Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00266
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00266

Full Text






lornal


Pessoal


MAR(O DE 2004
2a QUINZENA
N 320 ANO XVII
R$ 3,00


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


S
S


MINERAPAO


Governo se mexe.


E erra.


0 governor do Estado convocou a toque de caixa o conselho de meio ambiente, antes que a
justigo o obrigosse a fazer isso, para examiner o licenciomento do projeto de bauxita do


CVRD. Mas tomou umo decisdo estapof6rdia: separou a lavra
Enfiou-se ainda mais no buraco do descredito.


do transport do minerio.


N queda-de-brago corn a maior
empresa privada em atuaqgo no
Estado, a Companhia Vale do
Rio Doce, o governor demorou
demais a agir. Perdeu o poder de iniciati-
va e foi atropelado pelos fatos, que fo-
ram se acumulando a sua revelia. A16m
disso, quando agiu, na semana passada,
agiu errado.
A 6ltima hora os integrantes do Con-
selho Estadual de Meio Ambiente foram
convocados para uma reuniAo extraor-
dindria, no dia 15. Por ter sido chamado
as pressas, para substituir o representan-
te que atuava no Coema em nome do
Minist6rio P6blico, o promoter Raimun-
do Moraes se absteve de votar. Explicou
que ignorava o conteudo do EIA-Rima
da CVRD, document que avaliou o im-
pacto ambiental da lavra, tratamento e


transport da bauxita a ser extraida da
jazida de Milt6nia, em Paragominas. Os
demais conselheiros aprovaram, unani-
memente, a concesslo da licenga pr6via
para o empreendimento. Mas se restrin-
giram a minerag~o propriamente dita. O
mineroduto seri apreciado na pr6xima
reuniao do conselho, provavelmente no
final do mes.
A realizagAo da reuniao, a toque de cai-
xa, tinha um prop6sito claro: evitar que o
governor acabasse sendo obrigado a cum-
prir sua obrigaqAo por ordem da justiqa,
chamada a intervir na questAo por uma
aCgo popular proposta pelo advogado Pa-
raguassu Eleres e por duas demands da
CVRD. Ordinariamente o Coema deve se
reunir, no maximo, a cada dois meses. Mas
sua iltima sessAo havia sido em junho do
ano passado, exatamente para tratar do li-


cenciamento ambiental para o projeto de
bauxita da Vale.
Depois disso, nunca mais o conselho
foi convocado. Informalmente, o gover-
no dizia que a licenga s6 sairia se a em-
presa compensasse o Estado por sua de-
cislo de instalar no Maranhdo e nAo no
Pard uma fibrica de places de ago, com
CONTiiiiNUA'' PAG2


MARIDO
DE LUMA
NO SERTAO
(PAG. 5)
'~ti~tiStS~iS~ii^^


'TINV









CONTINUA;AO DA CAPA
base em min6rio de ferro de Carajds. A
principal compensacao seria ajudar a ad-
ministracgo estadual a construir 30 mil
casas populares e obter recursos para um
Banco do Povo.
O motive declarado para a suspensAo
da apreciagAo do projeto da Vale foi um
pedido de vista do deputado Cipriano Sa-
bino. Integrante da base parlamentar do
governor, o deputado ficou cor o pro-
cesso durante oito meses. Foi para a reu-
niao do dia 15 cor um parecer e um
questionamento, que apenas reproduzi-
am a manifestacao da cAmara t6cnica da
Sectam (Secretaria de Ciencia,. Tecnolo-
gia e Meio Ambiente) e os terms de um
acordo firmado entire a Vale do Rio Doce
e a prefeitura de Paragominas.
O deputado podia ter apresentado
essa manifestagao ji na reunito de julho,
sem qualquer dificuldade. Se ele nao ti-
vesse proporcionado o virtual embargo
de gaveta, que serviu de ref6m para as
presses do governor sobre a empresa, o
Coema ji podia ter apresentado as 26
exigencias e as oito reclamag6es formu-
ladas pela equipe t6cnica da Sectam e a
empresa teria atendido a totalidade ou a
maioria das providencias, aquelas que
dependem do estigio em que se encon-
tra o licenciamento do seu projeto.
Esse estigio diz respeito a primeira
das tres licengas que a secretaria expedi-
ri at6 que a atividade produtiva comece.
Depois da Licenga Pr6via seri concedida
a Licenca de Implantacgo, mas qundo a
empresa apresentar o PCA (Plano de Con-
trole Ambiental). Uma vez cumpridas to-
das as exigencias pr6vias, saird a Licenca
de Operagco. At6 la, as insuficiencias do
estudo e do relat6rio de impact ambi-
ental (este sendo a versAo executive do
primeiro) poderAo ser supridas e as pro-
videncias acautelat6rias reforgadas.
As normas legais sao suficientemente
extensas para dar conta do rigor tecnico
do governor no licenciamento ambiental.
Nao precisariam da muleta do pedido de
vistas do deputado, que se tornou desca-
bido em fungao da protelagAo na devo-
lucAo do process. Muito menos neces-
sitariam da esdrOxula decisao do Coema
- de licenciar a lavra, mas nao o trans-
porte do min6rio.
Por causa dessa decisao, uma desas-
trada imitacgo da lenda biblica de Salo-
mao ameagando partir ao meio uma cri-
anga disputada por duas maes, a Vale nao
mudou um milimetro da sua posicao. S6
reativard a frente de obras em Paragomi-
nas quando o licenciamento for comple-
to. A viabilidade de aproveitamento do
pr6ximo verAo e do inicio das operacges
no final de 2005, como esta previsto no
cronograma do projeto, vai defender do
Coema. Ele se livrou de ter suas orelhas
puxadas pelo judiciArio, mas nao do des-
gaste de ser visto como uma extensao


obediente do governor, seu bravo execu-
tivo e nao um colegiado independent,
como devia ser. O licenciamento ambi-
ental no Pard passa a defender dos hu-
mores do chefe mais do que esta escrito
nas leis e regulamentos.
O EIA-Rima 6, de fato, insuficiente.
Suas falhas, por6m, ji estariam sanadas
se a avaliacao do projeto continuasse a
ser feita tecnicamente, ao inv6s de ser
desviada para servir de moeda de troca
no jogo de presses entire o governor e a
CVRD. A visao que o document tem do
impact da mineragto 6 muito restrita.
Mas essa 6 uma deficiencia de quase to-
dos os EIA-Rimas. A falha pode ser corri-
.gida a tempo porque a fase ainda 6 a da
licenga pr6via. Ja os pontos inconvincen-
tes em relacgo ao mineroduto resultam
de uma d6vida: a engenharia adotada
realmente e o que de melhor se pode ter
para prevenir acidentes?
O maior risco apresentado pelo mi-
neroduto esta nas passagens em cursos
d'agua. E satisfat6rio aceitar que a tubu-
lagAo seja colocada sobre o leito do rio
ou e necessario al6m de ser viavel -
que ela seja enterrada abaixo do vau? Nao
hi problema algum em chegar a um pon-
to de entendimento. No restante do pro-
jeto, nao hi novidade: quase metade da
extensao do mineroduto, de 230 quil6-
metros, entire a mina e o porto de Barca-
rena, 6 paralela ao tragado de outros dois
minerodutos de caulim ja em operagAo.
t por isso que Paragominas 6 mais atra-
ente do que qualquer outra das alternati-
vas examinadas pela Vale (o Maranhao
ou a Guiana), tanto por representar cus-
to menor como impact ambiental me-
nos intense.
As 26 exigencias e oito recomenda-
g6es dos t6cnicos oficiais se enquadram
muito bem no piano da discussao t6cni-
ca. JA as declaraq6es que o governador
Simao Jatene e alguns de seus secretiri-
os andaram dando a imprensa soam, a
ouvidos mais bem informados, como ca-
cofonia sem o menor vislumbre de ver-
dade ou mesmo bom senso.
O paralelismo cor a Icomi, tipico pro-
jeto de enclave, s6 tem sentido se o go-
verno ignora a hist6ria deste uiltimo meio
seculo. Se quiser exigir o que lhe cabe, o
enredo sera diferente. Quanto ao Trom-
betas, 6 bom lembrar que, nao por atua-
gAo da administragdo estadual, hoje a la-
vagem do min6rio 6 na mina e nao no
porto, os buracos abertos pela lavra sao
cobertos por terra organica e replanta-
dos cor esp6cies nativas, e o lago Bata-
ta virou balneario. NMo 6 a maravilha do
ajuste ecol6gico (e social), mas tamb6m
ji nao 6 mais uma estampa dos infernos
como sugere a linguagem empobrecida
de alguns secretarios.
Nao 6 precise assumir a posig~o arro-
gante da CVRD, hoje a image de Roger
Agnelli, para perceber que a administra-


cgo Jatene deu, no epis6dio, uma ligAo
de incompetencia e falta de seriedade,
desgastando-se no limited da desmorali-
zaSgo complete. Numa estrutura elitiza-
da e drasticamente verticalizada, sem in-
termediag6es e espagos para acolher e
bem usar a controversial, o governor tor-
nou-se um grupinho de secretirios espe-
ciais (e extens6es personalizadas), que
se julgam os donos da verdade e falam
sem comedimentos. Inevitivel que repi-
tam um monte de bobagens, desviando
os rumos da nau do Estado de sua me-
lhor direao, a defesa do interesse p6bli-
co, para um mar de pirataria.
Enquanto o governor apostava que a
Vale se submeteria A sua vontade, Roger
Agnelli tratou de comecar a recompor-se
com o grupo Liberal, evitando manter
varias frentes de luta ao mesmo tempo
(ver mat6ria nesta edi4ao). Embora, apro-
veitando-se de suas boas relag6es com a
ctpula do PT no poder, Agnelli tenha ido
se queixar da situagto diretamente com
o president Lula, em Brasilia, sua posi-
gAo dentro da pr6pria empresa nao 6 tao
segura assim que lhe permit ignorar o
desgaste de sua image.
HA muitos e poderosos neg6cios em
andamento, quase sempre de amplitude
international, enquanto crescem os boa-
tos sobre possiveis modifica6oes socie-
tarias na CVRD. Uma delas seria a said
da Bradespar, o braco de participac6es
societarias do Bradesco, criado pelo pr6-
prio Roger quando atuava no banco de
Amador Aguiar. O Bradesco estaria se
vendo obrigado a vender suas ac6es na
ex-estatal para fazer caixa e poder cobrir
o pesado prejuizo que esta acumulando
na Globo Cabo (da familiar Marinho) e no
setor energ6tico, as duas outras opc6es
de investimentos na qual Roger apostou,
nesses casos sem o sucesso representa-
do pela Vale.
Um informant diz que o valor de
mercado da empresa esta quase baten-
do em 25 bilh6es de d6lares, nimero
que deveria ser alcangado somente em
2010. JA estaria havendo entendimentos
com dois interessados potenciais no ne-
g6cio: Ant6nio Ermirio de Moraes e a
Anglo American. Como a japonesa Mit-
sui ja participa do control acionario da
Vale, estaria assim recomposto, por den-
tro, o trio que perdeu no leilao de pri-
vatizacAo da CVRD para o arrivista Bren-
jamin Steinbruch. Claro, se pelo caminho
nao surgir alguma pedra lancada pelo BN-
DES, Previ ou mesmo os companheiros
petistas do nficleo do governor Lula, no
exercicio do direito de prefer&ncia que
tem, para manter o comando sob ban-
deira estatal, como recentemente fez o
economist Carlos Lessa.
Nesse context, os movimentos en-
gendrados pelo governor do Estado se as-
sumem o que sao: gestos grotescos. Uma
pantomima de provincia.


2 MARCO DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal









MISTERIO
* Um dos grandes misterios
da praca 6 saber quem
comprou o titulo de A
Provincia do Pard,
arrematado na justice do
trabalho. Sabe-se apenas
que o representante do
comprador foi o escrit6rio
Caldas Pereira, de Brasilia,
comandado pelo ex-
secretario de Fernando
Henrique Cardoso, Eduardo
Jorge. Esse detalhe induz a
pensar num grupo de fora
do Para. E esta levando
muita gente a especular de
que o arrematante ji 6 dono
de uma poderosa sigla em
atuagio no Estado, a partir
de fora.

LACUNA
* Comerciantes e
freqiuentadores do que
outrora foi o maior ponto
commercial da cidade, o
eixo Santo-Ant6nio-Joao
Alfredo, precisaram
conviver corn o barulho de
miquinas, que destruiram
nos Oltimos dias os blocos
de concrete rec6m-
construidos na rua. Os
buracos precisaram ser
abertos para receber a
fiacao el6trica, que nio foi
prevista no projeto da Via
dos Mercadores, se
projeto havia.
Planejamento, ao que
parece, foi suprimido do
dicionario da prefeitura.

LUZ
* AnOncios de pdgina
inteira chamam pela
imprensa, atrav6s de fotos
de acontecimentos, os
interessados em participar
da conferencia "Olhares
sobre 1964", para avaliar os
40 anos do movimento
military desencadeado em 31
de marco daquele ano.
Realizacgo do Jornal do
Brasil com apoio do
Minist6rio de Minas e
Energia e da Eletrobrds. A
Eletrobris justifica sua
participalco dizendo que
"nao podia deixar toda essa
hist6ria no escuro".
Mais metdfora.


Mais um pira-paz



nao quero mais


A Companhia Vale do Rio Doce e o gru-
po Liberal, que estavam rompidos, acerta-
ram suas diferencas e vAo restabelecer um
relacionamento amistoso. O entendimento
foi iniciado num jantar no restaurant Sa-
tyricon, em Ipanema, no Rio de Janeiro,
no dia 11, entire o president da minerado-
ra, Roger Agnelli, e o director corporativo
do grupo Liberal, Ronaldo Maiorana. Am-
bos levaram dois acom-
panhantes para o encon-
tro. O director Joao Poju-
can de Moraes e o advo-
gado Jorge Alex Athias
estiveram ao lado de Ro-
naldo. Romulo Maiorana
JOnior tamb6m foi ao Rio,
mas nio participou do jantar. Soube do que
aconteceu pelo irmAo, contatado atrav6s de
um amigo. Roger esteve ao lado de um di-
retor e de um advogado.
Aparentemente a reunido foi proposta
pela Vale, interessada em acabar com o
tratamento hostile que vinha recebendo nos
veiculos das Organizacges Romulo Maio-
rana, lideres do setor no Pari, e com o
desgaste decorrente dessa mi-vontade edi-
torial. Ainda nio se sabe se o entendimen-
to levard de imediato a retirada das ac6es
que cada uma das parties props contra a


outra no foro de Belm, mas essa 6 uma
consequencia previsivel do didlogo. Ele
tamb6m devera devolver aos veiculos de
comunicac~o a farta publicidade feita pela
Vale nos filtimos meses, exclusivamente no
concorrente, o Didrio do Pard, do depu-
tado federal Jader Barbalho, em ainda dis-
tante segundo lugar no ranking. A outra
consequencia e o isolamento do governor
do Estado. Em seu conten-
cioso com a CVRD, ele
dever~ perder sua caixa
de ressonancia junto A
opiniAo public, que era
o grupo Liberal.
Por coincidencia, ou
nio, a ORM anunciou na
mesma 6poca o lancamento da quinta ver-
sao do Projeto Andando pelo Pari, uma
campanha de divulgagao do Estado, mas
sobretudo uma poderosa fonte de renda
para a empresa. O "Andando pelo Para" foi
uma das causes de desentendimento entire
os Maiorana, que cobravam ura conta su-
postamente nao paga pela mineradora, e a
Vale, que considerou a cobranca indevida.
Ja para a Rede Celpa, outra litigante recen-
te, o "Andando" foi o caminho de volta As
boas com os Maiorana. Comparecendo ao
caixa, evidentemente.


O secretario municipal de saneamento,
Eduardo Pasetto, produziu, na semana pas-
sada, duas p6rolas do bestial6gico official.
Na primeira, afirmou que apenas 5% da
avenida Almirante Barroso, a principal art6-
ria do sistema viirio de Bel6m, esti sujeito
a alagamento. Seriam "apenas" 250 metros
na planilha do secretario. Mas sao extensos
250 metros para motorists que se veem
subitamente sem visao. Nas chuvaradas, os
carros sao cobertos por Agua jogada por
outros veiculos. Quem nio reduzir a veloci-
dade corre o risco de trombada. Quem pira,
tromba. Ou seja: se correr o bicho pega, se
ficar o bicho come.
A outra perola da infelicidade foi o dili-
gente secretario dizer que "se nao fosse o
inverno nao teria problema nenhum". Por
nio ser native da cidade nem parecer dedi-
car a ela maior atencAo, o secretirio talvez
desconheca a saga em torno do antes e de-
pois das chuvas em Belem. Na cruel visio


dos tecnocratas, esse 6 mais um "detalhe".
Para o povo, e uma razio de ser. Se nio
houvesse o inverno, talvez o sr. Pasetto nem
tivesse emprego pdblico.
O mais grave 6 que se a solucAo 6 sim-
ples, bastando aumentar a declividade da
pista para dar-lhe a devida drenagem, o
problema tamb6m teve como origem um
erro grosseiro. Mais um dos erros primari-
os que a prefeitura de Bel6m cometeu, ao
achar que a substituic~o do canteiro cen-
tral da avenida por uma quase totalmente
initil ciclovia, nao teria qualquer conse-
qtiuncia. E nio teria, de fato, nao fora o
impertinente inverno, insuscetivel de can-
celamento por decreto, como seria o de-
sejo dos tecnocratas.
Espera-se que a prefeitura corrija este
erro sem precisar ser movida por um aci-
dente sangrento. Por milagre, ele ainda nao
aconteceu na avenida, que volta a merecer
o triste titulo primitive: pista da morte.


Jornal Pessoal 20 QUINZENA MARCO DE 2004 3


Simplicidade








AOnibus continual


Onmbus: continuar


na


Os vereadores que votaram r
tencgo de apenas cinco das 23 g
at6 entao acatadas no transport
Belem (11 completamente ilegais
missivas) receberam ou recebera
dos donos de 6nibus para a vizin
nha eleitoral. Os vereadores que
ram a reduao das gratuidades fi2
nas demagogia para agradar as
prejudicadas pela media, as m;
zadas e ativas exatamente porq
esse prejuizo.
Muita gente esta acreditando n
verses, mas elas estao long d
ou nao expressam toda a verdad
de 6 que, pela primeira vez, um c
sendo extirpado da vida p6blica:
sao e manutencgo de privildgios p
sem que os privilegiados (e seus 1
se interessem sobre quem vai pag
do beneficio. Pode ser que haja, n
Camara Municipal de Bel6m, verea
visaram (ou mesmo alcangaram)
pessoais e usufruto exclusive coi
tiva. Mas ela, no balango dos pi
tras, foi positive.
Esse saldo favoravel pode ser
gado a partir de agora se os vere
considerarem satisfeitos cor a s
dugdo das gratuidades nos 6nit
apenas o primeiro pass. HA ne
de seguir adiante. Mas nao por ens
por emocionalismo ou a base do'
tro". A Camara ter a obrigacgo
mente, abrir a caixa preta do s
transport coletivo de uma cida
milhao de habitantes. A conivenci
rancia, em seu amplo sentido, s
uma arma usada por maus admin
p6blicos e p6ssimos empresarios
vantage em cima do interesse c
Essa ignorancia, raiando a b
(que possibilitou a um empresari
sado nao muito distant, matar u
nario e ficar inc6lume), levou ur
nos de 6nibus, o ex-deputado M


A justiga precisa dar a prioridade devida
a correigao no cart6rio de Monte Alegre para
uma definicao sobre o dominio que a Jari
realmente sobre terras que alega lhe per-
tencerem. A correicao, por sua vez, deve
ser feita em articulacao com uma iniciativa
governmental mais ampla para enquadrar


ao correta


)ela manu- tins, a proclamar como magister dixit -
ratuidades que o fim das gratuidades nao se comunica
coletivo de cor a redugao da tarifa. Essa 6 uma opiniAo
e sete per- e um desejo do empresirio. Mas 6 a admi-
o dinheiro nistragAo municipal, poder concedente do
ha campa- servigo, que cabe a declaragco. Se ela acei-
se opuse- tar o status quo se condenard, junto cor os
zeram ape- vereadores, a execracgo p6blica.
categories Sem citar provas, Martins diz que ha em-
ais mobili- presa falindo porque a exploragco da con-
ue teriam cessdo esta Ihes causando prejuizo (dias de-
pois uma empresa anunciou a aquisicgo de
essas duas 15 novos 6nibus para sua linha). Lembra que
a verdade a pr6pria Ctbel, com base nas planilhas de
e. A verda- custos, havia estabelecido em R$ 1,23 o valor
cancer esta real da tarifa. Por ato de imperio, o prefeito
a conces- reduziu a passage para R$ 1,15. A margem
ara alguns de lucro das operadoras seria tao pequeno
)adrinhos) que lhes tirou a capacidade de investimento.
ar a conta Dai a deterioraqao da frota de 6nibus.
1o meio da Se as 23 gratuidades acarretavam a per-
tdores que da de 23% das passagens, a redugao para 18
interesses gratuidades, num calculo bem rdstico, mas
n a inicia- nao de todo improcedente, possibilitard as
r6s e con- empresas, quando a media estiver em ple-
no uso, ganhar 18%. Significa que a tarifa
desperdi- pode baixar para pelo menos R$ 1,10 e ain-
eadores se da restabelecer, ainda que parcialmente, a
imples re- capacidade de investimento das empresas.
)us. Ela 6 Se, em debates t6cnicos, nos quais a con-
cessidade trov6rsia seja assegurada, e, em seguida, em
aio e erro, audiencias pdblicas, ficar provado que real-
"chut6me- mente Mario Martins tem razao, a redugao da
de, final- tarifa, uma contrapartida indispensavel pela
istema de redugao das gratuidades, sera financiada pelo
de de 1,2 Fundo de Compensacgo Tributaria, at6 hoje
a na igno- letra morta na Lei OrgAnica dos Municipios.
empre foi O poder concedente tera que deixar sua
istradores c6moda posigAo de espectador para funcio-
para tirar nar como um arbitro do servigo. Ele tem que
oletivo. dar lucro ao empresario, mas, al6m disso, e
ogalidade acima disso, tem que ser o que 6 nominal-
o, em pas- mente: um servigo em favor do pdblico. O
m funcio- que nao esta sendo, digam o que quiserem
n dos do- os envolvidos e filtrem o que acham que
[ario Mar- eles querem os boatos de rua.


Jari


de vez esse problema fundidrio nas normas
legais. A hist6ria vem se arrastando ha qua-
se 30 anos. Nesse period a Jari usou para
reflorestamento e deu em garantia de em-
pr6stimos terras que na verdade podem nao
ser suas e sim do Estado. Como ficard se
esse castelo de pap6is desmoronar?


CONCENTRA(AO
* 0 Ministerio da
IntegragAo Nacional esta
para revelar um estudo
que compare os PIBs de
cada regiao brasileira cor
o investimento em ciencia
e tecnologia que nelas
ter sido feito. O
document, segundo
quem ji teve acesso aos
dados preliminares,
mostra que o percentual
em C & T que cabe as
regi6es do Sul e Sudeste
do pais 6 ainda maior do
que a fatia que elas tnm
do PIB national. Ja no
Norte, Nordeste e Centro-
Oeste os percentuais de
C & T estao abaixo dos
pr6prios PIBs dessas
regi6es.
Traduzindo: a
concentracgo regional da
renda vai se agravar no
Brasil, se ela defender de
maior conhecimento.
O pessoal da mais famosa
instituigao de pesquisa da
Amaz6nia, o Museu
Paraense Emilio Goeldi, vai
sentir na pele essa
tendencia. Por causa de seu
crescimento, a instituigao
iria precisar de mais um
milhao de reais no
orqamento deste ano. O
acrdscimo dado pelo MCT,
por6m, foi de R$ 50 mil.
Vai faltar lencol para
mais frio.

MULTA
* Outra pratica da
administragAo pdblica que
podia ser restabelecida:
publicar diariamente, na
imprensa peri6dica e no
Diario Oficial, as chapas
dos carros flagrados em
infragAo em Bel6m,
indicando os veiculos
particulares, taxis, 6nibus
e caminh6es. Uma lei
imporia essa exigencia. Se
no prazo de uma semana
a lista didria nao tivesse
sido divulgada, a multa
perderia sua validade.
Assim se combateria o
abuso do poder piblico
na autuagAo (as vezes
ficticia) e a ind6stria da
anulag o de multa.


4 MAR.O DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal











Marido de Luma,



filho de Eliezer


Eike Baptista sempre foi motive de
interesse para a imprensa como o mari-
do (agora, quase ex) de Luma de Oli-
veira. Mas ele podia ser encarado tam-
b6m por outra 6tica: como o filho de
Eliezer Baptista da Silva. Eliezer foi (e,
em certa media, deve continuar a ser)
um dos homes mais influentes no Bra-
sil a partir da quarta reptblica (iniciada
em 1946). Chefiou o ministerio de Mi-
nas e Energia entire 1962 e 1964, quan-
do o governor JoAo Goulart caiu. Eliezer
sobreviveu, inc6lume, aos expurgos pro-
movidos pelos militares em cima dos
derrotados. Nao s6 sobreviveu: fortale-
ceu-se ainda mais.
Depois de ter sido por duas vezes
president da Companhia Vale do Rio
Doce (ao long de 10 anos descontinu-
os), foi representar a empresa na Euro-
pa, estabelecendo-se em Bruxelas, a es-
trat6gica capital da comunidade. Abriu
as portas da expansAo da CVRD para a
Asia, uma empreitada que o levou mais
de 100 vezes a T6quio e o estimulou a
falar fluentemente o japon&s. Dizem ser
o ocidental nAo-residente a ter estado
mais vezes no JapAo, que se tornou o
principal client da nova e gigantesca
mina do melhor minerio de ferro do pla-
neta, o de Carajds.
Pessoa de notdvel fluencia e perspi-
cAcia, Eliezer se fortaleceu como um
home de gabinete, mas cor uma s61i-
da experiencia de campo (fez carreira
na Vale, na qual ingressou em 1949,
como engenheiro competentissimo). Atu-
ava cor maestria nos bastidores. Come-
teu um grave erro, talvez explicAvel pela
reprimida vaidade, que sempre aflora:
comandou a Secretaria de Assuntos Es-
trat6gicos de Collor. Mas ainda conse-
guiu sair a tempo de nao manchar defi-
nitivamente sua biografia e voltar a som-
bra caracteristica das eminencias pardas.
Como tal, faz muito e aparece pou-
co. Por essas caracteristicas, seu filho
dileto seria apenas o seu "laranja"? Sem-
pre tive essa d6vida. A imprensa nacio-
nal nunca me ajudou a esclarece-la. Nas
pAginas dos jornais, Eike se me revela-
va um home impetuoso, aplicado, in-
teligente, mas que decidira fazer uma
aposta de risco em sua paixao, Luma de
Oliveira. Administrt-la devia ser incom-
paravelmente mais dificil e desgastante
do que os neg6cios, que foram se ex-


pandindo no setor de do- \
minio do pai: a mineracao.
Deixo a seara do amor
(e do desamor) cor a gran-
de imprensa. Mesmo que seja
um assunto menor, o que pro-
fissionalmente me interessa
a parceria pai-e-filho na mi-
neragAo especificamente, a
mineragao amaz6nica. O
pai, como vdrias vezes es-
crevi aqui, foi o respon-
sdvel pelo deslocamento
da influencia americana na Amaz6nia e
sua substituigAo pelo parceiro asittico.
Primeiro o JapAo e agora, em escala
crescente, a China (conv6m comegar a
estudar ideogramas para nao ficar para
tras). Uma jogada de mestre, que nem
jornalistas e nem academicos se inte-
ressaram ate agora em reconstituir, ao
menos com rigor maior do que a co-
bertura dispensada as estripulias de
dona Luma (que, agora, bem podia ser
rebatizada de Lume).
Se no capitulo de Carajis Eliezer Bap-
tista teve que agir atrAs da poderosa
CVRD, com o filho (ou atrav6s dele)
p6de se movimentar como um empre-
sArio aut6nomo. Coerentemente, procu-
rou uma area de rentabilidade maior e
mais imediata: o ouro. Desde o ano pas-
sado Eike comanda a implantacgo de um
novo projeto no Amapd, retomando a
extrag.o de ouro no vale do Araguari.
Essa 6 a regiAo na qual, durante quase
meio s6culo, a Icomi (associagAo de
Augusto Trajano Antunes cor a multi-
nacional americana Bethlehem Steel)
lavrou manganes.
O resultado da minerag~o de manga-
nes nao foi nada positive para o Ama-
pi. O governador Valdez G6es (do PDT)
diz estar consciente desse passado amar-
go, embora nem fosse nascido quando
a Icomi se estabeleceu no Estado, na
segunda metade da d6cada de 40. Mas
ele garante que a Mineragao Amapari
nao seguira um modelo de enclave. Nao
s6 porque seu governor nao deixarA que
isso aconteqa: esse prop6sito nao esta-
ria nas inteng6es da pr6pria empresa.
Substituindo a maior mineradora de
ouro do mundo, a AngloGold, que nao
deu certo, no control do empreendi-
mento, a Amapari pretend investor 300
milhoes de reais na primeira etapa do


projeto (para retirar 25 toneladas do
metal, a uma media annual de 4,5 tonela-
das), criando 300 empregos diretos e 600
indiretos nos municipios de Serra do
Navio e Pedra Branca do Amapari (onde
estr localizada a jazida). Os nfimeros
soam como m6sica para
os habitantes da regido,
Sc que desde 1994 acom-
panhavam cor ansie-
dade a movimentagao
da Anglo.
Mas para nao ser mais
Suma frustracgo, na longa tra-
digdo amapaense, de s6 ficar
com as sobras de garimpos
e lavras de ouro, uma cl.-
usula do contrato de
concessao da Amapari,
obrigando a minerado-
ra a destinar anualmen-
te 1% de seu lucro bru-
to ou o limited de at6 R$
550 mil (o valor que for maior) para in-
vestimentos sociais nos dois municipi-
os. Isto significa que a empresa acredita
poder conseguir, na pior das hip6teses,
lucro bruto de R$ 50 milh6es ao ano (um
sexto do investimento total).
Para ela, o neg6cio seria maravilho-
so, sem os atropelos que uma estrangei-
ra como a Gold enfrentou por estar a
testa do neg6cio (representada agora por
uma subsididria, a Itajobi). Mas o avan-
go para a populagao seria proporcional
ou a clAusula apenas atualiza as regras
da mineragdo da Icomi, que tambem
estava sujeita a descontos para investi-
mento e custos sociais? Da Icomi, para a
Amapari, o elo de sucessao e a pr6pria
qualificacgo da mao-de-obra, que se
adestrou na lavra de manganes e agora
vai rapidamente poder ser absorvida pela
mineragao do ouro, sem maiores gastos
por parte da nova empresa.
A extraAo do ouro devera propor-
cionar royalties de R$ 38 milhoes ao
Amapa, R$ 25 milh6es a serem dividi-
dos entire os dois municipios e R$ 13
milhOes para o Estado, mais R$ 600 mil
anuais em ISS (o imposto sobre servi-
cos). Sera realmente um enorme salto
tributdrio, sobretudo para Serra do Na-
vio e Pedra Branca. Mas pode ser ape-
nas mais uma fonte de problems e
desajustes se as administrag6es ptbli-
cas nao estiverem preparadas para en-
frentar os problems que virAo junta-
mente cor a nova frente de mineragao,
que pode ser intense mas 6 efemera.
Talvez possa parecer a pessoas de-
satentas que as exigencias feitas atual-
mente signifiquem um pass adiante em
relacao ao passado. Quem se der ao tra-
balho de confrontar os dois tempos da
exploragdo mineral, por6m, vai ficar em
CONTINUE. NA AG 6


Jornal Pessoal 2' QUINZENA MARCO DE 2004 5










C & T: verba



ficarai no Sul


0 jornalista Marcos Sa Correa impediu,
em artigo na revista eletr6nica no.minimo,
que passasse em brancas nuvens, na quin-
zena passada, o inicio do curso de douto-
rado na Escola Nacional de Botanica Tropi-
cal. O curso ter apenas uma turma de seis
alunos. Para atende-los, 28 professors, na
civilizada m6dia (para p6s-graduacAo) de um
professor para menos de cinco alunos. Mar-
cos ainda informa que deveriam ser cinco
vagas. A sexta foi aberta porque os candi-
datos que se apresentaram eram bons de-
mais, acima das expectativas.
As expectativas 6 que estavam abaixo do
determinismo geogrdfico. Marcos lembra que
o pais primeiro foi Pindorama, numa refe-
rencia a palmeira, abundante em seu terri-
t6rio, e passou a se chamar Brasil em fun-
co da arvore valiosa na 6poca por sua tin-
tura e que ji esteve em vias de extingdo. A
luxuriante Mata Atlantica do descobrimento
6 uma fracgo de um digito da extensdo ori-
ginal, vitima de uma pilhagem que prosse-
gue com a inconsciencia geral sobre a im-
portAncia da vegetagdo para um pais como
o Brasil, que resisted at6 hoje.
Criada em 2001, a Escola Nacional de
Botanica Tropical, funcionando na maravi-


lha da sobrevivencia que 6 o Jardim Botani-
co do Rio de Janeiro, torna-se um novo alen-
to de esperanga para a floresta tropical de
expressao que resta no Brasil fora da Ama-
z6nia. Parab6ns, alvissaras. Mas e n6s, que
temos um terco das florestas do planet e a
maior fonte de biodiversidade que existe?
N6s vamos continuar a receber as miga-
lhas do orgamento national de ciencia e tec-
nologia. t o que anuncia o novo ministry
do setor, Eduardo Campos. Do seu discurso
foi devidamente desentranhada a expressao
"descentralizagAo de verbas", introduzida por
seu efemero antecessor, Roberto Amaral.
Significa que o Sul vai continuar recebendo
mais dinheiro e que a desconcentragao pro-
metida por Amaral nao passou de ret6rica.
Apesar de toda prioridade "de boca" que
Ihe ddo, a fatia reservada para a Amaz6nia
no orgamento do Ministerio de Ciencia e
Tecnologia passou de 2,9% no passado para
3,1% em 2004. Cor essa proporgao, o com-
promisso de instaurar a inteligencia na re-
gido, a altura dos seus desafios, fica para
um future nao s6 incerto e nao sabido. Um
future que nunca chegara. Ou, quando che-
gar, nao encontrarA mais a Amaz6nia em
seu espago.


So R'A Com o aquecimento da demand pela China, o prego da borracha natural
' i. disparou. Hd um frenesi em varios paises e, dentro dele, em vdrias regimes
para responder ao incremento da procura. 0 corre-corre veio bater a porta da regido
native da hevea brasiliensis. A Amazonia ter estdo fora da rota do produto. Ao menos
da rota defato, ndo da imagindria. Se ndo se apresentar, e se apresentando bem, vai
ser deslocada de vez, cor ou sem ret6rica sobre exploragdo sustentdvel e extrativismo
de novo tipo. Talvez seja a tiltima oportunidade de, sendo a origem da produpdo da
borracha, ndo se tome seu sitio arqueol6gico.


EXPURGO?
* Do acompanhante da
vice-governadora Valeria
Pires Franco, na foto que
registrou sua presenga num
acontecimento social,
publicada na coluna de
Isaac Soares, em 0 Liberal
do dia 18, restaram apenas
a ponta dos dedos nos
ombros da companheira,
depois de um corte devido
na edi.Ao do journal.
Se o excluido 6 o
marido da vice-
governadora, o deputado
federal Vic Pires Franco,
do PFL, a foto marca a
volta do interdito
proibit6rio ao ex-amigo na
folha da familiar Maiorana?

ALVURA
* A imprensa de Bel6m
nao cobriu a reuniAo do
Conselho Estadual de Meio
Ambiente, na qual foi
concedida licenga previa a
mineracgo de bauxita de
Paragominas, o item mais
important na agenda
jornalistica daqueles dias.
O material foi produzido
por um assessor de
imprensa do governor e
reproduzido pelos jornais
no dia seguinte. A partir
dai o assunto foi colocado
no freezer, talvez a espera
do pr6ximo press-release.
Verba publicitdria, agora
partilhada pelos dois
jornais didrios, tornard
ainda mais alva a chapa
branca dessa imprensa.


CONTINUA;AO DA PA G S5


divida se estd mesmo havendo progres-
so. Se 6 inegdvel o balanco negative do
meio s6culo de Icomi, em funcgo das
condig6es estabelecidas no contrato de
concessio de lavra, nao 6 menos eviden-
te que a administragAo piblica local nao
conseguiu tirar proveito de algumas das
clausulas firmadas na relagdo. Nao s6 por
despreparo do pr6prio governor, como
pelo desequilibrio de forgas em relagao
empresa, que era muito mais forte.
S6 assim se entende o reduzido efei-
to social de exigencias feitas a Icomi,
como pagar royalty (recolhido trimestral-
mente) de 4% sobre o valor do minerio
colocado no porto de embarque, mais
1% adicional ou 20% sobre o lucro li-


quido em investimentos (a opgao pre-
ferida). Em tese, os recursos poderiam
former um significativo fundo de desen-
volvimento. Na prttica, nao alcangaram
essa funcgo, seja porque acabaram des-
viando-se de sua finalidade ou porque
os mecanismos de control das contas
(e das operag6es) eram d6beis por par-
te do governor.
Depois da Icomi, o Amapd ficou com
legados bem piores, como o da Minera-
cAo Novo Astro e o da Yokio Yoshido-
mi, em matdria de ouro. Essas experien-
cias evitarao a repetigdo dos erros corn
a Amapari? Esta 6 a questao. Alem de
ter que dar conta dos seus impacts so-
ciais negatives, a empresa precisa ser


seriamente monitorada porque vai uti-
lizar cianeto na purificacAo do ouro. Ela
diz que o metodo de lixiviagAo, fazendo
cor que o ouro sera colocado em pi-
lhas e resfriado, eliminarA o risco de
descarte de cianeto no meio ambiente.
Se for realmente assim, tudo bem. Mas
precisa ser exatamente assim e ai 6
que entra o governor, se estiver disposto
e cor capacidade para desempenhar o
seu papel de fiscalizacgo.
No sertdo do Amapi, a hist6ria 6 de
envergadura muito diferente da novela
que exerce seu fascinio na fimbria lito-
ranea do Rio de Janeiro. E 6 este outro
Eike Baptista, ignorado pela grande im-
prensa national, que interessa.


6 MARCO DE 2004 2' QUINZENA Jornal Pessoal











Oriximina: prefeitura



favorece mineradora


No inicio da construgAo da hidrel6trica
de Tucurui, um quarto de s6culo atris, em
pleno regime military, o president Ernesto
Geisel avangou al6m de sua competencia
constitutional e isentou a principal emprei-
teira da obra, a Construtora Camargo Cor-
rea, do pagamento de ISS (o imposto so-
bre servigos), tribute estritamente munici-
pal. Entre 1976, quando Tucurui comegou
a ser levantada realmente, e 1984, quando
entrou em funcionamento a primeira tur-
bina da usina (das 12 da sua primeira eta-
pa), a maior hidrel6trica inteiramente na-
cional do Brasil, o governor investiu 5,4
bilh6es de d6lares na obra.
Nesse period, o empreiteiro paulista
SebastiAo Camargo, dono da construtora
que leva o seu nome, entrou para a lista
dos biliondrios mundiais da revista ameri-
cana Forbes. S6 ele, Roberto Marinho (da
Rede Globo) e Ant6nio Ermirio de Moraes
(da Votorantim) tinham mais de um bi-
lhAo de d6lares de fortune pessoal no Bra-
sil. Dizem que metade dessa fortune foi
amealhada em Tucurui. Enriquecimento
favorecido, naturalmente, pela isengAo de
ISS, que Ihe foi abusivamente concedida
pelo general Geisel.
Se a prefeitura municipal tivesse po-
dido recolher 1% do investimento (s6 at6
1984), seu orgamento teria recebido algo
em torno de 50 milh6es de d6lares (ou
quase 150 milh6es de reais, numa gros-
seira atualizacgo). Bern aplicados, os re-
cursos teriam diminuido e muito a
distancia que separava a sede municipal
de Tucurui, vivendo conforme um padrao
africano, da vila residential da Eletronor-
te, de perfil europeu. Enquanto todo tipo
de problema se acumulava na velha Tu-
curui, bombardeada por uma migragAo
descontrolada, a cidade fechada da hi-
drel6trica parecia um paraiso, a apenas
seis quil6metros de distancia. A vila en-
goliu 200 milh6es de d6lares do investi-
mento total. Tucurui, seis vezes maior,
um itimo desse valor.
Infelizmente esse ter sido o padrAo
da implantag~o de grandes projetos na
Amaz6nia: os beneficios se concentram no
interior do enclave; a drea em torno 6 es-
quecida, quando nao 6 maltratada, sobran-
do-lhe apenas os restos do banquet. Foi
assim antes, quando o governor federal
tudo podia e tudo impunha goela abaixo,
inclusive prerrogativa de outra instAncia
administrative, e continue a ser assim ago-


ra. Mas se em Tucurui a prefeitura tinha
como argument de defesa (ainda que nao
constituisse explicagdo suficiente) a usur-
pacao do imposto que lhe cabia, no Trom-
betas, agora, a prefeitura cede do seu para
poupar o da empresa.
E o que denunciam dois vereadores
da CAmara Municipal de Oriximind, num
relat6rio entregue aos seus pares no dia
17. Eles acusam a prefeitura de conceder
um servigo de transport coletivo para
tender exclusivamente os funcionArios
da Mineracao Rio do Norte, que explore
as enormes jazidas de bauxita do local,
embora contratualmente a concessao se
destine ao p6blico em geral. Os vereado-
res Raimundo Wanzeler e Ruinei Gema-
que, em nome de uma comissAo criada
cor esse fim, foram verificar o funciona-
mento do transport coletivo prestado
pela empresa Cattani, cor base numa
concessao municipal.
Os dois vereadores percorreram todo o
trajeto da linha circular Porto Trombetas e
Porto Trombetas-Minas de exploracao de
bauxita, sem encontrar 6nibus em ativida-
de ou sequer passageiros nas seis paradas
instaladas no trajeto. Constataram que a cir-
culacao dos 6nibus se concentra "nos ho-
rarios de inicio de trabalho e de troca de
turno de pessoal, servindo assim somente
aos empregados da Minerag o Rio do Nor-
te e contratadas, e nao ao piblico em ge-
ral, ate porque nao 6 permitida visitacgo
ou at6 mesmo passeios naquele local".
Concluiram os vereadores que o itine-
rario dos 6nibus "6 montado dentro da area
privativa da Empresa Mineragao Rio do
Norte, e que o maior interessado 6 a em-
presa". Enquanto isso, na sede municipal,
a 80 quil6metros de distancia da base da
mineragAo, com 40 mil habitantes (contra
10% em Porto Trombetas) e extensas ire-
as necessitadas de transport, "existem al-
guns 6nibus que prestam este servigo pre-
cariamente e que funcionam corn um sim-
ples AlvarA de Licenga".
Se a MRN 6 responsivel finica por
toda a infra-estrutura de Porto Trombe-
tas, que instalou para poder operar, re-
cebendo como beneficio isenc.o de
IPTU (o imposto predial), estranham os
vereadores que nao assuma tamb6m o
transport coletivo na vila e entire Porto
Trombetas e as minas de bauxita. Por
isso, requereram o cancelamento da con-
cessao para a linha.


Ja o Sindicato dos Trabalhadores nas
Indfistrias Extrativas de Minerais Nao fer-
rosos de Oriximind, no iltimo nfimero do
seu journal (Martelada Trabalbista), acres-
centa outra den6ncia A dos vereadores: o
transport favorece, realmente, os empre-
gados da MRN, mas nao os 120 trabalha-
dores terceirizados nas minas e no porto.
Eles nao conseguem pegar os 6nibus da
linha, ou porque eles nao passam ou por-
que nao tnm dinheiro para a passage. E
sofrem os efeitos de uma norma adotada
pela empresa, que proibiu aos motorists
dar carona na estrada internal, provavel-
mente para nao ser obrigada a assumir res-
ponsabilidade legal por algum acidente
que ocorrer ou qualquer outro incident.
O valor da tarifa do 6nibus 6 alta: cus-
ta um real no veiculo que apenas circula
na vila e R$ 5,70 para o que cobre os 30
quil6metros entire Porto Trombetas e a
mina do Saraci, de onde a MRN deveri
extrair neste ano mais de 16 milhoes de
toneladas, um novo record. A passage,
assim, custa caro, em beneficio da con-
cessioniria, a Cattani Transporte e Turis-
mo. Ressaltam os vereadores que a tarifa
foi estabelecida em 1999 e, desde entdo,
nao teve qualquer reajuste. Ou seja: co-
mecou bem alto para queimar gorduras
sem precisar de novo aumento por um
long period (ji se cinco anos).
Os vereadores pedem uma providen-
cia da CAmara para que a prefeitura cum-
pra sua obrigagAo de zelar pelo municipio
ao inv6s de favorecer apenas particulares
e uma parcela da populacgo. Esse tipo de
procedimento do poder pfblico acaba es-
timulando iniciativas como o da Minera-
gAo Rio do Norte, que quatro anos atris
reduziu em 20% seu capital alegando que
ele era excessive. Mas, ao devolver dinhei-
ro aos seus acionistas, esqueceu que rece-
beu beneficios oficiais e por eles precisa
prestar contas (como incentives fiscais da
renincia da UniAo e iseng6es tributarias).
A Receita Federal a autuou e a empresa
responded agora por uma pendencia na jus-
tica no valor de 350 milhoes de reais. Um
pouco do que recolocou nos bolsos dos
seus acionistas, por achar que seu capital 6
excessive, a despeito da pobreza em tor-
no, teria representado muito para Oriximi-
ni, onde faz falta o retorno social da mine-
ragdo de bauxita, neg6cio altamente lucra-
tivo la fora, e competencia na gestAo des-
ses recursos em beneficio do municipio.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA MARCO DE 2004 7










Porto truncado

Toda a polemica em torno do porto de
Bel6m devia comegar pela resposta a uma
pergunta elementary: se, benza Deus, sair o
sistema de transposigio do rio Tocantins,
atrav6s da conclusao das eclusas da hidre-
16trica de Tucurui, quantos dos milhares de
conteineres origindrios da Zona Franca de
Manaus continuarao a vir a Belem para se-
rem embarcados?
Esta 6 a principal varidvel na definigao
do volume de cargas no porto de Bel6m nos
pr6ximos anos. Parte da demand atual e
da expansao possivel poderi ser desviada
pelo Tocantins com as eclusas. Por balsa,
os conteineres iriam ate Marabd, numa pri-
meira etapa, para serem embarcados no trem
de Carajas at6 o porto da Ponta da Madeira,
em Sao Luis do Maranhao. Qual a propor-
gAo, ninguem sabe.
Essa hip6tese simplesmente nio foi con-
siderada no piano de zoneamento do porto
de Bel6m, que se estendeu em estudos pro-
fundos da atividade portuiria em si no lo-
cal, mas ignorou solenemente o context
regional (e suas ligag6es nacionais e inter-
nacionais). Metodologicamente, o piano tem


esse furo formiddvel: o porto foi considera-
do como se existisse numa bolha.
Se as eclusas sairem, tudo muda. E ai,
mesmo que a tese da CDP de Ademir An-
drade tivesse algum sentido, ele se desfaria
por um fato simples e definitive: nao have-
ria mais necessidade de incorporar novas
areas retroportudrias para abrigar conteine-
res. A cidade sofreria um terrivel golpe des-
figurativo, com a incorporag~o ao porto da
avenida Marechal Hermes, para nada.
Agora, independentemente dessa pode-
rosa condicionante do Tocantins navegAvel,
sera que Bel6m trocard o privil6gio (quase
6nico, mesmo em terms mundiais) de ter
um autentico boulevard marginal a um por-
to, criando uma paisagem urbana mais agra-
dAvel, pelo canto de sereia de uma deman-
da que ningu6m pode assegurar?
A CDP que trate de fazer um planeja-
mento mais consistent, ajuste seus termi-
nais numa composig o homogenea e trate
de servir a cidade, ao inv6s de servir-se dela
apenas, exceto nos casos de compadrio e
promiscuidade, como o que deu a feicAo
atual a Estacao das Docas.


Ouvidorias


O Minist6rio P6blico do Estado pare-
ce interessado em reconquistar (o corre-
to seria dizer conquistar) a confianga da
opiniao pdblica. Se ha realmente esse
prop6sito, sugiro-lhe criar, urgentemen-
te, duas ouvidorias.
Uma seria a ouvidoria de imprensa. In-
tegrada, paritariamente, por representan-
tes das empresas jornalisticas (dos tres se-
tores: falada, televisada e impressa) e dos
seus empregados, da justica, da academia
e da sociedade civil, teria a missao de re-
ceber queixas e dentincias do piblico so-
bre o funcionamento das empresas de in-
formaaao e de seus profissionais indivi-
dualmente. Apuraria os fatos e os encami-
nharia em relat6rio para a direcgo do MP
proper ajustes de conduta com os falto-
sos, que, naturalmente, teriam ao seu dis-
por amplo direito de defesa.


Outra ouvidoria seria a da atividade
econ6mica. Ela trataria dos crimes de co-
larinho branco. Sua missao seria receber
queixas e den6ncias, mas tamb6m teria
que acompanhar a publicacao de balan-
gos, monitorar a formagao de novas em-
presas e examiner contratos e convenios
do governor com particulares. Sua fungao
tamb6m seria consultiva: recomendaria
ajustes de conduta ao MP. Sua composi-
glo seguiria o mesmo esquema da ouvi-
doria da imprensa: paridade de represen-
tagdo das parties afetadas e observadores
t6cnicos nao envolvidos.
Acho que as duas iniciativas serviriam
de freio (ou pelo menos alerta) contra cri-
mes corporativos, apropriacao de recur-
sos ptiblicos e corrupcAo, algumas das pi-
ores mazelas do Brasil de hoje (e de qua-
se sempre).


Guerrilha


Os familiares dos guerrilheiros do PC do
B que morreram no Araguaia tnm todo direi-
to de exigir a entrega dos corpos dos seus
parents. Os brasileiros tamb6m estAo certos
em cobrar uma hist6ria mais convincente do
epis6dio, que possa contar com os documen-
tos oficiais a respeito. Mas ha muita gente
intermediando essas duas legitimas inspira-
g es apenas com o objetivo de aparecer ou


tirar vantagem pessoal. Ao menos 6 o que
essas tentativas desastradas, mal planejadas
e pior executadas, de encontrar as ossadas
dos guerrilheiros, parecem demonstrar.
Se for para fazer o servico, que ele seja
realizado cor seriedade, sem agodamentos,
nem coadjuvantes desnecessirios. Para fazer
essa hist6ria avancar e nao retroceder ou mar-
car passes, como uma novela de mau gosto.


INCENTIVES
* Quando os incentives
fiscais estaduais foram
instituidos, na segunda
metade da d6cada de 60, o
govemo era obrigado a
publicar por tris vezes (na
imprensa regular, al6m de no
Didrio Oficial) um edital
informando que pretendia
conceder o beneficio a uma
determinada empresa e
abrindo prazo de 15 dias
para as impugnag6es. Quem
se opusesse a concessao teria
acesso ao process e poderia
impugnar o ato. Era o que
mandava a lei 4.074, de
1967, regulamentada pelo
decreto 6.569, de 1969.
Convinha ressuscitar esse
dispositivo. Os incentives
fiscais estaduais se tomaram
uma caixa preta. Apenas um
reduzidissimo e seletivo
grupo de pessoas sabe da
concessao. Quando 6
publicada (exclusivamente no
DO), a decisao ji esta
tomada. 0 decreto e a andlise
que o fundamental sao
sucintos. Nao ha a mais
remota audiencia ao piblico,
que fica a margem da
deliberagao. A dispensa de
impostos e outras vantagens
constituem relagao direta e
fechada entire o governor e a
empresa.
Evidentemente, esse
procedimento nao faz bem ao
interesse puiblico. Um
parlamentar faria muito bem
se restabelecesse a exigencia
original, em mau moment
expurgada da legislacao
estadual, de publicacao de
edital, individualizado por
empresa, com a comunicag o
da intengo de realizar o ato
e criando a possibilidade de
impugnag~o, devidamente
fundamentada, por
representantes da sociedade.
As audiencias, tanto para o
recebimento do pedido da
empresa como para as
deliberag6es do Conselho
Superior de Desenvolvimento
(que precisa sair da letra
morta no papel), teriam que
ser p6blicas.
Espero que esta sugestao
nao fique, como outras,
perdida no desert das
boas inten6oes.


8 MAR'O DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal











Osvaldo Melo, politico



de meio seculo no Para


Quando voltei de Sdo Paulo, no final
de 1974, a hist6ria mais cabeluda que se
contava nos assim chamados circulos bem
informados era sobre a venda da area
onde se localizava a provincia mineral
de Carajas. Dizia-se que havia boi na li-
nha do neg6cio, entire o governor do Es-
tado e a Companhia Vale do Rio Doce.
Falava-se de fulano e beltrano, mas as
verses eram inconsistentes. S6 havia um
jeito de comegar a apuracao sobre bases
s6lidas: examiner o process de venda.
O catatau, com centenas de pdginas,
estava guardado a sete chaves na Assem-
bl6ia Legislativa. Teoricamente, era do-
cumento piblico, acessivel a qualquer ci-
daddo. Na prdtica, como de praxe num
Brasil que se lixa para os direitos indivi-
duais, a teoria era outra: todos coloca-
vam dificuldades para entregar o proces-
so, formado no Interpa e remetido ao
parlamento para a devida aprovacgo.
Recorri ao entdo a um deputado com o
qual sempre mantivera relacAo de respeito
e cordialidade, apesar de nossas diferen-
cas political e ideol6gicas (felizmente sem-
pre contei corn virias dessas preciosas fon-
tes dentro do establishment). Como era um
dos meus hibitos de reporter, fui ao escri-
t6rio do deputado Osvaldo Melo, no edifi-
cio Rotary, fazer o que nos habituamos a
fazer: conversar, trocar id6ias, colher infor-
mag6es. Fiz-lhe o pedido: queria c6pia in-
tegral do process para passar a limpo os
boatos. Ele me olhou durante algum tem-
po, pensou e prometeu arranjar.
Sem nenhuma condicionante, no dia se-
guinte, dois grandes pacotes chegaram a
minha casa, lacrados. Era o process das
terras de Carajas. Na primeira leitura, nada
descobri. Na segunda, reconstitui a trama,
que denunciei numa materia de pAgina in-
teira da edigco dominical de 0 Liberal. S6
nesse moment Osvaldo Melo (como o pr6-
prio dono do journal) ficou sabendo sobre
o que havia de verdade naquela fofocada


toda, que ocupava a agenda daqueles que
sAo bem informados mas nao esti nem ai
para a informagao do piblico, geralmente
chamado a participar somente na hora de
pagar a conta. A materia desencadeou a
maior crise political do governor Aloysio
Chaves, corn dura repercussAo em Brasi-
lia. A situacao pareceria desconexa a um
observador superficial. 0 Liberal dava ple-
na sustentagAo ao governor. No entanto,
quase o levara a queda, que chegou a ser
examinada no PalAcio do Planalto (que, ao
estilo prussiano do general Geisel, decre-
tou a federalizacgo das terras de Carajas,
tirando o Estado da parada).
Um deputado federal do mesmo parti-
do do governador qualificara o ato de sua
administracAo como sendo um esteliona-
to (vendia terras que nao Ihe pertenciam),
acrescentado, quando a crise atingiu tem-
peratura explosive, de uma expressao ali-
viadora: seria um "estelionato t6cnico". Ou
seja: por nao ter convicq~o da situagao
legal das terras, o governor nao agira corn
dolo no epis6dio. Enfim, como se dizia
antigamente, foi um bafafA medonho.
Talvez a hist6ria jamais tivesse chega-
do ao conhecimento da sociedade se o
deputado Osvaldo Melo nao tivesse cum-
prido seu dever de home publico e 0
Liberal, por deliberagAo de seu director de
redagAo, ClAudio SA Leal, nao tivesse de-
cidido arriscar as conseqiuncias da pu-
blicacgo da reportagem ao inv6s de sufo-
ca-la em fungAo dos interesses politicos e
comerciais da empresa. E pouco provdvel
que um jornalista conte atualmente corn
essas duas condi6oes favorAveis na im-
prensa e na vida p6blica paraense.
Revelo aqui o important papel de-
sempenhado por Osvaldo Melo, que pela
primeira vez identifico como a fonte de
acesso ao process da venda de terras
de Carajas, em homenagem ao seu nome
e como preito de reconhecimento ao seu
papel na hist6ria recent do Para, muito


mal lembrado, como se habito, no an6-
dino registro de sua morte, ocorrida no
dia 18, aos 78 anos de idade.
Numa terra de unanimidades e passio-
nalidades, de promiscuidade e tolerAncia,
Osvaldo Sampaio Melo soube reconhecer
e preservar um terreno de autonomia en-
tre a political e a sociedade, o politico e
qualquer outro das personagens dessa tra-
ma, como o jornalista. Essa attitude ficava
clara no seu relacionamento cor o Re-
p6rter 70, a principal coluna de O Liberal,
que era o seu principal cabo eleitoral:
identificava as notas que atendiam o seu
interesse pessoal, quando as mandava para
o redator da coluna, daquelas que visa-
vam informar a opiniao pdblica. E tratava
de equilibrar os dois pratos da balanga
para que seu interesse ndo pesasse mais
do que os dos seus representados.
Foi mais essa atuagAo nos bastidores,
no trato cor agents do poder e interme-
didrios da sociedade, do que em contato
direto cor o eleitor ou nas campanhas de
busca de voto pelo interior, que Osvaldo
Melo se destacou. Se seus votos depen-
dessem do corpo-a-corpo, Osvaldo teria
sumido do mapa eleitoral mais cedo. Ele
ia para o interior levando sua racgo de
bolachas e garrafas de Agua mineral, algo
inimaginavel para quem garimpa apoios
com largas doses de populismo, como
exige o cardapio, o que inclui comer qual-
quer coisa que lhe seja apresentada e be-
ber do que lhe for oferecido.
Osvaldo era burocrata por tempera-
mento, integrante da geraqao que chegou
a vida p6blica atrav6s do sopro tecnocrd-
tico bafejado pela administragao de Celso
Malcher na prefeitura de Belem, no inicio
da decada de 50. Melo era um conserva-
dor modernizante, preocupado em agir
conforme um padrao de racionalidade (o
que o levou a criar um precioso arquivo)
sem sufocar os impulses do coragSo, em
favor da fidelidade e da amizade. Merece
os sentiments dos que lhe foram dar
adeus convencidos de que sua said de
cena deixou uma lacuna bem mais pro-
funda do que a que costuma caber num
discurso meramente formal ou falso, como
o da maioria dos membros da confraria
da qual ele tAo bem participou durante
meio s6culo da hist6ria paraense, desta-
cando-se cor o que na political costume
ser escasso: pelas suas ideias.


IMPRENSA


Tereza Curvivel, principal
colunista political do journal 0
Globo, reuniu em seu aparta-
mento, em Brasilia, colegui-
nhas para um jantar cor a par-
ticipacgo do president Lula. O
encontro se estendeu pela noi-
te, em alto (mas alto mesmo)


estilo. No dia seguinte estou-
rou o escindalo Waldomiro
Diniz. Foi uma ressaca nao pre-
vista no menu do convescote.
Outro dia um amigo elogiou
o comportamento dos rep6rteres
que compareceram a certo ato e
nao fizeram nenhuma pergunta


impertinente ao govemador Si-
mio Jatene. Ele estava ali para
falar de a&ao social e nao do con-
flito com a Companhia Vale do
Rio Doce. Ficou muito feliz de
nao ter que se desviar para as-
suntos inc6modos, para ele, e po-
lemicos, para o piblico.


Imprensa que nao imprensa
faz uma falta imensa. Rima e 6
a solucao para acabar com essa
chapa branca que veda os olhos
de boa parte dos jornalistas bra-
sileiros atualmente. Ainda quan-
do seja uma chapa branca dal-
tonicamente vermelha.


Jornal Pessoal 2' QUINZENA MARCO DE 2004





















a







































Esta fotografia 6 o retrato de u
ca no Park, marcada por v
paix6es politicas e pelo m
mo do bom e do mau. Foi
da na edi~go da Folha Vespertina,
do journal da familiar Maranhio (o p
matutino, era a Folha do Norte), et
de 1952. O poder, nessa 6poca, est
os antibaratistas, que haviam vencii
puta pelo governor do Estado, em 1
gendo, contra o caudilho Magalhae;
o marechal Alexandre Zacharias de.
gho, que tinha sido o comandante n
Amaz6nia. Depois de duas d6cadas
ra com Barata, a Folha voltava a fre
o Pqldcio Lauro Sodr6 (Barata retc
cet:-c -- e o chicote em 1955).


Tenis
* O Tenis Clube, "uma agremiagao di-
ferente", inaugurou sua quadra de es-
porte em dezembro de 1952, "vendo-
se em grande nimero o element fe-
minino, que deu maior brilho as parti-
das disputadas", como registrou a cr6-
nica jornalistica. Em individuals mas-
culinas, Jaet Klapish venceu Robert
Dean e Jos6 Moutinho. Em duplas fe-
mininas, Syla Fecury e Betty Parry der-
rotaram Doris Dean-Eliana. Em duplas
masculinas, Fulton de Paula e Diler-
mando Queiroz levaram a melhor so-
breJos6 Moutinho-JoAo Fecury; ji Pau-
lo Castro e Chalu Pacheco sobrepuja-
ram Jodo Fecury-Heimar Duarte. Foi
uma domingueira brilhante.

**00*060000*0004*00*


FOTOGRAFIA

Clube baratista
ima 6po- Sob o titulo "A repartigao publica dos
7iolentas baratistas: 'Caf6 Manduca'", vinha o se-
aniqueis guinte texto:
publica- "Certos baratistas, menos por sua culpa
o segun- do que pela tolerAncia irritante de alguns
irimeiro, chefes de repartig6es pdblicas, continual
n maro desfrutando absurda regalia, menosprezan-
ava cor do a assiduidade e subestimando o 'livro do
do a dis- ponto'. Sao vistos, freqtentemente, em pon-
950, ele- tos de reunites habituais, em grupos relati-
s Barata, vamente numerosos, saboreando o 'moca' em
Assump- horas de expediente, como se Ihes nao cou-
lilitar da besse, na repartigao, nenhuma parcela de res-
de guer- ponsabilidade na entrosagem do service pd-
qtientar blico. Escolheram, agora, o 'Caf6 Manduca',
)maria o situado a esquina da rua 13 de Maio corn a
travessa Campos Sales.


Modern
* Ramiro Jaime Bentes e Jos6 Cliudio Mau6s Barra
foram eleitos, em 1955, representantes do Mo-
derno junto a UECSP (Uniao dos Estudantes dos
Cursos Secundarios do Pard). Como cabegas da
chapa "Ideal e Progresso", venceram por 46 vo-
tos a chapa "Ruy Barbosa". Os suplentes foram
Jos6 Costa e Pedro Sales.
O Moderno estd completando 90 anos de vida.

Verso
* Propaganda versificada de um popular refrige-
rante da terra em 6poca de eleigao, em setembro
de 1957:
"Nas Juntas de Apuraqgo,
onde o trabalho 6 insano,
pede o juiz e o escrivAo:
deem-nos Cola Soberano!"


oo


No cliche, um documentario da 'folga'
desfrutada por certos servidores do Estado:
1 Alvaro Tupiassi, que deveria estar
aquela altura fazendo jus aos vencimentos
na Saide P6blica. 2 -Joao Malato, fiscal de
vendas e consignag6es, lotado no 'panamd'
da Recedoria de Rendas; 3 Jos6 Luiz Coe-
Iho, 'naturalista' do Museu Goeldi. 4 Ca-
zuza Pinho, que goza da estima mais eleva-
da de Joao Pina, o ferrabrds da Divisao de
Receita da S. E. F. [Secretaria de Estado da
Fazenda]. 5 O ex-beleguim Ant6nio La-
mario, o 6nico que continue na 'pedra'.
Qualquer semelhanga entire os ndmeros
que identificam as personagens e os do jogo
do bicho 6 mera coincidencia..."
O estilo escorreito, mordaz, bem in-
formado denuncia o autor do texto: o dono
do journal e seu principal redator, Paulo Ma-
ranhAo, o jornalista mais important do Para.
Arrasador como um p6 d'Agua amaz6nico.

MARCO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal








Livro
* Quem, na 6poca, ndo acom-
panhou hipnotizado a cami-
nhada de Caryl Chessman
pelo corredor da morte da
penitencidria de San Quentin,
nos Estados Unidos? Ele aca-
bou eletrocutado pelo crime
de homicidio, mas escreveu
various livros na cadeia tentan-
do se salvar. O quarto, "O
garoto era um assassino", foi
lancado em 1960 pela Livra-
ria Dom Quixote, de Haroldo
Maranhio, simultaneamente
corn as principals pracas do
pais. Um feito.

Bancrevea
* Em janeiro de 1960 a Asso-
cia~go de Desportos Recrea-
tiva Bancr6vea comerou a
funcionar, em sua nova sede
social, nas instala6oes do an-
tigo Pilace Teatro, na rua Sil-
va Santos (nos funds do Hil-
ton Belem de hoje). Do meio-
dia a meia-noite (e partir das
8 da manhA de domingo), os
associados poderiam dispor
de completeo servigo de bar
e restaurant, inclusive com
atendimento de almocos e
jantares (cozinha de 14 or-
dem, a cargo do Grande Ho-
tel), alem dos naturais jogos
de salao (bilhares, xadrez,
pingue-pongue, dama), leitu-
ra, etc.", anunciava uma nota
do clube, que foi criado por
funcionarios do atual Banco
da Amaz6nia.

Obras
* Eram nove horas de uma
noite quente do inicio de 1961
quando o prefeito de Bel6m,
Lopo de Castro recebeu, "em
seu palacete do Largo da
Mem6ria" [atualmente ocu-
pado pela sede de um ban-
co], um reporter da Folha do
Norte para falar sobre as
obras que pretendia realizar
na cidade no seu l6timo ano
de mandate.
Uma delas era abrir um
canal na avenida Tamandare,
"com leito e bordaduras de
cimento, que surgird da con-
fluencia da travessa Padre
Eutiquio e se estenderd pelo
eixo daquela avenida ate sair
no Guajari. Pela sua profun-
didade e capacidade de va-
zao, esse grande canal cole-
tarA as aguas de todo o bair-


PROPAGANDA Dizem que Cyd Charisse
era a dona das mais belas
Cinema corn estilo pernas que jd dancaram em
Cinem C m e films de Hollywood. Os
que foram ver "A bela do
Ibas-fond", no qual ela
r a y contracenava corn o
canastr~o Robert Taylor,
puderam tirar a prova dos
HOJE EST'TA g, 13 00 1930 21.30 Hs nove. Alids, muito mais do

aMETRO GOLDWYN RMA o, R 'w W IAque nove porque as
ooJn ti4"*"0,4i6Ot legenddrias pernas de
S Charisse se estendiam por
lC I CINEMASCOPE algumas dezenas de
S ... centimetros, torneados por
S: ../ i Ca Deus. No filme, "o 1" grande
espeticulo de 1960", ela
executava "2 sensacionais
R T numeros de danga",
y B rJ IM[RR *%&, exprimindo seus
,, Nr { sentiments: "ela amou
^ b tanto como se cada dia
0 fosse o filtimo", dizia o
cartaz, umrn daqueles
A provocativos cartazes da
Metro Goldwin Mayer.
1 O Cine Teatro PalAcio,
ainda novo de dois anos de
existencia, com seu "ar
condicionado perfeito" e "poltronas estofadas", o "maximo de luxo e conforto", permitia o
traje esporte, mas gostaria que seus frequentadores aparecessem para ver seus filmes com
"traje passeio". O mundo ainda cabia num manual de etiqueta e bons modos.
***Oege.***OO***o0ee***************e*e**e***e*


ro, impedindo que as ruas de
Braganga, Sao Francisco, Sto
Pedro e 16 de Novembro se-
jam inundadas cor as maio-
res chuvas. Essse canal teri
carAter paisagistico, orlado de
palmeiras imperials e borda-
do de jardins floridos, em
nada prejudicando o aspect
arquitet6nico local".
O prefeito tambem prome-
tia a recuperacAo integral da
avenida 16 de Novembro,
"com novos passeios e o re-
plantio de 300 palmeiras im-
periais ji disponiveis no Hor-
to Municipal".
Ou nAo foram plantadas
ou foram retiradas. Palmeiras
imperials nao ha mais.

Cinema
* Tres redes de cinemas que
havia em Belem em 1961 de-
sapareceram como tal. Duas,
por complete. Uma manti-
nha o Moderno, Indepen-
dancia e Vit6ria. A outra, o
Paramazon, Tamoios e Gua-
jard. E a terceira o Iracema,
Guarani, Popular e Paraiso.
Estes se revezavam realizan-


do o Festival dos Grandes
Filmes da 20th Century Fox,
filmes que, depois de exibi-
dos na promocgo, "nao vol-
tardo mais ao cartaz em ne-
nhum cinema de Bel6m".
0 festival de '61 tinha "A
marca do zorro", com Tyrone
Powell (Power no cartaz) e
Linda Darnell; "O cisne ne-
gro", outra vez Tyrone Powell
e Maurean (nao Maureen)
O'Hara; "O beijo da morte",
corn Victor Mature e Richard
Widmarck; "Rua sem nome",
cor Mark Stevens e Richard
Widmark; "A cancAo de Ber-
nadete", com Jennifer Jones;
"D6bil 6 a came", com Roy
Harrison e Maureen O'Hara.
Nas outras salas podia-se
vibrar, nesse ano, corn
Clayton Moore interpretando
o Zorro em "Justiceiro mas-
carado", sempre "em acgo e
lutas em defesa da lei". Ou
corn o filme "de aventura, ti-
ros e lutas" de Durango Kid
em "Renegado dos montes".
Ou Grande Otelo, Renata
Fronzi e Renato Restier em
"Vai que 6 mole".


Edificio
* Em julho de 1962 Belem re-
cebeu um edificio que "om-
breia com os melhores do
Brasil em todos os requisitos
de conforto da mais modern
linha arquitet8nica". Era o
"Jose Maria Marques", corn 60
apartamentos em dois blocos
de 15 andares cada um, uma
realizagio do Banco Moreira
Gomes cor a Construtora
Chamie, do Rio de Janeiro,
que ingressava assim no mer-
cado imobilidrio da capital
paraense (em seguida faria o
Edificio Chamie, de escrit6ri-
os, na rua XV de Novembro,
corn financiamento do Banco
Nacional de Minas Gerais, de
MagalhAes Pinto, que ali ins-
talaria sua filial).
O anuincio da inauguraglo
dizia que ao lado do edificio
"foi conservada uma ampla
drea e que serve para entra-
da da enorme garage cober-
ta corn 20x70 metros de di-
mensAo, uma das maiores do
norte do Brasil".
A garagem, pelo jeito de
hoje, o rato comeu.


Jornal Pessoal 2o QUINZENA MARCO DE 2004










Justi a

Em 14 de agosto de 2001, Aurea Apare-
cida Gomes assinou, em Sao Paulo, um con-
trato de financiamento direto ao consumi-
dor com o banco ABN Amro Real para com-
prar um autom6vel Mercedes Benz Sprin-
ter 2000, no valor de quase 65 mil reais,
em 36 prestac6es de R$ 1,8 mil. E, seguida,
alegando ter domicilio em Rondon do Para,
entrou com uma media cautelar inomina-
da na comarca para trocar a garantia, me-
diante caugAo e pagamento, por uma TDA
(ou seja, um titulo da divida agrdria cobri-
ria o saldo devedor, que era o pr6prio fi-
nanciamento).
O juiz de Rondon, Paulo CUsar Pedrei-
ra Amorim, concede a media, apesar
de haver uma orientaco do Tribunal de
Justica do Estado para que os juizes nao
concedessem liminares em processes des-
sa esp6cie. O juiz expediu oficio para o
Detran de Sao Paulo determinando a
transferencia da propriedade do veiculo
para o document, sem constar no docu-
mento qualquer restrig o ou observagAo


CorreRao

Meu instinto de preservaqao, embora
atuando no subconsciente, transformou em
impeto suicide o impeto homicide de Vi-
cente Franz Cecim de me esganar por cau-
sa do cineasta espanhol Luis Bufiuel. Ao
mesmo tempo, a troca de adjetivo teve uma
fungio suplementar onirica: advertir os
agressores em potential passados, pre-
sentes e futures de que qualquer piano
homicide sera reduzido a suicide diante da
firia reativa da unida (por isso mesmo ja-
mais vencida) redagAo deste peri6dico.
Mesmo que o indigitado tenha cruzado
comigo no finado Cinema Moderno (e nAo
no Olimpia, que, apesar da descaracteriza-
gAo, continue em plena fung~o).
Gralhas semelhantes andaram pousan-
do em outros textos da ediqAo passada,
como s6i acontecer quando se faz um jor-


(o que permitiria a livre comercializaclo
do bem a partir dai). Somente seis meses
depois o TJE alertou o Detran para nao
fazer a transferencia.
O juiz foi afastado das suas func6es e
ponde a process administrative discipli-
nar administrative no TJE, durante cuja ins-
trugao o fato foi apurado. Mas o enredo
cabuloso dessa hist6ria e o ritmo da sua
apuraSao recomendam a todos, inclusive
ao pr6prio judicidrio, que estd mais do que
na hora de recorrer a um mecanismo mais
eficiente. Tanto para apurar as infrac6es
e punir seus responsAveis, como para ini-
bir attitudes tAo criminosas perpetradas sob
a protecao do poder judicante, delegado
a pessoas despreparadas para exerce-lo.
O control externo 6 esse mecanismo. A
resistincia t sua adocAo ou sua protelacao
dizem mais sobre o espirito corporativo do
judicidrio do que sobre sua fidelidade aos
compromissos que a sociedade lhe delegou
para que ela viva em regime de instituic6es
s6lidas e democracia para valer.


nal destes em dois dias, para que circle
antes de findar a semana, sem tempo se-
quer para a revisAo (devida, ainda que nem
sempre 6til, ja que o revisor e o redator
estAo encarnados na mesma pessoa). Por
exemplo: meu outro rebelde rebatizou
Mauricio Reis, director de meio ambiente da
Companhia Vale do Rio Doce, de Marcelo.
Espero que ao leitor tenha ficado cla-
ro que a CVRD espera trazer bauxita da
Guiana para transformi-la em alumina
em Barcarena. O ge6logo Gabriel Guer-
reiro 6 secretdrio de Ciencia, Tecnolo-,
gia e Meio Ambiente (e nao MineragAo,
que fica em outro feudo, embora fosse
a ele mais adequado).
Quanto ao mais, 6 lancado na conta
dos exercicios futures, mas ja contingen-
ciados, am6m, Lula-lou.


Modelo


A iniciativa privada pretend investor tres
bilhoes de reais, nos pr6ximos 15 anos, para
revitalizar a zona portuiria do Rio de Janei-
ro. Os dois primeiros empreendimentos se-
rAo casados: uma profunda reform no fa-
moso arranha-c6u, de 22 andares (o primei-
ro da America Latina), construido pelo jor-
nal A Noite, na praca Maui, na d6cada de
20, e a nova sede do INPI (Instituto Nacio-
nal de Propriedade Industrial), que said do
velho edificio (mas no qual permanecerd,


intocada, a c6lebre Radio Nacional) para um
novo, de seis andares.
Governos federal, estadual e municipal
participam da empreitada ajudando os in-
vestidores particulares. A experiencia nao
podia ser examinada e adotada, corn os de-
vidos ajustes, em Bel6m, sem ser uma be-
nesse de p6 quebrado do poder piblico
(como a Estagco das Docas) nem um ato
seu de desinteligencia (como o da CDP)?
Alice, no pais das maravilhas, agradeceria.


DATAS W
* Em 2006 a ciencia vai ter
duas datas para comemorar.
Uma 6 relative aos 350 anos
que faria o primeiro
cientista, no rigor da
expressio, que andou pela
regiAo, o baiano Alexandre
Rodrigues Ferreira. Ele veio
para a Amaz6nia em missed
do iluminista governor que
havia entAo em Portugal
para um inventdrio das
riquezas naturais da col6nia
americana. Deu conta
maravilhosamente da tarefa
na Viagem Filos6fica, cor
sua fantastica iconografia.
O produto da atividade
intellectual de Alexandre
Rodrigues Ferreira n6s ja
conhecemos, em boa
media gracas ao empenho
de Arthur Cezar Ferreira
Reis no Conselho Federal de
Cultura. Mas os paraenses
nao tiveram acesso a
exposiqCo sobre as colecoes
que o naturalista formou na
Amaz6nia e levou para
Portugal. Por vaidade e
despotismo (nada
esclarecido) a exposigao
passou pelo Pard e foi ser
mostrada apenas em
Manaus. Nao era a ocasido
para suprir essa lamentavel
lacuna?
A outra data sera a dos
140 anos do Museu Goeldi.
Seria.a oportunidade para
refazer, ampliado, revisto e
criticado, o simp6sio sobre
a biota amaz6nica, realizado
em 1966, em comemoragao
ao centendrio. O que
mudou de li para ci? A
Sudam, que comecou no
mesmo ano, acabou. O
desmatamento se tornou
desenfreado. E o mundo
nao abre mAo da Amaz6nia,
que nossos irmaos se
preocupam pouco em
conhecer.
Fica a sugestio.