Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00262
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00262

Full Text





JANEIRO DE 2004
2A QUINZENA

Journal Pessoal R$ 3,00
A AGENDA AMAZ6NICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


PARCIALIDADE


S0 Liberal e Didrio do
Pard agora se igualaram
na cobertura do
assassinate do vereador
Addo Lopes Resplandes,
S de Tucumr (ver, a
prop6sito, Jomal Pessoal
315). O Didriosuprimiu c


Aimoralidade eo limited?

A hist6ria do projeto Sorney, estendendo a todo Amazonia Ocidentol
os beneficios do Zono Fronca de Moanus. atesto a incopocidode dos
liderangas omazonicas de estor a oltura do tempo em que vivem.


1989, o principal editor do Wa-
shington Post, notabilizado por
comandar os rep6rteres que des-
vendaram o escandalo Watergate, obrigando
o at6 entAo todo-poderoso president Richard
Nixon a renunciar para nao sofrer impeach-
ment no Congresso, por causa de suas falca-
truas, quando veio pela segunda vez a Ama-
z6nia. Bradlee justificou sua nova viagem
dizendo que a Amaz6nia era o principal tema
brasileiro nos Estados Unidos e que ele que-
ria conferir in loco o que Ihe diziam suas fon-
tes: de que o future do planet dependia do
que estivesse sendo feito na regiAo.
O fato de maior impact, na 6poca, era o
record de desmatamento de toda a hist6ria da
humanidade, batido na Amaz6nia em 1987.
Nada menos do que 200 mil quil6metros qua-
drados de cobertura vegetal, de todo tipo (sen-
do 80 mil km2 de floresta densa), tinham sido
postos abaixo naquele ano, 10 vezes mais do
que os niveis assustadores dos dois 6ltimos anos.


A maior parte dessas derrubadas nao era
feita para servir a atividade produtiva, mas
como uma esp6cie de habeas corpus pre-
ventivo contra a possibilidade de a desa-
propriagAo de im6veis rurais produtivos pelo
governor vir a ser incluida na nova Consti-
tuicgo, que estava sendo elaborada. Os se-
nhores da terra trataram de desmatar para
criar "benfeitorias", cor as quais se imuni-
zariam contra a temida desapropriagAo (que
acabou vindo e, na gestdo de Jader Barba-
Iho no Minist6rio da Reforma Agraria, se
tornou neg6cio rentAvel para os supostamen-
te punidos e outros mais).
Exemplos assim, A larga, podem ser apon-
tados como indicadores da importAncia mun-
dial da Amaz6nia, um dos temas que maior
interesse provoca na sociedade contempori-
nea. Neste moment em que escrevo (terga-
feira, 27) ou quando o distinto leitor estiver
avaliando este texto, debates estarao aconte-
cendo em muitos pontos do planet motiva-
CNiiTiiiNA NA PG 2'i


prefeito, ja cassado pela
Cimara Municipal, era
atacado. Mas hi duas
semanas nao divulga uma
entrevista exclusive corn
Celso, feita no interior da
penitenciaria de Marituba.
Parece que o journal nao
quer dar-lhe um direito
sagrado: o de defesa.
Ja o Didrio exagera na
p6ssima regra estabelecida
nas redag6es: nao
acompanhar noticidrio que
foi dado corn
exclusividade pelo
concorrente. Como o
jomal dos Barbalho boiou
na revelagao da superzona
franca, a ela s6 se refere
homeopaticamente e, ao
faze-lo, dando mais
destaque ao govemador
do que ao tema.
Estd na hora de voltar ao
be-a-bi.


~I
.
crP~i~Y~2~


r


r








CONTINUAAO DA CAPA
dos pela Amaz6nia. Noticias e artigos esta-
rao saindo na imprensa mundial. Livros apa-
recerdo. A Amaz6nia destronou Marta Rocha,
Pele, o carnaval e o futebol brasileiro da agen-
da international. t o segundo tema mais dis-
cutido pelos terrdqueos.
Quase o mesmo acontece no Brasil. Afi-
nal, a Amaz6nia ocupa 60% do territ6rio na-
cional, abrigando a maior bacia hidrogrdfi-
ca do planet, a maior floresta tropical, a
maior fonte de biodiversidade, o maior con-
junto de jazidas minerals e nimeros de gran-
deza equivalent. Mas, a rigor, ningu6m leva
a s6rio a Amaz6nia. Ningu6m acredita que
ela tenha vida inteligente, que seja capaz
de se autodeterminar. Ela nao impoe res-
peito. E um gigante com queixo de vidro.
Cai ao menor golpe.
O epis6dio da assim chamada superzo-
na franca 6 um exemplo pat6tico dessa rea-
lidade. Em junho de 1999 o senador Jos6
Sarney apresentou um projeto-de-lei (que
tomou o numero 414/99) para que a Area
de Livre Comercio de Macapd e Santana, no
Amapd, criada em 1991 (durante o governor
Collor), tamb6m usufruisse os beneficios fis-
cais e tributarios da Zona Franca de Manaus.
O projeto foi recebido pelos pares do ex-
presidente como uma iniciativa clientelista e
de endereco certo: reduzir ao mAximo os
custos de implantacgo de uma fabrica de ce-
lulose da americana International Paper no
reduto eleitoral do politico maranhense e
de outras empresas que viessem a seguir. Elas
ficariam isentas de impostos e ainda teriam
cr6ditos a seu favor caso aproveitassem a
mat6ria-prima local, transformando-a em pro-
dutos de exportacgo, a semelhanca do par-
que industrial da zona franca amazonense.
O projeto ja tinha parecer favoravel do
seu relator na Comissdo de Assuntos Econ6-
micos, Bello Parga, quando o senadorJeffer-
son Peres, do Amazonas, pediu vistas e, logo
em seguida, requereu a realizagAo de audi-
&ncia p6blica na comissao para o debate da
mat6ria. A partir dai o projeto entrou em hi-
bernacao, ficando paralisado ao long de dois
anos. Voltou a ter vida para que os minist6ri-
os da Fazenda, do Desenvolvimento, Ind6s-
tria e Com6rcio Exterior e das Relaoges Exte-
riores pudessem "avaliar o impact fiscal e
econ8mico" da iniciativa, "bem como sua
implicacgo para os paises do Mercosul".
A providencia era realmente indispensavel.
A Lei de Responsabilidade Fiscal condiciona a
concessao de qualquer renhincia fiscal e tribu-
taria a comprovacgo dos seus efeitos sobre os
orgamentos p6blicos, a previsAo da perda da
arrecadacao no oraamento do exercicio finan-
ceiro no qual ela entrar em vigor e a adogao
de medidas compensat6rias para o gasto. Ja o
tratado que criou o Mercosul exclui do Ambito
do mercado comum os regimes alfandegarios
especiais, como seria mais esse.
Aprovar o projeto sem tais exames seria
iniciar um v6o cego e condena-lo a ilegalida-


de. Mas a audiencia foi cancelada na sessdo
da comissao de 20 de novembro de 2001 por-
que Jefferson Peres estava ausente para enca-
minhar seu requerimento. O projeto foi entao
enviado a Comissao de Constituigao e Justiga
"para exame de sua constitucionalidade e juri-
dicidade". S6 no dia 16 de maio de 2002 o
senador Sebastiao Rocha entregou seu pare-
cer, favoravel a aprovagio do projeto de Sar-
ney. Um mr s depois o senador Luiz Otavio
Campos pediu vista. Devolveu o projeto ap6s
seis dias sem qualquer manifestag~o.

Orelat6rio foi aprovado na comissao
em 7 de agosto de 2002. Jefferson
Peres se absteve de votar. Mas em 31
de dezembro ele mesmo solicitou o reexa-
me do projeto na Comissao de Assuntos Eco-
n6micos. Passados meses, o president da
comissao, Ramez Tebet, designou o sena-
dor Jodo Alberto Souza para relatar a matd-
ria. Em menos de um mes a minute do rela-
t6rio estava pronta, sendo, final, aprovada,
em 23 de setembro do ano passado, por 19 a
0, sem qualquer abstengAo. O senador Luiz
Otavio Campos, o unico que pediu vistas do
process, votou a favor. A senadora Ana Ji-
lia Carepa nao compareceu. 0 terceiro sena-
dor paraense, Duciomar Costa, 6 apenas su-
plente na comissao. Nao foi convocado.
O projeto foi entao encaminhado para a
presidencia do Senado. Nesse moment o
senador Arthur Virgilio Netto, do Amazonas,
apresentou requerimento para que a mate-
ria fosse submetida diretamente ao plena-
rio, ficando em mesa por cinco dias para o
recebimento de emendas. Ele pr6prio foi
autor da 6nica emenda, com substitutivo,
referendada pelos senadores Romero Juca,
de Roraima, e Valdir Raupp, de Rond6nia.
O substitutivo recebeu parecer favoravel
e foi aprovado na Comissao de Assuntos
Econ6micos no intervalo de quatro dias, em
outubro. No dia 30 desse mesmo mes foi
aprovada urg6ncia para a tramitagdo do pro-
jeto, que de imediato foi tamb6m aprovado
em plenario, pela votagio simb6lica dos li-
deres, sem qualquer contestagCo.
Uma semana depois o senador Luiz Ota-
vio pediu novamente para ter acesso ao pro-
cesso, mas somente o recebeu dois meses
depois, no dia 22 deste mes, quando o pro-
jeto ja estava na Camara Federal, o leite fora
derramado e Ines jazia morta.
Reconstituida, essa cronologia compro-
va a manobra feita para que o projeto tran-
sitasse inc6lume e bem-sucedido no Sena-
do, passando a tramitar da mesma maneira,
em seguida, na Camara Federal, o que s6
nao foi conseguido porque, enfim, a opi-
niao publica se deu conta de que tomara o
gato por lebre.
No inicio tratava-se realmente de um po-
bre gato. Melhor dizendo: de um falso gato.
Quem concebeu o projeto para o senadorJos6
Sarney ja estava imbuido do mau prop6sito
CANTINA NA PAG 3


CARTA
Espelho
deformado

Faro referencia a mat6ria
da p~gina 05 (Governo Lula:
auto-iluminado), Jornal
Pessoal n 315. E fdcil chegar
aquela conclusao quando a
anAlise 6 nitidamente parcial
e conservadora. Dissinto,
portanto, das suas abjurag6es
por nao possuirem qualquer
fundamento t6cnico e muito
menos politico, o que seria o
minimo a esperar de um
intellectual do seu quilate,
que jd devia estar despido
dessa forma escravizante de
pensar. A deselegancia nao
leva a lugar nenhum, pelo
contrdrio, s6 faz acirrar os
animos e enfraquecer a
democracia.
Nao pretend destringar
as condic6es micro e macro
econ6micas que este infeliz
Pais sustenta hi 503 anos e
8 meses, tudo por conta do
grupo que se instalou no
poder, e deve seguri-lo at6
o dia das luzes ou das
trevas finals. Por6m,
qualquer observador mais
atento percebeu o jogo sujo
dos especuladores,
incentivados pelos
cond6minos brasileiros -
todos afinados com
espertalh6es do tipo Soros -
que fizeram os precos dos
bens/serviqos dispararem a
contar de set/02, quando se
delineou a provdvel vit6ria
do entao candidate Lula.
Depois que se consolidou
o triunfo do PT e seus
aliados, inclusive a posse, a
situacAo econ6mico-
financeira ficou a merc6 da
manipula~Io s6rdida e
deslavada dos adversarios
nacionais e internacionais.
Os precos dos alimentos
bAsicos, por exemplo,
subiram assustadoramente, e
ainda nao retornaram a
patamares razoaveis. O
d6lar bateu a curva dos R$
4,00 reais, "Ou Serra ou o
caos", era a senha.
Felizmente os petistas nao
foram incautos e resolveram
administrar a crise
provocada, segundo dizem, ,


JANEIRO DE 2004 2' QUINZENA Jornal Pessoal








Score as pr6prias ferramentas
do governor anterior, ao
inv6s de incendiar o circo,
como muitos apregoavam
por absolute aversao a
alternincia de mando.
Estava claro que eles nao
deviam aceitar os meneios
dos contrarios que
apostavam na execucao da
agenda do PT quando
oposiCgo, mais ou menos
nesta ordem: morat6ria
internal e externa, ruptura
dos contratos, revisao das
privatizag6es, etc.
Os franceses tem um
brocado popular que diz
"Tudo que terminal bem estA
bem". Um certo escritor
brasileiro afirma que o seu
genitor sempre se pautou
pelo seguinte principio: "no
fim sempre di certo, se nao
deu certo 6 porque nao
chegou ao fim". Estamos
assistindo o que os
soci6logos chamam "a trama
viva da sociedade e seus
conflitos".

MINHA RESPOSTA
0 leitor devia ler, de vez
em quando, osjornais ame-
ricanos. Um dos mais criti-
cos, The Nation, proclama-
damente socialist, circula,
sem interrupc(o alguma,
desde 1856, quando os EUA
viviam um dos moments
mais dramdticos de sua his-
t6ria, a guerra civil. Nin-
guem jamais apontou o Na-
tion como ameaca a demo-
cracia, que e o regime da
controversial e dos conflitos
por excelencia. Um dos co-
lunistas do semandrio 6
Alexandre Cockburn, gran-
de jornalista e filho de
grandejornalista. Sou esco-
teiro junto dele. Mas pare-
(o deselegante, agressivo,
inculto, tecnicamente des-
preparado, vitima de um
"pensar escravizante" na
6tica dessa visdo brasileira
de democracia, patronal,
patrimonialista, autoritd-
ria. E conservador, a juizo
de Cerveira.
Conservador 6 o governor
Lula: eu defend a novida-
de, a mudanga, a esperan-
(a, que ele tratou, enquan-
to oposiado, como mera bra-
vata, conforme sua confis-


CONTINUA;AO DA PAG. 2
de nao permitir que estranhos (no caso, todo
o restante do Brasil) tivessem consciencia do
conteddo da iniciativa, fossem quais fossem
suas consequincias se um toma-l-dd-ca
tipico da atividade parlamentar depravada-
mente franciscana, como a definiu o ex-de-
putado Roberto Cardoso Alves, o "Robertdo",
ou um autentico program de agAo.
0 caput do primeiro artigo do projeto 6
um primor do maquiavelismo de chameca, seja
do brejo dos Guajis como do Araguari. Diz a
cabega do artigo: "Ficam estendidos os bene-
ficios fiscais previstos nos arts. 3, 4, 5, 6,
7, 8- e 90 do Decreto-Lei n- 288, de 28 de
fevereiro de 1967, alterados pela Lei n- 8.387,
de 30 de dezembro de 1991, e art. 6- do De-
creto-Lei n" 1.435, de 16 de dezembro de 1975,
As areas a que se refere o 49 do art. 1 do
Decreto-Lei n" 291, de 28 de fevereiro de 1967,
e o art. 11 da Lei nQ 8.387, de 1991".

aros mortais terAo ido al6m da leitura
desse c6digo de remiss6es. Mas quem
algum dia se defrontou cor a triste-
mente famosa emenda constitutional n0 1,
de 1969 (mais conhecida como "emendAo"),
que acabou de desnaturar a Constituig~o (ou-
torgada) de 1967, em plena ditadura military,
sabe que pelo cipoal de nimeros, que se
sucedem na citagio de artigo tal da lei tal
que passa a ter a redagao tal, costuma se
infiltrar alguma cascavel do direito.
O rabo do animal da zona franca come-
gava a aparecer no pardgrafo Onico desse
primeiro artigo, que completava:
"As iseng6es fiscais previstas no caput
deste artigo aplicar-se-go aos bens elabora-
dos com mat6rias-primas de origem regio-
nal, provenientes dos segments a seguir
discriminados, observando-se a sustentabi-
lidade ambiental da region:
I animal;
II vegetal;
III mineral;
IV agrosilvopastoril;
V agroindustrial;
VI biodiversidade;
VII mdquinas e implementos agricolas;
VIII cerAmicas e vidros".
O artigo seguinte era a conseqiiencia 16-
gica dos dois enunciados anteriores, dando
nova redacao a uma regulamentacgo da
Zona Franca de Manaus para que a isencgo
do IPI (Imposto sobre Produtos Industriali-
zados) se aplicasse aos segments indica-
dos (nao s6 a isengio, mas tambdm o cr6di-
to por conta de um imposto que nao 6 pago).
At6 entAo, porem, o tamanho do prejui-
zo era pequeno porque o favorecimento iria
se limitar aos municipios de Macapi e San-
tana, em areas contiguas no Amap~. Era o
senador Sarney favorecendo sua horta e re-
cebendo a retribuicgo do PT federal por seu
papel na aprovagio das reforms tributiria
e previdenciiria. Mas ampliar o tratamento
fiscal a toda a Amaz6nia Ocidental, numa


area de mais de dois milh6es de quil8me-
tros quadrados, passava a ser outra coisa.
Dificilmente o monstro seria deglutido sem
dores, esperneio e gritaria.
Daf a manobra sagaz dos senadores Je-
fferson Peres e Arthur Virgilio, ajudados pelo
Palhcio do Planalto petista. Deixaram para
a ultima hora a emenda que estendeu a zona
franca a Rond6nia, Roraima e Acre, al6m do
Amapd e o interior do Amazonas, apresen-
tando-a diretamente ao plendrio e conse-
guindo o regime de urgencia, cor o qual a
mat6ria passou a toque de caixa e os inte-
ressados (e, sobretudo, os prejudicados) nem
se deram conta. Alguns at6 aprovaram o ato
que os desfavorecia. Como foi o caso do
Pard, o tnico Estado da regiAo Norte a ficar
de fora dessa orgia fiscal e tributiria.
Quando o projeto jd tramitava em regime
de urgencia no Senado, caminhando c6lere
para a aprovacgo, a Secretaria da Receita
Federal encaminhou, na metade do mrs de
dezembro do ano passado, uma nota t6cnica
ao Minist6rio da Fazenda. A nota alertava
sobre o perigo da iniciativa, seus efeitos ne-
gativos para a economic national, a contra-
digao em que ela se punha em relagao a po-
litica econ6mica do governor, sua ilegalidade
e suas repercuss6es sobre o Mercosul, que
poderiam dar em dor de cabega diplomitica,
al6m de perdas no comdrcio exterior.
A nota foi entregue tanto ao ministry
Ant6nio Palocci quanto ao senador Aloizio
Mercadante, o principal nome do PT no Se-
nado, mas nenhum deles incorporou os ar-
gumentos da Receita. Ao inves disso, o go-
verno federal e o PT serviram de ac6litos
para as manobras que Sarney, incorporan-
do as demais bancadas amaz6nicas, a exce-
cao do Pard (que continuou a olhar os as-
tros, distraida), consumassem o absurdo.
Mais do que isso: o inacreditivel.
Em primeiro lugar porque a aprovacgo do
projeto pela Cimara dos Deputados, secun-
dando a posigdo do Senado, acarretara o au-
mento da rendncia fiscal da UniAo (e, por in-
dugdo inevitivel, tamb6m de todos os Estados
nao favorecidos, tanto na conta do ICMS quan-
to na do fundo de participagdo e na compen-
sa~ao pela perda de receita de exportagio). A
ren6ncia fiscal do govemo federal para a Zona
Franca de Manaus ter sido, em m6dia, de 2,4
bilh6es de reals por ano, que equivalem a
quase 14% do total dos beneficios tributirios
federal. Numa conta complete, a perda de
receita pode ir alem de R$ 3,5 bilh6es.
Os defensores da Zona Franca retrucam
que ela mais do que compensa essa sangria
de impostos com seu faturamento, o paga-
mento dos demais encargos que incidem
sobre a ZFM (mais de um real de tribute
por cada real de isencao), a atragio de 400
empresas para o distrito industrial de Ma-
naus, o crescimento acelerado das exporta-
g6es, 50 mil empregos diretos e virios ou-
tros arguments, alguns corretos, outros re-
COiNiiiUAiN'iiPAG 4


Jornal Pessoal 2- QUINZENA JANEIRO DE 2004








CONTINUA;AO DA PAG. 3
lativos e virios inconsistentes. Os ataques
extremados a existencia da zona franca co-
metem virios dos mesmos erros, embora
tamb6m apresentem critics pertinentes.
O resultado desse confront ter sido cor-
rec6es no modelo e sua melhora ao long
do tempo, sem, contudo, resolver males de
origem. O principal 6 a mi originalidade dessa
ZF, cujo forte 6 a internalizagAo de bens e
insumos importados quando a razao de ser
dessa criatura, no seu padrAo universal, 6 a
exportagco, cor a qual se compensa o favo-
recimento a importag~o desonerada. A ex-
portagao feita por Manaus vinha crescendo
aceleradamente at6 dois anos atris, quando
passou a perder impulso. Nada indica que,
ao menos at6 sua pr6xima data de extincgo,
em 2013, a exportag~o ao menos empate com
a importagSo. O saldo negative acumulado
de 1997 at6 novembro do ano passado era
de 19 bilh6es de d6lares.
Independentemente de suas falhas e distor-
GOes, porem, a zona franca tern cumprido seu
papel, de ser uma fonte de atividade produtiva
e sustentacAo econ6mica para Manaus, vitima
de sua posicAo geografica desfavorAvel e de
seu isolamento no Brasil. Os principals dos seus
custos (concentracao de 90% do PIB estadual e
de 50% da populacAo na capital) ainda podem
ser reduzidos e, mesmo que pagos, parecem
um prego a pagar pelo abandon do maior Es-
tado brasileiro ao long de tanto tempo ap6s a
queda da borracha. Sem uma solucAo mais pro-
funda do que o tratamento fiscal privilegiado.
Mas transformar essa anomalia necessi-
ria (ainda que artificiosa e distorcida)
numa political regional 6 outra coisa.
Coisa realizada sem maior indagacao, sem dis-
cussao, sem aprofundamento e sem seriedade
pelo senador Sarney e coadjuvantes. Os sena-
dores amazonenses, por exemplo, que articu-
laram a emenda substitutiva em cima da hora,
pensam em levar para'o interior dos 1,5 milhao
de quil6metros quadrados do Estado benefici-
os que presentemente se restringem a capital.
Mas pode ser que acabem retirando de Manaus
indistrias que la se fixaram por contarem corn
os favors fiscais apenas na capital. Podem co-
brir um santo descobrindo o outro.
Quem tamb6m podera garantir que Manaus
teri capacidade competitive igual ou superior
A de Macapi, na foz do Amazonas, para atrair
novos empreendimentos econ6micos? Optan-
do pela foz, esses investidores nao precisarno
penetrar na bacia do grande rio. Calcula-se
que chegam a 190 mil reais os custos de pra-
ticagem e operagio para chegar a capital ama-
zonense a partir do litoral norte, dando uma
vantage potential para Macapi. E qual a
competitividade de Manaus em relaoAo ss ireas
de Rond6nia conectadas ao Mato Grosso e ao
centro-sul do pais por uma estrada consolida-
da como a BR-364? A tal da Zona Franca Ver-
de nao vai acabar seguindo o eixo norte-sul,
nao se conectando a Manaus?


Ja para os amapaenses, que se conside-
ram os primos ricos desse projeto, deve ser
feita uma ponderagAo: vitimas de um proje-
to de enclave, como o da Icomi, que se exau-
riu em quatro d6cadas de intense extragao
de manganes, eles podem vir a assistir A
multiplicagAo de empreendimentos de gran-
de porte como os que se concentraram no
Para, por forga de sua riqueza natural.
Sem desenvolver de fato o Estado, esses
"grandes projetos"deram causa a que os su-
postos irmaos regionais do Pari o excluis-
sem da tal superzona franca sob a alegagao
de ser o Onico Estado favorecido pela inte-
gragio econ8mica da Amaz6nia. Os amapa-
enses podem se tornar as novas vitimas desse
cavalo de Tr6ia, embora o falso animal de
venture 6co possa vir revestido de instala-
g6es industrials, como a fabrica de celulose
que a International Paper, com o apadrinha-
mento do "amapo-maranhense" (naturalida-
de e artificialidade de origem ao mesmo tem-
po, sem falar de adernncias ainda mais im-
portantes, como a paulista) Sarney anuncia
pretender instalar no Estado vizinho.
O projeto e fisiol6gico, imediatista e torto
em sua forma primitive. Virou um monstrengo
com o substitutivo de Arthur Virgilio (do PSDB
e nao do PT, mas, no caso, a sigla 6 indiferen-
te, como Dirceu & Mercadante & Palocci es-
tao mostrando). Alem de todas as quest6es ji
levantadas, como explicar um detalhe menor
no seu texto, menor mas incompreensivel. E a
inclusao, entire os segments produtivos be-
neficiados, todos visando o aproveitamento de
materias primas amaz6nicas (animal, vegetal,
mineral agrosilvopastoril, agroindustrial e de
biodiversidade), dos segments de mAquinas
e implementos agricolas e de cerimicas e vi-
dros. Tratar-se-ia de fisiologismo com endere-
go certo, mas desconhecido do p6blico? De
vias e travessas? De incontinencia prestativa?
Por enquanto, 6 impossivel saber. Mas
ainda que os beneficios da zona franca pan-
amaz6nica (excluido o Pard da regiao classi-
ca e mais o Mato Grosso e Tocantins, se con-
siderada a Amaz6nia Legal) se restringissem
ao beneficiamento de materias primas locais,
sem a amplitude industrial de Manaus (que
abrange atividades que usam insumos e ma-
terias primas importados), ao inserir essa cri-
atura no territ6rio national 6 impossivel nio
chegar A imagem da Amaz6nia Ocidental
(mais o Amapa) como um enorme Paraguai,
a ameagar o federalismo fiscal, o equilibrio
financeiro do pais e qualquer political de de-
senvolvimento tomada a serio, ou "sustenti-
vel", como a que o PT diz ser seu objetivo
(menos quando ha interesse do companhei-
ro Sarney pelo meio, ameagando os projetos
de poder da nomenklatura neopetista).
Os pais da crianga, ao que parece, nao
tiveram a preocupagAo de prever cor seri-
edade no que ela vai dar quando (e se) cres-
cer. A bola de neve, rolada parlamento abai-
xo pelo ex-presidente de tantas iniciativas
CONTINUA'Aii PiG i


) sdo p6s-vit6ria. Ele manteve
quase integralmente a ges-
tdo anterior, que e conserva-
dora, moldadapela cartilha
do FMI. Ao menos ate que
surja o pano B, ou C, ou D,
ou Z, conform as alternati-
vas do alfabeto. Por isso,
Lula estd sendo exaltado pe-
los praticantes do "jogo sujo
dos especuladores", que se
movimentam usando armas
como o "risco Brasil", as ta-
xas Dow Jones ou os belos
indicadores de saldo fiscal
do Banco Central. Se antes
os players eram pessoas
como Arminio Fraga, ex-
funciondrio de George So-
ros, agora os paladinos da
boa causa sdo neopetistas
como Henrique Meirelles, ex-
presidente mundial do
BankBoston, lui-meme, jd
sem intermedidrios, en-
quanto o bom Lula peregri-
na pelo alem.
Se isto j um circo, quero
que o picadeiro funcione a
larga, ndo que pegue fogo.
Mas Kirchner, ao nosso
lado, embora de umaforma
um tanto peronist para
meu gosto, estd mostrando
que hd como conduzir um
pais dependent sem tocar
fogo na lona nem se imagi-
nar supra-sumo do maqui-
avelismo, fazendo de conta
que transformou em veneno
contra seu inventor o que e
racdo para engordd-lo ain-
da mais. A virada, quando
ocorrer, se ocorrer, poderd
vir tarde demais. Ou talvez
ndo venha jamaisporque os
mestres da viracdo, no fun-
do, ndo sabem o know-how,
daf terem recorrido aos fei-
ticeiros de sempre, agora
corn outros nomes.
O caro leitor deve refletir
sobre qual PT, qual Lula e
qual governor esti tratando.
Basta olhar neste instant
ao redor, tomando como
mote o ardil montado em
torno da ampliaqao amaz6-
nica da Zona Franca (e da
irea de livre comercio e da
zona de processamento de
exportacgo e o que mais
houver de penduricalhos
antitributarios), que exclui
nosso Para, e olhar nao
para palavras ocas, mas
para a realidade.


A JANEIRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal





















^

PATRI MONIO

A placa ji est~ la: 4,1
milhbes de reais serao
gastos para recuperar o
Palacete Pinho, na Cidade
Velha, a mais bela
residencia particular ainda
em pe da 6poca da
borracha, gragas a
colaboracgo dada pela
Companhia Vale do Rio
Doce a municipalidade.
Mas pode-se ver que os
150 mil reais gastos pela
prefeitura na primeira
etapa foram para o
espago: o telhado esta
todo infiltrado e podre.
Tera que ser refeito.
Trabalho de restauragao,
no servigo p6blico, tern
que ser precedido por
inciria para criar valor e
justificar despesa. Duvido
que essa ligao seja dada
nas palestras sobre o
assunto.


PERGUNTA

A quebra da
incomunicabilidade dos
jurados foi um fen8meno
exclusive do julgamento
de Valentina de Andrade
ou ja 6 uma anomalia
rotineira do Tribunal do
J6ri, que s6 se tornou
p6blica por causa do
impact provocado pela
absolvidao dessa acusada,
surpreendendo a
expectativa macigamente
dominant?
E a pergunta que nao
quer calar. E possivel
que, quanto mais fundo
for a investigacgo, mais
alto ela fale.


CONTINUAAO DA PAG.4
desastradas (o Piano Cruzado e seus filho-
tes menos glamourosos, a Ferrovia Norte-
Sul, o enorme campo de petr6leo do Mara-
j6, o mandate dos cinco anos), tomou um
tamanho e uma feigao imprevisiveis.
Virou um exercicio de irresponsabilida-
de: ou nao vai em frente ou, prosseguindo,
acabara por ameagar aquela expressao que
esta na boca dos politicos, embora raramente
em suas consciencias, a governabilidade. A
superzona sera isso o que esta implicito
numa variagao amolecada da expressao: uma
zona paraguaia de tamanho amaz6nico, su-
jeita a todos os apetites.
Um primeiro element complicador da sua
gestao 6 o seu pr6prio tamanho. Como pre-
venir ou combater fraudes e irregularidades
tendo que fiscalizar o cumprimento das exi-
gencias indispensaveis de uma trata de zona
franca, que nao desbanque para o paraiso
fiscal, tendo que dar conta de um territ6rio
de mais de dois milh6es de quil8metros qua-
drados? Se a Zona Franca de Manaus ja era
uma anomalia, por isentar de impostos bens
que serao principalmente internalizados no
pais, ao inv6s de servir A exportacAo, nao
deve haver registro nos anais mundiais de
uma zona desse tamanho. O senador Sarney
devia se credenciar a um pr6ximo mandate
em Itu (Sao Paulo, of course).
O control desse autentico pais sera exer-
cido pela Suframa, uma superintendencia
que, mesmo no seu ambito restrito, nao vi-
nha sendo tao discrepante do padrao Su-
dam, extinta em meio a um mar de corrup-
gCo. A revelia da legislagio, a Suframa, an-
dou concedendo, de forma irregular, anos
atras, incentives fiscais da ZF de Manaus para
indistrias em Macapa e Santana. A Receita
Federal viu-se obrigada a declarar invalidas
essas concess6es e autuar as empresas be-
neficiadas indevidamente, que reagiram re-
correndo a justiga, dando causa a demands
que prosseguem at6 hoje.
(A prop6sito. A Folha de S. Paulo noti-
ciou, no dia 22, na coluna Painel, que Sar-
ney "acertou com o Planalto que ird indicar
o superintendent da Receita Federal
em SP. O cargo era da 'cota pessoal' do se-
nador at6 o governor FHC, quando foi para
o PL e o PFL". Mais raposa no galinheiro.)
Mas admita-se, no exercicio da advocacia
do diabo, que os prop6sitos do projeto se-
jam os mais nobres e legitimos. No entanto,
o mero estimulo tributario, sem vinculagao
cor um piano de desenvolvimento, pode
resultar apenas numa carnavalizacao (ou
canibalizagao) do process econ6mico. Se
o senador Sarney pretendeu apenas aten-
der um parceiro ou dar uma resposta ao seu
eleitorado, fazendo a Area de Livre Comer-
cio Macapa/Santana se igualar a Manaus, a
ampliagao da iniciativa deu ao seu projeto a
dimensao de um atentado a federagao.
Se nao reagiu a tempo, tamb6m por de-
sinforma~ao (e porque, final, essas seriam


reflexes de miasmas nativistas amaz6nicos),
Sao Paulo se colocou contra os prop6sitos
do politico amapaense. Nao apenas por con-
centrar um terco do PIB national, defenden-
do sua posicao dominant na economic bra-
sileira. Por principio, Sao Paulo se posiciona
contra tudo que ameace sua potencia, sobre-
tudo industrial. Mas a Zona Franca de Ma-
naus s6 em parte prejudice os neg6cios pau-
listas. Por outra parte, ela os favorece.

O prejuizo e causado aquela parte da
ind6stria de Sao Paulo que concorre
diretamente com o p6lo industrial de
Manaus no mercado interno e ve sua compe-
titividade erodida pelo tratamento fiscal pri-
vilegiado da Zona Franca. Ja o grupo indus-
trial paulista favorecido 6 o que fornece in-
sumos com a tributagio favorecida de Ma-
naus (por isso e tratado como Zona Franca
de Sao Paulo) e o grupo dos investidores e
principals acionistas das induistrias instaladas
em Manaus. S6 uma fragao minima dessas
empresas pertence de fato a empresarios
nativos. Todas as de grande porte estao sob
control de capitalistas de fora, seja estran-
geiros quanto nacionais.
Os paulistas sao tao dominantes que a sede
da Eletros (Associagao Nacional de Produtos
Eletroeletr6nicos), presidida pelo bandeirante
Paulo Saab, fica em Sao Paulo. A entidade que
se op6e a ela, a Associagio Brasileira das In-
distrias Eletro-Eletr6nicas (Abinee), tamb6m
fica em Sao Paulo, cujos tentaculos sao tao
extensos e sofisticados que provocam essa
batalha internal quando o m6vel da questao se
encontra, fisicamente, a mais de tres mil qui-
16metros do Palacio do Morumbi.
Lideres locais, como Sarney, apresentam-
se na condigao de salvadores da patria ama-
z6nica (ou das patrias amaz6nicas, cada vez
mais dissociadas de uma pretendida solidari-
edade regional, atingida por political territo-
riais metropolitanas), mas trazendo consigo,
ja pronta e acabada, a tabua das leis (que
hoje chamariamos de caixas pretas), tangen-
do cavalos de Tr6ia ou oferecendo bois de
piranha. Na inanigao, desacreditados ou des-
crentes da sensibilidade alheia, os nativos se
entregam ao bezerro de ouro, micangas e
balangandas que ofuscam as vistas enquanto
os grandes projetos multiplicam os seus gan-
hos, deixando as sobras na taba.
O deputado federal amapaense Davi Alco-
lumbre, inspiragao ou inspirado por aque-
le politico criado pelo humorista Chico Ani-
sio, nao abriu mao do projeto Samey. Certo
de que ele irrigara o setentriao corn o dinhei-
ro da ren6ncia fiscal, consider inimigos mor-
tais todos aqueles que querem fazer a conta
do custo/beneficio e nao apenas contabilizar
o que 6 dado por uma mao (para, a socapa,
ser retirado, multiplicado, pela outra mao).
O Para, argumentou o parlamentar, fazen-
do coro as vozes em unissono na Amaz6nia
Ocidental, esta cor tudo e ainda se mete a
CONTINUE NA AG 6


Jornal Pessoal 2 QUINZENA JANEIRO DE 2004








CONTINUA.AO DA PAG. S
prosa. O Para, na verdade, esti com tudo e
esti pobre. Enquanto a Camara Federal tenta-
va deglutir o pepino senatorial, a Alcoa, a maior
produtora de aluminio do mundo, anunciava
investimento de 1,4 bilhio de d6lares (uma
vez e meia a ren6ncia fiscal annual da Zona
Franca de Manaus) para produzir bauxita e
alumina em Juriti, numa escala mundial. O
dinheiro poderi crescer ainda bem mais se,
corn energia farta e barata, a multinational
americana puder chegar ao metal. S6 para vi-
abilizar a hidrel6trica de Belo Monte, do outro
lado do Amazonas, a Alcoa esta disposta a
entrar cor mais um bilhao de d6lares.
Motivo para festas incondicionais no Para
excluido da superzona de Sarney? Claro que
nao. A iniciativa chega corn mais de 30 anos
de atraso. Quando anunciou a primeira mine-
ragAo de bauxita na regiao, em 1972, a cana-
dense Alcan incluia no seu folheto tambem a
produgio de alumina. Logo depois, Daniel
Ludwig disse que faria bauxita, alumina e alu-
minio, computando no bolo uma hidrel6trica
particular. Mas hi um quarto de s6culo o que
se extrai do Trombetas e apenas minerio bru-
to, lavado e seco para nao congelar nos po-
r6es dos navios que o transportam para o frio
Canada. Perdeu-se um tempo precioso e divi-
sas que nao poderdo mais voltar aos cofres
nacionais. Conta de bilh6es de d6lares de efeito
multiplicador li fora, onde o min6rio 6 verti-
calizado (enquanto ci os politicos entoam o
canto-chio da ret6rica).
Fica ainda a pergunta: o projeto da Al-
coa, que nos anos 90 chegou a se proper a
criar a mais original das minerag6es de bau-
xita de todos os tempos, uma inusitada ga-
rimpagem desse min6rio, para conseguir
entrar na Mineracgo Rio do Norte, dona dos
dep6sitos de bauxita do Trombetas, esta atu-
alizado ao tempo? Retoma, renovando, o
compromisso que a Alcan deixou para trds
e nao fomos capazes de assumir?
Questio s6ria, agravada pela percepgio
da incrivel fragilidade desse gigante de p6s
de barro em que o Pard, como arqu6tipo
amaz6nico, se transformou. Mesmo consi-
derando toda a malandragem aplicada na
redagao do projeto do senador Sarney e a
esperteza dos que a ele se juntaram para
dar tramitagdo de urgencia a sua criatura,
emendando-a com um substitutivo ainda
mais monstruoso, como 6 que toda a elite
paraense passou batido nessa hist6ria?
Flagrados em falta grave, nossos tres sena-
dores se sairam corn explicag6es infants e gro-
tescas, quando nio mentirosas. Faltou-lhes co-
ragem para encarar a verdade, admitindo os
erros, e enfrentando as conseqiuncias. Sanan-
do a falta, se possivel. Nao atabalhoadamente,
mas com o maximo de conhecimento de cau-
sa, capaz de evitar decidir sobre mat6ria de tanta
gravidade como se fosse um jogo de futebol ou
um acerto entire quadrilhas, que nao conseguem
vislumbrar nada alem de seus interesses corpo-
rativos, politicos ou at6 mesmo pessoais.


Mas nao cabe apenas aos senadores (e tam-
b6m aos deputados federais) o mea culpa.
Menos imediato, por6m de maior extensao, 6
o despreparo do governor estadual. A assesso-
ria especial'do governador Simo Jatene cons-
tituiria uma das maiores empresas do Para, se
empresa fosse, tantos sao os que dela rece-
bem seus vencimentos (varios nem aparecen-
do para levar o contra-cheque). Mas o que a
torna especial? Ser um abrigo de aliados, pa-
rentes e compadres? Ser uma bacia das almas
das disputes eleitorais, uma posta restante dos
compromissos assumidos cor a fisiologia do
poder, um cemit6rio de reputag6es?
E inacreditavel que o governador do
nono Estado em populacgo do Brasil, se-
gundo em territ6rio, sexto em geragAo de
energia, terceiro em saldo da balanga co-
mercial, segundo na producgo mineral, te-
nha sabido da tal superzona pela leitura de
journal, journal que despertou para o tema na
und6cima hora. E atira informar6es a esmo,
sem a menor pontaria na mira.

Retirados da lassidao auto-suficiente da
provincia, as elites reagem pelo senso
omum, no grito, desinformadas, mes-
mo quando por elas falam associac6es de clas-
se, como a Fiepa e a Associacgo Comercial.
Mas nao s6 elas estao desinformadas. O pro-
jeto do senador Sarney acabou estendendo
os beneficios da zona franca, na sucessao de
acumulac6es que provocou, as zonas de pro-
cessamento de exportacio, as ZPEs. Ha duas
na Amaz6nia: Itacoatiara, no Amazonas, e
Barcarena, no Para. Nenhuma delas foi regu-
lamentada at6 agora, provavelmente porque
a inspiracao que as criou foi fugaz demais.
No entanto, estio legalmente criadas. Assim,
pelo menos o territ6rio (tornado livre para
efeitos fiscais) de Barcarena se tornou outro
dos prolongamentos da Amaz6nia Ocidental,
nessa algaravia burocratica que tern desnatu-
rado a geografia, os corag6es e as mentes.
Essa sem-ceriminia colonial metropolitan,
cinica mas cosmopolita, nao se lixa para as prer-
rogativas regionais, para a razao de ser da
Amaz6nia. E assim que as principals decis6es
sobre a Zona Franca de Manaus sao decididas
pelos maiores empresArios da ZFM, que sao
paulistas, em Sao Paulo, uns querendo ganhar
mais cor a excepcionalidade fiscal e outros
tentando perder menos, ou nada perder. Os
Machline, da Sharp, muito amigos do vivaz se-
nador Sarney, os Staub (Gradiente) e os Saab
estio li, guerreando contra os supostos irmaos
da Fiesp. Donos de metade do parque industri-
al de Manaus, no ramo eletroeletr6nico.
t assim ha pelo menos quatro d6cadas.
Onde estava a sede da Associagio dos Em-
presirios da Amaz6nia, que reunia, em Slo
Paulo, gente como Ometto e Lunardelli, do-
nos dos grandes projetos agropecuirios im-
plantados no vale do Araguaia-Tocantins corn
dinheiro dos incentives fiscais da Sudam? Co-
megou no Viaduto Maria Paula, na capital ban-
CONTINUA NA PAG 7


AH, SIM!

* A prefeitura comemorou a
larga o inicio da
recuperagio do centro
hist6rico de Belem, atrav6s
do program Monumenta,
na data dos 388 anos da
cidade. Mas os 8,7 milh6es
de reals anunciados sao, na
verdade, a metade desse
valor, conforme a retificagio
feita na semana seguinte.
Vird uma pr6xima?


IMAGE

Um amigo costuma dizer
que gostaria de comprar
determinadas pessoas pelo
que elas valem de fato e
vende-las pelo que elas
pensam que valem. Teria
um lucro fabuloso.
De minha parte, gostaria
que o Pard e Belem fossem
o que seus gestores dizem
que sao. EstAo repetindo
aquela charge do Jaguar,
que flagrava duas pessoas
saindo de uma sessio de
"cinema de arte". Diz um
dos personagens: "o film
nao presta, mas o director 6
genial".
Estamos mais ou menos
assim.


AUDIENCIA

Algu6m, de fora da
administration municipal, foi
consultado sobre o projeto
da Vila da Barca?
Acho que a prefeitura, a
atual ou a que a suceder
com maior boa vontade,
podia adotar um novo
procedimento em relagao a
essas empreitadas.
Publicaria an6ncio de
convocagio dos
interessados para
encontros de discussio
sobre projetos em
andamento no venture da
baleia piblica. Verdadeiras
audiencias pdblicas
informais, que talvez
viessem a aumentar a
adesao social aos projetos
e melhori-los. Ou abortar
as monstruosidades.
Fica a sugestio. Mais uma.


AC JANEIRO DE 2004 2 QUINZENA Journal Pessoal









DICA

* Para quem estiver
interessado em conhecer
melhor Arthur Miller,
recomendo a leitura de suas
mem6rias, Uma vida. No
genero, um dos melhores
livros que jd li. Tdo
interessante que mesmo
uma das maiores faganhas
do escritor (ao menos
aquela que mais invejamos),
ter dormido ao lado de
Marilyn Monroe (junto com
o Channel ntimero 5,
claro), vira um detalhe.


DINOSSAURO

* Especialistas da
Universidade Federal do
Rio de Janeiro deram o
nome de Amazonsaurus
maranhensis ao f6ssil de
um dinossauro que
descobriram as margens
do rio Itapecuru, no
Maranhao. Foi a primeira
vez que se confirmou a
presenga de dinossauros
na regiao. E logo o mais
antigo saur6pode ji
descoberto no Brasil, com
110 milh6es de anos.
Outros esp6cimes, muito
mais novos, podem ser
encontrados todos os dias
na regiao ou transitando
por outros sitios,
pr6ximos e distantes. Um
deles, os cientistas
poderiam batizar at6 de
sarneys maranhensis.


Cuba by Miller

0 dromoturgo americano nos brinda cor um texto primoroso


Em quase meio s6culo de Fidel Castro,
milhares de pessoas foram ver o segre-
do dessa longevidade em Cuba, uma
bela e pobre ilha que durante esse tempo todo
tem desafiado o poder dos Estados Unidos, o
maior do planet, bem A ilharga do imperio
belico. O dramaturge americano Arthur Miller
seria apenas mais um visitante se, ao voltar,
nao nos tivesse brindado cor um texto pri-
moroso e original sobre tema tao batido.
As impresses de Miller couberam em
uma tnica pigina da Folha de S. Paulo,
edicgo do dia 18. Texto curto, enxuto. Mas
que a verve e a acuidade de Miller, no alto
dos seus 88 anos, tornam mais valioso do
que muita verborragia critical e outros tan-
tos tratados hagiograficos ja publicados. Um
grande escritor 6 insubstituivel. Avaliamos
seu valor quando ele nos traz o novo mes-
mo ao trilhar caminhos ja exaustivamente
percorridos por mortais comuns, como n6s.
Nao ha positivismo na avaliagAo de Mil-
ler. A rigor, ele nada julga. Mas a cada nar-
rativa de acontecimentos da excursao, inte-
grada por outros intelectuais americanos de
idade avangada, como William Styron, e as
respectivas mulheres, ele acrescenta uma
observagAo pessoal definidora, provocative.
O modo de ser de Fidel se ilumina quando
Miller, remexendo nas origens mais remo-
tas da cultural national, chega a "eterna
melancolia espanhola", da qual o Dom Qui-
xote, de Cervantes, 6 o modelo e Cuba a
distant reproduqgo. Touche!
Ha como explicar racionalmente o dita-
dor, sem reduzir sua tirania a um ato impo-
sitivo unilateral. O embargo imposto pelos
Estados Unidos a Cuba, por exemplo, nao
"proporciona a Fidel uma ap6lice de seguro
contra as mudangas necessarias, injetando
na populagio a energia do desafio justo"
Ai entra em acgo um process de causagio
circular semelhante A relagao entire o ovo e
a galinha. Por permanecer no poder ha tan-
to tempo, Fidel se credencia a ficar mais
tempo ainda, escorando-se no inimigo im-
placavel, que pode ser visto a olho nu, de
um ponto avangado da ilha, e vice-versa.
Afinal, ressalta Miller, Fidel 6 el jefe ha
quase meio s6culo, "muito mais tempo do
que qualquer rei ou president dos tempos
modernos, com a possivel excegdo do im-


CONTINUAAO DA PAG. 6
deirante, num dos andares onde funcionava
a poderosa Federacgo das Indtstrias at6 se
mudar para a avenida Paulista. Quem queria
saber o que de fato acontecia no bravio ser-
tao amaz6nico tinha que dar um pulo at6 Ia.


perador Francisco Jos6, da Austria". Um efei-
to ampliado sobre a populacgo porque a
maioria dos cubanos "nem tinha nascido
quando ele chegou ao poder".
A custa dos seus interminaveis discursos
e massive propaganda, o comandante de-
vassou o universe mental dos seus s~iditos,
fazendo-os viver em funcao de ficc6es utili-
tirias, mas convincentes. Se os EUA sao o
catalisador de uniao, a antiga Uniao Sovie-
tica serve de refrigerio. Arthur Miller obser-
va que at6 hoje Fidel fala da dissolugAo da
URSS como sendo desnecessiria, "um erro":
Em suma, nio existia nenhuma contradi-
go inerente ao sistema sovi6tico que tivesse
provocado sua queda, e, portanto, nao existe
nada no sistema criado por Fidel Castro que
esteja gerando a pobreza dolorosa da ilha.
O ponto alto do texto nem sao essas pe-
quenas e precisas andlises, mas os apostos das
narrativas. Aquele toque sutil de genialidade
que transmite ao leitor nao s6 o que o narra-
dor esta sentindo e vendo, mas a qualidade
do personagem tratado. E assim que, no meio
das refeig6es partilhadas pelo comandante,
Miller informa que Fidel s6 comeu verduras,
"ja que pretend viver para sempre". No al-
moco que se seguiu a um jantar, jantar esse
que deveria ter varado a madrugada se o dita-
dor nao tivesse sido brecado por seus assusta-
dos convidados (Fidel "gostava de passar a
noite em claro, ja que dormia a maior parte
do dia"), Miller 6 ainda mais precise: "ele co-
meu duas folhas de alface".
Lembre-se que Adolf Hitler tamb6m era
vegetarian radical. Nesse caso, por6m, o
gosto pelos paralelismos inadequados deve
ser freado: Fidel Castro 6 um ditador incom-
paravelmente menos nocivo e mais atraen-
te (al6m de mais duradouro do que o arqui-
teto do Reich dos mil anos). Nao 6 a toa
que ter, entire seus fi6is acompanhantes, o
escritor colombiano Gabriel Garcia Mdrquez,
especialista nesse pathos (que a tradutora,
Clara Allaind, infelizmente optou por patos
mesmo, reduzindo a doenca a ave).
E de lamentar que, no lugar de "Gabo",
para efeito de nos apresentar melhor essa
figure 6nica chamada Fidel Castro Ruiz,
nio tenha estado algudm melhor qualifi-
cado a interpreter o genero human, o
pr6prio Arthur Miller.


E sair de Ia com a Amaz6nia deles na cabe-
ca. E dessa maneira, faz tempo, que a hist6-
ria da Amaz6nia vem sendo escrita. O capi-
tulo do projeto do anfibio Jose Sarney talvez
seja apenas um dos epis6dios mais bizarros
dessa trama. Ainda assim, como d6i.


Jornal Pessoal 2 QUINZENA *


JANEIRO DE 2004











0 tesouro da Amazonia

0 livro do padre Jodo Daniel e um dos mais preciosos de todos os tempos


vida do padre Joao Daniel (de 1722 a
1776) foi um misterio e uma trag6dia.
O misterio, que perdura at6 hoje: como
6 que uma pessoa absolutamente an6nima
em seu trajeto de vida deixa como legado,
ao morrer, um livro maravilhoso como o Te-
souro Descoberto no Mdximo Rio Amazo-
nas, que 6 um dos mais preciosos conjun-
tos de informac6es sobre a regiAo em todos
os tempos? Mas (e ai vem a trag6dia) se o
padre portugues nao conseguiu se destacar
por seus atos, como explicar que tenha sido
mantido preso ao long de 18 anos, mor-
rendo numa das duas masmorras em que o
marques de Pombal mandou confini-lo?
A biografia de Joao Daniel 6, na verda-
de, um acCimulo de misterios e trag6dias,
para os quais as escassas informag6es a seu
respeito mais complicam do que elucidam.
Quem 1e o Tesouro nao deixa de se im-
pressionar com a riqueza de observag6es
que contem. Mais estupefato fica ao saber
que o missionirio escreveu essa obra de
mais de mil piginas durante o long perio-
do de prisdo nos calabougos de Lisboa, sem
fontes de consult, sem anotag6es pr6vias
e tendo que se valer de
qualquer pedago de papel
que Ihe caia as maos (e
imediatamente era confis-
cado, depois de escrito,
pelos guardioes do gover-
no portugues).
Quase 30 anos depois
da primeira edigao com-
pleta dos manuscritos dei-
xados porJoao Daniel, pu-
blicada em 1976 nos Anais
da Biblioteca Nacional,
uma nova edigio integral
do Tesouro Descoberto
esti disponivel para o leitor (Contraponto
Editora, volume I, 597 piginas; volume II,
622 paginas), gragas ao co-patrocinio da
Prefeitura de Bel6m (administragAo do "pro-
fessor e arquiteto" Edmilson Brito Rodri-
gues, conforme esta devidamente assinala-
do nos cr6ditos).
A nova versao, al6m de bem cuidada
graficamente, 6 valorizada por uma apre-
sentagAo de Vicente Salles (no lugar da
anterior, de Leandro Tocantins, duramen-
te criticada por Jos6 Hon6rio Rodrigues,
que chegou a duvidar de que o apresen-
tador houvesse realmente lido o livro apre-
sentado), um indice e corregio de grafia
(que faltaram a edicgo da Biblioteca Naci-
onal). t o acontecimento editorial do ano,
mesmo 2004 ainda estando a comegar (e
mal, em muitos sentidos).


Minha paixAo pela "biblia ecol6gica" do
padre Joao Daniel, como a definiu Lean-
dro Tocantins, foi a primeira vista, em me-
ados da d6cada de 60, ao contato corn a
edigAo parcial que foi publicada na Revis-
ta do Instituto Hist6rico e Geogrifico Bra-
sileiro. O livro se tornou, para mim, uma
fonte de conhecimento, de prazer e de re-
vigoramento do entusiasmo pela Amaz6-
nia. Um autentico livro de cabeceira.
Daniel nio se limitou a descrever e ana-
lisar a region na qual atuou, no curso de 16
anos entiree seus 19 e 35 anos de idade),
embora, a rigor, em 10 desses anos pratica-
mente tenha se limitado A formaoao religio-
sa, no semindrio dos jesuitas, em Bel6m.
Mesmo as excursees feitas ao interior do
GrAo-Pard nao foram tao extensas e demo-
radas, o que suscita outra surpresa: como
p6de testemunhar sobre quase toda a bacia
amaz6nica dominada pelos portugueses, se
sua experiencia era restrita?
Certamente uma parte do seu conhe-
cimento tem origem em fontes secundi-
rias. Daniel usufruiu como poucos a pre-
ciosa biblioteca dos jesuitas, uma rarida-
de na col6nia, proibida
de ter acesso a livros. 0
saber do padre se ressen-
te desse conhecimento li-
vresco. S6 assim se justi-
fica que ele indique o "Es-
treito ou Istmo de Panama"
como sendo uma das ca-
beceiras do rio Amazonas
e, na pagina seguinte, che-
gue bem perto da verdade
ao apontar a "Lagoa Lauri-
xoca" como sendo a fonte
"e primeiro berco deste
grande gigante".
Todos os que fizeram referencia A vida
e obra de Joao Daniel, tendo como base a
monumental hist6ria dos jesuitas escrita por
Serafim Leite, limitam-se a reproduzir tos-
cas informagaes como se elas nao fossem,
al6m de pobres, contradit6rias. Depois de
ler e reler tantas vezes o Tesouro, sou c6ti-
co em relacgo is verses que fazem o livro
surgir, pronto e acabado, da cabeca de um
autor enclausurado por 18 anos, quase
como uma obra divina, talvez soprada pelo
Espirito Santo.
Em primeiro lugar, acho que os algo-
zes dos jesuitas nao privaram o missioni-
rio de suas anotacges. Ou por terem sido
enganados pelo prisioneiro ou por terem
percebido a utilidade daquelas notas. Tam-
b6m acredito que o padre p6de ler livros
CONTINUE NA PAG 9


VILA DA BARCA

* Fernando Gabeira conta, em
0 que e isso, companbeiro?,
que a base operiria de sua
tendencia consistia em um
finico cidadAo, consultado
quando era precise agir. Para
nosotros de Bel6m, a Vila da
Barca era essa entidade mitica,
"o povo". Alguns iam se
embebedar pra li, enquanto
tocavam violio, cantavam,
palravam e bebiam. A ponte,
para outros, eram os versos.
Nao hi toponimia maior na
"poesia participate" da
d6cada de 60.
Pois a Vila da Barca vai
acabar. Corn quase 11
milh6es de reais (sendo R$
8 milh6es federals, a
prefeitura vai aterrar a area
e acabar com as palafitas.
Poesia de pe quebrado a
parte, nto 6 possivel
conciliar saneamento com
palafitas, fazendo a coleta
de dejetos e aguas servidas
por canalizagio area e
protegendo a populagio
contra o risco da exposigao
a mar6, sem descaracterizar
a paisagem?
Minha ideia se reforgou num
dia em que, chegando ao fim
do canal revestido da Gentil
Bittencourt, deparei com o
que ainda era um igarape
natural, sem a tal da
urbanizagao. Sentei e fiquei
matutando nas diferengas
entire as duas paisagens e na
sua valoragAo e
hierarquizagdo. A primeira
paisagem precisa ser sempre
reduzida a segunda, por forga
da urbanizagco? Nao seria
viivel uma forma
intermedidria, aproveitando a
geografia do terreno e
ajustando-a a uma vida
humana decent, mas sem
chegar a esse emparedamento
em concrete e asfalto?
Mandei fotografar a
jungio das duas dreas e, de
vez em quando, pego-a para
matutar mais um pouco em
busca de uma conclusao.
Que, provavelmente, nio
seri essa da urbanizagio da
Vila da Barca, mais uma. Na
qual, pelo jeito, a vila
perderi sua barca e seu
jeito amaz6nico de ser.


Q JANEIRO DE 2004 2" QUINZENA Jornal Pessoal











Cidade doente

Predios levantados na fase dureo do borracha estao desmoronando


PAR

* Primeiro foi Hugo
Chdvez, da Venezuela, em
2002. Agora 6 Lula, o
segundo, na Am6rica
Latina, a comprar um
Airbus ACJ para ser o aviAo
presidential. Ha coerencia,
embora a maneira de
Carroll. Ou seria a Orwell?


CONDENA AO

* O juiz Jonas da ConceigAo
Silva, da 171 vara civel de
Bel6m, condenou 0 Liberal
a pagar uma multa
equivalent a 50 salirios
minimos (12 mil reais) como
indenizacgo por dano moral
sofrido por Raimundo Airton
Montdo Goncalves. O journal
noticiou que o r6u, servidor
piblico, "teria cometido um
assassinate e, em razao
disso, passou a ser
perseguido por parents e
amigos da vitima, al6m de
ter tido sua honra e
integridade moral abaladas".
Como a informaglo era
falsa, Raimundo processou a
empresa, cobrando 500 mil
reais de indenizacgo.
O juiz considerou o valor
exagerado, mas, julgando
antecipadamente a lide,
condenou o journal por ter
publicado a informacao sem
te-la confirmado. Se a
decisAo firmar
jurisprudencia, ou O Liberal
muda sua postura
irresponsivel ou seri
sentenciado tantas vezes
quantas as demands
judiciais que vierem a ser
propostas pelos
prejudicados por sua
cobertura incompetent dos
acontecimentos.


A lumas dezenas de predios de Bel6m
dce iam completar seus primeiros cen-
tendrios ao long desta d6cada. Mas
nio estardo em re para participar da data.
Edificag6es levantadas na fase durea da ex-
plorag~o da borracha, em estilo rococ6,
ecl6tico ou neocldssico, estio desmoronan-
do. Um deles neste mes, na rua Ferreira
Cantdo (a antiga Bailique). Tres quadras
al6m, na mesma rua, um predio ainda mais
bonito e representative segue para o cada-
falso da desmemoria.
O process 6 o mesmo: sucessio patri-
monial complicada ou desidia familiar le-
vam ao abandon. Para precipitar o fim, o
pr6dio e destelhado. Todos querem se li-
vrar do que consideram um estorvo e uma
perda de valor. Um dos moments mais ri-
cos e importantes da hist6ria da cidade (do
Estado, da regiao e do pais) esti desapare-
cendo diante dos nossos olhos impotentes.
Nao 6 apenas perda hist6rica e cultural: 6
burrice mesmo.
Uma das perdas que mais lamentaremos
jd 6 dada como irreversivel: o magnifico
palacete da familiar Faciola, na esquina da
Nazar6 corn a Doutor Moraes. Num dos seus
muitos simulacros de agAo, a prefeitura
grampeou a fachada do pr6dio, que come-
cou a rachar porque a base, atacada por
infiltragao, cedeu. Corn a iniciativa, consi-
derou encerrada sua missAo. O process
de falencia da estrutura, como era de se
esperar, continuou. A atracagAo era ape-


CONTINUA5AO DA PAG. 8
.... I .. ...... .. .. .. .. ..
e consultar documents na prisAo. Como
justificar de outra forma que ele se refira
A antiga missAo de Gurupatuba, "hoje afa-
mada Vila de Monte Alegre", se Gurupa-
tuba s6 foi elevada a condigAo de Vila,
cor o novo nome portugues, em 1758, um
ano depois de Jodo Daniel haver sido en-
viado, preso, para Lisboa?
O padre cita os Anais, de Berredo,
que s6 foram publicados em Lisboa, em
1749, e o relato feito pelo naturalista
frances Charles de la Condamine, um
pouco antes de Pombal determinar a
expulsdo da ordem jesuita do territ6rio
brasileiro. Estaria tAo atualizado assim
na pobre col6nia?
Tambem acredito que o d6spota es-
clarecido que era Pombal usou de um
ardil na relagAo com o cativo: controlava
a entrega de pap6is para que escrevesse
e os tomava logo ap6s as anotag6es te-
rem sido produzidas


nas para permitir a quem de direito pensar
na soluao definitive. Como ela nao veio,
aguarda-se o desabamento.
A lamentacao continuard se algo mais in-
teligente e conseqiuente nao for adotado. Nos
funds do palacete Faciola, um outro solar,
de menor valor, estd sendo restaurado. Por
que a solugao nao foi seguida no vizinho?
Porque custa caro, os donos nao tem dinhei-
ro, o poder p6blico nao tem nada a ver com
o assunto, etc. Nada a fazer, entao.
Mentira. A primeira tarefa da prefeitura
seria conscientizar os belenenses que pr6-
dio antigo nao 6 s6 bonito: pode dar lucro
tambem. Restaurar nao 6 jogar dinheiro fora,
mas investimento. A administracgo munici-
pal ter que participar porque ha ganho para
a coletividade. Logo, 6 legitimo que de as-
sessoria, minimize custos, oferega vantagens,
indique atrativos, intervindo para induzir a
recuperagAo de pr6dios num neg6cio comer-
cial entire as parties envolvidas.
Ha mecanismos de intervengao (o IPTU,
linhas de cr6dito favorecidas, banco de ma-
terial de construcgo). Se institucionalmente
ha limitag6es, alternatives tamb6m existem.
Ja sugeri aqui a criacao de uma empresa
imobiliiria municipal. A id6ia agradou a
entao vereadora Ana Jl6ia Carepa, mas mor-
reu entire seus pares antes de virar lei. Pode
ser o caso de renascer. Ela ou qualquer ou-
tra. Desde que nos poupe desse triste espe-
tdculo de ver uma cidade morrer um pouco,
sempre, a cada novo dia.


Seja assim ou de qualquer outra manei-
ra, que talvez jd nao se consiga mais esclare-
cer, o Tesouro Descoberto no Mdximo Rio
Amazonas sobreviveu aos mist6rios e trag6-
dias do padre JoAo Daniel e nos chega, vivo
e fresco, como o maior tratado produzido
sobre a Amaz6nia at6 o ingresso em cena,
logo em seguida, do sdbio baiano Alexandre
Rodrigues Ferreira. E ainda que a Viagem
Filos6fica se imponha como referencia cien-
tifica, o Tesouro a sobrepuja como uma de-
claracAo de f6 e de amor na riqueza e no
future da Amaz6nia. Sem igual antes, du-
rante e depois. Dai devermos saudar seu re-
nascimento, por meio dessa parceria entire a
Prefeitura de Belem e a Editora Contraponto,
e aproveitar sua energia revivificante.
Parab6ns, professor e arquiteto Edmil-
son Rodrigues. Para comemorar o feito
verdadeiro, que tal ler a obra? E o convite
que se faz a todos os que amam a Amaz6-
nia, ou pretendem vir a amA-la. E a en-
tende-la tambem.


Jornal Pessoal 2" QUINZENA JANEIRO DE 2004










em6ria
DO




Estabulos
Nesse ano funcionava em
Bel6m a Associacgo dos Tra-
balhadores em Estabulos, que
congregava os empregados das
vacarias e similares, instaladas
a larga em plena area urbana.
A associacgo estava mobiliza-
da para reivindicar aumento de
salaries, ajustamento de hord-
rio e a lei dos dois tergos. Se
ndo fosse atendida, pretendia
instaurar dissidio coletivo.
Ah, sim: aproveitando, a
associaqgo protestava contra o
aumento das passagens de
6nibus e o acordo military en-
tre o Brasil e os E.U.A.


Acontecimentos de 1953


Franco, de 16 anos, que mora-
va na Quintino Bocaiiva, nio
sabia nadar, mas decidiu acom-
panhar os amigos. Enquanto fi-
cou na beira do igarap6, tudo
bem. Mas ao decidir arriscar ir
mais em frente, mergulhou e
nao boiou mais. S6 foi encon-
trado bem depois, jd morto. Pro-
vavelmente seu corpo havia fi-
cado preso em alguma raiz.

Hotel
Um banquet que o pre-
feito de Bel6m decidiu ofere-
cer, no Grande Hotel, a "tu-
ristas sulinos" que visitavam
a cidade, quase nao se reali-
zou por causa de uma greve
dos gargons. O movimento


era para cobrar o pagamento
das gorjetas, que a direcao do
estabelecimento estaria reten-
do. A greve prosseguiu, mas
o banquet foi salvo por um
entendimento entire as parties.
Nessa 6poca, alias, a impren-
sa especulava que a Empresa
Grandes Hot6is, proprietdria de
uma rede de hot6is desde os
Estados Unidos ao Uruguai, ven-
deria o Grande Hotel a Pruden-
cia Capitalizaco, que havia aca-
bado de construir o "majestoso"
Hotel Amazonas, em Manaus.

Sede
A diretoria da Assembl6ia
Paraense decidiu demolir o pr6-
dio no qual residia o deputado


Pereira Brasil, do PSD, para
construir sua nova sede social,
no centro de Bel6m, "a altura
das suas tradig6es". A velha sede
tamb6m viria abaixo.

Agenda
Reabria o curso de piano
que Hl6ia Charone dava na
avenida Gentil Bittencourt,
434. Tamb6m o curso infantil
N. S. do Rosario de Fatima,
que a professor Almira Bor-
dava da Silva ministrava,
"para um ndmero limitado de
alunos", em sua residencia, a
travessa 14 de Margo, 622,
pr6ximo do Largo de Nazard.
O Externato N. S. de Lour-
des, na Praga Batista Campos,


Igarape
Adolescentes do bairro do
Reduto resolveram tomar banho
no igarap6 das Almas (hoje mais
conhecido, numa paisagem
completamente distinta, como
Doca de Souza Franco). Valter




Carnaval:

50 anos
Os blocos, que s6 depois vi-
rariam escolas de samba, eram
simples em 1953, mas a anima-
gao era tdo grande quanto a com-
petencia na hora de arrastar o
pd. Sem qualquer sofisticagAo,
davam a Bel6m um dos melho-
res carnavais do pals. Como era
de praxe na 6poca, os blocos
Boemios da Campina e Piratas da
Batucada posaram para o fot6-
grafo da Folha do Norte, em fren-
te a sede do journal, na esquina
da Gaspar Viana com a 1 de
Marco (onde 0 Liberal viria a se
instalar, na metade da d6cada
seguinte). Uma fantasia primaria,
como se fora um uniform, e
bastava para o bloco ir a rua
honrar seu estandarte de veludo
no carnaval de meio s6culo atrns.


Sn JANEIRO DE 2004 2 QUINZENA Jornal Pessoal









5, e o Ypiranga, curso pr-
escolar e primario da aveni-
da Braz de Aguiar, 413, abri-
am matriculas.
GuimarAes Telles implan-
tava dentaduras artificiais
Bridge no seu consult6rio, no
Largo de Santana, 51.
Otdvio Mendonca, Orlan-
do Bitar e Orlando Costa *
(este, solicitador) faziam ad-
vocacia em geral, corn uma
carteira imobilidria, no escri-
t6rio da rua 13 de Maio, 62.
Mayer Obadia tinha "pou-
cas unidades restantes" da
geladeira americana Servel
para vender em sua loja de
"representac6es [por] conta at
pr6pria", na rua Santo Ant6-
nio, 88. A geladeira era "a
chama que produz gelo", cu-
jas peas nao se desgastavam
"porque nao tern motor".
Rec6m-chegada de Bom-
baim, na India, a "cientista"
Madame Voagava prometia u
aplicar o que sabia de ocul- a
tismo e quiromancia, em "Ion- s
gos anos de estudo no Ori- seriados
ente, na Asia e na America do precurso
Sul", para prever o future de vistos nc
seus clients. Eles podiam suporte
aparecer na Rua Dr. Assis, bora ger;
139, na Cidade Velha, onde a para sen
mestra dava consultas. Havia No in
6nibus "na porta". formidiv
"Especialista em redes Popular,
para dormir", a Casa das Pe- "Tex Ran
chinchas tinha muitas delas do Iracer
para vender em seu dep6sito vesperal
e posto de vendas, na Rua Suces
Santo Antonio, 82. do film
"De regresso de fdrias", o
doutor Paulo Fender avisava
aos seus clients "que reabriu tagem", a
seu consult6rio de clinic de de cavida
doencas do coracgo, no Edifi- pritica oc
cio Piedade, 3 andar, sala 307".
Paulo Rodrigues ia viajar
cor a familiar pelo "Constella- Advo
tion" para o Rio de Janeiro. Por Aldeb
isso, se despedia dos seus "ami- cedo Kla
gos e parents, oferecendo Conselho
seus pr6stimos a Av. Portugal, OAB, avi
368, apt. 208 (Urca)". Aprovei- que a an
tava para informar a praga "que paga dire
ficard como seu bastante pro- Manoel
curador o sr. Mario Rocha, mui estava
digno representante da Cia. entire 10
Cervejaria Brahma". (em impl
O competente cirurgido- Ordem, q
dentist" Raimundo Cordeiro de do f6rum
Azevedo recebeu, para seu con- cio Anton
sult6rio, o Airdent. 0 aparelho, 0 pre,
adquirido nos Estados Unidos, anunciav;
iria substituir, "com grande van- alizar a 1


Amanha no muainal do IRACEMA e Vesperal do
POPULAR 3.. ftiro a torde o noito no GUARANI
....r.. ... ,,b--

4VENTRAS
U,44d BIEN TE DE

^TERROR./


em nunca foi ao program combinado seriado para
brir e filme de longa duragao para arrematar nao
abe o que perdeu entire as d6cadas de 40 e 50. Os
seriam como que (e ainda assim mal comparando)
res das atuais novelas de televisAo. No entanto, eram
escurinho do cinema, em tela grande, com todo o
ie uma produgao de estilo e atores profissionais (em-
almente desconhecidos). Algo para deixar sua marca
ipre nos que participaram desses programs.
icio de 1953 "O Misterioso Mr. M" era exibido, em "13
eis capitulos", na matinal do Iracema e na vesperal do
no final de semana, e A tarde e a noite no Guarani. JA
iger", em 15 epis6dios, estreou na "vesperal juvenile"
na, as 15 horas. Depois iria para a matinal do Poeira,
do Guarani e sessao noturna do Poeira.
;so garantido, independentemente da qualidade
. .


broca na preparagao
des, modemizando a
lontol6gica na cidade.


pados
aro Cavaleiro de Ma-
utau, president do
Seccional do Para da
sava aos advogados
uidade ja podia ser
tamente ao cobrador
Duca Salgado, que
disposicgo de todos,
e 12 horas "oficiais"
antacgo), na sede das
ue ficava no edificio
de Bel6m (no Pali-
iio Lemos).
sidente local da OAB
a ainda que iria atu-
ista de inscritos na


Seccional, "dela constando,
com a devida anotagao, os
nomes dos profissionais impe-
didos de advogar, inclusive os
que estAo com suas inscrig6es
canceladas, em virtude de nao
estarem os seus diplomas re-
gistrados no Minist6rio da Edu-
cacAo e SaOde".


Carnaval
Os s6cios (e s6 eles) que
quisessem ir ao "Baile de
Mascaras" da Assembl6ia Pa-
raense tinha que ir de traje
passeio ou "de rigor, exclui-
do o branco. Podia ser tam-
b6m "fantasia condigna corn
as tradioges de elegAncia e
distingdo do Clube". Mas nao
seria permitido "mangas de


* I II I' 1 1 1 I 4 4 # t 0 I 4 *
SIOJE. no IRACZ MA, na ;
E* ~EPEKAL JUVENILE i~ 15
- herats rsari 41
empotlgntl a*rlrado

mC^L^/ Jri


Snlambn.a, M.1N'IINt d t
P rOPIRA Ve Veural do ULA. *
i RANI e serundaterat. i tu- .
de e i a uite mo POLIXA. -
,. O t t o. I I I 4 4 I 4 i i 4 *t'I r.


camisas, macacoes, 'slacks' ou
semelhantes". A diretoria nao
iria permitir "aspiracAo de lan-
ca-perfumes, fazendo retirar
do saldo, sumariamente, toda
e qualquer pessoa que for
apanhada nesta prAtica".
A lanca-perfume tamb6m
estava expressamente proibi-
da no "Amazon Bar" do Gran-
de Hotel. Por ser um "recinto
fechado com ar condiciona-
do", o local "nao comporta
vapores de 6ter, que prejudi-
cam a assistencia", justificava
a direcao do estabelecimento
em nota ao p6blico. Pedia a
colaboragAo "de seus amigos
e fregueses para o estrito
cumprimento da media que
se viu na contingencia de to-
mar para beneficio geral".


Jornal Pessoal 2 QUINZENA JANEIRO DE 2004 .4
















LATIM
* Era inevitdvel que, no
espirito do Concilio
Vaticano II, a Igreja
substituisse a missa em
latim pela reza nas
linguas nacionais. Serviria
para restabelecer a ponte
de comunicagAo entire o
padre e os fi6is, rompida
pelo isolamento do
sacerdote, simbolo do
isolamento da pr6pria
Igreja, em sua sede
suntuosa, no Vaticano,
dominada pelas heras da
burocracia e dos
interesses politicos e
financeiros.
Quarenta anos depois,
o sucesso que algumas
missas celebradas em
latim estao alcangando
pode ajudar a encontrar
um novo ponto de
equilibrio. Aluno de latim
durante sete anos
escolares, do ginasio ao
classico, e coroinha de
missas a antiga, com o
missal na ponta da lingua,
fui um dos que jamais
aceitaram a aboligAo da
discipline nas escolas e
vivia a melancolia do
ritual na lingua de Cicero
e Virgilio, a iltima floor
inculta e bela do Ldcio
(quando acabei de
escrever a palavra, o
program de texto do
computador a assinalou
corn vermelho;
computador 6 mesmo
parvo em mat6ria de
lingiiistica). A forma~go
em latim me deu o
diferencial, se o tenho,
no manejo do portugues.
Daria a qualquer um na
mesma circunstAncia. O
que me fez defensor do
latim nos curriculos
escolares.


Lingua presidential

Lula pode ter ingressado nurn fase de euforio artificial sem retorno


Consider positive que o president
Lula vd ao exterior. Mas acho que
ele esta viajando demais. Algumas
visits nao foram bem justificadas. Ou-
tras, at6 agora, nada renderam. O saldo
global, se nao 6 deficitdrio, nao acumula
os pontos que a propaganda official Ihe
atribui. O president, apanhado pela com-
binaa.o de dois virus agressivos (o da
vaidade e o da non-chalance turistica),
pode ter ingressado numa fase de eufo-
ria artificial sem retorno. Quem se torna
globe-trottersabe muito bem do que falo.
A primeira grande seqiela do mal 6 o
gasto de 57 milh6es de d6lares com o
novo avito da presidencia (dos quais US$
18 milhoes em adaptadges
para tornt-lo de estilo). So
160 milh6es de reais, o que
proporcionaria o atendimen-
to a 185 families pelo progra-
ma Bolsa-Familia. Nao ha como justificar
esse desvario, exceto pela tendencia que
temos de ser compassivos para nao pa-
recermos provincianos e mesquinhos. O
Brasil vai pagar em seis parcelas, em ape-
nas um ano, por esse hotel a6reo. E mui-
to dinheiro para tdo curto prazo.
Mas nao 6 s6 o valor imobilizado: hi o
terrivel custeio dessa preciosa miquina de
girar pelo mundo. O governor do pobre
Pard esta pagando 550 mil reais pelos ser-
vigos de manutengAo da raquitica frota
estadual, composta de um Xingu e um Ca-
ravan. A quanto chegar- a manutencgo do
poderoso Airbus ACJ de Lula? E o custeio
das viagens cada vez mais numerosas e
longas do president e s6quito? Nao era
mais adequado que ele reduzisse seus p6-
riplos e fosse de linha commercial, salva-
guardado por tudo que 6 logistica e pro-
teqgo? Seria bem mais Brasil.


Talvez, ao inv6s do
devaneio no esperanto,
devessemos ter investido
na lingua universal (ou
semi-universal) que jd
existia, disseminada pelo
mundo conhecido gragas
ao imp6rio romano. Nela
foram fixados os nomes
cientificos. Ela deu origem
a outras tantas linguas e


Mas ha um outro problema, que me
comove. Nos 20 anos em que fez politi-
ca, inclusive fora do Brasil, Lula podia
ter aprendido ingles. Ainda mais porque
jd devia ter aspirag6es cosmopolitas.
Doeu-me bastante ver, na foto dos che-
fes de Estado das Amdricas reunidos em
Monterrey, no M6xico, o president, mal
acomodado em sua cadeira (e em seu
palet6), procurando o significado da pi-
ada que foi contada atrds dele, na extre-
midade esquerda. Olhava entire descon-
fiado e ressentido para os colegas, que
riam, deixando-o i deriva.
A piada foi dita em ingles, de outro
modo o president americano George W.
Bush nao teria rido tro sin-
Stonizado aos seus acompa-
nhantes, monoglota texano
que 6. Todos compreende-
ram naturalmente e riram.
Menos Lula. NMo que tenha discordado
da piada. Simplesmente estava voando,
6rfdo de int6rprete, que se tornou seu
irmro siamrs, gemeo univitelino. Ha oca-
si6es em que, sem rudimentos da lin-
gua, fica-se a deriva, sem tradutor pos-
sivel. E uma das mais desconfortiveis
sensac6es que se pode ter fora de casa.
O que era usufruto vira exilio. A festa
azeda. Por isso, a posicgo de Lula na
foto ficou pat6tica.
Nem por isso (ou nao exatamente por
isso) o president deve se inibir. Mas que
deve se acautelar, deve. Ningu6m esta
obrigado a ser poliglota se vai de vez em
quando ao exterior. Mas para quem quer
se tornar internacionalista, ser monoglo-
ta incomoda a alma individual e faz doer
o orgulho national. Trata-se de algo sim-
b6lico, mas 6 justamente isso que distin-
gue o home dos outros animals.


deixou sua. marca mesmo
nas de outros grupos
lingtisticos. Est. muito
long de poder ser
apelidada de lingua morta.
Diagnosticada em seu
estado real, talvez
renasga. Tanto para
aproximar os homes
como para dar A sua fala
mais exatidio, concisko e


beleza. O epigrama e o
aforismo, sem o latim,
perdem sua forca.
Fica a sugestdo. Para a
igreja local, com um
acrescimo: que tal escolher
um lugar para abrigar a
missa em latim? NMo s6
com a liturgia nessa lingua,
mas pelo menos com parte
com o rito a antiga.


J d o Pt*o -: *o Cnsan 845/03/6.0 e-mail: jornal1amazon.. u A Pn L i


I.