|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Tornal LATIN AMERICAN COLLECTIC U ERSITY OF FLORIDA FEVEREIRO DE 2004 a QUINZENA N 317 ANO XVII Pesso R$ 3,00 / A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO SUPERZONA SUPERZONA ~ % I L~p- I~ ~5 r II r~~ c c Ci\r~L~C~ -sJ\ I ~GS~i~~ ~2~Lr~;O. (Z,'J 5, Uma engrenagem milionaria Por tr6s de uma dispute pelo porto de Manaus estd a agdo de um poderoso grupo que ter manobrado na Zona Franca de Manaus para enriquecer Com R$ 2 milh6es esperava assumir o control da Receita Federal e o movimento de entrada e said de mercadorias, urn neg6cio no valor de US$ / 0 milhoes por mes. Extorsdo, corrupgao, chantagem, trifico de influencia, sonegacgo fiscal e contrabando sAo os in- gredientes de uma hist6ria de es- cAndalos na dispute por um dos melhores neg6cios da Amaz6nia, o con- trole do porto de Manaus. O neg6cio pode render 10 milhoes de d6lares (quase 30 milh6es de reais) por mes. Isso se o esquema envolver a Secreta- ria da Receita Federal e a administra- gao do pr6prio porto. Desde o dia 30, quando foi preso (juntamente cor outros seis c~mpli- ces, dois dos quais policiais civis e uma advogada) um dos personagens dessa trama complicada e explosive, sabe-se que um grupo de amplo espetro e grande poder estaria dis- posto a gastar dois milhoes de reais para assumir o control da superin- tendencia da 24 Regido da Secretaria da Receita Federal. Com sede em Be- lem e jurisdigAo tamb6m sobre o Ama- zonas, al6m do Para, desde 1994 a su- perintendencia 6 ocupada pelo para- ense Jos6 Tostes Barroso Neto. No alvo tambem estava a inspetoria da alfandega de Manaus, chefiada desde 2000 por Maria Elizia Andrade. O personagem jA conhecido do enre- do 6 Sergio Carlos Nascimento de Andra- de, 36 anos, com nivel m6dio de instru- cao, mas que se apresenta como empre- sirio (dono de uma empresa de constru- cAo civil) Cor a promessa de receber 500 mil reais, de dezembro de 2002 a agos- to do ano passado ele atuou como lobis- ta para conseguir a nomeagao de Jos6 Licio Rosa de Souza para o lugar de Tos- tes e de Francisco Ant6nio Serrao de Souza para a inspetoria da alfandega de Manaus. Entre 1999 a 2001, Jos6 Licio che- fiou o Servigo de Controle Aduaneiro, departamento responsivel pela fiscaliza~go da entrada e said de mercadorias do porto da Zona Franca para os mercados national e interna- cional. Ja SerrAo de Souza comandou o Servigo de Fiscalizagfo Aduaneira, que realize auditorias nas indtistrias. Os defensores dessas candidaturas entrariam corn mais R$ 1,5 milhao para distribuir entire politicos, a serem contatados por Sergio para assinar uma CONTINUE NA PAG 2 PARAGOMINAS: EMBARGO DE GAVETA (PAG. 8) t.-- ^ims, savsms! asasas sasms masas " ~`~Y~" CONTINUA;AO DA CAPA lista de indicacao de Rosa, que, como auditor fiscal da receita, 6 subordina- do ao superintendent da 2a Regiao e atende a uma das exigencias para o preenchimento do cargo (ser funcio- nario de carreira). Sdrgio diz ter feito 30 viagens a Brasilia ao long de 2003, conseguin- do a adesao de politicos da regiao, como o senador Gilberto Mestrinho, do PMDB do Amazonas (a quem ser- viu quando Mestrinho ocupou pela segunda vez o governor do Estado), dos deputados federais Carlos Souza e Humberto Michiles amboss do PL amazonense) e do deputado Paulo Rocha, do PT do Para. Mesmo assim, nao conseguiu derrubar Tostes. Nao oferecendo o resultado dese- jado, teria sido dispensado pelos seus contratantes. Ao insistir em cobrar os R$ 300 mil que estariam pendentes, Sergio foi enquadrado na condicao de extorsionario e preso quando recebia o dinheiro, num shopping da capital bar6. Jos6 Lucio de Souza o denun- ciou a policia. Disse que estava sen- do ameacado pelo lobista com um dossier, segundo o qual teria enrique- cido ilicitamente. Ao chegar a cadeia como mero chantagista, Sergio virou o caso de cabega para baixo contando, com mi- nticia de detalhes, a hist6ria do lobby para conseguir as nomeag6es de Jos6 L6cio e Ant6nio Serrao, como parte de um esquema de contrabando e sone- gacAo de impostos. No depoimento que prestou a Poli- cia Federal, acompanhado por um re- presentante do Ministdrio P6blico Fe- deral, Sergio disse que por tras de todo o grupo estaria o ex-senador Carlos Al- berto De Carli. Ele manobraria atrav6s do director operacional do porto, Ales- sandro Bronze Toniza. Num encontro em Brasilia, Sdrgio disse que Alessan- dro se apresentou como empregado de De Carli, "pessoa muito influence e que ostentava cinqtienta milhoes de d61a- res na DeclaragAo de Renda". De Carli estava nos Estados Unidos quando a dentincia foi divulgada. De 1i, negou qualquer ligagao cor o lo- bista, atribuindo sua hist6ria a uma manobra do governador Eduardo Bra- ga. Desde que assumiu o governor, Bra- ga vem tentando anular o contrato de gestao do porto de Manaus, que consi- dera um dos maiores escandalos do pais. O maior beneficiario 6 o pr6prio De Carli, que seria o controlador de fato da empresa concessioniria como pre- sidente do Conselho Superior de Na- vegagAo, Portos e Hidrovias. Ocupou Na sua sentena, o juiz Roberto Taketomi acolheu as 16 irregularidades apontadas pelo Estodo no process de licitacgo do porto o cargo at6 abril do ano passado, quan- do foi destituido pelo governador. No passado, De Carli participou de outros imbroglios igualmente vultosos e polemicos, como a desapropriagao das Fazendas Unidas, no Amazonas, e a extragao de madeira da area do re- servat6rio da hidrel6trica de Tucurui, no Para, pela Agropecuaria Capemi. Ligou-se ao empresario Gilberto Miran- da, hoje um dos homes mais ricos do Amazonas (embora sua residencia de fato seja em Sao Paulo) e ao irmao dele, Egberto Batista, o home poderoso da Zona Franca de Manaus nas adminis- tracdes Sarney e Collor. Se as denincias feitas pelo lobista sao verdadeiras ou nao, ainda falta apu- rar adequadamente. Elas s6 tiveram re- percussao por se inserirem numa mol- dura que Ihes di credibilidade. Neste moment o governor do Amazonas tra- va batalha judicial com os concessio- narios do porto pelo control do ter- minal fluvial da capital amazonense. As empresas operadoras deram par- tida a demand em marco do ano pas- sado. Elas reagiram a um ato do gover- nador, que mudou, atrav6s de lei apro- vada pela Assembl6ia Legislativa, a es- trutura juridica da Sociedade de Nave- gacao Portos e Hidrovias (SNPH), ex- tinguindo o Conselho Superior do Por- to, a 6poca presidido por Carlos Alber- to De Carli. Mas a primeira vit6ria foi do gover- no, que se tornou o p6lo ativo da aAo ao entrar cor um pedido de reconven- cao e conseguir a antecipagao da tute- la. Na semana passada, a administra- cgo estadual reassumiu o control do porto com base em decisao judicial. Uma liminar concedida pelo juiz da vara da fazenda estadual p6s abaixo a privatizagao dos services portuarios, efetuada, no inicio de 2002, pelo en- tao governador Amazonino Mendes (do PFL), e afastando as empresas Estacao Hidroviaria e Empresa de Revitalizadao do Porto de Manaus. A sentenca do juiz determinou tan- to a suspensao do contrato de arren- damento quanto o acordo de acionis- tas, ordenando ainda o dep6sito em juizo das parcelas devidas pelas em- presas ao Estado. Ha mais de tres me- ses as empresas estao inadimplentes. Nao s6 deixaram de pagar o arrenda- mento como as notas promiss6rias dos 240 meses do financiamento que rece- beram do Estado. A divida jai superi- or a R$ 70 milh6es. O contrato preve o cancelamento da concessao quando o atraso superar 90 dias. O arrendamento assinado por Ama- zonino ter prazo de 20 anos, prorro- gavel por igual period. Como estimu- lo a operagao, o governor adquiriu 9% das a6oes das empresas concessionari- as, por R$ 35 milhoes. Logo em segui- da revendeu essas ac6es para as mes- mas empresas, concedendo-lhes 240 meses para o pagamento, com os jurors pr6-fixados em 6% ano. Essa operaqao ja teria dado prejuizo de R$ 2 milh6es ao Estado, s6 nos 61timos dois anos. Na sua sentenga, o juiz Roberto Taketomi acolheu as 16 irregularidades apontadas pelo Estado no process de licita~ao do porto, dentre as quais: au- sencia de manifestagao previa do Con- selho Nacional de Desestatizagco; vi- cio na escolha da modalidade de licita- gdo; falta de publicidade minima de li- citag o; quebra da impessoalidade, por meio de consult previa as empresas que viriam operar o porto; constituigao irregular da comissao de licitacao; one- rosidade excessive do contrato de ar- rendamento e acordo de acionistas para o poder piblico. Outra das irregularidades seria o nao cumprimento da lei das licitac6es. A lei 8.666 exige, das empresas participan- tes, apresentacao de documents de se- guridade fiscal e qualificagao econ6mi- co-financeira, cuidado a ser redobrado em se tratando de empresas estrangei- ras (como seria o caso de uma das ar- rendatarias, cor sede em Miami, nos Estados Unidos). Os documents nao teriam sido entregues. A readao do grupo De Carli veio atraves da fundagao do Instituto Ama- zonense de Defesa da Cidadania (IADC), dirigido por seu filho, Paulo, pr&-candidato a vereador em Manaus. O institute passou a editar o informa- tivo "A Guerrilha da Verdade", com tiragem de 20 mil exemplares, espe- cializado em acusagces contra a ad- ministragdo Eduardo Braga. A iltima 2 FEVEREIRO DE 2004 I" QUINZENA Journal Pessoal edigPo acusava a Superintendencia de HabitagAo do Estado de comprar com- putadores com notas fiscais frias, emi- tidas pela Comercial Castelo Branco. Depois de publicada, a den6ncia foi protocolada na vara da fazenda p6bli- ca pelo pr6prio Paulo De Carli. Provocado pelo governador, sob a alegagdo de que computadores e equi- pamentos do porto de Manaus estari- am sendo utilizados para a elaboragao do journal, o Tribunal de Justiga do Es- tado concedeu-lhe mandado de busca e apreensao da publicag~o, suspenden- do sua circulacAo. Eduardo Braga ale- gou que por trds do informative estari- am "os interesses econ6micos de um dos maiores escandalos do dinheiro pdblico neste pais". Paulo De Carli anunciou que "A Guerrilha da Verdade" voltar_ a cir- cular e antecipou a pr6xima denin- cia que veiculard: supostas irregula- ridades praticadas na execugao do program emergencial dos Igarapes de Manaus. O program 6 de respon- sabilidade da Secretaria de Infra-Es- trutura, dirigida pelo vereador licen- ciado Bosco Saraiva. Para De Carli, a decisAo do tribu- nal significou cerceamento ao direito de expressao, argumentando que o pe- ri6dico identifica seus responsdveis, tem expediente e domicilio certo. Res- salta que a edigao apreendida "nao continha e nao cont6m no seu conte6i- do absolutamente uma agressAo pes- soal, seja ao governador ou a qualquer membro de sua administracgo ou a qualquer cidadAo". A novela promete se estender ainda por muitos capitulos. Mas desde jd ofe- rece algumas lig6es importantes para a vida pdblica. A principal delas diz res- peito ao crescimento da via paralela - e geralmente soturna, propicia a proli- feragao de personagens controversos - a da conducgo regular dos neg6cios de interesse piblico. O perfil de Sergio Andrade se coaduna corn o papel de laranja ou de lobista, mas 6 impressio- nante que corn tdo poucas credenciais ele se tenha tornado um interlocutor vAlido para senadores e deputados fe- derais. Mesmo tendo se candidate duas vezes a deputado estadual e a verea- dor sem conseguir votagAo suficiente para se eleger. De fato, Sergio nao conseguiu o ob- jetivo da sua intermediagco, que era a destituigAo de Jose Tostes para a sua substituigAo por Jos6 Licio. Mas che- gou bem perto disso. Parlamentares que reagiram corn indignagAo quando a face criminal do lobista se tornou piblica haviam assinado a lista de in- dicagao do auditor fiscal da Receita J person Peres tratou de ligar para o superintendent do Receita Federal, Jorge Rachid, alertando-o a ndo permitir que delegados do 6rgdo fossem indicados por politicos, "porque do morgem a corrupgo0" - - t, em Manaus para a superintendencia da regido Norte. Todos dizem que subscrever listas 6 uma atividade roti- neira no Congresso, realizada para agradar amigos e influenciar pessoas, sem que o conte6do dessas listas es- teja em causa. E sem que os subscri- tores recebam em troca beneficios, como Sergio Andrade garante em seu depoimento que haveria. Para isso ha- via o fundo de R$ 1,5 milhao, diz ele. Lama dessa sujeira respingou no deputado federal Paulo Rocha, o prin- cipal articulador politico do PT no Para. Como os outros parlamentares, Rocha assegurou que mal conhecia o lobista. Atende-lo nao seria o bastan- te para conferir significado maior a essa relacao porque o gabinete de Rocha estd aberto a todos que o pro- curam. No entanto, seja por maquia- velismo do lobista ou desatengao do deputado, Paulo Rocha chegou a fa- zer um passeio turistico at6 o hotel Ariai, no Amazonas, junto cor An- drade, que usou esse contato como credencial do lobby. A lancha, des- crita como de luxo pelo lobista, era de propriedade de Jos6 L6cio. O pior 6 que Rocha e os demais referendaram a indicacao depois de term recebido um dossier que colo- cava em divida a seriedade de Tostes na superintendencia da Receita. Se- gundo o dossier, Tostes teria sonega- do do procurador Sdrgio Lauria infor- magAo sobre um contrabando feito pela empresa Super Terminais, do gru- po Di Greg6rio, um dos principals transportadores de conteineres da Zona Franca de Manaus. Nao se sabe se algum dos destina- tArios da papelada se ocupou em che- car a veracidade dos pap6is. Na se- mana passada, por6m, a Receita in- formou que a arrecadacAo da alfAn- dega de Manaus cresceu 30,24% no ano passado, somando R$ 246 milh6es contra R$ 189 milh6es em 2002. Nao e comum que uma ma gestao, por in- competencia ou desidia, produza tal resultado. Enquanto o dossier prepa- rado pelo lobista levantava suspeigao sobre Tostes, explicitamente a inica queixa dos clients do porto era con- tra um alegado excess de formalida- des e rigor da alfandega. Ou seja: in- dicando que o administrator piblico agia certo e nao erradamente. Em articulagAo com a inspetora da alfandega, Maria Elizia Andrade, Tos- tes montou, em 2002, a operaqAo que desbaratou o maior caso de contraban- do na Zona Franca de Manaus (e um dos maiores do pais), resultando na apreensao de R$ 160 milh6es em equi- pamentos eletroeletr6nicos importados ilegalmente da Asia. As empresas fraudadoras simulavam a importaqgo de insumos para a pro- ducAo de eletroeletr6nicos no P6lo In- dustrial de Manaus, quando na verda- de o que importavam eram produtos prontos e acabados. Entre as empre- sas flagradas estava a DM Eletr6nica da Amaz6nia, do grupo CCE. Esse es- quema funcionava desde 1999, corn conex6es em portos do sudeste do pais, principalmente em Santos. Nio era golpe de bagrinho. Para derrubar tal superintendent da Receita junto a politicos sirios, seria precise muito mais do que um mam- bembe dossier de lobista suspeito. Mas parlamentares das bancadas de cinco partidos na Amaz6nia embarcaram sem questionamentos nessa autentica canoa furada. Talvez porque, como disse o deputado Carlos Souza, esse seria "um neg6cio tdo pequeno que nem mere- ce minha atencgo", embora diga res- peito a uma atividade que responded por 90% do PIB do Amazonas e que, ilicitamente, pode render 10 milh6es de d6lares todo mes. O pequeno na volumetria do parla- mentar, assim, 6 um rombo de tamanho amaz6nico, gigantesco em qualquer lu- gar do planet. Que s6 quem nao quer ver nao vL. Nao parece ser esse o caso do senador Jferson Peres, do PDT ama- zonense. Ao ser sondado para assinar a lista, ele tratou de ligar para o superin- tendente da Receita Federal, Jorge Rachid, alertando-o a nao permitir que delega- dos do 6rgao fossem indicados por poli- ticos, "porque da margem a corrupgao". Acertou na mosca. Jornal Pessoal I' QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 4 A DISTANCIA O Para parece tao distant do Amazonas quanto a Terra de Marte. De duas semanas de intense noticiario sobre o escAndalo em torno do porto de Manaus na imprensa amazonense, a repercussao deste lado do mundo amaz6nico consistiu apenas de uma materia e entrevistas feitas pelo Didrio do Pard cor o deputado federal Paulo Rocha, do PT. Felizmente o Didrio teve essa iniciativa. Paulo Rocha nao retornou as ligag6es telef6nicas que os rep6rteres dos jornais de Manaus lhe fizeram, assim alimentando as especulaoges que ali se faziam a respeito de seu envolvimento no caso. Era embaracador o contrast entire Manaus fervilhando de informac6es e boatos sobre o poderoso lobby e Belem completamente a margem da hist6ria, na qual, involuntariamente, era personagem principal o paraense Jos Tostes. Somos Amaz6nia sem consciencia de s-lo. A imprensa pouco ou nada faz para juntar os nexos e tecer os fios de aproximagao. ASSEMBLEIA No dia 17 A Alunorte realizard assembl6ia geral extraordinaria para decidir se prossegue ou cancela o piano de ampliacio da produgao de alumina, em Barcarena. A empresa se cansou de esperar por uma decisao do Coema (Conselho Estadual de Meio Ambiente) sobre o licenciamento ambiental da mineragio de bauxita de Paragominas. Sem os quatro milh6es de toneladas de minerio, a Alunorte nao pode aumentar em 1,8 milhao de toneladas sua produgao atual de alumina. Com a ampliacgo, a Alunorte se tornaria uma das maiores plants de alumina do mundo. Ligies para aprender A primeira e de que nao hd uma autentica solidariedade regional Ja sem o regime de urgencia, o substituti- vo do senador Arthur Virgilio neto ao pro- jeto Sarney da superzona franca vai ter u m6rito examinado na Comissao da Ama- z6nia da Camara Federal, mesmo ji tendo re- lat6rio favorAvel do deputado amapaense Davi Alcolumbre. Isto se for aprovado o re- querimento da deputada Ann Pontes, do PMDB, de convocacao de t6cnicos da Recei- ta Federal para uma audiencia na comissao. A bancada paraense deveri votar contra o projeto, se ele for a deliberacgo, mas as demais bancadas amaz6nicas, somadas, de- verao garantir o seu seguimento. Mas 6 pou- co provavel que a materia passe pela Co- missao de Constituicgo e Justiga e menos possivel ainda que seja aprovada em pleni- rio, ao menos nao pela votagAo simb6lica dos lideres. A tendencia, agora que o as- sunto foi mais bem debatido, 6 sua rejeigAo, como o pr6prio Virgilio diz haver previsto, fazendo o jogo a favor da iniciativa apenas para agradar seu colega maranhense (e ama- paense por filiagao eleitoral). Mesmo que esse venha a ser o desfecho da novela, ela oferece lic6es suficientes para aqueles que ainda sao capazes de apren- der. A primeira 6 de que nao ha uma auten- tica solidariedade regional, capaz de justifi- car a existencia da Onica comissao dedicada especificamente a uma das regi6es do pais. t claro que o Pard se posicionou contra o projeto Sarney/Virgilio por ter sido excluf- do. Excluido, alids, nao 6 a expressao mais correta: os paraenses nao se apresentaram para ser incluidos na media. S6 acordaram para a situagao quando ela ja havia sido consumada no Senado. Apanhados de calga curta, os paraenses puderam alegar que rejeitariam a proposta nao porque ela deixava de considera-los, mas em defesa do principio federativo. Com ou sem Para, o projeto ofendia a solidarie- dade national, al6m de umas tantas normas legais e acordos internacionais. Por isso de- via ser derrubado. Os representantes dos demais Estados amaz6nicos nao se tnm mos- trado sensiveis ao argument e insisted em ainda conseguir a aprovacao da proposta, que Ihes garantem algum tipo de vantagem, nao importando se a custa de mais rentncia fiscal e sacrificio de outros Estados. Mateus, primeiro (ou s6) os teus parece ser a filo- sofia dresses politicos. Se essa 6 a diretriz, como defender que permanega existindo a Comissao da Amaz6- nia e nao tamb6m do Nordeste ou do Cen- tro-Oeste, ou ainda o Sul e o Sudeste? As bancadas amaz6nicas precisam reconsiderar urgentemente sua inusitada existencia an- tes que ela desaparega. Outra licao 6 a da desinformagao. Apon- tada a inexistencia de uma assessoria parla- mentar do governor do Estado em Brasilia (embora haja estag6es lotadas de barnab6s transportados por varios trens da alegria para a Assessoria Especial), o deputado Zenaldo Coutinho tratou de apregoar a participagao do governador SimAo Jatene na frustracAo do projeto da superzona. t verdade. O go- vernador realmente mobilizou a bancada e a colocou em agao, no dia 28, mas depois de ter tomado ciencia da questao atrav6s da leitura do journal O Liberal, que ja entrou atrasado na hist6ria, quando o capitulo do Senado era materia vencida. Ao inv6s de recorrer a propaganda en- ganosa, o governor devia fazer o "mea cul- pa" e tratar de corrigir a lacuna, providenci- ando uma assessoria eficiente e capaz de aciona-lo em tempo real, nao post-facto. Nao vai poder contar para isso cor a legiao de batedores de ponto que tem ao seu lado, na Granja do Icui. A FEVEREIRO DE 2004 Io QUINZENA Jornal Pessoal INTELLECTUAL * Quantas pessoas redescobriram a Alice, de Lewis Carrol, gracas A magnifica traducao feita por Sebastiao Uchoa Leite? Muitos. Modestamente, incluo-me entire eles. A paribola do pais das maravilhas passou a ter outro sabor, acho que at6 mesmo para virios que ji haviam lido o livro no original, quando passaram a contar cor as luzes de alguns dos achados geniais de Sebastiao para os impasses que a transposicao do ingles para o portugues criava. Por isso, queria deixar registrada aqui a gratiddo de quem foi beneficiado pelas traducOes de Sebastiao e desfrutou o prazer de seus versos de sabor tdo original quanto suas verses. No corre- corre de reporter amaz6nico, deixei passar o obituirio do intellectual pernambucano, que morreu no ano passado, aos 68 anos. Sem a aten~go merecida da grande imprensa. LINGUA * Num de seus muitos pronunciamentos, o president Lula declarou que o compromisso no combat a fome deve ser assumido desde o pais "mais pequeno" ao maior. Fiquei feliz. Talvez fruto de suas andangas pelo mundo, nosso mandatario jA estd se iniciando numa lingua estrangeira: o portugues de Portugal. Caso do porto de Manaus Deveria servir como advertencia para a superzona Qs defensores da adocao de um regi- me de zona franca para toda a Ama- z6nia Ocidental, cor jurisdig~o so- bre uma area de 2,3 milh6es de quil6me- tros quadrados, deviam tomar o caso do porto de Manaus como uma s6ria adverten- cia sobre a gravidade dessa proposta. Um ardiloso esquema foi montado para derrubar administradores que vinham agin- do para evitar a fraude e substitui-los por pessoas comprometidas cor o contraban- do. Embora fosse conhecido o esforco da Receita Federal e da Alfandega no desmon- te de uma estrutura de ilicitude, que frauda- va a Zona Franca de Manaus, muitos politi- cos de boa ou ma f6 foram tragados por essa manobra. Se o grupo que patrocinava operacges irregulares de entrada e said de merca- dorias p6de agir cor desenvoltura entire 1999 e 2002, embora tendo como palco apenas o municipio da capital amazonen- se, o que nao acontecerA se a franquia tri- butaria se estender a quase um terco do territ6rio brasileiro, numa extensAo de ter- ras de baixa densidade demogrAfica e enormes distancias? O tamanho da ameaca que pairou (ou ainda pode continuar a pairar) sobre os interesses p6blicos em Manaus ainda esti por ser completamente avaliado. Espera- se que a Policia Federal e a Procuradoria da Rep6blica aprofundem as investigac6es at6 puxar todas as pontas da armagqo e identificar os que estAo em suas origens. Mas jA di para ter uma id6ia da extensao da trama. Evidenciam-se cor nitidez cada vez maior personagens que tem figurado em quase todos os casos controversos de -associagAo da iniciativa particular cor a administracgo p6blica no Amazonas, tiran- do proveito dos canais de drenagem da Zona Franca. Empresarios e politicos favorecidos (ou favorecendo) projetos incentivados consegui- ram lancetar um elo que estava faltando: a administracAo do porto. Sob a bandeira mo- dernizadora da privatizacAo, hi a forte sus- peita de que houve favorecimento delibera- do para um grupo, que ter reunido poder sem igual na conducAo de neg6cios ligando SAo Paulo a Manaus, cor triangulacao em Brasilia. Ao inv6s de desbaratar essa criatu- ra, alimentada pela promiscuidade entire o governor e a iniciativa privada, o projeto do senador Jos6 Sarney, aprovado pelos seus colegas de casa, iria escancarar as portas para a multiplicag o desses grupos. Na sua redagAo original, como se mos- trou exaustivamente na edigAo anterior, o projeto Sarney visava apenas dar condi6es para Macapi e Santana evoluirem da con- digao de zonas de livre com6rcio, na qual nao conseguirem se desenvolver, para fi- carem em condigAo de competir cor Ma- naus, passando a dispor de isengAo tribu- taria para a transformanao de materia pri- ma local em produtos de exportagAo. Mil quil6metros e R$ 190 mil (por cada via- gem) mais perto do litoral do que Manaus, Macapi poderia se tornar uma s6ria amea- Ca para a ZF amazonense. Foi por isso que o senador Arthur Virgi- lio Neto, do PSDB, cor a adesdo de seus conterrineos, os senadores Gilberto Mes- trinho (PMDB) e Jefferson Peres (PDT), mais a assistencia da Suframa (Superinten- dencia da Zona Franca), atropelou a trami- tag o do projeto. Diz o deputado, em arti- go publicado no journal A Critica, na sema- na passada, que tratou de "negociar a so- lugSo que, nao se podendo dar pela derro- ta da mat6ria, teria de significar todas as ressalvas a serem requeridas pelo modelo de desenvolvimento do Amazonas". CONTINUA. A 'PAo Jornal Pessoal i" QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 ~T~Z~' CONTINUAAO DA PAG I Essa said seria a "limitacao da possivel Zona Franca do Amapa a produtos regio- nais", dela excluindo o p6lo de industrial naval, "de modo a preservarmos o acumulo de tecnologia dos estaleiros amazonenses" (o que explica a estranha referencia no tex- to do projeto). A partir desse acerto, segun- do a reconstituigao do lider do PSDB, o pro- jeto foi aprovado no Senado "e passou a constar da pauta de convocacao extraordi- naria no tocante A Cimara". As coisas ficaram entao claras para Vir- gilio: "se o Governo optasse por fazer um mimo ao seu aliado, 6timo para a Amaz6- nia. Se, ao contrario, seguisse a 16gica de Palloci, econ6mica, contrariando [a] de Dir- ceu, political, e o projeto sucumbisse a meio do caminho, 6timo, igualmente. A ZFM, em ambas as situaoges, estava protegida". Garante que seu objetivo "jamais foi ou- tra Zona Franca de qualquer cor, que nao essa, vitoriosa, sediada em Manaus e que tanto bem tem feito, via Suframa, a Amapi, Acre, Rond6nia, Roraima e interior do Ama- zonas. Sem falar no P61o Industrial de Ma- naus que esta entire os mais relevantes do Pais". O Brasil todo 6 que nao compreen- deu o alcance de sua prodigiosa manobra. "No intimo", Virgilio diz que "nao acre- ditava que o projeto Sarney ia longe, su- pondo que essa era a opiniao de Mestrinho e Peres. Ele diz que estava ciente das impli- cag6es relativamente a Organizacao Mundi- al do Com6rcio, ao Mercosul e a Lei de Res- ponsabilidade Fiscal. A16m disso, havia "o poder politico real dos grandes Estados, que di para contornar no Senado, por6m nao di para derrotar na Camara". O parlamentar decidiu deixar "o barco correr", sabendo onde ele ia dar: "No ini- cio, o Governo se escondeu atras do lider do PSDB na Camara. O tempo, a seguir, desafivelou as mascaras. Dirceu tentou falar por Palloci, que falou por si mesmo: nao dava para aceitar o Projeto. A bancada do PT foi na mesma diregao. At6 o PMDB de Sarney concordou em matar a urgencia". Conclusao de Arthur Virgilio: "O Go- verno fica devendo essa a Sarney. Os 'brancos' se entenderao". Para os defen- sores da Zona Franca de Manaus, o que importava "era o risco zero para a ZFM em qualquer hip6tese. E o acordo que fi- zemos no Senado reduzia o risco a zero mesmo". O "resto" seria "conversa para boi dormir. E o povo do Amazonas nem 6 gado e nem esta com sono". Uma licao do mais deslavado cinismo, mas nao da verdade. De cinismo ha uma abundancia. Arthur Virgilio Neto, o porta- voz da social-democracia brasileira, procu- rou seu colega Sarney nao para ajuda-lo a aprovar seu projeto, mas para mina-lo. Ten- do conseguido os seus intentos, passou um atestado de burrice a Sarney, que dele nun- ca fez jus. Quatro d6cadas de sobreviven- cia as mudancas de regime e de governor aconselham maior considerag~o para com o ex-presidente. Admita-se, por6m, que Virgilio foi mais esperto. Ele garante que, mesmo se supe- rasse todas as cascas de banana jogadas no seu trajeto e fosse aprovado, o projeto Sarney nao prejudicaria a Zona Franca de Manaus gragas a emenda supressiva apre- sentada pelo senador amazonense, restrin- gindo de tal forma os beneficios da isen- cao tributiria que as demais areas favore- cidas nao poderiam competir com o mu- nicipio da capital. Isso 6 balela. Provavelmente Sarney concordou corn a modificacgo do seu tex- to original por ver no substitutivo de Vir- gilio brechas para uma extensao integral do tratamento fiscal favorecido. Mas ain- da que isso nao viesse a ocorrer, o p61o industrial de Manaus perderia dinamismo e a Zona Franca Verde de Eduardo Braga estaria minada pela competigao dos de- mais Estados da Amaz6nia Ocidental, so- bretudo Rond6nia. Ao contrario do que diz Virgilio, a atual zona franca quase nada fez em favor desses Estados. Ou entao o senador Sarney nao ter-se-ia movimenta- do para arrancar a socapa a lei para Ma- capa e Santana. E os representantes de Rond6nia, Roraima e Acre nao teriam im- posto a inclusao de seus Estados (enquan- to os soberbos senadores paraenses dor- miam a sono solto) Se o substitutivo Virgilio era tao vantajo- so, por que ele foi ardilosamente apresen- tado ji no plenario, quase clandestinamen- te, quando a tramitagao era de urgencia (que nao comegou na Camara dos Deputados, ao contrario do que diz o politico no seu arti- go, mas no pr6prio Senado, graCas a um acerto de Sarney com o PT e Lula, tao forte que o senador Aloizio Mercadante, o mais votado de Sao Paulo, depois de ter assinala- do sua oposicao a iniciativa, admitiu que teria que votar com ela porque essa era uma exigencia do Palacio do Planalto). Agora, se todas essas considerag6es sao improcedentes e vale apenas o que diz o senador, conclui-se que ele esta mais ou menos como Winston Churchill na Segunda Guerra. O primeiro-ministro disse que se aliaria ao diabo contra Hitler se isso fosse necessario para derrotar a Alemanha nazis- ta, que estava destruindo a Inglaterra. O senador Arthur Virgilio Neto tamb6m seria capaz de se unir ao diabo para favorecer a Zona Franca de Manaus. Ao contrario de Churchill, por6m, o Ama- zonas nao est~ em guerra. Mesmo porque a suposta ameaga nao viria de uma nagao es- trangeira, mas de um Estado da mesma fe- deragao. Federacgo que o ardiloso senador estava disposto a enfraquecer e, se fosse o caso, fazer desaparecer. Felizmente ele nao pode tanto quanto pensa que pode. DIREITO * Na primeira turma de Direito formada pelo Cesupa, 31 sao mulheres e 19 homes. O matriarcado se consolidou de vez nos f6runs paraenses. SONETISTA * Rodrigo Barata nos apresenta um soneto modern e audacioso em Dermes e Vicios, um pequeno livro (31 paginas), quase experimental, no qual reuniu 10 sonetos, ilustrados por Renato Pantoja. Sao versos carregados de erotismo, sensibilidade e argtcia, alegres e descontraidqs, arejados pela heterodoxia do autor, que n~o levou em consideragao certa sisudez formalista do genero, conseguindo resultados tao bons quanto, na forma picaresca, os de Reynaldo Jardim. Se uma ou outra solugAo nao chegam a satisfazer, 6 porque o poeta ainda esta atras do melhor. A perfeigao, final, 6 uma meta. EDICAO * A diagramagao do niimero anterior, trazendo algumas mudancas, foi reprovada - integral ou parcialmente - pela maioria dos leitores. Curvando-se ao veredicto, esta edigao modifica as modificac6es em busca da aprovagao da maioria. Aguarda-se pelo novo pronunciamento. Cor o devido alerta: s6 tem direito de voto quem compra o JP. Comprem!!! SFEVEREIRO DE 2004 I" QUINZENA Journal Pessoal Francis ainda vive? Sete anos depois, sobrevive a boa ficgSo do jornalista que margeava a hist6ria Hermano Alves, grande jornalista, se dirigia para uma entrevista coletiva (acho que dos donos do petr6leo da Opep), num hotel de Lon- dres, quando cruzou com Paulo Fran- cis, que saia do elevador e se dirigia para o restaurant, em busca do caf6 da manhA. Para onde vais, "o Hermano" - tonitruou Francis, do alto de seu ego. Hermano explicou que ia cumprir a tarefa que motivara sua viagem a ca- pital inglesa. Impivido, Francis conti- nuou sua caminhada na direcgo con- trdria a da noticia. Ja sei de tudo que vAo dizer - ainda justificou-se. Hermano ia retomar a passada, mas se voltou para o quase-companheiro: Francis, me faz um favor. Pode dizer, Hermano assentiu o invisivel diarista da corte novaior- quina cor sua magnanima gentileza. Segura o mundo pra mim enquan- to eu estiver na entrevista. Dizem os cronista que a hist6ria nao 6 lenda. Verdade pura. Ficticio ou verdadeiro, o epis6dio serve para definir quem foi Paulo Francis, o ho- mem que neste mes complete sete anos de morto. A data nao passard nas chamadas brancas nuvens. A Francis, editor criada pouco tempo atrds pela her6ica vi6va, a escritora e jornalista S6nia Nolasco (em socieda- de cor o jornalista Wagner Carelli), estd publicando as obras completes do patrono da casa. A empreitada comerou pela reedi- cAo de duas das tr&s obras de ficgao cometidas por Francis, Cabega depa- pele Cabega de negro partiess de uma prometida trilogia, que ficou sem sua obra derradeira, Cabega). Artigos e rememorac6es completarAo o esforgo de nao permitir que as cinzas do tem- po cubram definitivamente a biogra- fia de Franz Paulo Trannin da Mata Heilborn, apagando-a. Deverdo ser renovadas as velhas d6vidas epistemol6gicas sobre o va- lor de cada uma das faces (ou ativi- dades) exibidas ou desenvolvidas por Francis no curso de meio s6culo de vida p6blica. De minha parte, ji nao ha mais d6vida. Apenas o jornalista sobreviverd, mas na sua face de cro- nista de usos & costumes, ou dos faits-divers, do vaudeville cultural e da conjuntura political. Francis bem que tentou, mas nun- ca conseguiu ser um reporter. A pre- sungdo, em boa media procedente, nao Ihe permitia ir atras dos fatos, mesmo porque, se seguisse o rastro do varejo informative, perderia a fluen- cia e o veneno do seu estilo, muito melhor do que o home. Tamb6m nunca chegou a literatu- ra. Dos tres romances que tentou construir (o verbo cabe nesse caso, dada a artificialidade do produto), o unico perene 6 o quarto, que nao pode ser classificado a rigor de fic- gao: 6 o Afeto que se encerra, uma mem6ria deambu- lante, sem obriga- go de fazer remis- sao a bibliografia ou acender uma vela a exatidao. , Francis nunca se permitiu ser exato. Nao ia diminuir a velocidade da sua mAquina de escre- -m _ ver (e, depois, do computador) para ir atris da confirmagAo do que estava dizendo. Deixou um flanco enorme para seus critics azedos explorarem. Quase tudo que Fernando Jorge cole- tou de gags e cacos do visconde de Ipanema 6 exato. Mas Fernando Jorge 6 um chato. Falta-lhe um rtimo da cri- atividade, da energia, do humor e da ironia que fazem da leitura de Francis uma fonte de prazer e de motivagco, independentemente de acreditarmos no que ele escreve ou de ser verda- deiro o que diz. Nesse sentido Francis fez boa fic- g5o. Mas como um jornalista que mar- geava a hist6ria sem preocupagAo de definig o, girando sua metralhadora de munig o inesgotAvel, para usar a ve- lha e sempre eficiente imagem. O me- lhor que ele legou 6 o que escreveu movido pelas circunstancias. O que pretendeu como definitive evaporari. Ninguem amou Paulo Francis como Paulo Francis, mas e por isso mesmo - ele nao teve autocritica capaz de edita-lo, fazendo-lhe a selegSo. Por isso sera maltratado at6 que, numa ge- ragAo mais A frente, possamos encard- lo nao como profeta, visiondrio ou ar- tista a frente da sua 6poca, mas naqui- lo que ele foi plenamente: um home do seu tempo. Essa 6 sua marca forte, pessoal e intransferivel. Os Daniel Piza sdo o pastiche que ficou, criaturas nascidas in vitro em torres de marfim e labora- t6rios. JA envelhecido e emparedado por seu egotismo, Francis terminou assim, suscetivel a qualquer virus. Quiseram responsabilizar o entAo pre- sidente da Petrobris, que iniciava um procedimento judicial na justica ame- ricana para reparar sua honra, supos- tamente ofendida por artigos do jor- nalista, quando um enfarte fulminou Francis, ele ainda ativissimo intelectu- almente, aos 67 anos de idade. Besteira. Todo jornalista precisa es- tar preparado para esse risco, princi- palmente o jornalis- ta que diz o que quer. Francis s6 mergulhou na crise porque seu mundo real havia se torna- do uma bolha as- septica. Ele se havia isolado atrAs de li- vros, gatos e miasmas, mas projetava para o p6blico externo a imagem de um pretense super-homem. Cor tudo isso, ele deixou um vA- cuo. Um direito nAo se Ihe poderd ne- gar: a conquista do pr6prio espaco. Ele se formou testemunhando fatos, indo para as ruas (ainda que em tran- sito para apartamentos, boates, tea- tros, cinemas e livrarias, os tais basti- dores, mat6ria prima para um tipo de jornalismo sempre valioso), usufruin- do o privil6gio de uma mem6ria vo- raz a service de leituras inventivas (ou "desconstrucionistas", no sentido da "obra aberta" ou qualquer outra defi- nicao academi'ca), sem limitac6es de lingua. Ou seja: um tipo raro no jor- nalismo brasileiro, provinciano de regra. Jornalista foi criado para ler, antes de escrever. Dai essa sensacgo de precariedade que nos fica ap6s a leitura dos jornais de hoje. Leitura que jA nao fazem muitos dos que fazem esses jornais. Francis nao era para usar como re- ferencia para nada. Nele, o melhor era seu efeito estimulante para superi-lo ou supri-lo. Dai o afeto intellectual que provocou nos que o tomaram confor- me esse parametro. Afeto que, como se sabe, nunca se encerra. Jornal Pessoal Io QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 A pequenez do governor No arena dos gigantes da mineraodo e do metolurgia no Pard O process de licenciamento ambien- tal da mineragao de bauxita da Com- panhia Vale do Rio Doce em Para- gominas foi concluido pela Sectam (Secre- taria de Ciencia, Tecnologia e Meio Ambi- ente) com aprovag~o t6cnica. Ha quase oito meses foram realizadas as audiencias pdbli- cas, que avaliaram e endossaram o EIA-Rima (o estudo e o relat6rio de impact ambien- tal). Desde entdo, o projeto sofre um em- bargo de gaveta. Cumpridas todas as forma- lidades t6cnicas e legais, conferida a legiti- midade social, a tramitacAo depend agora da vontade do trono. No caso, o trono re- publicano do governador SimAo Jatene. Ningu6m diz mas todo mundo sabe do que esti acontecendo: 3 o licenciamento e 6 mantido como uma es- p6cie de ref6m. S6 ser liberado quando a Vale cumprir o compromis- so, tao informal quan- to o embargo de gave- ta, e do mesmo diapa- sao moral, de compen- sar o Pard pela perda da fibrica de places de ago, que sera implan- tada em Sao Luis do Maranhdo. A compensacAo cobrada pelo governor do Estado 6 a construgAo de 30 mil casas populares na area de influencia de Carajis. A CVRD, que nao 6 empresa de construcao civil nem disp6e de recursos especificos para essa atividade, diz que cumprird o com- promisso, mas esta atris de financiamento compativel com a empreitada. As datas para a efetivacgo do ato vem sendo sucessiva- mente adiadas. Uma hist6ria que comerou torta inevita- velmente acabard torta. Desde a origem. O governor contratou uma empresa de consul- toria para acompanhar os estudos de locali- zacAo da siderirgica, sem se importar que esse custo fosse bancado pela pr6pria CVRD. Os estudos concluiram apontando Sao Luis como o melhor lugar para receber a fibrica. O consultor avalizou o trabalho, consideran- do-o tecnicamente correto. Todos se curva- ram ao veredicto, inclusive o governor. Mas ele exigiu que a derrota fosse compensada. Admita-se que a attitude procede. Qual seria a compensagao legitima e adequada? A meu ver, nao a construgco de casas, ativida- de que nao consta da cesta de neg6cios da Vale. Mas a empresa se comprometer a be- neficiar os minerios que extrai in natural. i $ Nao se ird exigir que ela implante um em- preendimento antiecon6mico, claro. O que deveria fazer seria oferecer todas as condi- GSes para ensaios sobre a industrializacAo do min&rio de ferro, do aluminio primario, do concentrado de cobre, do fosfato e do mangan&s. A empresa nao executaria mais sozinha essas tarefas: daria apoio financeiro para a contratacAo de assessorias e a qualifi- cacao do corpo t6cnico do Estado. Nada de jogo de cartas marcadas ou de cabra-cega, como tem sid o hist6rico do relacionamen- to entire a CVRD e o Pard. O mesmo procedimento se aplica a utili- zacAo da jazida de bauxita de Paragominas. O governor nao tem o direito de criar um des- vio clandestine na tra- mitagAo regular do li- cenciamento ambien- tal, estabelecendo uma instincia que mergulha no subsolo da informa- lidade. Se os estudos f sAo consistentes tecni- camente e se a socie- dade nao impugnou a atividade nas audienci- as piblicas, o que cabe a administracgo p6bli- ca 6 convocar o Con- selho Estadual de Meio Ambiente para a apreciacgo final, as claras e conforme parimetros legais. O que se espera de um governor sintoni- zado cor seu tempo 6 sua atencAo para o novo impulse do p6lo de aluminio no Esta- do. Nao deve ser casual que os gigantes do setor estAo se movimentando nos bastidores e medindo forcas no mercado. Ha um nexo nesse movimento. A mina de Paragominas 6 vital para que a produgao de alumina da Alu- norte pule dos atuais 2,4 milhoes de tonela- das para 4,2 milh6es de toneladas. O preco desse insumo esti excepcionalmente alto. Grande parte do produto sera exporta- do, assegurando a rentabilidade da Alunorte e sua autonomia em relagAo a Albras, irmA siamesa no distrito industrial de Barcarena. Mas desse crescimento nio resultard ne- nhum avango na cadeia produtiva? Ela con- tinuard a se restringir ao discreto aprovei- tamento do aluminio liquid pela indistria argentina instalada ao lado? Num moment em que a Alcoa anuncia investimento de 1,4 bilhdo de d6lares na mina e na ind6s- tria de alumina em Juruti, o que o governor do Estado tem feito da uma ideia de sua pequenez na arena dos gigantes da mine- racdo e da metalurgia instalados no Parn. CARTA * Estou de acordo corn tua id6ia sobre a necessidade so- cial da critical das manifesta- gOes culturais, principalmen- te quando envolvem a pro- ducao da academia e 6rgdos de pesquisa. A louvag~o pode ser um modo de exer- cer a critical, se se quer dar destaque ao bom, silencian- do ou pondo em surdina o restante. No Para, a louvagao dos events realmente im- portantes 6 rara. Autores, ar- tistas e cientistas locais vivem quase sempre a sombra do esquecimento. Meu objetivo foi encorajar. Eu tamb6m notei certas au- sencias no program do Se- minArio Landi, mas teria con- trariado meu objetivo se sais- se a cata de defeitos. Por outro lado, nao devias ter vestido a carapuga ali- as, amigos falam entire si de outra maneira. Como quase advinhas, eu por acaso nao conhecia teu artigo. Cordialmente, Roberto Santos MINHA RESPOSTA Com esta carta, Roberto Santos esclarece: nao foi em resposta ao meu artigo que ele escreveu o seu para O Liberal, louvando o semini- rio international "Landi e o seculo XVIII na Amaz6nia", realizado em novembro do ano passado, em Bel6m (ver Jornal Pessoal 315). Rober- to nao tem lido este journal. Continue a dele discordar, cor ou sem carapuca. O Pard precisa de critical, muita criti- ca, global e especifica. Criti- ca nao 6 hagiografia nem hos- tilidade. I exame atento, cir- cunstanciado, elucidativo. Dela podem resultar elogios ou restrig6es. Raramente uma obra 6 s6 acertos ou s6 erros. Combina todos os elements e 6 nessa complexidade que deve ser examinada. O Pard sofre tanto pelos que nao viram ou nio leram e nao gostaram como pelos que, igualmente sem ver, adoraram. Tudo vago, an6- dino, postigo, que nio faz a miquina da consciencia 8 FEVEREIRO DE 2004 I" QUINZENA Jornal Pessoal > avangar. Mas basta um v6o de pissaro pelas piginas da imprensa paraense para ve- rificar que, sempre com uma incompetencia de regra, lou- va-se muito mais do que se crucifica. No caso do seminario, como s6 houve confetes e serpentinas por escrito, en- tendi que Roberto respondia ao Onico texto critic, o meu, no qual havia alguns elogios e duas Onicas restrig6es. Mas meu amigo diz que escreveu genericamente, sem sequer ter conhecimento do meu ar- tigo. Muito bem. Entao que as vozes an6nimas quebrem, em relacgo ao seminirio sobre Landi, a timidez que as fez recuar no caso da entrevista do pesquisador David McGra- th. Como fui o 6nico a colo- car em letra de forma meu pensamento a respeito, in- competente, quem sabe, mas assumido, mais uma vez fico exposto ao risco de envergar carapuca alheia. E o prego. Afinal, parafra- seando o senador de cabecei- ra do PT, tudo pelo social. O resto 6 silencio. ERRATAS Entre os varios errinhos cha- tos, exige correco a data de validade da Zona Franca de Manaus, depois da iltima emenda constitutional, que um erro de digitagAo desastro- so modificou: 6 2023, nao 2013. O nome da diretora do cur- so N. S. do Rosario de Fatima, citada na "Mem6ria do Cotidi- ano", 6 Almira Bordalo da Sil- va e nao Bordando, nome que ficaria melhor no program do Casseta e Planeta. Ja o seria- do do cinema, na mesma se- gao, 6 Texas Granger e nao Texas Ranger. Os 57 milh6es de d6lares que Lula pretend gastar no seu jatAo executive presi- dencial permitiria tender pelo program Bolsa-Fami- lia 185 mil e nao 185 fami- lias, 6 claro. A nao ser que essas 185 fossem as fami- glias do poder. A carta do leitor 6 de Ro- dolfo Lisboa Cerveira. 0 sopro da more na pagina de journal Muitos intelectuais fogem das piginas de journal como o diabo da cruz. Parecem convencidos que nelas esconde-se o virus do efemero. Nao apenas nao escrevem para jornais como tem o cuidado cir6rgi- co de jamais citar jornais em suas biblio- grafias enormes. A refernncia a um texto said num 6rgAo de imprensa poderia re- presentar o risco de banimento do mundo academic perante uma banca examina- dora de tese ou uma n6doa insanAvel em curriculo encaminhado as agencies de clas- sificagAo de QI universitario. Em certa media, sem a syndrome que transform o cuidado em patologia, es- ses academicos terdo li suas razoes. Um jornalista nem sempre se preocupa em identificar a fonte de referencia de seus dados ou pontilhar seu texto de nimeros entire parents que remetem o leitor para um centilhAo de obras protegidas pelo imprimatur dos donos do saber. O des- cuido metodol6gico pode ser fatal para a obra enquanto element de continuida- de do conhecimento o acumulado e o acumulivel. Tenho vivido na care essa experien- cia, como um ser hibrido entire as salas de aula (e de conferencias) e as redag6es. As vezes, quando vou a langamento de livros, jA aconteceu de o autor do livro, ao auto- grafi-lo, agradecer por minha contribui- gio a nova obra cientifica, sem que haja no corpo do texto a menor referencia a esse d6bito. O c6mulo dessas situag6es foi quando o autor, al6m do aut6grafo aten- cioso e generoso, juntou uma esp6cie de para-texto, dizendo o que no livro em si foi omitido sobre minha influencia na cri- acao. Entendo e calo-me. Afinal, sao os ossos do oficio. Quem quer fazer carreira precisa se ajustar aos canones da elite aca- demica, refratiria a esses elements da transitoriedade, que perdem vigencia an- tes mesmo que as paginas do journal co- mecem a amarelar. Mas sera que tudo o que vai para a im- prensa esta condenado a ser efemero mes- mo? Datado como sou, nunca me importei muito cor esse mandamento da tAbua das leis do saber. Leio journal com enorme pra- zer, inclusive nos tempos atuais, quando esse prazer 6 vasqueiro. Certos textos, que sempre leio e releio sem perder a graga e o encantamento, s6 consigo ler na sua mol- dura jornalistica. No format mais sisudo e exigente do livro, a espontaneidade da fruigAo desaparece. No entanto, ha os que se mostram cada vez maiores com o tempo. Uns acabaram por adquirir status de obra literaria ou ci- entifica, ou as duas coisas. Outros ficam prisioneiros de seu format at6 serem lo- calizados por algu6m de olhar clinic, como aconteceu cor SousAndrade e os irmAos Campos. Elias Pinto, fazendo o necrol6gio de Paulo Francis na sua pagina de leitura do Didrio do Para, no domingo passado, diz, com exatidao, que Francis gostaria de ter a expressAo que Gore Vidal e Tom Wolfe alcangaram nos Estados Unidos como jor- nalistas e escritores, mas que tera sorte "se nao acabar feito Joao do Rio, Hum- berto de Campos e Benjamin Costallat". Elias acha que Francis 6 maior do que to- dos esses. Nao acho. Joao do Rio (batismo literi- rio de Paulo Barreto), por exemplo, ape- sar do relangamento de seus livros e do recebimento critic favoravel, me parece muito menos interessante do que seu gran- de e mordaz critic na imprensa da 6po- ca, o mineiro Ant6nio Torres, um diabo que pulou do altar da Igreja para os infer- nos da ironia e do sarcasmo, sem com isso deixar de seguir a carreira diplomatic, algo inusitado para um negro como ele naquele period entire as duas grandes guerras mundiais. Costallat 6 mesmo efemero, mas o mes- mo nao se pode dizer, sem cometer grave injustiga, do maranhense Humberto Cam- pos. Infatigivel leitor de seus livros (cer- tamente pelo menos meia centena), espan- to-me corn sua qualidade. Nao cai nunca para o nivel de nosotros, quando obriga- dos a escrever todos os dias. Cultura am- pla, mem6ria prodigiosa, escrita leve e sa- borosa, ironia tao bem cultivada que cer- tamente fez alguns chens (ou jabacul6s) sem deixar de gozar o patrocinador. Nada do que deixou Ihe mancha a me- m6ria. Virou nome de municipio em sua terra. E completamente ignorado no Pari, que o acolheu e o fez tornar-se escritor e jornalista, pontificando na grande redagao de A Provincia do Pard, do estranho me- cenas Ant6nio Lemos. Humberto 6 um caso de efemeridade ime- recida a contrastar cor tanta imortalidade mediocre, com os sem titulo academico. Jornal Pessoal I QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 em6ria SDO OIDIANO Vapores Em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, cor suas restric6es ao comercio de cabotagem, a Papelaria da Moda (situada confrontt" A Sapataria Carrapatoso, na rua Joao Alfredo), anunciava que havia recebido "pelos iltimos vapores" uma "linda colec~o de artigos para presentss, que estava exibindo em suas vitrines. Os "vapores" costumavam ser afundados por submarines alemaes no litoral brasileiro nessa 6poca. Livros Em 1955 a Livraria Olinda (Rua 13 de Maio, 220) anunci- ava as "novidades literarias" que acabara de receber: "As Amargas, nao...", mem6rias de Alvaro Moreyra, "o maior cro- nista vivo no Brasil", em 32 edigAo; "Cafe Society", de Ary de Andrade, em 22 edigAo, e "Os Ultimos Dias do Governo de Vargas", de F. Zenha Ma- chado, a reconstituig~o "dos 20 dias que abalaram o Brasil", entire o atentado da rua Tone- leros e o suicidio de Gettilio Vargas, no ano anterior. Radio Em 15 de outubro de 1955, um sabado, foi a audigSo de estreia do "famoso program" Mtsica, Premios, Alegria!!, "o maior program de audit6rio dos uiltimos tempos", na Al- deia do Radio, no Jurunas, as 16 horas. Teria a participagAo da Jazz Orquestra do Radio Clube do Para, grande regio- nal, orquestra de cordas, Na- morados Tropicais, Ary Lobo, Geruza Souza, Celia Rosal, Joao Silva, Edson Melo, Luiz Fernando, Carlos Rafael, Can- tuAria & Banhos. Quem comparecesse ao audit6rio da PRC-5 participa- ria do sorteio de um "maravi- lhoso radio Phillips" no valor de 6,5 mil cruzeiros, oferta de Eurico & Cia. Outros patroci- nadores do program: Cami- saria e Modas 3.900, Lima Ir- mao & Cia., Angona Repre- sentag6es., Lojas Itamaraty, Sapataria Moderna, Rendeiro Auto-Pecas, Colchao de Mo- las Ypiranga, Fued Michel Quemel e Guarana Brasil. Seria um "contagiante sa- bado alegre". Luta Belem veria, em novembro de 1956, os mais famosos lu- tadores de vale-tudo, jiu-jitsu e catch-a-can do Brasil, como George Gracie, Takeo Yano, Waldemar Santana, Luiz Car- los de Mello, Guanair Viac e Ottuki (Leao do Oriente). Eles participariam de quatro lutas preliminares de quatro "roun- ds" (tres minutes cada) e uma final, "a maior luta ja realiza- da no Estado do Para", de oito "rounds" de cinco minutes. O ringue seria armado na "praca de desportos do Clu- be do Remo". Funcionariam como postos de venda de in- gressos o Loyde Aereo (em cujos avioes os atletas viaja- riam), Cafe Santos, Lojas Seta, Confeitaria Palace, Casa das Canetas e Confeitaria Plaza. Justiga Em 1958 o juiz Agnano Monteiro Lopes, da 64 vara civel de Belem, recebeu o apoio da OAB do Para pela sua defesa da "necessidade de uma reacao no sentido de center o Poder Executive dentro de seus quadros legais, impedindo- o de transport a area constitucionalmente reservada ao Judiciario e ao Legislative". Agnano, um dos primeiros magistrados negros do Para, descortinava diante de si "um panorama deveras contristador", vendo um Executive "cada vez mais forte e arrogante, abusando da forga do dinheiro de que disp6e para intimidar e corromper os elements sensiveis dos outros poderes. Pocos sao os que o animo de luta e o espirito de sacrificio nao se deixam dobrar pela covardia, nem pelo interesse". Garantia que sua voz, "ainda que isolada, se erguera toda vez que a Justica for vilipendiada, principalmente pelos que tem o dever de honra-la e enaltece-la". Agnano Lopes foi promovido a desembargador e chegou a presidir o Tribunal de Justiga do Estado. O vento levou suas palavras, mas o tempo as devolve. Continuam atuais. Mas nao tem passado de palavras. Vitrines O Magazine 3.900 venceu, na edigao de 1958, o concur- so de vitrines promovido pelo Sesc-Senac e a Agao Ca- t6lica do Para. Em se- gundo lugar I ficou a loja Modas Rivo- li e, em ter- ceiro, as Lo- jas Mundial. . Nenhuma - delas conti- nua viva para contar a hist6ria. Extrativismo Sobral Santos S/A Expor- tadores garantiam que paga- vam, em 1963, "os melhores pregos" aos que lhes vendes- sem magaranduba, balata, ju- taicica, copaiba, cumaru, ca- cau, pimenta, castanha "e outros produtos da regiao". Era a economic do extra- tivismo que ainda sobrevivia. JK Atraves de Isaac Soares, "ilustre amigo e correligiona- rio", que era o vice-prefeito de Belem, o senador Jusceli- no Kubitscheck mandou uma mensagem aos paraenses, datada de 17 de fevereiro de 1964, um mes e meio antes do golpe military que proscre- veria JK da vida p6blica bra- sileira. Era uma autentica pla- taforma eleitoral, Juscelino de olho na dispute presidential prevista para 1965, pela qual imaginava poder voltar ao Palacio do Planalto. O senador por Goias pro- metia que iria assentar 60 rur6polis ao long da rodo- via Belem-Brasilia e outras 60 rur6polis na Brasilia-Acre, que viriam a ser "um pass decisive para o aproveitamen- to de imensas glebas ainda nao cultivadas". Iniciaria e concluiria o asfaltamento da B-B em 18 meses, colocando- a como "um dos poderosos instruments a serving do progress do Norte" Televisao Em fevereiro de 1965 a TV Guajard comprou todo o l6timo andar do edificio Manuel Pinto da Silva para nele instalar os estidios e transmissores da emissora, que comegaria a funcionar nesse ano. De propriedade da familiar Lopo de Castro, a emissora, "genuinamente paraense", como fazia questao de destacar, era a segunda televisao do Pard (a familiar tambem era dona da Radio Guajara). A pioneira foi a TV Marajoara, da rede dos Diarios e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, a Rede Globo da epoca. Do "maior predio do Norte do Brasil", a 120 metros de altura, as antenas da Guajara estariam "dominando toda a cidade e assegurando grande raio de acao". O contrato de venda do conjunto de apartamentos foi assinado pela diretora- presidente da TV Guajara, ConceigAo Lobato de Castro, e o proprietario do edificio, Manuel Pinto da Silva. O entao deputado federal Lopo de Castro e o jornalista Linomar Bahia, diretor-superintendente da Radio, Editora e TV Guajara, foram testemunhas do ato. SIn FEVEREIRO DE 2004 I1 QUINZENA Jornal Pessoal Imortais I I Hoje! As 15 e as 20 hora 0 reitor da Universidade Federal do Para, Jos6 da Silveira SENSACIONAL ESTReIA! Neto, e o arcebispo de Bel6m, d. Alberto Ramos, nao tiveram TOUma sensacf concorrentes para chegar a imortalidade na Academia Para- nova em cadt ense de Letras, que pleitearam em 1965. Silveira recebeu 17 cena votos, ocupando o lugar de Raul Braga, primeiro reitor da UFPA. O arcebispo foi eleito por unanimidade para a cadeira Z.. . A sessao, presidida pelo academico-governador Jarbas Passarinho, compareceram outros 12 imortais: Jos6 De Cam- pos Ribeiro, Silvio Meira, Miguel Pernambuco Filho, Murilo Meneses, J6lio Colares, Feliciano Seixas, Cindido Marinho da Rocha, Georgenor Franco, Alonso Rocha, Apio Campos, Abe- lardo Conduru e Jos6 Maria Conduru. Por carta, votaram Paulo Maranhio, Aldebaro Klautau, Thomaz Nunes, Wenceslau Costa e Ernesto Cruz. I VEJA POR QUE UMA LATA DE 6LEO A "PATROA" re~ ma do rhm -e. ., MEDOPUE Sif/, .JOEL McCREA DOMINA AV GAIL RUSSE LL 7M N A S / IeO M ll M on i nM llI**.... S^ H / IERBERT MARSHALL .**""- - m9 PROPAGANDA SESSAO CINEMA )r O Olimpia apresentava esse filme em duas S^ a sess6es, uma a tarde e outra a noite, em abril de 1947. Cinema, naquela 6poca, vendia ilusoes. Mas como vendia bem! Antes de entrarmos, saboreAvamos por bons moments as sugest6es e sedug6es dos magnificos cartazes. Nao era mesmo, mestre S' r Pedro Veriano? Fabricado por process de refinacIo complettfi o 6leo 'A PATROA* nio tomr o g6sto dos alimentos. Isto represent grande economic no uso. 0 OLEO PATROA porque.permite o aproveitamento integral da nesmalporcio emdiversas frituras, deixan- Submetido a refinag~o integral, o 6leo "A do-aslevese saborosas. Patroa" nao tomava o gosto dos alimentos. De uma li'da6r deouro,o leo 4A PATROA* Por isso, podia ser usado varias vezes, Scomi'etaunkntefi nodoro -'puriwimo sen- possibilitando maior economic a dona de 'do, por.isto, excelente tamb6m, pa casa e garantindo leveza e sabor as frituras. ra q ladas e maion6cs. Por sua "linda cor de ouro", atestando sua *;E* pureza, e por ser completamente inodoro, o S6LEO p 6leo da Swifit do Brasil tamb6m era excelente para saladas e maioneses. Pelo menos era o que proclamava a Swro ft do Br l propaganda, sem o contracanto de pessoas Bu< ,oofuro DA O r Dasil bem informadas, como as gerag6es safde dos nossos dias. Para a qual 6leo patroa ______ __ significa outra coisa. Mas a origem da popular expresso pode star no puro e fino 6leo comestivel. Jornal Pessoal I- QUINZENA FEVEREIRO DE 2004 4 Centro confuso A prefeitura esti certa em retirar as horrorosas places de propaganda que cobrem as fa- chadas das lojas no centro his- t6rico de Belem. Quem, ao con- templar o perfil original dos pr&- dios, nao se convencer de que a forma anterior 6 muito melhor do que os monstrengos atuais de concrete e metal, deve ser obri- gado a freqtientar um curso de alfabetizagio estetica e de bom senso. Um trabalho de restaura- gdo, por minimo que seja, nao terd apenas o efeito de preser- vacAo arquitet6nica e hist6rica. Certamente atraird mais clients. Mesmo desinformadas, as pessoas costumam ser capazes de distin- guir o bonito do feio. A prefeitura esta agindo certo, mas pode nao resolver o problema da desfiguragdo do centro velho de Belem. Outros ja fizeram o mesmo e falharam. O prefeito Edmilson Ro- drigues esti repetindo os erros do passado. Em primeiro lugar porque o PT nao planeja e, quando planeja, nao executa o que foi estudado. Enquanto trata de limpar as fa- chadas das lojas, a prefeitura nao pode con- tinuar a obra da Via dos Mercadores, no eixo Joao Alfredo-Santo Ant6nio. Nao 6 s6 por falta de dinheiro, fen6- meno recorrente numa administraqao que Por forga da responsabilidade que seu dominio de mercado lhe imp6e, 0 Liberal nao devia se mostrar tao relaxado com a mem6ria coletiva, que Ihe cabe registrar no acompanhamento da vida cotidiana. Mas seu desleixo evolui (ou involui) cada vez mais. O exemplo mais recent foi o obituario de Luiz Paulo Freitas, falecido na semana passada. Luiz Paulo trabalhou na casa por tres d6cadas. Foi reporter, reporter especial e colunista. Em alguns moments representou o journal e foi sua image. Nada do que fez no journal apareceu na magra noticia da sua morte, aos 58 anos. A empresa nao divul- gou uma nota f6nebre sua. A cobertura do sepultamento foi pifia. Um representante da casa, cor quem busquei uma explicacao para essa atitu- de esdrixula, me deu uma explicacao mais espantosa ainda: nao havia ningu6m na redagao que pudesse tragar o perfil do morto. Outra fonte me deu explica- gco completamente diferente, relaciona- : trata o orgamento como cri- agAo ficcional. t porque os L projetos el6trico e de es- goto nao foram aprovados por quem de direito. Por isso, o calgamento teve que ser interrompido. Inacaba- da, a obra transmite uma im- pressAo de descaso e aban- dono, que estimula o des- respeito ao que jA foi feito e, na evolugAo, a perda par- cial do investimento. O que falta 6 a adminis- tragAo municipal seguir um enredo complete, do principio ao fim, ta- refa de que da conta o planejamento, e nao preparar esse picadinho varejista. Nao s6 pulveriza esforcos e recursos. Em- preitadas isoladas nem sempre guardam coerencia entire si. Outras vezes, o que 6 anunciado nao casa cor o que se faz. E o caso dessa infeliz ideia de bondinhos no centro engarrafado, que vai ficar um pouco pior com a tragdo de novos veicu- los pelo estacionamento do buraco da Palmeira. E trata-se de bondinhos el6tri- cos. Como vira a eletricidade? Area, como a anacr6nica fiagao do centro co- mercial, ou subterrAnea? t o que da administrar pelo m6todo in- fantil de ensaio-e-erro. da a um distanciamento entire a empresa e o jornalista. Nao importa a explicacao. O fato obje- tivo 6 que o puiblico e as novas gerag6es de jornalistas ficaram sem um registro com- pativel cor a importAncia que Luiz Paulo teve para a imprensa paraense. Era fiel re- presentante de uma geragao de profissio- nais formados nas ruas e que delas extrai- ram as fontes de sua energia e vitalidade, passando em frente as informaa6es de to- das as camadas da sociedade. Circulava in- cansavelmente, com a curiosidade alerta para os fatos novos ou interessantes. Essa sintonia era a responsavel pelo sucesso, durante varios anos, da coluna Zing, que acabou incorporada ao seu nome, tao iden- tificada ela estava com seu autor e este cor aquilo que 6 a essencia do jornalismo: a sintonia com as vozes das ruas. Infelizmente, a rapidez do reporter, sin- tetizada na onomatop6ia, com a qual Ana Diniz e Luiz Pinto o rebatizaram, acabou sendo a da sua morte, tao precoce. BENE Benedicto Monteiro escreveu uma das maiores obras da literature amaz6nica, Verde Vago Mundo, no inicio da decada de 70, rara combinacAo de criacao cerebral e instinto. O livro seguinte, Minossauro, tem alguns altos moments e outros menores. Bastariam esses dois titulos para credenciar Benedicto, independentemente da irregular bibliografia que se seguiu, a bem realizar seu atual projeto, de ingressar na Academia Brasileira de Letras, hi muito tempo sem receber um paraense. A ABL bem que podia descer das suas tamancas para abrigar nosso escritor. Ele receberia meu voto, se voto eu tivesse no sodalicio dos imortais. Alias, a ABL me deu uma grande decepgdo outro dia. Foi ao ver a foto do admiravel Ivan Junqueira, a quem devemos tantas boas tradug6es (e versos pr6prios), brindando o novo mortal, o senador Marco Maciel, que, com o mundo das artes, guard uma 6nica relagao: o seu perfil i Modigliani. INDENIZA AO Se a decisao da 2a CAmara Civel do Tribunal de Justiga do Estado for mantida at6 a instancia final, a Editora Abril teri que pagar uma indenizacao de 350 mil reais ao juiz federal Ruben Rollo d'Oliveira. O magistrado se considerou ofendido por uma nota publicada pela revista Veja e iniciou a agAo, em 2002. Ganhou todas at6 agora. A iltima vit6ria foi na apelag~o da sentenga de primeira instancia, contra a Abril. joa Pessoal |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 36 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |