Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00261
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00261

Full Text



1' QUINZENA ANO XVII
JANEIRO NP 315
Journal Pessoal
DE 2004 N CE R$ 3,00
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


FERROVIA


A guerra que


todos perderam

0 Para ganhou e perdeu na guerra-relampago para impedir que o dinheiro do Fundo
de Desenvolvimento da Amazonia fosse aplicado na Ferrovia Norte-Sul, que esta
sendo construida do MaranhBo para Goias, cor conexao para o centro-sul do pais.
0 dinheiro voltou para os cofres da Uni5o.


0 Pard conseguiu uma vit6ria nos
iltimos dias do ano passado:
impediu que os recursos do Fun-
do de Desenvolvimento daAma-
z6nia fossem destinados A Ferrovia Nor-
te-Sul, que nao traz qualquer beneficio
para o Estado, muito pelo contrArio. Mas
foi uma vit6ria de Pirro: se a ferrovia,
apadrinhada por Jos6 Sarney quando pre-
sidente da Repiblica, deixou de receber


os 465 milh6es de reais que pretendia
abocanhar, graqas a uma manobra de il-
tima hora, o dinheiro acabou sendo inte-
gralmente recblhido aos cofres do tesou-
ro national, para ser administrado pelo
Minist6rio da Fazenda. Assim, foi fazer
caixa para o superivit fiscal, ou sera des-
viado para outros fins. No balanqo final,
a Amaz6nia seja a Clissica como a dita
Legal 6 que saiu perdendo.








O epis6dio comprovou, mais uma vez,
o despreparo das lideranCas paraenses
para se antecipar As situaq6es e reagir
com lucidez quando elas se consumam,
a sua revelia. A reaiao comecou quando
ojornal O Liberal tomou pdblico, no dia
21 de dezembro, que todo dinheiro pre-
visto para o FDA seria aplicado nas obras
da Norte-Sul. Desde 2001, a verba do
fundo deixou de ter destinaqdo normal
por causa da extinqao da Sudam, em de-
zembro de 2000.
A Superintend8ncia do Desenvolvi-
mento da Amaz6nia era quem adminis-
trava o fundo, criado graqas A renincia
fiscal federal (pela reduqCo do imposto
de renda a pagar em troca de aplicaq~o
da deduqao tributiria na Amaz6nia). Ao
inv6s de financial projetos econ8micos,
a verba estava sendo mandada para o te-
souro national, deixando de ser aplica-
da na Amaz6nia.
No inicio de dezembro do ano pas-
sado, o deputado federal Siqueira Cam-
pos, do Tocantins, props ao chefe da
Casa Civil, Jos6 Dirceu, que o dinheiro
do FDA fosse aplicado na Norte-Sul. A
id6ia recebeu o imediato apoio do sena-
dor Jos6 Sarney, em cujo governor a fer-
rovia foi iniciada, seis anos atrAs, em
meio a um escandalo sobre favorecimen-
to de empreiteiro. Mas havia um pro-
blema: o fundo s6 pode financial em-
preendimentos privados, que retribuem
A colaboraqgo financeira do governor
cedendo aq6es para a Sudam. A empre-
sa responsivel pela Norte-Sul, a Valec,
6 da Uniao, sob a supervisor do Minis-
t6rio dos Transportes.
Reunida cor o Minist6rio da Integra-
Cao Nacional, a Casa Civil decidiu ela-
borar uma Medida Provis6ria para auto-
rizar a ADA (Agencia de Desenvolvi-
mento da Amaz6nia), que substituiu a
Sudam e administrard o FDA at6 que o
process de recriaqo da Sudam, inicia-
do em agosto do ano passado, vi al6m
do papel e das intenq6es, a aplicar numa
empresa pdblica.
Para adiantar as provid8ncias, no
dia 19 a Valec Engenharia, Constru-
9qes e Ferrovias submeteu A ADA uma
carta-consulta solicitando 465 milhoes
de reais para construir mais 365 qui-
l6metros da ferrovia, entire Darcin6po-
lis e Miracema, no Tocantins. A tra-
mitaqdo do pedido ficaria condiciona-
da a ediqgo e publicaqdo da MP no
Didrio Oficial da Uniao. As tratativas
foram interrompidas, ji em pleno cur-
so, pela revelaqgo da iniciativa. O fato
provocou reaqo da opiniao pdblica
paraense, estimulada por O Liberal,
vivamente empenhado no assunto para
atingir a Companhia Vale do Rio Doce,
cor a qual vem brigando editorial-
mente e najustiqa, conforme este jor-


nal tem noticiado. A Vale 6 uma das
mais interessadas na sorte da ferrovia.
A senadora Ana Julia Carepa, do PT,
endossou as critics, pediu imediatamen-
te audiencia ao president Lula e foi pre-
miada corn uma audiencia individual,
fora da agenda, no dia seguinte ao da
solicitaio. O president lhe garantiu que
as provid6ncias em favor da Norte-Sul
seriam sustadas, o que acabaria aconte-
cendo, e que pleitos paraenses contrapos-
tos a esse projeto seriam atendidos, o que
ficou para depois, como de habito. O re-
sultado da mobilize, o nao poderia ter
outro titulo: uma vit6ria de Pirro.
Ao que parece, a senadora, int6rpre-
te da causa paraense, foi ao Palacio do
Planalto com um onico prop6sito e de
significado negative: impedir que o di-
nheiro fosse aplicado na Norte-Sul. Nao
apresentou ao president nenhuma alter-
nativa operacional, embora tivesse op-
q9es ao seu alcance. Uma delas era sim-
ples: ao inv6s de seguir no rumo sul, a
ferrovia podia se desenvolver em seu
eixo norte, vindo para Bel6m ao inv6s
de prosseguir at6 Goiania, ponto final
da sua caminhada de 2.066 quil6metros,
quando teri custado algo como 1,6 bi-
lhdo de d6lares.
O ramal AqailAndia-Bel6m esta pre-
visto, mas apenas nas linhas pontilha-
das do mapa do projeto, para paraense
ver. Na verdade, a Norte-Sul foi con-
cebida para ser um elo entire a ferrovia
de Carajas, que transport min6rio para
o litoral do Maranhdo, e o sistema sul
da Companhia Vale do Rio Doce (ago-
ra, em funqao da privatizaqao do trans-
porte ferrovidrio, conectando-se tam-
b6m cor linhas nordestinas, inclusive
a Centro-Atlintica, da mesma CVRD).
Nao por acaso, a Norte-Sul foi pro-
jetada pela Valuec, empresa de consul-
toria da Vale do Rio Doce, criada em
1972 para tratar da ferrovia de Cara-


jis, que se transformaria em Valec, em
1987, quando foi absorvida pelo Mi-
nist6rio dos Transportes, exatamente na
administraq~o Sarney.
Incorporagao meio medidnica por-
que, na pritica, a CVRD continuou a
dar as cartas. Atrav6s de terceirizaq~o,
6 ela quem opera os 215 quil6metros ji
implantados da Norte-Sul, entire o ter-
minal de Aqailandia, no Maranhdo
(onde se encontra com a Estrada de
Ferro de Carajds, da Vale), e Estreito
(40 quil6metros adicionais estlo em
construcqo). A verba da Sudam faria a
Norte-Sul chegar a um tamanho madu-
ro: 620 quil8metros de extensao.
Os pianos consideram a extensao at6
Bel6m nada mais do que figure de re-
t6rica. Mas a senadora Ana Jdlia pode-
ria testi-la propondo ao president da
Repiblica que o dinheiro fosse reser-
vado a diretriz eminentemente amaz6-
nica da linha f6rrea, no rumo de Be-
16m, e nao A sua expansdo para o sul,
embora esta, a rigor, seja a dnica via
pensada pelos seus idealizadores.
Se nao houvesse boa acolhida, a se-
nadora podia tentar transferir parte
desse dinheiro para a complementapco
da transposicao do rio Tocantins, na
hidrel6trica de Tucuruf, que precisa de
R$ 360 milh6es e atravessou 2003
completamente A mingua de recursos.
Candidate a permanecer inconclusa
por mais um governor.
Os paraenses ji deviam ter aprendi-
do, por outros revezes, que nao podem
agir no varejo, por conta-gota. Preci-
sam ter uma versao alternative de in-
servao no piano que a Uniao executa
na Amazonia, contrapondo um piano a
outro piano adverse, considerando o
caminho para o mar da exportaq~o e nao
para dentro das bacias hidrogrificas.
A reagqo, por6m, 6 sempre epis6-
dica, localizada, imediatista, condici-
onada pela iniciativa alheia. Se nao
colou a tentative de aplicar na Norte-
Sul os recursos do FDA, uma outra
investida vai ser feita dentro de pouco
tempo, por outro caminho. Nao 6 s6 o
modal ferroviario que tangencia o
Pard: 6 esse o sentido tamb6m da hi-
drovia e at6 mesmo do sistema de dis-
tribuiqgo de gas. O traqado de um
enorme gasoduto que toca em todas as
capitals litoraneas ji esti feito. No seu
campo de abrang6ncia o Pard foi dei-
xado para o fim, se ainda houver re-
cursos para alcancf-lo. Tanto que nem
empresa autorizada a operar com o gas
existe at6 agora.
O Pari, de fato, parou. No mau sen-
tido. O que cabe nao 6 continuar a per-
guntar por que fazem isso com o Pari,
mas porque o Pard nao consegue se fa-
zer respeitar.


2 1A QUINZENA/JANEIRO DE 2004 Jomal Pessoal









Eleicao de Belem : Propriedade


ai r classic?


Um dos principals aspirantes ao car-
go de prefeito de Bel6m ja esti definido:
6 a senadora Ana Julia Carepa, do PT. A
definiqio da outra candidatura de peso
esti dependendo exclusivamente da von-
tade do ex-goverador Almir Gabriel. Se
quiser encarar a principal dispute eleito-
ral deste ano, ele ja conta com o apoio
pdblico do seu successor, Simro Jatene,
que praticamente o lancou para a volta
ao Palacio Ant6nio Lemos (desta vez, por
eleiq~o direta e nao mais por indicaqgo
bionica, como ocorreu em 1985, quando
foi nomeado pelo entao goverador Ja-
der Barbalho).
O confront Ana Julia versus Almir
era previsivel. Ambos sao os politicos de
maior densidade eleitoral de seus parti-
dos. Nem o PT, que comanda a principal
prefeitura do Estado,
nem o PSDB, que
mant6m a adminis-
traqco estadual ha
nove anos, querem
perder essa pr6via de
2006. S6 langardo ,
outra candidatura se
os melhores nomes
nao quiserem aceitar
a fatalidade. Perder Bel6m significa redu-
zir as possibilidades de vit6ria para o go-
verno do Estado dentro de dois anos.
A escolha de Ana Jdlia significa uma
revolucao para o PT belenense. Mesmo
sendo a political petista que mais votos
tem no Pard, a senadora nao chega a con-
trolar um quinto do diret6rio do partido
na capital. E de tend6ncia oposta a do
prefeito Edmilson Rodrigues. Foi hosti-
lizada pelo titular do cargo e hostilizou-
o o quanto p6de, quando p6de. As duas
tendencias vinham se engalfinhando nos
bastidores. Quem podia, engolia as posi-
96es do outro. E a Forga Socialista de
Edmilson foi podendo cada vez mais, at6
dominar pelo menos metade dos cargos
do partido na capital, al6m de usufruir o
domfnio da mtquina administrative, ofe-
recendo cargos aos aderentes e fortale-
cendo sua militincia.
A op9ao por Ana Jdlia acabou che-
gando ao PT de Bel6m como uma onda
impositiva partida de Brasilia. Lula nao
ha de querer ficar privado da prefeitura
de uma capital na sua pr6pria luta de
2006. O Palacio do Planalto, por isso,
prometeu mundos e funds (pelo menos
os que o doutor Palocci autoriza) para


demover Ana Jilia do seu prop6sito de
aguardar no Senado a possibilidade de
disputar o governor dentro de dois anos.
Ela, que nunca completou nenhum dos
seus mandates eletivos, sabe que essa
volubilidade Ihe sera desgastante na
campanha. Mas recebeu a garantia de
que verbas federais dardo conta desse
flanco exposto.
Mas a senadora poderi contar com a
fidelidade dos seus inimigos interos?
Em principio, nao. A reaco da ala da
Forqa Socialista, que permaneceu recal-
citrante A decisao superior, revelada ao
pdblico quando comeqou a ser reprimi-
da, ha duas semanas, mostrou o grau de
antagonismo de certo setor do PT.
Evidenciou tamb6m a disposicqo do
prefeito de cortar na pr6pria came se isso
lhe assegura a manu-
tenqo dos pianos para
2006: sair candidate
ao Senado (enquanto o
) deputado federal Pau-
lo Rocha 6 o nome que
vem sendo trabalhado
para o governor Esses
petistas parecem te-
mer pelo que Ana Jd-
lia fard quando sentar na cadeira de Ed-
milson, repetindo o que fez nas interini-
dades. Enquanto alguns se valorizam
para um acordo mais compensador, ou-
tros saem atirando. Inclusive porque nao
lhes restava outra alternative. E que es-
tao caindo do poder.
Ja a decisao do ex-governador Almir
Gabriel depend de um arremate final:
seu convencimento sobre o grau de risco
do desafio. O lanqamento da candidatu-
ra por Sim~o Jatene, na virada de ano,
deve ajudar nas pesquisas de opiniio, que
devem estar sendo feitas para dar ao can-
didato tucano ndmeros mais confiaveis.
Esse pouco que falta, entretanto, 6
decisive para quem nao gosta de perder,
como o doutor Almir. Ele quer entrar para
ser consagrado, nao s6 para vencer. E
esse resultado ainda nao pode ser garan-
tido porque ha variiveis fora de contro-
le, ao menos no moment.
Mas pode-se apostar que o ex-gover-
nador, depois de oito anos com as r6deas
da miquina estadual, sabe o quanto cus-
ta ficar mais dois anos na sombra. Pro-
vavelmente por isso deixard as orquide-
as mais uma vez de lado para ir colher
na horta dos votos.


O aniversario deste ano de Bel6m foi
um dos mais fracos de todos os tempos.
Sem obras de consistancia a apresentar e
talvez at6 sem f6lego, a prefeitura dei-
xou que uma empresa, a Companhia Vale
do Rio Doce, ocupasse espago ao seu
lado nas peas de divulgaqo da data.
Feito desastradamente in6dito.


Mangueira

A substituiqio das grandes manguei-
ras por esp6cie de menor porte na arbori-
zacqo pdblica em Bel6m 6 id6ia dejerico.
As grandes arvores realmente causam
problems. Mas resolve-los cortando li-
teralmente o mal pela raiz 6 reaqdo de
quem receita rem6dio para matar o paci-
ente. As mangueiras valem muito mais
do que suas inconveniancias.
Se delas caem frutos que podem ferir
pessoas ou causar prejuizos materials, red-
nam-se meninos pobres, formem-se com
eles grupos de coleta de mangas (muito bem
organizados, nem que seja A maneira do
coronel Pantaleao, do romance de Mario
Vargas Llosa, e pagos, naturalmente) e dis-
tribuam-se os frutos por instituiwes filan-
tr6picas e as pr6prias families dos menores.
A poda pode ser feita da mesma ma-
neira, com supervisor t6cnica, que tam-
b6m garantiria a eliminagqo das ervas
daninhas, que proliferam a larga, maltra-
tando ou matando as arvores. Elas pas-
sariam a ser tratadas de acordo cor sua
importancia, de traqo caracterizador de
uma cidade tnica nos tr6picos.
Se isto 6 pouco, eu nio sei mais o que
6 muito. S6 sei que o PT, entanguindo as
mangueiras de Bel6m, estA maltratando
mais do que administraqbes anteriores,
que obrigavam as mangueiras a usar po-
lainas de cal em datas festival.
E o que di entregar a cidade a um pre-
feito crianga.

Concrete
Se as projeqbes da Village se concre-
tizarem, a orla de Bel6m sera um pare-
dao de concrete, cbmo Nova York. E a
imagem do andncio da construtora para
o aniversario da cidade, com 17 arranha-
c6us ocupando os espaqos e mandando
para long a saudivel ventilaqio da Be-
16m de antes dos espigbes, que ainda tei-
ma em impedir a transformaqao da capi-
tal dos paraenses numa bolha de calor
insuportAvel. A Village quer o contrario.
Anunciozinho de mau gosto, s6. Be-
16m, situada entire as cotas 4 e 15 do ni-
vel do mar, s6 6 Nova York para quem
nio 6 capaz de pensar.


Journal Pessoal 1l QUINZENA/JANEIRO DE 2004 3









Contra a pistolagem


Crimes como o do vereador Addo
Lote mostram uma presenqa cada vez
maior e mais ostensiva de pistoleiros
no interior do Pard e mesmo na ca-
pital do Estado. Ndo na forma tradi-
cional ou conventional desse Idgu-
bre personagem: mal vestido, aparen-
cia suspeita, arma visivel por dentro
da roupa (ou mesmo exposta), rdsti-
co, grosseiro.
Ha pistoleiros de boa aparencia,
que utilizam armas fornecidas geral-
mente pelos agenciadores de seus
servigos (aos quais devolvem depois
de realizada a tarefa) e que possuem
outra atividade regular, que camufla
seu nefando neg6cio. Ja hi at6 pis-


toleiro com avido pr6prio, obtido
com a execuqCo de vitimas de maior
valor de mercado.
As policies (federal, military e ci-
vil) deviam aproveitar a lei do de-
sarmamento e proceder a uma ope-
raqdo intensive nos principals redu-
tos de pistoleiros. Ndo uma gen6ri-
ca ofensiva para desarmar cidaddos
em geral, mas uma blitz bem orien-
tada contra esses profissionais da
morte, fazendo uma boa seleqgo de
alvos e seguindo uma logistica efi-
caz. Ja esta na hora de banir esses
abutres da paisagem paraense, ao
inv6s de ficar assistindo passiva-
mente sua afluencia.


Sil ncio acusador


Gol contra do Didrio do Pard na
busca da profissionalizaqao e da
identidade pr6pria, a margem de Ja-
der Barbalho: a cobertura do assas-
sinato de Addo Lote Resplandes de
Souza, vereador de Tucumd.
No inicio, em lugar de um noti-
cidrio objetivo e factual, o journal
publicou verdadeiros editorials em
defesa do prefeito do municipio,
Celso Lopes, nao por acaso do
PMDB. A justiga, o Minist6rio Pd-
blico e a policia o apontavam como
o principal suspeito de estar por trds
do crime.
0 Didrio retrucava, em suces-
sivas mat6rias, que tudo nao pas-
sava de politicagem. Cord6is de
manipulaqao estariam sendo mane-
jados pelo chefe da Casa Civil do
governor, Jos6 Carlos Lima, do PV,
sigla que deverd servir de reforgo


Imprensa

O Liberal pisou desastradamen-
te na bola quando considerou como
sendo um prolongamento do expur-
go national o racha no PT de Be-
16m. O pr6prio journal teve que reco-
nhecer, dias depois, pela palavra do
ex-petista Joao Batista de Oliveira,
o deputado Babi, que entrevistou na
edigqo dominical, nao ser nada dis-
so. E cizania dom6stica em torno da
candidatura Ana Jilia e da pr6via re-
particqo internal do poder caso o par-
tido consiga fazer o successor de Ed-
milson Rodrigues.
Para report a verdade, por6m, o
prefeito nao precisava sair dos li-


ao governador Simdo Jatene na pr6-
xima eleiqdo.
Celso Lopes acabou se entre-
gando e esti preso na penitencid-
ria de Marituba, ji agora na condi-
9go de ex-prefeito, com mandate
cassado pela CAmara Municipal e
com dois heabeas corpus rejeitados
pelo Superior Tribunal de Justiga.
Pessoas ligadas a ele estdo foragi-
das, apontadas como cimplices do
assassinate.
E o Didrio nao falou mais no as-
sunto, como se ele tivesse deixado
de existir e o ex-prefeito ji nao ti-
vesse arguments para se defender,
exceto apostar no silencio para ten-
tar escapar da puniqCo.
Como preliminary da attitude edi-
torial que o journal poderd ter a par-
tir de agora, at6 as pr6ximas elei-
cqes, 6 p6ssimo o indicador.


mites da compostura e da civilida-
de. Mas querendo ir muito al6m do
desmentido, para negar o racha na
sua Forga Socialista, Edmilson per-
deu o equilibrio no trato com o re-
p6rter de O Liberal, ofendendo-o.
S6 nao foi al6m da agressdo verbal
porque terceiros se colocaram entire
ele e Raul Thadeu, que, dignamen-
te, nao baixou a crista para o atrabi-
lidrio alcaide.
A imprensa acaba pagando caro
(e talvez indevidamente) pelo mau
hibito de ser chapa branca. Acostu-
ma os poderosos a nao ser incomo-
dados, como tnm que ser.


Jornalismo

de verdade

O Liberal estd conseguindo um feito: de-
sagradar a gregos e troianos, tucanos e petis-
tas. Por forca do seu noticidrio impreciso e des-
continuo, diz uma coisa num dia, diz outra
coisa no dia seguinte, mas nao faz da correqao
o elo entire as duas noticias, deixando-as num
mar de contradiq6es.
Agiu assim quando transformou a crise do
PT no Pard em extensdo da crise national do
partido, quando uma nada tem a ver com a ou-
tra. Em compensagao, colocou o governor do
Estado numa posigqo inc6moda ao atribuir-lhe
o prop6sito de devolver o program de macro-
drenagem das baixadas de Bel6m ao BID (Ban-
co Interamericano de Desenvolvimento), o que
seria estapafdrdio: nem o governor pode dele-
gar a gestdo a uma instituiqao estrangeira, nem
esta pode aceitd-la.
Na verdade, ningu6m cogitou a hip6tese,
que 6 febril. S6 o journal. Para nao se desmen-
tir, 0 Liberal produziu um texto tortuoso, como
se um terceiro e nao ele pr6prio tivesse
feito a afirmativa (publicada, alias, sem qual-
quer referencia a uma fonte da informacdo).
Achou que contemporizava tudo reproduzin-
do o press release enviado pela assessoria do
governor do Estado, pritica que tem levado a
imprensa paraense a renunciar a um dos seus
maiores deveres: checar as informacaes que
repassa ao pdblico.
Ao mesmo tempo, a folha dos Maiorana co-
memorou uma verdadeira faganha: conseguiu
torar-se, pela primeira vez, o 180 maior journal
brasileiro, passando a frente de A Tribuna, do
Espirito Santo, e de A Tarde, da Bahia, e tor-
nando-se o maior do Norte e Nordeste do pais.
O fato, 6 6bvio, tem a ver cor a campanha
promocional, que distribuiu carros aos leito-
res. Quando fez algo parecido, anos atris, a
Folha de S. Paulo se tornou o primeiro journal
brasileiro a ultrapassar a barreira in6dita de
um milhdo de exemplares, que vendia aos do-
mingos. Cessada a promogao de premios, o
journal tira agora metade da circulacao do ini-
cio dos anos 90.
A imprensa mundial aprendeu que a gl6-
ria proporcionada por esse tipo de iniciativa
6 fugaz. Uma vez encerrada a distribuiqdo de
premios, a tiragem volta ao que era, ou me-
nos, se a empresa nao aproveita para investor
no que assegura conquistas definitivas: a qua-
lidade do seu produto. Que, no caso de jor-
nal, 6 a informacao.
O Liberal, alids, saiu da faixa cinza de qua-
lidade jornalistica nos dltimos dias. Foi por
haver publicado mat6rias bem apuradas e bem
escritas por seus rep6rteres, que tiveram um
moment de festa para voltar a se exercitar no
que sabem fazer. Tomara que o piquenique seja
mais duradouro. Antes que a onda dos carros
se tome uma borrasca na praia da vendagem.


1A QUINZENA/JANEIRO DE 2004 Jomal Pessoal










Governor Lula:



auto-iluminado


O PT padece do mal das minorias mes-
sianicas: nao interessa o que os exclufdos
do seu circulo iluminado pensem ou di-
gam, os petistas sao os profetas da verda-
de. O que dizem tem que virar lei, mesmo
quando o que dizem choque-se ostensi-
vamente com a realidade. Nao importa:
se suas palavras ainda nao sao a verdade,
s8-lo-ao daqui a pouco. Porque isso j esti
escrito nos c6dices ou nas estrelas. Li-
mitam-se a dar voz (ou "verbalizar", como
preferem) aos deuses da fatalidade, dos
quais sao os int6rpretes. Predestinados a
tarefa. Mocinhos do celul6ide.
O president Luis Inicio Lula da Sil-
va nao cessa de repetir esse comportamen-
to milenarista. Por isso, costuma abando-
nar textos adredemente escritos por sua
assessoria t6cnica, mesmo quando as cir-
cunstancias recomendam medir e pesar
cada palavra que sai da boca da autorida-
de maxima do pais, como nas cerim6nias
oficiais ou nas misses cumpridas fora do
Brasil, vinculadas ao protocolo official,
cor repercuss6es al6m-fronteira.
Tamb6m faz parte desse rito repetir o
discurso A exaustao, mesmo quando os
pagaos insisted em mostrar que a auto-
ridade esti considerando apenas um as-
pecto da questao e ignorando outra par-
te, talvez at6 mais important. A repeti-
qAo criard a verdade quando a verdade,
ignorada, maltratada e reprimida por de-
liberagao, se tornar detalhe impercepti-
vel ou irrelevant.
No caso da administragqo petista, ain-
da se esti muito long do que fez o nazis-
mo com a "solugqo final", mantida fora
do foco de interesse do cidadao comum
(na Alemanha e fora dela) por mais tempo
do que autorizava a noq~o mais elementary
de dignidade humana. Certamente nem se
chegard a uma distdncia que permit tal
paralelismo. Mas a obnubilaqgo do presi-
dente da Repdblica, que serve de parame-
tro para seus companheiros da adminis-
tracao p6blica, ja 6 preocupante.
A propaganda federal vem insistindo,
desde os albores festivos do fim-de-ano,
em estatisticas favoraveis ao governor,
alardeadas por ordem do chefe da propa-
ganda, Luis Gushiken, e "toques" de seu
Midas, Duda Mendonga. O sacerdote lei-
go dessa religiao civil, Henrique Meirel-
les, president do Banco Central (e ex do
BankBoston), recitou o decalogo das
"conquistas recentes da economic brasi-
leira" perante o Conselho de Desenvolvi-


mento Econ6mico e Social, audit6rio de
ressonancia para o discurso official.
Meirelles provocou satisfaqdo e pal-
mas ao apresentar ndmeros sobre o re-
sultado primirio da economic em 2003
e seu desempenho desde 1995, a relagqo
divida/PIB, a balanqa commercial, o supe-
ravit em transaqes correntes, o "risco
Brasil", a taxa de cimbio e outras pre-
bendas de semelhante quilate.
Todos esses indicadores experimen-
taram melhora no ano passado. Isto quer
dizer que o brutal sacrificio dos brasilei-
ros para azeitar e colorir esses ndmeros
deu resultado. O que os outros sacerdo-
tes, os adoradores do mercado, previam
e queriam se concretizou, realizando-se
at6 al6m das melhores expectativas. Ja a
corrente dos pessimistas cr6nicos tera
que arder no 6leo da inveja e do rancor.
O cidadao brasileiro apertou ainda
mais o cinto, deixando de gastar (com
algumas despesas sup6rfluas, 6 verdade,
mas sobretudo com comida, moradia,
educagqo, sadde e coisas outras asseme-
lhadas, excluidas do cardapio internaci-
onal do pals com glamour) para que so-
brasse dinheiro no orqamento fiscal. O
plus gordo foi drenado para a amortiza-
qCo da paquid6rmica divida, cobrada tan-
to por banqueiros nacionais quanto pela
plutocracia international.
Fizemos a "liqSo de casa", como re-
pete aquele tipo de bom e chat6rrimo -
aluno que tira nota alta porque decora os
ensinamentos e faz-tudo-que-o-profes-
sor-mandar. Aulas que vieram prontas 1~
de fora, trazidas e cobradas pelo mestre
FMI. Tao bem feitas que o doutor Mei-
relles simplesmente ignorou as duas es-
tatisticas mais importantes, ao menos
num receituario honest, para tratar o
doente da casa (em casa) e nao o levanti-
no financeiro de ultramar: a evolugqo da
renda e a do emprego. Ambas foram ne-
gativas. Inquietantemente negatives. Lula
prometeu 10 milhoes de empregos em
quatro anos e ji esta devendo 400 mil a
tres anos do final do seu mandate.
Em 2003 o brasileiro ganhou menos
e encontrou menos trabalho. Isso quer di-
zer que, para cumprir os compromissos
com seu credor, o brasileiro m6dio (nao
aquele 1% de canibais, que abocanham
metade da renda national) ficou mais po-
bre no ano passado. Roto, 6 verdade, mas
em dia com o agiota. Recebeu uma agen-
da personalizada como pr8mio para en-


frentar 2004. E tapinhas nas costas, como
merece o bom menino.
0 perfodo abrangido pelas estatisti-
cas do president do Banco Central (pe-
tista da und6cima hora) comeqa com o
primeiro ano do primeiro governor de
Fernando Henrique Cardoso e nao por
acaso. Meirelles, puxador de samba pe-
tista guiado pela partitura da banca mun-
dial, quer mostrar que houve de fato uma
mi heranga a assumir em 2003, mas ela
foi mais bem administrada do que podia
prever o mais c6tico dos critics, A direi-
ta ou A esquerda do epicentro petista.
Seria injustiqa incluir FHC entire es-
ses pessimistas, ou teri sido falso o abra-
go caloroso e as refer8ncias gentis de Lula
ao ex-presidente, no encontro da semana
passada, quando ambos receberam pr8mio
(e mais 10 mil d6lares para cada um) da
Universidade Notre Dame, americana, em
nome da corporaq~o Kellog (uma das usi-
nas ideol6gicas da livre iniciativa nos Es-
tados Unidos), pelos bons serviqos igual-
mente prestados a causa (declaradamen-
te, a causa democrntica, mas ela 6 apenas
o abre-alas, 6 claro).
No fundo, o ex-soci6logo e seus alia-
dos (e patrons) sabiam que o ex-lider
operario seria muito mais 6til e eficiente
A causa do que qualquer outro candidate
presidential na dispute de 2002, incluin-
do Jos6 Serra, do PSDB (em cujo ninho
os tucanos nao se beijam: bicam-se). Para
que a administraqao FHC pudesse colher
em 2003 os resultados celebrados por
Lula & coro, alardeando urbi et orbi as
excelencias da democracia A brasileira,
seria precise que o PT deixasse de impe-
dir a aprovaqao das reforms tributaria e
previdencidria, como vinha fazendo com
a competencia de oposicionistas a qual-
quer preco (mesmo que A custa de muita
bravata, conforme admitiria, retrospec-
tivamente, Lula-jd-li-presidente).
Como fazer isso? Ora, passando o ce-
tro para Lula & seus petistas (ainda) abs-
timios. Dentro do cetro, 6 claro, iam os
mesmos textos da reform demonizada
(e, portanto, adequadamente anatemati-
zada) pelo PT pr6-poder. SolugHo sim-
ples e convincente, como o ovo de Co-
lombo: o novo PT conseguiu fazer o
Congress aprovar os projetos que o ve-
Iho PT de entio, corn seus muito 6teis
BabAs, Genros & Heloisas, nao deixava
descer goela abaixo da naqao. Para nao
haver reaq~o adversa ou incompatibili-
dades gen6ticas, tratou-se de mandar os
politicos de program cantar em outra
freguesia, bem abaixo das instancias de-
cis6rias de Brasilia. Assim, a crise de cre-
dibilidade seria debelada e seus senso-
res de aferi~io, como o "risco Brasil",
poderiam dar o sinal verde.
Para o que? Para o piano B (ou Z, como
na 6poca de Collor?), guardado dentro do


Journal Pessoal 1- QUINZENA/JANEIRO DE 2004 5













Ningu6m deve comeqar uma briga an-
tes de uma razoavel avaliaqao sobre o ad-
versirio. Se ele 6 forte o bastante para im-
pedir qualquer possibilidade de vit6ria, 6
melhor nao encarar. Mas hi moments em
que nao hi outra safda, mesmo quando te-
mos consci8ncia da desproporao de mei-
os. E o que estA acontecendo no moment
no Brasil com a exigencia de identifica-
cao dos americanos que chegam ao pais,
media adotada a partir do moment em
que os Estados Unidos impuseram essa
mesma obrigacqo a virios estrangeiros,
entire os quais os brasileiros.
A providencia ter amparo legal. O
procurador da Repdblica em Mato Gros-
so, Jos6 Pedro Taques, suscitou o rompi-
mento unilateral, pelos americanos, do
princfpio da reciprocidade entire os dois
pauses. Ojuiz federal, acolhendo o argu-
mento, deferiu o pedido para que as au-
toridades brasileiras impusessem aos vi-
sitantes as mesmas normas a que, em seu
pafs, os brasileiros estao sendo obriga-
dos a sujeitar-se. Aplica-se, aqui, o mes-
mo rem6dio (ou veneno) administrado
nos EUA. Se nao valeu para a conviven-
cia pacifica, a reciprocidade, em aplica-
dao invertida (ou pervertida), vai provo-
car uma relaqao conflituosa.
O problema 6 que nao hi um mime-
tismo somente. Cada americano esti ten-
do que suportar um tempo quatro vezes
maior para ser identificado no Brasil do
que um brasileiro precisa suportar nos
Estados Unidos. Os americanos plane-
jaram a adoqao dessa provid8ncia. Os
brasileiros tiveram que adoti-la em cima
da hora, a partir da execuqao da senten-
Ca do juiz de Mato Grosso, que tem va-
lidade para todo o territ6rio national.
Mas nao s6 pela improvisaqao 6 que a
execuqao da ordem judicial demora
mais. O PIB brasileiro soma nao mais
do que 6% do PIB dos EUA. Os ameri-
canos podem brigar com o mundo. E
n6s, agUentamos brigar com os EUA?
Evidentemente que nao. Mas hi momen-
tos em que o David tem que encarar o
Golias, rezando para Deus estar de plan-
tao li em cima para ajudi-lo.

) cofre para quando o control dos apare-
Ihos de Estado estiver consolidado sufi-
cientemente para permitir um golpe de
mao? Ou para o choque de realidade, de
que s6 hi um enredo sincr6nico e que, para
enfrentar a diacronia, 6 precise mais do
que metdforas de Jararaca & Ratinho? Os
pr6ximos dias responderao.
O PT tem um s6lido program de po-
der, que o ministro-secretirio-geral Jos6
Dirceu vai conduzindo com maestria. S6
nao tem um program de governor. Daf o


Os americanos estao certos nas exi-
gencias que passaram fazer em suas
fronteiras depois dos atentados de 11
de setembro de 2001. Passaportes ex-
pedidos por muitos pauses sao docu-
mentos inconfiaveis. Nao s6 por sua
fdcil falsificaq~o. Mesmo oficiais, per-
mitem fraudes. Devem ser aperfeiqoa-
dos. Mas por que o Brasil nao foi in-
cluido no rol dos 27 pafses que dispo-
rao de tempo at6 outubro para ajustar
seus passaportes as novas normas de
seguranca dos Estados Unidos?
Por qualquer crit6rio que tenha sido
adotado, o Brasil nao podia ficar de
fora. A rigor, devia ter havido carencia
razoAvel para as modificaq6es para to-
dos os pauses cor os quais os EUA tnm
relagqes diplomiticas.
Com um tergo da riqueza mundial,
os EUA sao o inico imp6rio em vigor.
Mas ji nao estao na linha ascendente
(o auge, diz Gore Vidal, foi entire 1945
e 1950; de li para ci a repdblica ame-
ricana reduziu-se a um Estado de Se-
guranga Nacional, corn dfvida de qua-
tro trilh6es de d61ares para suportar
essa estrutura de guerra permanente.
Por argtcia de realpolitik deviam re-
duzir a presungao e a arrogancia em
proveito de uma ostpolitik eficaz. Me-
didas legitimas de defesa e preserva-
qAo nao podem passar para a humilha-
qao dos outros, "o resto".
Recebendo os relates de pessoas
que foram maltratadas ao chegar ao
territ6rio americano, eu pr6prio ji ha-
via decidido nao mais voltar aos EUA
enquanto essa selvageria busheana es-
tiver em vigor. Meu protest, 6 claro,
nao move uma palha. Mas a corrente
de indignacao, de variado calibre, cu-
mulativa, deve ter ventilado o c6re-
bro do juiz Julier Sebastiao da Silva
quando ele decidiu, pela reciprocida-
de, impor aos visitantes americanos o
mesmo tratamento dado aos brasilei-
ros nos EUA, ainda que cor a agra-
vante da diferenca de poderio entire os
dois pauses. Eles, agora, que encon-
trem uma nova forma de correcao dos

que executa se parecer tanto ao roteiro
de FHC. Quem examind-lo cor a devi-
da atencao deve encontrar a marca do car-
bono no papel. A ret6rica socialist 6 o
glace para o conteddo neoliberal que, um
dia (a mitologia do dia-que-hi-de-chegar,
abundante na mdsica popular brasileira),
vai ser negado e revertido.
Passado o reveillon, o president Lula
talvez tenha descoberto, roladas e eva-
poradas as aguas ardentes, que se tornou
FHC amanha, melhor na reproduqao do


Goodbye, EUA


6 1I QUINZENA/JANEIRO DE 2004 Jomal Pessoal


problems. Ou encarem diretamente a
queda-de-braqo.
A reaqao do governor Bush, assumi-
da pela triste figure em que se transfor-
mou o general Colin Powell quando, de-
pois de uma carreira brilhante no Ex6r-
cito, decidiu entrar na Casa Branca pela
porta lateral, a mais segura para um ne-
gro que iria desafiar uma vertente da ar-
rogancia imperial se mirasse diretamente
a presidencia, essa reaqao deixou de ser
t6cnica para ser political. Primeiro a sub-
missao do Brasil ao diktat americano.
Depois, o vamos ver.
Se for coerente e consistent, a diplo-
macia brasileira estard prestando um ser-
viqo a comunidade international condu-
zindo afirmativamente o contencioso,
sem ret6rica nasserista nem exibicionis-
mo vazio. Sua melhor opqao 6 responder
ao voluntarismo americano com a melhor
t6cnica diplomatica.
Sem deixar de ouvir os clamores de tan-
tos brasileiros que tem sido humilhados nos
aeroportos americanos, desde 11 de setem-
bro de 2001. VWrias tomaram a sibia deci-
sao de cortar o territ6rio dos EUA de seus
roteiros, se isso Ihes 6 possivel. Para nao
ter que tirar o sapato e sofrer algum cons-
trangimento mais, vou ficar A distAncia da
terra onde Bush e Cheney estao
mandando at6 que aquele pals, pelo qual
nutro admiragao e respeito, e do qual ji
muito usufruf em conhecimento e experi-
6ncia, reajuste sua ostpolitik segundo pa-
rimetros de respeito A comunidade inter-
nacional, ao multilateralismo e as normas
da conviv8ncia entire povos aut6nomos.
Digo isso na condiq~o de visitante con-
vidado pelo Departamento de Estado para
aquelas proveitosas visits que nos pro-
porcionam, a minha inesquecivel. Os EUA
sao os maiores do mundo, mas nao sao o
mundo. E o sao cada vez menos. Estao
jogando fora aquilo pelo qual o imp6rio
romano (e outros imp6rios mais duradou-
ros) tanto se empenharam: a hegemonia
cultural. Nenhum imperio se mant6m sem
a admiragao, o respeito e o carinho de ul-
tramar. Acaba se isolando, se sufocando e
desaparecendo. A tend8ncia 6 hist6ria e
esti bem clara atualmente. Mas o inquili-
no indevido da Casa Branca nao tem sen-
sibilidade para essas "coisas".

que a matriz nao assumida. Exatamente
por ser o outro lado da mesma moeda, o
lado at6 entao mantido A parte, como a
face oculta da Lua. E nao, como ele pr6-
prio imaginava, quando ainda era ape-
nas um grande sujeito fazendo political
como a arte da bravata, a outra moeda,
aquela capaz de financial o Brasil dos
sonhos. Dos sonhos brasileiros que se
estao a evolar.
Por ora ou para sempre? Desfazen-
do-me mesmo no ar?










Estado e municipio:



polemica de 1,99


Seguindo o modelo do lider, o pre-
feito Edmilson Rodrigues fez blague.
Disse que nao vai receber o program
de macrodrenagem das baixadas de Be-
16m, de 265 milhoes de d6lares (mais
de 600 milh6es de reais) porque 6 obra
de 1,99 do governor do Estado.
A declaragdo nao passa de fanfar-
ronice, mas nem chega a ser original.
O titulo foi criado pelo arquiinimigo
de Edmilson, o tamb6m arquiteto Pau-
lo Chaves, secretirio estadual de cul-
tura, para definir a pobreza das reali-
zaq6es do PT na capital. O arquiteto
estadual brigando com o arquiteto mu-
nicipal sem um poeta federal por perto
para tirar ouro do nariz (por alguma
razdo desconhecida pela patologia,
Bel6m possui uma quantidade enorme,
talvez demasiada, tanto de arquitetos
quanto de poetas, de prancheta curta e
rima de p6 quebrado).
A pobreza foi um mote concebido
pelos petistas para efeito meramente
econ6mico. As obras do PT, contras-
tando com as do PSDB e todos os ou-
tros partidos anteriores (formados por
gente covarde, na frase alterada de
Lula), viriam a ser mais baratas por-
que nao teriam corrupcqo pelo meio.
Administradas com rigor, honestidade
e competencia, necessariamente iriam
sair mais em conta ao erdrio. E, talvez,
com mais qualidade.
Seria uma revoluq~o (ao menos nos
costumes piblicos) se tal tivesse acon-
tecido. Mesmo que os canais de vaza-
mento e drenagem de dinheiro ji esti-
vessem tamponados, graqas ao empenho
do condottieri ao tucupi (cujas contfnu-
as temporadas italianas ji o credenci-
am ao titulo), a reduq~o de custo tanto
podia resultar da lisura dos procedimen-
tos quanto da qualidade do material
empregado. Se exagerou na metdfora e
bateu pesado na expressHo, o arquiteto
Paulo Chaves nao foi de todo incorreto
na sua venenosa definicao do modo pe-
tista de governor Bel6m.
O alcaide imaginou retrucar A fera
devolvendo-lhe o pr6prio veneno, o
maldoso 1,99. Tamb6m nao foi de todo
improcedente o titulo aplicado por Ed-
milson A conduqao tucana do progra-
ma de recuperacao das baixadas de
Bel6m. Economia besta foi feita na
obra e alguns erros nela acabaram sen-
do cometidos, com a delegaqCo de ta-


refas a quem, desprovido de meios ou
competencia, sublocou serviCo.
Mas a macrodrenagem nao chega a
ser um produto de 1,99, muito pelo con-
trario. Prevista para custar US$ 200 mi-
lhoes, ji esta um tergo mais cara. A
economic conseguida nos componen-
tes de custo teria, na melhor das hip6-
teses, sido mais do que compensada
pela variaqio cambial.
Os resultados do program teriam
sido mais expressivos se nao tivesse ha-
vido uma estranha incompatibilidade
entire a macrodrenagem e seu coman-
dante, o ex-governador Almir Gabriel.
Por uma dessas pinimas a que o doutor
Almir parece ser abundantemente sus-
cetivel, e sobre cujas causes talvez s6
os mais intimos estejam bem informa-
dos, ele nao deu ao program o refe-
rendo que a obra precisava.
Sempre que possivel, eu indagava
de algumas das fontes mais pr6ximas
ao entao governador pelas raizes do
possivel desentendimento, mas nao en-
contrava explicaqces satisfat6rias.
Como o doutor Almir fazia questdo de
destacar que o program comeqara de
fato com ele e ningu6m mais, dentre
os muitos que tentaram ser os pais da
crianqa antes dele, talvez o problemi-
nha esteja na circunstancia de que o
contrato entire o Estado e o Banco In-
teramericano de Desenvolvimento te-
nha sido assinado, em Washington,
pelo execrivel Jader Barbalho.
Como de hibito, Jader acertou tudo
para o parto e depois deixou de lado a
crianga. Sua participarqo na macrodre-
nagem se resumiu a dar-lhe vida legal
(e alguns inicios entortados, segundo
a versdo da administrag~o que o suce-
deu). Mas como 6 o seu nome que apa-
rece como o pai legal da crianqa, quern
for ao cart6rio verificard o fato, ainda
que o doutor Almir tenha toda razdo
quando reivindica a criaqCo, educagco
e forma~go da criatura para o seu go-
verno. Ficou, por6m, provavelmente no
reprimido inconsciente, alguma coisa
por explicar, aclarar e assumir nessa
hist6ria. Restos mal digeridos de filho
adotivo, qualquer coisa assim.
Mas isso 6 detalhe e talvez deta-
lhe insubsistente, na visdo do ex-gover-
nador. O que interessa, no caso, 6 o
valor da obra. O BID procurou resguar-
dd-la para que nao fosse mais uma im-


posiqdo do poder central. Exigiu acom-
panhamento comunit.rio e participacgo
dos beneficiarios (e tamb6m da prefei-
tura, mesmo ela tendo se esquivado de
comparecer com seu dinheirinho, no
que foi abonada pelo Estado, entao em
fase de namoro). O banco tentou evi-
tar que o empreendimento acabasse
sendo mais um fator de expulsdo da
populaqao por conta da especula~go
imobilidria, que viria corn a valoriza-
9do da drea saneada. A macrodrenagem
devia ser um verdadeiro program de
valorizacqo e desenvolvimento (e de
"inclusao social", como agora se repe-
te), nao apenas uma obra de saneamen-
to basico, como aconteceu nos canais
da Almirante Tamandar6 e da Doca.
Certamente nao foi nem uma coisa
nem outra. Mudou profundamente a pai-
sagem da area e seu uso, na maior inter-
venqao urbanizadora dos dltimos anos.
Mas n~o protegeu e muito menos ain-
da desenvolveu seus primitives habi-
tantes. E algo tao pr6ximo do 1,99 defi-
nido por Edmilson quanto o padrao mu-
nicipal ironizado por Paulo Chaves.
Mas se o secretirio de cultural, um
secretirio de obias avant la lettre,
p6de mostrar como fazer melhor (em-
bora muito mais caro), o prefeito ain-
da tem condicqes de, nos arremates,
converter, ao menos em parte, a mes-
mice da macrodrenagem enquanto
pontap6 nos fundilhos daqueles que,
depois de comer o pao amassado pelo
diabo, receberam cartao vermelho
(quando muito, sob a forma de virias
notas de real) na hora de p6r o ban-
quete A mesa. Ao inv6s de convidado,
viu-se um importuno.
Como primeiro pass para servir ao
program e ao povo que lhe da causa
- as duas administraaqes deviam se
reunir, conversar como verdadeiras ser-
vidoras pdblicas, A parte suas idiossin-
crasias, e contribuir para a melhoria
geral da sociedade, ao inv6s de se li-
mitarem a essa esgrima impertinente
atrav6s da imprensa sobre quem 6 mais
1,99 nessa forma.de exercer o poder
primeiro para si e, se der, para os de-
mais, a partir da premissa da individu-
alidade do lider iluminado. Indepen-
dentemente da excel8ncia de cada um
deles, por avaligCao externa ou auto-
contemplacgo, Bel6m virou isso que
um diz do outro: uma cidade 1,99.


Journal Pessoal 1 QUINZENA/JANEIRO DE 2004








Outra linha
Se a torneira do FDA foi fechada
para a Ferrovia Norte-Sul (se 6 que foi
mesmo), outra via do governor federal
foi aberta para a linha de transmission
de energia Norte-Sul II. O BNDES ji
assegurou 550 milhoes de reais para a
obra, metade do que 6 necessario para
completar o percurso de 1.278 quil6-
metros no total entire Imperatriz, no
Maranhao, e Samambaia, no Distrito
Federal. O objetivo do linhao 6 dupli-
car a capacidade de transmissao de ener-
gia entire o Norte e o Centro-Sul.
Ou seja: nos sangrar de energia
mais ainda.


Exemplo
O caso da Ferrovia Norte-Sul noo 6
original. Quando ainda seus escandalos
lavravam internamente, a Sudam apro-
vou recursos dos incentives fiscais para
a Ferronorte, projeto de 1,6 bilhao de
d6lares de Olacyr de Moraes, que era
entao saudado de rei da soja (e da noite
juvenile Teoricamente, a linha tamb6m
iria de Cuiabi na direq~o de Porto Ve-
Iho e Santar6m, por dois ramais. Mas
ela s6 tem caminhado na diregao opos-
ta. O que esti em funcionamento sao
400 quil6metros entire o rio Parand, em
Mato Grosso do Sul, e o Alto Taquari,
em Mato Grosso. E por af vai prosse-
guindo at6 o porto de Santos.
Destronado do seu reinado de pro-
dutor, Olacyr se consola ganhando di-
nheiro com o transport da soja. A
Amazonia entra nessa hist6ria com o
dinheiro sem retorno para Olacyr nao
deixar de ser rei.


Requiem
Caiu o que restava da mascara cli-
entelista do Fundo de Desenvolvimen-
to do Estado com a transferencia de
dinheiro para despesas de custeio dos
municipios. A pretexto de socorrer as
prefeituras, impossibilitadas de pagar
o 13 salario dos seus funcionarios por
conta da reduq~o do Fundo de Partici-
pacqo dos Municipios, que lhes 6 trans-
ferido pela Uniao, o governor se ante-
cipou ao fisiologismo que dominard a
temporada deste ano at6 as elei9ges
municipals, adiantando a grana. O toma
1i logo tera o di ci, claro.
O governor Lula transformou em le-
tra morta, no ano passado, o compro-
misso de desconcentrar o poder. O go-
verno Jatene consumou essa meta, s6
que destruindo a pretensa autonomia do
poder menor.


A Companhia Vale do Rio Doce nao tem mais intermedidrios no Pard: todas as
empresas controladas perderam a antiga razdo social e se fundiram na sigla dnica
a partir de agora, CVRD. No final do ano passado, com pouca atengao do pdiblico,
a Vale incorporou a Mineraqdo Serra do Sossego, que iniciard neste ano a
exploragco do cobre de Carajis, a Mineracqo Vera Cruz, que ird explorer a bauxita
de Paragominas, e a Vale do Rio Doce Aluminio (Aluvale), holding do setor (que
control a Albris e a Alunorte e tem participacao na Mineraqao Rio do Norte, que,
por ser coligada, mantdm a denominagdo original), al6m da Docegeo, a subsidiiria
de pesquisa geol6gica, cor atuagqo national.
Segundo o comunicado da CVRD, a incorporaqdo das companhias "nao
envolverd emissdo de novas a95es nem alteraqao no capital social da mineradora".
Os ativos da Docegeo, MSS, Aluvale e MVC serao incorporados a CVRD pelo
valor contibil do balan9o patrimonial referente a 30 de novembro de 2003. A
operaqao "teve como objetivo a simplificaqao da estrutura organizacional da
mineradora", diz a sintdtica nota da empresa.
Gastard menos com a administracao, import verticalmente as decisbes e
difundird sua marca.


Punimgo
A Cargill acha que nao precisava fa-
zer o EIA-Rima (estudo e relat6rio de
impact ambiental) para construir seu
terminal graneleiro em Santarem porque
nio movimentard nele produtos quimi-
cos. A autoridade para dizer se o docu-
mento 6 condig~o previa para a obra 6 o
Ibama, que exigiu o EIA-Rima. A Car-
gill resolve desafiar o govero.
Com uma autorizacao judicial pre-
cdria, a empresa iniciou e concluiu o
porto, no valor de quase 20 milhoes de
d6lares. Quando comegou a opera-lo, o
mandado judicial foi derrubado e a si-
tuaqdo voltou ao seu estado inicial:
quem pode decidir sobre a mat6ria exi-
gindo o EIA-Rima e a Cargill ji sem
poder cumprir a obrigacqo porque In8s
6 morta e o leite foi derramado.
Nao se deve p6r abaixo a obra que a
empresa realizou, mas nao se pode ser
condescendente com uma infraqgo le-
gal, produzida por arrogancia e prepo-
tdncia. Alguma several e exemplar pro-
videncia precisa ser adotada nesse meio
termo entire a violdncia do estrito cum-
primento da lei e o incentive A ilegali-
dade e ao abuso.
Minha sugestao: aplicar pesada mul-
ta a Cargill e reverter o dinheiro para
um fundo ambiental e social, que ate-
nue os efeitos negatives do porto, pre-
vina os problems que ele pode causar,
beneficie a area do entorno e garanta os
efeitos sociais que a atividade poderd
nao gerar se continuar a ser tdo preda-
t6ria como seus primeiros movimentos,
incluindo o ato de imp6rio da Cargill,
estZo a apontar.
E sujeitar a empresa a um control
pdblico estrito e atento, tratando-a como
r6u que perdeu a primariedade.


Correio
Niomar Moniz Sodr6 Bittencourt nao
foi apenas uma sombra do marido entire
1942, quando casou cor Paulo Bitten-
court, e 1963, quando ele morreu e ela o
sucedeu no comando do Correio da Ma-
nha, o journal cor maior influencia ao
long da repiblica brasileira. E o que
tenta demonstrar Pedro do Coutto, em um
artigo demasiadamente curto que escre-
veu para o Jornal do Brasil quando dona
Niomar morreu.
Coutto diz que ela atuou em virios
dos conflitos em que se envolveu o jor-
nal fundado pelo sogro, em 1901. Infor-
ma (para mim, verdadeira novidade) que
era ela quem traduzia os artigos escritos
em francs pelo vienense Otto Maria
Carpeaux, que se tornaria um dos edito-
rialistas do Correio, al6m de autor de
memoriveis artigos sobre cultural e poli-
tica. Com seu primo, Edmundo Moniz
(depois convertido ao brizolismo), escre-
veria os tr8s editorials seguidos que esti-
mulariam os militares A deposiqgo de
Jodo Goulart, em marco de 1964. Do 61-
timo grande editorial, jA delimitando a
nova infletida political do journal, contra
a ditadura military em formaqdo pelo ma-
rechal Castelo Branco, o co-autor foi o
pr6prio Carpeaux.
Apesar de curto, o artigo de Pedro do
Coutto merecia ter sido comentado. Ain-
da mais pela circunstancia de ter sido ele
o coveiro do Correio da Manha, sepul-
tado sem honra, em cova rasa, em 8 de
junho de 1974. A data, pr6xima, podia
ser tomada como pretexto para a devida
exumaqgo do cadaver, que ainda clama
por uma hist6ria decent da sua existdn-
cia de 73 anos, sem igual na imprensa
brasileira, apesar das manchas, vacila-
qCes e quedas ao long dessa trajet6ria.


8 1a QUINZENA/JANEIRO DE 2004 Jornal Pessoal










A critical da critical



e o valor acadimico.
1 d.


O semindrio international "Landi e o
s6culo XVIII na Amaz6nia", realizado
em Bel6m entire 17 e 21 de novembro do
ano passado, foi, "provavelmente, o mais
important event de estudos hist6ricos
em geral e de hist6ria da arte em particu-
lar, realizado nos dltimos anos no Para
e, sem sombra de ddvida, o maior do ano
corrente nesses dominios", afirma Rober-
to Santos, em artigo publicado em O Li-
beral de 23 de dezembro.
Os muitos e bons resultados alcan-
qados pelo seminario atestariam, se-
gundo Roberto (que se apresenta no
artigo como membro do Instituto His-
t6rico e Geogrifico do Pard), o "grau
de avanco jA atingido pela cultural aca-
demica no Para, nao raro caluniada
pelos eternos pessimistas".
Talvez por conta dessa caldnia sem
fim dos pessimistas de carteirinha do
Para, o ex-juiz do trabalho e professor
universitario decidiu escrever em favor
do seminario, promovido em conjunto
pela Universidade Federal do Pari,
Universidade da Amazonia e Museu
Emilio Goeldi.
E possivel que o encontro tenha es-
tado sob a ameaqa de maus olhados de
inveja e cupidez, ji que, de pdblico, nao
houve uma inica manifestaqgo por es-
crito. Exceto a minha, neste journal.
Aplaudi e louvei o semindrio, parti-
lhando por inteiro a opiniio de Rober-
to Santos. Fiz apenas duas restriq6es
ao event.
Uma, foi sobre a exclusdo da arqui-
teta Jussara Derenji do rol de palestran-
tes ou conferencistas. Jussara ji tem
uma alentada bibliografia sobre o tema,
que incorpora o produto de suas pesqui-
sas na Italia ao que ela aprendeu por aqui
mesmo. No mesmo dia da abertura do
seminario, alias, Jussara estava justa-
mente lanqando um romance sobre a
6poca de Landi (se foi de prop6sito, por
algum motivo, essa 6 questdo para tra-
tar A parte do semindrio, em suas entre-
linhas ou paralelas).
A outra restrigqo foi quanto a honra-
ria dada (ou autoconcedida) a um dos
organizadores do semindrio, o arquiteto
Flivio Nassar (com quem eu sempre tive
boas relaqSes pessoais, devo logo desta-
car), para fazer a palestra de encerramen-
to do encontro. Acho que o pr6prio Nas-
sar devia ter evitado o favorecimento,
quando nada por pudor. Mas tudo bem:


A bafa do Guajard os escrdpulos da cons-
ci6ncia. O problema 6 que ele falou so-
bre um tema que nada tinha a ver com a
razao de ser do semindrio. Nassar falou
sobre o Pard do s6culo XX. O seminario
era sobre Landi e o s6culo XVIII (o que
autoriza a observagao de Roberto sobre
a indevida ausencia do naturalista Ale-
xandre Rodrigues Ferreira).
Nao sei se o autor do artigo me lan-
qou uma carapu9a. Talvez eu esteja me
dando uma importancia que nio tenho.
Mas se a carapuqa cabe em minha cabe-
qa gradda, peqo-lhe que contradite mi-
nhas restriq6es. Acho que elas t6m pro-
cedencia, mas estou disposto a acolher
ponto de vista contrario e adotd-lo, se
convencido a mudar de id6ia. NZo serd
a primeira vez.
Incomodo-me com o artigo do meu
amigo porque, ao inv6s de arejar o ambi-
ente intellectual do Pard, ele o torna de
mais dificil respiragao. Se eternos pessi-
mistas estdo caluniando a cultural acad6-
mica do Pard, bolas, d8-se nome aos bois
e instaure-se a troca de id6ias, o debate,
a controversial. O anonimato dd guarida
a alhos, bugalhos e outros components
rimados desse saco de gatos pardos.
De outra maneira, o ato de critical
continuard a ser considerado uma im-
pertinEncia, uma demonstragao de md-
f6, de pessimismo e at6 de contraven-
qgo, para gdudio das elites estabeleci-
das (ou, falando mais ao gosto, do esta-
blishment). Se a nossa cultural academi-
ca jd estd tdo amadurecida quanto diz
Roberto Santos, ela pode enfrentar os
critics e desfazer seus arguments, ofe-
recendo ao distinto ptblico mat6ria pri-
ma para sua pr6pria reflexao e conclu-
sdo. Ou seja: instruindo e formando opi-
nido pdblica, o produto mais nobre da
atividade dos intelectuais.
O terrivel 6 o contradit6rio de id6ias,
motor do avanco civilizat6rio, ficar con-
finado a confrarias de fuxicos, a disse-
me-disse que nao chega A letra de forma,
como aconteceu com a reaaio a entre-
vista do pesquisador americano David
McGrath A revista Veja (muito e-mail tro-
cado pela rede eletr6nica e nenhum arti-
go na imprensa local; certamente por
mera coincidencia, quando meu artigo
saiu a circulaqao via internet murchou).
Se hd uma conspiracao de critics
amargos e biliosos contra as realiza-
96es culturais paraenses, ela se circuns-


creveu a ambientes fechados e ao cir-
cuito oral. O dnico artigo de andlise do
semindrio foi o meu. E, depois, talvez
como resposta nao explicit, o do Ro-
berto. Mas se ele falou em tese, igno-
rando (por opqao ou por falta de leitu-
ra) o que disse estejornal, sua tese, sem
terreno fdrtil no qual medrar, 6 mais um
adubo para a attitude incivilizada (no
velho sentido romano de cives) e co-
varde dos que atiram a pedra e tratam
logo de esconder a mao.
A critical, mais do que necessdria, 6
vital. Critica que consider, entende e
valoriza seu objeto de andlise, sem dei-
xar de, ao contextualizd-lo, situa-lo em
seu tempo, discernir seus pontos positi-
vos e negatives, o que diz e o que fez, ao
que se propoe e ao que efetivamente ser-
ve, o que pretendeu fazer e o que de fato
fez (como o servigo que Ezra Pound pres-
tou a The waste land, de T. S. Elliot, por
muitos considerado o mais important
poema do s6culo XX).
Tal trabalho de elucidaqCo exige mui-
to. Tanto quanto o que transfer para o
patrim6nio cultural coletivo. Essa criti-
ca, feita por quem sabe do que trata e
para que trata, 6 o verdadeiro elo condu-
tor da produq~o cultural, o que lhe asse-
gura a continuidade, a compreensao e a
absorq~o. A luz que nasce do choque dos
opostos 6 que faz o mundo avancar, en-
quanto a Lusitana roda.
Ao menos era assim que se entendia
a vida intellectual fecundadora, com mais
components diacronicos do que sincr6-
nicos, responsdveis pela germinagao do
novo num ambiente que tenta se impor
pela rotina e a repetiqao, quando se era
mais critico do que academico. O que uns
continuam a ser e outros, decididamen-
te, nao sio mais.


Journal Pessoal 1l QUINZENA/JANEIRO DE 2004 9


V









Iosr Ite 1962 A DO IDI


Carnaval
Quem entendia de camaval em
Bel6m, no agitado ano de 1962,
eram Verbeno Costa, Erastos Ba-
nhos (que tamb6m atendia, mati-
nalmente, como o palhaco Ale-
crim), Ldo Ferreira, Rui Lobato,
Rui Guilherme, Pires Cavalcan-
te, Careirinho, sargento Nery,
Fldvio Aires e Candoca. Eles,
pelo menos, foram as pessoas
convocadas em janeiro por Vinf-
cius Danin para participarem de
uma reuniao, na redaqao do ves-
pertino O Liberal (que Romulo
Maiorana s6 compraria quatro
anos depois). No encontro seria
decidido sobre a organizag~o do
Concurso Regional de Mdsicas
Carnavalescas, promoqAo dos Di-
arios Liberais S/A, RAdio Difu-
sora e Gravadora Brasil.
E hoje?
Bebida
Um pouco antes da quadra car-
navalesca desse mesmo ano, ali-
ds, entrou em vigor uma porta-
ria do secretdrio de Seguranqa
Pdblica do Estado proibindo a
venda de bebidas alco6licas nas
mercearias entire as 18 horas de
sdbado e as seis horas da manhA
de segunda-feira. Mas a nossa lei
seca nao teve vida longa.
Aula
A aula inaugural da Escola de
Servigo Social da Universidade
Federal do Pard foi dada pelo
professor Amilcar Tupiassu, len-
te de sociologia. Seu tema: "a so-
ciologia dos pauses subdesenvol-
vidos". A ouvi-lo estava o rei-
tor, Jos6 da Silveira Neto; a di-
retora da escola, Iddlia Mauds; e
o inspector federal do ensino,
Edgard Pinheiro Porto.
O boa-praqa Amilcar tam-
b6m se foi muito cedo. O cora-
gSo, apesar de imenso, nao
agUentou tanta energia.
Estocada
A Folha do Norte do dia se-
guinte ao aniversario do gover-
nador (e do seu primeiro ano
no cargo) nao perdoou seus ini-
migos "baratistas". Publicou
esta venenosa nota:
"Transcorreram em meio a
mais absolute indiferenga do
povo os festejos com que pre-
tendeu o govero comemorar,
ontem, a passage do primeiro
aniversario da administraqlo
Aurdlio do Carmo.
Desde a missa na Catedral,
onde se contava a dedo os assis-


tentes, entire amigos particulares
e politicos, e donde fugiram os
funcionarios pdblicos, apesar do
ponto facultativo, num mudo [e]
endrgico protest contra o cr6-
nico atraso de seus vencimentos.
No cemitdrio, diante do tdmu-
lo do antigo chefe, os transeuntes
podiam contemplar a in&dita cena
de um reduzido grupo a fingir li-
grimas ao esquecido ausente. O
sr. Moura Carvalho [prefeito de
Belim], retrafdo e cabisbaixo, pa-
recia envergonhado...
Fulminou o menosprezo pd-
blico, no campo de futebol,
quando ap6s a fria recepqdo de
um sepulcral sil8ncio irrompe-
ram apupos de todos os recantos
entire gritos de chega, chega!
Nio parecia estar-se come-
morando o primeiro aniversirio
de um governor .
Secretariado
Durante a comemoraqao do 1
ano, o governador Aurdlio do
Carmo deu posse aos seus novos
secretdrios: Padua Costa na che-
fia de gabinete; Irineu Lobato,
secretArio de governor; Firmo
Dutra, nas Finangas; Moreira
Junior, na EducaqAo; Antonio
Vieira, na Secretaria de Obras;
Evandro do Carmo, na Seguran-
qa; e Pedro Valinoto, na Sadde.


Comemoragao
A programago para comemorar o aniversirio do governor Aurdlio do
Carmo, no dia 31 dejaneiro, comeqaria As 8 horas da amanha, cor uma
missa em aqCo de graqas na cathedral da S6. Logo em seguida haveria
visit ao tdmulo do general Magalhaes Barata, patrono do "baratismo",
que morrera tres anos antes, no exercicio do cargo de govemador.
As 10 horas, no edificio Costa Leite, Aur6lio assinaria o aumento dos
pensionistas do Montepio dos Funcionrios Pdblicos. Meia hora depois
lanfaria a pedra fundamental de cinco grupos escolares "pr6-fabricados",
inaugurando e reinaugurando tamb6m o Col6gio Paes de Carvalho, o
Grupo Escolar Augusto Olimpio e o posto policial da Terra Firme.
A agenda vespertina comeqaria As quatro horas cor o pontap6
inicial da partida entire o Remo e o Bangu, do Rio de Janeiro, no
estadio da Tuna (que ainda era Luso Comercial). Do campo de futebol
o governador iria para o Palacio Lauro Sodr6 assinar convenio cor a
empresa americana Westinghouse Eletric para a ampliacqo dos
geradores da usina da Forqa e Luz do Pard e eletrificag~o dos
municipios da Zona Bragantina. Tamb6m assinaria o document de
cria qo do Centro de Sadde n 3.
Fechando o dia, As 22 horas, Aur6lio faria um.discurso de
prestagqo de contas de sua administraq~o e daria, logo depois,
entrevista coletiva A imprensa. Que pasmem os leitores de hoje -
publicaria tudo na edicio do dia seguinte, apesar de a entrevista
haver terminado nos primeiros minutes do dia 1.


Dias depois tamb6m deveriam
ser empossados o padre Leandro
Pinheiro, na Produqao, e Rai-
mundo Viana, na Secretaria de
Interior e Justiga.
Advogados
Otivio Mendonqa (ainda co-
mandando seu escrit6rio de ad-


vocacia) foi eleito para presidir
o Conselho Seccional da OAB
(Ordem dos Advogados do Bra-
sil). O vice-presidente foi Sal-
vador Borborema. Arthur Cldu-
dio Mello era o 10 secretario e
Joao Francisco de Lima Filho o
2. Na tesouraria, Paulo C6sar
de Oliveira.


PROPAGANDA


0 "Encouragado" no 6pera
O Cine Opera (bem antes de virar galeria do
sexo) anunciava, em fevereiro de 1962, que
iria exibir "Enconragado Potemkin", o film
que 117 critics, reunidos em 1958, em Bru-
xelas, haviam aclamado como "um dos cinco














9 U
VtITA190 i!Sl

PRODUMU EM TO0103 05TIMPAt

ICINEO E





BREW~ F2 A


maiores films ji produzidos em todos os tem-
pos". Quem foi para uma das sessoes da obra
do russo Serguei Eisenstein (com sua fabulosa
cena de multiddo nas escadarias de Odessa),
naquela sala ainda nova, corn bom som, jogo
de luzes e tudo, nao esquecera jamais a emo-
Cao. Depois, os filmes de Eisenstein experi-
mentariam a proscriqgo, destino que todas as
ditaduras lhe reservam. Inclusive a do papd
Stalin, quando o roteiro descambava para a in-
dividualidade concrete, saindo da bitola estreita
dos her6is de papelo encomendados pelo di-
ktat do "realismo socialista.
Nas "Mem6rias Imorais" (imorais exata-
mente porque escapavam ao control centrali-
zado do planejamento estatal, o olho-que-tudo-
v8 do Grande Irmao), o grande Eisenstein dei-
xa registrado o que poderia ter feito se no mer-
cado de entao de sua amada Rdssia nao esti-
vesse em falta um produto vital para o ser hu-
mano: a liberdade.
No Brasil, dois anos depois da exibiqio, no
ainda faiscante "Opera", do filme semi-documen-
tal sobre a revolta dos marinheiros do encoura-
qado do poder czarista, essa mercadoria tamb6m
seria retirada das prateleiras dos cidadaos.


10


1 QUINZENA/JANEIRO DE 2004 Journal Pessoal















Ver-o-Peso real
Maril6a da Fonseca (de vestido) e Nilda Me-
deiros (de calqa comprida) eram jovens, bonitas,
a loucura da rapaziada, e integrantes da chamada
alta sociedade belenense. Para que pudessem ser
apresentadas por seus clubes (o Pard Clube e o
Autom6vel Clube, respectivamente) ao concurso
de Rainha das Rainhas do Carnaval de 1962, en-
tlo promovido pela Folha do Norte, seus pais ti-
veram que ser procurados, em audiEncia formal,
para dar a devida autorizaqco.
Autorizadas, as duas beldades posam para esta
foto no imagine-se Ver-o-Peso, exibindo pe-
qas de ceramica da criaqAo local (dentre as quais o
inevitivel filtro), que entao eram expostas no cen-
tro do mercado aberto, e bichos e personagens
(como o cangaceiro) feitos de latex (by Monte
Alegre). Observe-se, ao fundo, um cidadao de pa-
let6 & gravata passando impavidamente pelo Ver-
o-Peso. Mais ao fundo, barcos A vela. Populares.
E bastante espaco.
A bela e gentil Maril6a foi-se cedo demais, ri-
pido demais. O Ver-o-Peso continue. Mas 6 outro.
As rainhas tamb6m sao outras, o concurso mudou
de dono, o cendrio nao tern mais nada a ver e Be-
16m estd ficando essa depressao de calor por entire
a loucura de espigoes de concrete, onde os barges
se aboletam para fugir da selvageria cd de baixo.
E as mangueiras somam cada vez menos. E, no
future, anas, como anao ficard este Estado gigan-
te, na profecia do escritor Haroldo Maranhao.


Chamines sobre rodas
As autoridades do Conselho Regional de Transito estavam nas
ruas de Bel6m, em marqo de 1962, para tirar de circulacio os
6nibus "Maria Fumaca", aqueles com chamin6 para expedir os
maus humores de seus motors descalibrados. Esses, nao iriam
mais cobrar a passage de 10 cruzeiros, que, como de regra,
acabava de ser fixada. Diante das autoridades, por6m, passou esse
brucutu sobre rodas da Viagqo Excelsior. Desdenhando mais uma
vez das ameaqas e confiando na proteqio dos politicos amigos.


yy .
-f --
I. -+
.7- y-~~ SW~~'


Esse era o onibus da 6poca: carroceria de madeira,
fabricada em Bel6m mesmo, colocada sobre chassis de
caminhio. Quem ia atris, na cozinha, tinha visao panoramica
dos funds, mas nada salutar por causa do rolo de fumaga negra
que saia pela chamin6. A linha da Cremaqco, talvez por
inspirag~o no forno cremat6rio que Ihe dera o batismo, era a
mais poluidora. Mas ainda no se usava correntemente essa
palavra na 6poca. Hoje se usa. A palavra e o que ela express.
Tudo muda para tudo continuar igual.


Danga
A sucursal do Pard do Autom6vel
Club de Brasil comunicava ao dis-
tinto quadro social que no dia 4 de
fevereiro realizaria o 1 Concurso de
Cha-Chi-Chi de Beldm. A festa co-
meqaria As 21 horas. A consumaq~o
minima era de 500 cruzeiros.
Ah, sim, para os desavisados:
Chi-Cha-Chi era uma danqa da
moda.
Estrada
Em fevereiro a Atlas iniciou o
transport rodovidrio entire Beldm
e as praqas de Sao Paulo, Rio de
Janeiro e Belo Horizonte. Atrav6s
da Bel6m-Brasilia, o percurso era
coberto entire 8 e 13 dias pelos ca-
minh6es da empresa, que garan-


tia "honestidade, seguranqa e pon-
tualidade". A filial de Bel6m fi-
cava ba rua Gaspar Viana 1056,
fone 1831.

Bic
Al1m dos tradicionais uisques
(White Horse, Black White e
Grant's, que batiam no figado), dos
perfumes (Ramage, Tabu), cosmd-
ticos e cigarros (L & M, Marlbo-
ro), 3.600 canetas esferogrificas
Bic (sim, a prosaica Bic dos nos-
sos dias) foram uma das atracqes
de um dos leil6es que a Guarda
Moria da Alfandega de Bel6m rea-
lizou, em marqo. Tudo arrematado
e levado para as prateleiras das lo-
jas. Coisas do contrabando A para-
ense, instituicao da dpoca.


Jornal Pessoal 1- QUINZENA/JANEIRO DE 2004 11


Sindical
0 Pacto Sindicalformou sua primeira diretoria em
1962, para dar unidade is apoes de todos os
sindicatos paraenses e dos estudantes. Na
presiddncia, o bancdrio (e future livreiro) Raimundo
Jinkings. Vice-presidente, Floriano Barbosa, que era
o president da UAP (Unido Academica Paraense). 0
2" vice-presidente era Arquelau Alcdntara,
"trabalhador na indastria ". 0 3" vice-presidente,
Roberto Cortez, president da UECSP (Unido dos
Estudantes dos Cursos Secunddrios do Pard).
Secretdrio-geral, Sd Pereira, "trabalhador no
petr6leo ". 0 1 secretdrio era o maritime Sebastido
Jaccoud. 0 2, o campones Miguel Branddo.
Tesoureiro geral, o metaldrgico Mdrio Sousa; 1"
tesoureiro, o comercidrio Francisco Lobato; e 2, o
maritime Manoel Felipe. Director de publicidade:
Eliezer Rabelo.
_____








Mineragao


No final do ano passado o desembarga-
dor Hilton Queiroz, do Tribunal Regional
Federal, em Brasilia, indeferiu o pedido de
liminar da Mineragqo Rio do Norte na me-
dida cautelar requerida pela empresa contra
um auto de infraqgo lavrado em Bel6m pela
Receita Federal.
A MRN foi autuada por ter reduzido em
20% o seu capital pr6prio, um ano antes, sem
destacar os recursos recebidos do governor
federal atrav6s de beneficios fiscais e tribu-
tarios com os quais foi favorecida ao im-
plantar a lavra de bauxita najazida do Trom-
betas, em Oriximini (ver, a prop6sito, Jor-
nal Pessoal 301).
A direcao da Rio do Norte reduziu em
118 milh6es de reais seu capital social, que
era entdo de R$ 537 milhoes, por conside-
rar que ele havia se tornado excessiveo".
Mas a Receita Federal achou que o ato,


Semelhanga
Jos6 Sarney iniciou sua
presid8ncia de cinco anos, em
1985, fortalecendo o Progra-
ma Calha Norte, que protege
a fronteira amaz6nica. Lula
parte para o seu segundo ano
com a mesma iniciativa. Dos
7.400 quil6metros de jurisdi-
g9o sobre a divisa national, o
program passari a cobrir 11
mil quil6metros, ou 2,5 mi-
lh6es de quil8metros quadra-
dos, chegando at6 o Maraj6.
Mais um trago aproximan-
do Lula de Sarney, que se tor-
naram amigos de infancia.

Cumplicidade
Sai governor, entra gover-
no e essa imoralidade se man-
t6m: a convocagao extraordi-
naria do legislative para vo-
tar, a toque de caixa, mat6ri-
as maquiavelicamente deixa-
das para a tltima hora. Os
projetos bem que podiam ser
encaminhados ordinariamen-
te e decididos considerando
os interesses superiores do
Estado. Mas a protelagCo tern
via dupla de beneficio: para
o executive, garante a apro-
vagao sem maior questiona-
mento de iniciativas polemi-
cas; para os parlamentares,
assegura um salirio extra
para o period de festas.
Quosque tandem, Z6 da
Silva?


por contrariar normas legais, era indevi-
do, autuando a empresa e multando-a em
R$ 220 milh6es.
Com o indeferimento da liminar, a MRN
decidiu fazer logo o dep6sito legal. Atuali-
zado, o auto de infragdo ji 6 de R$ 316 mi-
lh6es. Mesmo pagando alto, a empresa as-
segura a continuidade da demand judicial
sem se expor as san96es administrativas.
Certamente porque elas seriam bem superi-
ores ao valor do dep6sito.
A prop6sito: a meta da MRN de chegar a
16,3 milhoes de toneladas de bauxita, pre-
vista para 2003, ficard para este ano. No ano
passado a produqao bateu em 14 milh6es de
toneladas, ainda assim record. Problems
operacionais impediram chegar a plena ca-
pacidade da mina, ndo por suas reserves, mas
pelo limited A navegagSo no rio Trombetas,
que chegou A exaustdo de uso.


Rondon
Felizmente a biografia do marechal Rondon esta sendo re-
descoberta. Ele 6 um dos grandes personagens da hist6ria bra-
sileira do s6culo XX e de todos os tempos. Fez a linha telegrd-
fica avangar pelo sertao bravio sem que seu prego tivesse sido
a destruig9o dos habitantes das areas pioneiras que atravessou.
Mas o que diria Candido Mariano Rondon se voltasse ao nos-
so mundo e testemunhasse novas ameaqas feitas A sobreviv8n-
cia dos indios Cinta-Larga, uma das mais dignas tribes dessa
regi~o que Rondon enobreceu com sua agqo?
Com uma das maiores jazidas de diamante dentro de sua
reserve, de 2,7 milhaes de hectares, e com madeira sufici-
ente para sustentar produgAo de 300 mil metros cibicos ao
ano, os Cinta-Larga podem estar sendo condenados a pas-
sar para uma 6poca na qual Rondon 6 apenas uma image
no retrato e como d6i.
Valorizar Rondon sem considerar sua maior obra, a prote-
9ao dos povos indigenas, 6 escurnio A sua memorial.

Recorrencia
Por haver alcangado a idade-limite de 75 anos, d. Pedro
Casaldiliga j devia ter-se aposentado da diocese de Sao F61ix
do Araguaia, que fica mil quil6metros ao norte de Cuiabi, em
Mato Grosso. Mas ficard no posto at6 que chegue seu substitu-
to, indicado pelo Vaticano, provavelmente em meados do ano.
Por isso, ainda no exercicio do bispado, Casaldiliga esti
sendo ameagado de morte por se colocar ao lado dos indios
Xavantes, que tentam manter sua ocupagao na area na qual
devia ter sido implantada a fazenda Suia-Missu, um empre-
endimento agropecudrio grandiloqtente da d6cada de 70, no
qual o mesmo Vaticano foi apontado como tendo participa-
gao acionaria.
Parece at6 que as coisas caminham na Amaz6nia para vol-
tar ao ponto de partida.


Festa
Agrade9o e retribuo aos
cumprimentos de final de
ano, feitos atrav6s de
mensagens escritas, de
Val6ria Pires Franco
(vice-governadora),
Mendes Publicidade,
Haroldo Bezerra
(Cosanpa), Unama,
Gileno Muller Chaves,
almirante Mario Hermes,
"Nato" Azevedo, Correio
do Tocantins/Grafecort,
Institute de Artes do Pari,
Marcos Wilson
(Construtora Norberto
Odebrecht), Amaz6nia
Celular, Lynce
Comunicacao, Alexandre
Santos, Joao Meirelles
Filho, Letrae
Comunicagqo, Marcia
Lasmar, Lutfala Bitar
(Estacon), Gilberta Souto,
Andr6a Pinheiro,
Bethania Meirelles, Jos6
Otivio Figueiredo,
Biratan Porto, Flivia de
Castro e Castro, H61io
Mairata, Jos6 Tostes Neto,
Fabiola Oliveira, Ant6nio
Motta, Marco Aur6lio
Nogueira, deputada Ann
Pontes, Jos6 Marcelino
Monteiro da Costa, Ruth
Rendeiro, deputada
Sandra Batista, FVVP/
MDTX (movimentos
sociais de Altamira),
Armando Avelar, Alberto
Rog6rio, Trajano Oliveira,
Graga Campagnolo,
Anibal Braganqa,
Reginaldo Forti, capita
Vanessa, Jos6 de Souza
Martins, deputado
Zequinha Marinho,
Amazon View, Gis61ia
Filgueiras, Carlos Vogt,
Eduardo Pereira de
Carvalho, Museu Emilio
Goeldi, Joaquim
Passarinho (secretario de
obras do Estado), Joao
Paulo Mendes (Cesupa),
Alvaro Martins, Nelson
Sanjad, Adriano
Gugliemini, Oswaldo
Seva, Tania Mendes, Jos6
Ramos, Adriana
Cavalcante .(Natura),
Fernando Flexa Ribeiro e
Fabiano Coelho (Engeplan).


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