Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00276


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Full Text




Tornal


Pessoal


OUTUBRO DE 2004
2- QUINZENA
N 332 ANO XVIII
R$ 3,00


A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
~\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\


ELEIqAO


JAN 0 5 2005
Latin American Collection


Confiar em Duciomar?

0 senator Duciomar Costa obteve uma vit6ria nitida sobre Anoa Jlia Carepa. Sua
legitimidade como prefeito eleito est6 fora de duvido. Mas quem acreditar6 na sua
promessa de fazer o melhor por Belem? Tolvez s6 se ele permitir aos cidadaos acompanhar
o que fizer na prefeitura desde o inicio. E para valer.


danqa for mais do que um sim-
ples recurso de marketing
para ganhar a eleiq~o, quais
mudanqas o prefeito eleito pre-
tende realizar em Bel6m?
Esta 6 a grande questdo que o sena-
dor Duciomar Costa, do PTB, tera que
responder no intervalo entire sua vit6ria,


com 58% dos votos vilidos na capital
paraense, e sua posse, em 10 de janeiro.
Com todos os vicios ou desvios que o
process eleitoral possa ter tido nos dois
turnos, a vantage de 11 pontos percen-
tuais (ou 119 mil votos) de Duciomar so-
bre a tamb6m senadora Ana J6lia Care-
pa, do PT, ddo-lhe legitimidade para as-
sumir o control do principal reduto poli-


VELHOS
SUBVERSIVE S
RECONTAM 1964
(PAGS. 6/3)






CONTINUAAO DACAPA
tico do Estado como o int6rprete da mai-
oria dos cidadaos.
O que falta ao future prefeito nao 6
exatamente legitimidade, mas credibilida-
de. O epis6dio de charlatanismo, que pesa
em sua biografia, coloca em alerta con-
tra ele alguns dos segments mais bem
informados, representatives e formado-
res de opiniao na cidade. Se foi capaz de
expor seus clients potenciais ao risco de
serem atendidos por um falso m6dico
(que para chegar a essa posiqao fez uso
de um diploma forjado), do que Ducio-
mar nao sera capaz quando assumir o
comando de uma administraqao pdblica
com 1,3 milhao de clients e oraamento
de mais de 600 milh5es de reais?
Quem compra um diploma falso e o
transform em instrument de trabalho,
para lidar com a sadde alheia, s6 dei-
xando de usi-lo quando o charlatanis-
mo 6 descoberto por terceiros, nao co-
mete um desvio de conduta, uma derra-
pada. A attitude evidencia um traqo de
carter preocupante, que exige acaute-
lamento. Mas pode nao ser uma man-
cha definitive, inapagavel.
Todos ganhariam se o senador Du-
ciomar Costa provasse que fez uma re-
visdo sincera do passado e esta dispos-
to a corrigir o erro, mesmo que jamais
venha a admiti-lo publicamente. Uma
iniciativa nesse sentido poderia ser a
criagqo de uma ouvidoria pdblica muni-
cipal (al6m do mais, seria um element
de contrast em relaqao ao autoritaris-
mo fechado do seu antecessor, cuja
transparencia nunca passou de figure de
linguagem). O prefeito eleito poderia
patrocinar um projeto-de-lei que consti-
tuiria uma esp6cie de conselho da cida-
dania de Bel6m, integrado por uns 20
cidadaos, indicados por organizaq6es
representatives da sociedade atrav6s de
eleiq6es internal, devidamente acompa-
nhadas pelo Minist6rio Ptiblico.
A prefeitura caberiam apenas a pre-
sidencia e a secretaria-geral desse cole-
giado. Seus components elegeriam o
ouvidor, que teria mandate de quatro anos
e s6 poderia ser destituido pelo pr6prio
conselho, por maioria absolute, depois de
process bem fundamentado, que enqua-
drasse o ouvidor em algumas poucas e
excepcionais hip6teses, a serem previs-
tas em lei para o seu afastamento antes
de concluir o mandate (sem possibilida-
de de reconduqco).
Depois da sua eleiqao, o ouvidor ain-
da teria seu nome submetido a referen-
do popular durante certo period. Qual-
quer cidaddo poderia apresentar moti-
vos capazes de impedir o indicado de
assumir o posto, que o conselho apreci-
aria e julgaria. Os crit6rios de seleqgo
seriam o de conduta ilibada, not6rio sa-


ber, prestagao de servigos nao remune-
rados (ou voluntarios) de relevAncia pd-
blica. Aldm disso, o ouvidor nao poderia
ser funcionario pdblico na ativa nem
estar filiado a qualquer partido politico
ou exercer mandate eletivo.
O ouvidor seria o fiscal da adminis-
traCao municipal e o porta-voz da socie-
dade. Ele teria acesso a todos os dados
da prefeitura, com poder de requisitar
qualquer information, inclusive junto ao
prefeito, e estrutura funcional e material
para divulgar as informaq6es internamen-
te e para a opiniao pdblica. Ao mesmo
tempo, teria a obrigaqao de tender quem
o procurasse para fazer dendncias, quei-
xas ou reivindicagces, encaminhando-as
ao governor e cobrando provid6ncias. A
prefeitura teria que reservar tempo e es-
paqo para a divulgag~ o dos atos da ouvi-
doria atrav6s da imprensa e de outros
meios de propaganda institutional.
Acredito que a ouvidoria neutraliza-
ria a descrenca que grande parte dos 42%
dos votos vilidos manifestaram, no dia
31, na capacidade de Duciomar Costa ser
um gestor competent, honest e confid-
vel. A presunqao seria invertida, ajustan-
do-se a regra do direito: a inoc6ncia at6
prova em contrdrio. O prefeito poderia
comecar a trabalhar com um cr6dito dos
que nao votaram nele.
A capacidade t6cnica da nova admi-
nistracao municipal, mesmo assim, vai
defender dos resultados da alianqa que
permitiu ao senador petebista dar um
basta na sucessio petista em Bel6m.
Como senha de reafirmaqao de seus com-
promissos politicos, o prefeito eleito dis-
se que ap6ia desde ji a reeleiq~o do go-
vernador Simdio Jatene, do PSDB, se ele
pleitear novo mandate. Isso quer dizer
que a principal alianqa politico-eleitoral,
ha 10 anos no centro do poder, sera man-
tida e, talvez, ampliada, isolando o seu
principal oponente, o PT.
Cumprindo o mandate que o povo lhe
concede, Duciomar ji sugere, indireta-
mente, que disputard sua pr6pria reelei-
qao, em 2008, quando tamb6m se encer-
rarA seu mandate de senador. N~o pre-
tende voltar a Brasilia e a political fede-
ral. Se o projeto seguinte 6 disputar o
governor do Estado, depois de oito anos
de Jatene, a prefeitura de Bel6m sera sua
base de lanaamento. Por isso, nao pode-
rd fazer da administraqao municipal um
aqougue para atos ddbios ou escusos,
para dilapidacao do erdrio, como espe-
ram aqueles que dele tnm n~o imotiva-
damente, ressalte-se a pior das impres-
s6es. Tera que corresponder as esperan-
qas e expectativas dos que o elegeram.
E surpreender positivamente os demais.
Ha um vasto espectro de attitudes no
eleitorado vitorioso. Os motorists, por
exemplo, que abandonaram a nau petista


e se tornaram inimigos declarados da
estrela vermelha, querem o fim das mul-
tas, pouco ou nenhum control no trdfe-
go, reajustes de tarifas. E exatamente o
oposto do tratamento que um bor diag-
n6stico do transito e do transport pdbli-
co recomenda: mais regulamentaq~o pd-
blica e maior presenqa do governor.
A vit6ria de Duciomar 6 produto de
varios components. Um deles 6 a re-
jeigqo ao modo de ser e fazer da prefei-
tura petista, personalizada em Edmilson
Rodrigues, que incorporou estigmas en-
raizados, sobretudo na classes m6dia. O
discurso esquerdista ou radical do alcaide
nao foi compensado por obras de im-
pacto, realmente modificadoras do pa-
norama da cidade. Esse descompasso
realimentou o discurso conservador, de
que a esquerda tem muita ret6rica e
pouca ag o, sendo incapaz de sair de
sua cercadura ideol6gica para fazer
obras de serventia para a maioria ou
para qualquer outro de fora da confra-
ria partidaria.
O antipetismo tamb6m cont6m uma
rejeigao as regras da conviv6ncia coleti-
va e uma apologia do mando verticaliza-
do, da concentragio de poder nas mros
do prefeito que recebeu delegagqo da
maioria. O problema 6 que muitos dos
compromissos e projetos apresentados na
campanha eleitoral nao guardam a me-
nor coer6ncia cor os fatos, cor a situa-
qgo real da administration pdblica ou as
condiqbes da cidade. Se as coisas conti-
nuarao em essencia as mesmas, apenas
com a mudanqa de pessoas, de discurso
e da clientele que sera a mais favorecida
pela nova administracqo, o future trard
muitas e indesejadas al6m de mis -
surpresas para o prefeito eleito.
A situaqao de Bel6m 6 suficientemen-
te dramrtica para ser um f6rtil campo
para aq6es meramente assistencialistas,
clientelistas e fisiol6gicas, como ter sido
a caracteristica da atuaqio do politico
Duciomar Costa. Ele poderd alcanqar
dividends dessa diretriz, que ji tem um
precedent, o do deputado federal (por
enquanto no PMDB) Wladimir Costa.
Ao liberar as comportas do assistencia-
lismo, por6m, o novo prefeito pode de-
sencadear efeitos que acabardo por fu-
gir ao seu control, sem deles poder dar
conta, em funq~o das limitaq6es orqa-
mentdrias do municipio.
Para que seus pianos possam ter mai-
or viabilidade, Duciomar Costa tera que
ir al6m de ura political de varejo populis-
ta. Terd que atacar problems mais s6ri-
os da cidade, de efeito mais profundo e
duradouro. Nesse caso, precisard contar
corn recursos extra-orqamentdrios, vin-
dos da Uniao ou do Estado. E tera que,
humildemente, recorrer a outras pesso-
as, aceitando partilhar poder.


OUTUBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal






A alterativa mais pr6xima esti na sua
alianca. A campanha deixou claro que os
tucanos pretended se agregar a prefei-
tura da capital. Simro Jatene terd um
comissdrio no Palicio Ant6nio Lemos. O
mais evidence na campanha foi o secre-
tirio de cultural, Paulo Chaves Fernan-
des, que praticamente acumula a sua
pasta cor a de obras, quando essas obras
se realizam em Bel6m.
Essa parceria sera mesmo uma co-
laboraaio afinada ou uma intrusio? E a
pergunta que cabe quando comeqa mais
um period de teste da relaqdo entire cri-
atura e criador. O poder pode tentar o
senador Duciomar Costa a pensar que,
final, ele se elegeu prefeito graqas a
sua simpatia, carisma e afinidade com o
povo pobre. O que ele deve ao governor,
a capacidade de se dirigir a classes m6-
dia e de fazer uma campanha miliondria
(superando a excepcional estrutura do
PT), importa, 6 claro, mas nio foi o fa-
tor decisive. Se ele aceitar essa sedu-
qio, o future nio sera um mar de rosas
entire ele e Jatene.
Mas a acomodagqo de interesses ain-
da 6 possivel. O pr6prio Duciomar fez
essa indicacqo com sua pronta declara-
Fio de apoio a reeleiqgo do governador.
Mas at6 quando e at6 que ponto aceitard
ser um coadjuvante no control do poder
politico, que agora experimentard com
mais intensidade? E o que seus pr6ximos
atos ajudario a responder.



ATEN AO
A casa rosa, na esquina da Fl6ix Ro-
que cor a Siqueira Mendes, na Cidade
Velha, jd esti sem o telhado, desmonta-
do em surdina. E uma ameaqa grave para
um dos 6ltimos pr6dios coloniais rema-
nescentes de Beldm e um dos mais
valiosos, agora exposto as chuvas e su-
jeito a desmoronamento.
Mesmo sem prova definitive, costu-
ma-se dizer que a casa, de dois andares,
6 obra do arquiteto italiano Ant6nio Lan-
di, o grande criador do barroco tardio entire
n6s. A edificaqio 6 de propriedade parti-
cular e seu dono nio define seu uso, pre-
ferindo deixi-la deteriorar-se, entire um
e outro cuidado superficial.
A situaqio exige uma intervenqido ur-
gente e definitive do poder plblico para
acabar com essa novela de mau gosto.
Recomenda-se a desapropriaqFo do im6-
vel e sua transformaq~o no Centro Lan-
di, uma institui~~o official a ser dedicada
ao estudo e divulgacio da arquitetura his-
t6rica da cidade, que ter um acervo rico,
apesar de toda destruiqio ocorrida nas
d6cadas recentes.
Com a palavra, o secretirio de cultu-
ra do Estado, Paulo Chaves Fernandes.

Jornal Pessoal 2' QUINZENA OUTUBRO DE 2004


0 PT encolheu


O PT amanheceu no dia 1 sem uma
lideranca competitive para a pr6xima elei-
qio majoritria, a de 2006, para o govemo
do Estado. Al6m disso, perdeu a segunda
maior miquina pdblica do Pari, s6 inferior
a do governor estadual, em poder dos tuca-
nos. Os principals nomes do partido, inclu-
sive os que nao competiram diretamente,
sairam derrotados das disputes deste ano.
Para alguns, pode ser o inicio de uma des-
cida para a porta de said da political. Para
outros, sera precise recomeqar de novo.
Para a candidate a prefeitura de Be-
16m, Ana Jilia Carepa, hd um premio de
consolaqio de ouro: seis anos de mandate
como senadora, um dos melhores empre-
gos da Repdblica. Mas ela pode ter exauri-
do seu capital majoritrio. A PMB, que se-
ria sua base de lanqamento, acabou se tor-
nando o local de sepultamento do que de-
veria ser o pr6ximo item da sua carreira
political: o governor do Estado. Reivindicar
esse direito significaria expor o PT e ela
pr6pria as does de uma ferida exposta.
Mas quem o PT poderd colocar no lugar
que cabia a Ana Jdlia? Em tese, o atual pre-
feito, Edmilson Rodrigues, o inico com sig-
nificativa experiencia administrative, embo-
ra com menos forqa partidaria do que o de-
putado federal Paulo Rocha (a despeito dis-
so, ainda long de ser um nome de dimen-
sio estadual). No fundo, o atual prefeito deve
ter recebido a derrota da sua ex-vice-pre-
feita e desafeta como uma vinganqa. Esse
prato Edmilson comeu frio porque o acaso
se lhe ofereceu espontaneamente o manjar.
Ou entao porque o alcaide contribuiu para
isso nos bastidores, num ajuste de contas que
niao pode assumir, masque lhe pode ser atri-
bufdo, cor elogios ou opr6brios, conforme a
6tica de quem examine a question.
Esta duivida, muito petista, Ana Julia le-
you para casa no dia 1, inclusive, talvez. Se
pudesse ter decidido quem seria o candidate
a sua sucessio, Edmilson nio a indicaria.
Sem o mando, teve que se curvar a decision
do partido. Mas realmente a cumpriu? Sua
ausencia inicial e a omissdo do seu nome na
campanha sugeriam que as duas parties acei-


tavam tacitamente o antagonismo de basti-
dores. A derrota da rival Ana Julia acabaria
por favorecer o desejo nunca suficiente-
mente sufocado de Edmilson de se apre-
sentar como candidate ao governor.
Mas aos poucos essa possibilidade
comeqou a tamb6m ameacar o future de
uma candidatura petista capaz de se an-
tepor A do governador Simrno Jatene. Ed-
milson acabou incorporado a campanha,
mas naio de forma decidida e clara. Sua
presenqa tirava votos de Ana Jdlia, mas
suas polemicas obras (e a miiquina muni-
cipal, evidentemente) a ajudavam. Como
compor essa image? De erro em erro,
seguido de tentative de ajustes e corre-
qao, a campanha ziguezagueou, sem coe-
r6ncia, sem forqa. Terminou transforman-
do em protagonista que, tiltima hora, ine-
vitavelmente seria desgastado. o presiden-
te Lula. Por que tanta enfase na candida-
ta se, em dois anos, o president da Repi-
blica pouco ajudou Bel6m? Alim de dimi-
nuir sua estatura, reduzindo-se a home
de partido, o president ficou, em Bel6m,
com a image de demagogo. Nada aju-
dou a candidate. Pelo contririo at6 (os
imediatos afagos p6s-eleitorais a Ducio-
mar reforqaram essa impressio).
Edmilson podia t&-la servido melhor-
e ela se beneficiado mais das obras con-
troversas das PMB petista se tivesse aban-
donado seu traditional diapasio palanquei-
ro e se credenciado cor aquilo que preci-
saria ser, sem nunca ter sido: administra-
dora. S6 no final esse potential foi explo-
rado, mas sofrivelmente e ji cor pouco
tempo para poder proporcionar rendimen-
tos. Ironicamente, algumas obras de im-
pacto serdo inauguradas entire o biMnio fi-
nal da administration Edmilson e a posse
de Duciomar. Isto se deve a in6pcia da
gestio petista em Bel6m, a falta de recur-
sos (em volume ou em prazo) ou a um
lance maquiav6lico do alcaide, que deixa,
no estertor, um lastro para utilizar quando
voltar a cena eleitoral (se voltar)?
Estaresposta viri corn os convites de inau-
guraqio, se eles chegarem a ser expedidos.


ADVERTENCIA
O Pard foi o Estado que mais solicitou tropas federais nesta eleiq~o em todo pais,
cor metade de todo efetivo national recrutado para dar seguranqa as votaq5es.
Passadas as eleiqbes, candidates ja foram mortos em matanqas de encomenda, que
espantam pela brutalidade. Political e neg6cios se deram as mdos. Neg6cios de fa-
chada e ilicitude tamb6m casaram no altar de cargos politicos, que se transformaram
em gazua para maus politicos e p6ssimos empresirios.
Ou tomam-se as providencias adequadas ou, de eleiqCo em eleiq~o, a inica coisa
que vai fazer o Parb ser lembrado no centro dominant do Brasil 6 sua violencia.







AMBIGUIDADE
No ano passado a cena seria impen-
savel, mas na semana passada ela se
materializou: o govemador tucano Simao
Jatene nao apenas compareceu ao ani-
versario do deputado federal (PMDB)
Jader Barbalho, como o abraqou frater-
nalmente para a fotografia que registrou
a nova cena da political paraense. Jader
e Jatene voltaram a ser amigos de infan-
cia, como fora entire 1982 e 1988, quan-
do o nome do ex-govemador passou a
ser associado imediatamente a corrup-
qao e Jatene por acaso ou nao pas-
sou a se distanciar do antigo chefe.
Depois dos parab6ns na casa de cam-
po do lider do PMDB (adquirida do ex-
prefeito e atual vereador Sahid Xerfan),
Jatene dividiu o palanque da vit6ria de
Duciomar com o ex-governador tucano
Almir Gabriel. Almir, naturalmente, nao
foi convidado para a festa, prestigiada por
quase mil convidados, realizada para co-
memorar os 60 anos do politico que deu
o primeiro cargo politico, de prefeito (bi-
6nico) de Bel6m, 20 anos atras, e que
agora 6 seu desafeto.
Como vai ser vestida essa saia just
no future, ningu6m sabe ainda. Mas indo
a um e a outro ambiente, Jatene deu o
recado: seu projeto esta acima de qual-
quer outra circunstincia. Inclusive as idi-
ossincrasias de dois bicudos mais anti-
gos no picadeiro, que foram, ambos, no
passado, seus padrinhos politicos.

IDENTIDADE
Quantos votos dos 20 mil que a tor-
naram a vereadora camped da ultima
eleiqo a ex-primeira dama Elcione
Barbalho deve a si pr6pria e quantos pre-
cisam ser creditados ao seu sobrenome,
que ela ainda carrega, mais de uma d6-
cada depois de se ter separado do de-
putado federal (o mais votado de 2002)
Jader Barbalho?
Para saber, a ex-deputada vai ter que
se apresentar, na pr6xima eleiq o, ape-
nas como Elcione, desligando-se do Bar-
balho. Ousard?
A
ADVERTENCIA
O Pard foi o Estado que mais solici-
tou tropas federais nesta eleicao em todo
pais, com metade de todo efetivo nacio-
nal recrutado para dar seguranqa as vo-
taq6es. Passadas as eleiq6es, candida-
tos ja foram mortos em matanqas de en-
comenda, que espantam pela brutalida-
de. Political e neg6cios se deram as mdos.
Neg6cios de fachada e ilicitude tamb6m
casaram no altar de cargos politicos, que
se transformaram em gazua para maus
politicos e p6ssimos empresarios.


Parto urban


A replica dos bondinhos que circula-
ram em Belem entire o final do s6culo
XIX e a metade do s6culo passado, tra-
zida de Santos, foi deixada, durante tres
semanas, no meio da feira do Aqai, no
Ver-o-Peso, enquanto aguardava pelo dia
do seu funcionamento. Como aquele 6
um ambiente hostile, dois guards eram
mantidos de vigflia no local para evitar
depredaq6es e vandalism. Mas a ten-
sdo era tanta que novo destino foi dado
ao bondinho. Ele foi recolhido A garagem.
Um dia saird para sua volta triunfal, se
esse dia chegar.
Eis ai um retrato da atuaqao da pre-
feitura de Bel6m no projeto Via dos Mer-
cadores. Mesmo sem estar finalizado,
poder-se-ia dizer que o projeto represen-
ta a melhor intervencao do poder public
no ponto de partida de Bel6m desde que
o centro velho entrou em decad6ncia. Ha
um equilfbrio entire o revestimento origi-
nal das ruas, de paralelepipedo, e a nova
calqada. As luminarias introduzidas des-
tacam as fachadas das lojas (embora fos-
se recomendAvel reaproveitar os lampi-
6es anteriores, muito bonitos).
Agora os camels vio ter que traba-
lhar em pontos fixos na calcada, em m6-
dulos padronizados, de ferro, de proprie-
dade do poder pdblico. O espaqo seria
correto se nao fosse, acima de tudo, limi-
tado: os vendedores nao vao poder mon-
tar lojas ao ar livre, com o estoque de
que hoje dispbem. O espaqo, exiguo, nao
permitird que quatro ambulantes traba-
lhem no mesmo quiosque, como era o
piano inicial. Mesmo dois vendedores por
lote jA sera problemAtico. O que poderia
ser uma boa id6ia tornou-se irreal por-
que nao houve consult aos beneficidri-
os nem debate cor os interessados. Os
camels prometem resistir. At6 hoje nao
ocuparam os quiosques.
Pela primeira vez, por6m, os comer-
ciantes foram convencidos a retirar da
fachada de seus estabelecimentos aque-
las horrorosas places metalicas ou de
acrilico. Por milagre, a maioria dos pr6-
dios poderA voltar ao seu perfil original.


Ou tomam-se as providencias adequa-
das ou, de eleiqio em eleiqao, a inica coisa
que vai fazer o Para ser lembrado no cen-
tro dominant do Brasil 6 sua violencia.

IDENTIDADE
Quantos votos dos 20 mil que a tor-
naram a vereadora camped da iltima
eleiqio a ex-primeira dama Elcione


Apenas as edificaqces levantadas no
imediato p6s-guerra, que substitufram os
pr6dios construidos nos anos anteriores,
nio tmr maisjeito. E como sao feias. Sur-
giram numa 6poca de adesao irrestrita e
incondicional ao modernoso, a um estilo
dito funcional. Infelizmente, por6m, algu-
mas fachadas estao sendo pintadas em
desacordo com o padrio europeu que se
imp6s em Belem, que agora estio se des-
locando culturalmente para o Caribe, de
cores mais fortes e contrastantes. Nos-
so padrao 6 o Teatro da Paz, nao o Tea-
tro Amazonas, de Manaus.
O bondinho 6 completamente ocioso
nesse projeto, al6m de ter sido um gasto
consideravel, que teria mais retorno se
fosse aplicado em outra serventia. Se for
pago, teri pouco pdblico. Se for gratis,
precisard de control para nao sofrer
pronto desgaste. Nio lhe poderi faltar
policiamento, de qualquer modo, princi-
palmente se atrair turista. Vai sofrer al-
gum grau de reaqio dos usuirios da irea,
mas a prefeitura precisard impor normas
mais rigorosas para o uso desse espaco,
valorizado pelos investimentos de todos
os cidadaos, sobretudo os nativos. E bom
nio esquecer que parte considerivel tan-
to dos vendedores aut6nomos quanto dos
atuais lojistas 6 formada por imigrantes,
varios dos quais dispostos a se estabele-
cer na terra, mas diversos deles por aqui
apenas de passage.
A Via dos Mercadores s6 nio esti
tendo seu valor (independentemente de
seu custo elevado) reconhecido porque
esti demorando muito mais do que seria
razoavel esperar, revela a descoordena-
q~o da administragqo municipal e exibe
um traqo marcante nos oito anos do go-
vero Edmilson Rodrigues: incapacidade
de realizar obras conforme um planeja-
mento mais consistent, que poupe re-
cursos, abrevie prazos e opte pelo me-
Ihor que for acessivel.
A Via dos Mercadores nao 6 obra de
1,99, muito pelo contrario. Mas deu essa
impressAo durante grande parte do seu
laborioso parto.


Barbalho deve a si pr6pria e quantos pre-
cisam ser creditados ao seu sobrenome,
que ela ainda carrega, mais de uma d6-
cada depois de se ter separado do depu-
tado federal (o mais votado de 2002) Ja-
der Barbalho?
Para saber, a ex-deputada vai ter que
se apresentar, na pr6xima eleiqgo, ape-
nas como Elcione, desligando-se do Bar-
balho. Ousard?


4 OUTUBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal








Hanseniase: a marca



da missena amazonica


Um em cada cinco habitantes do
Pard esti ameacado de contaminacgo
pela hanseniase, a denominaqgo t6cni-
ca dada A antiga lepra para reduzir o
impact psicol6gico negative do seu
nome. Sio 1,5 milhio de pessoas (24%
da populaqao paraense), que moram em
45 dos 143 municipios do Estado, nos
quais o indice de preval6ncia da doenqa
6 de mais de 20 casos por mil habitan-
tes, indice cinco vezes superior ao nor-
mal, segundo o padrao da Organizagqo
Mundial da Sadde. A es-
magadora maioria dos
municipios se situa nas
areas de expansao da
fronteira econ6mica no
Pard. Assim, se as ativi-
dades pioneiras que ne-
les sao realizadas beneficiam algu6m,
nio 6 o pr6prio morador da regiao.
O ndmero 6 assustador. Ele deve-se
tanto a circunstancia de que a frente eco-
n6mica provoca desorganizaqio e pobre-
za ao se expandir como a busca mais ati-
va feita pelos 6rgaos plblicos. Os casos
estbo sendo cada vez menos ocultados.


Buscar a realidade, por6m, tem signifi-
cado deparar-se com a porta de funds
do "desenvolvimento amaz6nico" e a lata
de lixo desse process.
A hansenfase prolifera onde hi pobre-
za, sujeira, subnutriqdo. Ou seja: onde as
condiqoes de vida, ao inv6s de melhora-
rem, s6 fazem piorar. No entanto, boa
parte dos municipios com indices africa-
nos (ji agora amaz6nicos) de hansenia-
se se localizam nas fraldas da maior pro-
vincia mineral do planet, em Carajas.
Essa estatistica negra conta-
mina e anula as estatisticas
^ cor de rosa que sao apresen-
tadas pela propaganda da co-
lonizago da Amaz6nia.
Chega de mandar as p6-
rolas da coroa para quem -
li fora ou aqui dentro compra, barato,
pagando pouco e desviando para si boa
parte da receita de um patrim6nio que
devia servir aos. que aqui vivem. Gera-
q6es de brasileiros estdo comprometen-
do seu future em conseqti6ncia dessa dis-
torCgo. Pior do que isso: estao perdendo
o tempo present.


Cimento retardado

O nome da empresa 6 Itaituba Agro
Industrial, mas seu objetivo principal 6 a
"mineraqio em geral, seja para a produqco
de cimento, clinquer ou para a venda 'in
natural podendo ainda dedicar-se a outras
atividades de natureza industrial, commercial
e correlatas", conforme estabelece o seu
estatuto. Nada a ver, portanto, com a agro-
inddstria. Seu objetivo 6 operar a fbbrica
de cimento instalada em Miritituba, do ou-
tro lado de Itaituba, na margem do rio Ta-
paj6s. O projeto comeqou sua caminhada
em 1977. Devia ter entrado em operaiao
em 1985, junto com a fibrica do mesmo
grupo econ6mico, o Joao Santos, tamb6m
financiada com recursos dos incentives fis-
cais da Sudam, em Manaus. No mes pas-
sado, a Itaituba Agro Industrial finalmente
divulgou seu balanqo, referente a 2003, ain-
da sem poder apresentar resultado porque
continue em fase de implantaqio.
Antes, o motive para a demora, de
quase 20 anos, era a falta de energia.
Agora, a energia da hidrel6trica de Tu-
curui, ji esti na porta da fibbrica, custea-
da pelo dinheiro pdblico. O que falta para
deixar de sair apenas calcirio (para Ma-
naus), produto de baixo valor agregado,
e comeqar a ser produzido cimento? Se
a demora persistir por muito tempo, 6
capaz de a jazida se exaurir e as instala-
oqes industrials se tornarem um museu
do (anti)desesenvolvimento.


Nossos Faustos


Em 1991 Femando Sabino es-
creveu Zeia, una paixdo, biografia
autorizada da todo-poderosa minis-
trado planejamento do govemo Co-
llor, uma das autoras do confisco da
poupanqa do brasileiro, executado
um ano antes. Depois disso, Sabino
nunca mais escreveu nada de desta-
civel. Nem entrevista ele voltou a
dar. Mesmo assim, foi celebrado
como unanimidade national ao mor-
rer, no mes passado, na v6spera de
completar 81 anos.
No 6 toa que o mito do Fausto
6 uma das mais constantes refer6n-
cias no imaginirio human. Os ami-
gos atribuem o pecado da biografia
laudat6ria de Z6lia Cardoso de Me-
llo as dificuldades materials que Sa-
bino enfrentava na 6poca. Mas se
era por isso, ele nio devia ter assina-
do a "obra", que nem como referin-
cia bibliogrnfica serve. Se o ervand-
rio que recebeu estava condiciona-
do a sua assinatura, fez um neg6cio
de Fausto com Mefist6feles. Dinhei-


ro, para alguns, 6 passaporte para a
etemajuventude.
Sabino ndo negociou cor o di-
abo impunemente. Entrou em de-
pressdo depois do livro pronto eja-
mais se recuperou do arrependi-
mento. 0 epis6dio, por6m, 6 lateral
na obra do escritor, retrucaram ain-
da os amigos nos obituirios flori-
dos. Al6m de revelar um traqo mar-
cante do seu carter, a associaqgo
com a yuppie e deslunirt dda eco-
nomista paulistana tamb6m mostra
que a escrita correta e agradivel
de Sabino constitui prosa menor.
Como quase todos os integran-
tes do seu circulo, ele era um escri-
tor de folego curto. Teve dois mo-
mentos acima da m6dia (Encontro
Marcado e 0 Grande Mentecap-
to), o que ja seria bastante e 6, de
fato, bastante numa literature de
c6lebres mediocridades. Justamen-
te por isso, 6 pura hagiografia o que
lhe fizeram os necrol6gios, protes-
tando contra a suposta injustiga de


considerar Sabino um escritor me-
nor, o que realmente ele era.
O detalhe menor do escritor
que aceita descer para um nivel
mais baixo da criaqgo, como fez
Sabino, pode ou nio ser definitive.
No caso dele, a biografia de Z6lia
Cardoso de Mello foi o lance mais
dramitico, por6m o declinio do es-
critor ji era evidence. Nao houve a
"volta por cima", que, em situa-
9ao analoga, Carlos Heitor Cony
daria. Durante anos ele se limitou
a ser o ghost-writer de Adolpho
Bloch e escrivinhador de textos de
encomenda. Pagou um preqo de
Fausto por esse mercantilismo
narcisista: nada de bom saiu de
sua pena enquanto tilintavam no
cofre as 30 moedas que o director
de Manchete Ihe pagava.
Felizmente para Cony a revista
entrou em crise e fechou. Corn
Quase-Menmria, o escritor reocu-
pou o lugar especial que Ihe cabe
nas letras brasileiras. A reconcilia-


9go cor a melhor 1iteratura pare-
cia assegurada at6 que Cony se ins-
creveu na lista dos prejudicados
pelo golpe militarde 1964 e furou a
fila para receber na frente dos de-
mais sua aposentadoria especial de
16 mil reais por m6s.
Naqueles dias incertos que se
seguiram ao seu afastamento do
Correio da Manhd, por pressao do
governor military, antes das provi-
dencial ligagqo com Bloch (sem a
perseguiqgo, teria tido todo trata-
mento especial que o dono das
Manchete Ihe dispensou?), essa
compensagio teria vindo na hora
certa. Mas agora, quando Cony j
6 septuagendrio (e por isso reque-
reu a precedencia), vive com fol-
ga e conforto, e devia estar cui-
dando de sua biografia, a sofre-
guidao com que se lanqou sobre o
erdrio serve de triste alerta. O que
parecia ser desvio de carter 6, na
verdade, o pr6prio. A despeito do
que escreve o dono desse carter.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA OUTUBRO DE 2004 5









Testemunhos de 6poca


Na dedicat6ria a 1964 Relatos sub-
versivos (Os estudantes e o golpe no
Pard), Pedro Galvao de Lima me fez
uma boa provocacqo. Pediu-me para
imaginar se eu, "que, de alguma forma",
ele diz que estou "dentro destes 1964"
por ele e seus amigos relatados, "tivesse
nascido um pouco antes". Nasci de cin-
co a nove anos antes dos oito autores do
livro, escrito tamb6m por Roberto Cor-
tez, Ronaldo Barata, Isidoro Alves, Jos6
Sernfico, Andr6 Costa Nunes, Joio de
Jesus Paes Loureiro e Ruy Antonio Ba-
rato (excelente edicao, de 320 piginas,
bancada pelos pr6prios autores).
Quando os militares depuseram o fa-
zendeiro e politico gaicho Joao Belchior
Marques Goulart, um home bonachio,
mas que a calvicie e a obesidade faziam
parecer mais velho do que os seus 45 anos
de idade, eu ainda tinha 14 anos. Minha
atuaqio political era entlo limitada ao
Gremio Civico Domingos Sivio, do Co-
16gio Salesiano Nossa Senhora do Car-
mo, e ao Clube de Jovens da Par6quia
da Santissima Trindade. Mas ji circula-
va com meu pai, ent~o numa fase em-
presarial e t6cnica, entire o fim do man-
dato de deputado estadual (pelo mesmo
PTB de Getuilio Vargas e Jango) e a con-
quista da prefeitura de Santar6m, ji pelo
MDB. E lia muito sobre political.
Foi a partir de uma razoavel distfncia
fisica que acompanhei o golpe military de
1964, mas cor muita informacqo sobre
os acontecimentos e um interesse vivis-
simo por eles. Nio conhecia pessoalmen-
te nenhum dos lideres estudantis que ago-
ra, quatro d6cadas depois, vieram a es-
crever seus depoimentos sobre aqueles
tempos eldtricos. Mas logo depois fui ten-
do contato com eles at6 t&-los a todos,
progressivamente, como amigos, exceto
Jos6 Serdfico de Carvalho, que s6 vim a
conhecer recentemente.
Acho que a minha primeira aproxima-
Fio foi corn Joio de Jesus Paes Loureiro,
o mitol6gico autor de Tarefa, o livro-poe-
ma programado pela UAP (Unido Acad&
mica Paraense) para ser lanqado no dia 3
de abril de 1964, na "agencia de Nazard"
da Livraria Martins (que tinha sua sede na
travessa Campos Sales e mais uma "agen-
cia" na avenida Presidente Vargas). Com
o golpe, o livro se tornou uma prova crimi-
nal, o crime de fazer cultural engajada ou
participate, como se dizia. AediCio foi des-
truida (como viria a ser aniquilado outro li-
vro de poetas locals, tres anos depois, uma
antologia Cantagdo da qual participa-
ria com minhas sofriveis criaq6es).


A geraqao atual nio sabe o que signi-
fica um livro proibido. Caqivamos esses
livros cor a sofreguiddo e a paixdo de
arque6logos clandestinos. Sonhivamos
cor essas ediq6es e, quando a encontri-
vamos, nos dividiamos entire os sentimen-
tos de medo e voldpia, de pavor e adora-
qio. Lembro-me, certa vez, quando mo-
rava no Rio de Janeiro. Vinha em um 6ni-
bus pela avenida Barata Ribeiro na dire-
qao da rua Constante Ramos, em Copa-
cabana, onde morava. Da janela do 6ni-
bus consegui divisar o rosto de uma edi-
qio das obras escolhidas de Karl Marx e
Friederich Engels, publicada pela Editori-
al Vit6ria, com maravilhosa capa (e ino-
vadora diagramaqao) de Mauro Vinhas de
Queiroz. Dei o sinal, desci e voltei ao local
da livraria, logo depois da Siqueira Men-
des, com o coracgo aos solavancos.
Era mesmo o livro. Os outros dois
volumes estavam guardados. Um funci-


ondrio, inadvertida-
mente, tinha colo-
cado aquele exem-
plar A mostra. O
dono s6 me vendeu
quando eu Ihe pro-
meti jamais menci-
onar a origem dos
livros se algum con-
tratempo aconte-
cesse. Prometi, pa-
guei e chispei para
casa. Atravessei a


madrugada aceso, mas atento a qualquer
movimentaqao estranha. Ora lia. Ora
pensava no risco que estava correndo. E
se algu6m me denunciasse? O coraqco
acelerava, mas nao cedi. Tenho at6 hoje
os tr6s volumes, de selegqo e tradugao
claudicantes, mas de um trabalho grifi-
co primoroso. Algum dia eles ainda cor-
rerao algum risco? Espero que nao.
O Jesus que se me apresentou e do
qual publicaria, cor ateng~o e carinho,
virios poemas em A Provincia do Pard,
a partir de 1966, era um home proibido,
perseguido, um her6i. Her6is eram todos
aquelesjovens, s6 um pouco mais velhos
do que eu, dos quais eu ouvia falar e que
aos poucos ia conhecer.
De Ruy Ant6nio Barata, cinco anos
mais velho do que eu, filho do legendirio
poeta Ruy Guilherme Paranatinga Bara-
ta, eu seria companheiro e comandado
na ocupacqo das faculdades, em 1968.
No iltimo ano de medicine, ele era o li-
der da FUAP, a Frente Unida de Aqdo
Permanente, sucessora illegal da UAP,
mas a voz de direcao do movimento de


protest contra a reform do ensino uni-
versitario, baseada no acordo MEC-
Usaid (mas nio abusaid, como comple-
mentivamos).
Vi Ruy ser preso, ao meu lado, na
Campos Sales, quase em frente A Facul-
dade de Engenharia, e empurrado para
dentro do carro da policia. Era o nosso
debut em passeata, a primeira organiza-
da depois de 1964, que a Policia Militar
do governador Alacid Nunes reprimiu
(Palmdrio e eu batemos a marca dos 100
metros com barreira numa corrida veloz
atW os altos de A Provincia, deixando os
meganhas para tris, contidos A porta do
journal pelo senador Milton Blanco de
Abrunhosa Trindade, meu querido chefe
e padrinho ad-hoc).
Esses rapazes criativos e suas utopi-
as political, press como perigosos sub-
versivos pelos homes armados que ras-
garam a Constituiq o, eram o melhor pro-


duto dessa mesma
Constituiqao. Nun-
ca, antes, tinhamos
tido democracia
por tanto tempo.
Haviam sido 18
anos, desde a pro-
mulgagqo da nova
carta constitucio-
nal, em 1946. O
texto selava o com-
promisso da elite
do pais de acabar


com as solugces de forga para os pro-
blemas e desafios brasileiros. Mas, infe-
lizmente, o marechal Eurico Gaspar Du-
tra, um dos fiadores armados do Estado
Novo (regime ditatorial comandado por
Getdlio Vargas entire 1937 e 1945), nao
estava a altura do seu tempo.
Em tom de pilhdria, dizia-se que quem
mandava no Brasil era a dona Santinha,
a autoritaria mulher do president. Ho-
mem pessoalmente honrado e honest,
Dutra tornou-se vitima de sua pequenez,
provincianismo e preconceitos. Acabou
acobertando os rancores e miasmas do
golpismo travestido de bacharelismo pela
UDN, um ninho de cobras mal criadas,
embora brilhantes, intelectuais que saf-
am de suas bibliotecas para contradita-
rem suas obras (ou seu discurso, de ora-
t6ria competente.
Gettlio voltou mudado do auto-exflio
nos pampas, mas seus adversarios conti-
nuaram os mesmos, as insidiosas vivan-
deiras de quartel. O que aconteceu 6 que
enquanto os lideres populistas cediam
espaqo para o florescimento da inteligen-


6 OUTUBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal


TARE ---
JOAO DE JESUi PAGES LDUREIRO
I puAlic-s*o al Umi Aisdjrmgca Pargllmw.
a1av. do u do .anr Ab Popla .,
LAN AMENTO ni Uvraria Martins
); (,Agnnca. do w t
DMA-3 do abri do 1964
HORA -1 &sUp h
4 J









o valor da democracia


cia, mesmo A sombra de demagogia e
superficialismo, os oposicionistas udenis-
tas promoviam a trama ressentida dos que
o voto popular havia afastado do tao so-
nhado poder. Quando Jango foi deposto,
a senha para a vinganqa foi liberada.
Os relates dos oito lideres estudantis
de 1964 sdo, evidentemente, subversivos.
Mas de uma inocente e f6rtil subversio.
Nenhum deles estava armado ao ser pre-
so, em flagrante ou a posteriori. Agen-
das, livros, panfletos essas eram as ca-
vilosas provas dos crimes (como Pedro
conseguiu esconder a sua agenda subver-
siva, em pleno QG do Ex6rcito, sem ser
notado ou v&-la descoberta, 6 detalhe a
desafiar o tempo e a mem6ria). Os cri-
mes, todos, eram de pensamento. Infeliz
do pais que pune seus jovens por pensar,
por conduta participativa, por se interes-
sar pela sorte do seu pais.
Realizados os soturnos IPMs (Inqu6-
rito Policial Militar), avaliadas as provas,
o que sobrou? Nada. Todos aqueles ci-
dadaos indiciados, fichados, punidos e
perseguidos pelos anos seguintes haviam
se aproveitado dos f6rteis ventos da li-
berdade durante o mais long period de
democracia da repdblica brasileira. To-
dos, certos ou errados, achavam que o
mundo podia mudar se colocassem suas
id6ias em pritica. Ou se a deixassem no
ar, onde tudo que 6 s6lido se dissolve.
Uns queriam o socialismo, outros o
comunismo e virios uma utopia de bem-
estar nao muito bem definida. Alias, fazi-
am mais do que pensavam (na verdade,
diziam mais do que faziam ou pensavam).
Eram mais intuitivos do que cerebrais.
Mas eram muito criativos, cheios de qua-
lidades, como suas bem-sucedidas car-
reiras posteriores viriam a comprovar.
Eram pessoas de classes m6dia, em seus
virios segments.
Sabiam do povo mais por esforqo in-
telectual do que por pritica vivencial.
Muito do que diziam e faziam, por isso,
era postico, artificial. Mas que, ainda as-
sim, se solidarizassem com as gentes es-
quecidas e mal-
tratadas, era o
seu traqo mais
nobre. Essa es- 1
querda festival, 100
como viria a ser
comoviriaser Floresta News, sen
definida um tan-o
ediqdo cumprildo
to depreciativa- a maior hidreldiric
mente depois duradouras public
era um compo- mais ber serido
nente essencial fora da rbita da
da democracia.


Sem essa cercadura que a viabilizava, o
pais se tomaria mais pobre, mais intole-
rante, menos civilizado.
Toda a discussao que se trava at6 hoje
- se o golpe de 1964 foi revoluqao ou
contra-revoluq~o, golpe preventive ou
presuntivo 6 ociosa, quando nao for-
mal. Quando saiu cor sua tropa, no dia
31, em Minas, o general Olympio Mou-
rao Filho ignorou a conspiragqo em an-
damento contra o president da repdbli-
ca. Nao pensava que iria tao long e
nem foi: nenhum escaninho na nova es-
trutura de poder, em relaqao ao qual era
um estranho no ninho, Ihe foi reservado.
Quando Jango se foi, os instrumentistas
da banda de m6sica da UDN achavam
que seus lugares seriam guardados pelos
bravos soldados que haviam aliciado.
Tudo acabou evoluindo muito al6m
do imaginado e controlivel. Os perigo-
sos subversivos nao eram tao perigo-
sos nem tao subversivos quanto pare-
ciam. A infiltragqo estrangeira era res-
trita. Os grupos armados constitufam
mais ex6rcitos Brancaleones do que
ameaqas consistentes. Exauridos os
excesses dos primeiros dias e as fan-
tasias da propaganda, o Brasil podia
retomar seu caminho normal.
Mas nao foi o que aconteceu. O sis-
tema paralelo de governor, aquela cria-
tura que o general Golbery do Couto e
Silva ajudou a criar e que depois, tor-
nando-se monstruosa, se voltaria con-
tra ele tamb6m, inventaria e reinventa-
ria seus inimigos para se perpetuar na
anormalidade. Abria espaco para o es-
tado da viol8ncia, do caos, do arbitrio.
Para a minha geraqio, que assistiu
de camarote o firn da IV Repdblica e
entrou na arena no period de ensaio
(1964-1968) para a ditadura plenamente
assumida (1968-79), seguindo-se o re-
gime de excegqo (1980-85), ji nao so-
braram as alternatives que tinham nos-
sos antecessores. Depois de pular di-
versas fogueiras, queimando-se numas
e livrando-se de outras, eles puderam


Ianrrio editado por Josi Addo Costa, cheg
a tarefa de registrar o cotidiano no munic
a inteiramenie national do Brasil. Quanto
iaces como essa exislirem em pontos-chav
ie informaofes estarao os paraenses sobre
capital e de sua political concdntrica.


seguir seus caminhos sem maiores atro-
pelos. Alguns foram at6 obsequiados
com gestos de fidalguia dos vencedo-
res, como testemunham no livro, no ca-
lor da hora.
Mas para os jovens que chegaram
a maturidade political quando baixou o
AI-5, nao houve mais uma opq~o al-
ternativa dentro dos quadros instituci-
onais. A luta armada, como realidade,
convite ou insinuagqo, bateu-lhes A por-
ta. Nao foram poucos os que, com os
mesmos ideas de antes, entraram nes-
sa aventura, que se tornou sem volta
pela ausencia do pano de fundo da de-
mocracia, este bem universal, de valor
incomensurivel, que a releitura de his-
t6rias como as narradas pelos oito ex
(ou velhos) subversivos s6 nos fazem
valorizar. Mesmo quando a mem6ria de
um ou outro narrador falha e a recons-
tituiqdo de um e outro nao 6 a exata
reproduqdo dos fatos.
Numa democracia, contesta-se e de-
bate-se o que diz o interlocutor ou o ad-
versario. Mas nao se parte para a elimi-
nagqo do interlo-
cutor ou do ad-
versdrio. E assim
que caminha a
humanidade: evo-
a sua 0" luindo. Deus sal-
ipio que abriga ve, pois, a demo-
mais e mais cracia. E proteja
e do interior, as novas gera-
a imensa drea 6es de ficarem
privada desse pa-
trim6nio solar.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA OUTUBRO DE 2004 7







Papo eclusa


Aceito apostas (e juro que gostaria de
perder) sobre a confirmaqr o da seguinte
previsio: quando a sucessio presidential
aparecer no horizonte das coisas reais, o
president Lula assumird o compromisso
de concluir a construqao das eclusas de
Tucuruf no seu segundo mandate. RepetirAi
o que fizeram todos os seus antecessores
estabelecidos em Brasflia desde a d6cada
de 80, sem exceqSo. Significa que, na me-
lhor das hip6teses, o Tocantins, o 250 maior
rio do mundo por extensio (deve ter uma
posiqio bem melhor por volume de agua)
do planet, ficard bloqueado por 30 anos.
Basta isso para mostrar o quanto va-
lemos neste pais. E tamb6m o quanto de
valor a n6s mesmos atribuimos.
Como nao gosto de ficar na lamlria,
sugiro ao goverador Simio Jatene que im-
petre imediatamente uma aqio de fazer e
principio cominat6rio para obrigar, sob pena
de several multa, a Uniio a concluir o siste-
ma de transposicao do Tocantins, pedindo
a justiqa a antecipagio da tutela. Ou qual-
quer outro tipo de procedimento judicial
cabivel e de efeito tiio imediato quanto
dristico para fazer o discurso sobre a
importincia das eclusas baixar das alturas
da demagogia e das tamancas da burocra-
cia federal para a realidade pritica, sem
mais demoras nem seduqio pela ret6rica.
Pelo confront, jd.
Em dltimo caso, o govemo do Pard po-
deria utilizar o meio t6cnico adequado para
um encontro de contas entire o orqamento
das eclusas e a expropriaq~o da Lei Kan-
dir, uma faca s6 limina sobre as exporta-
q6es paraenses, sub-rogando-se nos direi-
tos sobre a transposiq~o do rio e gerenci-
ando uma forma de associaq~o com as
empresas e as administracqes piblicas (es-
taduais e municipals) verdadeiramente in-
teressadas em desbloquear o rio.
Se o sil6ncio continuar geral, seri por-
que s6 ha demagogos, irresponsAveis e
pessoas de mi intenqao envolvidas com
as eclusas de Tucuruf.


Sapiencia bandeirante


O zo6logo Paulo Vanzolini recebeu,
no mes passado, em Sio Paulo, o Pr&-
mio Professor Em6rito Trof6u Guer-
reiro da Educacqo, concedido pelo Cen-
tro de Integraqio Empresa Escola e
pelo journal O Estado de S. Paulo. A
homenagem 6 merecida. A carreira de
Vanzolini a justifica. Aos 80 anos, ele
continue em atividade, a despeito da
idade e dos problems de sadde que
ter enfrentado.
Ligado A Amaz6nia, Vanzolini mant6m,
entretanto, o hibito escolistico de dispa-
rar, a partir do promont6rio paulistano,
declaraq6es categ6ricas e conceitos fe-
chados al6m de auto-suficientes so-
bre a regiio, como se carregasse as tibu-
as da lei. Coisa de bwana colonial, ainda
que revestido da sacralidade cientifica.
Como 6 um cientista (e um cientista
que percorreu bastante a regiio estuda-
da, ao contrario dos especialistas de ga-
binete), Vanzolini dita, a partir do trono
do saber, miximas categ6ricas, que nio
se dio a uma sup6rflua demonstracao.
Na busca pela singularidade, que costu-
ma ser uma obsessao para esses icono-
clastas donos da verdade, Vanzolini en-
tremeia opinioes sensatas e considera-
q9es procedentes com falsidades perigo-
sas, tecidas num tom mal disfarqado de
presunqbo e arrogincia.
Ele nega peremptoriamente que a
Amaz6nia esteja de alguma maneira
ameacada pelas frentes de expansio da
atividade econ6mica. E um direito dele
achar que a regiio, mesmo com todas as
agress6es sofridas ou em curso, nio se
acha sob qualquer tipo de ameaqa. O
perigo estA em falsear os fatos para sus-
tentar afirmativas que contrarian o que
6 pdblico e not6rio.
Vanzolini proclama que a rodovia
Transamaz6nica "matou 50 metros de
mata de cada lado, que 6 o que eles der-
rubaram para abrir a estrada. A Transa-


maz6nica nio dizimou nada, nao. At6 hoje
a Amaz6nia s6 perdeu 7% a 8% da flo-
resta", disse, em entrevista ao Estaddo.
Bastaria ao professor Vanzolini pegar
uma imagem de sat6lite do dia para veri-
ficar que o desmatamento as margens da
Transamazonica vai muito al6m de 50
metros de profundidade a partir do eixo
da estrada. As "espinhas de peixe" me-
dem-se por quil6metros, nio por metros.
Quanto ao desmatamento geral na Ama-
z6nia, ji 6 mais do que o dobro do que
ele afirma, segundo o levantamento ofi-
cial do Inpe (Instituto Nacional de Pes-
quisas Espaciais), que se aproxima de
17%. Esse percentual ji 6, em si, assus-
tador. Deu ao Brasil, segundo o Guiness
que acaba de chegar As ruas, o titulo de
o pais que mais destruiu florestas em toda
a hist6ria da humanidade.
Os quase 620 mil quil6metros quadra-
dos desmatados representam duas vezes
e meia o tamanho de Sio Paulo, o Estado
natal de Vanzolini. A question 6 ainda mais
grave porque 80% das areas amaz6nicas
com florestas primitivas deviam ser man-
tidas intactas, segundo a lei em vigor. Ou
seja: os 16% incidem nio sobre 100% da
Amaz6nia, mas sobre 20%, em tese. Cla-
ro que 6 precise aplicar as areas desma-
tadas no mapa para verificar a condicgo
do local (se 6 regiao de floresta original,
se 6 de reserve legal, de unidade de con-
servaq~o, etc.), o que relativiza os nime-
ros. Mas a ordem de grandeza, do ponto
de vista legal, cresce quatro vezes. Teori-
camente, passa-se de menos de um quin-
to para dois terqos da area livre para a
intervenqao humana que j~ foi alterada.
Pode-se relevar as declaraoqes de
Vanzolini A sua idade, mas a ressalva nio
procede. O problema nio 6 de envelhe-
cimento porque ele tem essas opini6es
hi muito tempo, recusando-se a ajusti-
las aos fatos. O problema 6 de postura,
de visao, de estrabismo colonial.


Casa de caba


Le-se de um s6 f6lego as
87 piginas de Casa de Caba,
o 6ltimo livro de Edyr Augus-
to (publicado pela Boitempo,
a editor que a paraense Iva-
na Jinkings amadureceu em
Sbo Paulo). E um autentico
thriller, ambientado em Be-
16m, que serve de referencia
e 6 tamb6m motivo para algu-
mas farpas do autor, devida-
mente amortecidas pela troca


de nomes. Mesmo assim, al-
guns personagens sio facil-
mente identificiveis.
Edyr conseguiu ter acesso
As ferramentas de narraqao e
descriq~o dos livros de entrete-
nimento, o que nbo 6 exatamen-
te pouco para o padrio das le-
tras locals. O que escreve 6 ple-
namente inteligivel. Mas al6m
desse limited seu livro se frustra.
Poderia ser uma par6dia, inte-


grando-se a literature picares-
ca, ou uma combinag~o de fan-
tasia e realidade. Nao conse-
gue, por6m, a dosage certa.
Depois das primeiras pAgi-
nas a sucessao de tantos e tio
dispares acontecimentos torna
o livro inverossimil sem Ihe dar
forga criativa. Vira um pasti-
che. Ainda 6 possivel perceber
as intenqces do autor de fazer
uma crftica de costumes e um


manifesto de dendncia, mas
eleji perdeu o ponto. O livro
passa a se assemelhar a um
capitulo final de novela, com
uma concentragio de fatos
inconsistentes.
Tomara que, num pr6xi-
mo livro, Edyr Augusto en-
contre o ponto certo entire a
ficq~o e a realidade, ou en-
tibo entire certo na voragem
da imaginaqo.


8 OUTUBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal







CARTA
Prezado Ltcio:
O JP de setembro merece leitura obrigat6ria
pelas novas geraqbes, em especial a mat6ria sobre
candidates a Prefeitura de Bel6m e a de Chico Men-
des, esta, tratada com coragem e isenqio. Aldm dos
parab6ns atrasados pelo aniversdrio do JP faqo dois
complementos: "Pic-nic no front", de E Arrabal,
ainda desconhecido entire n6s, foi encenado a pri-
meira vez no Brasil pelo Norte Teatro Escola do
Pard, em junho de 1960 em Bel6m e em julho em
Brasilia, tres meses ap6s inaugurada, de onde segui-
mos "fazendo teatro" pelo noroeste de Sio Paulo
(Birigui, Lins, Marilia, Sorocaba, Bauru)junto corn
o grupo do Mackenzie. Na volta, encenamos na
FCAP. Na hora da metralha Eduardo Abdelnor caiu
por cima de Aita Altmam e de mim. O sangue esgui-
chou do meu nariz e a cena mereceu elogio do colega
do Gremio : "que realism ".
Quanto a ginelina arborea, Ludwig a transpor-
tou da Nig6ria, Africa, num velho DC-3 (julho,
1967) as v6speras da guerra da Biafra. Toneladas de
sementes entraram no Brasil sem licenca do Minis-
t6rio da Agricultura, mas por decision do Delegado
local, Agr6nomo Humberto Marinho Koury (j6 fa-
lecido, em Brasilia) ficou em "quarentena no po-
rho do pr6dio da Gaspar Viana onde funcionava a
Jari. Koury foi 16 varias vezes, exigindo a conserva-
9io das sementes em recipient pr6prio. Coube a
mim (chefiava a topografia da empresa) a tarefa de
projetar o equipamento corn desumidificador, pois
o President da Jari, Palmer, lera no meu curriculo o
curso de marcenaria feito na Escola Industrial de
Bel6m (atual CEFET). Dois meses depois Brasilia
liberou as sementes, seguindo para Olho D'Agua,
no Jari, local onde foi edificada Monte Dourado.
Comentando o fato corn o professor Varwick
Kerr, disse-me ele que eu deveria traz-lo a public.
Trata-se de que a 6poca grassava nos cafezais da
Nigdria a praga da "fermgemn" (que confirmed quan-
do IA estive, em 1976, topografando cidades) e aqui
em Bel6m as sementes de gmelina arb6rea contra-
bandeadas por Ludwig ficaram estocadas em local
muito pr6ximo de onde estacionavam os caminh6es
de carga vindos do sul do pais, a Praqa do Operdrio
(onde acendem fogos na prociss.o do Cirio), e por
isso 6 possivel que o vetor de disseminaqao da ferru-
gem nos cafezais do Brasil tenha sua origem naquele
antigo estacionamento.
Posteriormente foi noticiado que o p61en da
ferrugem chegara pairando, suspense nas correntes
de ar sobre o Atlfntico o que efetivamente pode
ocorrer. Mas isso 6 objeto de pesquisa, podendo-se
consultarjornais da 6poca, daqui e do Leste do Bra-
sil, posto que, salvo engano, aferrugem surgiu
inicialmente em cafezais da Bahia e Minas Gerais.
Fica a sugestdo.
Paraguassui Ileres.

ERRATA
A ediqco anterior saiu com vdrios erros chatos.
Desde os t6cnicos. O computador, por exemplo,
ignorou os itdlicos e negritos, complicando o enten-
dimento de titulos de livros ejomais. At6 os erros
inexplicdveis, senao pelo stress, como a soma erra-
da das prefeituras que a alianqa PSDB-PMDB-PTB,
se estabelecida, ter6 depois da 6ltima eleiqio: 85.
Mas podendo chegar a 86, caso Duciomar seja elei-
to em Belem. Ou a troca do nome dos indios Kree-
nakarore por Parakani na materia sobre Apoena
Meireles. Entre os escorreg6es mais not6veis.
Perdio, leitores.


Frente judicial


Esta ediq o atrasou e sua pauta foi
sensivelmente prejudicada por causa de
mais um dente da engrenagem judicial
que me prime ha 12 anos. Fui surpreen-
dido por um desdobramento surpreenden-
te (mais um) em um dos 13 processes a
que respond no f6rum de Bel6m por
conta de mat6rias publicadas neste jor-
nal, que serve de pretexto para pesso-
as supostamente ofendidas, mas que nao
se dignam instaurar uma controversial
piblica sobre os temas que as fazem pro-
por aq6es contra mim.
E o caso de uma das duas queixas-
crimes ajuizadas pelo madeireiro Wandeir
dos Reis Costa, fiel depositirio de madei-
ra apreendida pelo Ibama em Altamira.
Em 16 dejulho de.2002 ele protoco-
lou a aqio perante a 16a Vara Criminal
de Bel6m, privativa dos delitos de im-
prensa, cor base na lei 5.250, de 1967.
Declarou-se caluniado e difamado por
artigo meu publicado do
journal "O Estado do Ta-
paj6s" de 13 de junho
daquele ano e no Jor-
nal Pessoal da a quin-
zena desse mts. A
aqio foi recebida, em
18 de fevereiro de
2003, pela juiza Maria
Edwiges de Miranda
Lobato, que iniciou a
instruqio do feito.
Em agosto deste ano
suscitei a prescriqio da
agqo, com base no art. 41 da Lei 5.250,
que declara: "A prescrigio da agio pe-
nal nos crimes definidos nesta lei, ocor-
rerd 2 anos ap6s a data da publicacgo
ou transmissdo incriminada, e a conde-
naqio, no dobro do prazo em que for
fixada". Chamado a falar, como fiscal
da lei, o representante do Minist6rio Pd-
blico, promoter S6rgio Tibdrcio dos San-
tos Silva, em parecer datado de 3 de
setembro, manifestou-se "pela decreta-
~go da extinCio da Punibilidade, em vir-
tude da Prescricao da acgo penal, uma
vez que nao houve nenhuma causa in-
terruptiva da mesma". O representante
do MP fundamentou seu entendimento
no mesmo artigo 41 da Lei de Impren-
sa, que 6 auto-aplicdvel.
No entanto, pouco mais de um mes
depois, em 13 de outubro, o mesmo pro-
motor, em manifestaCgo extemporanea
(ainda mais porque os autos se encon-
travam conclusos para ajuiza, o que obri-
gou a escrivania do feito a tornar sem
efeito, a posteriori, o encaminhamento
que j havia realizado), requereu aojuizo


que desconsiderasse o parecer emitido,
"desentranhando-os vez que observando
os mesmos constata-se que a queixa-cri-
me foi recebida no dia 12 de maio de 2003,
nao estando portanto prescrito o feito,
assim como nao se trata de caso de ar-
quivamento, motivo porque pugna pelo
prosseguimento do feito at6 o final".
Uma semana depois, a titular da 16a
Vara Criminal deu o seguinte despacho:
"Renovem-se a continuagqo da audiencia
de instrugqo ejulgamento, para que sejam
ouvidas as testemunhas arroladas pelo
querelado por Carta Precat6ria, no ende-
reqo fornecido as fls. 133, dos autos. Soli-
citando ao Juizo deprecado a maior ur-
gencia no seu cumprimento, haja vista o
perigo da prescri~go" (meu grifo).
Tecnicamente, a expressao que ca-
bia na manifestaq o da julgadora seria
"hip6tese da prescriqio", ou "possibilida-
de da prescrigqo". Nunca, por6m, peri-
go da prescriao.A
expressao "perigo" pa-
rece evidenciar o animo
de quem a usa. Nao tra-
duz, de qualquer forma,
imparcialidade, isenqco.
Quanto ao represen-
tante do Minist6rio Pt-
blico, o que o teria fei-
to a mudar tio catego-
ricamente de posiqgo
em pouco mais de um
mes? Subtraindo-se ao
dever de oficio, o repre-
sentante do MP nao fez a nmenor remis-
sio legal, jurisprudencial, doutrindria.
Nada fundamentou. Como se fosse
manso e pacifico entendimento do arti-
go 41 da malfadada Lei de Imprensa
justamente em contririo ao que ji se
acha consagrado pelos tribunais e pelos
melhores int6rpretes e doutrinadores
dessa lei. Limitou-se a considerar que o
prazo prescricional s6 comeqaria a con-
tar a partir do recebimento das queixa
(que, por6m, datou cor erro).
Para tentar encontrar uma resposta
da pr6pria justica para essas quest6es,
recorri do despacho. Mas essa defesa me
afastou do meu trabalho professional, algo
que parece constituir o objetivo maior dos
autores dessas aq6esjudiciais, propostas
sem que seus autores se deem ao traba-
lho de exercer o elementary direito de res-
posta (assim, desviam o assunto das ruas
para os autos dos processes). Daf o pre-
jufzo sofrido por essa edigqo, que procu-
rarei corrigir na pr6xima. Isso, se novas
surpresas desagradiveis nio acontece-
rem novamente.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA OUTUBRO DE 2004 9







~23











C3



C3





I~~s;S


FOTOGRAFIA

Protest


Em 1968 os estudantes fizeram suas utltimas manifestac5es de pro-
testo antes do fechamento total do regime, com a edicdo do AI-5.
Ocuparam as faculdades para impedir a implantagdo da reform
universitdria atravis do acordo MEC-Usaid e foram para as ruas em
passeata. A primeira sairia da sede da Faculdade de Medicina, onde
estava instalado o QG estudantil, e do conjunto de cursos de cienci-
as sociais e humans, logo a seguir. Por isso, a cavalaria das Policia
Military montou guard na esquina da Generalissimo com a Governa-
dor Jose Malcher para impedir que a march de protest prosseguis-
se, no primeiro confront da policia contra os estudantes depois de
1964. 0 epis6dio e relatado por Ruy Antonio Barata no livro 1964 -
Relatos Subversivos.
Um detalhe marginal a observer: a finissima camada de asfalto da
rua ndo chegava ate a calgada, deixando uma faixa da pavimentaqdo
antiga, implantada para receber os bondes, com paralelepipedos.
v' y, P ICg


Cohab
A Cohab (Companhia de HabitaCgo do Estado do Pard) foi constituida
em julho de 1965, tendo como president a assistente social Maria Virginia
Gomes da Silva. Os outros membros da diretoria executive eram o arqui-
teto Paul Albuquerque e o economist David Martins de Carvalho. Seus
suplentes eram o engenheiro Frederico Chaves e o advogado Jos6 Lan-
cry. O Conselho Fiscal era integrado pelos advogados J. J. Aben-Athar,
Oswaldo Sabino de Freitas e Aluisio Lins de Vasconcelos Chaves. Os
suplentes eram o m6dico Claudio Dias, o economist Armando Soares e
Aldo de Paiva Lisboa. Irawaldyr Rocha, Roberto Oliveira, Ant6nio Car-
neiro, Graqa Landeira e Joao Vianna tamb6m assinaram a ata de consti-
tuiq~o da companhia.


10 OUTUBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal


Estudantes
Foi um fracasso a
eleiq o, realizada em
agosto de 1965, para a
eleiqao da chapa tnica ao
Diret6rio Central dos
Estudantes, convocada pela
direqao da Universidade
Federal do Pard. Mais de
80% dos estudantes que
compareceram votaram
contra a chapa official. Com
isso, manifestavam seu
repidio A chamada Lei
Suplicy (em refernncia ao
entao ministry da
educaqco, Fldvio Suplicy de
Lacerda), que havia
acabado cor a traditional
UNE (Uniao Nacional dos
Estudantes), considerada
subversive pelo governor
military. Foram 1.529 votos
contra a chapa do DCE e
apenas 219 a favor. No
Ndcleo de Fisica e
Matemitica a rejeiqao foi
de 100%.

JB
Ainda em agosto de
1965 o diplomat
Nascimento Brito, director
do entao todo-poderoso
Jornal do Brasil, do Rio
de Janeiro, fez lui-meme
uma viagem complete
pela Bel6m-Brasilia, que
havia siso dada como
inaugurada cinco anos
antes e acabara de ter sua
primeira reform. Critico
de primeira hora da
estrada, Nascimento
resolve v8-la in loco,
fazendo-se acompanhar de
outros integrantes do JB,
inclusive dojornalista
Carlos Castelo Branco, na
6poca director da sucursal
de Brasilia do journal da
condessa Pereira Carneiro.
Com aplomb, Nascimento
Brito deu entrevista aos
colegas paraenses no
Grande Hotel, onde ficou
hospedado, antes de seguir
para o Amapd, a convite da
Icomi, que explorava a
jazida de mangan6s do
entao territ6rio federal.

Ibifam
Em 1968 a Sudam
aprovou o projeto de
implantaqao da Ibifam
(Inddstria Biol6gica e


~~-"-~
P"
1 .-~i~-;d


. .


6t A4


r

ir~t~









AGORA


na rota


SAOPAU IaO

S BELEM MANAUS -
SRAO LUIZ

consutte o seu agent
de vlagens ou a


E-. E EAL
operando em sistema com a VARCl -


PROPAGANDA

Aviafio personalizada
Quem se aperta nas poltronas na classes econ6mica dos avi6es de hoje, voando a seco por
centenas de quil6metros, nao imagine o que era o interior do Super Constellation e o trata-
mento de bordo. O avido, com quatro motors a explosdo, tinha velocidade muito inferior A
dos jatos de hoje e voava mais baixo, sujeito as turbulencias da atmosfera e ao barulho. Mas
os passageiros tinham tratamento de nome e sobrenome. Este andncio sadda, quatro d6ca-
das atrds, em 1962, o uso do Constellation da Real ("operando em sistema com a Varig", que
ainda estava alguns degraus abaixo das Panair) na rota de Sdo Paulo, pelo litoral, at6 Bel6m
e Manaus. O Constellation foi um dos mais bonitos e confortiveis avi6es ji fabricados.


Loi o axilar
Em 1958 a Phebo (Perfumarias Phebo era a razao social) fabricava a lo go axilar, um
nome mais sofisticado (ou t6cnico) para o hoje popular desodorante. O produto criado pela
Phebo era um estojo plhstico para vaporizaqao instantanea, em dois tamanhos (m6dio e
grande). O estojo vinha cor um frasco econ6mico de reserve, tamanho gigante, "suficiente
para quatro recargas no vaporizador m6dio".
Sonho de uma noite industrial de verao.


Farmaceutica da
Amaz6nia) na avenida
Augusto Montenegro. Para
poder receber os recursos
dos incentives fiscais, a
empresa aumentou seu
capital, que era de 500 mil
cruzeiros novos, para
NCr$ 3,17 milhoes. O
principal acionista era o
m6dico Elias Gatass
Kalume. 0 future
governador Almir Gabriel
era um dos seus s6cios,
juntamente com a esposa,
Maria do Socorro Franqa
Gabriel. A inddstria ndo
esti mais em atividade.


Industrias
Em novembro de 1972 o
navio Carlos Borges, da Cik.
Maritima Paulista,
descarregou no portl de
Bel6m um equipamento
italiano (embarcado em
Gnnova) de 400 toneladas
para ser usado pela Inddstria
Cerdmica da Amaz6nica, a
Inca, projeto industrial
aprovado pela Sudam que
estava em fase de
implantaq~o. No mesmo

.... ... ... .....
...' C::::!|'5;


navio vieram, em 400
sacos, pesando 20
toneladas, mat6ria-prima
para outra inddstria
incentivada, a Azpa
(Azulejos do Pari), que
tamb6m funcionaria is
margens da BR-316, na
said de Bel6m. Hoje,
ambas as fibricas sao
carcacas industrials,
testemunhos do quanto
tem sido efemeros (al6m
de distorcidos) os
beneficios da political de
incentives fiscais. Inca e
Azpa nio chegaram a
durar tres d6cadas.


Sxandu-a seflpre lare
*':"(*. *(W .
ae cono bsria. o.






de reserve. eom
LOIAO AXILAII
PHEIO, g-lItw.
ufieofte pmtu
quatro r.aul s*
vaporziadtor midl





1-
pvie* p vaperioza.
*I, aSo lt>toIstaneit em
do. s temaahoa*m. o




SII6MA



(E. 16173)


Journal Pessoal 2 QUINZENA OUTUBRODE 2004


- *A IJ


It=








ROMBO
Augusto Barreira Perei-
ra, que foi director e presi-
dente interino do Banco da
Amaz6nia, al6m de advoga-
do do grupo Liberal, tera
que indicar bens a penhora
por conta de uma execuqao,
no valor de 196 mil reais,
movida contra ele pelo
Basa. A decisao foi toma-
da, no m6s passado, pela
juiza Maria Cristina Ledo
Murrieta, das 10a vara cfvel
de Bel6m, que nao admitiu
um recurso de exceqao de
pr6-executividade, atrav6s
do qual Barreira Pereira
questionava a divida execu-
tada pelo banco.
A juiza rejeitou a exce-
cgo porque o recorrente nao
comprovou suas alegacqes,
dentre as quais a falta de
comprovaqao sobre a ori-
gem da divida, a existencia
de outras aq6es nas quais 6
r6u e de uma acgo de se-
qiestro ja deferida pela jus-
tiga federal. A execuqao
result de um rombo, equi-
valente a 30 milh6es de d6-
lares, praticado no Basa na
metade da d6cada de 80, o
maior da sua hist6ria, corn
a participagao de Barreira
Pereira e seu filho, Agosti-
nho. Como director e presi-
dente interino da instituiq~o,
Barreira autorizou opera-
cqes contrarias as regras
bancarias em emprdstimos
patrocinados pelo filho.
Este journal foi o primeiro
- e, por vArias semanas, o
inico, jd que os outros se ca-
laram deliberadamente 6r-
gio da imprensa a denunci-
ar o rombo, entire 1987 e
1988. Barreira e o filho che-
garam a ser press no Rio
de Janeiro e transferidos
para Bel6m. Foram os pri-
meiros r6us processados pela
lei criada na 6poca para com-
bater os crimes de colarinho
branco. Barreira Pereira foi
condenado pelo Tribunal de
Contas das Uniao a ressar-
cir o prejuizo causado ao
Banco da Amaz6nia. Desde
entdo, o advogado tem vivi-
do discretamente em Bel6m,
fora dos holofotes das colu-
nas sociais, que freqiientada
com assiduidade.


Neg6cio chines
A cada ano aproximadamente 20 mil pessoas morrem em mi-
lhares de acidentes que acontecem nas minas de carvao da China,
segundo uma ONG local. As autoridades retrucam que a estatisti-
ca 6 exagerada. Sustentam que o ndmero varia entire 5 mil e 7 mil
mortos. Mesmo que tivessem razdo (e provavelmente nao a tem),
a situaq~ o 6 espantosa. Na exploso da semana passada, na re-
giSo central do pals, 148 operdrios morreram. A causa da explo-
s~o: excess de gis no fundo da mina. Com esse acidente, o regis-
tro official chegou a 2.797 acidentes e mais de 4.200 mortes.
Esse tipo de acontecimento trigico de tornou comum na
China, maior produtor e maior consumidor de carvao do mun-
do. Mas vem se agravando a media que, incrementando-se a
atividade produtiva, o pals precisa de mais energia. A principal
fonte chinesa de energia 6 o carvdo. Cor a presslo da deman-
da, minas fechadas por falta de seguranca foram reabertas e
estao em atividade. As condises de seguranca para quem nelas
trabalha sao precirias. Mas o risco e imposto pelas autorida-
des, sob pena de a China ter que frear seu crescimento e en-
frentar uma crise energ6tica.
A situagao 6 tdo dramatica que a China nao hesitou em
construir aquela que sera a maior hidrel6trica do planet, no rio
Yang-Ts6. A usina de Tr6s Gargantas vai inundar uma area
imensa de terras, desalojar dois milh6es de pessoas e destruir
um patrim6nio cultural inestimavel, mas a alternative, na 6tica
das autoridades, 6 o blecaute.
Mesmo Tres Gargantas, por6m, nio dard conta da enco-
menda. Por isso, os chineses estao tendo que transferir ativida-
des de grande demand de energia para outros pauses, abrindo
tamb6m o mercado para a extracao de carvao e sua exporta-
q~o. O Brasil esti se apresentando como o maior parceiro dos
chineses nessa empreitada e a Amaz6nia como seu alvo prefe-
rencial. E a repetiq~o, tres d6cadas depois, do process de
transfer8ncia industrial que levou o Japdo a fechar todas as
suas fibricas de aluminio e passar a importar o produto de
outros pauses. Como se sabe, a maior fabrica resultante dessa
iniciativa 6 a Albris, em Barcarena.
Vamos repetir, no novo caso que esti se constituindo, agora
com a China o desinteresse, a omissdo e a irreflexao que ca-
racterizaram a participaqao brasileira no empreendimento ele-
trointensivo com o Japio, s6 tomando alguma iniciativa quando
a parceria ji estiver definida, em terms que nao nos serao
adequados ou favoriveis?
Fica, mais uma vez, a advertencia.


JUST A
Acusado de virios crimes e irregularidades, Licurgo de Frei-
tas Peixoto foi punido corn a pena de demiss~o pelo Tribunal de
Justiqa do Estado, no inicio do ano, quando exercia o cargo de
juiz em Redengqo, no conturbado sul do Pard. Na semana pas-
sada, o ex-juiz foi aposentado pelo mesmo TJE. Com 27 anos e
11 meses de serviqo, vai receber 10,3 mil reais por m&s.

ESPERA
Como o personagem da peqa teatral de Samuel Beckett, o
PT ficou esperando pela adesao do PMDB a candidatura de
Ana Jilia Carepa. Deseja-se que tenha esperado sentado, en-
quanto Jader Barbalho desfiava hist6rias para boi dormir.


IMMORTAL

O mais novo imortal da
Academia Paraense de
Letras, Roberto Monteiro
(e nao Benedito) de
Carvalho, escreveu-me
uma carta, a prop6sito do
comentario que aqui fiz no
l6timo Jornal Pessoal.
Felizmente, trata-se de
carta civilizada, a discutir
iddias e nao a tomar a
critica como coisa pessoal,
mesmo quando mordaz ou
ir6nica. Passo a dever esse
cr6dito ao novo acad6mico
e a esperar conhecer
melhor seus escritos.
Ele informa sobre sua
obra, por mim ignorada,
compreende tres
romances, tr6s coletaneas
de contos e um "opdsculo
de poesias". O livro de
poesia e dois dos
romances foram premiados
pela APL (embora apenas
um dos volumes tenha sido
publicado, As custas do
autor), sendo esses os
seus m6ritos para
ingressar no assim
chamado silogeu.
Carvalho nao se
consider poeta; esteve
poeta, como diz: em
trAnsito. Foi na prosa,
"notadamente na ficqqo
que depois ancorei minhas
inquietag6es e,
ocasionalmente, alguns
contos e romances foram
e sao produzidos sem
qualquer planejamento",
conforme declarou no seu
discurso de posse,
reproduzido de forma
incomplete no noticidrio do
journal 0 Liberal e, assim,
provocando minha
estranheza sobre a
confused de estilos por
quem chega a um lugar
que deveriajustamente
cultivar a boa literature.
Mas que, como bem
sabemos, inclusive various
dos integrantes da
confraria, nao tem primado
pelo apreqo a essa missao.
Muito pelo contrArio.




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