Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00269
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00269

Full Text





Tornal


Pessoal


MAIO DE 2004
I QUINZENA
N 323 ANO XVII
R$3,00


q A AGENDA AMAZONICA DE LlCIO FLAVIO PINTO
$$\$?$$$$$$S$$$$$^^^


UNIVERSITY OF FLORiD..L
UNIVERSITY OF FLQZRiD^


DESMATAMENTO


0 fogo


outra vez


A constataodo de que os primeiros anos do seculo XXI tem sido tdo desastrosos para
a floresto amozonica quanto as tres 6ltimos decades do seculo anterior parece estar
impedindo que se aprofunde uma suspeita: a realidade e ainda mois grave do que
aparentam os numeros. E o que sugere um dos autores do diagn6stico sobre o ano
de mais fogo do hist6ria, o de 1987.


espanto tomou conta dos ci-
entistas da Nasa, a agencia
espacial dos Estados Unidos,
quando, no dia 1 de setem-
bro de 1987, eles viram a
image transmitida pelo sat6lite NOAA-
9, em 6rbita da Terra, a 833 quil6metros
de distincia. Ao long das principals es-
tradas de tres dos nove Estados da Ama-
z6nia legal (o sul do Pard, do norte e oeste
de Mato Grosso e em quase todo o Esta-
do de Rond6nia) havia 6.800 focos de
fogo, que consumiam naquele moment
306 mil hectares de floresta (o equivalen-
te a um Distrito Federal a cada dois dias).
Desde 1976, quando outro sat6lite ame-
ricano, o Skylab, "fotografou" um incandio


de 11 mil hectares, formado pela Volkswa-
gen na fazenda (de 139 mil hectares) que a
empresa possufa no sul do Pard, os monito-
radores dos sat6lites de recursos naturais
da Nasa haviam se acostumado com as
queimadas amaz6nicas. Mas nada compa-
ravel ao que ocorreria em 1987.
A atividade humana acabaria destru-
indo, naquele ano, 20,5 milh6es de hecta-
res (ou 205 mil quil6metros quadrados)
de cobertura vegetal, area quase igual a
da vizinha Guiana (ex-inglesa), um dos
oito pauses da Am6rica do Sul com area
amaz6nica no continent (60% dela em
territ6rio brasileiro). S6 em Rond6nia te-
riam sido destruidos quase 20% das ma-
tas numa 6nica safra de fogo.


Foi algo desproporcional mesmo para
o Brasil, o pais que, a partir da d6cada
de 70, mais destruiu florestas no plane-
ta, embora abrigando, na Amaz6nia, um
tergo da cobertura de floresta na faixa
tropical da Terra, com registros anuais
CONTINUE NA PAG 2


PMDB VEM DE
HELIO GUEIROS
(PAG. 5 )
I 11111111111111111111111111111








CONTINUA;AO DA CAPA
variando entire 1,2 milhdo e 2,5 milh6es
de hectares at6 o final do s6culo. Subi-
tamente, s6 os tres Estados amaz6nicos
"fotografados" pelo NOAA-9, entire
maio e outubro de 1987, haviam desma-
tado 20,5 milh6es de hectares, record
na hist6ria humana.
O espantoso alcance das queimadas
em 1987 foi, por isso, recebido inicial-
mente com ceticismo, atenuado quando
o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais) assumiu a paternidade dos
dados, que obteve atrav6s de interpre-
tagdo das imagens do NOAA-9. Mes-
mo confirmando-os, por6m, o institute,
vinculado ao Minist6rio da Ciencia e da
Tecnologia, procurou atenud-los: dos 20
milh6es de hectares desmatados, 12 mi-
lh6es seriam dreas de mata fina, cerra-
dos, capoeiras ou mesmo pastos degra-
dados. "Somente" oito milhoes de hec-
tares constituiriam florestas densas na-
tivas. Mesmo aceita essa diferenciaqco,
contudo, era impossivel minimizar o sig-
nificado da destruiqCo: ela deveria ter
alcancado algo como 800 milh6es de
metros cdbicos de diferentes tipos de
madeira, comerciais ou nio.
O cientista Phillpe Fearnside, do Inpa
(Instituto Nacional de Pesquisas da Ama-
z6nia), com sede em Manaus, discordou
da avaliaqao do Inpe. Fearnside chegou
a conclusdo de que os desmatamentos
se estenderam por 3,5 milhoes e nao 20
milh6es de hectares. Segundo ele, os pes-
quisadores do Inpe foram induzidos a um
calculo exagerado por causa das carac-
teristicas t6cnicas do sat6lite NOAA-9.
Basta ocorrer um fogo intense, de 10
metros quadrados, para haver interferon-
cia sobre todo o campo de abrangencia
da image (conhecido por pixel), que 6
de 10 mil metros quadrados. Por isso, fi-
caria dificil definir qual a amplitude real
do campo de fogo porque ele passa a ser
registrado em todo o pixel.
Fearmside mostrou que enquanto o
levantamento do Inpe concluiu que qua-
se 18% do Estado de Rond6nia foi quei-
mado, somente em 1987, seu pr6prio es-
tudo constatou que os desmatamentos
acumulados atW entdo somavam 17%, "o
que jd 6 uma area enorme". A situagio
mais dramitica era a de Mato Grosso,
que ji havia perdido mais de 17% das
suas florestas, ou mais de 150 mil quil6-
metros quadrados.
Menos de um ano depois, ao langar, em
abril de 1989, o program "Nossa Nature-
za", que pretendia reverter a tend8ncia de
uso predat6rio da Amaz6nia, o president
Jose Sarey oficializou nimeros discrepan-
tes em relacgo ao relat6rio do Inpe. Todo o
desmatamento efetivado at6 entao na re-
gido somaria 250 mil quil6metros quadra-
dos, apenas um pouco mais do que os 200


mil km2 que institute havia atribuido exclu-
sivamente a 1987. Mesmo considerando-
se somente os 80 mil km2 de floresta origi-
nal postos abaixo em 1987, no c6mputo do
Inpe, significaria que o desmatamento des-
se dnico ano equivaleu a tudo que foi posto
abaixo na Amaz6nia ao long de 350 anos
de presence europ6ia na regiao, at6 come-
qar o ciclo da "integragao national" atra-
v6s de grandes rodovias.
O debate sobre o relat6rio do Inpe
voltou a se acender. Todos criticaram a
utilizagdo das imagens do NOAA-9 em
lugar das do Landsat, apenas por estas
serem mais baratas dos que aquelas. Os
pesquisadores do Inpe que fizeram a pes-
quisa, entretanto, nao ignoravam essa
deficiencia. Foi por esse motive que eles
recorreram a uma gigantesca margem de
erro nos estudos, de 30%, corn a qual
esperavam poder compensar as carac-
teristicas desfavordveis do NOAA-9,
cujos sensors ficam saturados por pe-
quenos incendios e induzem a superesti-
maq~o da area afetada.
Esse desconto esta bem acima dos
padres usuais. Ainda que o desconto
chegasse a 50%, entretanto, nio haveria
como compatibilizar seu resultado corn a
nova estatistica que o mesmo Inpe for-
neceu no ano seguinte ao president da
Repdblica, para servir de subsidio ao
"Nossa Natureza".
A contradiqao gerou desconforto. Dois
meses depois do langamento do program,
o govemo criou o Simar (Sistema de Moni-
toramento Ambiental e dos Recursos Na-
turais por Sat6lite), destinado a integrar to-
dos os laborat6rios de monitoramento do
pals. Simultaneamente, o Inpe divulgava
novo levantamento das queimadas do ano
anterior, que teriam alcangado 12,1 milh6es
de hectares, pouco mais da metade da pre-
visdo do relat6rio original. 0 assunto pare-
ce ter sido dado como encerrado e sobre
ele colocada a pedra de uma lipide. O re-
lat6rio dos 200 mil quil6metros quadrados
de desmatamento em 1987 praticamente
deixou de existir, enterrando, corn seu de-
saparecimento, o impact e as polemicas
que suscitou na 6poca da sua divulgag~o,
mais de 15 anos atras.
O tema nao foi reaquecido nem mes-
mo quando os anos comecaram a se
enfileirar no s6culo XXI e a prosseguir,
da administraqgo tucana de Fernando
Henrique Cardoso para o modo petista
de Luiz Indcio da Silva, com taxas de
desmatamento tdo elevadas quanto as
do ciclo military da integraqco compul-
s6ria da Amazonia. A opiniao pdblica,
national como international, deu-se
conta de que o Brasil continuava a ser
o maior desmatador do planet em ndi-
meros absolutos. Todos os anos o pais
estava perdendo 0,4% de sua floresta,
com um ndmero alto (mesmo para o


padrdo dos anos 70 a 90), de 2,3 mi-
lhaes de hectares, o dobro do indice
m6dio mundial ao long da d6cada, mas
bem abaixo dos valores apocalipticos
indicados para 1987.
Menos mal, ou sera que esses nd-
meros menos dramaticos sao mesmo
confiaveis? Sera que a opiniao ptiblica
(e, em particular, o meio acad8mico) estd
submetendo ao teste de consistencia
adequado os relat6rios anualmente di-
vulgados pelo Inpe?
Este journal, para reabrir o debate, de-
cidiu ouvir o principal autor do polemico
relat6rio de 1987, Alberto Setzer, ainda
hoje trabalhando no Inpe, em Sao Jos6
dos Campos. Na entrevista abaixo, Set-
zer reafirma os resultados apurados e faz
afirmativas preocupantes.

A ENTREVISTA:
Por que foram usadas as imagens do
NOAA-9 e n-o do Landsat?
As imagens do Landsat sao de reso-
lugdo muito melhor, da ordem de deze-
nas de metros. Por6m:
a) Sao necessarias centenas para co-
brir areas grandes como a Amazonia.
b) Elas demoravam algumas semanas
para estarem disponiveis, mesmo para
usuArios do pr6prio Inpe.
c) Como, nelas, um mesmo local s6
6 imageado a cada 16 dias, e muitas
vezes existe cobertura de nuvens, po-
dem ser necessarios meses de espera
atW que se encontre uma image ade-
quada para andlise.
d) O custo e o tempo de processa-
mento sao exagerados. Como nos le-
vantamentos feitos hoje em dia pelo
INPE com estas imagens, o montante
6 de milh6es de reais e de meses de
trabalho por equipe de umas 20 pesso-
as. Assim, elas sao adequadas para
events que envolvem mediq~o de drea
mais precisa, e corn relevincia tempo-
ral de various meses.
As imagens NOAA-9 (e dos NOA-
As subseqiientes, at6 o 17 hoje em dia)
sao de resolugdo espacial mais limitada,
com 1,1 km na melhor dos casos (no cen-
tro da imagem), chegando at6 uns 5 km
(nas bordas). Por6m:
a) Eram e sao processadas imediata-
mente ap6s a recepqdo.
b) Elas nao t6m custo, e o processa-
mento para deteccqo de focos de quei-
madas 6 imediato e automitico, feito den-
tro do pr6prio Inpe, com pequeno custo.
c) Cobrem diariamente areas de di-
mensao continental e o Brasil todo, se
usadas duas imagens consecutivas (na
epoca usavamos s6 uma).
Quais as conseqiiuncias metodol6gi-
cas dessa opco? Em que media ela
prejudicou ou comprometeu o carter ci-
entifico da pesquisa?


2 MAIO DE 2004 Il QUINZENA Jornal Pessoal








As imagens NOAA sao mais ade-
quadas para detectar focos de queima-
das com fogo ativo e muitissimo limita-
das para estimar areas queimadas ou
desmatadas. As imagens Landsat sao
mais adequadas para estimar Areas des-
matadas e/ou queimadas, e muitissimo
limitadas para identificar as queimadas
que estao ocorrendo.
Na 6poca, nio se faziam estimativas
de desmatamento na Amaz6nia. A ilti-
ma, feita pelo Inpe e o antigo IBDF [Ins-
tituto Brasileiro do Desenvolvimento
Florestal, substituido pelo Ibama], era
de 1978. Ningu6m falava em queimadas
ou desmatamentos descontrolados, como
estavam efetivamente ocorrendo. Sem
recursos para um levantamento com o
Landsat, como reflexo da falta de inte-
resse do Inpe, do IBDF, do governor de
maneira geral, e dos stores pdblicos e
privados, que se beneficiavam ilicitamente
dos vultosos incentives fiscais, nao havia
como estimar o que estava ocorrendo.
O cAlculo feito a partir das imagens
NOAA teve a finalidade de ser um alar-
me para o descalabro. Nao havia na epo-
ca outra forma de estimar o desmata-
mento. Fazendo uma comparaqco, era
como abrir ajanela e ver um edificio em
frente em chamas o important estava
em divulgar o fato e controlar o fogo; se
na hora de avisar os bombeiros nao foi
possivel precisar o ntmero de andares
em chamas, no meio da confusao e cor-
reria, isso nao me parece fundamental.
AliAs, nunca foi feito o levantamento
Landsat de quanto foi desmatado nos
anos de 1985, 1986, 1987 e 1988, os que
devem ter tido os maiores indices naque-
la d6cada. At6 hoje, fala-se na m6dia de
21 mil quil6metros quadrados para o pe-
riodo 1978-1988.
Outra coisa, sempre me referi a des-
matamento, ao contrArio do INPE e do
governor que criaram o termo desflores-
tamento. O desflorestamento 6 sempre
menor, pois deixa de fora o cerrado da
Amaz6nia. Eu me referia a destruiqio da
vegetaqao amaz6nica de maneira geral.
Em 1995 tivemos situaqao semelhan-
te. Pararam os levantamentos Landsat
de alta resoluqao do desmatamento. A
postura do governor era de que o desma-
tamento havia sido controlado. Meus da-
dos de focos indicavam o contrArio, e a
imprensa divulgou com alarde os novos
dados. O governor encomendou ao Inpe
novo estudo para mostrar que os dados
de queimadas estavam errados e que por
trds deles havia um pesquisador maluco
buscando autopromogao. Bem, o valor de
desmatamento annual obtido nas imagens
Landsat foi o record hist6rico, de cerca
de 30 mil quil8metros quadrados. Mais
uma vez os dados de queimadas se mos-
traram validos, importantes e iteis.

Jornal Pessoal I'QUINZENA MAIO DE 2004


A pesquisa e o trabalho correlato,
que no caso identifico como o desen-
volvimento de t6cnicas com sat6lites
para identificaqao operacional de fo-
cos de queimadas, nao foram prejudi-
cados. A pesquisa continuou e conti-
nua evoluindo. A partir de 1998, ela
recebe cerca de um milhao de reais
anualmente por meio de um PPA do
Governo. Os resultados, estao em http:/
/www.cptec.inpe.br/queimadas. 0 tra-
balho, assim como a cooperag~o com o
Ibama, o Proarco e cor intmeros usu-
drios, que persiste por anos, 6 citado
como exemplar.
O trabalho que publiquei com Mar-
cos Pereira na revista Ambio, em 1991,
com os dados, foi um dos 10 trabalhos
brasileiros mais citados na literature in-
teracional na d6cada 1990-2000, rece-
bendo premio da FAPESP [Fundaqdo
de Amparo i Pesquida do Estado de
Sdo Paulo] por esta razio.

A margem de erro, de 30%, nio inu-
tilizava o levantamento?
Como expliquei, nao havia mais nadaque
pudesse ser feito. Entre divulgar uma catis-
trofe national com margem de erro grande
ou entio ficar calado, optei por fazer o que
era possivel. O mesmo ocorreu em 1995.
Ainda acredito que se um dia fizerem a
estimativa Landsat do desmatamento nos
anos critics de 1985-1988, o valor annual
subird muito acima da m6dia 1978-1988,
e se aproximara mais da minha estimati-
va imprecisa que do valor m6dio.

Quais os desdobramentos do antin-
cio do relat6rio, em 1988?
Pelo que acompanhei e documented com
recortes da imprensa e em algumas outras
referencias, consider os seguintes desdo-
bramentos como mais importantes:
a) Estabelecimento da nocqo de uma
destruicqo ambiental, predat6ria e corrup-
ta sem precedentes na hist6ria national
e do planet.
b) Institucionalizaqao de mecanismos
com intuito de controlar o desmatamento
e as queimadas, como a criagqo do Iba-
ma, do Pacote Nossa Natureza, do Pre-
vfogo, do Proarco, etc...
c) Descobrimento e compreensao
pelas comunidades cientificas national
e international de que os nossos des-
matamentos e emissoes das queimadas
estao relacionados a quest6es de mudan-
qas ambientais regionais, e mesmo cli-
maticas globais.
d) Realizaqao de incontAveis trabalhos
e experiments cientificos (por terceiros)
nos temas queimadas e desmatamento.
e) Desenvolvimento e operagqo no
pafs de um sistema de monitoramento de
queimadas por sat6lites em tempo quase
real, ainda nao igualado por outros pauses.


Como o sr. ve o epis6dio, da pers-
pectiva de hoje? Pode-se continu-
ar a usar aquele levantamento? Por
que o Inpe nio mais se refere a ele,
como se inexistisse?
O deflorestamento persiste com
razoAvel descontrole. Eu diria, inclu-
sive, ainda com a conivencia das
autoridades.Os dados de 2001-02, e
os novos divulgados para 2002-03
(mais de 23 mil quil8metros quadra-
dos) confirmam esta situacao. E isso,
considerando apenas o esfloresta-
mento identificavel nas imagens Lan-
dsat. Se considerarmos o desmata-
mento, que inclui a remogdo do cer-
rado na Amaz6nia e o desfloresta-
mento seletivo (que 6 o mais comum),
os n6meros da devastacao serdo mui-
to mais elevados.
Dados do desflorestamento annual
(ainda que subestimando a realidade
devido A falta do desmatamento do cer-
rado e do seletivo) existem desde 1988-
89, conforme o trabalho PRODES do
Inpe, e, ao que tudo indica, continua-
rio a ser gerados anualmente, com atra-
so de um ano ou mais. Ou seja, mesmo
nao sendo ideas, os dados existem e
com eles podemos acompanhar as
aqces do governor para o control (ou
nao) da devastagao.
Neste context, os dados de queima-
das, que sao muito imprecisos para esti-
mar Areas, nio precisam ser usados para
uma finalidade que nao e a sua. Os da-
dos de queimadas destinam-se ao moni-
toramento em tempo quase real do uso
do fogo no pais, e continual a ser gera-
dos operacionalmente.
Em 1995, e, mais recentemente, em
2002 e em 2003, o aumento de queima-
das resultou, obviamente, do aumento do
desmatamento. Se por alguma razao os
levantamentos Landsat nao puderem ser
gerados, como tiltimo (e impreciso) re-
curso os dados NOAA podero outra vez
servir de alarm.
O Inpe, assim como o governor, nun-
ca gostou ou apoiou meus trabalhos ini-
ciais mostrando as queimadas e desma-
tamentos. Eles criavam uma image
negative do pafs no exterior, e prejudica-
vam interesses econ6micos gigantescos.
Fui muito hostilizado por anos seguidos
em virios contextos. Apenas nos l6timos
anos, com o sucesso do monitoramento
de queimadas e de outros trabalhos que
realize, as coisas comegaram a mudar.
Mas, com certeza, resquicios do confron-
to do final dos anos 80 e dos anos 90 ain-
da persistem. Imagine que colegas que
mentiram sob juramento em audigco no
Congress quando garantiam que o des-
florestamento era s6 5%, nunca me per-
doardo por contradiz&-los. Enfim, cada
um age segundo seus principios. *











Caso Maluf: o acerto, final


NMo ha crime perfeito. O criminoso
sempre volta ao local do crime. Esses
sao dois dos axiomas fundamentals da
criminologia. O caso Paulo Salim Ma-
luf parece confirmi-los. O ex-gover-
nador de Sao Paulo deu a tres das suas
empresas no exterior (off-shore, como
dizem os jornalistas economicos), que
organizou para receber e movimentar
dinheiro provavelmente desviado de
obras pdblicas superfaturadas, suges-
tivos nomes: Blue Diamond (Diamante
Azul, em ingl8s), Red Ruby (Rubi Ver-
melho) e White Gold Foundation (Fun-
dagdo Ouro Branco).
Dizem os bem informados que Maluf
deveu sua nomealio para a prefeitura de
Sao Paulo, em 1969, a um diamante que
deu para dona Yolanda, a mulher do ma-
rechal Arthur da Costa e Silva, segundo
president do regime military iniciado em
1964. Maluf iniciara sua vida plblica dois
anos antes, com 36 de idade, na presid8n-
cia da Caixa Econ6mica Federal de Sio
Paulo. Sua familiar era proprietiria da Eu-
catex, entao uma empresa de linha de fren-
te, o que o tornava rico. Nao precisava de
mais dinheiro, por issojamais roubaria.
Essa 6 uma crendice popular falha.
Principalmente a partir da sua ascensao a
mais poderosa prefeitura do Brasil, a car-
reira political de Maluf (que deslocou sua
trajet6ria empresarial) deve-se ao seu po-
der de seducgo, principalmente com pre-
sentes cars (j6ias para os poderosos da
reptiblica, carros para personagens de su-
cesso, como os jogadores da seleqCo) e
obras monumentais (e superfaturadas).
Estimam os procuradores de Sao Paulo,
federais e estaduais, que os desvios feitos
por Maluf podem ser contados por cente-
nas e centenas de milh6es de d6lares.
Talvez bilhao. Quem sabe, bilh6es.
O Minist6rio Pdblico e certa parcela
da imprensa estao empenhados (por mo-
tivos diversos, naturalmente) em nao dei-
xar que se consolide uma moral escusa,
segundo a qual o crime compensa. Essa
ofensiva foi aquecida, na semana passa-
da, graqas A divulgaqco de documents
sobre a movimentaqao de dinheiro de
origem provavelmente ilicita, por Maluf
e seus filhos (famflia que desvia unida
permanece unida?), oriundos da Suifa e
de paraisos fiscais europeus.
Garante a revista Veja: "Pela primei-
ra vez, um politico tem sua vida bancaria
secret no exterior radiografada com tan-
ta precisio. Al6m disso, nunca havia sido
encontrada antes, em contas de qualquer
agent pdblico brasileiro, movimentaqco
bancaria tao vultosa".


E verdade. Quem pode ter, como sal-
do de uma de suas 20 contas bancirias
no exterior, a bagatela de 345 milh6es de
d6lares? Quando se indaga por tal po-
tentado, a amplitude da pergunta 6 uni-
versal. A grandeza do roubo, se ele ficar
definitivamente comprovado, permitindo
ao Minist6rio Plblico denunciar o ladrio
Ajustiqa, 6 de grandeza hist6rica. Espan-
ta, mas nao era de todo imprevisivel essa
pilhagem. Sao Paulo concentra um terqo
da riqueza brasileira, riqueza concentra-
da como s6 ha paralelo em meia dizia de
outros lugares do planet, mas sem o ta-
manho e o potential do Brasil.
Em 1991 o Financial Times, uma das
mais conceituadas fontes de informacao
sobre os neg6cios do mundo, disse que ha-
via oito mil brasileiros com contas numera-
das na Suifa, cujos dep6sitos somavam 30
bilh6es de d6lares. Dava quase 4 milh6es
de d6lares per capital. Esses ntimeros con-
firmam o que qualquer aprendiz de hist6ria
do Brasil estA cansado de saber: a elite bra-
sileira 6 uma das mais predadoras que ha.
O caso Maluf 6 a revalidacao dessa triste
regra, que remonta ao ciclo da cana-de-
aqucar (ainda em plena vig6ncia, remem-
ber Fernando Collor de Mello).
Nao por acaso, os epis6dios mais es-
candalosos acontecem em Sao Paulo, vi-
tima da legend consagrada por Adhemar
de Barros: rouba, mas faz. Numa 6poca
pr6-tecnol6gica, o dinheiro desviado por
Adhemar era guardado num cofre na casa
da amante, que atendia pelo codinome de
"doutor Rui". Ciente do fato, a esquerda
armada roubou o dinheiro (certamente res-
paldada em outro lema: ladrao que rouba
ladrao tem 100 anos de perdao) e Adhe-


mar nem p6de reclamar (mas lamentou a
perda dos documents confidenciais que
foram junto). Ele tinha com que se conso-
lar. A Lacta, por exemplo, formidavel fa-
bricante de chocolates, de sua proprieda-
de. O estigma, contudo, nao lhe permitiu
realizar seu maior sonho: tornar-se presi-
dente da repdblica (o que ainda mant6m a
esperanga de Deus ser brasileiro).
Jinio Quadros, que o seguiu no mode-
lo populista, chegou l. Mas ficou por pouco
tempo. Quando retornava A political, foi
surpreendido pela filha, a muito parecida
Tutu. Ela convocou os jomalistas e deu-
lhes o nimero da conta numerada do pai
na Suifa. Rdpido no gatilho, apesar das
maos tremulas, Janio interditou a filha. E
nenhum jornalista foi atris daqueles n6-
meros. N~o por serem os rep6rteres bra-
sileiros integralmente descompromissados
corn seu oficio. Uma investigaao dessa
exige tempo, dinheiro e fontes no local.
Nenhuma empresa jornalistica se disp6s
a bancar tanto (talvez por tao pouco).
Mas agora os tempos sdo outros. A
Suifa quer limpar melhor o nome dos seus
sacrossantos bancos e sua pr6pria ima-
gem. Ningu6m precisou enfrentar uma
jornada cara, custosa e incerta para ter
as informa6oes. Elas foram mandadas
pelas autoridades suifas para as brasilei-
ras, algumas das quais vazaram os docu-
mentos. Santo vazamento. Talvez agora
o pais, depois de muito ensaiar, possa, fi-
nalmente, acertar as contas com o ne-
fando cidadao que atende pelo nome de
Paulo Salim Maluf.
(Agora 6 esperar que, mais uma vez,
o eleitor paulistano se recuse a dar um
salvo-conduto ao meliante.) *


CARTAS

AMACOL: POR QUE 0 ERRO?


* Na mat6ria tratada no Jornal Pessoal n 321,
cor o titulo "Amacol: historic muito confu-
sa", verifiquei, depois de alguns anos, a ques-
tao da rendncia de domfnio feita por aquela
empresa em favor do Estado do Pard no ano
de 1990, conforme muito bem descrito por
Vossa Senhoria. Fui advogado do Iterpa at6
1989 e, logo ap6s minha said, a referida em-
presa incumbiu-me, juntamente com outro
advogado, a proposiq~o da media junto
aquela Autarquia. A empresa nao passava por
dificuldades financeiras, mas queria tao-so-
mente arredar-se do pagamento de elevada
quantia por d6bito de ITR junto A Receita
Federal. Consagrado o ato, estranhei a aqCo
intentada pela firma e muito mais a decisao
judicial que acolheu o pedido preliminary. Tudo


foi absurdo, inclusive o pr6prio Iterpa, A 6po-
ca, aderir ao ato sem as cautelas legais. Con-
tudo, tenha certeza que aquela firma nao teve
interesse algum em favorecer o Estado. De
retoro a Bel6m, ap6s doze anos de ausan-
cia, alertei a Direqao do 6rgao sobre a falca-
trua da empresa. Incrivel 6 que nao hb no
Iterpa nenhum assentamento dos atos prati-
cados. Sequer foi localizado o process ori-
ginario do ato duvidoso. Tenha certeza de
uma coisa: a empresa postulante, ojuizo e o
Iterpa, todos falharam. Resta saber se por ig-
norancia, dolo ou culpa. Isso fica a seu crit6-
rio e senso jornalistico perquirir. Talvez eu
possa ajudar em alguma coisa.
Avelino do Carmo G de Lima
Advogado OAB/PA 9030


4 MAIO DE 2004 I1 QUINZENA Jornal Pessoal










BelIm:


PMDB


vira de Gueiros


Hdlio Gueiros deveri ser o candi-
dato do PMDB a prefeitura de Bel6m.
Essa parece ter sido a decisao tomada
pelo deputado federal Jader Barbalho,
lider do partido, depois de uma longa
conversa com o governador Simao Ja-
tene, duas semanas atris. Jader per-
cebeu que teria uma posigSo de coad-
juvante tanto na chapa formada pelo
PSDB para a capital como nas dispu-
tas nos 142 municipios do interior.
O ex-governador Almir Gabriel, pro-
vivel candidate tucano, vetou uma ne-
gociaqdo direta com Jader e fez ques-
tao de manter sob seu control a esco-
Iha de seu companheiro de chapa, ain-
da que ele viesse a ser indicado pelo
PMDB,na hip6tese de a composicao
ser fechada. Mas Almir nao optou pelo
deputado federal Wladimir Costa, ao
contrario do que assinalou o jornalista
Mauro Bonna, na sua influence coluna
no Didrio do Pard.
O entendimento entire os tucanos e o
parlamentar peemedebista foi para Wla-
dimir bater pesado no prefeito Edmilson


Rodrigues, o que ele tem feito em seu
program na TV RBA, empresa da fa-
mflia Barbalho. Jader, por6m, nao parti-
cipou dessa negociagao, nem foi infor-
mado sobre ela. A nota pode ter sido
uma advertencia para o deputado: o ex-
governador ainda 6 o dono do partido.
Seu dicionario desconhece um verbete
corn a palavra independ6ncia. Tamb6m
nao inclui a expressao rebeldia.
A escolha de H6lio Gueiros tamb6m
possui seu sentido. Mesmo que sejam re-
motas suas possibilidades de voltar ao
Palacio Ant6nio Lemos, a dois anos de
completar 80 anos de idade, H6lio teria
uma missao: bater em Almir Gabriel, des-
gastando-o e tirando-lhe votos. A entra-
da em cena do ex-prefeito teria a funiao
pr6via de mostrar que a balanga pode
pender para o lado da senadora Ana Jt-
lia Carepa, candidate do PT, graqas a can-
didatura do PMDB, e credenciaria o par-
tido para a formaqao da nova adminis-
traqo municipal.
Essa perspective, que levaria a uma
alianqa mais permanent entire os dois par-


tidos, 6 reforada pela ameaga sobre a
candidatura do deputado estadual Helder
Barbalho A prefeitura de Ananindeua. Tido
como imbativel, Helder pode ter que en-
frentar uma ofensiva reforgada do PSDB
para vencer nos dois mais populosos mu-
nicipios do Estado e fechar o control da
Regiao Metropolitana, criando uma base
political important para 2006.
Se for confirmada a candidatura de
Gueiros, uma coisa pode ser considerada
como certa: o picadeiro estari armado.*


Da pecuaria a pesquisa


Estou fazendo refer8ncia as matdrias
publicadas nos JPs ns 319/320, com a
entrevista de Joao Carlos de Souza Mei-
relies, autor do Livro de Ouro da Ama-
zdnia, langado em Beldm no m8s passa-
do; as "migalhas" de verbas alocadas no
segment de Ci8ncia & Tecnologia; as
correicqes efetuadas pelo Tribunal de
Justica do Estado.
No primeiro caso (entrevista). Achei
um tanto insipientes as respostas do en-
trevistado (assemelhando-se a um mea
culpa). Na minha opiniao a expressao "a
Amaz6nia nao suporta o que a pecuaria
fez corn a regiao e esti causando" 6 muito
rigorosa e, talvez, mistica. E compreen-
sivel que a frente pecudria tenha cau-
sado algum impact negative na estrutu-
ra morfol6gica do solo, mas nada que nao
pudesse ser corrigido oportunamente,
como tem sido feito. Segundo o pesqui-
sador Jos6 Ferreira Teixeira Neto, da
Embrapa Amazonia Oriental, se "manti-
do o atual quadro de crescimento at6
2012 o Pard deveri deter o maior reba-
nho bovino do pafs".

Jornal Pessoal I" QUINZENA MAIO DE 2004


Por outro lado, estamos cor crescen-
tes processes de verticalizagqo, corn a
implantaqio de dezenas de frigorificos,
laticinios e a industrializaqao do couro co-
meqa a deslanchar; a qualidade (superio-
ridade gen6tica) dos nossos animals 6 exal-
tada. Tem mais, nos pr6ximos anos um
projeto de long prazo ird incorporar cer-
ca de 30 milhoes de hectares de areas al-
teradas na atividade pecuaria da regiao.
Todos esses avanqos sao frutos de arduo
trabalho e aplicaqao de novas tecnologias
na atividade. Sendo assim nao vejo como
malsinar uma atividade produtiva de ta-
manha importdncia econ6mica.
Aqui na regiao Norte sempre que se
prop6e realizar algum estudo ou pesqui-
sa, as instituiq es do governor, quando
consultadas, responded invariavelmente
com o mesmo cantochao: recursos es-
cassos, orgamento limitado, eleger prio-
ridades, etc. A Amaz6nia 6 sempre pre-
terida, esquecida, ou recebe o menor qui-
nhao, isso para provar o nosso fatalismo
colonial. Agora, criar uma Escola Nacio-
nal de Botanica Tropical e manter um


curso de doutorado para felizes 6 alunos
com 28 professors p6s-graduados, na
nem tanto cidade maravilhosa, 6 mais que
um escarnio, 6 um vitup6rio.
A situagao fundiIria do Estado do Pard
6 dificil e complex, por6m nao insoli-
vel. Os casos do Sul/Sudeste, particular-
mente Altamira e Sao Fl6ix do Xingu,
merecem nao s6 uma aqao imediata e
en6rgica da justiqa, como uma gestao
policial de alta octanagem. No antigo
Estado de Mato Grosso (antes da divi-
sao), as terras eram propriedades de as-
cendentes e descendentes dos caciques
politicos, capitaneados pelo ex-Chefe de
Polfcia do Governo Vargas, dos seringa-
listas e de alunos raros pecuaristas. Como
havia muitas reclamagqes e a ilegitimi-
dade era doentia, o governor estadual re-
solveu intervir e extinguir um tal de De-
partamento de Terras. Daf partiu para o
apefri;oamento e adequaqao da legisla-
cgo fundidria, e promoveu a discrimina-
9ao de toda a area. Nestes dias, exceto
o contencioso com o Para, parece-me que
as coisas fluem com mais sensatez. *











0 alcohol, o president



e o New York Times


Quase semanalmente Claudio Hum-
berto insinua em sua coluna que o pre-
sidente Lula bebe demais. Oficialmen-
te, pelo menos, ningu6m, no Palacio do
Planalto, se preocupou em desmentir as
notas venenosas. A attitude tem sido cor-
reta. Coluna existe (tamb6m) para abri-
gar baloes de ensaio, especulac6es e
fofocas (e boas noticias, sempre que
possivel). E gis que se dissolve natu-
ralmente no ar.
Aldm disso, os coment6rios mordazes
do jornalista traem sua antiga condicqo,
de assessor de imprensa de Fernando
Collor de Mello. A tinta de sua caneta
(ou a eletricidade de seu computador,
descendo para a seara da realidade) esti
contaminada pelo veneno do rancor e da
vinganga. Costuma faltar-lhe isenqdo
quando trata de certos personagens da
hist6ria brasileira recent.
Sabe-se que Lula gosta de beber. En-
quanto beber nos seus churrascos de fim-
de-semana ou em qualquer outro acon-
tecimento privado, o tema cabe em colu-
nas e nada mais. Quando se conseguir
estabelecer nexo entire sua possivel em-
briaguez (que, quando eventual, nao ca-
racteriza dependencia) e os atos que pra-
tica como president da repiblica, af a
quest~o passa a ser do mais alto interes-
se pdblico. Mas s6 entdo.
O famoso jornalista Carlos Castello
Branco disse certa vez que se tivessem
trancado no banheiro Janio Quadros (do
qual foi assessor de imprensa), nio teria
havido a traumitica renuncia do dia do
soldado de agosto de 1961. Como frase,
6 um primor. Como jomalismo, uma frus-
tragdo: Castellinho jamais checou o que
disse. Seu pequeno e delicioso livro so-
bre a rentincia do ex-chefe 6 omisso
quanto A octanagem do matogrossense-
paulista de sotaque indefinfvel naquele dia
- ou na vespera.
Lula tem dito muita besteira e cometi-
do impropriedades porque fala demais,
adotando como norma o pronunciamento
de improvise, algo que cabia como luva
ao lider sindical, mas constitui uma teme-
ridade para a maior autoridade do pafs. O
correspondent do New York Times no
Brasil disse que essas gafes e equivocos
devem-se ao estado de embriagues do
president. Como nota de coluna, tudo
bem. Como reportagem divulgada no mais
influentejornal do mundo, foi um absurdo.


Nao exatamente porque Larry Rohter
esteja a servigo da CIA ou tenha despa-
chado encomenda de algu6m que quer
abalar o prestigio interacional que o pre-
sidente brasileiro, segundo seus aulicos,
teria conquistado, como o novo timonei-
ro da nau planetiria. Rohter simplesmen-
te praticou jornalismo ruim. Sua mat6ria
nao demonstrou, atrav6s de fatos ou evi-
dencias, que ao cometer as derrapagens
verbais o president tivesse tomado sua
valorizada caipirinha. At6 agora temos
motives para acreditar que o ego inflado
e que agiu, nao o vapor de alcool.
Mas o correspondent do didrio no-
vaiorquino podia nos ter surpreendido
com relates de personagens e testemu-
nhas sobre essas ocasioes de incontinen-
cia verbal de Lula. Nao o fez, contudo.
Politicos que acompanharam Lula na vi-
sita a Rio Branco, um ano atris, para o
langamento do Programa Amazonia Sus-
tentivel, falaram da bebedeira continue
a bordo do "sucatao" entire Brasilia e Rio
Branco. Lula teria descido do aviao dis-
cretamente escorado. Mas essa teria sido
a unica impropriedade. Ele nao discre-
pou do que ji estava escrito e nao fez
qualquer inovacao ou improvise que su-
gerissem descontrole de seus atos.
Nao existe jornalismo sem fatos,
qualquer que seja o texto produzido. O
de Larry Rohter sobre a compulsdo al-
co6lica de Lula costura os fatos por uma
linha interpretativa arbitr6ria, mais como
uma cozinha de material jornalistico pas-
sado, que requentou e ao qual deu a uni-
dade que quis, do que como apuracqo
original. Mesmo havendo pessoas, como
Leonel Brizola, que podem dar testemu-
nho dos excesses do president ao be-
ber, ningu6m minimamente coerente
com a realidade pode afirmar que esse
se tenha tornado um motive de preocu-
paqao national.
E lamentivel que um texto tio pouco
jornalistico assim tenha passado pelo cri-
t6rio editorial do NYT e merecido publi-
cado. Uns anos atras, na redacgo de O
Estado de S. Paulo (o mais pr6ximo
equivalent do Times), material desse tipo
teria sido transformado em relat6rio in-
terno. Ou, como diz o pessoal de infor-
mayqo, seria recebido como mero infor-
me. Oujogado no lixo, depois.
Independentemente da falha do jor-
nalista, os excesses (todos eles) de Lula


sdo algo a inquietar as pessoas de boa-
vontade. Quando ele foi eleito, compa-
rei-o a Lech Walesa, inclusive pelo hibi-
to de beber al6m da conta, que prejudi-
cou e abreviou o mandate presidential
do lfder polon6s. Mesmo que nao tenham
sido a causa de deslizes pdblicos, foram
a razdo da corrosao intera, que acaba-
ria prejudicando o desempenho do famo-
so lider do Solidariedade. Lula, que pode
muito bem ser comparado a Walesa at6
a vit6ria para a presidencia, manteri essa
associaqao at6 o fim? Tera esse fim?
E uma questao em aberto. Por isso
mesmo, d6i como aquele retrato na pa-
rede do poema do bardo Carlos Drum-
mond de Andrade. Ainda mais porque o
epis6dio revelou tanto da desatengao ou
dos preconceitos que ainda cultivam a
nosso respeito os supostos irmdos do
Norte como do modo voluntarioso, ama-
doristico e autoritario de exercicio do
poder pelo nosso president.
Inegavelmente a reportagem foi
ofensiva a Lula. Sua indignagao erajus-
ta. Mas a forma de expressi-la foi de-
sastrosa. At6 o moment em que pre-
tendia processar Larry Rohter estava
acomodando a autoridade maxima nos
seus limits do cidadao, tdo obrigado a
seguir os tramites legais quanto qualquer
Jodo da Silva. Quando extrapolou para
a expulsao, agiu como um atrabilidrio,
tao pesporrento quanto os donos do po-
der no regime military, como se a demo-
cracia nao fosse a diferenqa a nos dis-
tinguir do passado (e nos dar algum alen-
to para o future).
Ou seja: se tiver mais poder, mesmo
que com outros prop6sitos ou sob outras
justificativas, Lula agird igual a um gene-
ral que haja ocupado a presid8ncia por
um ato de forga. Isso nao 6 bor. Nem
para Lula nem para o Brasil.

MAIO DE 2004 I- QUINZENA Jornal Pessoal










Albr s e Eletronorte assinaram



maior contrato de energia dopais


O maior contrato individual de ener-
gia do pais, no valor global de 3,4 bilh6es
de d6lares (ou 7,5 bilh6es de reals), foi
renovado neste mes e entrard em vigor
no pr6ximo, estendendo-se por 20 anos
(US$ 170 milhaes ao ano). O contrato
foi assinado entire a Eletronorte e a Al-
bras, a maior indlistria de aluminio do
Brasil (e a segunda maior do continen-
te), formada pela Companhia Vale do Rio
Doce e um cons6rcio japones.
A solugqo para a continuidade do for-
necimento para um client que 6 res-
ponsivel, sozinho, por 1,5% do consu-
mo national de energia, acabou sendo
inovador. Como se mostrou simplesmen-
te inviavel a renovacgo do contrato an-
terior, que tamb6m teve vig6ncia de 20
anos, pela impossibilidade de as parties
chegarem um valor entire a tarifa ante-
rior, tremendamente baixa, e a tarifa
necessaria para que a Eletronorte pu-
desse amortizar seus d6bitos, a Albris
partiu para um leilao no MAE, o Mer-
cado Atacadista de Energia.
Todas as empresas geradoras de
energia podiam, em tese, participar do
leilao, mas ji se sabia de antemdo que
apenas a Eletronorte concorreria para
valer. O teto estabelecido pela Albris
para os lances era de R$ 53 o MWh. A
Cesp, de Sao Paulo, que pretendia dis-
putar, fez seus calculos e concluiu que
s6 a despesa de transmissdo de ener-
gia at6 a fibrica, em Barcarena, abo-
canharia um terco desse valor. Imedi-
atamente pulou fora.
O lance vencedor foi justamente o
maximo admitido. At6 o 31, quando o atu-
al contrato chegard ao fim, a Albris es-
tara pagando quase R$ 34 (ou US$ 11)
por MWh de energia recebida da Eletro-
norte. Em relaq~o a esse valor, portanto,
o ganho 6 de mais de 50%. Mas a Alu-
mar, instalada em Sio Luis do Maranhdo,
que pagava quase o dobro da Albras, no
novo contrato ainda tera uma tarifa um
pouco mais alta do que sua concorrente
do Para, embora a diferenqa tenha se
reduzido bastante, ndo s6 em relagao aos
valores em si (agora o MWh da Alumar
ficard em torno de R$ 60), como porque
o consume da Albras cresceu mais do
que o da Alumar. Mas sera uma esp6cie
de compensaqgo para o cons6rcio Alcoa/
Billion pelas duas d6cadas anteriores de
menor beneficio.

Journal Pessoal I" QUINZENA MAIO DE 2004


Aparentemente, portanto, a solucao
foi boa para todos. Mas nem tanto. A
Albris decidiu adiantar 1,2 bilhdo de
d6lares, adiantamento contratual a ser
quitado em seis parcelas, por causa da
situaqdo financeira delicada da Eletro-
norte. A empresa acumulou R$ 5,6 bi-
lh6es de dfvidas (sendo R$ 3,7 bilh6es
em fungdo do subsidio), que a levaram
a atrasar em R$ 100 milh6es at6
os fornecedores da duplicacgo da hi-
drel6trica de Tucuruf.
A segunda etapa da usina, partindo
de 4,2 mil MW (com 12 miquinas ins-
taladas na casa de forca), ji esti em
5,7 mil MW de potencia instalada, de-
vendo, ao final da motorizaq~o, em.
2006, cor 23 geradores, atingir sua ple-
na capacidade nominal, de 8,3 mil MW.
Tucuruf se consolidard entdo como a
terceira maior hidrel6trica da America
do Sul e a sexta do mundo.
As seis primeiras parcelas adiantadas
do contrato vdo permitir a Eletronorte
manter em dia o cronograma da duplica-
95o. A Albris sera beneficiada por essa
iniciativa. Em 2006, mesmo corn a con-
clusdo da energizaqco de Tucuruf, a fi-



COMERCIO

Consumada a destruicao da descarac-
terizado do eixo commercial mais antigo da
cidade, nas ruas Jodo Alfredo/Santo Anto-
nio, esta na hora de a prefeitura incentivar
a restauragao das velhas fachadas das lo-
jas desse perimetro, que places de alumi-
nio, acnlico e alvenaria escondiam.
Vai uma sugestao: um concurso para
premier o melhor trabalho de restauragao.
A prefeitura abriria agora prazo para a ins-
criiqo dos lojistas que estdo reconstituindo
as fachadas originals. Em setembro, uma
comissdo t6cnica, constituidapor pessoas de
not6rio saber hist6rico, arquitet6nico e infor-


brica de alumfnio (corn o consume de 800
MW m6dios) absorveri mais de 20% da
energia firme da hidrel6trica, aquela re-
almente disponivel o ano inteiro. Dificil-
mente qualquer outra plant industrial
concorrente no mundo dispord de uma
fonte de suprimento de long prazo tao
segura (e, em funcgo disso, barata) quan-
to a da Albris. Os R$ 53 acertados se
mostram, assim, como um preqo altamen-
te recompensador para a empresa.
Tamb6m para a Eletronorte, mas ape-
nas em terms operacionais. A estatal,
com a renovaqgo do contrato com as duas
indlistrias mais eletrointensivas do pafs,
deixara de acumular todos os anos os R$
400 milh6es de prejufzo que as tarifas sub-
sidiadas anteriores lhe impunham. Mas
ainda tera um grande desafio diante de
si: como acertar as contas corn o passive
acumulado de R$ 5,6 bilh6es? Para que
pudessem contribuir com um efeito re-
trospectivo, Albras e Alumar teriam que
pagar R$ 70 por MW. A diferenqa, a Ele-
tronorte vai ter que buscar no mercado
dos consumidores ndo favorecidos. Ou
seja: no seu, no meu, no nosso bolso.
E assim caminha a humanidade. *


mativo sobre a cidade. Em outubro, durante
a festa do Cfrio, o resultado seria anunciado.
O premio seria a publicaqio de um pe-
queno livro ou folheto sobre a loja escolhi-
da como a mais bem restaurada, devida-
mente ilustrado. A ediq~o, patrocinada pela
prefeitura, teria larga tiragem para ser dis-
tribuida pela cidade, com uma cota para o
lojista. O concurso seria annual, mas os ven-
cedores nao poderiam participar de novo.
No entanto, cada nova publicaqio langada
traria um registro sobre os vencedores at6
aquele moment. Fica a sugestao para al-
gu6m de boa vontade na PMB.


COMERC 0
Um amigo, ao passar pela rua Joao Alfredo, notou que as tubulaq6es usadas na
restauracqo do centro de Bel6m sao de um tipo Condenado pela Associacqo Brasilei-
ra de Normas T6cnicas. As tubulaoqes usadas para abrigar os cabos de conduqgo de
energia sao feitas de um material que facilmente pega fogo e ndo possui a resistencia
exigida. Pelo jeito, as obras na Via dos Mercadores vio demorar mais tempo para
serem concluidas do que para ser usadas.








0A

Estrangeiros na Amazonia:



entire espioes e fantasmas


Reportagem escrita por Frank Siqueira
e publicada em O Liberal no final do mes
passado, sob o titulo "Soberania sobre a
Amazonia 6 posta em xeque", provocou
no meio acad6mico impact semelhante
ao da entrevista que David MacGrath deu
A revista Veja alguns meses antes. Como
da outra vez, houve intense troca de men-
sagens a respeito da mat6ria pela inter-
net, mas raros se aventuraram a se ma-
nifestar publicamente. Um tnico pesqui-
sador enviou uma carta A redagdo do jor-
nal, que se recusou a publici-la e encer-
rou, ao menos temporariamente, o trata-
mento do tema. Bem ao seu estilo: sain-
do tao subitamente quanto entrou.
O impact foi causado pelo primeiro
parigrafo da reportagem (o que os jor-
nalistas chamam de lide), que dizia:
[* O filtro nao suporta esse format
de arquivo I incorporado.TIF *]"Poucas
pessoas em Bel6m devem ter vivo na
mem6ria o nome de Thomas Lovejoy.
Discreto, ele nunca apareceu muito para
o grande pdblico. Que tamb6m por isso,
entire outras raz6es, nao teve oportuni-
dade de tomar conhecimento do que ele
andava fazendo por aqui. O certo 6 que
Thomas Lovejoy, depois de passar uma
temporada em Bel6m, em trabalhos de
pesquisa vinculados ao Museu Paraense
Emilio Goeldi, voltou para o seu pals de
origem, os Estados Unidos, e li acabaria
assumindo uma fungao invejada e parti-
cularmente honrosa, passando a integrar
o seleto grupo de conselheiros cientifi-
cos do entdo president Bill Clinton. Pes-
soas que, naquela 6poca, conviveram aqui
em Bel6m com Lovejoy se mostram at6
hoje reticentes a endossar uma suspeita
que sempre acompanhou sua pessoa: a
de que ele seria um agent da CIA, a
agencia americana de inteligencia e es-
pionagem. Num ponto, por6m, quase to-
dos estao de acordo: a sua perman6ncia
durante um bom tempo no Brasil, vincu-
lado a uma instituiqao cientifica de reno-
me international, e a sua ascensao, logo
depois, a um cargo tio elevado na estru-
tura de poder dos Estados Unidos, mos-
tram a importancia atribuida ao Brasil e
em especial A Amaz6nia pelo governor
americano".
0 parigrafo seguinte complementa-
va a observagCo:
"A passage de Thomas Lovejoy
volta a despertar interesse e a suscitar


discusses, pelo menos em ambientes
fechados, neste moment em que volta
ao centro dos debates a cobiqa intema-
cional pela Amazonia, uma questao anti-
ga mas sempre atual. Nao por acaso,
desconfianqas semelhantes, embora nun-
ca comprovadas, envolvem ainda hoje
outros pesquisadores norte-americanos
que estdo em atividade no Brasil. Pode
haver e provavelmente hi algo de
exagerado nessas verses, mas elas cir-
culam em areas restritas dos meios aca-
demicos".
Embora, como de regra, os espantos,
perplexidades e indignaq6es tenham sido
recolhidos ao foro fntimo, a mat6ria de O
Liberal deveria ter levado os interessa-
dos a consumer o debate que tentaram
organizer, a partir das polemicas decla-
raq6es de MacGrath, mas que acabaram
cancelando.
Thomas Lovejoy 6 outro personagem
pol6mico. Primeiro, por ser um estran-
geiro (e, sobretudo, um americano) comr
largo transito no Brasil. Segundo, por ter
conseguido passar do universe academi-
co para um sat6lite do poder no caso,
uma consultoria a Bill Clinton na Casa
Branca sem perder
a vinculaqo cientifica.
Uma vez Clinton fora
da presidencia, Love-
joy, que antes havia di-
rigido o mundialmente
famoso Instituto Smi-
thsonnian, voltou as
suas pesquisas com a
mesma desenvoltura.
Seria ele um India-
na Jones ou, mais especificamente, um
agent da CIA, como sussurram algumas
pessoas, transformadas em fontes an6-
nimas mas com cr6dito reconhecido -
pela mat6ria de Frank Siqueira?
Ele pr6prio diz que o assunto "voltou
A tona nos l6timos dias, com poder ainda
maior de seduqdo, depois das dendncias,
formuladas por delegados da Policia Fe-
deral, sobre a suposta ingerencia dos ser-
vigos secrets e policiais dos Estados
Unidos no Brasil". Embora "ainda nao
totalmente esclarecidos, inclusive no to-
cante as suas graves implicaqges institu-
cionais", os fatos contidos nas denincias
que ojornalista ecoou foramm e vem sen-
do relacionadas com outra questao que
preocupa bastante a comunidade cienti-


fica brasileira: a atuaqco de t6cnicos
americanos em quase todos os grandes
centros nacionais de pesquisa cientifica,
num regime de compartilhamento de in-
formaq6es que nem sempre 6 cumprido
nos dois sentidos".
A preocupaqao 6 procedente e a apu-
raqao dos fatos deve ser feita com a ur-
gencia e o rigor que a gravidade da es-
peculaqco autoriza. Mas recomenda a
intelig&ncia e o bom senso que nao se
invented fantasmas ao meio-dia e nao
se sigam delfrios geopoliticos para que a
atividade clandestine, a pirataria, a espi-
onagem, a atividade prejudicial ao pafs e
a ilegalidade em geral, sendo combatidas
eficientemente, nao sirvam de espanta-
lhos a prejudicar a cooperaqgo cientifi-
ca, sem a qual a Amaz6nia, beneficidria
da solidariedade do saber universal, nao
conseguird ajustar sua agenda ao tempo
hist6rico. Do mesmo pais que nos espo-
lia atrav6s de seu grande capital podem
sair ferramentas contra essa situaqco de
suas instituiq6es cientificas s6rias, ou de
gente de valor que nela existe.
Jornalistas j ouviram fontes que sus-
tentam denincias como as que Frank Si-
queira abrigou na sua
matdria. At6 ji rece-
beram pap6is em abo-
no dessas teses. Sen-
do jornalistas s6rios,
independents e com-
prometidos com seu
A" oficio, se nao passa-
A> ram em frente o ma-
terial acumulado 6 por-
que ele nao 6 suficien-
temente consistent para dar respaldo
a reportagens. Sendo um desses jorna-
listas (conheqo virios outros que se de-
claram em situaqao semelhante A mi-
nha), nao me senti autorizado a escre-
ver o que o colega de O Liberal publi-
cou. Acho a mat6ria de Frank tao in-
consistente quanto a de Larry Rohter
sobre o alcoolismo de Lula.
Lula bebe. E verdade que bebe mui-
to, as vezes. Esti comprovado que em
algumas ocasioes se comportou inade-
quadamente (cito uma delas nesta edi-
qgo). Mas ningu6m, at6 hoje, documen-
tou algum ato de governor por ele produ-
zido sob o efeito de embriagu6s. Uma
mat6ria de dendncia s6ria teria que re-
constituir pelo menos um moment fe-

MAIO DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal








CONTINUA;AO DA PAG8
chado atestando a relagdo de causa-e-
efeito do glcool.
Da mesma maneira, Lovejoy 6 es-
trangeiro, ter tido atuaqco intense na
Amazonia, nem sempre em rigorosa pa-
ridade entire a instituiq~o estrangeira A
qual pertence e a national a que se asso-
ciou, tem nexos extra-academia e mexe
alguns barbantes do teatro de marione-
tes do poder. Mas dai a ser agent da
CIA vai a distancia da prova ou, pelo
menos, da evidEncia que legalmente (e
logicamente) a supre. Se hi essa prova,
eu nao consegui ter acesso a ela. Nem
eu, nem outro jornalista que esteja inte-
ressado no assunto. Nem Frank Siquei-
ra, que, ainda assim, decidiu passar ao
ptblico meras especulaqes protegidas
pelo anonimato da fonte.
Neste moment meu computador esti
cheio de mensagens apontando Larry
Rohter como agent da CIA. A dendn-
cia, a partir do libelo de uma professor
universitaria de Brasilia na internet, se
sustenta em virios pontos. Analisados e
checados, eles sao pontos de partida para
a apuraqo, uma pauta, nunca um ponto
de chegada, uma conclusdo. O chamado
jornalismo de investigaq~o consiste em
submeter as informaqres a testes de con-
sist6ncia documentall e testemunhal) e
s6 passd-los em frente quando se pode
responder por eles. Nas piginas de jor-
nal ou emjuizo.
Um principio elementary de direito,
segundo o qual todos sao inocentes at6
prova em contrdrio, garantindo-lhes o
devido process legal e o contradit6rio
(sem o qual nao terdo a legitima ampla
defesa), se aplica completamente aojor-
nalismo. Mas Larry Rohter nao o apli-
cou. Esti sendo vitima, portanto, de seu
pr6prio veneno. Lovejoy esti na mes-
ma condiqao e sequer fez uso do ve-
neno. Acusi-lo de usar sua condi9go de
cientista, tdo respeitivel at6 agora que
tem publicado artigos importantes ao lado
de estrangeiros pelos quais nutro pro-
fundo respeito (como Ghillean Prance,
do Kew Garden, de Londres, a quern
tanto devemos em conhecimentos e di-
vulgagdo), 6 algo tao s6rio que exigiria
mais responsabilidade, aquela dose de
responsabilidade que se deve ter quan-
do esti em jogo a honra, a reputag~o e
a dignidade alheia.
Espero que no dia que um desses es-
trangeiros (ou mesmo nacionais) for des-
mascarado como espiao ou coisa que o
valha (o que 6 plenamente possivel, dada
a vastiddo dos interesses e das atuaqoes
escusas na Amaz6nia), eu possa ser o
primeiro a fazer a den6ncia do fato. Ou,
se "furado" pela concorrencia, possa
aplaudir a faqanha do rival. O que ainda
n~o 6 o caso. Infelizmente. *

Jornal Pessoal I QUINZENA MAIODE 2004


/ o

Um desatino: Troia



e a cultura complicada


Numa mat6ria sobre Trdia, repro-
duzida entire n6s pelo Didrio do Pard,
D6bora Miranda, da Agencia Folha (do
journal Folha de S. Paulo), diz que o
film 6 uma versio hollywoodiana do
"complicado livro A Iliada". Destaca
a atuaqao de Brad Pitt, obrigado a dar
conta do "complicado lado psicol6gi-
co" de seu personagem, Aquiles.
Ajornalista, evidentemente, nao tem
um vocabulario muito rico. Nada suge-
re que haja lido o "complicado" poema
de Homero. Mas por que cargas
d'agua esmagou-o com essa expressao
tumular? Complicado a partir de uma
perspective de hoje? Complicado por
usar expresses anacr6nicas, que a di-
ligente jornalista nao encontrard no Au-
r6lio? Complicado por lidar com tantos
e tao monumentais personagens ao lon-
go de centenas de piginas?
No entanto, A Iliada 6 lida hi cen-
tenas de anos, mil6nios mesmo. Por que
serd? Porque nao hi mais emocionan-
tes, impressionantes e acredite, dona
D6bora realistas descriqces de bata-
lhas. Nem Tucidides, Tolstoi, T. E. La-
wrence ou quem mais se apresente
chegaram tao alto na reconstituiq~o de
uma guerra e do que acontece intra-
muros entire as escaramuqas.
Quem tiver desses tempos 6picos
uma id6ia atrav6s de Hollywood
(como, os da minha geragqo, pelos
estfdios de Cineciti), se surpreende-
ri ao encontrar em Homero o que re-
almente acontecia: um guerreiro caf-
do ao chao A espera do golpe final sem
poder se erguer, tal o peso de sua ar-
madura. Mas Homero lidou ao mes-
mo tempo com series humans e deu-
ses, sem discernir quem era mais vai-
doso, cruel, autoritario, egoista, capri-
choso e poderoso, poder as vezes ti-
rado do fio da lamina de uma espada,
em outras ocasioes de recursos magi-
cos, ambos com a mesma sem-ceri-
m6nia que caracterizava os atos de
deuses e semideuses, numa 6poca em
que todos estavam embrulhados na
mesma trama.
Quem comeca a ler Homero nao
consegue parar a leitura. Af, A parte o
atestado de incultura da jornalista e
desse tipo usual de jornalismo que se
pratica no Brasil, em cadernos de cul-
tura mal apossados da designaqdo, esti


o maleficio de sua infeliz classificaqdo.
Jovens que lerem seu texto irao, quan-
do muito, parar em textos recontados,
sumarizados, adaptados, "simplifica-
dos" de Homero. Jamais beberao na
fonte pura. Outros, na idade madura,
empacarao em fontes secundirias, per-
dendo-se pelos desvdos de int6rpretes
e explicadores de int6rpretes.
Daf o sucesso da fauna acompa-
nhante (e freqientemente predat6ria)
da dita literature infantil e para-diditi-
ca. Os livros escritos por esses auto-
res sao induzidos aos leitores pela vi-
sdo semialfabetizada dos clissicos que
parece ter a jornalista "A Folha". No
entanto, os grandes criadores se tor-
naram clissicos exatamente porque
anularam a barreira do tempo ao da-
rem, aos fatos de sua 6poca e do seu
lugar, uma vivacidade eterna.
O primeiro livro que li, fora os didi-
ticos, foi A Histdria da Revoluado
Francesa, de Francois Mignet. Tudo o
que li depois sobre esse decisive acon-
tecimento da hist6ria humana nao alte-
rou a impressed forte que essa leitura
juvenile me proporcionou. Tempos atris
voltei ao livro e o li com o mesmo pra-
zer, o mesmo interesse e o mesmo pro-
veito de d6cadas antes. Mignet escre-
veu para ser entendido por todos, sen-
do fiel aos fatos e personagens sem
sacrificar a exatiddo na pira da simpli-
ficaqoo. E tao "complicado" quanto
Homero. Uma vez iniciada, a leitura ird
at6 o fim. Santa complicagdo.
Muitos anos depois vim a desco-
brir, nas Memdrias Imorais, que Mig-
net foi tamb6m a primeira leitura do
cineasta russo Serguei Eisenstein. A
cronica coloquial e a narrative empol-
gante do autor francs cativaram dois
meninos de um lado e do outro do
mundo, em 6pocas distintas (juro que
sou mais novo do que Eisenstein).
Queremos que muitos outros pos-
sam usufruir o mesmo privil6gio. Por
isso escrevo esta nota indignada con-
tra, o moment infeliz da jornalista da
Folha de S. Paulo, na esperanca de
que seu tropeqo nao se torne capaz
de desviar os que a lerem do caminho
da verdadeira cultural, aquela que,
mesmo parecendo complicada A dis-
tancia, nao 6 complicada para quem
se disp6e a transport o seu portal. *



















*


PROPAGANDA

Em casa
SEm 1958 Edyr Proenqa em-
prestou sua imagem de radi-
alista consagrado para este
muito modern antincio (da
lavra da agencia SM) dos ci-
garros Casablanca, fabrica-
dos em Belem mesmo (com ta-
baco importado do Rio Gran-
de do Sul) por Y Serfaty Fu-
mos S/A, "uma tradigdo na in-
distria de cigarros do pais".
A fdbrica ficava na avenida
Senador Lemos. Edyr decla-
rava, no -reclame-, como se
dizia, que experimentou e
aprovou o cigarro. Se o
anlncio pudesse ser sonoro,
para transmitir a mensagem
do locutor de voz inconfun-
divel, provocaria mais efei-
to ainda. Tudo prata da
casa. Antes das estradas de
integraqdo national bagun-
qarem a casa. Irremediavel-
mente, ao que parece.


Vacaria
* Secretario de Satde do Es-
tado, o m6dico Amaldo Prado
decidiu, em 1964, submeter a
inspeqao sistemitica todo o
rebanho leiteiro de Bel6m, es-
palhado por muitas vacarias
que ainda havia na cidade. S6
uma delas, em uma 6nica ins-
peqao, abrigava oito vacas tu-
berculosas. Os animals foram
imediatamente abatidos no
matadouro. 0 proprietrio ga-
rantiu que ndo se aborreceu
com o prejuizo, muito pelo con-
trnrio: reconhecia a providen-
cia como favorivel ao bern
coletivo.
Vem daf o alto consume de
leite em p6 em Bel6m.


Caju
* Andr6 Barreto, Afon-
so Klautau, Jos6 Otivio
Pires e Fernando Ru-
ffeil eram os diretores
da Caju (a Casa da Ju-
ventude, fundada pelo
padre Raul Tavares,
com sede na avenida
Almirante Barroso) res-
ponsiveis pelo Curso
de Noq6es de Teatro,
que seria realizado du-
rante 15 dias, em 1970.
O curso seria orienta-
do por Claudio Barra-
das, na 6poca teatr6lo-
go, hoje padre.


MAIO DE 2004.. I1 QUINZENA Jornal Pessoal


Porto
* No final de dezembro de
1971 o governador Fernando
Guilhon assinou a escritura de
desapropriaalo de tres glebas
de terras, totalizando area de
41 mil metros quadrados, na
margem do rio Tapaj6s, onde
seria construido o porto de
Santarem. Essa seria a parte
do Estado no empreendimen-
to, antiga reivindicacao da re-
gido. O dinheiro viria do
DNPVN (Departamento Na-
cional de Portos e Vias Na-
vegiveis), 6rgao da adminis-
traqdo federal que seria subs-
tituido pela Portobris, ji ex-
tinta. A construqao ficaria a
cargo da Cibrasil.












4- l .


FOTOGRAFIA

Almirante Tamandare


Imagem rara, se setembro de 1962, do canal da
avenida Tamandard, visto da rua Padre Eutiquio,
depois de uma intervengdo da Construtora Gualo
(abrindo uma vala a pretexto de sanear a drea) e antes
da pavimentaqdo, que lhe deu a feiado atual. Irritados


cor a empresa, que iniciou os trabalhos sem conclui-
los, os moradores colocaram sobre o canal uma faixa,
parodiando o poeta Gongalves Dias: "Abaixo a
destruidora Gualo. Ai que saudades que temos da
nossa Almirante querida, pela Gualo destruida".


Reporter 70
* Seleqo de notas do Rep6rter 70 de 1983 a 1985, quando a
principal coluna de O Liberal era comandada pelo pr6prio dono,
Romulo Maiorana, e justificava sua posigao na nobre terceira
piginadojomal:
* 0 primeiro pronunciamento feito pelo governador Jader
Barbalho depois da posse, o texto que leu anteontem no
Conselho Deliberativo da Sudam, foi preparado a seis mdos
no fim de semana anterior 0 pr6prio Jader redigiu, jun-
tando informagdes que lhe foram fornecidas pelos secre-
tdrios da Fazenda, Roberto Ferreira, e do Planejamento,
Simdo Jatene. Na vispera da reunido, suprimiu vdrios da-
dos e retocou o texto.
* Na palestra que fez ontem, no almoco mensal da ADVB-Par,
Wanildo Torres, representante do Carajazao em Bel6m, disse que o
acesso do empresariado paraense ao Projeto depend exclusiva-
mente dele pr6prio, o que parece nao estar acontecendo. Tanto que,
disse Wanildo, da pauta da iltima reuniao do Conselho Interministe-
rial do Programa Grande Carajas nao constava uma s6 empresa
paraense se habilitando A participagao, mesmo que em uma sim-
ples pr6-qualificaqo ou para isengdo de impostos, por estar loca-
lizada na area do projeto, que, como 6 pliblico, abrange mais terri-
t6rio paraense do que o de qualquer outro Estado. Como demons-
tragao de pouco interesse, apesar de tanto se insistir na tese do
acesso dos paraenses ao Projeto, bastava mencionar que raros
sao os empresarios que ja foram conhecer a Serra de Carajas.
Essas observances foram recebidas, pelos empresarios pre-
sentes ao almogo, como um recado, que o professor Edson
Franco reforgou com nimeros: dos dois mil empresarios que


ji passaram pelo Hotel Serra dos Carajas, apenas dezoito
eram paraenses.
* Ate ontem, s6 uma prefeitura se uniu a de Belgm para pres-
tar contas ao novo Conselho de Contas dos Municipios. Foi
a Prefeitura de Nova Timboteua. AlMm dela, nenhuma outra,
nem mesmo as prefeituras do PMDB, que sdo perto de 40.
* O govemador do Estado, Alacid Nunes [que estava deixando o
cargo, substituido por Jader Barbalho], disse, para o nosso
amigo comum, Ant6nio Farias Coelho, que nao vai pagar as contas
do Grupo Liberal. *** Vamos morrer de fome.
* Renovando o guarda-roupa, ontem, comprando ternos nas
casas especializadas do comercio, o future chefe de Gabi-
nete, Georgenor Franco, confirmando sua indicagdo. Quer
comparecer devidamente e sobriamente encadernado.
* 0 boom do moment: late Clube. Vale a pena adquirir um
titulo. Procurem o Vic Pires Franco. Plimplim.
* Nenhum conselheiro do Tribunal de Contas [do Estado],
apesar de convidados, compareceu as solenidades de posse
e instalaado do Conselho de Contas dos Municipios do Pard.
* Na base do qualquer descuido pode ser fatal, nio sera novi-
dade para o reporter se o pio subir mais uma vez, durante o
mes. Sobre pio! Sobe pao!
* Posso informal, em absolute primeira mdo, que o prefeito
Almir Gabriel vai larger a political. Agora em novembro de
85 ou em marco de 86. Super-decepcionado com muita
coisa. Que eu sei e depois conto.
* Estd havendo uma luta de foice no escuro entire alguns pro-
prietirios de 6nibus pela concessdo de linhas para os coletivos.
*** Luta de foice ou de $$$.


Jornal Pessoal I QUINZENA MAIO DE 2004 11










Ricardo: para escanteio


a4
ra


FLASH-BACK

Um dos registros inapagi-
veis da minha mem6ria sono-
ra 6 o ruido provocado por
pedagos de asfalto batendo no
assoalho do carro. Menino,
gostava de ouvir aquele baque
seco e mdltiplo, como uma
chuva invertida (e pervertida).
Mal sabia que estava testemu-
nhando uma das mais tipicas
obras eleitoreiras da cidade.
Na v6spera da eleigao, a
prefeitura colocava uma pa-
trol para espalhar aquela fari-
nha de asfalto, mal compac-
tada por um rolo compressor
que vinha em seguida, em ruas
de trifego mais intense ou em
bairros estrat6gicos para as
pretens6es do politico.
Pois nao 6 que o prefeito
Edmilson Rodrigues retomou
a plenitude dessas obras? Fi-
quei observando, estupefato,
sentindo-me de volta aos tem-
pos de moleque de rua, a mi-
quina selar o asfalto antigo da
Ruy Barbosa com uma cama-
da de uns dois centimetros de
espessura. Nada de sand-as-
falto. Por isso mesmo, o sei-
xo tingido de petr6leo se des-
prendia quase imediatamen-
te do fino tecido asfiltico e
ia rolar por debaixo dos car-
ros ou se infiltrar nas calga-
das. Levado pelas rodas dos
veiculos, deve ter ido parar
nas garagens e eventualmen-
te, nas solas dos sapatos dos
motorists, nos apartamentos,
li no alto.
Obrigado, prefeito, por
mais esta obra de 1,99, atra-
v6s da qual retornamos a uma
Bel6m que parecia perdida
nas brumas do tempo.


Lula tinha ao seu lado uma das pessoas
mais indicadas para orienti-lo sobre como
agir no epis6dio Larry Rothter: seu asses-
sor de imprensa, Ricardo Kotscho. Sinto-
maticamente, Ricardo foi imobilizado, co-
locado no freezer. Teve que colaborar com
seu silencio compuls6rio, ou obsequioso
(para usar uma expressao ao agrado do
conselheiro spiritual do antigo lider do
ABC paulista).
Nada melhor do que um jornalista para
tratar de jornalismo. Os assessores impro-
visados e deslocados jd deviam ter apren-
dido essa licao. Seus patroes, idem. Mas
parecem preferir uma opqao dom6stica, es-
colhendo para o dificil oficio pessoas de
confianqa, mesmo que amadores. Parecem
achar que o fisiologismo e o compadrio
constituem a melhor abordagem do jorna-
lismo (o toma-li-di-ca), coerente com suas
vis6es do poder e de seu relacionamento
com a imprensa. Ignorando o profissiona-
lismo, podem dar-se muito mal, como acon-
teceu com Lula.
Participei, com Ricardo, de um grupo de
jornalistas, sobretudo de O Estado de S.
Paulo, que se reuniam nos fins-de-sema-
na. Em restaurants, bares e boates, a be-
bedeira era ruidosa. Nas casas de uns e de
outros, o ambiente era criado mais para fa-
vorecer as conversas intimistas, a aproxi-
maqao amistosa (apesar de exceq6es, como
quando se saiu em bando de um churrasco
bem paulista na casa de Raul Bastos para
invadir a sofisticada ala dos s6cios do Sao
Paulo no estidio do Morumbi).
Apesar dessas ginkanas alco6licas, to-
dos trabalhivamos muito, nunca menos do
que oito horas por dia. Nao se tem nenhum
caso destacivel de perda de uma mat6ria
por causa de bebedeira (sem ela, como
lembraria o patrono Chico Buarque de Ho-
llanda, ningu6m agiientaria o tranco). Cla-
ro que alguns se deram mal exatamente
por nao saber se-
parar o dever do
prazer, derivando
para o alcoolismo,
o que nao foi o
caso de nenhum
dos maravilhosos


companheiros desses tempos, todos com
biografias destacadas e, ainda hoje, vi-
rios deles em pleno front, como Ricardo,
infelizmente esquecido num moment em
que a veia autoritdria dos petistas do po-
der se manifestou. Ou, justamente por isso,
jogado para escanteio.
Se tivesse podido agir, tenho certeza de
que Ricardo iria conversar com o corres-
pondente do NYT, mostraria os erros gros-
seiros que ele cometeu, Ihe apontaria sua
versao e conseguiria espaco para registri-
la nas piginas do didrio americano. Gostar
de beber 6 uma coisa, ser alco6latra 6 ou-
tra. Nao esti provado (ao menos at6 ago-
ra) que Lula seja um alco6latra. Pode con-
tinuar a tomar seus porres eventuais e seus
drinques permanentes sem comprometer o
exercicio do cargo. E provivel que ele te-
nha feito mais besteiras s6brio do que al-
guns graus acima da normalidade.
Posso dar, a respeito, um depoimento
dom6stico. O bebum mais famoso na politi-
ca do Pard 6 H61io Gueiros. Participei de
apenas uma das confraternizacoes anuais
cor a imprensa durante o quatrienio dele
como governador. HWlio estava de porre,
mas nao fez escandalo algum. No horArio
do expediente, jamais o vi beber. O que ele
tomava era um chi para controlar a pres-
sao, impressionantemente alta. S6 no final
da tarde comegava a se dedicar ao esporte
etflico. Se algum assunto pdblico atraves-
sasse seu caminho nesse horario, ele podia
extrapolar. Foi o que fez quando determi-
nou o fim imediato de um program de jor-
nalismo na TV Cultura. Mas nao tinha ne-
nhuma na cabeqa quando me mandou aque-
la carta nojenta de 1991.
Em situacqes como essa do Larry Rohter,
um pouco de bom humor e cabeqa fria fazem
muito melhor do que o prende-arrebenta. Por
isso, Ricardo Kotscho fez, para Lula, a falta
que Lula criou para si mesmo com seu modo
crescentemente bo-
napartista (ou stali-
nista?) de exercer o
poder. Para ser s6-
rio, o companheiro
nao precisa se levar
tao a serio.


ERRATA
Dizem que sou pessimista. Menas verdade. Na edi9go passada, tao otimista estava que
querendo me referir ao prejuizo acumulado da Paratur acabei escrevendo sobre algo que
inexiste na companhia: lucro acumulado. Que diminuiu um pouco nao pela receita da
empresa, mas pelas inje96es de verbas do govemo.

Jona Pes a Edt4 ci [i Pint