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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00265
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00265

Full Text






Lornal


A AGENDA


Pessoal


AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINT


MAR;O DE 2004
I QUINZENA
N 319 ANOXVII
R$ 3,00
0


CVRD X ESTADO



Chamem o De Gaulle


0 conflito entire a CVRD e o governor chega, final, ao judicidrio. Qualquer que venha
a ser o resultodo, a odministrogdo Simdo Jatene, chamada a responsabilidade, que
ndo quis assumir por vontade pr6pria, ficard 6rfc nessa questdo.


Ogoverno do Para nao e serio.
Em palavras menos duras, 6 o
que dizem tres ac6es propos-
tas neste mes no f6rum de
Belm. Duas delas sdo de res-
ponsabilidade da Companhia Vale do Rio
Doce. Segunda maior exportadora bra-
sileira e a maior empresa em atividade
no Estado, a Vale recorreu a via judicial
para obter o licenciamento ambiental
para a mina de bauxita que pretend im-
plantar em Paragominas, ou, pelo me-
nos, conseguir que o Conselho Estadual
do Meio Ambiente se reuina para exami-
nar o relat6rio de impact ambiental, do-
cumento que precede o licenciamento.
A outra iniciativa 6 do advogado Pa-
raguassu Eleres. Na condicgo de autor
popular, ele quer que a justica obrigue
as parties a resolverem o impasse a fim


de nao prejudicarem um terceiro inte-
ressado na questdo, o municipio de Pa-
ragominas e toda a regiao sob a influen-
cia do projeto de mineragio, chamados
a lide como litisconsortes necessarios.
A demand judicial nao existiria se
o governor do Pard cumprisse seu de-
ver. No caso, o personagem princi-
pal, explicitamente citado (como Pi-
latos nesse credo), e o secretdrio de
ciencia, tecnologia e mineragao do Es-
tado, Gabriel Guerreiro. Ele 6 quem
preside o conselho ambiental. A lei o
obriga a convocar reunido ordindria
do Coema a cada dois meses. Mas ha
quase oito meses o conselho nao se
reune porque tem uma pendencia
atravessada na garganta (e no cora-
do): o EIA-Rima da CVRD para a ex-
traqAo da bauxita de Paragominas,


neg6cio de 270 milhoes de d61a-
res (700 milhoes de reais).
A iltima reunido do Coema deve-
ria examiner os tres grossos volumes
do Estudo de Impacto Ambiental-Re-
lat6rio de Impacto Ambiental da
CVRD, que tratam da extragdo do mi-
nerio e do seu transport atrav6s de
um mineroduto cor 240 quil6metros
de exten coNi'N 'iii''Aii A'"


0 REINO DA
A
CORRUPTOLANDIA
(PAG. 5)

\\\s111111\\\\\\\'


N-


V


I








CONTINUA.AO DA CAPA
sao. Alegando precisar de mais infor-
macges para se decidir, o deputado
Cipriano Sabino, representante da As-
sembleia Legislativa no colegiado (e da
base aliada do governor pediu vistas
do process. Nunca mais o devolveu.
Nem foi cobrado. A reuniao seguinte,
convocada para 7 de julho, nao foi
realizada, sem justificaago al6m do vir-
tual seqiiestro dos autos. O Coema
permaneceu esquecido desde entao.
Notificado extra-judicialmente a ex-
plicar a demora em 12 de fevereiro, o
secretario (que 6 ge6logo e foi funci-
onario de uma subsididria da Vale, a
ja extinta empresa de pesquisa Doce-
geo) explicou candidamente que "o
process esta tendo tramite regular,
com observancia dos prazos que Ihe
sao aplicaveis". E verdade. Mas nao 6
toda a verdade.
A legislagao ambiental diz que um
process de licenciamento deve du-
rar, no maximo, um ano. Os 12 meses
que cabem ao process de Paragomi-
nas se completarao no pr6ximo dia
17, ja que o EIA-Rima foi protocola-
do na Sectam em 17 de margo de 2003.
Por6m at6 25 de junho do ano passa-
do, data da convocagao do conselho
para aprecid-lo, ele seguiu com cele-
ridade todo o seu trajeto processual:
foi examinado e aprovado na camara
t6cnica, discutido e aprovado nas duas
audiencias p6blicas realizadas (em
Paragominas, pela primeira vez em
sua hist6ria), e complementado nos
pontos em que os t6cnicos o conside-
raram insuficiente. Tecnicamente, por-
tanto, estava pronto para ser analisa-
do, discutido e submetido a delibera-
gao dos conselheiros, com recomen-
dacao favoravel da assessoria.
Terrivel seria se o deputado Cipri-
ano Sabino, depois de um pedido de
vistas ja abusive e injustificado, devol-
vesse os autos no afogadilho da hora
para uma decisao apressada; ou, o que
seria muito pior, a retengao servisse
como instrument de pressao extra (e
ultra) processual, a margem da via ofi-
cial e ptblica.
Esse caminho marginal foi confirma-
do pelo secretario especial de governor,
Wandenkolk Goncalves. Em entrevista
publicada em O Liberal do dia 3, ele
"contabilizou" a instalagao de um escri-
t6rio da Vale em Bel6m "como resulta-
do da pressao feita pelo governor esta-
dual". Uma das armas dessa pressao se-
ria justamente "a licenga ambiental para
a instala'ao do projeto de extragao de
bauxita em Paragominas".
O secretario admitiu ao journal que "o
governor ja elaborou estudo t6cnico e a
licenca sera liberada automaticamente,


quando o acordo for oficializado". O jor-
nal se permitiu aduzir a declaragAo de
Wandenkolk a observaqAo de que "o uso
da licenga como instrument de barga-
nha political vem sendo alvo de critics
do deputado Mario Cardoso (PT)". Cal-
do escaldado ter medo de agua fria: O
Liberal 6 parte em demands judiciais
com a Vale.
Ao decidir enveredar por essa trilha
tortuosa e obscura, o governor parecia
apostar no seu poder de convencimen-
to e na falta de firmeza do contender.
Mas apostou mal. Ao inv6s de chegar
para um novo toma-la-da-ca, a Vale
(como havia feito em relacgo ao pr6prio
0 Liberal, em situacao analoga) prefe-
riu ir buscar na justica o que lhe foi ve-
dado administrativamente.
Prop6s mandados de seguranca pe-
rante as duas varas civeis da fazenda
ptiblica no f6rum de Belem, oferecen-
do ao juiz processante a alternative
de lhe conceder logo a licenga ambi-
ental ou simplesmente convocar o
Coema para apreciar o EIA-Rima, que
dormita no embargo de gaveta ha qua-
se oito meses.
Mesmo que seja adotada a hip6tese
menos favoravel a empresa, a segunda,
a situacao do governor nao sera menos
inc6moda: um outro poder, o judicidrio,
endossard o puxAo de orelhas para que
o secretario cumpra seu dever, obede-
cendo a lei, ao inv6s de instituir vias
obliquas que s6 favorecem a ma gestao
dos neg6cios ptblicos, a muito citada e
pouco respeitada res pdblica dos velhos
tribunos romanos.
Se quisesse, o governor podia reunir
seus melhores t6cnicos para fustigar o
EIA-Rima da Vale, caso o document nao
atendesse as normas legais ou fosse in-
consistente. Mas devia agir dessa maneira
na camara t6cnica (de onde, por6m, saiu
a recomendagao pela aprovagao do re-
lat6rio de impact ambiental, com base
no parecer dos t6cnicos da pr6pria Sec-
tam). No colegiado do Coema a palavra
cabe aos conselheiros, funcionando o
governor como mera fonte de consult.
S6 se fossem suscitados aspects no-
vos, nao considerados na analise t6cni-
ca (implicando reconhecer a existencia
de falhas no trabalho do corpo t6cnico
official 6 que o process teria de ser
reaberto para a empresa poder suprir as
exigencias adicionais. Jamais esse orde-
namento podia ser quebrado para servir
a um jogo de presses, por mais legiti-
mo que ele fosse. Ainda mais porque a
licenga em apreciacgo 6 pr6via.
Bastaria a empresa deixar de cum-
prir as 26 exigencias e oito recomenda-
goes feitas pela camara t6cnica, como
condigao para a recomendacao de apro-
vagAo (em fungao de uma alegada su-


perficialidade dos dados sobre o proje-
to econ6mico), para a licenca ser sus-
pensa at6 a regularizacao do projeto.
Chega a ser estranho que em dezem-
bro do ano passado, sem qualquer aci-
dente de percurso, o mesmo governor
tenha licenciado a mineragAo de cobre
da mesma Companhia Vale do Rio Doce
na jazida do Sossego, em CarajAs. A ex-
tracgo e a concentragao do cobre envol-
vem um risco ambiental muito maior do
que a lavra de bauxita, ainda mais por-
que, no caso de Paragominas, o proces-
so ja se beneficia dos lamentiveis erros
cometidos no Trombetas, incorporando
as inovag6es feitas pela Mineragao Rio
do Norte em favor do meio ambiente.
Logo, as alegag6es do secretArio especi-
al Sergio Leao, tentando comparar Para-
gominas ao Trombetas, sao completa-
mente injustificadas. E inconsistentes.
Qualquer que venha a ser a decisao
da justiga sobre os pedidos da CVRD, o
governor do Estado terd sido deslocado
do eixo principal por seu procedimento
leviano e primdrio. Com seus mandados
de seguranga, a empresa se antecipou
aos efeitos da agao popular do advoga-
do Paraguassu Eleres, saindo da inagdo
que ele se props a quebrar quando
decidiu recorrer a justica. O governor e
que ficou 6rfao nas duas demands.
Abandonando a obstruida via admi-
nistrativa e nao se deixando seduzir pelo
canto de sereia do acerto a la latter, a
Vale chamou o poder judiciArio para
funcionar como instancia arbitral, o que
seria completamente desnecessArio (e
inviAvel) se o EIA-Rima tivesse continu-
ado a tramitar regularmente de fato e
nao sofismaticamente, como disse o se-
cretario Gabriel Guerreiro.
Ou seja: a administragao pdblica pa-
raense nao 6 suficientemente madura do
ponto de vista digamos assim emo-
cional e nem possui consistencia t6cni-
ca para desempenhar o papel que lhe
cabe no licenciamento ambiental. Essa
6 que sera a stmula do caso, qualquer
que venha a ser a decisao judicial.
Moral desabonadora, que chega em
ma hora, exatamente quando engrossa
o movimento em Brasilia para que o
licenciamento de projetos de minera-
gco, energ6ticos ou petroliferos volte a
ser de competencia exclusive da Uniao.
Se vier a se concretizar (atrav6s de
Medida Provis6ria ou pela via mais pro-
blematica do Congresso), essa media
sera um retrocesso na condugAo da
questao, que ja havia dividido as res-
ponsabilidades entire os entes ptblicos,
como ter que ser. Mas seria um casti-
go merecido para o Estado do Para,
depois de tanta irresponsabilidade da
administragao Jatene diante dos proje-
CONTINUA NA PAG 3

MARCO DE 2004 I1 QUINZENA Jornal Pessoal











Cobre: hist6ria comega torta


Com a entrada em operagio da mina
do Sossego, em Carajis, na segunda
quinzena de junho, "o Brasil comega sua
transformagao em exportador liquid de
cobre", diz o comunicado de imprensa
da Companhia Vale do Rio Doce, dona
do empreendimento. Como se trata de
uma autentica faganha, que poupa o Bra-
sil de gastar todos os anos de 300 mi-
lhbes a 400 milhbes de d6lares cor a
importagao de cobre, o president Luiz
Inacio Lula da Silva deveri estar present
a inauguragAo. Foi o que ele, avido pos
agendas positivas, prometeu, em Brasi-
lia, ao president da CVRD, Roger Ag-
nelli. Falta apenas marcar a data exata.
Cor Sossego, que da partida ao pri-
meiro dos cinco projetos de cobre pos-
siveis em Carajas, o Brasil realmente
comega a sair da posigdo de importador
para a condigio de exportador do pro-
duto. Mas ainda 6 impossivel dizer quan-
do isso ocorrera. Sossego nao ird alem
da primeira etapa de beneficiamento do
min6rio, a da concentragao do teor (que
passara de 1% para 30% de cobre conti-
do na rocha). Produziri 455 mil tonela-
das de concentrado. Trata-se de insumo
para o moment seguinte, da metalur-
gia, quando poderao ser produzidos 140
mil toneladas de metal de cobre, com
um valor unitario muito maior.


Em calculo grosseiro, pode-se dizer
que uma tonelada de metal vale cinco
toneladas de concentrado. Mas esse gan-
ho de renda s6 sera possivel para os im-
portadores do concentrado do Sossego.
Que ficarao ainda cor a prata e o ouro,
subprodutos associados.
Cor Sossego o Brasil vai passar a ex-
portar concentrado de cobre, mas conti-
nuard tambem a importar. Isso porque a
produgao de Carajps ira para o exterior e
nao para a uinica metalurgia instalada no
Brasil, a da Caraiba Metais, no interior da
Bahia. A Caraiba s6 produz menos de um
quarto do concentrado de que precisa
para a metalurgia, importando tres quar-
tos de suas necessidades industrials. Mes-
mo assim Carajas nao venderi seu con-
centrado para a ind6stria baiana.
Por que? Explicadges nao faltam, mas
sao inconvincentes. Na 6poca do regime
military tinha-se uma political national do
cobre. Mas nao se tinha cobre. Agora exis-
te cobre, cada vez mais. Ja nao ha, entre-
tanto, uma political brasileira do cobre; o
assunto foi entregue as empresas. A Com-
panhia Vale do Rio Doce, maior minera-
dora do pais, 6 dona das cinco jazidas de
Carajas e dos cinco empreendimentos que
as explorarao. Mas nao se afina com o
grupo Paranapanema, segundo maior
minerador brasileiro, dono da metalurgia


e da mina da Bahia. A CVRD vai exportar
concentrado e a Paranapanema vai im-
porta-lo (do Chile e da Bolivia).
Corn o tempo, realmente a balanga co-
mercial do cobre deixara de ser deficita-
ria, como tem sido sempre. Mas a que pre-
go para a economic national? O projeto
Sossego, o primeiro a entrar em atividade,
nao vai produzir metal. A metalurgia faz
parte do segundo (ou terceiro) projeto da
cronologia de Carajas, o projeto Salobo.
Ele vai utilizar a maior de todas as jazidas,
mas nao 6 t~o rentivel porque seu mind-
rio tem um indesejado teor de flOor. Pre-
cisa descartar essa impureza do cobre, o
que s6 6 possivel no refino. Por isso preve
produzir 150 mil toneladas de catodo (mais
oito toneladas de ouro e 20 toneladas de
prata, alem do molibdenio). Tera, por essa
circunstancia tecnol6gica, maior valor agre-
gado, tornando-se um empreendimento
verticalizado (ao contrario do Sossego).
Mas como envolve um risco maior, devi-
do a sua condigao inusitada no mercado,
ficou para tras. Ficaria assim se contasse-
mos com uma political national, que tives-
se como objetivo imediato a auto-sufici-
encia em cobre e nao neg6cios empresa-
riais isolados?
Bern que essa pergunta podia ser res-
pondida, talvez at6 a data da festival inau-
guragao da mina do Sossego.


CONTINUA;AO DA PAG 2


tos da CVRD, venham eles para o bem
ou o mal dos paraenses.
Nos pr6ximos cinco anos a empre-
sa investira o equivalent a 3,5 bilh6es
de d6lares (10 bilh6es de reais) no
Pard. S6 neste ano serao quase US$ 700
milh6es de um total de US$ 1,8 bilhao
programados para todo pais. O Pard
esta em primeiro lugar entire os que
receberao esses recursos, a frente de
Minas Gerais, na segunda colocagao.
Nao quer dizer que, em funcao da
grandiosidade nominal desses n6me-
ros (representam quase toda a arreca-
dagao pr6pria do Estado e cinco vezes
o que ele pode investor) deva-se acei-
tar tudo o que a Vale, rotineiramente
corn arrogancia e auto-suficiencia, nos
tenta impor. Mas trata-la com mais
do que tudo o amadorismo irrespon-
savel que tern caracterizado o compor-
tamento do governor nesse contencio-
so, 6 demais.
Bauxita, como se sabe, 6 um mind-
rio abundante e de baixo valor. Se tudo
o que as empresas querem fazer se re-
alizar, no final desta d6cada o Pari es-

Jornal Pessoal I- QUINZENA MARCO DE 2004


tara produzindo 25 milh6es de tonela-
das, mais do que o dobro do que pro-
duzia quando o novo s6culo comegou.
Terf, com isso, receita de 700 milh6es
de d6lares. Nao 6 pouco, mas nao 6 o
muito que parece porque nao gera ne-
nhum efeito multiplicador em si.
Seria irrelevant explorer ou nao
explorer os grandes dep6sitos desse
min6rio que existem no territ6rio pa-
raense se nao houvesse outras ativi-
dades a frente na cadeia produtiva. O
problema 6 que elas ja existed e nao
tem tido efeito extremamente reduzi-
do. No final da d6cada o Para estara
entire os tres maiores produtores mun-
diais de alumina, o produto seguinte
na escala de transforma~ao do mine-
rio. SerAo outros US$ 700 milh6es pelo
menos. O Estado recebera ainda mais
do dobro pela venda de aluminio.
Numa conta simples, o setor respon-
dera por um faturamento de US$ 3 bi-
lh6es apenas pelo acr6scimo da pro-
dugao do que ja existe.
O grande desafio esta em implan-
tar novas atividades industrials a par-


tir do metal basico para que ele nao
seja apenas um enclave. O que existe
atualmente 6 pouco significativo. Mas
nao quer dizer que o Para esteja irre-
mediavelmente condenado a uma fun-
gao colonial de exportador de produ-
tos semi-elaborados, o que o coloca
entire os cinco maiores exportadores
brasileiros e, ao mesmo tempo, no 16
lugar em desenvolvimento human.
Nao mudara, por6m, essa relacAo
perverse agindo corn a incompet~ncia
que esta caracterizando a administra-
gio SimAo Jatene. Mesmo quando ela
fala grosso e da murro na mesa, nin-
guem pode deixar de esperar que aca-
be se contentando com mais um bom-
bom, tal sua maneira desastrada de en-
frentar (ou dizer que enfrenta) a CVRD.
Se quisesse usar o licenciamento ambi-
ental como instrument para quebrar a
intolerAncia contumaz da empresa, o
governor podia fazer muito mais reven-
do as autorizag6es em Carajas do que
colocando cascas de banana em Para-
gominas. Mas sera que 6 isso o que re-
almente quer o governor do Estado?








A
INTELIGENCIA
SA CVRD abriu tres frentes
de combat cor o governor
por causa do projeto de
bauxita de Paragominas. A
primeira foi comecar a
negociar a transferencia da
mina para o MaranhAo. A
segunda foi recorrer A
justiga. E a terceira foi
anunciada nesta semana: a
empresa estd tentando
garantir o suprimento ao
menos parcial de alumina
na vizinha Guiana para que
o cronograma da ampliaglo
da Alunorte, que precisa do
minerio para produzir
alumina, nao seja
prejudicado. A Vale
pretend fazer a compra
antecipada da producAo
adicional da Aroaima
Minning Company, empresa
estatal guianense,
assegurando-lhe o dinheiro
necessario para que
aumente a capacidade de
lavrar bauxita.
Os paraenses tmr que
aprender de uma vez por
todas que embora tenhamos
muitas riquezas naturais em
seu territ6rio, nao basta essa
vantagem na competiqAo
globalizada de hoje. t
precise dispor de
capacidade de anilise e
antecipacgo dos fatos,
tirando proveito dos nossos
recursos para anular ou
suplantar os trunfos do
concorrente. Deitados em
bergo esplendido e
raciocinando extrativamente,
vamos continuar a perde de
goleada. Por isso o Pard
perdeu a batalha da
celulose, do papel, das
places de ago...
Quantas ainda virAo?



ERRATA
De volta a indesejivel -
mas tradicionalissima -
segCo de correq6es.
Uma nota de 1P de abril
de 1965 infiltrou-se no
noticiario de 1962 da
Mem6ria do Cotidiano.
Culpa do computador.
Os outros cacos, garatujas
e lombadas podem ser
jogados sobre as costas
largas de uma chata e
impertinente otite
carnavalesca.
Perdao, leitores.


Desafio em Carajas:




mudar o rumo do arco


Dono de um tergo das florestas tropicais do
planet, as mais ricas existentes na Terra, o Bra-
sil ingressou no ano passado no vexat6rio clube
dos importadores de madeira. Esta indo buscar
at6 em Portugal o que, teoricamente, podia ter a
vontade em seu pr6prio territ6rio. O esforgo re-
cente de plantar irvores para resolver ou pelo
menos atenuar esse deficit crescente alcangou
5 milh6es de hectares, algo em torno de meio
por centro da extensao territorial brasileira. t uma
;area 40% menor do que as terras que foram aban-
donadas, depois de mal usadas, apenas num tre-
cho da ferrovia de Carajis, a segunda mais im-
portante via de escoamento de min6rios do pais
e uma das mais importantes do mundo.
Essa area faz parte do que ja se convencionou
chamar de "arco do desmatamento" (ou, na sua
mais envernizada versdo atual, "arco de desflo-
restamento"). Sao 500 mil quil6metros quadrados
de terras na faixa de transigAo entire o Brasil des-
matador, que avanga sem parar, e a Amaz6nia flo-
restada, que se encolhe e comega a desapare-
cer. A Companhia Vale do Rio Doce se interessou
pela extremidade norte desse arco, sob a influen-
cia do seu Sistema Norte de mineracao.
O objetivo declarado do program de pesqui-
sa, que a empresa iniciou em 1980, 6 fazer o orde-
namento desse territ6rio. Atrav6s de uma ferramen-
ta-sintese, o zoneamento ecol6gico-econ6mico, pro-
duto do cruzamento de milhares de variAveis cria-
das pela pesquisa, a empresa pretend transformar
esse arco de destruiqao num modelo de desenvol-
vimento sustentivel. Essa nova matriz da acao hu-
mana permitiria corrigir os erros cometidos e agir
cor inteligencia a partir de sua implementacgo para
que a regiAo deixasse de ser estigmatizada (e exau-
rida) pela atividade predat6ria, cujo sinete 6 o des-
matamento de 38% de sua extensao.
O modelo ja esta quase pronto. Agindo como
se fosse uma agencia estatal, a CVRD o tem sub-
metido a debates, como o que aconteceu na se-
mana passada, no audit6rio do Museu Goeldi,
em Belem. Quer testi-lo e oferece-lo como ins-
trumento da acgo p6blica, suprindo uma terrivel
lacuna do governor. Evidentemente, a iniciativa
da ex-estatal nao 6 altruistica. Embora inegavel-
mente contenha uma dimensAo de political pi-
blica, ela 6 parte dos neg6cios da mineradora,
responsavel, entire outros empreendimentos, por
um quarto do min6rio de ferro que circula no
mercado mundial.
Um dos varios novos neg6cios que a Vale estai
iniciando no setor sidernrgico 6 a produqao de fer-
ro gusa. No ano passado a empresa fechou com a
norte-americana Nucor Corporation uma associa-
qgo para a construgho e operagAo de um dos maio-
res projetos de ferro-gusa do mundo, em Marabi.
O empreendimento sera em m6dulos. O primeiro
m6dulo, previsto para comegar no pr6ximo ano,
no valor de 80 milhoes de d6lares, 6 para a produ-
gao de 380 mil toneladas. Corn essa associagao, a
Vale pretend ampliar sua presenga no setor side-
rdrgico nos Estados Unidos. La, a Nucor, como a e


maior produtora de ago, lidera o process de modi-
ficagio e consolidacao da siderurgia.
Todos os velhos, cars e ineficientes altos-for-
nos estao sendo fechados e substituidos por mini-
usinas el6tricas. Elas transformam sucata, mas tam-
bem precisam adicionar metal no forno. Por causa
desse process de substituiiAo, acredita-se que a
demand americana por gusa possa chegar a 25
milh6es de toneladas nos pr6ximos cinco anos. E
um mercado ao feitio do Brasil, que ter condi-
goes de produzir a gusa com maior carbon fixo e
mais barata, sem competitor a vista.
Aparentemente 6 para esse mercado que o atu-
al p6lo guseiro de Carajas destinarA sua produ-
cao. Mas Marcelo Reis, director de meio ambiente
da CVRD, esti convict de que nao sera por mui-
to tempo, se o atual modelo for mantido. Os tres
milhoes de toneladas de gusa que sairAo este ano
do Para e do Maranhao pela ferrovia de Carajis
obtem carvao pela queima de madeira native. "Em
poucos anos ninguem mais comprara essa gusa",
garantiu Marcelo no debate da semana passada. O
metal teri que utilizar carvao de floresta plantada.
Para imprimir essa marca qualitativa a gusa que
pretend produzir com a Nucor em Maraba, a Vale
ja tem quase 34 mil hectares de floresta plantada
em Agailindia, no Maranhao. E um ponto de par-
tida melhor do que o das 12 competidoras poten-
ciais estabelecidas ao long da ferrovia, mas nio
6 tudo, nem mesmo o suficiente. O certo seria
contar cor floresta plantada em Maraba mesmo.
Mas Maraba ja deveria ter 100 mil hectares, na hi-
p6tese mais apertada, ou 200 mil hectares, com
certa folga, para tender o parque guseiro que ja
existe em seu distrito industrial.
A corrida, portanto, 6 para diminuir o prejuizo,
sem o que a oportunidade de entrar macigamente
no mercado americano passarA batido pela porta da
regiao e nio penetrara nela. Marcelo manifestou seu
sensato espanto de que os investidores prefiram con-
tinuar a desmatar na regiao quando o melhor neg6-
cio 6 tirar proveito da alta rentabilidade que o plan-
tio de arvores consegue na Amaz6nia, comparativa-
mente a qualquer outro lugar do planet. Nao s6
para produzir carvao para a reducAo da gusa, mas
em produtos de muito valor, como o MDC, um aglo-
merado especial com cobertura de lAminas extrema-
mente finas (autenticos filmes) de madeira nobre. "O
que se produzir de MDC vende imediatamente em
qualquer lugar, a prego alto", garantiu Marcelo Reis.
O Brasil nao consegue tender 60% do seu pr6prio
consume dessa mercadoria.
Depois de citar exemplos e n6meros dos ganhos
que o Brasil teria se substituisse o modelo do arco
do desflorestamento pelo do arco de desenvolvimento
sustentivel, advertiu que o mundo j esta consciente
da importAncia estrategica da Amaz6nia com essa
mudanca. Os brasileiros nao podem continuar a dei-
xar para depois esse desafio. "Vai parecer que nao
temos capacidade de ordenar a gestAo do nosso ter-
rit6rio, tao valioso", enfatizou Marcelo. A enfase esta
em busca de resposta mais satisfat6ria do que o dis-
curso nacionalista jacobino, forte e oco.

MARCO DE 2004 I/ QUINZENA Jornal Pessoal











O imb


1io dos bingos,


dos Waldomiros e outros bichos


Ha alguns anos eu caminhava atrds
de dois cidadaos de palet6 que subiam
a travessa Campos Sales. Falavam de um
colega de trabalho que os estava atra-
palhando. Ouvindo o relate, ia forman-
do minha idWia sobre o tal colega, tal-
vez um incompetent protegido por um
QI (Quem Indica) bem grande, que es-
tava pondo a perder o esforco da dupla.
Pude perceber tamb6m que eram funci-
ondrios piblicos e trabalhavam na re-
ceita (nao sei se federal ou estadual).
Antes que seguissem caminho diver-
so do meu ainda apreendi suas l6timas
palavras audiveis. O estorvo do qual se
queixavam era um Caxias, cri-cri que
cumpria suas obrigac6es, complicando
as escapadas dos dois barnab6s, que
queriam levar o "por fora". O sujeito que
motivara a conversagco era o direito. Os
dois revoltados tagarelas 6 que eram os
tortos.
A hist6ria me veio r mem6ria quan-
do li a entrevista que o antrop6logo Luiz
Eduardo Soares deu ao site AOL (Ame-
rican Online), no auge das revelaces
do escandalo Waldomiro Diniz. Soares
se referiu a figure do corrupt6logo. Es-
pecialista no estudo da corrupAo, pen-
sei, imaginando logo um Ralph Nader
brasileiro ou figure parecida.
Ledo engano, por6m. Corrupt6logo,
na pr6pria descricAo do antrop6logo
(este, sim, um estudioso da cultural hu-
mana), 6 aquela pessoa adestrada na
identificaco de mecanismos que podem
ser acionados "para drenar recursos pi-
blicos de forma discreta, clandestine, sem
suscitar suspeitas".
Foi um corrupt6logo que telefonou
seguidamente para Luiz Eduardo Soa-
res quando ele fazia a transigAo do go-
verno de Anthony Garotinho para o de
Benedita da Silva, no Rio de Janeiro,
no primeiro trimestre de 2002. A insis-
tincia foi tao grande que Soares aca-
bou cedendo: foi conversar com o es-
pecialista em falcatruas num hotel do
Leblon. Levou companhia, mas acabou
sendo carregado pelo corrupt6logo
para tomar caf6 num bar pr6ximo, en-
quanto a testemunha potential da con-
versa ficava no lobby do hotel a ou-
vir estrelas, certamente.


Na conversa, o drenador de dinheiro
ptblico disse que podia arranjar de 80 a
100 milhoes de reais em apenas nove
meses para a campanha de Benedita,
que, depois de ser vice de Garotinho,
queria ocupar o lugar de titular (enquan-
to o ex tivera que se desincompatibili-
zar para disputar a presidencia da Re-
piblica). Bela m6dia: R$ 10 milhoes por
mes. Bastaria que o digamos assim -
t6cnico tivesse o control de "duas ou
tres secretaries, algumas diretorias e
outros cargos subordinados".
Um dos alvos era previsivel: a Secre-
taria da Fazenda, claro. Mas quem po-
dia considerar uma mina a gerencia da
massa falida do antigo Banerj, o Banco
do Estado do Rio de Janeiro? (A prop6-
sito, dizem o mesmo, por aqui, da mas-
sa falida da Poupanca Banpard.) Pois o
especialista arrancaria muita grana da
instituiqao em extingao. No final, daria
10% para Benedita, ficaria com 5% e re-
servaria 1% para Luiz Eduardo.
Para confirmar seu gabarito, o pro-
ponente fez uma observacao judiciosa:
o entao desconhecido Waldomiro Di-
niz, president da Loterj (Loteria do Rio
de Janeiro) estava extorquindo R$ 300
mil mensais dos bingos cariocas quan-
do o potential de drenagem avaliado
pelo expert era de R$ 500 mil. Waldo-
miro s6 nao chegava a tanto por ser
um incompetent.
Luiz Eduardo, ja como companhei-
ro de chapa de Benedita, diz que ten-
tou apurar a hist6ria e alertar seus cor-
religionarios do PT, mas nao teve exi-
to. Muito pelo contrdrio: sua insisten-
cia em esclarecer "as coisas" comeqou
a ser notada e a incomodar. Em agos-
to de 2002, a campanha de Lula de
vento em popa, sentou ao lado de Jos6
Dirceu durante um encontro do candi-
dato presidential do PT com intelec-
tuais cariocas no restaurant Rio's.
Depois de ser apresentado, ouviu de
Dirceu a observacao: "soube que voce
anda criando dificuldades para n6s no
Rio de Janeiro". Tentou uma explica-
gao: "As coisas estao muito complica-
das". Teve na bucha uma resposta de-
finitiva: "Nosso papel 6 descomplicar".
Como nao descomplicou, foi margina-


lizado do restante da campanha e fi-
cou falando sozinho.
Lula eleito, dois deputados petistas
(um do Rio de Janeiro e outro do Rio
Grande do Sul), encontrando-se com o
todo-poderoso Dirceu, perguntaram-lhe
que papel Luiz Eduardo iria desempe-
nhar no novo governor. Resposta de bate-
pronto do future cardeal Richelieu mi-
neiro: "se defender de mim, nenhum".
Mas se Benedita foi ser ministry, al-
guma coisa devia sobrar para seu vice
derrotado, que diz ter ido para o sacri-
ficio quando a eleicgo para deputado
federal eram favas contadas. Ele se tor-
nou secretdrio national de Seguranca
Piblica, cor status de ministry. Bene-
dita caiu em meio a seguidas crises de
nepotismo e incompetencia. Soares foi
defenestrado em circunstAncias bem
menos constrangedoras, mas de qual-
quer maneira por nepotismo tamb6m
(sua secretaria pagou por um trabalho
de sua mulher). Por isso suas declara-
gOes, que tiveram pouca repercussao na
imprensa, foram desqualificadas pelos
porta-vozes petistas. Estaria simples-
mente se vingando da demissao da ad-
ministracAo federal.
Nao sei se a alegag~o 6 verdadeira.
Mas para saber seria precise que Luiz
Eduardo Soares tivesse sido convocado
para depor no inquerito policial instau-
rado a prop6sito do epis6dio de extor-
sao de Waldomiro Diniz, o que nao acon-
teceu at6 agora. E possivel que Soares
esteja mesmo se vingando. Essa 6 uma
questao para ser acertada entire ele e os
seus, que sao todos brancos (todos os
seus interlocutores ocupam cargos fede-
rais presentemente). Mas ele pode estar
se vingando usando uma arma podero-
sa, a verdade e jA ai esse 6 um assunto
do mais alto interesse ptblico.
NMo por impulse moralista redivivo
da matriz udenista, perenizada por Car-
los Lacerda (e razao de ser do seu ou-
tro, a esquerda viciada em aparelho de
Estado). Mas por elementary esclareci-
mento dos fatos. A biografia de Soares
no Rio de Janeiro "se caracterizava pela
luta contra a corrupcAo", como ele diz.
Logo, ele era um corrupt6logo positive,
CONTINUE. NA PAG 6


Jornal Pessoal Io QUINZENA MARCO DE 2004 5








CONTINUA.AO DA PAG S
para usar o jargdo das agendas ptblicas
(etpour cause, privadas ou privatizadas).
Nem por isso deixou de ocupar (ou
justamente por isso ocupou) a coorde-
nadoria de seguranca piblica no gover-
no Garotinho. Largou esse cargo para
tratar da transiqgo da administracqo do
ex-brizolista para a de Benedita, dando
ao que era um governor aliado a feiqgo
de governor petista puro (digamos assim).
Havia 16gica nesse rito de passage.
Benedita nao escondia de seus ac6litos
que seu primeiro ato seria auditar as
contas do antecessor, que estariam bi-
chadas (e estavam mesmo, tanto que,
para espanto geral, nao foram aprova-
das pelo Tribunal de Contas do Estado
at6 um ajuste extra-autos corrigi-las).
Mais do que um moralismo formal de
esquerda, era uma providencia de ele-
mentar sabedoria political. Benedita ia ser
cobrada na campanha eleitoral por er-
ros que nao eram da responsabilidade
dela, mas de Garotinho. Como provar
que sua hist6ria de honestidade, contras-
tante com as sem-vergonhices do ante-
cessor, era verdadeira, se nio mugiu nem
tossiu quando tinha a faca e o queijo
nas mios? Teria que enfiar a viola e can-
tar em outra freguesia.
Uns dizem que, por esperteza e md-
f6, Benedita preferiu imitar a sindicar
Anthony Garotinho. Luiz Eduardo Soa-
res tern outra verso. Para ele, "a elei-
qco ao governor do Estado do Rio, em
2002, era um teatro. Benedita nao esta-
va proibida de vencer, 6 claro, mas es-
tava constrangida a nao realizar, logo
que assumiu o governor, uma auditoria
nas contas do Estado. Esta limitacio foi
negociada como condiqdo para o apoio
de Garotinho a Lula no segundo turno".
Golpe do maquiavelismo do ABC.
Assim, Benedita se exp6s a um des-
gaste ainda maior no process eleito-
ral, a mulher de Garotinho mesmo
ne6fita em political foi eleita sua su-
cessora, Garotinho ficou ao lado de
Lula no segundo turno, Benedita su-
biu ao ministerio, Soares ficou um pa-
tamar abaixo, Garotinho fez indica-
G6es no governor Lula e Lula preen-
cheu cargos no governor Rosinha, e
Waldomiro foi para Brasilia e os pe-
tistas cariocas inc6modos foram man-
dados para o gulag tropical.
Linhas que aparentemente nio se cru-
zariam ficaram tranqadas, a ideologia de
maos dadas corn o fisiologismo, o com-
batente da corrupgAo como interlocutor
do especialista em sofisticA-la e coisas
assim, muitas, complicadas, tenebrosas,


que precisam ser esclarecidas a luz do
dia, diante da sociedade. Por que entao
ocultd-las e inibi-las?
O que esta em causa nao 6 saber quem
esta imaculado e quem se sujou, quem e
o dono da verdade e quem a prostituiu,
mas a quanto monta o desvio de recur-
sos piblicos no Brasil, quem manobra
essa rota, para quem esses recursos sao
drenados e qual 6 o esquema que o tor-
na indestrutivel por ter-se tornado, espu-
riamente, uma "razio de Estado". Da
mesma maneira que o furor moralista
acaba funcionando como boi de piranha,
impedindo a sociedade de ver o todo, o
impulse punitive imediato 6 a cocaine
burocritica de efeito meramente imedia-
to, leniente e anestesiadora.
A revisao tern que ser mais ampla e
profunda. Se ela esta sendo feita tecni-
camente pela policia e o Ministerio Pi-
blico, como proclama o PT e o governor,
encontrando nessas medidas o habeas
corpus preventive contra qualquer ini-
ciativa alternative, nada hi a perder corn
a apuragAo political. Ou se hi a perder,
o que se ganha 6 de maior valor. Logo,
o saldo 6 positive.
O que o escindalo Waldomiro Diniz
ter de mais grave 6 revelar que os in-
t6rpretes da mudanga, vitoriosos na elei-
gAo de 2002 justamente por assumirem
essa promessa de transformagao, sabem
muito bern como ocupar os cargos pi-
blicos e exercer o poder de Estado, mas
nao sabem como tornar realidade o dis-
curso que, em seu texto dominant, nao
foi mais do que um amontoado de bra-
vatas, como ji admitiu o pr6prio Lula
(falando de bravatas porque nao podia
aconselhar seus critics a esquecer o que
escreveu, pela elementary constatagao de
que nunca foi dado a escrever, ao con-
trario do seu prolifico e complicado an-
tecessor). No escuro, melhor continuar
a fazer o que fazia Fernando Henrique
Cardoso, correndo o risco de fazer pior,
como esti acontecendo.
Depois da experiencia de conhecer
o corrupt6logo, Soares diz haver trans-
mitido seu estupor a interlocutores que,
na 6poca, eram integrantes da caravana
eleitoral petista e, atualmente, sao dig-
nitirios do governor Lula, entire eles o
pr6prio Dirceu, Mefist6feles e Faustos
ao mesmo tempo.
Jos6 Dirceu deve ter marcado Soa-
res, aquele que cometeu pecado fatal na
6tica do estrategista de Montes Claros:
nao descomplicou o que complicado se
achava. Quem cria dificuldade sem ven-
der facilidade, nao entende da arte. Vai
para o olho da rua.


A nomenklatura petista se adestrou
nas artes da descomplicacao nos 14
anos em que Luiz InAcio Lula da Silva
perseguiu o topo da piramide dos appa-
ratchicks. Durante esses anos, Lula con-
seguiu ser o maior politico professional
do pais (e o mais carismitico) sem ter
mandate e sem uma fonte de renda ca-
paz de responder por seu modo de vida
e seus gastos. O PT foi crescendo em
estrutura burocritica e militincia sem
que algu6m, corn autoridade e legitimi-
dade (a velha political fisiol6gica brasi-
leira nao tem credibilidade para tanto),
argiisse adequadamente sobre a origem
de seus funds.
Se uma parte deles pode se ligar, por
vias e travessas, a ilicitudes e clandestini-
dades, outra 6 perfeitamente clara, mas
nem por isso mais nobre: a imposiqgo do
desconto e um desconto pesado, con-
fiscat6rio mesmo a todos que ascende-
ram a cargos piblicos gragas ao partido,
representado por seu politburo (ou o
comite central). A expectativa orCamen-
tAria do PT neste exercicio vai al6m de
R$ 80 milh6es segundo a revista Veja, algo
que estr muito al6m do que podem al-
mejar os outros partidos reunidos.
At6 o escAndalo Diniz essa situagao
era vista sob sua 6tica triunfante: era si-
nal da maturidade de um partido para
valer, nao uma sigla de aluguel. Hoje,
essa realidade apresenta outra perspec-
tiva: o partido forte serve a um grupo
politico que efetivamente tem um pro-
jeto e nao apenas interesses de circuns-
tancia, como seus concorrentes. Mas um
projeto de poder e quase s6 isso.
Aos que sdo capazes de ver a ques-
tto por essa 6tica, a determinag~o de
fechamento dos bingos, baixada pelo
president, e a caga policial aos joga-
dores, que se seguiu A Medida Provis6-
ria (mais uma), nao se apresentam como
iniciativas para resolver o problema e
punir os infratores, mas uma queima de
arquivo e apagamento de provas. Faz-
nos pensar nao no paraiso, para o qual
devia seguir a classes operiria (confor-
me o legendario filme de Elio Petri),
mas na Chicago dos gangsteres da d6-
cada de 20. No lugar da lei seca, a MP
antibingo. Ao inv6s de famiglias, um
partido inico e seu regime associado,
como no M6xico.
Para o bem de todos e felicidade ge-
ral da nagao, inclusive a petista de estir-
pe, que venha a CPI e tudo mais que
servir para iluminar os personagens, are-
jar o ambiente, oxigenar o pais, salvar o
que ainda pode ser salvo e recuperar a
esperanca perdida.


6 MARCO DE 2004 I QUINZENA Jornal Pessoal












Livro de ouro da Amazonia


Sio duas gerag6es de paulistas na
Amaz6nia. O pai, Joao Carlos de Souza
Meirelles, foi president da AssociagAo
dos Empresarios da Amaz6nia. Com sede
em Sao Paulo, reunia os fazendeiros
paulistas que tinham projetos
agropecudrios na regiao incentivados pela
Sudam (Superintendencia do
Desenvolvimento da Amaz6nia), um
lobby poderoso. O pai encarnou a
"filosofia" de ocupagao da grande
fronteira pela pata do boi, a semelhanga
do que os bandeirantes paulistas sempre
fizeram nas expanses humans no pais
desde p s6culo XVII. O filho, tamb6m
Joao Carlos, igualmente paulista, rejeita
essa tradigAo. Primeiro a distAncia e agora
no olho do furacdo, ele tenta abrir outro
caminho, no qual ouvir a pr6pria regiao e
procurar compatibilizar as atividades
produtivas externas cor as
especificidades locais (a maior das quais
6 a dominAncia florestal). Para isso, o
filho criou uma ONG (o Instituto
Peabiru), esta se instalando em Bel6m e
acaba de publicar o O Livro de Ouro da
Amaz6nia (Ediouro, 400 pAginas, R$ 59),
quase um album cor um conjunto raro
de informag6es e imagens sobre a hist6ria
e a atualidade da maior fronteira de
recursos biol6gicos do planet e de
saber human tamb6m.
Na entrevista que concede por e-
mail, o filho fala dessa luta.

Como foi que voce se interessou pela
Amaz6nia e quando?
Desde os 9 anos me interesso pela re-
giao e tenho feito viagens freqtientes. Pri-
meiro acompanhando meu pai, depois
como um pescador e cacador, interesse
abandonado aos 20 anos. Acompanhei en-
tao Frans Krajcberg pela regiao, o que me
despertou para seu lado artistic e po6tico.
Por um period trabalhei com meu pai em
colonizagPo ate perceber que este nao era
o caminho, e dai passed a encara-la como
um ambientalista.

O fato de ser filho de Jolo Carlos Meire-
lies, president da Associagio dos Empresa-
rios da Amaz6nia, principal grupo de pres-
sAo no inicio da colonizagio amaz6nica, atra-
vds da pecuaria, ajudou ou prejudicou sua
aproximac o da questAo amaz6nica?
Permitiu-me compreender os dois lados,
e verificar que a geragao de meu pal esta-
va, e esta, errada. A Amaz6nia nao suporta
o que a pecuiria fez na regiao e esta cau-
sando.

Como voce avalia hoje a participacgo de
seu pal e da frente pecuiria na abertura da
fronteira amaz6nica?
Meu pai hoje esta praticamente afas-
tado da questao amaz6nica. Ha mais de
oito anos dedica-se a political no Esta-
do de Sao Paulo.


Eu diria que a participacao de meu pai
foi maior no process privado de coloni-
zagao do norte de Mato Grosso e no as-
sentamento rural em Carajis II e III. Na
area political empresarial ele teve um lu-
gar important, por6m, naquele momen-
to, como nao havia movimento ambienta-
lista cor as mesmas dimensoes de hoje,
houve grande confusao das teses empre-
sariais e das ambientalistas.
As teses empresariais estavam todas
erradas.
Quanto a frente pecuaria, onde a parti-
cipaFao de meu pai se insere tamb6m, sig-
nificou e significa o maior desastre ambi-
ental da hist6ria do Brasil. O que mais as-
susta nao sao os milh6es de hectares trans-
formado em past de baixa produtividade,
mas, principalmente, o sonho de milhoes
de amaz6nidas e brasileiros em serem pe-
cuaristas, em terem seu p6-de-meia basea-
do na atividade da pecuaria extensive no
modelo em voga.

E particularmente a funclo de Slo Paulo
nesse capitulo da hist6ria da regilo?
Acredito que o regime military encontrou
um forte aliado no modelo das grandes fa-
zendas de pecuaria de propriedade princi-
palmente de paulistas.

Foi positive ou negative acompanhar a
saga amaz6nica a partir de Slo Paulo?
E triste. O balango 6 bastante negative.

Entre o inicio do seu interesse e a si-
tualio atual, que modificac8es voce acha
que aconteceram na abordagem da Ama-
z8nia? Voce acha que o balango 6 positi-
vo ou negative?
Eu, pessoalmente, amadureci muito,
aprendi muito a ouvir a visao dos movi-
mentos sociais, das ONGs da regiao. Os
livros, principalmente de viajantes e pes-
quisadores, proporcionam uma introdu-
cAo, por6m, nao ha nada como acompa-
nhar um caboco em sua busca diaria de
meios de sobrevivencia.
O meu balango foi extremamente po-
sitivo, eu cresci muito, aprendi muito. A
minha posigao me permitiu uma visao
dura de ser vivida, e, principalmente, as-
sumida, mas mais complete. Hoje nao
como came em protest a pecuaria ex-
tensiva da Amaz6nia.

Como foi escrever O Livro de Ouro da
Amaz6nia?Como conseguiu todo o materi-
al que aproveitou no livro? E qual a fonte de
suporte para essa tarefa?
Foi uma maravilha, deu-me enorme pra-
zer e me fez me sentir muito bem. Com-
partilhar o que sinto, de forma transpa-
rente e aberta, deu-me grande forca inte-
rior. Este 6 um projeto que acalentava ha
mais de 19 anos. Eu escrevera em 1985
um opisculo A Amaz6nia o que fazer
por ela? onde muito das sementes ali jo-


gadas a terra puderam se tornar Arvores e
mostrar sua beleza.
O material vem sendo coletado ha 20
anos, pude ler uns 800 livros sobre a re-
giao. Minha biblioteca particular, hoje doa-
da ao Instituto Peabiru, e que estard em
Bel6m proximamente, reine mais de 900
livros sobre a regiao.
Aprendi muito e incorporei muitas das
informaq6es, a partir da exposiqao Ama-
z6nia Br 2002, no SESC Pomp6ia, em Sao
Paulo, onde tive a honra de ter sido con-
vidado por Eugenio Scannavino Neto como
o coordenador de pesquisas e do segmen-
to de literature.
A palavra das ONGs e dos movimentos
sociais 6 o eixo central de meu livro.

Como voc& encara o future da Amaz6-
nia? t possivel A regilo livrar-se da bitola
colonial que ter demarcado sua hist6ria?
Sou muito otimista. Tenho muita es-
peranqa que os projetos demonstrativos
se tornem political ptiblica. Tenho muita
esperanca que o consumidor da came da
Amaz6nia cobre posic6es mais claras dos
produtores.
S6 que acredito que isto s6 acontecerA
se a sociedade civil gritar bem alto, e para
tanto 6 precise fortalecer os movimentos
sociais e as ONGs, e as campanhas p6bli-
cas devem tomar mais espago para permitir
que as pessoas realmente percebam a gra-
vidade da situacao da regiao.
Creio na juventude da Amaz6nia, alias,
maioria absolute de pessoas, e que jamais
compartilharia desta situa'ao que a pecui-
ria extensive, a extra'ao madeireira preda-
t6ria, as grandes obras de infra-estrutura e
o garimpo vem determinando o ritmo.
Gostaria muito de ver meu livro e
outras obras efetivamente debatidas
exaustiva e publicamente. t para isto
que escrevi.

No seu livro, voce trata garimpeiros, fa-
zendeiros e madeireiros de uma forma um
tanto zen, achando que pode conscientiza-
los a mudar o terrivel papel que tem desem-
penhado na Amaz6nia. Voce nio acha estar
sendo ingenuo ou excessivamente otimista
em relaiAo a essas personagens?
O que procuro fazer 6 demonstrar que
nao ha falta de recursos para propiciar
novas oportunidades para aqueles que
sao os motors da dilapidagao cultural,
social, econ8mica e ambiental da regiao.
Acredito que, se o filho de um pecuaris-
ta tiver a oportunidade de estudar os
danos da pecuaria e efetivamente conhe-
cer as alternatives disponiveis, esta pes-
soa jamais seria pecuarista a maneira de
seus pais e av6s.
Nisto, sim, sou otimista. E ainda acre-
dito que ha tempo. O que 6 precise 6
disseminar as priticas conservacionis-
tas e que promovem o desenvolvimen-
to sustentivel.


Jornal Pessoal I- QUINZENA MARCO DE 2004 7











Corregedoria breca



a grilagem da Jari


A matricula de uma gleba de terras com
area de 965 mil hectares, feita em nome da
Jari Celulose, no cart6rio de Monte Alegre,
terA que ser cancelada. A determinagAo 6
da corregedora geral de justiga das comar-
cas do interior do Para, Carmencin Caval-
cante, atrav6s do provimento 001, publica-
do na semana passada no Didrio da Justica.
A gleba foi constituida com base numa frau-
de, consumada quando simpless posses fo-
ram transformadas em propriedades, em ra-
zAo do que grandes quantidades de terras
devolutas do Estado passaram documental-
mente para o dominio da empresa", segun-
do o ato da desembargadora.
O pretexto para a grilagem foi a unifica-
c.o, em agosto de 1998, de 84 assentamen-
tos de transcricges e matriculas que existiam
em nome da Jari, uma "fraude grosseira", de
acordo cor a correicgo realizada no cart6-
rio. Os documents englobavam tanto pro-
priedades efetivas quanto meras posses, mas
todas, na formaago de um (inico im6vel ru-
ral, a Gleba Jari I, foram consideradas domi-
nio pleno, "como num passe de mdgica".
Foi assim que terras devolutas estaduais
passaram ao patrim6nio da empresa, forma-
da pelo miliondrio americano Daniel Ludwig
no final da d6cada de 60, e atualmente sob
o control do grupo Orsa, de Sergio Amo-
roso, de SAo Paulo. A official do registro te-
ria agido "dolosamente com o intuito de le-
galizar documents possess6rios antigos em
documents de propriedade e o que 6 mais
estapafirdio sem qualquer comprovante de
cadeia dominial".
Alem dessa irregularidade, o cart6rio de
Monte Alegre ignorou o fato de que as ter-
ras passaram a integrar a jurisdicAo do car-
t6rio de Almeirim, criado em 1990. Mas a
tabelia Maria Diva Lins continuou a fazer
todo o servigo cartorial da Jari, como se a
transferencia de competencia nAo tivesse
havido. Dessa maneira o cart6rio manteve
procedimento irregular de muito tempo an-


tes, efetuando "transcrigdo e matricula de
titulos de posse no registro imobiliirio", que
s6 admite propriedades plenas.
Com o provimento, que dispensa a via
judicial para gerar efeitos, a situacgo volta ao
estigio anterior: a Jari tem apenas expectati-
va de direito sobre a maior parte das terras
que consider de sua propriedade, em parte
das quais desenvolve suas atividades econ6-
micas (produgAo de celulose e caulim). Ha
quase 30 anos as tentativas de legalizacgo da
enorme propriedade que a empresa diz lhe
pertencer nao se consumam porque a pre-
tensAo excede e em muito o direito. A
Jari alega que seu im6vel 6 de 1,6 milhio de
hectares, mas quando, em 1976, apresentou
32 dos titulos de posse que det6m, o Iterpa
verificou que a dominialidade nao chega nem
a 10% dessa extensdo. Por isso, a legitimagAo
das posses nunca foi avante.
A grosseira unificagAo das glebas, reali-
zada gragas a conivencia do cart6rio de re-
gistro de im6veis de Monte Alegre, 6 a mais
recent manobra concebida pela Jari cor o
mesmo objetivo. A area cobigada foi redu-
zida, de 1,6 milhao para 965 mil hectares,
em troca de passar a constituir um im6vel
compact, sem falhas e vazios interiores,
conforme 6 sua condicAo fdtica. A fantasia
substituiria a realidade, ji que a Jari 6 pro-
prietAria de ilhas particulares num mar fun-
diario de terras devolutas paraenses. O pro-
vimento da desembargadora Carmenin ful-
minou a artimanha.
A empresa ja anunciou que pretend
contestar a decisao e que, mesmo se ela for
mantida, ela traduz o reconhecimento da cor-
regedoria da propriedade particular. Mas isso
e sofisma porque o ato absolutamente nulo
nao gera direito algum. Se quiser retomar o
caminho da legalizagSo de suas terras, a Jari
ter. que buscar trilha mais saudavel e com-
panhia mais recomendavel. Continue se dei-
xando livrar pelo canto diplomado de uma
sereia supostamente judiciosa.


AMEA(A
* Um site especializado
em mineraqAo noticiou, no
inicio do mes, que a
Anglo American, a maior
mineradora do mundo,
estaria interessada em
comprar os 20% que a
Bradespar det6m na
Valepar, holding que
control a Companhia
Vale do Rio Doce. O valor
do neg6cio seria em torno
dois bilhoes de d6lares. A
mediadora da operacao
seria a nova conselheira
da Anglo, Maria Silvia
Bastos Marques, que
presidiu at6 algum tempo
atras a Companhia
Siderirgica Nacional e foi
conselheira da pr6pria
CVRD.
No ano passado o BNDES,
controlador da Bradespar,
comprou, dos funcionArios
da Vale, as ages que eles
possuiam da empresa
(8,5%). O pretexto foi a
possibilidade de que a
Mitsui ficasse com essas
agces. A multinational
japonesa 6 uma das
principals clients do
minerio de ferro da CVRD.
Se ampliasse sua
participacao acioniria,
ficaria cor poder decis6rio
na ex-estatal, tornando-a
uma binacional nipo-
brasileira. O BNDES se
antecipou para evitar a
transacao, que seria nociva
aos interesses nacionais.
A Anglo-American foi
s6cia da Vale no projeto
de exploracAo de cobre da
Salobo Metais em Carajis.
Os parceiros nao se
entenderam e o grupo
estrangeiro vendeu sua
participagSo. Agora parece
querer voltar por cima.


SEMELHANCA
* No ano passado foi langada,
em Brasilia, a Frente Parlamen-
tar do Vale do Rio Doce. Dela
fazem parte representantes po-
liticos de 202 municipios de Mi-
nas Gerais e 28 do Espirito San-
to, com populagao total de 3,5
milh6es de habitantes, distribu-
idos ao long dos 1.300 quil6-


metros de extensao do rio. Essa
frente reforgou o Comite da
Bacia Hidrogrifica do Rio
Doce, que ja estava em funcio-
namento, com jurisdigao sobre
a mesma area.
O prop6sito de ambas as
entidades 6 fazer a recuperamAo
ambiental e econ6mica do vale,
permitindo que ele volte a ser
atraente. Essa e a regiao que


mais export pessoas. Algumas
cidades possuem atualmente
metade da populacgo que ti-
nham 50 anos atrns. O proces-
so de decadencia continuara se
algo nao for feito para revitali-
zar a drea. Apenas um peque-
no nfimero de municipios tirou
alguma vantagem da proximi-
dade corn o p6lo de minerag&o
que ali se instalou e cor a via


de escoamento representada
pela Ferrovia Vit6ria-Minas. A
maioria tem experimentado
apenas os efeitos negatives do
process. Dai a reacao.
Os habitantes do vale do
Araguaia-Tocantins podiam sair
da indrcia e do recurso para
criar seu pr6prio comite de
bacia e frente parlamentar. Os
problems sdo identicos, uai.


MARCO DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal


I










A hora de mudar



os onibus 6 esta


A gratuidade no transport coletivo em Be-
16m custa oito milh6es de reais ao mrs, R$ 96
milh6es ao ano. O nimero foi divulgado na se-
mana passada pelo vereador Arnaldo Jordy, do
PPS, cor base em dados fornecidos pelos do-
nos de 6nibus e o Dieese (Departamento Inter-
sindical de Estatisticas e Estudos S6cio-Econ6-
micos). A conta, evidentemente, nao 6 paga
pelos empresirios. Tamb6m nao 6 suportada por
nenhum fundo ptiblico (que, 6 bom lembrar, nao
existe). De onde, entdo, ela sai?
Do bolso do usuirio dos 6nibus, claro. De
cada 10 viagens (das 1,2 milhAo totals) feitas dia-
riamente na cidade, tres viagens financial as gra-
tuidades. Nada de tao aberrante se o client pa-
dr.o nao tivesse renda entire um e um e meio
salirio minimo. Cor apenas duas viagens por dia,
ele ja 6 obrigado a reservar ao transport 22% de
sua renda mensal. t uma expropriacao, um peso
a mais na dificil luta pela sobrevivencia (a ascen-
sAo social ja esta fora de cogitacgo).
As gratuidades, portanto, nao podem conti-
nuar como estao. Elas sao um abuso e uma ini-
qOidade. Contribuem poderosamente para a per-
petua~go de um sistema de transport p6blico de
baixa qualidade e pela expulsao de trabalhado-
res dos 6nibus. Nao 6 por acaso que se multipli-
cam as bicicletas e os pedestres na capital para-
ense. Eles nao estao fazendo exercicio fisico para
melhorar o perfil. t porque nao tme outro jeito
de exercer seu direito constitutional de ir e vir.
A revisAo das gratuidades 6 um ato de cora-
gem da Camara Municipal, especialmente em
temporada pr6-eleitoral como a atual. Nao deve
retroceder. Mas deve incorporar critics e su-
gest6es para que a corre go dos erros nao crie
novas falhas no sistema. Fazendo-se intdrprete
das sugest6es aqui apresentadas, na edicgo pas-
sada, o juiz do trabalho Jos6 Quadros de Alen-
car aprofundou a iddia sobre o fundo p6blico,
que seria criado tanto pela prefeitura quanto pelo
governor do Estado.
Infelizmente, a crucial questdo do financia-
mento das gratuidades nao esta prevista pela
emenda em discussAo na Camara de Vereado-
res, nem deveri constar da pauta de decis6es.
O estabelecimento de criterios objetivos de jus-
tica social na concessao desses beneficios tam-
bem nao vai ser contemplado. O maior empe-
nho 6 em enquadrar as gratuidades na Lei OrgA-
nica dos Municipios, o que ja sera o suficiente
para reduzir o direito ao passe livre nos 6nibus
de 18 categories para sete.
Esse 6 um criterio objetivo, mas nao di con-
ta de algumas distorc6es que ainda persistirao.
Jovens, por exemplo, continuarAo a desfrutar
subsidio de 50% da tarifa para seus deslocamen-
tos, qualquer que seja a motivacAo (ir para a


escola ou para a casa da namorada). Um defici-
ente visual rico tamb6m poderi ir para qual-
quer lugar sem pagar (hip6tese te6rica, j. que
na pritica os ricos, independentemente de sua
condicgo fisica, nao cometem a temeridade de
andar de 6nibus).
Os representantes dos deficientes visuais
constituem os critics mais duros da revisao da
gratuidade. Alegam a existencia de incorreg6es
que levariam ao constrangimento, a segregaAio
e mesmo a perda de direitos que ji conquista-
ram universalmente, inclusive na nomenclatura
a seu respeito.
Todas essas restrig6es se tornardo secundAri-
as se a concessio dos beneficios seguir o criterio
da renda, exatamente como foi estabelecido no
Estatuto do Idoso (que protege quem ganha me-
nos de dois salaries minimos). Esse critirio devia
valer tanto para a gratuidade quanto para o vale-
transporte, que devia ser pago sempre em dinhei-
ro para evitar que o passe se transform em mo-
eda, comercializada no mercado negro por valor
abaixo do valor de face (e servindo, dessa forma,
aos insacidveis especuladores).
Al6m das categories cujo direito a gratuida-
de jai reconhecido legalmente, seria precise
estabelecer um program de apoio ao transpor-
te dos trabalhadores de baixa renda, suplemen-
tar ao vale-transporte, atrav6s de fundo puibli-
co. S6 assim um professor da rede p6blica de
ensino fundamental, que ganha dois salaries mi-
nimos em m6dia, teri condic6es de ir de 6nibus
de uma escola para outra sem comprometer tra-
gicamente seu orgamento dom6stico. Enquanto
isso, trabalhadores de renda muito maior e que
recebem vale-transporte usufruiam a gratuida-
de, como oficiais de justiga e carteiros.
A gratuidade a o primeiro pass para ever
toda a estrutura do transport p6blico, que con-
tinua a ser relativamente cara e de qualidade a
desejar. Se as empresas de transport coletivo
se mantiveram em pleno funcionamento duran-
te todo esse tempo em que a gratuidade e as
fraudes nos passes-livres estiveram em expan-
sAo, isso significa que as aperturas atuais ape-
nas estao revelando uma queima progressive das
gorduras do super-lucro.
E possivel que a margem de lucro tenha che-
gado a um nivel ameagador para a solvencia
econ6mico-financeira das empresas, mas o ree-
quilibrio das contas deve ter, desta vez, um pre-
co: a contraprestacgo do servico. Ele tern que
ser melhor, mais eficiente, mais limpo e mais
just. Este 6 o moment certo para os vereado-
res continuarem em frente, acompanhados de
perto pela sociedade organizada e pelos cida-
daos conscientes. Pior do que esti, em todos os
sentidos, 6 quase impossivel.


DESTRUI ,AO
* Belem esta perdendo um dos
seus locais mais simpdticos e ca-
racteristicos: a praca do ferro de
engomar, oficialmente conheci-
da como Coaracy Nunes. Um dos
lados do logradouro, o da rua
Veiga Cabral, ficou sem tris das
suas edificag6es originals, do
principio do s6culo XX. Restou,
como testemunho de 6poca, a
mansdo de Paulo Itaguahy da Sil-
va, que a familiar mant6m cor um
zelo exemplar. Felizmente.
Quem passar pelo local ain-
da poderi ver os restos da de-
molig~o dos dois casaroes conti-
guos. Num deles estudei cor
uma professor particular de en-
sino primdrio, hoje fundamental.
No outro morava, at6 recente-
mente, uma amiga de juventude.
Ao long de todo quarteirAo o
terreno limpo serve a um estaci-
onamento. Provavelmente guar-
da lugar para mais um edificio,
que desviari da cidade o vento
do oceano, brisa que tanto bem
sempre fez a capital dos desdi-
tosos paraenses, substituindo-a
por uma bolha de calor, que ja
nos atazana e infernizard ainda
mais os que nos sucederem.
Nos iltimos anos os belenen-
ses tnm prestado um pouco mais
de atencAo a sua cidade colonial
e, em escala menor, a epoca da
borracha. Mas mostram desidia
quase total por outros periods
da hist6ria. Parecem incapazes de
perceber que a hist6ria 6 o coti-
diano avangado no tempo. O que
se fez a partir da d6cada de 20
esti sendo massacrado, embora
as vezes nem parega.
Acompanhei, por exemplo, a
reform que foi realizada num
chalet (provavelmente da d6cada
de 40) localizado na esquina da
Arcipreste cor a Sao Francisco.
O novo dono manteve a estrutu-
ra da edificaco e mudou todo o
resto. Incorporou material de boa
qualidade e ampliou a drea do
im6vel. Mas descaracterizou-o
completamente. Onde havia um
chal6 tipico passou a haver al-
guma coisa boa, mas sem estilo,
sem marca. E assim muitos estAo
fazendo na busca da modernida-
de (ou da p6s-modernidade).
Que rima cor morbidade arqui-
tet6nica e hist6rica.
Bel6m esti se tornando um
autentico campo de batalha con-
tra o tempo.


Journal Pessoal I' QUINZENA MARCO DE 2004 9








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Cinema
* No inicio de 1945, ainda em
plena Segunda Guerra Mundi-
al, a Empresa Cardoso & Lopes
pedia aos freqtientadores dos
seus quatro cinemas (Moderno,
Independencia, Universal e Rex)
que, "em virtude da grande fal-
ta de moedas divisionArias na
praga", fizessem "o grande fa-
vor de virem munidos das refe-
ridas frac6es, a fim de tornar
possivel a venda dos ingressos".

Carnaval
* Nesse mesmo ano a Tuna
Luso Comercial (ainda nao Bra-
sileira) convidava seus associa-
dos a virem, a passeio ou fan-
tasia, participar da festa carna-
valesca na sede social (que fi-
cava na avenida Presidente Var-
gas). Mas advertia: "Nao sera
permitido como fantasia o uso
de miscaras, macacAo, bem as-
sim camisas de meia ou espor-
te". Ora, pois.
O Paissandu Esporte Clube
nao desafinava no seu baile de
Momo: "Camisa de meia, man-
ga de camisa, 'swing', nao sao
consideradas fantasias.
JA a Sociedade dos Estivado-
res da Borracha prometia "bom
'jazz' e boa mrsica" no "grande
baile" que daria na sua sede, na
Boaventura da Silva, 828.
Cor o som "do melhor 'jazz'
e cor a presenpa das melhores
damas, louras e morenas", seria


o "formiddvel baile carnavales-
co" da Sociedade 20 de Marco.
Para chegar l1 bastava pegar o
bonde da Cremagao.

UAP
* Ainda em 1945 a UAP (Uniao
Academica Paraense) convocava
para reuniao em sua sede pr6-
pria, a travessa Padre Eutiquio,
204, sua diretoria e secretaria.
Eram convidados os universitiri-
os Pedro Pedroso, Severino Du-
arte, Joaquim Alves, Armando
Mendes, Luiz Pires, Mirio Arati-
jo, Carlos Lima, Paulo Coelho,
Felipe Conduru, Rainero Maroja,
Adriano Menzes, Galdino Batis-
ta, Jose Ribamar, Jooo Femandes,
Jos6 Ferranti, Acelino Leite, Egi-
dio Sales, Adalberto e Ribeiro.

Casamento
* Mesmo nao tendo havido re-
cepgAo, por motivo de luto na
familiar, foi um dos aconteci-
mentos sociais de 1957 o casa-
mento do jovem empresdrio Al-
tino Tavares Pinheiro, filho do
entAo rec6m-falecido comerci-
ante Alberto da Luz Pinheiro e
de Alice Tavares Pinheiro, corn
Regina Pereira Toscano, filha do
tamb6m comerciante Idalgo Pra-
gana Toscano e de Helena Pe-
reira Toscano. Do ato civil fun-
cionaram como testemunhas os
casais sr. e sra. Benjamin Bolo-
nha, Abelson Toscano, Mauricio
Coelho de Souza, Artur Roxo


FOTOGRAFIA muitas vacarias estabelecidas em todos os
pontos da cidade e saia entregando o leite
0 leite pu o supostamente fresco, tirado naquele mesmo
dia, aos distintos clients. Que vinham para
a porta cor a panela, o balde ou o quefosse
Quem ndo viu, nao verd nunca mais: um para receber o produto, acondicionado em
exemplar da carrocinha do leite, que espa- latoes, que eram guardados na parte trasei-
lhava "leite puro" (mas nem tanto) pela ci- ra da carruagem, mal comparando.
dade a trote de cavalo. Abastecia-se nas Uma Belem que acabou.


10 MARCO DE 2004 1 QUINZENA Jornal Pessoal


Pereira, Augusto Ferreira, Cliu-
dio Rubem Martins, Alfredo Ta-
vares Pinheiro, vi6va Inacio
Toscano e Inicio Toscano Filho.

Planejadores
* Em marco de 1962 a SPVEA
(Superintendencia do Piano de
Valorizagco Econ6mica da Ama-
z6nia, antecessora da Sudam)
empossou os novos dirigentes
da sua ComissAo de Planejamen-
to, seu principal 6rgao t6cnico.
O advogado Marcilio Viana as-
sumiu a presidencia da subco-
missAo de desenvolvimento cul-
tural em substituigio ao tamb6m
advogado Roberto Santos. A
subcomissao de transportes,
comunicag~o e energia, que era
chefiada pelo engenheiro (e
governador do Parf, 10 anos
depois) Fernando Guilhon, fi-
cou com o igualmente enge-
nheiro Roberto PaixAo. A sub-
comissao de energia e recursos
naturais, que era comandada
pelo entAo major (do Exdrcito)
Jarbas Passarinho, passou para
Clara Pandolfo, que era a dire-
tora da Escola de Quimica In-
dustrial do ParA.
Marcilio Viana e Clara Pan-
dolfo jA eram funcionArios da
SPVEA, admitidos desde o ini-
cio da hist6ria da superinten-
dencia, em 1953, sob a batuta
do historiador Arthur Cezar Fer-
reira Reis, colocado no cargo
pelo governor Getilio Vargas.








CCHF
* 0 Centro Civico Honorato Fil-
gueiras, muito conhecido por
sua sigla, CCHF, funcionou, ao
long de muitas gerag6es, como
um formador de lideres paraen-
ses no Col6gio Estadual Paes de
Carvalho. Para o bienio 1960/
61 foi eleita a seguinte direto-
ria: president, Licio castro; vice.
Nelson Figueiredo; secretario,
Benedito Neves; tesoureiro, Ru-
bens Rodrigues; e bibliotecaria,
Maria Elvira Rocha. O president
que deixava o cargo era Joa-
quim Bastos.

Aniversario
* A TV Marajoara comemorou
seu quarto aniversario, em
1965, cor um show no audi-
t6rio da Radio Marajoara (que
ficava na Praca de Nazar6 e
foi derrubado para a constru-
g5o de um pr6dio). Apresen-
taram-se os cantores Jerry
Adriani ("o maior sucesso na-
cional do momento, Rosana
("interprete das cang6es na-
cionais e internacionais") e
Dalila ("o samba brasileiro em
'bossa nova'"). As poltronas
numeradas, "incluidos os im-
postos Municipal e IBGE",
custaria 500 cruzeiros.

Estrada
* O ga6cho Domingos Ramos
Ribeiro levou cinco dias para
cobrir o percurso Porto Ale-
gre-Bel6m por rodovia, em ja-
neiro de 1968. Dirigiu sozinho
seu 6nibus Mercedes-Benz,
cor ar condicionado, cor 36
lugares. Mas seus passageiros
eram apenas sua mulher e um
filho. Chegou lepido e faguei-
ro. Garantiu que nem chegou
a perceber as temidas e famo-
sas ladeiras do Roquete e do
SabAo, na Belem-Brasilia.
Classificou de "muito bom" o
trecho entire Imperatriz, no
MaranhAo, e a capital paraen-
se na entAo BR-14.

Eleigio
* Em 1972 a Camara Munici-
pal de Belem tinha 15 verea-
dores (tres d6cadas depois,
possui mais do que o dobro,
33). Na eleicAo desse ano a
Arena, o partido de sustenta-
qAo do regime military, elegeu
nove vereadores e o MDB (an-
tecessor do PMDB), 6. Dos cin-
co mais votados, quatro eram
da Arena: Maria Duarte
(8.380), Os6as Silva (7.094),
Fernando Bahia (6.747) e Eloy
Santos (6.325). Vera Lucia Al-
buquerque, cor 6.004 votos,
foi a mais votada da oposigAo.


PROPAGANDA

Supermercados

Quandofez esse anuncio, em dezembro de
1968, o SdoJodo, de E. Georges & Cia., vi-
via a transigdo da mercearia ao supermer-
cado. Tinha entdo apenas uma loja, no
Largo de SdoJodo, atrds do Largo do Pald-
cio, num pridio onde atualmente funcio-


Os outros vereadores da
Arena Rodolfo Tourinho
(4.869), Jorge Colares (4.375),
Daniel Cardoso (4.218), Ade-
lino SimAo (3.865) e Augusto
Meira Filho (3.571). Do MDB:
Jos6 Guilherme (4.402), Vicen-
te Queiroz (3.649), Lucival
Barbalho (2.803), Herminio
Calvinho Filho (2.291) e Lin-
dolfo Pastana (2.242).
Alguns desses ex-vereado-
res ainda estAo vivos. Mas ne-
nhum se manteve na ativida-
de political. Mete6ricas foram
as passagens das duas Onicas
mulheres do grupo. Suas lide-
rancas nas votaoges nos dois
partidos deviam-se aos seus
patrons politicos. Maria Du-
arte era filha e herdeira de
Gongalo Duarte, o dono abso-
luto dos votos no bairro do Ju-
runas. Vera Albuquerque foi
eleita pelo irmAo, o jornalista
Paulo Ronaldo, que teve o
mandado de deputado cassa-
do no auge da popularidade
como radialista.


na o f6rum criminal de Belem (devidamen-
te reconstruido, e claro). Depois cresceria
para former a primeira rede paraense de
supermercados, numa linhagem que se
multiplicou e se mantdm atd hoje invicta,
aparentemente vacinada contra concorren-
cia externa (depois dos fracassos de redes
nacionais, como Pdo de Agacar e Bom Pre-
co). A Casa SdoJoao da Cidade Velha aten-
dia ate as 21 horas, o dono, lui-meme, em
pleno balcdo.


Anuncios
* A pauta de exportacao de produtos da Amaz6nia em 1955 era
composta de cacau, couros vacuns, mararanduba, balata, peles
de animals, couros de jacar6, cumard, sebo de ucuuba, sementes
oleaginosas, madeiras, amendoas de babacu, 6leo de copaiba,
andiroba, patua, grudes de gurijuba e pescada. Essa, pelo
menos, era a relagAo do que tinha para negociar E. Blanco &
Cia., estabelecido na avenida Castilhos Franga, 51, conforme
anincio de inicio de ano.
JA a Manufatura de Fumos Vera Cruz, de Serafim Aradjo &
Ramos, na travessa Almirante Wandenkolk, anunciava seus
"produtos afamados": "charutinhos Remo e Paissandu", al6m dos
tabacos Santa Cruz e Lobo, do AcarA, Braganga, de corda, etc.
As Fibricas Perseveranga Nome de fantasia das Inddstrias
Martins Jorge S/A), no plural por sua diversidade de produtos e
no singular por sua instalagAo inica, na travessa Quintino
Bocaiuva, fazia propaganda de sua linha industrial: cabos de sisal,
manilha, algodao e linho alcatroado; linhas para pesca; estopa
alcatroada para calafetos; aniagem de todos os tipos para
enfardamentos; tecidos de algodao para sacaria; algodao hidr6filo;
e sacos de juta e de algodao para todas as aplicaq6es. A empresa
comprava fibras de malva e juta, algodao em caroqo e em pluma.
A Fdbrica Nazar6 e o Moinho Guarany, de Neves Dias &
Cia. (na travessa Frutuoso Guimaraes) respondiam pelo
guaranA Triunfo, aguardentes Coaracy e Nazar6, bagaceira
Rosa, cachaga Doido por Ela, conhaque de alcatrAo Machado,
quinado D. Pedro II, diversos xaropes, farinhas de arroz,
carimA, araruta, macaxeira e surui, azeite de dende Flor, azeite
de patua Tupi e azeite Lagosta.


Jornal Pessoal I" QUINZENA MARCO DE 2004


NATAL FELIZ NA



S CASA


ao Joao,
0!1 E PCADO

DE E. GEORGES & CIA
Mags Peras Uvas Passas Castanhas Figos Nozes
- TAniaras Amndoas Queijos Salames Presuntog Vinhos
Nacionais e Estrangeiros, de todas as marcas.
Precos espvciais wara rcvindedores. Ndo compare sem nos visitar, e
certifique nossus pre(os. AtcndIemos pelo telelone c entrcgamos a do-
nwviio. Continuamos a tender at6 is 21 horas.
LARGO DE SAO JOAO, 274
FONE 4018 (ATRAS DO LARGO DO PAACIO)
(l14 Pig. 1E, 14.131)
I~ I I






































































AVISO
Nao vale ficar reclamando e
imprecando pelos quatro
cantos: autoridade piblica temr
que responder por escrito e
publicamente as critics que
recebe. Atr que conven a
sobre o que diz. Entre um
jornalista e um politico quem
decide 6 o (e)leitor.
na mos opai sai pe

vasta iblioea partiula
atrd^s d firma^wao doQ^s
fatos e da checagern ds

hist^rias. t assim que a
relagdo etre quernescreve
quern 1 se tona f^ril pa H
ambos e paraos terceiro
envolvido nessa current d



corn a mesma energia
















civilizado confronto de
KBid l~iCiasB.a^
0 joriTnal Pessoali~i;T^^
e^mpobreceg com a perd

desse miofiel e leitor^
tena. MsmoEISuidoSK^^



















decide e o (e)leitor.


Minhas mem6rias




(pela dos outros)


S6 no iltimo dia 9, ao ler o DiArio do Para,
vim a saber que por pouco nao morri esgana-
do, 36 anos atras. Num artigo introdut6rio a
um festival de filmes Bufiuel, Vicente Franz
Cecim confessou que teve esse impeto suicide
em 1968, ao sair de uma sessdo no ji falecido
Cinema Olimpia. Ao entrar, havia cruzado co-
migo, que ja havia "espiado" o filme, A Bela
da Tarde. Ansioso, Cecim (que na 6poca ain-
da nao havia incorporado ao seu nome o Franz
do nosso muito amado Kafka) pediu minha
opiniAo sobre a nova maravilha do bruxo es-
panhol. Fui fulminante: "Nada, Bunuel estA se
repetindo. Sempre as mesmas coisas: blasf-
mias contra a Igreja, desprezo pela Burguesia,
deboche dos Militares. Nada mudou. JA vi esse
film muitas vezes".
Ao sair, novamente extasiado, Cecim andou
atras de mim para me esganar por eu nao ha-
ver percebido que se Bufiuel se repetia 6 por-
que nenhum dos alvos de seus ataques havia
mudado, cobertos que continuavam de hipo-
crisia, violencia, iniqiidade. Cecim farejou atris
de mim, mas eu sumira das redondezas do Olim-
pia. Sorte minha, diz ele. "Meu amigo Licio,
que tanto ter se exposto e ousado contra os
estupradores da Amaz6nia, pelo que todos Ihe
devemos ser gratos, nunca soube o quanto sua
preciosa vida esteve por um fio naquela tarde".
Nao duvido do triste destino que a firia
cecinesca me reservaria. Lembro de uma ma-
drugada em que vinhamos, ele, o peruano e
eu, singrando mares suburbanos. Ao atravessar
do Largo de SAo Braz para a avenida Indepen-
dencia (hoje MagalhAes Barata), deparamos corn
um solitario PM i espera do Cristo. Cecim achou
que o moment se oferecia para um ajuste de
contas cor a ditadura military entao reinante. A
custo conseguimos arrastA-lo para long do as-
sustado soldado, que se homiziou atras do poste
da parada do 6nibus. E continuamos a cami-
nhada para o Bar do Parque, reduto de nossas
tertilias literarias at6 o sol nascer.
Foi num certo dia que o mencionado peru-
ano (cujo nome nunca memorizei e ji 6 tarde
para faz&-lo). Botou banca de intellectual viaja-
do, que sabia das coisas. Todos partilhavamos
nossas simpatias pelos loucos e egr6gios (titulo
do livro de um psiquiatra argentino que me foi
afanado). Certo dia o peruano chegou A roda e
tonitruou: Lukics 6 um gaga, um verme. Engoli
em seco. Sim, o c6rebro do formidAvel pensa-
dor hungaro andou atrofiado pelos anos do sta-
linismo. Foi nessa 6poca, aprisionado pelos
dogmas do realismo socialist, que Lukacs de-
finiu Franz Kafka como um artist da decad&n-
cia. Depois, refeito da cegueira temporaria, re-
conheceu a grandeza do escritor checo. O pe-
ruano estava desatualizado. Joguei-lhe na cara.
Acho que brigamos, intelectualmente falando.
Nao me lembro de ter voltado a ve-lo (mas sou-
be, depois, que era como que um impostor).
Tamb6m nao lembro um segundo da cena
que veio fresca e complete a mem6ria de Ce-


cim. Li e reli seu delicioso texto sem conseguir
recuperar qualquer detalhe daquele cruzamen-
to na entrada do Olimpia, a tarde, como assi-
nalei. A tarde, cara-pilida? Eu devia estar cabu-
lando a aula no "Paes de Carvalho" ou fugindo
dos grilh6es do SA Leal na redacao de A Pro-
vincia do Para, que me aprisionava, no mini-
mo, 10 horas por dia. A redagio era uma aven-
tura sem fim. Depois que fechivamos a edicao
ainda iamos para nossa academia etilica da Praga
da Reptblica, nao sem antes, durante certo tem-
po, usufruir as inova6oes tecnol6gicas da pas-
sagem de Elanir Gomes da Silva (a Lana) pela
chefia de reportagem.
Uma foi o telefone colorido (ate entAo ha-
via apenas aquele pesado aparelho negro). A
outra foi a cadeira de rodinha. Gragas a enge-
nho e arte de molecagem, desprendiamos a
novel cadeira. Eu subia nela, me agarrava e,
de um lado, Jayme Salvador BevilAcqua me ati-
rava; do outro, Cecim me segurava e me fazia
refazer o caminho. Um deles, em certo mo-
mento, pressentiu a chegada do senador Mil-
ton Trindade, que fazia sua incursAo noturna
(morava perto do journal, na Praqa da Bandei-
ra) para verificar o andamento da edigao. Mal
o senador colocou-se na ante-sala da redaqSo,
depois de vencer a terrivel escadaria, e ji o
atropelava aboletado na cadeira da chefa. Foi
a iltima jornada do (ou da? Meu Deus, que
lingua!) b6lide.
Isso tudo record, mas nao minha ins6li-
ta sentence de enfastiado d6jA-vi sobre A Bela
da Tarde. Se ainda fosse O Charme Discreto
da Burguesia, filme do qual realmente nao
gostei e sobre o qual poderia aplicar as fra-
ses que teria pronunciado a cavaleiro do Ci-
nema Olimpia... Mas sem as maiisculas de
burguesia e militares, que nunca usei (dai ter
grifado na citagao). Muito menos a expressAo
"blasfemia". Eu ji estava muito por fora da
ortodoxia. Chamaria Bufiuel de her6tico,
eomo o considerava. Um criador que contri-
buiu para desnudar falsas relac6es e verda-
des convenientes, utilitirias.
De A Bela da Tarde gostei muto. NatuJsl-
mente, nao foi s6 (e, no fundo, nm sobretu-
do) pelo cineasta espanhol. Como hao se en-
cantar cor Catherine Deneuve, ainda mais na-,'
quelas situaq6es oniricas? Outro dia revi o fil-
me num canal pago de televisAo. O mesmo
deslumbramento. Nao envelheceu, felizmente.
Eu 6 que envelheci tanto que ji nem me
lembro do que aconteceu outro dia. Talvez
seja um estimulo para comecar a escrever
minhas mem6rias. Ou continuar as que 6.Vi
center Franz Cecim iniciou, em meu nome, coni
muito mais maestria.

*orna Pless
E itor S'S i 1 i Pit