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ornal Pessoat ... < ,, '; A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO ^^!?&^^^^^^^S^SS;S^?^^\\\\~\\\\ FEVEREIRO DE 2004 2a QUINZENA No 318 ANO XVII R$ 3,00 CVRD X GOVERNOR Mais uma para o Maranhao? 0 governor do Estodo e 0 Liberal abertura da mina de bauxita de dizem que e blefe, mos a CVRD mandou desativar a Paragominas e comego a transferi-la para o Maranhao. Pode estar se repetindo a novel que levou a Alcoo para o Estado vizinho. Enquanto isso, os bicudos, cada vez mais trombudos, agem emocionalmente. Se nao conseguir assegurar o inicio da mineragio de bauxita em Para- gominas a tempo de concluir em 2006 a expansAo da Alunorte, que a ela esta vinculada, a Companhia Vale do Rio Doce vai congelar seu projeto no Pard e transferilo para o Maranhao. A empre- sa ji anunciou que comegou a trabalhar corn a hip6tese, mas nao foi levada a sdrio. Essa descrente avaliagAo mant6m-se mesmo depois de ter sido confirmada a desativagdo da fren- te de services que vinha implantando a mina da Milit6nia, cor a dispensa de pessoal e des- mobilizagAo dos equipamentos. O governor do Estado e o journal 0 Libe- ral, em posicgo antag6nica, estAo certos de que se trata de mero jogo de pressAo. Agin- do dessa maneira a Vale espera arrancar o licenciamento ambiental da mina de Para- gominas, que esta pendente de aprovagAo na Secretaria de Ciencia, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado desde junho do ano - passado (verJornal Pessoal 317). A empre- sa estaria agindo como se estivesse num jogo de p6quer: blefando. Mas tanto o governor quanto O Liberal, que estAo pagando para olhar as cartas, podem vir a ter a mesma surpresa de duas decadas atras, quando foi recebido corn o mesmo ceticismo o antincio da Alcoa, de que ia transferir para Sao Luis do Maranhio seu projeto de alumina e aluminio, inicial- mente previsto para a area metropolitan de Belem. A empresa se queixava de que sequer conseguia ser recebida pelas autori- dades locals. Seus emissarios eram cozinha- dos nas ante-salas dos gabinetes oficiais. O governor do Estado queria estabelecer con- dic6es para a implantagio da unidade in- dustrial da maior produtora mundial de alu- minio (que agora estA disposta a instalar uma plant de alumina em Juruti). Tanto a folha dos Maiorana quanto o Palacio dos Despachos da Augusto Monte- negro estio convencidos que o Maranhao nao tem bauxita em condi6es de assumir o lugar de Paragominas. Se 6 isso o que acham, podem estar se expondo a um erro de c6lculo. A Serra do Tira- cambu tern dep6sitos de bauxita equivalentes aos de Paragominas. Sao, na realidade, parties da mes- ma jazida, que se estende de um lado para outro da divisa entire os dois Estados. Paragominas foi escolhida por uma questio de logis CONTINUE NA AO 2i A PRAGA DOS CACIQUES NO PARA (PAG. 3) mammiiit~iiiS~ii^iiii^ CONTINUA;AO DA CAPA tica: esta mais pr6xima do porto de Vila do Conde, por onde sera exportada a alumina, produto no qual o minerio 6 transformado, atrav6s do process de refino (na etapa se- guinte, a da metalurgia, vira metal). O custo de implantaqio do mineroduto em Parago- minas 6 ainda mais reduzido porque acom- panharA outras linhas ja em operagAo para o transport de caulim. Sabendo dessas vantagens locacionais paraenses, o senador Jos6 Sarney vem ne- gociando um acordo entire a CVRD e o go- verno do Maranhao para compensar a em- presa, caso ela opte por se estabelecer no Tiracambu e nAo mais em Paragominas. Os entendimentos devem se intensificar porque a Vale havia estabelecido em 6 de fevereiro a data-limite de espera por uma definicio do governor paraense sobre o licenciamento ambiental. t provivel que ja tenha comega- do a tratar da alternative maranhense, que e mais cara, mais demorada e menos vantajo- sa economicamente, mas pode se tornar vi- avel, dependendo dos beneficios que o go- verno maranhense vier a conceder. Se os interlocutores paraenses acham que assim 6 melhor, que assumam sua decisAo. O terrivel sera perder por imprevidencia e desinformagao, como parece ser novamente o caso. Um component novo nessa queda de braco 6 o interesse da China Aluminium Company de se associar a Vale na expansAo da Alunorte, dividindo corn ela o investimen- to de 183 milh6es de d6lares para aduzir 1,8 milhAo de toneladas de alumina A capacida- de atual da indistria de Barcarena, que 6 de 2,4 milh6es de toneladas. A fibrica deverA estar em condig6es de produzir os 4,2 milhoes de toneladas de alu- mina a partir de 2006. Para isso, teri que con- tar com mais 4 milh6es de toneladas de bau- xita na retaguarda, que tanto pode ser arma- da em Paragominas quanto em Tiracambu (se o governor maranhense compensar as desvan- tagens logisticas do seu Estado). Em favor de Paragominas hi tambem o fator tempo: 6 15 que a abertura da mina esta mais adiantada. A opgio maranhense vai consumer mais tem- po. JA uma terceira alternative, a do Trombe- tas, o atual responsAvel pelo suprimento da Alunorte, que elevou sua capacidade de pro- dugio em 40%, dependeria da capacidade de a Mineragio Rio do Norte refazer a demand dos seus clients para ceder mais minerio para a indistria de Barcarena. De qualquer modo, uma decisao a esse respeito terd implicag6es sobre novas defi- nic6es locacionais no p6lo de alumina e aluminio do Para. Corn capacidade de pro- dugco de 4,2 milhoes de toneladas de alu- mina, a Alunorte passara a ter a estatura daquilo que os sacerdotes do mercado cha- mam de player. Ou seja: uma empresa lider no segment, cor algum poder de influen- ciar os pregos. Sua densidade deverd se refletir sobre o projeto da Albris de se tor- nar tambem uma das lideres mundiais do aluminio. Mas toda essa estrutura se baseia na maior disponibilidade de bauxita. Por enquanto, os efeitos desse p6lo sao quase todos para trAs. NAo sao esses elos anteriores da cadeia produtiva que desen- volvem uma regiAo. O modelo 6 tipicamente de enclave, colonialista. O papel do gover- no seria provocar efeitos para frente, na verticalizagAo da produgco. O Onico pass nesse sentido 6 a fibrica de perfilados de Barcarena, que usa uma pequena quanti- dade de aluminio liquid da Albras. Ao inv6s de uma agAo decidida do go- verno pela industrializaglo, o que vemos 6 essa dispute de bicudos (nem todos tuca- nos, por sinal). A Companhia Vale do Rio Doce, confiando em seu poderio econ6mi- co e politico (sobretudo nas relagoes pes- soais entire seu president, Roger Agnelli, e o president Luiz Inacio Lula da Silva), des- denhou o representante do governor na festa de inauguragAo de sua nova sede em Be- 16m. O secretArio de inddstria, comercio e mineragdo, Ramiro Bentes, foi ignorado por Agnelli na formag~o das autoridades na solenidade. Ja o governador SimAo Jatene mandou seu secretario representd-lo e foi dar brilho pessoal A festa de aniversario "priv&" de Romulo Maiorana Junior, que hojhe encar- na o principal adversario da CVRD. Tudo muito amadoristico, voluntarioso e fitil quando questoes tao serias estao em cau- sa. De said, sao mais de 250 milh6es de d6lares de investimento, que, se estao vin- culados a um esquema colonial, nao dei- xam de ser uma boa alavanca nas maos de quem sabe com o que esta lidando e o que fazer para transformar esse investimento em algo que deite suas raizes no Estado. Se estivesse preparado, o governor nao seria um espectador impotente diante de uma realidade danosa ao Para, que a cada ano mais e mais se vai cristalizando. Maior exportador de minerio de ferro do pais, por exemplo, o Pard esta se restringindo a essa condigAo primrria. O mAximo que conse- guiu dai para frente foi estacionar na pro- duqPo de gusa (e queimando florestas para transformA-las em carvdo para as guseiras). A escala seguinte, de places de ago, foi dividida entire o Maranhao, corn 3,5 milh6es de toneladas (investimento de US$ 1,5 bi- lhAo), e o Ceard, cor 1,2 milhAo de tonela- das (e investimento de US$ 750 milh6es). Se houver, a pr6xima expansAo, cor mais 3,5 milh6es de toneladas (caso a Vale con- siga penetrar no fechado mercado america- no, que s6 compra 3 milh6es dos 180 mi- lh6es de toneladas que produz), ficarA em Sao Luis mesmo, que ja abriga o centro de produgAo de pellets pelotass produzidas pela agregagio do minerio fino). A said agora seria dar um salto e entrar direto na produ- gao de bens como o ago inoxidavel, apro- veitando as jazidas de niquel de Carajis. Seremos capazes dessa faganha corn tao pouco profissionalismo? E dificil acreditar. Tudo que 6 s6lido tem se desmanchado no ar do Para. DE FORA Em julho o Maranhao e o Piaui darAo partida a um esforgo no valor de 720 milh6es de d6lares (mais de dois bilh6es de reais) para estender atd o seus territ6rios, por mais dois mil quil6metros, o Gasoduto da Unificaqgo. Esse gasoduto foi concebido, ao custo de 2,5 bilhoes de d6lares, para transportar e distribuir gas da Bolivia pelos Estados do Centro-Oeste, Nordeste e, por enquanto, Meio-Norte, numa extensao de pouco mais de cinco mil quil6metros. No final de 2006 a ultima perna chegara ao seu limited final, Sao Luis do Maranhio. Ai, seus principals clients serio a Alumar complexo industrial de alumina e aluminio), a Companhia Vale do Rio Doce (com seu terminal portuArio e p6lo siderirgico) e a Ambev (fabricante de cerveja). O Para continue, impAvido, fora desse circuit de gas natural, o energ6tico mais barato do mercado. CARTA O que tinha de ser dito sobre este escabroso projeto (?) do insinu- ante (na falta de terms mais ade- quados) Senador Jos6 Sarney, o seu texto (JP n" 316, materia de capa) ja completou corn absolu- ta precisAo. O que conta agora 6 a sociedade civil, atrav6s de seus legitimos representantes, cobrar do executive as providencias para tirar o Estado do Para dessa insensata subalternidade. Nao dai mais para esperar qualquer acao prospective das secretaries que tratam do planejamento estrate- gico. Caso contrario, vamos ficar sendo eternamente subtraidos pela argticia e malandragem do Jose Ribamar e de sua respective intelligentsia. Mudando de assunto, e aten- tando para a nota da tltima pi- gina do ja citado JP, quero acrescentar que o latim nao ser- ve apenas para "...dar a sua fala mais exatidAo, concisao e bele- za". Serve para muito mais. Ve- jamos o que disse o saudoso Prof. NapoleAo Mendes de Al- meida (autor, entire outros li- vros, da Gramitica Latina) so- bre o assunto: "Raciocinar 6, partindo de ideias conhecidas, diferentes, chegar a uma tercei- ra, desconhecida, e 6 o latim, quando estudado coin metodo, calma e pondera;Ao, o maior fa- tor para agucar o poder de ra- ciocinio do estudante, tornan- do-lhe mais claras e mais firmes as conclusies". Pois 6, a aprendizagem do latim no curso secundario cer- tamente mudaria a opiniao da coordenadora do vestibular da UFPA, naquilo concernente a fraquissima m6dia da discipline matemitica. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA Lingua declinativa que e, o latim, estudado com gosto e apli- cafdo, estimula o raciocinio 16- gico, dedutivo. E1 um exercicio mental que abreportas tantopara as matemdticas quantopara asfi- losofias. Portas avarandadas. Grandes criadores de aforismos e epigramas afiaram a lingua na pedra do latim. Bem que se po- dia restabelecer essa proveitosa gindstica numa missa especial. Fica o convite e a provocagdo. Do Cerveira e minha, finalmente unidos, gragas a ultima flor do Ldcio, inculta e bela. FEVEREIRO DE 2004 2 QUINZENA Journal Pessoal I CRIMINALIDADE 0 fazendeiro Aldimir Lima Nunes, mais conhecido como Branquinho, tinha um prontuirio da pesada. Contra ele pesavam dentncias de homicidio, trabalho escravo, aliciamento, ameagas a autoridades federais e grilagem de terras. Sua prisAo provis6ria foi requerida e rapidamente concedida pelo juiz de Palmas, no Tocantins, para onde o fazendeiro havia fugido. Cercado pela policia, ele acabou se entregando em Marabi. Mas em Marabi mesmo foi solto, por ordem de um juiz federal substitute. Mesmo entendendo que "as decis6es judiciais devem ser respeitadas e cumpridas", nao sendo, por6m, "imunes a critical social", a Associacgo dos Magistrados da Justiga do Trabalho da 82 RegiAo divulgou uma nota manifestando preocupacao cor a "liberagAo do referido cidadAo". Lembrando que os juizes federais do trabalho tem participado de uma grande ofensiva, junto cor outras instincias governamentais, para identificar e punir pessoas como o fazendeiro "Branquinho", a Associagao lamenta "que reconhecidos infratores da ordem legal possam ainda desfrutar da mesma liberdade dos cidadaos de bem, prosseguindo nas ameagas as autoridades comprometidas cor a erradicaAgo do trabalho escravo no Brasil". Metade das 4.970 vitimas libertadas no ano passado estavam no Pari, Estado lider dessa triste condicao humana. A Associacqo aproveita para reiterar a tese de que a justiga trabalhista, responsivel pela punifgo pecuniAria dos exploradores do trabalho, seja transferida tamb6m a competencia por seu processamento penal. Alega que o juiz do trabalho "6 mais sensivel a matdria, pois lida com a mesma diariamente". Assim, de uma s6 cajadada, a Associagao fez uma critical, um lamento e um pedido. Alguma coisa hi de conseguir, quando nada a considerag~o as suas palavras e alguma resposta dos destinatarios. Ou prevalecerd a regra do silencio convenient? 0 Para e sua doenGa: O U a das maiores pragas que tem asso- lado o Para republican e a dos caci- ques brancos. Embora esses morubi- xabas politicos freqtientemente usem a metdfora para afirmar sua lideranqa, o parale- lismo com os indios nao Ihes 6 favordvel, ao contrario do que pensam. O ultimo dos chefes de taba "civilizada", o ex-governador Almir Gabriel, foi tao infeliz na inspiracao quanto seus antecessores no trono do poder paraense. O pronunciamento do lider tucano foi na semana passada, durante o II F6rum Paraense de Desenvolvimento, promovido pela Associa- qao Comercial do Para. Reagindo ao que consi- derou como uma ofensa do palestrante anterior, Jose Mendo Mizael de Souza, president do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineraqgo), Almir falou grosso no revide ao recado do intruso: "Algu- mas pessoas, l1 fora, podem pensar que aqui s6 existem indios. i verdade que aqui temos os nossos indios, mas essas pessoas devem saber que n6s nao temos o nariz atravessado". Outro tuxaua branco, o tamb6m ex-gover- nador Helio Gueiros, assinaria com embeveci- mento a frase (antropologicamente desastrosa). Ela era uma das favorites no seu repert6rio de preconceitos. A outra o fazia remeter os inde- sejdveis para uma cubata africana, como se o nosso pais servisse de contrast a sujeira, a in- civilidade e a pobreza, que seriam a marca do continent negro, do outro lado do AtlAntico (preconceito tamb6m partilhado pelo muy com- panheiro Luiz Inicio Lula da Silva). No moment em que o politico Almir dis- cursava, a Companhia Vale do Rio Doce, desti- nataria de sua mensagem irada, da mais aten- qao aos indios do que ao ex-governador e ao seu successor. A acreditar-se em O Liberal (se no retorico tal temeridade 6 recomendAvel), a poderosa em- presa anda espionando um dos grupos Gavi6es e seus aliados, voluntarios ou nao. O doutor Almir, cor ou sem nariz atravessado, nao pa- rece estar sendo espionado, exceto, talvez, por outros tucanos ansiosos. Um dos caciques (de verdade) teria ameacado bloquear a ferrovia de Carajis, a segunda mais important via de es- coamento de riquezas do sertAo para o litoral brasileiro, caso nao Ihe seja pago um "por fora" de 10 milhoes de reais, obrigando a empresa a monitorar seus passes para nao ser novamente apanhada de cala curta (ou saia just, para ser fiel ao patois da moda). Nao se trata de extorsAo nem de donativo clandestine para fundo de campanha, tao ao gosto dos sobas politicos, de diferentes mati- zes (do azul ao vermelho) e variada narina, mas de compensacAo pelos importtnios que a pas- sagem do trem de minerio estaria a causar a aldeia. t o que dizem os indios. Como sua ex- tensao urbana, eles tamb6m nao possuem "o nariz atravessado". Querem muito mais do que o apito dispensado pelo doutor Almir. Se dependesse do ex-governador, um de- senvolvimentista tout-court, os indios ja nem deveriam existir como tal, a nao ser para servi- rem de parametro abstrato para a ret6rica do Pard dos sonhos do doutor Almir, sem florestas a atrapalhar o avanco da civilizagAo, cor suas estradas, hidrel6tricas, fAbricas, plantios comer- ciais et caterva. Durante seus oito anos de con- sulado almirista, o desmatamento se expandiu a larga, os conflitos rurais se agravaram, as con- dig6es de vida se deterioraram, mas a pluma- gem da elite foi tratada a dedo. Ningu6m per- deu a pose por causa desses "detalhes". CONTINUE NA PAG 4 Jornal Pessoal 2* QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 3 CONTINUAAO DA PAG 3 O discurso anticolonialista do doutor Almir Gabriel no audit6rio dos comerciantes esta car- regado de razao. I pena que o governador Al- mir Gabriel nao tenha levado a serio o pensa- mento do seu outro tardio, bipartido que ficou como, de resto, a social-democracia da qual seu partido se declara porta-voz entire o pen- samento e a ag o. Reconheca-se que essa dis- sociacao nao 6 monop6lio dele ou do PSDB. Ningu6m poderia imaginar que a esquizofrenia se tornasse tao aguda como esta ficando no rei- nado do president Lula (que certamente logo providenciarA o seu livro de frases de improvi- so, made by Duda; o titulo, corn a originalidade pr6pria da categoria, sera O livro depensamen- tos do president Lula). Durante os oito anos do doutor Almir foram crescentes os lucros da CVRD, a timoneira do colonialism que aflige o Para e revolta o no- bre politico. Quase no encerramento do primei- ro dos dois mandates do doutor Almir, a CVRD foi privatizada, mas o entAo governador nao disse um ai a respeito (como nao pia quando os rep6rteres Ihe perguntam sobre sua possivel candidatura, reagindo irritado por ver os pro- fissionais da imprensa tentando cumprir o que 6 sua obrigagao). Nem mesmo se revoltou quando, um mns antes da privatizagao, ter sido levado a MarabA pela empresa para langar a pedra fundamental da metal6rgica de cobre da Salobo Metais, que continue a ser um retrato na parede do sertao (e como d6i). A exploraqao do cobre que vai comegar naio e no Salobo, mas no Sossego, e visa apenas a concentracao do metal, nao sua transformagao em metal. Durante seus oito anos de imperio no Pari, alias, o doutor Almir nao deixou passar um mes sem falar na agregagao de valor a atividade pro- dutiva, atrav6s de investimentos na transforma- gao da materia prima. De tanta fala o que resul- tou 6 quase nada, ou menos do que nada, se formos analisar os resultados da producao de gusa a base de carvao vegetal por uma refinada conta de custo/beneficio. Em matdria de reacao ao colonialismo que sangra o Para, de forma ainda mais selvagem do que sangrou o Amapa, o que significaram os oito anos do cacique de nariz nao atraves- sado Almir Gabriel? Zero vezes zero. Dirao seus correligionArios que isso se deve ao mo- nop6lio efetivo de poder exercido pelo gover- no federal, que p6e e dispoe na nossa satrapia verde. Em principio, 6 verdade. Mas o presi- dente da repiblica era um correligionario de partido do governador (situagao que jA nao serve de justificativa para a inacao do seu successor . Senador-constituinte de destacada atuagao no Congress Nacional, o doutor Almir devia ter conseguido impor ao soci6logo Fernando Hen- rique Cardoso uma mat&- ria que tern tido impor- tAncia apenas decorative ou formal entire n6s (ou Centre n6s e eles): respei- to. Tanto quanto o Pari, entretanto, o governador nao foi ouvido nem chei- rado, para usar outra p6- rola da fraseologia dos nossos caciques. Mas tambem nao mugiu nem tugiu (apudHdlio Guei- ros). Quando tem que confrontar poderosos, o doutor Almir costuma perder a pose que imp6e a subordinados e Aulicos. O grito fica preso na garganta, como na cangio de Caetano Veloso. O brado de protest saia de vez em quan- do, mas a pr6pria Vale ja sabia que, como de regra no trato cor os caciques antecessores, nada que um punhado de migangas e balan- gandas nao pudesse resolver (os verdadeiros indios, como ji se sabe, passaram da fase dos espelhinhos). Uma sismografia da relagio go- verno-CVRD 6 delimitada pelo toma-l--dc-ca que faz os moments de pique serem sucedi- dos pela linha quase reta do entendimento de bastidores. Dai a descontinuidade do discurso critic. Por isso a ausencia de resultados con- cretos desse contencioso entire caciques (tan- tos) e indios (tao poucos). O governador-im- perador p6e e a burocracia p6blica nao disp6e. Morre muda videe Idesp). Exemplo categ6rico nesse sentido 6 a atitu- de do atual governor, a espera das 30 mil casas que a Vale diz-que-vai-fazer-mas-nio-faz, por nio ser de sua competencia, e a administragao estadual, de sua parte, finge-que-nao-sabe que esti pedindo o indevido. A Vale pode ficar acu- ada por esses movimentos reativos, mas para sair do corner do ringue ela nio precisa mu- dar. Basta agradar os contendores. Por isso o Pari esti sempre atris da empresa, em seu ras- tro, manipulado por ela, fazendo seu jogo mes- mo quando arrota forga e independencia. O Pard nio sabe a agenda da sua hist6ria. Logo, nbo pode fazer a hist6ria. A falta de massa critical governmental (e da sociedade como um todo) se exemplificou naquela vexat6ria proposigao do governor an- terior, de tentar deslocar a empresa explorado- ra do setor de caulim trazendo um competitor do leste europeu para vir fabricar aqui louga fina, certamente a partir de tecnologia suficien- temente inovadora para usar argila que nao 6 cerAmica, como a que alimenta os p6los indus- triais de Barcarena e do Jari. Ao fulminar o Idesp corn os raios de sua intolerincia, o doutor Almir feriu gravemente a inteligencia do serving piblico. Nio apenas de forma real, mas tamb6m atrav6s do simbolis- mo. Sem critical e controversial o saber nao avan- ca. Mas para os espiritos autoritarios o que im- porta 6 nao serem incomodados pelos critics. Eles querem com a mansidAo do pensamento inico, do genio auto-proclamado. E condigbo do caciquismo que esses personagens cri-cri nao existam. Ainda que os que restam fiquem a sol- do. E haja materia paga. E por isso mesmo que o Pari, dependendo dessas figures sebastianistas (como os Bara- tas, Barbalhos ou Gueiros), esta parade e, con- forme disse Aristides Lobo do povo atropelado pela re- p.blica madrugadora, besti- ficado diante dessa hist6ria viva e deslumbrante que, de- vendo redimi-lo, cada vez mais o escraviza, sem que para isso influa um milime- tro sequer, em sentido con- trArio, a ret6rica revoltada dos seus caciques, na ativa ou aposentados. Cor ou sem nariz atravessado. HAMLET TUCANO O PSDB ter, atualmente, o pr6-candidato mais forte para disputar a prefeitura de Beldm. Mas se o ex-governador Almir Gabriel desistir da dispute, os tucanos passario a ter o ni- mero quatro das pr6vias at6 agora realizadas informalmen- te: o ex-prefeito de Ananin- deua, Manoel Pioneiro. Se qui- serem ter um candidate mais forte, terio que recorrer a um candidate de fora do partido: o senador Duciomar Costa, ainda assim o segundo colo- cado nas pesquisas. Por essa 6tica entende-se a pressio cada vez maior sobre Almir Gabriel. O ex-governador ainda se recusa a assumir um compromisso formal com a candidatura, mas sao crescen- tes os seus contatos politicos. A um grupo do sul do Pari pro- meteu que subird nos palan- ques de todos os candidates tu- canos is prefeituras do interi- or. O candidate a uma outra prefeitura, mesmo que seja a da capital, nao precisaria se sub- meter a essa desgastante ginka- na eleitoral. Mas o doutor Al- mir ainda ter nos seus pianos voltar ao governor do Estado. Precisa restabelecer os elos cor o interior. Esse piano s6 tem viabili- dade se ele for candidate i sucessao de Simao Jatene, jai que esperar por 2006 ficard muito distant para o doutor Almir. O problema 6 que Ja- tene ji tem um candidate para sucedI-lo: 6 Simao Jatene. Um enredo ao seu gosto teria o ex-governador como candida- to a prefeitura. Se Almir ga- nhar, sua vit6ria reforgari o cacife de Jatene. Mas se Al- mir perder, o atual governa- dor nao terA prejuizo. Afinal, estara afastado o Onico adver- sario que poderia constrange- lo ou mesmo impedi-lo de tentar conquistar um novo mandate. Assim se explica toda a cau- tela de Almir Gabriel antes de definir de vez o que mais quer fazer no moment: conquistar a prefeitura de Bel6m para sair do sereno e voltar ao centro do palco politico. Onde, sob a luz da imprensa e o foco da opi- nito piblica, poderi retomar a caminhada de volta ao nDcleo do poder; que esta bem long do seu orquidirio. 4 FEVEREIRO DE 2004 2" QUINZENA Journal Pessoal iA GAN 3 I i Hilda Hilst, que morreu no inicio do mes, aos 73 anos, em Sao Paulo, foi uma re- voltada via a da prpria beleza. Era uma poeta para gostos apura- dos, sutil, delicada e profunda, sem qualquer tipo de preconceito temi- tico (nem vivencial). Foi uma das melhores poetas brasileiras de to- dos os tempos. Ainda teve talent para aplicar sua inspiraco (e mui- ta transpiracao) em romances e peas de teatro. Mas em nenhum moment esse seu talent especial, 6nico quando se consider apenas o lado er6tico da sua literature, foi reconhecido integralmente. Mesmo os que a elo- giavam pareciam considerar o elo- gio A poeta mera conseqiincia da admiragio por sua beleza. Sendo tio bela, nem precisava ser tao inteli- gente era o que todos pareciam dizer. Os homes dio a essas pala- vras o sentido de um elogio. As mu- Iheres inteligentes, nem tanto. Hilda devia ter sido uma atriz - tanto podia ser de cinema quanto de televisao ou teatro. Tinha pre- senga forte e glamour. Mas era, de fato, uma grande poeta. Sabia dis- so e dava valor a essa condig~o. Mas o public, dominado pelo con- vencionalismo (machista ou como- dista, nao importa), s6 chegava aos seus versos depois de passar por sua fina estampa. Ou ficar nela. Acho que seu isolamento resul- tou da constatacio de que jamais conseguiria inverter a ordem: seus dons naturais prevaleceriam sem- pre sobre o que aprendeu e cons- truiu cor leitura, observagio e exercicio de escrita. Amargurada na solidao, envelheceu mais rapida- mente. A ultima imagem dela guar- dava da flor da sua beleza, inaba- lIvel at6 os 50, apenas o traco do seu olhar inteligente e inquiridor. Desafiador tambem. Os necrol6gios finalmente Ihe fizeram justiga. Mesmo os mais pe- netrantes, por6m, passaram ao lar- go de certos moments da biogra- fia, que em Hilda pesaram tanto quanto sua obra. Dos textos que sairam na imprensa brasileira, o mais pr6ximo da iddia que me fi- cou da personagem foi o que Cris- tiane Costa e Cecilia Gianetti escre- veram para o cademo "Iddias & Li- vros", do Jornal do Brasil. 0 titulo sagaz, por6m, prometeu mais do que ofereceu a mat6ria: "O legado maldito da obscena Sra. H". Como sempre, o leitor desaten- to deve ter ido A reportagem atris de hist6rias de devassidio ou coisa parecida. Mas a obscenidade de Hil- da, A parte expressar seu compro- MRN: as dores do crescimento Considerada a empresa brasileira de melhor desempenho no setor de mineragao (al6m de ser a mais admirada) e a melhor inddstria do Norte-Nordeste do pais, entire outros titulos que recebeu da imprensa national no ano passado, a Mineracgo Rio do Norte tinha tudo para con- siderar hist6rico o exercicio de 2003. Para um faturamento de 827 milhOes de re- ais cor a venda de pouco mais de 14 milhoes de toneladas de bauxita, a empresa conseguiu um lucro liquid notivel, de R$ 325 milhoes. Ou seja: de cada 10 reais que recebeu, a MRN colocou 4 reais no bolso. Poucas empresas desse porte devem ter apresentado desempenho se- melhante no pais no ano passado, tao desfavo- ravel a quem produz. Mas esses nimeros, apresentados no balan- go divulgado pela Rio do Norte no dia 10, po- dem ser menos consistentes do que parecem. Em primeiro lugar, a mineradora nio provisio- nou os 316 milh6es de reais que precisou de- positar em juizo, em maio de 2003, para poder continuar questionando autuagio que sofreu da Receita Federal (atualizado em 31 de dezem- bro, o valor ja passou de R$ 350 milh6es) e nao perder o refinanciamento de sua divida corn o governor federal pelo program Refis, cujo sal- do, no final do ano, era de R$ 43 milhoes. Esse dep6sito praticamente engole todo o lucro liquid da MRN. A empresa justifica que nao contabilizou em seu balango esse passive contingent porque seus advogados Ihe garan- tem que ela teri exito na agio. O conflito tern origem na decisAo que a mineradora tomou, em 1999, de reduzir seu capital social em 20% (ver, a prop6sito, Jornal Pessoal 301 e 315). No ano seguinte a Receita a autuou e multou, alegando que a empresa havia incorrido na obrigagio de ter que pagar os impostos de que fora isentada quando decidiu investor numa area incentiva- da, a Amaz6nia. A Rio do Norte sustenta, "suportada pela opiniAo de seus advogados", que respeitou as regras legais ao reduzir o capital. Por isso, "de- cidiu nao constituir provisAo relative a esta ques- tio por considerar boas as chances de exito". Se sua previsao se confirmar, o dep6sito judici- al se consolidard como realizivel a long pra- z6. Se a Receita Federal vencer a demand, os R$ 350 milh6es serAo transferidos para o tesou- ro national como cr6dito tributario e o vitorio- so exercicio de 2003 poderi voltar a registrar misso de vida, esti muito mais para a imoralidade corn a qual Serguei Eisenstein deu titulo ao seu livro de mem6rias do que para potins de roda esperta. Da mesma maneira como o cineasta desafiou o centra- lismo tiranizo do czar Josef Stalin, corn sua individualidade, transmiti- da para seus filmes (e que sobrevi- prejuizo, ha tempos expurgado dos resultados da empresa. Dos R$ 316 milh6es que depositou em jui- zo, a MRN tomou emprestados R$ 250 milh6es, um autentico "papagaio", empinado no merca- do financeiro graqas ao Bradesco ao Itai. Esses financiamentos, concedidos em dezembro, fo- ram exigidos imediatamente, no mes seguinte (devendo, por isso, repercutir no balango de 2004, que seri onerado caso as previsbes oti- mistas da MRN se frustrem). Mas nao 6 esse o ~nico problema da Rio do Norte. A empresa investiu o equivalent a 221,5 milh6es de d6lares, nos tltimos tres anos, para elevar sua capacidade de produglo para 16,3 milhoes de toneladas anuais de bauxita, o limi- te mAximo de expansAo que suas condiq6es operacionais Ihe permitem. Entrou com 55% de recursos pr6prios e 45% de financiamentos. Mais de R$ 400 milh6es de cr6dito de curto prazo vencerAo neste ano, pesando sobre o desen- caixe da mineradora. O problema 6 que o pre- Co da bauxita caiu no mercado international. Foi por isso que a geracAo liquid de divi- sas em 2003 (US$ 82,5 milh6es) foi bem menor do que em 2002 (US$ 109,4 milhoes) e o au- mento no volume fisico de vendas (42%) supe- rior ao incremento do faturamento (39%). Se o preqo do min6rio se estabilizar por baixo ou seguir uma tendencia de queda, a MRN estarA em dificuldades. Se perder em riltima instAncia a demand judicial, a encrenca ficard de tama- nho ainda maior. Em sua mensagem, por6m, a diretoria ma- nifesta conviccio de que "as operagoes comer- ciais que se realizario no pr6ximo exercicio serAo suficientes para tender os compromis- sos de curto prazo". Al6m disso, cre que a ge- rac o de caixa da sociedade permite i Admi- nistraiAo a renovagio dos empr6stimos de cur- to prazo ou a troca para linhas de cr6dito de long prazo". Ainda assim, a mensagem nao deixa divida de que serao muito fortes as does do cresci- mento. Ao passar de 11 milh6es para 16,3 mi- lhoes de toneladas (que serao plenamente al- cangadas em 2004), a MRN, controlada pela Companhia Vale do Rio Doce, em associagio corn outras seis empresas (cinco delas multina- cionais poderosas), sobe para o topo das mi- neradoras de bauxita no mundo. Vai ser cobra- da por esse titulo. veram mesmo quando foi obrigado a distanciar Iva de Hamlet e moldi- lo pelo realismo socialista, Hilda co- locou em cheque a engrenagem mental do nosso latinismo com sua arte desaforada. E seu jeito aristo- crAtico de se lixar para o mundo. Para quem quiser tirar a prova dos nove, sem roteiro de excursao turistica literaria, tio em voga no moment, recomendam-se os 11 ti- tulos de Hilda Hilst que a Editora Globo jA publicou. Para chegar as obras completes estao faltando ape- nas mais 30 livros. Deve dar tempo suficiente para descobri-la como ela realmente foi e nao apenas como parecia que era. Journal Pessoal 2" QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 5 Segundo c Duas d6cadas atris, alguns t6cnicos do gover- no do Pard se opuseram a que a Alcoa implantasse em Barcarena uma fibrica de alumina e aluminio. Argumentavam que o projeto que nao seria pro- veitoso para o Estado. Suas alegaqOes, por6m, pa- reciam vAlidas para serem aplicadas apenas a mul- tinacional americana, nao a Albris, o empreendi- mento nipo-brasileiro cuja implantalao simultinea a Companhia Vale do Rio Doce comandava. A Al- coa nao interessava porque era um tipico projeto de enclave, que renderia mais ao comprador dos seus produtos, la fora, do que a regiAo na qual ela se instalaria. Al6m disso, significava uma ameaga ao equilibrio ecol6gico do estuario do rio Pard por causa da poluicAo do ar pela fabrica de aluminio e do solo e da Agua pela industria de alumina. Mutatis mutandis, as restric6es se aplicavam como luva, em tese, ao complex AlbrAs-Alunor- te. Mas nao chegou a haver uma proveitosa dis- cussAo a respeito porque o veto A Alcoa nao foi explicit, nem assumido. Simplesmente os exe- cutivos da empresa mofaram a espera de uma audiencia corn as autoridades estaduais. Um dia se aborreceram de esperar e nao voltaram mais. Montaram mesmo seu p6lo, o segundo maior do pais, em SAo Luis. De certa forma, essa hist6ria mal explicada esta se repetindo no caso de Para- gominas. Os t6cnicos do governor dizem que a nao aprovacao do EIA-Rima da CVRD nao 6 ne- nhuma retaliagAo. A demora se deve a preocupa- gAo de nao repetir, ali, os erros cometidos na ex- tragao da bauxita do Trombetas. O maior deles foi a destruicAo de 20% do lago Batata pela depo- sigAo do rejeito da lavagem do min6rio. Se 6 assim, a Sectam devia convocar uma nova audiencia p6blica ou um semindrio t6cnico corn os ipitulo interessados na questAo antes de submeter o licen- ciamento ambiental ao Coema, esquecendo a cir- cunstAncia de que o pr6prio Conselho Estadual do Meio Ambiente ja deveria servir de f6rum para essa abordagem (ou seu carter 6 meramente decorati- vo?). Os terriveis e primarios erros da Mineracao Rio do Norte ja foram corrigidos e corrigidos no pr6prio local, ao menos parcialmente. Algumas das soluc6es ainda aguardam a consolidacao. Outras foram inovadoras, como a adaptagAo do m6todo de replantio das areas mineradas, inspirado na ex- periencia corn a recomposi4go de areas de onde o potAssio foi extraido, nos Estados Unidos, se me lembro bem. Ja ha parametros para submeter o projeto Paragominas a um enquadramento ambi- ental rigoroso. Basta aplicar-lhe as normas e o co- nhecimento existentes. E tamb6m dando oportuni- dade para a CVRD reenquadrar seu EIA-Rima aos padres exigentes do governor do Pard. Mas os burocratas paraenses nao estao sendo convincentes. Ou por nao saberem exatamente do que estao tratando ou por nao poderem expor claramente o que pensam ou quais sAo as ordens a cumprir. Cor isso, induzem a interpretaPAo de que nao 6 por inconsistencia de dados ou incon- clusao que o licenciamento ambiental de Parago- minas ainda nao saiu, mas porque pesa sobre ele um veto politico, exercido atrav6s de embargo de gaveta. Quando fica mal iluminado, o cenArio se torna um ambiente propicio aos gatos pardos, tomados assim como bichanos pretos. E a com- posi6oes que, a distincia da opiniAo pDblica, per- dem sua caracteristica mais positive: a transpa- rencia. Sem a qual nao 6 possivel aquela condi- cAo mais almejada pela coletividade: o control social dos atos do governor. DESINFORMA(AO Ao long de quatro dias, O Liberal dedicou tres manchetes de primeira pagina a espionage da Companhia Vale do Rio Doce sobre indios Gavilo e a sede do Minist6rio Piblico em MarabA. A questao que essa coberta suscita 6: se nao houvesse a litigAncia commercial e judicial entire a empresa da familiar Maiorana e a CVRD, o assunto teria tal destaque? A mAquina registradora esta falando muito mais alto do que os crit6rios editorials. JA no Didrio do Pard nao sai mais nada que possa vir a ser considerado desfavorAvel a mineradora, inclusive o superdimensionado epis6dio de espionage. Tudo porque a Vale esta descarregando toda a sua publicidade na folha dos Barbalho. A opiniao piblica que vA catar informag6es em outra freguesia. LICAO Uma das cabegas mais brilhantes de sua geracao, Luiz Esmanhoto 6 um dos dois tnicos ex-alunos do ITA que nunca se formou. Isso diz mais sobre o valor da escola formal do que muita pedagogia de aluguel. -Wanda, I'eus Benedicto Wilfredo Montei- ro era, ao vivo, a expressao fiel daquela image que me marcou desde que a vi pela primeira vez, 40 anos atras, quando meu pai me apresentou a ele. EstAvamos no Palicio Azul, a sede atual da prefeitura e do museu de Bel6m, mas naquele ja remote 1965 um abrigo para diversos 6rgAos p~u- blicos, do legislative ao judicid- rio, nao apenas o executive. S6 um ano depois eu me tornaria jornalista. Mas ja aprendera a admirar aquela expressao de dig- nidade corn a qual Ben6 apare- ceu na foto que documentava sua prisao. Estava algemado, vestindo roupa emprestada, des- calo, barbudo. Mas seu olhar altivo diminuia o military que o conduzia preso. O vencedor mandava, mas nao na dignidade do vencido. Ao vencedor, Ben6 mandava as batatas. O home baixinho, de pale- t6 branco, que cumprimentava afetuosamente o an6nimo filho de Elias Pinto, mantinha aquele olhar de deus asteca (ou maia). Os cabelos negros, a pele cor de cobre, os tracos firmes, uma es- timulante risada de camarada- gem e um olhar perscrutador transformavam logo o belzebu dos militares numa personagem simpatica. Benedicto estava vol- tando a vida depois de passar pelo purgat6rio de uma ditadu- ra ainda envergonhada, nao ple- namente assumida, no dizer de Gaspari. Pularia essa fogueira. Reencontrei Bend, na sema- na passada, diante de uma fo- gueira nada menor. Envelhecido pela doenga e abatido pela dor, ainda assim ele se mantinha com a mesma expresso de solidez na primeira bancada da igreja de Santo Ant6nio de Lisboa, coman- dando a familiar e recebendo os parents e amigos que foram confortd-lo pela morte da espo- sa. Pela primeira vez desde que o conheci, Ben6 estava sem a sua Wanda. Percebia-se logo a au- sencia, mas nao porque Wanda fizesse questao de ser notada. Muito pelo contrArio. Ela prefe- ria estar sempre a sombra, mas atenta para a menor necessida- de da sua presenca. Secundava o companheiro para que ele pudesse desem- penhar sem perturbacAo sua fungao de home p6blico e chefe do cli. A qualquer ame- aga que pressentia sobre os seus, por6m, Wanda se apre- sentava como uma aguia, guar- diA de todos, inclusive do ma- rido. Desfeita a emergencia, ela voltava, zelosa, aos seus afa- zeres na gerencia da retaguar- da, na sustentagco dos que de- viam aparecer no palco da vida. Wanda se agigantava nos moments de dificuldades, mas foi tamb6m uma festeira sem igual. No inicio dos anos 70 co- memoramos inimeras vezes o primeiro e grande livro de Ben6, Verde Vago Mundo, principal- mente corn esticadas ao Pagode Chines, uma boate que quem nao viu nao verd nunca mais. O avan- car da madrugada imprimia sua marca em n6s, mas ela parecia estar sempre comeeando, alegre e disposta. Cabocla representati- va do Baixo Amazonas, guarda- va o moment da observag5o em silencio, formando suas id6ias e seu juizo sobre o que via matu- tando. Por isso o que dizia trazia consigo o saber experimental (ou experimentado) da vivencia, da experiencia. Carregado, portanto, de humanidade. Essa Wanda querida nao fo- ram s6 os Monteiro que perde- ram. Fomos todos n6s que tive- mos a ventura de conhec-la. E, pela obrigagAo do afeto, chora- mos sua perda ao lado do bra- vo caboclo (ou caboco, como ele escreve na sua ficcao) Be- nedicto Wilfredo Monteiro. 6 FEVEREIRO DE 2004 2" QUINZENA Journal Pessoal Castanha: oAcre busca seu caminho Para o Acre em formagAo, pior do que os bolivianos, contra os quais combateram, sob a lideranga de Placido de Castro, s6 havia uma entidade: as casas aviadoras da rua 15 de No- vembro, em Belem. Para elas era destinada, a prego muito baixo, a produgco extrativa da re- gido, primeiro a borracha e, em seguida, a cas- tanha. Era da rua das aviadoras e agencias ban- carias da capital paraense que procediam as mercadorias necessArias is atividades de serin- gais e castanhais, e tam- bem os financiamentos, a custo extremamente elevado. Esse ciclo de ida de material prima e retorno de manufaturas e cr6dito causou ao Acre, ao long do s6cu- lo XX, uma perda equi- valente a dois bilh6es de d6lares (mais de sete bilhoes de reais). Corn base nesse calculo 6 que o governa- dor Jorge Viana se inspira para justificar o projeto que esti patrocinando em seu Esta- do: acabar com a exploralao colonial da qual o Acre foi vitima durante mais de 100 anos. Das casas aviadoras da Wall Street paraense do auge da exploragao da borracha s6 resta hoje a mem6ria, nao exatamente grata aos acreanos. Mas do sistema commercial do pas- sado ainda hi um agent em plena atividade: os exportadores de castanha. Dentre os quais os mais representatives sao os integrantes da familiar Mutran. Durante decadas eles e alguns outros imi- grantes estabelecidos em MarabA drenaram para o exterior a grande produao dos vales dos rios Tocantins e Itacai6nas. Pouco fizeram, apesar de seus lucros fabulosos, para estimular aquilo a que hoje se di o nome de sustentabi- lidade e assistiram impividos (e As vezes tiran- do proveito) A implantagAo de novas atividades econ6micas que, provocando desmatamento, acarretaram tamb6m o acelerado desapareci- mento dos castanhais, hoje reduzidos a menos de 20% de sua extensAo original. O maior deles esta no interior dos 50 mil hectares da reserve dos indios GaviAo. Exaurido o Tocantins, os exportadores de Belem passaram a se abastecer cada vez mais no Acre, adotando o esquema primitive, basea- do no control da produgao e em precos bai- xos. O atual governor acreano quebrou essa es- trutura, estimulando a instalagto de duas usi- nas de beneficiamento de castanha, atrav6s de cooperatives. Por enquanto, elas processarao apenas uma parte da safra. O excedente, po- rem, nao virA mais a preco vil para Belem: uma empresa boliviana, a Tahuamnu, que control 10% da produgco mun- ~ dial de castanha, com- A prari a amendoa que Sno for beneficiada no Acre, pagando muito mais do que os tradici- onais comerciantes pa- raenses. O governor nao im- p6s nenhuma proibi- cAo. Adotou uma pro- videncia sagaz em defesa do produtor: elevou em mais de 150% a tarifa do ICMS sobre a cas- tanha. S6 essa taxacgo represent mais do do- bro do preco que os importadores de Belem pagam atualmente pela castanha do Acre. Com as medidas adotadas, incluindo financiamento governmental, o pre.o medio da castanha (corn e sem casca) pulou de 40 a 50 centavos para R$ 1,20 e R$ 3. No mercado international, benefi- ciada, o quilo da castanha se aproxima de R$ 10. t li que os produtores acreanos querem chegar diretamente. Se as duas primeiras usinas, instaladas onde se concentram 70% da producao, derem certo e se multiplicarem, a ponto de absorver toda a castanha in natural, passando a exporti-la in- tegralmente beneficiada, e se o preco da valo- rizaa.o ja conseguida nao for trocar os explo- radores de Belem pelos da Bolivia, talvez se possa testemunhar no Acre uma fase da hist6- ria da castanha que nao houve no Para: a inte- riorizalAo da industrializaAo nas pr6prias Are- as produtoras e o surgimento de uma atividade econ6mica auto-sustentAvel, sem a destruigio das fontes do recurso natural. Se isso acontecer, o Acre, provando serem apenas utilitarias (al6m de falsas) as denincias de contrabando de castanha, que, "por coinci- dencia", comecaram a surgir, terA todo direito de rebatizar a castanha-do-Pard para castanha- da-Amaz6nia, ou mesmo do Acre. TALENT Lendo o brilhante balanoe da quase 13 bilh6es de reais), N6brega, Bresser Pereira, Companhia Brasileira de verifico que quase metade dos Jose Roberto Mendonga de Distribuicio, a razao social integrantes do seu Conselho Barros, Roberto Teixeira da do grupo PHo de A6car, o de AdministracAo passaram Costa, Fernao Bracher e maior do comercio varejista pelo governor ou suas Maria Silvia Marques. do pais (faturamento de extens6es: Mailson Ferreira da 0 MELHOR Mudei minha opinioo depois de passar em revista a obra de Paulo Francis. Nao acho mais O afeto que se encerra seu melhor livro. Peguei novamente o Trinta anos esta noite (titulo copiado do estupendo film hom6nimo de Louis Malle, inspirado no romance Le Feu Follet, de Raymond Radiguet) e nao parei at6 concluir mais uma vez a leitura. O melhor 6 esse. Porque 6 jornalismo ensafstico beirando a ficlao. E ensaistico mas nao metafisico: Paulo Francis participou diretamente do drama que levou a tragedia de 1Q de abril de 1964. Conversou corn virias das personagens, viu alguns dos acontecimentos da trama e soube de fatos que s6 costumam ser contados a rep6rteres, em off. E esse o barro especifico que di valor ao jornalista no conjunto das profiss6es humans e o distingue de soci6logos, politic6logos, economists e assemelhados das ciencias sociais e humans. Com essa vasta materia prima, Francis sentou diante da maquina para escrever, no seu estilo eliptico e mordaz, de uma s6 vez, sem quebra de f6lego para conferir as verdadeiras hist6rias, ou as hist6rias completes. Comete muitos erros e a narrative nio segue nem cronologia nem encadeamento 16gico. Mas seu relato e a melhor cr6nica de 1964 que jA li. Divertida em muitos moments, precisa em outros, provocative em todos. Onde faltou a informacgo ou nao houve outra testemunha, Francis nao se deixou intimidar: acrescentou uma pitada de criagio. Mas essa ficg~o 6 de melhor qualidade do que seus romances. Sem ela, como teriamos detalhes picantes, intimistas ou subjetivos sobre alguns dos her6is e mitos da saga? Quem ler com atencio o livro ou incorporar a ele seu pr6prio conhecimento vivencial, vai chegar a uma moral concisa do que aconteceu nos "idos de marco": na hora certa os homes eram errados. Mas nao s6 em 1964 houve essa dissonAncia: ela 6 uma caracteristica da reptblica brasileira. Haja vista o que esta a vista. Daquele que nao e o pior cego, o que nao quer ver. Devemos mais essa a Paulo Francis. Jornal Pessoal 2* QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 7 Delirios ferroviarios Para concluir a Transnordestina, um projeto que existe desde a metade do sd- culo XIX, para ligar por trilho todos os Estados do Nordeste, numa extensAo de mais de cinco mil quil6metros, o governor federal precisard investor mais de um bi- lhAo de reais. Quase R$ 800 milh6es teri- am que ser recursos orgamentarios ofici- ais, a fundo perdido, para a construcAo dos trechos ferrovidrios que ainda faltam. Ou- tros R$ 320 milhoes seriam financiamen- tos, em condig6es de prazo e jurors extre- mamente vantajosas, atrav6s do BNDES e da Sudene, para a concessionAria da ma- lha Nordeste da Rede Ferroviiria Federal, privatizada pela administraqAo Fernando Henrique Cardoso, em 1997. Esse seria o prego que a sociedade bra- sileira pagaria para possibilitar via de es- coamento, corn tarifas mais baratas, da producAo do sertAo nordestino ao litoral, e a ligacAo ferrovidria entire as capitals para os passageiros. O problema 6 que no meio da hist6ria esti a Companhia Ferrovidria Nordestina, vencedora da lici- tacgo que privatizou esse ramal da RFF. A empresa 6 controlada pela Companhia Si- derirgica Nacional, por sua vez nas maos de Benjamin Steinbruch, como consequ- encia do complicado descruzamento de ac6es que se seguiu A privatizagAo da Companhia Vale do Rio Doce (na qual ele mandava sem ter ac6es para tanto) A CFN nao cumpriu nenhuma das cliu- sulas de investimento previstas no contrato de arrendamento. Para ficar corn a parte nor- destina da RFF investiu apenas R$ 4 milh6es dos quase R$ 16 milh6es do lance vence- dor que deu. Para se tornar lucrative, a empresa precisa dos R$ 320 milh6es que permitiriam operar em condig6es rentiveis os 4,2 mil quil6ometros da linha atual. Qua- se um quarto dela ficou intransitAvel por causa das chuvas e enchentes de 2000. A empresa sabia desse encargo quando arre- matou a malha. Mesmo tendo atrAs de si a poderosa CSN, que tem obtido apreciAveis lucros em sua atividade sidertrgica, nao quer colocar no fogo dinheiro vivo. Defende-se a CFN dizendo que nao re- ceberA doacgo do governor. Os recursos do BNDES e da Sudene terAo que ser ressarci- dos, ainda que em condigces muito melho- res do que as de qualquer agent financei- ro do mercado. Algu6m pagarA por essa diferenpa. Ganha um titulo de empresArio quem identificar o mecenas. Se esse for o modelo da parceria pu- blico-privado que o governor Lula quer aprovar no Congresso, 6 possivel que a melhoria do sistema de transport no Bra- sil nao compense um dos seus principals resultados: o aumento da concentracgo da renda no pais, gragas A transferencia de recursos p6blicos para cofres privados. E precise ponderar melhor essa relagao, au- mentando o beneficio e diminuindo o cus- to, sem permitir que se volte a vexamino- sa situacgo anterior, de abandon de um meio de transport mais barato, como o ferrovidrio, em favor de outro, muito mais caro, o rodoviirio. Para n6s, paraenses, hi ainda um gosto amargo adicional: corn a pernada da Ferro- via Norte-Sul de Acailhndia a Belem, pre- vista apenas num mapa de fantasia, estaria- mos integrados a Transnordestina pela Fer- rovia de Carajas e ao sul do pais pela Nor- te-Sul. Nosso mapa de transport mudaria. Mas quem quer mudi-lo? Conflito de Carajis A Companhia Vale do Rio Doce de- clara estar sendo vitima de uma chanta- gem de indios do grupo GaviAo. Mesmo jA sendo beneficiado por um program de assistencia que a empresa conduz junto corn a tutora dos indios, a Funai, um dos caciques teria mandado duas cartas para a Vale ameacando interromper a passa- gem dos trens de mindrios de Carajas pela reserve MAe Maria, em Marabd, se nao receber 10 milh6es de reais. Os Gavi6es foram os primeiros indios brasilei- ros a usufruir renda finan- ceira gracas as indeniza- G6es que receberam pela passage por suas terras da ferrovia de CarajAs e da linha de energia da hidre- 16trica de Tucuruf. Esse di- nheiro resultou em obras positivas para a comuni- dade e tamb6m em pro- blemas. Em qualquer situ- agAo, os Gavi6es aprende- ram que existe renda fi- nanceira, vinda nao do trabalho na mata, mas do saque em banco a partir de um dep6sito de terceiro feito Sem seu favor. Entraram num estigio avan- ,gado da economic, que costuma resultar em vida boa, mas tambem em dependen- cia ruim. E a encarnacAo, para o bem e para o mal, da figure do rentista, aquele que vive da renda do seu dinheiro. Desde entAo, alguns Gavi6es cometeram erros. Nao permitiram, po- r6m, que esses erros fossem revelados (a sociedade tri- bal ter pouco de democri- tica nesse sentido). Corn esse comportamento, blo- quearam a corregAo desses erros. Dai ter aparencia de credibilidade a hist6ria que a Vale conta. Mas se existe /^ realmente essa tentative de extorsAo e ura ameaga real sobre a integridade da fer- rovia, que 6 concessAo fe- deral, a reagAo da Vale tern que se restringir ao enqua- dramento legal. A empresa garante que tem agido assim: ja comu- nicou o fato (e sua gravidade) a todas as instfncias de direito. Se nenhuma delas se mexeu para cumprir seu dever, a Vale ter todo direito de aciona-las por prevarica- cgo ou seja 1d o que for. Nao pode ficar de bragos cruzados a espera de que a ameaga se concretize. Mas nao pode e nem deve - atropelar o direito alheio para defender o seu direito. Quando espiona a movimenta- gto dos indios e coloca campana diante da sede do Ministerio P6blico Federal, o ente governmental procurado pelos Gavi6es, a empresa ultrapassa os limits do seu direi- to para ameagar e violar o direito alheio, a comegar pelo ir e vir desimpedido de qual- quer cidadAo. A Vale estA exorbitando. Este fato deve ser noticiado e lamenta- do, alem de criticado. A instincia suprimi- da pelo excess da empresa, que 6 o go- verno, deve reafirmar sua presenga objeti- vamente e, se possivel, com alguma com- petencia t6cnica, nao apenas segundo a formalidade legal. Para que indios e em- presa sejam compelidos a voltar ao imbito dos seus direitos, que, quando conflituo- sos, devem ser arbitrados pelo pr6prio go- verno, como o 6rgao representative da so- ciedade de todos. 8 FEVEREIRO DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal Transporte just: melhor para todos O transport piblico em Bel6m e ruim, em primeiro lugar, porque 6 dificil examind- lo a s6rio e corajosamente. Os absurdos se mant&m porque prevalece, acima de tudo, o status quo, que pode ser traduzido popular- mente pelo lema "deixar como estA para ver como 6 que fica". A discussAo ajuda a ilumi- nar o ambiente e tirar esqueletos do armArio. O tema da gratuidade, por exemplo. Os idosos e os deficientes devem continuar a usufruir esse direito, mas sob certas condi- 6oes. Acho que toda pessoa cor mais de 65 anos devia andar de graga nos 6nibus. Os que estao cor idade entire 60 e 65 anos de- veriam ser recadastrados em suas pr6prias casas, 6 bom ressaltar. Seriam confirmados aqueles que recebem aposentadorias de va- lor equivalent a menos de dois salaries minimos. Os demais esperariam pela chega- da dos 65 anos, quando o direito passaria a ser universal e irrestrito. Os deficientes fisicos tambem passariam pelo mesmo cadastramento. Como iria as re- sidencias dos beneficiaries, o cadastrador da prefeitura teria condig6es de verificar as con- dig6es de vida das pessoas e suas limitag6es fisicas, enriquecendo as fichas quantitativas para a definigao do direito. Em qualquer situag5o, os recursos para fi- nanciar a gratuidade teriam que sair dos co- fres piblicos. Mas nao aleatoriamente. Lei de- finiria as fontes de financiamento, que seri- am contempladas anualmente no orgamento municipal, de preferencia obtidas em ativida- des vinculadas ao pr6prio service (uma por- centagem das multas no trAnsito, por exem- plo, ou do licenciamento de autom6veis). Os estudantes da rede piblica de ensino tamb6m teriam direito ao transport gratuito, mas nao indiscriminadamente. Eles seriam ca- dastrados e, em fungao da necessidade real, receberiam uma quantidade mensal de vales compativel com sua demand individual, sem direito a suplementagio. Receberiam na pr6- pria escola os vales, em envelope lacrado, individualizado, a cada mes no curso do ano letivo. O control teria que ser rigoroso e lim- po. Nada de politicagem pelo meio. Alem do 6rgao expedidor, cada escola exerceria uma fiscalizacgo especifica. Qualquer irregularida- de por parte do estudante ou dos agents pui- blicos seria severamente punida. O executi- vo providenciaria o projeto e a Camara Mu- nicipal aprovaria, na forma de lei, um regi- mento para regular o service. Os estudantes da rede privada de ensino poderiam comprar passes cor desconto de 30%, desde que atendessem a determinadas condiCges, fixadas num contrato de adesso. A aquisigAo seria feita diretamente na admi- nistragao municipal. A prefeitura compraria os passes das empresas de 6nibus cor direi- to a desconto proporcional ao montante da compra. Com as planilhas de custo nas maos, a prefeitura saberA muito bem quanto pagar sem causar a ruina do empresario nem Ihe proporcionar lucros excessivos. Ao final de cada exercicio, al6m de reme- ter prestag6es de contas para a Camara de Vereadores, Tribunal de Contas dos Munici- pios (se sobreviver) e Minist6rio Publico do Estado, o 6rgao encarregado da gratuidade e dos passes faria audiencias publicas, nas quais apresentaria seu balango e discutiria a exe- cugao do program no exercicio seguinte. Alem de facilitar a vida de quem merece ou necessita dessa ajuda, o poder p6blico ativaria a economic da cidade, desde que esse seu servigo fosse realizado com com- petincia e decencia. Todos sairiam ganhan- do, inclusive os que, por ganharem demais, apostam na manutenSio das sombras e es- quinas do neg6cio, esquecendo que ele 6 vital para o equilibrio social. Armadilha pela frente Obrigada a disputar a prefeitura de Belem pela diregAo national do PT, que, em troca, prometeu cobri-la de protegao, a senadora Ana Julia Carepa jA sabe que sera muito perturbada na campanha eleitoral por dois escorreg6es. O primeiro, menor, foi no epis6dio da destinacgo de dinheiro do Finam (Fundo de Investimentos da Amaz6nia), que era administrado pela ex- tinta Sudam, para a Ferrovia Norte-Sul, menina dos olhos do senador amapense-maranhense Jose Sarney. Ana Julia cortou a transfusao do dinheiro, mas nao conseguiu conectd-lo as de- bilitadas veias locais. O outro escorregao, bem maior, foi na apro- vagAo da emenda (originalmente de Sarney, mas substituida por uma emenda do senador tuca- no Artur Virgilio Neto, do Amazonas) da super- zona franca da Amaz6nia Ocidental, que ex- cluia o Pard dos seus beneficios. A desastrada participacgo de Ana J6lia foi devidamente do- cumentada para ser explorada tAo logo comece a campanha eleitoral municipal. Se nao quiser ser vitima do veneno, Ana Julia tera que procurar novos antidotos. Os que apresentou at6 agora nao surtiram efeito. EXEMPLO No dia 5 de dezembro do ano passado, Claudia Cruz foi a agencia central do Banco da Amaz6nia, na avenida President Vargas, retirar dinheiro. Fez os procedimentos devidos para o saque em um dos caixas eletr6nicos. A miquina processou tudo corretamente, mas o dinheiro nao saiu, apesar do ruido normal da contagem e expedigio. Claudia tentou anular a operagao, mas a tela continuou aberta. Informada de que a miquina estava sem dinheiro, Claudia tentou o caixa seguinte. Enfrentando o mesmo problema, foi para a terceira maquina. Finalmente conseguiu sacar 90 reais. Dispensou a ajuda de duas pessoas um idoso e um jovem que se encontravam no local, mas comunicou o fato ao seguranga. Ao sair, ainda p6de observer que o jovem estava conseguindo tirar dinheiro de uma das maquinas aparentemente indisponivel para saque. Surpresa para Claudia ao consultar seu extrato bancArio: provavelmente essa pessoa havia sacado 500 reais de sua conta, aproveitando-se da falha da maquina. P6de comprovar a hip6tese quando, ao voltar i agdncia, reviu a cena atraves da fita gravada, na presenga de testemunhas. Mesmo cor essa documentagAo do defeito do caixa automAtico e do furto - Claudia teve que recorrer ao Banco Central para reaver seu dinheiro. Nao desistiu a recusa do Basa de atend&la espontaneamente, acabando por conseguir o reconhecimento do seu direito ao ressarcimento. Transmito a hist6ria para que ela sirva de exemplo. Contra sua repeticgo, claro. Jornal Pessoal 2" QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 9 0 * Claudio Barradas dirigia o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, do Teatro do Sesi (Servigo Social da Indtstria), no audit6rio da SAI (Sociedade Artistica Independente. No elenco estavam Iracema e Leonor Barros, Homerval Teixeira e JoAo Moreira. A responsivel pelo teatro sesiano era a professor Elza Zahluth Acontecimentos de 1962 0 ex-rei Leopoldo, da Belgica, acompanhado da princess Lili- an, passou em marco pelo Para. Do Pard foi a Santar6m, seguin- do dai para Manaus e voltando a Belem para pegar um aviAo para Trinidad-Tobago. Como ci- cerone, atuou o consul belga em Bel6m, o advogado e professor C6cil Meira. A morena Sonia Ohana, representando o Papao, foi eleita, em SAo Paulo, "Rainha do Futebol Brasileiro", desban- cando "dezenas de belas candi- datas". Na volta, foi homenage- ada no Top-Set, a festa que Al- berto Mota realizava, aos domin- gos, na sede do Autom6vel Clu- be, no ultimo andar do Edificio Palacio do Radio. S6nia recebeu presents que Ihe foram oferta- dos pela Perfumaria Phebo, Li- vraria Globo e Sapataria Batista Campos, al6m da esposa do "band-leader", Isaura Mota. 0 director dos SNAPP (Enasa de hoje), Fernando Guilhon (que, cinco anos depois, viria a ser gover- nador do Para, tentou sensibili- zar a Alianga para o Progresso, representada em Belem por George Weiss, a ajuda-lo a mu- dar o porto de Bel6m para Ico- araci. Guilhon achava que, as- sim, podia resolver "esse cala- mitoso problema". Calamitoso at6 nossos dias. Investigadores da Delegacia do Guama fizeram uma blitz nesse bairro atrds de mulheres da "vida fdcil" que nao estivessem fichadas ou cadastradas naquela "especializa- da". Encontraram sete, das quais duas menores (de 14 e 16 anos). A mais velha tinha 21 anos. Quem quisesse ir de Belem a Buenos Aires podia faze-lo num "jato puro", o Caravelle da Cruzeiro do Sul donaa da "mais extensa rede area domdstica do mundo"), As 3a, 58, sabados e domingos, pela traditionall rota do litoral". Em abril entrou em vigor o novo expediente bancario. Para o ptiblico, os bancos abri- riam de 8 as 12 horas. Interna- mente, de 7 As 13 horas. A Escola de Datilografia Santa Rita formou sua 252 turma, colocando no mercado mais 65 h~beis datil6grafos e assim "contribuindo com uma parcela apreciAvel de profissionais para os stores administrativos de empresas particulares e piblicas do Estado". O rito da colacAo incluiu missa solene na Catedral, entrega de aneis e diplomas na sede da escola e festa dangante no Circulo Militar. Os datil6grafos seriam, mal comparando, os digitadores de hoje. 0 Curso Joao XXIII, dirigido por Jorge Morado (tendo Manoel Leite como vice-diretor), preparava, "em apenas 6 meses", candidates ao Artigo 99 (ex-91), escolas preparat6rias da Aeronautica, especialistas da Aeronautica, Marinha Mercante, concursos para bancos "e repartig6es em geral". Manoel Leite dava aulas de matematica, Pedro Pinho de portugues e Aldo Sousa de ciencias. Ficava na rua Dr. Assis, ao lado da Catedral. Ja o Curso Vestibular Isaac Newton era especialista nas areas de agronomia, geologia, administraqAo e economic. Os professors eram: de matematica, Jose Maria Lins; quimica, Waterloo Lima; biologia, Augusto Serruya; fisica, Jarbas Coimbra; geografia, Benedito Silva; e hist6ria, Wilson Moreira. O curso ficava na Quintino, entire Nazar6 e Braz de Aguiar. 0 Curso de Vestibular Santa Rosa (no pr6prio col6gio das freiras) preparava candidates ao sempre concorrido vestibular da Faculdade de Medicina. As aulas de quimica eram cor Cicero Silva, as de biologia com Alberto Gondim Hermes e as de fisica com Geraldo Tuma Haber. A idea era de que os alunos chegassem para as aulas na Faculdade de Direito portando o fumo na lapela no dia 1 de abril. Assim protestariam contra o fechamento da UAP (Uniao Academica Paraense), exatamente dois anos antes, pelo regime military. Mas os "universitarios mais mentalizados conseguiram demover a ideia dessa manifestag o, considerando que movimentos dessa natureza o atual moment nAo comporta". e00000000000000000000000000000 /^^ ^^< 0 poeta Joao de Jesus Paes Loureiro lancou seu livro "Cantigas de amor, de amar e de paz" no salao da boutique "Chez Alice", corn grande sucesso 0 padre Carlos Coimbra arrastou "toda Belem colunivel", como hoje se diria, para o langamento do seu livro "Agonia das Horas", no salao paroquial da igreja da Trindade, onde atuava, ao lado do padre Miguel InAcio. 0 livro era uma reformulago do texto original que o padre havia lido no sermAo das tres horas da agonia, na semana santa do ano anterior. O registro do acontecimento atesta a presenga, como representante da 8a Regiao Military, do coronel D6cio Chamillot, que era o chefe da 2a SegAo, o popular (ou nAo) service secret do Exercito. 10 FEVEREIRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal fotografia TEATRINHO DE VANGUARD Os cinquent6es (e outros "6es") devem fazer um esforgo para ver se ndo aparecem nesta foto. Ela mostra o "Teatrinho Martins Pena", que existia na Escola de Teatro da Universi- dade Federal do Pard, no tempo em que ela funcionava na rua Quintino Bocaidva, en- tre Nazard e Braz de Aguiar. Nesse dia de no- vembro de 1966 o aconchegante teatrinho ser- via de sedepara o II Festival de Filmes Experi- mentais Norte-Americanos, organizado e dis- tribuidopelo Usis, o servigo de intercdmbio dos Estados Unidos (com talpresenga no Brasilque provocou afrasefamosa: usis mas ndo abu- sis), O publicopara esses events cabia numa Kombi. Ou no "Martins Pena", palco de tan- tasfaganbas culturais. 0 predio mandado construir na rua JoAo Alfredo pelo livreiro portugues Tavares Cardoso, no inicio do s6culo, 6e nico em Bel6m pelo seu estilo manuelino. Apesar de sua "originalidade e beleza no trato do mdrmore da fachada, no arranjo hist6rico dos elemen- tos decorativos do arco central e das ogivas laterais, bem como das colunas interiores", perma- necia sem ser tombado pelo De- partamento do Patrim6nio Na- cional (o atual Iphan), lamen- tava CAM (iniciais de Carlos Augusto de Mendonga) na Fo- lha do Norte. Com o tombamen- to, talvez os sucessores na pro- priedade do im6vel poderiam ser impedidos de "passar mao de cal no mirmore da frontaria, sacril6gio ji praticado certa vez, e de serem alteradas as disposi- G6es internal", ou, como entao se via, armag6es de toldo de JAAPEC C-C C 4 , ActA .' - j k:ht au. .- - Ci*q 4 'u aJ-L<. -*a^^ . zp1a ra6s escritas para senpre... A. a we a e m flra. ere . Al Itwr*w quoto eu vrem V" ritr-W, ett' e' r">. =4., =i*,- *WON wm.se com Parker Super QulnL Poenma, cwal, W*-.ft. ~ ~A -I%, I pil. Ibu dncsntao. ae'MtAmm-taou arsiam-ao earm Palwr Suptr Qunk. FProsge a canpta(qaqrC. c. Pel|) por M w a urt que canIo SOLV\ qu e limpa a a ,as que eon le. r PARKERR SAMrr r0A o TYmrDo,.. h .. .&*..as. o It eFCOITA P* A P WA Irft*V A IM ae fM SIA. lazdle em e mr -mmk *d, n~r rrr ~~c lcu ferro no frontao. Ledo engano. Com o tempo, as agress6es de tornaram muito maiores. 0 prefeito de Belem, Stelio Maroja, decidiu nem levar em consideragao a indenizagAo que a Rede Ferro- vidria Federal queria cobrar do municipio pelo uso da faixa de terra na Almirante Barroso onde haviam sido assentados os trilhos da Estrada de Ferro de Braganga. A RFF queria re- ceber 420 milh6es de cruzeiros da 6poca. Depois do choice da extincgo da ferrovia, determi- nada pelo governor Castelo Branco, era a queda. * StWlio continuou as obras de desobstrugao da antiga Tito Franco, substituindo os trilhos por concrete, que dobrariam a largura da avenida, de quatro para oito pistas (as quatro pri- meiras foram concretadas no inicio da d6cada de 50). Milha- res de metros cibicos de pigar- ra foram removidos e langados nas "baixas" da 1 de Dezem- bro e Lomas Valentinas. Para a arborizagAo nas laterals das pis- tas, foram plantados oitizeiros. 0 Laborat6rio Sao Lucas produzia o Licor da Amaz6nia, que curava maleita, paludismo ou impaludismo. A Racisa fazia a queima" de 50 mil discos de seu "novo e sensacional sortimen- to". O LP custava a partir de dois mil reais e o compact desde R$ 500. Tudo das velhas bola- chas pretas, os antediluvianos (mas ainda insubstituiveis) dis- cos de vinil. propaganda TINTA ETERNA Manuel Bandeira emprestou seu terno "Irene no ceu", versos cor "palavras escritas para sempre", como apelo de venda das tintas Parker super Quink, as unicas que, por conterem solv-x (quid, di- ria o poeta), limpam a media que escrevem. Poupando assim os que a usam de uma tragedia comum: manchas na roupa causadas pelas tintas das canetas. As Quink vinham em oito cores: azul-preta, azul-lavdvel, azul- permanente, verde, vermelba, violeta (lavdvel), turquesa e preta. Para os quepreferissem a caneta-tinteiro, havia os cartuchos espe- ciais. Mas o vidro de tintas tinha uma utilidade jamais prevista pelosfabricantes: sua tampa virava um tremendo zagueiro no ce- lotex, o entao popularfutebol de mesa (ou de botdo). Era zagueiro para humilhar qualquerJunior Baiano da vida. A tinta anunciadapelo grandepoetapernambucano (cor seus moments de artist menor epessoa de acanhadasproporf6es) era revendida no Pard por Costa, Portela Indtstria e ComBrcio, estabe- lecido no 8- andar do namero 435 da avenida Presidente Vargas. Jornal Pessoal 2 QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 11 JUSTICE No auge de duas ondas de repressAo do golpe military de 1964, a diregAo do ITA (Instituto Tecnol6gico da Aeronautica), curvando-se aos Torquemadas de plantAo, expulsou 21 de seus alunos, vagamente acusados de subversivos. Mas eles, como indiscutivelmente viriam a provar, eram mesmo pessoas inteligentes. Afinal, haviam conseguido passar por dura selegAo e ingressar numa instituigAo de excelincia que ocupa, no ensino superior brasileiro, lugar aproximado ao do MIT (Massachussets Institute of Technology) nos Estados Unidos. Daquele grupo sairam coron6is-engenheiros da Aeroniutica, um ministry do Supremo Tribunal Federal, um prefeito do pr6prio municipio onde o ITA se localiza, professors universitarios (corn destacadas p6s-graduag6es no exterior), director em minist6rio, consultores tecnicos e atW um reitor da instituigao. O inico que nao conseguiu engatar numa carreira bem-sucedida foi Jos6 Arantes de Almeida, que optou pela luta armada e foi morto pelo DOI-Codi sete anos depois de ter sido mandado embora do ITA. Ha quatro decadas esses cidadaos tentam conseguir a reparagAo das injustigas que sofreram. O que querem e simples: receber os diplomas a que teriam direito se nao tivessem sido excluidos tao violentamente do ITA. O ato talvez saia neste ano. Mas os ex-alunos ja conseguiram pelo menos uma excelente materia de seis pdginas na edigAo 278 da revista Carta Capital. E ficil aderir a causa dos 21 injustigados porque ela e indiscutivelmente nobre. Nao s6 pelo ato espirio que sofreram mas pela singeleza do que reivindicam, de valor simb6lico. Nao estAo querendo indenizagAo pecuniaria. A expulsao os afetou, a alguns mais do que outros, mas nao os impediu de tirar proveito dos seus talents. Pela via tortuosa, o arbitrio acabou trazendo beneficios. Para o jornalismo, por exemplo. Mandado embora quando ja estava concluindo o curso, Raimundo Rodrigues Pereira decidiu dar mais Sil ncio incomodo Uma personagem da explosive novela so- bre o control da Receita Federal por uma qua- drilha, que tambem pretendia assumir integral- mente o porto de Manaus, para favorecer o contrabando na Zona Franca (ver Jornal Pesso- al 317 e 318), a inica realmente nova em enre- dos semelhantes, ainda precisa se explicar pu- blicamente: 6 o deputado federal Paulo Rocha. Ele aparece em dois moments da trama arma- da para substituir Jos6 Tostes Neto por Licio Rosa de Souza, que estaria comprometido com o esquema de sonegagdo fiscal. Num primeiro moment fazendo turismo em Manaus numa lancha de luxo que pertenceria ao pr6prio Rosa. Num segundo moment, assi- nando pedido de quatro computadores e um apa- relho de ar condicionado em favor de uma coope- rativa do garimpo de Ser- ra Pelada. O pedido foi di- rigido a Sergio Carlos Nas- cimento de Andrade, pre- so no dia 30 do ano pas- sado em flagrante de ex- torsao, armado pela poli- cia num shopping da ca- pital amazonense, a pedi- do de Rosa. Ao depor, S-r- gio disse que estava ape- nas cobrando a parcela fi- nal do pagamento a que teria direito como lobista de Rosa. O Ministerio Piblico Federal esta investigando para saber se a relagdo en- tre o lobista e os politicos cor os quais ele entrou em contato pode ser caracterizado como crime. Os tres politicos do Amazonas apontados por Sergio ja se defende- ram alegando que o atenderam como fazem corn todas as pessoas que procuram seus gabinetes no Congress. Nao tiraram nenhuma vantage pessoal da relacgo, embora Sergio tenha decla- rado A Policia Federal que o esquema em favor da nomeacgo de Rosa previa o pagamento de 1,5 milhAo de reais para os politicos que iriam subscrever uma mocAo de apoio ao auditor fis- cal da Receita em Manaus, funcionalmente su- bordinado a Tostes, que comanda a engrena- gem fiscal do governor a partir da sede da Re- ceita, em Bel6m. ateng8o a sua veia jornalistica do que a sua qualidade de fisico. Cor isso, a imprensa brasileira p6de tirar proveito de seu rigor, do cuidado que sempre dispensou a exatidAo, ao cultivo dos fatos. Trouxe com ele a contribuigio de outros praticantes das ciencias exatas ao aperfeicoamento da profissAo de jornalista, na 6poca ainda se debatendo com certos vicios da imprecisao. A condigco de Paulo Rocha no imbroglio 6 especial. Ele 6 do PT, partido que estA no poder mas proclama nao adotar metodos anti6ticos. Os outros partidos envolvidos sao reconhecidamente fisiol6gicos. Alem disso, Rocha 6 o Onico politi- co de fora do Amazonas ao qual o lobby recor- reu. Ele justifica essa circunstancia argumentan- do que foi designado para coordenar as nomea- goes da administragAo federal em toda Amaz6- nia, nao apenas no Estado da sua base eleitoral. Por isso foi procurado. Mas igualmente como os demais politicos, recebeu o lobista, cor ele po- sou para fotos e esteve ao lado dele fora de Bra- silia pela circunstancia de que Sergio de Andra- de 6 um lobista insinuante e insistente, aprovei- tando-se indevidamente da norma democritica dos parlamentares de tender a todos que os procuram. A bacia das almas em que se tornam os gabine- tes do Congresso respon- deria pelo acidente que le- vou Paulo Rocha a assinar um oficio enderegado a S6rgio de Andrade pedin- do-lhe para doar os com- putadores e o aparelho de ar condicionado a coope- rativa de Serra Pelada. O lobista e os garimpeiros se encontraram no vai-e-vem do gabinete, conversaram e anteviram a possibilida- de de tirarem proveito des- se conhecimento (que vantage o lobista tiraria da doagao, ainda nao se sabe). Como 6 muita causalidade para tantos acon- tecimentos, convinha ao deputado Paulo Ro- cha explicar melhor sua atuagAo nesse affaire e dizer por que nao agiu como o senador Je- fferson Peres, do nao tAo imaculado PDT. Ao ser contatado, Peres tratou logo de avisar o chefao da Receita a colocar as barbas de molho e nao deixar que politicos metessem as maos no control da Receita Federal. Paulo Rocha, ao contririo, enredou-se nas malhas da sedu- gao, mal que parece estar grassando no assim chamado PT federal (ou, numa linguagem mais ideol6gica, o PT real). Beneficiarios dessa contribuicao, nem por isso abrimos mao de engrossar o coro dos que querem ver Raimundo e os demais ex- alunos receberem o canudo a que fizeram jus. Talvez assim o ITA possa retomar o caminho, do qual foi desviado, de buscar a excelencia do saber nao s6 pela qualidade do ensino que ministry, mas pelo ambiente de liberdade, estimulo e tolerancia que criou. Sem o qual nao viceja o produto mais nobre da inteligencia humana: a criatividade. Que finalmente haja a festa tantas vezes adiada em SAo Jos6 dos Campos. jorna P Edtr .5 i Fliio Pinto Foes (091 241 .7626 |
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