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JANEIRO DE 2004 2A QUINZENA Journal Pessoal R$ 3,00 A AGENDA AMAZ6NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO PARCIALIDADE S0 Liberal e Didrio do Pard agora se igualaram na cobertura do assassinate do vereador Addo Lopes Resplandes, S de Tucumr (ver, a prop6sito, Jomal Pessoal 315). O Didriosuprimiu c Aimoralidade eo limited? A hist6ria do projeto Sorney, estendendo a todo Amazonia Ocidentol os beneficios do Zono Fronca de Moanus. atesto a incopocidode dos liderangas omazonicas de estor a oltura do tempo em que vivem. 1989, o principal editor do Wa- shington Post, notabilizado por comandar os rep6rteres que des- vendaram o escandalo Watergate, obrigando o at6 entAo todo-poderoso president Richard Nixon a renunciar para nao sofrer impeach- ment no Congresso, por causa de suas falca- truas, quando veio pela segunda vez a Ama- z6nia. Bradlee justificou sua nova viagem dizendo que a Amaz6nia era o principal tema brasileiro nos Estados Unidos e que ele que- ria conferir in loco o que Ihe diziam suas fon- tes: de que o future do planet dependia do que estivesse sendo feito na regiAo. O fato de maior impact, na 6poca, era o record de desmatamento de toda a hist6ria da humanidade, batido na Amaz6nia em 1987. Nada menos do que 200 mil quil6metros qua- drados de cobertura vegetal, de todo tipo (sen- do 80 mil km2 de floresta densa), tinham sido postos abaixo naquele ano, 10 vezes mais do que os niveis assustadores dos dois 6ltimos anos. A maior parte dessas derrubadas nao era feita para servir a atividade produtiva, mas como uma esp6cie de habeas corpus pre- ventivo contra a possibilidade de a desa- propriagAo de im6veis rurais produtivos pelo governor vir a ser incluida na nova Consti- tuicgo, que estava sendo elaborada. Os se- nhores da terra trataram de desmatar para criar "benfeitorias", cor as quais se imuni- zariam contra a temida desapropriagAo (que acabou vindo e, na gestdo de Jader Barba- Iho no Minist6rio da Reforma Agraria, se tornou neg6cio rentAvel para os supostamen- te punidos e outros mais). Exemplos assim, A larga, podem ser apon- tados como indicadores da importAncia mun- dial da Amaz6nia, um dos temas que maior interesse provoca na sociedade contempori- nea. Neste moment em que escrevo (terga- feira, 27) ou quando o distinto leitor estiver avaliando este texto, debates estarao aconte- cendo em muitos pontos do planet motiva- CNiiTiiiNA NA PG 2'i prefeito, ja cassado pela Cimara Municipal, era atacado. Mas hi duas semanas nao divulga uma entrevista exclusive corn Celso, feita no interior da penitenciaria de Marituba. Parece que o journal nao quer dar-lhe um direito sagrado: o de defesa. Ja o Didrio exagera na p6ssima regra estabelecida nas redag6es: nao acompanhar noticidrio que foi dado corn exclusividade pelo concorrente. Como o jomal dos Barbalho boiou na revelagao da superzona franca, a ela s6 se refere homeopaticamente e, ao faze-lo, dando mais destaque ao govemador do que ao tema. Estd na hora de voltar ao be-a-bi. ~I . crP~i~Y~2~ r r CONTINUAAO DA CAPA dos pela Amaz6nia. Noticias e artigos esta- rao saindo na imprensa mundial. Livros apa- recerdo. A Amaz6nia destronou Marta Rocha, Pele, o carnaval e o futebol brasileiro da agen- da international. t o segundo tema mais dis- cutido pelos terrdqueos. Quase o mesmo acontece no Brasil. Afi- nal, a Amaz6nia ocupa 60% do territ6rio na- cional, abrigando a maior bacia hidrogrdfi- ca do planet, a maior floresta tropical, a maior fonte de biodiversidade, o maior con- junto de jazidas minerals e nimeros de gran- deza equivalent. Mas, a rigor, ningu6m leva a s6rio a Amaz6nia. Ningu6m acredita que ela tenha vida inteligente, que seja capaz de se autodeterminar. Ela nao impoe res- peito. E um gigante com queixo de vidro. Cai ao menor golpe. O epis6dio da assim chamada superzo- na franca 6 um exemplo pat6tico dessa rea- lidade. Em junho de 1999 o senador Jos6 Sarney apresentou um projeto-de-lei (que tomou o numero 414/99) para que a Area de Livre Comercio de Macapd e Santana, no Amapd, criada em 1991 (durante o governor Collor), tamb6m usufruisse os beneficios fis- cais e tributarios da Zona Franca de Manaus. O projeto foi recebido pelos pares do ex- presidente como uma iniciativa clientelista e de endereco certo: reduzir ao mAximo os custos de implantacgo de uma fabrica de ce- lulose da americana International Paper no reduto eleitoral do politico maranhense e de outras empresas que viessem a seguir. Elas ficariam isentas de impostos e ainda teriam cr6ditos a seu favor caso aproveitassem a mat6ria-prima local, transformando-a em pro- dutos de exportacgo, a semelhanca do par- que industrial da zona franca amazonense. O projeto ja tinha parecer favoravel do seu relator na Comissdo de Assuntos Econ6- micos, Bello Parga, quando o senadorJeffer- son Peres, do Amazonas, pediu vistas e, logo em seguida, requereu a realizagAo de audi- &ncia p6blica na comissao para o debate da mat6ria. A partir dai o projeto entrou em hi- bernacao, ficando paralisado ao long de dois anos. Voltou a ter vida para que os minist6ri- os da Fazenda, do Desenvolvimento, Ind6s- tria e Com6rcio Exterior e das Relaoges Exte- riores pudessem "avaliar o impact fiscal e econ8mico" da iniciativa, "bem como sua implicacgo para os paises do Mercosul". A providencia era realmente indispensavel. A Lei de Responsabilidade Fiscal condiciona a concessao de qualquer renhincia fiscal e tribu- taria a comprovacgo dos seus efeitos sobre os orgamentos p6blicos, a previsAo da perda da arrecadacao no oraamento do exercicio finan- ceiro no qual ela entrar em vigor e a adogao de medidas compensat6rias para o gasto. Ja o tratado que criou o Mercosul exclui do Ambito do mercado comum os regimes alfandegarios especiais, como seria mais esse. Aprovar o projeto sem tais exames seria iniciar um v6o cego e condena-lo a ilegalida- de. Mas a audiencia foi cancelada na sessdo da comissao de 20 de novembro de 2001 por- que Jefferson Peres estava ausente para enca- minhar seu requerimento. O projeto foi entao enviado a Comissao de Constituigao e Justiga "para exame de sua constitucionalidade e juri- dicidade". S6 no dia 16 de maio de 2002 o senador Sebastiao Rocha entregou seu pare- cer, favoravel a aprovagio do projeto de Sar- ney. Um mr s depois o senador Luiz Otavio Campos pediu vista. Devolveu o projeto ap6s seis dias sem qualquer manifestag~o. Orelat6rio foi aprovado na comissao em 7 de agosto de 2002. Jefferson Peres se absteve de votar. Mas em 31 de dezembro ele mesmo solicitou o reexa- me do projeto na Comissao de Assuntos Eco- n6micos. Passados meses, o president da comissao, Ramez Tebet, designou o sena- dor Jodo Alberto Souza para relatar a matd- ria. Em menos de um mes a minute do rela- t6rio estava pronta, sendo, final, aprovada, em 23 de setembro do ano passado, por 19 a 0, sem qualquer abstengAo. O senador Luiz Otavio Campos, o unico que pediu vistas do process, votou a favor. A senadora Ana Ji- lia Carepa nao compareceu. 0 terceiro sena- dor paraense, Duciomar Costa, 6 apenas su- plente na comissao. Nao foi convocado. O projeto foi entao encaminhado para a presidencia do Senado. Nesse moment o senador Arthur Virgilio Netto, do Amazonas, apresentou requerimento para que a mate- ria fosse submetida diretamente ao plena- rio, ficando em mesa por cinco dias para o recebimento de emendas. Ele pr6prio foi autor da 6nica emenda, com substitutivo, referendada pelos senadores Romero Juca, de Roraima, e Valdir Raupp, de Rond6nia. O substitutivo recebeu parecer favoravel e foi aprovado na Comissao de Assuntos Econ6micos no intervalo de quatro dias, em outubro. No dia 30 desse mesmo mes foi aprovada urg6ncia para a tramitagdo do pro- jeto, que de imediato foi tamb6m aprovado em plenario, pela votagio simb6lica dos li- deres, sem qualquer contestagCo. Uma semana depois o senador Luiz Ota- vio pediu novamente para ter acesso ao pro- cesso, mas somente o recebeu dois meses depois, no dia 22 deste mes, quando o pro- jeto ja estava na Camara Federal, o leite fora derramado e Ines jazia morta. Reconstituida, essa cronologia compro- va a manobra feita para que o projeto tran- sitasse inc6lume e bem-sucedido no Sena- do, passando a tramitar da mesma maneira, em seguida, na Camara Federal, o que s6 nao foi conseguido porque, enfim, a opi- niao publica se deu conta de que tomara o gato por lebre. No inicio tratava-se realmente de um po- bre gato. Melhor dizendo: de um falso gato. Quem concebeu o projeto para o senadorJos6 Sarney ja estava imbuido do mau prop6sito CANTINA NA PAG 3 CARTA Espelho deformado Faro referencia a mat6ria da p~gina 05 (Governo Lula: auto-iluminado), Jornal Pessoal n 315. E fdcil chegar aquela conclusao quando a anAlise 6 nitidamente parcial e conservadora. Dissinto, portanto, das suas abjurag6es por nao possuirem qualquer fundamento t6cnico e muito menos politico, o que seria o minimo a esperar de um intellectual do seu quilate, que jd devia estar despido dessa forma escravizante de pensar. A deselegancia nao leva a lugar nenhum, pelo contrdrio, s6 faz acirrar os animos e enfraquecer a democracia. Nao pretend destringar as condic6es micro e macro econ6micas que este infeliz Pais sustenta hi 503 anos e 8 meses, tudo por conta do grupo que se instalou no poder, e deve seguri-lo at6 o dia das luzes ou das trevas finals. Por6m, qualquer observador mais atento percebeu o jogo sujo dos especuladores, incentivados pelos cond6minos brasileiros - todos afinados com espertalh6es do tipo Soros - que fizeram os precos dos bens/serviqos dispararem a contar de set/02, quando se delineou a provdvel vit6ria do entao candidate Lula. Depois que se consolidou o triunfo do PT e seus aliados, inclusive a posse, a situacAo econ6mico- financeira ficou a merc6 da manipula~Io s6rdida e deslavada dos adversarios nacionais e internacionais. Os precos dos alimentos bAsicos, por exemplo, subiram assustadoramente, e ainda nao retornaram a patamares razoaveis. O d6lar bateu a curva dos R$ 4,00 reais, "Ou Serra ou o caos", era a senha. Felizmente os petistas nao foram incautos e resolveram administrar a crise provocada, segundo dizem, , JANEIRO DE 2004 2' QUINZENA Jornal Pessoal Score as pr6prias ferramentas do governor anterior, ao inv6s de incendiar o circo, como muitos apregoavam por absolute aversao a alternincia de mando. Estava claro que eles nao deviam aceitar os meneios dos contrarios que apostavam na execucao da agenda do PT quando oposiCgo, mais ou menos nesta ordem: morat6ria internal e externa, ruptura dos contratos, revisao das privatizag6es, etc. Os franceses tem um brocado popular que diz "Tudo que terminal bem estA bem". Um certo escritor brasileiro afirma que o seu genitor sempre se pautou pelo seguinte principio: "no fim sempre di certo, se nao deu certo 6 porque nao chegou ao fim". Estamos assistindo o que os soci6logos chamam "a trama viva da sociedade e seus conflitos". MINHA RESPOSTA 0 leitor devia ler, de vez em quando, osjornais ame- ricanos. Um dos mais criti- cos, The Nation, proclama- damente socialist, circula, sem interrupc(o alguma, desde 1856, quando os EUA viviam um dos moments mais dramdticos de sua his- t6ria, a guerra civil. Nin- guem jamais apontou o Na- tion como ameaca a demo- cracia, que e o regime da controversial e dos conflitos por excelencia. Um dos co- lunistas do semandrio 6 Alexandre Cockburn, gran- de jornalista e filho de grandejornalista. Sou esco- teiro junto dele. Mas pare- (o deselegante, agressivo, inculto, tecnicamente des- preparado, vitima de um "pensar escravizante" na 6tica dessa visdo brasileira de democracia, patronal, patrimonialista, autoritd- ria. E conservador, a juizo de Cerveira. Conservador 6 o governor Lula: eu defend a novida- de, a mudanga, a esperan- (a, que ele tratou, enquan- to oposiado, como mera bra- vata, conforme sua confis- CONTINUA;AO DA PAG. 2 de nao permitir que estranhos (no caso, todo o restante do Brasil) tivessem consciencia do conteddo da iniciativa, fossem quais fossem suas consequincias se um toma-l-dd-ca tipico da atividade parlamentar depravada- mente franciscana, como a definiu o ex-de- putado Roberto Cardoso Alves, o "Robertdo", ou um autentico program de agAo. 0 caput do primeiro artigo do projeto 6 um primor do maquiavelismo de chameca, seja do brejo dos Guajis como do Araguari. Diz a cabega do artigo: "Ficam estendidos os bene- ficios fiscais previstos nos arts. 3, 4, 5, 6, 7, 8- e 90 do Decreto-Lei n- 288, de 28 de fevereiro de 1967, alterados pela Lei n- 8.387, de 30 de dezembro de 1991, e art. 6- do De- creto-Lei n" 1.435, de 16 de dezembro de 1975, As areas a que se refere o 49 do art. 1 do Decreto-Lei n" 291, de 28 de fevereiro de 1967, e o art. 11 da Lei nQ 8.387, de 1991". aros mortais terAo ido al6m da leitura desse c6digo de remiss6es. Mas quem algum dia se defrontou cor a triste- mente famosa emenda constitutional n0 1, de 1969 (mais conhecida como "emendAo"), que acabou de desnaturar a Constituig~o (ou- torgada) de 1967, em plena ditadura military, sabe que pelo cipoal de nimeros, que se sucedem na citagio de artigo tal da lei tal que passa a ter a redagao tal, costuma se infiltrar alguma cascavel do direito. O rabo do animal da zona franca come- gava a aparecer no pardgrafo Onico desse primeiro artigo, que completava: "As iseng6es fiscais previstas no caput deste artigo aplicar-se-go aos bens elabora- dos com mat6rias-primas de origem regio- nal, provenientes dos segments a seguir discriminados, observando-se a sustentabi- lidade ambiental da region: I animal; II vegetal; III mineral; IV agrosilvopastoril; V agroindustrial; VI biodiversidade; VII mdquinas e implementos agricolas; VIII cerAmicas e vidros". O artigo seguinte era a conseqiiencia 16- gica dos dois enunciados anteriores, dando nova redacao a uma regulamentacgo da Zona Franca de Manaus para que a isencgo do IPI (Imposto sobre Produtos Industriali- zados) se aplicasse aos segments indica- dos (nao s6 a isengio, mas tambdm o cr6di- to por conta de um imposto que nao 6 pago). At6 entAo, porem, o tamanho do prejui- zo era pequeno porque o favorecimento iria se limitar aos municipios de Macapi e San- tana, em areas contiguas no Amap~. Era o senador Sarney favorecendo sua horta e re- cebendo a retribuicgo do PT federal por seu papel na aprovagio das reforms tributiria e previdenciiria. Mas ampliar o tratamento fiscal a toda a Amaz6nia Ocidental, numa area de mais de dois milh6es de quil8me- tros quadrados, passava a ser outra coisa. Dificilmente o monstro seria deglutido sem dores, esperneio e gritaria. Daf a manobra sagaz dos senadores Je- fferson Peres e Arthur Virgilio, ajudados pelo Palhcio do Planalto petista. Deixaram para a ultima hora a emenda que estendeu a zona franca a Rond6nia, Roraima e Acre, al6m do Amapd e o interior do Amazonas, apresen- tando-a diretamente ao plendrio e conse- guindo o regime de urgencia, cor o qual a mat6ria passou a toque de caixa e os inte- ressados (e, sobretudo, os prejudicados) nem se deram conta. Alguns at6 aprovaram o ato que os desfavorecia. Como foi o caso do Pard, o tnico Estado da regiAo Norte a ficar de fora dessa orgia fiscal e tributiria. Quando o projeto jd tramitava em regime de urgencia no Senado, caminhando c6lere para a aprovacgo, a Secretaria da Receita Federal encaminhou, na metade do mrs de dezembro do ano passado, uma nota t6cnica ao Minist6rio da Fazenda. A nota alertava sobre o perigo da iniciativa, seus efeitos ne- gativos para a economic national, a contra- digao em que ela se punha em relagao a po- litica econ6mica do governor, sua ilegalidade e suas repercuss6es sobre o Mercosul, que poderiam dar em dor de cabega diplomitica, al6m de perdas no comdrcio exterior. A nota foi entregue tanto ao ministry Ant6nio Palocci quanto ao senador Aloizio Mercadante, o principal nome do PT no Se- nado, mas nenhum deles incorporou os ar- gumentos da Receita. Ao inves disso, o go- verno federal e o PT serviram de ac6litos para as manobras que Sarney, incorporan- do as demais bancadas amaz6nicas, a exce- cao do Pard (que continuou a olhar os as- tros, distraida), consumassem o absurdo. Mais do que isso: o inacreditivel. Em primeiro lugar porque a aprovacgo do projeto pela Cimara dos Deputados, secun- dando a posigdo do Senado, acarretara o au- mento da rendncia fiscal da UniAo (e, por in- dugdo inevitivel, tamb6m de todos os Estados nao favorecidos, tanto na conta do ICMS quan- to na do fundo de participagdo e na compen- sa~ao pela perda de receita de exportagio). A ren6ncia fiscal do govemo federal para a Zona Franca de Manaus ter sido, em m6dia, de 2,4 bilh6es de reals por ano, que equivalem a quase 14% do total dos beneficios tributirios federal. Numa conta complete, a perda de receita pode ir alem de R$ 3,5 bilh6es. Os defensores da Zona Franca retrucam que ela mais do que compensa essa sangria de impostos com seu faturamento, o paga- mento dos demais encargos que incidem sobre a ZFM (mais de um real de tribute por cada real de isencao), a atragio de 400 empresas para o distrito industrial de Ma- naus, o crescimento acelerado das exporta- g6es, 50 mil empregos diretos e virios ou- tros arguments, alguns corretos, outros re- COiNiiiUAiN'iiPAG 4 Jornal Pessoal 2- QUINZENA JANEIRO DE 2004 CONTINUA;AO DA PAG. 3 lativos e virios inconsistentes. Os ataques extremados a existencia da zona franca co- metem virios dos mesmos erros, embora tamb6m apresentem critics pertinentes. O resultado desse confront ter sido cor- rec6es no modelo e sua melhora ao long do tempo, sem, contudo, resolver males de origem. O principal 6 a mi originalidade dessa ZF, cujo forte 6 a internalizagAo de bens e insumos importados quando a razao de ser dessa criatura, no seu padrAo universal, 6 a exportagco, cor a qual se compensa o favo- recimento a importag~o desonerada. A ex- portagao feita por Manaus vinha crescendo aceleradamente at6 dois anos atris, quando passou a perder impulso. Nada indica que, ao menos at6 sua pr6xima data de extincgo, em 2013, a exportag~o ao menos empate com a importagSo. O saldo negative acumulado de 1997 at6 novembro do ano passado era de 19 bilh6es de d6lares. Independentemente de suas falhas e distor- GOes, porem, a zona franca tern cumprido seu papel, de ser uma fonte de atividade produtiva e sustentacAo econ6mica para Manaus, vitima de sua posicAo geografica desfavorAvel e de seu isolamento no Brasil. Os principals dos seus custos (concentracao de 90% do PIB estadual e de 50% da populacAo na capital) ainda podem ser reduzidos e, mesmo que pagos, parecem um prego a pagar pelo abandon do maior Es- tado brasileiro ao long de tanto tempo ap6s a queda da borracha. Sem uma solucAo mais pro- funda do que o tratamento fiscal privilegiado. Mas transformar essa anomalia necessi- ria (ainda que artificiosa e distorcida) numa political regional 6 outra coisa. Coisa realizada sem maior indagacao, sem dis- cussao, sem aprofundamento e sem seriedade pelo senador Sarney e coadjuvantes. Os sena- dores amazonenses, por exemplo, que articu- laram a emenda substitutiva em cima da hora, pensam em levar para'o interior dos 1,5 milhao de quil6metros quadrados do Estado benefici- os que presentemente se restringem a capital. Mas pode ser que acabem retirando de Manaus indistrias que la se fixaram por contarem corn os favors fiscais apenas na capital. Podem co- brir um santo descobrindo o outro. Quem tamb6m podera garantir que Manaus teri capacidade competitive igual ou superior A de Macapi, na foz do Amazonas, para atrair novos empreendimentos econ6micos? Optan- do pela foz, esses investidores nao precisarno penetrar na bacia do grande rio. Calcula-se que chegam a 190 mil reais os custos de pra- ticagem e operagio para chegar a capital ama- zonense a partir do litoral norte, dando uma vantage potential para Macapi. E qual a competitividade de Manaus em relaoAo ss ireas de Rond6nia conectadas ao Mato Grosso e ao centro-sul do pais por uma estrada consolida- da como a BR-364? A tal da Zona Franca Ver- de nao vai acabar seguindo o eixo norte-sul, nao se conectando a Manaus? Ja para os amapaenses, que se conside- ram os primos ricos desse projeto, deve ser feita uma ponderagAo: vitimas de um proje- to de enclave, como o da Icomi, que se exau- riu em quatro d6cadas de intense extragao de manganes, eles podem vir a assistir A multiplicagAo de empreendimentos de gran- de porte como os que se concentraram no Para, por forga de sua riqueza natural. Sem desenvolver de fato o Estado, esses "grandes projetos"deram causa a que os su- postos irmaos regionais do Pari o excluis- sem da tal superzona franca sob a alegagao de ser o Onico Estado favorecido pela inte- gragio econ8mica da Amaz6nia. Os amapa- enses podem se tornar as novas vitimas desse cavalo de Tr6ia, embora o falso animal de venture 6co possa vir revestido de instala- g6es industrials, como a fabrica de celulose que a International Paper, com o apadrinha- mento do "amapo-maranhense" (naturalida- de e artificialidade de origem ao mesmo tem- po, sem falar de adernncias ainda mais im- portantes, como a paulista) Sarney anuncia pretender instalar no Estado vizinho. O projeto e fisiol6gico, imediatista e torto em sua forma primitive. Virou um monstrengo com o substitutivo de Arthur Virgilio (do PSDB e nao do PT, mas, no caso, a sigla 6 indiferen- te, como Dirceu & Mercadante & Palocci es- tao mostrando). Alem de todas as quest6es ji levantadas, como explicar um detalhe menor no seu texto, menor mas incompreensivel. E a inclusao, entire os segments produtivos be- neficiados, todos visando o aproveitamento de materias primas amaz6nicas (animal, vegetal, mineral agrosilvopastoril, agroindustrial e de biodiversidade), dos segments de mAquinas e implementos agricolas e de cerimicas e vi- dros. Tratar-se-ia de fisiologismo com endere- go certo, mas desconhecido do p6blico? De vias e travessas? De incontinencia prestativa? Por enquanto, 6 impossivel saber. Mas ainda que os beneficios da zona franca pan- amaz6nica (excluido o Pard da regiao classi- ca e mais o Mato Grosso e Tocantins, se con- siderada a Amaz6nia Legal) se restringissem ao beneficiamento de materias primas locais, sem a amplitude industrial de Manaus (que abrange atividades que usam insumos e ma- terias primas importados), ao inserir essa cri- atura no territ6rio national 6 impossivel nio chegar A imagem da Amaz6nia Ocidental (mais o Amapa) como um enorme Paraguai, a ameagar o federalismo fiscal, o equilibrio financeiro do pais e qualquer political de de- senvolvimento tomada a serio, ou "sustenti- vel", como a que o PT diz ser seu objetivo (menos quando ha interesse do companhei- ro Sarney pelo meio, ameagando os projetos de poder da nomenklatura neopetista). Os pais da crianga, ao que parece, nao tiveram a preocupagAo de prever cor seri- edade no que ela vai dar quando (e se) cres- cer. A bola de neve, rolada parlamento abai- xo pelo ex-presidente de tantas iniciativas CONTINUA'Aii PiG i ) sdo p6s-vit6ria. Ele manteve quase integralmente a ges- tdo anterior, que e conserva- dora, moldadapela cartilha do FMI. Ao menos ate que surja o pano B, ou C, ou D, ou Z, conform as alternati- vas do alfabeto. Por isso, Lula estd sendo exaltado pe- los praticantes do "jogo sujo dos especuladores", que se movimentam usando armas como o "risco Brasil", as ta- xas Dow Jones ou os belos indicadores de saldo fiscal do Banco Central. Se antes os players eram pessoas como Arminio Fraga, ex- funciondrio de George So- ros, agora os paladinos da boa causa sdo neopetistas como Henrique Meirelles, ex- presidente mundial do BankBoston, lui-meme, jd sem intermedidrios, en- quanto o bom Lula peregri- na pelo alem. Se isto j um circo, quero que o picadeiro funcione a larga, ndo que pegue fogo. Mas Kirchner, ao nosso lado, embora de umaforma um tanto peronist para meu gosto, estd mostrando que hd como conduzir um pais dependent sem tocar fogo na lona nem se imagi- nar supra-sumo do maqui- avelismo, fazendo de conta que transformou em veneno contra seu inventor o que e racdo para engordd-lo ain- da mais. A virada, quando ocorrer, se ocorrer, poderd vir tarde demais. Ou talvez ndo venha jamaisporque os mestres da viracdo, no fun- do, ndo sabem o know-how, daf terem recorrido aos fei- ticeiros de sempre, agora corn outros nomes. O caro leitor deve refletir sobre qual PT, qual Lula e qual governor esti tratando. Basta olhar neste instant ao redor, tomando como mote o ardil montado em torno da ampliaqao amaz6- nica da Zona Franca (e da irea de livre comercio e da zona de processamento de exportacgo e o que mais houver de penduricalhos antitributarios), que exclui nosso Para, e olhar nao para palavras ocas, mas para a realidade. A JANEIRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal ^ PATRI MONIO A placa ji est~ la: 4,1 milhbes de reais serao gastos para recuperar o Palacete Pinho, na Cidade Velha, a mais bela residencia particular ainda em pe da 6poca da borracha, gragas a colaboracgo dada pela Companhia Vale do Rio Doce a municipalidade. Mas pode-se ver que os 150 mil reais gastos pela prefeitura na primeira etapa foram para o espago: o telhado esta todo infiltrado e podre. Tera que ser refeito. Trabalho de restauragao, no servigo p6blico, tern que ser precedido por inciria para criar valor e justificar despesa. Duvido que essa ligao seja dada nas palestras sobre o assunto. PERGUNTA A quebra da incomunicabilidade dos jurados foi um fen8meno exclusive do julgamento de Valentina de Andrade ou ja 6 uma anomalia rotineira do Tribunal do J6ri, que s6 se tornou p6blica por causa do impact provocado pela absolvidao dessa acusada, surpreendendo a expectativa macigamente dominant? E a pergunta que nao quer calar. E possivel que, quanto mais fundo for a investigacgo, mais alto ela fale. CONTINUAAO DA PAG.4 desastradas (o Piano Cruzado e seus filho- tes menos glamourosos, a Ferrovia Norte- Sul, o enorme campo de petr6leo do Mara- j6, o mandate dos cinco anos), tomou um tamanho e uma feigao imprevisiveis. Virou um exercicio de irresponsabilida- de: ou nao vai em frente ou, prosseguindo, acabara por ameagar aquela expressao que esta na boca dos politicos, embora raramente em suas consciencias, a governabilidade. A superzona sera isso o que esta implicito numa variagao amolecada da expressao: uma zona paraguaia de tamanho amaz6nico, su- jeita a todos os apetites. Um primeiro element complicador da sua gestao 6 o seu pr6prio tamanho. Como pre- venir ou combater fraudes e irregularidades tendo que fiscalizar o cumprimento das exi- gencias indispensaveis de uma trata de zona franca, que nao desbanque para o paraiso fiscal, tendo que dar conta de um territ6rio de mais de dois milh6es de quil8metros qua- drados? Se a Zona Franca de Manaus ja era uma anomalia, por isentar de impostos bens que serao principalmente internalizados no pais, ao inv6s de servir A exportacAo, nao deve haver registro nos anais mundiais de uma zona desse tamanho. O senador Sarney devia se credenciar a um pr6ximo mandate em Itu (Sao Paulo, of course). O control desse autentico pais sera exer- cido pela Suframa, uma superintendencia que, mesmo no seu ambito restrito, nao vi- nha sendo tao discrepante do padrao Su- dam, extinta em meio a um mar de corrup- gCo. A revelia da legislagio, a Suframa, an- dou concedendo, de forma irregular, anos atras, incentives fiscais da ZF de Manaus para indistrias em Macapa e Santana. A Receita Federal viu-se obrigada a declarar invalidas essas concess6es e autuar as empresas be- neficiadas indevidamente, que reagiram re- correndo a justiga, dando causa a demands que prosseguem at6 hoje. (A prop6sito. A Folha de S. Paulo noti- ciou, no dia 22, na coluna Painel, que Sar- ney "acertou com o Planalto que ird indicar o superintendent da Receita Federal em SP. O cargo era da 'cota pessoal' do se- nador at6 o governor FHC, quando foi para o PL e o PFL". Mais raposa no galinheiro.) Mas admita-se, no exercicio da advocacia do diabo, que os prop6sitos do projeto se- jam os mais nobres e legitimos. No entanto, o mero estimulo tributario, sem vinculagao cor um piano de desenvolvimento, pode resultar apenas numa carnavalizacao (ou canibalizagao) do process econ6mico. Se o senador Sarney pretendeu apenas aten- der um parceiro ou dar uma resposta ao seu eleitorado, fazendo a Area de Livre Comer- cio Macapa/Santana se igualar a Manaus, a ampliagao da iniciativa deu ao seu projeto a dimensao de um atentado a federagao. Se nao reagiu a tempo, tamb6m por de- sinforma~ao (e porque, final, essas seriam reflexes de miasmas nativistas amaz6nicos), Sao Paulo se colocou contra os prop6sitos do politico amapaense. Nao apenas por con- centrar um terco do PIB national, defenden- do sua posicao dominant na economic bra- sileira. Por principio, Sao Paulo se posiciona contra tudo que ameace sua potencia, sobre- tudo industrial. Mas a Zona Franca de Ma- naus s6 em parte prejudice os neg6cios pau- listas. Por outra parte, ela os favorece. O prejuizo e causado aquela parte da ind6stria de Sao Paulo que concorre diretamente com o p6lo industrial de Manaus no mercado interno e ve sua compe- titividade erodida pelo tratamento fiscal pri- vilegiado da Zona Franca. Ja o grupo indus- trial paulista favorecido 6 o que fornece in- sumos com a tributagio favorecida de Ma- naus (por isso e tratado como Zona Franca de Sao Paulo) e o grupo dos investidores e principals acionistas das induistrias instaladas em Manaus. S6 uma fragao minima dessas empresas pertence de fato a empresarios nativos. Todas as de grande porte estao sob control de capitalistas de fora, seja estran- geiros quanto nacionais. Os paulistas sao tao dominantes que a sede da Eletros (Associagao Nacional de Produtos Eletroeletr6nicos), presidida pelo bandeirante Paulo Saab, fica em Sao Paulo. A entidade que se op6e a ela, a Associagio Brasileira das In- distrias Eletro-Eletr6nicas (Abinee), tamb6m fica em Sao Paulo, cujos tentaculos sao tao extensos e sofisticados que provocam essa batalha internal quando o m6vel da questao se encontra, fisicamente, a mais de tres mil qui- 16metros do Palacio do Morumbi. Lideres locais, como Sarney, apresentam- se na condigao de salvadores da patria ama- z6nica (ou das patrias amaz6nicas, cada vez mais dissociadas de uma pretendida solidari- edade regional, atingida por political territo- riais metropolitanas), mas trazendo consigo, ja pronta e acabada, a tabua das leis (que hoje chamariamos de caixas pretas), tangen- do cavalos de Tr6ia ou oferecendo bois de piranha. Na inanigao, desacreditados ou des- crentes da sensibilidade alheia, os nativos se entregam ao bezerro de ouro, micangas e balangandas que ofuscam as vistas enquanto os grandes projetos multiplicam os seus gan- hos, deixando as sobras na taba. O deputado federal amapaense Davi Alco- lumbre, inspiragao ou inspirado por aque- le politico criado pelo humorista Chico Ani- sio, nao abriu mao do projeto Samey. Certo de que ele irrigara o setentriao corn o dinhei- ro da ren6ncia fiscal, consider inimigos mor- tais todos aqueles que querem fazer a conta do custo/beneficio e nao apenas contabilizar o que 6 dado por uma mao (para, a socapa, ser retirado, multiplicado, pela outra mao). O Para, argumentou o parlamentar, fazen- do coro as vozes em unissono na Amaz6nia Ocidental, esta cor tudo e ainda se mete a CONTINUE NA AG 6 Jornal Pessoal 2 QUINZENA JANEIRO DE 2004 CONTINUA.AO DA PAG. S prosa. O Para, na verdade, esti com tudo e esti pobre. Enquanto a Camara Federal tenta- va deglutir o pepino senatorial, a Alcoa, a maior produtora de aluminio do mundo, anunciava investimento de 1,4 bilhio de d6lares (uma vez e meia a ren6ncia fiscal annual da Zona Franca de Manaus) para produzir bauxita e alumina em Juriti, numa escala mundial. O dinheiro poderi crescer ainda bem mais se, corn energia farta e barata, a multinational americana puder chegar ao metal. S6 para vi- abilizar a hidrel6trica de Belo Monte, do outro lado do Amazonas, a Alcoa esta disposta a entrar cor mais um bilhao de d6lares. Motivo para festas incondicionais no Para excluido da superzona de Sarney? Claro que nao. A iniciativa chega corn mais de 30 anos de atraso. Quando anunciou a primeira mine- ragAo de bauxita na regiao, em 1972, a cana- dense Alcan incluia no seu folheto tambem a produgio de alumina. Logo depois, Daniel Ludwig disse que faria bauxita, alumina e alu- minio, computando no bolo uma hidrel6trica particular. Mas hi um quarto de s6culo o que se extrai do Trombetas e apenas minerio bru- to, lavado e seco para nao congelar nos po- r6es dos navios que o transportam para o frio Canada. Perdeu-se um tempo precioso e divi- sas que nao poderdo mais voltar aos cofres nacionais. Conta de bilh6es de d6lares de efeito multiplicador li fora, onde o min6rio 6 verti- calizado (enquanto ci os politicos entoam o canto-chio da ret6rica). Fica ainda a pergunta: o projeto da Al- coa, que nos anos 90 chegou a se proper a criar a mais original das minerag6es de bau- xita de todos os tempos, uma inusitada ga- rimpagem desse min6rio, para conseguir entrar na Mineracgo Rio do Norte, dona dos dep6sitos de bauxita do Trombetas, esta atu- alizado ao tempo? Retoma, renovando, o compromisso que a Alcan deixou para trds e nao fomos capazes de assumir? Questio s6ria, agravada pela percepgio da incrivel fragilidade desse gigante de p6s de barro em que o Pard, como arqu6tipo amaz6nico, se transformou. Mesmo consi- derando toda a malandragem aplicada na redagao do projeto do senador Sarney e a esperteza dos que a ele se juntaram para dar tramitagdo de urgencia a sua criatura, emendando-a com um substitutivo ainda mais monstruoso, como 6 que toda a elite paraense passou batido nessa hist6ria? Flagrados em falta grave, nossos tres sena- dores se sairam corn explicag6es infants e gro- tescas, quando nio mentirosas. Faltou-lhes co- ragem para encarar a verdade, admitindo os erros, e enfrentando as conseqiuncias. Sanan- do a falta, se possivel. Nao atabalhoadamente, mas com o maximo de conhecimento de cau- sa, capaz de evitar decidir sobre mat6ria de tanta gravidade como se fosse um jogo de futebol ou um acerto entire quadrilhas, que nao conseguem vislumbrar nada alem de seus interesses corpo- rativos, politicos ou at6 mesmo pessoais. Mas nao cabe apenas aos senadores (e tam- b6m aos deputados federais) o mea culpa. Menos imediato, por6m de maior extensao, 6 o despreparo do governor estadual. A assesso- ria especial'do governador Simo Jatene cons- tituiria uma das maiores empresas do Para, se empresa fosse, tantos sao os que dela rece- bem seus vencimentos (varios nem aparecen- do para levar o contra-cheque). Mas o que a torna especial? Ser um abrigo de aliados, pa- rentes e compadres? Ser uma bacia das almas das disputes eleitorais, uma posta restante dos compromissos assumidos cor a fisiologia do poder, um cemit6rio de reputag6es? E inacreditavel que o governador do nono Estado em populacgo do Brasil, se- gundo em territ6rio, sexto em geragAo de energia, terceiro em saldo da balanga co- mercial, segundo na producgo mineral, te- nha sabido da tal superzona pela leitura de journal, journal que despertou para o tema na und6cima hora. E atira informar6es a esmo, sem a menor pontaria na mira. Retirados da lassidao auto-suficiente da provincia, as elites reagem pelo senso omum, no grito, desinformadas, mes- mo quando por elas falam associac6es de clas- se, como a Fiepa e a Associacgo Comercial. Mas nao s6 elas estao desinformadas. O pro- jeto do senador Sarney acabou estendendo os beneficios da zona franca, na sucessao de acumulac6es que provocou, as zonas de pro- cessamento de exportacio, as ZPEs. Ha duas na Amaz6nia: Itacoatiara, no Amazonas, e Barcarena, no Para. Nenhuma delas foi regu- lamentada at6 agora, provavelmente porque a inspiracao que as criou foi fugaz demais. No entanto, estio legalmente criadas. Assim, pelo menos o territ6rio (tornado livre para efeitos fiscais) de Barcarena se tornou outro dos prolongamentos da Amaz6nia Ocidental, nessa algaravia burocratica que tern desnatu- rado a geografia, os corag6es e as mentes. Essa sem-ceriminia colonial metropolitan, cinica mas cosmopolita, nao se lixa para as prer- rogativas regionais, para a razao de ser da Amaz6nia. E assim que as principals decis6es sobre a Zona Franca de Manaus sao decididas pelos maiores empresArios da ZFM, que sao paulistas, em Sao Paulo, uns querendo ganhar mais cor a excepcionalidade fiscal e outros tentando perder menos, ou nada perder. Os Machline, da Sharp, muito amigos do vivaz se- nador Sarney, os Staub (Gradiente) e os Saab estio li, guerreando contra os supostos irmaos da Fiesp. Donos de metade do parque industri- al de Manaus, no ramo eletroeletr6nico. t assim ha pelo menos quatro d6cadas. Onde estava a sede da Associagio dos Em- presirios da Amaz6nia, que reunia, em Slo Paulo, gente como Ometto e Lunardelli, do- nos dos grandes projetos agropecuirios im- plantados no vale do Araguaia-Tocantins corn dinheiro dos incentives fiscais da Sudam? Co- megou no Viaduto Maria Paula, na capital ban- CONTINUA NA PAG 7 AH, SIM! * A prefeitura comemorou a larga o inicio da recuperagio do centro hist6rico de Belem, atrav6s do program Monumenta, na data dos 388 anos da cidade. Mas os 8,7 milh6es de reals anunciados sao, na verdade, a metade desse valor, conforme a retificagio feita na semana seguinte. Vird uma pr6xima? IMAGE Um amigo costuma dizer que gostaria de comprar determinadas pessoas pelo que elas valem de fato e vende-las pelo que elas pensam que valem. Teria um lucro fabuloso. De minha parte, gostaria que o Pard e Belem fossem o que seus gestores dizem que sao. EstAo repetindo aquela charge do Jaguar, que flagrava duas pessoas saindo de uma sessio de "cinema de arte". Diz um dos personagens: "o film nao presta, mas o director 6 genial". Estamos mais ou menos assim. AUDIENCIA Algu6m, de fora da administration municipal, foi consultado sobre o projeto da Vila da Barca? Acho que a prefeitura, a atual ou a que a suceder com maior boa vontade, podia adotar um novo procedimento em relagao a essas empreitadas. Publicaria an6ncio de convocagio dos interessados para encontros de discussio sobre projetos em andamento no venture da baleia piblica. Verdadeiras audiencias pdblicas informais, que talvez viessem a aumentar a adesao social aos projetos e melhori-los. Ou abortar as monstruosidades. Fica a sugestio. Mais uma. AC JANEIRO DE 2004 2 QUINZENA Journal Pessoal DICA * Para quem estiver interessado em conhecer melhor Arthur Miller, recomendo a leitura de suas mem6rias, Uma vida. No genero, um dos melhores livros que jd li. Tdo interessante que mesmo uma das maiores faganhas do escritor (ao menos aquela que mais invejamos), ter dormido ao lado de Marilyn Monroe (junto com o Channel ntimero 5, claro), vira um detalhe. DINOSSAURO * Especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro deram o nome de Amazonsaurus maranhensis ao f6ssil de um dinossauro que descobriram as margens do rio Itapecuru, no Maranhao. Foi a primeira vez que se confirmou a presenga de dinossauros na regiao. E logo o mais antigo saur6pode ji descoberto no Brasil, com 110 milh6es de anos. Outros esp6cimes, muito mais novos, podem ser encontrados todos os dias na regiao ou transitando por outros sitios, pr6ximos e distantes. Um deles, os cientistas poderiam batizar at6 de sarneys maranhensis. Cuba by Miller 0 dromoturgo americano nos brinda cor um texto primoroso Em quase meio s6culo de Fidel Castro, milhares de pessoas foram ver o segre- do dessa longevidade em Cuba, uma bela e pobre ilha que durante esse tempo todo tem desafiado o poder dos Estados Unidos, o maior do planet, bem A ilharga do imperio belico. O dramaturge americano Arthur Miller seria apenas mais um visitante se, ao voltar, nao nos tivesse brindado cor um texto pri- moroso e original sobre tema tao batido. As impresses de Miller couberam em uma tnica pigina da Folha de S. Paulo, edicgo do dia 18. Texto curto, enxuto. Mas que a verve e a acuidade de Miller, no alto dos seus 88 anos, tornam mais valioso do que muita verborragia critical e outros tan- tos tratados hagiograficos ja publicados. Um grande escritor 6 insubstituivel. Avaliamos seu valor quando ele nos traz o novo mes- mo ao trilhar caminhos ja exaustivamente percorridos por mortais comuns, como n6s. Nao ha positivismo na avaliagAo de Mil- ler. A rigor, ele nada julga. Mas a cada nar- rativa de acontecimentos da excursao, inte- grada por outros intelectuais americanos de idade avangada, como William Styron, e as respectivas mulheres, ele acrescenta uma observagAo pessoal definidora, provocative. O modo de ser de Fidel se ilumina quando Miller, remexendo nas origens mais remo- tas da cultural national, chega a "eterna melancolia espanhola", da qual o Dom Qui- xote, de Cervantes, 6 o modelo e Cuba a distant reproduqgo. Touche! Ha como explicar racionalmente o dita- dor, sem reduzir sua tirania a um ato impo- sitivo unilateral. O embargo imposto pelos Estados Unidos a Cuba, por exemplo, nao "proporciona a Fidel uma ap6lice de seguro contra as mudangas necessarias, injetando na populagio a energia do desafio justo" Ai entra em acgo um process de causagio circular semelhante A relagao entire o ovo e a galinha. Por permanecer no poder ha tan- to tempo, Fidel se credencia a ficar mais tempo ainda, escorando-se no inimigo im- placavel, que pode ser visto a olho nu, de um ponto avangado da ilha, e vice-versa. Afinal, ressalta Miller, Fidel 6 el jefe ha quase meio s6culo, "muito mais tempo do que qualquer rei ou president dos tempos modernos, com a possivel excegdo do im- CONTINUAAO DA PAG. 6 deirante, num dos andares onde funcionava a poderosa Federacgo das Indtstrias at6 se mudar para a avenida Paulista. Quem queria saber o que de fato acontecia no bravio ser- tao amaz6nico tinha que dar um pulo at6 Ia. perador Francisco Jos6, da Austria". Um efei- to ampliado sobre a populacgo porque a maioria dos cubanos "nem tinha nascido quando ele chegou ao poder". A custa dos seus interminaveis discursos e massive propaganda, o comandante de- vassou o universe mental dos seus s~iditos, fazendo-os viver em funcao de ficc6es utili- tirias, mas convincentes. Se os EUA sao o catalisador de uniao, a antiga Uniao Sovie- tica serve de refrigerio. Arthur Miller obser- va que at6 hoje Fidel fala da dissolugAo da URSS como sendo desnecessiria, "um erro": Em suma, nio existia nenhuma contradi- go inerente ao sistema sovi6tico que tivesse provocado sua queda, e, portanto, nao existe nada no sistema criado por Fidel Castro que esteja gerando a pobreza dolorosa da ilha. O ponto alto do texto nem sao essas pe- quenas e precisas andlises, mas os apostos das narrativas. Aquele toque sutil de genialidade que transmite ao leitor nao s6 o que o narra- dor esta sentindo e vendo, mas a qualidade do personagem tratado. E assim que, no meio das refeig6es partilhadas pelo comandante, Miller informa que Fidel s6 comeu verduras, "ja que pretend viver para sempre". No al- moco que se seguiu a um jantar, jantar esse que deveria ter varado a madrugada se o dita- dor nao tivesse sido brecado por seus assusta- dos convidados (Fidel "gostava de passar a noite em claro, ja que dormia a maior parte do dia"), Miller 6 ainda mais precise: "ele co- meu duas folhas de alface". Lembre-se que Adolf Hitler tamb6m era vegetarian radical. Nesse caso, por6m, o gosto pelos paralelismos inadequados deve ser freado: Fidel Castro 6 um ditador incom- paravelmente menos nocivo e mais atraen- te (al6m de mais duradouro do que o arqui- teto do Reich dos mil anos). Nao 6 a toa que ter, entire seus fi6is acompanhantes, o escritor colombiano Gabriel Garcia Mdrquez, especialista nesse pathos (que a tradutora, Clara Allaind, infelizmente optou por patos mesmo, reduzindo a doenca a ave). E de lamentar que, no lugar de "Gabo", para efeito de nos apresentar melhor essa figure 6nica chamada Fidel Castro Ruiz, nio tenha estado algudm melhor qualifi- cado a interpreter o genero human, o pr6prio Arthur Miller. E sair de Ia com a Amaz6nia deles na cabe- ca. E dessa maneira, faz tempo, que a hist6- ria da Amaz6nia vem sendo escrita. O capi- tulo do projeto do anfibio Jose Sarney talvez seja apenas um dos epis6dios mais bizarros dessa trama. Ainda assim, como d6i. Jornal Pessoal 2 QUINZENA * JANEIRO DE 2004 0 tesouro da Amazonia 0 livro do padre Jodo Daniel e um dos mais preciosos de todos os tempos vida do padre Joao Daniel (de 1722 a 1776) foi um misterio e uma trag6dia. O misterio, que perdura at6 hoje: como 6 que uma pessoa absolutamente an6nima em seu trajeto de vida deixa como legado, ao morrer, um livro maravilhoso como o Te- souro Descoberto no Mdximo Rio Amazo- nas, que 6 um dos mais preciosos conjun- tos de informac6es sobre a regiAo em todos os tempos? Mas (e ai vem a trag6dia) se o padre portugues nao conseguiu se destacar por seus atos, como explicar que tenha sido mantido preso ao long de 18 anos, mor- rendo numa das duas masmorras em que o marques de Pombal mandou confini-lo? A biografia de Joao Daniel 6, na verda- de, um acCimulo de misterios e trag6dias, para os quais as escassas informag6es a seu respeito mais complicam do que elucidam. Quem 1e o Tesouro nao deixa de se im- pressionar com a riqueza de observag6es que contem. Mais estupefato fica ao saber que o missionirio escreveu essa obra de mais de mil piginas durante o long perio- do de prisdo nos calabougos de Lisboa, sem fontes de consult, sem anotag6es pr6vias e tendo que se valer de qualquer pedago de papel que Ihe caia as maos (e imediatamente era confis- cado, depois de escrito, pelos guardioes do gover- no portugues). Quase 30 anos depois da primeira edigao com- pleta dos manuscritos dei- xados porJoao Daniel, pu- blicada em 1976 nos Anais da Biblioteca Nacional, uma nova edigio integral do Tesouro Descoberto esti disponivel para o leitor (Contraponto Editora, volume I, 597 piginas; volume II, 622 paginas), gragas ao co-patrocinio da Prefeitura de Bel6m (administragAo do "pro- fessor e arquiteto" Edmilson Brito Rodri- gues, conforme esta devidamente assinala- do nos cr6ditos). A nova versao, al6m de bem cuidada graficamente, 6 valorizada por uma apre- sentagAo de Vicente Salles (no lugar da anterior, de Leandro Tocantins, duramen- te criticada por Jos6 Hon6rio Rodrigues, que chegou a duvidar de que o apresen- tador houvesse realmente lido o livro apre- sentado), um indice e corregio de grafia (que faltaram a edicgo da Biblioteca Naci- onal). t o acontecimento editorial do ano, mesmo 2004 ainda estando a comegar (e mal, em muitos sentidos). Minha paixAo pela "biblia ecol6gica" do padre Joao Daniel, como a definiu Lean- dro Tocantins, foi a primeira vista, em me- ados da d6cada de 60, ao contato corn a edigAo parcial que foi publicada na Revis- ta do Instituto Hist6rico e Geogrifico Bra- sileiro. O livro se tornou, para mim, uma fonte de conhecimento, de prazer e de re- vigoramento do entusiasmo pela Amaz6- nia. Um autentico livro de cabeceira. Daniel nio se limitou a descrever e ana- lisar a region na qual atuou, no curso de 16 anos entiree seus 19 e 35 anos de idade), embora, a rigor, em 10 desses anos pratica- mente tenha se limitado A formaoao religio- sa, no semindrio dos jesuitas, em Bel6m. Mesmo as excursees feitas ao interior do GrAo-Pard nao foram tao extensas e demo- radas, o que suscita outra surpresa: como p6de testemunhar sobre quase toda a bacia amaz6nica dominada pelos portugueses, se sua experiencia era restrita? Certamente uma parte do seu conhe- cimento tem origem em fontes secundi- rias. Daniel usufruiu como poucos a pre- ciosa biblioteca dos jesuitas, uma rarida- de na col6nia, proibida de ter acesso a livros. 0 saber do padre se ressen- te desse conhecimento li- vresco. S6 assim se justi- fica que ele indique o "Es- treito ou Istmo de Panama" como sendo uma das ca- beceiras do rio Amazonas e, na pagina seguinte, che- gue bem perto da verdade ao apontar a "Lagoa Lauri- xoca" como sendo a fonte "e primeiro berco deste grande gigante". Todos os que fizeram referencia A vida e obra de Joao Daniel, tendo como base a monumental hist6ria dos jesuitas escrita por Serafim Leite, limitam-se a reproduzir tos- cas informagaes como se elas nao fossem, al6m de pobres, contradit6rias. Depois de ler e reler tantas vezes o Tesouro, sou c6ti- co em relacgo is verses que fazem o livro surgir, pronto e acabado, da cabeca de um autor enclausurado por 18 anos, quase como uma obra divina, talvez soprada pelo Espirito Santo. Em primeiro lugar, acho que os algo- zes dos jesuitas nao privaram o missioni- rio de suas anotacges. Ou por terem sido enganados pelo prisioneiro ou por terem percebido a utilidade daquelas notas. Tam- b6m acredito que o padre p6de ler livros CONTINUE NA PAG 9 VILA DA BARCA * Fernando Gabeira conta, em 0 que e isso, companbeiro?, que a base operiria de sua tendencia consistia em um finico cidadAo, consultado quando era precise agir. Para nosotros de Bel6m, a Vila da Barca era essa entidade mitica, "o povo". Alguns iam se embebedar pra li, enquanto tocavam violio, cantavam, palravam e bebiam. A ponte, para outros, eram os versos. Nao hi toponimia maior na "poesia participate" da d6cada de 60. Pois a Vila da Barca vai acabar. Corn quase 11 milh6es de reais (sendo R$ 8 milh6es federals, a prefeitura vai aterrar a area e acabar com as palafitas. Poesia de pe quebrado a parte, nto 6 possivel conciliar saneamento com palafitas, fazendo a coleta de dejetos e aguas servidas por canalizagio area e protegendo a populagio contra o risco da exposigao a mar6, sem descaracterizar a paisagem? Minha ideia se reforgou num dia em que, chegando ao fim do canal revestido da Gentil Bittencourt, deparei com o que ainda era um igarape natural, sem a tal da urbanizagao. Sentei e fiquei matutando nas diferengas entire as duas paisagens e na sua valoragAo e hierarquizagdo. A primeira paisagem precisa ser sempre reduzida a segunda, por forga da urbanizagco? Nao seria viivel uma forma intermedidria, aproveitando a geografia do terreno e ajustando-a a uma vida humana decent, mas sem chegar a esse emparedamento em concrete e asfalto? Mandei fotografar a jungio das duas dreas e, de vez em quando, pego-a para matutar mais um pouco em busca de uma conclusao. Que, provavelmente, nio seri essa da urbanizagio da Vila da Barca, mais uma. Na qual, pelo jeito, a vila perderi sua barca e seu jeito amaz6nico de ser. Q JANEIRO DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal Cidade doente Predios levantados na fase dureo do borracha estao desmoronando PAR * Primeiro foi Hugo Chdvez, da Venezuela, em 2002. Agora 6 Lula, o segundo, na Am6rica Latina, a comprar um Airbus ACJ para ser o aviAo presidential. Ha coerencia, embora a maneira de Carroll. Ou seria a Orwell? CONDENA AO * O juiz Jonas da ConceigAo Silva, da 171 vara civel de Bel6m, condenou 0 Liberal a pagar uma multa equivalent a 50 salirios minimos (12 mil reais) como indenizacgo por dano moral sofrido por Raimundo Airton Montdo Goncalves. O journal noticiou que o r6u, servidor piblico, "teria cometido um assassinate e, em razao disso, passou a ser perseguido por parents e amigos da vitima, al6m de ter tido sua honra e integridade moral abaladas". Como a informaglo era falsa, Raimundo processou a empresa, cobrando 500 mil reais de indenizacgo. O juiz considerou o valor exagerado, mas, julgando antecipadamente a lide, condenou o journal por ter publicado a informacao sem te-la confirmado. Se a decisAo firmar jurisprudencia, ou O Liberal muda sua postura irresponsivel ou seri sentenciado tantas vezes quantas as demands judiciais que vierem a ser propostas pelos prejudicados por sua cobertura incompetent dos acontecimentos. A lumas dezenas de predios de Bel6m dce iam completar seus primeiros cen- tendrios ao long desta d6cada. Mas nio estardo em re para participar da data. Edificag6es levantadas na fase durea da ex- plorag~o da borracha, em estilo rococ6, ecl6tico ou neocldssico, estio desmoronan- do. Um deles neste mes, na rua Ferreira Cantdo (a antiga Bailique). Tres quadras al6m, na mesma rua, um predio ainda mais bonito e representative segue para o cada- falso da desmemoria. O process 6 o mesmo: sucessio patri- monial complicada ou desidia familiar le- vam ao abandon. Para precipitar o fim, o pr6dio e destelhado. Todos querem se li- vrar do que consideram um estorvo e uma perda de valor. Um dos moments mais ri- cos e importantes da hist6ria da cidade (do Estado, da regiao e do pais) esti desapare- cendo diante dos nossos olhos impotentes. Nao 6 apenas perda hist6rica e cultural: 6 burrice mesmo. Uma das perdas que mais lamentaremos jd 6 dada como irreversivel: o magnifico palacete da familiar Faciola, na esquina da Nazar6 corn a Doutor Moraes. Num dos seus muitos simulacros de agAo, a prefeitura grampeou a fachada do pr6dio, que come- cou a rachar porque a base, atacada por infiltragao, cedeu. Corn a iniciativa, consi- derou encerrada sua missAo. O process de falencia da estrutura, como era de se esperar, continuou. A atracagAo era ape- CONTINUA5AO DA PAG. 8 .... I .. ...... .. .. .. .. .. e consultar documents na prisAo. Como justificar de outra forma que ele se refira A antiga missAo de Gurupatuba, "hoje afa- mada Vila de Monte Alegre", se Gurupa- tuba s6 foi elevada a condigAo de Vila, cor o novo nome portugues, em 1758, um ano depois de Jodo Daniel haver sido en- viado, preso, para Lisboa? O padre cita os Anais, de Berredo, que s6 foram publicados em Lisboa, em 1749, e o relato feito pelo naturalista frances Charles de la Condamine, um pouco antes de Pombal determinar a expulsdo da ordem jesuita do territ6rio brasileiro. Estaria tAo atualizado assim na pobre col6nia? Tambem acredito que o d6spota es- clarecido que era Pombal usou de um ardil na relagAo com o cativo: controlava a entrega de pap6is para que escrevesse e os tomava logo ap6s as anotag6es te- rem sido produzidas nas para permitir a quem de direito pensar na soluao definitive. Como ela nao veio, aguarda-se o desabamento. A lamentacao continuard se algo mais in- teligente e conseqiuente nao for adotado. Nos funds do palacete Faciola, um outro solar, de menor valor, estd sendo restaurado. Por que a solugao nao foi seguida no vizinho? Porque custa caro, os donos nao tem dinhei- ro, o poder p6blico nao tem nada a ver com o assunto, etc. Nada a fazer, entao. Mentira. A primeira tarefa da prefeitura seria conscientizar os belenenses que pr6- dio antigo nao 6 s6 bonito: pode dar lucro tambem. Restaurar nao 6 jogar dinheiro fora, mas investimento. A administracgo munici- pal ter que participar porque ha ganho para a coletividade. Logo, 6 legitimo que de as- sessoria, minimize custos, oferega vantagens, indique atrativos, intervindo para induzir a recuperagAo de pr6dios num neg6cio comer- cial entire as parties envolvidas. Ha mecanismos de intervengao (o IPTU, linhas de cr6dito favorecidas, banco de ma- terial de construcgo). Se institucionalmente ha limitag6es, alternatives tamb6m existem. Ja sugeri aqui a criacao de uma empresa imobiliiria municipal. A id6ia agradou a entao vereadora Ana Jl6ia Carepa, mas mor- reu entire seus pares antes de virar lei. Pode ser o caso de renascer. Ela ou qualquer ou- tra. Desde que nos poupe desse triste espe- tdculo de ver uma cidade morrer um pouco, sempre, a cada novo dia. Seja assim ou de qualquer outra manei- ra, que talvez jd nao se consiga mais esclare- cer, o Tesouro Descoberto no Mdximo Rio Amazonas sobreviveu aos mist6rios e trag6- dias do padre JoAo Daniel e nos chega, vivo e fresco, como o maior tratado produzido sobre a Amaz6nia at6 o ingresso em cena, logo em seguida, do sdbio baiano Alexandre Rodrigues Ferreira. E ainda que a Viagem Filos6fica se imponha como referencia cien- tifica, o Tesouro a sobrepuja como uma de- claracAo de f6 e de amor na riqueza e no future da Amaz6nia. Sem igual antes, du- rante e depois. Dai devermos saudar seu re- nascimento, por meio dessa parceria entire a Prefeitura de Belem e a Editora Contraponto, e aproveitar sua energia revivificante. Parab6ns, professor e arquiteto Edmil- son Rodrigues. Para comemorar o feito verdadeiro, que tal ler a obra? E o convite que se faz a todos os que amam a Amaz6- nia, ou pretendem vir a amA-la. E a en- tende-la tambem. Jornal Pessoal 2" QUINZENA JANEIRO DE 2004 em6ria DO Estabulos Nesse ano funcionava em Bel6m a Associacgo dos Tra- balhadores em Estabulos, que congregava os empregados das vacarias e similares, instaladas a larga em plena area urbana. A associacgo estava mobiliza- da para reivindicar aumento de salaries, ajustamento de hord- rio e a lei dos dois tergos. Se ndo fosse atendida, pretendia instaurar dissidio coletivo. Ah, sim: aproveitando, a associaqgo protestava contra o aumento das passagens de 6nibus e o acordo military en- tre o Brasil e os E.U.A. Acontecimentos de 1953 Franco, de 16 anos, que mora- va na Quintino Bocaiiva, nio sabia nadar, mas decidiu acom- panhar os amigos. Enquanto fi- cou na beira do igarap6, tudo bem. Mas ao decidir arriscar ir mais em frente, mergulhou e nao boiou mais. S6 foi encon- trado bem depois, jd morto. Pro- vavelmente seu corpo havia fi- cado preso em alguma raiz. Hotel Um banquet que o pre- feito de Bel6m decidiu ofere- cer, no Grande Hotel, a "tu- ristas sulinos" que visitavam a cidade, quase nao se reali- zou por causa de uma greve dos gargons. O movimento era para cobrar o pagamento das gorjetas, que a direcao do estabelecimento estaria reten- do. A greve prosseguiu, mas o banquet foi salvo por um entendimento entire as parties. Nessa 6poca, alias, a impren- sa especulava que a Empresa Grandes Hot6is, proprietdria de uma rede de hot6is desde os Estados Unidos ao Uruguai, ven- deria o Grande Hotel a Pruden- cia Capitalizaco, que havia aca- bado de construir o "majestoso" Hotel Amazonas, em Manaus. Sede A diretoria da Assembl6ia Paraense decidiu demolir o pr6- dio no qual residia o deputado Pereira Brasil, do PSD, para construir sua nova sede social, no centro de Bel6m, "a altura das suas tradig6es". A velha sede tamb6m viria abaixo. Agenda Reabria o curso de piano que Hl6ia Charone dava na avenida Gentil Bittencourt, 434. Tamb6m o curso infantil N. S. do Rosario de Fatima, que a professor Almira Bor- dava da Silva ministrava, "para um ndmero limitado de alunos", em sua residencia, a travessa 14 de Margo, 622, pr6ximo do Largo de Nazard. O Externato N. S. de Lour- des, na Praga Batista Campos, Igarape Adolescentes do bairro do Reduto resolveram tomar banho no igarap6 das Almas (hoje mais conhecido, numa paisagem completamente distinta, como Doca de Souza Franco). Valter Carnaval: 50 anos Os blocos, que s6 depois vi- rariam escolas de samba, eram simples em 1953, mas a anima- gao era tdo grande quanto a com- petencia na hora de arrastar o pd. Sem qualquer sofisticagAo, davam a Bel6m um dos melho- res carnavais do pals. Como era de praxe na 6poca, os blocos Boemios da Campina e Piratas da Batucada posaram para o fot6- grafo da Folha do Norte, em fren- te a sede do journal, na esquina da Gaspar Viana com a 1 de Marco (onde 0 Liberal viria a se instalar, na metade da d6cada seguinte). Uma fantasia primaria, como se fora um uniform, e bastava para o bloco ir a rua honrar seu estandarte de veludo no carnaval de meio s6culo atrns. Sn JANEIRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal 5, e o Ypiranga, curso pr- escolar e primario da aveni- da Braz de Aguiar, 413, abri- am matriculas. GuimarAes Telles implan- tava dentaduras artificiais Bridge no seu consult6rio, no Largo de Santana, 51. Otdvio Mendonca, Orlan- do Bitar e Orlando Costa * (este, solicitador) faziam ad- vocacia em geral, corn uma carteira imobilidria, no escri- t6rio da rua 13 de Maio, 62. Mayer Obadia tinha "pou- cas unidades restantes" da geladeira americana Servel para vender em sua loja de "representac6es [por] conta at pr6pria", na rua Santo Ant6- nio, 88. A geladeira era "a chama que produz gelo", cu- jas peas nao se desgastavam "porque nao tern motor". Rec6m-chegada de Bom- baim, na India, a "cientista" Madame Voagava prometia u aplicar o que sabia de ocul- a tismo e quiromancia, em "Ion- s gos anos de estudo no Ori- seriados ente, na Asia e na America do precurso Sul", para prever o future de vistos nc seus clients. Eles podiam suporte aparecer na Rua Dr. Assis, bora ger; 139, na Cidade Velha, onde a para sen mestra dava consultas. Havia No in 6nibus "na porta". formidiv "Especialista em redes Popular, para dormir", a Casa das Pe- "Tex Ran chinchas tinha muitas delas do Iracer para vender em seu dep6sito vesperal e posto de vendas, na Rua Suces Santo Antonio, 82. do film "De regresso de fdrias", o doutor Paulo Fender avisava aos seus clients "que reabriu tagem", a seu consult6rio de clinic de de cavida doencas do coracgo, no Edifi- pritica oc cio Piedade, 3 andar, sala 307". Paulo Rodrigues ia viajar cor a familiar pelo "Constella- Advo tion" para o Rio de Janeiro. Por Aldeb isso, se despedia dos seus "ami- cedo Kla gos e parents, oferecendo Conselho seus pr6stimos a Av. Portugal, OAB, avi 368, apt. 208 (Urca)". Aprovei- que a an tava para informar a praga "que paga dire ficard como seu bastante pro- Manoel curador o sr. Mario Rocha, mui estava digno representante da Cia. entire 10 Cervejaria Brahma". (em impl O competente cirurgido- Ordem, q dentist" Raimundo Cordeiro de do f6rum Azevedo recebeu, para seu con- cio Anton sult6rio, o Airdent. 0 aparelho, 0 pre, adquirido nos Estados Unidos, anunciav; iria substituir, "com grande van- alizar a 1 Amanha no muainal do IRACEMA e Vesperal do POPULAR 3.. ftiro a torde o noito no GUARANI ....r.. ... ,,b-- 4VENTRAS U,44d BIEN TE DE ^TERROR./ em nunca foi ao program combinado seriado para brir e filme de longa duragao para arrematar nao abe o que perdeu entire as d6cadas de 40 e 50. Os seriam como que (e ainda assim mal comparando) res das atuais novelas de televisAo. No entanto, eram escurinho do cinema, em tela grande, com todo o ie uma produgao de estilo e atores profissionais (em- almente desconhecidos). Algo para deixar sua marca ipre nos que participaram desses programs. icio de 1953 "O Misterioso Mr. M" era exibido, em "13 eis capitulos", na matinal do Iracema e na vesperal do no final de semana, e A tarde e a noite no Guarani. JA iger", em 15 epis6dios, estreou na "vesperal juvenile" na, as 15 horas. Depois iria para a matinal do Poeira, do Guarani e sessao noturna do Poeira. ;so garantido, independentemente da qualidade . . broca na preparagao des, modemizando a lontol6gica na cidade. pados aro Cavaleiro de Ma- utau, president do Seccional do Para da sava aos advogados uidade ja podia ser tamente ao cobrador Duca Salgado, que disposicgo de todos, e 12 horas "oficiais" antacgo), na sede das ue ficava no edificio de Bel6m (no Pali- iio Lemos). sidente local da OAB a ainda que iria atu- ista de inscritos na Seccional, "dela constando, com a devida anotagao, os nomes dos profissionais impe- didos de advogar, inclusive os que estAo com suas inscrig6es canceladas, em virtude de nao estarem os seus diplomas re- gistrados no Minist6rio da Edu- cacAo e SaOde". Carnaval Os s6cios (e s6 eles) que quisessem ir ao "Baile de Mascaras" da Assembl6ia Pa- raense tinha que ir de traje passeio ou "de rigor, exclui- do o branco. Podia ser tam- b6m "fantasia condigna corn as tradioges de elegAncia e distingdo do Clube". Mas nao seria permitido "mangas de * I II I' 1 1 1 I 4 4 # t 0 I 4 * SIOJE. no IRACZ MA, na ; E* ~EPEKAL JUVENILE i~ 15 - herats rsari 41 empotlgntl a*rlrado mC^L^/ Jri Snlambn.a, M.1N'IINt d t P rOPIRA Ve Veural do ULA. * i RANI e serundaterat. i tu- . de e i a uite mo POLIXA. - ,. O t t o. I I I 4 4 I 4 i i 4 *t'I r. camisas, macacoes, 'slacks' ou semelhantes". A diretoria nao iria permitir "aspiracAo de lan- ca-perfumes, fazendo retirar do saldo, sumariamente, toda e qualquer pessoa que for apanhada nesta prAtica". A lanca-perfume tamb6m estava expressamente proibi- da no "Amazon Bar" do Gran- de Hotel. Por ser um "recinto fechado com ar condiciona- do", o local "nao comporta vapores de 6ter, que prejudi- cam a assistencia", justificava a direcao do estabelecimento em nota ao p6blico. Pedia a colaboragAo "de seus amigos e fregueses para o estrito cumprimento da media que se viu na contingencia de to- mar para beneficio geral". Jornal Pessoal 2 QUINZENA JANEIRO DE 2004 .4 LATIM * Era inevitdvel que, no espirito do Concilio Vaticano II, a Igreja substituisse a missa em latim pela reza nas linguas nacionais. Serviria para restabelecer a ponte de comunicagAo entire o padre e os fi6is, rompida pelo isolamento do sacerdote, simbolo do isolamento da pr6pria Igreja, em sua sede suntuosa, no Vaticano, dominada pelas heras da burocracia e dos interesses politicos e financeiros. Quarenta anos depois, o sucesso que algumas missas celebradas em latim estao alcangando pode ajudar a encontrar um novo ponto de equilibrio. Aluno de latim durante sete anos escolares, do ginasio ao classico, e coroinha de missas a antiga, com o missal na ponta da lingua, fui um dos que jamais aceitaram a aboligAo da discipline nas escolas e vivia a melancolia do ritual na lingua de Cicero e Virgilio, a iltima floor inculta e bela do Ldcio (quando acabei de escrever a palavra, o program de texto do computador a assinalou corn vermelho; computador 6 mesmo parvo em mat6ria de lingiiistica). A forma~go em latim me deu o diferencial, se o tenho, no manejo do portugues. Daria a qualquer um na mesma circunstAncia. O que me fez defensor do latim nos curriculos escolares. Lingua presidential Lula pode ter ingressado nurn fase de euforio artificial sem retorno Consider positive que o president Lula vd ao exterior. Mas acho que ele esta viajando demais. Algumas visits nao foram bem justificadas. Ou- tras, at6 agora, nada renderam. O saldo global, se nao 6 deficitdrio, nao acumula os pontos que a propaganda official Ihe atribui. O president, apanhado pela com- binaa.o de dois virus agressivos (o da vaidade e o da non-chalance turistica), pode ter ingressado numa fase de eufo- ria artificial sem retorno. Quem se torna globe-trottersabe muito bem do que falo. A primeira grande seqiela do mal 6 o gasto de 57 milh6es de d6lares com o novo avito da presidencia (dos quais US$ 18 milhoes em adaptadges para tornt-lo de estilo). So 160 milh6es de reais, o que proporcionaria o atendimen- to a 185 families pelo progra- ma Bolsa-Familia. Nao ha como justificar esse desvario, exceto pela tendencia que temos de ser compassivos para nao pa- recermos provincianos e mesquinhos. O Brasil vai pagar em seis parcelas, em ape- nas um ano, por esse hotel a6reo. E mui- to dinheiro para tdo curto prazo. Mas nao 6 s6 o valor imobilizado: hi o terrivel custeio dessa preciosa miquina de girar pelo mundo. O governor do pobre Pard esta pagando 550 mil reais pelos ser- vigos de manutengAo da raquitica frota estadual, composta de um Xingu e um Ca- ravan. A quanto chegar- a manutencgo do poderoso Airbus ACJ de Lula? E o custeio das viagens cada vez mais numerosas e longas do president e s6quito? Nao era mais adequado que ele reduzisse seus p6- riplos e fosse de linha commercial, salva- guardado por tudo que 6 logistica e pro- teqgo? Seria bem mais Brasil. Talvez, ao inv6s do devaneio no esperanto, devessemos ter investido na lingua universal (ou semi-universal) que jd existia, disseminada pelo mundo conhecido gragas ao imp6rio romano. Nela foram fixados os nomes cientificos. Ela deu origem a outras tantas linguas e Mas ha um outro problema, que me comove. Nos 20 anos em que fez politi- ca, inclusive fora do Brasil, Lula podia ter aprendido ingles. Ainda mais porque jd devia ter aspirag6es cosmopolitas. Doeu-me bastante ver, na foto dos che- fes de Estado das Amdricas reunidos em Monterrey, no M6xico, o president, mal acomodado em sua cadeira (e em seu palet6), procurando o significado da pi- ada que foi contada atrds dele, na extre- midade esquerda. Olhava entire descon- fiado e ressentido para os colegas, que riam, deixando-o i deriva. A piada foi dita em ingles, de outro modo o president americano George W. Bush nao teria rido tro sin- Stonizado aos seus acompa- nhantes, monoglota texano que 6. Todos compreende- ram naturalmente e riram. Menos Lula. NMo que tenha discordado da piada. Simplesmente estava voando, 6rfdo de int6rprete, que se tornou seu irmro siamrs, gemeo univitelino. Ha oca- si6es em que, sem rudimentos da lin- gua, fica-se a deriva, sem tradutor pos- sivel. E uma das mais desconfortiveis sensac6es que se pode ter fora de casa. O que era usufruto vira exilio. A festa azeda. Por isso, a posicgo de Lula na foto ficou pat6tica. Nem por isso (ou nao exatamente por isso) o president deve se inibir. Mas que deve se acautelar, deve. Ningu6m esta obrigado a ser poliglota se vai de vez em quando ao exterior. Mas para quem quer se tornar internacionalista, ser monoglo- ta incomoda a alma individual e faz doer o orgulho national. Trata-se de algo sim- b6lico, mas 6 justamente isso que distin- gue o home dos outros animals. deixou sua. marca mesmo nas de outros grupos lingtisticos. Est. muito long de poder ser apelidada de lingua morta. Diagnosticada em seu estado real, talvez renasga. Tanto para aproximar os homes como para dar A sua fala mais exatidio, concisko e beleza. O epigrama e o aforismo, sem o latim, perdem sua forca. Fica a sugestdo. Para a igreja local, com um acrescimo: que tal escolher um lugar para abrigar a missa em latim? NMo s6 com a liturgia nessa lingua, mas pelo menos com parte com o rito a antiga. J d o Pt*o -: *o Cnsan 845/03/6.0 e-mail: jornal1amazon.. u A Pn L i I. |
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