Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00279


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Full Text




fornal


Pessoal


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAI O PINTO
i! Ss' $^$$$$$$$$$$MMMM$$MsXs\^


DEZEMBRO DE 2004
I QUINZENA
N0 335 ANO XVIII
R$ 3,00


LATIN .:
L .v ;-.:


JADER BARBALHO


Finalmente, a verdade?

Pode ser que agora, no julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, seja possivel saber se o
ex-senador e ex-governador foi mesmo o destinatdrio de parte do dinheiro desviodo do
Banco do Estodo do Pord entire 1984 e /985. Mesmo que por linhos tortes, a opuraago da
denuncia contra Jader Barbalho pode chegar a um bom destino: a verdode.


Supremo Tribunal Federal,
numa decisao mais moral ou
political do que rigorosamente
t6cnica, acolheu, no dia 1, a
denincia do Minist6rio Pibli-
co Federal contra o deputado Jader Bar-
balho, principal lider do PMDB no Pard,
por crime de peculato (desvio de dinheiro
pdblico& munivel com pena de reclusao de


dois a 12 anos. A decisao foi tomada por 6
a 5. Os ministros do STF se dividiram qua-
se ao meio na interpretaq~o do parigrafo
2 do artigo 327 do C6digo Penal, que cons-
titufa questdo preliminary a apreciacqo do
m6rito da questao.
O C6digo preve o aumento da pena
maxima em um terqo para "ocupantes de
CONTINUE NA 'AG 2


CADE 0
DINHEIRO
DA CERVEJA?
(PAG 5)
..............................'


- 1 ;--
Frp~
i!, r







CONTINUA;AO DACAPA
.n.!..u. .o p. A.. ....
cargos em comissio ou funqgo direta de
assessoramento". A lei nao inclui gover-
nadores nessa cliusula agravante. Numa
andlise rigorosamente t6cnica, a inclusdo
estaria fora de cogita~go. Mas quando a
votaqao ji estava em 6 a 1, os defensores
do processamento do ex-ministro susten-
tavam sua posiqo num argument 16gico:
se subordinados de um governador podem
ser condenados a uma pena ampliada, por
que n5o o seu chefe, eventualmente be-
neficidrio dos crimes a serem punidos?
Nesse moment da votagao, o mi-
nistro Marco Aur6lio de Mello pediu
vistas do process. Sua attitude foi ime-
diatamente interpretada como uma
manobra para a prescriqco do crime,
que, mesmo na hip6tese aceita pela
maioria dos ministros, de 20 anos (e
nao de 16 anos, no entendimento opos-
to ao do relator, ministry Carlos Velo-
so), seria atingida no dia 4, antes de ser
possivel uma nova sessao da corte su-
prema brasileira. Mais uma vez Jader
escaparia sem enfrentar o m6rito das
acusaqces que Ihe sao feitas sistema-
ticamente ha duas d6cadas.
O primo do ex-presidente Fernando
Collor de Mello, por6m, devolveu o pro-
cesso na sessao seguinte, dia 1, afas-
tando o perigo da prescriqao, que deixa-
ria muito mal o STF perante a opiniao
pdblica. Mas apresentou um s6lido voto
no sentido de que o governador, eleito
para o cargo pelo voto popular, nao pode
ser equiparado a funciondrio de carreira
ou ocupante de cargo comissionado.
Logo, a prescriqao teria que ser de 16
anos, nao de 20.
Outros quatro ministros o acompanha-
ram, inclusive Eros Grau, que modificou
seu posicionamento anterior. A contagem
ficou entdo empatada, em cinco a cinco,
quando o ministry Sepilveda Pertence
proferiu o sexto voto necessario para
afastar a prescriqao.
Vencida a preliminary, os 11 ministros
do STF, por unanimidade, concordaram
que a dentincia formulada pelo Minist6-
rio Pdblico preenchia todos os requisitos
da admissibilidade. O process contra o
ex-presidente do Senado, portanto, devia
ser instaurado. Agora comeqard a ins-
truqao do caso, que, segundo as opinioes
dentro do Supremo, poderi ser encerra-
da dentro de um ano.
Apesar do fundamento t6cnico de p6
quebrado sobre a prescriqao, a instaura-
gao do process foi uma decisdo acerta-
da. Finalmente, sem mais qualquer pos-
sibilidade de protelaqgo, sera possivel
esclarecer uma ddvida, velha de 20 anos:
o entao governador Jader Barbalho foi
um dos que se favoreceram do desvio de
11 cheques administrativos emitidos pelo
Banco do Estado do Pard entire outubro


de 1984 e agosto de 1985 (de um total de
21, cor outros destinos)?
Por ironia, o foro privilegiado de que
Jader desfruta, por ser parlamentar fede-
ral, impediu que a anilise definitive do la-
birintico percurso dos cheques se perdes-
se pelos desvaos recursais da justiga co-
mum, como pode acontecer em relagao
aos outros 16 personagens da trama, com
participagao quase integralmente docu-
mentada, que continuarao a ser processa-
dos nas instAncias inferiores. Eles tem re-
lagdo com outros 10 cheques desviados,
que, somados aos demais, representavam,
em 2001, um alcance de mais de 5,5 mi-
lhoes de reais nos cofres do Banpard
O pr6prio Jader, imitando a attitude do
seu ex-adversirio e hoje correligionario, o
senador Luiz Otivio Campos, processado
por desviar dinheiro recebido do BNDES
para construir embarcaq6es (que acabari-
am se tomando fantasmas), poderia estou-
rar roj6es. Afinal, em 1996, quando foi di-
vulgado pela imprensa o conteddo do rela-
t6rio do inspetorAbrahao Patruni Junior, do
Banco Central, sobre o desvio de dinheiro
do Banpari, Jader, entao senador, encami-
nhou documents ao Minist6rio Piblico
pedindo que o caso fosse apreciado. Last
but not least, seri atendido pelo grau mi-
ximo dajustiqa brasileira. Se nao tem culpa
no cart6rio, rird por iltimo das seguidas
mat6rias publicadas por seus inimigos e
concorrentes do jomal O Liberal.
A denincia formulada pelo procura-
dor-geral da Repdblica, Claudio Fonte-
les, em sete laudas, aponta a existencia
de um "ardiloso esquema criminoso"
montado para desviar dinheiro pdblico,
atrav6s do Banpari, para contas de Ja-
der ou de seus aliados politicos, paren-
tes, clients e amigos. Com base em re-
lat6rios do Banco Central, a 5a Camara
de Defesa do Patrim6nio Piblico, do
Minist6rio Publico Federal, reconstituiu o
caminho do dinheiro desviado, que tinha
origem na reserve banciria do Banparn
e ia para a conta do Fundepard (Fundo
de Desenvolvimento do Estado).
Onze cheques administrativos do
banco, emitidos "ao portador" (sem iden-
tifici-los, portanto), foram sacados des-
sa conta e aplicados em funds de ren-
da fixa na ag6ncia Jardim Botanico do
Banco Itai, no Rio de Janeiro. O di-
nheiro era resgatado e, imediatamente,
uma quantia no mesmo valor era depo-
sitada em conta de Jader ou de algum
de seus beneficidrios, de acordo com a
reconstituiqao do MP.
A defesa do deputado, comandada
pelo advogado Jos6 Eduardo Alckmin,
sustenta que "nenhuma prova conclusi-
va de que algum dinheiro do Banpara te-
nha sido desviado para a conta de Ja-
der" existe nos volumosos autos do pro-
cesso, com mais de tres mil piginas. A


pr6pria Policia Federal, segundo Alckmin,
dono de uma prestigiada banca de advo-
cacia em Brasflia, concluiu que "nao 6
possivel afirmar-se, com seguranqa, que
houve o desvio alegado".
Alckmin, tamb6m advogado de Jader
nos processes da Sudam, que o levaram
a prisdo, explica que essa estranha mo-
vimentagqo banciria se explicaria pelo
fato de o Banpard nao ter entao mesa de
aplicagdo: "Por isso, o banco mandava
tudo para a agencia do Itad. Pelo siste-
ma utilizado, o banco juntava todo o di-
nheiro disponivel e fazia a aplicacqo nos
funds de renda fixa. Quando o dinheiro
voltava, o gerente do banco fazia a dis-
tribuiqdo entire os aplicadores, de acordo
com o volume depositado".
Para Alckmin, classificar esse proce-
dimento como desvio "6 precipitaCgo".
Prova conclusive, ele sustenta, nao hi.
"A denincia nio ter base s6lida, apesar
das especulaq6es. Por isso, nao deve
prosperar", disse ele A imprensa antes
do julgamento. Na sessao, essa opinion
foi manifestada por outro defensor de
Jader, o advogado Amaldo Malheiros.
Ambos sustentam que a a9go contra
o ex-governador do Pard tem inspiraqgo
political. A cronologia do caso serviria de
argument em favor da tese: o dinheiro
teria sido desviado entire 1984 e 1985; o
Banco Central s6 investigou o caso em
1990; a revelaq~o do relat6rio Patruni foi
em 1996; a investigaqao, por6m, ficou
retida numa gaveta do Minist6rio P6bli-
co do Estado do Pard, em Bel6m; foi
mesmo intensificada a partir de 2001,
quando o senador Antonio Carlos Maga-
lhies passou a atacar Jader em funqao
da dispute pela presidencia do Senado.
Durante todo esse tempo, por6m, o
traqo marcante no enredo 6 a tentative
de empurrar com a barriga a elucidaCqo
da hist6ria, para que ela jamais pudesse
ser esclarecida, ou de utilizi-la como um
instrument de manobra, pressto ou de
more contra Jader Barbalho, por moti-
vos outros que nao exatamente a defesa
do patrim6nio piblico. Com os dados j~
reunidos, ningudm mais, em sa conscien-
cia, duvida de que se trata de um caso
escabroso. Tamb6m nao ha d6vida, po-
rem, que o conteddo 6 mais complex do
que sua sinopse sugere.
No seu relat6rio, o inspector Abrahao
Patruni Junior detectou "evidencias" de
que dinheiro foi retirado dos cofres do
Banpard e aplicado indevidamente em
contas particulares, beneficiando "o Sr.
Jader F. Barbalho" e tamb6m "familia-
res, pessoas fisicas e juridicas" a ele li-
gadas. Feitas as aplicaqoes dos recursos
do Banpara, o rendimento seria desviado
em favor desses particulares, sem jamais
retornar a origem. O "rombo", camufla-
do atrav6s de manipulaqao contAbil e


DEZEMBRO DE 2004 I QUINZENA Journal Pessoal







manobras de despistamento com cheques
"ao portador", atingiria o equivalent,
entao, a um milhao de reais (na conta de
chegada, corn todos os encargos e aces-
s6rios computados, o valor pode vir a se
multiplicar por 10).
Patruni direcionou as conclus6es da
sua investigaqao para o ex-govemador, ci-
tado 16 vezes no relat6rio. Onze cheques
administrativos, assinados e endossados
por tres gerentes do Banpari, foram emi-
tidos "ao portador". como se fossem des-
tinados ao reforco do caixa da instituigqo,
pagamento de despesas eventuais e ren-
dimentos de clients. O dinheiro tinha sua
principal origem no Fundepard. Mas ter-
minava em duas contas particulares em
duas agnncias bancirias situadas no Rio
de Janeiro, uma do Itad e outra do Citi-
bank, e em uma terceira, do Banco Eco-
n6mico (ji extinto), em Bel6m.
Ja entao, foi localizado um cheque
pessoal, ndmero 541.426, emitido con-
tra a conta 96.650-4 da agdncia 0532
do banco Itad, no bairro do Jardim Bo-
tanico, no Rio de Janeiro, complemen-
tando uma das aplicaq6es, feita em le-
tras de renda fixa, num process ainda
incompreensivel tecnicamente.
O titular da conta era Jader Fontene-
le Barbalho, que, consultado, confirmou
o fato, mas se declarou incapaz de re-
constituir o significado do cheque, 17 anos
depois. De qualquer maneira, ressaltava
o valor infimo desse cheque, equivalent
a um salario minimo de entio. Outros
cheques, usados para cobrir "saldo resi-
dual" das aplicaqes, tamb6m eram de
baixo valor. O rendimento da aplicaqao
continuou na conta.
Apesar desse dado, o inspector Patru-
ni Junior ndo parece ter conseguido che-
gar ao original do cheque, nem rastreado
todas as pistas da trajet6ria do dinheiro,
para reconstituir toda a movimenta~ao
financeira. Preferiu fazer refer8ncias in-
diretas ao beneficiirio das fraudes, citan-
do, por6m, o nome de Jader como tendo
participagao ativa no "rombo" apenas no
titulo do relat6rio.
A presidencia do Banco Central, A qual
o relat6rio foi submetido, ao inv6s de le-
var o procedimento s tiltimas conseqii-
8ncias, dando-lhe reforqo e partilhando
suas conclus6es, ou arquivando-o, por
consideri-lo inepto, optou por uma estra-
nha attitude de cautela. Nessa 6poca, o
Banpard ji havia atravessado um perfo-
do de quase quatro anos sob gestao com-
partilhada com diretores indicados pelo
pr6prio BC e que eram tamb6m seus
funcionarios ap6s uma intervencao
branca do governor federal, em 1987, logo
depois de Jader encerrar seu primeiro
mandate como goverador.
Patruni finalizou sua inspeqCo prome-
tendo entregar "oportunamente em rela-


A China poderi ter que reduzir sua
produqao de alumfnio em 30% no pr6-
ximo ano para economizar energia. Isso
significa que haveri um incremento na
demand no mercado international. Os
analistas acreditam que o preqo poderi
bater em dois mil d6lares a tonelada, um
record nos iltimos tempos e uma fa-
qanha em qualquer 6poca. Como nio
hA perspective de que a China consiga
reverter a tendencia de reducqo no seu
auto-suprimento, os preqos deverao
continuar num nivel atraente pelos pr6-
ximos anos. O mercado devera experi-
mentar rearranjos. Quem sair na frente
e tiver consistencia, ganhara ainda mais.
O Para 6 o maior exportador brasi-
leiro de alumfnio primirio. O metal pri-
mArio 6 responsivel por 80% do valor
das exportaq6es de aluminio do pafs. O
produto transformado (principalmente
chapas, folhas e peas fundidas) entra
com apenas 20%. Mas no primeiro se-
mestre deste ano experimentou um cres-
cimento de 17,7% em relaqao a igual
perfodo de 2003, enquanto a expansao
do produto primario foi de 5,5%. De um
milhao de toneladas de exportagqo glo-
bal do setor, 233 mil toneladas deverao


t6rio A parte" os documents relativess
As sucessivas reaplicagqes e/ou novas
aplicaq6es, bem como dos resgates par-
ciais e/ou integrais (cheques administra-
tivos e ordens de pagamento)". Esse se-
gundo relat6rio s6 se tomou conhecido
quase nove anos depois, vazado, talvez,
pelo pr6prio Patruni. Valor foi o primeiro
journal a divulgar esse possfvel segundo
relat6rio, secundado pela Folha de S.
Paulo e, depois, O Estado de S. Paulo.
Mas se os novos dados coligidos per-
mitiram ao inspector fechar a cadeia, com
base no seu relat6rio official (ou primei-
ro), a Procuradora-Chefe do Banco Cen-
tral, Nilza D'Assunqio Guidi, em pare-
cer de maio de 1992, afirmou que "nio
se conseguiu apontar os beneficiaries do
produto final dos resgates das aplica-
96es". Para ela, "ficou comprovado, so-
mente, a materialidade dos ilicitos. Toda-
via, a constatacgo das Autorias esbarra
em grau de dificuldade acentuado, em
decorr8ncia da complexidade dos fatos
juridicos, onde se verifica concurso de
crimes e de pessoas em aplicaq6es e re-
aplicacqes financeiras ao portador".
A procuradora reconheceu que os ins-
petores do Banco Central, mesmo se es-
merando "na busca de documentagqo,
com vistas a individualizar os infratores",
nao conseguiram "detectar provas sufi-


ser de produtos industrializados neste ano.
A receita devera chegar a 2,7 bilh6es de
d6lares, contra US$ 2,1 bilhoes em 2003
O quadro mostra que todo setor esta
trabalhando a plena capacidade e que ha-
vera oportunidades para a cadeia produ-
tiva complete. No entanto, 6 claro, ga-
nha mais quem verticaliza mais, retendo
mais valor da atividade produtiva. Os efei-
tos pra frente, contudo, acontecem em
outros Estados, nao no Para, que conti-
nua a ser (e parece que esta condenado
a sempre ser) um exportador do produto
mais atrasado da cadeia, o primeiro de-
pois da forma de energia bruta.
Ou seja: o Pard condenado a atuali-
zar o atraso e a ficar para tras, definiti-
vamente.
E o caso de perguntar: estamos mes-
mo na casa do sem jeito? Depois de 20
anos a mandar para o exterior, sobretu-
do para o Japao, algo como oito milh6es
de toneladas de lingotes de alumfnio,
vamos passar outras duas d6cadas nes-
sa mesma situag~o, piorada pelo incre-
mento de produgqo da Albras, em Bar-
carena (sem falar na Alunorte, ao lado
dela, um degrau abaixo na escala da
transformaq~o)?


cientes, robustas, convincentes, no senti-
do de, juridicamente, indiciar o Sr. Jader
Fontenele Barbalho".
Esse parecer foi decisive para que o
promoter Jos6 Vicente Miranda Filho dei-
xasse de fazer a dentincia contra Jader,
em abril de 2001, quando o process foi
retomado por injungo de Ant6nio Carlos
Magalhles. Mas as informaq6es presta-
das a seguir pelo Banco Central e o MP
Federal levaram outros tr8s promotores
(Agar Jurema, JoHo Gualberto Silva e
Hamilton Salame) a ajuizar aqao civil pd-
blica de ressarcimento contra o ex-gover-
nador, o que remeteu o process ao STF,
onde, finalmente, se espera que surja a
verdade. E, com ela, a puniaio de quem
tenha se apropriado de dinheiro pdblico.
Para que isso ocorra, o STF prova-
velmente tera que adotar um outro en-
tendimento heterodoxo, deixando de apli-
car a prescrig~o retroativa, que livraria
Jader Barbalho de qualquer punigqo,
mesmo no caso de ser comprovada sua
participagqo na fraude, em virtude de sua
condigqo de r6u primario e de seus bons
antecedentes, al6m da demora na inicia-
tiva do poder estatal de apurar os fatos.
Nessa eventualidade, a hist6ria termina-
ra apenas com efeito moral, sem qual-
quer consequiincia fitica, o que nao sera
bom para a moral coletiva.


Jornal Pessoal I-QUINZENA DEZEMBRO DE 2004 3


Aluminio primirio










Carajas no Pitinga?


Pitinga, no Amazonas, poderd se tor-
nar uma esp6cie de Carajis do alumfnio?
Essa pergunta comegou a ser feita, em-
bora ainda por poucas pessoas e fora de
audiencias pdblicas, desde que a Com-
panhia Vale do Rio Doce anunciou a com-
pra dos dep6sitos de bauxita da Parana-
panema no municipio de Presidente Fi-
gueiredo (ver Jornal Pessoal 334), por
20 milh6es de d6lares (pouco menos de
60 milh6es de reais).
Na verdade, uma inc6gnita encobre o
novo capftulo mineral. O valor da aquisi-
9qo mant6m coerEncia com a cubagem
da jazida, estimada pela Paranapanema
em 200 milh6es de toneladas de min6rio
de bauxita. Corn investimento de US$
400 milh6es, a CVRD poderia produzir
2,2 milh6es de toneladas por ano durante
40 anos, metade do que estA previsto para
a primeira etapa da nova mina de bauxi-
ta, em Paragominas (4,5 milh6es de to-
neladas) e oito vezes menos do que o
Trombetas, ambos da pr6pria Vale.
Esses ndmeros desautorizam a infor-
maqCo de uma fonte do setor mineral, de
que Pitinga poderia esconder o maiorjazi-
mento de bauxita do planet, com 7 bi-
lh6es de toneladas, quase tres vezes o
dep6sito de Paragominas, o maior do Pard,
que ter a terceira reserve mundial. "Es-
conder" 6 a palavra certa quando se trata
do ambiente geol6gico dessa area, que fica
250 quil6metros a nordeste de Manaus. A
bauxita at6 agora explorada na Amaz6nia
6 lateritica, encontrada em estruturas se-


dimentares. JA Pitinga esti em rochas
vulcinicas e granitos, uma complete novi-
dade em mat6ria de bauxita.
O event Uatumd, que 6 a designa-
cqo geol6gica para a estrutura na qual a
bauxita se encontra, 6 um dos maiores
do mundo em extensao. Nele, a Parana-
panema instalou a maior mina de cassi-
terita do mundo, com um teor sem igual,
que deu A empresa lucros enormes na
d6cada de 80. Por causa do inusitado, os
ge6logos nio se preocuparam em tentar
localizar min6rios como bauxita nesse
cendrio. Muitos foram surpreendidos pelo
anincio da Vale sobre essa nova frente
do p6lo aluminio. Imediatamente come-
cou uma busca por informaoqes sobre
essa drea, que parecia em process de
declinio e agora voltou a interessar.
Um ge6logo, que esteve no local re-
centemente, declarou-se impressionado
com o volume de aluviio revolvido, para
extraqao de cassiterita, em tdo pouco
tempo de exploraq~o. Registrou algo
como 80 quil8metros lineares de margens
de rios trabalhados para a extragqo do
min6rio de estanho.
Ficou impressionado tamb6m com a
riqueza do cascalho explorado em alguns
pontos. "A concentraqdo era tamanha, e
normal (chegou a 50 quilos por metro
cibico de cassiterita), que os rejeitos dos
primeiros processamentos estdo sendo
trabalhados pela terceira vez, conforme
fomos informados pelo guia t6cnico", re-
latou o ge6logo.


ELETRONORTE
* O prejufzo da Eletronorte nos nove primeiros meses deste ano foi nove
vezes maior do que o registrado no ano passado, passando de 86 milh6es para
832 milh6es de reais. O ndmero fica ainda mais impressionante porque a
empresa conseguiu um aumento de receita de 31%, somando R$ 2,1 bilh6es de
faturamento liquid, contra R$ 2,5 bilh6es da Chesf, a estatal federal do
Nordeste, mas que teve um lucro de R$ 613 milh6es no period.
Maior em faturamento, Furnas, a empresa do sistema Telebris responsivel
pelo Sudeste, faturou R$ 3,3 bilhoes, mas seu lucro, 42% inferior ao dos nove
meses de 2003, foi de R$ 433 milh6es. A outra empresa deficitdria foi a
Eletronuclear, que teve receita de R$ 596 milh6es (quase a mesma do ano
passado) e prejuizo de R$ 265 milh6es (contra R$ 138 milh6es em 2003).
Assim, a Eletronorte deve fechar o ano com o pior de todos os
desempenhos.


RECADO
* No dia 8, a grande maioria da populag~o de Bel6m mandou um recado direto
para os legisladores: esti na hora de acabar com esse feriado insensato.
Exceto os barnab6s, os bancarios e umas poucas categories, a massa trabalhou
sem se preocupar com o feriado. Quem ndo ter uma renda segura A sua
espera no final do mrs, foi atris de haveres & afazeres.


* Viro a pagina dojornal e dou de vis-
ta corn um grande andncio da TAM.
Sob uma vasta foto do Palicio La Mo-
neda, a empresa area brasileira infor-
ma que inaugurou sua linha para a ca-
pital chilena. Fiquei um bom tempo es-
quadrinhando o velho palicio, que mais
parece uma fortaleza espanhola, no
centro de um quadrildtero, a praca La
Moneda. EstA cercado por predios pe-
sados, estilo europeu, h exceqAo do
Sheraton, o hotel que foi da ITT, a po-
derosa empresa telef6nica americana,
transformado numa base informal da
CIA, a agencia de espionagem dos
Estados Unidos, naqueles dias tenebro-
sos (nas refeiq6es, os gringos, altos e
musculosos. eram apontados pelos gar-
qons aos fregueses mais curiosos).
Desde 1973 nao volto a encantado-
ra Santiago, cidade cheia de segredos e
de alegria, recatada e generosa, simples
e esnobe, dividida entire sua identidade
cor rafzes imemoriais e sua utopia eli-
tista de cosmopolitismo. Diante da foto
do pal6cio reconstruido, me pergunto se
o chileno mddio, de vez em quando, nao
vai para diante daquela estrutura de gra-
nito se perguntar se realmente aquele
palacio foi bombeado por avi6es da Ae-
rondutica. incendiado e destruido em al-
gumas de suas alas.
O portio principal 6 de madeira
nova, semjaqa. Antes de se suicidar. o
president Salvador Allende atraves-
sou aquela porta em arco, carregando
uma submetraihadora, present do seu
amigo Fidel Castro, examinou a Area
cor seus auxiliares de confianca, tam-
bem armados, e depois vollou para o
interior do Palicio, de onde, como pro-
meteu, nio saiu pelas pr6prias pernas.
Sentou numa daquelas confortiveis
cadeiras, colocou o cano da arma con-
tra o queixo e disparou. Quando os ven-
cedores chegaram, o midico Salvador
Gossens Allende jA era hist6ria. Nada
mais podiam fazer corn ele.
Esse mesmo La Moneda ilustra o
andncio da nossa TAM, que agora pou-
sa em Pudahuel e, tambem, no Char-
les de Gaulle, em Paris. A empresa
aproveita para lembrar que sdio apon-
tadas semelhancas entire as duas cida-
des, o que tem um tanto de verdade. A
diferenga 6 que a hisr6ria chilena, cor
epis6dios tnicos com o ode Allende, nio
6 tdo bem contada como a francesa.
Por isso, talvez, o palicio fechado, num
deserto dia de domingo ou feriado, que
foi registrado pela foto do andncio, pa-
reca mal-assombrado. Assombracbo
de homes, nao de espiritos.


4 DEZEM8RO DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal









Cerpasa: a hora




6 da verdade


Cabe agora ao Ministdrio Piblico Fe-
deral apurar se os indicios de corrup-
qao, sonegacao de impostos e financia-
mento illegal de campanha eleitoral pela
Cervejaria Paraense S/A sao reais ou
nao. Tr6s auditors fiscais do INSS (Al-
denir Braga Christo, Jocl6io Alves de
Souza e Hugo Muniz de Pinho Sobrinho),
que integraram uma blitz de fiscaliza-
q9o nos documents da empresa, co-
mandada pela Policia Federal, encami-
nharam os dados que reuniram A Pro-
curadoria Regional da Repiblica para o
aprofundamento das apuraqces.
Vfrias das irregularidades praticadas
pela Cerpasa ji estdo comprovadas, mas
outras suspeitas s6 poderdo ser esclare-
cidas atrav6s da quebra do sigilo banci-
rio dos envolvidos, de depoimentos e de
outros procedimentos investigativos. Es-
pera-se que o MP realize essa prova dos
nove, prestando os devidos esclarecimen-
tos A opinido piblica e adotando as pro-
videncias cabiveis.
No meio dos 500 quilos de documen-
tos coletados pelas autoridades na sede
da Cerpasa, em agosto, o mais explosive
6 a transcriqo de um "relat6rio de pen-
dencias", extraido de um dos computa-
dores apreendidos durante a aqao de bus-
ca e apreensao, determinada pela Justi-
Ca Federal, a pedido do MPF. A transcri-
qao foi feita pelo perito criminal federal
Carlos Cristiano Carneiro
O document poderia ser a ata de uma
reuniao, na qual estariam presents os
representantes da empresa, "tratando,
dentre outras temas, de assuntos relati-
vos A eventual concessdo pelo Governo
do Estado do Pard, de incentives fiscais,
caracterizado pela remissdo de dividas
daquela empresa corn o Estado", diz a
representacao dos tres auditors.
Como contrapartida aos beneficios
fiscais e tributarios recebidos da admi-
nistraqao Almir Gabriel, a empresa se
comprometia, de acordo com o documen-
to apreendido, a contribuir, de imediato,
cor 4 milh6es de reais para a campanha
eleitoral ao governor do entao secretirio
de gestao, Simao Jatene, do PSDB. Mas
se dispunha a pagar mais R$ 12,5 milh6es
em seguida, corn outros favors oficiais.
Os primeiros R$ 4 milh6es, em retri-
buig~o A concessao da remissao tributi-
ria pelo Estado, teriam sido pagos, em seis


parcelas de 500 mil reais, entire agosto e
setembro de 2002. Uma s6tima parcela,
de R$ 1 milhao, foi programada para 24
de outubro do mesmo ano. Quanto aos
outros pagamentos, no total de R$ 12,5
milhoes, observam os auditors fiscais na
representacqo ao MPF, "nao estao defi-
nidos para qual finalidade seriam".
Mas os t6cnicos do INSS dividiram
essa operaq~o em tr8s etapas. A primei-
ra, compreendendo oito parcelas, no to-
tal de R$ 1,5 milhao, com valores entire
R$ 100 mil e R$ 500 mil, seria quitada
entire julho de 2002 e janeiro de 2003,
referente a "auto antes da publicacao
do decreto, em agosto +- 15 de agosto/
02", conforme a suposta ata que regis-
trou os entendimentos.
A segunda etapa teria resultado de
uma reuniao, realizada em setembro de
2002, "feita para Dr Ramiro [Bentes],
Dr. Jorge [Arbage], Sr. [Konrad Karl]
Seibel [alemio naturalizado brasilei-
ro, dono da Cerpasa], para Processo
de Remissao projeto
Lei elaborado para Go-
verno Anistia de todos
os Autos abertos em Ju-
izos [juizo], incluindo o
iltimo Auto de 2001". A
etapa alcanqava R$ 5
milh6es, dividido em oito
vezes, entire julho de
2003 e janeiro de 2004
(cinco parcelas de R$ 500 mil, duas de
R$ 700 mil e uma de R$ 600 mil).
Finalmente, a terceira etapa, a partir
do que "foi acertado corn a concessao
do decreto feito outubro/03, [de] que o
governor atual iria fica [ficar] corn 10
parcelas fixas de R$ 600.000,00, come-
qando em 31/10/03, vencendo a cada fi-
nal de mes". Os R$ 6 milh6es estariam
finalizados em agosto deste ano, segun-
do esse cronograma.
A partir de tais informaq6es, os audi-
tores dizem na representacgo ter cons-
tatado que os valores arrolados na su-
posta ata foramm efetivamente pagos nos
dias programados e se encontram regis-
trados na contabilidade da empresa, nos
Livros Didrio 117,118, 119,120, 121e 122,
com exceqco dos pagamentos efetuados
em 2004, cujos livros Didrio e Razdo nao
foram apreendidos e tamb6m nao foram
apresentados pela Cerpasa".


O que, conforme ainda os auditors,
"caracteriza, em tese, a ilegalidade do
procedimento 6 que os valores pagos es-
tao contabilizados nao como doacqo de
campanha, mas sim como 'pago forne-
cedor para compra de jogos de mesas
com cadeiras e conservadeiras destina-
das ao patrocinio das festividades do Ci-
rio 2002', por exemplo, conforme se
pode verificar em c6pias anexas das
Fichas de Lanqamento e das piginas dos
Livros Didrio, onde tais valores se en-
contram registrados".
Os t6cnicos do INSS verificaram ain-
da que os lanqamentos desses pagamen-
tos foramm efetuados de forma a dissi-
mular os valores pagos, dividindo-os, em
algumas vezes, em at6 quatro lanqamen-
tos distintos no mesmo dia, como 6 o caso
do pagamento efetuado no dia 16/08/
2002, da seguinte forma: R$ 125.456,30;
R$ 101.500,30; R$ 75.400,10 e R$
72.643,30, o que perfaz o total de R$
375.000,00, quitado no dia".
Apesar dos documents juntados, a
representacao nao prova que realmen-
te dinheiro desviado da Cerpasa finan-
ciou a campanha vitoriosa de Simdo
Jatene. Mas ela fornece suficientes in-
dicios para merecer uma apuraqao
complete para o esclarecimento de to-
dos os fatos. Nao bastassem esses in-
dicios, outros dados estimulam uma in-
tervenqao do Minist6rio P6blico.
Os aspects exteriores das campa-
nhas eleitorais, de quase
todos os partidos (nao s6
o situacionista ou o ven-
cedor), nao guardam
Sproporq~o com seus or-
Samentos oficiais e ex-
Sa trapolam as condigoes
'"jgo I econ6micas locais. Essa
discrepancia sugere a
existencia de funds nao
declarados, acompanhados, naturalmen-
te, de interesses inconfessiveis.
No caso especifico da Cerpasa, o gri-
tante favorecimento A empresa consti-
tui terreno fdrtil para o aparecimento de
den6ncias sobre uma relacao subterra-
nea entire quem concede os beneficios
e quem os usufrui. Por um desses be-
neficios, a fabricante de cerveja passou
a recolher apenas 5% do valor do ICMS
devido. Tudo bem: a Cerpasa nao foi a
(inica favorecida. Outras empresas tam-
b6m tiveram direito ao abatimento ex-
cepcional de 95% do imposto. Mas a
Cerpasa 6 uma empresa que ji se con-
solidou, instalada que foi no Estado hi
quase quatro d6cadas.
Se ainda assim a empresa tinha direi-
to a subsidio que normalmente s6 cabe-
ria a empreendimento novo, em implan-
tacqo, cabia ao governor, at6 por media
CONTINUE NA PA 6


Jornal Pessoal I QUINZENA DEZEMBRO DE 2004 5







de acautelamento, dar publicidade A in-
tegra do parecer t6cnico do Grupo de
Avaliaq.o e Anilise de Projetos que in-
formou o process. Nada disso foi feito.
Como o process s6 circula no am-
bito governmental, entire burocratas
oficiais, com a decisao intramuros, per-
manece um mist6rio determinar como
uma empresa em divida com o fisco es-
tadual, que nao lhe poderia conceder a
certidao negative de d6bito, sem o qual
nao teria acesso a novos beneficios es-
taduais, ainda assim consegue se en-
quadrar nas normas da political de in-
centivos fiscais do Para.
t certo que a empresa dispunha de
uma certidao de regularidade fiscal, que
a Delegacia de Grandes Contribuintes da
Secretaria da Fazenda do Estado lhe con-
cedeu, por estar em situaqgo regular pe-
rante seus d6bitos fiscais, enquadrados
num acordo para pagamento parcelado.
O parcelamento, por6m, se restringia ao
valor principal, n.o abrangendo os acr6s-
cimos legais inscritos na divida ativa (mul-
tas, juros de mora e atualizagio moneti-
ria), desdejunho de 1999 (antes, portan-
to, da concessao do beneficio fiscal),
quando o Estado props contra a empre-
sa, perante a 26" vara civel de Bel6m,
uma execucqo fiscal no valor de R$ 47
milh6es. Logo, o document nao supria
as exigencias legais. Ainda assim os be-
neficios foram renovados e ampliados
para a Cerpasa.
Para usufruf-los por um qiinqiienio, a
empresa se comprometeu a elevar sua
produq o, que era de 317 mil hectolitros
em 1999, para 1,5 milh2o de hectolitros
no final deste ano. Com a nova escala de
producao, o preco da cerveja para o p6-
blico cairia e, pelo menos, a diversio do
paraense ficaria um pouco mais barata.
Mas nem isso aconteceu.
Favorecida na hora de recolher im-
postos ao eririo, a Cerpasa 6 igual a to-
das as outras na hora de cobrar do con-
sumidor pela cerveja colocada no balcdo,
mesmo sendo, at6 agora (e at6 que a
Schincariol entire em atividade, provavel-
mente no pr6ximo ano), a dnica cerveja-
ria instalada no pr6prio Pard, muito mais
pr6xima do mercado local.
Se agora bebe-se menos, nio 6 por
causa do preqo nem pela campanha em
favor da moderaqao cor as bebidas al-
co6licas. E porque a esmagadora mai-
oria fica mais pobre e menos assistida
pelo poder pdblico, com menos impos-
tos arrecadados por causa da renincia
fiscal, e uns poucos ficam mais ricos,
faturando o mesmo preqo no ato de
vender e recolhendo menos imposto no
ato de descontar.
Espera-se, assim, que o Minist6rio
Pdblico ajude a esclarecer e a acertar
todas essas contas pendentes.


Para: rico e mais pobre


A renda "per capital" no Pari, que era
de 3.383 reais em 2001, subiu para R$
3.887 em 2002. Mesmo assim, o Estado
nao saiu da posicao de 200 lugar no pais.
A renda de cada paraense 6 apenas me-
tade da renda m6dia de cada brasileiro,
segundo os dados divulgados pelo IBGE
na quinzena passada, apesar de ela ter
evoluido a uma taxa (de 1,93%) ligeira-
mente superior A do pais no period.
Na Amaz6nia Clissica, abaixo do
Pard esti apenas o Acre, que 6 o 210
Estado da federaq o. A terra natal de
Chico Mendes, agora proclamado her6i
national, tinha renda "per capital" de R$
3.347 em 2001 e de R$ 3.833 em 2002,
apenas R$ 54 a menos do que a renda
de cada paraense.
O Estado lider da regido por esse cri-
t6rio 6 oAmazonas: gracas A Zona Fran-
ca de Manaus, subiu da 7a para a 6" po-
siqCo entire 2001 e 2002, passando de
R$ 7.125 para R$ 8.374 "per capital .
Em seguida, vem, na Amazonia, Mato
Grosso (120). Amapi (14), Rond6nia
(16) e Roraima. O Maranhao, que em
parte do seu territ6rio faz parte da Ama-
z8nia Legal e integralmente esta na drea
de jurisdiqao da Sudene, 6 o tiltimo co-
locado. Tocantins, que tamb6m esta na
Amazonia Legal, 6 o 26.
Mas enquanto 6 o 20 Estado brasi-
leiro por renda "per capital o Pard ocu-
pa a 11i posicao pelo crit6rio do PIB
(Produto Interno Bruto). Sua posiqao
melhorou: era de 130 lugar em 2000 e
de 12 em 2001. Mas a melhor posi-
qao, 90 lugar, foi alcancada em 1990.


Pelo PIB, no valor de R$ 25,5 bilh6es,
o Pard 6 o Estado lider da Amaz6nia.
O Amazonas, corn pouco mais de R$
25 bilh6es, vem logo em seguida, na 12
posiqao no ranking national. Mas esti
crescendo: desde 1995, o Estado se
mantinha no 14 lugar. O PIB do Esta-
do lider, S.o Paulo, 6 de R$ 438 bilhoes.
O do Rio de Janeiro, segundo coloca-
do, 6 de R$ 170 bilh6es.
Como o Parn, com pouco mais de
sete milhoes de habitantes, 6 o nono
Estado mais populoso do Brasil, a con-
clusdo 6bvia desses ntmeros 6 que sua
dimens.o econ6mica (com 1,9% do
PIB national) ainda nao traduz ade-
quadamente sua grandeza demogrifi-
ca, de 4% da populacgo brasileira; e
que uma parcela considerivel do re-
sultado da atividade produtiva 6 dre-
nada para fora do Estado, que fica
com apenas uma parcela dos recur-
sos para dar conta de seu crescimen-
to vegetativo,onerado pelo peso de
uma taxa migrat6ria acentuada.
Traduzindo em miidos: o Para, ape-
sar de ter um territ6rio rico, utiliza-o mal,
beneficiando mais quem compra seus
produtos do que a si pr6prio. Isso quer
dizer que esti condenado, se nio mudar
essa 16gica, a um destino colonial: cres-
cer sem se desenvolver. Como rabo de
cavalo: para baixo. A nova s6rie de con-
tas regionais do IBGE confirm o prog-
n6stico realista dos critics e desmente a
propaganda sem substancia dos dulicos
do rei que, por isso mesmo, esti tao nu
quanto na diditica lenda.


ESPERAN;A
* Depois que a Constitui'io conferiu poderes excepcionais ao Ministerio
Publico, tornando- o o brao ativo da estitica organizaqao judicial. o fato mais
important na administraqao piblica brasileira 6 a aruaaio da Policia Federal
neste seculo XXI. A PF se tornou o outro braqo da cega justiqa, orientando-a
e convencendo-a da necessidade de agir contra rodas as pessoas flagradas
em conduca criniinosa. tenham ou nio colarinho branco (quanio mais alvo for.
mais a sujeira se destacara).
As operagqes policiais podem ser consideradas espalhafatosas,
promocionais e ludo mais, o que tern seu lado negative mas possui
tambem sua face allamente positive (pelo efeito demonstrative para a
opiniao piblica). Nao e isso, por6m, o que mais import. O que se deve
considerar acima de tudo. sem deixar de considerar o resto, 6 que essays
iniciativas recebem endosso legal (s6 sio desencadeadas com ordem
judicial) e sio acompanhadas por agenres externos, tanto do Ministerio
Piblico quanto da imprensa.
Desde entao, nao ha mais cidadaos acima do bern e do mal no Brasil.
Todos ten que prestar contas dos seus atos, quando cobrados. Se a
sociedade permanecer arenta, checando cada ato da PF. como ter feito
em relaqco ao MP, provavelmente o Brasil ficara melhor.


6 DEZEMBRO DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal









PoluiC o: silencio



denuncia culpado


A Imerys, empresa francesa que pro-
duz caulim em Barcarena, foi a primeira
- e at6 agora inica das quatro grandes
empresas instaladas no distrito industrial
a se manifestar sobre o acidente ocorri-
do no dia 23 de novembro, que provocou
grave poluiC9o do ar e da agua no muni-
cfpio, a 50 quil6metros de Bel6m.
A empresa declarou, em nota divul-
gada no dia 5, que "nenhuma anormali-
dade ocorreu em nossas instala6es no
period que pudesse ter causado o refe-
rido acidente". Acrescentou que "os re-
siduos encontrados na area impactada sao
substancias que colocariam em risco a
pr6pria qualidade dos produtos de nossa
empresa, caso estes fossem contamina-
dos por aquelas substancias".
A empresa fez questdo de ressaltar ter
por norma "comunicar imediatamente aos
6rgaos ambientais a eventual ocorrencia
de qualquer anormalidade em seu proces-
so produtivo, convidando aqueles 6rgaos
a comparecer as suas instalaOes para as
inspeq6es e provid6ncias de praxe".
Por estar convencida "ser esta a ma-
neira 6tica de proceder", a Imerys diz na
nota entender "que a entidade que deu
causa ao referido acidente deveria ter
assumido a responsabilidade pelos seus
efeitos, ou devera assumi-la imediatamen-
te, evitando que as suspeitas recaiam
sobre todos aqueles que desenvolvem
suas atividades na regiao e que tem sem-
pre pautado as suas aqoes em consonan-
cia com os principios de responsabilida-
de social e respeito ao meio ambiente".
A nota conclui "reiterando que as nos-
sas instalacqes encontram-se a disposi-
q~o das autoridades para qualquer ins-
peqao que julgarem necessaria".
O silencio que se seguiu a manifesta-
gqo clara e direta da Imerys deixou mal


as tres outras grandes empresas, todas
elas sob o control da Companhia Vale
do Rio Doce. Significativo foi o fato de
uma delas, a Pard Pigmentos, nao ter en-
dossado a posiCqo da sua concorrente.
Afinal, a PPSA seria tao prejudicada
quanto a Imerys caso a substancia que
vazou atingisse os tanques de secagem
da argila. Se isso acontecesse, estaria
inutilizado para comercializagqo todo cau-
lim exposto, ja que os compradores exi-
gem pureza total do produto.
Por que a Para Pigmentos tamb6m
nao argumentou em favor da sua pre-
sunqao de inoc6ncia? A hip6tese auto-
mitica de resposta 6 simples: para nao
prejudicar as demais empresas coliga-
das da CVRD, a Albris, que produz alu-
mfnio metilico, e a Alunorte, com indi-
caqdo mais forte de responsabilidade,
por produzir alumina, que utiliza insumos
semelhantes ao que deu origem a polui-
qao. Se for mesmo a Alunorte a causa-
dora do vazamento, a empresa sera rein-
cidente em crime ambiental, agravando
sua situagdo, ja em si delicada em virtu-
de do seu silencio.
A fuligem que provocou a poluiqo em
Barcarena 6 um talco preto, muito usado
pelos ge6logos, que provavelmente deve
ter vazado de uma caldeira. 0 dano s6
nao foi maior, as pessoas e ao meio am-
biente, porque na noite do acidente cho-
veu forte na area. Mesmo assim, pesso-
as que estavam dormindo debaixo de
mosquiteiros foram atingidas pelo p6. As
cozinhas de casas menos protegidas fo-
ram invadidas e ficaram sujas.
Uma complete avaliag~o dos danos e
a indicaqio do culpado, por6m, ainda de-
pendem da iniciativa do governor, que,
como de habito, tarda. Espera-se que, ao
menos, nao falhe.


DIREITO
* Ha um intervalo de 60 anos entire In-
terpretaqdo e democracia, tese apre-
sentada por Daniel Coelho de Souza no
concurso para a catedra da discipline "In-
trodugdo do Estudo do Direito", na anti-
ga Faculdade de Direito do Para, e 0 Es-
tado Democrdtico de Direito e a Her-
meneutica Juridica, trabalho de conclu-
sao de curso de sua neta, Roberta Me-
nezes Coelho de Souza, na Pontificia Uni-
versidade Cat6lica do Rio de Janeiro, a
famosa PUC-RJ, um dos principals cen-
tros de formaqdo de juristas, advogados
e de pensamento juridico no pafs.
A tese do av6 tornou-se um classico da
literaturajuridica brasileira, embora nunca
tenha merecido uma ediqao A altura da sua
importdncia. O TCC da neta, uma primeira
mas ji consistent e inovadora abordagem
do tema, sai agora num livro de primeira,
caprichosamente editado sob patrocinio ilu-
minista do pai, Frederico Coelho de Souza,
que recorreu a um dos maiores capistas
brasileiros, Victor Burton, para garantir a
qualidade da publicaqdo. Ela ficard bem
posta em qualquer biblioteca.
O TCC de Roberta ter nivel de dis-
sertagqo de mestrado ou mesmo tese de
doutoramento, como reconhece o prefa-
ciador, o tamb6m paraense (hi muitos
anos estabelecido em Brasilia), Inocencio
Martires Coelho. Ja advogada, Roberta
nao 6 mera aplicadora de receitudrio jurf-
dico, mas uma pensadora, que valoriza a
interpretagqo, mas defended que ela se
aplique nos parimetros da ordem legal,
que tem como substrato a democracia, e,
por isso, impede qualquer absolutismo
numa sociedade na qual sempre deve ha-
ver uma forma de control social. Refle-
xao que vem numa conjuntura apropriada
de discussao sobre o papel da justiqa no
revigoramento da democracia no Brasil.
O escrit6rio de advocacia Coelho de
Souza, fundado pelo mestre Daniel, che-
ga, assim, a sua terceira geraqio fiel ao
legado do patrono: exercer a profissao,
nela garantindo sua existencia, mas re-
fletir sobre o mundo dos homes no uni-
verso que transcende a bitola das leis.
Cor inteligencia e espirito piblico.


A borracha long da Amaz6nia


* A seringueira sera a prin-
cipal cultural dos sistemas
agroflorestais que a Embra-
pa Solos apoiara, no pr6xi-
mo ano, com o objetivo de
dar sustentabilidade h agri-
cultura familiar. A seringuei-
ra sera plantada juntamente
com outras plants, como


caf6, maracuja e abacaxi, e
graos (milho, arroz e feijio),
al6m de palmito. O projeto
piloto sera implantado no Rio
de Janeiro e em Minas Ge-
rais, porque esses Estados
nao t6m sistemas de plantio
desenvolvidos de seringuei-
ra, a partir da experiencia j


em desenvolvimento no Pa-
rand, Sao Paulo, Mato Gros-
so e Espirito Santo.
A Amaz6nia, terra natal
da hevea brasiliensis, esti
completamente fora dessa
nova etapa na tentative bra-
sileira de retomar a produgqo
de borracha natural em esca-


la commercial e volume sufici-
ente para a demand nacio-
nal. Sao Paulo, que ji respon-
de por metade da produgao
national, de 107 mil tonela-
das, continuara a expandir
sua parte. A Amaz6nia acom-
panhard o Estado-lider, mas
a distancia cada vez maior.


Jornal Pessoal I- QUINZENA DEZEMBRO DE 2004 7








Ideal remunerado


O "caso Cony", pelo impact que pro-
vocou, exp6s para a opinion pliblica uma
situaqco que se ia encaminhando em sur-
dina: a indenizacqo devida pelo Estado
- as pessoas consideradas vitimas da vi-
olencia estatal durante a ditadura military
(1964-1985). O "caso Cony" parecia
center todos os elements de distorqCo
dessa iniciativa reparadora.
O jornalista e escritor carioca Carlos
Heitor Cony, 78 anos, entrou na fila da
indenizaCio alegando ter sido preso, por
20 dias, em 1964, ter sofrido coaches e
ameaqas que o levaram a perder o em-
prego no journal onde entao trabalhava, o
Correio da Manhd (que, em funcqo
dessas ameacas, fecharia, em 1974).
O requerimento foi reconhecido pela
Primeira Cimara da Comissao da Anistia,
que concede ao jornalista uma indeniza-
cqo de 1,4 milhao de reais, calculada como
se ele tivesse exercido a funcgo de director
de redacgo de um grande journal, como o
Correio, entire outubro de 1998, quando a
norma constitutional da reparaao entrou
em vigor, ejunho deste ano, quando o pedi-
do foi julgado. Cony recebeu, ainda, uma
pensio especial de R$ 23,1 mil, pela mes-
ma base de cdlculo, reduzida para R$ 19,1
mil por m6s, que 6 o teto salarial do funcio-
nalismo pibblico federal.
O ato 6 legal, mas 6 moral. No auge do
seu prestigio comojomalista, em 1962, Cony
se tomou editorialista do Correio da Ma-
nha. Mas em 1964 era articulista, ou colu-
nista, dividindo corn o escritor Octdvio de
Faria a segqo Da arte defalar mal, titulo
que incorporaria ao seu primeiro livro de
cr6nicas. Cony, que havia se tornado jor-
nalista aos 20 anos, substituindo o pai no
Journal do Brasil, e escrito seu primeiro
livro no ano seguinte, era considerado um
escritor existencialista, alienado politicamen-
te. Mas suas cr6nicas vigorosas, desde o
dia 1 de abril de 1964, o tornaram um sim-
bolo da resistEncia da inteligencia contra a
barbarie que se instalava no Brasil.
t verdade que foi processado pelo
ministry da guerra, o marechal (e future
president) Arthur da Costa e Silva, que
sua familiar sofreu muitas ameagas de
violencia, que ele foi preso e que acabou


sendo obrigado a pedir demissao para
tentar diminuir a pressao sobre o journal.
Mas outros joralistas repetiram seu ges-
to, corn 6nus ainda maiores, sem ter a
id6ia de ir cobrar nao s6 indenizaqgo
como pensao vitalicia do Estado.
Cony seria, algum dia, director de reda-
Co do Correio da Manhd? E pouco pro-
vavel. Ele escrevia (e escreve) muito berm,
mas nao era (nem 6) um home de co-
mando. Jamais foi um reporter. Sempre
atuou na "cozinha" da redagqo, na reta-
guarda. Se foi prejudicado por sua corajo-
sa e surpreendente posicqo contra o go-
verno de excegqo, tamb6m se valeu da sua
fama de resistente. Nao para continuar na
resistencia ao "sistema", como a cornuc6-
pia de poder passou a ser conhecida, so-
bretudo a partir da prevalencia dos seus
pores, subterrineos e da "comunidade de
informaqao", mas para ganhar dinheiro.
Cony deixou a political de lado e tratou
de escrever cr6nicas pastosas para Adol-
pho Bloch, dono da revista Manchete, que
o acolheu cor generosidade no auto-exi-
lio local. Teria conquistado o lugar, bem
remunerado e tranqiiilo, sem a fama de
mdrtir? Se Roberto Marinho tinha o seu
comunista, o maranhense Franklin de Oli-
veira (que prefaciou o dnico livro publica-
do sob o nome do dono da Rede Globo),
Bloch tamb6m queria ter o seu maldito.
Maldito que Ihe entregava textos apropri-
ados para dividir o espaqo de suas cr6ni-
cas corn sua cadela de estimacao.
Cony e todos os indenizados que se en-
quadram no seu "caso" enlamearam o pas-
sado, supostamente dedicado A defesa de
uma causa, com o pincel argentdrio da in-
denizaqao e da pensao. Vivendo conforta-
velmente, cor o produto do seu trabalho,
reconhecido por sua obra como ficcionista,
ele resolve transformar seu curriculo num
pretexto elevado para assaltar os cofres
piblicos, tirando deles o que faltard para
tender os verdadeiramente necessitados.
O Brasil, com essa sucessdo de "ca-
sos Cony", criou uma esp6cie de seguro
para as id6ias que comeqa exatamente
por conspurca-las e anula-las, transfor-
mando em neg6cio o que parecia ser ide-
al. Uma nojeira.


COBRE CALADO
* O primeiro projeto de cobre a entrar
em operaqIo em Carajis, em junho des-
te ano, foi o do Sossego. Cor investi-
mento de 384 milh6es de d6lares (em tor-
no de um bilhao de reais), vai produzir
140 mil toneladas de concentrado de co-
bre (mais tr8s toneladas de ouro, como
subproduto). Na linha de montagem esti
o projeto 118, cuja audiencia piblica foi
realizada em Canaa dos Carajas, no mes
passado, para que entire em funcionamen-
to at6 o final do pr6ximo ano. Com in-
vestimento de 140 milh6es de d6lares, vai
produzir 50 mil toneladas de cobre meta-
lico (ou cat6dico).
Pela cronologia da Companhia Vale
do Rio Doce, em 2006 sera dada parti-
da a Cristalino (150 mil toneladas de con-
centrado, mais 2,5 toneladas de ouro,
com investimento de US$ 500 milhoes)
e Alemio (150 mil toneladas de concen-
trado e 6,8 toneladas de ouro, e investi-
mento tamb6m de US$ 500 milhoes). Em
2007, finalmente, sera implantado o Sa-
lobo, 30 anos depois da avaliagqo daja-
zida (o primeiro virou o iltimo), o maior
de todos, com investimento de US$ 1
bilhao para a produqao de 200 mil tone-
ladas de catodo e 5,1 toneladas de ouro,
al6m de prata e molibdenio.
Assim, depois de um custo de US$
2,5 bilh6es, Carajas estard produzindo 440
mil toneladas de concentrado e 250 mil
toneladas de catodo (aldm de 17,4 tone-
ladas de ouro, record national). Para po-
der avaliar o efeito multiplicador desse
investimento e o roteiro que ele seguird,
6 bom lembrar que uma tonelada de me-
tal de cobre vale 2,5 vezes mais do que
uma tonelada de concentrado e que o
catodo, forte demandador de energia e
grande poluidor em potential, 6 apenas a
primeira etapa da industrializaqgo.
Enquanto o projeto 118 ainda esta nas
preliminares, 6 a hora da discussed: de-
vemos produzir mais cobre cat6dico do
que concentrado? Podemos ir al6m da
mera purificaqao plena do min6rio? O
perfil tracado pela CVRD para o cobre
em Carajas corresponde as expectati-
vas, necessidades e direitos da socieda-
de paraense?
Se essa sociedade nao quer discutir,
entao que pague a conta no fim.


- w U U I U V W -


* Em 1996 o governor do MaranhIo elaborou J
o Piano Diretor do Complexo Porturio e In-
dusirial de Sao Lufs, em conjunto com a Companhia Vale
do Rio Doce. O trabalho recomendou que as indistrias
pesadas fossem implanradas no municipio de Rosario do
Oeste (hoje Bacabeira. em funcio de redivisio territorial)
e nao na ilha de Sao Luis. que nio ter condic6es de supor-
tar empreendimentos cor alta demand de igua e produ-
tores de rejeitos agressivos ao ambience. Rosdrio foi consi-


L [i derada. na epoca, uma das alternaivas loca-
cionais para a fibrica de cobre metalico da
Salobo Merais. As outras duas hip6teses eram Parauape-
bas e Maraba, no Pard.
Hoje. a Vale e o governor do MaranhAo estrfo empenha-
das em implantar um p6lo sidenirgico exalamente no local
vetado por ambos oito anos atrds.
Ber diria Machado de Assis: mudou a razio ou muda-
ram os personagens?


I DEZEMBRO DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal


*!










Roberto Marinho:




urn perfil caricato


Roberto Marinho, infelizmente, nun-
ca encontrou tempo para escrever suas
mem6rias, como pensou fazer cor mai-
or persistencia no final da vida. Reuniu
milhares de documents, fez anotaqoes,
criou um alentado arquivo, mas morreu,
aos 98 anos, antes de dar forma a esse
material preparat6rio. Talvez nunca te-
nha levado a s6rio o projeto. Muitas des-
sas pessoas poderosas temem se expor,
mesmo com todos os biombos que a lite-
ratura confessional costuma propiciar aos
que querem confessar, mas nao tanto (por
isso, sdo inquietadoramente solitarias As
Confissdes, de Jean-Jacques Rousseau).
Tamb6m ficou em brancas nuvens a
promessa de testemunho do paraibano
Francisco de Assis Chateaubriand Ban-
deira de Melo, mais conhecido simples-
mente como Chat6. Ele foi, cor os seus
Didrios e Emissoras Associados, para o
period entire a Segunda Repdblica (1930)
e o golpe military de 1964, o que Roberto
Marinho e sua Rede Globo representa-
ram a partir de entao: os maiores impe-
radores das comunicaqces no Brasil.
Mas nao foi uma sucessdo natural,
pacifica. Chat6 disse que seu imprrio foi
golpeado de morte pelos novos donos do
poder, que nio confiavam nele. O acor-
do Time-Life seria o fermento em d6lar
para fazer a Rede Globo tufar artificial-
mente, sufocando os "Associados" na
nova alianqa govero-midia (sacramen-
tada em Washington), alianca que se
multiplicou pela enfase dada pelos mili-
tares as comunicaqces, como nenhum
governor brasileiro at6 entao.
Em parte, abstraidos os interesses
comerciais ocultos, tinha razao a campa-
nha liderada pelo senador Jodo Calmon,
o brago direito de Chat6. Mas os "Asso-
ciados" ja estavam na reta descendente,
razao para os militares nao apostarem em
suas fichas num projeto de poder mais
duradouro do que os pronunciamientos
anteriores. A espiral de poder levou Cha-
teaubriand a um delfrio incontrolivel, in-
confiavel. Para ele, as inicas regras que
valiam eram as que estabelecia, a primeira
das quais era: n.o hi regras, vale tudo
para ter e ser mais.
Se a ultima image de Chat6 era a
do escroque, nas cenas anteriores ele se
apresentava como um verdadeiro rep6r-
ter, um intellectual acabado, um escritor


de valor. Seus artigos, reuni-
dos, ji estdo em 30 volumes
ou mais (nao sei se a emprei-
tada chegou ao fim). Para ter
uma id6ia do que ele fez ou
pensou sobre joralismo 6 pre-
ciso garimpar com atencgo e
paciencia nas montanhas de
textos que produziu, quase to-
dos os dias, ao long de quatro
d6cadas. Acho que Fernando
Moraes, autor da melhor bio-
grafia do dono dos "Associa-
dos", nao compulsou nem uma
parte representative desse ma- .
trial. Essas cascatas de pap6is nao for-
mam uma autobiografia, sendo em pe-
gas por montar, que nao resultarao, con-
tudo, num todo coerente sem uma her-
cilea mao organizadora.
Dizem que Roberto Marinho tamb6m
foi reporter e sabia escrever. Nao hi
provas suficientes dessa qualidade. Nem
nele nem no pai, que Ihe teria passado o
dom. Irineu Marinho parece ter sido um
bom revisor e um reporter sem desta-
que (seu forte era a audicia na monta-
gem de neg6cios jornalisticos e em to-
mar o pulso do pdblico m6dio, a "maio-
ria silenciosa").
Apurar fatos e produzir textos jorna-
listicos constitufram circunstincias na bi-
ografia do filho c6lebre. Nem por isso lhe
faltaram qualidades excepcionais para, a
partir do pequenojornal que o pai funda-
ra e conduzira apenas na largada, criar
uma das maiores redes de comunicaqao
do planet. Ningu6m chega a esse resul-
tado apenas por circunstancias exterio-
res. Precisa de muito tutano na ossatura.
Por isso mesmo, seria tarefa relati-
vamente simples para algumas das pes-
soas pelas quais ele imaginou ver es-
crita sua biografia autorizada dar con-
ta da encomenda, como Otto Lara Re-
sende, Claudio Mello e Souza e Arman-
do Nogueira. Por portas e travessas,
por6m, o trabalho acabou caindo em
mdos desqualificadas. Pedro Bial pode
ser um bom reporter, um apresentador
de m6ritos e uma pessoa virtuosa. Mas
nao ter estatura para enfrentar o de-
safio de escrever um "perfil", a classi-
ficacqo que deu para o seu livro, A base
de milhares de documents do arquivo
pessoal de Roberto Marinho, sem se


reduzir a garatujar uma hagiografia su-
perficial (que o maior interessado ji
nem poderi mais rejeitar).
Bial escreveu um livro de baba-ovo
(Roberto Marinho, Jorge Zahar Editor,
390 piginas). Nao por ter escrito o que
seus patries queriam. Mas por desper-
dicar a possibilidade de ir ao limited da
expectativa da famflia Marinho sem trair
a hist6ria verdadeira. Talvez mesmo que
quisesse escrever com ousadia
e independencia, o apresenta-
dor do "Fantastico" nao con-
seguiria produzir coisa melhor.
E capacidade o que Ihe falta
para tracar um perfil mais cri-
vel e mesmo just do cria-
dor da Rede Globo.
Bial nao encontra limits
para sua servil exaltacgo do
Marinho nadador, mergulhador,
cavaleiro, namorador, reporter,
empresario, filho de um mito,
que trata de engalanar. O bi6-
Sgrafo 6 pr6digo no uso de acen-
........................... tos de exclamacq o para subli-
nhar os feitos de Irineu Marinho, que, ain-
da de calqas curtas, jd escrevia "jornaizi-
nhos estudantis, manuscritos!", e mais
tarde, aos 16 anos, "nao pede licenca para
entrar na quase gerontocracia da impren-
sa de entdo", final do s6culo XIX.
Antes de Irineu, os Marinho nio exis-
tiam na imprensa brasileira. Bastaram
suas faganhas, por6m, para j haver qua-
se uma nobiliarquia atris dele, na fabula-
9qo de Bial (ou bialice, se permitem o
neologismo). Ele nao se vexa em ir bus-
car na "remota intimidade cor os tenen-
tes" das d6cadas de 20/30, que Ihe fo-
ram franqueados pelo pai, a origem de
"muito da autoridade de Roberto Mari-
nho frente aos militares que finalmente
tomariam o poder em 1964".
Essa 6 uma noq~o absolutamente
nova na hist6ria brasileira: o companhei-
ro Roberto Marinho como um precursor
e mesmo patrono do movimento tenen-
tista, dos primeiros tiros na praia de Co-
pacabana, em 1922, at6 a permanencia
mais extensa no comando do governor,
entire 1964 e 1985. A criatura virou cria-
dor no passe de migica do apresentador
do "Fantastico".
Nao que lhe tenham faltado documen-
tos para alicercar o monument ao mdl-
tiplo her6i. Roberto Marinho tinha em seu
arquivo anotaqces feitas em sua cader-
neta military atestando os serviqos que
prestou A Revoluqao de 30, com a qual o
Brasil se modernizou (e se condenou a
uma imaturidade institutional perp6tua).
A declaragdo foi fornecida, a pedido do
interessado, 46 anos depois de sua fan-
tistica participaqao, participaqCo essa
que consistiu em ceder seu autom6vel
CONTINUEA .AG 10i'


Jornal Pessoal I QUINZENA DEZEMBRO DE 2004 9







particular para o transport de oficiais
militares. Ah, sim: e servir-lhes de moto-
rista muito destroy, por sinal.
Apesar da diferenca de pap6is, o bi6-
grafo nto deixa diminuir seu entusiasmo.
Ao se referir ao capitdo comunista Agil-
do Barata (este, mais do que chofer de
carro pr6prio em revolug6es casuais),
logo tasca o complement: "companhei-
ro de Roberto na Revolucqo de 30".
A figure poderosa de Marinho esti,
quem diria, at6 na origem do carnaval
carioca. Afinal, a iniciativa de criar o con-
curso entire as escolas de samba tinha
sido de Mario Filho, irmao de Nelson
Rodrigues, "uma das primeiras contrata-
96es que Roberto Marinho fez ao assu-
mir a direcgo de O Globo, em 1931".
InspiraCgo rodrigueana por osmose
marinheana, ora pois.
Ne6fito no assunto, Bial nao esti nem
af para o registro documental da hist6-
ria, que se transform, na sua mente
vaudeville, em algo parecido a um la-
birinto de Disney World, pelo qual con-
duz seus leitores, guiando-os de mdos
dadas, alertando sobre perigos, indican-
do didaticamente a trilha (o trilho, me-
lhor dizendo) do entendimento, como se
o autor fosse a tia e seus leitores, dd-
beis alunos, ou infants turistas.
No fundo, mas no fundo mesmo, Pe-
dro Bial escreveu o livro como se esti-
vesse diante das cameras, desenvolto e
feliz na leitura do teleprompter. Enquan-
to desfia o enredo em cima da pesquisa
dos auxiliares que a Globo colocou ao seu
alcance, graqas ao projeto "Colegao
Mem6ria Globo" (que ji rendeu tr8s li-
vros a Jorge Zahar Editor, cars na pro-
dugqo e relativamente baratos para o
consumidor, graCas ao patrocfnio da V&-
nus Platinada), compete vacilos, como di-
zer que Roberto Marinho nasceu "na-
quela tarde carioca, exatamente As cin-
co horas de 3 de dezembro de 1904",
quando a certido de nascimento, exa-
tamente ao lado do texto, na pAgina 42,
assinala que a dl6ivrance foi As cinco
horas, sim, mas da manhd.
Escrever livro nao 6 a mesma coisa
que aparecer na telinha da mAquina de
fazer doido, como Stanislaw Ponte Preta
definia a televisao. Mas Pedro Bial nao
esta nem af: sadda seu "suave chefe Ar-
mando Nogueira" e garante que seu atu-
al chefe, Evandro Carlos de Andrade, e
o "Jipiter tronante" que Roberto Mari-
nho procurou por d6cadas a fio para che-
fiar a redaCao de O Globo, algu6m com
coragem para enfrenti-lo, "que mereqa
seu respeito".
E assim o show da vida. Pena que a
vida nao seja esse show. Mas para suprir
a falha, af esti o patrocinio da Globo para
um Bial bobo. (A rima, como sempre, nao
6 a soluqao. Mas 6 o que fica.)


* ?
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'^^k



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A vida em 1960
Imortal
Em sua coluna "Ronda literiria", publicada na Folha do Norte, o academi-
co Georgenor Franco informava que o goverador Moura Carvalho havia
concordado em autorizar a Imprensa Oficial do Estado a compor e imprimir,
sem custo, a revista da Academia Paraense de Letras, que ficaria apenas
corn a responsabilidade de arranjar o papel. AAPL, nessa iniciativa, "con-
tou cor a sempre comprovada boa vontade do escritor Libero Luxardo,
chefe de Gabinete do Governador", acrescentava Georgenor.
Na nota seguinte da coluna, anunciava que o mesmo Libero "vai mes-
mo disputar as gl6rias da imortalidade. Seu pedido de inscriq~o a poltrona
n 26 deu entrada na Secretaria da APL no dia 19 do corrente", quatro dias
antes. A eleiqao devia ser realizada emjulho. Sem problema algum, claro.

Engenheiros
A programaqao da VIII Semana do Academico de Engenharia comegava
com uma visit as obras da construq~o da ponte sobre o rio GuamB, a maior
obra de arte da rodovia Beldm-Brasflia, seguida de "feijoada regional",
servida no km 94. No dia seguinte, no audit6rio da SAI (Sociedade Artisti-
ca International, onde hoje estA a Academia Paraense de Letras), o major
Jarbas Passarinho faria uma palestra sobre "administraq~o industrial". Ha-
veria, depois, visit A fibrica de asfalto da Construtora Gualo, em Santa
Izabel, A margem da ferrovia de Braganqa. Depois da Festa do Concreto,
nos sales do Clube do Remo, ainda haveria a piscoa dos universitirios,
visit ao Edificio Manoel Pinto da Silva, conferencia do engenheiro Edson
Bonna sobre "aerofotogrametria naAmaz6nia" e um almogo de confrater-
nizaq~o do corpo discente da Escola de Engenharia.

Filosofia
A chapa "Movimento Renovador" venceu, por 158 votos a 52 (e 2 em bran-
co), a chapa "Moreira Junior" na dispute pelo Diret6rioAcademico da Facul-
dade de Filosofia da atual UFPA. Manoel Leite Careiro (um dos donos do
Ideal atualmente) era o cabeca da chapa, que tinha ainda, nos demais cargos
da diretoria, P6ricles Oliveira, Roberto Neves, Dirce Koury, Manoel de Paula,
Vivaldo Reis Filho, Maria da Gl6ria, Eldonor Coelho e Rui Barbosa.
Da Associaqdo Atl6ticaAcademica participariam Rui Barbosa, Juran-
dir Waugham, Pedro Rocha, Edik Batista e Manoel Moutinho. O Conse-
Iho Fiscal tinha como membros Isid6rio Cabral e Celina Maciel.


Sein postures
Todos os anos, na quadrajunina, as barracas de madeira eram armadas no "Largo do Palacio"
(o nome da Praqa D. Pedro quando os poderes constitufdos nela tinham suas principals
sedes) para vender fogos. Todos os anos criticavam-se esse risco insensato, repetido bem em
frente das autoridades. Mas as barracas pareciam eteras. Pareciam. Apesar de venderem
bem, muito procuradas que eram, principalmente por estudantes, um dia foram fechadas para
nunca mais reaparecerem. A hist6ria bem podia servir de inspiraq~o para a nova administraqCo
comeqar a cumprir e fazer cumprir as posturas municipals, que a atual gestao esqueceu. Com
um olho na letra da lei e outro na situaqdo social, mas nao com tanta tolerancia a exceq~o que
acaba anulando a regra.
Ah, sim: agora, no lugar dos fogos do Sao Joao, a mercadoria em alta nas vizinhanqas do
Palacio Ant6nio Lemos sao os cocos.


10 DEZEMBRO DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal







Confusao
O cantor portugues Luiz Guilherme, em
temporada em Bel6m, foi agredido por um
bando de menores desocupados, verdadei-
ros "voyous", segundo a Folha do Norte,
"que proliferam agora nos pontos de diver-
s6es de nossa terra", dedicados a "perturbar
o sossego pdblico e a praticar os mais ousa-
dos vandalismos, mercer do descaso crimino-
so de pais e autoridades competentes".
Apesar de estar em inferioridade, o artist
lusitano reagiu e trocou murros com um dos
"voyous", Jos6 Alberto Levy, As proximida-
des do "Amazon Room", do Grande Hotel.
Citado numa mat6ria dojomal, Claudio Paren-
te tratou de esclarecer que nao era "playboy"
nem fazia parte da turma que agrediu o cantor,
apenas se divertia dentro da boate.
Quanto ao cantor, visitou a redaqlo do
journal para mostrar que estava de cara lim-
pa. Se algu6m se havia dado mal no inciden-
te, nao fora ele, que continuaria sua excur-
sdo por Santar6m, Manaus e Recife antes de
voltar A sua querida Lisboa, que nao via hi
dois anos.

Baile
Roteiro para o Baile das Flores da Assem-
bl6ia Paraense desse ano, que seria realizado
no Teatro da Paz, segundo andncio mandado
publicar pelo 1 secretirio, Osvaldo Melo (fu-
turo prefeito de Belem):
- 22 As 22,30 horas: Reunido das debutantes
no Teatro da Paz.
- 23 horas: Inicio pontual do baile, com apre-
sentacao das debutantes, descriqgo dos
vestidos e desfile das estreantes perante o
quadro social.
- 24 horas: Valsa Vienense, danqada exclusi-
vamente pelas debutantes e seus pares anun-
ciados previamente.
- 1 hora: Proclamaqgo da "Miss Primavera",
escolhida atrav6s de votaqgo direta dos por-
tadores de localidades. Entrega da faixa e
finaj6ia, ofertada pela diretoria.
Traje a rigor.
Orquestras: de Guides de Barros e Alberto
Mota.
Ingresso: com o taldo de quitaqlo do mes
de maio.

Jogo
O president Juscelino Kubitscheck disse numa
entrevista a imprensa que eliminara os malefici-
os dojogo no Brasil. De imediato, reagiu o ve-
Iho Aldebaro Klautau, dono de uma das princi-
pais bancas de advocacia de Bel6m e lider cat6-
lico, nesse ano candidate da Coligaqo Demo-
critica Paraense (CDP) ao govemo do Estado,
contra o PSD baratista, que estava no poder:
mandou de bate-pronto um telegrama para JK,
contraditando a afirmativa, "tio flagrantemen-
te divorciada da realidade national".
Disse mais:
"Nunca a tavolagem imperou tanto no
Brasil como nos dias atuais. Bel6m do Pard 6
uma Sodoma de baiicas, que, sob o patroci-
nio do governor estadual, canalizam extraor-
dindrias somas de dinheiro esptirio aos co-
fres do partido dominant, que 6 tamb6m o
partido de V. Exa.".
Klautau mandou c6pia de um editorial
de A Provincia do Pard, que, segundo ele,


retratava, "corn absolute fidelidade,
a 'pobre paz de charco' em que vi-
vemos", recomendando ao presi-
dente meditar sobre o material.
0 jogo, das cartas ao bicho, con-
tinua nas ruas at6 hoje, vivissimo.

Refrigeraqao
O advogado Amaldo Moraes Filho
inaugurava a instalaqgo de dois apa-
relhos de ar condicionado no seu ga-
binete de secretArio de Seguranqa
Piblica, na antiga Central de Policia.
Garantia que com a refrigeraqgo do ;
ambiente a melhoria nao seria apenas 'k'
para si, mas para a seguranqa ptblica
do Estado, que ganharia com o au- PF
mento da produgao.

Garagem P
O m6dico Lourival Barbalho, do
Pronto Socorro, reclamava, a Lino- is
mar Bahia, que uma ambulancia do
PSM dormiu num dia na garage
Limpeza Ptblica Municipal e saiu de
li, no dia seguinte, sem o rel6gio, ur
Rgi
dois amortecedores e uma maca.
Outros furtos jA haviam acontecido o
em veiculos da Prefeitura Munici- a
pal. Assim nao podia continuar: a nan
san
frota municipal estava exposta a pi- dot
lhagens no local. fai
faix
Aeroportos in
Waldir Bouhid, superintendent do ei
Piano de Valorizagqo Econ6mica da
Amazonia, pegou um DC-4 do L6i-
de A6reo e foi a Moura, no Amazonas, inau-
gurar o campo de pouso local, construido
pela Comara (6rgao da Aerondutica que
construfa aeroportos na Amaz6nia), cor re-
cursos financeiros da SPVEA, antecessora
da Sudam (mas vinculada diretamente A Pre-


Adquira o fabuloso
FUINGLOBE PHILCO




Bup~ ll o

S..... ........... ...





SOPAGANDA

'ot ncia de

radio

1960 as Lojas Mundial.que tinharn sua matriz
n bern instalado ponto no trreoo do Palicio do
dio. na Presidente Vargas, colocamam/ venda
fabuloso" ridio Transglobe, da Phikco, corn um
n(o: nao precisava mais de \al ulas. Funcio-
a corn seis pilhas comuns de lanterna, dispen-
Y .





















do elericidade *toem falta em Belim'i. Mas.
..sm...eo..*----------

1 1.
















ado de ransrmissores. sinronizava. por seis
OPAGAN DA

lotencia de


adio




19 de onda, eLojas undial ue inham sua mariz
n bem instalado ponto no terreo do Palctio do



irferncia, corn receVara psfeita oo m horizon-
iadbuloso" rpao Trconsumidor Phdio, aida ume-




.o por um novo veiculo. a televisao.

sidencia da Reptiblica e nao a qualquer
ministo: no prior Mais de plulas. e Bouhid foi
inaugural com seis pilhaeropmunrt de lanBoa Vista, capi-
tdo e tricidao Territrio Federal de Rio Bran-.
ado de transmissores. sinronizava. por seis
as de onda, emissoras do mundo inteiro, sem




rferncia (hoje Roraima), que ta. m recebeu di-
nheirmo para o conSPVEA.umidor io ainda late-
o por um novo veiculo. a televislo.

sidencia da Repdblica e ndo a qualquer
ministdrio). Mais um pulo e Bouhid foi
inaugurar o aeroporto de Boa Vista, capi-
tal do entmo Territbrio Federal de Rio Bran-
co (hoje Roraima), que tamb6m recebeu di-
nheiro da SPVEA.


SAPATARIA


* Diz a lenda que Pedro I, quando proclamou
nossa independencia, calqava sapatos Clark.
A empresa jura que 6 verdade e nao se deve
duvidar. A Clark, final, tem 182 anos de ativi-
dade ininterrupta. Mas seis anos atrds pare-
cia ter encolhido para morrer. Fechou todas
as suas lojas e passou a vender exclusiva-
mente atrav6s da internet. Desde entdo, nao
chegou a comercializar dirertamente 70 mil pa-
res, quando, no auge, em dezembro, sua rede
colocava 700 mil pares nos p6s dos brasilei-
ros em todo pals. Era como se tivesse involu-
ido ao tempo da sua inica loja, um cubiculo
escuro na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro.
Agora a Clark esti de volta ao varejo, dis-
posta a restabelecer o prestigio da sua mar-
ca, embora nao mais diretamente. As lojas
serao franqueadas e por um conceito que nos
faz pensar se realmente evolufmos. Em pon-
tos diferentes, a Clark teve duas lojas em Be-
16m, a 6ltima j no furdunqo do mercado per-
sa que se estabeleceu no t6rreo do Central
Hotel, de gloriosa e maltratada mem6ria.
Mesmo assim, mantinha seu ar de digni-
dade. Fui client da Clark no Rio e em Sdo


Paulo. Gostava de entrar sem press, sentar
na poltrona e deixarque o atendente me ofere-
cesse os models de sua sugestao. Caminha-
va sobre o tapete, espelhos por todos os la-
dos, entregue aos meus pr6prios cuidados. O
vendedor s6 intervinha quando chamado a dar
seu parecer. Parecia mais interessado em agra-
dar o fregu8s do que vender seu peixe (nao era
verdade, 6 claro, mas a aparencia contava).
Pagava-se um pouco mais pela deferen-
cia, mas nao tanto. Pessoas de classes m6dia
podiam freqiientar as lojas sem a sensacao
de assalto. E cor um tratamento personaliza-
do que fazia a diferenqa. As lojas, ao menos
as que eu freqiientava, eram arejadas, limpas
e confortdveis, situadas em pontos agradi-
veis, na "mao". Identificava-se uma loja Cla-
rk A distancia. A empatia era imediata. Perso-
nificava um retrato de 6poca.
Faqo este registro porque a volta da Clark
As ruas retirando-a desse an6dino mundo dos
computadores nos da a esperanqa de resta-
belecimento de uma hist6ria, embora, no fundo,
saibamos que isso 6 pouco mais do que ilus.o.
Mas quem nao vive tamb6m de ilus6es?


Jornal Pessoal I-QUINZENA DEZEMBRO DE 2004 11








Bispo do povo

Dom Moacyr Grechi era referencia inevi-
tAvel e indispensdvel para quem chegava ao
Acre, a partir da d6cada de 70, atrAs da verda-
de. Bonachlo, amrvel, atento e bem dispos-
to, o religioso abria as portas da diocese sem
qualquer pompa e circunstancia. Feitas as
apresenta6es e encontradas as identidades,
tornava-se um aliado valioso de quem o pro-
curava com a disposiqAo de denunciar as ar-
bitrariedades e absurdos que se cometiam na
expansao da frente pioneira nos confins acre-
anos. Nao s6 por sempre estar bem informa-
do como pela determinaq~o de agir, indepen-
dentemente dos interesses contrariados.
Ja faz algum tempo acompanho esse ro-
busto catarinense A distancia. Dessa distin-
cia, fiquei sabendo que dom Moacyr sofreu
seu terceiro susto desde que assumiu a ar-


Basa: silencio

Pessoas que aplicaram em funds de in-
vestimento criados pelo Banco da Amaz6-
nia, uma instituig~o federal, que teoricamen-
te devia procurar aplicaq6es seguras (ainda
que com remunerac~o mais baixa) em pap6is
do pr6prio governor, s6 souberam que seu
dinheiro estava sendo gerido pelo Banco
Santos, em process de descr6dito ha me-
ses, quando a instituiqAo sofreu interven-
qFo do Banco Central, no dia 18. As perdas
nos dois funds, que foram entregues A ges-
tao do banco de Edemar Cid Ferreira, o Sele-
to e o Basa Invest CP, ji somam mais de 70
milh6es de reais, ou, em m6dia, 73% do seu
patrim6nio (o caso do Seleto 6 mais grave,
com perda pr6xima de 90%). Para tentar sal-
var seus funds, o Basa dividiu-os em duas
novas carteiras.


PORTO
* Parece que esct sofrendo "embargo de
gaveta", na prefeitura de Barcarena e no
governo do Estado, o projelo da empresa
espanhola Rio Turia, que pretend cons-
truir urn novo porto em Vila do Conde, a
leste da Vila Itupanema, antes da praia do
Caripi. O terminal graneleiro, num terreno
comprado da Codebar, serviria principal-
mente para o escoamento da produgio de
graos do nordeste do Estado. O porto esta
em fase de licitaqco para o EIA/Rima, o
estudo de impact ambiental.
Mas hi um ano depend da manifesca-
qao da prefeitura para a desoneraqco da
area e do governor do Estado para a elabo-
raio de um termo de referdncia, sem uma
definiqco, a favor ou contra. A empresa,
por isso, jA estaria mantendo contatos corn
os governor do Maranhio e do AmapA,
que Ihe ofereceram um lote inteiramente
regularizado, sem burocracia, para instalar
seu projelo.
A Rio Turia pretend constmir mais tris
portos no Parn, em locals ainda por definir,
corn recursos pr6prios.


quidiocese de Rond6nia, Estado vizinho do
Acre. Primeiro foi uma bomba caseira deixada
na sede da arquidiocese. Depois, dois aci-
dentes de carro, o dltimo deles na semana
retrasada, numa das muitas peregrinaq6es que
o arcebispo sempre faz, para estar ao lado do
seu geralmente desassistido (pelas autorida-
des) rebanho.
Este registro 6 feito tamb6m com o pro-
p6sito de desejar pronto restabelecimento
ao corajoso home de Deus, peqa funda-
mental no desmantelamento da organizaqao
criminosa liderada pelo ex-deputado Hilde-
brando Pascoal, que se notabilizou triste-
mente pela selvageria contra desafetos e na
manutengdo do seu esquema de crimes, do
qual se tornou simbolo sua arma de morte:
uma motosserra.


Depois de uma nota muito timida que di-
vulgou logo em seguida A intervenAo, o Basa
nao tem prestado A opiniio pdblica e aos seus
investidores os esclarecimentos devidos. Cli-
entes desesperados jd fizeram ameaqas a ge-
rentes de agnncias do Basa e anunciaram que
pretendem reagir caso se confirm a perda de
suas aplicaqfes. O gerente de uma das agen-
cias mais pressionadas sugeriu que o Basa
abra uma linha especial de cr6dito amparada
nessas aplicaq6es, que se encontram tempo-
rariamente indisponiveis, atrav6s de nota pro-
miss6ria caucionada, a mesma taxa, num va-
lor de at6 RS 30 mil, para tender em parte a
necessidades dos pequenos investidores, os
mais prejudicados porque aplicaram suas
uinicas economies. Muitos deles ficaram sem
dinheiro atd para comprar comida.


CABANAGEM
* A6rcio Palheta fez um roteiro ttil de per-
guntas e respostas para consult, especial-
mente de estudantes, em A revoluqdo dos
cabanos (Editora Amaz6nia, 90 pdginas). Seu
livro tem ainda outro mdrito: 6 o primeiro a
fazer referencia aos documents mais recen-
tes sobre a Cabanagem, trazidos de Londres
por David Cleary, que exigem uma revisao his-
toriogrifica sobre o movimento popular de
1835. Revisao que outros autores preferem
adiar "sine die".


SE
* Monsenhor Nelson Soares vem lideran-
do reacgo ao projeto de reform da Catedral
da Sd, da qual foi paroco durante virios
anos. O religioso nao concorda cor a elimi-
naCgo da residencia do padre, que ele pr6-
prio construiu, sobre o forro do Salao dos
Pontificais da igreja. Teme que o resident
fique sem teto para se abrigar no local onde
exerce seu oficio, deixando o temple sem
vida e sem atividade permanent, al6m de
criar dificuldades de sobrevivEncia para o
religioso que ali estiver servindo.
O problema principal, por6m, 6 que at6
hoje a Secretaria de Cultura do Estado nao
apresentou para o pdblico o projeto da refor-
ma ou restauraqgo da Catedral de Bel6m. Sem
saber o que o arquiteto Paulo Ferandes Cha-
ves pretend executar, 6 impossivel referen-
dd-lo. Talvez, como de hdbito, ele queira ter
complete liberdade de criacqo, sem qualquer
contracanto A sua voz. Mas 6 insensatez dele
essa pretensdo, de ter um cheque assinado
para que o preencha a seu bel prazer. A igreja
6 bem do patrim6nio coletivo. Antes de qual-
quer intervenqgo, 6 precise submeter o pro-
jeto a audiencia pdblica.
Aguardam-se as providencias de quem
de direito.


JARI AINDA
* Quase 80 anos depois, Jesus de Miranda Carvalho da seu testemunho sobre a revolta dos
trabalhadores que o coronel Jos6 Jdlio de Andrade submetia a um regime de escravidao na sua
propriedade verdadeiramente feudal, no vale do rio Jari, entire o Pard e o Amapa. O movimento
foi comandado pelo cearense Jos6 Cesario de Medeiros, que arrebanhou 787 homes, mulhe-
res e criangas nas margens do rio, se apossou de um
dos navios de Jos6 Jdlio e fugiu para Bel6m, provo- (
cando grande impact na cidade.
Infelizmente, seu livro RevoluVdo do Jari (Smi-
th Produq6es Grificas, 113 piginas) tem mais a re-
produq o das mat6rias publicadas na 6poca por O
Estado do Pard do que contribuigao pessoal do pr6-
prio Miranda Carvalho, ainda ativo apesar da idade
avanqada. O livro, por6m, com a homenagem que
presta aos personagens do fato, dentre os quais
parents do autor, mostra a necessidade de os
pesquisadores voltarem sua atenqao para o epi- .*..
s6dio, que j mereceu o romance Terra encharca-
da, do ex-senador Jarbas Passarinho.
Ambos, romance e cr6nicajornalistica, podem
servir de ponto de refer8ncia para essa necessaria
releitura.


12/15/0B 34,7




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