonado no Pentigono e cer-
canias. N~o conseguiram. A perspecti-
va, de li para cB, se tornou perigosa.
Aparentemente, o imp~rio est8 s61ido.
Na verdade, essa 6 uma fortaleza de
cartas. A Amdrica est8 sendo muito
mais odiada do que amada pelo mundo.
Nos am~vamos os EUA no inicio da
nossa adolescdncia, na passage dos anos
50 para os 60. Eu descia das aulas no CC-
BEU para jogar t~nis de mesa ou ir a bi-
blioteca, no por~io do velho casar~io,j jde-
vidamente derrubado e substituido por um
pr~dio modernoso. Lia com prazer tanto
os folhetos de propaganda do USIS, o ser-
vigo de divulgagio do governor america-
no, quanto os magazines ilustrados e as
publicaqies mais pesadas,
De tanto pegar Os Cantos, de Ezra
Pound, numa primorosa edig~io de capa
dura, acabei ganhando o livro de present
da biblioteciria quando chegou uma du-
plicata. Naqueles tempos, eu era o linico
com assinatura na ficha de consult des-
se livro. Tenho-o at6 hoje. S6 n~io conse-
gui entend6-lo porinteiro. Mas com Pound
isso nhio chega a ser uma novidade.


AREA UjT L
E um desperdicio o uso como mero estacionamen-
to dado ao enorme terreno, com duas frentes (uma
para a avenida Nazard e outra para a Governador Jos6
Malcher), ao lado do extinto Idesp, onde agora funci-
ona o Ndcleo Administrativo Financeiro do Estado.
Parte da Brea, que fica em ponto nobre da cidade,
podia ser transformada num parque infantil. As crian-
gas que o freqiientassem, atendidas por monitors, te-
riam acesso a brinquedos instrutivos, sobretudo para
abrir-lhes a percepg~o e incentivar-lhes a imaginaqio,
atrav~s de jogos e arranjos coletivos. Tudo ao ar livre.
Imobilizar grea desse porte e importincia para os
eventuais visitantes dessa repartigio pdiblica 6 um au-
tintico desperdicio.


AVISO
Julho 6, cada vez mais, o mis de
pernas pro at que ningudm 6 de fer-
ro no ParB. Por isso e porque os in-
cidentes processuais na justiga se su-
cedem, em julho haver8 somente
uma edigio do Jornal Pessoal: esta.

G EN ERO5 DADE
Um dos tragos da personalidade
do nosso tempo 6 a busca do suces-
so e do reconhecimento com o me-
nor grau de risco possivel. As pes-
soas querem ter hist6ria sem preci-
sar faz6-la. Procuram se preservar
e nho enfrentar os riscos. Por isso
mesmo admire cada vez mais as pes-
soas qune nho pipocam nas bolas di-
vididas. Se C para dar trombada, vio
em cima, suportando o trance.
Quando recebi aquela carta imun-
da de H61io Gueiros, em 1991, o mai-
or apoio que tive veio do Rio de Ja-
neiro. O almirante M~rio Jorge da
Fonseca Hermes me mandou uma
mensagem de horror e indignaq~io. Ele
convivera com o governador Hdlio
Gueiros quando comandou o IV Dis-
trito Naval, em Beldm. Em seguida,
voltou ao Rio de Janeiro, onde che-
fiou a armada naval brasileira, antes
de ir para a reserve. Em Niteri~i, onde
mora, leu a carta, o mais nojento do-
cumento do qual tivera ci~ncia na his-
t6ria do Brasil. Foi o que disse na men-
sagem, autorizando-me a divulgi-la
("faga o uso qlue lhe aprouver", es-
creveu num PS). Queria contribuir
para impedir a volta do personagem
B vida pdblica paraense. N~o conse-
guiu, mas fez a sua parte.
Felizmente, 14 anos depois, a
agressio cometida contra mim por
Ronaldo Maiorana teve reaq6es
assumidas mais numerosas. Pude
publicar muitas cartas de indigna-
gio e revolta contra a barbirie.
Mas um ato de solidariedade me
emocionou especialmente, por sua
forma: o outdoor que Paulinho
Klautau mandou colocar na praga
Batista Campos. Embora destruf-
do poucas horas depois de ter sido
afixado, marcou a cidade.
A mesma sensag~o experimentei
ao me defrontar comn uma placa que
Messias Forte assentou na rua Aristi-
des Lobo, ao lado dos Correios. Foi
como ele achou de protestar contra
minha condenaqio por denunciar a
grilagem da C. R. Almeida no Xingu.
Um ato espontineo, generoso e de
risco, que ele assumiu por altruismo.
E ao qual retribuo comn meu sincere e
emocionado agradecimento.




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