Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00268
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00268

Full Text





Tornal


Pessoal


ABRIL DE 2004
2a QUINZENA
N 322 ANO XVII
R$ 3,00


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
University of Ilordda


Por tras de Mato Grosso

Depois de aceitar por vdrias decodas os limits que o IBGE tra ou para separd-lo do Pard,
Mato Grosso saiu para brigo. Quer ficar corn 2,2 milh6es de hectares que atualmente estdo
no Par6. Se ganhor, levard o que? Se perder, qual o tamanho do prejuizo do Pard? 0 governor
Simao jotene pode estar subestimando o problem. 0 Pard pode comecar a encolher.


tendimento de um s6culo
com o Pard ao decidir re-
correr ao Supremo Tribunal
Federal, no mes passado,
para pedir a revisao dos seus limits ter-
ritoriais cor o vizinho ao norte. Na
aqdo ordindria que impetrou, a Procu-
radoria-Geral de Mato Grosso alega
que seu Estado foi esbulhado em pou-
co mais de dois milh6es de hectares por
causa de um erro na demarcaqdo da li-
nha divis6ria, realizada no inicio do s6-
culo passado. De imediato, o relator da
mat6ria, ministry Marco Aur6lio de
Mello concede liminar, sustando to-
dos os tipos de intervenqio do Pard na
area contestada.


Mato Grosso diz que decidiu recor-
rer A via judicial "em virtude do silen-
cio profundo e sepulcral do Estado do
Pard quanto ao cerne da questao". O
ponto de diverg8ncia esta no acidente
geografico de refernncia da linha divi-
s6ria, a oeste, e seu traqado a partir daf.
Os demarcadores teriam deslocado a
divisa, ancorada no Salto de Sete Que-
das, 130 quil6metros para o sul, onde
esta a Cachoeira das Sete Quedas, e des-
sa maneira reduzindo o dominio de Mato
Grosso em favor do Para. A procurado-
ria explica que o governor mato-grossen-
se tentou todas as formas de acordo com
o Para, mas chegou a conclusao de que
o Estado vizinho nada faria em favor da
revisao porque ela o desfavoreceria. Por


isso, ndo teve outra alternative senao
apelar para a justiga.
A tardia reagqo do govemo paraense
foi de tranquilidade. 0 governador Simro
Jatene declarou que os estudos realiza-
dos a seu pedido sustentam a correqao
CONTINNUA NA PAG 2



0 PRESIDENT
E 0 LULA
(PAG. 3)







CONTINUAfAO DA CAPA
da posiqdo do Estado, de que nada hA a
rever porque a delimitaco da divisa ParA-
Mato Grosso 6 inquestionivel tecnica-
mente. De certo modo foi menosprezado
o document que embasa a pretensdo de
Mato Grosso, elaborado em 1952 pelo
legendario marechal Candido Rondon,
talvez pelo fato de Rondon ser natural
daquele Estado. 0 fundador do Serviqo
de Protegqo aos Indios sustenta que o tra-
qado adotado oficialmente tomou como
refer8ncia nio o Salto de Sete Quedas,
mas a Cachoeira.
A contradita dos t6cnicos paraenses
sustenta que Rondon, notabilizado pelas
campanhas que comandou para estender
a linha telegrafica national ao extreme
noroeste do pais, estabelecendo contato
com os povos indigenas isolados que en-
controu pelo caminho, cometeu um erro
primario de andlise. Ele, sim, teria troca-
do as referencias, talvez num grosseiro
erro de direqao. Mas o ministro-relator
do STF ficou tao impressionado com as
alegaqces em tese de Mato Grosso que
decidiu adotar a media acautelat6ria de
interditarjudicialmente a area at6 a defi-
ni9~o de m6rito da aqio.
Independentemente desse contencio-
so t6cnico, que certamente exigira a in-
tervenqao de um perito judicial, a hist6-
ria da definip9o das divisas entire Mato
Grosso e Para, problematica por envol-
ver uma linha seca com quase 700 quil6-
metros de extensao, atravessando uma
regiao isolada, de dificil acesso e fraca-
mente povoada, favorece o Part.
No primeiro ano da Repdblica, o Es-
tado assinou uma convengdo com Mato
Grosso para a definiqCo da divisa atra-
v6s de arbitramento. A linha foi tragada
pelo Clube de Engenharia, que daria ori-
gem A atual Fundaqdo IBGE, um tercei-
ro sem qualquer interesse na demand dos
dois Estados, e integrante da administra-
9ao federal, acatado pelos contendores
como Arbitro capaz. Os atos praticados
at6 a elaboraq~o do primeiro mapa da
divisa foram aceitos, referendados e ofi-
cializados pelos dois Estados, sem qual-
quer divergencia.
Somente 60 anos depois que o Clube
de Engenharia elaborou a primeira cole-
qao de cartas geogrificas brasileiras de
valor international 6 que Mato Grosso
comegou a se opor A aceitagao da linha
de separag~o, mesmo alegando, na aqao
proposta no STF, que o erro havia sido
"grave e sinuoso".
A questao imediata consiste em pro-
curar motives para o Clube de Engenha-
ria favorecer o Pard. Nenhum foi apre-
sentado at6 agora para colocar em sus-
peigao a instituigqo. A outra questao 6:
se o erro era tao grave, por que Mato
Grosso levou tanto tempo para, em pri-


meiro lugar, denuncid-lo, e, em seguida,
tomar a iniciativa de corrigi-lo? Pode ser
que, a partir da d6cada de 80, o Pard te-
nha feito corpo mole para passar das pa-
lavras e dos documents a aqgo. Mas o
Mato Grosso nao foi nada expedido para
forqar medidas concretas do vizinho.
Por que todo esse impeto agora? Um
fato concrete 6 o prejuizo que os fa-
zendeiros matogrossenses estdo tendo,
na area sob litigio, por ainda estarem
sujeitos as restriq6es impostas as zo-
nas afetadas pela febre aftosa no Para.
Como do outro lado a liberaqao jA 6
total, esses criadores ganhariam se sa-
issem da jurisdiqgo do Pard e passas-
sem a integrar Mato Grosso. Se nao de
direito, ao menos de fato, toda a region
limitrofe na metade ocidental do traqa-
do divis6rio tem mais ligaq6es corn
Mato Grosso do que com o Para.
Um outro motivador da determina-
qao revisionista e reivindicat6ria seria
a condiqao empresarial do governador
Blairo Maggi, considerado o maior
plantador de soja do mundo. Ele teria
interesse em ampliar ajurisdiqCo do seu
Estado e conquistar mais aliados e elei-
tores, inclusive para quando deixar o
governor. A expansdo natural dos seus
milionarios neg6cios esti ao norte e a
oeste de Mato Grosso, entire Rond6nia,
Amazonas e Pard.
O emabasamento documental da
aqao de Mato Grosso nao pode ser sim-
plesmente desdenhado. Ele recomenda
reflexao e esfor9o para sua contradita.
Mas fica claro que a administragao Ma-
ggi nao se restringiu a uma iniciativa
juridica. Apesar de a aqao investor di-
reta e agressivamente contra o Pard, a
Uniao nao foi chamada a lide. E uma
omissao indesculpavel. Afinal, quem
cometeu o erro, se erro houve, foi a
instituiqao da qual surgiria o IBGE,
que 6 um orgao federal. O Para, mes-
mo que tenha agido com malicia e
oportunismo, nao teve qualquer parti-
cipaqCo direta no erro cartogrdfico.
Nao foi agent, apenas paciente, be-
neficidrio do ato. Logo, a Uniao 6, no
minimo, litisconsorte necessArio. Tern
que ser integrada a aqgo.
Ainda que Mato Grosso esteja com
a razo e venqa a dispute iniciada, cor-
re o risco de ter uma vit6ria de Pirro.
Segundo levantamento feito pelo agri-
mensor e advogado Paraguassi Eleres,
autor do mais s6lido estudo entregue
ao Iterpa, dos 2,2 milh6es de hectares
reivindicados por Mato Grosso, apenas
320 mil hectares (ou 14% do total) ain-
da nao tiveram destinaqCo dada pelo
Pari, permanecendo livres para uso.
Mesmo que o Supremo de ganho de
causa a Mato Grosso, o Estado assu-
mird o ativo e o passive do novo terri-


t6rio, com pouca margem para criaqao
e revisdo (segundo uma norma legal,
aplicivel ao caso, acordo equivale a lei
entire as parties que o assinaram).
Se a questao 6 restrita, seu signifi-
cado, por6m, 6 muito mais amplo. A re-
cuperacao dessa area por Mato Gros-
so, incluindo a transferencia de juris-
dicqo sobre parte da provincia mineral
de Carajis e a regiao da antiga base
military do Cachimbo, poderd servir de
impulso para os movimentos emanci-
pacionistas dentro do pr6prio Para.
A principio visando a criacio de dois
novos Estados (Tapaj6s e Carajis), agora
essa frente acrescentou uma terceira uni-
dade federativa A sua perspective, o Xin-
gu. Assim, reduz-se ainda mais o tama-
nho do Estado remanescente. Se sofrer
essas tres perdas, o Pard que sobrar sera o
menor dos Estados que, atualmente, for-
mam uma inica unidade federativa, a se-
gunda maior em extensao do Brasil. Nao
deve ter sido por mero acaso que o movi-
mento separatist recrudesceu no Tapaj6s.
O que esti emjogo, portanto, 6 mui-
to maior do que o que o governor Si-
mdo Jatene pode estar vendo atrav6s
seu instrument preferencial de uso em
relaq~o h questao, o bin6culo.




CHEF
Na quarta verso do Ver-o-Peso na
Cozinha, seu idealizador, Paulo Mar-
tins, dono (com a mae, a querida Ana
Maria) do restaurant Ld em casa,
confirmou sua condiqao de principal
chefde cozinha da Amaz6nia. E bom
ver Paulo ombreado a alguns dos
principals nomes da cozinha brasi-
leira (nativos ou importados), ndo s6
por sua maestria com ingredients,
molhos e tempers em geral, mas por
se apresentar como um verdadeiro
criador de escola, mestre.
Paulo nao apenas levou A perfei-
qSo o sabor dos pratos paraenses, os
mais brasileiros que ha, como foi
ousado e sensivel ao abrir pontes para
a combinagao com outras cozinhas
e para uma revisita ao modo de fa-
zer as comidas tipicas, desrespeitan-
do regras formais e realizando com-
binaq6es heterodoxas de felicidade
rara.
A distancia e corn a boca trans-
bordando de agua cobicosa acom-
panho o sucesso do amigo com or-
gulho. Afinal, foi conseguido com
trabalho, competencia e aplicaqlo,
antidotos contra a patriotada e aa go
entire amigos. O que esti nota, com
todo rigor, nao 6. Apenas reconhece
o valor a quem o valor 6 devido.


2 ABRIL DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal










0 president diz xis.



Lula faz ipisilon


Em abril do ano passado, quando
lanqou no Acre o Programa Amaz6nia
Sustentavel, o president Luiz Inacio
Lula da Silva prometeu que seu gover-
no se empenharia em substituir a cul-
tura do desmatamento pela cultural da
floresta na regiao que constitui a mai-
or fronteira de recursos naturais do
pais, especialmente de florestas. Um
ano depois, a realidade contradiz esse
compromisso: a destruigao da floresta
amaz6nica na "era Lula" persiste no
patamar muito elevado dos iltimos
anos do consulado de Fernando Henri-
que Cardoso, de 2,3 milhoes de hecta-
res desmatados por ano. O desmata-
mento nos primeiros anos do s6culo
XXI se iguala ao da d6cada de 80 do
s6culo passado, exorcizada como sede
dos "anos do fogo".
Nao apenas o president nada fez
para mudar a realidade como nao mo-
dificou sua pr6pria cultural para que ela
favoreqa um modo de desenvolvimen-
to que use produtivamente as Arvores
sem coloci-las abaixo. Na visit que
fez, na semana retrasada, a um dos in-
vestimentos em infra-estrutura acusa-
dos de agredir o meio ambiente, o pro-
jetado gasoduto Urucu-Manaus, no
Amazonas, o president declarou que
a Amaz6nia nao 6 um santuArio. Ela
precisaria produzir para sustentar seus
quase 20 milhbes de habitantes.
A Amaz6nia, de fato, nao 6 santuArio.
Tanto nao 6 que em quatro d6cadas per-
deu 16% de sua cobertura florestal. Es-
ses 650 mil quilometros devastados (area
quase sete vezes maior do que Pernam-
bucano, o Estado de nascimento de Lula,
ou duas vezes e meia Sao Paulo, sua ter-
ra adotiva) constituem o maior desmata-
mento temporalmente continue da hist6-
ria da humanidade. E isso, justamente na
regiao que abriga um terqo de todas as
florestas tropicais do planet, as mais ri-
cas em biodiversidade.
Quando a derrubada intensive de mata
comeqou, a Amaz6nia vivia isolada do
restante do pais. Podia at6 ser considera-
da como um santuario, nHo porque qui-
sesse, mas porque o mundo exterior ain-
da nao havia definido o que ia querer dela.
Hoje, ela cumpre algumas das fun9qes
para a qual foi "integrada". O Japdo, por
exemplo, retira do seu subsolo 15% do
mindrio de ferro que alimenta seus alto-


fornos e, a partir do beneficiamento da
bauxita, 15% do aluminio primario trans-
formado em suas metalirgicas. Esta em
atividade na Amazonia a maior mina in-
dividual de bauxita do mundo, no Trom-
betas. No final do pr6ximo ano a Alu-
norte se consolidara como a maior fabri-
ca de alumina do mundo. A Albras ja 6 a
maior plant de aluminio do Brasil e a
segunda da Am6rica do Sul.
O resultado dessa producqo 6 que a
Amaz6nia se desenvolveu? Evidente-
mente que nao. Cada vez que uma ins-
tituiqgo de pesquisa coloca no ar o re-
sultado de um levantamento qualitati-
vo do process econ6mico, que o ex-
operArio Lula encara a partir do prisma
do ABC paulista (6 o outro lado, sem
ser-lhe a contrafaqco, do universe pau-
lista de FHC), se consolida aquilo que
o canadense Andr6 Gunder Frank defi-
niu como "o desenvolvimento do sub-
desenvolvimento". Ou seja: ficamos
maiores e mais pobres.
E dificil perceber esse paradoxo quan-
do nos deixamos levar pelos agregados
econ6micos meramente quantitativos ou
desagregados. Beirando o deboche, os
dois jornais diarios de Bel6m O Libe-
ral e Didrio do Pard abriram suas pri-
meiras paginas para proclamar que en-
quanto o setor industrial brasileiro expe-
rimentava taxa negative de crescimento,
no Pard essa taxa batia em 32%. Dois dias
depois a Companhia Vale do Rio Doce
se sentiu no direito de reivindicar os lou-
ros: ora, esse desempenho extraordini-
rio se devia justamente a duas de suas
controladas. Como, entao, acusa-la de
nao servir ao Pari?
Apenas essas duas empresas de
bauxita e de alumina eram responsi-
veis pela notavel faqanha apregoada
pelos dois peri6dicos da capital paraen-
se. Imediatamente a CVRD providen-
ciou anuncio de pagina inteira para
trombetear ainda mais o feito, primei-
ramente publicado apenas na folha dos
Barbalhos, mas, em seguida, finalmen-
te, veiculada no jornaldo dos Maiorana,
que assim conseguiu quebrar ojejum de
publicidade da Vale (agora devera ser a
fase do "relaxe e aproveite").
Estimulado pela imprensa chapa bran-
ca, o cidadao comum deve ter ido buscar
a carteira de trabalho, atualmente entre-
gue as tracas, para esperar pelo "espeti-


culo do crescimento" que o president
Lula oferece em troca do santuirio sem
utilidade. Vai esperar inutilmente, como
pat6tico personagem do teatro surreal de
Samuel Beckett. A atividade que esti se
expandindo cria poucos empregos e con-
centra a renda que consegue gerar, esta
sendo menor do que a renda transferida
para fora, beneficiando o comprador dos
produtos que nosso president quer ver
criados no lugar das arvores-santuario.
Isso porque os nossos produtos valem
cada vez menos, se nao em valores abso-
lutos, ao menos em terms relatives. O
volume de receita cresce e impression
porque as quantidades dos produtos sao
cada vez maiores, respondendo assim
pelos records produtivos, que tao bem
fazem A contabilidade do ex-operario do
ABC paulista.
O ponto de viabilidade de Carajis
batia em 20 milhfes de toneladas de mi-
n6rio de ferro. Hoje a mina esta chegan-
do em 70 milhoes de toneladas. Devera
alcangar, ao final da d6cada, 100 milhoes
de toneladas. A lavra de bauxita do Trom-
betas era de bom tamanho em 6 milh6es
de toneladas. Neste ano chegara aos pin-
caros de 16 milh6es, quando comega uma
nova frente para mais 4,5 milh6es (e, logo
em seguida, 7 milhoes de toneladas). A
Alunorte foi concebida para 1,1 milhao
de toneladas de alumina. JA esta em 2,4
milhoes e, se o governor nao atrapalhar
(neste caso 6 trapalhada mesmo), ira para
4,2 milhoes, no topo mundial. A Albris
foi projetada para ser uma fabrica de 320
mil toneladas de lingotes de alumfnio,
mas cortou a fita national em 432 mil
toneladas ejA vai passar de meio milhao
cor a expansao de sua gemea Alunorte.
Tres fabricas de caulim reunidas fardo
do Pard nesta d6cada o 3 maior produ-
tor mundial dessa argila. As cinco mi-
nas possiveis em Carajas nos colocardo
num lugar parecido no mercado mundi-
al de cobre. As perspectives para o ni-
quel sao parecidas.
Com tudo isso, o Pard caiu da 5" po-
siqao como o maior exportador brasi-
leiro para a 9a posicqo. Do segundo lu-
gar em saldo de divisas, desabou para
o 6 lugar. E o destiny fatal para quem
nao agrega valor ao que produz. Vai
servir de escada para outros crescerem.
Como Sao Paulo, o domicflio eleitoral
do president Lula. Enquanto retorica-
mente ele se diz disposto a comandar
uma revolucao para acabar com a pra-
ga do desmatamento, na pratica ele
ap6ia um modelo segundo o qual tudo
o que substituir a mata 6 melhor. In-
clusive porque faz a Amaz6nia se pa-
recer cada vez mais ao restante do pais,
integrando-se a ele, ainda que tardia-
mente, na posiqio que lhe foi dada para
ocupar: a de col6nia.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 3









A conta dos arquitetos



e seus muros absurdos


Numa das mais belas piginas do canci-
oneiro popular brasileiro, como dizem os
cronistas, o poeta Vinicius de Moraes es-
creveu uma "carta ao Tom 74", sobre mdi-
sica de Toquinho. Lembrava o Rio de Ja-
neiro das d6cadas de 40 a 60, um dos me-
Ihores lugares do mundo para se morar na-
quela 6poca. Por que o destaquejustamen-
te entlo? Porque o Rio, ainda a capital do
pals, desfrutava a liberdade proporcionada
pela democracia de 1946, que sustentou a
criatividade, a imaginag~o, o entusiasmo e
a confianca dos brasileiros. Combinados
com o melhor sitio urban que uma cidade
tem como paisagem em todo planet, es-
ses sentiments provocaram uma explosao
de felicidade como poucas vezes deve ter
ocorrido no Brasil.
O mundo real tamb6m continuava a
existir, 6 claro, mas Vinicius acertou na
mosca da metifora quando disse, na letra
da misica, que estar no Rio naquele mo-
mento era "como se o amor doesse em paz".
Em moments de desacerto, podia-se sen-
tar na praia, diante do mar, e recuperar o
inimo. Ou, mesmo do apartamento, naque-
la muralha de concrete, que se adensaria
al6m da conta e do bom senso, ter "um can-
tinho do c6u e o Redentor".
Mas tudo mudaria. Nem a garota de Ipa-
nema, criago de Tom & Vinicius, sabia que
"em pouco a cidade turvaria/ esse Rio de
amor que se perdeu". O Rio deixou de ser
a capital da reptiblica (de certa forma, uma
traicao de Juscelino Kubitscheck, o mais
carioca dos presidents mineiros do pais)
sem perder a mentalidade elitista de funci-
onmrios pdblicos e sem ganhar a cultural da
inddstria ou a seriedade da prestaco de
servigos (no que a cosmopolita Sao Paulo
6 imbativel). Entre um vasto lumpen pro-
letariado surgiria a 6tica da oportunidade,
a obsessed de tirar vantage, consagrada
naquela frase definitivamente cinica dojo-
gador Gerson, e legitimidade na promis-
cuidade do dominio e exercicio do poder.
De Icaria dos brasileiros, o Rio 6, hoje,
essa fonte national de angistia e sofrimen-
to, vitima de uma guerra absurda porque
previsivel e plenamente passivel de preven-
qo, masque se agigantou e se tomou mons-
truosa pela conurbaqo da omissao corn a
incompetencia. Instaurada a barbarie, ela
se infiltra por todos os poros sociais e ino-
cula a obtusidade. Uma de suas manifesta-
9qes 6 a id6ia apresentada pelo vice-gover-
nador do Estado, Luis Paulo Conde, de le-
vantar um muro nos limits da favela da


Rocinha para confinar a marginalidade,
estancar o crime e proteger o tecido supos-
tamente sao da sociedade e do urbanismo.
Por que seri que o medo segregacionis-
ta dessas pessoas se revela de forma tio pri-
mrria, atrav6s desse muro recorrente? 0 pri-
meiro-ministro Ariel Sharon teve irrupdio
semelhante: sugeriu um muro entire seu pais
e os palestinos, tao fanatizado que mandou
para o lixo a reaqo de seus antepassados a
nojeiras como essa, a tiltima das quais le-
vantada entire duas bandas de Berlim, na
Alemanha, extensio de totalitarismos que
vitimaram o povojudeu, como nenhum ou-
tro povo em toda a hist6ria humana.
De um lado do muro, o que nIo presta.
De outro, os eleitos. Ora, de um lado pode
estar o Estado Palestino. De outro, Israel.
Mas hi bons e maus tanto de um lado quan-
to de outro. Um muro separa artificialmen-
te o que, em realidade, nao 6 separado. Na
Palestina de antes da resolucao 47 da ONU,
de 1948, havia palestinos muqulmanos,ju-
deus e cristios, todos convivendo numa
nado. Hoje a naq~o noo existe mais. E pre-
ciso que ela volte a existir em plenitude.
De outro lado, o retoro ao mundo de an-
tes de Israel ji nao 6 mais possivel, realisti-
camente falando. Israel tem o direito de
continuar a existir. Mas dentro dos limits
de 1948. Eles sao estreitos, 6 verdade. Mas
serno mais seguros atrav6s da negociaqio,
do entendimento e do armisticio do que pela
via das armas ou do muro de Sharon.
O mesmo raciocinio se aplica ao Rio
de Janeiro. Mais eficiente do que a repres-
sao policial, inviivel conforme o padrdo de
efici8ncia que dela se devia exigir para dar
conta do tamanho do problema, 6 a aqao
social. TrAs-os-Muros de Conde hi milha-
res de pessoas decentes, trabalhadoras e
honradas, que precisam da ajuda do gover-
no e da sociedade para progredir e se livrar
da tutela criminosa. Isso, sim, 6 tarefa de
responsabilidade social, nao a fancaria
transformada em ilusdo nas mat6rias pagas
da imprensa e no faturamento oculto dos
supostos mecenas.
Ao encarar a id6ia do muro de Luis Pau-
lo Conde conv6m nio esquecer que ele 6
arquiteto (meu Deus: quantos d6bitos nos
costados de uma finica categoria profissio-
nal, que espalha sua sanha pelo pafs inteiro)
e que foi contratado pela Companhia Vale
do Rio Doce para dar consultoria sobre ur-
banismo em Marabi e Canaa dos Carajds,
como iniciativa demarcadora da nova posi-
cio social da empresa. Serd a oitava praga?


BONDE
* A nova Estago das Docas do prefeito Ed-
milson Rodrigues 6 o bondinho. O alcaide
quer porque quer que seja implantada a linha
do bonde, com um quil8metro de extensao,
no centro da cidade, tendo como eixo princi-
pal o Palacio Ant6nio Lemos, onde sua exce-
lencia esporadicamente despacha. Custo do
capricho: quase seis milh6es de reais.
Nao se consider apenas o pesado 6nus
para o erdrio, que poderi ser ainda mais agra-
vado porque a obra continue a ter desdobra-
mentos imprevistos. Sua pr6pria utilidade esti
em causa. No atravancado centro antigo da
cidade, os trilhos para o bondinho vao atra-
palhar ainda mais a circulaqao dos pedestres,
que sao os usuarios preferenciais e dominan-
tes dessa parte da cidade. Al6m desse desser-
viqo, qual o fascinio que essa linha vai ofere-
cer? Que enriquecimento proporcionardi ci-
dade? Qual o seu valor de efetiva novidade?
A nao ser que, contornando todo o anti-
go Palacio Azul, os usuirios do bonde se
sintam compensados por contemplar o bur-
go-chefe in situ, em pleno trabalho.

PASSIVE SOCIAL
Passam pela Amazonia mais de um terqo
das rotas de trifico de mulheres, criancas e
adolescents em uso no Brasil. Sao 63 de um
total de 241 rotas, segundo dados da Pesqui-
sa sobre o Trifico de Mulheres, Crianqas e
Adolescentes para fins de Exploraqdo Sexual
e Commercial. Com base no levantamento do
Pestraf, o Congresso instalou uma Comissao
Parlamentar Mista de Inqu6rito, que passou
por Belnm no dia 16.
A participaqao da Amaz6nia tem sido des-
tacada nos indices negatives, como este da
exploragio sexual, que se combine com ou-
tras realidades danosas, como o trifico de dro-
gas e a violencia, para agravar a situacqo. Um
atestado de que os investimentos realizados
nao estdo beneficiando a sua populacgo.

INDICATOR
* Uma equipe de 21 t6cnicos esti encar-
regada de preparar o Macrozoneamento
Ecol6gico-Econ6mico do Estado do Pari,
cuja proposta-sintese o goverrfador Simno
Jatene apresentou para discussed na quin-
zena passada. Sao 14 na equipe princi-
pal, com o apoio de quatro bolsistas e tres
consultores. Os engenheiros agr6nomos
sao 8, mais de um terqo da equipe total.
Ha um ge6grafo. Um tnico engenheiro
florestal.
Se essa composiqdo t6cnica diz alguma
coisa sobre o estudo e a sua aplicacqo, 6 de
que o modelo agropecuario vai continuar a
prevalecer no Pard sobre sua vocaqdo flores-
tal, condenada que persistird a sua sina de
abandon e maus tratos. Nao 6 a toa que o
Estado 6 o vice-campeao de desmatamento.


4 ABRIL DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal










Campo: explosao



da proxima vez?


O sucesso indiscutivel do Movimen-
to dos Trabalhadores Rurais Sem-Ter-
ra, o MST, sem paralelo na hist6ria da
organizagqo dos homes do campo ao
long da vida republican brasileira, se
deve ao lado negative do context que
o explica. As duras condicoes de vida
dos camponeses (para nao provocar
maior debate te6rico, aqui considerados,
etimologicamente, os que vivem e tra-
balham no campo), muito pioradas pela
incompetencia, abulia ou hostilidade do
Estado, e pelo desinteresse da socieda-
de urbana para com seu elo geralmente
invisivel, formaram campo f6rtil para o
MST, com sua linguagem panfletiria,
sua solidariedade incondicional aos "de-
serdados da terra" e sua efici8ncia em-
presarial e organizativa.
O MST podia continuar a seguir numa
trilha predominantemente t6cnica para
defender os "sem-terra" do pais, sem ig-
norar as vertentes political e messiani-
cas dessa missao. Mas rapidamente foi
dando maior destaque a atuagqo political.
Atender as demands dos "sem-terra"
parece ter se tornado um meio para atin-
gir um fim mais amplo e profundo: mu-
dar o Brasil por inteiro. O MST substi-
tuiu a teoria passada do foquismo pela
agitagdo de massa, comegando por um
ntcleo mais ou menos homogeneo, com
uma causa razoavelmente comum, para
uma absor~go muito maior e mais difu-
sa. O MST 6, hoje, quase um partido po-
litico, ou mais do que um partido politi-
co (na verdade, um antipartido). Tornou-
se um agent da revoluqao. Para o bem
ou para o mal, certo ou errado, explicit
ou difuso, este 6 o seu escopo.
A questdo, agora, 6 como situar essa
entidade nos quadros da democracia, en-
tre a continuidade do status quo e a mu-
danqa ou evoluqao, por transformaqao ou
revolugdo. Os camponeses adquiriram a
legitimidade do protest e da indignaq~o
com seu sofrimento de d6cadas e s6cu-
los. Trn o direito de apresentar e exigir
o atendimento de suas reivindica6oes. O
problema 6 quando essa luta desigua na
proposta de extrapolar (e explodir) os
parametros institucionais da mudanga.
A mudanga tem que ser feita no am-
bito das normas legais. E o que diz a nor-
ma sancionada. Mas o que acontece
quando as leis, cristalizadas e rigidas, im-
pedem a mudanga? E quando as leis pre-

Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004


cisam mudar. E, nao mudando, dao ar-
gumento a desobediencia civil, instru-
mento de mudanga social a margem da
lei e contra a pr6pria lei.
Nao basta, para realizar esse ritual da
passage, que razoes morais sejam seu
motivador. E precise que os agents da
transformagao demonstrem sua razao. E
neste moment delicado e grave que o
MST esti mostrando haver extrapolado
o dominio da razao, da competencia t6c-
nica, do control social e, talvez, da le-
gitimidade. Para conseguir seus objeti-
vos, o movimento senate a necessidade
de arregimentar quantidade cada vez
maior de pessoas. Precisa de nimero, de
massa. Com isso, a clientele fica impre-
cisa e, as vezes, contradiz a razao de ser
do movimento. O conflito de opostos
pode nao levar a sintese alguma, apenas
a irracionalidade.
Quem acompanha, como simples ob-
servador ou como antagonista, as mobi-
lizaq6es do MST, pode observer que
muitos dos seus integrantes nao sao, a
rigor, camponeses. Muitos sao trabalha-
dores urbanos ou, especificamente, lum-
pen proletirios. Outros sao o fermento
da massa ou, por outra 6tica, massa de
manobra, bucha de canhao. E cada vez
mais destacada a participaqio de crian-
gas, mulheres e idosos. In situ, essa pai-
sagem humana denota tr6gua. Em movi-
mento, disposiiao para tudo, inclusive o
nao declarado.
Outro ponto 6 o que fazer (e como
fazer) a partir dessas mobilizacqes. Ocu-
par terras para plantar comida, 6 a pala-
vra de ordem. Tudo bem. Mas certas ter-
ras nao devem ser ocupadas, por algum
motivo que desaconselha seu uso para
fins agricolas (ou mesmo agropecuari-
os). A terra boa para ocupagCo (por es-


tar acessfvel, as proximidades de uma
estrada, ao alcance de uma camera de
televisao, ligada a um problema em vias
de eclodir, pasaporte para um objetivo
que se tornou inalcanq vel pela via pos-
tulat6ria) pode nao ser boa para plantar.
Seria precise que os lideres do movi-
mento dispusessem de um mapa de zo-
neamento, document que raramente
trm e nem sempre podem ter pelo
simples fato de inexistir.
Em outras circunstancias, a terra ji
esta tendo outro uso. Pode ser que o uso
seja inadequado, mas isso nao sera pro-
vado apenas porque a massa chegou ao
local. Foi o caso do plantio de pinho da
Veracel, no sul da Bahia. Os "sem-terra"
comeqaram a derrubar as arvores planta-
das sob a alegaq~o de que elas deviam
produzir era comida. Essa mentalidade
equivale as dos primeiros operarios, do
final do s6culo XVIII, que se rebelaram
contra as maquinas introduzidas nas fi-
bricas por ver nelas a personificagqo de
sua exploraqio aviltante. A empresa pre-
cisou de anos para o plantio e o cresci-
mento das arvores, destinadas a servir de
mat6ria-prima para sua fibrica de papel.
Quebrar o fluxo significa ameaar a via-
bilidade de um empreendimento produ-
tivo de mais de 1,5 bilhao de d6lares sem
uma causa 16gica, sem uma alternative
convincente. Pior do que isso: sem alter-
nativa alguma, por mero impulse passi-
onal (ainda que dejusta causa, do ponto
de vista moral).
E triste perceber que as iniquidades
do Brasil para com sua parte rural per-
manegam at6 hoje, ensejando exemplos
tristes como os que podem ser arrola-
dos atrav6s de uma simples viagem a
essas areas, que constituem a praqa do
MST. Mas 6 tamb6m lamentdvel perce-
ber que as lideranqas desses movimen-
tos, de ficil resposta quando incidem so-
bre terreno altamente inflamavel, igno-
ram que o Brasil 6 muito maior e mais
complex do que dele ddo conta suas
palavras de ordem, sua visdo estrat6gi-
ca e sua pritica political.
Extrapolando de uma luta social e
t6cnica para uma perspective dominan-
temente political, o MST esti abrevian-
do um confront que talvez vi-
esse a ocorrer algum dia, mas
nao da forma tao violent e aber-
ta como a que parece se avizi-
nhar. Os campos estao se reunin-
do e se armando para quando
esse moment estourar. Ha a
possibilidade de algu6m contro-
lar esse estouro? A pergunta fica
no ar, por enquanto sem respos-
ta. Como quase todas as pergun-
tas sobre os rumos deste terri-
vel Brasil, grande e pesado, imu-
tivel e carente de mudanga.









Albras: da energia


ao lucro


Ficou de ser realizado no dia 3 (es-
crevo esta nota dois dias antes) o lei-
lao da Albris para a compra de 800
megawatts de energia no mercado
aberto. Na semana passada a empresa
reativou o leilao, que havia sustado na
semana anterior, depois de marci-lo e
remarca-lo, na expectativa de chegar
a um acordo com a Eletronorte, que
Ihe garantiu o suprimento ao long de
duas d6cadas (ver, a prop6sito, Jor-
nal Pessoal 321).
A falta de um entendimento entire
as parties, era precise encontrar uma
nova said para o tender as necessi-
dades da maior fibrica de aluminio do
pais, jA que o contrato com a Eletro-
norte, assinado em 1984, perdeu a va-
lidade no dia 1. Certamente o leilao 6
apenas um arranjo de emergencia para
que a Albris assegure seu funciona-
mento normal at6 o final do ano, sem
prejudicar seus neg6cios. Provavel-
mente a pr6pria Eletronorte se habili-
tari ao leilao como o fornecedor com
maiores condigqes de vit6ria, fazendo
o remendo at6 que as bases do contra-
to sejam definidas (ou, a alternative
mais problemitica, uma nova forma de


istorico


abastecimento de energia para a indds-
tria de Barcarena).
Mas se ainda precisa continuar ne-
gociando uma nova equacqo para a sua
demand energ6tica, a Albras pode co-
memorar o maior lucro liquid de toda
a sua hist6ria (na verdade, o primeiro
de valor expressive), obtido no ano
passado. Com os 540 milhoes de reais
de lucro (contra prejuizo de R$ 184
milh6es no exercicio anterior), a em-
presa p6de melhorar significativamen-
te seu perfil financeiro e ajustar suas
contas. O saldo de prejuizos acumula-
dos em exercicios anteriores, contudo,
ainda 6 de quase R$ 30 milh6es. Ou
seja: em 20 anos a Albris ainda nao
conseguiu se amortizar inteiramente.
Talvez por isso alegue nao poder
pagar uma tarifa mais just para a ener-
gia, sem convencer a Eletronorte. A
estatal, de sua parte, s6 nao quebrou
em funqdo do crescimento literal-
mente inacreditdvel dos custos da hi-
drel6trica de Tucuruf porque a mre
Eletrobris, cor pensdo do tesouro
national, a socorreu.
Coraqdo de mae nao tem tamanho.
Ja o bolso...


Ilegalidade ambiental


Mato Grosso, Pard e Rond6nia, os
Estados que mais desmataram na Ama-
z6nia no ano passado, concentraram
90% da destruiqgo de floresta na re-
gido. Embora Rond6nia tenha apare-
cido corn a derrubada de 346 mil hec-
tares contra um milhdo de hectares de
Mato Grosso e 730 mil hectares do
Pard, em terms proporcionais ficou
no triste primeiro lugar.
S6 em 2003 vieram abaixo 1,5% das
florestas rondonienses. Em Mato Gros-
so o desmatamento ficou um pouco aci-
ma de 1%. O sentido 6 inverso quando
se segue o tamanho dos tr6s Estados: o
Pard com 120 milhoes de hectares,
Mato Grosso com pouco menos de 100
milhoes e Rond6nia com menos de 24
milh6es de hectares de superficie.
O mais grave: Rond6nia ji p8s
abaixo mais de um quarto de suas flo-
restas. Ou seja: ultrapassou o limited es-
tabelecido pelo C6digo Florestal para
desmatamentos na Amaz6nia. Modifi-


cado por media provis6ria de 1996,
esse limited 6 de 20% das areas de mata
densa. Assim, Rond6nia se tornou um
Estado illegal, que deixou de cumprir
a norma ambiental.
Nao espanta que suas liderangas
political e economicas advoguem a re-
tirada do Estado da Amaz6nia e sua
transferencia para o Centro-Oeste.
Dessa forma ampliariam a area passi-
vel de desmatamento, legalizando for-
malmente o Estado e dando um novo
habeas corpus preventive para os des-
matadores.
Tamb6m nao espanta que Mato
Grosso lidere as derrubadas pela pers-
pectiva quantitativa. E seja um dos
dois unicos Estados amaz6nicos que
tiveram incremento do desfloresta-
mento entire 2002 e 2003. O outro Es-
tado nessa situaqdo 6 Roraima, onde o
catecismo desenvolvimentista 6 reci-
tado por cartilha semelhante A do go-
vernador Blairo Maggi.


TERRA ARRASADA
* Araguaia nunca mais, era o que pensa-
vam as pessoas de boa f6 e intelig8ncia
depois de testemunharem, ao long das
d6cadas de 60 a 80, a destruiqgo avas-
saladora do vale do Araguaia-Tocantins.
A humanidade ji devia ter avanqado o
bastante desde entdo para nao tolerar
mais a selvageria que marcou a expan-
sao das frentes econ6micas pela porta
dos funds da Amaz6nia (a legitima
porta de entrada deveria ser a foz do rio
Amazonas, o caminho multissecular dos
exploradores da regiao).
Os dados sobre o desmatamento no
ano passado, rec6m-divulgados pelo
Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais), de Sao Paulo, no entanto,
mostram que o Xingu 6 o novo Ara-
guaia no prosseguimento, rumo oeste,
dessa ofensiva irracional de destruigqo
de floresta. Sao Fl6ix do Xingu foi o
municipio onde mais houve desmata-
mento: 133 mil hectares de cobertura
vegetal foram postos abaixo na safra
(agosto/2002 a agosto/2003), o dobro
da devastagao no segundo municipio no
ranking, que tamb6m foi paraense, Uru-
ard (na Transamaz6nica), com 70 mil
hectares. Dos 10 municipios mais des-
matados na regiao, cinco (os outros sao
Novo Repartimento, Marabi e Novo
Progresso) ficam no Pard. Entre os 25
campeoes amaz6nicos de derrubadas,
os paraenses sao nove. Nao se trata pro-
priamente de um galarddo.
Sao F61ix ji perdeu 14% da sua co-
bertura florestal (s6 em 2003 desapare-
ceu quase 1,5% da extensao municipal).
Os mais cinicos, que preferem tender
pela designaqio de desenvolvimentistas,
haverao de dizer que ainda 6 um per-
centual pequeno. No entanto, Sao F6-
lix, sozinho, responded por 7% de todo
o desmatamento da Amaz6nia no ano
passado. A Amaz6nia Legal tern mais de
500 municipios.
Significa que, a despeito de tudo que
ji se disse e se prometeu sobre os cri-
mes praticados quase impunemente no
Araguaia-Tocantins, eles se repetem no
vale seguinte na rota dos pioneiros. Eji
estdo ocorrendo na pr6xima parada, o
Tapaj6s, onde comeqam a se multipli-
car casos de grilagem de terras, concen-
traCqo da propriedade, conflitos posses-
s6rios, corrupqo, estelionato. Permane-
ce, assim, a 16gica da terra arrasada, que
serve de guia para a chamada "integra-
qCo da Amaz6nia". Depois dela sobrard
pouco para "entregar" ao cobigador es-
trangeiro, contra cuja "entregagao", a
integragdo foi proposta.
Somos, para esses centuries roma-
nos (ou paulistas), nada mais do que uma
Cartago tropical. Delenda, pois.

ABRIL DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal









Laercio Barbalho e os



misterios da political


Ha certos moments em que o com-
promisso piblico nos obriga a fazer cer-
tas coisas que espontaneamente (ou por
motive de foro intimo) nao farfamos.
Esse foi o caso da morte do jornalista
La6rcio Barbalho para o journal O Libe-
ral. Quando se juntou a H61io Gueiros,
La6rcio usou o Didrio do Pard, na pri-
meira campanha de Jader Barbalho ao
governor do Estado, em 1982, para ata-
car violentamente a famflia Maiorana,
que apoiava a dupla Jarbas Passarinho/
Oziel Carneiro. Nao s6 usando expres-
s6es ofensivas, como inventando fatos,
caluniando intencionalmente.
Ficou com os Maiorana uma grande
migoa contra Ladrcio, mas o ressenti-
mento que tinham contra H61io Gueiros,
muito mais ativo na ofensiva contra a
famflia, foi esquecido e nao por algum
principio superior as miserias humans.
Na campanha de 1990 o Didrio voltou a
se esmerar no jornalismo passional da
6poca plebiscitaria da hist6ria paraense
de baratismo e antibaratismo, mas a li-
nha editorial de O Liberal nao foi nem
um pouco menos marrom.
Apesar desses antecedentes, foi absur-
da a decisao dos Maiorana de nao dar uma
linha da redaq~o para noticiar a morte de
La6rcio Barbalho, ocorrida na quinzena
passada. La6rcio foi personagem da his-
t6ria do Part. Atuou cor destaque na As-
sembl6ia Legislativa do Estado. S6 isso
ji exigia um registro que fosse (nao ape-
nas um mindsculo aniincio ftinebre, ain-
da por cima mal redigido, dos donos de
bancas dejomais e revistas da cidade, que
saiu como mat6ria paga).
Mas havia tamb6m uma conting6ncia
da pr6pria hist6ria do journal: La6rcio foi
um dos fundadores de O Liberal, na 6po-
ca em que o journal era uma publicaqdo
official do PSD (Partido Social Democri-
tico), controlado por Magalhaes Barata,
tio de D6a, que hoje preside as Organi-
zay6es Romulo Maiorana. Finalmente:
La6rcio, atrav6s do Didrio, era tdo mem-
bro daANJ (Associa~go Nacional de Jor-
nais) quanto os Maiorana via O Liberal.
Nesse caso, o espirito corporativo tem sua
serventia. Mas foi mandado as calendas.
De minha parte, expresso aqui o prei-
to de gratiddo da famflia pela acolhida
que Ladrcio Barbalho deu a Elias Pinto,
em setembro de 1968, quando nosso pai
conseguiu escapar da sanha do delegado


Lauro Viana e sua tropa da Policia Mili-
tar em Santar6m. Em Belem, homisiou-
se da perseguiqgo do governador Alacid
Nunes na casa de La6rcio, deputado do
MDB, mesmo partido de Elias.
Ofensas que depois foram praticadas
contra mim nas piginas do Didrio, numa
6poca em que solitariamente enfrentava
o governador Jader Barbalho, na epoca
ainda nao estigmatizado, eu as esqueci.
Mas gostaria de narrar um epis6dio que
diz muito sobre os hibitos e as estrat6gi-
as political no Para. Em 1993, no dia se-
guinte a um despacho da desembargado-
ra Maria de Nazar6 Brabo de Souza, au-
torizando a realizaqdo de pericia na sen-
tenqa proferida pela juiza Ruth do Couto
Gurjao, que me condenava, o Rep6rter
70, a principal coluna de O Liberal, pu-
blicou nota acusando a atual president
do TJE se ser do esquema politico de Ja-
der Barbalho, atuando no Tribunal Regi-
onal Eleitoral. Para isso, Jader a teria
nomeado desembargadora.
A nota era uma s6rdida vinganqa
contra o despacho de v6spera da ma-
gistrada. Ao pedir a pericia, eu suscita-
va a possibilidade de que a sentence nao
tivesse sido produzida pelajuiza que a
assinou. A parte contraria, que propu-
sera contra mim a a9go, com base na
famigerada Lei de Imprensa do regime
military, pela qual fui condenado, fez de
tudo para impedir a desembargadora
Brabo de tender o pedido. Nao conse-
guindo o prop6sito, RosAngela Maio-
rana Kzan, autora da queixa-crime con-
tra mim, reagiu corn a nota, pretextada
como defesa do interesse piblico e de-
ndncia de manipulaqdo political do ju-
diciario (mesma tAtica utilizada contra
o desembargador Benedito Alvarenga,
em situaqao andloga, atrav6s da coluna
de Paulo Zing, que entrou como Pila-
tos no credo da vendetta).
Redigi uma nota desmascarando a
coluna e mostrando que a desembarga-
dora havia subido ao TJE por ato nao de
Jader Barbalho, mas de H6lio Gueiros,
na 6poca inimigo mortal de Jader (mas
hoje em mais uma posiqgo de vice-ver-
sa, sempre sujeita A biruta das oportuni-
dades ao vento da amoralidade). Levei a
nota para A Provincia, mas nao consegui
convencer Arth6mio Guimardes a publi-
cA-la. Segui para o Didrio, a altemativa
que pretend evitar quando fui ao primei-


ro journal no qual trabalhei e com o qual
sempre mantive estreitas relaqces.
Guilherme Barra, o redator-chefe, leu
a nota e disse que ela s6 podia sair com
autorizaqao de La6rcio. Barra e eu entra-
mos no gabinete do president da empre-
sa as cinco da tarde e de li saimos as oito
da noite. Nao s6 com a autorizacgo assi-
nada, mas com numerosos, deliciosos e
esclarecedores epis6dios da hist6ria re-
cente do Pari, narrados com vivacidade
por Laercio, graqas A sua excelente me-
m6ria, herdada pelo filho mais famoso.
No dia seguinte, para minha surpre-
sa, a nota nao saiu no Didrio. De Barra
consegui uma explicaAio lac6nica: or-
dens superiores impediram a publicago.
Por fonte digna de f6 fiquei sabendo mais:
no final da noite Jader Barbalho ligara
de Brasilia mandando retirar a nota, que
ji estava na pigina do joral.
Por que fez isso, que aparentemente
contraditava o que deveria ser seu inte-
resse (desmascarar mais uma vez o con-
corrente e ainda desfazer versao falsa que
o desfavorecia), 6 um mist6rio. Embora
nem tanto. Quem for decididamente atris
de uma resposta, a encontrari. E dessa
maneira que se escreve a verdadeira his-
t6ria, para a qual este ligeiro obituario de
La6rcio Barbalho pretend contribuir.


VANGUARD
Polichinello, a mais nova revista li-
teraria do Pari, 6 uma publicaqao as-
sumidamente de vanguard. A come-
qar pela tiragem realista, de 500
exemplares, declarada honestamen-
te no expediente. NMo se prop6e ao
sucesso de venda nem A leitura de
massa. Mas 6 uma revista de quali-
dade national. Como todo empreen-
dimento vanguardista, quer inovar,
sacudir a poeira do gosto, agitar a cri-
atividade, unindo tradiqCo e ruptura.
A boa tradiq~o esti nas ilustraq6es,
todas a partir do trago profundo de
Oswaldo Goeldi. A ruptura fica por
conta da inquietagdo dos jovens lite-
ratos, alguns nem tanto na idade, mas
sempre renovados pelo trabalho.
Uma sociedade sem vanguard
esta mais sujeita ao imobilismo e
necrose mental. Vida longa, portan-
to, para Polichinello.


Jornal Pessoal 20 QUINZENA ABRIL DE 2004 7








Um desrespeito


Quando Lula venceu a eleicio para a
presid6ncia da Repdblica, um nome foi
imediatamente lembrado para o Ministd-
rio de Minas e Energia: o fisico nuclear Luis
Pinguelli Rosa. Era o home certo no lu-
gar certo. A capacidade t6cnica do profes-
sor da Universidade Federal do Rio de Ja-
neiro era incontestdvel: dera provas dela no
combat ao program nuclear do govemo
Geisel, caixa preta importada daAlemanha.
Sua articulaqio political nio era menos evi-
dente: ele era a mais antiga fonte de con-
sulta do partido em mat6ria de energia.
Mas Pinguelli nao foi escolhido minis-
tro. O lugar foi ocupado por um quadro pe-
tista importado do Rio Grande do Sul, Dil-
ma Rousseff. Pinguelli esperou mais um ano
para se tomar president da Eletrobras, a
holding estatal do setor el6trico. Nio esquen-
tou o cargo por quatro meses: seu cargo foi
negociado com o PMDB, diz o Planalto.
Petistas surpresos tentaram manter Pingue-
li na Eletrobris. Lula teria reagido com uma
frase lapidar para condenar seu ex-consul-
tor: "ele nio me d, um voto no Congresso".
E verdade. Duvido, entretanto, que Pin-
guelli tenha feito alguma vez uma promes-
sa desse tipo para Lula. O que poderia fa-
zer era render-lhe indiretamente milhares e
milhares de votos se continuasse a condu-
zir a Eletrobris pelo bom caminho. Ou, para
ser mais exato, se persistisse em defende-
la dos desvios em que a meteu a political
energ6tica (e de privatizag6es alucinadas)
da administracgo Fernando Henrique Car-
doso. Ameaga ainda no tempo present,
sim, porque, na essencia, a diretriz anterior
esta sendo mantida pelo govemo Lula.
Diz-se que Silas Rondeau, afilhado de
Samey, que o colocou na presidencia da Ele-
tronorte, subird para a Eletrobris, provavel-
mente garantindo sua sucessio no mesmo
esquema. Por que a forga do senador Jos6


Sarney no setor el6trico? O Maranhio 6 um
Estado consumidor, nio um gerador de ener-
gia. Sem os fomecimentos altemados da
Eletronorte e da Chesf, o Maranhio estaria
em dificuldades. Mas o Maranhioja possui
e deveri continuar a atrair investimentos ele-
trointensivos. Hoje 6 a Alumar. Amanhi, a
siderdrgica de places de aco. Bancando o
control do setor, Samey se credencia com
esses clients poderosos.
Ainda assim, ele s6 estd mantendo sua
escalada de indicates porque foi conve-
niente ao PT federal aproveitar a gula do
senador maranhense para liquidar a fatura
Pinguelli. Ele vinha cometendo o erro fatal
de nio se submeter ao comit8 central da
presid8ncia. Ora, se a at6 entio dura e au-
toritaria ministry se submeteu, por que o
subordinado dela tentava manter id6ias pr6-
prias, que contrariam o politburo federal e
seus compromissos de ocasido?
Em bom moment os largos ombros
de Sarney se ofereceram para levar a cul-
pa pela demissdo ignominiosa de um ve-
Iho companheiro de viagem dos petistas,
que lhe faltaram com o que ele tem rece-
bido de seus inimigos: respeito. A manei-
ra de Cristovam Buarque, quase Pinguelli
foi demitido pela television.
Lembro-me de um dia, em 1987, em
que nos encontramos no Col6gio Lauro
Sodr6, em plena manhi dominical, para
participar de um debate promovido pelo
PT ou uma de suas organizaq6es associa-
das, nao lembro bem. Ja nos conhecfamos
de vista e do cruzamento de escritos. Com
toda sua merecida fama, Pinguelli estava
ali, ao meu lado e do audit6rio, para uma
atividade que era puro sacrificio. Cumpriu-
a com prazer e pegou o avido de volta ao
Rio de Janeiro.
Estdo Ihe dando a paga agora. Injusta
e indigna.


Belem: a marca


Numa votaqio o que deve prevalecer 6 a
vontade da maioria. Tudo bem: a maioria das
pessoas consultadas pelo banco Itat achou
que o Ver-o-Peso 6 o simbolo de Bel6m. E,
de fato. Mas muitas outras cidades tnm mer-
cados equivalentes ao nosso e tio importan-
tes para elas quanto o Ver-o-Peso, ou tlo atra-
entes para os turistas.
O de Bruxelas, por exemplo, me causou
profunda impressed. Minha empatia com o de
Barcelona foi tao grande que quase todos os
dias, dos 10 que por li estive, dava uma volta
pelo mercado fechado, indo e voltando pelas
Ramblas, sempre a pd, caminhadas de quil6-
metros entire trof6us em tijolo e argamassa de
Gaudi. Para mim, a maioria votou certa, mas


estA errada. O que define Bel6m sio as suas
mangueiras. Sem essa arborizaqio, a cidade
perderia a alma, o encanto, o cheiro, o traqo
que a diferencia de qualquer outra cidade em
qualquer parte do mundo. O mais maravilho-
so 6 que a drvore nio 6 native da Amaz6nia,
regiio que abriga um terqo da floresta tropi-
cal do planet. A asidtica mangueira foi, para
n6s, amor A primeira vista. Definitive.
De minha parte, no dia em que se com-
pletar a tarefa que, aos poucos, a insanidade
dos nossos governantes estn colocando dian-
te de si, de destruir as mangueiras, pedirei e
bon6 e darei adeus a esta cidade que tanto amo
- e que tio hostile se me torari sem seu velu-
do de verdura mangueirosa.


A FEIURA DA CIDADE
* Depois da primeira aproximagio, quem
volta a Roma, orientado por leituras, co-
meqa a se dar conta de lacunas na capital
italiana. Com mais conhecimento e novas
viagens, acaba descobrindo a fonte da in-
satisfaqio e da angtistia latentes: a hist6-
ria da capital do mundo antigo 6 contada
a intervalos. Alguns dos moments de sua
milenar trajet6ria desapareceram. A Ida-
de M6dia, por exemplo. A her6ica cidade,
que resistiu aos bdrbaros, sucumbiu aos
Barberini, que geraram papas e saquea-
dores urbanos; depois, aos fascistas e
democracia cristi. Eles apagaram muitos
dos registros arquitet6nicos e hist6ricos da
Cidade Eterna.
Nossas elites deram-se a trabalho seme-
lhante em Bel6m: destrufram e continu-
am a destruir paisagens da cidade, pr6di-
os, monumentos, testemunhos. Principal-
mente a partir do moment em que o fim
da Segunda Guerra Mundial redespertou a
atividade econ6mica, mantida em limbo nas
duas d6cadas anteriores, no eco da deca-
dencia da borracha. O apelo da modemi-
dade, sobretudo atrav6s do estilo funcio-
nal, levou a pira da imolaqio edificaq6es
desvalorizadas por serem identificadas com
um passado fadado ao desaparecimento.
Quem percorrer o eixo Santo Ant6-
nio-Jodo Alfredo, sobretudo no inicio da
manhi, antes que o perimetro se trans-
forme numa autentica zona, teri diante
de si um quadro complete dessa desca-
racterizagio feroz da cidade. Louve-se a
decision da prefeitura de deixar de lado
as protelaq6es e conveniencias para co-
locar abaixo as horrorosas fachadas e td-
tricas marquises dos pr6dios do s6culo
XIX e do infcio do s6culo passado.
A sensaqio 6 de nudez. Mesmo quan-
do o que se revela seja feio, 6 menos feio
do que a cobertura anterior porque apre-
senta promessas para o future. Sem qual-
quer exceqio, as construcSes anteriores
eram mais bonitas e valiosas do que os
arranjos, estilizaqSes e maneirismos que
a elas se superpuseram, sob a avalanche
de um modernismo de mau gosto e ins-
piracgo suspeita.
Se houver um pouco de boa vontade
e bom senso, al6m de decision de fazer e
gastar, logo o velho centro commercial,
recompondo-se cor suas origens, estari
mais atraente e agradivel do que tem
sido. Sera uma boa maneira de purgar
tantos e tio cavilosos pecados cometidos
pela elite belenense, seja ela composta
por comerciantes como por engenheiros
e arquitetos, que se especializaram em
enfear e destruir esta cidade, que jd teve
seu perfil definido e hoje 6 pouco mais
do que qualquer coisa, como diria Cae-
tano Veloso, se o artist baiano ainda dis-
sesse coisa com coisa.


8 ABRIL DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal










Conflito indigena:


sem essa (


Muita gente ficou perplexa quando
Lula, depois de vencer Fernando Henrique
Cardoso na dispute pela presidencia da
Reptblica, elogiou a capacidade de reali-
zaqao do regime military. A admira~ao ti-
nha dois motives. 0 primeiro parece ser o
fascinio de Lula pelo planejamento centra-
lizado dos governor militares, que produ-
ziam enormes documents prevendo tudo
que podia (ou devia) acontecer, embora
nem sempre acontecesse (ou acontecesse
diferentemente da previsao).
O outro motive da admiraq~o era a fer-
ramenta desse planejamento, as empresas
estatais, multiplicadas durante o regime
de exceqao independentemente de sua ne-
cessidade, funcionalidade, competencia
ou mesmo seriedade. Tirando a ideologia
e o discurso, que os afastavam, Lula e os
militares se pareciam nessa forma de
abordar a organizaqao econ8mica da so-
ciedade. Daf os elogios.
Esse digamos assim insight se reve-
la, limpido, na forma de reaqio do presi-
dente ao massacre de 29 garimpeiros por
indios Cinta-Larga de Rond6nia. O fato sujo
e sangrento foi colocado debaixo do tapete
de certas definiqges te6ricas, dogmiticas ou
catequ6ticas. Perdoe-se o erro. Ele foi co-
metido pelo "bom selvagem". Como evitar
que novos conflitos venham a ocorrer?
Criando-se uma empresa estatal. Ela in-
termediard as relaq5es comerciais entire os
indios e os compradores de diamante, tan-
genciard a proibiqio de garimpagem em re-
servas indigenas e garantira a continuidade
do process produtivo, apesar das restrigqes
legais e do substrato rousseauniano mal di-
gerido e pior explicado. Sera a Indiobris,
funcionando a margem da Funai.
A tnica vez em que esse esquema fun-
cionou foi no garimpo de Serra Pelada, que,
por certos aspects, era um campo de con-
centraqao sob gestio military (e de um 6r-
gao pol8mico, para dizer o minimo, o Ser-
vigo Nacional de Informaqbes, o SNI, na
area entio representado pelo tenente-coro-
nel Sebastiao Rodrigues de Moura, hoje na
reserve do Ex6rcito e prefeito peemedebis-
ta de Curion6polis, municipio batizado
com seu apelido, Curi6). Por isso nao hou-
ve, com a Caixa Econ8mica, a Docegeo e
o DNPM tantos incidents como os que
certamente havera se essa empresa estatal
for criada para fazer o meio-de-campo en-
tre os indios e compradores externos. En-
tre eles, corrupqco.


ito


Durante a d6cada de 70 andei bastante
pela area dos Cinta-Larga e de seus vizi-
nhos, os Suruf. Jamais me passou pela ca-
beqa, nessa 6poca, que um dia eles explora-
riam garimpo de diamantes, manteriam re-
laq6es confusas com empres.rios, abririam
(ou deixariam abrir) pistas de pouso na re-
serva Roosevelt e seu cacique saltaria de
uma camionete Mitsubish envergando blu-
sa Lacoste para dar entrevista coletiva.
Tudo bem: tudo isso jA 6 realidade. De
um lado, ela traz todas essas comodidades
(distorcidamente partilhadas, quando parti-
lhadas). Mas tamb6m altera o conceito penal
da inimputabilidade dos indios e o antropo-
16gico, de sua pureza. Se original, pureza
perdida na chamada fricgCo inter6tnica.
O process, que, com vi6s etnocentri-
co, chamamos de aculturag~o, 6, na verda-
de, como sabem os bons antrop6logos, de
destribalizaqao e descaracterizaqao (o in-
dio nio consegue se adaptar a sociedade
de classes, mas tamb6m a identidade 6tni-
ca, que jamais desaparece de todo, passa a
perturbar-lhe a vida, deixando-o com um
p6 na cidade e outro na aldeia, esfranga-
lhado por dentro). Um terceiro participan-
te vai apenas complicar ainda mais essa
gel6ia geral. O que cabe ao Estado 6 agir
como instancia t6cnica e, quando o caso
(se 6 que ainda 6 o caso), 6rgio tutelar.
Se querem entrar na atividade produti-
va e tem amparo legal para isso, que os
indios atuem diretamente, sob supervisor
do 6rgio teoricamente competent (ou ao
menos formalmente), a Funai. Os Gavi6es,
de MarabA, foram pioneiros nessa experi-
encia, saindo do garrote do DGPU (Depar-
tamento Geral do Patrim6nio Indigena),
mal comparando, mas comparando, uma
esp6cie de gigol6 da renda tribal. Produ-
zindo e comerciando sua safra de castanha,
os Gavibes cometeram erros, como seria
de se esperar (e inevitavel), mas sAo res-
ponsaveis por eles.
Os Cinta-Larga podem fazer o mesmo,
mas dentro da ordem legal e seguindo os
procedimentos adequados. O que quer di-
zer que, como agents aut6nomos de sua
vida, tamb6m passam a ser responsaveis
por seus erros, desde os mais simples at6
os mais graves, sobretudo os delitos, es-
pecialmente os homicidios. Sem ilusoes
falsamente rousseaunianas nem desvios
patrimonialistas e burocriticos, como os
que surpreendentemente unem Lula aos
tecnocratas e militares.


METAMORFOSE
* Quem cruza pela noite com o arquiteto Ed-
milson Brito Rodrigues nem suspeita que a mes-
ma pessoa abriga o prefeito de Bel6m. O cida-
ddo Edmilson 6 alegre, descontraido, bem dis-
posto, camarada. J0 o prefeito 6 agressivo, tem
acessos de firia, nao aceita critics, fala repe-
tindo palavras de ordem e como fala!
Quem s6 conhece o boemio boa-praqa e fes-
teiro nao pode imaginary que, de dia, no exercicio
do poder, ele possa experimentar tamanha trans-
formaqo. Quem s6 convive com o politico do PT
nao imagine o que estA perdendo por nao topar
cor ele despido das vestes talares de alcaide.
Nao sei se a president do Tribunal de Jus-
tiga do Estado, desembargadora Maria de Na-
zar6 Brabo de Souza, conhece o primeiro (ou
seria o segundo, regra tres?) Edmilson. Mas o
carrancudo prefeito com o qual ela se defron-
tou na semana passada, em seu gabinete, nao
lhe foi nada simpptico, muito pelo contrdrio.
Levado pela just causa da defesa da cota-
parte de ICMS do municipio da capital, o pre-
feito do PT cometeu uma s6rie de indelicade-
zas e de equivocos. Reunindo secretirios e as-
sessores, ele foi, encorpado e incorporado, apre-
sentar sua tese a chefa de um poder indepen-
dente. Mas a exposicqo evoluiu (ou involuiu)
para uma arenga despropositada e, no extreme,
para uma intromissdo ind6bita na seara alheia.
O que seria uma prestagqo de informag6es
para a boa apreciaqao administrative de uma cau-
sa presentemente em demand judicial se trans-
formou numa pressed illegal. A desembargadora
deu um chega-pra-16 e o prefeito, em tempo, cor-
rigiu seu despaut6rio. Mas o mal ji estava feito.
Quem examine a tese municipal nao deixa
de se sensibilizar para a reivindicaqIo da PMB:
hi fortes indicadores demonstrativos de sua
perda de receita pela usurpacqo do Estado. Mas
o govemo tamb6m j apresentou seus argumen-
tos contr6rios, sustentando que Bel6m perdeu
em impostos porque houve simultaneamente
um esvaziamento econ6mico e demogrAfico da
capital em proveito do interior do Estado.
Cada uma das parties esti no seu direito (e
dever) de propagar os seus arguments e arre-
gimentar adeptos. Mas nos umbrais da aprecia-
q~o judicial, nao invadindo ajurisdicio t6cnica
da justiqa, como acabou fazendo (talvez mes-
mo sem ter tido essa intenqao) o prefeito Ed-
milson Rodrigues.
Neste caso, ele pode estar com a razdo. Mas
nao 6 dono dela. Deve se esmerar em demons-
trar o que diz e convencer quem o ouve. Mas
nao deve sair da posiqCo que Ihe cabe, enquan-
to parte, para, como de hibito em seu modo de
ser, tentar se tornar o dono exclusive da situa-
qio como um todo.
Quando estiver sujeito a essa tentag~o, bem
que o prefeito podia deixar uma fresta aberta
para fazer passar o simpitico cidadAo que fre-
qilenta a noite e outros ambientes que nao os
do poder, ao qual 6 tdo pouco imune quando o
exerce. Todos ganhariam com isso. Sobretudo
Edmilson Brito Rodrigues.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 9











X








4)Y

C3


UAP
* A chapa de oposigo, a Re-
novaqdo Universitdria Inde-
pendente, foi a vencedora para
a eleicio da UAP (Uniao Aca-
d8mica Paraense) em 1955.
Teve 407 votos contra 389 da
chapa situacionista, encabeqa-
da por Waldir Monteiro. Pre-
sidente: Alcyr Meira, de En-
genharia; 1 vice-presidente,
Almir Gabriel, de Medicina;
2 vice-presidente, Ary Nunes
Cameiro, de Farmicia; secre-
tdrio geral, Heitor de Souza
Freitas, de Ciencias Econ6-
micas; 1 secretario, Aloizio
Pinto Nascimento, de Odon-
tologia; 20 secretArio, Jos6
Santos, de Serviqo Social; 1
tesoureiro, Wilton Moreira,
de Filosofia; 20 tesoureiro,
Joelzio Bahia, de Agronomia;
orador, Aldebaro Klautau Fi-
lho, de Direito; e biblioteca-
ria: Estela Dalva Monteiro,
de Enfermagem.

Journal
* Em 1955 o semandrio Flash
completou tres anos. Ivan Ma-
ranhao, criador, director e prin-
cipal redator da publicaqao,


aproveitou a data para mandar
uma cartinha para seu av6,
Paulo Maranhao, que coman-
dava o journal maior da famflia
(e do Estado), a Folha do Nor-
te, em cujas oficinas o Flash
era impresso. Dizia a carta:
"VOVO Sua ben9ao O
'FLASH' completa,amanhi,
dia 9 [de outubro], tres anos
de existencia. Sei das contra-
riedades que o meu journal lhe
tem causado, dal por que cres-
ce, cada vez mais, a minha
admirag~o pelo senhor. Se o
'FLAH' atinge amanha o seu
3 aniversario 6 ao senhor, ex-
clusivamente, que devo isso.
Por isso, quero deixar aqui
consignada a minha gratiddo,
rogando a Deus que lhe d6
vida e sadde, para que ama-
nha um amanha que espero
seja breve o senhor possa
ver o 'FLASH'dirio, com as
suas pr6prias oficinas. Mais
uma vez, muito obrigado. -
Seu neto IVAN".
Paulo Maranhao acrescen-
tou a transcriCgo da carta esta
nota, ndo assinada (nem pre-
cisava de assinatura para ser
identificada):


PROPAGANDA

A seduaio do escurinho
Um dos magnificos anuncios publicados na imprensa em 1947 para convocar osfieis do
escurinho do cinema para "Os sinos de Santa Maria ", com a deslumbrante Ingrid Bergman
e Bing Crosby, que, alum de ator, era cantor de primeirissima. No Moderno, cinema do
Largo de Nazare que ndo existe mais (no seu lugarfunciona o parque de diversoes). 0
cinema evoluiu, mas os anuncios de antes eram muito melhores do que os de hoje.


ABRIL DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal


MOP RNOii


"O director das FOLHAS,
cuja longa vida a ele, mais do
que aningu6m, surpreende, por-
que nao vagiu em berqo de ouro
e nao jomadeou por caminhos
floridos, nunca teve oportunida-
de de repetir a frase do impera-
dor romano -diemperdidi, por-
que nenhum dia passou na sua
exist6ncia sem fazer o bem.
E se beneficiou os estra-
nhos, muitos dos quais 'impi-
vidos patifes', por que nao o
faria a quem tem nas veias o
seu pr6prio sangue?
Ver prosperar o 'Flash' 6 o
nosso melhor voto".

Cinema
* Em janeiro de 1957 o Cine
Clube "Os Espectadores"
exibiu o filme "Outubro", de
Serguei Eisenstein no audit6-
rio da SAI (Sociedade Artis-
tica Internacional). Antes,
Amilcar Tupiassd fez a apre-
sentaq~o. Em seguida, Bene-
dito Nunes fez a quarta ex-
posiqio do curso de iniciaqao
ao cinema, falando sobre o
tema "valores est6ticos da
linguagem cinematogrifica".
Os s6cios tinham acesso des-























I,
*B .*
3-u

agS


FOTOGRAFIA

Pra a 4
Registro hist6rico: e
operdrios concluem
S em torno do monurr
praqa do centro de I
primitivas caracteri
haviam sido desfigu
para com um dos se
engenheiro Augusto


de que apresentassem com-
provante de quitaq~o da men-
salidade. Mas, excepcional-
mente, podiam levar um
acompanhante para ver o fil-
me do cineasta russo. Quem
quisesse, podia se inscrever
no Cine Clube pelo telefone
25-49 ou, por escrito, para a
caixa postal 177.

Advogados
* Foi muito emocionante a so-
lenidade de diplomaqdo de 35
novos advogados formados
pela Universidade Federal do
Pard em 1965. Inusitadamen-
te, s6 houve um discurso,
proferido pelo director da Fa-
culdade, Lourenqo Paiva,
conclamando os bacharelan-
dos a lutar pelo progress da
civilizaqdo, pela paz e pela
felicidade dos brasileiros.
Depois de silencios significa-


original
;m outubro de 1966
a construgao da balaustrada
lento a repiblica, na famosa
3el6m. Era a restauraqCo das
sticas do monument, que
radas. Divida da cidade
us maiores namorados, o
I Meira Filho.


tivos, palmas intensas irrom-
peram na plat6ia quando o
escritor Machado Coelho en-
tregou o grau ao filho, tam-
b6m Inocencio, e quando Pe-
dro Galvdo de Lima foi bus-
car seu diploma. Se ndo hou-
vesse o regime de exce9ao,
iniciado no ano anterior com
o golpe military que dep6s o
president Joao Goulart, um
deles seria o orador da turma.
Mais palmas quando o
melhor aluno do curso, Eduar-
do Galedo Pereira Lima, rece-
beu o premio "Livraria Mar-
tins". Anonimamente, Carlos
Martins sempre foi um esti-
mulador dos jovens que gos-
tavam de ler, facilitando a
compra de livros em seu esta-
belecimento commercial, na rua
Campos Sales, um grande
ponto de encontro nas d6ca-
das de 50 a 70.


Porteiro
* O prefeito StWlio Maroja deu
de cara com a porta fechada do
Palacio Ant6nio Lemos quan-
do chegou para trabalhar, As
duas da tarde do Recirio, em
outubro de 1966. Barradosjun-
to com ele ficaram o vice-pre-
feito Ajax d'Oliveira, o chefe
de gabinete Otdvio Sim6es e
virios funciondrios da Assem-
bl6ia Legislativa e do Tribunal
de Justica, que tamb6m funci-
onavam no "palacete azul",
como a sede da comuna era
conhecida (de l1 para ci a bu-
rocracia official cresceu mais
do que a populagqo). O jeito
foi mandar um carro ir buscar
o guarda-chaves.
Meio sem jeito, "seu" N6o
apareceu, trazendo consigo
uma explicaqao: ouvira no ri-
dio a informaqao de que o ex-
pediente s6 comecaria As
14h30 e resolve esticar a ses-
ta. Enquanto finalmente abria
a porta, o prefeito, sem per-
der o humor, observou: "Hoje
o N6o resolve ficar famoso".


Nataiao
* Os irmdos Carepa
responderam present no
torneio interno de natacao
do Clube do Remo, em
1967. A atual senadora
Ana Jilia, na 6poca apenas
uma petiz, participou da
prova de 50 metros livres.
Emilio e Artur nadaram os
100 metros livres e JoHo
Carlos, os 50 metros.

Debate
* Layse Salles, a el6trica
president do Diret6rio
Academico de Filosofia
da UFPA nao conseguiu
realizar a mesa-redonda
que havia convocado para
julho de 1968, "o ano que
nao terminou". Teve que
adiar "sine die": nenhum
dos professors
convidados compareceu
ao debate. Que acabou
nao havendo: em 13 de
dezembro baixou o AI-5
sobre o Brasil, cobrindo-o
de luto.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA ABRIL DE 2004 11







Aluminio
* O grupo Alubar, que benefi-
cia o metal primirio daAlbrds
em Barcarena atrav6s de suas
empresas (uma de cabos de
aluminio e outra de metais),
faturou quase 140 milh6es de
reais nos dois neg6cios, mas
acumulou prejuizo de mais de
R$ 300 mil no ano passado.
O balanqo das duas empresas,
acanhado demais para o seu
porte, nio possibility andlises
comparativas. Os 6rgdos
pdblicos,que concede bene-
ficios fiscais e tributarios a
esses empreendimentos, devi-
am obriga-los a divulgar de-
monstrativos mais analiticos.

Crescimento
* Depois de comprar a mina
de ouro de Eike Batista (ex-
Luma) no Amapa, a Wheaton
Rivers Minerals absorveu a
Iamgold, uma concorrente
menor, e se tornou a terceira
maior mineradora de ouro do
CanadA, com valor de merca-
do de 2,8 bilh6es de d6lares.

Malaria
* Quem andava pelo interior da
Amaz6nia anos atrAs inevitavel-
mente ia dar de cara, qualquer
dia, cor o mais present dos
servidores piblicos: o fura-
dedo. A virios deles dei carona
nas viagens pelo sul do Pard e
Transamaz6nica. Levavam o
combat A malaria a todas as
nucleaqces humans da Ama-
z6nia, dando ao seu emprega-
dor, a Sucam, as mais confia-
veis informaq es demogrificas
da region, numa 6poca em que
era dificil levar estatisticas so-
bre o sertio amaz6nico a s6rio.
Um dos atos mais nocivos
de Fernando Collor de Mello
foi extinguir a Sucam. O ilti-
mo eco dessa desastrosa inter-
vengdo 6 uma auditagem do
Tribunal de Contas da Unido,
que constatou desvio de recur-
sos e de funiao no uso do di-
nheiro do Programa de Con-
trole da Malaria, agora sob a
jurisdiqio da Funasa (Funda-
9io Nacional de Sadde), que
se tornou um reduto de indi-
caq6es political a servigo do
clientelismo federal.
D6cadas de experi8ncia,
conhecimentos e resultados
foram atiradas ao lixo. Quase
sem um ai.


Na China
* O president Luiz Inacio
Lula da Silva vai inaugurar, no
dia 24, a primeira exposicio
organizada por um pais estran-
geiro sobre temas de um pais
estrangeiro dentro da famosa
Cidade Proibida, em Pequim,
que serviu de morada imperi-
al a 24 imperadores ao long
de cinco s6culos. O Museu do
PalAcio Imperial ja abrigou
mostras estrangeiras, mas to-
das foram montadas com ma-
terial existente na pr6pria Chi-
na, em geral sobre outros paf-
ses asidticos. A mostra a ser
aberta no pr6ximo m8s 6 in6-
dita: as 431 peas exibidas
pertencem ao patrim6nio bra-
sileiro. Sao exemplares da arte


plumiria e peas arqueol6gi-
cas dos indios da Amaz6nia.
A mostra "Amaz6nia: arte
native" nao acontece por aca-
so. O patrocinador da exposi-
cao, Edemar Cid Ferreira, estA
abrindo um escrit6rio do seu
Banco Santos em Xangai, a
Nova York chinesa. Foi Ede-
mar quem trouxe 13 guerrei-
ros chineses em terracota, ava-
liados em 120 milh6es de d6-
lares, para a primeira exposi-
cqo complete fora da China,
no ano passado, em Sao Pau-
lo (visitada por quase 900 mil
pessoas). Agora ele faz o ca-
minho inverso: leva peas que
combinam a hist6ria e a arte
dos brasileiros mais antigos
para serem vistas por inte-


Doris: 80
Quem se apaixonou pela lourissima Doris Day nos anos
50/60 talvez nio queira saber, mas a namoradinha daAm6-
rica, que seduziu todos os clients dos filmes pasteuriza-
dos de Hollywood, acaba de fazer 80 anos. Se ela esti ve-
lha, n6s, que nos apaixonamos por ela no escurinho do
cinema, s6 estamos um pouco menos velhos.
Menos mal, por6m: Doris envelheceu com dignidade, estA
muito bem para a idade e mais feliz do que quando nos apa-
recia com aquele penteado montado h base de laqu6 e aque-
le belo e inexpressivo sorriso. Depois de quatro casamentos
desastrados, Doris quer distancia dos series humans. Vive
reclusa entire animals, na Calif6rnia, numa situaqdo bem pa-
recida A de outra das nossas paix6es adolescents: a france-
sa Brigitte Bardot (que pude encarar, no Rio de Janeiro, a
menos de dois metros de distancia). Ha algo de instrutivo
nessa preferencia, a dizer, por exclusao, o que as duas deu-
sas infelizes ji nao podem mais declarar, sob pena de pare-
cem ainda mais cru6is, ex6ticas, condeniveis.
Depois do period de glamour nos filmes em que Doris
contracenava com Rock Hudson e Cary Grant amboss ho-
mossexuais, como viriamos a descobrir mais tarde, vaci-
nados contra a manipulagqo cenica), a atriz nos pareceu
careta, artificial, simbolo do imperialismo ianque a nos
vender o "american way of life". Aos poucos, por6m, hou-
ve a reconciliaqdo. Nao cor os filmes quase sempre -
idiotas (exceto os iltimos), que Ihe castraram o talent ar-
tistico, enfiando-a num estere6tipo pobre, mas com sua voz.
Doris Day cantava numa afinaqao celestial, sem muita
8nfase ou estilo, mas perfeita. Suas interpretaoqes de
"Again", "Bewitched", "When I fall in love" e "Secret love"
estao entire as melhores que ji ouvi desses hits do assim
chamado cancioneiro americano. Cordas e sopros nao ado-
cicavam demais sua voz.
A cantora foi sensivelmente prejudicada pela musa (a
"virgem romAntica") criada pela inddstria cultural ameri-
cana. Mas sobreviveu e resistird para sempre, quando esti-
ver decantado o comercialismo da carreira de uma bela
mulher que s6 a solidao, entire animals irracionais, recon-
ciliou com a paz e a felicidade, das quais deveria ser a
estampa ficil.


12 ABRIL DE 2004 2- QUINZENA Jornal Pessoal


grants de uma das mais anti-
gas civilizaqces humans.
A Amaz6nia 6 o segundo
tema de interesse dos chine-
ses, junto com Foz do Igua-
qu (o par preferencial do
Rio de Janeiro nos roteiros
turisticos estrangeiros). Por
isso, o banqueiro-mecenas
optou pelas peas indigenas
da regiao. Elas certamente
atrairdo o ptiblico chines,
reforcando as pontes entire
os dois pauses.
A China ja 6 o principal
client da Companhia Vale do
Rio Doce, uma das integran-
tes da comitiva de Lula. As
perspectives comerciais brasi-
leiras na China sao muito am-
plas. A Amaz6nia 6 uma das
peas mais importantes desse
intercAmbio. Embora prova-
velmente a Amaz6nia nao sai-
ba disso. Como de habito.
Mas Sao Paulo sabe. E assim
avanqa a frente econ6mica na
regiao.

Turismo
SA Companhia Paraense de
Turismo (Paratur) nao teve
um tostdo de receita opera-
cional ao long de todo o ano
passado. Dos 6,2 milh6es de
reais que passaram por seus
cofres em 2003, R$ 6 mi-
lhoes lhe foram transferidos
pelo governor do Estado, seu
dono. Essas transferencias
foram mais do que o dobro
das efetuadas em 2002. O
que esse crescimento permi-
tiu foi uma reduq~o dos lu-
cros acumulados, que eram
de R$ 1,3 milhao em 2002 e
foram reduzidos para pouco
mais de R$ 1 milhio no ano
passado.
Esses ntimeros levam ine-
vitavelmente a uma questao:
por que o Estado mant6m na
sua estrutura uma empresa
de turismo que nao funciona
como tal? Por que nao ajus-
tA-la ao que ela efetivamen-
te 6, uma autarquia? Por que
nao instituir um servigo de
turismo, uma ag6ncia, um
institute ou estrutura seme-
lhante? O governor provavel-
mente gastaria menos ou, se
gastasse mais (como o setor
exige), poderia gastar me-
lhor. E, na mesma propor-
gao, melhorar a promocdo do
turismo estadual.