Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00274


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Full Text




lornal


Pessoal


SETEMBRO DE 2004
2a QUINZENA
N 330 ANO XVIII
R$3,00


j A AGENDA AMAZO NICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


ELEI AO


A caravana vai passar

Ndo import quem seja eleito: o novo prefeito poderd ser melhor ou pior do que o atual,
mas dificilmente conseguird responder ao maior desaflo de uma cidade afogada em
paradoxes, esgargada pela pobreza, sem perspective de melhorio e cor a ameogo de
deixor de ser o centro do poder quando (e se) o Par6 for dividido. Bel/m precise de lucidez
e audacia. Nao e o que os candidates estao /he oferecendo.


moram em Bel6m vivem com
uma renda que varia entire 0
e 5 salaries minimos. Os 25%
mais ricos ficam cor 55% da renda do
municipio. Para os 25% mais pobres so-
bram apenas 10% da renda total. A renda
per capital dos moradores da cidade re-
presenta dois terqos da m6dia brasileira.


Segunda mais important capital do
Brasil no comego do s6culo XX, Bel6m
se torou uma das mais pobres do pais
neste principio de s6culo XXI. Nos 1900,
seu habitante dispunha de bonde el6tri-
co, iluminagdo piblica a gas, rede de es-
goto e outros confortos aos quais poucas
cidades brasileiras tinham acesso, al6m
de pleno emprego. Hoje, o caminho do


PASSADO
CONDENA
POLITICOS
(PAGS. 4/5/6)






CONTINUACAO DA CAPA
future 6 muito mais complex. Quem cir-
cula por outras capitals volta cor a im-
pressao de que Bel6m esti marcando
pass, quando nao retrocedendo.
Muitos visitantes, por6m, se dizem
impressionados com a capital paraense.
Essa boa impressed tem uma explicacgo:
o brasileiro nao conhece seu pais; para
ele, a Amazonia esti em outro mundo -
e esteve mesmo, durante todo o period
colonial e boa parte do Imp6rio. A boa
surpresa 6 um produto de dois ciclos de
investimentos urbanos maciqos, que a
historiografia national do centro dominan-
te praticamente ignora: o period pom-
balino (comandado pelo d6spota escla-
recido de Portugal, o marques de Pom-
bal), na segunda metade do s6culo XVIII,
e o meio s6culo de fastigio proporciona-
do pela exploragao da borracha, entire
1860 e 1912, com seu apogeu sob a in-
tend6ncia de Ant6nio Lemos, um mara-
nhense at6 hoje tido como o melhor pre-
feito que Bel6m ja teve.
No primeiro moment, Bel6m foi pre-
parada para ser a capital do reino portu-
gues remanescente na Am6rica, quando
o Brasil se tornasse independent. No
segundo moment, se tornaria a mais
cosmopolita das metr6poles brasileiras,
renovando relaqces diretas com as me-
tr6poles mundiais. E por isso que a cida-
de oferece o espeticulo de uma afluen-
cia ao mesmo tempo internacionalista
e localista para o qual o visitante nao
esti preparado, vitima de preconceitos e
mal-entendidos que remontam ao passa-
do e se mantem, renovados, no present.
Mas fora do quadrilitero urban cri-
ado pelo piano pombalismo e pela explo-
ragao monopolista da borracha (e ja in-
filtrando-se nesse reduto de beleza e con-
forto, A margem das baixadas), o que
caracteriza Bel6m sao as marcas de um
empobrecimento africano convivendo,
conflitivamente, com ilhas de riqueza.
Talvez Bel6m seja a capital com a maior
economic invisivel do Brasil. De cada tr8s
pessoas que trabalham na cidade, ape-
nas uma tem carteira assinada. Cada
pessoa que trabalha sustenta tres pesso-
as que nao trabalham, embora em idade
produtiva.
Mesmo sem uma quantificagqo da
realidade, ningu6m cometerd improprie-
dade se disser que nenhuma metr6pole
brasileira ter tantos camels quanto
Bel6m. Somados a flanelinhas, biscatei-
ros em geral e outros trabalhadores tem-
porarios, esse ex6rcito de lumpenprole-
tdrios, como se dizia antigamente, supe-
ra o contingent de mdo-de-obra regu-
lar.
O que agrava o problema 6 a visdo
que dele o governor tem. Uma anomalia
patol6gica passou a ser considerada na-


tural e, em casos extremes, desejavel. A
economic informal se espalha como um
virus, que se alimenta de rem6dios mal
receitados ou aplicados sem control,
aumentando sua resist6ncia.
Quem percorrer a future "via dos
mercadores", um projeto da administra-
q~o Edmilson Rodrigues que, a despeito
de seus erros e atrasos, se transformou
num abre-alas eleitoral, poderi antever
o conflito que eclodird quando a prefei-
tura for ordenar a ocupagao do calqadao
ondulante para que a beleza da rua nao
seja comprometida e o bondinho possa
circular. No conjunto Joao Alfredo-San-
to Ant6nio ha, atualmente, uma quanti-
dade muito maior de camels do que os
pontos fixados na calcada para abrigar
apenas os vendedores autorizados os
uinicos que irao permanecer no local. O
que acontecera quando chegar a hora de
disciplinary o uso do espago?
Ha vArios anos nada se fez de inteli-
gente e objetivo para center e fazer re-
troceder essa onda de atividade margi-
nal (ou lateral), reprimindo-a mas, ao
mesmo tempo, oferecendo melhores al-
ternativas de trabalho As pessoas envol-
vidas nessa atividade. Pelo contrdrio: por
oportunismo ou mi-f6, as polfticas pdbli-
cas acabaram por estimular ou induzir
essa ameba urbana, que se beneficia do
meio-tom e da sombra, que constitui sua
cultural. Ja ha geraq6es de camels e fa-
milias de trabalhadores informais. Eles
cresceram nesse universe e esperam
estabelecer nele sua sucessdo. O que era
anomalia torou-se normalidade.
Quando a margem legal e legitima 6
esticada e desdobrada para abrigar e
acomodar situaq6es que a contrariam ou
desafiam, uma teia de neg6cios e inte-
resses ocultos comeqa a ser tecida sem
que se possa prever at6 onde ela se pro-
longarA. Pais de familiar s6rios e traba-
lhadores oujovens aplicados, independen-
temente do que fizerem, estardo servin-
do de instrument para sonegaqao fiscal,
desvio de dinheiro, legitimaiAo de ativi-
dades ilicitas, com6rcio irregular, contra-
bando, receptaqao e outras contraven-
q6es que, uma vez consolidadas, acabam
resultando em problems gigantescos,
como o crime organizado. Bel6m, nesse
ponto, se parece cada vez mais ao Rio
de Janeiro.
Esse rio subterraneo de dinheiro, emer-
gindo em alguns pontos, 6 que move a
cidade, mais do que a atividade econ6-
mica explicita e legal. A fachada 6 enor-
me, mas atris dela ha c8modos misera-
veis. Daf se falar tanto na lavagem de
dinheiro na cidade, ou de neg6cios de
fachada. Em parte, eles explicam certos
investimentos que sio feitos sem a exis-
tencia de um mercado visivel que os jus-
tifique, ou exibic0es de riqueza sem a


correspondent demonstracao da renda
que as sustente. O que corre "por fora"
represent uma demand reprimida por
esses serviqos, o que tornou Bel6m uma
cidade terciaria tardia ou equivocada.
Mas nao s6 isso. Bel6m concentrou o
investimento urban ao long da hist6ria
do Pard. Quase todas as cidades do inte-
rior, press ao extrativismo vegetal, eram
(ou continual a ser) pouco mais do que
acampamentos de transbordo dos produ-
tos que vinham (e ainda vem) do hinter-
land em busca do porto exportador lito-
rAneo, nos quais eram (e sdo) embarca-
dos para o exterior.
A cidade europeia em que se trans-
formou a capital do Estado contrastava
(e ainda contrast) com todas as outras
cidades interioranas, havendo entire elas
um vicuo abissal. Nao s6 ontem, como
at6 hoje. Basta pensar num tnico fato:
nenhuma das demais cidades fora da re-
giao metropolitan, mesmo aquelas que
ja bateram em 200 mil habitantes, conta
com um servigo de UTI em seus hospi-
tais. Pacientes em estado grave tem que
buscar auxflio na capital.
Essa circunstancia alimenta o contras-
te entire a face africana de Bel6m e seu
perfil europeu, que encanta o visitante
mais atento ao dia, ainda que mal infor-
mado sobre os antecedentes na hist6ria.
Se o turista pode apreciar a beleza arqui-
tet6nica instalada debaixo da cobertura
vegetal das mangueiras, indo a bairros
novos da periferia vai sofrer uma incle-
mencia de desert sob uma paisagem
humana de conflagracgo social.
A atividade vanguardista, em escrit6-
rios bem montados, 6 vizinha de priticas
medievais nas invasoes: series humans
substituindo a tragqo animal em carro-
qas empregadas ao long da Estrada
Nova, ou queimando madeira no Aura
para fazer carvao vegetal. Novos hot6is
brotam em ruas arborizadas, inclusive sob
bandeiras universais (como a do Holli-
day-Inn), enquanto verdadeiras estala-
gens da 6poca anterior a revoluqCo in-
dustrial irrompem nos subdrbios para aco-
modar gente como se fosse gado.
Para onde ird Bel6m nesse choque
de contrastes aparentemente doidiva-
nas? Uma resposta convincente nao esta
sendo oferecida pela atual temporada
eleitoral. Candidates que nao tnm a
menor responsabilidade para com suas
biografias, que por isso ocultam ou ma-
quiam, nem seu discurso tem compro-
misso com a verdade, dizem o que que-
rem, sem tocar no que devem, indife-
rentes ao distinto ptiblico, que, como
papel em branco, tudo aceita. Consul-
tando os currfculos dos candidates e
analisando o que, um tanto toscamente,
se pode chamar de seus programsas,
chega-se a uma triste conclusao: a pri-


2 SETEMBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal






meira d6cada do s6culo XXI esti perdi-
da para Bel6m. Como as d6cadas ante-
riores. Perdida no sentido de que conti-
nuard discriminat6ria, segregacionista,
desligada do seu context regional.
A rigor, a condi9go da capital dos pa-
raenses s6 nao 6 mais grave porque, por
in6rcia, ela continue a usufruir o centra-
lismo espacial dos s6culos anteriores. Boa
parte dos investimentos que nela sdo fei-
tos, criando a ilusdo de progress, deve-
se a essa polarizaqgo. O dinheiro segue
para ela porque nio hi outra alternative.
Ao menos enquanto os espasmos e con-
traq6es separatists continuarem epis6-
dicos, desarticulados e inconseqtientes.
Quando os impulses emancipacionis-
tas tiverem conseqiincia e desencadea-
rem a desconcentracio espacial do po-
der, Bel6m vai gemer como se fizesse
parte daquela famosa cr6nica de Rubem
Braga, "ai de ti, Copacabana", que ante-
cipou a decadencia da "princesinha do
mar" depois da transfer8ncia da capital
federal para Brasilia. Bel6m nao geme
porque nao quer ou nao pode pensar
no future e planeji-lo, tendo que vender
o almogo para comprar ojantar. Ter que
decidir entire um falso m6dico, apoiado
por um m6dico verdadeiro, mas escapis-
ta, e a sucessora de Edmilson Rodrigues,
que tenta se dissociar do correligionario
sem distanciar-se dele.
Bem que esse podia ser o titulo ver-
dadeiro da atual campanha eleitoral: "ai
de ti, Bel6m". Quem ganhe, perderas.

ELOGIOZINHO
Empresas que realmente fazem algu-
ma coisa al6m do seu estrito interesse e
lucro devem ser apoiadas em iniciativas
de verdadeira responsabilidade social.
Podem ser de pequena express.o, mas
valem mais do que atos alardeados como
grandiosos e que servem apenas ao pr6-
prio autor ou a sua pigina dejornal.
A Sol Informatica, por exemplo, re-
servou uma parte das suas novas insta-
laoqes para uma galeria de arte, aberta a
todos, e um ponto de encontro que com-
bina interesse commercial da empresa,
bem-estar dos freqiientadores e criacqo
cultural. Outro dia, ao comprar uns (ji
anacr6nicos) disquetes, fui tomar um bom
expresso. Ao pagar, a gentil atendente me
disse que o caf6 era cortesia da casa.
Nao para mim, mas para todos os fre-
qiientadores. Civilidade nao 6 s6 isso.
Mas 6 assim que comega.
Outra iniciativa louvivel foi a da Cons-
trutora Leal Moreira, que lanqou uma re-
vista em format grande, bem diagrama-
da e cor uma pauta decent. Tomara que
nao seja ndmero dnico nem caia de quali-
dade. A revista 6 de distribuico gratuita,
concebida pelo antenado Bira Jares.


Jatene: cassaggao



pendente no TSE


Nos l6timos dias circulou intensamen-
te em Bel6m a informaqio de que o go-
vernador Simao Jatene seriajulgado, ain-
da em setembro, pelo Tribunal Superior
Eleitoral. Jatene foi denunciado pelo Mi-
nist6rio Puiblico, que pediu a cassacao de
seu mandate por abuso na campanha de
2002, quando se elegeu por uma coliga-
9ao liderada pelo PSDB.
O TSE ji negou outros pedidos de
cassaq~o contra Jatene, confirmando
decisao do Tribunal Regional Eleitoral,
que o havia absolvido nas acqes inter-
postas pela Procuradoria Regional Elei-
toral do Pard e pelo advogado do ex-de-
putado Giovanni Queiroz, Inocencio Mar-
tires Coelho. O ministry Barros Montei-
ro concluiu, na apreciaqco dos recursos
contra a decisao do TRE, nao haver pro-
vas de que o entdo governador Almir
Gabriel usou um avido official e mobilizou
servidores para ir a comicios em apoio
de Jatene, que chegou a ter a candidatu-
ra cassada pela justiqa eleitoral antes do
primeiro turno. Mas conseguiu reverter
o quadro e se eleger.
A Procuradoria Eleitoral no Estado
voltou A carga e pediu ao Tribunal Regi-
onal Eleitoral a cassaqco do registro da
candidatura de Jatene e da vice dele, Va-
l6ria Pires Franco (do PFL), alegando
veiculaqio de publicidade institutional em
period proibido (tres meses antes da
eleiqgo). Segundo o MP eleitoral, o go-
verno do Estado teria feito propaganda
institutional durante a
Copa dos Campe6es, em
julho de 2002, no estidio
estadual Edgar Proenga,
em Bel6m, rebatizado
como Estidio Olimpico.
A Procuradoria alegou
que a propaganda teria
ocorrido por meio da ins-
talaqgo de places com
nomes de obras do Esta-
do e mensagens que teri-
am favorecido o candida-
to apoiado pelo governor.
O MP acusa tambdm
o ex-governador Almir \
Gabriel de praticar duas I
irregularidades para ga-
rantir a eleigqo de seu
successor. Conclui, na de-
nincia, que Jatene deve
perder o mandate porque


sua candidatura se favoreceu de atos do
antecessor. Dois pareceres do vice-pro-
curador-geral apontam repasses irregu-
lares de recursos para prefeituras no pe-
riodo eleitoral e a publicidade institucio-
nal indevida no Mangueirio (o nome ain-
da mais popular do estidio).
A legislacgo eleitoral probe as au-
toridades piblicas de fazer repasses
para prefeituras nos tres meses que
antecedem as eleiq6es, cor exceqao
de verba para obra ou serviqo em an-
damento e cor cronograma prefixa-
do, ou na hip6tese de emergencia e ca-
lamidade piblica.
A lei tamb6m estabelece que a publi-
cidade institutional, nos tres meses ante-
riores a votagdo, deve ficar restrita i pro-
paganda de produtos que tenham concor-
rencia no mercado e em caso de grave e
urgente necessidade pdblica, devidamen-
te reconhecida pela justiga eleitoral. As
duas restriq6es visam impedir que o agen-
te piblico use a maquina pdblica e pro-
voque desigualdade na dispute eleitoral.
Em agosto, o governador de Rorai-
ma, Flamarion Portela, que se afastou
do PT, teve o seu mandate cassado.
Quatro meses antes, o governador do
Distrito Federal, Joaquim Roriz, do
PMDB, foi absolvido por falta de pro-
vas, mas ainda sera julgado em outro
process. O governador de Goids, Mar-
coni Perilo, igualmente tucano, tamb6m
esta ameagado de cassaqCo.
Aldm de Jatene, Pe-
rillo, Roriz e Flamarion,
o TSE esta processan-
do os governadores Jor-
ge Viana (PT), do Acre;
Jos6 Orcirio Miranda
S dos Santos, o Zeca do
PT, de Mato Grosso do
Sul; Cssio Cunha Lima
/(PMDB), da Paraiba;
Roberto Requiao
(PMDB), do Parand;
l/^ Rosinha Matheus
(PSB), do Rio de Janei-
ro, e Marcelo Miranda
(PSDB), do Tocantins.
A pauta de julgamento,
porem, ainda nao esti
definida. Fontes do TSE
apenas dizem que os
casos serao apreciados
ainda neste ano.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA SETEMBRO DE 2004 3









Conhega os candidates


O grande tema do primeiro debate te-
levisivo entire os candidates A prefeitura
de Bel6m, realizado pela TV RBA (Rede
Bandeirantes), no dia 19, foi o passado
do lider nas inten96es de voto, Duciomar
Costa, do PTB. O senador (que tamb6m
pode ser definido como "o prefeito do go-
vernador", por integrar a coligaqdo co-
mandada pelo PSDB desde 1994, tendo
em Simio Jatene seu mais ilustre cabo-
eleitoral) considerou baixaria a attitude
dos seus opositores, de tratar de um
epis6dio ocorrido duas d6cadas atris,
quando foi denunciado, indiciado, pro-
cessado e condenado pelo exercicio ile-
gal da profissio de m6dico.
Hdlio Gueiros, candidate pelo
PMDB a voltar ao governor da
capital, que exerceu entire 1993
e 1997, contestou os argumen-
tos de Duciomar. Com razao,
disse que o eleitor precisa co- ,
nhecer a hist6ria dos que
postulam seu voto. O passa-
do ajuda a iluminar o presen-
te e 6 a melhor garantia de
future. Se o candidate a um
cargo eletivo nao consegue
enfrentar sua biografia, nao
merece a confianqa do cidadio.
O epis6dio relembrado cor insisten-
cia pelos adversarios nao 6 exatamente
um detalhe menor na hist6ria de Ducio-
mar Costa. Nem constitui um escorre-
gdo da fase da imaturidade, um erro que
possa ser atribuido a circunstancias ale-
at6rias. Duciomar se investiu ilegalmen-
te no titulo de m6dico para tirar maior
beneficio do seu neg6cio commercial.
Queria vender mais lentes e 6culos em
sua 6tica. Cometeu erro conscientemen-
te, de caso pensado.
Quando flagrado e levado as autorida-
des competentes, primeiro na Policia Fe-
deral e, em seguida, najustica federal, teve
que se sujeitar as evidencias e provas do
seu crime, o de charlatanismo. Acabou
sendo condenado e de forma tdo cate-
g6rica que ojuiz do process definiu sem
meias palavras o seu carter.
Segundo o entao titular da 1" vara fe-
deral de Bel6m, Edison Messias de Al-
meida, a personalidade de Duciomar
apresenta "desvio dos padres de nor-
malidade, revelando caracteres tipicos
de pessoa extremamente ambiciosa, ou-
sada e solerte".
Ao forjar uma qualificaqCo profissio-
nal que nao tinha, a de m6dico, al6m de
tudo complex e delicada, seus motives
foram "marcadamente argentirios". A


fraude que montou, refinada, segundo o
magistrado, revelava "imensa carga de
potencialidade lesiva, criando risco de
levar os incautos A invalidez por ceguei-
ra e outros agravos".
Por isso, Duciomar foi condenado, em
sentenqa datada de agosto de 1994, a tres
anos de reclusdo, em regime aberto. A
pena s6 nao foi cumprida porque o pro-
cesso, depois de uma instruqao demora-
da, de oito anos entiree 1986 e 1994), aca-
bou prescrevendo.
Como alertou Holio Gueiros, essa his-
t6ria precisa ser realmente lembrada para
que o eleitor saiba com quem esti lidan-
do. Ao depor najustiqa federal, Du-
ciomar admitiu "ter adquirido o di-
ploma de um terceiro, com paga-
mento em dinheiro da importmn-
cia que Ihe foi cobrada". De pos-
se de um document sabidamen-
te falso, nao hesitou em ust-lo
para se inscrever no Conselho
S Regional de Medicina. Ludi-
briado o CRF, mandou im-
primir seus papdis, montou
consult6rio e clinicou at6 ser
descoberto por um oftalmo-
logista de verdade, que o
desmascarou e o levou A justiqa.
Diante desses fatos, ojuiz federal se
convenceu do dolo do acusado, que agiu
"consciente, confessadamente, da falsi-
dade do document ptiblico, atuando
com pleno conhecimento de que proce-
dia ilegitimamente".
A hist6ria tem que levar o eleitor a se
fazer uma pergunta fundamental: quern
agiu dessa forma no passado, agird de
que maneira, agora e no future? Se para
ganhar mais dinheiro (os motives "mar-
cadamente argentarios" apontados pelo
juiz), quando era apenas dono de uma
6tica, Duciomar recorreu a um diploma
falso de m6dico, o que nao poderi fazer
com a maior prefeitura do Pard em suas
m5os, com uma clientele de 1,2 milhio
de pessoas?
Portanto, a posicqo de H61io
Gueiros no debate foi correta.
Correta tanto ao ser aplicada ao
caso Duciomar quanto ao pr6prio
H61io. Ha um epis6dio no seu pas-
sado que precisa ser relatado ao
eleitor de hoje, por dizer tanto
sobre o seu carter quanto
sobre a personalidade do
candidate do PTB.
Em abril de 1991, um
mes depois de ter deixado
o governor do Par, HWlio


Gueiros mandou uma carta ao superin-
tendente de A Provincia do Pard, Ro-
berto Jares Martins amboss, jornalista e
journal, ji falecidos). Quando abriu o en-
velope, Jares encontrou um bilhete sim-
ples. H61io lhe pedia que me encaminhas-
se a carta que havia colocado dentro des-
se mesmo envelope. A carta a mim en-
dereqada tamb6m se achava envelopa-
da, mas nao estava lacrada. Jares a leu.
Releu. Treleu. E continuou sob estado de
choque, sem acreditar no que lia.
A carta, escrita pelo home que
acabara de deixar a mais elevada fun-
gdo piblica no Estado, comeqava exa-
tamente assim:
"L6cio,
por que tu nao vais chupar o cu da
puta que te pariu?"
Assim mesmo: sem tirar nem por. E
continuava no mesmo diapasao por linhas
e mais linhas.
Era uma sexta-feira. Depois de ten-
tar me encontrar, sem sucesso, Jares
achou melhor s6 me encaminhar aquela
carta nauseabunda, cheia de palavr6es e
expresses chulas, na segunda-feira.
Assim, preservava meu fim-de-semana.
Na segunda-feira, bem cedo, me te-
lefonou e pediu-me para ir ao seu gabi-
nete, na sede do journal. Quando li che-
guei, ele imediatamente fechou todas as
portas, me deu um abrago, fez uma ligei-
ra introduqio e me passou o papel.
Li, reli, treli e nao conseguia absorver
o conte~ido da "coisa". Respirei fundo,
tomei o copo d' gua que Jares me ofe-
receu e voltei, mais uma vez, aquela cor-
nuc6pia de imoralidades, de pornografia
torpe, cabivel em latrinas. Jares, ainda
pilido e atento as minhas reag6es, ten-
tou contornar meu estupor:
Talvez seja uma carta falsa.
Tanto quanto eu, no entanto, ele sa-
bia que o ex-governador H6lio Mota
Gueiros, entdo com 64 anos de idade
(hoje tem 77), havia escrito aquela imo-
ralidade sem limits. Os caracteres
daquela miquina de escrever ma-
nual, ambos conheciamos muito
bem; e o estilo do author. Eu, at6
mais do que Jares: como re-
dator da coluna Rep6rter 70,
de O Liberal, durante um cer-
to tempo recebia e algu-
mas vezes copidescava
notas que H61io manda-
va para o journal. Mesmo
sabendo escrever e ten-
do um estilo agradivel,
ele grafava palavras A


4 SETEMBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal









sabendo a sua hist6ria


moda antiga, sem atualizi-las pelas re-
gras jd em vigor.
Contudo, a vilania daquela carta ul-
trapassava todas as piores expectativas
que podiamos ter sobre ele. A indigna-
qao tomando conta de mim, anunciei a
Jares que iria cobrar satisfaqdo na casa
do ex-governador, imediatamente. Jares
ponderou que seria um desatino. Aldm
de tudo, havia seguranqas na casa, que
fora um bangal6 discreto e ji na 6poca
sofrera uma convincente reform e am-
pliaqao. Mas concordou que era precise
fazer alguma coisa para confirmar,
de viva voz, a assinatura do re-
metente. Sugeri que ele ligas-
se para Gueiros. Eu ficaria na
extensdo, com o compromis-
so de me manter em sil6ncio.
Eram pouco mais de 10
horas da manhn quando Jares,
depois de passar pela profes-
sora Terezinha, que atendeu
a ligaqgo, falou com o ex-go-
verador. Disse-lhe que tinha
recebido a carta, mas que
n5o pretendia entregi-la por
consideri-la ofensiva. H6-
lio retrucou: "Mas 6 para
ofender, mesmo". Jares ain-
da tentou contemporizar, mas o remetente
exigiu-lhe que passasse adiante a corres-
pondencia.
Jares desligou e ambos ficamos um
bom tempo em sil6ncio, avaliando a situ-
agqo. Depois trocamos algumas id6ias,
ele me abraqou com aquela eloqiiencia
de amigo que lhe era muito pr6pria, e me
fui. Continue a preparar o Bandeira 3,
a nova versio do semandrio que eu ha-
via editado em 1975, agora em tamanho
maior, com uma boa equipe de jornalis-
tas, mas decidi que aquela seria uma edi-
2io inica. Eu iria reproduzir integralmente
a f6tida carta de H6lio Gueiros, cor a
qual ele imaginava me cobrir de lamas e
fezes, para alertar a opinido p6blica so-
bre aquele cidadao, que, jd naquela 6po-
ca, como hoje, pretendia chegar A pre-
feitura de Bel6m.
Ao mesmo tempo, iria me lavar da-
quela imundicie, retirada das entranhas
de um politico gerado, quando ainda jo-
vem, nos laborat6rios do PSD de Maga-
lhdes Barata, onde foram arquitetados
golpes ternveis contra seus inimigos, como
o que cobriu de fezes literais (e ndo ape-
nas vernaculares) outrojornalista, Paulo
Maranhdo, dono da Folha do Norte e o
mais temido inimigo do maior caudilho da
repdblica no Pard.


Por que reconto essa hist6ria?
Primeiro porque o marketing da cam-
panha de H6lio Gueiros joga seus encan-
tos sobre os jovens, para os quais 1991
pode ser uma idade neol6gica, antedilu-
viana. Ouvindo o rap do candidate e seus
inegiveis recursos orat6rios, podem achar
que se trata de uma candidatura risonha
e franca, sacramentada por cabelos bran-
cos, geralmente usados como sinete de
seriedade e honradez.
Nesse caso, estdo comprando gato
como lebre. Se Duciomar Costa foi ca-
paz de usar um diploma sa-
bidamente falso para usur-
par a profissdo de m6dico,
H61io Gueiros foi capaz de
assinar uma carta que re-
S digiu A base de palavr6es,
"o mais sujo document
public da hist6ria do Bra-
sil", segundo a definicao
que o almirante Mrio Jor-
ge da Fonseca Hermes
Ihe aplicou quando rece-
beu o papel. O military, que
conheceu o entdo gover-
nador do Estado quando
comandou o IV Distrito
Naval (antes de chefiar a
Armada), numa carta de solidariedade
que me mandou (autorizando mais at6
do que isso, induzindo seu uso), pediu
ao povo paraense para nunca mais dar
uma fungdo pdblica a H6lio Gueiros, por-
que ele ndo a merecia.
Tamb6m relembro essa hist6ria por-
que ela diz muito sobre os hibitos politi-
cos no nosso Estado. H61io Gueiros dis-
se na carta que decidiu escrev-la como
resposta a uma entrevista que eu havia
feito com seu successor, Jader Barbalho.
Em 1982 os dois estiveram no mesmo
palanque, Jader disputando o primeiro
mandate de governador e H6lio candida-
to ao Senado, vencendo como aliados.
Apareceram na eleiqao de 1990 como
inimigos mortais. Jader venceu a dispute
com Sahid Xerfan, que havia abandona-
do o mandate de prefeito de Bel6m (o
maior erro de sua carreira political, esta,
por si s6, um equivoco), depois da maior
vit6ria na hist6ria eleitoral da capital, para
ser o candidate de Gueiros, certos os dois
da vit6ria.
Como sempre fazia, pedi uma entre-
vista cor o governador empossado e fui
registrar suas declaraq6es, para cobra-
las ao long de seu mandate. Jader acu-
sou seu antecessor de ter comprometi-
do grande parte do orgamento de 1991,


adiantando despesas, para prejudicar o
ex-aliado e amigo. Todas as afirmativas
foram aspeadas. Era o governador quem
acusava, nao eu, limitando-me, enquan-
to entrevistador, a reproduzir as afirma-
tivas do entrevistado.
Fazendo de conta nao saber distinguir
uma entrevista de um artigo, mesmo sen-
do jornalista, H6lio me atribuiu a respon-
sabilidade pelas palavras de Jader (que
jamais as desmentiu) e me atacou de uma
forma inacreditdvel, como um moleque
de rua, um arruaceiro. Tanta agressivi-
dade nao guardava a menor correspon-
dencia com o objeto da carta. O ex-go-
vernador podia ter respondido a todas as
acusaq6es sem precisar descer ao sub-
mundo dos prostibulos, como fez.
Na verdade, a carta fora concebida e
executada com frieza semelhante A de
Duciomar Costa. Hl6io nao a havia es-
crito sob o efeito de bebida alco6lica,
como muita gente imaginou, ou movido
pela indignaqao. Planejara aquele lance
com a mesma amoralidade e falta de es-
crdpulos com que se houveram no pas-
sado muitos baratistas quando investi-
am contra seus adversarios ou desafe-
tos, dispostos a tudo, sem limits morais
ou 6ticos, sem respeito human.
A carta que me escreveu havia sido
colocada, aberta, dentro do envelope en-
dereqado a Roberto Jares Martins para
que o superintendent de A Provincia do
Pard a lesse, se assustasse e decidisse
acabar com a coluna que eu havia co-
megado a escrever no journal dos Didrios
Associados (no intervalo de uma suspen-
sHo tempordria deste JP, por dificulda-
des semelhantes as atuais).
H6lio exagerou na dose, por6m: tam-
b6m indignado, Jares me apoiou, rompen-
do com sua pr6pria tradicqo acomodati-
cia. Deu-me forga, ao menos at6 o mo-
mento em que comecei a incomodar o
bi-governador Jader Barbalho, por ele
apoiado, e perdi a coluna que tinha no
journal (tr8s vezes por semana), por nao
concordar com a censura que o querido
amigo tentou fazer. Por ironia, H61io di-
zia na carta que eu fazia o jogo do seu
ex-quase-futuro correligionario.
Pois foi exatamente o que H6lio Guei-
ros nao me perdoou: nio ter servido a
um dos pianos que carregava consigo
quando assumiu o governor do Estado, em
1987: destruir sua sombra e alter-ego, o
mesmo Jader Barbalho. Maquiavel ensi-
na sobre o 6dio que o favorecido devota
a quem o favorece (a gratiddo 6 a mais
CONTINUA N PAG 6


Jornal Pessoal 20 QUINZENA SETEMBRO DE 2004 5








Buraco da Palmeira agora e de concrete


Parece que o crit6rio sobre uso do "bu-
raco da Palmeira" teve duas determinan-
tes: a verba disponivel, de pouco menos
de 2 milh6es de reais, e o tempo estabele-
cido para que a obra pudesse ainda ren-
der votos para a candidate do PT A pre-
feitura de Bel6m, Ana Jdlia Carepa. Pra-
zo curto demais e verba insuficiente, tal-
vez. Falta complete de imaginagao e de
seriedade, de qualquer maneira.
O resultado 6 que a emenda corretiva
para uma das excrescencias da capital
paraense ficou tao ruim quanto o soneto
de p6 quebrado que a motivou. Depois de
anos de polemicas e (agora se v6) indteis
sugest6es apresentadas h administragao
municipal, o projeto concebido para tapar
aquele buraco aberto pela demoliqdo do


belo pr6dio da Palmeira (uma das vitimas
do barbarismo da primeira administration
Alacid Nunes, que p6s abaixo diretamen-
te ou inspirou a destruiqao de parte do
patrim6nio hist6rico e arquitet6nico da ci-
dade entire 1966 e 1971, numa "moderni-
zaqio" caricata e infeliz) transcendeu a
mais negative das expectativas.
Na ess6ncia, o buraco foi cimentado
e concretado para que 130 veiculos nele
estacionem, da manhn As 8 da noite. A
partir daf, nem Deus garante: o local, ja
sem as grades, que ajudaram os "talen-
tosos" da administraqgo H61io Gueiros a
faturar um pouco mais (cor a ajuda do
terminal pesqueiro e dos pontos de 6ni-
bus, entire outras estruturas metalicas ao
dispor do estaleiro campeio), vai ser pon-


to de encontro, albergue e tudo mais, acu-
mulando lixo e agua, enquanto o espa9o
da superficie, subutilizado, mantera a apa-
rancia de buraco, num desperdicio e num
atentado a inteligencia arquitet6nica.
Ha c6micas marcagoes para a priti-
ca de esportes, futebol sobretudo, mas
sera possivel jogar entire o ir-e-vir dos
carros, ou s6 quando eles se forem? Ha
improvisada arborizaqgo, mas ela pega-
rd? Ha tamb6m um micro-audit6rio, mas
seu uso sera mais intense do que o da
Praga Waldemar Henrique (a extinta
Praqa Kennedy)?
O antigo buraco da Palmeira talvez
passe a ser chamado de "o buraco do
Edmilson", simbolizando o lugar onde
cabe a atual administraqgo municipal.


CONTINUA;AO DAPAG.S
rejeitada das virtudes e a ingratiddo, o
mais comum dos defeitos humanss.
Gueiros sabia que s6 conseguiu retor-
nar A political, depois da cassag~o pelos
militares, no final da d6cada de 60, gra-
qas a Jader, de uma geraqdo depois da
dele no pessedismo de Magalhaes Ba-
rata. Ndo podia aceitar essa diminuiq~o.
Por isso, queria acertar essas contas,
quebrando o espelho que o fazia ver sua
real estatura, muito menor do que ele
podia pretender para si.
Desde que assumiu, o goverador pro-
curou me seduzir com um tratamento de
primeira. Eu era constantemente chama-
do a palacio, furava filas, tinha direito a
longas conversas a s6s e recebia docu-
mentos valiosos. O primeiro deles revela-
va um empr6stimo de 20 milh6es de d6la-
res que Jader fez tr8s dias antes de pas-
sar o governor a Gueiros, "esquecendo-se"
de avisa-lo que o "papagaio" venceria
imediatamente, em parcelas trimestrais,
sem carencia, tendo como garantia a cota-
parte do Estado no ICM (antes do S intro-
duzido pela Constituiqio de 1988). Hl6io
s6 soube quando o Banco do Brasil blo-
queou o repasse da Unido para se ressar-
cir da quita~io da parcela, que atrasara
por inadvertancia do governador.
Naturalmente, publiquei a informag~o
em O Liberal, onde entdo escrevia. Pu-
bliquei tamb6m detalhes escabrosos so-
bre o empr6stimo para a PA-150, sobre
os marajas do serviqo pdblico, sobre a
escandalosa sonegaqco fiscal, sobre os
assessores especiais e outros itens de
uma agenda da administraqgo anterior.
Era tudo que Hl6io queria: uma revi-
s~o em regra no governor Jader Barba-
lho, feita por algu6m de credibilidade e
que assegurava o sigilo da fonte, se ela


impusesse essa condiqio para repassar
documents ptblicos relevantes. Assim,
o pedestal de Jader continuou a ser mi-
nado, enquanto H61io se preservava. Via
o suposto aliado ser desmontado com sua
ajuda sem assumir qualquer participaq~o
na hist6ria, sem correr risco.
Quando o enredo ji ia avancado, um
dia H6lio me chamou para mais uma con-
versa reservada em palacio. No dia se-
guinte o president Jos6 Samey viria a
Bel6m anunciar a revogagio do decreto-
lei 1164, atrav6s do qual a Uniao federali-
zou, em 1971, dois terqos das terras devo-
lutas do Estado. H6lio pediu minha opi-
ni5o: o ato era ben6fico ou mal6fico ao
Pard? Disse-lhe que era um ardil sagaz.
O governor federal, ao mesmo tempo em
que atendia uma antiga reivindicagao dos
paraenses, inclusive de Jader, quando de-
putado federal, tirava uma arma do Esta-
do, que era o direito a indenizagao.
Depois de ouvir com atenqio, H61io
observou: esse Jader 6 mesmo um es-
perto. E riu aquele seu riso desafinado.
No dia seguinte, no palanque armado
no Centur, li estava H61io Gueiros ba-
tendo palmas para Sarney e para o mi-
nistro da reform e do desenvolvimento
agrario, "este verdadeiro estadista que o
Pard gerou", como disse no discurso.
Tudo fantasia, jogo de apar6ncias. Ao
gosto de H61io Gueiros.
Mas ele ndo p6de levar sua trama
at6 o fim. A ilusio do poder nunca me
seduziu. Ter acesso pleno ao governa-
dor, que me dava boas informaqoes, era
agradavel e 6til para o meu trabalho de
jornalista, mas nao era indispensavel.
NMo justificava pagar um preqo, qual-
quer que ele fosse. Uma vez a primei-
ra-dama, filha de um dos maiores ami-
gos de meu pai em Santar6m, o velho e


querido Manoel Moraes, antes de en-
trarmos no estiidio da TV Cultura para
participar de um program da emissora,
fez questao de destacar a excepcionali-
dade do tratamento que o marido me
dispensava. Alertou-me para nao colo-
car a perder essa deferencia. Fiz-lhe ver
que o governador recebia o jornalista,
nao o amigo. Eu queria apenas infor-
maq6es. Ela pareceu nao acreditar.
Mas quando comecei a apurar o fa-
vorecimento da Sudam ao estaleiro Ebal,
dirigido por dois filhos de H61io Gueiros,
as coisas mudaram. Ouvi o governador,
ouvi o superintendent (Henry Kayath),
que ele e Jader haviam colocado na Su-
dam, e publiquei a primeira denincia con-
tra a Ebal, seguida de outras. Se eu pu-
blicava fatos contra Jader, tamb6m pu-
blicaria contra Hl6io, caso esses fatos
fossem de interesse pdblico.
Quando nao houve mais d6vidas a
respeito da minha independ6ncia e de-
sinteresse pelos rapap6s do poder, entrei
para o index de H61io, como j havia en-
trado na mira de Jader. Hoje os dois es-
tdo novamente no mesmo barco, o que
parecia impossivel em 1991 (e 6 inadmis-
sivel por qualquer c6digo de honra), en-
quanto minha canoa continue a seguir seu
pr6prio rumo.
H61io Gueiros, que escreveu aquela
carta asquerosa para tentar me destruir,
semjamais supor que eu poderia publica-
la, agora pede o voto dojovem eleitor, como
um Papai Noel anacronicamente hippie (ou
rapper). Quem quiser que acredite. Mas
quem faz seujulgamento a partir da hist6-
ria verdadeira, daquela que os poderosos
e os oportunistas sempre querem calar,
havera de dar a sentenga que cabe a H6-
lio Mota Gueiros tanto quanto a Ducio-
mar Costa. Sem direito a prescri9go.


6 SETEMBRO DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal









Chico Mendes: her6i national


O acreano Francisco Alves Mendes
Filho, que se tomou famoso como o serin-
gueiro Chico Mendes, lider ecol6gico da
Amaz6nia, 6, desde o dia 22, um dos he-
r6is da patria. Seu nome foi inscrito no
"Livro dos Her6is da Patria", que fica
depositado no Panteao da Liberdade e da
Democracia, na Praga dos Tres Poderes,
em Brasilia, ao lado de Tiradentes, Duque
de Caxias e outros personagens da hist6-
ria national. A iniciativa da inclusio de Chi-
co Mendes no panteao, criado pelo Minis-
t6rio do Ex6rcito, foi da atual ministry
Marina Silva, quando ainda senadora pelo
Acre, em 2001. Aprovada pelo Congres-
so Nacional, a lei foi sancionada pelo pre-
sidente Luis Inicio Lula da Silva.
Os homenageados pelo "Livro dos
Her6is da Patria" devem ser personali-
dades que "se sobrep6em ao tempo e
permanecem iluminando e inspirando as
novas geracqes de brasileiros, apontan-
do o caminho do bem, da honra, da cora-
gem e do amor integral ao Brasil", se-
gundo seus criadores. Chico Mendes se
enquadra nessas exigencias?
Ao que parece, nao houve uma preo-
cupagqo de responder a essa pergunta.
A grande imprensa national praticamen-
te ignorou o ato presidential. A socieda-
de, se soube da informaq~o, nao conse-
guiu encontrar canais de expressao. A
honra conferida ao fundador do sindica-
to de Xapuri e da CUT acreana nao re-
percutiu nem para sua aprovaqio nem
para sua negaqao.
Se ele ja atingiu realmente o nivel dos
grandes her6is brasileiros, 6 questao a de-
bater. Mas dois fatos simultaneos ao da
entronizaq~o de Chico Mendes no panteao
national mereciam a atenqSo para a causa
a qual ele se dedicou. Talvez ajudem a ava-
liar melhor sua estatura de per-
sonalidade hist6rica.
A primeira diz respeito a so- Vi
brevivencia e viabilidade das ...
reserves extrativistas, criadas O g
inicialmente no Acre, a partir esquizc
da repercussio de sua atua- oposiq~
9qo, a mais important delas quase s
batizada cor seu pr6prio Che
nome. O governor do Amazo- Dilma I
nas, que agora aderiu ao pro- puxar a
grama, anunciou que pretend Petr6lei
aplicar neste ano 500 mil reais "preien
para subsidiary a produgqo de dreas pi
714 toneladas de borracha, determi
beneficiando cerca de 1.200 Seri
famflias de seringueiros e aju- Brasil a
dando na preservaqio de 150 "contra
mil hectares de floresta.


O apoio ao extrativismo da borracha,
component do program Zona Franca Ver-
de, foi iniciado em 2002. No ano passado,
pagando 70 centavos por quilo de borracha
comercializada, conseguiu aproduqgo de 275
toneladas de borracha natural. Corn isso, foi
possfvel reativar uma usina de beneficiamen-
to e a retomada da coleta de latex por ex-
seringueiros que estavam trabalhando em
outras atividades, como num garimpo em Ma-
nicor6, no rio Madeira. Usineiros do Acre e
Pard foram atraidos pela oferta de matdria
prima, o que resultou na elevagao do preqo
da borracha, de R$ 1,10 para R$ 1,80 por
quilo, na safra atual.
Enquanto a frente da produqio extra-
tiva avancava pelo Amazonas, no Acre,
depois de 20 anos de pesquisa, a Embra-
pa (Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuaria) anunciava que havia che-
gado a uma seringueira resistente ao mal-
das-folhas, a doenqa provocada pelo fun-
go Microcyclus ulei, que tem inviabili-
zado a produqgo de latex em escala co-
mercial na Amaz6nia. Os estudos che-
garam a uma plant que garante, ao mes-
mo tempo, alta produtividade, precocida-
de e resistencia ao fungo.
Os experiments ji se estendem por
sete hectares, continuando a ser produti-
vos. Eles tem permitido a extraqao m6-
dia de 800 quilos de latex por m6s, com
receita m6dia de 1,6 mil reais por mes. A
tecnologia aplicada ao cultivo dessas se-
ringueiras deu as comunidades extrativis-
tas a opcqo de enriquecer as antigas es-
tradas de seringa ou implementar o culti-
vo em sistemas agroflorestais.
O clima quente e dmido da Amaz6nia
favorece a proliferagqo do fungo, respon-
savel pelo mal-das-folhas, doenqa que nao
ocorre no Sudeste e Centro-Oeste do pafs.


e-versa
rande desafio da esquerda 6 superar uma
>frenia recalcilrante: libertaria quando estd na
io. torna-se autoritiria quando conquista o po
em exceqfo.
ga a ser divertido ver a ex-militanie da luta a
Rousseff. agora no Minisririo de Minas e Ene
orelha do diretor-geral da Agincia Nacional
o, embaixador Sebastiao do Rego Barros, poi
der subverter a hierarquia". ao critical o leilI
ara prospecqio petrolifera no litoral brasileirc
nado pelo governor.
a diverrido. se nao acabasse se tornando tr,
meaqa cair num golpe ainda mais lesivo do qL
tos de risco" do general Geisel.


Os t6cnicos do setor estimam que em Sao
Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Goids,
Espirito Santo e Bahia serao cultivados,
nos pr6ximos anos, aproximadamente 3
milh6es de seringueiras. Esses seringais
de cultivo poderao entao tender a deman-
da do mercado por borracha natural do
mercado national.
No ano passado, o Brasil produziu 95,5
mil toneladas de borracha seca, o equiva-
lente a 1% da produqio mundial, das quais
apenas 3 mil toneladas se originaram de
seringais natives. At6 o final da d6cada
de 70, esta proporqao era inversa: cerca
de 80% da borracha vinha de seringais
nativos, embora a produgqo atendesse a
apenas uma parcela menor do consume.
O fim de subsidies e do apoio t6cnico
do govemo, realizado atrav6s da extinta
Sudhevea (Superintendencia do Desenvol-
vimento da H6vea), de triste mem6ria, e
os m6todos obsoletos de extracao do 1I-
tex praticado pelos produtores, determi-
naram praticamente o fim da economic
da borracha nos Estados da Amaz6nia que
ainda produziam borracha natural: Ama-
zonas, Para e Rondonia. Apenas recente-
mente, a economic da borracha ganhou
f6lego no Acre, graqas a political de in-
centivo conduzidas pelos governor esta-
duais e federais, e agora comeqa a ser
retomada nos demais Estados da region.
Mas o caminho para o renascimento da
produCqo em escala significativa ainda 6
long e de desfecho incerto e nio sabido.
Pode-se questioner a consistencia do
crit6rio de escolha de Chico Mendes como
her6i da patria, mas se essa iniciativa ser-
vir para reabrir a questao em terms raci-
onais e conseqtientes, tera pelo menos
esse m6rito: submeter a antiga economic
da goma elastica ao seu teste definitive.
Mais alguns anos e sera possi-
vel dizer se a Amaz6nia pode-
ri voltar a ser uma zona de pro-
i duqio commercial e competiti-
va, atrav6s dos seringais natu-
rais e do modelo das reserves
der, extrativistas ou das plantaqces
de cultivo, em forma coopera-
rmada tiva ou empresarial, vencendo
rgia. as adversidades ecol6gicas ou
de se submetendo a elas (o que
r significa que a producao sera
o de realizada fora da Amaz6nia e
a, nao mais na regiao). Confor-
me o resultado, Chico Men-
gico. O des sera um her6i premonit6-
e o dos rio ou anacr6nico. Mas, de
qualquer maneira, pelo texto
de uma lei, her6i.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA SETEMBRO DE 2004








Oito anos depois, a obra de ocasiio


Duas e meia da tarde de segunda-fei-
ra, dia 20. Um caminhio atravessa na
pista da avenida Governador Jos6 Mal-
cher, de intense trifego no centro da ci-
dade, para descarregar areia na entrada
do Palacete Bolonha, que a prefeitura de
Bel6m esti reformando. O estreito cor-
redor que sobra na pista mal di para a
passage de carros pequenos, obrigados
a subir na calcada.
Comeca a se former uma fila de car-
ros na avenida. Motoristas nervosos buzi-
nam e xingam o motorist do caminhao,
que continue na bol6ia, enquanto dois ho-
mens tiram a areia da carroceria com pds.
Quando a confuso ji 6 considerivel, che-
ga uma viatura da Ctbel, a companhia
municipal de transit.
Varios guards conversam cor o mo-
torista e ajudam a dar partida num veiculo
do Ibama, que "pregou" exatamente no
local, aumentando a confused. Felizmen-
te os guards decide que o caminhao
ndo pode continuar a bloquear a avenida,
depois de alguma confabulacio e hesita-
9io. O motorist nao 6 multado, mas tem
que tirar o veiculo.
Apenas uns 20% da areia que trazia
foi descarregada. Mas nio temjeito: a obra
de restauraq~o do belo palacete vai ter que


aguardar um hor rio convenient para o
recebimento do material de construq o.
Assim tem sido sempre, reclama o moto-
rista: s6 quando o estoque acaba 6 feito o
pedido de reposiqdo, embora a obra este-
ja sendo tocada a pleno vapor. A intenqco
da prefeitura era inauguri-la antes da elei-
qdo, atraindo votos para a candidate do
PT A sucessao de Edmilson Rodrigues.
Mas naqueles bons minutes de transito
bloqueado, Ana Jdlia Carepa s6 fez per-
der voto. Era o que diziam alguns moto-
ristas quando colocavam para fora um rosto
vermelho de raiva.
O antecessor de Ana Jdlia e seu co-
lega de chapa em 1996, quando ela se ele-
geu vice-prefeita teve oito anos para tra-
balhar. Mas para quem mora em Bel6m
parece que ele s6 adquiriu ritmo nos 61ti-
mos meses. Ritmo, 6 verdade, mas nao
direcqo. O prefeito comeqou a tocar obras
de efeito localizado e mais para impressi-
onar do que para ajudar o municipio a sair
da dificil situagqo em que se encontra.
Obras eleitoreiras, que estavam para-
das ou que evolufam a pass de cdgado,
como o palacete Bolonha, adquiriram uma
marcagqo cerrada quando a data da elei-
9do comeqou a se aproximar no horizon-
te. Podem at6 render mais votos para Ana


Jdlia e assegurar a realizacgo do segundo
tumo, mas evidenciam a fragilidade admi-
nistrativa do PT em Bel6m, sua falta de
um planejamento de maior f6lego, a fragi-
lidade das suas political diante dos mais
s6rios problems que a cidade enfrenta.
Depois de quase oito anos de gestio, a
iniciativa da prefeitura foi a mais comum
e vulgar de uma administragqo p6blica
municipal: inaugurar praqas, realizar obras
de ocasiao, fazer o que da sem se impor-
tar com seus desdobramentos e uma vi-
slo de conjunto. A cena do caminhao des-
carregando areia numa art6ria central, em
pleno moment de rush do trinsito, podia
ter seu complement no tapume que cer-
cou os dois lados da Praga Amazonas, em
frente ao p6lo joalheiro do Sdo Jos6 Li-
berto. Uma metade talvez seja inaugura-
da. A outra, provavelmente nio.
0 PT perdeu o bonde da hist6ria em
Bel6m. Banalizou-se. O preco por essa
incompetencia esti nas ruas: o deses-
pero seguido da reaqdo de ultima
hora para evitar que um not6rio charla-
tao, conquistando a prefeitura j no pri-
meiro turno, obrigue o PT a devolver o
que o eleitor transferiu a Edmilson Ro-
drigues junto com seu voto em duas elei-
cqes: a esperanca.


Chagas abertas no vale do Jari


Foi anunciado festivamente, na quinzena
passada, que o Brasil havia conseguido supe-
rar a Bolivia como o pais com a maior exten-
sdo de areas de manejo florestal certificadas
na Am6rica do Sul. Com os selos de garantia
concedidos pelo FSC (Forest Stewardship Coun-
cil, o Conselho de Manejo Florestal, o mais
important certificador intemacional) a tres
novos projetos e a ampliaqio de outro ji em
andamento, a drea sob manejo ambientalmen-
te correto e socialmente adequado no Brasil
chegou a 2,3 milh6es de hectares, sendo 1,3
milhao de hectares na Amaz6nia.
O Estado com a maior area de florestas
certificadas passou a ser o Parn, que tamb6m
6 o segundo em desmatamento na region, tanto
pelo crit6rio quantitative (da extensao de dre-
as alteradas) quanto pelo relative (a propor-
qao do desmatamento em relaqgo a todo ter-
rit6rio do Estado).
As mais novas empresas certificadas sdo a
Orsa Florestal Limitada, Ecolog e IBL Madei-
ras. A Cikel, quejd possufa o selo, ampliou sua
area manejada. As areas certificadas na region
amaz6nica aumentaram de pouco mais de 400
mil hectares, no final do ano passado, para 1,3
milhao de hectares atualmente. Esse crescimen-
to se deveu, sobretudo, a um projeto de manejo


sustentdvel de florestas nativas de 545.535 hec-
tares no Pard, executado pela Orsa, empresa de
Sdo Paulo que substituiu o grupo Caemi no con-
trole do Projeto Jari, criado, no final da d6cada
de 60, pelo milionurio americano Daniel Ludwig.
A empresa produz celulose a partir de extensos
plantios de eucalipto, al6m de caulim, argila usa-
da para o revestimento de plantios especiais.
Ocupa terras no Pari e no Amapi.
Como, infelizmente, o process de certifi-
caqo ocorreu em tramitag~o fechada, nao se
pode ainda avaliar corretamente o significado
do maior de todos os projetos brasileiros de ma-
nejo florestal (e possivelmente da AL e do mun-
do). Quando comeqou a desmatar, em 1968, a
Jari esperava colocar abaixo toda mata native
que existia numa area de 100 mil hectares, subs-
tituindo-a por um plantio homog8neo de uma
esp6cie ex6tica, a gmelina arb6rea.
T6cnicos contratados por Ludwig haviam
encontrado essa drvore na Asia. Consideraram-
na, literalmente, um achado: proporcionava ce-
lulose em maior quantidade e mais cedo do que
as fontes tradicionais do produto, o pinho e o
eucalipto. Mas o plantio de gmelina se revelaria
um desastre no Jari. Ludwig teve que erradicar
quatro mil hectares plantados com a arvore asi-
itica e experimentar variedades tropicais de pi-


nho e eucalipto. Hoje, a Jar produz celulose ex-
clusivamente a partir de eucalipto. O "pulo do
gato" imaginado pelo miliondrio americano se
mostrou uma faldcia.
Atualmente a area plantada para corte raso
nio atende a demand. Novos desmatamentos
de floresta native nao s6 sao de custo elevado
como se tomaram socialmente inaceitiveis,
al6m de se chocarem cor as normas ambienta-
listas oficiais. Sem altemativa, a Jari teve que se
lanqar ao desafio de retirar madeira native para
processar e fazer replantio, tentando manter as
condiq6es originals da floresta. E um process
tdo inovador, ao menos na escala proposta, quan-
to o de Ludwig no final da d6cada de 60. A ino-
vagco, desta vez, 6 para melhor? A melhoria
est bem fundamentada? Hi motives s61idos para
acreditar nela?
Espera-se que os certificadores do FSC te-
nham feito essas e outras perguntas e encontra-
do as respostas competentes. Para a opinion pi-
blica, por enquanto, por6m, isso 6 coisa para
ingl8s ver. At6 que Sao Tom6 seja chamado para
conferir, em debate aberto, tocando nas chagas
que a empresa abriu no vale do rio Jari, entire o
Para e o Amapd. S6 assim verificard se as cha-
gas cicatrizaram e o organismo retomou a via
saudAvel no rumo da plenitude.


SETEMBRO DE 2004 2 QUINZENA Journal Pessoal









Arqueologia das Alagoas:



hist6rias dos anos Collor


Cleto Falcao, um dos quatro mosqui-
teiros da esquadra (ou quadrilha) de Fer-
nando Collor de Mello, acaba de cometer
Dez anos de silencio. 0 tftulo sugere que
o autor, personagem posicionado em local
estrat6gico do poder durante o bi8nio do
"caqador de marajds" em Brasilia, abriu a
boca para contar tudo o que viu ou soube
sobre os bastidores do period. Ao final
da leitura do livro, por6m, chega-se a con-
clusdo de que ele devia ter continuado
calado. Falou muito e disse quase nada.
Das 375 paginas da obra, das quais
18 abrigam 36 fotos, 20 ou 30 t6m al-
gum interesse para a opinido pdblica. Nas
demais, o autor tenta provar que 6 uma
pessoa simpitica, sedutora, "viajada",
"descolada", cosmopolita e quem du-
vidar hi de? honest. Sao relates de
vida do autor ao lado de celebridades,
em locais de prestfgio, atuando como
ator em moments importantes da his-
t6ria recent do pafs, conquistando be-
las mulheres e contracenando em epi-
s6dios outros, tipicos do curriculo de um
aut6ntico parvenu.
Alagoas 6 um dos redutos nordesti-
nos da mais antiga atividade econ8mica
ainda em plena produqgo no Brasil, a da
cana-de-auticar. A elite dos plantadores
e usineiros, velha de quase cinco s6cu-
los, anda pelo mundo, 6 desembaraqada,
identifica pratos e bebidas sofisticadas,
tem traquejo social e arranha Ifnguas
(como Collor, supostamente fluente ne-
las at6 se provar seu tatibitate multilin-
gtie) com a pretensao de conhec8-las.
Num trecho, Falcao queixa-se do "por-
tunhol apenas compreensivel" de Jimmy
Cliff, como se o cantorjamaicano devesse
comunicar-se em esperanto com um
monoglota radical, como Falcao, lidimo
representante de uma familiar de politi-
cos no Estado.
Essa gente tem brilho, em todos os
sentidos, mas tem pouca cultural (que nao
se adquire em revistas de divulgaq~o,
nem por milhas areas ou nauticas ape-
nas). E nenhuma identidade com o pafs
de origem de sua fortune, freqiiente-
mente apenas instrument para seus
apetites de poder.
Essa elite chegou ao comando da po-
litica national corn essa versao revista e
atualizada de Janio Quadros, quase qua-
tro d6cadas depois.
Um dos poucos bons moments do
livro, alias, 6 um didlogo em Roma, na


suntuosa embaixada brasileira da Pra-
ga Navona, quando Janio Quadros, ji
em alta octanagem, bate na tecla de que
s6 depois de 60 anos, na plena maturi-
dade, um politico deveria ser president
da Reptiblica.
Falcdo, sempre de raciocinio t~o ri-
pido quanto superficial, lembra que nao
apenas Collor, alvo das alfinetadas ver-
bais de Janio durante o encontro, erajo-
vem, que chegava aos 40 anos naquele
moment, ao se apresentar como candi-
dato ao Palacio do Planalto. Janio pos-
sufa essa mesma idade quando se ele-
geu, em 1960. Ao que Janio responded
de bate-pronto, fulminante:
E deu na merda que deu! E deu na
merda que deu!
Prof6tico.
Tamb6m 6 pedag6gico o capitulo no
qual o ex-deputado federal reconstitui seu
encontro cor o maior empresario brasi-
leiro, Antonio Ermfrio de Moraes. No
meio da conversa, Ermfrio pediu um che-
que, ja preenchido, de nove milh6es de
cruzados, equivalent a tres milh6es de
d6lares, ao irmno, Jos6, e o repassou para
a campanha de Collor, atrav6s do tesou-
reiro, PC Farias (que arrecadou US$ 134
milhoes, obtendo um saldo de US$ 52
milhoes, o maior saldo de campanha da
hist6ria das eleig6es no Brasil).
O apoio do lfder do grupo Votorantim
devia-se tanto ao temor de Lula quanto a
promessa de Collor de construir 500 mil
casas populares, promessa que soava
como misica nos domfnios do cartel do
cimento, liderado pela familiar Ermfrio de
Moraes. Com a expulsdo de Collor do
poder, os Ermfrio de Moraes procura-
ram o maximo de distancia do seu can-
didato collorido de 1989. Cleto faz
questao de ressaltar a proximidade opor-
tunista de 15 anos atrds.
Tamb6m possui certa utilidade sua
narrative sobre o apoio dos bicheiros do
Rio de Janeiro, que deram um milhlo de
d6lares e mais um aparato logistico em
um dos dois Estados onde Collor foi fra-
gorosamente derrotado no primeiro tur-
no (o outro foi o Rio Grande do Sul). As
coisas s6 melhoraram um pouco porque
Brizola se recusava a votar em Lula no
segundo turno, magoado com o tratamen-
to que os petistas Ihe dispensavam.
A rigor, espremendo-se as centenas
de piginas, o que sobra? Muito pouco.
Acima de tudo, alguns acertos de con-


tas com inimigos e desafetos. Por exem-
plo: a revelagCo dos dois motives que
teriam levado Roberto Marinho a de-
sencadear uma campanha contra o mi-
nistro da sadde de Collor, Alceni Guer-
ra, obrigado a demitir-se em meio ao
desmoralizante "escandalo das bicicle-
tas": a dispute dos dois por uma parla-
mentar "de beleza fustigante, invasiva"
(que Cleto nao identifica, embora seja
6bvio de quem esteja tratando: Rita
Camata, do Espfrito Santo) e a aproxi-
maqao entire Color e Brizola, o caudi-
Iho gadcho, na 6poca inimigo visceral
da Rede Globo.
Mas a ameaqa de contar tudo nao vai
al6m disso. Falcao usa subterf6gios e
prefer restringir-se a insinuaq6es, sem
graqa por Ihe faltar leveza de estilo. Ele
tenta ser ir6nico e sarcistico, mas como
chegar a tanto num texto onde hi pesso-
as "rindo estruturalmente" ou com "uma
pequena vantage na frente"?
Deve ter resultado em ganhos para
Cleto Falcao, com sua cara na capa do
livro, seu carter resistindo a tantas aven-
turas suspeitas, sua renitente bem-que-
renga a Collor e o glamour que, modes-
tamente, atribui a si e ao chefe. No 6lti-
mo capitulo revela o segredo valioso que
guardou durante 14 anos: a ministry Z6-
lia Cardoso de Mello, das cobiqadas per-
nas grossas, amava o president collo-
rido. Foi com amorr de verdade" que
ela Ihe dedicou o livro que Fernando Sa-
bino, em hora aziaga, escreveu, narran-
do-lhe a vida gloriosa at6 aquele moment
(e nunca mais, apesar de Bernardo Ca-
bral e Chico Anysio d'apres).
Convenhamos: 6 muito pouco para
tanta promessa. O narrador se repete
em suas hist6rias e enche longilfneas
lingiiicas. Seu ghost-writer, Fernando
Barros, ter muito de ghost e pouco de
writer. Passa o livro inteiro tentando
aplicar corretamente porque, por que e
porqu6, enquanto se atrapalha com a
crase, que, como todo mundo sabe, nao
foi feita para humilhar ningu6m. A di-
gitaCqo do texto foi apressada e a revi-
sao deixa muito a desejar.
O que se salva na obra 6 o trabalho
grifico. A embalagem 6 de primeira. O
conteddo 6 que 6 de tiltima. Cleto Fal-
cao, se com este livro pretendia assegu-
rar o seu lugar na hist6ria, vai ter que
continuar acompanhando os aconteci-
mentos no posto que lhe cabe: o sereno.


Jornal Pessoal 2' QUINZENA SETEMBRO DE 2004










































Jud6
Em outubro de 1958 voltou
a funcionar, na sede do Corpo
de Bombeiros, a entdo famosa
Academia de Jud6 Conde
Koma. Era president da aca-
demia ojovem Sebastido Hoyos,
que durante alguns anos foi en-
volvido em umrn rumoroso caso
de assalto a uma ag~ncia ban-
cAria, na qual trabalhava, na Su-
fga, para onde se transferiu. Aca-
bou provando sua inoc~ncia.

Geladeira
Lauranio Rocha, ji faleci-
do, e Itair Silva lideraram uma
campanha que finalmente, em
1958, realizou uma "velha as-
piraqdo" dos estudantes da
Faculdade de Direito, no Lar-
go da Trindade: a compra de
uma geladeira para a sede do
Centro Social Cl6vis Bevilic-
qua. Independentemente de
facq6es partiddrias, os acad8-
micos contribufram para a co-
leta. A entrega do aparelho foi
solene, na presenga do dire-
-cl

|
-^|

















































solene, na presen~a do dire-


FOTOGRAFIA

Procissfio na avenida
O dia de Sdo Crist6vdo, comemorado em 25 dejulho de 1962, comecou com uma missa na
Catedral, mandada rezar pela Unido Beneficente dos Choferes do Para, com o apoio do Sindi-
cato dos Motoristas e dos Proprietirios de Coletivos, nesta salada de frutas corporativa mesmo.
Depois, houve uma grande procissdo sob rodas, aberta por carros importados (da era dos cadi-
llacs contrabandeados), que desfilaram pela rua mais nobre da cidade, a Jodo Alfredo/Santo
Ant6nio, antes de consumada a devastacgo urbana.

PROPAGANDA

Vendas no Cirio
Nenhum Estado brasileiro tem uma festa como o Cfrio de Nazar6. Algumas festas nacionais
costumam ser mais bem comemoradas em um Estado do que nos outros. A Bahia mestiqa,
hibrida e sincr6tica lidera o calendario das festividades. Mas nem na Bahia hi uma festa local
com a duraqdo de 15 dias e a forqa do Cfrio no Pard, o segundo (ou o primeiro) Natal dos
paraenses. Por isso, 6 uma boa data para vendas. As pessoas estao predispostas a aumentar
seu guarda-roupa, estocar comida e consumer. Inclusive cigarros. Daf esta peqa, de 1958, da
fibrica de cigarros A Nacional, que produzia os Estadistas e os Acad8micos. Na quadra naza-
rena, a empresa sorteava brindes entire os que juntavam as carteiras vazias das duas marcas.
Dez carteiras de cada uma delas dava direito a um taldo numerado. O sorteio nesse ano seria no
dia 18 de outubro, no Programa Antonino Rocha, no Radio Clube, as nove e meia da noite.


tor da faculdade, o future go-
vernador Aloysio Chaves.
Fe eTa de Depois da solenidade foram
servidos copos de Coca-Cola.
_a eosta mdxlma ao povo paraenso Gelada, naturalmente.

CPI
I Em 1962 a Assembl6ia
Legislative do Pard criou uma
Comissdo Parlamentar de In-
ri qudrito para apurar as dentin-
cias feitas contra a Rio Impex,
uma grande empresa estran-
1 geira que extrafa madeira,
principalmente o mogno, no
baixo Tocantins, a partir de sua
[lilADll A, et ACAEMIlCS base, em Tucuruf. Os integran-
oa cgaros do gcrandec momeinat estisvos tes da CPI fizeram uma via-
f V.:gem a area, constatando que
a Rio Impex exportava a ma-
... .. .... .. ..... ......... ""1 *ciM-. ., -. deira sem qualquer control.
M~ft ru rrn ,r^ *! MM irrburb.r i crdsr uluc u iuc


10 SETEMBRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal






Na volta, o deputado Adria-
no Goncalves disse que o con-
trato do govemo cor a empre-
sa era "o maior escqndalo em
matdria de advocacia adminis-
trativa ji realizado em nosso
Estado, com a cumplicidade do
governor estadual e at6 da fisca-
lizaco aduaneira e do Minist6-
rio da Agricultura, que nio zela
pela preservacqo das nossas ri-
quezas e reserves florestais, en-
tregues A sanha insaciivel des-
ses estrangeiros, que estlo fa-
zendo o que bem entendem em
nosso Estado, com incomputd-
veis prejuizos para a Nagqo e
para o nosso miserivel Estado".
Nada de novo no front,
portanto.

Sonoros
Havia tantos sonoros em
Bel6m em 1962 que o delega-
do Heliomar Matos decidiu
baixar uma portaria regula-


mentando os servigos de som,
que, a partir dessa data, teriam
que se registrar na 3a Delega-
cia Auxiliar da Secretaria de
Seguranqa Piblica. Um dos
dispositivos mais drdsticos da
regulamentaqo era a proibiqo
As "chamadas alvoradas, que
se vem realizando de madru-
gada, antes, portanto, da hora
de inicio para a prAtica regula-
mentar das irradiaq6es", que
era As oito horas da manha.
As irradiaqoes, a partir des-
se hornrio, ndo poderiam ser
feitas por mais do que seis ho-
ras contfnuas, com intervalo
entire as 14 e 16 horas (para a
"sesta", naturalmente), encer-
rando-se as 22 horas. Dai em
diante, as irradiaq6es s6 eram
autorizadas em programa in-
tero" e os "projetores", a de-
signaqo entio dada as caixas
de som, teriam que ficar restri-
tos a 30% de sua capacidade


maxima. Nas ruas, o limited era
de 50%, mas os "projetores"
(que felizmente nao tinham a
atual potencia) teriam que ser
colocados "em lugares apropri-
ados de modo que as irradia-
96es nmo venham perturbar o
sossego e as atividades pdbli-
cas e privadas". Al6m da sus-
pensTo entire as 14 e 16 horas,
os sonoros ficavam obrigados
a guardar meia hora de silencio
entire 19,30 e 20 horas, ou en-
tio retransmitir "A Voz do Bra-
sil", o program radiofonico da
Agencia Nacional, que nunca
foi exatamente popular.

Teatro
Em agosto de 1960 o Norte
Teatro Escola, de Bel6m, ence-
nou "Pic-Nic no Front", uma
pega vanguardista do espanhol
Fernando Arrabal, durante o m
Festival Nacional de Estudantes,
realizado em Brasilia. Depois,


repetiu a dose, com o mesmo
sucesso, no audit6rio da Socie-
dade Artistica Internacional
(onde funciona atualmente a
Academia Paraense de Letras).
Teatro, entdo, era mesmo
cultural.

CPOR
Fernando Velasco, pela in-
fantaria, e Alberto Penedo, pela
intendencia, disputaram, em
1962, a presidancia do Grnmio
General Gurjlo, que reunia os
alunos do Centro de Preparaqo
de Oficiais da Reserva (CPOR),
em Bel6m. Velasco venceu.
Com ele, os demais membros
da diretoria: Jos6 Blanco (vice-
presidente), Guilherme Feran-
dez, Celso Malcher, Fernando
Martins, Jos6 Maria Carvalho,
Jos6 Xerfan, Luiz OtAvio Perei-
ra e Walbert Monteiro, que era
o orador official. Todos, agora,
na ativa civil.


Dinheiro illegal: o fio da meada


A Policia Federal e o Minist6rio Pibli-
co tem o registro de 534 mil operaqges
realizadas em 44 contas abertas por do-
leiros brasileiros no MTB Bank de Nova
York, fechado pelas autoridades america-
nas exatamente por causa dessas irregu-
laridades, que provocaram a operaqao
"Farol na Colina" (ver Jornal Pessoal
328 e 329). Dessa enorme ciranda de
transaq6es financeiras ilicitas, apenas 39
envolveram valores superiores aos US$
10.999.982,50 (praticamente 11 milh6es de
d6lares, ou 33 milh6es de reais de hoje)
que Cecilio do Rego Almeida, dono da
Construtora C. R. Almeida, autorizou se-
rem transferidos, no dia 9 de abril de 1998,
de uma dessas contas de doleiros, em nome
da General Star Corp., para o Brasil.
NSo 6 apenas o alto valor da transfe-
rencia que provocou o interesse das au-
toridades brasileiras, que investigam o
desvio e a lavagem de dinheiro a partir
das contas CC-5 do Banestado, no Pa-
rana, Estado onde a empreiteira tem sua
sede. Todas as transacges analisadas
foram feitas por instituiqces financeiras
ou por empresas. Essa foi a dnica reali-
zada por pessoa fisica. Mas o empresa-
rio nao comunicou ao Banco Central a
entrada no pafs de moeda estrangeira,
conforme determine a lei.
Quando a noticia foi divulgada pela
imprensa national, na quinzena passa-


da, o chefe do Departamento Juridico
da C.R. Almeida, Sandro Martins, in-
formou que o dono da empresa estava
internado num hospital, recuperando-se
de uma cirurgia cardiaca, e por isso nao
poderia prestar declaragoes. Martins
tambmr se recusou a fazer qualquer
consideraqgo a respeito do fato. Ale-
gou que o dep6sito foi efetuado em
nome da pessoa fisica do empresario,
nao da empresa na qual trabalha.
0 epis6dio 6 grave, mas nao 6 novo
na biografia de C. R. Almeida, que fre-
qientemente se envolve em polemicas,
atritos e confuses. Tr8s anos atris ele
foi incluido no cadastro do Instituto Na-
cional de Colonizaqao e Reforma Agrd-
ria, o Incra, como um dos maiores gri-
leiros de
terras do Brasil. Raul Jungmann,
ministry da reform agraria na admi-
nistraq o Fernando Henrique Cardoso,
responsivel pelo "Livro Branco da Gri-
lagem", foi processado por Cecilio Al-
meida, que se considerou ofendido com
a refer8ncia.
O foco do conflito era a pretensdo
do empresario de domfnio sobre uma
area de 4,7 milhoes de hectares (ou 7
milh6es, conforme as virias verses
dele pr6prio) no Xingu, regido central
do Pard conhecida como "Terra do
Meio". O dono da C. R. Almeida se


declara proprietirio legitimo da area,
embora um inqu6rito instaurado pela
Policia Federal tenha concluido pela
apropriaq~o ilicita de terras, ainda per-
tencentes ao patrim6nio piblico, do qual
jamais foram desmembradas por via
legal. O inqu6rito foi recebido pelo Mi-
nist6rio Pdblico Federal e serviu de base
para a dendncia dos indiciados perante
a justiga federal.
Cecflio do Rego Almeida 6 autor de
tres aq6es contra mim, duas cfveis e
uma criminal, pretextadas por matdrias
que publiquei neste journal, denunciando
a grilagem das terras paraenses no Xin-
gu por um paraense (de Obidos) enri-
quecido no Parand. Pelo mesmo moti-
vo, o desembargador Joao Alberto Pai-
va, ji aposentado, autor de voto vence-
dor que deu razdo As pretensoes do
empresario em uma das camaras civeis
do Tribunal de Justica do Estado, ajui-
zou uma aqao penal e outra civel contra
mim. Conseguiu minha condenacgo,
cor base na Lei de Imprensa, por su-
posto delito de difamacqo.
A revelagCo de que C. R. Almeida
esta entire os autores de movimentaq6es
ilegais de dinheiro estrangeiro pode con-
tribuir para iluminar melhor esse ambi-
ente nebuloso, que faz parecer como jus-
tiqa e verdade o que constitui fraude,
crime e perseguicgo.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA SETEMBRO DE 2004 11









AGRISAL

Em 1979 a Sudam (Supe-
rintendencia do Desenvolvi-
mento da Amaz6nia) execu-
tou a Agrisal na justiga fe-
deral, acusando a empresa
de ma aplicagao de recursos
dos incentives fiscais desti-
nados ao plantio e benefici-
amento de caju em Salinas,
no litoral paraense. Em ga-
rantia do ressarcimento do
dinheiro ptblico foram hipo-
tecadas as 57 areas de ter-
ras que a empresa ocupava
ou das quais era proprietaria
em torno da cidade.
Um quarto de s6culo de-
pois a tumultuada hist6ria do
process esta recomeCando:
a desembargadora Carmen-
cin Cavalcante, Corregedora
Geral de Justiga do Interior,
determinou a realizagao de
correigdo extraordindria nos
cart6rios de Capanema e Sa-
lin6polis, com a finalidade de
esclarecer a cadeia dominial
da Agrisal. A media foi to-
mada a partir de um amplo
pedido de provid6ncias apre-
sentado pelo advogado Fabio
Costa ao Minist6rio Piblico
do Estado. E antes do surgi-
mento de uma forga-tarefa
que tratard do problema no
piano administrative.
Segundo a dendincia do
advogado, referendada pela
promotora de justica Joana
Coutinho, mesmo hipotecadas
a Sudam, as terras foram frau-
dulentamente levadas a leilao
(extrajudicial) por um dos cre-
dores da empresa, o Banco da
Bahia, e arrematadas por Wil-
son Aratijo, mais conhecido
como Dodo, aproveitando-se
da conivencia ou de erros do
official de registro de im6veis
de Salinas, o ex-prefeito do
municipio, Raimundo Botelho.
Diante de tantos ditos e
contraditos, num dos mais
complicados casos do acer-
vo da Sudam, a corregedora
resolve recomeqar o enre-
do do inicio, mandando re-
constituir a cadeia dominial
dos im6veis para saber quem
diz a verdade e quem men-
te. E, se o bom Deus o per-
mitir, finalmente dar anda-
mento a essa demand apa-
rentemente sem fim.


Africa, aqui
A primeira definiqdo de hist6ria vem facil e simples na es-
cola primiria: a hist6ria 6 mae e mestra. Mas certas liqces s6
terao conseqiiencia quando a maturidade nos faz entende-las
pela vivencia. Sabemos o que 6 por vermos sua materializagao,
pela repetiqCo do fato. No primeiro moment ele 6 acaso. No
segundo, tendencia. No terceiro, provavelmente, hist6ria para
valer.
O president Lula esteve outro dia no Gabao. Nenhum presi-
dente brasileiro foi, fisicamente, mais vezes A Africa do que Lula,
mas outros tomaram o continent como leitmotiv ret6rico. At6
mesmo o regime military, quando Azeredo da Silveira era chance-
ler, empunhou a bandeira da solidariedade ao terceiro mundo.
Certas palavras de ordem viraram jargao. Ou chavao.
Mas agora nao se trata mais apenas de discurso terceiro-
mundista. Lula nao foi a Africa s6 para fazer relaq6es ptblicas
e perdoar dfvidas. Levou consigo a Companhia Vale do Rio Doce
ou vice-versa, seria mais correto dizer, subvertendo o protoco-
lo. A Vale esti interessada no manganes do Gabao, ela que in-
crementou a extradao de manganes em Carajis, a ponto de che-
gar a uma escala enorme, de 1,5 milhao de toneladas anuais.
Quando manganes entrou no nosso vocabulfrio, na d6cada
de 50, o Gabao lhe era verniculo acompanhante. Era no Ga-
bao que os Estados Unidos iam buscar o manganes que faltava
as suas sidenirgicas. Com a descoberta da rica jazida de Serra
do Navio, no Amapi, o caminho foi encurtado a menos da
metade, com um ganho de teor e mais lucro, claro. Ainda
vinha min6rio do Gabao, permitindo aos americanos estocar
boa parte do mangan6s que levavam do Amapa, que virou re-
serva estrat6gica.
Antes do encerramento do prazo do contrato de explora-
gao, de 50 anos, concedido ao grupo Antunes, associado a Be-
thlehem Steel, o segundo grupo siderirgico dos EUA, o mind-
rio commercial ji tinha acabado. Ficou o buraco, o residue e a
sensaqao de que a pigina da hist6ria do mangan8s no Amapi
foi rasurada. O antigo territ6rio federal, promovido a Estado,
pouco ou nenhum proveito tirou'de um dep6sito mineral estra-
t6gico mundialmente.
Por ironia, uma empresa brasileira se apresenta agora para
substituir as gigantes corporaqces americanas no mesmo Ga-
bao para o qual o Amapi foi oportuno sucedaneo, aumentando
os ganhos das siderirgicas dos EUA e mantendo sua hegemo-
nia. Qual serd a grafia brasileira nessa pdgina da hist6ria afri-
cana? E uma boa pergunta. A mae e mestra responderd algum
dia, se os homes nao comprometerem o enredo antes. Agora,
de qualquer forma, nossa diplomacia abre-alas para o neg6cio,
as usual. Mesmo cor toda ret6rica solidarista.


CARLOS GOMES

Depois de 30 anos de espe-
ra, sai, finalmente, o livro deC16-
vis Moraes Rego sobre Carlos
Gomes (Carlos Gomes no
Pard, L & A Editora, 583 pdgi-
nas). t o mais important traba-
Iho do ex-govemador, que se tor-
nari fonte indispensavel de con-
sulta para quem estiver interes-
sado em se informar sobre os
quatro meses finals que o gran-
de maestro e compositor paulis-
ta passou na capital dos paraen-
ses, no esplendor de Bel6m sob
a riqueza gerada pela explora-
qao da borracha, em 1896.
Numa segunda edicao, o tra-
balho deveria ser mais bem edi-
tado, com a necessria distinqao
entire o texto de Cl6vis Moraes
Rego e suas citaqoes e uma re-
visao mais atenta. Apesar de
volumoso, o livro 6 legivel com
prazer e proveito. Louve-se a
correiao do autor, que concen-
trou toda sua atengao no objeto
de sua pesquisa, realizada com
paci8ncia, atenqao e integral de-
voNo ao personagem. Com sua
obra, o velho professor repde de
vez a historiografia sobre o final
da vida de Carlos Gomes no eixo
certo. O genio musical campi-
neiro nao teria encontrado, nas
condig0es em que se encontra-
va, melhor cenrio para testemu-
nhar seu padecimento final do
que o Pard.
Ao firmar esse entendimen-
to, Cl6vis Moraes Rego tamb6m
contribui poderosamente para
impedir que a excepcional aco-
Ihida dos paraenses ao autor de
"O Guarany", ha pouco mais de
um s6culo, se desvanea nas bru-
mas da desmemoria de hoje.


CICLISTAS
Os ciclistas, cada vez mais numerosos na cidade, sofrem nas ruas hostis de Bel6m. Mas ji
sao tantos que, ingressando na cadeia predat6ria, estao causando danos ao elo final dessa
rede, justamente o mais fraco: o pedestre. Multiplicam-se os casos de atropelamento de pes-
soas nas ruas por ciclistas na contra-mao ou em manobras imprudentes. Perseguidas pelos
carros, as bicicletas danam-se para os transeuntes. Outro dia testemunhei uma senhora, ji
idosa, ser remessada ao alto por uma mulher que parecia pedalar um tanque, indiferente A via
de trafego.
Para evitar que a batalha viTria se tome mais sangrenta, ji 6 hora de as autoridades do
transito darem um basta nesse caos e imporem aos ciclistas as regras que eles cobram dos
motorists de onibus, caminhoes e autos de passeio, como se dizia antigamente.

jona Pesa Edtr L.i .1i Pinto
Fns. (01 24.66 *otao TvBejai Contan 84/016.5-4 -emal jona@a zo.o.. 5., Prduo AneimPnt-Ed ,,d.'. zPit




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