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omal Pessol A AGENDA AMAZONICA DE LCIO FLAVIO PINTO JUNHO DE 2005 1s QUINZENA N0 347 ANO XVIII R$ 3,00 BELEM X MANAUS: QUEM VENCE PAGINA9 SOTAVE: PORTO DE R$2 BILHOES PAGINA .~ ECLUSAS . Conclusao amea ada 0 orgamento do sistema de transposigao da barragem de Tucurui estourou: agora chegou a R$ 600 milh6es. 0 rio Tocantins ameaga ficar bloqueado por mais tempo do que o previsto. ruf podem ser excluidas do programa-piloto e deixar de ser prioritdrias para o gover- no federal. O ministry dos transportes, Alfredo Nascimento, e o pr6- prio president Luiz Inicio Lula da Silva ficaram irritados corn o novo orcamento do servico, apresentado pela Construtora Camargo Correa. De 350 milhoes de re- ais, a previsdto de investimento at6 a con- clusdio do sistema de transposiqio do rio Tocantins pulou para R$ 600 milh6es. Como o saldo do que foi gasto nas eclu- sas ji passou de R$ 500 milh6es, seu cus- to final iria al6m de um bilhao de reais. O governor consider esse valor excessive. O novo orcamento foi entregue, segun- do uma fonte do setor, enquanto o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) ocupava a drea lateral a montante do rio, por onde passard o canal intermedidrio de concrete, com sete quil6metros de exten- sio (a ocupaqio foi suspense no 6ltimo fim-de-semana). O reajuste de preqos foi interpretado em Brasflia como um apro- veitamento, por parte da empresa, de cir- cunstancias desfavoriveis ao governor, impondo-lhe o acr6scimo, sob pena de impedir o president de cumprir o com- promisso assumido publicamente em Tu- curuf, no inicio do ano. Lula garantiu en- tregar a obra at6 dezembro do pr6ximo ano antes de concluir seu mandate. O projeto da hidrel6trica de Tucuruf nao incluiu o sistema de transposiaio da barragem, que criou um desnivel artifici- al de 72 metros no leito do Tocantins. S6 em 1979, quatro anos depois do comeqo dos trabalhos na usina, as eclusas foram iniciadas, sob a responsabilidade da Por- tobris, subsidiaria do Minist6rio dos Transportes (ji extinta) e nio da Eletro- norte, que continuou cuidando apenas da geraqio de energia. Quando a hidrel6tri- ca foi inaugurada, no final de 1984, o sis- tema de transposidio contava apenas corn a porta de acesso ao elevador de montante (a eclusa n6mero um), incrus- tada na estrutura da grande barrage. Ainda faltava a segunda eclusa e o canal de navegacao entire as duas entradas, al6m dos equipamentos de operacio. No pr6ximo ano deverd ser concluida a motorizadio de Tucuruf, corn a instala- Fio da 23" mdiquina na casa de forqa. Se o cronograma das eclusas for novamen- te prorrogado, como vem ocorrendo su- cessivamente desde a d6cada de 80, o rio Tocantins continuard bloqueado, 350 quil6metros antes de desaguar no estua- rio do rio Pard, as proximidades do litoral paraense e de Beldm. As protelaq6es anteriores, repetidas a despeito da reno- vadio das promessas, que praticamente CONTINUE NA PAG ---, ,--,-- ;-~ ---~--. "----~~' L - I~ `F ic ~~ ---- --~- --~ ~' ---r -L 51~2C-c~ : ;1~ CONTINUA;AO DACAPA todos os presidents da Repiblica fize- ram ao long desse period, se basea- vam numa convicqio dos t6cnicos da administraqgo federal. Eles achavam as eclusas desneces- sirias ou sem prioridade por nio haver demand de carga para justificar um in- vestimento tio pesado. As eclusas de Tucuruf serio das maiores do mundo para poder vencer a diferenca entire o nfvel natural do Tocantins, rio abaixo (ou ju- sante), e a altura que alcancou com a construdio da barrage, rio acima (ou montante), no reservat6rio. Essa cota ele- vada foi projetada para que a usina pu- desse ter agua suficiente para gerar um enorme volume de energia, que a torna a maior hidrel6trica inteiramente brasileira e a quarta maior do mundo em atividade. Em seu leito natural, o Tocantins 6 um rio de planicie, com baixa declividade, como quase todos da bacia amaz6nica. Embora o C6digo de Aguas, de 1934, obrigue os construtores de barragens a res- tabelecer a navegabilidade dos rios que re- presam, a Eletronorte decidiu ignorar essa exig6ncia legal. O prego a ser pago era considerado caro demais. Assim ,o Tocan- tins ji estd bloqueado hi quase 30 anos, desde a formaqio da ensecadeira princi- pal, que possibilitou a concretagem da re- presa. Mas se na 6poca era efetivamente reduzido o volume de carga que podia ser beneficiado pela navegabilidade do rio, hoje esse valor 6 calculado em algo como seis milh6es de toneladas anuais, o quejijusti- ficaria a conclusao das eclusas. A principal carga adicionada a deman- da 6 de origem mineral. A Mineragqo Buri- tirama, que extrai manganes em Carajis, e pelo menos sete usinas sidenirgicas do dis- trito industrial de Marabi estio dispostas a trocar o transport ferrovitrio pelo hidrovi- ario. Uma future aciaria, projetada para o distrito industrial de Barcarena pela Cosi- par, tamb6m poderia receber min6rio de ferro de Carajas diretamente pelo rio. Um ensaio desse future modal foi realizado pela maior das guseiras, a Cosipar. No ano pas- sado a empresa fez tr6s embarques no porto de Vila do Conde, a 500 quil6metros de suas instala6es, transportando gusa em cami- nh6es. Foram mais de duas mil viagens, sem frete de retorno, uma faqanha que se viabilizou gracas ao alto preqo que o pro- duto alcanqou no mercado international no ano passado. O crescimento foi de quase quatro vezes em relacao aos preqos prati- cados no period anterior. Mas a cotaqao da gusa jd experi- mentou um retrocesso de mais de 40% no primeiro quadrimestre de 2005. O transport por caminhio se tornara im- possivel. Os empresirios deverao ado- tar uma nova alternative, se as eclusas realmente atrasarem: fazer o transbor- do de carga na barragem, transferindo os produtos transportados em barcacas de um lado para barcaqas do outro lado da represa. O custo serd maior do que o de uma passage direta pelo sistema de trans- posigio da barragem, mas poderd ser menor do que usar a ferrovia de Cara- jis. Nio s6 pelo confront direto dos pre- gos dos fretes como pela sujei lo a Com- panhia Vale do Rio Doce, dona da ferro- via, fornecedora exclusive do min6rio de ferro e no future, quando implantar sua pr6pria guseira, em sociedade cor a americana Nucor, concorrente no setor. Caso o governor federal e a Constru- tora Camargo Corria nio cheguem a um acordo sobre o orcamento da obra, Bra- silia deveri refazer o cronograma das eclusas. Assim, mais uma administration chegarA ao final do seu mandate no Pa- licio do Planalto e o Tocantins, o 25 maior rio do mundo, continuard sem pon- to de passage em Tucuruf, que lhe ga- rantiria navegabilidade plena por pelo menos 500 quil6metros de extensio. k. CPI Apenas sete dos 17 depu- tados federais da bancada pa- raense votaram pela criacqo da Comiss~o Parlamentar de Inqu6rito dos Correios. O 6ni- co do PT foi Z6 Geraldo, que acabou voltando atris e reti- rando sua assinatura do abai- xo-assinado. No PMDB, o 6ni- co que discrepou da ordem do chefe para nio apoiar a CPI foi Waldimir Costa, queji nao canta pela pauta de Jader Bar- balho. 0 PSDB, naturalmen- te, deu a maior cota pr6-CPI, com tres deputados da banca- da. Ja entire os senadores, ape- nas o empresdrio Fernando Fle- xa Ribeiro votou pela CPI. Luiz OtAvio Campos, o senador do governador, parece ter prefe- rido olhar para os lados do Tri- bunal de Contas da Uniio. Sua indicacio para um dos assen- tos da corte esti em banho- maria, talvez aquecido. PIB Dos cinco municipios do interior da Amaz6nia com maior PIB (Produto Interno Bruto), quatro se localizam no Pard e um em Rond6nia, conforme se pode constatar examinando o recent levan- tamento realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geo- grafia e Estatistica). O pri- meiro, em fungio de sua grande hidrel6trica, em fun- cionamento hi 20 anos, 6 Tu- curui. O PIB de Tucurui, de 1,1 bilhao de reais, 6 s6 um pouco menor do que o de Petrolina, em Pernambuco, o quinto cor maior riqueza do Nordeste, e um tanto superi- or ao de Catalao, em Goiis, o terceiro maior da region Centro-Oeste, chegando bern pr6ximo ao de Dourados, no Mato Grosso do Sul, vice- campeio (abaixo apenas de Rio Verde, em Goiis (base do agroneg6cio). Seguem-se a Tucuruf, Pa- rauapebas, onde esti a provin- cia mineral de Carajis, corn um bilhio de reais de PIB, Marabi, cor R$ 732 milhaes, e Santar6m, com R$ 645 mi- lh6es. Em quinto lugar, Ji-Pa- rani, em Rondonia, com R$ 596 milh6es. Uma outra forma elucida- tiva de analisar o PIB 6 conec- ta-lo a uma de suas principals fontes constitutivas, a Compa- nhia Vale do Rio Doce. Esse cdlculo mostrari quem, de fato, tem poder no Estado. TERRiVEL Todos os cinco municipios cor a menor renda per capital do Brasil estdo no Maranhio. O mais pobre 6 Bacuri, com 581 habitantese renda individual de 581 reals ao ano (ou R$ 48 ao mes, R$ 1,6 ao dia). O me- nos pior dos cinco 6 Govema- dor Nunes Freire (comandou o Estado na d6cada de 70), corn renda per capital de 680 (me- nos de R$ 2 por dia). Qual 6 a renda annual de cada integrante da familia Sarney? Quem olhar para o vizinho MaranhWo como nosso algoz, ou 6 cego ou 6 o pior tipo de cego: o que nao quer ver. Se nossas elites sao pessimas, as mara- nhenses slo devastadoras. V.:!"- %.\ I PALAVRAS O Ex6rcito praticamente se retirou da regiio de Ana- pu, para onde foi deslocado por causa do assassinate da missioniria Dorothy Stang, sem que lhe tenham chegado os recursos suplementares para uma permanencia mais duradoura. Ji o escrit6rio de representagio do governor fe- deral, no qual sempre haveria um ministry, em rodizio ou plantao, para falar em nome do president, conforme ele mesmo prometeu, nao veio, passados quase quatro meses da promessa. Lula continue falando mui- to e fazendo pouco (fazendo errado esse pouco, na maio- ria das vezes). Ao menos quando se trata de AmazOnia. 2 JUNHO DE 2005. 1 QUINZENA Jornal Pessoal A volta do alcaide e o horizonte politico O professor Edmilson Rodrigues nio foi fazer doutorado na ItAlia nem morar numa quinta em Portugal, conforme anunciavam dois dos muitos boatos que circularam no inicio do ano em torno de seu destino depois de deixar a prefeitu- ra de Bel6m, no primeiro dia de 2005. Aproveitando o pretexto de seu aniver- sirio, Edmilson espalhou outdoors pela capital e o interior do Estado, no mis passado. Obviamente, estava anuncian- do que voltari para disputar um cargo eletivo no pr6ximo ano. Qual sera, ainda nao se sabe. Pode- ria ser tanto para a Camara Federal como para o Senado. Para o governor 6 pouco provavel, embora nao impossivel. 0 PT jd ter um candidate para o cargo: 6 o lider de Lula na Camara dos Deputados, Paulo Rocha. Seu nome ainda 6 fraco, provavelmente menos denso do que o de Edmilson e dependent de como ficara o governor Lula depois que o ciclone das deniincias passar (e se passar). Mas nas tratativas preliminares no PT, Paulo Ro- cha 6 quem pode aglutinar tantos grupos e tendencias em que o partido se divide, desde que o apoio de Brasilia Ihe seja ostensivo e generoso, conforme o pro- metido. Ou que Brasilia ainda possa aque- cer seus preferidos. Por enquanto, parece que o melhor cabo eleitoral do ex-prefeito 6 o seu su- cessor. Cor quase meio ano de manda- to, Duciomar Costa ter marcado sua gestao por medidas espalhafatosas, po- 1~micas e de eficacia duvidosa. Al6m de ter criado um governor praticamente pa- ralelo, dando forga e credenciando pes- soas que nao integram a mdiquina official ou nela desempenham funq6es diferen- tes das declaradas oficialmente. Sio os porta-vozes informais do pre- feito, atrav6s dos quais ele se comunica e se entende diretamente com stores de interesse da administracgo municipal. Esse governor das sombras deve dar o que falar, se continuar a proceder como tem feito at6 agora, ainda mais se for al- cancado pela onda de revelac6es que bateu com violencia na praia do PTB, partido de Duciomar. Quanto ao prefei- to, ter produzido mais espuma do que o antecessor. E o que fez esti sendo colo- cado em d6vida. 0 PT ji props a criagao de duas CPIs contra a administraqao Duciomar. Um dos alvos 6 o contrato, no valor de quase 1,2 milhdo de reais, que a Com- panhia de Transportes do Municipio de Bel6m (Ctbel) assinou com a empresa Aget Servigos de Terraplenagem. O di- nheiro seri gasto em serviqos de manu- tencao do sistema de semiforos da ci- dade e na sinalizacao horizontal nas ruas da cidade. 0 PT sustenta que o valor do serviqo exigiria a realizaq~o de to- mada de preqos ou concorrencia pibli- ca, o que nto foi feito. A outra CPI, cor o mesmo funda- mento, se aplica ao contrato, de R$ 5,3 milh6es, firmado pela Sesan (Secretaria Municipal de Saneamento) cor a Trans- terra Terraplenagem Ltda, empresa da qual participaria ou tem interesses o ve- reador Walter Arbage, do mesmo PTB. A Transterra foi contratada sem licita- gqo para limpar e desobstruir as ruas de Bel6m, numa aparatosa operaqCo que Duciomar desencadeou t.o logo ocupou o Palicio Ant6nio Lemos. A vereadora Suely Oliveira, no pe- dido da CPI, diz que a irregularidade esti comprovada. Em primeiro lugar, porque a prefeitura mant6m contrato, em pleno vigor, cor duas outras em- presas para os mesmos serviqos pres- tados pela Transterra. Tamb6m nao v6 razao para a dispensa de licitaqao, ja que o valor maximo para a contrata- cao direta 6 de at6 R$ 15 mil e nao foi decretada situaqco de emergencia ou estado de calamidade pdblica parajus- tificar a dispensa de concorrencia pui- blica. Alega ainda que o contrato be- neficia empresa na qual seria acionista um vereador do mesmo partido do pre- feito, "o que por si s6, ji o torna sus- peito e imoral". A bancada que ap6ia Duciomar Costa na Camara Municipal reagiu a ofensiva do PT apresentando tamb6m seus pedi- dos de CPI, uma a mais do que os ad- versirios. Uma das comiss6es devera investigar d6bito cor a previdencia, que a administraqao anterior teria deixado A outra 6 para investigar o cance- lamento de 30 empenhos de serviqos prestados por empresas ou pessoas fi- sicas ao municipio. E a terceira se de- bruqard sobre o nao pagamento de empr6stimos em consignaq6es efetu'a- dos por funciondrios p6blicos munici- pais a empresas do setor financeiro, que teria ocorrido no filtimo mrs de man- dato de Edmilson Rodrigues. Pelo regimento interno da Camara, apenas tres CPIs podem ser instaladas ao mesmo tempo, exceto se o plendrio aprovar o contrario. A batalha deveri ser dura porque a bancada do PT de- clarou ser favorivel a instalagao de to- das as comiss6es, apostando que a ini- ciativa dos vereadores situacionistas 6 meramente intimidat6ria ou diversionis- ta. O resultado das votaq6es indicard quem esta disposto a esclarecer as de- n6ncias e quem s6 quer encenar. Em qualquer situagqo, no vicuo, na in6rcia ou no movimento considerado suspeito do governor municipal, Duci- omar Costa deverai comegar a dar mo- tivo para que a populagao sinta sau- dades do que antes Ihe parecia um es- trupicio. Nesse diapasio, o nome do professor Edmilson poderd crescer, in- vertendo a tend6ncia a quando de sua said da PMB. Pela porta dos funds, aliis..Agora, ele volta atrav6s de ou- tdoors. Ao menos topograficamente, por cima. ELETRONORTE O prejuizo liquido da Ele- tronorte no ano passado foi 260% superior ao registrado em 2003, chegando a pouco mais de um bilhao de reais contra R$ 230 milh6es no exercicio anterior. A estatal teve lucro em apenas uma das suas quatro atividades- fim, a de comercializaqao de energia. Mas perdeu muito mais dinheiro em transmis- sao (de um lucro de R$ 266 milhoes em 2003 caiu para um prejuizo de R$ 290 mi- lh6es em 2004), geragao (prejuizo de R$ 892 milh6es em 2004 contra deficit de R$ 546 milh6es em 2003) e, so- bretudo, em despesas finan- ceiras liquidas (que quase quadruplicaram de valor, passando de R$ 203 milh6es em 2003 para R$ 770 mi- lh6es no ano passado). Lendo os ndmeros do su- mfrio do balango, conclui-se que a Eletronorte tinha tudo para ser uma empresa ren- tavel. Do ponto de vista da operacionalidade bruta, di lucro. Mas quando comega a contabilidade fina, descon- tando as despesas menos vi- siveis, a empresa se afun- da. Sera produto do compa- drio PT-PTB e extensoes maranhenses? Journal Pessoal I QUINZENA JUNHODE2005 3 FEITO Carmem Silva esti de parab6ns: realizou a faqanha de recolocar nas piginas de O Liberal fotos do president do Sindicato dos Jornalistas do Pari, no exercicio de sua funq~o. Lei: o detalhe na casa da lei Na semana passada, 16 anos depois, os de- putados estaduais do Pari descobriram que a norma da Constituiiao estadual sobre a criacao de Comiss6es Parlamentares de Inqu6rito 6 in- constitucional. Parece que, efetivamente, 6 ver- dade: nossa lei maior exige apenas um quinto de assinaturas para a aprovacio de CPI, quan- do a chamada carta magna national impoe a assinatura de um terqo dos integrantes da casa parlamentar na qual a CPI foi proposta. Feita a constatadio, cabia h mesa da As- semblia Legislativa proper, perante o Supre- mo Tribunal Federal, uma a~io direta de incons- titucionalidade (cor a devida liminar acautela- t6ria de direitos), uma vez instalada a CPI da cerveja, ou entio providenciar que um deputa- do apresentasse emenda constitutional adap- tando o texto paraense i regra superior, como media de maior fl6ego (embora sem o efeito imediato ansiado pela bancada situacionista). Feitos os ajustes, as CPIs instaladas e con- sumadas cor base na exigencia de apenas um quinto do total de deputados estariam protegi- das pelo manto do fato consumado, ao abrigo de qualquer questionamento, e a partir de ago- ra as novas comiss6es ficariam perfeitamente sintonizadas cor a Constituicao federal. Mas foi isso o que se sucedeu a suscitaqao da inconstitucionalidade. Os deputados que levantaram a questao de ordem ou a ela aderi- ram estavam apenas interessados em impedir a instalacao da CPI proposta pela oposigqo para investigar possivel promiscuidade nas re- laq6es entire o governor do Estado e a Cerpasa. Ningu6m quis pensar, ao que parece, na ne- cessidade de uma Adin (Agio Direta de In- constitucionalidade) ou de uma reform da Carta paraense para o reconhecimento de sua inconstitucionalidade, com os efeitos dessa de- claraqdo. Partiu-se diretamente para os "final- mentes", com base num parecer da Comissdo de Constituicio e Justiqa. Mas uma corte superior, como o TSE, ji havia dado exemplo anterior, exatamente ao examiner um dos pedidos de cassagao do man- dato do governador Simao Jatene pela pritica de crime eleitoral. O Tribunal Superior Eleito- ral decidiu que o Minist6rio Piblico demorou demais seiss meses) para fazer a denfincia, s6 tomando a iniciativa depois que o resultado da elei~go ji havia sido proclamado e os eleitos, munidos do respective diploma, se preparavam para assumir seus cargo. Decidiu o tribunal que o prazo para essa provid6ncia deverd ser, a partir de agora, de cinco dias depois da eleilio. Nio ha uma lei estabelecendo esse prazo. Ele foi fixado atra- v6s dejulgado, os ministros, int6rpretes e exe- cutores da lei, investidos no papel de legislado- res, que cabe apenas aos parlamentares num regime democritico, como o nosso, enquanto os tribunos assumiram a toga de magistrados. Ah, a lei. Virou detalhe no Brasil. No Pari, ao que parece, nunca deixou de ser potoca. RESSALVA Concluf esta edicao com uma posta-restante de assuntos imensa. Foi impossivel tratar de quest6es urgentes e ingen- tes, que a grande imprensa maltrata ou ignora. Esse 6 o prego mais amargo e injusto que pago por ser processa- do levianamente pelos ir- maos Maiorana. Nao um preqo apenas pessoal, mas, sobretudo, coletivo. A Ama- z6nia vive um moment gra- ve, que as paginas do journal da familiar nio refletem. Afo- gado por uma sucessio de processes f6teis, cada vez resta-me menos tempo para tratar do que interessa: a sor- te da nossa gente. E duro constatar que nao se fez melhor neste journal porque algudm, que nao leva a s6rio seu pr6prio compro- misso professional, o esti im- pedindo. Nesse diapasao, logo chegara o dia em que sera impossivel resistir, ao menos para manter o padrao de qualidade jornalistica ca- racteristico deste pequeno journal, que comeqa a trilhar as estaq6es mais duras da sua ji longa via crucis. Moral de aluguel O governador Simio Jatene ji estava no palanque de Altamira, no mas passado, pronto para discursar, quando Ihe chegou a noticia da aprovaqio, no plendrio da Assembl6ia Legislativa, do pedido de ins- tala9io de uma CPI para investigar as relaq6es das duas iltimas administraq6es estaduais, a do m6dico Almir Gabriel e a dele pr6prio, com a Cerpasa, numa troca de beneficios fiscais e tributarios por con- tribuicio para campanha eleitoral. Irritado, o governador fez do seu pro- nunciamento uma autEntica arenga politi- ca, a mais virulenta da temporada. O alvo era o deputado federal Jader Barbalho, do PMDB, identificado como um dos incen- tivadores da CPI, em alianca (ainda nio assumida) com o PT. Apesar das pistas explicitas, por6m, Jatene em nenhum mo- mento citou o nome de Jader. Recorreu a velha refer6ncia sobre o provivel enrique- cimento ilicito de algu6m que nunca teve carteira assinada, mas se tornou dono de um patrimonio incompativel com seus ren- dimentos declarados. Ou o politico que, quando realize alguma coisa em beneficio do povo, acha que esti fazendo um favor e nao cumprindo uma obriga~io. A carapuqa tinha endereqo certo, mas os bons hibitos politicos e a moral ptibli- ca recomendavam ao governador ser in- teiramente claro e direto, sem subterfii- gios ou escapat6rias. Simao Jatene par- tilhou intimamente com Jader Barbalho seus seis primeiros anos como chefe do poder executive estadual e ministry. Foi seu estrat6gico secretirio de planejamen- to e auxiliar de primeiro escalio no Mi- nist6rio da Reforma e do Desenvolvimen- to Agrdrio, pulando fora quando o Minis- t6rio da Previdencia Social comeqava a fazer fgua sob o comando de Jader. Durante esse long period comecaram a se acumular denlncias contra a forma do atual deputado gerir a coisa p6blica: a desapropriadio da gleba do Aura, o desvio de recursos do Banpari, o tratamento ex- cepcional dado a um grupo de clients do banco, considerados especiais, o contrato nebuloso da Celpa com a Maiame, as de- sapropriaq6es de terras, as transac6es agri- rias y vdrias otras cositas mas. Nenhuma palavra a respeito de tais temas ouviu-se da boca de Simio Jate- ne, nem ele tomou qualquer attitude ca- paz de ser interpretada como reaqco a essas denincias de malversaiao, que agora repete. Procedimento semelhante teve Almir Gabriel desde sua nomeaqio como prefeito bi6nico de Bel6m, em 1985, e elei io como senador, at6 o moment em que precisou romper com Jader Bar- balho, at6 entdo seu padrinho politico, para poder se firmar. Essa 6 uma moral convenient ou uti- litiria, nio um principio de moral. Tto con- veniente que o irado discurso de Altami- ra foi repetido a nausea pela TV Liberal, como se fora propaganda, e publicado com destaque pelojornal dos Maiorana, sem qualquer complement ou mat6ria derivada para esclarecer e aprofundar, para o distinto ptblico, os ataques de pa- lanque do governador, sem alvo identifi- cado mas cor endereqo certo. O distinto p6blico permanece como o viu Aristides Lobo por ocasiao da pro- clamaqao da Reptiblica: bestificado. 4 JUNHO DE 2005 I QUINZENA Jornal Pessoal I Bauxita: na justiga, long da imprensa A nota divulgada no final do mes pas- sado pela Companhia Vale do Rio Doce, que os jornais publicaram, se referia a um fato da v6spera, que a imprensa pa- raense se recusou a publicar: a Promo- toria de Meio Ambiente do Estado pedi- ra que fosse julgada "totalmente proce- dente" uma agio contra a CVRD pro- posta perante a 9" Vara Civel de Beldm pela empresa Casa Verde Horti Limita- da e pelo engenheiro Nelson Tembra. A Vale 6 acusada de alterar os docu- mentos t6cnicos elaborados pela consul- tora, que serviram de fundamento para a Sectam (Secretaria Executiva de Ciencia, Tecnologia e Meio Ambiente) conceder licenciamento ambiental para o projeto de exploraqio de bauxita em Paragominas. A Casa Verde cobra indenizaqao de R$ 2,8 milh6es por danos morais que teria sofrido em conseqiiencia desse ato. Em setembro de 2003, a consultora entregou i CVRD um Plano de Controle Ambiental (PCA) sobre a lavra e benefi- ciamento da mina, que permitird a produ- dio de seis milh6es de toneladas anuais de bauxita, cor investimento de um bi- lhao de reais. Essa nova mina atenderd as necessidades de min6rio daAlunorte, que estd expandindo sua capacidade de pro- ducao de alumina, dos atuais 2,4 milh6es de toneladas anuais para 4,2 milh6es. A anotaqio de responsabilidade t6cni- ca do piano foi registrada no Conselho Re- gional de Engenharia e Arquitetura (Crea) em nome da Casa Verde. Isso, apesar de a Vale, alegando descumprimento de prazo na execucio de dois outros plans, haver rescindido unilateralmente o contrato, em novembro de 2003, cancelando a elabora- rio do piano seguinte, sobre o mineroduto, de quase 300 quil6metros de extensio, que levarA a bauxita de Paragominas at6 Bar- carena, sede da Alunorte. Em junho do ano seguinte, ao tomar ciencia da concessio da licenca, corn validade de um ano, a partir de maio de 2004, para a instalaqio da infra-estrutu- ra para lavra e beneficiamento do mind- rio, Nelson Tembra decidiu consultar o process. Ele diz que nessa ocasiao cons- tatou que um dos pianos integrantes do PCA, o Prad (Plano de Recuperadio de Area Degradada), apresentava altera- c6es e omiss6es t6cnicas em relaqco ao conteddo original registrado no Crea. A Casa Verde nao foi consultada sobre as mudanqas nem teve qualquer participa- go nelas. Mesmo assim, teria sido man- tida como uma das autoras do novo do- cumento. O ato caracterizaria violacgo as disposiqoes da lei 5.194/66, caracteri- zando o exercicio illegal da atividade por falta de responsAvel t6cnico. Em sua defesa, a Companhia Vale do Rio Doce alega, de imediato, defeito na representacao da pessoa juridica Casa Verde, por nao ter juntado seu contrato social a petidio inicial. Solicita tamb6m ao juiz da causa para verificar quem ou- torgou direitos ao engenheiro Nelson Tembra para representar a consultora. Se esses defeitos nio forem sanados, acrescenta a mineradora, o process de- verd ser declarado nulo e arquivado. No m6rito, os advogados da CVRD argumentam que o pedido dos autores de cancelamento ou suspensao da licen- Ca de instalaiao "6 juridicamente impos- sivel por ser a demandante parte ilegiti- ma para figurar na aiao judicial". Ape- nas o Conselho Estadual do Meio Am- biente (Coema) seria competent para cancelar ou suspender a licenqa expe- dida, conforme a legislaqio ambiental. Acrescenta ainda a empresa que o C6- digo de Mineraqao impede que seja cri- ado obsticulo, por interm6dio de aqco judicial, ao prosseguimento de pesquisa ou lavra mineral. Ji quanto i indenizacao, a empresa sustenta que o ordenamento juridico na- cional nio confere esse direito a pessoa jurfdica, quando a violaqgo decorre de atos contrdrios a propriedade intellectual, da qual s~o esp6cies a propriedade industri- al e o direito autoral. Mas ao suscitar, na preliminary, a "impossibilidade juridica do pedido", a Vale simplesmente quer que o process seja extinto, sem o julgamento do m6rito da aaio. Na nota ao ptblico, entretanto, a em- presa se preocupa, primeiro, em mostrar que muito dinheiro esti em jogo. Qual- quer complicaaio poderia prejudicar os interesses do Estado, ji que: o projeto bauxita de Paragominas representa a consolidacio das perspectives de cres- cimento da cadeia de aluminio" no Pard; o investimento da empresa, "s6 na pri- meira fase do projeto", 6 de R$ 1,1 bi- lhio, cor previsio de colocar a mina em operaq6es no primeiro semestre de 2007; o ndmero de empregos diretos gerados na fase de implantaqgo sera de cerca de 2.500 e, na fase de operacio, serao ou- tros 700 empregos. Ressaltados esses nimeros, que de- vem exercer seu fascinio numa regiao carente, a Vale "reafirma que sempre se pautou pelo rigor t6cnico e pela 6tica em seus processes e procedimentos", achan- do necessirio "lembrar que o pr6prio Estado do Pari ji se manifestou nos au- tos do process judicial, declarando a re- gularidade do procedimento de licencia- mento ambiental do Projeto". Por fim, a Vale esclarece que o pro- cedimento de licenciamento ambiental "contou cor a ampla participaqao da sociedade civil e de entidades represen- tativas, atrav6s das audiencias publicas, tendo sido submetido ao Conselho Es- tadual de Meio Ambiente, do qual inclu- sive participa o Ministerio Plblico Es- tadual. Em toda as instancias foi eviden- ciado que o process transcorreu cor a pena observancia das normas legais apliciveis, que amparam o ato de licen- ciamento concluido pela Secretaria de Meio Ambiente". Por tudo isso, a em- presa garantia que aguardaria "com se- renidade a manifestacao do Poder Judi- cidrio do Estado do Pard". Sera mais uma prova dos nove des- sas palavras e dos compromissos que elas expressam. DOMINO Se ninguem da terra valorizava a Belemtur, o sagaz deputado federal Roberto Jefferson tinha a empresa municipal de turismo em boa conta. Tanto que mandou para ci seu pr6prio filho, o Jdnior, desde entio empenhado em fazer turismo por ora, o pessoal. O PTB national, o partido de maior amplitude fisiol6gica do pais a partir de sua alianca cor (ningudm menos do que) o PT, tamb6m ocupou, at6 segunda-feira, a presidencia da Eletronorte, a mais poderosa das empresas publicas da Amaz6nia, entregue a Roberto Salmeron. Mandou ainda consultores serem contratados pela administracao Duciomar Costa e preencheu o lugar deixado pelo capitdo-capelio na Secretaria Municipal de Economia (o titular saiu, mas seus companheiros de farda permaneceram na Secon). A expectativa 6 do que ocorrerd nesses lugares quando o efeito domin6 das dentncias nacionais chegar aos postos de menor visibilidade (mas nio de menor faturamento) nos quais o PTB se acantonou. Cor a omissdio ou conivencia de certas liderancas paraenses, que se acostumaram a nao mugir nem tossir para tentar se beneficiary por emulaiao. Journal Pessoal I QUINZENA JUNHO DE 2005 5 Confronto com a mineragao: a dificil ligao para aprender Duas novas mineragoes estao provo- cando polemicas atualmente no Pari. Elas visam o mesmo produto, a bauxita, o min6rio do alumfnio. Sio identicas as suas escalas iniciais de producqo, de 6 milh6es de toneladas ao ano, podendo atingir 10 milh6es se toneladas cor no- vos dep6sitos, ji em pesquisa. Quando chegarem a esse volume, darao ao Para, em tres frentes (incluindo a mais antiga, da Minerac.o Rio do Norte, no Trombe- tas), quase 40 milh6es de toneladas, a segunda maior produgio mundial. At6 li, por6m, os caminhos da Com- panhia Vale do Rio Doce no leste do Pari, em Paragominas, e da Alcoa, no Oeste, em Juruti, nao serao pacificos, ao con- tririo do que foi a t6nica na maior parte do percurso da MRN, iniciado na d6ca- da de 70. E bom que seja assim. Mas nao 6 bom que a sociedade, responsivel - corn sua pressao pela mudanga, acompanhe esses grandes projetos em pass falso. Quem participou da primeira frente de bauxita, no vale do rio Trombetas, em Ori- ximini, testemunhou crimes ecol6gicos, como a deposigio de rejeito no lago Bata- ta e a secagem da argila em forno sem filtro. No curso desses procedimentos de- sastrosos, a MRN fez autocritica e corri- giu os pr6prios rumos. Seus procedimen- tos atuais, na recomposiaio dos buracos abertos pela lavra mineral, estio entire os mais recomendAveis do setor. O lago Ba- tata esti sendo regenerado. Pela 6tica estritamente ambiental, o empreendimento mineririo 6 um dos que mais tem evoluido na Amaz6nia. Seu im- pacto 6 reduzido comparativamente ao de outras atividades econ6micas, como a garimpagem, a pecuiria e a extraqao de madeira, sem falar na terrivel carvoa- ria. Em 15 anos de produgao, por exem- plo, a Alcoa iri desmatar 5,5 mil hecta- res, o que equivale a uma fazenda de m6dio porte na regilo. A recomposiaio da paisagem estari garantida, se as pre- vis6es do EIA-Rima (o estudo de impac- to ambiental) forem cumpridas. Em Paragominas, a area a ser esca- vada pela mineragao no mesmo perfodo sera bem menor, alcanqando 2,8 mil hec- tares. Se nio hd fraude no Plano de Re- cuperagio de Areas Degradadas, con- forme a denuncia do engenheiro Nelson Tembra, contestada pela CVRD, serd possivel acompanhar de perto o trabalho e verificar se ele atende as normas t6c- nicas e aos interesses coletivos. Em Ca- rajas, onde hai maior complexidade e muito maior volume, os acidentes ocorri- dos nao sao tao graves como se temia (embora ocorram em escala al6m do de- sejdivel ou mesmo possivel). O problemaji nao 6 mais s6 nem prin- cipalmente ecol6gico, ao menos em rela- dio ao grande projeto mineral: tornou-se tamb6m e sobretudo, nesses casos eco- n6mico e social. E crescente a conscien- cia de que o extrativismo mineral nao en- raiza. Ele forma um enclave e quando exaure ajazida mineral explorada vai em- bora, sem que o efeito de sua presenga garanta a continuidade da vida da popula- 5io native. E precise, portanto, evitar que se repitam casos como o do mangan6s do Amapi, que represent entire n6s um ci- clo da mineracao no mundo. Ciclo que se espera tenha sido encerrado. A discussao sobre esse ponto ainda 6 nova e inconsolidada. Hi desafios que continuam a demandar muito engenho e arte para serem respondidos. Uma fon- te dessa renovagio esti nas audiencias pdblicas convocadas para apreciar os EIA-Rimas. Elas se tornaram impres- cindiveis, mas tamb6m sao insuficien- tes. E precise que haja uma discussion t6cnica rigorosa e ampla antes e depois de sua realizaqio. Se a empresa e o governor ji t6m suas equipes para cum- prir essa tarefa, a sociedade esti de- sassistida. Mesmo quando participa de um colegiado formal, como 6 o caso do Coema, a estrutura do 6rgao esti vicia- da pelo dominio do governor, com maio- ria dos assentos, e pela falta de repre- sentatividade real e de consist6ncia t6c- nica dos representantes da sociedade, como o das ONGs no atual Coema. Quem indica esses representantes? No caso do projeto da Alcoa, alvo das critics mais numerosas, o que mais se destaca nao sao as falhas ou insuficiencias da empresa, mas as da sociedade. As comunidades de Juruti Velho temem ficar a margem dos be- neficios da mineraiao, receio mais do que procedente, mas ainda nao encon- traram o canal certo, o argument apropriado e a representacao compe- tente para confrontar esses anseios com a posicao da empresa, sem que esse confront descambe para a be- nemerencia social, a filantropia ou o argument moral, subjetivo, que nao se ajusta ao discurso (e muito menos pritica) de uma sociedade an6nima de envergadura international. Depois de tres audiencias piblicas ,- 31 reunites pr6vias, nas quais a Alcoa diz ter ouvido 4,3 mil pessoas (14% da populagio do municipio), incluindo os moradores de Juruti Velho, em mais de tres anos de process de licenciamento ambiental, os porta-vozes da localidade continuam se considerando insatisfeitos, convencidos da inconsistencia do EIA- Rima, de suas contradiqoes e de posse dos seus receios de passar ao largo dos resultados da grande mineragio. A empresa responded que seu impac- to nio iri al6m dos 5,5 mil hectares que iri esburacar, recobrir de terra vegetal e reflorestar cor esp6cies obtidas de mu- das selecionadas das arvores nativas; que nao se interessa pela superficie do solo onde esti o jazimento mineral, por isso nada interferindo sobre as pend&ncias fundiirias da gleba Vila Amazonia, onde se acham as comunidades locais, a dis- tancia da future mina: e que jd identifi- cou os impacts ambientais que seu em- preendimento causardi populaaio em torno, levando em conta os efeitos dire- tos e indiretos, conforme os parametros da legislaqao ambiental brasileira, e pro- pondo as medidas compensat6rias pre- vistas e exigidas em lei. A Alcoa argument que a viabilidade do projeto Juruti foi estabelecida ao fim de uma anilise global, que consider to- dos os elements, dos econ6micos e co- merciais aos ambientais e socials. E que se alterar uma parte, deveri alterar outra. Dessa modificacio resultari um novo ponto de nivelamento do empreendimento ou sua inviabilizaqio. Para aceiti-lo ou rejeiti-lo, portanto, 6 necessario analisi- lo por inteiro, submetendo-o a um teste de consistencia internal e a um confront cor a realidade externa, ajustando-o a nova consci&ncia e exigencias sociais, se assim for demonstrado, para que a mineraFio nao se mantenha no ciclo do qual o man- gangs do Amapai o maior exemplo. E precise inaugurar um ciclo novo. Em Canaa dos Carajis, em Paraua- pebas e em Maraba o debate em torno desse limited e de sua superagio nao esti mais sendo travado no nivel em que 6 co- locado em Juruti. Serd porque esses tres municipios ja estio em estigio mais adi- antado ou entao porque nao se deram con- ta do que foi percebido em Juruti? Qual- quer que seja a resposta, 6 evidence que existem diferenqas e que elas precisam ser tratadas para que haja realmente uma evoludio no trato da sociedade paraense com um dado indissociavel de sua condi- rio geogrdfica (e geol6gica): a minera- gio. Hi mais perguntas a fazer do que respostas a apresentar. Justamente por isso, e precise mais aplicadio no conheci- mento da situaaio antes de dar uma licio da coisa, que ainda nio foi aprendida. 6 JUNHO DE 2005 I QUINZENA Jornal Pessoil Vereador "Ruim por ruim, vote em mim". Cor esse slogan, o opertirio grdfico Orlando de Moura Lima lancou sua candidatura a Camara Municipal de Beldm, em 1958. Nao foi eleito, claro. Mas tentou ser honest. SPVEA A SPVEA (Superintenden- cia do Piano de Valorizaqio Econ8mica daAmaz6nia, ante- cessora da Sudam) comemo- rou seu quinto ano de vida, em 1958. Organizou uma exposigaio do que ate entao realizou no andar t6rreo do Hotel Suifo, na Praga da Reptiblica (onde o Bradesco tem uma agencia, ao lado da sede da Seicom Se- cretaria de Indlistria, Com6rcio e Mineraqio, antes Secretaria de Educaqio). Festas Enquanto L6lio e o conjunto Mocambo davam apoio A apresentaqao de Moacir Franco (int6rprete do suces- so de entao, "Me di um di- nheiro af"), em festa ("passeio com pleto") na sede social do Bancrevea, Franco e seu "seisteto" (segundo o convi- te) abrilhantavam a festa de posse da nova diretoria do Lambretta Clube de Bel6m. Tudo isso em abril de 1958. memoria do COTIDIANO I. ___________ __________::1 ::: _____________ _______________ ROBERT MITHUI LIZABETH SCOTT ROBERT RYAN PROPAGANDA Cinema de Hughes JA que Martin Scorcese fez um filme sobre Howard Hu- ghes, que comeqou a ser exibido neste ano, corn as melhores expectativas, vale a pena reproduzir o cartaz de "Estradas dos homes sem lei" (The racket, no original), produzido pelo mili- ondrio recluso norte-americano. O filme, que revela "toda bru- talidade dos que seguem a estrada dos homes sem lei!...", foi exibido nos cinemas Moderno e Independ6ncia, em setembro de 1952. Robert Mitchum e Robert Ryan ficaram cor os pa- p6is masculinos principals. A estrela era Lizabeth Scott. Um daqueles filmes B tipicos e bons. FOTOGRAFIA A ultima chata Os cronistas garantiam que a "Inca" ji chegava a 100 anos de atividade quando serviu de modelo para esta fotografia, batida no porto de Beldm. A chata dos SNAPP (depois Enasa) estava saindo para uma de suas tiltimas viagens na linha do Tocantins, mas cor 18 horas de atraso em relaqio ao previsto. Suas mdquinas a vapor, que aciona\ am suas rodas, nio funcionaram na hora Sda partida. Cor muito esforqo, foram ati- S- .d0os. permitindo a embarcaqao zarpar na diiecIo de Canmeui. corn ,eus 300 passa- Sgeirol. -eempre temerosos '. .- -de adLIunll m novidade ruim pelo trauleto. A chata, que ia era pec. de museu, s6 niiao era aposentada S .naquele ano de .- L.- I oo3 porque nio p ..haivia outra em- harca dio para S. substituf-la. Desde .ento, a situaqio Smelhorou? Minerios Uma equipe pioneira de ge6logos, liderados pelo director da Divisdio de Geologia e Mineralogia do Departamento Nacional da Producao Mineral (DNPM), Jos6 Raimundo Andrade Ramos, passou por Belem, em abril de 1963, a caminho do interior do Estado. Os outros eram Jofre Parada, Jose Puiblio Rocha, Jos6 Ferreira Leal e John Aluquerque Feruan (na verdade, Forman). Munidos de portaria do Ministerio de Minas e Energia. que os colocou i disposilio do governor do Estado, durante 15 dias pesquisariam min6rios no Tocantins e no Xingu. Mindrios que iriam levar o Pard "a condidio de o mais rico e progressista Estado do Norte", conform profetizou Andrade Ramos, que se tornaria personagem dessa nova hist6ria. A comitiva foi recebida pelo governador Aurdlio do Carmo e pelo secretdrio de Obras, Terras e Viagao, Efraim Bentes. O Estado saiu na frente e chegou atris na corrida do mindrio. Ar A fibrica de calgados Conde e a Sapataria Tigre (na travessa Sete de Setem- bro), de Ant6nio e Raimun- do Conde, aproveitaram a ocasiio de premier estudan- tes, em abril de 1963, para anunciar: em breve, a Tigre seria a primeira sapataria de Belem a dispor de aparelho de ar condicionado para os seus clients. E em novas instalaq6es. Piscina Cor Nequinho e Alecrim, "festejados c6micos" da TV Marajoara Canal 2, mais os Aqualoucos da FEIJ (a FederaqLio de Esportes Infanto-Juvenis), o Para Clube inaugurou a piscina infantil da sua "sede campestre", no Marco, em abril de 1963. Houve "farta distribuiqio de bom-bons e refrigerantes, gentil cooperaqLio da FLbrica Palmeira e Guarasuco". Journal Pessoal I QUINZENA JUNHO DE 2005 O porto kafkiano de R$ 2 bilhoes Em fevereiro de 1988 o president Jos6 Sarney decretou a desapropriaqio do porto da Sotave, na ilha de Outeiro, em Bel6m. A Sotave conseguira aprovar um projeto indus- trial na Sudam para tender a demand de fertilizantes quimicos de toda Amaz6nia, corn excedente para comercializar em outras regi- 6es. O porto receberia os insumos e escoaria a produgao da ffbrica, que deveria se tornar uma das maiores da regiao. O pomposo titulo de porto, entretanto, camuflava uma realidade alguns graus abai- xo. O im6vel desapropriado pelo govemo fe- deral consistia em uma estrutura fisica corn dois piers de concrete e um armaz6m conclu- fdo (outros seis do projeto foram apenas ini- ciados), mas sem qualquer equipamento ne- cessfrio para a operagio do terminal, como guindastes e empilhadeiras. A fdbrica, em si, n5o saiu do papel. Quase uma d6cada e meia depois da de- sapropriacio, o juiz Jos6 Airton de Aguiar Portela, acumulando a Ia e a 5a varas dajusti- qa federal em Bel6m, deparou-se cor a "vul- tuosissima quantia" de quase 1,5 bilhio de reais (R$ 1.474.854.166,44, em nimeros exa- tos) como o saldo remanescente em favor da Sotave, descontado o que o governor pagou A empresa e transferiu a credores habilitados no process de desapropriaq5o. Qual a soma do remanescente e do amor- tizado, ningudm ainda saberia dizer, embora deva estar al6m de R$ 2 bilh6es. O setor com- petente do Tribunal Regional Federal da 1" regiio esta fazendo as contas. Mas elas fica- rio muitissimo abaixo do valor que estava indicado quando ojuiz compulsou os 12 vo- lumes dos autos, cor mais de tres mil pigi- nas, que foram sendo juntadas ao long des- sa conturbada hist6ria. Numa sentenqa minuciosa e rigorosa, que expurgou do process as cracas argu- mentativas e documentais que nele se foram incrustando, o juiz Jos6 Airton Portela des- nuda uma hist6ria surrealista, que ameaqa- va onerar os cofres pdblicos em funqgo de desidia, desleixo ou mi-f6 de alguns de seus personagens. Qualquer pessoa que v6 hoje ao porto da Sotave, desde 2002 operado pela Companhia das Docas do Pari, ficard cho- cado se souber que ele poderia vir a custar algo em torno de R$ 2 bilh6es ao poder pi- blico. E uma quantia aberrantemente despro- porcional As instalacqes portuarias, mesmo acrescidas das benfeitorias realizadas pela CDP nos iltimos tres anos. O valor, que iria a execu go se ojuiz fede- ral nao o tivesse submetido a criteriosa revi- sao, s6 existe porque houve excess na atri- bui ao dos juros devidos, no ponto de parti- da para a remissao da incidEncia dos acrdsci- mos, na base de cilculo e at6 mesmo em cer- tos 6nus. Um dos mais incriveis 6 que entire 1988 e 2002, quando ocorreu a efetiva imis- sio de posse da Uniao, segundo o entendi- mento do magistrado, largamente fundamen- tado, o porto teria sido controlado pela em- presa de seguranca, a Norsegel. Cor base numa segunda versao da su- posta imissdo de posse original, tambem da- tada de 1988, a Norsergel se apresentou, 13 anos depois, para se habilitar na execuqio da sentenca de desapropriaqio. S6 nesse mo- mento o responsAvel pelo process ficou sabendo desse novo texto, igual ao anterior, exceto pela atribuiqgo da responsabilidade pela guard do im6vel A firma privada de se- guranca, que se manteve na fungio a despei- to de o porto ter sido desapropriado pela Uniao. E mais um detalhe surrealista em um enredo abundantemente kafkiano, mas que, agora, 6 trazido ao nivel da realidade pela sen- tenqa do juiz federal. Espera-se que para ter, finalmente, seu fecho claro e honest. NOSSO CRONISTA Denis Cavalcante 6 um dos projetos de maior sucesso da cidade. Em menos de meia dtizia de anos se tomou o cronista por excelencia de O Liberal, 6 um dos temas constantes da terrinha, entrou para aAcademia Paraense de Letras e agora lanqa o seu terceiro livro. Passeio pela inf incia (142 pAginas, boa ediao da Secretaria de Cultura do Estado) retine 64 cr6nicas dejoral. Qualquer um de n6s podia t6-las escrito. Sio simples, fluentes, emotivas, passadistas, gosto- sas. Denis escreveu-as antes de todos, 6 o seu primeiro m6rito. O segundo: viveu grande part do que relata (sem tantas cores, 6 verdade, no original). 0 que nao viveu, fabulou. Sao recorda- 96es do que nao aconteceu exatamente como ele descreve: "Mas o que 6 a cronica senao uma alquimia entire a fantasia e a realidade?", adverte, interrogativamente, nas preliminares do livro, ja se defendendo de seus pandegos amigos, corn mais motives para temerdoque ferozes inimigos. Merece ser acolhido o habeas corpus preven- tivo do autor. Seria prosaico demais que o porten- toso Denis Cavalcante, caminhando pelo Posto 5, em Copacabana, no Rio de Janeiro, sua terra native (mas a putativa 6 mesmo Bel6m), deparasse cor pescadores tirando do mar poluido suas redes vazias. O que ele vA, por6m, na cr6nica inaugural do volume, 6 "centenas, milhares de peixes e crus- taceos", a se derramar das pontas do arrastAo, ofe- recendo-se ao transeunte perspicaz (que logo vai prepara-los come ilfaut). Assim vale viver. Deus mantenha Denis nessa linha, que Ihe garantiu um lugar singular no cotidiano desta ci- dade um tanto sensaborona: relatando os fatos da vida, seus detalhes, amenidades, preciosida- des, o dia a dia de um cidadao cheio de impulses e fantasias. Sem explicaq~es e complicacqes fe- nomenol6gicas. Simples e vital como 6, de fato. Nas outras paginas dojomalao que o abriga tern seu lugar as demais dimens6es da realidade, a provocar nossos neur6nios. Nelas tambem ha fantasias, mas de qualidade muito inferior a do nosso muy valeroso e traquinas cronista. 0 carvao caotico Em menos de um mes, foi uma mudanqa brutal: depois de ter reajustado em 1.000% a base de calculo do ICMS do carvao vege- tal vendido para outros Estados, o gover- nador Simrio Jatene voltou atras e aplicou um reajuste de pouco mais de 30%. A pri- meira media visava inibir uma atividade que estava provocando grande dano ambi- ental cor pouco retorno econ6mico para o Estado. A correiao, adotada logo a seguir, resultou da constataqgo, pelo governor, de que apenas um terqo dos seis milh6es de toneladas de carvao produzidos no Para vao para o Maranhao. Antes, a presungao era de que as usinas de ferro gusa do Esta- do vizinho absorviam dois terqos do car- vao paraense. Nessa confusa hist6ria parece haver mais presuncao, fantasia e despistamento do que convicaio e certeza. Na verdade, os dados oficiais sao inexpressivos diante de uma atividade que se desenvolve veloz- mente sobretudo na ilegalidade ou clan- destinidade aberta. O estrepitoso reajuste do imposto, anunciado como uma corajosa intervengo da administragAo estadual num setor produtivo danoso, pode ser mais bern interpretado como um tiro n'agua, senao no p6. O governor diz que pretendia dar um susto e forcar as parties a sentar numa mesa de negociaq~o, mas s6 apresentou esses arguments quando atingido pela onda de reaq6es a partir do sul do Estado. A media era simplesmente inexeqtifvel. Se executada, provocaria uma tal comog.o que seus merit6rios fundamentos seriam in- suficientes para compensar os efeitos soci- ais e econ6micos provocados tao abrupta- mente. Se o registro official sobre carvoarias e fornos se conta As dezenas, na realidade sua existincia deve ser media pelas cente- nas e milhares de unidades. Quem acredita que 6,2 milh6es de toneladas anuais, na es- tatistica do governor (e talvez o triple na re- alidade), sejam obtidos atrav6s de residues de serrarias ou excesses de desmatamentos em assentamentos agrarios poderA, muito bem, acreditar no curupira (o personagem da mitologia, nio o nome da operagio de- sencadeada pela Policia Federal para desba- ratar outra quadrilha, a da madeira carimba- da). Ou no discurso do governor. Enquanto o governador trombeteava o aumento de mil por cento do imposto sobre o carvio, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturals Renoviveis) iniciava uma inspeqlo puxan- do pela ponta da linha, as usinas de ferro gusa, que cor suas compras provocaram o sujo boom do carvdo vegetal. Diante de media, em tese, incomparavelmente mais eficaz, o governor recolheu os seus fogos de artificio e agora, tamb6m em tese, vai recomeear a intervir num setor que se ex- pandiu pela mais comum das leis do cresci- mento na Amaz6nia: a lei do mais forte. O governor, pulando para o fim dessa cadeia do darwinismo social, quer ser esse mais forte. Ao menos em tese. 8 JUNHO DE 2005 I QUINZENA Jornal Pessoa] Belem x Manaus: a rivalidade cega CIFRO E SIGLA A velha dispute entire Bel6m e Manaus pela hegemonia amaz6nica voltou ao palco. Uma primeira reapariaio se deu quando os bele- nenses descobriram que o municipio da capi- tal amazonense havia superado em populaqao a at6 entao inquestionivel metr6pole da Ama- z8nia. De fato, considerando apenas os limi- tes municipals, Manaus acumulou, no ano passado, quase 1,6 milhoo de habitantes, en- quanto Bel6m nao chegou a 1,4 milhao de pes- soas. A diferenqa, de 200 mil habitantes, 6 sig- nificativa. Na d6cada de 70, quando o cresci- mento econ6mico disparou, Bel6m tinha mais que o dobro da populagao de Manaus. Mas enquanto Manaus concentra prati- camente metade da populaqao do Amazonas, que ter quase 300 mil quil8metros quadrados a mais do que o Pard (ur terqo a mais de terri- t6rio, portanto), Bel6m estA restrita a pratica- mente 20% do Estado. No entanto, a capital nucleou no seu entorno, enquanto Manaus 6 uma ilha demogrAfica. A area metropolitan de Bel6m, corn cinco municipios,ji passou de dois milh6es de habitantes, o que da maior poder irradiador e retroalimentador a sua rede demo- grifica, uma capilaridade que poder, ser ainda mais important no caso de uma nova redivi- sio territorial do Pard. A fragilidade de Ma- naus neste aspect 6 visivel e grave. O outro element de impact na relaqao entire as duas cidades apareceu recentemen- te, quando o IBGE divulgou, pela primeira vez, uma divisdo do Produto Interno Bruto por municipios. Essa novidade estatistica mos- trou que Manaus possui o quatro maior PIB municipal do Brasil, do tamanho de R$ 20,3 bilh6es, superior ao de capitals mais populo- sas, como Belo Horizonte (em quinto lugar, cor R$ 18 bilh6es), e Curitiba (7), com R$ 14 bilhbes. Beldm ficou em 27 lugar. Quarta em geraqao de riqueza, a capital amazonense, entretanto, ocupa o 1.194 lugar por um fndice que mede a distribuiqao dessa riqueza, na forma de desenvolvimento s6cio- econ8mico, o IDH (Indice de Desenvolvimen- to Humano), mais relevant atualmente do que o PIB. Belo Horizonte, por esse crit6rio, ficou em 71 lugar e Curitiba, em 16, mesmo contri- buindo com apenas 1% para o PIB national, enquanto Manaus entrou com 1,5%. Por causa de Manaus, a Amaz6nia apare- ce como a segunda regiao brasileira que mais concentra a riqueza, abaixo apenas do Sudes- te, que sofre o impact de Soo Paulo, o municf- pio que mais desigualdade gera. No Norte, 10% dos municipios com os maiores PIBs produ- zem 14,7 vezes mais renda do que os 50% corn menor PIB. A m6dia national (de 19,9 vezes) 6 maior, masjustamente por causa da desigual- dade do Sudeste (29,8 vezes), devida a Sao Paulo. A concentraq~o de riqueza no Norte bate as demais regi6es. A menor concentraq o foi registradajustamente na outra fronteira brasi- leira, o Centro-Oeste (7,3 vezes, exatamente a metade da concentraqao amaz6nica). A situaqao, portanto, ji 6 potencialmente explosive em Manaus, como resultado da Zona Franca um instrument de desenvolvimento baseado num tratamento tributirio e alfande- gario especial, A base de renincia fiscal, e con- siderando a capital amazonense como se fora territ6rio estrangeiro. Mas o que aconteceri em 2013, quando e se a Zona Franca chegar ao fim? Manaus teri amadurecido o bastante para caminhar com as pr6prias pemas? 0 Amazonas teri sido modificado o bastante, por iniciativas como a Zona Franca Verde, do atual governor do Estado, para nao submergir sob uma even- tual crise da capital? Muitas sdo as perguntas. Ao inv6s de Be- 16m e Manaus estarem a esgrimir com armas ficticias ou viciadas, deviam juntar suas inteli- g6ncias para refletir sobre essa realidade flui- da, mutante, examinando-se individualmente e no conjunto, como capitals de uma regiao para a qual falta a arma verdadeira da autode- terminaq o: a consciencia de si e, a partir dela, a possibilidade de decidir sobre seus destinos, com vontade e lucidez. Para si. Essa dispute entire as duas cidades 6 mais bugiganga e espelhinho deixado pela frente de atraqio do bwana. v Canaai assume A prop6sito da mat6ria de capa da ediqao 345 do Jornal Pessoal, na qual foi estabelecida "uma relaq~o - inteligente, como sempre - entre Juriti e Canaa dos Carajas", ojornalista Iran de Souza, assessor de imprensa da prefeitura de Canaa dos CarajAs, enviou o seguinte texto, como contribuiqao ao tema, sob o titulo "Os min6rios vio. As cidades ficam": O excelente relacionamento entire a prefeitura e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) em Canaa dos CarajAs 6 de dar inveja a outros municipios da regiao de influencia da mineradora no sul e sudeste do Para. Atrav6s de acordo selado entire a direq o da empresa e o prefeito Joseflton Ribita de Oliveira (PT), ficou acertado que, ao contririo do que ocorria antes, a prefeitura 6 quem administra e invested diretamente os recursos provenientes dos royalties do Projeto Sossego a partir de agora. Mas o prefeito lembra que a mineragoo 6 um neg6cio passageiro e tem seu tempo, seu cronograma pr6prio. Ou seja, a atividade mineral vai cumprir seu ciclo em Canaa em algumas d6cadas, vai passar, mas o municipio, este sim, permaneceri. Por isso, o prefeito defended uma vis.o menos imediatista e nao aceita a colocagAo de que a instalaqgo de novos projetos de cobre e niquel em Canaa vai transformar a cidade como num passe de mAgica num municipio rico. "Os problems sociais serdo sempre maiores que os recursos", lembra o prefeito, que defended um planejamento governmental de pelo menos 20 anos para a cidade. E isto faz todo o sentido! t bom lembrar que, ht apenas tres anos, Canaa tinha pouco mais de 10 mil habitantes e hoje tem 21 mil. Daf a importfncia que o prefeito Joseilton Ribita de Oliveira e sua equipe estio dando, por exemplo, para a elaboraqao do Piano Diretor de Canai dos CarajAs, que deverd estar pronto at6 o final de 2006. Nao rest duvida, prezado jornalista, de que 6 mais s6bio - e mais prevenido quem consegue enxergar mais long. E esta 6 a ligio de casa que o prefeito municipal de Canai dos Carajas esti tentando com sucesso em seus quatro primeiros meses de mandate fazer rigorosamente. Journal Pessoal I QUINZENA JUNHO DE 2005 9 A Companhia Vale do Rio Doce fez a sua parte: divulgou, no dia 27, uma nota official de esclarecimento sobre denincia de que o licenciamento ambiental da mina de bauxita de Paragominas foi processado irregularmente. Mas a imprensa ignorou a sua part no enredo: nada publicou da de- nincia. O resultado desse desencontro foi a dificuldade do leitor dos jornais diArios de Bel6m para entender o que a empresa estava esclarecendo. Cor generosas ver- bas de publicidade, os tres jornais se tor- naram mais realistas do que a CVRD. No dia 2, a coluna Rep6rter 70, de O Li- beral, deu outro exemplo de como 6 fazer jornalismo quando o assunto diz respeito a um anunciante de peso. A nota tratava da dispute entire a prefeitura de Cana5 dos Ca- rajAs e uma empresa prestadora de services de Minas Gerais, que "realizou operaq6es terceirizadas para uma mineradora cor atu- a~go no municipio". O nome da mineradora 6 CVRD. Mas quem quiser que vi atris em outro local, nao no Rep6rter 70, of course. Ali, esse tipo de noticia 6 apenas business, as usual. Se 6 assim com a CVRD, 6 muito mais assim cor o principal anunciante e par- ceiro, o governor do Estado. No dia 3, em duas notas seguidas sobre a rejeiqio da CPI da Cerpasa pela Assembl6ia Legisla- tiva, em sessdo plenaria realizada na v6s- pera, o Rep6rter 70 nao foi al6m de "CPI que os dois partidos queriam instalar sem ter fato determinado nem nimero consti- tucional de assinaturas para a manobra political . No noticiario dojornal (escondido, ob- viamente, em p6 de p~gina), a CPI se desti- na a "investigar atos relacionados a Cerpa- sa", havendo contra a empresa "acusa- q6es". Quais as acusaq6es e qual o motivo de o parlamento estadual querer investigar uma empresa privada, como se nenhuma relaq o houvesse cor a administraqao pi- blica, o journal silencia. Os interessados, querendo, que se dirijam ao bispo. fi - 471 '..; v r~ljtii~j v 41A,.- .l i~~r ,,~ ; r Program Parab6ns pela iniciativa de defla- grar o debate sobre urn program de governor para o Para. E li vou eu. metendo minha colher. I Creio que o problema do control externo sobre as acoes do governor nao deve ser enfrentado corn a adicio de novos 6rgaos tiscalizadores 5queles ja existentes. Isto s6 complicaria ain- da mais o exercicio das funqoes de go- vernar e de fiscalizar o governor. Acho que se alcancaria resultado de melhor qualidade promovendo reforms estruturais nos 6rgaos que ji existem. Caso algum 6rgao se re- velasse irrecuper6ivel seria extinto. Ai. sim. se pensaria na criacao de umr organism substitutivo. na hip6tese da missao institutional do 6rgao ex- tinto ser considerada imprescindivel. Estou me referindo, particularmen- te, aos Tribunais de Contas estaduais. No Para, por exemplo, o Tribunal de Contas do Estado nao fiscaliza o Governo do Estado. Mesmo diante de denuncias fartamente documen- tadas e divulgadas em publicaq6es de circulacaio national. o TCE nao se mexe, colmo se o assunto nao fosse de sua compet&ncia. Algo parecido acontece em quase todos os Estados brasileiros. O problema 6 que, na pritica, os Tribunais de Contas se tornaram pouco mais que extensoes dos go- vernos que deveriam fiscalizar, pela influLncia que esses governor tem na nomeaio dos membros das Cor- tes de Contas. via submissio do Poder Legislativo. Sendo os TCs "orgcio .os aiiliares" do Poder Le- gislativo, s6 por milagre a eficacia de sua agao fiscalizadora se faz pre- sente sobre esse poder. Penso que os Tribunais de Con- tas deveriam ganhar autonomia em relayao aos poderes Executivo e Le- gislativo. Seus membros deveriam ser escolhidos por organizacoes da sociedade civil, para um mandate de, no maximo, 8 anos. Os poderes Executivo e Legisla- tivo perderiam, assign, as prerroga- tivas que hoje disp6em, na escolha dos membros dos TCs. Esses mem- bros, por seu turno, nao mais go- zariam da vitaliciedade hoje exis- tente. o que proporcionaria maior oxigenalao aos tribunais. A efetivi- dade no cargo permaneceria apenas para o corpo funcional dos TCs, que 6 selecionado por meio de con- curso piblico. Jornal Pessoal Editor: Lucio Flavio Pinto Edi0co de Arle: L. A. de Fana Pinto Produq o: Angellm Pinto Contalo; Tv.Benlamin Constant 845/ 203/66.053040 Fones: 1091) 241-7626 e-mail: jornal@amazon.com.br O problema 6 que, a rigor, isto nio constitui assunto para um program de governor estadual. II Li o projeto de lei do deputado Wladimir Costa (PMDB/Pa.), men- cionado pelo arquiteto Joao Bosco (JP346). Acho que a idCia 6 boa. mas entendo que o projeto peca em dois pontos: 1 Ele atribui As prefeituras a obri- gatoriedade da divulgacao das pres- tacoes de contas na Internet. Seria mais pratico atribuir essa res- ponsabilidade aos Tribunais de Con- tas dos Municipios, que ji centrali- zam as prestaoqes de contas dos mu- nicipios em models padronizados. Bastaria entrar no site do TCM de um determinado Estado. para se ter acesso as prestaqoes de contas de to- dos os municipios daquele Estado. 2 Ele exige a divulgaglo de uma listagem de todos os prestadores de serviqo dos municipios. Imagine s6 a listagem dos presta- dores de serviqo de municipios como Sao Paulo, Rio de Janeiro, Belo Ho- rizonte, por af... Seria um relatdrio interminavel, que dificilmente escla- receria o que quer que fosse. Esse tipo de inforlmaqio s6 tern valor quando hi indicios de impro- priedades ou irregularidades, e se ne- cessita ir mais fundo na apuracqo. Por isto. a verificaqio detalhada deve ser direcionada ao 6rgao ou program de trabalho que a suscitou. Na verifica- qao de carter geral, e mais produtivo trabalhar corn valores agregados. Elias Tavares Desmatamento A mat6ria de capa do Jornal Pes- soal n" 346 (A Amaz6nia estA aca- bando) merece uma acurada e long apreciaqgo, nao s6 pela enorme quan- tidade de indicadores e comparaqoes, como pela ardorosa e categ6rica de- fesa de nossas florestas. Como o es- paqo 6 exiguo, you restringir meus curtos comentirios ao trecho relati- vo Area que perdeu sua cobertura primAria, ou seja, os 680 mil km2, dos quais 200 mil km2 representa- dos por "campos de pastagens de- gradadas", e parte destes "destina- dos a virar cerrado ou savana". No final do trecho em destaque formula-se as seguintes :d.i.,,L...'. "Quanto custou fazer e destruiqio? Qual o valor do desperdicio da flo- resta substituida por pastos infesta- dos de pragas, solos compactados e pouco ou nenhuma atividade produ- tiva"? No primeiro caso, se optar- mos em acusar os governor pelo cus- to, ja sabemos que todos eles foram omissos, enquanto perduraram esses 505 anos de monarquia. reptblica e ditadura, principalmente os gover- nantes locais, os amaz6nidas, que se acumpliciaram cor supostos empre- sarios e,juntos, dilapidaram e conti- nuam dilapidando nLio s6 as flores- tas como tambdm as nossas riquezas minerals e faunisticas. Para os empresarios forasteiros e governantes relapsos nio custoui nada destruir. pelo contrario. locu- pletaram-se e se locupletam coin as riquezas auferidas dessa ingente e abjeta intrusao, e hoje se acomodam em bairros elegantes, em residenci- as suntuosas e se abastecem de bens e servigos que s6 quem amealhou fortune pode ostentar. Quem per- deu cor essa hist6ria escabrosa foi o Brasil e a sociedade em si, que assistem indenes e apalermadas a ca- ravana festival passar. A correaio dessas distor6oes ou "ervas dani- nhas" (ja que estamos falando de past) da vida national s6 serao fei- tas quando o brasileiro contar com instituiqCes s6rias e comprometidas cor as causes piblicas e humanis- ticas. tanto no executive como no legislative e. especialmente, no ju- dicidrio, a fim de coibir, por exem- plo, que se estimule cart6rios a ex- pedir virias escrituras para uma tnica propriedade (os mais esper- tos falam de escrituras de vdrios "andares"): ou ainda. que terras "gri- ladas"- da Uniao. Estado ou priva- das possam inflar de tamanho ate 2000%; e, por fim, que aqces contra essas ireas ilegitimas tramitem inde- finidamente nas diversas instaincias de nossos Tribunals. Estas mudan- gas sao traumAticas, mas elas preci- sam ser ativadas. por serem indis- pensiveis a consolidacao da demo- cracia que buscamos ansiosamente. Quanto a pergunta sobre solos degradados, jd tive oportunidade de me posicionar sobre o assunto. No moment, devo acrescentar que eles sao recupertiveis, de acordo coin a opiniao de t6cnicos especializados no m6tier. Acerca da fragio da drea des- matada (480 mil Km2) nao utilizada na atividade pecudria. gostaria de sa- ber qual a sua destinaqao e em que media ela agrava o process de de- sertificaqao daAmaz6nia. E bor lem- brar nesta oportunidade que a maior parcela da cultural da soja no Estado de Mato Grosso estd assentada em terrenos de cerrado. em boa hora in- corporados a agriculture national, corn excelentes indices de produqio e produtividade. Finalmente, atente-se para o fato de que as florestas do norte/nor- deste/noroeste mato-grossense fo- ram dizimadas desde o inicio do surto de interiorizagio national. continuou nas expedig6es do Ma- rechal Cindido Mariano da Silva Rondon (pioneiro na implantaqao das linhas telegrificas e outros fei- tos nao tao her6icos) e ampliou-se na construaio das estradas de pe- netrag~o BR-163 e 364: em suma. tudo isso vem acontecendo muito antes dos anos sessentas, setentas. oitentas, etc. Atenciosamente Rodolfo Lisboa Cerveira Trote Fui surpreendido neste uiltimo JP corn as fotos do trote de calouros de 1968. Eu estava li. Na realidade. nos- so trote foi junto coin o das meninas de Servigo Social. Acho que no cami- nho os outros trotes se juniaram co- nosco. Engenharia nao era profissao preferida das mulheres e na minha turma elas eram apenas tres. Uma delas era a Stela Pessoa Faciola (que se diplomou em primeiro lugar). a quem o Dr. Helio vive deitando lou- vores. Dai que chamamos as meninas de Servigo Social pra sairem com a gente. 0 Puti, que era do 5 ano e pre- sidente do nosso diret6rio academi- co. conheceu a esposa dele nesse trote. Os cartazes forami feitos no porio da casa do Artur Carepa Ali- verti (primo da Ana Julia). ali na Serzedelo, em Batista Campos. Ele agora trabalha con o Pedro Abflio (ou- tro da nossa turma) na Setran. mas por causa dos cartazes. dias depois do trote, recebeu. digamos. uma visitinha do pessoal do DOPS. Passamos a noite trabalhando para a festa do trote e tomando umas (pin- gas mesmo). ainda empolgados coin a passage no vestibular. Nossa turma. oriunda de vairios colegios. alguns de Macapa. outros do Maranhiao (tern um que 6 deputado federal). ainda nao se conhecia direito, mas alguns ja se revelando futures bons amigos. Cola- borei corn idia para unm inico cartaz: "Lago do diabo no Inferno Verde".Tudo sonhos. sorrisos e uma grande farra. sem imaginarque as nu- vens negras ja estavam no horizonte de 1968 Um abrago e obrigado por me fazer relembrar de uml tempo que parece ontem. AdemarAyres doAmaral Leitura Caro Lnicio. Deleito-me a cada vez que leio o seujornal. o qual muito contribui para minha formagito enquanto estudante do 30 ano do ensino medio. em plena preparaqao para o vestibular. A,. t.l..t J ,. *... i;d i ,_ r it,' 'i ficaln- do feliz na vespera. tal qual o peque- no principle a espera de sua rosa. Suas mat6rias, noticias se materia- lizam num portugues correto. vast. elegant. apreendendo a atencgio do leitor e ao mesmo tempo o liber- tando das amarras do previsivel, des- pertando uma visao mais critical. mais politizada. Fico encantada corn o seujogo de palavras; suas comparaq6es sao per- feitas. O seu jornalismo 6 libertador, pois a cada material lida pareo des- grudar-me de mim e de um ponto. assim. transcendental. ver o mundo corn outros olhos. O seu journal de certa forma me acordou e niao quero mais dormir. nunca mais. Elaine Cristina Silva Barros JUNHO DE 2005 I QUINZENA Journal Pessoal Leitor especial Em geral escrevemos sem visar destina- tirios especificos. Escrevemos porque a "de- fesa da causa" se nos imp6e, ou no embalo da apuraqao de fatos relevantes. Mas 6 de extreme valor para um jornalista ter a consci- 6ncia de que certas pessoas estarao lendo o que escreve. Tanto por serem leitores assu- midos, explicitos, determinados, como por se- rem leitores de valor, um valor intrinseco ou derivado da funqio que exercem. Devo muito do acerto que eventualmente consigo em meus artigos a esses leitores es- peciais. Quando era um analista pontual e exi- gente dos balancos de empresas (o que ja nio sou tanto, por absolute falta de tempo para o exame criterioso das demonstrates financeiras anuais das sociedades an6nimas), ao apresentar o resultado da minha andlise eu sabia que o contador, o auditor ou mesmo o empresirio que avalizavam aquelas contas iria checar cada um dos meusjuizos. Se eles estivessem em desacordo cor os nfimeros codificados, eu seria contestado. O mesmo acontecia cor os orcamentos e as mensagens anuais dos govemos. Minha avalia- qio seria rebatida pelos t6cnicos da Secretaria do Planejamento, na boa 6poca em que eu os freqiientava sem causar a ameaqa aos seus car- gos que agora essa iniciativa certamente haveria de provocar (e estamos na democracia, ora pois). Entre os meus mais importantes leitores sempre esteve o advogado Otivio Mendon- ca. Quando bato o ponto parigrafo de certos artigos, imediatamente me vem a questao: o que mestre Otivio pensari disso? Estarei di- zendo algo errado ou mesmo desproposita- do? As vezes tenho certeza de que ele nio concordara cor meu pensamento ou posiqio. Mas minha preocupacao sempre foi de outra ordem: ele apreciara meu raciocinio, deixando- se fascinar pela argumentaq o? Sim, porque Otavio Mendonqa sempre teve numerosos pontos de divergencia e oposiqgo comigo, alguns abertamente antag6nicos. Nun- ca, por6m, houve uma palavra mais dura ou uma manifestaaio de intolerfncia no exercicio de nos- sa dial6tica. A fidalguia no trato e a elevaq o no duelo verbal, seja nas suas manifestaq6es pi- blicas como nas nossas conversas, sempre foi a marca registrada desse formidivel oponente. I melhor divergir dele do que partilhar suas id6i- as. Assim, no embate superior, aprende-se mais, como sempre aprendi. Aprendi, sobretudo, a admirar esse caboclo ilustre do Tocantins, um de seus filhos mais bri- lhantes, successor por todos os titulos do maior de todos os Romualdos, uma personalidade acima do seu tempo e superior a todos os seus contem- poraneos na Cameta do s6culo XIX, um dos pou- cos a adquirir dimensio national (e at6 intemaci- onal) como bispo, parlamentar, oradore cientista. OtivioMendona 6 um leitorpercuciente, umob- servador sagaz e um espirito refinado. E capaz de abandonar a pr6pria posicao political e ideol6gica para se colocar na posigio do oponente (ou do outro, simplesmente), penetrando em sua cabeqa e assumindo seus pr6prios pensamentos. Fui um felizardo por desfrutar de suas conversas e ora- cqes, mas, sobretudo, por t&-lo como apresenta- dor do meu primeiro livro, Anaz6nia: o anteato da destruidao, lanqado, em 1977, nas oficinas do jomal O Liberal. Fui duas ou tres vezes antes no escrit6rio do mestre para conversar cor ele, mu- niciando-o de informagqes para a saudaq~o que iriaproferir. Aoraciosairiade improvise, com aque- le brilho que Ihe garantiu o tftulo de um dos maio- res oradores do Pari, mas a preparacao seria me- t6dica, s6ria, profunda. Gracas a essa ordenaq~o pr6via de dados, Otavio Mendonqa fez de meujomalismo, ma- terializado naquele livro, que a generosidade de Romulo Maiorana e Altino Pinheiro possi- bilitara, a melhor avaliaqao que ji me foi pro- porcionada. Nao uma hagiografia, nem umju- izo laudat6rio: um exame perfunct6rio, funda- mentado e generoso apenas na media em que valorizou os acertos e subestimou os desacer- tos, preferindo se concentrar no que havia nesse jomalismo a estimular, nio a recriminar. Eu ouvia, encantado, a oraqao de mestre Otd- vio, recitada cor naturalidade e Wnfase diante de dezenas de pessoas, representantes de um vasto espectro intellectual, comprimidas na oficina dojomal, em plena atividade. Nio por- que suas palavras estivessem a cortejar meu ego, mas porque atingiam o centro da qualifi- cagao professional de um cidadio completa- mente dedicado ao seu oficio. Nunca mais nin- gu6m, A minha direita ou A minha esquerda, nem mesmo comigo inteiramente identificado, fez um diagn6stico tio exato como aquele, s6 ligeiramente distorcido pelo impulse genero- so do orador de destacar os acertos e ignorar os erros do homenageado. Nessa ocasio e em virias outras, posterior- mente, Otivio Mendonqa, sem nunca deixar de assinalar nossas diferenqas, sempre teve pala- vras de apoio ao tipo de jomalismo que tenho praticado. Algumas dessas palavras ji aparece- ram nestejomal, como atestado em contririo do que dizem de mim poderosos de ocasiso, contra- riados por esse tipo de jomalismo que cativou mestre Otivio. Hoje, devolvo as expresses ge- nerosas ao seu autor, esperando que, ao reviv&- las, ele se nutra de um pouco mais de forqa para terqar armas contra a doenqa que o aflige e pro- longue a lucidez cor que nos ter brindado, do alto de seus 83 anos, por muitos anos mais. Longa vida, mestre Otavio. O JP espera por sua leitura LUZ Luiz Fernando Verissimo soube que era o president de honra da feira do livro de Mon- tpellier na hora de ser chamado ao palanque. A deferencia era por causa do ano dedicado na Franqa ao Brasil. Ao ver o pai dajornalista francesa Florence Aubenas, seqilestrada no Iraque, o filho de Erico Verissimo se lembrou do "epis6dio da Guerra Civil Espanhola em que um general alucinado de Franco termi- nou um discurso que fazia na Universidade de Salamanca com um 'Viva a morte, abaixo a inteligencia! e Miguel de Unamuno, reitor da universidade, responded cor uma candente defesa da cultural e do espirito criador". Em plena festa do livro, "lembrando o mar- tirio de Florence e de sua famflia, n6s tamb6m estAvamos, como Unamuno, respondendo a barbirie cor um viva as palavras, As id6ias e a inteligencia e dizendo abaixo a guerra, abai- xo o terror, abaixo a burrice". Jos6 Carneiro me chamou a ateniio para a coincid&ncia, registrada na cr6nica do dia 2 do criador do analista de Bag6: eu aqui e Ve- rissimo na Franca fomos ao epis6dio de Sala- manca quando confrontados com um ato de barbirie, de prepotencia, de abuso e de burri- ce. A reaqao viril de Unamuno 6 uma chama que nunca se apagard na mem6ria dos huma- nistas, daqueles que criem que as divergen- cias e desintelig&ncias s6 podem ser resolvi- das atrav6s do dialogo, da inteligencia, nio pela forqa bruta. Cabe ajustiqa, como instfncia arbitral dos conflitos num estado de direito democritico, impedir que os bArbaros avancem e venqam, resistindo mesmo quando a violencia total, como a que o general Milan Astray personifi- cou, venqa. Sera uma vit6ria tempordria, de Pirro, na perspective que interessa aos ho- mens inteligentes: a da histdria. JUST A O Tribunal de Justiqa do Pard ji contou com um casal de desembargadores: Felicio e Climeni6 Pontes, pais de um procurador da Repuiblica, Felicio Pontes Jinior. O maridoji se aposentou e a mulher, ainda na ativa, 6 a primeira na lista de antigiiidade. Seri a pr6xi- ma a cair na expuls6ria, ao completar 70 anos, brevemente, cor direito a festas de despedi- da, depois de alcangar o cargo mfximo na carreira, de president. Agora ha dois irmaos entire os 30 desem- bargadores do TJE. Sio Romulo e Ricardo Nunes. R6mulo ji esti no desembargo hi uns tris ou quatro anos. Ricardo ocupou o ulti- mo dos cargos vagos do tribunal, na semana passada. Ambos foram promovidos por me- recimento, depois de atuacqo destacada na instfncia inferior do judiciirio paraense. CORRE AO Pressionado pelo cansaqo, o melifluo subconsciente me fez datar de 1993 o primeiro ano complete do governor Lula, na mat6ria de capa da ediiao anterior. Trocando os nove pelos zeros, o nimero certo 6 2003, claro. Mas antes nao fosse. O subconsciente esta certo, ainda que errado. Outros errinhos retomaram, trazidos igualmente pela exaustao fisica. Mas conto corn a cumplicidade do leitor para ser absolvido. Espero que ele tamb6m approve as pequenas mudanqas feitas na primeira pAgina. .2. ..... 2YZZZ" .... .. 77 ? 7? .7.. 77 7" 77.. ... Z 277.7-27 2Z'""-.-. 2ZTZ....Z727Z.Z 7ZT.. 7 7 ? 7 Z2_22 .. ....1, Jornal Pessoal IP QUINZENA JUNHO DE 2005 11 SUSPEITA Fard muito bem a senadora Ana Julia Carepa, do PT, se cumprir a promessa que fez na semana pas- sada, de submeter a Comissio de Etica do Senado a den6ncia de que a madeireira holandesa Pre- cious Wood contou cor a coni- v6ncia do Ibama (Instituto Brasi- leiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais RenovAveis) para grilar 80 mil hectares no Para. O director do Ibama no Estado, Marcilio Monteiro, 6 ex-maridoda senadora, que o indicou para o cargo. A firma holandesa doou 10 mil reais para a iltima campanha eleitoral de Ana Julia. Prova do crime? Nao neces- sariamente. A empresa pode ter feito a doaqio justamente cor o prop6sito de incriminar o Ibama, seu dirigente e a senadora que o avalizou. Para desfazer o elo apa- rente basta que Marcflio Montei- ro mostre os atos praticados con- tra a grilagem, ou a prova de nao ter havido qualquer participation sua nesse golpe, por aioo ou omis- sao. E A senadora, serd suficiente juntar pronunciamentos seus con- trarios aos interesses do grupo holandes e de qualquer outro que se beneficie de extraqio illegal de madeira, apropria5io ilicita de ter- ras e omissao ou conivencia dos 6rgios oficiais do setor. At6 prova em contrArio, mais categ6rica do que essas suspei- q6es, a senadora petista 6 absolu- tamente inocente e as acusaq6es feitas contra ela pelo senador Fle- xa Ribeiro, do PSD, nLo passam de emulaqio, sem que seu pronunci- amento deixe de dar ao leitor a sen- sacao de que hi alguma corda nes- sa casa de enforcado ret6rica. Quanto a isso, o senador-2 do go- verador nada poderA dizer, alias. ATRASO O Par- esta sempre corn a agenda defasada. Gasta atualmente a ener- gia que nao ter deblaterando so- bre um piano de desenvolvimento sustentivel para ser implantado pa- ralelamente ao asfaltamento de me- tade do percurso da BR-163, que fica em seu territ6rio. Quem anda pela regiio da Santar6m-Cuiabd, ou dela tem uma vision de conjunto mais profunda do que sob o prisma de uma tela de computador, deve achar esse preciosismo todo algo como o sexo dos anjos. Depois de tanta destruiqaoji praticada e em vias de se consumer, o que o tal piano po- deri proporcionar de economic am- biental 6 trago, troco, perfumaria. Mesmo que ele tivesse uma efi- cacia assim sobrenatural, estaria con- dicionado pela aceitaqio da bitola do rodoviarismo. Corn tanta cautela ecol6gica, a Amaz6nia continue pre- sa a esse paraimetro agressivo das estradas de rodagem, a mais termivel das criaq6es humans na regiio na iltima metade de s6culo. Enquanto isso, nao muito al6m de suas divi- sas, a matriz de transport 6 outra, mais avanqada e racional. A Ferronorte, porexemplo, apro- vada pela Sudam (Superintendan- cia do Desenvolvimento da Ama- z6nia) para receber a colaboraaio dos incentives fiscais, inflecte para o sul. O norte ficou apenas na sua sigla. A ferrovia, o grande neg6cio que Olacyr de Moraes encontrou depois de deixar a soja (cor urma boa bolada pela desapropriaCgo de sua fazenda Itamaraty), recebeu um afago de uns 400 milhoes de reais do BNDES para reestruturar sua di- vida, de R$ 1,4 bilhao, e retomar seu projeto de escoar a produq~o do Centro-Oeste atW o porto de San- tos. Os ramais de CuiabB para San- tar6m e Porto Velho foram esqueci- dos pela conjuminaqo de interes- ses e aqes dos empresirios priva- dos, do Banco Nacional de Desen- volvimento Econ6mico e Social e dos funds de pensao (Previ, do Banco do Brasil, e Funcef, da Caixa Econ6mica Federal). A Norte-Sul, que o entao pre- sidente Jos6 Sarney comeqou a construir em 1988, no seu Mara- nhao, tamb6m avanqa para se cons- tituir num braqo da ferrovia de Ca- rajis, tanto para dar acesso as no- vas zonas produtoras maranhen- ses como para criar um eixo inte- grado entire o sistema Norte (corn escoadouro em Ponta da Madeira) e o sistema Sul da Companhia Vale do Rio Doce (com ponto final em Tubarao, no Espirito Santo). Rece- beri mais 685 quil6metros de tri- Ihos, ao custo de R$ 1,5 bilhao, para atingir metade do seu percurso, de 2,2 mil quil6metros. O Para, enquanto isso, fica dis- cutindo se deve continuar a comer a poeira das estradas primarias ou a fumaqa que se multiplicari na flo- resta em devastaqio corn a pavi- mentaqgo das rodovias. BOI Parece que ter (ou vai ter) boi nas linhas de 6nibus de Bel6m. Daqueles que ningudm ve, mas que existe. O tal do boi voador, que costuma pousar na poliftica dos impossiveis. PERSEGUICAO O Diirio da Justiqa, na ediqlo do dia 25 do mis passado, pu- blicou, em uma mesma pagina, a. resenha de tres novas aq6es pro- postas contra mim, perante a 16" vara criminal de Bel6m, pelos Maiorana. Cor base na Lei de Imprensa, a primeira queixa-cri- me 6 de Ronaldo Maiorana. A se- gunda, de Ronaldo Maiorana e Delta Publicidade. A terceira, de Romulo Maiorana Jdnior e Del- ta Publicidade. Na mesma pagina, ha despa- cho da jufza Maria Edwiges de Miranda Lobato marcando audi- encia de instruqio ejulgamento de outra aqao de Ronaldo Maio- rana, anterior. Na mesma pigina hia uma nova aqio de Romulo e Ronaldo Maiorana contra os editors do Didrio do Pard, o :- S. ' : .' . li . . . S" Wj.. .3 i. LU(I)Z Luiz Braga fez da sua camara fotografica urn pincel. Suas fotos sdio uma verdadeira composigao plastica, que niao encontra rival entire os melhores fot6grafos do pafs. 0 lu- gar de Luiz 6 inico. Por isso, n6s, seus conterraneos e con- temporaineos, ficamos felizes corn o reconhecimento naci- onal que sua exposiqio decenal esti conquistando. Luiz jid 6 urn norne brasileiro. Corn um pouco mais de divulgaqio, seri um artist de valor mundial. inico journal que noticiou a agressao do editor-editor corpo- rativo de O Liberal. Serd que algu6m conhece liti- ganciajudicial desse tipo na his- t6ria forense? ADVOGADOS Surpreendi-me, tris anos atris, quando o famoso advogado Jos6 Eduardo Alckmin, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral e chefe de um das mais credenciadas ban- cas de advocacia de Brasilia, se apresentou como patrono do de- sembargador (hoje aposentado) Joao Alberto Paiva na aqio civel porele proposta contra mim. Pou- co depois Alckmin assumiria a cau- sa de Jader Barbalho, no process instaurado contra o ex-senador em funqio de den6ncias de corrupqlo e desvio dos recursos dos incenti- vos fiscais da Sudam. Agora me surpreendo corn o patrocinio do advogado Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, famoso jurista e professor da Universidade Federal do Parani, trazido de Curitiba para promo- ver as demands penais e civeis dos Maiorana. Sinto-me como sejd estivesse no meio de um torneio national de litiganciajudicial. Mais ou me- nos como um David papachib6 em meio a Golias transnacionais. A DEPENDENCIA Vivendo cor autonomia, em me- dia, ha duas d6cadas, os antigos territ6rios federal na Amazonia ainda dependem bastante da Uniao. Sio os que mantem, propor- cionalmente, os maiores percentu- ais de servidores piblicos no pais. A mddia national 6 de um funcioni- rio piblico por 100 habitantes, gros- so modo. Em Rond6nia 6 um por 90, noAmapi um por40 e em Roraima, campeao national, um por 30. LACUNA A participagao do Pard em Nancy, na Franqa, como parte do ano Bra- sil no pais de Voltaire, foi tio im- portante que o governador Simao Jatene nao foi li conferir o estron- doso sucesso da representaqlo paraoara. Nem o super-secretirio Paulo Chaves. Ambos mandaram representantes. Houve muita BLT para os frequentadores da corte e parents, numa selegio bem pou- co criteriosa. Mas quem apareceu na mfdia foi Pernambuco, o outro Estado present em Nancy. .Deve ter sido pela aus6ncia das estrelas maiores. |
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| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 33 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |