Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00277


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Full Text




ornal


Pessoal


NOVEMBRO DE 2004
Ia QUINZENA
N0 333 ANO XVIII
R$3,00


J A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
%$$s$$$$s\\\s$$$$$$$s$$$$$$$\\\$\\$\\


-n


10


0-
.7-'


CRIME


Colarinhos na cadeia

A elite poraense estd em polvorosa. Senadores, empres6rios, politicos e figures estdo indo
parar na cadeia, algumos vezes algemados. Sdo acusados de enriquecer desviando dinheiro
pDblico. Entre dividas e protests, essa e umo novidade no panorama de impunidade, que
ate entdo prevalecio. Pelo menos neste aspect, o Brasil parece que mudou.


O sdculo XXI nio tem sido da-
divoso para cor a elite do
Pard. Seu principal lider poli-
tico, depois de ter chegado As
culminAncias de assumir a pre-
sidencia do Senado, contra a vontade de
um dos donos da reptiblica, o baiano An-
t6nio Carlos Magalhaes, renunciou As
pressas ao mandate senatorial para nao


ser cassado. S6 assim conseguiu salvar
sua at6 entao ascendente carreira politi-
ca, a inica, naquele moment, a escapar
A bitola paroquial paraense e ganhar di-
mensao national, embora de uma notori-
edade triste.
De volta ao cendrio federal, um de-
grau abaixo, na Camara dos Deputados,
CONTINUA NA iAG 2


A HISTERIA DAS
RESERVES
EXTRATIVISTAS
(PAGS. 4/5)
ALLLLLL11111LLLLL\\\\LLLL\\\LLLLLL\\\\\LLL\\LLLLL


-:: -; M 7







CONTINUA;AO DACAPA
Jader Barbalho passou pela circunstan-
cia in6dita e chocante de se ver preso e
algemado pela Polfcia Federal como um
criminoso (ainda que de colarinho bran-
co, embora muito long da alvura). Teve
que esperar atris das grades por um man-
dado judicial de soltura, mas nunca mais
foi o mesmo. Varios processes tramitam
contra ele na instancia maxima dojudici-
ario brasileiro, o Supremo Tribunal Fede-
ral, responsabilizando-o por desvio de di-
nheiro piblico e enriquecimento ilicito.
O foro 6 privilegiado, gracas as prer-
rogativas parlamentares do deputado fe-
deral do PMDB, mas nao hi garantia de
final feliz. O ex-ministro e ex-governa-
dor, dono de um dos mais lustrosos curd-
culos na political estadual em todos os
tempos, precisard manter advogados em
alerta para nao ser surpreendido pela
eventualidade de uma nova prison.
Varios de seus inimigos, que exulta-
ram com suas imagens e fotografias sob
algemas, desde o inicio do mes precisa-
ram tambrm se acautelar para p6ssimas
surpresas para eles, 6 evidence, mas,
certamente, epis6dios de singularidade
pedag6gica para a opiniio public.
No intervalo de tres dias, o empresa-
rio Fernando Flexa Ribeiro viu-se deslo-
cado do centro da comemoragdo pela
vit6ria do senador Duciomar Costa como
prefeito eleito de Bel6m para o isolamento
de uma prisio, com algema e tudo, que
parecia ser exclusividade negative do
belzebu da corruppqo no Pari, na 6tica
de uma elite que se imaginava dona dos
favorecimentos pdblicos e controladora
do poder de mando.
Golpes inesperados e inimagindveis
sofreu essa elite nos tiltimos meses. Dois
de seus principals empresirios foram pre-
sos, embora sem algemas, pela mesma
Policia Federal, acusados de desviar ili-
citamente dinheiro para o exterior, for-
mar quadrilha e sonegar impostos, den-
tre outros delitos. Embora esses regis-
tros criminals nao acompanhem a cr6ni-
ca de sucesso desses personagens nas
colunas sociais, que freqtientam em pro-
fusao e com desenvoltura, constituem o
tema monoc6rdio dos bastidores, que Ihes
constitui cendrio natural, mas que reve-
lam sua face suja ao serem expostos pela
policia a partir das gravaqGes das con-
versas que esses ricos & famosos tra-
vam em seus conciliAbulos.
Bastou estourar a bolha da impunida-
de para que o prontu.rio de nobres inte-
grantes da elite paraense mudasse de
natureza. Se as condutas de Fernando
Yamada e Marcos Marcelino, press pela
Policia Federal na Operaqgo Farol da
Colina, e as de Fernando Flexa Ribeiro e
Eduardo Boulhosa, apanhados nas ondas
da Operagao Pororoca, nao discrepa das


atitudes-padrao do empresariado, na sua
relaqao com seus pr6prios neg6cios e
com o poder pdblico, que costume lhes
encomendar obras, parece chegada a
hora de tentar mudar essa promiscuida-
de para que as coisas assumam sua nor-
malidade. Ou seja: a regra deve ser a obe-
diencia as leis e o acatamento dos princi-
pios morais e 6ticos, nao a excecao.
A iniciativa de quebrar esse circulo vi-
cioso partiu de 6rgaos do governor. Em
geral, a lideranqa tem sido da Policia Fe-
deral, mas sao fundamentals a participa-
qao, o apoio e a capacidade decis6ria do
Minist6rio Piblico Federal e dajustiqa. As
sucessivas operaq6es desferidas contra a
engrenagem de corrup9Co, movimentada
por servidores pdblicos, empresarios e
agregados, constituem um dos fatos no-
vos mais saudiveis da Repdblica. No quer
dizer que elas estejam isentas de erros e
sujeitas a critics. Tamb6m nao esti afas-
tada a hip6tese de jogo de cena e de des-
virtuamento dos prop6sitos generosos de-
clarados pela ofensiva. Com todos esses
riscos, por6m, ela represent uma evolu-
qco nos costumes brasileiros.
A evoluqao se consolidard se os pre-
judicados ou simplesmente interessados
na vida pdblica se manifestarem, contro-
lando os atos do governor e cobrando con-
seqtiincias e esclarecimentos. Na sema-
na passada, por exemplo, quase todos os
6rgaos de representacqo do patronato
paraense subscreveram uma nota de de-
sagravo a Flexa Ribeiro, que ji foi presi-
dente da Federaqao das Ind6istrias do
Estado e do Sindicato das Inddstrias de
Construqlo (que estendeu seu manto de
protest sob a cabega de Eduardo Bou-
Ihosa, seu ex-dirigente tamb6m, ignora-
do pela Fiepa).
Como manifesta9go corporativa, en-
tende-se e acolhe-se. Mas como expres-
sdo da sociedade, nao. Desconhecendo as
informaq6es que levaram a pris5o de am-
bos os personagens, as entidades nao tem
autoridade alguma na mat6ria. A PF, an-
tes de executar a prison, conseguiu con-
vencer um procurador da Repdblica a fa-
zer a den6ncia contra os indiciados. Ji o
MP demonstrou ao juiz federal do Amapd
que a prisao temporaria era necessaria
para a juntada de documents e outras
provas, e a tomada de novos depoimento
dos denunciados, reunidos mas impedidos
de se comunicar entire si. A decisdo judi-
cial se baseou em normas penais em vi-
gor. Se a policia exorbitou no cumprimen-
to do mandado, fariam melhor as entida-
des de classes em denunciar concretamente
os eventuais abusos praticados do que em
lanqar adjetivos inconsistentes sobre as
cabegas dos personagens da hist6ria.
A policia levou dois anos ajuntar pro-
vas e evidencias dos crimes atribufdos as
pessoas que prendeu, imputando-lhes 15


fraudes em obras e procedimentos reali-
zados por 6rgdos p6blicos locais, com a
participaqio direta dos denunciados. Eles
foram enquadrados nos delitos de trAfico
de influ8ncia, advocacia administrative,
peculato, corrupqao ativa e passiva, pre-
varicaqdo, usurpaqCo de funqdo piblica,
inserq~o de dados falsos em sistema de
informacqes (uma grave novidade, que
permit a manipulaqgo no Siafi de dados
no control da dfvida pdblica e na habili-
taqao de empresas, mesmo inadimplen-
tes, no Siafi) e formacqo de quadrilha.
Os crimes dizem respeito a obras
p6blicas, no valor de 103 milh6es de re-
ais, dos quais mais da metade (R$ 64
milh6es) destinados ao porto de Santana,
no Amapi, a maior obra no setor portua-
rio brasileiro atualmente em execucao.
A participaqgo de algumas das pessoas
na trama criminosa 6 nitida e ampla. A
dos empresarios paraenses 6 secundd-
ria, mas, lendo os documents, nao se
pode mais presumir suas inocencias di-
ante da contundencia das provas. A En-
geplan e a Construtora Habitare partici-
pavam da engrenagem nao para ganhar
as licitaq6es ou nem mesmo para delas
participar, mas para favorecer a monta-
gem viciada, beneficiando-se no lance
seguinte, a subempreitada dos serviqos.
No caso da Engeplan, da qual Flexa 6
um dos s6cios, a empresa comprou o edi-
tal, mas sequer se inscreveu para realizar
a obra. Nem por isso se dissocia da licita-
qao. As gravaq6es feitas pela policia re-
velam que Flexa Ribeiro recorreria ao seu
poder de influencia para conduzir o dire-
cionamento da obra. Nao fosse essa cir-
cunstancia, ele teria toda razao em consi-
derar desnecessaria sua prisao, ja que
havia prestado depoimento a PF esponta-
neamente. O problema 6 que a policia
considerava indispensivel ouvi-lo nova-
mente em outras circunstancias, junto cor
os demais denunciados e press, al6m de
apreender documents que ele guard em
sua casa, numa aqao de surpresa.
Embora isso nio esteja explicito nas
manifestaqGes da policia, a PF parece
interessada em iniciar outras investiga-
q6es tendo Flexa Ribeiro como v6rtice
ou element de ligaq~o. Esse 6 o aspec-
to politico da situaqao. Mas nio exata-
mente no sentido de que a prisao de Fle-
xa foi um pretexto para atingir suas co-
nexres politicas. Se assim fosse, a ope-
ragao podia ter sido desencadeada antes
da eleigqo municipal, provocando seqiie-
las muito mais profundas. Se ela fosse
resultado do dedo de Brasilia, nio teria
fisgado tamb6m o prefeito de Macapi,
que 6 petista, reeleito para o cargo. Ele
6, agora, uma das estrelas desse enredo
torto. Mais um petista 6 apanhado pela
roda da corrupq~o (para desconforto dos
petistas paraenses, que tomaram o epi-


NOVEMBRO DE 2004 I QUINZENA Journal Pessoal







s6dio como mote para proper a limpeza
de Bel6m de Duciomar, sem olhar para o
Estado vizinho).
A dimensao political result exatamen-
te da promiscuidade entire os neg6cios
pliblicos e privados, ligados por um bi-
ombo de sujeiras que at6 recentemente
permanecera quase intocado. De certa
forma, pode-se dizer que a Engeplan teve
uma trajet6ria empresarial positive at6 o
moment em que Flexa Ribeiro atraves-
sou o biombo e entrou na esfera polftica
do conjunto, tomando-se o tesoureiro das
campanhas de Almir Gabriel e expondo-
se As mazelas dessa fungqo, causadas
pela atuagqo de PC Farias como tesou-
reiro de Collor de Mello.
De imediato a empreiteira recebeu
mais contratos e faturou alto, mas sua
consistencia empresarial e sua qualidade
t6cnica se deterioraram. Arranjos e acer-
tos passaram a prevalecer sobre andli-
ses de planilhas e tomadas de precos. De
dona de obras a Engeplan foi se especi-
alizando como subempreiteira, ora por le-
var o que nao podia realizar ora por en-
trar na fase seguinte A da licitagCo.
A relaqCo de amizade de Flexa com o
m6dico Almir Gabriel se estendeu ao elo
entire o empreiteiro e o senador, depois
governador, projetando o empresirio para
a lideranga empresarial, o control da
miquina partidaria e o pr6prio exercfcio
politico. Se os dois amigos se mantives-
sem atentos aos sinais de alerta, talvez
tivessem tirado melhores liqoes de epi-
s6dios como a interdiqio do Planalto (do
qual era inquilino o tucano Fernando Hen-
rique Cardoso, correligionario de Almir
Gabriel) a nomeaqco de Flexa para a
superintend8ncia da Sudam.
Ao inv6s disso, a reagqo do doutor
Almir foi jamais colocar os p6s na sede
da Sudam durante seus oito anos como
governador do Pard. O caso mostra que
os dnicos sinais que o doutor Almir e seu
amigo estavam dispostos a ver eram os
que eles pr6prios projetavam. E nessa
dire~go que os lideres acabam reduzindo
o mundo ao seu pr6prio umbigo e a n~o
ver al6m do pr6prio nariz, o que, para o
tucano Almir Gabriel, 6 mais do que figu-
ra de ret6rica.
Em liberdade para assumir o lugar
que Duciomar Costa deixard no Sena-
do, Fernando Flexa Ribeiro vai ter que
se dedicar a duas tarefas de convenci-
mento: dos seus futures pares, o que
exige dial6tica y otras cositas mcs, e
da justiqa, onde agora se dard a instru-
qco processual. Enquanto isso, a pr6pria
policia deveri estar a examiner os elos
de uma cadeia que, a media que 6 pu-
xada, se revela muito maior do que pa-
recia, monstruosa at6.
Final, o home que participava da
festa da vit6ria do prefeito eleito de Be-


Capital e trabalho


A data-base, no dia 1', passou sem
que houvesse a renovaqao do acordo
coletivo entire a Alunorte e o sindicato dos
qufmicos. As parties, que voltardo a se
reunir nesta semana, ainda nao chega-
ram a um entendimento.
O sindicato prop6e o reajuste dos sa-
lirios pelo indice do INPC, a atualizacao
do valor dos tfquetes-alimentaq~o para
200 reais e 15% de ganho real. Al6m
dessas clausulas econ6micas, reivindica
melhorias sociais, como o subsidio dos
cursos de 3 grau para as esposas dos
funcionarios da categoria, manutencao do
direito A moradia subsidiada e instalacgo
da Comissdo Interna de Meio Ambiente.
A Alunorte contraprop6s reajuste salari-
al de 2,5%, equivalent a menos da me-
tade do valor projetado para o INPC anu-
al, e aumento de 5 reais no valor dos
tfquetes-alimentacao, que passariam dos
atuais R$ 105 para R$ 110 (e nao dariam
para comprar sequer um Big-Mac). O
sindicato considerou a proposta "no mf-
nimo, desrespeitosa".
A opinioo piblica devia dar mais aten-
qao a essa negociaq~o. Afinal, a Alunorte
ji 6 uma das maiores empresas de alumi-
na do mundo. Dentro de dois anos estard
no topo do segment. At6 o final da d6ca-
da sua produqdo terd se multiplicado por
quatro em relaqio iltima expansdo. S6


na ampliag~o da capacidade de refino de
alumina de 2,4 milhoes para 4,2 milhoes
de toneladas ano, a ser concluida em 2006,
a Alunorte investird 582,7 milhoes de d6-
lares (mais de 1,6 bilhao de reais). Esses
resultados excepcionais foram consegui-
dos sucessivamente, em curtos intervalos,
tanto pelo crescimento fisico quanto pelos
ganhos de produtividade.
E claro que a realizaao do cronogra-
ma estabelecido s6 sera possivel com
grandes investimentos de capital. Ainda
assim, as disponibilidades reais da Alu-
norte s6 Ihe permitem retribuir ao traba-
lho de seus funcionirios com essa oferta
feita ao sindicato dos qufmicos? E nessa
bitola estreitissima que os trabalhadores
tem que se manter num desses "grandes
projetos", generosos nas suas aplicaqes
de capital e tecnologia, mas restritivos na
remuneraao do fator mdo-de-obra?
A sociedade paraense tem que se
acostumar a monitorar essas negocia-
q9es coletivas para que, atrav6s dos
salaries, se consiga reter um pouco
mais da renda que 6 drenada para o
exterior atrav6s desse modelo preda-
t6rio de exportaqCo. Se quer se tornar
efetivamente paraense, a Alunorte,
controlada pela Companhia Vale do Rio
Doce, deve responder satisfatoriamen-
te a essa demand local.


DOEN(A
A syndrome da parab6lica, criada pelo neofranciscano Rubem Ricupero ("o que 6
bom a gente mostra, o que 6 ruim esconde"), parece ter assumido uma nova forma:
s6 se di atengdo a superficialidades e irrelevancias; tudo que 6 s6rio e s6lido se
desmancha no ar. Ningu6m quer pensar, ningu6m se arrisca. Talvez por isso a t6trica
estatistica sobre a hansenfase no Pari, que coloca o Estado entire as piores paragens
do mundo nesse capitulo, ndo mereceu um ai ao ser divulgada para a opiniao p6blica.
Pelo que temos visto atrav6s da nova cr6nica policial, repleta de assim declarados
colunmveis, a lepra passou da pele, onde se instala pela pobreza e a falta de condi9ges
sanitarias e higienicas, para a alma, se alma tnm os que desviam dinheiro de uso
coletivo para apropriag~o pessoal ou grupal, pilhando o patrim6nio publico.
Daf o sil6ncio inc6modo, acusador.


16m como uma de suas eminencias par-
das era, tres dias depois, o mesmo ho-
mem algemado que descia em Macapi
para prestar contas ao poder pdblico de
atos desabonadores. Ja seu companhei-
ro de infortinio, o empresario Boulhosa,
cedeu as instalaq6es do seu hotel, em
obras, para que nele o future prefeito
assistisse a romaria do Cfrio de Nazar6,
entire outras demonstrates de intimida-
de. Serdo acasos e circunstancias, ou
mais do que mera coincidencia?
Perguntar nao ofende se o perguntado
responded. Nao perguntar, por6m, 6 faltar
ao dever de oficio. Depois que o senador


Jader Barbalho renunciou para nao ser
cassado e o senador Luiz Otivio Campos
teve sua nomeaqao para o Tribunal de
Contas da Unido sobrestada por alegada
improbidade para o exercicio do cargo, a
chegada de mais um senador paraense
envolvido com o mundo da delinqiincia
nao 6 exatamente um bom cartdo de apre-
sentaqo para o Pard. Ultrapassados os
constrangimentos e injustiqas dessa hist6-
ria nova, entretanto, pode ser que assim
seja melhor do que antes. Se for esse o
preqo para encarar a verdade e colocd-la
em pritica, corrigindo erros e vicios secu-
lares, que venha a conta. Ja!


Jornal Pessoal o QUINZENA NOVEMBRO DE 2004 3










Reservas: a histeria


0 mundo veio abaixo ou subiu ao c6u,
conforme a 6tica do observador, na se-
mana passada, quando o governor fede-
ral anunciou a criagao de duas reserves
extrativistas no vale do rio Xingu, no Para:
a Verde para Sempre, em Porto de Moz,
cor 1,3 milhao de hectares, e a do Riozi-
nho do Anfrisio, entire quatro municipios
(Altamira, Placas, Itaituba e Rur6polis),
com 700 mil hectares.
Quebra do principio federalista, intru-
sao da Unido na competencia estadual,
trai~go entire entes pdblicos, golpe con-
tra a indistria madeireira, iniciativa cas-
tradora do desenvolvimento, dedo de go-
vernos e institui qes internacionais que
querem manter a Amaz6nia atrasada -
estes foram alguns dos epitetos dispara-
dos pelos adversirios das duas reserves.
Seus promotores e defensores retru-
caram que os dois decretos, assinados
em Brasilia pelo president Lula, man-
dam duas advert6ncias aos interessados:
as duas areas serao controladas integral-
mente pelo poder pdblico e passarao a
destinar-se ao uso exclusive das popu-
laqces tradicionais que dentro delas vi-
vem atualmente.
No Para, at6 ent~o, existia apenas uma
reserve extrativista, no vale do Tapaj6s,
As proximidades de Santar6m, ainda sem
muita expressao. Mas ha muitas no Acre
e vdrias estao surgindo em outros Esta-
dos da Amazonia. Por enquanto, 6 apenas
uma tend8ncia, uma promessa e con-
forme seus critics uma ameaga. Mes-
mo abrigando a maior de todas as reser-
vas, a Chico Mendes, em homenagem ao
pioneiro dessa plataforma, o Acre ainda 6
o mais pobre da Amazonia. Quase tao
pobre, na region, s6 o Para.
Ambos os Estados fazem parte do
terceiro Brasil, o mais atrasado, junto corn
os Estados nordestinos mais problemati-
cos, todos com IDH (Indice de Desen-
volvimento Humano) bem abaixo da m6-
dia national. A situagqo do Acre deveria
suscitar reflexes mais conseqtientes por
parte dos que acreditam no extrativismo
como via fundamental de desenvolvimen-
to, capaz de ir al6m dos limits de peque-
nas comunidades. Ja a condiqio do Para
adverte para os maleficios do modelo de
desenvolvimento atrav6s dos grandes
projetos, simbolos do desenvolvimentis-
mo acima de tudo, que coloca a ecologia
na pira do sacrificio, mas transfer a ri-
queza para ultramar.
As possibilidades, portanto, ainda es-
tio em aberto. Ndo podem servir de fun-
damento ao tom catastr6fico da reaqao


A criaqao das duas novas reserves ex-
trativistas nem a odes ed6nicas dos seus
propagandistas. Elas somam dois milh6es
de hectares, menos de 2% do territ6rio
paraense, beneficiando 2.500 families
(lote m6dio de 800 hectares, nada excep-
cional para o uso extrativo).
E verdade que nos ltimos anos hou-
ve uma multiplicaqdo de unidades de con-
servagao no Brasil. Mesmo a Amaz6nia,
por6m, que concentra 76% delas, s6 esta
protegendo 4,86% da sua superficie, um
pouco abaixo da m6dia mundial, que 6 de
5%, incluindo os muitos pauses j sem flo-
resta ou com um residue delas. E a Ama-
z6nia tem a floresta mais rica em biodi-
versidade do planet, com 30% das es-
p6cies existentes na Terra.
O poder piblico 6 que, bem ou mal,
garante essa tentative de permitir que os
recursos da natureza sejam identificados,
estudados e conhecidos, ao inv6s de sim-
plesmente serem eliminados pelo desma-
tamento e pela substituiq~o do element
natural por atividades humans de baixo
valor agregado, como as pastagens, os
plantios de soja, os min6rios ou a extra-
gqo de madeira s6lida, comparativamen-
te a usina de conhecimentos proporcio-
nados pela biodiversidade.
Se defender da iniciativa privada, a
m6dia de derrubadas, de 25 mil quil6me-
tros quadrados ao ano (mais do que a
soma das duas reserves extrativistas pa-
raenses, e incluindo a terceira, mais anti-
ga, do Tapaj6s), continuara at6 que a
grande floresta amaz6nica se transfor-
me num cerrado de valor inferior. Me-
nos de 10% das 366 Reservas Particula-
res do Patrimonio Natural (as RPPNs)
se localizam na Amazonia, que s6 conta
com 32 dessas unidades. O empresaria-
do 6 imediatista.
Isso ndo significa que as reserves
extrativistas sejam um mand dos c6us.
Entre sua criacqo no papel e sua efetiva-
gqo no terreno ha uma distancia tdo gran-
de quanto a que existe entire o que 6 dito
no discurso e o que 6 acertado nos gabi-
netes, mais vi filosofia do que podem
supor todos os Hamlets do pais.
O governor federal esta mesmo em
condiC0es de dar conta do objetivo da
reserve, que 6 proteger os meios de vida
e a cultural das populaqces tradicionais,
assegurando o uso sustentavel dos recur-
sos naturais da area?
Sem o governor, as populaq9es locais
tem vivido numa certa harmonia e con-
forme um padrdo que 6 bem melhor do
que dele podem servir de traduqgo os in-


dicadores de mensuraqo, sejam os quan-
titativos como os qualitativos, incapazes
de valorar a vida natural. Mas essas po-
pulaqoes ja estao sofrendo a pressao de
agents externos e as conseqtiencias
dessa pressto, que sao conflituosas na
area da Verde para Sempre e se infil-
tram no Riozinho do Anfrisio.
Suas terras sao ameacadas, assim
como suas vidas. Mas elas tamb6m
mudam: cortam mais madeira para for-
necer aos coletores e aos madeireiros,
caqam mais, extraem mais folhas, ga-
lhos e essencias. Por causa das rela-
96es de troca desfavoraveis, acabam
empobrecendo mais do que melhoran-
do economicamente.
Com as reserves o governor anulard
a propriedade privada que existir nes-
sas areas ou nelas estiver se introme-
tendo, atrav6s de mecanismos fraudu-
lentos da grilagem. O Ibama foi autori-
zado a desapropriar os im6veis que fo-
rem localizados em terras da Uniao. Mas
se as terras forem de dominio do Esta-
do, tera que obter autorizagqo legislati-
va pr6via. Se a autorizacgo for da com-
petencia da Assembl6ia Legislativa, cer-
tamente nao sera dada.
O Estado tamb6m nao tera nenhum
interesse em transferir a jurisdicao para
a esfera federal. Estard criado o impas-
se (sem falar em outro problema, o do
deslocamento do Incra em favor do Iba-
ma, que passaria a expedir sem a devi-
da competencia legal os titulos de con-
cessao de uso de terras piblicas).
Brasilia e Bel6m nao s6 estao falan-
do linguagens distintas como agem em
paralelismo, num litigio mal disfargado.
O secretario de ciencia, tecnologia e meio
ambiente do Estado, Gabriel Guerreiro,
estava em Brasilia quando o president
Lula assinou os decretos, mas ignorava
o ato. Soube dele ao regressar a Bel6m.
Guerreiro e outros t6cnicos da Sec-
tam carregam debaixo do braqo os CDs
do zoneamento ecol6gico-econ6mico do
Estado, olimpicamente colocado de lado
pelo governor federal na hora de criar as
reserves. O zoneamento reserve 20 mi-
lhSes de hectares para florestas publicas,
mas ha alguns meses dorme em alguma
prateleira da administraqao estadual um
ato pronto e acabado de criaqco da pri-
meira floresta estadual, que o governa-
dor Simao Jatene, se leu, nio assinou. O
Pard tem uma lei florestal, mas nao tem
um 6rgao para implementa-la. Tudo, nesse
ambito, parece figuracqo, coisa para in-
gles ver em exposiq es coloridas.


4 NOVEMBRO DE 2004 I l QUINZENA Jornal Pessoal










do contra e a favor


O Pard quer mesmo 6 produzir mi-
ndrios, madeira, soja e care, ao inv6s
de preservar a floresta, por estar con-
vencido de que preservaqao nao propor-
ciona receita e nao gera emprego? Pois
entdo que assuma as conseqtiincias.
Mas se quer levar a s6rio o patrim6nio
natural, que se imponha e passe a falar
(e, sobretudo, agir) cor conseqiiencia.
Batendo cabecas, Brasilia e Beldm vio
apenas servir de instrument para es-
sas frentes de pilhagem e de transfe-
r&ncia de riqueza.
Al6m de precisarem estabelecer um
didlogo s6rio e para valer, as duas admi-
nistraqces piblicas tem que dominar es-
sas quest6es, colocando lealmente so-
bre a mesa suas ddvidas e critics, acer-
tando a agenda e procurando estabele-
cer procedimentos racionais e produti-
vos. O que legitima a criaqao das uni-
dades de conservaqao, independente-
mente de seus erros e acertos, 6 o des-
perdicio e a irracionalidade, que consti-
tui a regra da privatizagqo das terras da
Amazonia, todas, na origem, integrando
o patrim6nio pdblico.
Com a estatizaqao fundidria, que
as Resex acarretam, o poder pdblico
promete que mudari essa situaq~o.


Mas precisa mostrar suas ferramen-
tas, submeter A verificacqo suas id6i-
as e convencer a opinido piblica so-
bre seus arguments. Ainda nao cum-
priu essa tarefa.
O que nao se aceita 6 que um Estado
como o Pard, que se subdesenvolve (sen-
do o 9 em populagao, 6 o 16 em IDH do
pafs) quanto mais cresce economicamen-
te, que ji desmatou quase 20% de sua
superficie e que nio mostra nenhuma
capacidade de gerir seu imenso territ6-
rio, de 1,2 milhao de quil6metros quadra-
dos, sujeito a duas ondas de separatism
(que farao o Estado remanescente se
tornar menor e mais problemitico do que
os outros dois que poderdo surgir, Tapa-
j6s e Carajis), simplesmente arreganhe
os dentes contra as reserves cor tiros
de festim e arguments sem estofo. Sem
falar no seu imobilismo histri6nico.
O vizinho Estado do Amazonas, que
at6 pouco tempo era quase nada em ma-
t6ria de preservagqo e conservacionismo
(e de "desenvolvimento sustentivel"),
criou no ano passado seis unidades de
conservaq~o, num total de 3,8 milhdes de
hectares. Na semana passada, conseguiu
mais quatro milhoes de d6lares para im-
plementar novas areas protegidas. O pro-


grama Zona Franca Verde espera chegar
A conservaqo efetiva de mais de 12 mi-
lhoes de hectares de floresta no Estado,
em pelo menos oito novas unidades diver-
sificadas, at6 o final do atual governor, em
2006. Fundos internacionais estdo fluindo
para li.
Os pianos federais sao mais impres-
sionantes. O Arpa (Programa Areas Pro-
tegidas da Amaz6nia), criado ainda no
governor FHC para proteger uma amos-
tra representative das diversas paisagens
amaz6nicas, 6 a maior iniciativa do g&-
nero para florestas tropicais em todo
mundo. Assumiu o compromisso de in-
vestir US$ 311 milh6es, em 10 anos, na
proteqCo de cerca de 50 milhoes de hec-
tares de florestas na Amaz6nia. E mui-
to? Ndo, 6 apenas o dobro da m6dia mun-
dial. Mas a Amaz6nia tem um terco das
florestas tropicais que restam no plane-
ta. Aritmeticamente, assim, o Arpa re-
presenta um terqo do que o Brasil devia
proteger na Amaz6nia.
Proteger, a esta altura do conheci-
mento human sobre a riqueza contida
no bioma amaz6nico, s6 signiifica per-
der para quem 6 ruim da cabeqa ou do-
ente na vontade. Como esti se revelan-
do ser por exemplo, o Pard.


Gigante de barro


A Companhia Vale do Rio Doce re-
cebera nesta semana, em Brasilia, o pr6-
mio Sesi (Serviqo Social da Indtistria) de
Qualidade no Trabalho, na categoria
Grande Empresa da Regido Norte do
Brasil, tanto em nivel estadual quanto
regional. A CVRD ji conquistou o pr8-
mio estadual em 1999, 2000 e 2001. Na
ediqio national teve mencao honrosa
apenas em 2000.
O premio Sesi foi criado com o obje-
tivo de estimular as empresas do setor
industrial brasileiro a adotarem political
e medidas priticas que assegurem um
ambiente de trabalho saudivel e produ-
tivo, contribuindo para o fortalecimento
econ6mico e o desenvolvimento susten-
tivel do pafs. O premio 6 decidido de-
pois de passar por tr6s fases: 6 avaliado
pelos empregados e pela pr6pria empre-
sa, atrav6s de questionario, e durante
visit t6cnica do Sesi.
A premiaqdo 6 tamb6m "um reco-
nhecimento ptblico das industries em re-
lagqo As suas priticas de gestao de pes-


soas, A political de saiide, seguranqa e
meio-ambiente, ao process de eleva-
cqo da escolaridade e de capacitaq~o
dos trabalhadores, as aq6es de lazer e
cultural e aos projetos sociais, voltados
para a comunidade, considerados indi-
cadores do cumprimento de sua cidada-
nia empresarial". como ressalta o ma-
terial de divulgacao.
A CVRD foi privatizada em 1997.
Desde entdo, vem batendo records su-
cessivos de produCqo, de faturamento, de
exportaqao, de lucro liquid e de distri-
buiq~o de dividends aos seus acionis-
tas. Esse sucesso nio tem a mesma tra-
du~go em mat6ria de relac6es humans,
responsabilidade social, qualidade de tra-
balho e outras realidades sociais. Um pe-
queno sintoma 6 o pr6mio Sesi. Maior,
mais modern e mais important empre-
sa em atividade no Para, a CVRD ga-
nhou apenas quatro das oito ediqces des-
sa premiaqao. Metade, portanto. Desem-
penho que nao traduz qualitativamente
sua grandeza quantitativa.


TIPOLOGIA
Com sua iltima reform grdfica,
o Didrio do Para ficou mais
bem impress. mais limpo. Para
o meu gosto. por6m. menos
journal. O problema 6 a ripologia
adotada. excessivamenre final e
quadrada. Ainda acho que
tipologia para journal ter que ser
redonda e mais para o grosso.
Meu ideal, nesse aspect. eram
os tipos que saiam do
computador da Photom. usados
por A Provicia do Pard. A
miquina foi arquivada por causa
do seu alto custo operacional.
Usava papel forografico e
desperdiqava 20% do material.
na melhor das hipdteses. Mas
era aquele o meu ideal de
tipologia parajornal.
Os tipos que o Didrio passou
a usar tallez nio discrepem
tanto. Final, ojornalismo esfriou
mesmo.


Jornal Pessoal I QUINZENA NOVEMBRO DE 2004








JP: ainda vivo


Uma ddvida me atormenta hi duas
semanas: acabar ou nio com o Jornal
Pessoal. Ora me curvo a essa fatalida-
de ora Ihe oponho resistencia. 0 dia de
comecar a fechar mais uma ediqCo -
novamente atrasada chegou e a p6tala
da vez desta margarida descolorida 6 a
da continuidade. Pelo menos por mais
uma quinzena ojornal continuara sua tra-
jet6ria, mas nao indiferente aos proble-
mas que o ameaqam, desde a elevago
dos custos industrials a falta de tempo
para produzi-lo em condiqes minimamen-
te aceitaveis.
0 leitorja esta razoavelmente bem in-
formado sobre essas dificuldades para
que volte a apresenti-las. Se a inviabili-
dade da periodicidade quinzenal se esta-
belecer de vez, s6 hi duas hip6teses: re-
conhecer que o journal realmente exauriu
suas possibilidades de sobreviv8ncia ou
dar um pass atris na sua manutengqo -
na esperanca de que ainda haja possibili-
dade de dois passes a frente depois.
Vivendo sempre na pindaiba, sobre-
carregado pela elevaqCo dos seus cus-
tos e pela reduqao na vendagem, o jor-
nal voltou a ser deficitario. Como seu
redator solitario nao tem de onde tirar
para tapar o buraco orqamentario e
tamb6m nao consider boa id6ia ele-
var o prego de capa, ji em si fator res-
tritivo de pdblico a alternative sera
reduzir a periodicidade, baixar a tira-
gem, cortar o osso magro dos custos e
imaginar que talvez nesse rumo se apre-
sente uma saida salvadora.
Mas nao sdo apenas os problems
econ6micos que pesam. Ha 12 anos a
perseguigao pela via judicial mina mi-
nha capacidade de resistencia. Nao
consigo mais dar conta de tantas fren-
tes simultaneas. Tenho que estar de
olho no f6rum, atris de meios de sub-
sistencia (que nao sao proporcionados
por este journal, evidentemente) e cui-
dar da pauta noticiosa de cada ediqao,
com atenq~o redobrada A precisao. Sem
f6rias hi mais de 20 anos, minha mi-
quina se ressente.
Na dltima edicao escrevi 11 pontos
percentuais como a vantagem de Du-
ciomar sobre Ana Jdlia, quando o cor-
reto (como todos sabem) seriam mais
de 16 pontos; coloquei-me mais velho
do que os oito autores do livro de remi-
nisc6ncia sobre 1964, quando (nao sei
se felizmente) sou mais novo do que
eles; e por af em frente, ora digitando
errado, ora escrevendo algo divers do
que pretendia, lendo o que penso e nao
o que esti na tela do computador, pala-
vras digitadas por dedos que se rebe-


lam contra as ordens do c6rebro exaus-
to (e, por isso, sem poder valer sua su-
perioridade de mando).
E ainda ha a ediq~o tr6pega, aciden-
tada, feita num turbilhdo de precarie-
dades. Corrigi o texto no qual atribufa
a Sahid Xerfan a propriedade da casa
de campo vendida a Jader Barbalho,
quando a propriedade era do irmao dele,
Carlos Xerfan, mas a correqao nao saiu
na edicgo (sorry, amigo Sahid). Tudo
por culpa de uma estafa que vive dan-
do seu sinal de alerta, agravada pela
tentative de cobrir todos os fatos da
melhor maneira sem uma estrutura mi-
nima para isso.
Apesar de tudo, tento nao ficar dis-
tante dos fatos. A cobertura que a gran-
de imprensa dd ao cotidiano nao 6 ape-
nas sofrivel: chega a ser, em alguns ca-
sos, criminosa. 0 Jornal Pessoal, com
todas as suas limitaq es e erros, com
sua fragilidade mais do que evidence,
sempre deu mais e melhor do que osjor-
nais diarios quando a questao envolve
interesses mais fortes de um lado o
poder econ6mico e o poder politico, fre-
qiientemente em conurbacao, mas de
outro lado a legitima aspiragqo da opi-
niao pdblica de saber o que acontece de
vital, o que vai repercutir no seu dia a
dia e no seu future.
Jornalista professional ha quase 40
anos, sempre foi com tristeza que con-
templei a autentica reserve de mercado
concedida ao JP (que 6, ao mesmo tem-
po, sua fonte de gl6ria e de martirio). Este
journal consegue abordar melhor essas
quest6es nao por competencia sua (ou
nossa, ou minha se me perdoam pare-
cer capcioso), mas pela omissao dos de-
mais, por sua recusa de fazer o que esti
plenamente ao seu alcance realizar.
Em parte, o silencio ou a timidez
da grande imprensa diante de temas
ditos perigosos se deve aos pr6prios
interesses comerciais da corporaqgo.
Raramente a imprensa foi tdo mercan-
til quanto presentemente. A ponto de
uma empresa, como o grupo Liberal,
levar a protest, contra a Companhia
Vale do Rio Doce, uma promiss6ria
fria, provocando a indignacqo da
CVRD, depois amortecida e, finalmen-
te, transformada em instrument de
acerto entire as parties, sem conside-
raqso pelo distinto pdblico, que cons-
titui o neg6cio de ambas.
Sim, hi o silencio obsequioso dos pa-
troes. Mas, ao menos em parte, essa fa-
lha deve ser creditada tamb6m aos pro-
fissionais da imprensa, ajornalistas que,
por tibieza, esperteza ou venalidade, fo-


gem das pautas quentes, mesmo quando
nao hi nenhum veto superior.
O panorama do jornalismo paraense
nao seria tao deficitario se os jornalistas
cumprissem um pouco mais (e melhor)
seu dever de oficio. Muito do que nao
fazem decorre nao de contingencia ex-
terna, de ordem de cima, mas de negli-
g6ncia pessoal. Os interesses escusos
seriam menos poderosos se nas reda-
c6es fossem ouvidas mais vozes disso-
nantes na defesa da dignidade e da de-
c8ncia. O que as cala nao 6 apenas a
voz do dono, mas os interesses de pro-
fissionais seduzidos pelas vantagens de
ser pessoa juridica.
Nao sao, contudo, s6 os jornalistas
que se distanciam do compromisso cor
a sociedade: sao contingentes cada vez
maiores de intelectuais. Intelectual, para
mim, 6 aquele que come tres vezes ao
dia e pode trabalhar usando a cabeca
como ferramenta. Num pais tao rico
como o nosso, mas no qual um terqo dos
seus habitantes estao na faixa da pobre-
za, somos uma casta. Ou nos compor-
tamos como casta e seja o que Deus
quiser (porque o vale de ligrimas nada
mais 6 do que campo de batalha para a
sobrevivEncia do mais forte), ou assu-
mimos nossos compromissos com os
que sao estruturalmente excluidos da co-
munidade humana brasileira.
No primeiro caso, o horizonte 6 o de
uma carnificina que, a cada nova esta-
tistica (como esta mais recent, da USP,
sobre os mortos por armas de fogo), nos
apavora. Para o segundo caso 6 preci-
so mais participaqao para sair do circu-
lo conc8ntrico do eu, do minimo eu,
como escreveu Christophe Lasch num
livro terrivelmente prof6tico.
Dentro das academias universitarias
ha pessoas dotadas de c6rebros privile-
giados que se preocupam exclusivamen-
te cor suas carreiras, escrevendo tex-
tos para serem lidos apenas por seus pa-
res privilegiados, num patois ininteligi-
vel para pobres mortais. Nao se inte-
ressam pelo que acontece fora do cam-
pus se esses fatos nao dizem respeito
as suas teses, aos seus trabalhos cienti-
ficos, aos seus livros para iniciados. Ja
nas academias de ginistica hi pessoas
encantadoras que passam horas e mais
horas cultivando o corpo sem dar a mi-
nima atencao a alma, ao saber, aos va-
lores imateriais.
Se antes o corpo sao era o parceiro
maltratado da famosa maxima do equi-
librio pleno, agora quem sofre 6 a men-
te sq. Esses fisiocultores imaginam que
formas curvilineas ou longilineas na ana-


NOVEMBRO DE 2004 I QUINZENA Journal Pessoal







tomia externa sdo suficientes para fa-
zer esquecer a deformagqo internal, o
vicuo que se alarga com a falta de
exercicio mental que nao seja a xaro-
pada da auto-ajuda ou o conhecimento
a Guiness e SeleqJes.
Para esses dois grupos de intelectu-
ais, assumidos ou nao assumidos, o que
escapa a quadratura de seu circulo nao
faz parte do mundo. Isolados em seus
jardins de Finzi-Contini, s6 descobrem a
realidade quando ela, literalmente, os agri-
de. Nao surpreende que vivam a defen-
der solugCes de forga, das preventivas
as finals, como aquela que os nazistas
venderam, com marketing eficiente, a
maioria do povo alemro.
O Jornal Pessoal procura manter-
se numa tal periodicidade que Ihe permi-
ta existir e, ao mesmo tempo, procurar
fazer a realidade penetrar nessas forta-
lezas vazias (uma esp6cie de autismo que
Bruno Bettelheim nao podia ser capaz de
imaginar), em tempo de se transformar
num instrument de acqo. O desafio in-
telectual mais important, sobretudo
numa sociedade colonial como a nossa,
esti justamente em aproximar a agenda
do cidadao da agenda da hist6ria.
Quinzenalmente busca-se aqui essa
aproximaq~o, no limited maximo das pos-
sibilidades de uma pessoa flagrantemen-
te desprovida de talents incomuns, um
verdadeiro oper6rio da palavra. Esse es-
forqo nao pretend servir a uma vaidade
incomensurivel nem a idiossincrasias ico-
noclastas. Seu objetivo 6 nao deixar que
as oportunidades de fazer uma hist6ria
mais decent e digna na Amazonia, se-
gundo um enredo mais inteligente e f6r-
til, se esvaiam na sarjeta da indiferenqa
e da desatenq~o, conforme o receituario
prescrito por aquele tipo de personalida-
de melfflua e obliqua que se vale do con-
trole da informagqo (e, por conseqii6n-
cia, da ignorincia da informaqco dos de-
mais) para fazer prevalecer apenas os
seus interesses. E esse o poder perverse
do bem informado.
Mesmo quando erra, este journal es-
pera que o leitor encontre em suas pigi-
nas uma declaraqdo de reaqdo ao ultraje
a inteligencia que se pratica permanen-
temente na Amaz6nia. Aqui, procura-se
produzir cor intelig8ncia, a servigo da
intelig6ncia, atris das respostas que con-
duzem a verdade. Se for realmente as-
sim, que continue a ser assim. At6 o ilti-
mo dia, um dia. Como na lenda dos Hi-
xkaryana: para permanecer vivo mesmo
que morra, vivendo aldm. Ou como disse
o c6tico otimista Karl Marx: "O progres-
so intellectual reside em grande parte na
substituico de umjogo imperfeito de fer-
ramentas por outro".
Se este acabar, outro surgira. E as-
sim que caminha a humanidade.


Araposa e o galinheiro



no vale do rio Xingu


Duas semanas antes de o presiden-
te Lula assinar, em Brasilia, decreto cri-
ando a Reserva Extrativista Riozinho
do Anfrisio, que destina 735 mil hecta-
res dessa area do vale do Xingu, no
Para, para uso exclusive da populagao
local, o Ibama (Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Natu-
rais Renoviveis) e a Sectam (Secreta-
ria de Ciencia, Tecnologia e Meio Am-
biente do Estado), junto cor as polici-
as federal e military e o apoio do Ex6r-
cito, realizaram uma operaqgo de corn-
bate ao desmatamento e a grilagem de
terras na area, que faz parte do muni-
cfpio de Altamira.
Aparentemente era uma ofensiva do
poder pdblico, preparat6ria para poder
assumir o control da drea, reprimindo
as atividades ilicitas. Mas s6 na apa-
r6ncia. Como denunciou o reporter
Carlos Mendes, em O Liberal, toda re-
taguarda da operaqao foi fornecida ou
custeada pela Incexil, uma antiga em-
presa local adquirida, quase uma d6ca-
da atras, pela C. R. Almeida. Com a
Incenxil, a poderosa empreiteira sedi-
ada no Parand assumiu o control so-
bre o que pretend ser a maior propri-
edade fundidria individual do planet,
com algo entire 5 milh6es e 7 milh6es
de hectares, mas que o governor fede-
ral consider uma das maiores grilagens
de terras do pais.
O Ibama, a Sectam e as policies
nao tiveram nenhum constrangimen-
to em receber suporte de uma corpo-
raqdo contra a qual se lanqaram tan-
to o Minist6rio Pdblico Federal quan-
to o Iterpa (Instituto de Terras do
Pard), atrav6s de aq6es propostas na
justiga para cancelar os registros imo-
biliarios em poder da Incenxil e para


denunciar os autores das fraudes pra-
ticadas. Todos os 6rgaos pdblicos que
se manifestaram at6 agora sobre o
assunto sustentam que as terras inte-
gram o patrim6nio pdblico, do qual
jamais foram desmembradas legal-
mente. Foi a conclusao, inclusive, da
Policia Federal, depois de um long e
exaustivo inqu6rito, posteriormente
enviado a Procuradoria da Republica
para embasar dendncia contra os di-
rigentes da empresa.
A Incexil, ao custo de 500 mil reais,
segundo o jornalista, forneceu aloja-
mento, alimentagqo, avido e pista de
pouso para a operaqao coordenada
pelo Ibama a partir de uma base que a
pr6pria empresa montou em Entre
Rios, de onde praticamente control
toda movimentaqdo na area. A opera-
9ao foi montada com fundamento em
denuncia apresentada pela empresa
contra invasores, que estariam retiran-
do clandestinamente madeira de sua
area. As pessoas press foram apre-
sentadas como sendo empregados de
madeireiras e grileiros.
Assim, graqas a essa aparente es-
quizofrenia do poder pdblico, que faz
com uma mao diferentemente do que
pratica com a outra, uma mao nada sa-
bendo da outra, a raposa 6 quem pas-
sou a cuidar do galinheiro. O grileiro
6 quem atua, nos bastidores, contra a
grilagem e o desmatamento, tendo
como fachada os 6rgaos pdblicos e
como instrument mandados judiciais,
conseguidos de forma nebulosa, para
dizer o minimo.
Continuard assim com o surgi-
mento da nova reserve? Ou ficard
ainda pior, a despeito da ret6rica de
apresentaqao?


CREDIBILIDADE
Com o editorial de primeira pagina, ironicamente intitulado "Credibilidade", que assi-
nou na edigio de O Liberal do tltimo domingo, comemorando os 58 anos do journal,
Romulo Maiorana Jdnior parece haver descoberto, mesmo que por linhas tortas e
pelas mros de um ghost-writer, uma habilidade nova: a ficqdo.

SILENCIO
O prefeito que sai e o prefeito que entra parecem ter um ponto em comum: tanto Edmil-
son Rodrigues, do PT, quanto Duciomar Costa, do PTB, ignoram a imprensa independen-
te. S6 admitem ler e ouvir o que Ihes conv6m. Ou o que pagam. Corn o nosso dinheiro.


Jornal Pessoal I' QUINZENA NOVEMBRO DE 2004 7








CARTA

DOS brumas do tempo

Ruy Antonio Barata escreveu de Sdo
Paulo, a partir da resenha publicada
na edi4do anterior do JP, sobre o
livro do qual ele foi um dos co-
autores 1964 Relatos subversivos
(Os estudantes e o golpe no Pard) -
uma c6nica deliciosa e viva daqueles
dias que antecederam a deposicdo
do president Jodo Goulart e
precederam o fechamento definitive
do regime military, cor a edigdo do
AI-5, em 13 de dezembro de 1968.
CrOnica que anuncia o livro que ele
espera concluir e lancar no proximo
ano, para ajudar a escrever esse
traumdtico mas decisive moment da
vida republican brasileira.

A prop6sito da mat6ria que publicaste
no teu Jornal Pessoal da quinzena passa-
da sobre os Relatos Subversivos de 64 e
daquela significativa foto de 6poca onde os
cavalarianos nos aguardavam na calqada
do Coaracy Palmeira, na esquina da Gene-
ralissimo com Sao Jer6nimo (os paralelepf-
pedos subjacentes ainda A vista), em 68,
tenho a confessar que o carrossel da me-
m6ria recomeqou a girar a 78 rpm em Altaa
fidelidade" e baixo nivel de distorqao. De
repente, o corago disparou com o relato
daquela prisao na esquina da sapataria
Nossa Senhora das Graqas. Acho que era
o "canto" da 13 de maio com 7 de Setem-
bro. Que datas, hein!. No carro com tres
meganhas estavam, al6m de mim, o Fer-
nando Barata, irmao do Luiz Otivio, o Pe-
quines e o desavisado chofer do carro de
praga. Fomos apanhando de cassette dali
inclusive o chofer at6 o quartel da PM,
na Gaspar Viana.
Recentemente, por forqa de um exame
de raios X que fui obrigado a fazer, aqui em
Sio Paulo, o radiologista constatou "fratu-
ra antiga e consolidada dos ossos do na-
riz". Mas como! Em que 6poca? Af, entao,
me veio a lembranqa do frisado do cabo de
cassette que ostentei por algum tempo em
cima da fuqa inadvertidamente, desferido
naquela prisao, da qual escapaste por in-
tervenCqo do irm~o do Billy Blanco, que
tamb6m era Abrunhosa e Trindade.
Depois me lembrei da tarde que juntos
passamos no apartamento da Aclimaqo
(que referi no texto), onde eu morava no
comeco de minha vida, aqui em Sao Paulo.
Foi uma tarde memorrvel. Voces chegaram
por volta do meio dia de um sibado dejunho
de 1970 Palm6rio, o Aur6lio e voce. Des-
cemos ao boteco da esquina. Compramos
dois frangos de televisao, uma garrafa de
vodka Orloff e dois tijolos de sorvete de
morango da Kibon.Traamos os frangos corn


arroz e, como nao havia dinheiro pra bebida
decent, pegamos o liquidificador, derrama-
mos a garrafa de vodka e os dois tijolos de
sorvetes, e fizemos uma das melhores bati-
das que eu tomei na minha vida. Depois de
conversarmos sobre political e literature a
tarde inteira e entrarmos pelo comego da
noite, descemos e tomamos um taxi.
Direto para o "Sem Nome" na Dr Vi-
lanova, na proximidade da General Jardim,
onde, na escola de Sociologia e Politica,
havia uma festa de dancard promovida pelo
Diret6rio Acad8mico, que teimava em re-
sistir. Depois de mais uns goles de batida
(naquela 6poca batida era moda) descemos
a p6 at6 a Praca. Pra variar, a festa foi
invadida porpoliciais e n6s escapamos cor-
rendo pela praga. Ja ld se vio mais de trin-
ta anos e nem sei se teu harddisk saturado
de informaqes e formag6es ainda registra
aquele dia com a emoqao que me chegou
nesta tarde de domingo paulistano.
Depois nos perdemos.Aquele aparta-
mento virou aparelho. Menos que isto, lo-
cal de confianca para reunites do PCB.
Daf terms nos perdido. Seguimos cami-
nhos paralelos, mas certamente coerentes.
Nas vezes que vou a Bel6m e te encontro
ou sei noticias tuas por meus familiares
percebo que a n6voa do tempo nao foi su-
ficiente para apagar os rastros de nossos
passes na busca da utopia, do sonho e da
felicidade coletiva.
Quando te referiste em teu artigo aquela
passeata em que, juntamente com muitos
estudantes, eu tamb6m fui preso (no meu
caso e de alguns outros, 6 claro que a pri-
sao foi determinada pelo comando polici-
al), queria eu te lembrar que aquele nao
era o "debut" e sim a iltima manifestagio
de rua que realizamos naquele 68. Era mes
de outubro e vinhamos de tries passeatas
em dias seguidos em protest contra as
pris6es do Congresso da UNE, em Ibidna.
Jd haviamos construfdo formas sofistica-
das de fuga da policia. As passeatas eram
divididas em tres ou quatro ndcleos de agi-
tagqo. Enquanto uma era desfeita pelo pri-
meiro embate, na Generalissimo, rota na-
tural de transladaqCo a partir da faculdade
de medicine, ou em Nazar6, o outro nticleo
se deslocava a partir do Largo do Redon-
do, em frente A casa do Lopo de Castro,
em, diregqo ao Largo de Palacio. Cami-
nhivamos at6 o Palacio do Radio, onde o
pau cantava mais uma vez, enquanto o ou-
tro ndcleo se organizava e se refazia a par-
tir do largo do Rel6gio, quando desciamos
pela Joao Alfredo.
Naquele dia n6s vinhamos do Ver-o-
Peso e fomos combatidos na altura da 7 de
setembro. Nos desfizemos por forca do
outro ndcleo de policiais e nos refizemos
no largo das Merces esquina da Carra-
patoso. Eu era o responsdvel pelo ndcleo
do Largo do Rel6gio. Ao nos desfazermos
e no corre-corre de tapas, bombas de gds


lacrimogeneo e cassetetadas, entramos na
sapataria Nossa Senhora das Graqas, onde
o dono sabiamente baixou as portas sanfo-
nadas e nos abrigou por mais de uma hora.
Fomos press ali, pois os policiais perma-
neceram de tocaia nos esperando. Fomos
jogados no carro de praqa, pois nem carro
a policia possufa.
Nos dois iltimos anos tenho me dedi-
cado a compilar a hist6ria daquele tempo.
Muitos dos companheiros do movimento
estudantil da 6poca moram em Sao Paulo.
Um deles 6 o nosso Fernando Fidza de
Melo, valoroso e leal, grande medico, que
me fomeceu indmeros dados sobre o des-
dobramento daquele moment sob a 6tica
da AP. Outro 6 o Antonio Roberto Pinto
Guimaries, o Paulista, ex-presidente da
UAP, que comigo compartilham at6 hoje
noites de lembranqa e hist6ria que preci-
sam ser contadas. Espero que at6 o fim do
ano de 2005 eu consiga lanqar um livro pro-
vocativo, o mais verdadeiro possivel, sobre
a 6poca em que esgotamos os limits da
intolerincia (64-AI-5).
Quanto aos Relatos Subversivos, inde-
pendentemente do que se falar sobre eles,
sdo a primeira manifestaqo dejovens cal-
vos ou grisalhos, que vivenciaram o esta-
lar do golpe de 64 em Bel6m do Pard. Cer-
tamente todos jovens de classes m6dia, in-
telectuais, que pautaram suas vidas ainda
no nascedouro professional pela decencia.
Sobrevivemos ao tempo e ao vento. At6
quando? Nao Sei. Sei apenas que todos,
inclusive voce, estamos aqui pra contar
como uma ditadura foi capaz de mudar
nossos projetos de vida. Testar nossa ca-
pacidade de flexibilizar e nao perder a ter-
nura. Como conviver com os contrarios
antes s6 percebidos nos manuals de mar-
xismo, que nos chegavam na Martins ou
na Dom Quixote. O meu velho pai pra me
provocar me dizia: ser comunista em Paris
me dd meia entrada no cinema e no teatro;
em Bel6m do Pari, me di passe livre pra
cadeia. Af estt a contradicgo.
Pois 6! Aqui estamos botando a cara
pra bater, como voce o faz. 0 Pedro Gal-
vao procurou juntar o maior ndmero de
depoimentos, mas conseguiu apenas o pos-
sfvel. 0 possivel nao abrangeu o nosso
moment Azar do Titulo. E o possivel
nos aprisiona e ao mesmo tempo nos liber-
ta quando conseguimos dizer sem medos,
gracas a uma luta maior, que a ditadura
military no Pard foi bem mais cruel do que
se pode imaginar. Por isto em meu depoi-
mento procurei usar o espago que me cou-
be pra falar em nome daqueles cuja voz foi
calada.e cujo espaco foi cassado.
Hoje, ao te escrever, tenho clareza de
que recuperei intimeras amizades laten-
tes e indiziveis, a tua principalmente, em
que ditadura da distancia e do tempo nao
me tem permitido gozar.
Ruy Antonio Barata


NOVEMBRO DE 2004 I o QUINZENA Jornal Pessoal









Sio Luis, perp.


antes


de virar ilha siderurgica


S6 no final do m&s passado, quando foi
promovido o primeiro semindrio para tra-
tar da questdo corn a populaqco, os mora-
dores de uma area de Sio Luis, a capital
do Maranhao, comecaram a cobrar satis-
faq6es. At6 ent~o eles assistiam, assusta-
dos mas inertes, suas casas serem vistori-
adas, numeradas e marcadas por pessoas
que se apresentavam como enviados de
uma empresa, a Diagonal, contratada para
fazer o levantamento e cadastramento de
families do local.
Os dados servirio para orientar o re-
manejamento de 14 mil pessoas que mo-
ram, distribuidas em 11 comunidades, faz
geraeoes, numa area de 2.500 hectares
da ilha, que fica as proximidades do porto
de Itaqui, hoje uma das principals bases
de lanqamento de riquezas naturals para
o exterior. E uma fraqao dos 167 mil hec-
tares de extensio da ilha, mas o governor
do Estado e a Companhia Vale do Rio
Doce parecem achar tamanho suficiente
para ali concentrar o 110 maior p61o de
produgqo de chapas de ago do mundo, que
produzird o equivalent a 70% de toda a
atual producqo siderirgica brasileira, que
6 de 34 milhoes de toneladas.
Para que esse p6lo se forme, a CVRD,
com o apoio da administragao estadual e
financiamento do BNDES (Banco Naci-
onal do Desenvolvimento Econ6mico
Social), pretend realizar ou estimular
investimentos no valor de 6 bilhoes de
d6lares, segundo suas estatisticas, ou de
US$ 11,4 bilhoes, no entendimento do
governor estadual, na instalagio de tres
siderirgicas de grande porte, envolven-
do investimentos chines, sul-coreano e
europeu. Em conjunto, elas poderio pro-
duzir 24 milhoes de toneladas de ago por
ano, a partir de 2010, gerando US$ 9 bi-
lh6es em divisas porque sua produqCo
sera destinada integralmente a exporta-
9go, sobretudo para a China, que no ano
passado importou 37 milhoes de tonela-
das de ago bruto. Esse valor 6 equiva-
lente a 15 vezes o que o Maranhao ex-
portou no ano passado.
A primeira usina dessa mega-emprei-
tada sera instalada em sociedade pela
Vale, a Baosteel (maior siderirgica chi-
nesa) e a europ6ia Arcelor (a lider do
mercado mundial), com orqamento de
US$ 1,5 bilhao, para produzir 3,7 milhoes
de toneladas inicialmente e 7 milhoes de
toneladas logo em seguida.


Sao quantidades tdo grandiosas quanto
os problems que acarretam. Quando esti-
verem em plena atividade, as tres siderir-
gicas terao que encontrar um lugar para
depositar todo ano seis milh6es de tonela-
das de rejeitos s6lidos. Em sua operaqdo,
usardo mais de 200 milh6es de litros de agua
por dia, o equivalent a todo o consume
atual de Sao Luis, corn seu contingent de
quase um milhao de habitantes (em 1960,
quando a cidade ainda vivia isolada, sem o
efeito dos "grandes projetos" do Programa
Carajds, eles eram apenas 160 mil, um ha-
bitante por hectare).
Depois de usada, essa agua subiri
para a atmosfera na forma de vapor, com-
binando-se corn a queima de carvao si-
derdrgico, o coque, a ser importado da
China. 0 ar sera tornado por 38 milhbes
de toneladas de di6xido de carbon (mais
de 10% da soma das emiss6es de CO2
feitas no Brasil, hoje), o principal respon-
sivel pelo efeito estufa, que afeta o cli-
ma em todo planet.
Durante o inverno ha pouco vento
sobre a ilha. Abril 6 um mes quase todo
de calmaria. A agua que subir das usinas
descerd sobre a mesma area, ji como
chuva acida. Al6m de prejudicar todas
as formas de vida na superficie da terra,
inclusive a humana, penetrara no lencol
freitico porque o solo da ilha 6 extrema-
mente poroso. E nesses dep6sitos sub-
terrAneos que 40% da populaqao de Sao
Luis obt6m agua para seu consume.
O suprimento de agua para uma popu-
lacio em expansao 6 um dos principals
problems da congestionada capital ma-
ranhense. Em 1960 ela abrigava 6% da
populagqo maranhense; hoje tem 15% do
total. O sistema de captaqao e distribui-
9io esta em obras para dobrar de tama-
nho, mas diminuiu muito de expressao des-
de que o p6lo siderdrgico comeqou a ser
pensado. Mesmo se o rio Itapecuru tenha
mesmo a vazao que os t6cnicos oficiais
Ihe atribuem, as tr6s usinas engolirao me-
tade da nova capacidade.
No semindrio promovido no mes pas-
sado pelo Instituto do Homem e a SBPC
(Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciencia) regional, nao faltaram criticas a
esse p6lo, embora ainda faltem informa-
cqes sobre seu exato significado. A inte-
lectualidade maranhense esta tentando nio
repetir os erros que cometeu em relaqao
aos tres projetos de impact instalados na


ilha: a fabrica de aluminio da Alumar, o
terminal sidero-portuario da CVRD (que
ji abriga a maior usina de pelotizaao de
mindrio de ferro do pais) e a Base Espa-
cial de Alcantara. O custo 6 considerado
maior do que o beneficio proporcionado
por esses empreendimentos, mas a aca-
demia nio disp6s em tempo de informa-
qao para o debate com os promotores des-
sas iniciativas. Quando conseguiu se in-
formar, os fatos ja eram irreversiveis.
Os projetos da quarta onda econ6mi-
ca que se lanca sobre a ilha, ameacando
a vida dos seus habitantes ao mesmo tem-
po em que lhes oferece sedutoras pro-
messas de beneficios, estao ligados aos
efeitos do novo choque do petr6leo so-
bre o custo da energia e o deslocamento
de virios centros de produgao de bens
eletrointensivos. Grande parte do que
produzirem vai tender as necessidades
da China, pais que consome 31% do car-
v~o mineral, 29% dos produtos sidernr-
gicos, 28% do min6rio do ferro transoce-
anico, 19% do aluminio e cobre e 8% do
petr6leo no mundo.
Se sao inegaveis as vantagens que esse
empreendimento proporcionara a China,
a outros grandes consumidores estrangei-
ros, a CVRD e a uma elite a eles associ-
ada no Maranhao, as 14 mil pessoas que
estao no alvo do remanejamento ainda nio
tem motivo algum para acreditar que es-
ses beneficios as alcancarao. Nem a mai-
oria dos moradores da ilha de Sao Luis.
Projetando-se o p6lo siderirgico sobre o
acanhado e complex pedaqo de terra dos
ludovicenses, situado num dos mais deli-
cados estuarios do litoral brasileiro, a per-
gunta que imediatamente vem a mente
6: por que essas usinas nio podem ser
instaladas no continent, a uma distancia
de 50 quil6metros da ilha, por exemplo,
sem prejuizo para os investidores e cor
ganhos para todos?
E a pergunta que nio quer calar, ape-
sar de os projetistas de mais esse cavalo
de Tr6ia nao parecerem dispostos a res-
ponde-la. Afinal, a president da Baos-
teel, madame Xie Qihua, anunciou em
primeira mao para o president Lula e o
governador Jos6 Reynaldo, durante a re-
cente visit que fizeram a China: "Va-
mos com tudo para o Maranhao".
Madame podia explicar o que quis di-
zer com esse "tudo". Sao Luis merece
essa explicaqao. Ou o tudo sera nada.


Jornal Pessoal I- QUINZENA NOVEMBRO DE 2004








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FINAL JA ERA TEMPO
DE OUEBRAR A



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punr.


p1Mi'e Oayo

SUPEtALIOPIE
S E EX. U$IVtUE DA
FAIIIFICAflORA BDELi


localizacdo, a
panificadora
fazia
referencia a
Sorveteria
Santa Marta,
coqueluche
da epoca,
que
notabilizou
fora das
fronteiras o
delicioso e
variado
sorvete
paraense. A
criaado
mineira,
preparada a
partir de ovo,
queijo e
margarine
vegetal, vinha
quebrar a
rotina do cafe
da manhd
papa-chibe.


Navegagao
Tres empresas particulares anunciavam
num mesmo dia de janeiro de 1953 a sa-
ida de seus barcos para longas viagens,
cor cargas e passageiros, para o interi-
or daAmaz6nia. Nicolau da Costa & Cia.
despachava o vapor "Bardo de Came-
ta", que faria sua viagem mensal ao Bai-
xo Amazonas, escalando nos portos de
Breves, Almieirim, Monte Alegre, Alen-
quer, 6bidos, Oriximind, Terra Santa,
Faro, Parintins, Urucari, Urucurituba,
Itacoatiara, Santa Maria do Rama e
Manaus. Ja a Navegago de Os6as Pin-
to mandava o "Ida Carmem" na mesma
direc~o, mas com escalas em Santar6m,
Obidos, Parintins, Itacoatiara, Manaus e
portos do rio Solimoes at6 Tabatinga e
Benjamin Constant. A Linha do Tapaj6s
colocava o motor "Tapaj6s" no lugar da
lancha "Ceci" para Sao Luiz do Tapaj6s,
escalando em Porto de Moz, Gurupi,
Belterra, Fordlandia e Itaituba. As em-
presas particulares de navegagqo tinham
seus escrit6rios na avenida Castilhos
Franqa e na rua Gaspar Viana.


PROPAGANDA

Pao de queijo
Se este anincio, de julho de 1969, e
realmente document histdrico, serve
de prova que o pdo de queijo se
tornou paraense hd 35 anos. Foi
fabricado, cor exclusividade, pela
Panificadora Belem, na rua Diogo
Moia, no Umarizal. Para facilitar sua


Bonde
Ja que a prefeitura tenta res-
suscitar uma versao (bem) re-
sumida e (mal) acabada dos
antigos bondes, vale a pena
reproduzir parte das reminis-
cencias de Theodoro Brazao
e Silva, publicadas na sua co-
luna "Dois dedos de prosa",
da Folha Vespertina, em 1968,
sobre os bondes que os ingle-
ses colocaram em funciona-
mento (sem maiores dificulda-
des) em Bel6m, em 1905. Ja
era bonde el6trico, numa me-
dida do avanqo de Beldm, na
6poca, em relag~o as demais
capitals brasileiras (dianteira
perdida com o tempo, hoje
transformada em "fona").
A linha comegava no Ver-
o-Peso, seguia pela Governa-
dor Jos6 Malcher (entdo ave-
nida Sdo Jer6nimo) e termina-
va na Independencia (atual
Magalhdes Barata). Brazao,
usuario dos bondes e admira-
dor dos ingleses, garantia que
o transport era excelente:
"Os de primeira classes, nos
quais as passagens custavam
seis vint6ns, tinham passage
central, como nos 6nibus ca-
prichados da 6poca atual. Al-
guns deles possufam poltronas
estofadas. Outros eram em
palhinha. E, naqueles anos re-
cuados, ainda ndo havia o lado
destruidor de nossa mocidade.
Mesmo porque nao tinham
aparecido as laminas Gillete.
(...) Mesmo os de segunda
classes, os bagageiros, com
vdos no meio do bonde, ti-
nham corredores centrais. Os
bancos eram de madeira. A
passage custava um tostao
ou cem r6is. E ji havia grita
nesse tempo, pela exploragqo
que os ingleses faziam...".

Comunicaq6es
Numa 6poca de comunica-
96es ainda precArias, a Radi-
onal e a Western eram duas
instituiqoes quase sagradas
em Bel6m. Os telefones pou-
co funcionavam para ligaqbes
interurbanas. Era precise re-
correr As duas agencies para
mandar mensagens para fora
do Pard. A Western, que ti-
nha sua sede no Boulevard
Castilhos Franqa, esquina
com a Frutuoso Guimardes,
se apresentava declarada-
mente estrangeira.


10 NOVEMBRO DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal


oIqiAk ....... .


Mas as raizes da Radional
s6 apareceram em 1968,
quando a empresa mudou sua
razao social de Cia. Radio In-
ternacional do Brasil (Radio-
nal) para ITT Comunica6es
Mundiais S. A. (ITTCOM),
como em todo o resto do mun-
do. Assim, uniformizou seu sis-
tema de telecomunicac6es,
que compreendia telex, tele-
gramas, telefone, transmission
de dados e serviqo de canais
arrendados, "o mais aperfei-
qoado em todo o mundo",
como dizia o andncio da unifi-
caqdo..
No Para, por6m, ao con-
trario de outros lugares, a ITT
nao lidou com golpes de esta-
do ou coisas semelhantes,
como fez no Chile de Salva-
dor Allende; apenas cor te-
legramas. Isso at6 a interliga-
qao do Brasil pela Embratel,
uma estatal engordada no re-
gime military, acabar com a pre-
senga dessas empresas priva-
das estrangeiras em lugares
isolados ou confinados, como
Belem. Pelas comunicaqoes,
realmente houve uma integra-
q~o national do pais.

Dend6
O general Albuquerque Lima,
ministry do Interior, foi a pri-
meira autoridade da cdpula do
governor federal a visitar, em
fevereiro de 1968, a plantaqo
de dend8 localizada na rodo-
via Bel6m-Mosqueiro, o pri-
meiro projeto planejado e exe-
cutado pela Sudam (Superin-
tendencia do Desenvolvimen-
to daAmaz6nia), criada no fi-
nal de 1966, como sucessora
da SPVEA (Superintendencia
do Piano de Valorizaqco Eco-
n6mica da Amaz6nia), pionei-
ra do planejamento regional,
criada em 1953.
O projeto foi concebido
pela chefe do Departamento
de Recursos Naturais da
Amaz6nia, a paraense Clara
Pandolfo. Certa do cresci-
mento da demand mundial
por 6leo vegetal, ele decidiu
fazer o plantio, As proximida-
des de Bel6m, da "oleagino-
sa de mais alta qualidade in-
dustrial e de maior capacida-
de rentivel", o dende. O pro-
jeto abrangeria inicialmegte
tres mil hectares, metade da
Area sob a responsabilidade







FOTOGRAFIA

0 largo


devastado

Agora que o Largo das
Merc&s (ou Praga Visconde
do Rio Branco) 9 submetido
a nova maquilagem, segun-
do o modo petista de gover- L
nar Belom, vale a pena ver
estas duas fotografias, que o e
apresentam a duas perspec- .
tivas de espago e tempo. A '
foto mais antiga registrar a i .
feiqdo da transiqdo entire a fi- I
sionomia de cidade europgia ;
- especificamente portugue-
sa que a capital dos para-
enses tinha, logo depois da _
Segunda Guerra Mundial e
sua face urbana estandardi-
zada. A segunda imagem, de .
1972, feita do outro lado, registra o trdfego pesado que a ,
principal rua do comdrcio tinha antes de ser fechada para j ,
pedestres. Os carros utilizavam tanto o eixo Santo AntOnio-
Jodo Alfredo quanto a Frutuoso Guimardes inteira.
Observe-se, nos dois moments, um dos clippers que
havia, espalhados pela cidade. Mas na segunda foto jd A
haviam desaparecido as palmeiras imperiais, que da-
vam um toque de bucolismo e sofisticaqdo ao cendrio
urban, combinando com a harmonia dos casarios, que
se completavam entire o passado colonial e a euforia da
fase da borracha.


direta da Sudam (com o apoio
t6cnico do institute frances
IRHO) e a outra metade en-
tregue a iniciativa privada.
A plantaqco floresceu, a
inddstria se instalou para pro-
duzir o 6leo de dende, mas a
praga atacou e dizimou o den-
dezal. Hoje a Denpasa 6 uma
placa no caminho de Mosquei-
ro e como d6i.

Pistoleiro
Jos6 Rosa da Silva, aos 27
anos, em 1968, foi o primei-
ro pistoleiro professional a ter
sua foto (sugestivamente
montado a cavalo, como no
faroeste americano) publica-
da na imprensa, ilustrando
destacada noticia sobre sua
busca em quatro Estados,
nos quais colocara seus ser-
viqos a disposiqao de quem
quisesse matar desafetos.
Na Bahia e em Minas Ge-
rais era conhecido como
Zebito Bacurau, no Mara-


nhdo como Zezito Onofre de
Souza e no Pard era Zezito
Baiano. Havia matado um
desafeto em frente a um ho-
tel de Sdo Miguel do Gua-
mi, com um certeiro tiro en-
tre os olhos da vitima. Pro-
va de que fora atraido para
a regido da Bel6m-Brasilia
pela fama de Pagaominas.
Paragobalas, alias.

Espetaculo
Simio Jatene, naquele 10 de
julho de 1969, era apenas o
nome de um rapaz magro e
barbudo, director musical, in-
t6rprete e cantor do espeti-
culo "Um Tropicalissimo
Show", que estreava no mi-
n6sculo audit6rio do Teatro
Martins Pena, da Escola de
Teatro da Universidade Fede-
ral do Pari. Os ensaios dura-
ram apenas um mes, monta-
dos com textos literdrios e
milsicas, de Pero Vaz de Ca-
minha a Caetano Veloso.


A diregqo era conjunta,
mas sob a supervisor de Wal-
ter Bandeira. A concepcqo do
guarda-roupa ficou por conta
de Jodo Merc6s, com a parti-
cipacao de dona Estelita na
execugqo. Riuko Shinkai atuou
na produqao (mas tamb6m no
elenco feminine). Iluminaqco
de Dillon, coreografia de Enid
Correa e seleqao de textos de
Jos6 Arthur Bog6a. Na parte
feminine, cantando e interpre-
tando, al6m de Riuko, Helia-


na Lima futurea senhora Ja-
tene), Marizete Lima, Con-
ceiqgo Saruby e Dirce Pai-
va. No elenco masculine, afo-
ra Jatene, Hamilton Bandei-
ra e o pr6prio Bog6a. No
acompanhamento, o conjun-
to Tropibossa, formado Ma-
caxeira, Nelson e Pedro.
Foi um sucesso. Mas nin-
gu6m poderia imaginar que
um dia uma das estrelas do
show seria governador do Es-
tado. Nem o pr6prio.


Jornal Pessoal iL QUINZENA NOVEMBRO DE 2004 11










Josue de Castro:



memorial faminta


"Josue de Castro: cidadao dos man-
gues e do mundo" foi o sugestivo titu-
lo dado A Semana Josu6 de Castro, re-
alizada em Recife, entire os dias 6 e
12. Atrav6s dela, o Centro de Estudos
e Pesquisas Josu6 de Castro promove
anualmente um debate sobre o desen-
volvimento human sustentivel no
Brasil e, em particular, no Nordeste.
Neste ano, o enfoque foi sobre "as di-
mensoes political relacionadas aos as-
pectos naturais e A intervenqCo huma-
na nos mangues do Recife". A progra-
maqco apresentada era excelente,
convidativa. Infelizmente, por6m, Jo-
su6 de Castro parece estar se restrin-
gindo a Pernambuco.
Esse localismo contrast com a pri-
oridade que Lula, ainda como candi-
dato A presidencia da Repdblica, dis-
se que daria ao combat A fome. Pra-
ticamente tudo que seu governor (mui-
to) anunciou e (pouco) fez, Josu6 de
Castro ji havia antecipado, depois de
uma reflexio sobre o problema que
permanece atual at6 hoje, s6lida na sua
fundamentacqo e- impressionante na
sua dendincia, na sua indignacqo.
No inicio da d6cada de 50, quando
ji era uma autoridade international re-
conhecida, mesmo ao ser combatida,
Josu6 de Castro props a criaqdo de
um Fundo Internacional de Emergen-
cia e de uma Campanha Mundial con-
tra a Fome, propostas que nosso pre-
sidente apresentou agora como sendo
uma id6ia original. O projeto do cien-
tista pernambucano nao era um lance
improvisado que tirou da cartola.
Corn seus estudos, ele criou um
novo ramo da geografia, a geografia
da fome, em seguida desdobrado na
geopolitica da fome, quando teve que
ampliar seu trabalho do piano regio-
nal, brasileiro, para a amplitude univer-
sal, por encomenda que uma grande
editor americana lhe fez, apenas tries
anos depois da publicaqdo de seu pri-
meiro grande livro, "Geografia da
Fome", em 1948 (os anteriores soo pre-
parat6rios para essa obra).
Sucessivas edioqes, de milhares de
exemplares, foram tiradas desses dois
livros de Josu6 de Castro na Europa e
nos Estados Unidos. O que impressi-
ona na leitura dos dois trabalhos, en-
tdo e em qualquer 6poca, 6 a robustez


dos dados que ele levantou em uma
extensa e atualizada bibliografia, em
quatro linguas (efetivamente lida e nao
apenas citada, como 6 comum nos tra-
balhos academicos atuais).
Essa densidade garante a forqa de-
monstrativa de suas teses, mas tam-
b6m dao embasamento ao libelo em
que essa pesquisa verdadeiramente
cientifica se tornou atrav6s do espiri-
to solidario (com a pobreza) e indig-
nado (com suas causes) desse ge6gra-
fo que foi, primeiro, m6dico (e, em
seguida, nutricionista, fil6sofo, profes-
sor e soci6logo).
Pela contundencia da repercussdo,
que colocou os neomalthusianos colo-
nialistas em polvorosa e os homes de
boa vontade (e lucidez) em festas, em
muitas parties do mundo, Josu6 de Cas-
tro foi escolhido para presidir (por qua-
tro anos) o conselho da FAO, a agen-
cia especializada da ONU para ali-
mentacqo e agriculture. Tinha uma car-
reira estupenda pela frente. Subver-
tendo no melhor dos sentidos a
velha geografia, dedicada a exaltar as
grandezas humans, por uma nova ci-
8ncia, empenhada em identificar e
enfrentar suas mis6rias, Josu6 de Cas-
tro deu conta da especificidade do
meio natural sem nunca esquecer o
meio human, combinando-os numa
dial6tica que iluminava o context po-
litico, sem prevenq6es nem predispo-
siq9es. Fundou um novo ramo da ci-
8ncia, frondoso e f6rtil. Ou, como ele
ressaltou, ao inaugurar a geopolitica da
fome, "um m6todo de interpretaco da
dinamica dos fen6menos politico's em
sua realidade espacial, com suas rai-
zes mergulhadas no solo ambiente".
Esse brasileiro amavel e cordial de
Pernambuco teve as ediqces ameri-
cana e europ6ia do seu primeiro livro
universal prefaciadas por dois pr6mi-
os Nobel (a americana Pearl S. Buck,
de literature, e o lorde ingles John
Boyd Orr, da paz) e por um profes-
sor da Sorbonne de Paris (um dos
maiores ge6grafos de entdo, Max
Sorre). Autora de romances que ven-


diam como agua, Buck comeqa sua
apresentaq~o declarando que aquele
era "o mais encorajador, o mais es-
peranqoso e o mais generoso livro que
eu ji li em toda a minha vida".
Sorre ressaltava que Josu6 de Cas-
tro, corn todo seu humanismo, ou jus-
tamente por isso, nao escreve em abs-
trato: "Ele culpa os erros dos homes,
o espirito de ganancia e impreviden-
cia, como responsiveis por todo o mal"
da fome. Mas quem podia censurar o
brasileiro "por falar tdo acaloradamen-
te sobre temas que sao essenciais para
a humanidade?"
Lorde Orr pedia, em complemen-
to, que os politicos de todas as nacges
esquecessem por um moment seus
conflitos politicos para ler o livro, que,
como previa a ficcionista americana,
"seri um facho de luz iluminando o
future caminho da humanidade".
Mas essas generosas expectativas
se desfariam na pr6pria patria de um
dos raros brasileiros que conquistou
seu lugar na hist6ria da humanidade.
Em 1964, aos 56 anos de idade, Josu6
de Castro foi cassado pelo novo regi-
me military, um dos golpeados pelo pri-
meiro dos atos institucionais, de abril,
como subversive. Foi igualmente de-
mitido do cargo de embaixador brasi-
leiro junto aos organismos da ONU
sediados em Genebra. S6 voltou ao
Brasil 10 anos depois, para ser enter-
rado. Continuou cheio de gl6rias, mas
nunca mais foi feliz. Morreu amargu-
rado e a amargura antecipou seu fim.
Homem do mundo, tinha seu umbigo
depositado nos mangues do Beberibe e
do Capibaribe, que agora o homenagei-
am. Um dos grandes cientistas brasilei-
ros de todos os tempos e um dos raros a
ser reverenciado internacionalmente,
nao se satisfez com a ciencia pura: foi
para as ruas, realizou obras concretas
(como a rede de restaurants populares
do SAPS, de saudosa mem6ria, apesar
dos desvirtuamentos) e se comprome-
teu com a sorte do seu povo, elegendo-
se duas vezes deputado federal (pelo
PTB de Gettlio Vargas), na segunda vez
como o mais votado de todo Nordeste.
Se essa dupla condiqCo de home
da academia e do mundo constitui sub-
versao, santa foi a subversao de Jo-
su6 Apol6nio de Castro. Numa epoca
em que se volta a falar em combat a
fome, esquec&-lo nao significa que ele
se tenha diminuido, mas que sao pe-
quenos, demasiadamente pequenos, os
que o esquecem


Jo a Psoa dio:UcoFlvo it
Foes 09) 4-726-Cot0 o TvBejai Costn 85236. 05-4 e-al. onl~mznc




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