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Tornal Pessoal ABRIL DE 2004 2a QUINZENA N 322 ANO XVII R$ 3,00 A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO University of Ilordda Por tras de Mato Grosso Depois de aceitar por vdrias decodas os limits que o IBGE tra ou para separd-lo do Pard, Mato Grosso saiu para brigo. Quer ficar corn 2,2 milh6es de hectares que atualmente estdo no Par6. Se ganhor, levard o que? Se perder, qual o tamanho do prejuizo do Pard? 0 governor Simao jotene pode estar subestimando o problem. 0 Pard pode comecar a encolher. tendimento de um s6culo com o Pard ao decidir re- correr ao Supremo Tribunal Federal, no mes passado, para pedir a revisao dos seus limits ter- ritoriais cor o vizinho ao norte. Na aqdo ordindria que impetrou, a Procu- radoria-Geral de Mato Grosso alega que seu Estado foi esbulhado em pou- co mais de dois milh6es de hectares por causa de um erro na demarcaqdo da li- nha divis6ria, realizada no inicio do s6- culo passado. De imediato, o relator da mat6ria, ministry Marco Aur6lio de Mello concede liminar, sustando to- dos os tipos de intervenqio do Pard na area contestada. Mato Grosso diz que decidiu recor- rer A via judicial "em virtude do silen- cio profundo e sepulcral do Estado do Pard quanto ao cerne da questao". O ponto de diverg8ncia esta no acidente geografico de refernncia da linha divi- s6ria, a oeste, e seu traqado a partir daf. Os demarcadores teriam deslocado a divisa, ancorada no Salto de Sete Que- das, 130 quil6metros para o sul, onde esta a Cachoeira das Sete Quedas, e des- sa maneira reduzindo o dominio de Mato Grosso em favor do Para. A procurado- ria explica que o governor mato-grossen- se tentou todas as formas de acordo com o Para, mas chegou a conclusao de que o Estado vizinho nada faria em favor da revisao porque ela o desfavoreceria. Por isso, ndo teve outra alternative senao apelar para a justiga. A tardia reagqo do govemo paraense foi de tranquilidade. 0 governador Simro Jatene declarou que os estudos realiza- dos a seu pedido sustentam a correqao CONTINNUA NA PAG 2 0 PRESIDENT E 0 LULA (PAG. 3) CONTINUAfAO DA CAPA da posiqdo do Estado, de que nada hA a rever porque a delimitaco da divisa ParA- Mato Grosso 6 inquestionivel tecnica- mente. De certo modo foi menosprezado o document que embasa a pretensdo de Mato Grosso, elaborado em 1952 pelo legendario marechal Candido Rondon, talvez pelo fato de Rondon ser natural daquele Estado. 0 fundador do Serviqo de Protegqo aos Indios sustenta que o tra- qado adotado oficialmente tomou como refer8ncia nio o Salto de Sete Quedas, mas a Cachoeira. A contradita dos t6cnicos paraenses sustenta que Rondon, notabilizado pelas campanhas que comandou para estender a linha telegrafica national ao extreme noroeste do pais, estabelecendo contato com os povos indigenas isolados que en- controu pelo caminho, cometeu um erro primario de andlise. Ele, sim, teria troca- do as referencias, talvez num grosseiro erro de direqao. Mas o ministro-relator do STF ficou tao impressionado com as alegaqces em tese de Mato Grosso que decidiu adotar a media acautelat6ria de interditarjudicialmente a area at6 a defi- ni9~o de m6rito da aqio. Independentemente desse contencio- so t6cnico, que certamente exigira a in- tervenqao de um perito judicial, a hist6- ria da definip9o das divisas entire Mato Grosso e Para, problematica por envol- ver uma linha seca com quase 700 quil6- metros de extensao, atravessando uma regiao isolada, de dificil acesso e fraca- mente povoada, favorece o Part. No primeiro ano da Repdblica, o Es- tado assinou uma convengdo com Mato Grosso para a definiqCo da divisa atra- v6s de arbitramento. A linha foi tragada pelo Clube de Engenharia, que daria ori- gem A atual Fundaqdo IBGE, um tercei- ro sem qualquer interesse na demand dos dois Estados, e integrante da administra- 9ao federal, acatado pelos contendores como Arbitro capaz. Os atos praticados at6 a elaboraq~o do primeiro mapa da divisa foram aceitos, referendados e ofi- cializados pelos dois Estados, sem qual- quer divergencia. Somente 60 anos depois que o Clube de Engenharia elaborou a primeira cole- qao de cartas geogrificas brasileiras de valor international 6 que Mato Grosso comegou a se opor A aceitagao da linha de separag~o, mesmo alegando, na aqao proposta no STF, que o erro havia sido "grave e sinuoso". A questao imediata consiste em pro- curar motives para o Clube de Engenha- ria favorecer o Pard. Nenhum foi apre- sentado at6 agora para colocar em sus- peigao a instituigqo. A outra questao 6: se o erro era tao grave, por que Mato Grosso levou tanto tempo para, em pri- meiro lugar, denuncid-lo, e, em seguida, tomar a iniciativa de corrigi-lo? Pode ser que, a partir da d6cada de 80, o Pard te- nha feito corpo mole para passar das pa- lavras e dos documents a aqgo. Mas o Mato Grosso nao foi nada expedido para forqar medidas concretas do vizinho. Por que todo esse impeto agora? Um fato concrete 6 o prejuizo que os fa- zendeiros matogrossenses estdo tendo, na area sob litigio, por ainda estarem sujeitos as restriq6es impostas as zo- nas afetadas pela febre aftosa no Para. Como do outro lado a liberaqao jA 6 total, esses criadores ganhariam se sa- issem da jurisdiqgo do Pard e passas- sem a integrar Mato Grosso. Se nao de direito, ao menos de fato, toda a region limitrofe na metade ocidental do traqa- do divis6rio tem mais ligaq6es corn Mato Grosso do que com o Para. Um outro motivador da determina- qao revisionista e reivindicat6ria seria a condiqao empresarial do governador Blairo Maggi, considerado o maior plantador de soja do mundo. Ele teria interesse em ampliar ajurisdiqCo do seu Estado e conquistar mais aliados e elei- tores, inclusive para quando deixar o governor. A expansdo natural dos seus milionarios neg6cios esti ao norte e a oeste de Mato Grosso, entire Rond6nia, Amazonas e Pard. O emabasamento documental da aqao de Mato Grosso nao pode ser sim- plesmente desdenhado. Ele recomenda reflexao e esfor9o para sua contradita. Mas fica claro que a administragao Ma- ggi nao se restringiu a uma iniciativa juridica. Apesar de a aqao investor di- reta e agressivamente contra o Pard, a Uniao nao foi chamada a lide. E uma omissao indesculpavel. Afinal, quem cometeu o erro, se erro houve, foi a instituiqao da qual surgiria o IBGE, que 6 um orgao federal. O Para, mes- mo que tenha agido com malicia e oportunismo, nao teve qualquer parti- cipaqCo direta no erro cartogrdfico. Nao foi agent, apenas paciente, be- neficidrio do ato. Logo, a Uniao 6, no minimo, litisconsorte necessArio. Tern que ser integrada a aqgo. Ainda que Mato Grosso esteja com a razo e venqa a dispute iniciada, cor- re o risco de ter uma vit6ria de Pirro. Segundo levantamento feito pelo agri- mensor e advogado Paraguassi Eleres, autor do mais s6lido estudo entregue ao Iterpa, dos 2,2 milh6es de hectares reivindicados por Mato Grosso, apenas 320 mil hectares (ou 14% do total) ain- da nao tiveram destinaqCo dada pelo Pari, permanecendo livres para uso. Mesmo que o Supremo de ganho de causa a Mato Grosso, o Estado assu- mird o ativo e o passive do novo terri- t6rio, com pouca margem para criaqao e revisdo (segundo uma norma legal, aplicivel ao caso, acordo equivale a lei entire as parties que o assinaram). Se a questao 6 restrita, seu signifi- cado, por6m, 6 muito mais amplo. A re- cuperacao dessa area por Mato Gros- so, incluindo a transferencia de juris- dicqo sobre parte da provincia mineral de Carajis e a regiao da antiga base military do Cachimbo, poderd servir de impulso para os movimentos emanci- pacionistas dentro do pr6prio Para. A principio visando a criacio de dois novos Estados (Tapaj6s e Carajis), agora essa frente acrescentou uma terceira uni- dade federativa A sua perspective, o Xin- gu. Assim, reduz-se ainda mais o tama- nho do Estado remanescente. Se sofrer essas tres perdas, o Pard que sobrar sera o menor dos Estados que, atualmente, for- mam uma inica unidade federativa, a se- gunda maior em extensao do Brasil. Nao deve ter sido por mero acaso que o movi- mento separatist recrudesceu no Tapaj6s. O que esti emjogo, portanto, 6 mui- to maior do que o que o governor Si- mdo Jatene pode estar vendo atrav6s seu instrument preferencial de uso em relaq~o h questao, o bin6culo. CHEF Na quarta verso do Ver-o-Peso na Cozinha, seu idealizador, Paulo Mar- tins, dono (com a mae, a querida Ana Maria) do restaurant Ld em casa, confirmou sua condiqao de principal chefde cozinha da Amaz6nia. E bom ver Paulo ombreado a alguns dos principals nomes da cozinha brasi- leira (nativos ou importados), ndo s6 por sua maestria com ingredients, molhos e tempers em geral, mas por se apresentar como um verdadeiro criador de escola, mestre. Paulo nao apenas levou A perfei- qSo o sabor dos pratos paraenses, os mais brasileiros que ha, como foi ousado e sensivel ao abrir pontes para a combinagao com outras cozinhas e para uma revisita ao modo de fa- zer as comidas tipicas, desrespeitan- do regras formais e realizando com- binaq6es heterodoxas de felicidade rara. A distancia e corn a boca trans- bordando de agua cobicosa acom- panho o sucesso do amigo com or- gulho. Afinal, foi conseguido com trabalho, competencia e aplicaqlo, antidotos contra a patriotada e aa go entire amigos. O que esti nota, com todo rigor, nao 6. Apenas reconhece o valor a quem o valor 6 devido. 2 ABRIL DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal 0 president diz xis. Lula faz ipisilon Em abril do ano passado, quando lanqou no Acre o Programa Amaz6nia Sustentavel, o president Luiz Inacio Lula da Silva prometeu que seu gover- no se empenharia em substituir a cul- tura do desmatamento pela cultural da floresta na regiao que constitui a mai- or fronteira de recursos naturais do pais, especialmente de florestas. Um ano depois, a realidade contradiz esse compromisso: a destruigao da floresta amaz6nica na "era Lula" persiste no patamar muito elevado dos iltimos anos do consulado de Fernando Henri- que Cardoso, de 2,3 milhoes de hecta- res desmatados por ano. O desmata- mento nos primeiros anos do s6culo XXI se iguala ao da d6cada de 80 do s6culo passado, exorcizada como sede dos "anos do fogo". Nao apenas o president nada fez para mudar a realidade como nao mo- dificou sua pr6pria cultural para que ela favoreqa um modo de desenvolvimen- to que use produtivamente as Arvores sem coloci-las abaixo. Na visit que fez, na semana retrasada, a um dos in- vestimentos em infra-estrutura acusa- dos de agredir o meio ambiente, o pro- jetado gasoduto Urucu-Manaus, no Amazonas, o president declarou que a Amaz6nia nao 6 um santuArio. Ela precisaria produzir para sustentar seus quase 20 milhbes de habitantes. A Amaz6nia, de fato, nao 6 santuArio. Tanto nao 6 que em quatro d6cadas per- deu 16% de sua cobertura florestal. Es- ses 650 mil quilometros devastados (area quase sete vezes maior do que Pernam- bucano, o Estado de nascimento de Lula, ou duas vezes e meia Sao Paulo, sua ter- ra adotiva) constituem o maior desmata- mento temporalmente continue da hist6- ria da humanidade. E isso, justamente na regiao que abriga um terqo de todas as florestas tropicais do planet, as mais ri- cas em biodiversidade. Quando a derrubada intensive de mata comeqou, a Amaz6nia vivia isolada do restante do pais. Podia at6 ser considera- da como um santuario, nHo porque qui- sesse, mas porque o mundo exterior ain- da nao havia definido o que ia querer dela. Hoje, ela cumpre algumas das fun9qes para a qual foi "integrada". O Japdo, por exemplo, retira do seu subsolo 15% do mindrio de ferro que alimenta seus alto- fornos e, a partir do beneficiamento da bauxita, 15% do aluminio primario trans- formado em suas metalirgicas. Esta em atividade na Amazonia a maior mina in- dividual de bauxita do mundo, no Trom- betas. No final do pr6ximo ano a Alu- norte se consolidara como a maior fabri- ca de alumina do mundo. A Albras ja 6 a maior plant de aluminio do Brasil e a segunda da Am6rica do Sul. O resultado dessa producqo 6 que a Amaz6nia se desenvolveu? Evidente- mente que nao. Cada vez que uma ins- tituiqgo de pesquisa coloca no ar o re- sultado de um levantamento qualitati- vo do process econ6mico, que o ex- operArio Lula encara a partir do prisma do ABC paulista (6 o outro lado, sem ser-lhe a contrafaqco, do universe pau- lista de FHC), se consolida aquilo que o canadense Andr6 Gunder Frank defi- niu como "o desenvolvimento do sub- desenvolvimento". Ou seja: ficamos maiores e mais pobres. E dificil perceber esse paradoxo quan- do nos deixamos levar pelos agregados econ6micos meramente quantitativos ou desagregados. Beirando o deboche, os dois jornais diarios de Bel6m O Libe- ral e Didrio do Pard abriram suas pri- meiras paginas para proclamar que en- quanto o setor industrial brasileiro expe- rimentava taxa negative de crescimento, no Pard essa taxa batia em 32%. Dois dias depois a Companhia Vale do Rio Doce se sentiu no direito de reivindicar os lou- ros: ora, esse desempenho extraordini- rio se devia justamente a duas de suas controladas. Como, entao, acusa-la de nao servir ao Pari? Apenas essas duas empresas de bauxita e de alumina eram responsi- veis pela notavel faqanha apregoada pelos dois peri6dicos da capital paraen- se. Imediatamente a CVRD providen- ciou anuncio de pagina inteira para trombetear ainda mais o feito, primei- ramente publicado apenas na folha dos Barbalhos, mas, em seguida, finalmen- te, veiculada no jornaldo dos Maiorana, que assim conseguiu quebrar ojejum de publicidade da Vale (agora devera ser a fase do "relaxe e aproveite"). Estimulado pela imprensa chapa bran- ca, o cidadao comum deve ter ido buscar a carteira de trabalho, atualmente entre- gue as tracas, para esperar pelo "espeti- culo do crescimento" que o president Lula oferece em troca do santuirio sem utilidade. Vai esperar inutilmente, como pat6tico personagem do teatro surreal de Samuel Beckett. A atividade que esti se expandindo cria poucos empregos e con- centra a renda que consegue gerar, esta sendo menor do que a renda transferida para fora, beneficiando o comprador dos produtos que nosso president quer ver criados no lugar das arvores-santuario. Isso porque os nossos produtos valem cada vez menos, se nao em valores abso- lutos, ao menos em terms relatives. O volume de receita cresce e impression porque as quantidades dos produtos sao cada vez maiores, respondendo assim pelos records produtivos, que tao bem fazem A contabilidade do ex-operario do ABC paulista. O ponto de viabilidade de Carajis batia em 20 milhfes de toneladas de mi- n6rio de ferro. Hoje a mina esta chegan- do em 70 milhoes de toneladas. Devera alcangar, ao final da d6cada, 100 milhoes de toneladas. A lavra de bauxita do Trom- betas era de bom tamanho em 6 milh6es de toneladas. Neste ano chegara aos pin- caros de 16 milh6es, quando comega uma nova frente para mais 4,5 milh6es (e, logo em seguida, 7 milhoes de toneladas). A Alunorte foi concebida para 1,1 milhao de toneladas de alumina. JA esta em 2,4 milhoes e, se o governor nao atrapalhar (neste caso 6 trapalhada mesmo), ira para 4,2 milhoes, no topo mundial. A Albris foi projetada para ser uma fabrica de 320 mil toneladas de lingotes de alumfnio, mas cortou a fita national em 432 mil toneladas ejA vai passar de meio milhao cor a expansao de sua gemea Alunorte. Tres fabricas de caulim reunidas fardo do Pard nesta d6cada o 3 maior produ- tor mundial dessa argila. As cinco mi- nas possiveis em Carajas nos colocardo num lugar parecido no mercado mundi- al de cobre. As perspectives para o ni- quel sao parecidas. Com tudo isso, o Pard caiu da 5" po- siqao como o maior exportador brasi- leiro para a 9a posicqo. Do segundo lu- gar em saldo de divisas, desabou para o 6 lugar. E o destiny fatal para quem nao agrega valor ao que produz. Vai servir de escada para outros crescerem. Como Sao Paulo, o domicflio eleitoral do president Lula. Enquanto retorica- mente ele se diz disposto a comandar uma revolucao para acabar com a pra- ga do desmatamento, na pratica ele ap6ia um modelo segundo o qual tudo o que substituir a mata 6 melhor. In- clusive porque faz a Amaz6nia se pa- recer cada vez mais ao restante do pais, integrando-se a ele, ainda que tardia- mente, na posiqio que lhe foi dada para ocupar: a de col6nia. Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 3 A conta dos arquitetos e seus muros absurdos Numa das mais belas piginas do canci- oneiro popular brasileiro, como dizem os cronistas, o poeta Vinicius de Moraes es- creveu uma "carta ao Tom 74", sobre mdi- sica de Toquinho. Lembrava o Rio de Ja- neiro das d6cadas de 40 a 60, um dos me- Ihores lugares do mundo para se morar na- quela 6poca. Por que o destaquejustamen- te entlo? Porque o Rio, ainda a capital do pals, desfrutava a liberdade proporcionada pela democracia de 1946, que sustentou a criatividade, a imaginag~o, o entusiasmo e a confianca dos brasileiros. Combinados com o melhor sitio urban que uma cidade tem como paisagem em todo planet, es- ses sentiments provocaram uma explosao de felicidade como poucas vezes deve ter ocorrido no Brasil. O mundo real tamb6m continuava a existir, 6 claro, mas Vinicius acertou na mosca da metifora quando disse, na letra da misica, que estar no Rio naquele mo- mento era "como se o amor doesse em paz". Em moments de desacerto, podia-se sen- tar na praia, diante do mar, e recuperar o inimo. Ou, mesmo do apartamento, naque- la muralha de concrete, que se adensaria al6m da conta e do bom senso, ter "um can- tinho do c6u e o Redentor". Mas tudo mudaria. Nem a garota de Ipa- nema, criago de Tom & Vinicius, sabia que "em pouco a cidade turvaria/ esse Rio de amor que se perdeu". O Rio deixou de ser a capital da reptiblica (de certa forma, uma traicao de Juscelino Kubitscheck, o mais carioca dos presidents mineiros do pais) sem perder a mentalidade elitista de funci- onmrios pdblicos e sem ganhar a cultural da inddstria ou a seriedade da prestaco de servigos (no que a cosmopolita Sao Paulo 6 imbativel). Entre um vasto lumpen pro- letariado surgiria a 6tica da oportunidade, a obsessed de tirar vantage, consagrada naquela frase definitivamente cinica dojo- gador Gerson, e legitimidade na promis- cuidade do dominio e exercicio do poder. De Icaria dos brasileiros, o Rio 6, hoje, essa fonte national de angistia e sofrimen- to, vitima de uma guerra absurda porque previsivel e plenamente passivel de preven- qo, masque se agigantou e se tomou mons- truosa pela conurbaqo da omissao corn a incompetencia. Instaurada a barbarie, ela se infiltra por todos os poros sociais e ino- cula a obtusidade. Uma de suas manifesta- 9qes 6 a id6ia apresentada pelo vice-gover- nador do Estado, Luis Paulo Conde, de le- vantar um muro nos limits da favela da Rocinha para confinar a marginalidade, estancar o crime e proteger o tecido supos- tamente sao da sociedade e do urbanismo. Por que seri que o medo segregacionis- ta dessas pessoas se revela de forma tio pri- mrria, atrav6s desse muro recorrente? 0 pri- meiro-ministro Ariel Sharon teve irrupdio semelhante: sugeriu um muro entire seu pais e os palestinos, tao fanatizado que mandou para o lixo a reaqo de seus antepassados a nojeiras como essa, a tiltima das quais le- vantada entire duas bandas de Berlim, na Alemanha, extensio de totalitarismos que vitimaram o povojudeu, como nenhum ou- tro povo em toda a hist6ria humana. De um lado do muro, o que nIo presta. De outro, os eleitos. Ora, de um lado pode estar o Estado Palestino. De outro, Israel. Mas hi bons e maus tanto de um lado quan- to de outro. Um muro separa artificialmen- te o que, em realidade, nao 6 separado. Na Palestina de antes da resolucao 47 da ONU, de 1948, havia palestinos muqulmanos,ju- deus e cristios, todos convivendo numa nado. Hoje a naq~o noo existe mais. E pre- ciso que ela volte a existir em plenitude. De outro lado, o retoro ao mundo de an- tes de Israel ji nao 6 mais possivel, realisti- camente falando. Israel tem o direito de continuar a existir. Mas dentro dos limits de 1948. Eles sao estreitos, 6 verdade. Mas serno mais seguros atrav6s da negociaqio, do entendimento e do armisticio do que pela via das armas ou do muro de Sharon. O mesmo raciocinio se aplica ao Rio de Janeiro. Mais eficiente do que a repres- sao policial, inviivel conforme o padrdo de efici8ncia que dela se devia exigir para dar conta do tamanho do problema, 6 a aqao social. TrAs-os-Muros de Conde hi milha- res de pessoas decentes, trabalhadoras e honradas, que precisam da ajuda do gover- no e da sociedade para progredir e se livrar da tutela criminosa. Isso, sim, 6 tarefa de responsabilidade social, nao a fancaria transformada em ilusdo nas mat6rias pagas da imprensa e no faturamento oculto dos supostos mecenas. Ao encarar a id6ia do muro de Luis Pau- lo Conde conv6m nio esquecer que ele 6 arquiteto (meu Deus: quantos d6bitos nos costados de uma finica categoria profissio- nal, que espalha sua sanha pelo pafs inteiro) e que foi contratado pela Companhia Vale do Rio Doce para dar consultoria sobre ur- banismo em Marabi e Canaa dos Carajds, como iniciativa demarcadora da nova posi- cio social da empresa. Serd a oitava praga? BONDE * A nova Estago das Docas do prefeito Ed- milson Rodrigues 6 o bondinho. O alcaide quer porque quer que seja implantada a linha do bonde, com um quil8metro de extensao, no centro da cidade, tendo como eixo princi- pal o Palacio Ant6nio Lemos, onde sua exce- lencia esporadicamente despacha. Custo do capricho: quase seis milh6es de reais. Nao se consider apenas o pesado 6nus para o erdrio, que poderi ser ainda mais agra- vado porque a obra continue a ter desdobra- mentos imprevistos. Sua pr6pria utilidade esti em causa. No atravancado centro antigo da cidade, os trilhos para o bondinho vao atra- palhar ainda mais a circulaqao dos pedestres, que sao os usuarios preferenciais e dominan- tes dessa parte da cidade. Al6m desse desser- viqo, qual o fascinio que essa linha vai ofere- cer? Que enriquecimento proporcionardi ci- dade? Qual o seu valor de efetiva novidade? A nao ser que, contornando todo o anti- go Palacio Azul, os usuirios do bonde se sintam compensados por contemplar o bur- go-chefe in situ, em pleno trabalho. PASSIVE SOCIAL Passam pela Amazonia mais de um terqo das rotas de trifico de mulheres, criancas e adolescents em uso no Brasil. Sao 63 de um total de 241 rotas, segundo dados da Pesqui- sa sobre o Trifico de Mulheres, Crianqas e Adolescentes para fins de Exploraqdo Sexual e Commercial. Com base no levantamento do Pestraf, o Congresso instalou uma Comissao Parlamentar Mista de Inqu6rito, que passou por Belnm no dia 16. A participaqao da Amaz6nia tem sido des- tacada nos indices negatives, como este da exploragio sexual, que se combine com ou- tras realidades danosas, como o trifico de dro- gas e a violencia, para agravar a situacqo. Um atestado de que os investimentos realizados nao estdo beneficiando a sua populacgo. INDICATOR * Uma equipe de 21 t6cnicos esti encar- regada de preparar o Macrozoneamento Ecol6gico-Econ6mico do Estado do Pari, cuja proposta-sintese o goverrfador Simno Jatene apresentou para discussed na quin- zena passada. Sao 14 na equipe princi- pal, com o apoio de quatro bolsistas e tres consultores. Os engenheiros agr6nomos sao 8, mais de um terqo da equipe total. Ha um ge6grafo. Um tnico engenheiro florestal. Se essa composiqdo t6cnica diz alguma coisa sobre o estudo e a sua aplicacqo, 6 de que o modelo agropecuario vai continuar a prevalecer no Pard sobre sua vocaqdo flores- tal, condenada que persistird a sua sina de abandon e maus tratos. Nao 6 a toa que o Estado 6 o vice-campeao de desmatamento. 4 ABRIL DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal Campo: explosao da proxima vez? O sucesso indiscutivel do Movimen- to dos Trabalhadores Rurais Sem-Ter- ra, o MST, sem paralelo na hist6ria da organizagqo dos homes do campo ao long da vida republican brasileira, se deve ao lado negative do context que o explica. As duras condicoes de vida dos camponeses (para nao provocar maior debate te6rico, aqui considerados, etimologicamente, os que vivem e tra- balham no campo), muito pioradas pela incompetencia, abulia ou hostilidade do Estado, e pelo desinteresse da socieda- de urbana para com seu elo geralmente invisivel, formaram campo f6rtil para o MST, com sua linguagem panfletiria, sua solidariedade incondicional aos "de- serdados da terra" e sua efici8ncia em- presarial e organizativa. O MST podia continuar a seguir numa trilha predominantemente t6cnica para defender os "sem-terra" do pais, sem ig- norar as vertentes political e messiani- cas dessa missao. Mas rapidamente foi dando maior destaque a atuagqo political. Atender as demands dos "sem-terra" parece ter se tornado um meio para atin- gir um fim mais amplo e profundo: mu- dar o Brasil por inteiro. O MST substi- tuiu a teoria passada do foquismo pela agitagdo de massa, comegando por um ntcleo mais ou menos homogeneo, com uma causa razoavelmente comum, para uma absor~go muito maior e mais difu- sa. O MST 6, hoje, quase um partido po- litico, ou mais do que um partido politi- co (na verdade, um antipartido). Tornou- se um agent da revoluqao. Para o bem ou para o mal, certo ou errado, explicit ou difuso, este 6 o seu escopo. A questdo, agora, 6 como situar essa entidade nos quadros da democracia, en- tre a continuidade do status quo e a mu- danqa ou evoluqao, por transformaqao ou revolugdo. Os camponeses adquiriram a legitimidade do protest e da indignaq~o com seu sofrimento de d6cadas e s6cu- los. Trn o direito de apresentar e exigir o atendimento de suas reivindica6oes. O problema 6 quando essa luta desigua na proposta de extrapolar (e explodir) os parametros institucionais da mudanga. A mudanga tem que ser feita no am- bito das normas legais. E o que diz a nor- ma sancionada. Mas o que acontece quando as leis, cristalizadas e rigidas, im- pedem a mudanga? E quando as leis pre- Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 cisam mudar. E, nao mudando, dao ar- gumento a desobediencia civil, instru- mento de mudanga social a margem da lei e contra a pr6pria lei. Nao basta, para realizar esse ritual da passage, que razoes morais sejam seu motivador. E precise que os agents da transformagao demonstrem sua razao. E neste moment delicado e grave que o MST esti mostrando haver extrapolado o dominio da razao, da competencia t6c- nica, do control social e, talvez, da le- gitimidade. Para conseguir seus objeti- vos, o movimento senate a necessidade de arregimentar quantidade cada vez maior de pessoas. Precisa de nimero, de massa. Com isso, a clientele fica impre- cisa e, as vezes, contradiz a razao de ser do movimento. O conflito de opostos pode nao levar a sintese alguma, apenas a irracionalidade. Quem acompanha, como simples ob- servador ou como antagonista, as mobi- lizaq6es do MST, pode observer que muitos dos seus integrantes nao sao, a rigor, camponeses. Muitos sao trabalha- dores urbanos ou, especificamente, lum- pen proletirios. Outros sao o fermento da massa ou, por outra 6tica, massa de manobra, bucha de canhao. E cada vez mais destacada a participaqio de crian- gas, mulheres e idosos. In situ, essa pai- sagem humana denota tr6gua. Em movi- mento, disposiiao para tudo, inclusive o nao declarado. Outro ponto 6 o que fazer (e como fazer) a partir dessas mobilizacqes. Ocu- par terras para plantar comida, 6 a pala- vra de ordem. Tudo bem. Mas certas ter- ras nao devem ser ocupadas, por algum motivo que desaconselha seu uso para fins agricolas (ou mesmo agropecuari- os). A terra boa para ocupagCo (por es- tar acessfvel, as proximidades de uma estrada, ao alcance de uma camera de televisao, ligada a um problema em vias de eclodir, pasaporte para um objetivo que se tornou inalcanq vel pela via pos- tulat6ria) pode nao ser boa para plantar. Seria precise que os lideres do movi- mento dispusessem de um mapa de zo- neamento, document que raramente trm e nem sempre podem ter pelo simples fato de inexistir. Em outras circunstancias, a terra ji esta tendo outro uso. Pode ser que o uso seja inadequado, mas isso nao sera pro- vado apenas porque a massa chegou ao local. Foi o caso do plantio de pinho da Veracel, no sul da Bahia. Os "sem-terra" comeqaram a derrubar as arvores planta- das sob a alegaq~o de que elas deviam produzir era comida. Essa mentalidade equivale as dos primeiros operarios, do final do s6culo XVIII, que se rebelaram contra as maquinas introduzidas nas fi- bricas por ver nelas a personificagqo de sua exploraqio aviltante. A empresa pre- cisou de anos para o plantio e o cresci- mento das arvores, destinadas a servir de mat6ria-prima para sua fibrica de papel. Quebrar o fluxo significa ameaar a via- bilidade de um empreendimento produ- tivo de mais de 1,5 bilhao de d6lares sem uma causa 16gica, sem uma alternative convincente. Pior do que isso: sem alter- nativa alguma, por mero impulse passi- onal (ainda que dejusta causa, do ponto de vista moral). E triste perceber que as iniquidades do Brasil para com sua parte rural per- manegam at6 hoje, ensejando exemplos tristes como os que podem ser arrola- dos atrav6s de uma simples viagem a essas areas, que constituem a praqa do MST. Mas 6 tamb6m lamentdvel perce- ber que as lideranqas desses movimen- tos, de ficil resposta quando incidem so- bre terreno altamente inflamavel, igno- ram que o Brasil 6 muito maior e mais complex do que dele ddo conta suas palavras de ordem, sua visdo estrat6gi- ca e sua pritica political. Extrapolando de uma luta social e t6cnica para uma perspective dominan- temente political, o MST esti abrevian- do um confront que talvez vi- esse a ocorrer algum dia, mas nao da forma tao violent e aber- ta como a que parece se avizi- nhar. Os campos estao se reunin- do e se armando para quando esse moment estourar. Ha a possibilidade de algu6m contro- lar esse estouro? A pergunta fica no ar, por enquanto sem respos- ta. Como quase todas as pergun- tas sobre os rumos deste terri- vel Brasil, grande e pesado, imu- tivel e carente de mudanga. Albras: da energia ao lucro Ficou de ser realizado no dia 3 (es- crevo esta nota dois dias antes) o lei- lao da Albris para a compra de 800 megawatts de energia no mercado aberto. Na semana passada a empresa reativou o leilao, que havia sustado na semana anterior, depois de marci-lo e remarca-lo, na expectativa de chegar a um acordo com a Eletronorte, que Ihe garantiu o suprimento ao long de duas d6cadas (ver, a prop6sito, Jor- nal Pessoal 321). A falta de um entendimento entire as parties, era precise encontrar uma nova said para o tender as necessi- dades da maior fibrica de aluminio do pais, jA que o contrato com a Eletro- norte, assinado em 1984, perdeu a va- lidade no dia 1. Certamente o leilao 6 apenas um arranjo de emergencia para que a Albris assegure seu funciona- mento normal at6 o final do ano, sem prejudicar seus neg6cios. Provavel- mente a pr6pria Eletronorte se habili- tari ao leilao como o fornecedor com maiores condigqes de vit6ria, fazendo o remendo at6 que as bases do contra- to sejam definidas (ou, a alternative mais problemitica, uma nova forma de istorico abastecimento de energia para a indds- tria de Barcarena). Mas se ainda precisa continuar ne- gociando uma nova equacqo para a sua demand energ6tica, a Albras pode co- memorar o maior lucro liquid de toda a sua hist6ria (na verdade, o primeiro de valor expressive), obtido no ano passado. Com os 540 milhoes de reais de lucro (contra prejuizo de R$ 184 milh6es no exercicio anterior), a em- presa p6de melhorar significativamen- te seu perfil financeiro e ajustar suas contas. O saldo de prejuizos acumula- dos em exercicios anteriores, contudo, ainda 6 de quase R$ 30 milh6es. Ou seja: em 20 anos a Albris ainda nao conseguiu se amortizar inteiramente. Talvez por isso alegue nao poder pagar uma tarifa mais just para a ener- gia, sem convencer a Eletronorte. A estatal, de sua parte, s6 nao quebrou em funqdo do crescimento literal- mente inacreditdvel dos custos da hi- drel6trica de Tucuruf porque a mre Eletrobris, cor pensdo do tesouro national, a socorreu. Coraqdo de mae nao tem tamanho. Ja o bolso... Ilegalidade ambiental Mato Grosso, Pard e Rond6nia, os Estados que mais desmataram na Ama- z6nia no ano passado, concentraram 90% da destruiqgo de floresta na re- gido. Embora Rond6nia tenha apare- cido corn a derrubada de 346 mil hec- tares contra um milhdo de hectares de Mato Grosso e 730 mil hectares do Pard, em terms proporcionais ficou no triste primeiro lugar. S6 em 2003 vieram abaixo 1,5% das florestas rondonienses. Em Mato Gros- so o desmatamento ficou um pouco aci- ma de 1%. O sentido 6 inverso quando se segue o tamanho dos tr6s Estados: o Pard com 120 milhoes de hectares, Mato Grosso com pouco menos de 100 milhoes e Rond6nia com menos de 24 milh6es de hectares de superficie. O mais grave: Rond6nia ji p8s abaixo mais de um quarto de suas flo- restas. Ou seja: ultrapassou o limited es- tabelecido pelo C6digo Florestal para desmatamentos na Amaz6nia. Modifi- cado por media provis6ria de 1996, esse limited 6 de 20% das areas de mata densa. Assim, Rond6nia se tornou um Estado illegal, que deixou de cumprir a norma ambiental. Nao espanta que suas liderangas political e economicas advoguem a re- tirada do Estado da Amaz6nia e sua transferencia para o Centro-Oeste. Dessa forma ampliariam a area passi- vel de desmatamento, legalizando for- malmente o Estado e dando um novo habeas corpus preventive para os des- matadores. Tamb6m nao espanta que Mato Grosso lidere as derrubadas pela pers- pectiva quantitativa. E seja um dos dois unicos Estados amaz6nicos que tiveram incremento do desfloresta- mento entire 2002 e 2003. O outro Es- tado nessa situaqdo 6 Roraima, onde o catecismo desenvolvimentista 6 reci- tado por cartilha semelhante A do go- vernador Blairo Maggi. TERRA ARRASADA * Araguaia nunca mais, era o que pensa- vam as pessoas de boa f6 e intelig8ncia depois de testemunharem, ao long das d6cadas de 60 a 80, a destruiqgo avas- saladora do vale do Araguaia-Tocantins. A humanidade ji devia ter avanqado o bastante desde entdo para nao tolerar mais a selvageria que marcou a expan- sao das frentes econ6micas pela porta dos funds da Amaz6nia (a legitima porta de entrada deveria ser a foz do rio Amazonas, o caminho multissecular dos exploradores da regiao). Os dados sobre o desmatamento no ano passado, rec6m-divulgados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de Sao Paulo, no entanto, mostram que o Xingu 6 o novo Ara- guaia no prosseguimento, rumo oeste, dessa ofensiva irracional de destruigqo de floresta. Sao Fl6ix do Xingu foi o municipio onde mais houve desmata- mento: 133 mil hectares de cobertura vegetal foram postos abaixo na safra (agosto/2002 a agosto/2003), o dobro da devastagao no segundo municipio no ranking, que tamb6m foi paraense, Uru- ard (na Transamaz6nica), com 70 mil hectares. Dos 10 municipios mais des- matados na regiao, cinco (os outros sao Novo Repartimento, Marabi e Novo Progresso) ficam no Pard. Entre os 25 campeoes amaz6nicos de derrubadas, os paraenses sao nove. Nao se trata pro- priamente de um galarddo. Sao F61ix ji perdeu 14% da sua co- bertura florestal (s6 em 2003 desapare- ceu quase 1,5% da extensao municipal). Os mais cinicos, que preferem tender pela designaqio de desenvolvimentistas, haverao de dizer que ainda 6 um per- centual pequeno. No entanto, Sao F6- lix, sozinho, responded por 7% de todo o desmatamento da Amaz6nia no ano passado. A Amaz6nia Legal tern mais de 500 municipios. Significa que, a despeito de tudo que ji se disse e se prometeu sobre os cri- mes praticados quase impunemente no Araguaia-Tocantins, eles se repetem no vale seguinte na rota dos pioneiros. Eji estdo ocorrendo na pr6xima parada, o Tapaj6s, onde comeqam a se multipli- car casos de grilagem de terras, concen- traCqo da propriedade, conflitos posses- s6rios, corrupqo, estelionato. Permane- ce, assim, a 16gica da terra arrasada, que serve de guia para a chamada "integra- qCo da Amaz6nia". Depois dela sobrard pouco para "entregar" ao cobigador es- trangeiro, contra cuja "entregagao", a integragdo foi proposta. Somos, para esses centuries roma- nos (ou paulistas), nada mais do que uma Cartago tropical. Delenda, pois. ABRIL DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal Laercio Barbalho e os misterios da political Ha certos moments em que o com- promisso piblico nos obriga a fazer cer- tas coisas que espontaneamente (ou por motive de foro intimo) nao farfamos. Esse foi o caso da morte do jornalista La6rcio Barbalho para o journal O Libe- ral. Quando se juntou a H61io Gueiros, La6rcio usou o Didrio do Pard, na pri- meira campanha de Jader Barbalho ao governor do Estado, em 1982, para ata- car violentamente a famflia Maiorana, que apoiava a dupla Jarbas Passarinho/ Oziel Carneiro. Nao s6 usando expres- s6es ofensivas, como inventando fatos, caluniando intencionalmente. Ficou com os Maiorana uma grande migoa contra Ladrcio, mas o ressenti- mento que tinham contra H61io Gueiros, muito mais ativo na ofensiva contra a famflia, foi esquecido e nao por algum principio superior as miserias humans. Na campanha de 1990 o Didrio voltou a se esmerar no jornalismo passional da 6poca plebiscitaria da hist6ria paraense de baratismo e antibaratismo, mas a li- nha editorial de O Liberal nao foi nem um pouco menos marrom. Apesar desses antecedentes, foi absur- da a decisao dos Maiorana de nao dar uma linha da redaq~o para noticiar a morte de La6rcio Barbalho, ocorrida na quinzena passada. La6rcio foi personagem da his- t6ria do Part. Atuou cor destaque na As- sembl6ia Legislativa do Estado. S6 isso ji exigia um registro que fosse (nao ape- nas um mindsculo aniincio ftinebre, ain- da por cima mal redigido, dos donos de bancas dejomais e revistas da cidade, que saiu como mat6ria paga). Mas havia tamb6m uma conting6ncia da pr6pria hist6ria do journal: La6rcio foi um dos fundadores de O Liberal, na 6po- ca em que o journal era uma publicaqdo official do PSD (Partido Social Democri- tico), controlado por Magalhaes Barata, tio de D6a, que hoje preside as Organi- zay6es Romulo Maiorana. Finalmente: La6rcio, atrav6s do Didrio, era tdo mem- bro daANJ (Associa~go Nacional de Jor- nais) quanto os Maiorana via O Liberal. Nesse caso, o espirito corporativo tem sua serventia. Mas foi mandado as calendas. De minha parte, expresso aqui o prei- to de gratiddo da famflia pela acolhida que Ladrcio Barbalho deu a Elias Pinto, em setembro de 1968, quando nosso pai conseguiu escapar da sanha do delegado Lauro Viana e sua tropa da Policia Mili- tar em Santar6m. Em Belem, homisiou- se da perseguiqgo do governador Alacid Nunes na casa de La6rcio, deputado do MDB, mesmo partido de Elias. Ofensas que depois foram praticadas contra mim nas piginas do Didrio, numa 6poca em que solitariamente enfrentava o governador Jader Barbalho, na epoca ainda nao estigmatizado, eu as esqueci. Mas gostaria de narrar um epis6dio que diz muito sobre os hibitos e as estrat6gi- as political no Para. Em 1993, no dia se- guinte a um despacho da desembargado- ra Maria de Nazar6 Brabo de Souza, au- torizando a realizaqdo de pericia na sen- tenqa proferida pela juiza Ruth do Couto Gurjao, que me condenava, o Rep6rter 70, a principal coluna de O Liberal, pu- blicou nota acusando a atual president do TJE se ser do esquema politico de Ja- der Barbalho, atuando no Tribunal Regi- onal Eleitoral. Para isso, Jader a teria nomeado desembargadora. A nota era uma s6rdida vinganqa contra o despacho de v6spera da ma- gistrada. Ao pedir a pericia, eu suscita- va a possibilidade de que a sentence nao tivesse sido produzida pelajuiza que a assinou. A parte contraria, que propu- sera contra mim a a9go, com base na famigerada Lei de Imprensa do regime military, pela qual fui condenado, fez de tudo para impedir a desembargadora Brabo de tender o pedido. Nao conse- guindo o prop6sito, RosAngela Maio- rana Kzan, autora da queixa-crime con- tra mim, reagiu corn a nota, pretextada como defesa do interesse piblico e de- ndncia de manipulaqdo political do ju- diciario (mesma tAtica utilizada contra o desembargador Benedito Alvarenga, em situaqao andloga, atrav6s da coluna de Paulo Zing, que entrou como Pila- tos no credo da vendetta). Redigi uma nota desmascarando a coluna e mostrando que a desembarga- dora havia subido ao TJE por ato nao de Jader Barbalho, mas de H6lio Gueiros, na 6poca inimigo mortal de Jader (mas hoje em mais uma posiqgo de vice-ver- sa, sempre sujeita A biruta das oportuni- dades ao vento da amoralidade). Levei a nota para A Provincia, mas nao consegui convencer Arth6mio Guimardes a publi- cA-la. Segui para o Didrio, a altemativa que pretend evitar quando fui ao primei- ro journal no qual trabalhei e com o qual sempre mantive estreitas relaqces. Guilherme Barra, o redator-chefe, leu a nota e disse que ela s6 podia sair com autorizaqao de La6rcio. Barra e eu entra- mos no gabinete do president da empre- sa as cinco da tarde e de li saimos as oito da noite. Nao s6 com a autorizacgo assi- nada, mas com numerosos, deliciosos e esclarecedores epis6dios da hist6ria re- cente do Pari, narrados com vivacidade por Laercio, graqas A sua excelente me- m6ria, herdada pelo filho mais famoso. No dia seguinte, para minha surpre- sa, a nota nao saiu no Didrio. De Barra consegui uma explicaAio lac6nica: or- dens superiores impediram a publicago. Por fonte digna de f6 fiquei sabendo mais: no final da noite Jader Barbalho ligara de Brasilia mandando retirar a nota, que ji estava na pigina do joral. Por que fez isso, que aparentemente contraditava o que deveria ser seu inte- resse (desmascarar mais uma vez o con- corrente e ainda desfazer versao falsa que o desfavorecia), 6 um mist6rio. Embora nem tanto. Quem for decididamente atris de uma resposta, a encontrari. E dessa maneira que se escreve a verdadeira his- t6ria, para a qual este ligeiro obituario de La6rcio Barbalho pretend contribuir. VANGUARD Polichinello, a mais nova revista li- teraria do Pari, 6 uma publicaqao as- sumidamente de vanguard. A come- qar pela tiragem realista, de 500 exemplares, declarada honestamen- te no expediente. NMo se prop6e ao sucesso de venda nem A leitura de massa. Mas 6 uma revista de quali- dade national. Como todo empreen- dimento vanguardista, quer inovar, sacudir a poeira do gosto, agitar a cri- atividade, unindo tradiqCo e ruptura. A boa tradiq~o esti nas ilustraq6es, todas a partir do trago profundo de Oswaldo Goeldi. A ruptura fica por conta da inquietagdo dos jovens lite- ratos, alguns nem tanto na idade, mas sempre renovados pelo trabalho. Uma sociedade sem vanguard esta mais sujeita ao imobilismo e necrose mental. Vida longa, portan- to, para Polichinello. Jornal Pessoal 20 QUINZENA ABRIL DE 2004 7 Um desrespeito Quando Lula venceu a eleicio para a presid6ncia da Repdblica, um nome foi imediatamente lembrado para o Ministd- rio de Minas e Energia: o fisico nuclear Luis Pinguelli Rosa. Era o home certo no lu- gar certo. A capacidade t6cnica do profes- sor da Universidade Federal do Rio de Ja- neiro era incontestdvel: dera provas dela no combat ao program nuclear do govemo Geisel, caixa preta importada daAlemanha. Sua articulaqio political nio era menos evi- dente: ele era a mais antiga fonte de con- sulta do partido em mat6ria de energia. Mas Pinguelli nao foi escolhido minis- tro. O lugar foi ocupado por um quadro pe- tista importado do Rio Grande do Sul, Dil- ma Rousseff. Pinguelli esperou mais um ano para se tomar president da Eletrobras, a holding estatal do setor el6trico. Nio esquen- tou o cargo por quatro meses: seu cargo foi negociado com o PMDB, diz o Planalto. Petistas surpresos tentaram manter Pingue- li na Eletrobris. Lula teria reagido com uma frase lapidar para condenar seu ex-consul- tor: "ele nio me d, um voto no Congresso". E verdade. Duvido, entretanto, que Pin- guelli tenha feito alguma vez uma promes- sa desse tipo para Lula. O que poderia fa- zer era render-lhe indiretamente milhares e milhares de votos se continuasse a condu- zir a Eletrobris pelo bom caminho. Ou, para ser mais exato, se persistisse em defende- la dos desvios em que a meteu a political energ6tica (e de privatizag6es alucinadas) da administracgo Fernando Henrique Car- doso. Ameaga ainda no tempo present, sim, porque, na essencia, a diretriz anterior esta sendo mantida pelo govemo Lula. Diz-se que Silas Rondeau, afilhado de Samey, que o colocou na presidencia da Ele- tronorte, subird para a Eletrobris, provavel- mente garantindo sua sucessio no mesmo esquema. Por que a forga do senador Jos6 Sarney no setor el6trico? O Maranhio 6 um Estado consumidor, nio um gerador de ener- gia. Sem os fomecimentos altemados da Eletronorte e da Chesf, o Maranhio estaria em dificuldades. Mas o Maranhioja possui e deveri continuar a atrair investimentos ele- trointensivos. Hoje 6 a Alumar. Amanhi, a siderdrgica de places de aco. Bancando o control do setor, Samey se credencia com esses clients poderosos. Ainda assim, ele s6 estd mantendo sua escalada de indicates porque foi conve- niente ao PT federal aproveitar a gula do senador maranhense para liquidar a fatura Pinguelli. Ele vinha cometendo o erro fatal de nio se submeter ao comit8 central da presid8ncia. Ora, se a at6 entio dura e au- toritaria ministry se submeteu, por que o subordinado dela tentava manter id6ias pr6- prias, que contrariam o politburo federal e seus compromissos de ocasido? Em bom moment os largos ombros de Sarney se ofereceram para levar a cul- pa pela demissdo ignominiosa de um ve- Iho companheiro de viagem dos petistas, que lhe faltaram com o que ele tem rece- bido de seus inimigos: respeito. A manei- ra de Cristovam Buarque, quase Pinguelli foi demitido pela television. Lembro-me de um dia, em 1987, em que nos encontramos no Col6gio Lauro Sodr6, em plena manhi dominical, para participar de um debate promovido pelo PT ou uma de suas organizaq6es associa- das, nao lembro bem. Ja nos conhecfamos de vista e do cruzamento de escritos. Com toda sua merecida fama, Pinguelli estava ali, ao meu lado e do audit6rio, para uma atividade que era puro sacrificio. Cumpriu- a com prazer e pegou o avido de volta ao Rio de Janeiro. Estdo Ihe dando a paga agora. Injusta e indigna. Belem: a marca Numa votaqio o que deve prevalecer 6 a vontade da maioria. Tudo bem: a maioria das pessoas consultadas pelo banco Itat achou que o Ver-o-Peso 6 o simbolo de Bel6m. E, de fato. Mas muitas outras cidades tnm mer- cados equivalentes ao nosso e tio importan- tes para elas quanto o Ver-o-Peso, ou tlo atra- entes para os turistas. O de Bruxelas, por exemplo, me causou profunda impressed. Minha empatia com o de Barcelona foi tao grande que quase todos os dias, dos 10 que por li estive, dava uma volta pelo mercado fechado, indo e voltando pelas Ramblas, sempre a pd, caminhadas de quil6- metros entire trof6us em tijolo e argamassa de Gaudi. Para mim, a maioria votou certa, mas estA errada. O que define Bel6m sio as suas mangueiras. Sem essa arborizaqio, a cidade perderia a alma, o encanto, o cheiro, o traqo que a diferencia de qualquer outra cidade em qualquer parte do mundo. O mais maravilho- so 6 que a drvore nio 6 native da Amaz6nia, regiio que abriga um terqo da floresta tropi- cal do planet. A asidtica mangueira foi, para n6s, amor A primeira vista. Definitive. De minha parte, no dia em que se com- pletar a tarefa que, aos poucos, a insanidade dos nossos governantes estn colocando dian- te de si, de destruir as mangueiras, pedirei e bon6 e darei adeus a esta cidade que tanto amo - e que tio hostile se me torari sem seu velu- do de verdura mangueirosa. A FEIURA DA CIDADE * Depois da primeira aproximagio, quem volta a Roma, orientado por leituras, co- meqa a se dar conta de lacunas na capital italiana. Com mais conhecimento e novas viagens, acaba descobrindo a fonte da in- satisfaqio e da angtistia latentes: a hist6- ria da capital do mundo antigo 6 contada a intervalos. Alguns dos moments de sua milenar trajet6ria desapareceram. A Ida- de M6dia, por exemplo. A her6ica cidade, que resistiu aos bdrbaros, sucumbiu aos Barberini, que geraram papas e saquea- dores urbanos; depois, aos fascistas e democracia cristi. Eles apagaram muitos dos registros arquitet6nicos e hist6ricos da Cidade Eterna. Nossas elites deram-se a trabalho seme- lhante em Bel6m: destrufram e continu- am a destruir paisagens da cidade, pr6di- os, monumentos, testemunhos. Principal- mente a partir do moment em que o fim da Segunda Guerra Mundial redespertou a atividade econ6mica, mantida em limbo nas duas d6cadas anteriores, no eco da deca- dencia da borracha. O apelo da modemi- dade, sobretudo atrav6s do estilo funcio- nal, levou a pira da imolaqio edificaq6es desvalorizadas por serem identificadas com um passado fadado ao desaparecimento. Quem percorrer o eixo Santo Ant6- nio-Jodo Alfredo, sobretudo no inicio da manhi, antes que o perimetro se trans- forme numa autentica zona, teri diante de si um quadro complete dessa desca- racterizagio feroz da cidade. Louve-se a decision da prefeitura de deixar de lado as protelaq6es e conveniencias para co- locar abaixo as horrorosas fachadas e td- tricas marquises dos pr6dios do s6culo XIX e do infcio do s6culo passado. A sensaqio 6 de nudez. Mesmo quan- do o que se revela seja feio, 6 menos feio do que a cobertura anterior porque apre- senta promessas para o future. Sem qual- quer exceqio, as construcSes anteriores eram mais bonitas e valiosas do que os arranjos, estilizaqSes e maneirismos que a elas se superpuseram, sob a avalanche de um modernismo de mau gosto e ins- piracgo suspeita. Se houver um pouco de boa vontade e bom senso, al6m de decision de fazer e gastar, logo o velho centro commercial, recompondo-se cor suas origens, estari mais atraente e agradivel do que tem sido. Sera uma boa maneira de purgar tantos e tio cavilosos pecados cometidos pela elite belenense, seja ela composta por comerciantes como por engenheiros e arquitetos, que se especializaram em enfear e destruir esta cidade, que jd teve seu perfil definido e hoje 6 pouco mais do que qualquer coisa, como diria Cae- tano Veloso, se o artist baiano ainda dis- sesse coisa com coisa. 8 ABRIL DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal Conflito indigena: sem essa ( Muita gente ficou perplexa quando Lula, depois de vencer Fernando Henrique Cardoso na dispute pela presidencia da Reptblica, elogiou a capacidade de reali- zaqao do regime military. A admira~ao ti- nha dois motives. 0 primeiro parece ser o fascinio de Lula pelo planejamento centra- lizado dos governor militares, que produ- ziam enormes documents prevendo tudo que podia (ou devia) acontecer, embora nem sempre acontecesse (ou acontecesse diferentemente da previsao). O outro motive da admiraq~o era a fer- ramenta desse planejamento, as empresas estatais, multiplicadas durante o regime de exceqao independentemente de sua ne- cessidade, funcionalidade, competencia ou mesmo seriedade. Tirando a ideologia e o discurso, que os afastavam, Lula e os militares se pareciam nessa forma de abordar a organizaqao econ8mica da so- ciedade. Daf os elogios. Esse digamos assim insight se reve- la, limpido, na forma de reaqio do presi- dente ao massacre de 29 garimpeiros por indios Cinta-Larga de Rond6nia. O fato sujo e sangrento foi colocado debaixo do tapete de certas definiqges te6ricas, dogmiticas ou catequ6ticas. Perdoe-se o erro. Ele foi co- metido pelo "bom selvagem". Como evitar que novos conflitos venham a ocorrer? Criando-se uma empresa estatal. Ela in- termediard as relaq5es comerciais entire os indios e os compradores de diamante, tan- genciard a proibiqio de garimpagem em re- servas indigenas e garantira a continuidade do process produtivo, apesar das restrigqes legais e do substrato rousseauniano mal di- gerido e pior explicado. Sera a Indiobris, funcionando a margem da Funai. A tnica vez em que esse esquema fun- cionou foi no garimpo de Serra Pelada, que, por certos aspects, era um campo de con- centraqao sob gestio military (e de um 6r- gao pol8mico, para dizer o minimo, o Ser- vigo Nacional de Informaqbes, o SNI, na area entio representado pelo tenente-coro- nel Sebastiao Rodrigues de Moura, hoje na reserve do Ex6rcito e prefeito peemedebis- ta de Curion6polis, municipio batizado com seu apelido, Curi6). Por isso nao hou- ve, com a Caixa Econ8mica, a Docegeo e o DNPM tantos incidents como os que certamente havera se essa empresa estatal for criada para fazer o meio-de-campo en- tre os indios e compradores externos. En- tre eles, corrupqco. ito Durante a d6cada de 70 andei bastante pela area dos Cinta-Larga e de seus vizi- nhos, os Suruf. Jamais me passou pela ca- beqa, nessa 6poca, que um dia eles explora- riam garimpo de diamantes, manteriam re- laq6es confusas com empres.rios, abririam (ou deixariam abrir) pistas de pouso na re- serva Roosevelt e seu cacique saltaria de uma camionete Mitsubish envergando blu- sa Lacoste para dar entrevista coletiva. Tudo bem: tudo isso jA 6 realidade. De um lado, ela traz todas essas comodidades (distorcidamente partilhadas, quando parti- lhadas). Mas tamb6m altera o conceito penal da inimputabilidade dos indios e o antropo- 16gico, de sua pureza. Se original, pureza perdida na chamada fricgCo inter6tnica. O process, que, com vi6s etnocentri- co, chamamos de aculturag~o, 6, na verda- de, como sabem os bons antrop6logos, de destribalizaqao e descaracterizaqao (o in- dio nio consegue se adaptar a sociedade de classes, mas tamb6m a identidade 6tni- ca, que jamais desaparece de todo, passa a perturbar-lhe a vida, deixando-o com um p6 na cidade e outro na aldeia, esfranga- lhado por dentro). Um terceiro participan- te vai apenas complicar ainda mais essa gel6ia geral. O que cabe ao Estado 6 agir como instancia t6cnica e, quando o caso (se 6 que ainda 6 o caso), 6rgio tutelar. Se querem entrar na atividade produti- va e tem amparo legal para isso, que os indios atuem diretamente, sob supervisor do 6rgio teoricamente competent (ou ao menos formalmente), a Funai. Os Gavi6es, de MarabA, foram pioneiros nessa experi- encia, saindo do garrote do DGPU (Depar- tamento Geral do Patrim6nio Indigena), mal comparando, mas comparando, uma esp6cie de gigol6 da renda tribal. Produ- zindo e comerciando sua safra de castanha, os Gavibes cometeram erros, como seria de se esperar (e inevitavel), mas sAo res- ponsaveis por eles. Os Cinta-Larga podem fazer o mesmo, mas dentro da ordem legal e seguindo os procedimentos adequados. O que quer di- zer que, como agents aut6nomos de sua vida, tamb6m passam a ser responsaveis por seus erros, desde os mais simples at6 os mais graves, sobretudo os delitos, es- pecialmente os homicidios. Sem ilusoes falsamente rousseaunianas nem desvios patrimonialistas e burocriticos, como os que surpreendentemente unem Lula aos tecnocratas e militares. METAMORFOSE * Quem cruza pela noite com o arquiteto Ed- milson Brito Rodrigues nem suspeita que a mes- ma pessoa abriga o prefeito de Bel6m. O cida- ddo Edmilson 6 alegre, descontraido, bem dis- posto, camarada. J0 o prefeito 6 agressivo, tem acessos de firia, nao aceita critics, fala repe- tindo palavras de ordem e como fala! Quem s6 conhece o boemio boa-praqa e fes- teiro nao pode imaginary que, de dia, no exercicio do poder, ele possa experimentar tamanha trans- formaqo. Quem s6 convive com o politico do PT nao imagine o que estA perdendo por nao topar cor ele despido das vestes talares de alcaide. Nao sei se a president do Tribunal de Jus- tiga do Estado, desembargadora Maria de Na- zar6 Brabo de Souza, conhece o primeiro (ou seria o segundo, regra tres?) Edmilson. Mas o carrancudo prefeito com o qual ela se defron- tou na semana passada, em seu gabinete, nao lhe foi nada simpptico, muito pelo contrdrio. Levado pela just causa da defesa da cota- parte de ICMS do municipio da capital, o pre- feito do PT cometeu uma s6rie de indelicade- zas e de equivocos. Reunindo secretirios e as- sessores, ele foi, encorpado e incorporado, apre- sentar sua tese a chefa de um poder indepen- dente. Mas a exposicqo evoluiu (ou involuiu) para uma arenga despropositada e, no extreme, para uma intromissdo ind6bita na seara alheia. O que seria uma prestagqo de informag6es para a boa apreciaqao administrative de uma cau- sa presentemente em demand judicial se trans- formou numa pressed illegal. A desembargadora deu um chega-pra-16 e o prefeito, em tempo, cor- rigiu seu despaut6rio. Mas o mal ji estava feito. Quem examine a tese municipal nao deixa de se sensibilizar para a reivindicaqIo da PMB: hi fortes indicadores demonstrativos de sua perda de receita pela usurpacqo do Estado. Mas o govemo tamb6m j apresentou seus argumen- tos contr6rios, sustentando que Bel6m perdeu em impostos porque houve simultaneamente um esvaziamento econ6mico e demogrAfico da capital em proveito do interior do Estado. Cada uma das parties esti no seu direito (e dever) de propagar os seus arguments e arre- gimentar adeptos. Mas nos umbrais da aprecia- q~o judicial, nao invadindo ajurisdicio t6cnica da justiqa, como acabou fazendo (talvez mes- mo sem ter tido essa intenqao) o prefeito Ed- milson Rodrigues. Neste caso, ele pode estar com a razdo. Mas nao 6 dono dela. Deve se esmerar em demons- trar o que diz e convencer quem o ouve. Mas nao deve sair da posiqCo que Ihe cabe, enquan- to parte, para, como de hibito em seu modo de ser, tentar se tornar o dono exclusive da situa- qio como um todo. Quando estiver sujeito a essa tentag~o, bem que o prefeito podia deixar uma fresta aberta para fazer passar o simpitico cidadAo que fre- qilenta a noite e outros ambientes que nao os do poder, ao qual 6 tdo pouco imune quando o exerce. Todos ganhariam com isso. Sobretudo Edmilson Brito Rodrigues. Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 9 X 4)Y C3 UAP * A chapa de oposigo, a Re- novaqdo Universitdria Inde- pendente, foi a vencedora para a eleicio da UAP (Uniao Aca- d8mica Paraense) em 1955. Teve 407 votos contra 389 da chapa situacionista, encabeqa- da por Waldir Monteiro. Pre- sidente: Alcyr Meira, de En- genharia; 1 vice-presidente, Almir Gabriel, de Medicina; 2 vice-presidente, Ary Nunes Cameiro, de Farmicia; secre- tdrio geral, Heitor de Souza Freitas, de Ciencias Econ6- micas; 1 secretario, Aloizio Pinto Nascimento, de Odon- tologia; 20 secretArio, Jos6 Santos, de Serviqo Social; 1 tesoureiro, Wilton Moreira, de Filosofia; 20 tesoureiro, Joelzio Bahia, de Agronomia; orador, Aldebaro Klautau Fi- lho, de Direito; e biblioteca- ria: Estela Dalva Monteiro, de Enfermagem. Journal * Em 1955 o semandrio Flash completou tres anos. Ivan Ma- ranhao, criador, director e prin- cipal redator da publicaqao, aproveitou a data para mandar uma cartinha para seu av6, Paulo Maranhao, que coman- dava o journal maior da famflia (e do Estado), a Folha do Nor- te, em cujas oficinas o Flash era impresso. Dizia a carta: "VOVO Sua ben9ao O 'FLASH' completa,amanhi, dia 9 [de outubro], tres anos de existencia. Sei das contra- riedades que o meu journal lhe tem causado, dal por que cres- ce, cada vez mais, a minha admirag~o pelo senhor. Se o 'FLAH' atinge amanha o seu 3 aniversario 6 ao senhor, ex- clusivamente, que devo isso. Por isso, quero deixar aqui consignada a minha gratiddo, rogando a Deus que lhe d6 vida e sadde, para que ama- nha um amanha que espero seja breve o senhor possa ver o 'FLASH'dirio, com as suas pr6prias oficinas. Mais uma vez, muito obrigado. - Seu neto IVAN". Paulo Maranhao acrescen- tou a transcriCgo da carta esta nota, ndo assinada (nem pre- cisava de assinatura para ser identificada): PROPAGANDA A seduaio do escurinho Um dos magnificos anuncios publicados na imprensa em 1947 para convocar osfieis do escurinho do cinema para "Os sinos de Santa Maria ", com a deslumbrante Ingrid Bergman e Bing Crosby, que, alum de ator, era cantor de primeirissima. No Moderno, cinema do Largo de Nazare que ndo existe mais (no seu lugarfunciona o parque de diversoes). 0 cinema evoluiu, mas os anuncios de antes eram muito melhores do que os de hoje. ABRIL DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal MOP RNOii "O director das FOLHAS, cuja longa vida a ele, mais do que aningu6m, surpreende, por- que nao vagiu em berqo de ouro e nao jomadeou por caminhos floridos, nunca teve oportunida- de de repetir a frase do impera- dor romano -diemperdidi, por- que nenhum dia passou na sua exist6ncia sem fazer o bem. E se beneficiou os estra- nhos, muitos dos quais 'impi- vidos patifes', por que nao o faria a quem tem nas veias o seu pr6prio sangue? Ver prosperar o 'Flash' 6 o nosso melhor voto". Cinema * Em janeiro de 1957 o Cine Clube "Os Espectadores" exibiu o filme "Outubro", de Serguei Eisenstein no audit6- rio da SAI (Sociedade Artis- tica Internacional). Antes, Amilcar Tupiassd fez a apre- sentaq~o. Em seguida, Bene- dito Nunes fez a quarta ex- posiqio do curso de iniciaqao ao cinema, falando sobre o tema "valores est6ticos da linguagem cinematogrifica". Os s6cios tinham acesso des- I, *B .* 3-u agS FOTOGRAFIA Pra a 4 Registro hist6rico: e operdrios concluem S em torno do monurr praqa do centro de I primitivas caracteri haviam sido desfigu para com um dos se engenheiro Augusto de que apresentassem com- provante de quitaq~o da men- salidade. Mas, excepcional- mente, podiam levar um acompanhante para ver o fil- me do cineasta russo. Quem quisesse, podia se inscrever no Cine Clube pelo telefone 25-49 ou, por escrito, para a caixa postal 177. Advogados * Foi muito emocionante a so- lenidade de diplomaqdo de 35 novos advogados formados pela Universidade Federal do Pard em 1965. Inusitadamen- te, s6 houve um discurso, proferido pelo director da Fa- culdade, Lourenqo Paiva, conclamando os bacharelan- dos a lutar pelo progress da civilizaqdo, pela paz e pela felicidade dos brasileiros. Depois de silencios significa- original ;m outubro de 1966 a construgao da balaustrada lento a repiblica, na famosa 3el6m. Era a restauraqCo das sticas do monument, que radas. Divida da cidade us maiores namorados, o I Meira Filho. tivos, palmas intensas irrom- peram na plat6ia quando o escritor Machado Coelho en- tregou o grau ao filho, tam- b6m Inocencio, e quando Pe- dro Galvdo de Lima foi bus- car seu diploma. Se ndo hou- vesse o regime de exce9ao, iniciado no ano anterior com o golpe military que dep6s o president Joao Goulart, um deles seria o orador da turma. Mais palmas quando o melhor aluno do curso, Eduar- do Galedo Pereira Lima, rece- beu o premio "Livraria Mar- tins". Anonimamente, Carlos Martins sempre foi um esti- mulador dos jovens que gos- tavam de ler, facilitando a compra de livros em seu esta- belecimento commercial, na rua Campos Sales, um grande ponto de encontro nas d6ca- das de 50 a 70. Porteiro * O prefeito StWlio Maroja deu de cara com a porta fechada do Palacio Ant6nio Lemos quan- do chegou para trabalhar, As duas da tarde do Recirio, em outubro de 1966. Barradosjun- to com ele ficaram o vice-pre- feito Ajax d'Oliveira, o chefe de gabinete Otdvio Sim6es e virios funciondrios da Assem- bl6ia Legislativa e do Tribunal de Justica, que tamb6m funci- onavam no "palacete azul", como a sede da comuna era conhecida (de l1 para ci a bu- rocracia official cresceu mais do que a populagqo). O jeito foi mandar um carro ir buscar o guarda-chaves. Meio sem jeito, "seu" N6o apareceu, trazendo consigo uma explicaqao: ouvira no ri- dio a informaqao de que o ex- pediente s6 comecaria As 14h30 e resolve esticar a ses- ta. Enquanto finalmente abria a porta, o prefeito, sem per- der o humor, observou: "Hoje o N6o resolve ficar famoso". Nataiao * Os irmdos Carepa responderam present no torneio interno de natacao do Clube do Remo, em 1967. A atual senadora Ana Jilia, na 6poca apenas uma petiz, participou da prova de 50 metros livres. Emilio e Artur nadaram os 100 metros livres e JoHo Carlos, os 50 metros. Debate * Layse Salles, a el6trica president do Diret6rio Academico de Filosofia da UFPA nao conseguiu realizar a mesa-redonda que havia convocado para julho de 1968, "o ano que nao terminou". Teve que adiar "sine die": nenhum dos professors convidados compareceu ao debate. Que acabou nao havendo: em 13 de dezembro baixou o AI-5 sobre o Brasil, cobrindo-o de luto. Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 11 Aluminio * O grupo Alubar, que benefi- cia o metal primirio daAlbrds em Barcarena atrav6s de suas empresas (uma de cabos de aluminio e outra de metais), faturou quase 140 milh6es de reais nos dois neg6cios, mas acumulou prejuizo de mais de R$ 300 mil no ano passado. O balanqo das duas empresas, acanhado demais para o seu porte, nio possibility andlises comparativas. Os 6rgdos pdblicos,que concede bene- ficios fiscais e tributarios a esses empreendimentos, devi- am obriga-los a divulgar de- monstrativos mais analiticos. Crescimento * Depois de comprar a mina de ouro de Eike Batista (ex- Luma) no Amapa, a Wheaton Rivers Minerals absorveu a Iamgold, uma concorrente menor, e se tornou a terceira maior mineradora de ouro do CanadA, com valor de merca- do de 2,8 bilh6es de d6lares. Malaria * Quem andava pelo interior da Amaz6nia anos atrAs inevitavel- mente ia dar de cara, qualquer dia, cor o mais present dos servidores piblicos: o fura- dedo. A virios deles dei carona nas viagens pelo sul do Pard e Transamaz6nica. Levavam o combat A malaria a todas as nucleaqces humans da Ama- z6nia, dando ao seu emprega- dor, a Sucam, as mais confia- veis informaq es demogrificas da region, numa 6poca em que era dificil levar estatisticas so- bre o sertio amaz6nico a s6rio. Um dos atos mais nocivos de Fernando Collor de Mello foi extinguir a Sucam. O ilti- mo eco dessa desastrosa inter- vengdo 6 uma auditagem do Tribunal de Contas da Unido, que constatou desvio de recur- sos e de funiao no uso do di- nheiro do Programa de Con- trole da Malaria, agora sob a jurisdiqio da Funasa (Funda- 9io Nacional de Sadde), que se tornou um reduto de indi- caq6es political a servigo do clientelismo federal. D6cadas de experi8ncia, conhecimentos e resultados foram atiradas ao lixo. Quase sem um ai. Na China * O president Luiz Inacio Lula da Silva vai inaugurar, no dia 24, a primeira exposicio organizada por um pais estran- geiro sobre temas de um pais estrangeiro dentro da famosa Cidade Proibida, em Pequim, que serviu de morada imperi- al a 24 imperadores ao long de cinco s6culos. O Museu do PalAcio Imperial ja abrigou mostras estrangeiras, mas to- das foram montadas com ma- terial existente na pr6pria Chi- na, em geral sobre outros paf- ses asidticos. A mostra a ser aberta no pr6ximo m8s 6 in6- dita: as 431 peas exibidas pertencem ao patrim6nio bra- sileiro. Sao exemplares da arte plumiria e peas arqueol6gi- cas dos indios da Amaz6nia. A mostra "Amaz6nia: arte native" nao acontece por aca- so. O patrocinador da exposi- cao, Edemar Cid Ferreira, estA abrindo um escrit6rio do seu Banco Santos em Xangai, a Nova York chinesa. Foi Ede- mar quem trouxe 13 guerrei- ros chineses em terracota, ava- liados em 120 milh6es de d6- lares, para a primeira exposi- cqo complete fora da China, no ano passado, em Sao Pau- lo (visitada por quase 900 mil pessoas). Agora ele faz o ca- minho inverso: leva peas que combinam a hist6ria e a arte dos brasileiros mais antigos para serem vistas por inte- Doris: 80 Quem se apaixonou pela lourissima Doris Day nos anos 50/60 talvez nio queira saber, mas a namoradinha daAm6- rica, que seduziu todos os clients dos filmes pasteuriza- dos de Hollywood, acaba de fazer 80 anos. Se ela esti ve- lha, n6s, que nos apaixonamos por ela no escurinho do cinema, s6 estamos um pouco menos velhos. Menos mal, por6m: Doris envelheceu com dignidade, estA muito bem para a idade e mais feliz do que quando nos apa- recia com aquele penteado montado h base de laqu6 e aque- le belo e inexpressivo sorriso. Depois de quatro casamentos desastrados, Doris quer distancia dos series humans. Vive reclusa entire animals, na Calif6rnia, numa situaqdo bem pa- recida A de outra das nossas paix6es adolescents: a france- sa Brigitte Bardot (que pude encarar, no Rio de Janeiro, a menos de dois metros de distancia). Ha algo de instrutivo nessa preferencia, a dizer, por exclusao, o que as duas deu- sas infelizes ji nao podem mais declarar, sob pena de pare- cem ainda mais cru6is, ex6ticas, condeniveis. Depois do period de glamour nos filmes em que Doris contracenava com Rock Hudson e Cary Grant amboss ho- mossexuais, como viriamos a descobrir mais tarde, vaci- nados contra a manipulagqo cenica), a atriz nos pareceu careta, artificial, simbolo do imperialismo ianque a nos vender o "american way of life". Aos poucos, por6m, hou- ve a reconciliaqdo. Nao cor os filmes quase sempre - idiotas (exceto os iltimos), que Ihe castraram o talent ar- tistico, enfiando-a num estere6tipo pobre, mas com sua voz. Doris Day cantava numa afinaqao celestial, sem muita 8nfase ou estilo, mas perfeita. Suas interpretaoqes de "Again", "Bewitched", "When I fall in love" e "Secret love" estao entire as melhores que ji ouvi desses hits do assim chamado cancioneiro americano. Cordas e sopros nao ado- cicavam demais sua voz. A cantora foi sensivelmente prejudicada pela musa (a "virgem romAntica") criada pela inddstria cultural ameri- cana. Mas sobreviveu e resistird para sempre, quando esti- ver decantado o comercialismo da carreira de uma bela mulher que s6 a solidao, entire animals irracionais, recon- ciliou com a paz e a felicidade, das quais deveria ser a estampa ficil. 12 ABRIL DE 2004 2- QUINZENA Jornal Pessoal grants de uma das mais anti- gas civilizaqces humans. A Amaz6nia 6 o segundo tema de interesse dos chine- ses, junto com Foz do Igua- qu (o par preferencial do Rio de Janeiro nos roteiros turisticos estrangeiros). Por isso, o banqueiro-mecenas optou pelas peas indigenas da regiao. Elas certamente atrairdo o ptiblico chines, reforcando as pontes entire os dois pauses. A China ja 6 o principal client da Companhia Vale do Rio Doce, uma das integran- tes da comitiva de Lula. As perspectives comerciais brasi- leiras na China sao muito am- plas. A Amaz6nia 6 uma das peas mais importantes desse intercAmbio. Embora prova- velmente a Amaz6nia nao sai- ba disso. Como de habito. Mas Sao Paulo sabe. E assim avanqa a frente econ6mica na regiao. Turismo SA Companhia Paraense de Turismo (Paratur) nao teve um tostdo de receita opera- cional ao long de todo o ano passado. Dos 6,2 milh6es de reais que passaram por seus cofres em 2003, R$ 6 mi- lhoes lhe foram transferidos pelo governor do Estado, seu dono. Essas transferencias foram mais do que o dobro das efetuadas em 2002. O que esse crescimento permi- tiu foi uma reduq~o dos lu- cros acumulados, que eram de R$ 1,3 milhao em 2002 e foram reduzidos para pouco mais de R$ 1 milhio no ano passado. Esses ntimeros levam ine- vitavelmente a uma questao: por que o Estado mant6m na sua estrutura uma empresa de turismo que nao funciona como tal? Por que nao ajus- tA-la ao que ela efetivamen- te 6, uma autarquia? Por que nao instituir um servigo de turismo, uma ag6ncia, um institute ou estrutura seme- lhante? O governor provavel- mente gastaria menos ou, se gastasse mais (como o setor exige), poderia gastar me- lhor. E, na mesma propor- gao, melhorar a promocdo do turismo estadual. |
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