Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00272

Full Text









~,\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\


M'sRRE H FVLAfl
(PAG. 7)


AGOSTO DE 2004
la QUINZENA
No 327 ANO XVIl
R$ 3,00


Como bar ata tonta


Desinformodo e manipulodo por uma coberturo burocrditico do imprenso, que tem
interesses em jogo, o eleitor ando otrds de referincias poro escolher seu condidato 21
prefeituro de Belidm. Voi bused-los ot4 nos pdjginos de uma revisto poulisto, emboro sujeito
a compror goto por lebre.


A edi~gio da revista Istoe' da semana passada esgo-
tou em Bel~m. Nio por causa da bombbstica matt-
ria de capa, com mais uma denducia contra o presi-
dente do Banco Central, Henrique Meirelles. A atra-
950, para os paraenses, era a divulgaglio do resulta-
do de uma pesquisa eleitoral realizada em Beltm.
Nko importava aos leitores que apesquisa te-
nha sido realizada por uma instituigil desconheci-
da, a Databrain. Incomodado comn a desinformalio
e sbfrego de orienta~go, o eleitor da capital paraen-


se gostaria de ter ao seu alcance uma fonte de refe-
rincia mais confibvel do que os interminiveis bo-
atos que lhe chegam sobre quem lidera a corrida pela
prefeitura da cidade, a mais important dispute elei-
toral no Estado.
Segundo a pesquisa Istod/Databrain, a senado-
raAnaJlilia Carepa, doFT, estitna frente, com 33,2%
das inten95es de voto. Slo sete pontos percentuais
a mais do que o candidate do governor do Estado, o
tambtm senador Duciomar Costa, do PTB, com


Pesso0
























































































2 AGOSTO DE 2004 P QUINZENA JOrnal PeSSOal


on?.'??.io R.. iiff..
26, 1%. O terceiro colocado, Martinho Carmona, do
PDT, estaria com 10,2%.
Qual a conflabilidade da pesquisa? Nbi muito
grande, a julgar pelos ji tradicionais procedimen-
tos da revista. Ela costuma oferecer (para quem es-
teja disposto a pagar) essas sondagens, quando co-
megam as campanhas eleitorais (dal as procedentes
suspeitas sobre esse tipo de aferigli no tiro de lar-
gada dos candidates). Principalmente porque as
pesquisas feitas localmente, embora nilo divulga-
das, estariam dando o inverse: uma vantagem de
7%~ a 11% para Duciomar.
Mas se o que dizem as fontes com acesso is pes-
quisas for verdade, como 6 que o cidadlIo comum
pode explicar que um dos candidates, o ex-prefeito
Hdlio Gueiros, do PMDB, escreva sistematicamen-
te em sua coluna dominical no Did'rio do Pard' que
Duciomar vive ameagando abandonar a dispute, de-
sejoso de continuar a usufruir as delicias da sua ca-
deira senatorial em Brasilia?
Quanto a Gueiros, nito hB mistbrio. Seu lado
jornalista, que continue a dispor de um espago (uma
pigina semanal) para se manifestar e difundir seu
nome no segundo journal de maior tiragem no Esta-
do, foi sufocado pela sua face de candidate. Ao can-
didato, que teria 4% das intenq8es de voto, segun-
do a pesquisa da revista paulista, as noticias de-
vem ser fabricadas conforme as conveniincias.PFor
isso, suas fontes de informagilo slio sempre anini-
mas. Mas quem o le hB mais tempo sabe: a fonte de
H61io Gueiros 6, sempre, H61io Gueiros.
Tantos desencontros e manipulagaes, que de-
sorientam o eleitor, resultam da omissbi da impren-
sa. A cobertura dos dois principals grupos de co-
municaqIlo do Pari, o da familia Maiorana e o do
deputado federal Jader Barbalho, tem sido burocrC-
tica, altm de parcial, comprometida, tendenciosa.
Deve-se registrar, por~m, que mesmo com seus
interesses diretos na political, os Barbalho parecem
mais empenhados em assegurar uma margem de
profissionalismo. Talvez assim possam n~io repetir
os erros do passado. Em todo period eleitoral, os
rumos empresariais da corporaglio tim ficado su-
jeitos aos seus interesses politicos, quase a obri-
gando a comeg~ar do zero a busca da credibilidade,
at6 hoje nito conquistada.
Jg o grupo Liberal, que sempre teve candida-
tos, explicitamente ou veladamente, agora tem o co-
mando de um partido, o PL, que langou a advogada
Avelina Hesketh (ex-presidente da OAB/Pard) como
companheira de chapa de Ana Jillia. A histdria des-
sa alianga exemplifica a forma de proceder na atual
corrida eleitoral.
A sete horas da realizaglio da convenglio do par-
tido para a escolha do candidate, no dia 30 de ju-
nho, o deputado estadual Cipriano Sabino, o nome
quej jestava praticamente decidido (e impresso no
material de divulgagli), mandou anunciar sua de-
sistancia. Seu gesto provocou tal perplexidade que
imediatamente surgiu a version de que ele foi pres-
sionado a voltar atris por iniciativa do governador
Simlio Jatene, do PSDB. Cipriano certamente tira-
ria mais votos de Duciomar Costa do que qualquer
outro nome ao alcance do PL, favorecendo dessa
maneira aconcorrente do PT. Vantagens teriam sido
oferecidas em troca da iniciativa.
A interpreta~gio se confirmou, de certa forma,
quando o PL, depois de ter colocado Avelina no
lugar de Cipriano, ofereceu-a como companheira
de chapa da senadora Ana Jlilia, formando uma ali-
anga simplesmente impensivel algum tempo
atris. Com isso, os veiculos do grupo Liberal pas-


saram a dar espago maior para as candidates da
nova coligaglio.
A reagio dos tucanos foi difundir a noticia de
que o FT estaria alimentando a candidatura do de-
putado estadual Martinho Carmona. O pastor-po-
litico teria a missbi de entrar na faixa da populaglio
mais sensivel g pregaglio populista do ex-quase-
futuro medico Duciomar (agora bacharel em direi-
to, graga a um artificio, aceito pela diregio da Una-
ma, que lhe conferiu o diploma, mas nbi advogado,
por nio ter feito o exame de ordem na OAB). Um
indicador seria a propaganda eleitoral do ex-presi-
dente da Assembltia Legislativa (vivamente inte-
ressado em voltar ao cargo, independentemente at6
quem venga a dispute pela prefeitura de Bel~m), que
estaria sendo feita por um notivel publicitirio pe-
tista.
A forga de Duciomar nas camadas mais pobres
(e, obviamente, as mais numerosas) B vista pelo
governor tucano como a oportunidade rara de reto-
mar o control do principal coldgio eleitoral do
Estado, com pouco mais de 20% dos seus votantes.
Seria um pass important para a reeleigli de Si-
miio Jatene, dentro de dois anos, e para a conquista
da (inica vaga de senador que estar8 em jogo em
2006. Essa circunstincia possibilitou o reforgo dos
tragos de liga~gio entire o atual governador e o seu
antecessor, quej jestavam se desfiando.
O deslocamento de Duciomar do Senado para a
prefeitura de Beldm, fazendo subir o suplente-em-
presirio Fernando Flexa Ribeiro, compare e par-
ceiro de Almir Gabriel, e a amplia~gio da base de
apoio de SimlIo Jatene (inclusive incorporando o
PMDB de Jader Barbalho), vai dar mais consistan-
cia aos pianos tucanos de control da political esta-
dual por pelo menos duas d~cadas, um sonho que se
desfez para o tucanato federal.
Ei por isso que o ex-governador Almir Gabriel,
indiferente ao inc~modo 6tico de apoiar um rtu
confesso (beneficiado pela prescriglio da agio) de
fraudar o diploma para exercer ilegalmente sua pro-
fisslio de medico, entrou de vez na campanha. Niio
s6 em Belim. Em Ananindeua tamb~m. No segun-
do mais populoso municipio do Estado, integrante
da regilo metropolitan da capital, as pr~vias indi-
cam uma vitdria ficil do deputado estadual Helder
Barbalho, atualmente com mais de 60% das prefe-
rancias. S6 um fato traumitico poderia inverter essa
posigli. Helder 6 o projeto de sobrevida do pai na
political paraense, sem os traumas do patrono.
Jatene n~Io pretend tentar nessa aventura, que
poderia comprometer seu acordo com Jader Barba-
lho para o segundo turno em Beldm, mas ela se tor-
nou uma question pessoal para seu correligionitio,
endossado pelo grupo Liberal. No caso, o objetivo
politico se confunde com alvos comerciais para os
Maiorana: uma derrota political dos Barbalho po-
deria tirar parte do filego que tim demonstrado na
concorrincia com seus rivals.
Desde que Romulo Maiorana colocou a sua or-
ganiza~gio na lideranga do mercado da imprensa,
nunca ela viu um competitor tilo pr6ximo, embora
ainda a uma distincia apreciivel, de quem fazia e
desfazia no segment. O quase-monopdlio, por~m,
pode estar chegando so fimn.Embora, na verdade, o
risco de corrosiio internal seja t~io (ou mais) forte
quanto qualquer afetagli externa.
A dispute pela prefeitura de Bel~m, portanto'
est~imuito long de ser a pasmaceira que a cobertu-
ra fria da imprensa sugere, declarando-se igualita-
rista quando, na verdade, 6 niveladora por baixo.
Estii em jogo muito mais do que um orgamento
annual de pouco mais de 600 milhdes de reais. Esse


valor 6 relativamente pequeno e est aqutm do po-
tencial da cidade.
O prefeito petista Edmilson Rodrigues susten-
ta que essa limita~gio se deve g perseguiCio que
sofre do governor estadual tucano, culminando com
a redu~gio do indice de participa~gio de Beldm na
receita do ICMS. Em alguma media, pode ser ver-
dade. Mas numa media pequena. Chegando pr6xi-
mo de encerrar seu segundo mandate seguido, em
oito anos, Edmilson niio tem uma obra important
para apresentar (as mais expressivas, ele herdou de
administraqdes municipals anteriores e do gover-
no federal), nem sequer uma vision nova de governor
para a capital. Nivelou-se pelo padrlio dos admi-
nistradores que o antecederam, com realizag~es lo-
calizadas, restritas, de qualidade sofrivel, de am-
plitude mediocre. E o que 6 pior: dando a nitida
impressilo de que iniciava as obras sem um projeto
para executi-las, ou uma vision dessa obra no con-
junto da cidade.
Essa caracteristica pode ser observada em rea-
lizaqBes mais recentes, em andamento acelerado
para exercerem alguma infludncia sobre o ~inimo do
eleitorado, como a Via dos Mercadores e a "urbani-
za~glo" da Vila da Barca, uma no centro visivel e
outra na periferia ao alcance dos refletores. Nopri-
meiro caso, depois de ter executado grande parte do
que estava previsto, a prefeitura mandou destruir
parte do j8 feito para acrescentar algo fundamental,
que faltava: os sistemas hidriulico e eldtrico da
principal via do velho centro da cidade (e ainda in-
corporando g iniciativa a pol~mica transplantagilo
dos bondinhos de Santos, ao custo de 6 milh~es de
reais).
No caso da Vila da Barca, uma nucleagli urba-
na singular de Beltm, estabelecida na orla da bala,
ao inv~s de explorer essa circunstincia iinica, da re-
la~gio de habitantes urbanos com o rio, a prefeitura
pretend fechar essa janela natural, repetindo os
velhos e superados models de saneamento que
levaram ao aterramento de Belim, um erro que os
espanhbis cometeram desastradamente na Cidade
do M~xico, pondo fim As palafitas para, em seu lu-
gar, erigir um caos urban sem possibilidade de
solugli.
A administra~gio Edmilson Rodrigues, decidi-
damente, nito ajuda a candidatura petista. Claro que
a mlquina municipal irl pesar na definigio eleito-
ral, tanto em si quanto em confront com a miqui-
na estadual, que ajudard a empurrar Duciomar Cos-
ta e a tornar realidade os desejos tucanos de pereni-
dade no dominio politico. Mas o arquiteto-prefei-
to tira mais votos do que cria para sua sucessora em
potential, 6 o que dizem as pesquisas.
Talvez por isso tenha surgido na cidade a estra-
nha histdria de que, em plena campanha, Edmilson
vB viajar para Roma e 18 deverb permanecer por um
ano e meio, em mais um de seus honorificos estu-
dos. Se houver proced~ncia nos boatos, 0compa-
nheiro-prefeito dard, com a efici~ncia que lhe fal-
tou na condugli dos neg6cios pdblicos municipals,
uma rasteira mortal na companheira-desafeta, que,
a custo, engoliu.
Mas tudo pode niio passar de fantasia,
mais uma dentre tantas numa campanha
eleitoral at6 agora mais intense nos basti-
dores, onde as tramas silo urdidas, do que
nas pragas, onde os acertos desembocam
a cata dos votos de eleitores desorienta-
dos. Afinal, quanta fantasia hg na pesqui-
sa da Istod', que tanta revista possibilitou
vender numa Bel~m atarantada?














































































Jornal Pessoal ,* QUINZENA AGOSTO DE 2004


restritos, que a liberdade de information
serve a interesses inconfessiveis, que
o jornalista 6 explorado e v~rias ou-
tras mazelas. Mas esse rem~dio do Con-
selho matar8 o paciente, niio agora, cla-
ro, mas daqui a pouco. Tentou-se algo
parecido no governor nacionalista do ge-
neral Velasco Alvarado, no Peru, e, de-
pois, esteve na mira de aliados B esquer-
da do president Salvador Allende, no
Chile. Nos dois casos, pude testemunhar
a experi~ncia e confirmar minhas pre-
missas: o Estado 6 um macaco em loja
de louga quando trata de valores imate-
riais, como cultural, informaqio, liberda-
de, criatividade. Quanto mais long es-
tiver, melhor.
Isso nito significa omisslio da socie-
dade. Hg muitos anos proponho alter-
nativas a esse intervencionismo, que co-
mega salvacionista e acaba extermina-
dor, sem qualquer exce~gio, mesmo
quando os pr6domos foram tho glorio-
sos, como na revolu~gio sovi~tica. Sete
anos atrbs tive mais uma amostra dessa
trucul~ncia: meu companheiro de pre-
mia~gio, em Roma, o suave mas en~r-
gico Fatos Lubonja, havia acabado de
sair da prislio de Enver Hoxxa, o dita-
dor da Albinia. Seu crime? Ser jornalis-
ta independent e escrever poesias.
Poesias ifricas, diga-se. Os ditadores
detestam lirismo. Talvez porque thes
faga lembrar que perderam uma parte
essencial do corpo humane: o cora~gio.
Minhas sugestdes. A primeira: trans-
formar a rejeiglio, pela empresa jorna-
Ifstica, do direito de resposta do leitor
em crime, punivel, de imediato, com pe-
sada multa, estabelecida em rito sum8-
rio, independentemente de contencioso
sobre o contedido da carta enviada g
reda~gio. Esse procedimento acabaria
com a arrogincia e insensibilidade de
6rglios da imprensa que ignoram o di-
reito alheio e nito corrigem os pr6prios
erros .
A segunda sugestiio: obrigar empre-
sas jornalisticas de certo porte (pelo ta-
manho do capital, tiragem de jornais ou
funcionamento B base de concess|10 pd-
blica, como television e r~dio) a se tor-
narem sociedades an8nimas e, a cada
eleva~gio obrigatdria de capital, abri-lo
B subscriglio pulverizada dos cidaditos,
tornando-se empresas populares, com
todo respeito aos direitos dos acionistas
minoritfirios (inclusive o detentor de uma
Oinica agilo).
Meu entendimento 6 de que essas ini-
ciativas (ou outras equivalentes) favo-
receriam muito mais a liberdade de im-
prensa e o respeito ao professional do
que esse Conselho, sem as contra-indi-
caC5es e efeitos colaterais desse tipo de
rem~dio. Medicamento que, como dizi-
am nossos pais, 6 de arrasar redaqdes.


Sou contra o monop61io do exercicio
do jornalismo pelos detentores de diplo-
ma do cursor de comunicag~o social. Pe-
los mesmos motives, sou contra o proje-
to que institui o Conselho Federal de Jor-
nalismo, inspiragl5io da Federagli Naci-
onal dos Jornalistas (Fenaj), apadrinhada
pelo governor Lula.
Niio se pode igualar a profisslio de
jornalista A de medico ou engenheiro. HA
um forte component vocacional na ap-
tidito para o jornalismo. Algumas pesso-
as nascem para o jornalismo quando en-
tram na vida consciente. T~m dons apa-
rentemente inatos que slio fundamentals
para o bom jornalista: curiosidade ilimita-
da, memdria agugada, gosto pela leitura,
escrita clara e fluente. Mas niio gostam
de academias. Preferem aprender na
vida. Niio podem ser obrigadas a apren-
der o que jB sabem, ou a saber o que ji
fazem. Mas como aproveit8-las se s6
podem exercer o jornalismo se forem
graduados no cursor superior de comuni-
caglio social?
Enquanto a matdria de engenheiros e
medicos C exata e vidas podem depen-
der do que fizerem, os jornalistas lidam
com uma mat~ria prima frequientemente
material, subjetiva, suscetivel a distintas
(e at6 antag8nicas) abordagens. Jorna-
lismo, definitivamente, nlo Cci~ncia exa-
ta, embora deva ser delimitada pela bus-
ca da exatidiio, do rigor, da objetividade
(que nada tem a ver com neutralidade).
Dou de troco que o jornalista precise
ter cursor superior. Mas qualquer um.
Pode ser at6 de fisica. Dois excelentes
jornalistas, dentre outros, deveriam ter
sido fisicos: Raimundo Rodrigues Perei-
ra e Bernardo Kucinski. Felizmente, para
o jornalismo, eles foram expurgados de
seus curses originals pelos Torquemadas
p6s-64. Ao ancorarem na reda~glo de
Veja, em 1968, introduziram o rigor das
ci~ncias exatas num ambiente marcado
pela imprecislio. Se tivessem demorado
mais dois on tr~s anos, encontrariam a
porta fechada. Teriam que desviar para
a comunicaqil social. O jornalismo teria
perdido muito.
Na mais famosa dupla do jornalismo
em todos os tempos, formada por Bob
Woodward e Carl Bernstein, que contri-
buiu decisivamente (nas piginas do Wa-
shington Post) para submeter Richard
Nixon ao primeiro process de impea-


chment proposto contra um president
dos Estados Unidos, um tinha diploma; o
outro, nio.
Dentre todos os pauses que t~m im-
prensa, na verdadeira acepglio da pala-
vra (nenhum 6 do "socialismo real"), ape-
nas o Brasil aplica o monop61io do diplo-
ma de comunicaglio social. A novidade
foi introduzida no pafs (e no planet) no
mais negro period da histdria republica-
na national, em 1969, quando a Junta
Military esquentava a cadeira presidenci-
al para o general Garrastazu M~dici, de-
pois do afastamento e morte do general
Costa e Silva. Essa junta governativa fe-
roz queria uma imprensa livre, aut8noma
e critical?
Jovens que se iludem, achando que o
diploma 6 passaporte para o verdadeiro
jornalismo, pensam que podem descar-
tar o entulho autoritbrio e dar bom uso ao
mecanismo t~cnico, formal, que regula-
mentou a profisslio. Entlio por que o
mundo niio se curvou a mais esse "Ijeiti-
nho" brasileiro? Por que o recrutamento
de jornalistas nos pauses ifderes da im-
prensa mundial continue aberto? E por
que uma parcela (50% nos Estados Uni-
dos) continue a vir de outras origens que
n~io dos curses de jornalismo (forma~ilo
diferente da do comunicador social), que
existem e funcionam bem ou mal -
nesses pauses, sem que seus docentes e
discentes julguem necess~rio (muito me-
nos indispensivel) a reserve de mercado
do diploma?
E incrivel a forga do corporativismo,
tamb~m no jornalismo. Essa forga cega
os alunos, os professors e os profissio-
nais egressos desses curses para a evi-
dancia ululante de que o Brasil 6 que
est8 na contra-miio da melhor qualifi-
caqilo e recrutamento de jornalistas e
nito o mundo todo. Essa vision sindical,
autbrquica, derivada do aparelho de Es-
tado (se niio diretamente, ao menos por
emulaglio ou desejo), est8 por tris des-
se Conselho Federal de Jornalismo, que
a Fenaj fecundou e o governor Lula pre-
tende (ou pretendeu) dar g luz. Mesmo
que a inten~gio seja das melhores, ela
vai levar ao inferno da censura, B misC-
ria da perseguigio corporativa, g mes-
quinhez dos interesses grupais ou pes-
soais.
E evidence que a informaglio esti
cada vez mais sob o control de groups


Lib lhde a es, i


d~O BBho OfOTr aism0







tabelecida com base mais em cliches do

""Ao ivsde descer com as tibuas da
salvagio a partir do literal do sul maravi-
lha, nossos incansiveis defensores devi-
am arregag~ar as mangas, aplicar a inteli-
gancia e vir buscar os fats e a verdade
onde eles se encontram: no meio da flo-
resta devastada. The Waste Forest, como
escreveria T. S. Elliot, se viesse a seguir
esse caminho.



TROMBADA
O leitor mais atento deve ter estra-
nhado: o festival de mdsica realizado pelo
grupo Yamada, com o apoio da Tim, nito
foi noticia nos veiculos das Organizaq~es
Romulo Maiorana, mesmo os Yamada
sendo os maiores anunciantes da empre-
sa de comunicadio. O festival inaugurou
uma arena construida para abrigar 40 mil
pessoas, que dois integrantes da terceira
geraglio dos imigrantes japoneses preten-
dem utilizar em shows semelhantes ao
realizado no inicio do mis.
A principio, os Maiorana participaram
do planejamento do festival, mas se afas-
taram quando perceberam que os Yama-
da haviam chegado com a disposiqilo de
ficar de vez no segment de events, atC
entlio quase um monop61io dos dons do
grupo Liberal. A partir daf, a ordem foi
expurgar a promoglio do journal e das
emissoras de r~dio e TV, alim de adotar
represilias ou punir quem estivesse liga-
do ao festival (sobrou para Janjo Proen-
ga, da R~dio Jovem Pan, a emissora que
se associou B empreitada)..
Mesmo com a boicote, o Festival Ya-
mada/Tim foi considerado um sucesso
pelos seus realizadores. Por isso, decidi-
ram prosseguir no ramo. Resta saber se
estabelecedio uma nova i'ntente com o
grupo Liberal ou terlio que medir forgas
com o ex-quase-parceiro de antes.


V AN| TAS
Durante um long tempo Romulo
Maiorana Jtinior se manteve fora do ex-
pediente de O Liberal. O motive seria
sua pretensio de seguir a carreira politi-
ca. N~o queria mais se sujeitar ao risco
que o impediu de concorrer a algum car-
go eletivo por niio se ter desincompatibi-
lizado a tempo da direptio do journal.
No inicio de julho o nome de Romi-
nho foi reentronizado no expediente (e
na capa) do journal, nito mais como vice-
presidente, que era seu titulo anterior, mas
como president executive da empresa
(enquanto sua mile, Lucid~a, 6 presiden-
te).
Fimn do sonho de ser politico sena-
dor ou, quem sabe, governador do Pard?

AGOSTO DE 2004 P~ QUINZENA Jornal Pessoal


Epis6dio semelhante pode estar acon-
tecendo agora, com a tal da "privatiza-
glio da floresta". P6s-fato, a opiniko pli-
blica ji sabe que a maioria dos casos de
privatizagli de empresas ptiblicas brasi-
leiras foi um desastre, ou ficou aqudm de
suas possibilidades de ganho, material ou
niio (ao menos pelo erdrio). Qualquer ato
que possa ser enquadrado como privati-
za~go provoca essa reaglio epid~rmica
que estamos vendo em rela~go is con-
cess~es de uso para areas florestais pd-
blicas.
Mas sera que se trata realmente de
privatizagio da floresta? As pessoas que
estlio patrocinando o projeto slio s~rias e
tim competancia. Podem estar cometen-
do um erro e servindo, comn toda sua boa
intenglio e capacidade, a um projeto lesa-
p~tria. Mas antes 6 precise estudar e
debater adequadamente o projeto que
engendraram, depois de formulaqdes e
discusses travadas em imbito ticnico.
O pressuposto dessa question esti
bem long de ser uma maquinaglio de
potancias estrangeiras, por tris de ONGs
internacionais, para tomar conta dos ma-
cigos florestais amazinicos e, quem sabe,
violar a soberania national. Pode-se at6
chegar a essa conclusio ao fim das an8-
lises e investigaqaes. Mas niio 6 esse o
ponto de partida.
A premissa 6 de que alguma coisa
precisa ser feita, comn fundamento e ur-
g~ncia ao mesmo tempo, para por fim a
essa destruiglio desastrosa de floresta na
Amazinia. O projeto patrocinado pelo
Ministdrio do Meio Ambiente pode nito
ser o melhor, nem mesmo o aceitivel, mas
6 o projeto que temos. E precise subme-
t8-lo a testes de consist~ncia e examiner
seu sentido pritico. Mas nito degol8-lo
com base num slogan.
Nenhuma floresta regional de rendi-
mento chegou a ser criada. Talvez esse
modelo viesse a repetir os erros da ex-
ploraglio florestal feita em outros pauses,
como na Malisia, que serviu de inspira-
~gio para o estudo de Schmiithssen.
Pior do que tudo, por~m, foi o incre-
mento alucinado do corte raso de madei-
ra que houve a partir daf. Criticada, con-
denada e reprimida, foi essa onda que
sustentou a extraglio clandestine de ma-
deira, em progressito continue apesar de
toda ret6rica nacionalista, de seguranga
national ou de discurso esquerdista, es-


Tris d~cadas atris a Sudam enco-
mendou a um consultor, F. Schmiithssen,
um estudo sobre a adoglio de um siste-
mla de concession florestal na Amaz~nia.
Na mesma 6poca, o governor Geisel es-
tava adotando contratos de risco para o
petrtileo. Apesar da incompatibilidade
entire os dois casos, eles foram imediata-
mente associados pela imprensa e cer-
tas correntes da sociedade. O t~cnico
contratado pela Superintend~ncia do
Desenvolvimento da Amazinia (assassi-
nada pelo governor Fernando Henrique
Cardoso e agora ressuscitada) em ne-
nhum memento usou a expression con-
trato de risco, mas foi essa a denomina-
glio dada ao seu projeto: contrato de ris-
co florestal.
O petr61eo est8 escondido no subso-
lo. A maior parte, hoje, no mar, debaixo
de profundas lIminas d'igua. A floresta
C visivel sobre o solo. O risco nio esti
em que inexista, mas na forma da sua
exploragio racional, "auto-sustentivel",
como se diz hoje, racional, como se apre-
goava ontem. Precisa ser estudada, in-
ventariada, cortada seletivamente, replan-
tada, manejada e transformada em fonte
perene de uso tanto para gerar moeda
quanto massa vegetal.
Essa modalidade de exploragilo exi-
ge maior volume de capital inicial e um
prazo de maturaqio mais long do que a
m~dia dos investimentos produtivos. A
Arlea precisa ser maior. A receita, com
sorte, s6 comegar8 a vir uma d~cada
depois do ingresso do extrator na flores-
ta. O lucro, quando o neg6cio comega, 6
demorado e incerto. O Estado, interes-
sado em evitar a exaustio da floresta,
deve regulamentar e subsidiary essa ativi-
dade inovadora.
O projeto das Florestas Regionais de
Rendimento, qlue a Sudam queria experi-
mentar, foi para o brejo. Vingou a rea~gio
aos "contratos de risco florestal", uma
figure engendrada pelos que se apresen-
taram para combat&-la. Muitos nem le-
ram o estudo encomendado pela Sudam
- e jf foram contra, movidos pela pala-
vra de ordem de rea~gio aos contratos de
risco, perfeitamente aplicivel no caso da
exploragilo petrolifera. Se a proposta do
t~cnico estrangeiro podia dar certo ou
nbi, nunca se ficou sabendo. Uma inici-
ativa que podia ter sido fecunda foi mor-
ta no nascedouro.


TR 1u RarO V lhldMS














































































Jornal Pessoal lo QUINZENA AGOSTO DE 2004 5


No dia 19 de fevereiro do ano pas-
sado o Dibrio da Justiga publicou a par-
te final da sentenga, com data de dois
dias antes, da juiza da 16. vara criminal
do foro de Bel~m, Maria Edwiges de
Miranda Lobato. A jufza, a cuja vara
cabe julgar todos os chamados crimes
de imprensa, me condenou a um ano de
detenglio. Mas converted a pena no .pa-
gamento, durante seis meses, de duas
cestas bisicas, cada uma delas de valor
equivalent a um salirio minimo, em vir-
tude da minha primariedade.
Fui enquadrado no delito de difama-
950, com base na Lei de Imprensa, de
fevereiro de 1967, editada pelo regime
military, conforme dendncia do Minist6-
rio Ptiblico do Estado, a partir de repre-
sentagilo que lhe foi feita pelo desem-
bargador (entlio na ativa, agora ji apo-
sentado) Joiio Alberto Castelo Branco
de Paiva. O desembargador se disse
ofendido por artigo que escrevi neste
journal, em maio de 2000, criticando sen-
tenga do magistrado.
Em liminar concedida a uma empre-
sa vinculada g poderosa Construtora C.
R. Almeida, o desembargador, como re-
lator da matdria, declarou ser "inquesti-
onivel" a propriedade da empreiteira de
Cecilio do Rego Almeida sobre uma drea
de terras no Xingu, que pode variar en-
tre 5 milhdes e 7 milh~es de hectares.
Fez a afirmativa apesar de o Instituto
de Terras do Pard ter ajuizado, em Al-
tamira, em 1996, uma a~go de anulagio
e cancelamento dos registros imobilibri-
os dessa mesma grea, feitos em nome
de uma subsididria da C. R. Almeida, a
Incenxil (pelas vias e travessas da Ron-
don Agropecu~ria). O Iterpa sustenta
que a Brea 6 de dominio ptiblico. O Mi-
nistdrio Pliblico Federal, o Minist~rio do
Desenvolvimento Agrdrio, O Ibama, a
Funai e a Policia Federal dizem a mes-
ma coisa, em unissono.
A despeito do convencimento unini-
me de todos os 6rglios pdiblicos que es-
tudaram a questilo e sobre ela se pro-
nunciaram, a decision do desembarga-
dor Jolio Alberto, favorivel ao agravo
da C. R. Almeida, foi confirmada pela
3a Cimara Cfvel do Tribunal de Justiga
do Estado. Os desembargadores que
apreciaram a questlo se reuniram em
session realizada uma hora antes do ini-
cio do expediente normal do TJE. O pre-


texto apresentado foi que is oito horas
da manhi, quando comega o expedien-
te do judicidirio, eles sairiam para inspe-
cionar uma comarca do interior.
Gragas a essa sentenga, a C. R. Al-
meida continue a desfrutar integralmente
o dominio dessa Brea, de tamanho sufi-
ciente para constituir o 210 maior Esta-
do brasileiro (maior do que outros seis
Estados, portanto), mesmo tendo con-
tra si toda a administration pdblica. Para
o governor, essa C a segunda maior gri-
lagem do pafs e do mundo. A justiga
tem sido, at6 agora, o fator impeditivo
para a anula~gio desse esbulho.
No dia 19 de fevereiro do ano pas-
sado, no mesmo dia da resenha, minha
advogada, Margareth Carvalho Mora-
es, foi ao cart6rio da 16a vara criminal.
Mas niio p~de retirar os autos. Um dia
antes de a sentenga sair no Didrio da
Justig~a, para comegar a gerar seus efei-
tos legals, o process tinha sido remeti-
do para o Ministdrio Ptiblico. O MP ia
apenas ser intimado da sentenga. A vez
de falar era minha, rdu sentenciado.
No dia 21 de fevereiro, sexta-feira,
o MP devolveu os autos ao cart6rio da
16" vara. Mas na segunda-feira, primei-
ro dia litil seguinte, novamente o procu-
rador vinculado ao caso pediu o proces-
so. Quando minha advogada foi ao car-
t6rio, naquele dia, os autos jB ali niio es-
tavam. No dia 28, outra sexta-feira, o
volume fez o percurso de volta, de me-
nos de 200 metros, da sede do MinistC-
rio Pliblico para o f6rum criminal. Na
segunda-feira, dia 3 de margo de 2001,
minha advogada finalmente p6de reti-
rar o process, assinando a devida car-
ga.
S6 entlio ela p8de ter ci~ncia do in-
teiro teor da sentenga da jufza Maria
Edwiges Lobato. O Dibrio da Justiga s6
divulga o trecho final da sentenga, que
cont~m a decision da magistrada. E por
isso que nito basta a publicagho da re-
senha para que, em sentenga condena-
t6ria de primeiro grau, se considerar
atendida a exigtncia legal de intimagilo
pessoal do advogado da parte. Ningu~m
pode recorrer apenas ,da parte decis6-
ria de uma sentenga. E~ precise conhe-
cC-la integralmente, o que inclui os seus
fundamentos.
S6 essa circunstincia jB seria sufici-
ente para nos garantir que o prazo de


cinco dias para a apresentaglio do re-
curso de apelo contra a decisio conde-
nat6ria somente se encerraria no dia 7
de margo, sexta-feira, quando, efetiva-
mente, protocolamos no TJE nossa ape-
la~gio.
Mas ainda havia outro element em
nosso favor. A lei exige nito apenas a
intimagilo pessoal do advogado, mas
tamb~m do r~u. E eu niio havia sido in-
timado. Podia esperar que essa intima-
gio. Ganharia mais tempo para desen-
volver minha defesa. Como sempre fiz,
por~m, me antecipei. Dispensei a inti-
magilo. A apresentaglio do pedido do
apelo, jB contend suas razies (eu po-
dia deixar para apresenti-las depois), na
mesma ocasitio, pulava esse memento
processual.
Tranqiiilos ficamos, minha advogada
e eu, a partir de ent~io. Tranqiiilos nito
apenas quanto ao cumprimento do pra-
zo (que jamais perdemos, em quase 12
anos de continue e desgastante batalha
judicial, enfrentando 15 dificeis proces-
sos, movidos por gente poderosa), mas
tamb~m em rela~glo a exposi~gio e de-
monstragilo das raz~es da minha inoc~n-
cia diante de tio estapafiirdia condena-
~glo.
A paz acabou no dia 10 de julho 61ti-
mo. Ao contr~rio do que sempre fiz, nes-
sa semana nito fui pontual na leitura do
Di~rio da Justiga (e do Didrio Oficial).
Embora fosse o inicio das fdrias, eu tive
que me dedicar a tantos assuntos (ra-
zlio da suspensito da circulaglio deste
journal em julho) que resolvi deixar a lei-
tura do DJ para o final da semana. Afi-
nal, era julho mesmo, o sagrado farni-
ente (em traduglio galhofeira, o farinha-
Co) dos paraenses. Podia relaxar desse
meu oneroso dever.
No si~bado de manh$i quando come-
cei a ler o Didrio da Justiga de terga-
feira, dia 6, levei um cheque. Ali estava
ac6tdito da 3. Cilmara Criminal Isolada
do TJE declarando que eu havia perdi-
do o prazo do recurs para a apelaghio.
Logo, o recurs fora considerado intem-
pestivo. Em conseqilancia, a seiltenga
seria executada. Eu teria que sangrar
meu modesto orgamento, ao qual a pr6-
pria batalha judicial, com suas custas
exageradas (e de pagamento compulso-
riamente antecipado), tem causado he-
cwif:idiiii A~'M iddid


Instituigio me condena,



a verdade me absolver8



















































































6 AGOSTO DE 2004 lo QUINZENA JOrnal PeSSOa1


cOmTINUACAO DAPAG .S.
morragias, comparecendo com 12 sal8-
rios minimos de multa (quase 3 mil re-
ais). Mas, sobretudo, o que meus teri-
veis inimigos tim perseguido com voli-
pia: ia perder minha primariedade como
rdu. Na pr6xima condenaglio (e hB ou-
tros 12 processes pendentes sobre mi-
nha cabega), cadeia.
Fiquei chocado, perdido: onde havia-
mocs errado? Sem os autos para consul-
tar. os dois dias daquele final de semana
for-am um inferno de angdstia. Minha
arivogalda e eu repassamos tudo que nos
v~intia hmem6ria, 16gico ou nlo,sem con-
seguirmons localizar onde haviamos er-
radon -- e errado de forma tilo primiria
q~ue p~ermritframos decision com base na
preimirniar da perda do prazo, sem se-
que~r o ex.ame de mdrito da nossa apela-
g~ao.
Um brocade do mundo juridico diz
que advogado nito perde causa, perde
p'razo. Conscientes dessa circunstincia,
minhia advogada e eu atuamos em con-
junto para impedir que uma pequena fa-
lha acabasse por desviar o julgador da
apreciagh~o dos fundamentos do conten-
cioso para um detalhe formal, impedin-
do que prevalega a discussion de mdri-
to. Estamos convictos da justeza da nos-
sa causa e dos interesses escusos que
estlio por tris de agdes cuja eficicia
reside justamente em transferir a con-
trov~rsia sobre temas candentes para o
confinamento dos autos, sem a audidn-
cia da opinitio pdiblica.
E por isso que nenhum absoluta-
mente nenhum dos que me proces-
saram langou miio do direito de respos-
ta, que a lei 1hes assegura e que consti-
tui clitusula p~trea da linha editorial
deste journal. Aqui, as cartas dos leito-
res slio sagradas, como sagrado o
principio da verdade. Por que, entlio,
deixaram de instaurar a pol~mica, se
ela dliz respeito a tema de inegilvel in-
toresse pdblico?
Ao terms acesso aos autos, no dia
9 de julho, verificamos qlue a declara-
glio da intempestividade do nosso re-
curso se fizera B custa do desprezo aos
mcndamentos legals que regem a ma-
terial e do ultraje a uma regra constitu-
cio~nal categ6rica, que protege o amplo
direito de defesa.
Niio tinhamos perdido o prazo, 6 cla-
ro. Na pilgina 224 dos autos hB uma
deciara~gio da escrivil do cartbrio da
16a vara criminal, confirmando as idas
e vindas do process ao Minist~rio Pd-
blic,, que s6 possibilitara ao advogado
ter- acesso B sentenga no dia 3 de mar-
go. Esse document foi produzido pela
pr6pria escrivil a nosso pedido. Estra-
nhamos aquela attitude do representan-
te do MP, que devia apenas ser infor-


mado sobre a existincia da sentenga,
sem precisar manifestar-se sobre ela
naquele memento.
Ao reter os autos, o promoter dera
ensejo a que pedissemos a devolugio
do prazo. Mas achamos que nilo have-
ria tempo para uma delibera~gio sobre
esse pedido nem ele seria necessirio.
Bastaria juntar aos autos uma certidiio,
com f6 pdiblica, sobre a existancia do
fato. Nilo para sustentar nosso direito,
que continuava em pleno vigor devido
ao nio cumprimento das intimagaes
pessoais, mas para refor~g-lo. Para
prevenir fantasmas e garatujas.
Esse document foi ignorado. A de-
claraglio da intempestividade resultou
de um mero raciocinio aritmitico: a con-
tagem do qilinqtildio legal a partir do
dia 19, data da publicapilo da sentenga,
niio considerando o primeiro dia e in-
cluindo o 6ltimo. Se esse fosse o pro-
cedimento correto, obviamente, eu te-
ria perdido o prazo. Mas a lei, a doutri-
na e os julgados mandam proceder de
outra maneira. Para o prazo comegar
a contar, 6 precise que os autos com-
pletem pelo menos 24 horas disponiveis
no cart6rio, no hor~rio do expediente.
E necess~rio tamb~m a intima~gio pes-
soal tanto do advogado quanto do r~u.
E, sobretudo, indispensilvel assegurar
a ampla defesa ao sentenciado e, no
meu caso, um sentenciado a pena de
detenglio, convertida em presta~go de
servigo em funglio da primariedade,
que estli em liberdade e niio acessivel
compulsoriamente em uma prislio.
A tendenciosidade da decision ado-
tada, por unanimidade, pelos desembar-
gadores da 3a Cimara Criminal Isola-
da do TJE se evidenciava ainda mais
quando confrontada com outra decisito,
publicada na mesma ediglio do Ditirio
de Justiga (atrav~s do ac6rdito 53.174)
da la Cimara Criminal Isolada do mes-
mo TJE. Com base em parecer (dia-
metralmente oposto ao do colega que
atuou no meu caso) do procurador de
justiga do MP, os desembargadores da
la C~mara nito acolheram a preliminary
de intempestividade da apela~gio de
Roberto Rodrigues,
O item primeiro da ementa desse
ac6rdlio diz: "Mesmo sendo intempes-
tivo o recurs, a jurisprud~ncia tem
entendido que o mdrito deve ser ana-
lisado, para nito prejudicar o apelan-
te".
A contradi~gio 6 brutal. Contra essa
brutalidade poder-se-ia argumentar
que sempre hB discrepincias na inter-
preta~gio das leis entire os julgadores.
Uma cimara pode decidir de um jeito
contririo ao entendimento de outra.
No entanto, a cimara que decidiu
unanimemente contra mim, pelos vo-


tos de tr~s desembargadores, com
base em parecer do representante do
Minist~rio P~blico, limitou-se a fazer
um c~lculo aritm~tico, sem qualquer
fundamental legal, sem sequer, ao
que parece, ler os autos. JB a cimara
que decidiu em favor de um outro ape-
lante, em situaqilo id~ntica B minha, no
mesmo dia, deu plena fundamentaglio
legal ao seu ato, inspirada em parecer
de outro representante do MP. Esta
cimara tinha a lei ao seu lado. A ou-
tra cimara, niio. Talvez porque o rdu
que ela condenou, esmagando seu di-
reito de defesa, para isso pisando na
Constitui~go, se chame Ldcio Flivio
Pinto. Cabe a pergunta: a quem inte-
ressa conden8-lo, sem dar-lhe o direi-
to de sequer defender-se?
Jg recorri dessa decision. Atrav~s
de recurs extraordindrio, ao Supre-
mo Tribunal Federal. Em sede de re-
curso especial, ao Superior Tribunal de
Justiga. Na semana passada, o procu-
rador-chefe do Ministdrio Pdiblico do
ParB, Francisco Barbosa de Oliveira,
juntou seu parecer aos autos. Na sua
manifesta~go, o procurador-geral re-
conhece que nito perdi o prazo. Logo,
niio houve intempestividade, ao con-
triirio do que declarou seu colega de
fun~go. O mdrito da apelaglio tem qlue
ser examinado.
Como o MP 6 o autor da a~gio, a
partir de provoca~gio do suposto ofen-
dido, estil aberto o caminho para a
anula~gio da decisito da climara do
TJE e a retomada da apreciaqilo da
minha condenagilo. Qualquer que ve'-
nha a ser o desfecho de mais um ca-
pitulo do long e penoso enredo kafk~i-
ano que tenho vivido no judicitirio pa-
raense hB 12 anos, ilude-se quem pen-
sa que, agindo assim contra mim, que-
brar8 meus ossos, minha fi e minha
esperanga.
A reaqilo da opiniiio pdblica, mais
intense quanto mais longinqua do "te-
atro de operaqdes", numa tend~ncia
de agugar a percepglio pelo distancia-
mento critic dos' acontecimentos, re-
presenta o julgamento daquele sujeito
da hist6ria ao qual tenho dedicado um
combat jornalistico de quase 40 anos:
o povo. Do ParB, da Amaz~nia, do
Brasil e do mundo.
A roda do tempo avanga, a despeito
dos Torquemadas eventuais e de seus
inspiradores eventuais, assumidos ou
ocultos. O que move o avango da hu-
manidade niio 6 a misdria dos perse-
guidores. E a coragem dos persegui-
dos. E a solidariedade dos que dito sen-
tido a essa coragem.
Nesse primeiro julgamento, estou
certo de jB ter sido absolvido, com mC-
ritos. Que venha o segundo.


















A morte de Haroldo Maranhilo, no
mis passado, aos 77 anos, no Rio de Ja-
neiro, colocou um ponto final na mais
important hist6ria do jornalismo para-
ense republican: a hist6ria da Folhza do
Norte. Quem tem menos de 30 anos de
idade niio viu mais a Folha nas ruas.
No seu auge, o vendedor de jornais de
Bel~m tinha um titulo dnico: era o fo-
lheir~o, tal a forga do journal que ele mais
vendia. Desmoralizada, com circulaglo
reduzida, a Folhza desapareceu em
1974. Uma Oinica pessoa participou de
toda a trajet6ria de 78 anos do journal:
Paulo Albuquerque Maranhtio.
Paulo tinha 24 anos quando foi re-
crutado como revisor do journal, fundado
por Endas Martins, seu padrinho de ca-
samento. Logo se tornaria o principal
redator e, finalmente, ao longo de 47
anos, o donor da empresa. Morreu em
1966, aos 94 anos, sempre escrevendo
e ditando as normas da empresa. Nio
teve o desprazer de testemunhar a de-
cad~ncia e a morte daq~uele que, por lar-
go tempo, foi considerado o mais impor-
tante formador de opiniiio pdiblica no
Brasil acima de Pernambuco.
A longevidade de Paulo Maranhlo
seria, ao mesmo tempo, ben~fica e pre-
judicial para a Folha. Foi positive, a prin-
efpio, por dar uma cara e uma fei~gio
editorial ao jornal, identificando-a ao seu
donor e principal redator (simbiose rara
na hist6ria da imprensa e praticamente
expurgada do jornalismo dos nossos
dias). Mas a senectude impediu a em-
presa de se renovar e se profissionali-
zar.
A partir da d~cada de 50, o parque
grifico foi se defasando e o culto ao re-
dator-proprietiirio fez surgir em torno
dele uma legitio de 8ulicos, que tiravam
proveito do poder de Maranhilo e nada
retribufam B sadde do journal. A Folhza
se dedicou demais na contemplaglio do
pr6prio umbigo. O mundo al~m da jane-
la de Paulo Maranhilo mudou e ele nto
foi atC li conferir.
No entanto, a perspective mais pro-
missora para o journal ainda estava den-
tro da prbpria familiar Maranhilo. Harol-
do e Ivan, os dois dnicos varies entire
cinco irmlis, eram jornalistas. Ivan logo
preferio uma soluglio individual, criando
seu journal, o Flash, semaniirio com titu-
lo em vermelho e freqtiente material

Jornal Pessoal i" QUINZENA AGOSTO DE 2004


marrom. Haroldo apostou que o av6 re-
conheceria seus mdritos e ficou ao lado
dele. Criou, em 1946, o lendirio Suple-
mento Literirio, que ofereceu oportuni-
dades para sua geraglio se expressar,
mas, sobretudo, reproduzia a melhor pro-
duplio brasileira do memento em ficqio
e critical, simultaneamente com os prin-
cipais 6rgilos da imprensa national (a
Unamaz langar8, no pr6ximo mis, um
livro com a reprodugho de tudo que o
suplemento publicou).
Ao contrdrio da esmagadora maio-
ria dessas publica95es, de dura~gio ef8-
mera, o Suplemento tirou 100 ediqaes
sem qualquer interrupCio. Mas seu su-
cesso entire o pdblico intelectualizado nio
impediu seu fim, em janeiro de 1951.
Haroldo ji havia discretamente abando-
nado a "orientaglio editorial" do suple-
mento quase um ano antes do dltimo
ndimero. Nunca admitiu o fato explicita-
mente, mas 6 provivel que a oposi~gio
do av8, envenenado pelos beletristas que
freqtientavam seu gabinete, tenha feito
o neto perceber que o destiny da sua
criatura estava decidido. Era arrojado
(e arejado) demais para o gosto conser-
vador da casa.
A partir daf tamb~m a permanincia
de Haroldo no journal comegou a ficar
comprometida. Em conversas informais,
ele reconhecia que o velho panflet~rio,
um home de iddias conservadoras, fli
da ditadura de Salazar e de regimes for-
tes, al~m da intervenglio dos militares
na political, talvez o considerasse um co-
munista. Por isso, jamais lhe passaria o
comando do journal, ao menos enquanto
estivesse B frente da Folha. Haroldo
contava comn o pai, Jolio, eterno gerente
do journal. Mas Jolio Maranhilo preferia
niio contrariar a vontade de Paulo Ma-
ranhilo. Haroldo teria que esperar pelo
desaparecimento do velho Maranhilo.
Quanto, pordm, era dificil calcular: Paulo
Maranhilo parecia eterno; considerava-
se eterno, provavelmente.
Haroldo primeiro se decidiu por uma
alternative lateral ao mundo da cultural
e abriu a Livraria Dom Quixote, num
ponto estrat~gico em Beldm entire as d6-
cadas de 50 e 60: na galeria do Paljcio
do Rgdio, caminho de said dos freqiien-
tadores do Cine Pal~cio, o mais luxuoso
da cidade naquele period. Mas o co-
m~rcio, mesmo o dos livros, nito era a


sua praia e ele acabou indo literalmen-
te para a beira de uma, das mais famo-
sas no mundo, no Rio de Janeiro.
Quando deixou Bel~m, no inicio da
d~cada de 60, intimamente Haroldo tal-
vez ainda cultivasse a esperanga de, um
dia, ocupar o lugar do av8. Afinal, era
tiio bom jornalista quanto ele, sem pre-
cisar tratar da parte mercantil do neg6i-
cio, bem entregue a Joho Maranhilo,
mesmo que o pai jB nito pudesse dispen-
sar algu~m ao lado para for~g-lo a aban-
donar regras de ger~ncia inteiramente
superadas.
Haroldo aprendera a escrever' lendo
os clissicos portugueses, enfileirados
nas longas estantes da biblioteca de
Paulo Maranhlio. Avaro e cioso de sua
preciosidade, o av8 guardava as chaves
das portas de vidro como um cho mito-
16gico. Mas deixava o neto apreciar as
maravilhas acumuladas: Camilo, Eqa,
Garret, Castilho, Herculano, Vieira, Ca-
m~es, os fundadores e os modeladores
da lingua.
Enquanto seus parceiros jB eram fi-
thos da cultura francesa (e alguns, mais
ousados ou atualizados, das letras ame-
ricanas e germinicas, como Mgrio
Faustino e Paulo Plinio Abreu), Haroldo
era um produto nobre e legitimo da cul-
tura portuguesa. Essa maestria ele exi-
biria, como poucos, quando comegaria
a se dedicar a escrever ficqlio para li-
vro, depois dos 40 anos, j% com remotas
possibilidades de continuar a saga da
Folha do Norte, mas criando sua pr6-
pria trilha, brilhante.
Morto Paulo Maranhlio, seu filho
mais velho, Cl6vis, havia muito tempo
fora de Bel~m, voltou de Brasilia, onde
morava, com procuraglio das irmlis, para
afastar Jolio e assumir a diregTio da
Folha. Consigo, trouxe um military re-
formado, o marechal Augusto Magessi,
que fora Comandante Militar da Ama-
z~nia, servindo em Beldm.
Magessi instaurou a ordem unida na
reda~gio e uma vesga tecnocracia utili-
tiria na administra~gio, importando au-
xiliares mais interessados em aprovei-
tar as delicias de morar no Grande Ho-
tel com sal~rios excepcionalmente altos
para o mercado do que atualizar a Fo-
lha. A porta se fechou de vez para Ha-
roldo. E, o que era pior, deixando seu
pai do lado de fora. Jolio Maranhilo, s6


A morte do liltimo M/aranhilo




(eo f im da Foblhar do Niorte)















































































8 AGOSTO DE 2004 lo QUINZENA Jornal Pessoal


menos poderoso do que o pai durante qua-
tdro d8a as, terminou seus dias amargura-
O filho, nio. Haroldo construiu, no exf-
lio niio declarado (mas assumido), uma das
obras mais sdlidas da literature brasileira
contemporinea. Estava na situagio clis-
sica do escritor banido, que se volta para a
terra de origem com amor e amargura, com
vontade de imortaliz8-la e destruf-la, de re-
tribuir-lhe as alegrias e de ajustar-lhe as
contas. Livros como Rio de raiva e Os
ancdes pertencem a uma tradigiio intelec-
tual que teve em Dante e James Joyce, no
ajuste cojm Florenga e Dublin, seus pinca-
ros criativos.
F-elizmente sobrava talent em Harol-
do para nito se deixar afundar na amar-
gura e no niilismo, na ficqlio h cli~f. A partir
dos 40 anos ele produziu quase um livro
novo a cada dois anos, novo nito apenas
na cronologia, mas tamb~m no conteddo.
Novidades que combinam um retorno te-
mitico e formal ao passado, que se trans-
forma em matdria prima para um salto ao
future, como em Cabelos no coragd~o.
Ainda se passarlio anos at6 que um ni-
mero maior de leitores possa apreciar e
valorizar essa incrivel fabula~glo de hist6-
ria e filologia, de afeto e sarcasmo, de
desejo e rejei~gio, que projeta Haroldo
Maranhilo al~m das mis~rias da conjuntu-
ra e das circunstincias da vida, projetan-
do-o para o lugar que lhe cabe. Niio mais
apenas o de successor, que nunca conse-
guiu ser, a despeito de todos os seus mC-
ritos, de Paulo Maranhilo na Folha do
Norte, mas a de um inventor das letras
brasileiras, algu~m tho singular que qual-
quer tentative de compar8-lo a sdrio re-
sultar8 infrutifera.
Havia apenas um Haroldo Maranhilo,
que morreu (vitima de sua pr6pria pena
incandescent) antes de morter, e, assim,
ressuscitou antes de desaparecer da nos-
sa vista, que o acompanhou em muitos mo-
mentos, inclusive nos saborosos circuitos
pelos restaurants do centro do Rio de
Janeiro, formado por mais de sete esta-
95es, em cada uma das quais ele narrava
epis6dios hnicos dos bastidores da vida
intellectual do grande dinamo da cultural
brasileira (um acervo que ele nunca se
permitiu registrar para a perenidade da
mem6ria coletiva).
Foi-se o dltimo Maranhlo jornalista, le-
vando consigo as melhores e mais gene-
rosas sementes plantadas, literalmente, no
terreno e na constru~gio que abrigava o
jiornal, onde ele nasceu e se criou, entire
rotativas e linotipos, laudas e paquets.
Fecha-se esta hist6ria. Mas a do escritor
Haroldo Paulo Albuquerque Maranh~io,
esta nunca mais ter8 fim. Como um per-
sonagem de outro bruxo das letras, o do
sertlio mineiro Guimariles Rosa, Haroldo
se encantou de vez.


Mlumina na fr ente
A Alunorte uniu, no final do mis passado, todas as pontas do plano para se
tornar a maior produtora de alumina do mundo. Em apenas 10 anos de operaglio,
que ainda ira completar, a empresa passar8 de 1,1 milhilo de toneladas, que foi o
seu tamanho de projeto original, para 4,2 milhaes de toneladas anuais de alumina.
Talvez antes de a d~cada terminar, a Alunorte podera chegar a 6 milhdes de
toneladas, um tamanho que seria impensivel para uma 6nica fibrica pouco tempo
atr~s.
Mas o prego da alumina bateu todos os records. Mesmo ji apresentando
certa retraglio em rela~gio ao pique deste ano, ainda 6 uma remunera~gio excepci-
onal para produtores acostumados a receber de 100 a 120 d61ares por tonelada. A
Alunorte esta numa corrida contra seu pr6prio cronograma para aproveitar uma
conj untura mais estivel de prepos altos. Os recursos para a duplica~gio da fibrica,
de 2,4 milh~es para 4,2 milhdes de toneladas (que sertio atingidos no segundo
semestre de 2006), foram assegurados atrav~s de financiamento de 310 milhdes
de d61ares que contou com o endosso dos governor da Alemanha e da Noruega.
Para a Alemanha, o neg6cio C mesmo uma operagilo financeira. Mas para a
Noruega vai al~m dessa dimensito. A maior empresa norueguesa, a Norsk Hydro,
C a segunda principal acionista da Alunorte, com 34% do capital (a primeira 6 a
Companhia Vale do Rio Doce). Mas a NH vai poder retirar 1,5 milhilo de tonela-
das dos 4,2 milhies. A Albris ter8 um milhilo de toneladas. E 1,7 milhilo sera
absorvido pela China, o client mais disputado em todo o mercado de alumina no
memento, e por alguns compradores europeus e, talvez, os Estados Unidos.
Se o plano de expansito der certo e o prego nito cair para o parimetro anterior,
acontecer8 em Barcarena o que ningudm previu, nem podia: a Alunorte ter8 uma
receita maior do que a da Albris, que transform a alumina em metal. Assim, em
vez de avango, haver8 recuo na cadeia produtiva do aluminio. Seu efeito econbmi-
co sera para tris e nito para frente, como pretendem todos os que recitam o
refrilo da verticaliza~gio da produglio. Em Barcarena, nto' sera mesmo mais do
que refrito.


YOit xca furada

Enquanto empresbrios e governo do Estado se mobilizavam contra a ADIN (agli
direta de inconstitucionalidade) proposta em Brasilia pelo chefe do Ministdrio Plblico
Federal, Cludio Fonteles, contra apolitica de incentives fiscais do Pari, aPolicia Federal
dava cobertura a um mandado de busca e apreens~io concedido pela justiga federal
contra um dos maiores beneficidrios dessa political, a Cervejaria Paraense S/A.
A Cerpasa 6 acusada de cometer crimes cabeludos contra seus empregados, o
eririo federal e a previd~ncia social, seja atrav~s de sonegaglio fiscal como a burla a
direitos trabalhistas. Procuradores e fiscais recorreram ao judicidrio para obter docu-
mentagli comprobat6ria dos abuses da empresa. Entre seus virios beneficios, o 6lti-
mo que o Estado lhe concede foi a reduglio do ICMS devido em 98%. Isso, apesar de
haver autos de infraglio contra a empresa na Secretaria da Fazenda no montante de
38 milhaes de reais. Aldm de sonegar impostos, a Cerpasa vinha se apropriando de
impostos que descontava de seus revendedores e niio recolhia ao tesouro estadual,
usando a figure do cr~dito substitutivo. Ou seja: praticava estelionato.
A representagil feita pelas parlamentares Suely Oliveira e Araceli Lemos, do PT,
que motivou a aglio de Fonteles, pode ter objetivo political, contra a administragli
tucana, mas o que nito falta slio fundamentos reais para um questionamento desse tipo
sobre os incentives fiscais do Estado. Como jB tem sido denunciado ha bastante tempo,
os favors slio concedidos por um grupo reduzido de privilegiados, sem audiencia
pdrblica, a margem de qualquer debate, por critdrios mantidos entire quatro paredes,
sem uma relaglio de correspondencia entire beneficios e retribuiCes, capaz de preve-
nir que uma empresa tbt favorecida, como a Cerpasa, se comporte de forma t~io
lesiva ao interesse pdiblico.
Mesmo que nbt houvesse inconstitucionalidade na legislagli paraense e ainda que
nbl fosse convenient atacar os favors fiscais do Estado diante da guerra fiscal travada
na federagli brasileira, os bons empres~rios, em didlogos com seus travesseiros, sabem
que a political de incentive fiscal do Para a atividade produtiva nbi resisted a um questio-
namento mais s61ido. Ou muda por iniciativa pr~pria, ou sera revogada a partir de fora. A
histeria desencadeada a partir da ADIN de Fonteles s6 interessa aos que tim interesse
politico a defender ou querem continuar com a faca e o queijo na miio.















































































Jornal Pessoal 10 QUINZENA AGOSTO DE 20049


O ParB comegou a primeira d~cada
do novo milinio produzindo pouco mais
de dois bilhdes de d61ares em mindrios,
destinados quase integralmente h expor-
taglio. ChegarB ao final desta primeira
d~cada do s~culo XXI com o produto
mineral pr6ximo da marca de US$ 10
bilhaes, vendido praticamente todo no
mercado externo. Trata-se de um de-
sempenho impressionante. Seria como
se o PIB mineral do Estado dobrasse a
cada dois anos no dec~nio. Em 2010 o
ParB passar8 g frente de Minas Gerais,
o maior minerador brasileiro ao long
dos tiltimos tras s~culos. Mas niio s6 isso:
a importincia do Estado em 12 commo-
dities se tornar8 mundial.
O que est8 ocorrendo no ParB 6 um
verdadeiro boom. O mais inusitado nessa
corrida C que ela 6 definida por um dni-
co competitor, a Companhia Vale do Rio
Doce, que chegou B Amaz8nia como
estatal e agora 6 uma empresa privada.
O faturamento da Vale 6 maior do qlue
o do governor do Estado. Sua verba de
investimento, especificamente, esti
muito al~m da soma dos recursos de
capital da administraSio pdblica. Ao lon-
go desta d~cada a CVRD dever8 inves-
tir 5,5 bilhies de d61ares (quase 17 bi-
lhies de reais) no ParB, valor que re-
presenta mais de um tergo do PIB do
Estado. Em quatro anos, completados
em 2004, a Vale executar8 um tergo
desse orgamento.
Nenhuma empresa aplica tanto em
nenhum outro Estado brasileiro. Em
compensa~glo, um tergo da receita da
ex-estatal (que em janeiro deste ano se
tornou a maior empresa privada da
Amdrica do Sul, com valor de mercado
de US$ 22 bilhdes) tem origem no ParB,
embora a Vale atue em outros 11 Esta-
dos. O ParB assegura quase metade do
saldo de divisas da empresa. A CVRD,
por sua vez, responded por um tergo do
superivit da balanga commercial brasilei-
ra em 2003, o maior de todos os tem-
pos.
Essa grandeza se baseia na explora-
Cgo de 12 bens minerals. At6 agora, a
maior fonte de receita 6 o mindrio de
ferro. A produ~gio, neste ano, deveri
bater num ntimero record em Carajis:
70 milhaes de toneladas, tr~s vezes e
meia acima da capacidade maxima de
viabilidade do projeto de mineraqio,


quando ele foi concebido. Mas em 2010
a receita de cobre, chegando a US$ 2
bilhies, passar8 B frente da traditional
mercadoria da CVRD, que C respons8-
vel por um quarto do mindrio de ferro
que circula pelos oceanos.
Em 2000, a Vale niio produzia um gra-
ma de cobre. Mais de 80% das necessi-
dades de concentrado da finica meta-
ldrgica de cobre em atividade no Brasil
(da Carafba Metais, comandada pelo
grupo Paranapanema, na Bahia) eram
atendidas pelo Chile e a Bolivia. Essa
sempre foi a segunda mais onerosa im-
porta~go de bens minerals feita pelo
Brasil, sangrando o pafs em US$ 400
milhaes anuais.
Em 2010 deverio estar funcionando
cinco minas de cobre em Caraj~s, que
se consolidar8, entho, como a maior pro-
vincia mineral do planet. Niio s6 ga-
rantir8 a auto-sufici~ncia brasileira nes-
se mindrio como colocara o Brasil entire
os cinco maiores exportadores mundi-
ais.
Para tanto, o investimento nos pdlos
de cobre de Carajas somadio US$ 2,5
bilhdes. O primeiro a ser ativado, o da
Serra do Sossego, comegou a produzir
em junho, antes mesmo de ser inaugu-
rado, no mis seguinte, pelo president
Luiz Inicio Lula da Silva, ao custo de
US$ 430 milhdes. A CVRD 6 dona de
todas as jazidas. Aldm de cobre, como
subproduto, produzir8 ouro, prata e mo-
libdanio. Voltari a ser a maior minera-
dora de ouro do Brasil, titulo que ocu-
pou quando explorava a jazida do igara-
p6 Bahia, tambdm em Carajas, esgota-
da em 10 anos de lavra.
Carajas nito produz, hoje, um gra-
ma de niquel, outro dos mindrios dos
quais o Brasil 6 carente. Mas em 2010
a produglio de niquel em Carajis seri
tr~s vezes maior do que toda a produ-
g~o brasileira atual, tornando-se respon-
sivel por 15% do valor da produgho
mineral da Vale no Para. O niquel do
Estado niio sera falado apenas no Bra-
sil. Como o mindrio alcanga em Cara-
j~s um dos mais altos teores ji regis-
trados no mundo, ele passar8 a interes-
sar importadores espalhados por viri-
os outros pauses.
Esse ser o desempenho de dois bens
minerals absolutamente novos para a
CVRD. Mas a evolu~go dos produtos


mais tradicionais da cesta de mercado-
rias da empresa niio sera menor. Em
2007 a produ~go de mindrio de ferro al-
cangara 100 milhdes de toneladas em
Carajis, que tamb~m jB 6 o maior pro-
dutor mundial de mangands, com 1,5
milhio de toneladas. Com a nova mina
de Paragominas e o surgimento da Al-
coa com um projeto de mineraqio pr6-
prio, em Juruti, o ParB subira um degrau,
tornando-se o segundo maior produtor
mundial, abaixo apenas da Australia.
Mas poder8 passar a Australia em
matdria de alumina, a etapa seguinte na
transformation do mindrio, assumindo o
primeiro lugar. E estar8 entire os cinco
maiores produtores de aluminio, se os
projetos anunciados de expansiio e de
uma nova indtistria, a da Alcoa forem
realizados. O ParB se consolidar8 tam-
b~m como o terceiro maior produtor mun-
dial de caulim, argila utilizada no reves-
timento de pap~is especiais.
Em 2010, o ParB, que hoje 6 o s~ti-
mo maior exportador do Brasil e o quin-
to em saldo de divisas, podera estar ge-
rando US$ 8 bilhies ifquidos para as
contas externas nacionais, uma Contri-
buiglio que apenas duas ou tr~s outras
unidades da federa~gio tamb~m poderho
dar.
Mas enquanto represent quase 80%
do valor do comdrcio international pa-
raense, a produ~go mineral tem papel
pouco expressive na formaglio da rique-
za internal. A mineraqio entra atualmente
com 4% da receita estadual de impos-
tos, gragas is isen95es e vantagens con-
cedidas pela Uniko aos exportadores de
semi-elaborados. Mesmo com a quintu-
plica~gio do valor da produglio na d6ca-
da, o peso da mineraqio sera de 18%
da renda tribut~ria em 2010, segundo es-
timativa do governor do Estado.
O ParB, que 6 o 160 em IDH (Indice
de Desenvolvimento Humano), mesmo
tendo o segundo maior territ6tio e a 9"
populaglio brasileira, nlio avangara mui-
to nesse item se defender do boom mi-
neral, que provoca crescimento mas niio
- ou s6 raramente, gragas a outras va-
riiveis, desde que elas sejam criadas -
desenvolvimento. Assim, o Pard parece
fadado a ocupar seu lugar no firmamento
mineral sujeito a mesma circunstincia
dos pauses que o antecederam no p6dio:
ficar grande, sem ficar rico.


Grandezas e misdrias




da mmeragao no Para






I


I -


e



1 ~


lado justiga
parties. Ela enviou seu alvar8 diretamente g ag~ncia banc~ria,
sem passar pelo cartbrio, como devia fazer,
Comprovados os fats, Hessel recorreu ao novo titular da
la vara, Amilcar Guimarlies, que o havia autorizado a reaver
dinheiro, que era seu. Como o juiz nito se manifestasse sobre a
nova solicita~gio, o corretor recorreu g Corregedoria Geral de
Justiga do Estado. A corregedora metropolitan, desembarga-
dora Yvonne Santiago Marinho, se manifestou favoravelmente
A reposigio imediata do dinheiro por parte do judicibirio paraen-
se, acolhendo a tese de Hessel de que a responsabilidade pela
administration da poupanga 6 do TJE.
A president do tribunal, desembargadora Maria de Nazar6
Brabo de Souza, partilhando o mesmo entendimento, fez ainda
duras criticas B sua colega de magistratura, cujo procedimento
considerou "reprovivel, porque doloso e, portanto, incompativel
com a majestade e dignidade da fun~gqi jurisdicional". Nessa


Um crime chamr

O corretor de im6veis Jan Apol~nio Hessel entrou com uma
agilo de consignaglio em pagamento contra a Emarki Enge-
nharia e Marketing, em 1990, na la vara civel de Belim. Ime-
diatamente o valor consignado foi depositado numa caderneta
de poupanga, B disposiglio da justiga. Em novembro de 2002, a
agio proposta transitou em julgado, nito havendo mais a possi-
bilidade de recurs. Hessel pediu, entilo, e conseguiu do juiz o
levantamento das quantias consignadas judicialmente no Ban-
co do Estado do ParB.
Ao se apresentar ao caixa do banco, o corretor teve uma
amarga surpresa: seu dinheiro havia sido retirado da conta. A
entlio titular da la vara civel, jufza (depois desembargadora)
Ana Teresa Sereni Murrieta havia sacado, indevidamente, quase
11 mil reais da conta. O saldo remanescente da poupanga nto
chegava a 60 reais. Nas quatro vezes em que tirou dinheiro, a
juiza disse, no alvar8 que expediu, ter havido acordo entire as


AGOSTO DE 2004 la QUINZENA Jornal PeSSOal


Em l959
Livraria
A Livraria Martins, que era a maior da cidade, ponto de encontro dos
intelectuais da terra nas suas instalaqaes, na rua Campos Sales (As proximi-
dades do pr~dio de A Provlincia do Pardi), realizou mais uma exposiglio de
livros estrangeiros distribuidos pela Livraria Ler, do Rio de Janeiro. Capas e
indices de livros do mostru~rio da Ler eram expostos nos balcaes da livra-
ria. Quem se interessasse, podia logo encomendar o livro.

Beleza
As madames e senhoritas podiam desfrutar, em outubro, dos beneficios
da competi~go que duas multinacionais do setor de cosm~ticos travavam
em Bel~m. A Helena Rubinstein oferecia consult de beleza gratis com
mademoiselle Ana Malacco e sua "assistente especializada", na Perfuma-
ria Trianon, da Joho Alfredo, enquanto as consultas gratis da Coty eram na
Farmicia Drogadado, da Presidente Vargas. Na Trianon as interessadas
podiam "marcar com anteced~ncia o dia e a hora que melhor lhes convier"
Anrincios
Sorvetes fins? S6 na "Santa Marta", na esquina da Generalissimo com
a Diogo Moia. Ciancias ocultas? Com o professor Jordon, na rua Manoel
Barata, entire Frei Gil e 15 de Agosto (Presidente Vargas).
Panair
Quem quisesse concorrer aos cargos de despachante do aeroporto e re-
cepcionista, oferecidos pela Panair do Brasil, precisava ter boa apresentaphio,
cursor ginasial complete ou equivalent "e bons conhecimentos do idioma in-
glis". Os candidates deviam se apresentar na Se~gio de Pessoal da empresa,
no edificio Manoel Pinto da Silva, apartamento 401. A Panair (leia-se paner),
a mais simpitica de todas as empresas de aviaqil que o Brasil ji teve (con-
sagrada por Milton Nascimento na mdisica "Nas asas da Panair"), garantia
que esses eram "empregos de future", com bons saldrios.
Jirlio Cezar
Em 14 de outubro morria, numa das enfermarias da Santa Casa de Mi-
seric6rdia, aos 85 anos de idade, Julieta de Souza Bentes, filha de Jlilio
Cezar Ribeiro, um dos precursores da aviaglio no Brasil. Continuavam vi-
vos, entlio, todos os outros seis filhos do ilustre paraense do AcarB.
Pintura
O medico Jos6 Morais Rego realizou a primeira exposigli de pintura
"inteiramente abstrata" de Belim em outubro, na sede do Clube do Remo.
Foram 30 trabalhos, "onde est8 perfeitamente gravado um mundo de for-
mas e de cores". O vernissage foi concorrido.


Em l958
Moda

O Magazine 3.900 mandou vir
uma modelo da famosa casa de
modas Socila, do Rio de Janeiro,
para apresentar B clientele as rou-
pas do seu estoque. Maria Augus-
ta, diretora da Socila, trouxe para
o desfile a modelo Irah, que fez
par com a paraense Gilda Medei-
ros na apresentagilo, reahizada na
boate da Assembl~ia Paraense.

Cartilha

O governador Magalhlies Ba-
rata oficializou a "Cartilha Para-
ense", criada pela professor Po-
ranga Cruz JucB, uma tentative de
regionalizar o ensino que merecia
ser retomada.

Troco

As empresas de inibus eram
as mais afetadas pela falta, em
Bel~m, de moeda division~ria, o
popular troco. Para ceder os tro-
cados, os agenciadores de bancas
do jogo do bicho cobravam 20%
de taxa. A dos jornaleiros era de
10%. No desespero, os empres8-
rios ji pensavam em ressuscitar
os "borbs", de triste mem~ria, uma
esp~cie de moeda paralela criada
pela ParB Eletric, a dona dos bon-
des e da energia el~trica da cida-
de. Ou mesmo instituir cheques
especiais. Tudo, menos a agoiota-
gem dos bicheiros e jornaleiros.





co~.
ALICEb;5t~l~
~7, ede
irm hjmem qu~
~ / Ml~a3t ~ amoL~ eqw
IOM)~IO rsob~2~!


PROPAGANDA


Deputado

Na sua face de politico, o
poeta e advogado Ruy Bara-
ta disputou e venceu a eleigio
para deputado estadual pelo
Partido Social Progressista,
em 1958. O seu cartaz era um
must da 6poca.


P.5. P.


a


flei~or LivrF~ brat9 em RUY BARA~Bsr,
yarr dreulrl r~Ul~ti. Xlmri* dlli *giii~d~ a~ dmlleio~ d~
Rrl


Hole, earsta~, MODERNOQ 14,3tJ -- 19.30 -- 21,30 hora -- Sdbardo no
INDEPENDENCE




O contor do pose qule can a polro a povo


~-e 4 ;


6poca, a desembargadora Murrietaj jhavia sido aposentada com-
pulsoriamente, em funglio justamente da repercussio dos seus
atos na administraClio dos recursos dos depbsitos judiciais.
Mesmo reconhecendo o direito do prejudicado "8 integral
repara~gio", que lhe deveria ser dada pela fazenda pliblica, atra-
v~s do poder judici~rio, a president do TJE alegou "a impossi-
bilidade de o ressarcimento ser feito diretamente por este Tri-
bunal". O Tribunal nio teria "legitimidade passiva para arcar
com o 8nus referente g indenizaglio". A parte teria que se valer
"da via pr6pria, nos terms da legislag5io constitutional e infra-
constitucional regedora da mat~ria". Ou seja: proper uma nova
aCgo para recuperar seu dinheiro roubado, sujeitando-se a de-
mora nesse tipo de iniciativa.
Nos terms da legislag~io, o cidadlio Jan Hessel impetrou
mandado de seguranga, em julho do ano passado, ainda penden-
te de decisio, para tentar obrigar o judiciflrio paraense a report o
dinheiro que lhe pertence e que lhe foi roubado por uma juiza,
depois promovida, pormerecimento, adesembargadora. No cargo
m~vximo da carreira, a desembargadora Murrieta foi aposentada,
mal havia comegado a desempenhat suas novas fun95es, para
evitar maior escindalo causado por seus atos desonrosos.


Se a recusa do TJE de fazer a reposigio diretamente tem
ou nio fundamento legal, 6 uma question a ser decidida no con-
tencioso judicial, que a parte lesada foi obrigada a instaurar
para ter de volta o seu dinheiro, direito inquestionivel que lhe
pertence. Para a opinitio pdiblica, entretanto, esse 6 mais um
triste epis6dio a demonstrar a urgente necessidade de um rigo-
roso control externo do judici~rio. O poder tem se mostrado
incapaz de responder pelos atos dos seus representantes e sa-
nar, de pronto, administrativamente, os males que, administrati-
vamente, eles causam, abusando do poder que tim. Niio s6 a
terceiros individualmente, mas B sociedade como um todo cha
pr6pria justiga, acima de tudo.
No caso da desembargadora Murrieta, a aposentadoria,
apressadamente decidida, ainda teve um efeito negative suple-
mentar: obrigou o Superior Tribunal de Justiga a reconhecer
sua incompettncia para processar o feito diante da perda da
condi~gio especial que a entlio desembargadora em atividade
teria. Os autos da dendincia feita pelo Ministdrio Phblico do
Estado tiveram que ser devolvidos a Bel~m para reiniciar a via
crucis que o espera. Ela seria muito menos crucis se o corpo-
rativismo nio falasse tiio alto.


Journal Pessoal o" QUINZENA AGOSTO DE 2004


Refrigerante

Um refrigerate g base de uva produ-
zido em Bel~m? Pois era Grapette. Quem
bebia, repetia, em 1958.


Filme

Paixiio, sofrimento e ligrimas B farta no famo-
so filme de Gilda Abreu, estrelado por Vicente Ce-
lestino, que estreou nos cinemas Moderno e Inde-
pend~ncia, em setembro de 1958.











Se todas as fdrias forem
como estas de julho, juro que
vou passar mais 20 anos inin-
terruptos no batente. Tantas
complicaqaes provocaram o
atraso desta edigio e deixa-
ram, na posta restante, muito
mais compromissos do que
havia quando o Jornal Pes-
soal circulou pela ultima vez,
em junho.
Perdio, leitores.


ONS
Um critic de Ildefonso
Guimarikes disse, certa vez,
que ele escrevia como Gui-
maries Rosa. Julgou ter-lhe
desferido um tiro certeiro, o
da ininteligibilidade. Em lin-
guagem de gente: de escre-
ver sem se fazer compreen-
der. O calmo mas briguen-
to Ildefonso degustou a crf-
tica como o melhor elogio de
sua vida. Mais bem informa-
do sobre os mistdrios da li-
teratura, nunca deu-se ao
atrevimento de incorporar
esse suposto vitup~rio g sua
fortune critical.
A comparagao era exa-
gerada, em todos os senti-
dos. Ildefonso nio ousou tan-
to na forma da escrita quan-
to o autor de Grande ser-
tQdo: veredas, mas sabia ca-
tar as palavras e coloc8-las
no lugar certo, como se es-
pera de um bom santareno,
aculturado na bbidos de In-
glas de Sousa e de Jos6 Ve-
rissimo.
Mais do que isso: suas
tramas eram bem urdidas '
mantendo sempre o interes-
se na leitura de sua pega de
resistincia, os contos. Em
obras mais alentadas, como
na novela (que jamais se ar-
voraria g condigio de ro-
mance), ia buscar inspiraglo
em hist6rias reais. Seu me-
lhor memento, a meu ver, foi
a reconstitui~go da revolta
de 1924, em Obidos. Os dias
recurvos, al~m de boa lite-
ratura, tamb~m 6 boa hist6-
ria. O livro merece ser lido
sempre.
Fora das letras, Ildefon-
so Guimariles atraiu pol~mi-
cas a partir de 1965, quando
sustentou, sob pseudinimo,


uma coluna de A Provincia
do Pardi em favor da candi-
datura de Alacid Nunes ao
governor, sustentada pelo en-
tio governador Jarbas Pas-
sarinho (que depois sairia
para o Senado), litigando
com outro pseud~nimo, o de
Carlos Rocque, na Folha do
Norte, que apoiava o mare-
chal Zacharias de Assump-
~go.
O passionalismo o acom-
panharia desde entio. Mas
a agressividade do que es-
crevia nio tinha a menor cor-
respond~ncia com a pessoa
humana. O Ildefonso amigo
e gentil, que morreu no mis
passado, autor de contos en-
cantadores, 6 o que ficard na
memdria.


FOTO
Por um laps, a cantora
Lucinha Bastos nio foi inclu-
ida na legend da fotografia
publicada na se~go Memdria
do Cotidiano, na qual apare-
cem Edwaldo Martins, Rober-
to Jares, Billy Blanco e Sebas-
tihio Tapaj6s. Perd~io, Lucinha.




aqui


A Albras ird buscar no
Japho o 1,2 bilhio de reais
que adiantou g Eletronorte
pelo contrato, no valor de
3,4 bilhbes de d61ares, que
lhe garantira o fornecimen-
to de energia durante os pr6-
ximos 20 anos (B razho de
800 megawatts firmes, o
equivalenteuma vez e meia
o consume de Bel~m). O
adiantamento sera pago ate
o final do ano, com base em
financiamento de institui-
95es japonesas.
Um cons6rcio formado
por 32 empresas japonesas
tem 49% das aq8es da Al-
bras, a maior ind~istria de
aluminio do Brasil e a oita-
va do mundo. A Companhia
Vale do Rio Doce 6 dona de
51% do capital. A Albras
espera faturar neste ano 640
milhdes de d61ares com a
venda de 450 mil toneladas
de aluminio.


O velho mas sempre present fen~meno, a criatura
se voltando contra o criador, volta a se manifestar na polf-
tica maranhense. O governador Jos6 Reinaldo Tavares, elei-
to pelo grupo Sarney, rompeu com a senadora Roseana
Sarney e vice-versa. O motive 6 o mesmo de sempre:
farinha pouca, meu pirlio primeiro.
Jos6 Reinaldo nho quis apoiar o candidate de Roseana
51 prefeitura de Sho Luis, o seu cunhado, Ricardo Murad,
em rassado recent inimigo figadal da entio governadora,
hoje de volta ao redil dos Sarney. O atual governador pre-
feriu apostar suas fichas na reeleigIo de Tadeu Palicio.
Com isso, pode se credenciar a indicar seu successor e nio
ser apenas um epifen8meno na hist6ria political gongalvi-
na, qlue surge e desaparece conforme a vontade do cli.
Quem sabe, at6 podendo former seu pr6prio grupo de po-
der.
O governador passou a desancar a gestio da sua ante-
cessora e esta, atrav~s dos vefculos de comunicaqio da
familiar, os mais poderosos do Estado, a desmerecer a atu-
al administration. O troco de Jos6 Reinaldo foi suspender
os 700 mil reais de publicidade official que eram pagos to-
dos os meses g rede de comunicaqio dos Sarney.
Agora, os benefici~rios do esquema esperam a inter-
vengiio do patriarca do clii que domina o Maranhio hi
quatro d~cadas. Nos dias acessos do conflito, o senador
Jos6 Sarney estava na Europa. De volta g taba, dever8 por
para funcionar seus dotes de conciliaqio, restabelecendo
o pacto politico, que ignora as circunstincia e visa o uso e
desfrute da miquina ptiblica. O senador Sarney 6 do PMDB,
sua filha atua no PFL e Ricardo Murad e do PSB. Nio por
acaso.







O primeiro mundo no Brasil, parte dele encastelado na
atividade pdiblica, comega a descobrir que a impunidade ji
nio 6 uma regra de ouro. Politicos, ex-dirigentes de 6r-
glios do executive e magistrados comegam a ser indicia-
dos -e press. Os excesses e os abuses, repetidos jB sem
pudor, abriram os olhos da opiniho pliblica e agugaram as
sensibilidades .
Esses potentados, muitos deles agindo como verdadei-
ros marajis, jB perderam sua roupagem mitica. Podem ser
vistos em care e osso, comn trajes comuns, roubando, ma-
nipulando, servindo-se da coisa pdblica. A perda da sacra-
lidade formal que os cargos pdiblicos lhes dava permitir8,
finalmente, distinguir os gatos pardos dos pretos pelo cri-
tdrio da verdade: o que realmente fazem e niio o que di-
zem que fazem.
Pelo menos neste quesito, o Brasil est8 evoluindo.