Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00267
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00267

Full Text






Tornal


Pessoal


ABRIL DE 2004
I QUINZENA
N 321 o ANO XVII
R$ 3,00


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


'' i. ~...I
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I- .~ .. F
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I


L ATIN .A M 1."., 0 R.
DESENVOLVIMENTO i ,, ORIDA


IF


piores para os que s6 agora vAo entrar ou
estao entrando no jogo. Eles deviam ter es-
peranqas, mas nAo as tem. Os jovens estao
vivendo pior do que os adults no Para.
O Brasil tornou-se o primeiro pais
do mundo a se tornar laborat6rio para



0 CONTRATO DE
US$ 80 MILHOES
(PAG. 3)
^
^ii^si^^s...ssossssssses


0 discurso official e de que o Pord estd se desenvolvendo e o governor estd resolvendo
seus problems. Mos os indices socialis ndo confirmam essay fotografia cor de roso.
0 produto do exploraago dos recursos naturoials do Estodo ndo fica com os seus
hobitantes. Pora os jovens, a heranga e ainda pior.


OPari tem o segundo maior ter-
rit6rio do Brasil, 6 o nono
Estado em populag~o, o 12
em PIB (Produto Interno Bru-
to), o 16 em desenvolvimento
human (o IDH) e o 19 em desenvolvi-
mento juvenile (o IDJ). Essa s6rie de in-
dicadores segue uma linha decrescente:
da mensuragAo material e quantitativa
para a avaliag~o humana e social, da
grandeza bruta ao seu valor qualitati-
vo. Essa reta descendente revela que o
Para nao esta tirando proveito de sua
riqueza. Ou seja: esta desperdicando seu
potential de enriquecimento e pondo a
perder sua vocacAo de grandeza. O trem
do progress esta passando pela esta-
cAo Para e os paraenses nao estao em-


barcando nele. Do trem, os paraenses
ficam apenas com o apito. E um retrato
na parede.
Por que os paraenses nao estao em-
barcando no trem da hist6ria?
Porque estd havendo um descompasso en-
tre o som da hist6ria e sua captagAo pela so-
ciedade: quando o som chega a estagao, o
trem ja passou. Os paraenses vivem num uni-
verso e sua hist6ria em outro. Tomam por re-
alidade o que e miragem e se deixam levar
pela seduqAo do canto de sereia. Foram ata-
cados pelo pior tipo de cegueira: a que existe
sem que dela se tome consciencia. O dia pa-
rece estar claro e brilhante. Mas nem dia hi.
Se a realidade ja 6 desanimadora para
os que estao com maturidade suficiente
para encard-la, as perspectives sdo bem


0 Para parou:


re









CONTINUAAO DA CAPA
o ao mais novo indice da Unesco (a
organizacao da ONU dedicada A educa-
gAo e a cultural Inspirado no IDH, o
IDJ foi criado para medir especificamen-
te a qualidade de vida dos jovens de 14
a 24 anos. O indice consider a quanti-
dade de matriculas de jovens nos ensi-
nos fundamental, m6dio e superior, mas
tamb6m avalia se os alunos estAo cur-
sando a serie adequada a sua idade.
O IDJ consider parcialmente tres in-
dices (sadde, educagAo e renda) e cru-
za seis indicadores oficiais: taxa de
analfabetismo, escolarizagAo adequada,
qualidade do ensino, mortes por doen-
ca, mortes por causes violentas e renda
familiar per capital. O indice seri cal-
culado a cada dois anos, contados a
partir de 2003, que marcou a sua es-
tr6ia. O nivel superior do IDJ 6 1.
Santa Catarina, o Estado brasileiro
com melhor desenvolvimento juvenile,
ficou em 0,673, um valor baixo se com-
parado As m6dias do primeiro mundo.
O Estado da Amaz6nia Legal melhor co-
locado foi Mato Grosso, em 10 lugar.
Tocantins ficou em 13, Amapa em 141,
Rond6nia em 15 e o Maranhao em 17.
Abaixo do Pari, ficaram o Amazonas
(20), Roraima (23) e o Acre (259). Es-
pirito Santo, um Estado que guard vi-
rias semelhancas com o Pard (sobretu-
do em fungAo da atuagAo da Companhia
Vale do Rio Doce), 6 o 11.
A deducAo 16gica da queda que
acontece quando se aproximam os va-
lores brutos dos dados qualitativos 6
que no Pard nao esti havendo um born
uso do espaco fisico. O Estado ter di-
lapidado o seu patrim6nio natural, nao
fazendo corn que ele renda suficiente-
mente para que todos se beneficiem da
renda gerada. Deve estar ocorrendo
uma brutal concentracAo da renda.
Mais forte do que esse fen6meno, po-
r6m, 6 a drenagem de receita (materi-
alizada ou em potential) para o exte-
rior. Segundo a Fundacgo IBGE, os ri-
cos (cor renda de mais de R$ 12 mil)
nao chegam a somar sete mil pessoas
no Para, um Estado cor quase sete
milhoes de habitantes.
A grandeza do Para 6 evidence a par-
tir do seu pr6prio tamanho, de 1,2 mi-
lhao de quil8metros quadrados. Essa
grandeza se confirm concrete e espe-
cificamente quando sio identificadas as
riquezas existentes no vasto espaco ter-
ritorial paraense, entire as quais a c6le-
bre biodiversidade amaz6nica, o cau-
dal de energia hidrica (e de agua como
um todo), a diversidade e amplitude de
min6rios no subsolo e as manchas de
terra fdrtil.
O balango do uso desses recursos 6
espantosamente deficitArio. Quem se
aventurar em cobrir o Para corn imagens
de satelite descobrirA, horrorizado, que
alguns municipios nao tem mais flores-
ta native, em outros o remanescente de
mata esti bem abaixo de 20% limitede le-
gal para o desmatamento) e que diver-


sas areas de proteqAo obrigat6ria, como
as margens dos cursos d'agua, estao sem
sua cobertura vegetal ciliar (sinal de que
a erosAo vai sedimentar rios ou faze-
los desaparecer). Nao surpreende que
o monitoramento do ano passado colo-
que o Estado no segundo lugar do des-
matamento e SAo Felix do Xingu na ne-
gra lideranga dos municipios devasta-
dores (ou devastados).
S6 hi esperanga para o future se o
uso do espaco for ordenado e a anar-
quia reinante ceder A organizagao ter-
ritorial. A receita para esse diagn6stico
6 o zoneamento ecol6gico-economico.
O primeiro relat6rio do zoneamento foi
produzido ha quase 15 anos por uma
equipe que acabou se dispersando, reu-
nida na 6poca em um 6rgAo, o Idesp,
mandado para as calendas gregas por
um d6spota supostamente esclarecido.
Agora a Sectam esta apresentando
um novo zoneamento, centrado numa
compilacAo cartografica. O mapa pro-
duzido 6 interessante e pode se tornar
numa ferramenta mais 6til do que o
volume 1 do zoneamento, homiziado em
algum arquivo. Mas quem, como e para
que vai executi-lo?
Se houvesse um indice de sadde am-
biental (ou, melhor dizendo, de sani-
dade ecol6gica institutional), o Pard es-
taria dividindo o iltimo lugar cor Ron-
d6nia. Ambos se empenham para dei-
xar de ser amaz6nicos. Rond6nia, cin-
co vezes menor do que o Pard, esta bern
pr6ximo dessa meta absurda. Suas li-
derancas jd se mobilizam para que o Es-
tado deixe de fazer parte da Amaz6nia
Legal, passando a integrar o Centro-
Oeste, numa obtusa rendncia ao que
tmr de mais valioso: serem parte da
Amaz6nia. A Area de desmatamento se-
ria invertida: deixaria de ser de 20%,
como se exige na regiAo, e passaria para
80% dos im6veis rurais, o padrdo brasi-
leiro. No Pard a situaqAo ainda nao che-
gou a esse extreme de paranoia, mas
s6 a Area desmatada no Estado ja equi-
vale ao tamanho de Rond6nia.
Nao basta passar a r6gua e esticar o
compasso sobre a image digital do Es-
tado para racionalizar sua ocupagAo, ta-
pando os canais de drenagem de rique-
za e desperdicio de oportunidades. e
precise que a aplicaqAo dos estudos siga
diretrizes claras e eficientes para mu-
dar a direqco patol6gica do process
econ6mico no Estado, cada vez mais in-
tenso e distorcido. Deixamos de ser um
risco de enclave para estarmos a nos
consolidar como uma col6nia.
A aSAo pdblica deve se orientar para
center as frentes econ8micas, fazer re-
verter as investidas claramente espe-
culativas e selvagens, impor normas de
exploracAo e uso dos recursos naturais,
apoiar as atividades inteligentes (ditas
sustentAveis), orientar os investidores,
defender a sociedade, favorecer os de-
siguais.
O poder piblico s6 poderA agir des-
sa maneira se controlar os meios t6cni-


cos e cientificos, se souber como fazer
e o significado do que esta fazendo. A
sociedade s6 se credenciard como be-
neficidria da trama se dispuser de in-
formaraes para fazer as cobrancas e me-
diar as decis6es. Em ambos os casos o
que se requer 6 informaqao, conheci-
mento, saber. O que caracteriza, por6m,
tanto a political pdblica quanto a posi-
cAo da sociedade 6 a manipulagAo dos
dados, o poder que alguns tem de mis-
tificar e embromar.
Veja-se o contencioso do governor do
Estado com a Companhia Vale do Rio
Doce. O governador SimAo Jatene vol-
tou de Brasilia, depois de um encontro
corn o president da empresa, Roger
Agnelli, proclamando vit6ria. A Vale te-
ria, finalmente, concordado em partici-
par da agenda positive do governador,
apoiando a construcao de 30 mil casas
populares e o Banco do CidadAo (em
parties iguais).
Na verdade, Jatene voltou de Brasi-
lia cor o que para dl levou: a partici-
paiAo da CVRD em um fundo de aval,
no valor de 28 milh6es de reais. Em caso
de inadimplencia com o agent finan-
ceiro, a Caixa Econ6mica Federal, a ga-
rantia 6 a cota do Para no Fundo de
ParticipagAo do Estado. Exatamente
como ja estava acertado no papel antes
que a dispute tivesse chegado ao em-
bargo do licenciamento ambiental da
mineragdo de bauxita pelo Estado e a
decisAo da empresa, em represAlia, de
suspender o empreendimento.
Percebendo que se continuasse a
desafiar a Vale, achando que a empre-
sa estava apenas blefando, poderia ver
o investimento de 270 milhoes de d6-
lares em Paragominas ruir, o governor
recuou. Mas para ter uma said de hon-
ra foi arranjado o encontro em Brasi-
lia e ativadas as fanfarras para o anin-
cio em Bel6m. Os chefes dos outros
dois poderes (o president da Assem-
bl6ia Legislativa, deputado MArio Cou-
to, e a president do Tribunal de Jus-
tica, desembargadora Maria de Nazar6
Brabo de Souza), mais o chefe do Mi-
nisterio Piblico do Estado, Francisco
Barbosa, foram convocados As pressas
para fazer presenca no andncio festi-
vo feito pelo governador. Sem saber
exatamente o que fora tratado na ca-
pital federal e o conteddo do acerto,
as tres autoridades fizeram papel de-
corativo no ato.
Decorativa 6 a pr6pria participaqgo
da opiniAo pdblica nessas hist6rias. A
sociedade 6 levada de um lado para
outro pelas vagas de propaganda e pelo
noticiArio da imprensa chapa branca.
Acredita entAo que o que Ihe estao di-
zendo 6 verdadeiro. Mas quando chega
um 6rgAo t6cnico competent para ve-
rificar os resultados, o que apura con-
trasta com o quadro cor de rosa da cul-
tura official. O IDJ da Unesco confirm
essa esquizofrenia. Mais uma vez, 6 o
Pard crescendo, sim, mas como rabo de
cavalo: pra baixo.


2 ABRIL DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal




















CASTELO

DOS SONHOS
* A empresa canadense
Osisko pagou 28 mil d6lares
para ter o direito de, nos
pr6ximos seis meses, verificar
se vale a pena investor nas 13
Areas de lavra requeridas pela
Amaz6nia MineragAo, onde
funcionou o tristemente
famoso garimpo de Castelo
dos Sonhos, no sudoeste do
Para. Se a Osisko achar que o
neg6cio compensa, completarA
o valor da transferencia dos
direitos, de 345 mil d6lares, e
pagard o royalty mais um
premio sobre o ouro que
extrair do local.
Desde a morte de MArcio
"Rambo", um piloto de aviAo
que no inicio da d6cada de 90
assumiu o control da area na
base de violencia e coaCgo, as
atividades garimpeiras foram
suspensas. As tentativas feitas
por alguns interessados no
ouro de Castelo dos Sonhos
nao tiveram bons resultados.
Agora 6 a vez da empresa
canadense, mais uma que
chega A Amaz6nia nos iltimos
tempos.

CORRECAO
* Muitos errinhos chatos na
edicAo anterior, de novo
fechada na pancada, sem
revisAo. Erros causados
principalmente pela facilidade
que o computador
proporciona de corrigir um
erro e esquecer o erro que a
correSAo acarretou. Dai certas
concordancias hereges. Alem
de cochilos na grafia, que a
acumulada estafa da redaqSo
do journal, ha 20 anos serm
f6rias, causou. Ou lapses na
digitaqgo, que fizeram os 250
anos do nascimento de
Alexandre Rodrigues Ferreira
se transformarem em 350
anos. Se continuar assim, a
redacao fechara para balanco
e entrara em f6rias coletivas.
Ou sera demitida por
complete. Perdao, leitores.
Outra vez.


A novela do contrato




de energia da Albras


Na v6spera, alegando "motivos t6cnicos",
a Albras cancelou o leilao para a compra de
energia que realizaria no iltimo dia 2. A nova
data prevista 6 5 de maio. A Albras recorreu
ao leilao porque seu contrato de fornecimento
de energia cor a Eletronorte vencerA no pr6-
ximo mes, 20 anos depois de ter sido assina-
do. A renovaCgo nho foi fechada a tempo
porque a empresa quer pagar um valor entire
12 d6lares e 9 d6lares por megawatt/hora, o
valor maior sendo o que jA vinha pagando e
o menor um ajuste as tarifas que outras plan-
tas de aluminio estariam recebendo em ou-
tras parties do mundo.
A Eletrobras, controladora da Eletronorte,
quer que a Albris passe a pagar US$ 20 por
MWh, igual a tarifa praticada pela Alumar, in-
distria de aluminio do mesmo porte instala-
da em Sdo Luis do MaranhAo com os mesmos
favors fiscais e tributarios, ou quase (por co-
megar primeiro, a AlbrAs levou mais).
O leilao seria para garantir 750 MW m6di-
os de energia para a Albras entire
junho e dezembro, permitindo-
Ihe fechar o exercicio de 2004
sem maiores atropelos, enquan-
to se prepare para definir uma
nova fonte de suprimento esta-
vel e de long prazo. A demand
de energia da Albras equivale ao
consume individual das duas mai-
ores cidades da Amaz6nia, Bel6m
e Manaus, com 1,2 milhAo de ha-
bitantes cada. Sem a garantia de
uma fonte segura, a competitivi-
dade da empresa no mercado in-
ternacional desaparece.
Na verdade, essa 6 uma dis-
puta de cartas marcadas. Apesar
do mercado livre de energia, s6
ha um fornecedor seguro, a cur-
to e m6dio prazo, para a Albras: 6 a Eletro-
norte. Para a estatal, por outro lado, a fibri-
ca de aluminio de Barcarena represent o
consume constant de um tergo da energia
firme da hidrel6trica de Tucurui, que res-
ponde por 80% de tudo o que a Eletronorte
gera em toda a Amaz6nia. E por isso que
enquanto era anunciado o leilao e medidas
mais duras ecoavam do lado do governor, as
parties mantinham intense negociaqAo de bas-
tidores. AcabarAo tendo que encontrar um
denominador comum para o impasse em que
foram colocadas.
Em 20 anos desfrutando de tarifa favore-
cida, a Albras recebeu um subsidio do tama-
nho do pr6prio investimento da fAbrica, que
custou 1,8 bilhAo de d6lares. Esse valor 6 con-
seqiincia do custo de geragAo (mais as amor-
tizac6es do investimento) da usina de Tucu-
rui. Nao saindo dos cofres da inddstria de
aluminio, foi bancado pelo ergrio, a base de


dinheiro do contribuinte, atrav6s de virios
mecanismos de compensacao e transferencia
que impediram a Eletronorte de quebrar e
atrapalharam as contas do setor eletrico p6-
blico, comandado pela Eletrobris.
A Albris argument que, hoje, os US$ 12
por MWh jd nao sAo tao atrativos como em
1984, o que nao deixa de ter algum fundo de
verdade, embora a Alumar, formada pelo con-
s6rcio Billiton/Alcoa, sempre tenha pagado
mais (US$ 20) sem deixar de ser viAvel e com-
petitiva (e ainda antecipando a duplicagAo da
linha de transmissAo de energia para um en-
contro de contas future com a Eletronorte, o
que a Albris nao fez).
O subsidio as duas reduq6es multinacio-
nais de aluminio nao teria sido necessArio se
o orgamento de Tucurui nao tivesse explodi-
do. Do parAmetro inicial, de US$ 2,1 bilh6es,
ele foi parar em US$ 4,7 bilh6es nas contas
lipoaspiradas da Eletronorte, em US$ 7,5 bi-
lhoes no cilculo da Comissao Mundial de Bar-
ragens e em mais de US$ 10 bilhOes
nas estimativas de quem foi atris
das pontas dos n6s financeiros, at6
hoje nao totalmente desatados.
Por que esse estouro? Por cor-
rupPo, disse certa vez o ex-pre-
sidente da Companhia Vale do Rio
Doce (uma das donas da Albras,
juntamente com um cons6rcio ja-
pones), Eliezer Batista. S6 este
journal deu atenqAo a afirmagdo de
Eliezer, feita no curso de uma en-
trevista informal corn duas pes-
quisadoras do Rio de Janeiro.
Nem o atormentado "fator ama-
z6nico" explica o crescimento ex-
ponencial dos custos de Tucurui.
S6 a sucessAo de polemicos e obs-
curos acontecimentos, que se su-
cederam ao long da obra, do acompanha-
mento dos custos diretos aos contratos de
financiamento.
A questAo atual 6: o Brasil pode e deve
- ser ressarcido pelo que gastou em Tucurui
atrav6s da remuneraAgo do service de ener-
gia ou deve praticar tarifas de mercado a partir
de agora, jogando sobre os imensos costados
da vidva mais essa conta sem fim, esquecen-
do a amortizagao da "energia velha"?
Como a resposta nao 6 considerada, ou,
mesmo se levada em consideracgo, nao 6 tra-
tada em piblico, fica esse chove-nAo-molha
para ingles ver entire a Companhia Vale do
Rio Doce e a Eletrobras, personagens princi-
pais de um enredo que envolve muito mais
gente mi6da (e gradda) e mais tramas do que
pode imaginar o vio conhecimento do "seu"
JoAo da Silva nas esquinas do pais.
Espera-se que o espeticulo nao termine
em pizza.


Jornal Pessoal 1- QUINZENA ABRIL DE 2004 3












Justiga: um caso exemplar


Em 2 de janeiro de 1991 o Banco do Es-
tado de Sao Paulo props, no foro de Be-
lem, uma acao executive contra Rosa Maria
Portugal Gueiros, Paulo Gueiros e Tucanus
Viagens e Turismo. Cobrava uma nota de
cr6dito commercial (no valor de dois milh6es
de cruzeiros, da 6poca), emitida em 29 de
janeiro de 1998, vencida no mis seguinte e
nao paga, apesar das tentativas amigiveis que
a empresa fez nos dois anos seguintes para
receber o dinheiro emprestado.
A aago foi distribuida para a 5a vara ci-
vel, mas nao foi recebida: o juiz titular se
declarou impedido de processar o feito por
motive de foro intimo. Outros quatro jui-
zes o imitaram, alegando relacio de amiza-
de com dois dos executados: a juiza Rosa
Gueiros e seu marido, funcionArio de um
cart6rio judicial.
Na sexta distribuicAo, o juiz Werther Be-
nedito Coelho recebeu a agao e a julgou,
em 1 de abril de 1991. Declarou que o di-
reito de agir estava prescrito por haver de-
corrido o prazo de tres anos entire o venci-
mento da divida e sua cobranca pela via
executive, conforme estabelecido no C6di-
go Civil. Por isso, extinguiu o process sem
apreciar o m6rito do pedido.
O banco contestou a decisao. Alegou
que nao houve a prescriqao.Ao perceber os
sucessivos impedimentos de juizes, que pro-
telavam o recebimento da execugao, pediu,
em 6 de fevereiro, que o prazo para a cita-
qao dos r6us fosse dilatado. Assim, fez a
sua parte. Cabia ao judiciario a execucao
do pedido, que interrompia a prescricao
simplesmente por ter sido formulado. Re-
jeitou o argument do juiz de que teria
permanecido inerte enquanto transcorria o
prazo prescricional. Mostrou que esgotara
"todas as medidas ao seu alcance, tenden-
tes a evitar o perecimento de seu direito".
Enquanto isso, o banco constatava "a
indrcia com que se houve o 6rgAo jurisdici-
onal de primeira instAncia, que, atrav6s de
sucessivas attitudes omissivas de seus magis-
trados que culminaram cor a malfadada
sentenCa atacada [de Werther Coelho], negou
a devida prestagio jurisdicional, direito sub-
jetivo piblico do apelante [o banco], agasa-
lhando particulares interesses de devedores
inadimplentes, entire eles, a Dra. Rosa Maria
Portugal Gueiros, que 6 juiza de direito des-
sa comarca, e seu marido Paulo Elmer Motta
Gueiros, que segundo informagqes por ele
prestadas, 6 funcionario do 9 Oficio do Tri-
bunal de Justiqa do Pard". Ressaltou o ban-
co que os juizes, ao se declararem suspeitos
para atuar no process, "deixaram de prati-
car atos que de oficio lhes cabia, assim fa-
vorecendo, intencionalmente ou nao, inte-
resses particulares de colegas de trabalho".
Sustentou ainda o Banespa que, ao de-
clarar a prescricao patrimonial, o juiz Wer-
ther Coelho apreciou o que nao Ihe cabia fa-
zer por iniciativa pr6pria, ja que a materia
nao havia sido suscitada pelas parties e, por
isso mesmo, nao constava dos autos. Um bro-
cado juridico sempre muito citado proclama:
o que nao estA nos autos nao estA no mundo.
Logo, nao pode ser apreciado pelo julgador.
Na replica, os executados sustentaram
que o banco simplesmente havia pedido a
prorrogacgo do prazo para a citaqSo e nao,


explicitamente, como eram obrigados a fa-
zer, a interrupAo da prescrigAo.
Apreciando a apelacgo do banco, a 32
Camara Civel do Tribunal de Justiga do Es-
tado, por unanimidade, considerou indevi-
do o reconhecimento da decisao, revogan-
do a sentenca de Werther Coelho. No dia 1
de setembro de 1991 o banco pediu que o
process continuasse normalmente sua tra-
mitacgo, com a citacgo dos r6us. Em 1 de
dezembro de 1994, Paulo e Rosa Gueiros
requereram a republicacgo do ac6rdAo, con-
tendo a decisao da camara, porque seus
nomes nao haviam sido citados. Uma sema-
na depois o desembargador Wilson Marques
da Silva, entdo na vice-presidencia do TJE,
determinou a adocAo da providencia ao es-
crivAo do cart6rio do 1 oficio do tribunal.
A providencia foi cumprida. S6 que oito
anos depois, em 6 de setembro de 2002. A
secretaria da 3a camara civel isolada do tribu-
nal (na nova organizaqao, que substituiu os
antigos cart6rios) prestou as informaq6es so-
licitadas, desculpando-se: "face a carencia de
funcionarios nesta Secretaria, principalmente
da area de Direito, nao foi possivel cumprir o
despacho" do desembargador. Wilson Mar-
ques nao teve a oportunidade de ler a res-
posta ao seu oficio: no period entire sua
determinacAo e o atendimento, se aposentou.
Finalmente, em marqo do ano passado, a
instrugo processual foi retomada. A juiza (ja
agora desembargadora, promovida por me-
recimento) e seu marido embargaram a deci-
sao da camara. Observaram que o Banespa
"nIo existe mais com independencia, sendo
controlado pelo grupo Santander Banespa".
Mudando o control acionirio, passaria a fal-
tar-lhe legitimidade para agir. A ago nao devia
ser conhecida. Alem disso, como a apelagAo
do banco foi julgada em setembro de 1992,


CIVILIDADE
Corn acerto, o juiz federal Rubens Rollo
d'Oliveira mandou a Policia Federal abrir
inqudrito para apurar a agressAo sofrida por
uma oficiala de justiqa. Ela tomou um ba-
nho de lama quando tentava pegar 6nibus
numa parada. O motorist pode ter agido
com a intencAo de molhi-la. A servidora
teve a felicidade de contar cor o apoio do
director do f6rum. A agressao, s6 por isso,
pode ter conseqtiincias. Mas a esmagadora
maioria dos cidadaos fica indefesa diante
de atos de incivilidade e desrespeito como
esses, ou muito piores.
Eles sAo comuns no dia-a-dia do trans-
porte coletivo. Os prejudicados, c6ticos quan-
to a alguma providencia corretiva, ja nem
ligam. Embalados pela impunidade, os mo-
toristas barbarizam. As pessoas deixaram de
se dar conta dos seus direitos, por isso nao
mais os cobram. A Ctbel devia fazer uma
campanha para mostrar as empresas de 6ni-
bus e seus funcionarios o que 6 a prestagAo
de service p6blico em lugares civilizados.
Passei quase duas semanas em Bruxelas,
na capital da B61gica, vivendo como um ci-
dadao comum. Todos os dias pegava meu
6nibus. Nas paradas estavam afixados os ho-
rArios dos que por ali passavam. Numa ma-
nha fria, uma senhora entrou no veiculo di-


estaria caracterizado outro tipo de prescrigao,
a intercorrente, ja que nesse period sua in-
terrup~po nao foi suscitada. A iltima movi-
mentagAo do process 6 um despacho da re-
latora, desembargadora Marta Ines Antunes,
mandando ouvir o banco. Independentemente
do desfecho da a~go, ela tern um alto poder
demonstrative sobre a necessidade do con-
trole extemo do judiciario. Evidencia-se:
1 Uma especie de ind6stria do pedido
de suspeiqao. A alegaqCo de motives de foro
intimo ter sido um recurso exageradamente
utilizado por magistrados que nao querem
enfrentar quest6es polemicas, que envol-
vem parties poderosas, ou porque sao mo-
vidos por corporativismo. O caso da ago
do Banespa provocou a interpretag~o de
um comply para criar a prescricgo.
2 A conivencia do aparato administra-
tivo e da estrutura judiciaria com os inte-
resses de servidores do poder.
3 A carencia de pessoal no judiciario,
agravada pelo fato de que pessoas sao con-
tratadas para func6es de assessoramento
superior simplesmente por serem parents
de juizes e desembargadores. Alids, na ses-
sAo da 3a camara civel isolada do TJE do
dia 25 de margo foi o que disse, com todas
as letras, a desembargadora Marta In&s: "Ha
pessoas concursadas que ganham menos
que funcionirios que chegam [ao 7JE] apa-
drinhados e trabalhando na mesma sessAo
(...) imagine umr funcionArio cor vinte
anos de Casa, concursado, ver chegar o pa-
rente de um Desembargador, de um Juiz
pela janela para ganhar o triple do que ele
ganha e para prestar o mesmo service".
4 O descompromisso de parte do cor-
po da magistratura corn um padrAo de con-
duta compativel corn a relevAncia da fun-
cao p6blica que desempenham.


zendo desaforos para o motorist, que se atra-
sara alguns segundos. Ele pedia desculpavas
e explicava que havia feito uma manobra extra
para contomar determinado problema na rua.
A senhora nao se convencia. Foi resmungan-
do at6 o fim. Quando desceu, o motorist
novamente se desculpou. Devia estar baten-
do em seu inconsciente a maxima que todos
repetem e poucos levam a sdrio entire n6s: o
client sempre tem razAo.
Por aqui, os motorists sao useiros e ve-
zeiros em "queimar" paradas. A Ctbel devia
aplicar multa em dinheiro e suspensAo auto-
mitica (dois dias na primeira vez, o dobro
em cada reincidencia) a quem fosse flagrado
nessa falta. Cabia recuperar as paradas e afi-
xar os horarios de circulagAo dos 6nibus. A
fiscalizacAo devia ser permanent para evitar
que motors descalibrados poluam a cidade
e o interior dos 6nibus fique em desleixo.
Desde ji, por6m, deve-se por fim a esse
lenga-lenga onerosa sobre a bilhetagem ele-
tr6nica, um escandalo que ter consumido
milhOes de reais de dinheiro pdblico e a
paciencia dos cidadAos. Esse 6 o lado nao
diretamente monetirio e nao tao visivel do
transport coletivo que a Ctbel deve tratar
com urgencia e mais eficiencia do que o
padrAo atual.

ABRIL DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal









BASTA
0 general-presidente Costa
e Silva foi visitar Florian6polis.
Seu carro, blindado,
acompanhou-o num C-130 a
parte. Um jornalista que
tentava um fngulo mais
sugestivo no alto de uma
escadaria de ago na usina da
Cosipa, em SAo Paulo, foi
empurrado por um seguranga
do president e rolou pelos
degraus. Ningu6m p6de fazer
nada. Os jornalistas eram
confinados num cubiculo.
Estavam numa dessas
quadraturas quando o outro
general-presidente, Garrastazu
M6dici, tentava prestar
atengAo A palestra do ministry
dos Transportes, o tambem
general Dyrceu Nogueira,
sobre a estrada Santardm-
CuiabA, na sede do 8s BEC.
M6dici pegou no sono corn o
cigarro entire os dedos. Os
soldados fecharam uma
parede diante dos jornalistas.
Um coronel, depois de tirar o
cigarro, sob os cuidados de
todos, paralisados pela
contemplagAo da cena (e
indiferentes a palestra), ainda
foi ao curral da imprensa
conferir: "Voc&s nao viram
nada, nao 0?".
Um carro que passa pela
avenida Consolacgo, logo
depois da igreja, na praga
Roosevelt, e explode cor um
professor do cursinho de
vestibular Equipe dentro. Um
estudante se joga do seu
apartamento-aparelho
estourado
pela policia,
que evacua
.todo predio,
alta
madrugada,
tirando os
moradores na
base de
coronhadas
de suas armas
nas portas. O
delegado
Sergio
Paranhos
Fleury
chegando cor sua arrogancia
e boqalidade, indiferente aos
jornalistas que tentam checar
se o home estendido dentro
do fusca era mesmo Carlos
Marighella, morto. Frei Tito se
enforcando num seminario
frances para fugir dos
pesadelos protagonizados pelo
mesmo Fleury.
Ler livro subversiveo" de
madrugada, encapado corn


Amacol


hist6ria


muito confusa


Em outubro de 1990 a empresa Amaz6-
nia Compensados e Laminados, entao con-
trolada pela americana Georgia Pacific, uma
das maiores madeireiras do mundo, renun-
ciou ao dominio que vinha exercendo sobre
113 glebas de terras em cinco municipios da
foz do Amazonas (Anajis, Curralinho, Bre-
ves, Portel e Bagre), transferindo essas are-
as para o nome do Iterpa (Instituto de Ter-
ras do Para), atrav6s de escritura lavrada no
cart6rio K6s Miranda, em Belem.
Essas glebas nunca foram medidas e de-
marcadas, por isso seria impossivel dizer
qual a sua extensAo. A presungao at6 entao
era de que poderiam abranger dezenas de
milhares de hectares. A ocupagAo das areas
foi autorizada pelo governor estadual no fi-
nal do s6culo XIX, quando as terras retor-
naram a jurisdicgo dos Estados cor a pro-
clamagao da repiblica. O governor resguar-
dou os direitos dos ocupantes, fornecen-
do-lhes titulos de posse, que seriam trans-
formados em documents de propriedade
se ocupassem as terras, beneficiando-as,
para requerer o reconhecimento legal de seu
dominio. Poucos cumpriram as exigencias,
mas os pap6is passaram a ser registrados
nos cart6rios como se atestassem proprie-
dade privada regular.
Em 1990, inovando em relagco ao com-
portamento comum entire os detentores des-
ses papeis, a Amacol se disp6s a renunciar a
todos os direitos que eles Ihe pudessem con-
ferir, "de forma irretratavel e irrevogdvel".
Para todos os efeitos, as terras voltavam a
ser piblicas. Tres anos depois, antes que o
Iterpa tivesse mandado cancelar todos os
registros e matriculas dessas glebas ou os
transferido para o dominio do Estado, a
Amacol requereu a exclusAo de 21 das 113
posses, que por "lapso" haviam sido arrola-
das. Alegou que se a ren6ncia abrangesse
essas terras, as atividades da empresa seri-
am inviabilizadas em cinco anos, afetando a
vida de 700 pessoas que dela dependem para
trabalhar. O Iterpa nAo efetuou a retificaqAo
da escritura de rendncia.


Quase 10 anos depois a
Amacol ajuizou uma agao '
no f6rum de Belem para /
impedir que o Iterpa in- )
terferisse de alguma
maneira sobre a area
que diz ocupar, corn
248 mil hectares,
como se ja
nao tivesse re-
nunciado a to- .
dos os direitos ,
sobre ela. O
Iterpa reagiu pedindo
a corregedoria de jus-
tica do interior o can-
celamento de todos os
registros e matriculas que
tomaram por base os titulos de posse da em-
presa, indevidamente considerados como pro-
priedade, nao s6 em fungAo da renincia de
1990, mas tamb6m porque os pap6is nao con-
ferem qualquer forma de dominio. Foram le-
vados ao assento no cart6rio indevidamente.
A batalha judicial estd em andamento, mas
essa 6 uma hist6ria suficientemente surrealis-
ta para chamar a atengAo. O que teria ocorri-
do em 1990: a Amacol teve um acesso de sin-
ceridade, admitindo que os titulos de posse
nao Ihe conferiam dominio? Avaliou mal sua
iniciativa (como 6 indicador o pedido de re-
tificagAo de 1993)? Ou visou algum objetivo
que ainda nao foi possivel perceber?
Ja ao proper a agao judicial para imobili-
zar o Iterpa, teria a empresa esquecido sua
iniciativa anterior, de transferir seus direitos
para o Instituto de Terras do Para?
A Amacol esta ha quase meio seculo no
Pari, extraindo madeira da regiAo das ilhas e
exportando-a em seu pr6prio porto, usando
navios pr6prios. Sua hist6ria 6 tao pouco co-
nhecida que ninguem noticiou quando a Ge-
orgia Pacific transferiu o control de sua in-
d6stria para outra empresa americana. A his-
t6ria da ren6ncia, do pedido de retificagAo e
da agao do ano passado ajuda pouco a escla-
recer essa hist6ria. Muito pelo contrario.


OOO*******OO**OO**OO 06006000 a00a0 0 000a00a00a000


papel inocente. Cruzar o
enorme saguAo na entrada
dos Diarios Associados, na
rua 7 de Abril, sem se deixar
impressionar pela exposigio
antiterror, protegida por
olhos armados. Materias
longas para registrar meras
trocas de commando nos
quart6is. Reproduzir as
mensagens lidas pelos
comandantes como sendo a


quintessencia doutrinAria. Ter
que atravessar fileiras de
soldados e de cAes agressivos
para ir a missa de dom
Evaristo Arns na igreja da Se
pela mem6ria do doce
Wladimir Herzog, "suicidado"
numa cela do II Exercito.
Muito do que se podia dizer
sobre o regime iniciado em 31
de marco de 1964 ja foi dito,
certo ou errado. Ficam-me na


mem6ria cenas, frases,
olhares, sentiments e outros
registros reforqando uma
conviccio profunda:
definitivamente infelizes serAo
as gerag6es se obrigadas a
viver duas vezes sob
ditaduras, sejas quais forem
suas origens e prop6sitos. JA
passei por uma. E basta. Que
meus dias se encerrem sem o
dissabor insuportAvel de outra.


Jornal Pessoal I- QUINZENA ABRIL DE 2004 5












Mario Faustino redivivo


Mario Faustino dos Santos e Silva tinha
32 anos, completados no mes anterior,
quando embarcou no Boeing 707 prefixo
PP-VJB da Varig, que decolou do aeropor-
to international do Galeao, no Rio de Ja-
neiro, aos 53 minutes de 27 de novembro
de 1962. O aviao levava 17 tripulantes e 80
passageiros para Los Angeles, nos Estados
Unidos. Nenhum deles chegou ao destino.
Nem a primeira das quatro escalas da rota
do Pacifico. Quando faltavam 17 minutes
para aterrissar em Lima, a capital do Peru,
quase cinco horas depois de ter iniciado a
viagem, o aviao se chocou com Cerro de
Las Cruces e explodiu. Chovia muito, difi-
cultando o trabalho de resgate. O reconhe-
cimento dos corpos foi impossivel.
Cinco anos antes Mario Faustino ha-
via tido seu primeiro contato cor a Cor-
dilheira dos Andes, numa viagem ao Chi-
le, e se encantara: "NAo ha nada no mun-
do mais lindo que os Andes", declarou
em carta a um amigo. O acaso fez dessa
cadeia de montanhas o seu timulo. Foi
li que seus ossos se desfizeram e dele
nada restou para preencher a urna mor-
tuaria levada a um mausol6u em Lima,
construido para registrar o maior aciden-
te aereo ocorrido no Peru.
Se bem sucedida, aquela viagem con-
duziria Mario Faustino a um novo divisor
de Aguas na sua vida. Os meses anteriores
haviam sido de "revezes profissionais, sen-
timentais e familiais de toda sorte", confor-
me ele confessava em outra carta. No en-
tanto, estava se libertando de "minhas im-
perfeioqes, de minhas mentiras, de meus
complexes de inferioridade, de meus desa-
fios initeis, de minhas provocac6es...".
Ja nao queria mais agredir, ironizar, in-
fernizar: buscava a paz. Aqueles dias de
loucura chilena ("Dormi cor umas vinte
pessoas diferentes em dez dias. Fora os
affaires das ruas") e de outras loucuras eram
Aguas passadas. "Cada vez mais poeta e me-
nos critico, ele decidira aceitar o convite
do Journal do Brasil para ser corresponden-
te international em Nova York cor dois
objetivos: desfrutar de mais um period de
vida em NY, onde passara um ano entire
1959/60, e juntar dinheiro para a partir dai
se dedicar a fazer a coisa de que mais gos-
tava na poesia: poesia.
O que teria conseguido realizar Mirio
Faustino se o Boeing da Varig tivesse esca-
pado ao estranho acidente e pousado em
Los Angeles? Certamente de li o jornalista
teria ido a Havana entrevistar Fidel Castro
sobre a recent crise dos misseis, que qua-
se levara as duas superpotencias (Estados
Unidos e UniAo Sovi6tica) a guerra. Mario
passara a admirar Fidel porque no interva-
lo de nove anos entire sua primeira perma-
nencia nos EUA (para uma bolsa de estu-
dos na Calif6rnia) e a volta, para trabalhar
na sede novaiorquina da ONU, a quase ido-


latria pela cultural americana se transformou
numa aversdo ao sistema politico do pais.
Esse era o objetivo do jornalista. Mas
Mario nAo queria continuar a ser jornalista
por muito tempo mais. Logo toda sua ener-
gia estaria concentrada no fazer po6tico,


ele que viria a ser considered
verse maker de sua gera-
gFo". NAo exatamente
gera~go, alias, porque
seu caso 6 quase isola-
do. Ele estaria no meio
de um "grupo" que fez
versos depois da gera-
cao de 1945 (a do bar-
do pernambucano Joao
Cabral de Melo Neto),
como Mario Chamie, Au-
gusto e Haroldo de Cam-
pos, D6cio Pignatari e
Ferreira Gullar.
Algum deles foi me-
Ihor ou mais important
do que Mario? Na prova
dos nove do verso, tal-
vez s6 o maranhense
Ferreira Gullar o om-
breie, embora dele se distinga
do que a Agua do vinho. Por
Mario Faustino 6 tAo pouco
apesar de alguns generosos
divulgagAo, como a publicaiW
obras completes, que a Compa
tras iniciou em 2002, organize
fessora Maria Eugenia Boave
cinco volumes programados,
nas dois sairam ate agora.
Uma tese academica rec6
deveri reforgar essa sensaAo
mento que persiste como uma
tumular sobre a mem6ria de M
no, quatro d6cadas depois de
Com Mdrio Faustino Uma bi
rdria, Lilia Silvestre Chaves con
louvor da banca que a examir
versidade Federal de Minas Ge
rindo-lhe o titulo de doutora
Quando o trabalho estiver aces;
ma de livro (prometido para
Institute de Artes do Para), o
diante de si uma biografia rea
vadora. Mais do que uma fonte
sobre a vida e a obra de Mario
tese de Lilia 6 uma aproximaaoc
poeta, um guia entire sombras
tre a sedugfo da palavra cor sa
tico e os seus significados cogn
verdadeira obra de arte, enfim.
Lilia diz que explorou "a pc
ensaistica de criar uma narrative;
cultural, unindo a critical e a bio
essa combinagao com maestria,
as cartas, os livros, as fotografias
tos de Mario Faustino, deposit
blioteca e no arquivo de Bened
o melhor amigo do poeta (nun


que guardaria alguma semelhanga com a
que houve entire Ezra Pound e T. S. Elliot
se o sAbio da rua da Estrela tivesse acredi-
tado no aprimoramento de seus ensaios ju-
venis em versos, em boa hora 6 ineviti-
vel admiti-lo interrompidos).


lo o "iltimo "Veio-me a idWia de reconstruir esse
home de papel e de pa-
lavra no qual Mario Faus-
tino se tornou, superpon-
do texto e image. Sele-
cionando, recortando e in-
terpretando os aconteci-
M riO mentos que as fotos ofe-
Fa.1Stino reciam, descobri o fasci-
Snio da invenqAo e da and-
lise criativa que a biogra-
fia literaria possibility ao
articular obra e vida", ex-
plica Lilia na tese. Ela
pode ser lida como uma
hagiografia po6tica, mas
que em nenhum momen-
._., to deixa de registrar todos
os fatos e de enfrentar to-
dos os desafios (inclusive
um tabu at6 entao: a ho-
nao menos mossexualidade do poeta). t amorosa sem
que, entao, deixar de ser just e corajosa.
conhecido, Por isso, farA bem aos sentidos e humo-
esforgos de res dos seus futures leitores e ao mesmo
io das suas tempo os instruirA sobre o poeta e sua po-
nhia das Le- esia sobre toda e qualquer poesia, como
da pela pro- seria de se esperar de um trabalho de criti-
entura? Dos ca literiria que, indo ao imago do proces-
por6m, ape- so de criaAgo de um individuo, o transfor-
ma em tipo ideal, modelo, pedra de toque
n-concluida para a percepcAo de toda invenqAo literg-
de injustica- ria. A biografia literAria de Lilia 6 coerente
nova pedra cor seu livro anterior, o primeiro, cor sua
Alrio Fausti- produg~o po6tica, e a revela como uma in-
sua morte. telectual madura, de dimensao national.
ografia lite- Ela tornou o tema ainda mais fascinan-
seguiu todo te do que ji era (e continue a ser). Mirio
iou na Uni- Faustino foi m6ltiplo e foi competent em
erais, confe- cada uma de suas faces. Jornalista desde os
em letras. 17 anos, antes mesmo de criar os pr6prios
sivel na for- versos (cuja descoberta foi simultAnea com
breve pelo a tradugAo de versos alheios, em vArias lin-
piblico tera guas), "fez o mais igil e inteligente jorna-
Imente ino- lismo literirio do Brasil", nas pAginas do
de consult Suplemento Dominical do Jornal do Brasil
Faustino, a entiree setembro de 1956 e dezembro de
po6tica ao 1958, quando, por discordar da nova ori-
e luzes, en- entagio editorial e sem Animo para enfren-
bor imagis- ta-la, decidiu sair).
itivos. Uma Mario, porem, nao se emparedou entire
livros ou ficou restrito ao circuit cultural
)ssibilidade desse tipo de jornalismo. Durante sete anos
a literiria e foi secretArio da Folha do Norte, cargo que
grafia". Fez equivale ao de maestro e carpinteiro da
rastreando redagio. A vida toda o interessava, nao s6
s e os obje- o que os beletristas costumam chamar de
dos na bi- "manifestacOes do espirito". Quando retor-
lito Nunes, nou ao JB, em 1962, foi ser seu principal
na relag o editorialista, numa 6poca em que a folha


6 ABRIL DE 2004 I- QUINZENA Jornal Pessoal












em biografia literaria


da Condessa Pereira Carneiro era quase
uma biblia (e um serpentario) do jornalis-
mo brasileiro.
A multiplicidade de experiencias pro-
fissionais e pessoais, e o cosmopolitismo,
distinguiram Mario dos demais integran-
tes da geracAo belenense do Cafe Cen-
tral, que surgiu no p6s-guerra de 1946
(quando Haroldo MaranhAo funda o Su-
plemento Literirio da Folba do Norte) e
se mant6m em plena atividade at6 o gol-
pe military de 1964 (embora se deva admi-
tir que alguma coisa de empobrecedor
ocorreu quando Mario se foi de vez de
Belem, em 1957, e a Universidade Fede-
ral do Para surgiu, no ano seguinte).
Como Rimbaud ou Btichner, Mario pa-
rece ter sido daquelas pessoas que tnm
consciencia de sua preocidade tAo profun-
damente quanto da sua brevidade. Por isso
foi intense, apaixonado, desbragado. "Os
poemas de Mario Faustino delimitam esse
espaqo de pr6-visao e ligam o olhar do
poeta ao de um adivinho o home divi-
no, que ter o dom de adivinhar -, na acep-
cAo 6rfica do vate antigo ou do profeta
romAntico", observa a critical.
Uma das fotos que serve de baliza para
o rastreamento biogrifico registra sua lei-
tura entiree o natural e o posado) de "O
poqo do Visconde", de Monteiro Lobato,
aos 7 anos. Aos 9, jA aprendia ingles (lin-
gua que se orgulhava de manejar como a
sua lingua de nascimento). Aos 10, trocou
Teresinha, capital do Piaui, onde nasceu,
por Bel6m, a cidade na
qual amadureceu e que o
marcarA para sempre, ao
long de 16 anos. Aos 19
anos, as cr6nicas que es-
creve para uma coluna,
"Vida Social", em A Pro-
vincia do Pard, entire 1947
e 1948, revelam "um vo-
cabulario modern e be-
lissimo", atesta Lilia.
Foi um pouco antes
que seus primeiros poe-
mas receberam a primei-
ra e consagradora cri-
tica de Francisco Paulo
Mendes. Vinte anos mais
velho, o professor Men-
des, um apaixonado por
poesia (e por Arthur Rim-
baud), se realize no jo-
vem poeta, no qual pro-
jeta todos os sentiments
e expectativas, numa
"amizade diferenciada",
como Lilia a define, que
se aprofunda e se rompe ,
quando Mario decide ir
para os EUA, contra a po-
siqAo do mestre. A recon-
ciliagAo, em outro piano,


s6 acontecera em 1961. JA sem diferen-
ciamento afetivo.
Nesse moment Mario 6 o autor de um
livro inico, O Homem e sua bora. Onico
que langou em vida. Unico por ser a singe-
la vertente brasileira do modo poundiano
de fazer poesia, inovador na forma de trans-
mitir, em linguagem vanguardista, mitos se-
culares, tomando as matrizes gregas para
assinalar o modo de ser contemporAneo,
tudo dito com erudigAo e profundidade por
um poeta (ainda) de provincia de 26 anos.
0 Homem e sua bora aguardaria 10 anos
por uma segunda edig~o, enriquecida por
Benedito Nunes com poemas in6ditos e uma
criteriosa introdugCo (quatro anos depois
da morte do autor). Em meio s6culo, ape-
nas tres livros de poesia de Mario. Enquan-
to pululam e se multiplicam edic6es e ree-
dioges de poetas menores.
Parece haver receio em confrontar a obra
(que se pulverizou nos iltimos seis anos,
entire versos inacabados e um grande pro-
jeto que nAo se realizou, o livro A Recons-
truado), entrelacada A vida de Mario Faus-
tino. Talvez pelos temas dominantes na sua
poesia: amor e morte. Temas que se fun-
dem no amor homosexual, que equivale a
morte social. E ter condenado um poeta
tao singular a quase clandestinidade, da
qual essa bela biografia literaria produzida
por Lilia Chaves pode ajudar a liberti-lo,
tirando sua alma da involuntAria prisao na
qual simbolicamente ela foi confinada, em
Cerro de Las Cruces.


EIKE PERDE

E GANHA

O empresario Eike Batista perdeu
sua Luma e parte do seu
patrim6nio, cedido a ex-esposa.
Mas nem por isso deixou de fazer
bons neg6cios. Por 105 milh6es de
d6lares ele vendeu sua mina de
ouro no AmapA para a canadense
Wheaton River, recebendo US$ 25
milh6es em dinheiro vivo e o
restante em ac6es da empresa.
Imediatamente se tornou s6cio de
uma outra mineradora canadense, a
Canico, comprando 10,3% de
participacgo na mina do Puma-
Onga, em Carajis, o maior dep6sito
de niquel do pais, de expressAo
mundial. A pr6pria Canico possui
76% e a Inco os restantes 13,7%.
Cor investimento de US$ 600
milh6es (1,7 bilhao de reais), o
projeto deverA entrar em operacao
no final de 2006, produzindo, na
etapa final, 2,5 milh6es de
toneladas anuais de niquel. A jazida
e de 50 milhOes de toneladas, cor
2,3% de niquel e 0,11% de cobalto.
Consolo 6 o que nao faltarA ao
novo solteiro.


IMMORTAL
Se algu6m mereceu entrar para a
Academia Paraense de Letras (seja la
o que isso signifique) foi o livreiro
e cronista Denis Cavalcante. Todos,
dos amigos aos desconhecidos, se
surpreenderam com o empenho dele
para se tornar imortal, manifestado
tanto nas sessoes de aut6grafos
quanto at6 mesmo na cozinha, onde
ele se sai bem, entire talheres e
tempers. O resultado 6 que nunca
a dispute por uma vaga foi tao
noticiada, acompanhada e
propagada. Se Denis fizer dentro da
APL o que fez fora dela, nao vai
haver cadeira para tanto
pretendente nas pr6ximas eleigOes.


Journal Pessoal i- QUINZENA ABRIL DE 2004 7










CARTA

e estranho o comportamento da socie-
dade paraense. Nao repercutiu neste rin-
cao do Norte, como seria correto, a
noticia do indecoroso projeto do Sena-
dor Jose Sarney, estendendo os favors
da Zona Franca de Manaus ao Estado
do Amapa e a todos os municipios da
Amaz6nia Ocidental. Afora a proficua e
responsavel abordagem desse Jornal
Pessoal (n 316), tivemos algumas ma-
terias pontuais na imprensa escrita, fa-
lada e televisiva deste imenso Estado
Amaz6nida e que, de certa forma, de-
nunciam a nossa apatia e descaso dian-
te da enormidade do monstro gestado
nos bastidores do Congresso Nacional.
O estado e a sociedade, de um modo
geral, precisam despertar para o future
crescimento e desenvolvimento; enfim,
trabalhar e agir de forma ordenada, de
modo a atingir o estigio que certo pen-
sador chamou de "o mAximo de vida",
isto 6, a realizaqlo pr6pria. O Ceard e o
MaranhAo estAo chegando li, mesmo
n~o possuindo o potential de riqueza
do nosso subsolo.
Um outro assunto a comentar, mui-
to oportuno no meu entendimento,
seriam as seqiientes alfinetadas corn
preconceito aberto que esse redator
vem disparando, nao s6, e especifica-
mente, no metalirgico eleito president
pelo principio democrAtico do voto
universal tambem no partido dele e
naqueles que o ap6iam. O que, aliis,
nao 6 prerrogativa exclusive desse jor-
nalista. A imprensa, de forma generali-
zada, esti ajudando a sociedade brasi-
leira a provar o que muitos negam,
mas 6 uma verdade insofismavel a
sua intolerancia e aversAo irracional a
determinadas ragas, credos, religioes e,
principalmente, a pobreza.
O Oltimo petardo veio sob o titulo
"Lingua presidential", JP citado, pAgi-
na final. As critics as viagens e a aqui-
sigAo do Airbus presidential, e ate
mesmo aos programs socials sao pro-
cedentes, contudo sao facilmente con-
testAveis. Como o espago nao 6 pr6-
prio, nao you ampliar a temrtica, fica
apenas a posigo deste incorrigivel lei-
tor. Quanto as trocas acres em cima
do monoglotismo do president tornei-
ro-mecanico, deixo-as sem as explica-
qOes 6bvias, mesmo porque conside-
ro-as como parte, meio e fim dos con-
flitos e diferencas sociais, que fiz alu-
sao no parAgrafo anterior.
Para terminar, nao acho que o co-
nhecimento seja "algo simb6lico", ele
represent a vit6ria do individuo so-
bre si mesmo. O verdadeiro saber ter
de ser autentico e despido de senti-
mento de culpa, s6 assim conseguimos
afastar as mesquinharias passageiras.
Rodolfo Lisboa Cerveira

MINHA RESPOSTA
* A segregacdo social semprefoi, no Bra-
sil, maior do que a discriminaVdo racial.
A tardia libertaago dos escravos, no rei-
nado de um imperador, que, em outras
circunstancias, seria um dirigente escla-
recido e hlcido, foi sucedida pelo apar-
theid social. 0 escravo africano humilha-
do e ofendido encontrou nosEstados Uni-


Responsabilidade social:




para consume externo


A Delta Publicidade 6 uma das empresas
mais poderosas do Para. Isso, pelo simples fato
de editar o journal 0 Liberal e integrar as Orga-
niza oes Romulo Maiorana, que lideram as co-
municaq6es no Para. O poder da Delta Publi-
cidade e das ORM e sua significacgo empresa-
rial sao conhecidas de qualquer um. Mas nin-
guem haverA de ter uma avaliacAo correta dessa
dimensdo atrav6s da leitura do seu balan.o.
Numa 6poca em que as empresas se preo-
cupam cor sua responsabilidade social, aten-
tas as suas relac6es corn a comunidade, a lei-
tura do balanco da Delta Publicidade confir-
ma a presuncgo de que os compromissos eti-
cos, morais, mercadol6gicos, econ6micos e ne-
gociais da empresa nao passam de jogo de
relac6es p6blicas. A responsabilidade social e,
para ela, matdria a tratar da porta para fora.
Nunca para dentro.
O Didrio Oficial do dia 30 trouxe as 6lti-
mas demonstrates financeiras da Delta Pu-
blicidade. Mas elas se referem apenas ao peri-
odo 2001/2002. Nao alcanaam o exercicio do
ano passado. Legalmente, a lacuna nao acar-
reta nenhum 6nus. Mas revela desatenqgo, des-
leixo, desapreqo A opiniAo pdblica, pecado
mortal para quem 6 um formador de opinion.
Alem de atrasadas, as demonstrates finan-
ceiras apresentadas pela Delta Publicidade no
seu balanco sao tAo magras, tao restritas ao
elementary, que impossibilitam qualquer andli-
se mais aprofundada dos niimeros ou tirar, a
partir deles, um quadro exato da atuagao da
empresa e do seu equilibrio econ6mico-finan-
ceiro. No mesmo caderno do DO no qual as
contas de 0 Liberal ocupam dois tercos de uma
unica pigina, o balanco da Rede/Celpa se es-
tende por 15 paginas.
A abundancia demonstrative das contas da
empresa de energia, que 6 uma sociedade an6-
nima como a empresa da familiar Maiorana, per-
mite ao cidadao, que 6 ao mesmo tempo con-
sumidor, client, leitor e eleitor, tomar a insti-
tuicgo privada em si, como uma entidade com-
plexa, e no seu context operacional, al6m de
usa-la como referencia para pelo menos uma
parte da atividade econ6mica no pais.


Esse 6 o sentido contemporaneo dos ba-
langos, que as demonstrates da Delta Pu-
blicidade, empresa cujo produto 6 a infor-
macAo e o destinatario 6 a sociedade como
um todo, amesquinham. Embora o mercado
seja uma via de mao inica para os Maiora-
na, 6 lamentAvel que se tome conhecimento
de uma pega contibil tao pobre como essa
sem poder obrigar os que a produziram a
levar mais a s6rio a prestacgo de contas ao
pdblico. Certamente uma verdadeira socie-
dade an6nima, corn alguma expressAo em
bolsa e maior densidade social ou comuni-
taria (nao apenas para faturar dinheiro e
prestigio), haveria de se arrepender amar-
gamente de entregar para publicacgo um
document tao canhestro.
Quem ler as demonstrates da Delta Pu-
blicidade ser saber o que esta por trds de
sua razAo social imaginary que se trata de
uma empresa familiar muito amadora, corn
dificuldades ou corn desinteresse pela lim-
pidez das suas contas. O balango 2001/2002
revela, de qualquer modo, que o faturamen-
to da controladora de O Liberal caiu, no
period, de 28,7 milhoes para 25,6 milhoes
de reais (mais de 10% de reducAo). Mas o
prejuizo liquid foi drasticamente reduzido,
de R$ 5 milh6es para R$ 130 mil.
A melhoria do desempenho a despeito
da queda de faturamento talvez se deva As
reserves de reavaliacio do ativo (saldo de
R$ 16 milhoes) e, sobretudo, ao parcela-
mento de impostos federais, que foi de R$
15 milh6es em 2001 e pulou para R$ 25 mi-
lh6es em 2002. Ou seja: al6m de reduzir
seus custos, a empresa enfrenta seus pro-
blemas operacionais empurrando-os corn a
barriga. Nao 6 uma t6cnica la muito saudi-
vel ou confiAvel, mas o que se esperar de
uma empresa que se apresenta com um
balanco desse porte?
Certamente se estivesse do outro lado do
balcao, a Delta Publicidade teria recebido bola
preta de O Liberal. Isto 6: se o journal ainda se
preocupasse cor essas coisas de nimeros exa-
tos e demonstrates convincentes.


0 a 0 0 aee .Oe OOeee Oe Oeeeegeeeea* e O a 60 0 0 0


dos um mercado mais receptive do que
no Brasil. Por isso, essa political de cotas
para o negro e uma resposta tosca aopro-
blema principal, eco difuso da conscidn-
cia culpada. Seria mais eficiente uma
political de bolsas e saldrios, de credito e
capital. Mas n6s, os brancos, e n6s, a eli-
te, ndo largamos a rapadura. Aqui neste
espago, contuido, se temfeito um razod-
vel esforpo em defesa da divisdo da ra-
paura, para usar uma metdfora de acor-
do cor o cardapio do Planalto.
Minhas critics ndo sdo ao torneiro-
mecanico. Sdo ao president, ndo im-


sobra nele o que tambbm excedia em seu
antecessor: ret6rica. A de Fernando Hen-
rique era poliglota. A de Lula, monoglo-
ta. Ambos se tornaram merecedoras das
critics que aqui lheforamfeitas. E das
muitas que se multiplicam em outros siti-
os, ndo tantos nem tdo 6bvios. A bom lem-
brar que numa unica edicdo de 0 Globo
(divida de 6 bilb6es de reais, metade da
qual emprimicias definanciamentopelo
BNDES) sairam oitofotos do president.
Nem meu amigo Irawaldyr Rocha (que
Deus o tenha) conseguiria tanto.
0 resto e apluralidade; que elapersista.


ABRIL DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal


porta a sua origem social. Lamento que
Lula ndo tenha aproveitado 14 anos de
continue campana eleitoral e dedica-
ado integral a political para se enrique-
cer, adensar, adestrar. Continuou esse
formiddvel lider carismdtico, de instin-
tos afiados, que nos impression. Mas
ndo bastam esses dons para conduzir a
esfarrapada nau brasileirapelasproce-
las que a atormentam.
Estamos vendo que bd um vazio por
dentro de Lula, vazio que as companhi-
as, assessorias e suplementap6es jd ndo
conseguem esconder. De certa maneira,












Jari: a hora da verdade


A Jari Celulose requereu ao Conse-
lho da Magistratura do Tribunal de Jus-
tiga do Estado que "declare incabivel o
pedido de cancelamento das matriculas
de terras de suas propriedades e posses",
determinado, atrav6s de provimento, pela
Corregedora da Justiga das Comarcas do
Interior, Carmencim Cavalcante (ver Jor-
nal Pessoal 319 e 320).
Alega a empresa que o ato foi baixa-
do pela desembargadora sem estabele-
cer o direito de defesa e o contradit6rio,
como mero procedimento administrati-
vo interno, quando seria necessario re-
correr a via judicial para efetuar o can-
celamento. A Jari pediu que o conselho
conferisse efeito suspensivo ao seu re-
curso, "dado a gravidade e a complexi-
dade dos atos praticados".
Mais grave foi o ato precedent: num
cart6rio que nao 6 o da comarca de ju-
risdigAo da area, a empresa conseguiu o
registro de todas as suas terras nao le-
galizadas ou legitimadas atrav6s de uma
unificagAo (de 950 mil hectares), proce-
dida sem mediqAo e demarcacAo e sem a
instauragAo de um process judicial. De
certa maneira, agindo como se fosse ente
pdblico, a empresa cometeu o delito de
que agora se diz vitima: de agir internal
corporis, sem ouvir ningudm, para trans-
formar 82 glebas em uma inica proprie-


dade. Com a agravante de que
a Jari 6 uma empresa privada
e nao uma entidade piblica.
Enquanto fazia esse re-
membramento caricato, a
empresa mantinha no Iterpa
o process de legitimagAo de
outras 32 glebas. A legitima-
cao foi iniciada em 1976. Num
long parecer dos advogados
Carlos LamarAo Corria e Con-
stantino Barahuna, o Iterpa
firmou imediatamente a posigAo de que
o maximo a que a empresa teria direito
seria um total de 60 mil hectares. Toda
aquela papelada era composta por titu-
los de posse, que equivaliam a autoriza-
g6es oficiais para a ocupagSo de terras
devolutas por particulares. S6 depois de
medidas e demarcadas, corn a confirma-
Cgo dos atos pelo poder pdblico, 6 que
as terras se tornariam de dominio priva-
do. O que nao aconteceu cor essas gle-
bas da Jari.
Em seguida o process de legitimagio
foi avocado pelo Gebam, 6rgAo criado na
estrutura do Conselho de Seguranga Na-
cional para examiner as questOes de ter-
ra no Baixo-Amazonas. O process vol-
tou a Bel6m sem qualquer mudanga. A
Jari nao se interessou em reativA-lo por-
que seu objetivo ja estava garantido: man-


ter as terras sub-judice para que seu su-
posto direito fosse preservado quando o
prazo para a legitimaqao chegasse ao fim,
como viria a ocorrer em 1995.
Agora que a unificagao illegal foi des-
feita, o Iterpa deu mais 30 dias para a
Jari apresentar suas razoes finals e de-
cidir sobre a media mais acertada para
o caso. Que parece ser id&ntica a da
corregedora do interior: determinar o
cancelamento dos registros e matricu-
las, indevidamente efetuados no livro
de propriedade.
Quanto a posse efetiva das terras, jA
6 hora de o poder pdblico fazer uma dis-
criminat6ria no vale do Jari para reco-
nhecer os direitos de quem os possui (in-
clusive a empresa) e acabar com os ex-
cessos de direitos que nao existem, mas
sAo proclamados como existentes.


Vai-se o mestre


Na segunda metade da d6cada de 50
um grupo de intelectuais paulistas deci-
diu enfrentar um desafio: ler todo DasKa-
pital, a 6pera maxima de Karl Marx, mui-
to citada e pouco lida. Nao havia no Bra-
sil naquela 6poca uma traducAo comple-
ta do livro, Os argonautas tive-
ram que enfrentar textos em in-
gles e frances. Mas deram conta
do recado em semindrios sema-
nais, que se sucederam ao Ion-
go de dois ou tres anos.
Transpostos os limits desse
inferno dantesco, formaram o
"grupo da USP" e, depois, do
Cebrap. A partir daf houve a di-
aspora, que comecou no mun-
do academico e se estendeu pela
rinha political. No v6rtice dos
confrontos e dissens6es estava
o mais bem-sucedido deles, com
um sucesso que ningu6m (nem
o pr6prio) poderia ter previsto
naquela 6poca: Fernando Hen-
rique Cardoso.
Mesmo quando ja comerava
a se desviar de varios dos seus
companheiros de viagem, FHC
ainda aparecia ao lado deles

Jornal Pessoal I- QUINZENA ABRIL DE 2004


simbolicamente, como na dedicat6ria que
Florestan Fernandes, mestre de todos, fez
para um dos seus livros mais ousados, "A
revolu go burguesa no Brasil", de 1974.
Por coincidencia, o nome seguinte ao de
Fernando Henrique na dedicat6ria 6 o de
Octavio lanni. JA entAo havia
p) meio mundo a separd-los. De-
pois, mundo e meio.
Mas houve um moment em
que nenhuma de suas diver-
gencias de id6ias seria capaz de
impedir que usassem suas in-
teligencias a service do enten-
dimento deste pais pantagru6-
lico. Tempo no qual nao esta-
va ao alcance dos apetites dos
intelectuais tomar o poder,
S apenas estudi-lo (que isso sir-
va de mote para as liOges eter-
nas de Maquiavel).
Agora a separagSo tornou-
se definitive. Ianni morreu, na
semana passada, aos 77 anos,
Sde cancer. S6 quem alguma
vez lidou cor ele pode avali-
ar a extensao da perda. Os
mais antigos devem-lhe mui-
tos creditos, extensivos a FHC,


pela coletanea "Homem e Sociedade",
uma proveitosa iniciag~o a uma sociolo-
gia critical. Para mim, a maior contribui-
gAo intellectual de lanni foi "O Colapso
do populismo no Brasil", de 1968, que
nos serviu de guia para iluminar o pas-
sado exatamente quando o future come-
cava a ser engolido pela nevoa do que
viria a ser conhecido como a era do
chumbo, d'apres AI-5.
Foi depois desse livro que lanni es-
creveu uma trilogia sobre a ocupagAo da
Amaz6nia. Ela reflete o trabalhador incan-
sAvel que ele foi, leitor de bibliografias
bem selecionadas. Os tres livros sAo bons
roteiros de leitura e suscitadores de ques-
toes. Mas lanni nunca chegou ao Amago
da regiao, que, de qualquer maneira,
abandonou depois. Mas as conversas que
o foco sobre a Amaz6nia suscitaram nos
contatos cor ele foram tremendamente
proveitosas. Ianni sempre foi um grande
professor e um animador admirivel, mes-
mo quando esgrimindo iddias e teses
equivocadas. Fez por merecer o titulo de
mestre, cor o qual encerra sua participa-
cAo ativa na hist6ria, mas nao a inspiragao
com a qual sopra criatividade sobre os que
continual deste lado do espago.


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Russos
* Os cientistas russos que
participavam de um cruzeiro
de pesquisa nao puderam des-
cer do navio Zarja, que atra-
cou em Belem em janeiro de
1958. A policia civil os man-
teve sob several vigilAncia
dentro da embarcagAo, cum-
prindo ordem do Ministerio
das Relag6es Exteriores, em-
bora os sovi6ticos tivessem
seus passaportes carimbados
pelo Departamento de Estado
dos Estados Unidos. Nao pu-
deram gastar um rublo sequer
na cidade, que viram a partir
de um inc6modo camarote.
Nesse tempo a Rissia ainda
era UniAo Sovietica.


PROPAGANDA WAeT

Bandeiras unida

Uma (rara) campanha publicitAria realizada em
1972 procurou unir os torcedores dos tres gran-
des clubes paraenses de futebol em torno de uma
meta comum: "mostrarmos que a terra de Assis,
Oliveira e Manoel Maria ter futebol e ter ren-
das para participar dos grandes torneios deste
Pais tri-campeao". A terra nao continuou tao f6r-


Predio
0 primeiro edificio de Be-
16m cor garage subterrAnea
foi o "Gilberto Mestrinho", com
21 andares (e 90 apartamentos,
cada um corn sua vaga de ga-
ragem), que o engenheiro Ocyr
Proenga comerou a construir
em Batista Campos, em 1967.
Nessa 6poca, Ocyr (dono da
Atinco, inddstria de tintas, e da
Metaldrgica Riomar) ja havia le-
vantado os edificios Lilian Li-
cia e Katole, em Mosqueiro, e
Uirapuru (tamb6m na Batista
Campos), Santa Clara e Ism&-
nia. Na mesma 6poca estava
construindo o "Infante de Sa-
gres", na rua Manoel Barata,
para escrit6rios.


3u0 6 ohmboi p.mame -.
VAMOS .0
ett Cunpwronto Nacionrl do ts ms.
fI f^WO S ampk omnpeti#ao nure club1.
C a aportunaade de a
SrUN qc a trra de Asis, Oliveita e Maod Maria
tam ftubol scr rendM prT pn pticipr'dos
JU N IR : s Btxorntiioi deie PA tri-camptiao.
Dnm pnstrtr isO 6 rlpoambilidlde
SA ed9e tob -c trurcsdort pan Atic., .jam
fel do Rmao, PainlmWi ou da Turi.
Porlafmo Vn w r t Eida
A S wpclotr o Evmtno
Alnwih" w m tadot
at jogw do Cmuponatoit
Naional
TORCIDAS* Vaa icnotvr
vi6rima de unm
E 0 PARA OUE ESr vA m
case P ra
-EM 1I1 tcontiriur t quwecdo na
Ai puepb cofamppa
V do im"b blaskrO.


til em craques, mas as rendas continuaram a afluir,
ou a serem desviadas, e nem por isso o Para dei-
xou de "continuar esquecido nas principals com-
peticOes do futebol brasileiro". Pelo menos na
peca da BBA as bandeiras de Remo e Paissandu
apareciam juntas na mesma arquibancada (e duas
da gloriosa Tuna Luso Brasileira).


Barata
* O tema do Imperio de Samba
Quem SAo Eles no carnaval de
1962, o 16i da sua hist6ria, foi
"General Magalhaes Barata, sua
vida e sua obra". Quatro carre-
tas desenvolviam quadros sobre
a vida do politico mais podero-
so da repdblica no Para, que
morrera tres anos antes: o tenen-
te revoltoso; ascensAo ao poder;
ultimo adeus ao povo paraense;
minha obra sera continuada.
O samba-tema, de Fagun-
des de Abreu e Umbelino Mar-
tins, terminava com a quinta
estrofe assim:
"O Imperio orgulhoso
em sua homenagem
Que esta obra
ha de continuar
E a este povo
que hoje ainda chora
A falta do grande
chefe do Para".

Bloco
As irmAs Maria da Graga e
Lena VAnia Dantas Ribeiro or-
ganizaram o bloco carnavales-
co "Banzo Aie", que fez suces-
so em 1962. Na companhia de-
las estavam Maria Alice Moura
Carvalho, Maria Cristina Lobio
e Silva (rainha dos brotinhos do
Autom6vel Clube), Eliana Ser-
ra, Telma Magalhaes, Ruth Si-
queira, Ana Rosa LeAo, Helena
Cordovil, Ruth Macedo e Ana
Ldcia Costa. O bloco estreou no
traditional Baile das Mascaras,
da Assembl6ia Paraense.

Mogno
De volta de uma visit a re-
giao de Marabi, em 1966, o en-
tao deputado federal Gabriel
Hermes Filho (que havia sido
president do Banco da Ama-
z6nia e seria president da Fe-
deracAo das Indistrias do Es-
tado do ParA durante 40 anos,
desde a fundaqao da entidade)
escreveu um artigo dizendo ter
ouvido denincia "contra o es-
trago das matas" pelo Servigo
de Proteg~o aos Indios, ante-
cessor da Funai.
As autoridades locais recla-
mavam que o SPI continuea a
pouco produzir e, agora, inex-
plicavelmente, vendeu das
vastas terras da sua jurisdigAo
mil e quinhentos p6s de mog-
no a Cr$ 1.500 cada. O prego
6 ridicule e, segundo os infor-
mantes, a operacgo condend-
vel", escreveu Gabriel, prome-
tendo apurar os fatos.
Quanto p6 de mogno,
como dizia o parlamentar, nao
saiu da Amazonia a prego de
folha de alface?


ABRIL DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal









Teatro
* Cacilda Becker e Walmor
Chagas passaram por poucas e
boas quando realizaram uma
temporada no Teatro da Paz
cor o espetaculo "0 home e
a mulher", em dezembro de
1966. Primeiro precisaram fazer
uma sessAo especial para um
inico espectador: a censora fe-
deral Selma Chaves. No palco
- e nao na plat6ia, como seria
de se esperar ela assistiu a
toda a encenag~o antes de li-
berar o espetaculo.
JA na apresentagAo da pega,
Cacilda foi surpreendida por um
fot6grafo pra l1 de azeitado, o
future vereador Emanoel 0 de
Almeida, jA falecido. Vindo dos
bastidores, "Pipira" invadiu o
palco em busca de um angulo
melhor para sua foto. Tomou
um susto quando a grande dama
do teatro brasileiro se virou,
dedo em riste, col6rica, gritan-
do foraa!", foraa!", para expul-
sar o intruso de seus dominios.
Flash debaixo do sovaco, Ema-
noel escafedeu-se.
Retaguarda limpa, Cacilda
voltou-se para a plat6ia (e para
Walmor, que se mantivera esti-
tico, a espera da partner reas-
sumir seu papel) e retomou sua
fala, imperturbavel. Raros espec-
tadores perceberam que aquela
cena nao estava no script.


Estudante
* 0 advogado Alarico Barata
(pai do poeta Ruy Barata) pre-
cisou requerer a um habeas cor-
pus para que o acad6mico de
Direito Pedro Augusto C6sar
Portugal pudesse fazer os exa-
mes finals, concluir o curso e
colar grau, em 1966. Pedro foi
preso pelo DOPS, sob a acusa-
gao de pichar paredes. Mas o
promoter pdblico Jaime Lama-
rAo aceitou o argument do
advogado do estudante, de que
o ato de Pedro "nao provocou
animosidade entire as Classes
Armadas ou contra elas, ou de-
las contra as classes ou institui-
c6es civis".
Coisas dos anos de chumbo.









Imprensa
* O mesmo promoter nao aco-
lheu a pretensao do secreti-
rio de seguranqa piblica do


.,"- 'o : .


* .. .- L-T
.w ^Wbb


FOTOGRAFIA

Avenida na selva

Flagrante de setembro de 1966, quando o
entAo prefeito Ajax d'Oliveira levou os jorna-
listas para visitar a abertura da avenida Du-
que de Caxias, ainda em obras. Seria uma via
de tracado original para o padrAo da cidade:
pistas laterais de trifego ocupando menos es-
paco do que a area central, reservada para o
ajardinamento. No future, se o movimento jus-


tificasse, o vasto jardim central seria encurta-
do para a construcgo de mais tres pistas. O
que nao ocorreu at6 hoje. A avenida levava o
trinsito para uma area ainda fracamente po-
voada e pouco urbanizada. Ainda havia atW
uma floresta alta, como se pode ver no fund
da foto. Em quatro d6cadas a paisagem foi
completamente transformada.


*eeeeeeeeee.eeeOOeeeee eeOeeeeeee


Estado, coronel Jose Maga-
lhAes, na mesma 6poca. O co-
ronel queria que o Minist6rio
Piblico obrigasse o journal A
Provincia do Pard a identifi-
car o autor de uma noticia que
publicara, sob o titulo "Estu-
dantes fizeram o congress no
Coqueiro e encenaram a peqa
na UAP". A UAP era a UniAo
Academica Paraense, que ain-
da sobrevivia no regime mili-
tar (seria extinta depois), e o
congress de estudantes era
tido como illegal.
O promoter considerou
descabido o pedido de exibi-
cao do aut6grafo do jornalista,
por falta de amparo legal, com
base numa interpretaqgo bern
engenhosa da Lei de Imprensa
(ainda estava em vigor a de
1953, que seria substituida por
um texto muito mais drdstico,
no ano seguinte): "Ora, se a Lei
que regulamenta a materia nao
cogita da exibicgo de aut6gra-
fo, pois o artigo 27 da mencio-
nada Lei, nao permit o anoni-


mato, 6 claro que esta Promo-
toria, como fiscal da Lei, nao
poderA fugir a essa regra".

Arquitetos
* Os 13 concluintes da segun-
da turma do curso de arquite-
tura da Universidade Federal do
Para, em 1969, nao quiseram
festa de formatura ou qualquer
solenidade: limitaram-se a ir a
secretaria do curso buscar o
canudo. Seria a ultima turma a
concluir os estudos na antiga
sede da arquitetura, na avenida
Almirante Barroso (onde esta
atualmente o Clube Monte Li-
bano). No ano seguinte as au-
las passariam a ser dadas no
campus do Guami.
Os novos arquitetos de 35
anos atrAs: Armando Diogo Cou-
ceiro Filho, Ldcia Bastos dos
Santos, Dirce Maneschy Correa,
Edineuse Anglada Uchoa Con-
te, Geraldo OctAvio MergulhAo
de Oliveira, Guilherme Henri-
que de Menezes Lobato, Jaime
de Oliveira Bibas, Jorge Raimun-


do Rodrigues Valle (o Jorgito),
Lia Leite Berger, Paulo de Arai-
jo Leal Martins, Maria Lobato
Tavares e Zilda Lobato Pereira.

Cerveja
* A Cerpa Export, mais conhe-
cida como Cerpinha, vai fazer
35 anos. Ela foi lancada pela
Cerpasa em dezembro de 1969,
tornando-se seu produto de
maior prestigio. A Cerpa ja fun-
cionava havia tres anos quan-
do decidiu criar um produto
engarrafado em vasilhame pe-
queno (dai o nome com o qual
se popularizou). Al6m disso, a
garrafa teria um colarinho de
papel metAlico dourado, ele-
gante como um champanhe. E
teria um paladar especial, mais
leve, al6m de ser mais encor-
pada. A Cerpasa, que comega-
ra produzindo 80 mil garrafas
por dia, ja entAo havia chega-
do a 240 mil garrafas diirias de
cerveja. Os dois cervejeiros
eram alemaes: Paul Nothaff e
Dietrich Niehaus.


Jornal Pessoal I QUINZENA ABRIL DE 2004 11


1: a I 1 11 1 1,









INVERSAO
Estranha forma de fazer jornalismo a de 0 Liberal.
Enquanto os jornais do sul noticiavam que o senador Luiz
Otivio Campos sera processado pelo Supremo Tribunal
Federal, acusado de envolvimento no desvio de 13 milh6es
de d6lares, concedidos pelo Banco Nacional de
Desenvolvimento Econ6mico e Social (BNDES) e repassados
ao Banco do Brasil para a construcgo de 13 balsas pela
empresa de seu sogro e da qual ele era director em 1992, a
folha dos Maiorana abria a noticia dizendo que o senador
estava feliz porque, finalmente, ia poder defender-se da
acusagAo na mais alta corte da justiqa brasileira.
Assim, o fato novo, que foi o recebimento da
dentincia, ficou escondido atris de fato incerto e nao
sabido, a alegria quase exultante do "senador do
governador" de ser processado pelo STF. Ora, at6 agora
Luiz Otavio jd falou e foi ouvido diversas vezes, mas em
nenhuma delas convenceu a opiniao pdblica sobre sua
inocencia no crime, que consistiu em repintar como
novas velhas balsas da Rodomar e apresentd-las como se
tivessem sido construidas (pelo estaleiro Ebal, dos
Gueiros) com o dinheiro pdblico emprestado.
Conseguird o senador do PMDB, em juizo, o que nao
conseguiu fora dele, em entrevistas a imprensa ou
fugindo dela, ao menos da imprensa que nao confunde
jornalismo com agAo entire amigos e trAfico de
influincia (ou coisa pior)?


ITA
Seis dos 35 ex-alunos do ITA (Instituto Tecnol6gico da
Aeroniutica) que foram expulsos da escola pormotivo
politico, entire 1964 e 19'5, nao conseguindo Completar
os cursos que estavam fazendo, terdo agora direito a
colar grau e receber seus diplomas. Os restantes ainda
precisarAo aguardar para que a decisao, adotada na
quinzena passada pela congregacgo da instituigAo,
uma das mais conceituadas do pais, seja estendida
tamb6m a eles. Mas continuarAo a luta por seus
direitos em torno do Grupo dos SAbados, formado por
ex-alunos (ver Jornal Pessoal 318).
Ao conferir o diploma ao primeiro grupo, a direcao do
ITA reconheceu o erro cometido pelo institute e reparou a
injustiga. Alunos brilhantes, os 35 estudantes foram
punidos por suas id6ias e militancia political. Nenhum
deles cobrou indenizagAo pelos prejuizos sofridos,
limitando-se a usar a campanha pelo diploma como uma
forma de forgar a revisao da decisao, adotada durante o
regime military, a partir de 1964.
Um dos mais prejudicados foi Luis Esmanhoto: duas
vezes impedido de concluir a quinta s6rie, estigmatizado
pela expulsao, nunca mais conseguiu freqiientar um
curso superior. Mesmo sem diploma, 6 considerado um
dos mais brilhantes integrantes do "grupo dos 35".
Quando sair do ITA com seu diploma, ele estari
prestando contas a pr6pria biografia.


HAITI
O Haiti 6
aqui, procla-
mou Caeta-
no Veloso W1
numa misi-
ca que bem podia ser toma-
da como o hino do Brasil
p6s-globalizacao.
S6 neste nosso Haiti 14
cidaddos morrem de raiva
humana, como aconteceu
com habitantes de Portel,
em pleno s6culo XXI. A sad-
de p6blica estd entregue a
pr6pria sorte. Nao ha um es-
quema eficiente de notifica-
gAo nem uma pronta rede de
cobertura. A maioria das vi-
timas veio morrer em Bel6m,
como se os elos da aco pd-
blica entire a capital e o in-
terior nao existissem. Doen-
gas ji eliminadas da epide-
miologia do primeiro mun-
do ou que tem baixo impac-
to por aqui viram epidemi-
as mortais. As pessoas levam
dias, semanas ou meses do-
entes sem saber do que so-
frem. Quando chegam a um
local de diagn6stico ou aten-
dimento 6 para receberem o
atestado de causa morte.
Isto aqui 6 o Haiti mes-
mo. Sem precisar de coisas
formais como uma declara-
cgo de guerra.


MANGAL
A Engeplan tern at6 o dia 30 de ju-
nho para concluir o Mangal das Gar-
as, a mais recent das obras do ar-
quiteto-mor Paulo Chaves em Bel6m.
A prorrogaCao do prazo foi estabelecida no
sexto aditivo ao contrato, assinado em 2001 en-
tre a Secretaria de Cultura do Estado e a em-
presa. O valor da obra, ao lado do Arsenal
de Marinha, j. 6 de 7,3 milhoes de reais.


RECADO
Depois que apenas uma de
suas maos saiu, pendura-
da no ombro de sua espo-
sa, o deputado federal Vic
Pires Franco apareceu em
foto de corpo inteiro na co-
luna social de Isaac Soares.
Indicacgo de O Liberal de
que, contrariamente ao que
aqui se sup6s, o parlamentar
(ainda) nao voltou ao index
da familiar Maiorana. Nao esti,
portanto, proibido de apare-
cer nos veiculos da casa.


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