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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00264
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00264

Full Text






ornal


Pessoat
... < ,, ';


A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
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FEVEREIRO DE 2004
2a QUINZENA
No 318 ANO XVII
R$ 3,00


CVRD X GOVERNOR


Mais uma para o Maranhao?


0 governor do Estodo e 0 Liberal
abertura da mina de bauxita de


dizem que e blefe, mos a CVRD mandou desativar a
Paragominas e comego a transferi-la para o Maranhao.


Pode estar se repetindo a novel que levou a Alcoo para o Estado vizinho. Enquanto isso, os
bicudos, cada vez mais trombudos, agem emocionalmente.


Se nao conseguir assegurar o inicio
da mineragio de bauxita em Para-
gominas a tempo de concluir em
2006 a expansAo da Alunorte, que
a ela esta vinculada, a Companhia
Vale do Rio Doce vai congelar seu projeto no
Pard e transferilo para o Maranhao. A empre-
sa ji anunciou que comegou a trabalhar corn
a hip6tese, mas nao foi levada a sdrio. Essa
descrente avaliagAo mant6m-se mesmo depois
de ter sido confirmada a desativagdo da fren-
te de services que vinha implantando a mina
da Milit6nia, cor a dispensa de pessoal e des-
mobilizagAo dos equipamentos.
O governor do Estado e o journal 0 Libe-
ral, em posicgo antag6nica, estAo certos de
que se trata de mero jogo de pressAo. Agin-
do dessa maneira a Vale espera arrancar o
licenciamento ambiental da mina de Para-
gominas, que esta pendente de aprovagAo
na Secretaria de Ciencia, Tecnologia e Meio
Ambiente do Estado desde junho do ano -


passado (verJornal Pessoal 317). A empre-
sa estaria agindo como se estivesse num
jogo de p6quer: blefando.
Mas tanto o governor quanto O Liberal,
que estAo pagando para olhar as cartas,
podem vir a ter a mesma surpresa de duas
decadas atras, quando foi recebido corn o
mesmo ceticismo o antincio da Alcoa, de
que ia transferir para Sao Luis do Maranhio
seu projeto de alumina e aluminio, inicial-
mente previsto para a area metropolitan
de Belem. A empresa se queixava de que
sequer conseguia ser recebida pelas autori-
dades locals. Seus emissarios eram cozinha-
dos nas ante-salas dos gabinetes oficiais. O
governor do Estado queria estabelecer con-
dic6es para a implantagio da unidade in-
dustrial da maior produtora mundial de alu-
minio (que agora estA disposta a instalar
uma plant de alumina em Juruti).
Tanto a folha dos Maiorana quanto o
Palacio dos Despachos da Augusto Monte-


negro estio convencidos que o Maranhao nao
tem bauxita em condi6es de assumir o lugar de
Paragominas. Se 6 isso o que acham, podem estar
se expondo a um erro de c6lculo. A Serra do Tira-
cambu tern dep6sitos de bauxita equivalentes aos
de Paragominas. Sao, na realidade, parties da mes-
ma jazida, que se estende de um lado para outro
da divisa entire os dois Estados. Paragominas foi
escolhida por uma questio de logis
CONTINUE NA AO 2i

A PRAGA
DOS CACIQUES
NO PARA
(PAG. 3)
mammiiit~iiiS~ii^iiii^










CONTINUA;AO DA CAPA
tica: esta mais pr6xima do porto de Vila do
Conde, por onde sera exportada a alumina,
produto no qual o minerio 6 transformado,
atrav6s do process de refino (na etapa se-
guinte, a da metalurgia, vira metal). O custo
de implantaqio do mineroduto em Parago-
minas 6 ainda mais reduzido porque acom-
panharA outras linhas ja em operagAo para o
transport de caulim.
Sabendo dessas vantagens locacionais
paraenses, o senador Jos6 Sarney vem ne-
gociando um acordo entire a CVRD e o go-
verno do Maranhao para compensar a em-
presa, caso ela opte por se estabelecer no
Tiracambu e nAo mais em Paragominas. Os
entendimentos devem se intensificar porque
a Vale havia estabelecido em 6 de fevereiro
a data-limite de espera por uma definicio
do governor paraense sobre o licenciamento
ambiental. t provivel que ja tenha comega-
do a tratar da alternative maranhense, que e
mais cara, mais demorada e menos vantajo-
sa economicamente, mas pode se tornar vi-
avel, dependendo dos beneficios que o go-
verno maranhense vier a conceder.
Se os interlocutores paraenses acham que
assim 6 melhor, que assumam sua decisAo.
O terrivel sera perder por imprevidencia e
desinformagao, como parece ser novamente
o caso. Um component novo nessa queda
de braco 6 o interesse da China Aluminium
Company de se associar a Vale na expansAo
da Alunorte, dividindo corn ela o investimen-
to de 183 milh6es de d6lares para aduzir 1,8
milhAo de toneladas de alumina A capacida-
de atual da indistria de Barcarena, que 6 de
2,4 milh6es de toneladas.
A fibrica deverA estar em condig6es de
produzir os 4,2 milhoes de toneladas de alu-
mina a partir de 2006. Para isso, teri que con-
tar com mais 4 milh6es de toneladas de bau-
xita na retaguarda, que tanto pode ser arma-
da em Paragominas quanto em Tiracambu (se
o governor maranhense compensar as desvan-
tagens logisticas do seu Estado). Em favor de
Paragominas hi tambem o fator tempo: 6 15
que a abertura da mina esta mais adiantada.
A opgio maranhense vai consumer mais tem-
po. JA uma terceira alternative, a do Trombe-
tas, o atual responsAvel pelo suprimento da
Alunorte, que elevou sua capacidade de pro-
dugio em 40%, dependeria da capacidade de
a Mineragio Rio do Norte refazer a demand
dos seus clients para ceder mais minerio para
a indistria de Barcarena.


De qualquer modo, uma decisao a esse
respeito terd implicag6es sobre novas defi-
nic6es locacionais no p6lo de alumina e
aluminio do Para. Corn capacidade de pro-
dugco de 4,2 milhoes de toneladas de alu-
mina, a Alunorte passara a ter a estatura
daquilo que os sacerdotes do mercado cha-
mam de player. Ou seja: uma empresa lider
no segment, cor algum poder de influen-
ciar os pregos. Sua densidade deverd se
refletir sobre o projeto da Albris de se tor-
nar tambem uma das lideres mundiais do
aluminio. Mas toda essa estrutura se baseia
na maior disponibilidade de bauxita.
Por enquanto, os efeitos desse p6lo sao
quase todos para trAs. NAo sao esses elos
anteriores da cadeia produtiva que desen-
volvem uma regiAo. O modelo 6 tipicamente
de enclave, colonialista. O papel do gover-
no seria provocar efeitos para frente, na
verticalizagAo da produgco. O Onico pass
nesse sentido 6 a fibrica de perfilados de
Barcarena, que usa uma pequena quanti-
dade de aluminio liquid da Albras.
Ao inv6s de uma agAo decidida do go-
verno pela industrializaglo, o que vemos 6
essa dispute de bicudos (nem todos tuca-
nos, por sinal). A Companhia Vale do Rio
Doce, confiando em seu poderio econ6mi-
co e politico (sobretudo nas relagoes pes-
soais entire seu president, Roger Agnelli, e
o president Luiz Inacio Lula da Silva), des-
denhou o representante do governor na festa
de inauguragAo de sua nova sede em Be-
16m. O secretArio de inddstria, comercio e
mineragdo, Ramiro Bentes, foi ignorado por
Agnelli na formag~o das autoridades na
solenidade.
Ja o governador SimAo Jatene mandou
seu secretario representd-lo e foi dar brilho
pessoal A festa de aniversario "priv&" de


Romulo Maiorana Junior, que hojhe encar-
na o principal adversario da CVRD. Tudo
muito amadoristico, voluntarioso e fitil
quando questoes tao serias estao em cau-
sa. De said, sao mais de 250 milh6es de
d6lares de investimento, que, se estao vin-
culados a um esquema colonial, nao dei-
xam de ser uma boa alavanca nas maos de
quem sabe com o que esta lidando e o que
fazer para transformar esse investimento em
algo que deite suas raizes no Estado.
Se estivesse preparado, o governor nao
seria um espectador impotente diante de
uma realidade danosa ao Para, que a cada
ano mais e mais se vai cristalizando. Maior
exportador de minerio de ferro do pais, por
exemplo, o Pard esta se restringindo a essa
condigAo primrria. O mAximo que conse-
guiu dai para frente foi estacionar na pro-
duqPo de gusa (e queimando florestas para
transformA-las em carvdo para as guseiras).
A escala seguinte, de places de ago, foi
dividida entire o Maranhao, corn 3,5 milh6es
de toneladas (investimento de US$ 1,5 bi-
lhAo), e o Ceard, cor 1,2 milhAo de tonela-
das (e investimento de US$ 750 milh6es).
Se houver, a pr6xima expansAo, cor mais
3,5 milh6es de toneladas (caso a Vale con-
siga penetrar no fechado mercado america-
no, que s6 compra 3 milh6es dos 180 mi-
lh6es de toneladas que produz), ficarA em
Sao Luis mesmo, que ja abriga o centro de
produgAo de pellets pelotass produzidas pela
agregagio do minerio fino). A said agora
seria dar um salto e entrar direto na produ-
gao de bens como o ago inoxidavel, apro-
veitando as jazidas de niquel de Carajis.
Seremos capazes dessa faganha corn tao
pouco profissionalismo?
E dificil acreditar. Tudo que 6 s6lido tem
se desmanchado no ar do Para.


DE FORA
Em julho o Maranhao e o Piaui darAo partida a um esforgo no valor de 720 milh6es de
d6lares (mais de dois bilh6es de reais) para estender atd o seus territ6rios, por mais
dois mil quil6metros, o Gasoduto da Unificaqgo. Esse gasoduto foi concebido, ao custo
de 2,5 bilhoes de d6lares, para transportar e distribuir gas da Bolivia pelos Estados do
Centro-Oeste, Nordeste e, por enquanto, Meio-Norte, numa extensao de pouco mais de
cinco mil quil6metros. No final de 2006 a ultima perna chegara ao seu limited final, Sao
Luis do Maranhio. Ai, seus principals clients serio a Alumar complexo industrial de
alumina e aluminio), a Companhia Vale do Rio Doce (com seu terminal portuArio e
p6lo siderirgico) e a Ambev (fabricante de cerveja).
O Para continue, impAvido, fora desse circuit de gas natural, o energ6tico mais
barato do mercado.


CARTA
O que tinha de ser dito sobre este
escabroso projeto (?) do insinu-
ante (na falta de terms mais ade-
quados) Senador Jos6 Sarney, o
seu texto (JP n" 316, materia de
capa) ja completou corn absolu-
ta precisAo. O que conta agora 6
a sociedade civil, atrav6s de seus
legitimos representantes, cobrar
do executive as providencias
para tirar o Estado do Para dessa
insensata subalternidade. Nao dai
mais para esperar qualquer acao
prospective das secretaries que
tratam do planejamento estrate-


gico. Caso contrario, vamos ficar
sendo eternamente subtraidos
pela argticia e malandragem do
Jose Ribamar e de sua respective
intelligentsia.
Mudando de assunto, e aten-
tando para a nota da tltima pi-
gina do ja citado JP, quero
acrescentar que o latim nao ser-
ve apenas para "...dar a sua fala
mais exatidAo, concisao e bele-
za". Serve para muito mais. Ve-
jamos o que disse o saudoso
Prof. NapoleAo Mendes de Al-
meida (autor, entire outros li-
vros, da Gramitica Latina) so-
bre o assunto: "Raciocinar 6,


partindo de ideias conhecidas,
diferentes, chegar a uma tercei-
ra, desconhecida, e 6 o latim,
quando estudado coin metodo,
calma e pondera;Ao, o maior fa-
tor para agucar o poder de ra-
ciocinio do estudante, tornan-
do-lhe mais claras e mais firmes
as conclusies".
Pois 6, a aprendizagem do
latim no curso secundario cer-
tamente mudaria a opiniao da
coordenadora do vestibular da
UFPA, naquilo concernente a
fraquissima m6dia da discipline
matemitica.
Rodolfo Lisboa Cerveira


MINHA RESPOSTA
Lingua declinativa que e, o
latim, estudado com gosto e apli-
cafdo, estimula o raciocinio 16-
gico, dedutivo. E1 um exercicio
mental que abreportas tantopara
as matemdticas quantopara asfi-
losofias. Portas avarandadas.
Grandes criadores de aforismos e
epigramas afiaram a lingua na
pedra do latim. Bem que se po-
dia restabelecer essa proveitosa
gindstica numa missa especial.
Fica o convite e a provocagdo.
Do Cerveira e minha, finalmente
unidos, gragas a ultima flor do
Ldcio, inculta e bela.


FEVEREIRO DE 2004 2 QUINZENA Journal Pessoal


I










CRIMINALIDADE
0 fazendeiro Aldimir Lima
Nunes, mais conhecido como
Branquinho, tinha um
prontuirio da pesada. Contra
ele pesavam dentncias de
homicidio, trabalho escravo,
aliciamento, ameagas a
autoridades federais e
grilagem de terras. Sua prisAo
provis6ria foi requerida e
rapidamente concedida pelo
juiz de Palmas, no Tocantins,
para onde o fazendeiro havia
fugido. Cercado pela policia,
ele acabou se entregando em
Marabi. Mas em Marabi
mesmo foi solto, por ordem
de um juiz federal substitute.
Mesmo entendendo que "as
decis6es judiciais devem ser
respeitadas e cumpridas", nao
sendo, por6m, "imunes a
critical social", a Associacgo
dos Magistrados da Justiga do
Trabalho da 82 RegiAo
divulgou uma nota
manifestando preocupacao
cor a "liberagAo do referido
cidadAo". Lembrando que os
juizes federais do trabalho tem
participado de uma grande
ofensiva, junto cor outras
instincias governamentais,
para identificar e punir
pessoas como o fazendeiro
"Branquinho", a Associagao
lamenta "que reconhecidos
infratores da ordem legal
possam ainda desfrutar da
mesma liberdade dos cidadaos
de bem, prosseguindo nas
ameagas as autoridades
comprometidas cor a
erradicaAgo do trabalho
escravo no Brasil". Metade das
4.970 vitimas libertadas no
ano passado estavam no Pari,
Estado lider dessa triste
condicao humana.
A Associacqo aproveita para
reiterar a tese de que a justiga
trabalhista, responsivel pela
punifgo pecuniAria dos
exploradores do trabalho, seja
transferida tamb6m a
competencia por seu
processamento penal. Alega
que o juiz do trabalho "6
mais sensivel a matdria, pois
lida com a mesma
diariamente".
Assim, de uma s6 cajadada,
a Associagao fez uma critical,
um lamento e um pedido.
Alguma coisa hi de
conseguir, quando nada a
considerag~o as suas palavras
e alguma resposta dos
destinatarios. Ou prevalecerd
a regra do silencio
convenient?


0 Para e sua doenGa:


O


U a das maiores pragas que tem asso-
lado o Para republican e a dos caci-
ques brancos. Embora esses morubi-
xabas politicos freqtientemente usem
a metdfora para afirmar sua lideranqa, o parale-
lismo com os indios nao Ihes 6 favordvel, ao
contrario do que pensam. O ultimo dos chefes
de taba "civilizada", o ex-governador Almir
Gabriel, foi tao infeliz na inspiracao quanto seus
antecessores no trono do poder paraense.
O pronunciamento do lider tucano foi na
semana passada, durante o II F6rum Paraense
de Desenvolvimento, promovido pela Associa-
qao Comercial do Para. Reagindo ao que consi-
derou como uma ofensa do palestrante anterior,
Jose Mendo Mizael de Souza, president do Ibram
(Instituto Brasileiro de Mineraqgo), Almir falou
grosso no revide ao recado do intruso: "Algu-
mas pessoas, l1 fora, podem pensar que aqui s6
existem indios. i verdade que aqui temos os
nossos indios, mas essas pessoas devem saber
que n6s nao temos o nariz atravessado".
Outro tuxaua branco, o tamb6m ex-gover-
nador Helio Gueiros, assinaria com embeveci-
mento a frase (antropologicamente desastrosa).
Ela era uma das favorites no seu repert6rio de
preconceitos. A outra o fazia remeter os inde-
sejdveis para uma cubata africana, como se o
nosso pais servisse de contrast a sujeira, a in-
civilidade e a pobreza, que seriam a marca do
continent negro, do outro lado do AtlAntico
(preconceito tamb6m partilhado pelo muy com-
panheiro Luiz Inicio Lula da Silva).
No moment em que o politico Almir dis-
cursava, a Companhia Vale do Rio Doce, desti-
nataria de sua mensagem irada, da mais aten-
qao aos indios do que ao ex-governador e ao
seu successor. A acreditar-se em O Liberal (se


no retorico


























tal temeridade 6 recomendAvel), a poderosa em-
presa anda espionando um dos grupos Gavi6es
e seus aliados, voluntarios ou nao. O doutor
Almir, cor ou sem nariz atravessado, nao pa-
rece estar sendo espionado, exceto, talvez, por
outros tucanos ansiosos. Um dos caciques (de
verdade) teria ameacado bloquear a ferrovia de
Carajis, a segunda mais important via de es-
coamento de riquezas do sertAo para o litoral
brasileiro, caso nao Ihe seja pago um "por fora"
de 10 milhoes de reais, obrigando a empresa a
monitorar seus passes para nao ser novamente
apanhada de cala curta (ou saia just, para ser
fiel ao patois da moda).
Nao se trata de extorsAo nem de donativo
clandestine para fundo de campanha, tao ao
gosto dos sobas politicos, de diferentes mati-
zes (do azul ao vermelho) e variada narina, mas
de compensacAo pelos importtnios que a pas-
sagem do trem de minerio estaria a causar a
aldeia. t o que dizem os indios. Como sua ex-
tensao urbana, eles tamb6m nao possuem "o
nariz atravessado". Querem muito mais do que
o apito dispensado pelo doutor Almir.
Se dependesse do ex-governador, um de-
senvolvimentista tout-court, os indios ja nem
deveriam existir como tal, a nao ser para servi-
rem de parametro abstrato para a ret6rica do
Pard dos sonhos do doutor Almir, sem florestas
a atrapalhar o avanco da civilizagAo, cor suas
estradas, hidrel6tricas, fAbricas, plantios comer-
ciais et caterva. Durante seus oito anos de con-
sulado almirista, o desmatamento se expandiu
a larga, os conflitos rurais se agravaram, as con-
dig6es de vida se deterioraram, mas a pluma-
gem da elite foi tratada a dedo. Ningu6m per-
deu a pose por causa desses "detalhes".
CONTINUE NA PAG 4


Jornal Pessoal 2* QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 3









CONTINUAAO DA PAG 3
O discurso anticolonialista do doutor Almir
Gabriel no audit6rio dos comerciantes esta car-
regado de razao. I pena que o governador Al-
mir Gabriel nao tenha levado a serio o pensa-
mento do seu outro tardio, bipartido que ficou
como, de resto, a social-democracia da qual
seu partido se declara porta-voz entire o pen-
samento e a ag o. Reconheca-se que essa dis-
sociacao nao 6 monop6lio dele ou do PSDB.
Ningu6m poderia imaginar que a esquizofrenia
se tornasse tao aguda como esta ficando no rei-
nado do president Lula (que certamente logo
providenciarA o seu livro de frases de improvi-
so, made by Duda; o titulo, corn a originalidade
pr6pria da categoria, sera O livro depensamen-
tos do president Lula).
Durante os oito anos do doutor Almir foram
crescentes os lucros da CVRD, a timoneira do
colonialism que aflige o Para e revolta o no-
bre politico. Quase no encerramento do primei-
ro dos dois mandates do doutor Almir, a CVRD
foi privatizada, mas o entAo governador nao
disse um ai a respeito (como nao pia quando
os rep6rteres Ihe perguntam sobre sua possivel
candidatura, reagindo irritado por ver os pro-
fissionais da imprensa tentando cumprir o que
6 sua obrigagao).
Nem mesmo se revoltou quando, um mns
antes da privatizagao, ter sido levado a MarabA
pela empresa para langar a pedra fundamental
da metal6rgica de cobre da Salobo Metais, que
continue a ser um retrato na parede do sertao
(e como d6i). A exploraqao do cobre que vai
comegar naio e no Salobo, mas no Sossego, e
visa apenas a concentracao do metal, nao sua
transformagao em metal.
Durante seus oito anos de imperio no Pari,
alias, o doutor Almir nao deixou passar um mes
sem falar na agregagao de valor a atividade pro-
dutiva, atrav6s de investimentos na transforma-
gao da materia prima. De tanta fala o que resul-
tou 6 quase nada, ou menos do que nada, se
formos analisar os resultados da producao de
gusa a base de carvao vegetal por uma refinada
conta de custo/beneficio.
Em matdria de reacao ao colonialismo que
sangra o Para, de forma ainda mais selvagem
do que sangrou o Amapa, o que significaram
os oito anos do cacique de nariz nao atraves-
sado Almir Gabriel? Zero vezes zero. Dirao
seus correligionArios que isso se deve ao mo-
nop6lio efetivo de poder exercido pelo gover-
no federal, que p6e e dispoe na nossa satrapia
verde. Em principio, 6 verdade. Mas o presi-
dente da repiblica era um correligionario de
partido do governador (situagao que jA nao serve
de justificativa para a inacao do seu successor .
Senador-constituinte de destacada atuagao
no Congress Nacional, o doutor Almir devia
ter conseguido impor ao
soci6logo Fernando Hen-
rique Cardoso uma mat&-
ria que tern tido impor-
tAncia apenas decorative
ou formal entire n6s (ou
Centre n6s e eles): respei-
to. Tanto quanto o Pari,
entretanto, o governador
nao foi ouvido nem chei-
rado, para usar outra p6-
rola da fraseologia dos
nossos caciques. Mas


tambem nao mugiu nem tugiu (apudHdlio Guei-
ros). Quando tem que confrontar poderosos, o
doutor Almir costuma perder a pose que imp6e
a subordinados e Aulicos. O grito fica preso na
garganta, como na cangio de Caetano Veloso.
O brado de protest saia de vez em quan-
do, mas a pr6pria Vale ja sabia que, como de
regra no trato cor os caciques antecessores,
nada que um punhado de migangas e balan-
gandas nao pudesse resolver (os verdadeiros
indios, como ji se sabe, passaram da fase dos
espelhinhos). Uma sismografia da relagio go-
verno-CVRD 6 delimitada pelo toma-l--dc-ca
que faz os moments de pique serem sucedi-
dos pela linha quase reta do entendimento de
bastidores. Dai a descontinuidade do discurso
critic. Por isso a ausencia de resultados con-
cretos desse contencioso entire caciques (tan-
tos) e indios (tao poucos). O governador-im-
perador p6e e a burocracia p6blica nao disp6e.
Morre muda videe Idesp).
Exemplo categ6rico nesse sentido 6 a atitu-
de do atual governor, a espera das 30 mil casas
que a Vale diz-que-vai-fazer-mas-nio-faz, por
nio ser de sua competencia, e a administragao
estadual, de sua parte, finge-que-nao-sabe que
esti pedindo o indevido. A Vale pode ficar acu-
ada por esses movimentos reativos, mas para
sair do corner do ringue ela nio precisa mu-
dar. Basta agradar os contendores. Por isso o
Pari esti sempre atris da empresa, em seu ras-
tro, manipulado por ela, fazendo seu jogo mes-
mo quando arrota forga e independencia. O Pard
nio sabe a agenda da sua hist6ria. Logo, nbo
pode fazer a hist6ria.
A falta de massa critical governmental (e
da sociedade como um todo) se exemplificou
naquela vexat6ria proposigao do governor an-
terior, de tentar deslocar a empresa explorado-
ra do setor de caulim trazendo um competitor
do leste europeu para vir fabricar aqui louga
fina, certamente a partir de tecnologia suficien-
temente inovadora para usar argila que nao 6
cerAmica, como a que alimenta os p6los indus-
triais de Barcarena e do Jari.
Ao fulminar o Idesp corn os raios de sua
intolerincia, o doutor Almir feriu gravemente a
inteligencia do serving piblico. Nio apenas de
forma real, mas tamb6m atrav6s do simbolis-
mo. Sem critical e controversial o saber nao avan-
ca. Mas para os espiritos autoritarios o que im-
porta 6 nao serem incomodados pelos critics.
Eles querem com a mansidAo do pensamento
inico, do genio auto-proclamado. E condigbo
do caciquismo que esses personagens cri-cri nao
existam. Ainda que os que restam fiquem a sol-
do. E haja materia paga.
E por isso mesmo que o Pari, dependendo
dessas figures sebastianistas (como os Bara-
tas, Barbalhos ou Gueiros), esta parade e, con-
forme disse Aristides Lobo
do povo atropelado pela re-
p.blica madrugadora, besti-
ficado diante dessa hist6ria
viva e deslumbrante que, de-
vendo redimi-lo, cada vez
mais o escraviza, sem que
para isso influa um milime-
tro sequer, em sentido con-
trArio, a ret6rica revoltada
dos seus caciques, na ativa
ou aposentados. Cor ou
sem nariz atravessado.


HAMLET

TUCANO

O PSDB ter, atualmente, o
pr6-candidato mais forte para
disputar a prefeitura de Beldm.
Mas se o ex-governador Almir
Gabriel desistir da dispute, os
tucanos passario a ter o ni-
mero quatro das pr6vias at6
agora realizadas informalmen-
te: o ex-prefeito de Ananin-
deua, Manoel Pioneiro. Se qui-
serem ter um candidate mais
forte, terio que recorrer a um
candidate de fora do partido:
o senador Duciomar Costa,
ainda assim o segundo colo-
cado nas pesquisas.
Por essa 6tica entende-se a
pressio cada vez maior sobre
Almir Gabriel. O ex-governador
ainda se recusa a assumir um
compromisso formal com a
candidatura, mas sao crescen-
tes os seus contatos politicos.
A um grupo do sul do Pari pro-
meteu que subird nos palan-
ques de todos os candidates tu-
canos is prefeituras do interi-
or. O candidate a uma outra
prefeitura, mesmo que seja a da
capital, nao precisaria se sub-
meter a essa desgastante ginka-
na eleitoral. Mas o doutor Al-
mir ainda ter nos seus pianos
voltar ao governor do Estado.
Precisa restabelecer os elos
cor o interior.
Esse piano s6 tem viabili-
dade se ele for candidate i
sucessao de Simao Jatene, jai
que esperar por 2006 ficard
muito distant para o doutor
Almir. O problema 6 que Ja-
tene ji tem um candidate para
sucedI-lo: 6 Simao Jatene. Um
enredo ao seu gosto teria o
ex-governador como candida-
to a prefeitura. Se Almir ga-
nhar, sua vit6ria reforgari o
cacife de Jatene. Mas se Al-
mir perder, o atual governa-
dor nao terA prejuizo. Afinal,
estara afastado o Onico adver-
sario que poderia constrange-
lo ou mesmo impedi-lo de
tentar conquistar um novo
mandate.
Assim se explica toda a cau-
tela de Almir Gabriel antes de
definir de vez o que mais quer
fazer no moment: conquistar
a prefeitura de Bel6m para sair
do sereno e voltar ao centro do
palco politico. Onde, sob a luz
da imprensa e o foco da opi-
nito piblica, poderi retomar a
caminhada de volta ao nDcleo
do poder; que esta bem long
do seu orquidirio.


4 FEVEREIRO DE 2004 2" QUINZENA Journal Pessoal










iA GAN 3 I i


Hilda Hilst, que morreu no
inicio do mes, aos 73 anos,
em Sao Paulo, foi uma re-
voltada via a da prpria beleza.
Era uma poeta para gostos apura-
dos, sutil, delicada e profunda, sem
qualquer tipo de preconceito temi-
tico (nem vivencial). Foi uma das
melhores poetas brasileiras de to-
dos os tempos. Ainda teve talent
para aplicar sua inspiraco (e mui-
ta transpiracao) em romances e
peas de teatro.
Mas em nenhum moment esse
seu talent especial, 6nico quando
se consider apenas o lado er6tico
da sua literature, foi reconhecido
integralmente. Mesmo os que a elo-
giavam pareciam considerar o elo-
gio A poeta mera conseqiincia da
admiragio por sua beleza. Sendo tio
bela, nem precisava ser tao inteli-
gente era o que todos pareciam
dizer. Os homes dio a essas pala-
vras o sentido de um elogio. As mu-
Iheres inteligentes, nem tanto.
Hilda devia ter sido uma atriz -
tanto podia ser de cinema quanto
de televisao ou teatro. Tinha pre-
senga forte e glamour. Mas era, de
fato, uma grande poeta. Sabia dis-
so e dava valor a essa condig~o.
Mas o public, dominado pelo con-
vencionalismo (machista ou como-
dista, nao importa), s6 chegava aos
seus versos depois de passar por
sua fina estampa. Ou ficar nela.
Acho que seu isolamento resul-
tou da constatacio de que jamais
conseguiria inverter a ordem: seus
dons naturais prevaleceriam sem-
pre sobre o que aprendeu e cons-
truiu cor leitura, observagio e
exercicio de escrita. Amargurada na
solidao, envelheceu mais rapida-
mente. A ultima imagem dela guar-
dava da flor da sua beleza, inaba-
lIvel at6 os 50, apenas o traco do
seu olhar inteligente e inquiridor.
Desafiador tambem.
Os necrol6gios finalmente Ihe
fizeram justiga. Mesmo os mais pe-
netrantes, por6m, passaram ao lar-
go de certos moments da biogra-
fia, que em Hilda pesaram tanto
quanto sua obra. Dos textos que
sairam na imprensa brasileira, o
mais pr6ximo da iddia que me fi-
cou da personagem foi o que Cris-
tiane Costa e Cecilia Gianetti escre-
veram para o cademo "Iddias & Li-
vros", do Jornal do Brasil. 0 titulo
sagaz, por6m, prometeu mais do
que ofereceu a mat6ria: "O legado
maldito da obscena Sra. H".
Como sempre, o leitor desaten-
to deve ter ido A reportagem atris
de hist6rias de devassidio ou coisa
parecida. Mas a obscenidade de Hil-
da, A parte expressar seu compro-


MRN: as dores




do crescimento


Considerada a empresa brasileira de melhor
desempenho no setor de mineragao (al6m de
ser a mais admirada) e a melhor inddstria do
Norte-Nordeste do pais, entire outros titulos que
recebeu da imprensa national no ano passado,
a Mineracgo Rio do Norte tinha tudo para con-
siderar hist6rico o exercicio de 2003.
Para um faturamento de 827 milhOes de re-
ais cor a venda de pouco mais de 14 milhoes
de toneladas de bauxita, a empresa conseguiu
um lucro liquid notivel, de R$ 325 milhoes.
Ou seja: de cada 10 reais que recebeu, a MRN
colocou 4 reais no bolso. Poucas empresas desse
porte devem ter apresentado desempenho se-
melhante no pais no ano passado, tao desfavo-
ravel a quem produz.
Mas esses nimeros, apresentados no balan-
go divulgado pela Rio do Norte no dia 10, po-
dem ser menos consistentes do que parecem.
Em primeiro lugar, a mineradora nio provisio-
nou os 316 milh6es de reais que precisou de-
positar em juizo, em maio de 2003, para poder
continuar questionando autuagio que sofreu da
Receita Federal (atualizado em 31 de dezem-
bro, o valor ja passou de R$ 350 milh6es) e nao
perder o refinanciamento de sua divida corn o
governor federal pelo program Refis, cujo sal-
do, no final do ano, era de R$ 43 milhoes.
Esse dep6sito praticamente engole todo o
lucro liquid da MRN. A empresa justifica que
nao contabilizou em seu balango esse passive
contingent porque seus advogados Ihe garan-
tem que ela teri exito na agio. O conflito tern
origem na decisAo que a mineradora tomou, em
1999, de reduzir seu capital social em 20% (ver,
a prop6sito, Jornal Pessoal 301 e 315). No ano
seguinte a Receita a autuou e multou, alegando
que a empresa havia incorrido na obrigagio de
ter que pagar os impostos de que fora isentada
quando decidiu investor numa area incentiva-
da, a Amaz6nia.
A Rio do Norte sustenta, "suportada pela
opiniAo de seus advogados", que respeitou as
regras legais ao reduzir o capital. Por isso, "de-
cidiu nao constituir provisAo relative a esta ques-
tio por considerar boas as chances de exito".
Se sua previsao se confirmar, o dep6sito judici-
al se consolidard como realizivel a long pra-
z6. Se a Receita Federal vencer a demand, os
R$ 350 milh6es serAo transferidos para o tesou-
ro national como cr6dito tributario e o vitorio-
so exercicio de 2003 poderi voltar a registrar


misso de vida, esti muito mais para
a imoralidade corn a qual Serguei
Eisenstein deu titulo ao seu livro de
mem6rias do que para potins de
roda esperta. Da mesma maneira
como o cineasta desafiou o centra-
lismo tiranizo do czar Josef Stalin,
corn sua individualidade, transmiti-
da para seus filmes (e que sobrevi-


prejuizo, ha tempos expurgado dos resultados
da empresa.
Dos R$ 316 milh6es que depositou em jui-
zo, a MRN tomou emprestados R$ 250 milh6es,
um autentico "papagaio", empinado no merca-
do financeiro graqas ao Bradesco ao Itai. Esses
financiamentos, concedidos em dezembro, fo-
ram exigidos imediatamente, no mes seguinte
(devendo, por isso, repercutir no balango de
2004, que seri onerado caso as previsbes oti-
mistas da MRN se frustrem).
Mas nao 6 esse o ~nico problema da Rio do
Norte. A empresa investiu o equivalent a 221,5
milh6es de d6lares, nos tltimos tres anos, para
elevar sua capacidade de produglo para 16,3
milhoes de toneladas anuais de bauxita, o limi-
te mAximo de expansAo que suas condiq6es
operacionais Ihe permitem. Entrou com 55% de
recursos pr6prios e 45% de financiamentos. Mais
de R$ 400 milh6es de cr6dito de curto prazo
vencerAo neste ano, pesando sobre o desen-
caixe da mineradora. O problema 6 que o pre-
Co da bauxita caiu no mercado international.
Foi por isso que a geracAo liquid de divi-
sas em 2003 (US$ 82,5 milh6es) foi bem menor
do que em 2002 (US$ 109,4 milhoes) e o au-
mento no volume fisico de vendas (42%) supe-
rior ao incremento do faturamento (39%). Se o
preqo do min6rio se estabilizar por baixo ou
seguir uma tendencia de queda, a MRN estarA
em dificuldades. Se perder em riltima instAncia
a demand judicial, a encrenca ficard de tama-
nho ainda maior.
Em sua mensagem, por6m, a diretoria ma-
nifesta conviccio de que "as operagoes comer-
ciais que se realizario no pr6ximo exercicio
serAo suficientes para tender os compromis-
sos de curto prazo". Al6m disso, cre que a ge-
rac o de caixa da sociedade permite i Admi-
nistraiAo a renovagio dos empr6stimos de cur-
to prazo ou a troca para linhas de cr6dito de
long prazo".
Ainda assim, a mensagem nao deixa divida
de que serao muito fortes as does do cresci-
mento. Ao passar de 11 milh6es para 16,3 mi-
lhoes de toneladas (que serao plenamente al-
cangadas em 2004), a MRN, controlada pela
Companhia Vale do Rio Doce, em associagio
corn outras seis empresas (cinco delas multina-
cionais poderosas), sobe para o topo das mi-
neradoras de bauxita no mundo. Vai ser cobra-
da por esse titulo.


veram mesmo quando foi obrigado
a distanciar Iva de Hamlet e moldi-
lo pelo realismo socialista, Hilda co-
locou em cheque a engrenagem
mental do nosso latinismo com sua
arte desaforada. E seu jeito aristo-
crAtico de se lixar para o mundo.
Para quem quiser tirar a prova
dos nove, sem roteiro de excursao


turistica literaria, tio em voga no
moment, recomendam-se os 11 ti-
tulos de Hilda Hilst que a Editora
Globo jA publicou. Para chegar as
obras completes estao faltando ape-
nas mais 30 livros. Deve dar tempo
suficiente para descobri-la como ela
realmente foi e nao apenas como
parecia que era.


Journal Pessoal 2" QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 5












Segundo c

Duas d6cadas atris, alguns t6cnicos do gover-
no do Pard se opuseram a que a Alcoa implantasse
em Barcarena uma fibrica de alumina e aluminio.
Argumentavam que o projeto que nao seria pro-
veitoso para o Estado. Suas alegaqOes, por6m, pa-
reciam vAlidas para serem aplicadas apenas a mul-
tinacional americana, nao a Albris, o empreendi-
mento nipo-brasileiro cuja implantalao simultinea
a Companhia Vale do Rio Doce comandava. A Al-
coa nao interessava porque era um tipico projeto
de enclave, que renderia mais ao comprador dos
seus produtos, la fora, do que a regiAo na qual ela
se instalaria. Al6m disso, significava uma ameaga
ao equilibrio ecol6gico do estuario do rio Pard por
causa da poluicAo do ar pela fabrica de aluminio e
do solo e da Agua pela industria de alumina.
Mutatis mutandis, as restric6es se aplicavam
como luva, em tese, ao complex AlbrAs-Alunor-
te. Mas nao chegou a haver uma proveitosa dis-
cussAo a respeito porque o veto A Alcoa nao foi
explicit, nem assumido. Simplesmente os exe-
cutivos da empresa mofaram a espera de uma
audiencia corn as autoridades estaduais. Um dia
se aborreceram de esperar e nao voltaram mais.
Montaram mesmo seu p6lo, o segundo maior do
pais, em SAo Luis. De certa forma, essa hist6ria
mal explicada esta se repetindo no caso de Para-
gominas. Os t6cnicos do governor dizem que a
nao aprovacao do EIA-Rima da CVRD nao 6 ne-
nhuma retaliagAo. A demora se deve a preocupa-
gAo de nao repetir, ali, os erros cometidos na ex-
tragao da bauxita do Trombetas. O maior deles
foi a destruicAo de 20% do lago Batata pela depo-
sigAo do rejeito da lavagem do min6rio.
Se 6 assim, a Sectam devia convocar uma nova
audiencia p6blica ou um semindrio t6cnico corn os


ipitulo

interessados na questAo antes de submeter o licen-
ciamento ambiental ao Coema, esquecendo a cir-
cunstAncia de que o pr6prio Conselho Estadual do
Meio Ambiente ja deveria servir de f6rum para essa
abordagem (ou seu carter 6 meramente decorati-
vo?). Os terriveis e primarios erros da Mineracao
Rio do Norte ja foram corrigidos e corrigidos no
pr6prio local, ao menos parcialmente. Algumas das
soluc6es ainda aguardam a consolidacao. Outras
foram inovadoras, como a adaptagAo do m6todo
de replantio das areas mineradas, inspirado na ex-
periencia corn a recomposi4go de areas de onde o
potAssio foi extraido, nos Estados Unidos, se me
lembro bem. Ja ha parametros para submeter o
projeto Paragominas a um enquadramento ambi-
ental rigoroso. Basta aplicar-lhe as normas e o co-
nhecimento existentes. E tamb6m dando oportuni-
dade para a CVRD reenquadrar seu EIA-Rima aos
padres exigentes do governor do Pard.
Mas os burocratas paraenses nao estao sendo
convincentes. Ou por nao saberem exatamente
do que estao tratando ou por nao poderem expor
claramente o que pensam ou quais sAo as ordens
a cumprir. Cor isso, induzem a interpretaPAo de
que nao 6 por inconsistencia de dados ou incon-
clusao que o licenciamento ambiental de Parago-
minas ainda nao saiu, mas porque pesa sobre ele
um veto politico, exercido atrav6s de embargo de
gaveta. Quando fica mal iluminado, o cenArio se
torna um ambiente propicio aos gatos pardos,
tomados assim como bichanos pretos. E a com-
posi6oes que, a distincia da opiniAo pDblica, per-
dem sua caracteristica mais positive: a transpa-
rencia. Sem a qual nao 6 possivel aquela condi-
cAo mais almejada pela coletividade: o control
social dos atos do governor.


DESINFORMA(AO
Ao long de quatro dias, O
Liberal dedicou tres
manchetes de primeira pagina
a espionage da Companhia
Vale do Rio Doce sobre indios
Gavilo e a sede do Minist6rio
Piblico em MarabA. A questao
que essa coberta suscita 6: se
nao houvesse a litigAncia
commercial e judicial entire a
empresa da familiar Maiorana e
a CVRD, o assunto teria tal
destaque? A mAquina
registradora esta falando muito
mais alto do que os crit6rios
editorials.
JA no Didrio do Pard nao sai
mais nada que possa vir a ser
considerado desfavorAvel a
mineradora, inclusive o
superdimensionado epis6dio
de espionage. Tudo porque
a Vale esta descarregando
toda a sua publicidade na
folha dos Barbalho.
A opiniao piblica que vA
catar informag6es em outra
freguesia.

LICAO
Uma das cabegas mais
brilhantes de sua geracao, Luiz
Esmanhoto 6 um dos dois
tnicos ex-alunos do ITA que
nunca se formou. Isso diz
mais sobre o valor da escola
formal do que muita
pedagogia de aluguel.


-Wanda, I'eus


Benedicto Wilfredo Montei-
ro era, ao vivo, a expressao fiel
daquela image que me marcou
desde que a vi pela primeira vez,
40 anos atras, quando meu pai
me apresentou a ele. EstAvamos
no Palicio Azul, a sede atual da
prefeitura e do museu de Bel6m,
mas naquele ja remote 1965 um
abrigo para diversos 6rgAos p~u-
blicos, do legislative ao judicid-
rio, nao apenas o executive. S6
um ano depois eu me tornaria
jornalista. Mas ja aprendera a
admirar aquela expressao de dig-
nidade corn a qual Ben6 apare-
ceu na foto que documentava
sua prisao. Estava algemado,
vestindo roupa emprestada, des-
calo, barbudo. Mas seu olhar
altivo diminuia o military que o
conduzia preso. O vencedor
mandava, mas nao na dignidade
do vencido. Ao vencedor, Ben6
mandava as batatas.
O home baixinho, de pale-
t6 branco, que cumprimentava


afetuosamente o an6nimo filho
de Elias Pinto, mantinha aquele
olhar de deus asteca (ou maia).
Os cabelos negros, a pele cor de
cobre, os tracos firmes, uma es-
timulante risada de camarada-
gem e um olhar perscrutador
transformavam logo o belzebu
dos militares numa personagem
simpatica. Benedicto estava vol-
tando a vida depois de passar
pelo purgat6rio de uma ditadu-
ra ainda envergonhada, nao ple-
namente assumida, no dizer de
Gaspari. Pularia essa fogueira.
Reencontrei Bend, na sema-
na passada, diante de uma fo-
gueira nada menor. Envelhecido
pela doenga e abatido pela dor,
ainda assim ele se mantinha com
a mesma expresso de solidez
na primeira bancada da igreja de
Santo Ant6nio de Lisboa, coman-
dando a familiar e recebendo os
parents e amigos que foram
confortd-lo pela morte da espo-
sa. Pela primeira vez desde que


o conheci, Ben6 estava sem a sua
Wanda. Percebia-se logo a au-
sencia, mas nao porque Wanda
fizesse questao de ser notada.
Muito pelo contrArio. Ela prefe-
ria estar sempre a sombra, mas
atenta para a menor necessida-
de da sua presenca.
Secundava o companheiro
para que ele pudesse desem-
penhar sem perturbacAo sua
fungao de home p6blico e
chefe do cli. A qualquer ame-
aga que pressentia sobre os
seus, por6m, Wanda se apre-
sentava como uma aguia, guar-
diA de todos, inclusive do ma-
rido. Desfeita a emergencia, ela
voltava, zelosa, aos seus afa-
zeres na gerencia da retaguar-
da, na sustentagco dos que de-
viam aparecer no palco da vida.
Wanda se agigantava nos
moments de dificuldades, mas
foi tamb6m uma festeira sem
igual. No inicio dos anos 70 co-
memoramos inimeras vezes o


primeiro e grande livro de Ben6,
Verde Vago Mundo, principal-
mente corn esticadas ao Pagode
Chines, uma boate que quem nao
viu nao verd nunca mais. O avan-
car da madrugada imprimia sua
marca em n6s, mas ela parecia
estar sempre comeeando, alegre
e disposta. Cabocla representati-
va do Baixo Amazonas, guarda-
va o moment da observag5o em
silencio, formando suas id6ias e
seu juizo sobre o que via matu-
tando. Por isso o que dizia trazia
consigo o saber experimental (ou
experimentado) da vivencia, da
experiencia. Carregado, portanto,
de humanidade.
Essa Wanda querida nao fo-
ram s6 os Monteiro que perde-
ram. Fomos todos n6s que tive-
mos a ventura de conhec-la. E,
pela obrigagAo do afeto, chora-
mos sua perda ao lado do bra-
vo caboclo (ou caboco, como
ele escreve na sua ficcao) Be-
nedicto Wilfredo Monteiro.


6 FEVEREIRO DE 2004 2" QUINZENA Journal Pessoal












Castanha: oAcre




busca seu caminho


Para o Acre em formagAo, pior do que os
bolivianos, contra os quais combateram, sob a
lideranga de Placido de Castro, s6 havia uma
entidade: as casas aviadoras da rua 15 de No-
vembro, em Belem. Para elas era destinada, a
prego muito baixo, a produgco extrativa da re-
gido, primeiro a borracha e, em seguida, a cas-
tanha. Era da rua das aviadoras e agencias ban-
carias da capital paraense que procediam as
mercadorias necessArias
is atividades de serin-
gais e castanhais, e tam-
bem os financiamentos,
a custo extremamente
elevado. Esse ciclo de
ida de material prima e
retorno de manufaturas
e cr6dito causou ao
Acre, ao long do s6cu-
lo XX, uma perda equi-
valente a dois bilh6es de d6lares (mais de sete
bilhoes de reais).
Corn base nesse calculo 6 que o governa-
dor Jorge Viana se inspira para justificar o
projeto que esti patrocinando em seu Esta-
do: acabar com a exploralao colonial da qual
o Acre foi vitima durante mais de 100 anos.
Das casas aviadoras da Wall Street paraense
do auge da exploragao da borracha s6 resta
hoje a mem6ria, nao exatamente grata aos
acreanos. Mas do sistema commercial do pas-
sado ainda hi um agent em plena atividade:
os exportadores de castanha. Dentre os quais
os mais representatives sao os integrantes da
familiar Mutran.
Durante decadas eles e alguns outros imi-
grantes estabelecidos em MarabA drenaram
para o exterior a grande produao dos vales
dos rios Tocantins e Itacai6nas. Pouco fizeram,
apesar de seus lucros fabulosos, para estimular
aquilo a que hoje se di o nome de sustentabi-
lidade e assistiram impividos (e As vezes tiran-
do proveito) A implantagAo de novas atividades
econ6micas que, provocando desmatamento,
acarretaram tamb6m o acelerado desapareci-
mento dos castanhais, hoje reduzidos a menos
de 20% de sua extensAo original. O maior deles
esta no interior dos 50 mil hectares da reserve
dos indios GaviAo.
Exaurido o Tocantins, os exportadores de
Belem passaram a se abastecer cada vez mais


no Acre, adotando o esquema primitive, basea-
do no control da produgao e em precos bai-
xos. O atual governor acreano quebrou essa es-
trutura, estimulando a instalagto de duas usi-
nas de beneficiamento de castanha, atrav6s de
cooperatives. Por enquanto, elas processarao
apenas uma parte da safra. O excedente, po-
rem, nao virA mais a preco vil para Belem: uma
empresa boliviana, a Tahuamnu, que control
10% da produgco mun-
~ dial de castanha, com-
A prari a amendoa que
Sno for beneficiada no
Acre, pagando muito
mais do que os tradici-
onais comerciantes pa-
raenses.
O governor nao im-
p6s nenhuma proibi-
cAo. Adotou uma pro-
videncia sagaz em defesa do produtor: elevou
em mais de 150% a tarifa do ICMS sobre a cas-
tanha. S6 essa taxacgo represent mais do do-
bro do preco que os importadores de Belem
pagam atualmente pela castanha do Acre. Com
as medidas adotadas, incluindo financiamento
governmental, o pre.o medio da castanha (corn
e sem casca) pulou de 40 a 50 centavos para R$
1,20 e R$ 3. No mercado international, benefi-
ciada, o quilo da castanha se aproxima de R$
10. t li que os produtores acreanos querem
chegar diretamente.
Se as duas primeiras usinas, instaladas onde
se concentram 70% da producao, derem certo
e se multiplicarem, a ponto de absorver toda a
castanha in natural, passando a exporti-la in-
tegralmente beneficiada, e se o preco da valo-
rizaa.o ja conseguida nao for trocar os explo-
radores de Belem pelos da Bolivia, talvez se
possa testemunhar no Acre uma fase da hist6-
ria da castanha que nao houve no Para: a inte-
riorizalAo da industrializaAo nas pr6prias Are-
as produtoras e o surgimento de uma atividade
econ6mica auto-sustentAvel, sem a destruigio
das fontes do recurso natural.
Se isso acontecer, o Acre, provando serem
apenas utilitarias (al6m de falsas) as denincias
de contrabando de castanha, que, "por coinci-
dencia", comecaram a surgir, terA todo direito
de rebatizar a castanha-do-Pard para castanha-
da-Amaz6nia, ou mesmo do Acre.


TALENT
Lendo o brilhante balanoe da quase 13 bilh6es de reais), N6brega, Bresser Pereira,
Companhia Brasileira de verifico que quase metade dos Jose Roberto Mendonga de
Distribuicio, a razao social integrantes do seu Conselho Barros, Roberto Teixeira da
do grupo PHo de A6car, o de AdministracAo passaram Costa, Fernao Bracher e
maior do comercio varejista pelo governor ou suas Maria Silvia Marques.
do pais (faturamento de extens6es: Mailson Ferreira da


0 MELHOR
Mudei minha opinioo depois
de passar em revista a obra de
Paulo Francis. Nao acho mais O
afeto que se encerra seu melhor
livro. Peguei novamente o
Trinta anos esta noite (titulo
copiado do estupendo film
hom6nimo de Louis Malle,
inspirado no romance Le Feu
Follet, de Raymond Radiguet) e
nao parei at6 concluir mais uma
vez a leitura. O melhor 6 esse.
Porque 6 jornalismo ensafstico
beirando a ficlao.
E ensaistico mas nao
metafisico: Paulo Francis
participou diretamente do
drama que levou a tragedia de
1Q de abril de 1964. Conversou
corn virias das personagens,
viu alguns dos acontecimentos
da trama e soube de fatos que
s6 costumam ser contados a
rep6rteres, em off. E esse o
barro especifico que di valor
ao jornalista no conjunto das
profiss6es humans e o
distingue de soci6logos,
politic6logos, economists e
assemelhados das ciencias
sociais e humans.
Com essa vasta materia prima,
Francis sentou diante da
maquina para escrever, no seu
estilo eliptico e mordaz, de uma
s6 vez, sem quebra de f6lego
para conferir as verdadeiras
hist6rias, ou as hist6rias
completes. Comete muitos erros
e a narrative nio segue nem
cronologia nem encadeamento
16gico. Mas seu relato e a
melhor cr6nica de 1964 que jA
li. Divertida em muitos
moments, precisa em outros,
provocative em todos.
Onde faltou a informacgo ou
nao houve outra testemunha,
Francis nao se deixou
intimidar: acrescentou uma
pitada de criagio. Mas essa
ficg~o 6 de melhor qualidade
do que seus romances. Sem
ela, como teriamos detalhes
picantes, intimistas ou
subjetivos sobre alguns dos
her6is e mitos da saga?
Quem ler com atencio o livro
ou incorporar a ele seu pr6prio
conhecimento vivencial, vai
chegar a uma moral concisa do
que aconteceu nos "idos de
marco": na hora certa os homes
eram errados. Mas nao s6 em
1964 houve essa dissonAncia: ela
6 uma caracteristica da reptblica
brasileira. Haja vista o que esta a
vista. Daquele que nao e o pior
cego, o que nao quer ver.
Devemos mais essa a Paulo
Francis.


Jornal Pessoal 2* QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 7












Delirios ferroviarios


Para concluir a Transnordestina, um
projeto que existe desde a metade do sd-
culo XIX, para ligar por trilho todos os
Estados do Nordeste, numa extensAo de
mais de cinco mil quil6metros, o governor
federal precisard investor mais de um bi-
lhAo de reais. Quase R$ 800 milh6es teri-
am que ser recursos orgamentarios ofici-
ais, a fundo perdido, para a construcAo dos
trechos ferrovidrios que ainda faltam. Ou-
tros R$ 320 milhoes seriam financiamen-
tos, em condig6es de prazo e jurors extre-
mamente vantajosas, atrav6s do BNDES e
da Sudene, para a concessionAria da ma-
lha Nordeste da Rede Ferroviiria Federal,
privatizada pela administraqAo Fernando
Henrique Cardoso, em 1997.
Esse seria o prego que a sociedade bra-
sileira pagaria para possibilitar via de es-
coamento, corn tarifas mais baratas, da
producAo do sertAo nordestino ao litoral,
e a ligacAo ferrovidria entire as capitals
para os passageiros. O problema 6 que
no meio da hist6ria esti a Companhia
Ferrovidria Nordestina, vencedora da lici-
tacgo que privatizou esse ramal da RFF. A
empresa 6 controlada pela Companhia Si-
derirgica Nacional, por sua vez nas maos
de Benjamin Steinbruch, como consequ-
encia do complicado descruzamento de
ac6es que se seguiu A privatizagAo da
Companhia Vale do Rio Doce (na qual ele
mandava sem ter ac6es para tanto)


A CFN nao cumpriu nenhuma das cliu-
sulas de investimento previstas no contrato
de arrendamento. Para ficar corn a parte nor-
destina da RFF investiu apenas R$ 4 milh6es
dos quase R$ 16 milh6es do lance vence-
dor que deu. Para se tornar lucrative, a
empresa precisa dos R$ 320 milh6es que
permitiriam operar em condig6es rentiveis
os 4,2 mil quil6ometros da linha atual. Qua-
se um quarto dela ficou intransitAvel por
causa das chuvas e enchentes de 2000. A
empresa sabia desse encargo quando arre-
matou a malha. Mesmo tendo atrAs de si a
poderosa CSN, que tem obtido apreciAveis
lucros em sua atividade sidertrgica, nao
quer colocar no fogo dinheiro vivo.
Defende-se a CFN dizendo que nao re-
ceberA doacgo do governor. Os recursos do
BNDES e da Sudene terAo que ser ressarci-
dos, ainda que em condigces muito melho-
res do que as de qualquer agent financei-
ro do mercado. Algu6m pagarA por essa
diferenpa. Ganha um titulo de empresArio
quem identificar o mecenas.
Se esse for o modelo da parceria pu-
blico-privado que o governor Lula quer
aprovar no Congresso, 6 possivel que a
melhoria do sistema de transport no Bra-
sil nao compense um dos seus principals
resultados: o aumento da concentracgo da
renda no pais, gragas A transferencia de
recursos p6blicos para cofres privados. E
precise ponderar melhor essa relagao, au-


mentando o beneficio e diminuindo o cus-
to, sem permitir que se volte a vexamino-
sa situacgo anterior, de abandon de um
meio de transport mais barato, como o
ferrovidrio, em favor de outro, muito mais
caro, o rodoviirio.
Para n6s, paraenses, hi ainda um gosto
amargo adicional: corn a pernada da Ferro-
via Norte-Sul de Acailhndia a Belem, pre-
vista apenas num mapa de fantasia, estaria-
mos integrados a Transnordestina pela Fer-
rovia de Carajas e ao sul do pais pela Nor-
te-Sul. Nosso mapa de transport mudaria.
Mas quem quer mudi-lo?


Conflito de Carajis


A Companhia Vale do Rio Doce de-
clara estar sendo vitima de uma chanta-
gem de indios do grupo GaviAo. Mesmo
jA sendo beneficiado por um program de
assistencia que a empresa conduz junto
corn a tutora dos indios, a Funai, um dos
caciques teria mandado duas cartas para
a Vale ameacando interromper a passa-
gem dos trens de mindrios de Carajas pela
reserve MAe Maria, em
Marabd, se nao receber
10 milh6es de reais.
Os Gavi6es foram os
primeiros indios brasilei-
ros a usufruir renda finan-
ceira gracas as indeniza-
G6es que receberam pela
passage por suas terras
da ferrovia de CarajAs e da
linha de energia da hidre-
16trica de Tucuruf. Esse di-
nheiro resultou em obras
positivas para a comuni-
dade e tamb6m em pro-
blemas. Em qualquer situ-
agAo, os Gavi6es aprende-
ram que existe renda fi-
nanceira, vinda nao do


trabalho na mata, mas do saque em banco
a partir de um dep6sito de terceiro feito
Sem seu favor. Entraram num estigio avan-
,gado da economic, que costuma resultar
em vida boa, mas tambem em dependen-
cia ruim. E a encarnacAo, para o bem e
para o mal, da figure do rentista, aquele
que vive da renda do seu dinheiro.
Desde entAo, alguns Gavi6es cometeram
erros. Nao permitiram, po-
r6m, que esses erros fossem
revelados (a sociedade tri-
bal ter pouco de democri-
tica nesse sentido). Corn
esse comportamento, blo-
quearam a corregAo desses
erros. Dai ter aparencia de
credibilidade a hist6ria que
a Vale conta. Mas se existe
/^ realmente essa tentative de
extorsAo e ura ameaga real
sobre a integridade da fer-
rovia, que 6 concessAo fe-
deral, a reagAo da Vale tern
que se restringir ao enqua-
dramento legal.
A empresa garante que
tem agido assim: ja comu-


nicou o fato (e sua gravidade) a todas as
instfncias de direito. Se nenhuma delas se
mexeu para cumprir seu dever, a Vale ter
todo direito de aciona-las por prevarica-
cgo ou seja 1d o que for. Nao pode ficar de
bragos cruzados a espera de que a ameaga
se concretize. Mas nao pode e nem deve
- atropelar o direito alheio para defender o
seu direito. Quando espiona a movimenta-
gto dos indios e coloca campana diante da
sede do Ministerio P6blico Federal, o ente
governmental procurado pelos Gavi6es, a
empresa ultrapassa os limits do seu direi-
to para ameagar e violar o direito alheio, a
comegar pelo ir e vir desimpedido de qual-
quer cidadAo. A Vale estA exorbitando.
Este fato deve ser noticiado e lamenta-
do, alem de criticado. A instincia suprimi-
da pelo excess da empresa, que 6 o go-
verno, deve reafirmar sua presenga objeti-
vamente e, se possivel, com alguma com-
petencia t6cnica, nao apenas segundo a
formalidade legal. Para que indios e em-
presa sejam compelidos a voltar ao imbito
dos seus direitos, que, quando conflituo-
sos, devem ser arbitrados pelo pr6prio go-
verno, como o 6rgao representative da so-
ciedade de todos.


8 FEVEREIRO DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal












Transporte just:




melhor para todos


O transport piblico em Bel6m e ruim,
em primeiro lugar, porque 6 dificil examind-
lo a s6rio e corajosamente. Os absurdos se
mant&m porque prevalece, acima de tudo, o
status quo, que pode ser traduzido popular-
mente pelo lema "deixar como estA para ver
como 6 que fica". A discussAo ajuda a ilumi-
nar o ambiente e tirar esqueletos do armArio.
O tema da gratuidade, por exemplo. Os
idosos e os deficientes devem continuar a
usufruir esse direito, mas sob certas condi-
6oes. Acho que toda pessoa cor mais de 65
anos devia andar de graga nos 6nibus. Os
que estao cor idade entire 60 e 65 anos de-
veriam ser recadastrados em suas pr6prias
casas, 6 bom ressaltar. Seriam confirmados
aqueles que recebem aposentadorias de va-
lor equivalent a menos de dois salaries
minimos. Os demais esperariam pela chega-
da dos 65 anos, quando o direito passaria a
ser universal e irrestrito.
Os deficientes fisicos tambem passariam
pelo mesmo cadastramento. Como iria as re-
sidencias dos beneficiaries, o cadastrador da
prefeitura teria condig6es de verificar as con-
dig6es de vida das pessoas e suas limitag6es
fisicas, enriquecendo as fichas quantitativas
para a definigao do direito.
Em qualquer situag5o, os recursos para fi-
nanciar a gratuidade teriam que sair dos co-
fres piblicos. Mas nao aleatoriamente. Lei de-
finiria as fontes de financiamento, que seri-
am contempladas anualmente no orgamento
municipal, de preferencia obtidas em ativida-
des vinculadas ao pr6prio service (uma por-
centagem das multas no trAnsito, por exem-
plo, ou do licenciamento de autom6veis).
Os estudantes da rede piblica de ensino
tamb6m teriam direito ao transport gratuito,
mas nao indiscriminadamente. Eles seriam ca-
dastrados e, em fungao da necessidade real,
receberiam uma quantidade mensal de vales


compativel com sua demand individual, sem
direito a suplementagio. Receberiam na pr6-
pria escola os vales, em envelope lacrado,
individualizado, a cada mes no curso do ano
letivo. O control teria que ser rigoroso e lim-
po. Nada de politicagem pelo meio. Alem do
6rgao expedidor, cada escola exerceria uma
fiscalizacgo especifica. Qualquer irregularida-
de por parte do estudante ou dos agents pui-
blicos seria severamente punida. O executi-
vo providenciaria o projeto e a Camara Mu-
nicipal aprovaria, na forma de lei, um regi-
mento para regular o service.
Os estudantes da rede privada de ensino
poderiam comprar passes cor desconto de
30%, desde que atendessem a determinadas
condiCges, fixadas num contrato de adesso.
A aquisigAo seria feita diretamente na admi-
nistragao municipal. A prefeitura compraria
os passes das empresas de 6nibus cor direi-
to a desconto proporcional ao montante da
compra. Com as planilhas de custo nas maos,
a prefeitura saberA muito bem quanto pagar
sem causar a ruina do empresario nem Ihe
proporcionar lucros excessivos.
Ao final de cada exercicio, al6m de reme-
ter prestag6es de contas para a Camara de
Vereadores, Tribunal de Contas dos Munici-
pios (se sobreviver) e Minist6rio Publico do
Estado, o 6rgao encarregado da gratuidade e
dos passes faria audiencias publicas, nas quais
apresentaria seu balango e discutiria a exe-
cugao do program no exercicio seguinte.
Alem de facilitar a vida de quem merece
ou necessita dessa ajuda, o poder p6blico
ativaria a economic da cidade, desde que
esse seu servigo fosse realizado com com-
petincia e decencia. Todos sairiam ganhan-
do, inclusive os que, por ganharem demais,
apostam na manutenSio das sombras e es-
quinas do neg6cio, esquecendo que ele 6
vital para o equilibrio social.


Armadilha pela frente


Obrigada a disputar a prefeitura de Belem
pela diregAo national do PT, que, em troca,
prometeu cobri-la de protegao, a senadora Ana
Julia Carepa jA sabe que sera muito perturbada
na campanha eleitoral por dois escorreg6es. O
primeiro, menor, foi no epis6dio da destinacgo
de dinheiro do Finam (Fundo de Investimentos
da Amaz6nia), que era administrado pela ex-
tinta Sudam, para a Ferrovia Norte-Sul, menina
dos olhos do senador amapense-maranhense
Jose Sarney. Ana Julia cortou a transfusao do
dinheiro, mas nao conseguiu conectd-lo as de-
bilitadas veias locais.


O outro escorregao, bem maior, foi na apro-
vagAo da emenda (originalmente de Sarney, mas
substituida por uma emenda do senador tuca-
no Artur Virgilio Neto, do Amazonas) da super-
zona franca da Amaz6nia Ocidental, que ex-
cluia o Pard dos seus beneficios. A desastrada
participacgo de Ana J6lia foi devidamente do-
cumentada para ser explorada tAo logo comece
a campanha eleitoral municipal.
Se nao quiser ser vitima do veneno, Ana
Julia tera que procurar novos antidotos. Os que
apresentou at6 agora nao surtiram efeito.


EXEMPLO

No dia 5 de dezembro do
ano passado, Claudia Cruz foi
a agencia central do Banco da
Amaz6nia, na avenida
President Vargas, retirar
dinheiro. Fez os
procedimentos devidos para o
saque em um dos caixas
eletr6nicos. A miquina
processou tudo corretamente,
mas o dinheiro nao saiu,
apesar do ruido normal da
contagem e expedigio.
Claudia tentou anular a
operagao, mas a tela
continuou aberta.
Informada de que a
miquina estava sem dinheiro,
Claudia tentou o caixa
seguinte. Enfrentando o
mesmo problema, foi para a
terceira maquina. Finalmente
conseguiu sacar 90 reais.
Dispensou a ajuda de duas
pessoas um idoso e um
jovem que se encontravam
no local, mas comunicou o
fato ao seguranga. Ao sair,
ainda p6de observer que o
jovem estava conseguindo tirar
dinheiro de uma das maquinas
aparentemente indisponivel
para saque.
Surpresa para Claudia ao
consultar seu extrato bancArio:
provavelmente essa pessoa
havia sacado 500 reais de sua
conta, aproveitando-se da
falha da maquina. P6de
comprovar a hip6tese quando,
ao voltar i agdncia, reviu a
cena atraves da fita gravada,
na presenga de testemunhas.
Mesmo cor essa
documentagAo do defeito do
caixa automAtico e do furto -
Claudia teve que recorrer ao
Banco Central para reaver seu
dinheiro. Nao desistiu a recusa
do Basa de atend&la
espontaneamente, acabando
por conseguir o
reconhecimento do seu direito
ao ressarcimento.
Transmito a hist6ria para
que ela sirva de exemplo.
Contra sua repeticgo, claro.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 9










0




























*





















Claudio Barradas
dirigia o Auto da
Compadecida,
de Ariano Suassuna,
do Teatro do Sesi
(Servigo Social da
Indtstria), no
audit6rio da SAI
(Sociedade Artistica
Independente. No
elenco estavam
Iracema e Leonor
Barros, Homerval
Teixeira e JoAo
Moreira. A responsivel
pelo teatro sesiano era
a professor Elza
Zahluth


Acontecimentos de 1962


0 ex-rei Leopoldo,
da Belgica,
acompanhado da princess Lili-
an, passou em marco pelo Para.
Do Pard foi a Santar6m, seguin-
do dai para Manaus e voltando
a Belem para pegar um aviAo
para Trinidad-Tobago. Como ci-
cerone, atuou o consul belga em
Bel6m, o advogado e professor
C6cil Meira.

A morena Sonia Ohana,
representando o Papao,
foi eleita, em SAo Paulo, "Rainha
do Futebol Brasileiro", desban-
cando "dezenas de belas candi-
datas". Na volta, foi homenage-
ada no Top-Set, a festa que Al-
berto Mota realizava, aos domin-
gos, na sede do Autom6vel Clu-
be, no ultimo andar do Edificio
Palacio do Radio. S6nia recebeu
presents que Ihe foram oferta-
dos pela Perfumaria Phebo, Li-
vraria Globo e Sapataria Batista
Campos, al6m da esposa do
"band-leader", Isaura Mota.

0 director dos SNAPP
(Enasa de hoje),
Fernando Guilhon (que, cinco
anos depois, viria a ser gover-
nador do Para, tentou sensibili-
zar a Alianga para o Progresso,
representada em Belem por
George Weiss, a ajuda-lo a mu-
dar o porto de Bel6m para Ico-
araci. Guilhon achava que, as-
sim, podia resolver "esse cala-
mitoso problema". Calamitoso
at6 nossos dias.

Investigadores da
Delegacia do Guama
fizeram uma blitz nesse bairro
atrds de mulheres da "vida fdcil"
que nao estivessem fichadas ou
cadastradas naquela "especializa-
da". Encontraram sete, das quais
duas menores (de 14 e 16 anos).
A mais velha tinha 21 anos.

Quem quisesse ir de
Belem a Buenos Aires
podia faze-lo num "jato puro",
o Caravelle da Cruzeiro do Sul
donaa da "mais extensa rede
area domdstica do mundo"), As
3a, 58, sabados e domingos, pela
traditionall rota do litoral".

Em abril entrou em vigor o
novo expediente bancario.
Para o ptiblico, os bancos abri-
riam de 8 as 12 horas. Interna-
mente, de 7 As 13 horas.


A Escola de Datilografia Santa
Rita formou sua
252 turma, colocando no mercado mais
65 h~beis datil6grafos e assim
"contribuindo com uma parcela
apreciAvel de profissionais para os
stores administrativos de empresas
particulares e piblicas do Estado". O rito
da colacAo incluiu missa solene na
Catedral, entrega de aneis e diplomas na sede da escola e
festa dangante no Circulo Militar. Os datil6grafos seriam, mal
comparando, os digitadores de hoje.

0 Curso Joao XXIII, dirigido por Jorge Morado
(tendo Manoel Leite como vice-diretor), preparava, "em
apenas 6 meses", candidates ao Artigo 99 (ex-91), escolas
preparat6rias da Aeronautica, especialistas da Aeronautica,
Marinha Mercante, concursos para bancos "e repartig6es em
geral". Manoel Leite dava aulas de matematica, Pedro Pinho
de portugues e Aldo Sousa de ciencias. Ficava na rua Dr.
Assis, ao lado da Catedral.

Ja o Curso Vestibular Isaac Newton era especialista
nas areas de agronomia, geologia, administraqAo e economic.
Os professors eram: de matematica, Jose Maria Lins; quimica,
Waterloo Lima; biologia, Augusto Serruya; fisica, Jarbas
Coimbra; geografia, Benedito Silva; e hist6ria, Wilson Moreira.
O curso ficava na Quintino, entire Nazar6 e Braz de Aguiar.

0 Curso de Vestibular Santa Rosa
(no pr6prio col6gio das freiras) preparava candidates ao
sempre concorrido vestibular da Faculdade de Medicina. As
aulas de quimica eram cor Cicero Silva, as de biologia com
Alberto Gondim Hermes e as de fisica com Geraldo Tuma
Haber.

A idea era de que os alunos chegassem para
as aulas na Faculdade de Direito portando o fumo na lapela
no dia 1 de abril. Assim protestariam contra o fechamento da
UAP (Uniao Academica Paraense), exatamente dois anos
antes, pelo regime military. Mas os "universitarios mais
mentalizados conseguiram demover a ideia dessa
manifestag o, considerando que movimentos dessa natureza
o atual moment nAo comporta".






e00000000000000000000000000000
/^^
^^<


0 poeta Joao de Jesus
Paes Loureiro lancou
seu livro "Cantigas de amor,
de amar e de paz" no salao da
boutique "Chez Alice", corn
grande sucesso

0 padre Carlos Coimbra
arrastou "toda Belem
colunivel", como hoje se
diria, para o langamento do
seu livro "Agonia das Horas",
no salao paroquial da igreja
da Trindade, onde atuava, ao


lado do padre Miguel InAcio.
0 livro era uma reformulago
do texto original que o padre
havia lido no sermAo das tres
horas da agonia, na semana
santa do ano anterior. O
registro do acontecimento
atesta a presenga, como
representante da 8a Regiao
Military, do coronel D6cio
Chamillot, que era o chefe
da 2a SegAo, o popular (ou
nAo) service secret do
Exercito.


10 FEVEREIRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal









fotografia

TEATRINHO DE

VANGUARD
Os cinquent6es (e outros "6es") devem fazer
um esforgo para ver se ndo aparecem nesta
foto. Ela mostra o "Teatrinho Martins Pena",
que existia na Escola de Teatro da Universi-
dade Federal do Pard, no tempo em que ela
funcionava na rua Quintino Bocaidva, en-
tre Nazard e Braz de Aguiar. Nesse dia de no-
vembro de 1966 o aconchegante teatrinho ser-
via de sedepara o II Festival de Filmes Experi-
mentais Norte-Americanos, organizado e dis-
tribuidopelo Usis, o servigo de intercdmbio dos
Estados Unidos (com talpresenga no Brasilque
provocou afrasefamosa: usis mas ndo abu-
sis), O publicopara esses events cabia numa
Kombi. Ou no "Martins Pena", palco de tan-
tasfaganbas culturais.


0 predio mandado
construir na rua JoAo
Alfredo pelo livreiro portugues
Tavares Cardoso, no inicio do
s6culo, 6e nico em Bel6m pelo
seu estilo manuelino. Apesar de
sua "originalidade e beleza no
trato do mdrmore da fachada,
no arranjo hist6rico dos elemen-
tos decorativos do arco central
e das ogivas laterais, bem como
das colunas interiores", perma-
necia sem ser tombado pelo De-


partamento do Patrim6nio Na-
cional (o atual Iphan), lamen-
tava CAM (iniciais de Carlos
Augusto de Mendonga) na Fo-
lha do Norte. Com o tombamen-
to, talvez os sucessores na pro-
priedade do im6vel poderiam
ser impedidos de "passar mao
de cal no mirmore da frontaria,
sacril6gio ji praticado certa vez,
e de serem alteradas as disposi-
G6es internal", ou, como entao
se via, armag6es de toldo de








JAAPEC C-C
C 4 ,


ActA .' -
j k:ht au. .-



- Ci*q 4 'u aJ-L<.
-*a^^ .


zp1a ra6s escritas para senpre...
A. a we a e m flra. ere .
Al Itwr*w quoto eu vrem V" ritr-W, ett' e' r">. =4., =i*,- *WON
wm.se com Parker Super QulnL Poenma, cwal, W*-.ft. ~ ~A -I%, I pil.
Ibu dncsntao. ae'MtAmm-taou arsiam-ao earm
Palwr Suptr Qunk. FProsge a canpta(qaqrC. c.
Pel|) por M w a urt que canIo SOLV\ qu e
limpa a a ,as que eon le. r
PARKERR

SAMrr r0A o TYmrDo,.. h .. .&*..as. o
It eFCOITA P* A P WA Irft*V A IM ae fM SIA.
lazdle em e mr -mmk *d,
n~r rrr ~~c lcu


ferro no frontao. Ledo engano.
Com o tempo, as agress6es de
tornaram muito maiores.

0 prefeito de Belem,
Stelio Maroja, decidiu
nem levar em consideragao a
indenizagAo que a Rede Ferro-
vidria Federal queria cobrar do
municipio pelo uso da faixa de
terra na Almirante Barroso
onde haviam sido assentados
os trilhos da Estrada de Ferro
de Braganga. A RFF queria re-
ceber 420 milh6es de cruzeiros
da 6poca. Depois do choice da
extincgo da ferrovia, determi-
nada pelo governor Castelo
Branco, era a queda.
* StWlio continuou as obras de
desobstrugao da antiga Tito
Franco, substituindo os trilhos
por concrete, que dobrariam a
largura da avenida, de quatro


para oito pistas (as quatro pri-
meiras foram concretadas no
inicio da d6cada de 50). Milha-
res de metros cibicos de pigar-
ra foram removidos e langados
nas "baixas" da 1 de Dezem-
bro e Lomas Valentinas. Para a
arborizagAo nas laterals das pis-
tas, foram plantados oitizeiros.

0 Laborat6rio Sao Lucas
produzia o Licor da
Amaz6nia, que curava maleita,
paludismo ou impaludismo.

A Racisa fazia a queima"
de 50 mil discos de seu
"novo e sensacional sortimen-
to". O LP custava a partir de dois
mil reais e o compact desde
R$ 500. Tudo das velhas bola-
chas pretas, os antediluvianos
(mas ainda insubstituiveis) dis-
cos de vinil.


propaganda

TINTA ETERNA
Manuel Bandeira emprestou seu terno "Irene no ceu", versos cor
"palavras escritas para sempre", como apelo de venda das tintas
Parker super Quink, as unicas que, por conterem solv-x (quid, di-
ria o poeta), limpam a media que escrevem. Poupando assim os
que a usam de uma tragedia comum: manchas na roupa causadas
pelas tintas das canetas.
As Quink vinham em oito cores: azul-preta, azul-lavdvel, azul-
permanente, verde, vermelba, violeta (lavdvel), turquesa e preta.
Para os quepreferissem a caneta-tinteiro, havia os cartuchos espe-
ciais. Mas o vidro de tintas tinha uma utilidade jamais prevista
pelosfabricantes: sua tampa virava um tremendo zagueiro no ce-
lotex, o entao popularfutebol de mesa (ou de botdo). Era zagueiro
para humilhar qualquerJunior Baiano da vida.
A tinta anunciadapelo grandepoetapernambucano (cor seus
moments de artist menor epessoa de acanhadasproporf6es) era
revendida no Pard por Costa, Portela Indtstria e ComBrcio, estabe-
lecido no 8- andar do namero 435 da avenida Presidente Vargas.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 11










JUSTICE
No auge de duas ondas de
repressAo do golpe military de
1964, a diregAo do ITA
(Instituto Tecnol6gico da
Aeronautica), curvando-se aos
Torquemadas de plantAo,
expulsou 21 de seus alunos,
vagamente acusados de
subversivos. Mas eles, como
indiscutivelmente viriam a
provar, eram mesmo pessoas
inteligentes. Afinal, haviam
conseguido passar por dura
selegAo e ingressar numa
instituigAo de excelincia que
ocupa, no ensino superior
brasileiro, lugar aproximado
ao do MIT (Massachussets
Institute of Technology) nos
Estados Unidos.
Daquele grupo sairam
coron6is-engenheiros da
Aeroniutica, um ministry do
Supremo Tribunal Federal,
um prefeito do pr6prio
municipio onde o ITA se
localiza, professors
universitarios (corn
destacadas p6s-graduag6es no
exterior), director em
minist6rio, consultores
tecnicos e atW um reitor da
instituigao. O inico que nao
conseguiu engatar numa
carreira bem-sucedida foi Jos6
Arantes de Almeida, que
optou pela luta armada e foi
morto pelo DOI-Codi sete
anos depois de ter sido
mandado embora do ITA.
Ha quatro decadas esses
cidadaos tentam conseguir a
reparagAo das injustigas que
sofreram. O que querem e
simples: receber os diplomas a
que teriam direito se nao
tivessem sido excluidos tao
violentamente do ITA. O ato
talvez saia neste ano. Mas os
ex-alunos ja conseguiram pelo
menos uma excelente materia
de seis pdginas na edigAo 278
da revista Carta Capital.
E ficil aderir a causa dos 21
injustigados porque ela e
indiscutivelmente nobre. Nao
s6 pelo ato espirio que
sofreram mas pela singeleza do
que reivindicam, de valor
simb6lico. Nao estAo querendo
indenizagAo pecuniaria. A
expulsao os afetou, a alguns
mais do que outros, mas nao
os impediu de tirar proveito
dos seus talents. Pela via
tortuosa, o arbitrio acabou
trazendo beneficios.
Para o jornalismo, por
exemplo. Mandado embora
quando ja estava concluindo
o curso, Raimundo Rodrigues
Pereira decidiu dar mais


Sil ncio incomodo


Uma personagem da explosive novela so-
bre o control da Receita Federal por uma qua-
drilha, que tambem pretendia assumir integral-
mente o porto de Manaus, para favorecer o
contrabando na Zona Franca (ver Jornal Pesso-
al 317 e 318), a inica realmente nova em enre-
dos semelhantes, ainda precisa se explicar pu-
blicamente: 6 o deputado federal Paulo Rocha.
Ele aparece em dois moments da trama arma-
da para substituir Jos6 Tostes Neto por Licio
Rosa de Souza, que estaria comprometido com
o esquema de sonegagdo fiscal.
Num primeiro moment fazendo turismo em
Manaus numa lancha de luxo que pertenceria
ao pr6prio Rosa. Num segundo moment, assi-
nando pedido de quatro
computadores e um apa-
relho de ar condicionado
em favor de uma coope-
rativa do garimpo de Ser-
ra Pelada. O pedido foi di-
rigido a Sergio Carlos Nas-
cimento de Andrade, pre-
so no dia 30 do ano pas-
sado em flagrante de ex-
torsao, armado pela poli-
cia num shopping da ca-
pital amazonense, a pedi-
do de Rosa. Ao depor, S-r-
gio disse que estava ape-
nas cobrando a parcela fi-
nal do pagamento a que
teria direito como lobista
de Rosa.
O Ministerio Piblico
Federal esta investigando
para saber se a relagdo en-
tre o lobista e os politicos
cor os quais ele entrou em contato pode ser
caracterizado como crime. Os tres politicos do
Amazonas apontados por Sergio ja se defende-
ram alegando que o atenderam como fazem corn
todas as pessoas que procuram seus gabinetes
no Congress. Nao tiraram nenhuma vantage
pessoal da relacgo, embora Sergio tenha decla-
rado A Policia Federal que o esquema em favor
da nomeacgo de Rosa previa o pagamento de
1,5 milhAo de reais para os politicos que iriam
subscrever uma mocAo de apoio ao auditor fis-
cal da Receita em Manaus, funcionalmente su-
bordinado a Tostes, que comanda a engrena-
gem fiscal do governor a partir da sede da Re-
ceita, em Bel6m.


ateng8o a sua veia jornalistica
do que a sua qualidade de
fisico. Cor isso, a imprensa
brasileira p6de tirar proveito
de seu rigor, do cuidado que
sempre dispensou a exatidAo,
ao cultivo dos fatos. Trouxe
com ele a contribuigio de
outros praticantes das
ciencias exatas ao
aperfeicoamento da profissAo
de jornalista, na 6poca ainda
se debatendo com certos
vicios da imprecisao.


A condigco de Paulo Rocha no imbroglio 6
especial. Ele 6 do PT, partido que estA no poder
mas proclama nao adotar metodos anti6ticos. Os
outros partidos envolvidos sao reconhecidamente
fisiol6gicos. Alem disso, Rocha 6 o Onico politi-
co de fora do Amazonas ao qual o lobby recor-
reu. Ele justifica essa circunstancia argumentan-
do que foi designado para coordenar as nomea-
goes da administragAo federal em toda Amaz6-
nia, nao apenas no Estado da sua base eleitoral.
Por isso foi procurado. Mas igualmente como os
demais politicos, recebeu o lobista, cor ele po-
sou para fotos e esteve ao lado dele fora de Bra-
silia pela circunstancia de que Sergio de Andra-
de 6 um lobista insinuante e insistente, aprovei-
tando-se indevidamente da
norma democritica dos
parlamentares de tender a
todos que os procuram.
A bacia das almas em
que se tornam os gabine-
tes do Congresso respon-
deria pelo acidente que le-
vou Paulo Rocha a assinar
um oficio enderegado a
S6rgio de Andrade pedin-
do-lhe para doar os com-
putadores e o aparelho de
ar condicionado a coope-
rativa de Serra Pelada. O
lobista e os garimpeiros se
encontraram no vai-e-vem
do gabinete, conversaram
e anteviram a possibilida-
de de tirarem proveito des-
se conhecimento (que
vantage o lobista tiraria
da doagao, ainda nao se
sabe).
Como 6 muita causalidade para tantos acon-
tecimentos, convinha ao deputado Paulo Ro-
cha explicar melhor sua atuagAo nesse affaire
e dizer por que nao agiu como o senador Je-
fferson Peres, do nao tAo imaculado PDT. Ao
ser contatado, Peres tratou logo de avisar o
chefao da Receita a colocar as barbas de molho
e nao deixar que politicos metessem as maos
no control da Receita Federal. Paulo Rocha,
ao contririo, enredou-se nas malhas da sedu-
gao, mal que parece estar grassando no assim
chamado PT federal (ou, numa linguagem mais
ideol6gica, o PT real).


Beneficiarios dessa
contribuicao, nem por isso
abrimos mao de engrossar o
coro dos que querem ver
Raimundo e os demais ex-
alunos receberem o canudo a
que fizeram jus. Talvez assim o
ITA possa retomar o caminho,
do qual foi desviado, de buscar
a excelencia do saber nao s6
pela qualidade do ensino que
ministry, mas pelo ambiente de
liberdade, estimulo e tolerancia
que criou. Sem o qual nao


viceja o produto mais nobre da
inteligencia humana: a
criatividade.
Que finalmente haja a festa
tantas vezes adiada em SAo
Jos6 dos Campos.

jorna P

Edtr .5 i Fliio Pinto
Foes (091 241 .7626