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Tornal Pessoal ABRIL DE 2004 I QUINZENA N 321 o ANO XVII R$ 3,00 A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO '' i. ~...I ';d;*~- ::ob'` 1' ~- I- .~ .. F '~;~ - I L ATIN .A M 1."., 0 R. DESENVOLVIMENTO i ,, ORIDA IF piores para os que s6 agora vAo entrar ou estao entrando no jogo. Eles deviam ter es- peranqas, mas nAo as tem. Os jovens estao vivendo pior do que os adults no Para. O Brasil tornou-se o primeiro pais do mundo a se tornar laborat6rio para 0 CONTRATO DE US$ 80 MILHOES (PAG. 3) ^ ^ii^si^^s...ssossssssses 0 discurso official e de que o Pord estd se desenvolvendo e o governor estd resolvendo seus problems. Mos os indices socialis ndo confirmam essay fotografia cor de roso. 0 produto do exploraago dos recursos naturoials do Estodo ndo fica com os seus hobitantes. Pora os jovens, a heranga e ainda pior. OPari tem o segundo maior ter- rit6rio do Brasil, 6 o nono Estado em populag~o, o 12 em PIB (Produto Interno Bru- to), o 16 em desenvolvimento human (o IDH) e o 19 em desenvolvi- mento juvenile (o IDJ). Essa s6rie de in- dicadores segue uma linha decrescente: da mensuragAo material e quantitativa para a avaliag~o humana e social, da grandeza bruta ao seu valor qualitati- vo. Essa reta descendente revela que o Para nao esta tirando proveito de sua riqueza. Ou seja: esta desperdicando seu potential de enriquecimento e pondo a perder sua vocacAo de grandeza. O trem do progress esta passando pela esta- cAo Para e os paraenses nao estao em- barcando nele. Do trem, os paraenses ficam apenas com o apito. E um retrato na parede. Por que os paraenses nao estao em- barcando no trem da hist6ria? Porque estd havendo um descompasso en- tre o som da hist6ria e sua captagAo pela so- ciedade: quando o som chega a estagao, o trem ja passou. Os paraenses vivem num uni- verso e sua hist6ria em outro. Tomam por re- alidade o que e miragem e se deixam levar pela seduqAo do canto de sereia. Foram ata- cados pelo pior tipo de cegueira: a que existe sem que dela se tome consciencia. O dia pa- rece estar claro e brilhante. Mas nem dia hi. Se a realidade ja 6 desanimadora para os que estao com maturidade suficiente para encard-la, as perspectives sdo bem 0 Para parou: re CONTINUAAO DA CAPA o ao mais novo indice da Unesco (a organizacao da ONU dedicada A educa- gAo e a cultural Inspirado no IDH, o IDJ foi criado para medir especificamen- te a qualidade de vida dos jovens de 14 a 24 anos. O indice consider a quanti- dade de matriculas de jovens nos ensi- nos fundamental, m6dio e superior, mas tamb6m avalia se os alunos estAo cur- sando a serie adequada a sua idade. O IDJ consider parcialmente tres in- dices (sadde, educagAo e renda) e cru- za seis indicadores oficiais: taxa de analfabetismo, escolarizagAo adequada, qualidade do ensino, mortes por doen- ca, mortes por causes violentas e renda familiar per capital. O indice seri cal- culado a cada dois anos, contados a partir de 2003, que marcou a sua es- tr6ia. O nivel superior do IDJ 6 1. Santa Catarina, o Estado brasileiro com melhor desenvolvimento juvenile, ficou em 0,673, um valor baixo se com- parado As m6dias do primeiro mundo. O Estado da Amaz6nia Legal melhor co- locado foi Mato Grosso, em 10 lugar. Tocantins ficou em 13, Amapa em 141, Rond6nia em 15 e o Maranhao em 17. Abaixo do Pari, ficaram o Amazonas (20), Roraima (23) e o Acre (259). Es- pirito Santo, um Estado que guard vi- rias semelhancas com o Pard (sobretu- do em fungAo da atuagAo da Companhia Vale do Rio Doce), 6 o 11. A deducAo 16gica da queda que acontece quando se aproximam os va- lores brutos dos dados qualitativos 6 que no Pard nao esti havendo um born uso do espaco fisico. O Estado ter di- lapidado o seu patrim6nio natural, nao fazendo corn que ele renda suficiente- mente para que todos se beneficiem da renda gerada. Deve estar ocorrendo uma brutal concentracAo da renda. Mais forte do que esse fen6meno, po- r6m, 6 a drenagem de receita (materi- alizada ou em potential) para o exte- rior. Segundo a Fundacgo IBGE, os ri- cos (cor renda de mais de R$ 12 mil) nao chegam a somar sete mil pessoas no Para, um Estado cor quase sete milhoes de habitantes. A grandeza do Para 6 evidence a par- tir do seu pr6prio tamanho, de 1,2 mi- lhao de quil8metros quadrados. Essa grandeza se confirm concrete e espe- cificamente quando sio identificadas as riquezas existentes no vasto espaco ter- ritorial paraense, entire as quais a c6le- bre biodiversidade amaz6nica, o cau- dal de energia hidrica (e de agua como um todo), a diversidade e amplitude de min6rios no subsolo e as manchas de terra fdrtil. O balango do uso desses recursos 6 espantosamente deficitArio. Quem se aventurar em cobrir o Para corn imagens de satelite descobrirA, horrorizado, que alguns municipios nao tem mais flores- ta native, em outros o remanescente de mata esti bem abaixo de 20% limitede le- gal para o desmatamento) e que diver- sas areas de proteqAo obrigat6ria, como as margens dos cursos d'agua, estao sem sua cobertura vegetal ciliar (sinal de que a erosAo vai sedimentar rios ou faze- los desaparecer). Nao surpreende que o monitoramento do ano passado colo- que o Estado no segundo lugar do des- matamento e SAo Felix do Xingu na ne- gra lideranga dos municipios devasta- dores (ou devastados). S6 hi esperanga para o future se o uso do espaco for ordenado e a anar- quia reinante ceder A organizagao ter- ritorial. A receita para esse diagn6stico 6 o zoneamento ecol6gico-economico. O primeiro relat6rio do zoneamento foi produzido ha quase 15 anos por uma equipe que acabou se dispersando, reu- nida na 6poca em um 6rgAo, o Idesp, mandado para as calendas gregas por um d6spota supostamente esclarecido. Agora a Sectam esta apresentando um novo zoneamento, centrado numa compilacAo cartografica. O mapa pro- duzido 6 interessante e pode se tornar numa ferramenta mais 6til do que o volume 1 do zoneamento, homiziado em algum arquivo. Mas quem, como e para que vai executi-lo? Se houvesse um indice de sadde am- biental (ou, melhor dizendo, de sani- dade ecol6gica institutional), o Pard es- taria dividindo o iltimo lugar cor Ron- d6nia. Ambos se empenham para dei- xar de ser amaz6nicos. Rond6nia, cin- co vezes menor do que o Pard, esta bern pr6ximo dessa meta absurda. Suas li- derancas jd se mobilizam para que o Es- tado deixe de fazer parte da Amaz6nia Legal, passando a integrar o Centro- Oeste, numa obtusa rendncia ao que tmr de mais valioso: serem parte da Amaz6nia. A Area de desmatamento se- ria invertida: deixaria de ser de 20%, como se exige na regiAo, e passaria para 80% dos im6veis rurais, o padrdo brasi- leiro. No Pard a situaqAo ainda nao che- gou a esse extreme de paranoia, mas s6 a Area desmatada no Estado ja equi- vale ao tamanho de Rond6nia. Nao basta passar a r6gua e esticar o compasso sobre a image digital do Es- tado para racionalizar sua ocupagAo, ta- pando os canais de drenagem de rique- za e desperdicio de oportunidades. e precise que a aplicaqAo dos estudos siga diretrizes claras e eficientes para mu- dar a direqco patol6gica do process econ6mico no Estado, cada vez mais in- tenso e distorcido. Deixamos de ser um risco de enclave para estarmos a nos consolidar como uma col6nia. A aSAo pdblica deve se orientar para center as frentes econ8micas, fazer re- verter as investidas claramente espe- culativas e selvagens, impor normas de exploracAo e uso dos recursos naturais, apoiar as atividades inteligentes (ditas sustentAveis), orientar os investidores, defender a sociedade, favorecer os de- siguais. O poder piblico s6 poderA agir des- sa maneira se controlar os meios t6cni- cos e cientificos, se souber como fazer e o significado do que esta fazendo. A sociedade s6 se credenciard como be- neficidria da trama se dispuser de in- formaraes para fazer as cobrancas e me- diar as decis6es. Em ambos os casos o que se requer 6 informaqao, conheci- mento, saber. O que caracteriza, por6m, tanto a political pdblica quanto a posi- cAo da sociedade 6 a manipulagAo dos dados, o poder que alguns tem de mis- tificar e embromar. Veja-se o contencioso do governor do Estado com a Companhia Vale do Rio Doce. O governador SimAo Jatene vol- tou de Brasilia, depois de um encontro corn o president da empresa, Roger Agnelli, proclamando vit6ria. A Vale te- ria, finalmente, concordado em partici- par da agenda positive do governador, apoiando a construcao de 30 mil casas populares e o Banco do CidadAo (em parties iguais). Na verdade, Jatene voltou de Brasi- lia cor o que para dl levou: a partici- paiAo da CVRD em um fundo de aval, no valor de 28 milh6es de reais. Em caso de inadimplencia com o agent finan- ceiro, a Caixa Econ6mica Federal, a ga- rantia 6 a cota do Para no Fundo de ParticipagAo do Estado. Exatamente como ja estava acertado no papel antes que a dispute tivesse chegado ao em- bargo do licenciamento ambiental da mineragdo de bauxita pelo Estado e a decisAo da empresa, em represAlia, de suspender o empreendimento. Percebendo que se continuasse a desafiar a Vale, achando que a empre- sa estava apenas blefando, poderia ver o investimento de 270 milhoes de d6- lares em Paragominas ruir, o governor recuou. Mas para ter uma said de hon- ra foi arranjado o encontro em Brasi- lia e ativadas as fanfarras para o anin- cio em Bel6m. Os chefes dos outros dois poderes (o president da Assem- bl6ia Legislativa, deputado MArio Cou- to, e a president do Tribunal de Jus- tica, desembargadora Maria de Nazar6 Brabo de Souza), mais o chefe do Mi- nisterio Piblico do Estado, Francisco Barbosa, foram convocados As pressas para fazer presenca no andncio festi- vo feito pelo governador. Sem saber exatamente o que fora tratado na ca- pital federal e o conteddo do acerto, as tres autoridades fizeram papel de- corativo no ato. Decorativa 6 a pr6pria participaqgo da opiniAo pdblica nessas hist6rias. A sociedade 6 levada de um lado para outro pelas vagas de propaganda e pelo noticiArio da imprensa chapa branca. Acredita entAo que o que Ihe estao di- zendo 6 verdadeiro. Mas quando chega um 6rgAo t6cnico competent para ve- rificar os resultados, o que apura con- trasta com o quadro cor de rosa da cul- tura official. O IDJ da Unesco confirm essa esquizofrenia. Mais uma vez, 6 o Pard crescendo, sim, mas como rabo de cavalo: pra baixo. 2 ABRIL DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal CASTELO DOS SONHOS * A empresa canadense Osisko pagou 28 mil d6lares para ter o direito de, nos pr6ximos seis meses, verificar se vale a pena investor nas 13 Areas de lavra requeridas pela Amaz6nia MineragAo, onde funcionou o tristemente famoso garimpo de Castelo dos Sonhos, no sudoeste do Para. Se a Osisko achar que o neg6cio compensa, completarA o valor da transferencia dos direitos, de 345 mil d6lares, e pagard o royalty mais um premio sobre o ouro que extrair do local. Desde a morte de MArcio "Rambo", um piloto de aviAo que no inicio da d6cada de 90 assumiu o control da area na base de violencia e coaCgo, as atividades garimpeiras foram suspensas. As tentativas feitas por alguns interessados no ouro de Castelo dos Sonhos nao tiveram bons resultados. Agora 6 a vez da empresa canadense, mais uma que chega A Amaz6nia nos iltimos tempos. CORRECAO * Muitos errinhos chatos na edicAo anterior, de novo fechada na pancada, sem revisAo. Erros causados principalmente pela facilidade que o computador proporciona de corrigir um erro e esquecer o erro que a correSAo acarretou. Dai certas concordancias hereges. Alem de cochilos na grafia, que a acumulada estafa da redaqSo do journal, ha 20 anos serm f6rias, causou. Ou lapses na digitaqgo, que fizeram os 250 anos do nascimento de Alexandre Rodrigues Ferreira se transformarem em 350 anos. Se continuar assim, a redacao fechara para balanco e entrara em f6rias coletivas. Ou sera demitida por complete. Perdao, leitores. Outra vez. A novela do contrato de energia da Albras Na v6spera, alegando "motivos t6cnicos", a Albras cancelou o leilao para a compra de energia que realizaria no iltimo dia 2. A nova data prevista 6 5 de maio. A Albras recorreu ao leilao porque seu contrato de fornecimento de energia cor a Eletronorte vencerA no pr6- ximo mes, 20 anos depois de ter sido assina- do. A renovaCgo nho foi fechada a tempo porque a empresa quer pagar um valor entire 12 d6lares e 9 d6lares por megawatt/hora, o valor maior sendo o que jA vinha pagando e o menor um ajuste as tarifas que outras plan- tas de aluminio estariam recebendo em ou- tras parties do mundo. A Eletrobras, controladora da Eletronorte, quer que a Albris passe a pagar US$ 20 por MWh, igual a tarifa praticada pela Alumar, in- distria de aluminio do mesmo porte instala- da em Sdo Luis do MaranhAo com os mesmos favors fiscais e tributarios, ou quase (por co- megar primeiro, a AlbrAs levou mais). O leilao seria para garantir 750 MW m6di- os de energia para a Albras entire junho e dezembro, permitindo- Ihe fechar o exercicio de 2004 sem maiores atropelos, enquan- to se prepare para definir uma nova fonte de suprimento esta- vel e de long prazo. A demand de energia da Albras equivale ao consume individual das duas mai- ores cidades da Amaz6nia, Bel6m e Manaus, com 1,2 milhAo de ha- bitantes cada. Sem a garantia de uma fonte segura, a competitivi- dade da empresa no mercado in- ternacional desaparece. Na verdade, essa 6 uma dis- puta de cartas marcadas. Apesar do mercado livre de energia, s6 ha um fornecedor seguro, a cur- to e m6dio prazo, para a Albras: 6 a Eletro- norte. Para a estatal, por outro lado, a fibri- ca de aluminio de Barcarena represent o consume constant de um tergo da energia firme da hidrel6trica de Tucurui, que res- ponde por 80% de tudo o que a Eletronorte gera em toda a Amaz6nia. E por isso que enquanto era anunciado o leilao e medidas mais duras ecoavam do lado do governor, as parties mantinham intense negociaqAo de bas- tidores. AcabarAo tendo que encontrar um denominador comum para o impasse em que foram colocadas. Em 20 anos desfrutando de tarifa favore- cida, a Albras recebeu um subsidio do tama- nho do pr6prio investimento da fAbrica, que custou 1,8 bilhAo de d6lares. Esse valor 6 con- seqiincia do custo de geragAo (mais as amor- tizac6es do investimento) da usina de Tucu- rui. Nao saindo dos cofres da inddstria de aluminio, foi bancado pelo ergrio, a base de dinheiro do contribuinte, atrav6s de virios mecanismos de compensacao e transferencia que impediram a Eletronorte de quebrar e atrapalharam as contas do setor eletrico p6- blico, comandado pela Eletrobris. A Albris argument que, hoje, os US$ 12 por MWh jd nao sAo tao atrativos como em 1984, o que nao deixa de ter algum fundo de verdade, embora a Alumar, formada pelo con- s6rcio Billiton/Alcoa, sempre tenha pagado mais (US$ 20) sem deixar de ser viAvel e com- petitiva (e ainda antecipando a duplicagAo da linha de transmissAo de energia para um en- contro de contas future com a Eletronorte, o que a Albris nao fez). O subsidio as duas reduq6es multinacio- nais de aluminio nao teria sido necessArio se o orgamento de Tucurui nao tivesse explodi- do. Do parAmetro inicial, de US$ 2,1 bilh6es, ele foi parar em US$ 4,7 bilh6es nas contas lipoaspiradas da Eletronorte, em US$ 7,5 bi- lhoes no cilculo da Comissao Mundial de Bar- ragens e em mais de US$ 10 bilhOes nas estimativas de quem foi atris das pontas dos n6s financeiros, at6 hoje nao totalmente desatados. Por que esse estouro? Por cor- rupPo, disse certa vez o ex-pre- sidente da Companhia Vale do Rio Doce (uma das donas da Albras, juntamente com um cons6rcio ja- pones), Eliezer Batista. S6 este journal deu atenqAo a afirmagdo de Eliezer, feita no curso de uma en- trevista informal corn duas pes- quisadoras do Rio de Janeiro. Nem o atormentado "fator ama- z6nico" explica o crescimento ex- ponencial dos custos de Tucurui. S6 a sucessAo de polemicos e obs- curos acontecimentos, que se su- cederam ao long da obra, do acompanha- mento dos custos diretos aos contratos de financiamento. A questAo atual 6: o Brasil pode e deve - ser ressarcido pelo que gastou em Tucurui atrav6s da remuneraAgo do service de ener- gia ou deve praticar tarifas de mercado a partir de agora, jogando sobre os imensos costados da vidva mais essa conta sem fim, esquecen- do a amortizagao da "energia velha"? Como a resposta nao 6 considerada, ou, mesmo se levada em consideracgo, nao 6 tra- tada em piblico, fica esse chove-nAo-molha para ingles ver entire a Companhia Vale do Rio Doce e a Eletrobras, personagens princi- pais de um enredo que envolve muito mais gente mi6da (e gradda) e mais tramas do que pode imaginar o vio conhecimento do "seu" JoAo da Silva nas esquinas do pais. Espera-se que o espeticulo nao termine em pizza. Jornal Pessoal 1- QUINZENA ABRIL DE 2004 3 Justiga: um caso exemplar Em 2 de janeiro de 1991 o Banco do Es- tado de Sao Paulo props, no foro de Be- lem, uma acao executive contra Rosa Maria Portugal Gueiros, Paulo Gueiros e Tucanus Viagens e Turismo. Cobrava uma nota de cr6dito commercial (no valor de dois milh6es de cruzeiros, da 6poca), emitida em 29 de janeiro de 1998, vencida no mis seguinte e nao paga, apesar das tentativas amigiveis que a empresa fez nos dois anos seguintes para receber o dinheiro emprestado. A aago foi distribuida para a 5a vara ci- vel, mas nao foi recebida: o juiz titular se declarou impedido de processar o feito por motive de foro intimo. Outros quatro jui- zes o imitaram, alegando relacio de amiza- de com dois dos executados: a juiza Rosa Gueiros e seu marido, funcionArio de um cart6rio judicial. Na sexta distribuicAo, o juiz Werther Be- nedito Coelho recebeu a agao e a julgou, em 1 de abril de 1991. Declarou que o di- reito de agir estava prescrito por haver de- corrido o prazo de tres anos entire o venci- mento da divida e sua cobranca pela via executive, conforme estabelecido no C6di- go Civil. Por isso, extinguiu o process sem apreciar o m6rito do pedido. O banco contestou a decisao. Alegou que nao houve a prescriqao.Ao perceber os sucessivos impedimentos de juizes, que pro- telavam o recebimento da execugao, pediu, em 6 de fevereiro, que o prazo para a cita- qao dos r6us fosse dilatado. Assim, fez a sua parte. Cabia ao judiciario a execucao do pedido, que interrompia a prescricao simplesmente por ter sido formulado. Re- jeitou o argument do juiz de que teria permanecido inerte enquanto transcorria o prazo prescricional. Mostrou que esgotara "todas as medidas ao seu alcance, tenden- tes a evitar o perecimento de seu direito". Enquanto isso, o banco constatava "a indrcia com que se houve o 6rgAo jurisdici- onal de primeira instAncia, que, atrav6s de sucessivas attitudes omissivas de seus magis- trados que culminaram cor a malfadada sentenCa atacada [de Werther Coelho], negou a devida prestagio jurisdicional, direito sub- jetivo piblico do apelante [o banco], agasa- lhando particulares interesses de devedores inadimplentes, entire eles, a Dra. Rosa Maria Portugal Gueiros, que 6 juiza de direito des- sa comarca, e seu marido Paulo Elmer Motta Gueiros, que segundo informagqes por ele prestadas, 6 funcionario do 9 Oficio do Tri- bunal de Justiqa do Pard". Ressaltou o ban- co que os juizes, ao se declararem suspeitos para atuar no process, "deixaram de prati- car atos que de oficio lhes cabia, assim fa- vorecendo, intencionalmente ou nao, inte- resses particulares de colegas de trabalho". Sustentou ainda o Banespa que, ao de- clarar a prescricao patrimonial, o juiz Wer- ther Coelho apreciou o que nao Ihe cabia fa- zer por iniciativa pr6pria, ja que a materia nao havia sido suscitada pelas parties e, por isso mesmo, nao constava dos autos. Um bro- cado juridico sempre muito citado proclama: o que nao estA nos autos nao estA no mundo. Logo, nao pode ser apreciado pelo julgador. Na replica, os executados sustentaram que o banco simplesmente havia pedido a prorrogacgo do prazo para a citaqSo e nao, explicitamente, como eram obrigados a fa- zer, a interrupAo da prescrigAo. Apreciando a apelacgo do banco, a 32 Camara Civel do Tribunal de Justiga do Es- tado, por unanimidade, considerou indevi- do o reconhecimento da decisao, revogan- do a sentenca de Werther Coelho. No dia 1 de setembro de 1991 o banco pediu que o process continuasse normalmente sua tra- mitacgo, com a citacgo dos r6us. Em 1 de dezembro de 1994, Paulo e Rosa Gueiros requereram a republicacgo do ac6rdAo, con- tendo a decisao da camara, porque seus nomes nao haviam sido citados. Uma sema- na depois o desembargador Wilson Marques da Silva, entdo na vice-presidencia do TJE, determinou a adocAo da providencia ao es- crivAo do cart6rio do 1 oficio do tribunal. A providencia foi cumprida. S6 que oito anos depois, em 6 de setembro de 2002. A secretaria da 3a camara civel isolada do tribu- nal (na nova organizaqao, que substituiu os antigos cart6rios) prestou as informaq6es so- licitadas, desculpando-se: "face a carencia de funcionarios nesta Secretaria, principalmente da area de Direito, nao foi possivel cumprir o despacho" do desembargador. Wilson Mar- ques nao teve a oportunidade de ler a res- posta ao seu oficio: no period entire sua determinacAo e o atendimento, se aposentou. Finalmente, em marqo do ano passado, a instrugo processual foi retomada. A juiza (ja agora desembargadora, promovida por me- recimento) e seu marido embargaram a deci- sao da camara. Observaram que o Banespa "nIo existe mais com independencia, sendo controlado pelo grupo Santander Banespa". Mudando o control acionirio, passaria a fal- tar-lhe legitimidade para agir. A ago nao devia ser conhecida. Alem disso, como a apelagAo do banco foi julgada em setembro de 1992, CIVILIDADE Corn acerto, o juiz federal Rubens Rollo d'Oliveira mandou a Policia Federal abrir inqudrito para apurar a agressAo sofrida por uma oficiala de justiqa. Ela tomou um ba- nho de lama quando tentava pegar 6nibus numa parada. O motorist pode ter agido com a intencAo de molhi-la. A servidora teve a felicidade de contar cor o apoio do director do f6rum. A agressao, s6 por isso, pode ter conseqtiincias. Mas a esmagadora maioria dos cidadaos fica indefesa diante de atos de incivilidade e desrespeito como esses, ou muito piores. Eles sAo comuns no dia-a-dia do trans- porte coletivo. Os prejudicados, c6ticos quan- to a alguma providencia corretiva, ja nem ligam. Embalados pela impunidade, os mo- toristas barbarizam. As pessoas deixaram de se dar conta dos seus direitos, por isso nao mais os cobram. A Ctbel devia fazer uma campanha para mostrar as empresas de 6ni- bus e seus funcionarios o que 6 a prestagAo de service p6blico em lugares civilizados. Passei quase duas semanas em Bruxelas, na capital da B61gica, vivendo como um ci- dadao comum. Todos os dias pegava meu 6nibus. Nas paradas estavam afixados os ho- rArios dos que por ali passavam. Numa ma- nha fria, uma senhora entrou no veiculo di- estaria caracterizado outro tipo de prescrigao, a intercorrente, ja que nesse period sua in- terrup~po nao foi suscitada. A iltima movi- mentagAo do process 6 um despacho da re- latora, desembargadora Marta Ines Antunes, mandando ouvir o banco. Independentemente do desfecho da a~go, ela tern um alto poder demonstrative sobre a necessidade do con- trole extemo do judiciario. Evidencia-se: 1 Uma especie de ind6stria do pedido de suspeiqao. A alegaqCo de motives de foro intimo ter sido um recurso exageradamente utilizado por magistrados que nao querem enfrentar quest6es polemicas, que envol- vem parties poderosas, ou porque sao mo- vidos por corporativismo. O caso da ago do Banespa provocou a interpretag~o de um comply para criar a prescricgo. 2 A conivencia do aparato administra- tivo e da estrutura judiciaria com os inte- resses de servidores do poder. 3 A carencia de pessoal no judiciario, agravada pelo fato de que pessoas sao con- tratadas para func6es de assessoramento superior simplesmente por serem parents de juizes e desembargadores. Alids, na ses- sAo da 3a camara civel isolada do TJE do dia 25 de margo foi o que disse, com todas as letras, a desembargadora Marta In&s: "Ha pessoas concursadas que ganham menos que funcionirios que chegam [ao 7JE] apa- drinhados e trabalhando na mesma sessAo (...) imagine umr funcionArio cor vinte anos de Casa, concursado, ver chegar o pa- rente de um Desembargador, de um Juiz pela janela para ganhar o triple do que ele ganha e para prestar o mesmo service". 4 O descompromisso de parte do cor- po da magistratura corn um padrAo de con- duta compativel corn a relevAncia da fun- cao p6blica que desempenham. zendo desaforos para o motorist, que se atra- sara alguns segundos. Ele pedia desculpavas e explicava que havia feito uma manobra extra para contomar determinado problema na rua. A senhora nao se convencia. Foi resmungan- do at6 o fim. Quando desceu, o motorist novamente se desculpou. Devia estar baten- do em seu inconsciente a maxima que todos repetem e poucos levam a sdrio entire n6s: o client sempre tem razAo. Por aqui, os motorists sao useiros e ve- zeiros em "queimar" paradas. A Ctbel devia aplicar multa em dinheiro e suspensAo auto- mitica (dois dias na primeira vez, o dobro em cada reincidencia) a quem fosse flagrado nessa falta. Cabia recuperar as paradas e afi- xar os horarios de circulagAo dos 6nibus. A fiscalizacAo devia ser permanent para evitar que motors descalibrados poluam a cidade e o interior dos 6nibus fique em desleixo. Desde ji, por6m, deve-se por fim a esse lenga-lenga onerosa sobre a bilhetagem ele- tr6nica, um escandalo que ter consumido milhOes de reais de dinheiro pdblico e a paciencia dos cidadAos. Esse 6 o lado nao diretamente monetirio e nao tao visivel do transport coletivo que a Ctbel deve tratar com urgencia e mais eficiencia do que o padrAo atual. ABRIL DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal BASTA 0 general-presidente Costa e Silva foi visitar Florian6polis. Seu carro, blindado, acompanhou-o num C-130 a parte. Um jornalista que tentava um fngulo mais sugestivo no alto de uma escadaria de ago na usina da Cosipa, em SAo Paulo, foi empurrado por um seguranga do president e rolou pelos degraus. Ningu6m p6de fazer nada. Os jornalistas eram confinados num cubiculo. Estavam numa dessas quadraturas quando o outro general-presidente, Garrastazu M6dici, tentava prestar atengAo A palestra do ministry dos Transportes, o tambem general Dyrceu Nogueira, sobre a estrada Santardm- CuiabA, na sede do 8s BEC. M6dici pegou no sono corn o cigarro entire os dedos. Os soldados fecharam uma parede diante dos jornalistas. Um coronel, depois de tirar o cigarro, sob os cuidados de todos, paralisados pela contemplagAo da cena (e indiferentes a palestra), ainda foi ao curral da imprensa conferir: "Voc&s nao viram nada, nao 0?". Um carro que passa pela avenida Consolacgo, logo depois da igreja, na praga Roosevelt, e explode cor um professor do cursinho de vestibular Equipe dentro. Um estudante se joga do seu apartamento-aparelho estourado pela policia, que evacua .todo predio, alta madrugada, tirando os moradores na base de coronhadas de suas armas nas portas. O delegado Sergio Paranhos Fleury chegando cor sua arrogancia e boqalidade, indiferente aos jornalistas que tentam checar se o home estendido dentro do fusca era mesmo Carlos Marighella, morto. Frei Tito se enforcando num seminario frances para fugir dos pesadelos protagonizados pelo mesmo Fleury. Ler livro subversiveo" de madrugada, encapado corn Amacol hist6ria muito confusa Em outubro de 1990 a empresa Amaz6- nia Compensados e Laminados, entao con- trolada pela americana Georgia Pacific, uma das maiores madeireiras do mundo, renun- ciou ao dominio que vinha exercendo sobre 113 glebas de terras em cinco municipios da foz do Amazonas (Anajis, Curralinho, Bre- ves, Portel e Bagre), transferindo essas are- as para o nome do Iterpa (Instituto de Ter- ras do Para), atrav6s de escritura lavrada no cart6rio K6s Miranda, em Belem. Essas glebas nunca foram medidas e de- marcadas, por isso seria impossivel dizer qual a sua extensAo. A presungao at6 entao era de que poderiam abranger dezenas de milhares de hectares. A ocupagAo das areas foi autorizada pelo governor estadual no fi- nal do s6culo XIX, quando as terras retor- naram a jurisdicgo dos Estados cor a pro- clamagao da repiblica. O governor resguar- dou os direitos dos ocupantes, fornecen- do-lhes titulos de posse, que seriam trans- formados em documents de propriedade se ocupassem as terras, beneficiando-as, para requerer o reconhecimento legal de seu dominio. Poucos cumpriram as exigencias, mas os pap6is passaram a ser registrados nos cart6rios como se atestassem proprie- dade privada regular. Em 1990, inovando em relagco ao com- portamento comum entire os detentores des- ses papeis, a Amacol se disp6s a renunciar a todos os direitos que eles Ihe pudessem con- ferir, "de forma irretratavel e irrevogdvel". Para todos os efeitos, as terras voltavam a ser piblicas. Tres anos depois, antes que o Iterpa tivesse mandado cancelar todos os registros e matriculas dessas glebas ou os transferido para o dominio do Estado, a Amacol requereu a exclusAo de 21 das 113 posses, que por "lapso" haviam sido arrola- das. Alegou que se a ren6ncia abrangesse essas terras, as atividades da empresa seri- am inviabilizadas em cinco anos, afetando a vida de 700 pessoas que dela dependem para trabalhar. O Iterpa nAo efetuou a retificaqAo da escritura de rendncia. Quase 10 anos depois a Amacol ajuizou uma agao ' no f6rum de Belem para / impedir que o Iterpa in- ) terferisse de alguma maneira sobre a area que diz ocupar, corn 248 mil hectares, como se ja nao tivesse re- nunciado a to- . dos os direitos , sobre ela. O Iterpa reagiu pedindo a corregedoria de jus- tica do interior o can- celamento de todos os registros e matriculas que tomaram por base os titulos de posse da em- presa, indevidamente considerados como pro- priedade, nao s6 em fungAo da renincia de 1990, mas tamb6m porque os pap6is nao con- ferem qualquer forma de dominio. Foram le- vados ao assento no cart6rio indevidamente. A batalha judicial estd em andamento, mas essa 6 uma hist6ria suficientemente surrealis- ta para chamar a atengAo. O que teria ocorri- do em 1990: a Amacol teve um acesso de sin- ceridade, admitindo que os titulos de posse nao Ihe conferiam dominio? Avaliou mal sua iniciativa (como 6 indicador o pedido de re- tificagAo de 1993)? Ou visou algum objetivo que ainda nao foi possivel perceber? Ja ao proper a agao judicial para imobili- zar o Iterpa, teria a empresa esquecido sua iniciativa anterior, de transferir seus direitos para o Instituto de Terras do Para? A Amacol esta ha quase meio seculo no Pari, extraindo madeira da regiAo das ilhas e exportando-a em seu pr6prio porto, usando navios pr6prios. Sua hist6ria 6 tao pouco co- nhecida que ninguem noticiou quando a Ge- orgia Pacific transferiu o control de sua in- d6stria para outra empresa americana. A his- t6ria da ren6ncia, do pedido de retificagAo e da agao do ano passado ajuda pouco a escla- recer essa hist6ria. Muito pelo contrario. OOO*******OO**OO**OO 06006000 a00a0 0 000a00a00a000 papel inocente. Cruzar o enorme saguAo na entrada dos Diarios Associados, na rua 7 de Abril, sem se deixar impressionar pela exposigio antiterror, protegida por olhos armados. Materias longas para registrar meras trocas de commando nos quart6is. Reproduzir as mensagens lidas pelos comandantes como sendo a quintessencia doutrinAria. Ter que atravessar fileiras de soldados e de cAes agressivos para ir a missa de dom Evaristo Arns na igreja da Se pela mem6ria do doce Wladimir Herzog, "suicidado" numa cela do II Exercito. Muito do que se podia dizer sobre o regime iniciado em 31 de marco de 1964 ja foi dito, certo ou errado. Ficam-me na mem6ria cenas, frases, olhares, sentiments e outros registros reforqando uma conviccio profunda: definitivamente infelizes serAo as gerag6es se obrigadas a viver duas vezes sob ditaduras, sejas quais forem suas origens e prop6sitos. JA passei por uma. E basta. Que meus dias se encerrem sem o dissabor insuportAvel de outra. Jornal Pessoal I- QUINZENA ABRIL DE 2004 5 Mario Faustino redivivo Mario Faustino dos Santos e Silva tinha 32 anos, completados no mes anterior, quando embarcou no Boeing 707 prefixo PP-VJB da Varig, que decolou do aeropor- to international do Galeao, no Rio de Ja- neiro, aos 53 minutes de 27 de novembro de 1962. O aviao levava 17 tripulantes e 80 passageiros para Los Angeles, nos Estados Unidos. Nenhum deles chegou ao destino. Nem a primeira das quatro escalas da rota do Pacifico. Quando faltavam 17 minutes para aterrissar em Lima, a capital do Peru, quase cinco horas depois de ter iniciado a viagem, o aviao se chocou com Cerro de Las Cruces e explodiu. Chovia muito, difi- cultando o trabalho de resgate. O reconhe- cimento dos corpos foi impossivel. Cinco anos antes Mario Faustino ha- via tido seu primeiro contato cor a Cor- dilheira dos Andes, numa viagem ao Chi- le, e se encantara: "NAo ha nada no mun- do mais lindo que os Andes", declarou em carta a um amigo. O acaso fez dessa cadeia de montanhas o seu timulo. Foi li que seus ossos se desfizeram e dele nada restou para preencher a urna mor- tuaria levada a um mausol6u em Lima, construido para registrar o maior aciden- te aereo ocorrido no Peru. Se bem sucedida, aquela viagem con- duziria Mario Faustino a um novo divisor de Aguas na sua vida. Os meses anteriores haviam sido de "revezes profissionais, sen- timentais e familiais de toda sorte", confor- me ele confessava em outra carta. No en- tanto, estava se libertando de "minhas im- perfeioqes, de minhas mentiras, de meus complexes de inferioridade, de meus desa- fios initeis, de minhas provocac6es...". Ja nao queria mais agredir, ironizar, in- fernizar: buscava a paz. Aqueles dias de loucura chilena ("Dormi cor umas vinte pessoas diferentes em dez dias. Fora os affaires das ruas") e de outras loucuras eram Aguas passadas. "Cada vez mais poeta e me- nos critico, ele decidira aceitar o convite do Journal do Brasil para ser corresponden- te international em Nova York cor dois objetivos: desfrutar de mais um period de vida em NY, onde passara um ano entire 1959/60, e juntar dinheiro para a partir dai se dedicar a fazer a coisa de que mais gos- tava na poesia: poesia. O que teria conseguido realizar Mirio Faustino se o Boeing da Varig tivesse esca- pado ao estranho acidente e pousado em Los Angeles? Certamente de li o jornalista teria ido a Havana entrevistar Fidel Castro sobre a recent crise dos misseis, que qua- se levara as duas superpotencias (Estados Unidos e UniAo Sovi6tica) a guerra. Mario passara a admirar Fidel porque no interva- lo de nove anos entire sua primeira perma- nencia nos EUA (para uma bolsa de estu- dos na Calif6rnia) e a volta, para trabalhar na sede novaiorquina da ONU, a quase ido- latria pela cultural americana se transformou numa aversdo ao sistema politico do pais. Esse era o objetivo do jornalista. Mas Mario nAo queria continuar a ser jornalista por muito tempo mais. Logo toda sua ener- gia estaria concentrada no fazer po6tico, ele que viria a ser considered verse maker de sua gera- gFo". NAo exatamente gera~go, alias, porque seu caso 6 quase isola- do. Ele estaria no meio de um "grupo" que fez versos depois da gera- cao de 1945 (a do bar- do pernambucano Joao Cabral de Melo Neto), como Mario Chamie, Au- gusto e Haroldo de Cam- pos, D6cio Pignatari e Ferreira Gullar. Algum deles foi me- Ihor ou mais important do que Mario? Na prova dos nove do verso, tal- vez s6 o maranhense Ferreira Gullar o om- breie, embora dele se distinga do que a Agua do vinho. Por Mario Faustino 6 tAo pouco apesar de alguns generosos divulgagAo, como a publicaiW obras completes, que a Compa tras iniciou em 2002, organize fessora Maria Eugenia Boave cinco volumes programados, nas dois sairam ate agora. Uma tese academica rec6 deveri reforgar essa sensaAo mento que persiste como uma tumular sobre a mem6ria de M no, quatro d6cadas depois de Com Mdrio Faustino Uma bi rdria, Lilia Silvestre Chaves con louvor da banca que a examir versidade Federal de Minas Ge rindo-lhe o titulo de doutora Quando o trabalho estiver aces; ma de livro (prometido para Institute de Artes do Para), o diante de si uma biografia rea vadora. Mais do que uma fonte sobre a vida e a obra de Mario tese de Lilia 6 uma aproximaaoc poeta, um guia entire sombras tre a sedugfo da palavra cor sa tico e os seus significados cogn verdadeira obra de arte, enfim. Lilia diz que explorou "a pc ensaistica de criar uma narrative; cultural, unindo a critical e a bio essa combinagao com maestria, as cartas, os livros, as fotografias tos de Mario Faustino, deposit blioteca e no arquivo de Bened o melhor amigo do poeta (nun que guardaria alguma semelhanga com a que houve entire Ezra Pound e T. S. Elliot se o sAbio da rua da Estrela tivesse acredi- tado no aprimoramento de seus ensaios ju- venis em versos, em boa hora 6 ineviti- vel admiti-lo interrompidos). lo o "iltimo "Veio-me a idWia de reconstruir esse home de papel e de pa- lavra no qual Mario Faus- tino se tornou, superpon- do texto e image. Sele- cionando, recortando e in- terpretando os aconteci- M riO mentos que as fotos ofe- Fa.1Stino reciam, descobri o fasci- Snio da invenqAo e da and- lise criativa que a biogra- fia literaria possibility ao articular obra e vida", ex- plica Lilia na tese. Ela pode ser lida como uma hagiografia po6tica, mas que em nenhum momen- ._., to deixa de registrar todos os fatos e de enfrentar to- dos os desafios (inclusive um tabu at6 entao: a ho- nao menos mossexualidade do poeta). t amorosa sem que, entao, deixar de ser just e corajosa. conhecido, Por isso, farA bem aos sentidos e humo- esforgos de res dos seus futures leitores e ao mesmo io das suas tempo os instruirA sobre o poeta e sua po- nhia das Le- esia sobre toda e qualquer poesia, como da pela pro- seria de se esperar de um trabalho de criti- entura? Dos ca literiria que, indo ao imago do proces- por6m, ape- so de criaAgo de um individuo, o transfor- ma em tipo ideal, modelo, pedra de toque n-concluida para a percepcAo de toda invenqAo literg- de injustica- ria. A biografia literAria de Lilia 6 coerente nova pedra cor seu livro anterior, o primeiro, cor sua Alrio Fausti- produg~o po6tica, e a revela como uma in- sua morte. telectual madura, de dimensao national. ografia lite- Ela tornou o tema ainda mais fascinan- seguiu todo te do que ji era (e continue a ser). Mirio iou na Uni- Faustino foi m6ltiplo e foi competent em erais, confe- cada uma de suas faces. Jornalista desde os em letras. 17 anos, antes mesmo de criar os pr6prios sivel na for- versos (cuja descoberta foi simultAnea com breve pelo a tradugAo de versos alheios, em vArias lin- piblico tera guas), "fez o mais igil e inteligente jorna- Imente ino- lismo literirio do Brasil", nas pAginas do de consult Suplemento Dominical do Jornal do Brasil Faustino, a entiree setembro de 1956 e dezembro de po6tica ao 1958, quando, por discordar da nova ori- e luzes, en- entagio editorial e sem Animo para enfren- bor imagis- ta-la, decidiu sair). itivos. Uma Mario, porem, nao se emparedou entire livros ou ficou restrito ao circuit cultural )ssibilidade desse tipo de jornalismo. Durante sete anos a literiria e foi secretArio da Folha do Norte, cargo que grafia". Fez equivale ao de maestro e carpinteiro da rastreando redagio. A vida toda o interessava, nao s6 s e os obje- o que os beletristas costumam chamar de dos na bi- "manifestacOes do espirito". Quando retor- lito Nunes, nou ao JB, em 1962, foi ser seu principal na relag o editorialista, numa 6poca em que a folha 6 ABRIL DE 2004 I- QUINZENA Jornal Pessoal em biografia literaria da Condessa Pereira Carneiro era quase uma biblia (e um serpentario) do jornalis- mo brasileiro. A multiplicidade de experiencias pro- fissionais e pessoais, e o cosmopolitismo, distinguiram Mario dos demais integran- tes da geracAo belenense do Cafe Cen- tral, que surgiu no p6s-guerra de 1946 (quando Haroldo MaranhAo funda o Su- plemento Literirio da Folba do Norte) e se mant6m em plena atividade at6 o gol- pe military de 1964 (embora se deva admi- tir que alguma coisa de empobrecedor ocorreu quando Mario se foi de vez de Belem, em 1957, e a Universidade Fede- ral do Para surgiu, no ano seguinte). Como Rimbaud ou Btichner, Mario pa- rece ter sido daquelas pessoas que tnm consciencia de sua preocidade tAo profun- damente quanto da sua brevidade. Por isso foi intense, apaixonado, desbragado. "Os poemas de Mario Faustino delimitam esse espaqo de pr6-visao e ligam o olhar do poeta ao de um adivinho o home divi- no, que ter o dom de adivinhar -, na acep- cAo 6rfica do vate antigo ou do profeta romAntico", observa a critical. Uma das fotos que serve de baliza para o rastreamento biogrifico registra sua lei- tura entiree o natural e o posado) de "O poqo do Visconde", de Monteiro Lobato, aos 7 anos. Aos 9, jA aprendia ingles (lin- gua que se orgulhava de manejar como a sua lingua de nascimento). Aos 10, trocou Teresinha, capital do Piaui, onde nasceu, por Bel6m, a cidade na qual amadureceu e que o marcarA para sempre, ao long de 16 anos. Aos 19 anos, as cr6nicas que es- creve para uma coluna, "Vida Social", em A Pro- vincia do Pard, entire 1947 e 1948, revelam "um vo- cabulario modern e be- lissimo", atesta Lilia. Foi um pouco antes que seus primeiros poe- mas receberam a primei- ra e consagradora cri- tica de Francisco Paulo Mendes. Vinte anos mais velho, o professor Men- des, um apaixonado por poesia (e por Arthur Rim- baud), se realize no jo- vem poeta, no qual pro- jeta todos os sentiments e expectativas, numa "amizade diferenciada", como Lilia a define, que se aprofunda e se rompe , quando Mario decide ir para os EUA, contra a po- siqAo do mestre. A recon- ciliagAo, em outro piano, s6 acontecera em 1961. JA sem diferen- ciamento afetivo. Nesse moment Mario 6 o autor de um livro inico, O Homem e sua bora. Onico que langou em vida. Unico por ser a singe- la vertente brasileira do modo poundiano de fazer poesia, inovador na forma de trans- mitir, em linguagem vanguardista, mitos se- culares, tomando as matrizes gregas para assinalar o modo de ser contemporAneo, tudo dito com erudigAo e profundidade por um poeta (ainda) de provincia de 26 anos. 0 Homem e sua bora aguardaria 10 anos por uma segunda edig~o, enriquecida por Benedito Nunes com poemas in6ditos e uma criteriosa introdugCo (quatro anos depois da morte do autor). Em meio s6culo, ape- nas tres livros de poesia de Mario. Enquan- to pululam e se multiplicam edic6es e ree- dioges de poetas menores. Parece haver receio em confrontar a obra (que se pulverizou nos iltimos seis anos, entire versos inacabados e um grande pro- jeto que nAo se realizou, o livro A Recons- truado), entrelacada A vida de Mario Faus- tino. Talvez pelos temas dominantes na sua poesia: amor e morte. Temas que se fun- dem no amor homosexual, que equivale a morte social. E ter condenado um poeta tao singular a quase clandestinidade, da qual essa bela biografia literaria produzida por Lilia Chaves pode ajudar a liberti-lo, tirando sua alma da involuntAria prisao na qual simbolicamente ela foi confinada, em Cerro de Las Cruces. EIKE PERDE E GANHA O empresario Eike Batista perdeu sua Luma e parte do seu patrim6nio, cedido a ex-esposa. Mas nem por isso deixou de fazer bons neg6cios. Por 105 milh6es de d6lares ele vendeu sua mina de ouro no AmapA para a canadense Wheaton River, recebendo US$ 25 milh6es em dinheiro vivo e o restante em ac6es da empresa. Imediatamente se tornou s6cio de uma outra mineradora canadense, a Canico, comprando 10,3% de participacgo na mina do Puma- Onga, em Carajis, o maior dep6sito de niquel do pais, de expressAo mundial. A pr6pria Canico possui 76% e a Inco os restantes 13,7%. Cor investimento de US$ 600 milh6es (1,7 bilhao de reais), o projeto deverA entrar em operacao no final de 2006, produzindo, na etapa final, 2,5 milh6es de toneladas anuais de niquel. A jazida e de 50 milhOes de toneladas, cor 2,3% de niquel e 0,11% de cobalto. Consolo 6 o que nao faltarA ao novo solteiro. IMMORTAL Se algu6m mereceu entrar para a Academia Paraense de Letras (seja la o que isso signifique) foi o livreiro e cronista Denis Cavalcante. Todos, dos amigos aos desconhecidos, se surpreenderam com o empenho dele para se tornar imortal, manifestado tanto nas sessoes de aut6grafos quanto at6 mesmo na cozinha, onde ele se sai bem, entire talheres e tempers. O resultado 6 que nunca a dispute por uma vaga foi tao noticiada, acompanhada e propagada. Se Denis fizer dentro da APL o que fez fora dela, nao vai haver cadeira para tanto pretendente nas pr6ximas eleigOes. Journal Pessoal i- QUINZENA ABRIL DE 2004 7 CARTA e estranho o comportamento da socie- dade paraense. Nao repercutiu neste rin- cao do Norte, como seria correto, a noticia do indecoroso projeto do Sena- dor Jose Sarney, estendendo os favors da Zona Franca de Manaus ao Estado do Amapa e a todos os municipios da Amaz6nia Ocidental. Afora a proficua e responsavel abordagem desse Jornal Pessoal (n 316), tivemos algumas ma- terias pontuais na imprensa escrita, fa- lada e televisiva deste imenso Estado Amaz6nida e que, de certa forma, de- nunciam a nossa apatia e descaso dian- te da enormidade do monstro gestado nos bastidores do Congresso Nacional. O estado e a sociedade, de um modo geral, precisam despertar para o future crescimento e desenvolvimento; enfim, trabalhar e agir de forma ordenada, de modo a atingir o estigio que certo pen- sador chamou de "o mAximo de vida", isto 6, a realizaqlo pr6pria. O Ceard e o MaranhAo estAo chegando li, mesmo n~o possuindo o potential de riqueza do nosso subsolo. Um outro assunto a comentar, mui- to oportuno no meu entendimento, seriam as seqiientes alfinetadas corn preconceito aberto que esse redator vem disparando, nao s6, e especifica- mente, no metalirgico eleito president pelo principio democrAtico do voto universal tambem no partido dele e naqueles que o ap6iam. O que, aliis, nao 6 prerrogativa exclusive desse jor- nalista. A imprensa, de forma generali- zada, esti ajudando a sociedade brasi- leira a provar o que muitos negam, mas 6 uma verdade insofismavel a sua intolerancia e aversAo irracional a determinadas ragas, credos, religioes e, principalmente, a pobreza. O Oltimo petardo veio sob o titulo "Lingua presidential", JP citado, pAgi- na final. As critics as viagens e a aqui- sigAo do Airbus presidential, e ate mesmo aos programs socials sao pro- cedentes, contudo sao facilmente con- testAveis. Como o espago nao 6 pr6- prio, nao you ampliar a temrtica, fica apenas a posigo deste incorrigivel lei- tor. Quanto as trocas acres em cima do monoglotismo do president tornei- ro-mecanico, deixo-as sem as explica- qOes 6bvias, mesmo porque conside- ro-as como parte, meio e fim dos con- flitos e diferencas sociais, que fiz alu- sao no parAgrafo anterior. Para terminar, nao acho que o co- nhecimento seja "algo simb6lico", ele represent a vit6ria do individuo so- bre si mesmo. O verdadeiro saber ter de ser autentico e despido de senti- mento de culpa, s6 assim conseguimos afastar as mesquinharias passageiras. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA * A segregacdo social semprefoi, no Bra- sil, maior do que a discriminaVdo racial. A tardia libertaago dos escravos, no rei- nado de um imperador, que, em outras circunstancias, seria um dirigente escla- recido e hlcido, foi sucedida pelo apar- theid social. 0 escravo africano humilha- do e ofendido encontrou nosEstados Uni- Responsabilidade social: para consume externo A Delta Publicidade 6 uma das empresas mais poderosas do Para. Isso, pelo simples fato de editar o journal 0 Liberal e integrar as Orga- niza oes Romulo Maiorana, que lideram as co- municaq6es no Para. O poder da Delta Publi- cidade e das ORM e sua significacgo empresa- rial sao conhecidas de qualquer um. Mas nin- guem haverA de ter uma avaliacAo correta dessa dimensdo atrav6s da leitura do seu balan.o. Numa 6poca em que as empresas se preo- cupam cor sua responsabilidade social, aten- tas as suas relac6es corn a comunidade, a lei- tura do balanco da Delta Publicidade confir- ma a presuncgo de que os compromissos eti- cos, morais, mercadol6gicos, econ6micos e ne- gociais da empresa nao passam de jogo de relac6es p6blicas. A responsabilidade social e, para ela, matdria a tratar da porta para fora. Nunca para dentro. O Didrio Oficial do dia 30 trouxe as 6lti- mas demonstrates financeiras da Delta Pu- blicidade. Mas elas se referem apenas ao peri- odo 2001/2002. Nao alcanaam o exercicio do ano passado. Legalmente, a lacuna nao acar- reta nenhum 6nus. Mas revela desatenqgo, des- leixo, desapreqo A opiniAo pdblica, pecado mortal para quem 6 um formador de opinion. Alem de atrasadas, as demonstrates finan- ceiras apresentadas pela Delta Publicidade no seu balanco sao tAo magras, tao restritas ao elementary, que impossibilitam qualquer andli- se mais aprofundada dos niimeros ou tirar, a partir deles, um quadro exato da atuagao da empresa e do seu equilibrio econ6mico-finan- ceiro. No mesmo caderno do DO no qual as contas de 0 Liberal ocupam dois tercos de uma unica pigina, o balanco da Rede/Celpa se es- tende por 15 paginas. A abundancia demonstrative das contas da empresa de energia, que 6 uma sociedade an6- nima como a empresa da familiar Maiorana, per- mite ao cidadao, que 6 ao mesmo tempo con- sumidor, client, leitor e eleitor, tomar a insti- tuicgo privada em si, como uma entidade com- plexa, e no seu context operacional, al6m de usa-la como referencia para pelo menos uma parte da atividade econ6mica no pais. Esse 6 o sentido contemporaneo dos ba- langos, que as demonstrates da Delta Pu- blicidade, empresa cujo produto 6 a infor- macAo e o destinatario 6 a sociedade como um todo, amesquinham. Embora o mercado seja uma via de mao inica para os Maiora- na, 6 lamentAvel que se tome conhecimento de uma pega contibil tao pobre como essa sem poder obrigar os que a produziram a levar mais a s6rio a prestacgo de contas ao pdblico. Certamente uma verdadeira socie- dade an6nima, corn alguma expressAo em bolsa e maior densidade social ou comuni- taria (nao apenas para faturar dinheiro e prestigio), haveria de se arrepender amar- gamente de entregar para publicacgo um document tao canhestro. Quem ler as demonstrates da Delta Pu- blicidade ser saber o que esta por trds de sua razAo social imaginary que se trata de uma empresa familiar muito amadora, corn dificuldades ou corn desinteresse pela lim- pidez das suas contas. O balango 2001/2002 revela, de qualquer modo, que o faturamen- to da controladora de O Liberal caiu, no period, de 28,7 milhoes para 25,6 milhoes de reais (mais de 10% de reducAo). Mas o prejuizo liquid foi drasticamente reduzido, de R$ 5 milh6es para R$ 130 mil. A melhoria do desempenho a despeito da queda de faturamento talvez se deva As reserves de reavaliacio do ativo (saldo de R$ 16 milhoes) e, sobretudo, ao parcela- mento de impostos federais, que foi de R$ 15 milh6es em 2001 e pulou para R$ 25 mi- lh6es em 2002. Ou seja: al6m de reduzir seus custos, a empresa enfrenta seus pro- blemas operacionais empurrando-os corn a barriga. Nao 6 uma t6cnica la muito saudi- vel ou confiAvel, mas o que se esperar de uma empresa que se apresenta com um balanco desse porte? Certamente se estivesse do outro lado do balcao, a Delta Publicidade teria recebido bola preta de O Liberal. Isto 6: se o journal ainda se preocupasse cor essas coisas de nimeros exa- tos e demonstrates convincentes. 0 a 0 0 aee .Oe OOeee Oe Oeeeegeeeea* e O a 60 0 0 0 dos um mercado mais receptive do que no Brasil. Por isso, essa political de cotas para o negro e uma resposta tosca aopro- blema principal, eco difuso da conscidn- cia culpada. Seria mais eficiente uma political de bolsas e saldrios, de credito e capital. Mas n6s, os brancos, e n6s, a eli- te, ndo largamos a rapadura. Aqui neste espago, contuido, se temfeito um razod- vel esforpo em defesa da divisdo da ra- paura, para usar uma metdfora de acor- do cor o cardapio do Planalto. Minhas critics ndo sdo ao torneiro- mecanico. Sdo ao president, ndo im- sobra nele o que tambbm excedia em seu antecessor: ret6rica. A de Fernando Hen- rique era poliglota. A de Lula, monoglo- ta. Ambos se tornaram merecedoras das critics que aqui lheforamfeitas. E das muitas que se multiplicam em outros siti- os, ndo tantos nem tdo 6bvios. A bom lem- brar que numa unica edicdo de 0 Globo (divida de 6 bilb6es de reais, metade da qual emprimicias definanciamentopelo BNDES) sairam oitofotos do president. Nem meu amigo Irawaldyr Rocha (que Deus o tenha) conseguiria tanto. 0 resto e apluralidade; que elapersista. ABRIL DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal porta a sua origem social. Lamento que Lula ndo tenha aproveitado 14 anos de continue campana eleitoral e dedica- ado integral a political para se enrique- cer, adensar, adestrar. Continuou esse formiddvel lider carismdtico, de instin- tos afiados, que nos impression. Mas ndo bastam esses dons para conduzir a esfarrapada nau brasileirapelasproce- las que a atormentam. Estamos vendo que bd um vazio por dentro de Lula, vazio que as companhi- as, assessorias e suplementap6es jd ndo conseguem esconder. De certa maneira, Jari: a hora da verdade A Jari Celulose requereu ao Conse- lho da Magistratura do Tribunal de Jus- tiga do Estado que "declare incabivel o pedido de cancelamento das matriculas de terras de suas propriedades e posses", determinado, atrav6s de provimento, pela Corregedora da Justiga das Comarcas do Interior, Carmencim Cavalcante (ver Jor- nal Pessoal 319 e 320). Alega a empresa que o ato foi baixa- do pela desembargadora sem estabele- cer o direito de defesa e o contradit6rio, como mero procedimento administrati- vo interno, quando seria necessario re- correr a via judicial para efetuar o can- celamento. A Jari pediu que o conselho conferisse efeito suspensivo ao seu re- curso, "dado a gravidade e a complexi- dade dos atos praticados". Mais grave foi o ato precedent: num cart6rio que nao 6 o da comarca de ju- risdigAo da area, a empresa conseguiu o registro de todas as suas terras nao le- galizadas ou legitimadas atrav6s de uma unificagAo (de 950 mil hectares), proce- dida sem mediqAo e demarcacAo e sem a instauragAo de um process judicial. De certa maneira, agindo como se fosse ente pdblico, a empresa cometeu o delito de que agora se diz vitima: de agir internal corporis, sem ouvir ningudm, para trans- formar 82 glebas em uma inica proprie- dade. Com a agravante de que a Jari 6 uma empresa privada e nao uma entidade piblica. Enquanto fazia esse re- membramento caricato, a empresa mantinha no Iterpa o process de legitimagAo de outras 32 glebas. A legitima- cao foi iniciada em 1976. Num long parecer dos advogados Carlos LamarAo Corria e Con- stantino Barahuna, o Iterpa firmou imediatamente a posigAo de que o maximo a que a empresa teria direito seria um total de 60 mil hectares. Toda aquela papelada era composta por titu- los de posse, que equivaliam a autoriza- g6es oficiais para a ocupagSo de terras devolutas por particulares. S6 depois de medidas e demarcadas, corn a confirma- Cgo dos atos pelo poder pdblico, 6 que as terras se tornariam de dominio priva- do. O que nao aconteceu cor essas gle- bas da Jari. Em seguida o process de legitimagio foi avocado pelo Gebam, 6rgAo criado na estrutura do Conselho de Seguranga Na- cional para examiner as questOes de ter- ra no Baixo-Amazonas. O process vol- tou a Bel6m sem qualquer mudanga. A Jari nao se interessou em reativA-lo por- que seu objetivo ja estava garantido: man- ter as terras sub-judice para que seu su- posto direito fosse preservado quando o prazo para a legitimaqao chegasse ao fim, como viria a ocorrer em 1995. Agora que a unificagao illegal foi des- feita, o Iterpa deu mais 30 dias para a Jari apresentar suas razoes finals e de- cidir sobre a media mais acertada para o caso. Que parece ser id&ntica a da corregedora do interior: determinar o cancelamento dos registros e matricu- las, indevidamente efetuados no livro de propriedade. Quanto a posse efetiva das terras, jA 6 hora de o poder pdblico fazer uma dis- criminat6ria no vale do Jari para reco- nhecer os direitos de quem os possui (in- clusive a empresa) e acabar com os ex- cessos de direitos que nao existem, mas sAo proclamados como existentes. Vai-se o mestre Na segunda metade da d6cada de 50 um grupo de intelectuais paulistas deci- diu enfrentar um desafio: ler todo DasKa- pital, a 6pera maxima de Karl Marx, mui- to citada e pouco lida. Nao havia no Bra- sil naquela 6poca uma traducAo comple- ta do livro, Os argonautas tive- ram que enfrentar textos em in- gles e frances. Mas deram conta do recado em semindrios sema- nais, que se sucederam ao Ion- go de dois ou tres anos. Transpostos os limits desse inferno dantesco, formaram o "grupo da USP" e, depois, do Cebrap. A partir daf houve a di- aspora, que comecou no mun- do academico e se estendeu pela rinha political. No v6rtice dos confrontos e dissens6es estava o mais bem-sucedido deles, com um sucesso que ningu6m (nem o pr6prio) poderia ter previsto naquela 6poca: Fernando Hen- rique Cardoso. Mesmo quando ja comerava a se desviar de varios dos seus companheiros de viagem, FHC ainda aparecia ao lado deles Jornal Pessoal I- QUINZENA ABRIL DE 2004 simbolicamente, como na dedicat6ria que Florestan Fernandes, mestre de todos, fez para um dos seus livros mais ousados, "A revolu go burguesa no Brasil", de 1974. Por coincidencia, o nome seguinte ao de Fernando Henrique na dedicat6ria 6 o de Octavio lanni. JA entAo havia p) meio mundo a separd-los. De- pois, mundo e meio. Mas houve um moment em que nenhuma de suas diver- gencias de id6ias seria capaz de impedir que usassem suas in- teligencias a service do enten- dimento deste pais pantagru6- lico. Tempo no qual nao esta- va ao alcance dos apetites dos intelectuais tomar o poder, S apenas estudi-lo (que isso sir- va de mote para as liOges eter- nas de Maquiavel). Agora a separagSo tornou- se definitive. Ianni morreu, na semana passada, aos 77 anos, Sde cancer. S6 quem alguma vez lidou cor ele pode avali- ar a extensao da perda. Os mais antigos devem-lhe mui- tos creditos, extensivos a FHC, pela coletanea "Homem e Sociedade", uma proveitosa iniciag~o a uma sociolo- gia critical. Para mim, a maior contribui- gAo intellectual de lanni foi "O Colapso do populismo no Brasil", de 1968, que nos serviu de guia para iluminar o pas- sado exatamente quando o future come- cava a ser engolido pela nevoa do que viria a ser conhecido como a era do chumbo, d'apres AI-5. Foi depois desse livro que lanni es- creveu uma trilogia sobre a ocupagAo da Amaz6nia. Ela reflete o trabalhador incan- sAvel que ele foi, leitor de bibliografias bem selecionadas. Os tres livros sAo bons roteiros de leitura e suscitadores de ques- toes. Mas lanni nunca chegou ao Amago da regiao, que, de qualquer maneira, abandonou depois. Mas as conversas que o foco sobre a Amaz6nia suscitaram nos contatos cor ele foram tremendamente proveitosas. Ianni sempre foi um grande professor e um animador admirivel, mes- mo quando esgrimindo iddias e teses equivocadas. Fez por merecer o titulo de mestre, cor o qual encerra sua participa- cAo ativa na hist6ria, mas nao a inspiragao com a qual sopra criatividade sobre os que continual deste lado do espago. k 0 0 K) 0 '0 Russos * Os cientistas russos que participavam de um cruzeiro de pesquisa nao puderam des- cer do navio Zarja, que atra- cou em Belem em janeiro de 1958. A policia civil os man- teve sob several vigilAncia dentro da embarcagAo, cum- prindo ordem do Ministerio das Relag6es Exteriores, em- bora os sovi6ticos tivessem seus passaportes carimbados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Nao pu- deram gastar um rublo sequer na cidade, que viram a partir de um inc6modo camarote. Nesse tempo a Rissia ainda era UniAo Sovietica. PROPAGANDA WAeT Bandeiras unida Uma (rara) campanha publicitAria realizada em 1972 procurou unir os torcedores dos tres gran- des clubes paraenses de futebol em torno de uma meta comum: "mostrarmos que a terra de Assis, Oliveira e Manoel Maria ter futebol e ter ren- das para participar dos grandes torneios deste Pais tri-campeao". A terra nao continuou tao f6r- Predio 0 primeiro edificio de Be- 16m cor garage subterrAnea foi o "Gilberto Mestrinho", com 21 andares (e 90 apartamentos, cada um corn sua vaga de ga- ragem), que o engenheiro Ocyr Proenga comerou a construir em Batista Campos, em 1967. Nessa 6poca, Ocyr (dono da Atinco, inddstria de tintas, e da Metaldrgica Riomar) ja havia le- vantado os edificios Lilian Li- cia e Katole, em Mosqueiro, e Uirapuru (tamb6m na Batista Campos), Santa Clara e Ism&- nia. Na mesma 6poca estava construindo o "Infante de Sa- gres", na rua Manoel Barata, para escrit6rios. 3u0 6 ohmboi p.mame -. VAMOS .0 ett Cunpwronto Nacionrl do ts ms. fI f^WO S ampk omnpeti#ao nure club1. C a aportunaade de a SrUN qc a trra de Asis, Oliveita e Maod Maria tam ftubol scr rendM prT pn pticipr'dos JU N IR : s Btxorntiioi deie PA tri-camptiao. Dnm pnstrtr isO 6 rlpoambilidlde SA ed9e tob -c trurcsdort pan Atic., .jam fel do Rmao, PainlmWi ou da Turi. Porlafmo Vn w r t Eida A S wpclotr o Evmtno Alnwih" w m tadot at jogw do Cmuponatoit Naional TORCIDAS* Vaa icnotvr vi6rima de unm E 0 PARA OUE ESr vA m case P ra -EM 1I1 tcontiriur t quwecdo na Ai puepb cofamppa V do im"b blaskrO. til em craques, mas as rendas continuaram a afluir, ou a serem desviadas, e nem por isso o Para dei- xou de "continuar esquecido nas principals com- peticOes do futebol brasileiro". Pelo menos na peca da BBA as bandeiras de Remo e Paissandu apareciam juntas na mesma arquibancada (e duas da gloriosa Tuna Luso Brasileira). Barata * O tema do Imperio de Samba Quem SAo Eles no carnaval de 1962, o 16i da sua hist6ria, foi "General Magalhaes Barata, sua vida e sua obra". Quatro carre- tas desenvolviam quadros sobre a vida do politico mais podero- so da repdblica no Para, que morrera tres anos antes: o tenen- te revoltoso; ascensAo ao poder; ultimo adeus ao povo paraense; minha obra sera continuada. O samba-tema, de Fagun- des de Abreu e Umbelino Mar- tins, terminava com a quinta estrofe assim: "O Imperio orgulhoso em sua homenagem Que esta obra ha de continuar E a este povo que hoje ainda chora A falta do grande chefe do Para". Bloco As irmAs Maria da Graga e Lena VAnia Dantas Ribeiro or- ganizaram o bloco carnavales- co "Banzo Aie", que fez suces- so em 1962. Na companhia de- las estavam Maria Alice Moura Carvalho, Maria Cristina Lobio e Silva (rainha dos brotinhos do Autom6vel Clube), Eliana Ser- ra, Telma Magalhaes, Ruth Si- queira, Ana Rosa LeAo, Helena Cordovil, Ruth Macedo e Ana Ldcia Costa. O bloco estreou no traditional Baile das Mascaras, da Assembl6ia Paraense. Mogno De volta de uma visit a re- giao de Marabi, em 1966, o en- tao deputado federal Gabriel Hermes Filho (que havia sido president do Banco da Ama- z6nia e seria president da Fe- deracAo das Indistrias do Es- tado do ParA durante 40 anos, desde a fundaqao da entidade) escreveu um artigo dizendo ter ouvido denincia "contra o es- trago das matas" pelo Servigo de Proteg~o aos Indios, ante- cessor da Funai. As autoridades locais recla- mavam que o SPI continuea a pouco produzir e, agora, inex- plicavelmente, vendeu das vastas terras da sua jurisdigAo mil e quinhentos p6s de mog- no a Cr$ 1.500 cada. O prego 6 ridicule e, segundo os infor- mantes, a operacgo condend- vel", escreveu Gabriel, prome- tendo apurar os fatos. Quanto p6 de mogno, como dizia o parlamentar, nao saiu da Amazonia a prego de folha de alface? ABRIL DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal Teatro * Cacilda Becker e Walmor Chagas passaram por poucas e boas quando realizaram uma temporada no Teatro da Paz cor o espetaculo "0 home e a mulher", em dezembro de 1966. Primeiro precisaram fazer uma sessAo especial para um inico espectador: a censora fe- deral Selma Chaves. No palco - e nao na plat6ia, como seria de se esperar ela assistiu a toda a encenag~o antes de li- berar o espetaculo. JA na apresentagAo da pega, Cacilda foi surpreendida por um fot6grafo pra l1 de azeitado, o future vereador Emanoel 0 de Almeida, jA falecido. Vindo dos bastidores, "Pipira" invadiu o palco em busca de um angulo melhor para sua foto. Tomou um susto quando a grande dama do teatro brasileiro se virou, dedo em riste, col6rica, gritan- do foraa!", foraa!", para expul- sar o intruso de seus dominios. Flash debaixo do sovaco, Ema- noel escafedeu-se. Retaguarda limpa, Cacilda voltou-se para a plat6ia (e para Walmor, que se mantivera esti- tico, a espera da partner reas- sumir seu papel) e retomou sua fala, imperturbavel. Raros espec- tadores perceberam que aquela cena nao estava no script. Estudante * 0 advogado Alarico Barata (pai do poeta Ruy Barata) pre- cisou requerer a um habeas cor- pus para que o acad6mico de Direito Pedro Augusto C6sar Portugal pudesse fazer os exa- mes finals, concluir o curso e colar grau, em 1966. Pedro foi preso pelo DOPS, sob a acusa- gao de pichar paredes. Mas o promoter pdblico Jaime Lama- rAo aceitou o argument do advogado do estudante, de que o ato de Pedro "nao provocou animosidade entire as Classes Armadas ou contra elas, ou de- las contra as classes ou institui- c6es civis". Coisas dos anos de chumbo. Imprensa * O mesmo promoter nao aco- lheu a pretensao do secreti- rio de seguranqa piblica do .,"- 'o : . * .. .- L-T .w ^Wbb FOTOGRAFIA Avenida na selva Flagrante de setembro de 1966, quando o entAo prefeito Ajax d'Oliveira levou os jorna- listas para visitar a abertura da avenida Du- que de Caxias, ainda em obras. Seria uma via de tracado original para o padrAo da cidade: pistas laterais de trifego ocupando menos es- paco do que a area central, reservada para o ajardinamento. No future, se o movimento jus- tificasse, o vasto jardim central seria encurta- do para a construcgo de mais tres pistas. O que nao ocorreu at6 hoje. A avenida levava o trinsito para uma area ainda fracamente po- voada e pouco urbanizada. Ainda havia atW uma floresta alta, como se pode ver no fund da foto. Em quatro d6cadas a paisagem foi completamente transformada. *eeeeeeeeee.eeeOOeeeee eeOeeeeeee Estado, coronel Jose Maga- lhAes, na mesma 6poca. O co- ronel queria que o Minist6rio Piblico obrigasse o journal A Provincia do Pard a identifi- car o autor de uma noticia que publicara, sob o titulo "Estu- dantes fizeram o congress no Coqueiro e encenaram a peqa na UAP". A UAP era a UniAo Academica Paraense, que ain- da sobrevivia no regime mili- tar (seria extinta depois), e o congress de estudantes era tido como illegal. O promoter considerou descabido o pedido de exibi- cao do aut6grafo do jornalista, por falta de amparo legal, com base numa interpretaqgo bern engenhosa da Lei de Imprensa (ainda estava em vigor a de 1953, que seria substituida por um texto muito mais drdstico, no ano seguinte): "Ora, se a Lei que regulamenta a materia nao cogita da exibicgo de aut6gra- fo, pois o artigo 27 da mencio- nada Lei, nao permit o anoni- mato, 6 claro que esta Promo- toria, como fiscal da Lei, nao poderA fugir a essa regra". Arquitetos * Os 13 concluintes da segun- da turma do curso de arquite- tura da Universidade Federal do Para, em 1969, nao quiseram festa de formatura ou qualquer solenidade: limitaram-se a ir a secretaria do curso buscar o canudo. Seria a ultima turma a concluir os estudos na antiga sede da arquitetura, na avenida Almirante Barroso (onde esta atualmente o Clube Monte Li- bano). No ano seguinte as au- las passariam a ser dadas no campus do Guami. Os novos arquitetos de 35 anos atrAs: Armando Diogo Cou- ceiro Filho, Ldcia Bastos dos Santos, Dirce Maneschy Correa, Edineuse Anglada Uchoa Con- te, Geraldo OctAvio MergulhAo de Oliveira, Guilherme Henri- que de Menezes Lobato, Jaime de Oliveira Bibas, Jorge Raimun- do Rodrigues Valle (o Jorgito), Lia Leite Berger, Paulo de Arai- jo Leal Martins, Maria Lobato Tavares e Zilda Lobato Pereira. Cerveja * A Cerpa Export, mais conhe- cida como Cerpinha, vai fazer 35 anos. Ela foi lancada pela Cerpasa em dezembro de 1969, tornando-se seu produto de maior prestigio. A Cerpa ja fun- cionava havia tres anos quan- do decidiu criar um produto engarrafado em vasilhame pe- queno (dai o nome com o qual se popularizou). Al6m disso, a garrafa teria um colarinho de papel metAlico dourado, ele- gante como um champanhe. E teria um paladar especial, mais leve, al6m de ser mais encor- pada. A Cerpasa, que comega- ra produzindo 80 mil garrafas por dia, ja entAo havia chega- do a 240 mil garrafas diirias de cerveja. Os dois cervejeiros eram alemaes: Paul Nothaff e Dietrich Niehaus. Jornal Pessoal I QUINZENA ABRIL DE 2004 11 1: a I 1 11 1 1, INVERSAO Estranha forma de fazer jornalismo a de 0 Liberal. Enquanto os jornais do sul noticiavam que o senador Luiz Otivio Campos sera processado pelo Supremo Tribunal Federal, acusado de envolvimento no desvio de 13 milh6es de d6lares, concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econ6mico e Social (BNDES) e repassados ao Banco do Brasil para a construcgo de 13 balsas pela empresa de seu sogro e da qual ele era director em 1992, a folha dos Maiorana abria a noticia dizendo que o senador estava feliz porque, finalmente, ia poder defender-se da acusagAo na mais alta corte da justiqa brasileira. Assim, o fato novo, que foi o recebimento da dentincia, ficou escondido atris de fato incerto e nao sabido, a alegria quase exultante do "senador do governador" de ser processado pelo STF. Ora, at6 agora Luiz Otavio jd falou e foi ouvido diversas vezes, mas em nenhuma delas convenceu a opiniao pdblica sobre sua inocencia no crime, que consistiu em repintar como novas velhas balsas da Rodomar e apresentd-las como se tivessem sido construidas (pelo estaleiro Ebal, dos Gueiros) com o dinheiro pdblico emprestado. Conseguird o senador do PMDB, em juizo, o que nao conseguiu fora dele, em entrevistas a imprensa ou fugindo dela, ao menos da imprensa que nao confunde jornalismo com agAo entire amigos e trAfico de influincia (ou coisa pior)? ITA Seis dos 35 ex-alunos do ITA (Instituto Tecnol6gico da Aeroniutica) que foram expulsos da escola pormotivo politico, entire 1964 e 19'5, nao conseguindo Completar os cursos que estavam fazendo, terdo agora direito a colar grau e receber seus diplomas. Os restantes ainda precisarAo aguardar para que a decisao, adotada na quinzena passada pela congregacgo da instituigAo, uma das mais conceituadas do pais, seja estendida tamb6m a eles. Mas continuarAo a luta por seus direitos em torno do Grupo dos SAbados, formado por ex-alunos (ver Jornal Pessoal 318). Ao conferir o diploma ao primeiro grupo, a direcao do ITA reconheceu o erro cometido pelo institute e reparou a injustiga. Alunos brilhantes, os 35 estudantes foram punidos por suas id6ias e militancia political. Nenhum deles cobrou indenizagAo pelos prejuizos sofridos, limitando-se a usar a campanha pelo diploma como uma forma de forgar a revisao da decisao, adotada durante o regime military, a partir de 1964. Um dos mais prejudicados foi Luis Esmanhoto: duas vezes impedido de concluir a quinta s6rie, estigmatizado pela expulsao, nunca mais conseguiu freqiientar um curso superior. Mesmo sem diploma, 6 considerado um dos mais brilhantes integrantes do "grupo dos 35". Quando sair do ITA com seu diploma, ele estari prestando contas a pr6pria biografia. HAITI O Haiti 6 aqui, procla- mou Caeta- no Veloso W1 numa misi- ca que bem podia ser toma- da como o hino do Brasil p6s-globalizacao. S6 neste nosso Haiti 14 cidaddos morrem de raiva humana, como aconteceu com habitantes de Portel, em pleno s6culo XXI. A sad- de p6blica estd entregue a pr6pria sorte. Nao ha um es- quema eficiente de notifica- gAo nem uma pronta rede de cobertura. A maioria das vi- timas veio morrer em Bel6m, como se os elos da aco pd- blica entire a capital e o in- terior nao existissem. Doen- gas ji eliminadas da epide- miologia do primeiro mun- do ou que tem baixo impac- to por aqui viram epidemi- as mortais. As pessoas levam dias, semanas ou meses do- entes sem saber do que so- frem. Quando chegam a um local de diagn6stico ou aten- dimento 6 para receberem o atestado de causa morte. Isto aqui 6 o Haiti mes- mo. Sem precisar de coisas formais como uma declara- cgo de guerra. MANGAL A Engeplan tern at6 o dia 30 de ju- nho para concluir o Mangal das Gar- as, a mais recent das obras do ar- quiteto-mor Paulo Chaves em Bel6m. A prorrogaCao do prazo foi estabelecida no sexto aditivo ao contrato, assinado em 2001 en- tre a Secretaria de Cultura do Estado e a em- presa. O valor da obra, ao lado do Arsenal de Marinha, j. 6 de 7,3 milhoes de reais. RECADO Depois que apenas uma de suas maos saiu, pendura- da no ombro de sua espo- sa, o deputado federal Vic Pires Franco apareceu em foto de corpo inteiro na co- luna social de Isaac Soares. Indicacgo de O Liberal de que, contrariamente ao que aqui se sup6s, o parlamentar (ainda) nao voltou ao index da familiar Maiorana. Nao esti, portanto, proibido de apare- cer nos veiculos da casa. '"vF:'---bf. |
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