Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00260
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00260

Full Text



1' QUINZENA
DEZEMBRO
DE 2003


ornal


Pessoal


A AGENDA AMAZ(NICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


ANO XVII
N 313
R$ 3,00


I0 16 i0 114

III
"*i* .ilUU IE l U.hI I*'I



9E*0 6 0 *..,N l0
00


^/


SUDAM



Mais um estaleiro


Filhos e noras do ex-governador H6lio Gueiros sao apontados como participants de um
dos projetos irregulares do acervo negative da extinta (e ainda nao renascida) Sudam.
Depois do "caso" da Ebal, 6 a vez do Estaleiro Maguari. Na mesma area, corn a mesma
hist6ria. Captando mais recursos dos incentives fiscais.


O s novos dirigentes da Supe-
rintendencia do Desenevolvi-
mento da Amaz6nia recebe-
rao um enorme e cabeludo in-
ventario de projetos irregulares, sobre o
qual precisardo decidir. A auditagem pro-
cedida no passive do 6rgao exibiu situa-
9qes anomalas, que ainda nao chegaram
ao conhecimento ptiblico porque o assun-
to vem sendo tratado com sigilo e reser-


va, embora a Sudam tenha sido extinta
sumariamente, mais de tres anos atris,
por causa de dendncias de corruppqo e
desvio de dinheiro pliblico para enrique-
cimento ilicito de politicos, funciondrios
e empresarios.
Um desses casos envolve os mesmos
personagens que apareceram durante a
revela~go do "escdndalo Ebal", que ain-
da esti sendo apreciado pelo Tribunal de








Contas da Unido e o Supremo Tribunal
Federal: o desvio de financiamento de 12
milh6es de reais do BNDES (Banco Na-
cional do Desenvolvimento Econ6mico
e Social), concedido A Rodomar (entdo
coordenada pelo atual senador Luiz Oti-
vio Campos) para a construqao de em-
barcacqes pela Ebal (Estaleiros da Bacia
Amaz6nica), mas jamais construidas de
fato (ver Jornal Pessoal 308).
A Ebal se notabilizou, durante o go-
verno H6lio Gueiros (1987-91) por um
rapido crescimento, graqas aos incenti-
vos fiscais da Sudam, que safram rapida-
mente (na gestdo Henry Kayath) a partir
do moment em que dois filhos do go-
vernador entraram para a empresa, at6 ela
se tornar o s6timo maior estaleiro do Bra-
sil (permitindo-se o luxo de patrocinar
as corridas de outro Gueiros, o piloto
Marcos, na F6rmula-3). E encolher de-
pois que o tratamento favorecido e o di-
nheiro facil desapareceram.
Agora, com um enredo tortuoso, re-
pleto de recursos jurfdicos e de tramas
societarias, o grupo devera voltar ao no-
ticidrio, exatamente quando o BNDES,
ajustiga e o Congresso prometem recu-
perar o dinheiro desviado e punir os res-
ponsaveis pelo golpe das 13 balsas fan-
tasmas. O novo enredo comera quando
Maria Inez Klautau de Mendonqa Guei-
ros e Ana Lidia Mau6s Gueiros, que fo-
ram acionistas e membros dos Estalei-
ros da Bacia Amaz6nica (Ebal), se tor-
naram as principals s6cias do Estaleiro
Rio Maguari.
O Maguari submeteu a Sudam pro-
jeto (no valor de 11,4 milh6es de reais)
para a instalaqgo de um parque indus-
trial naval, em Icoaraci. O projeto foi
aprovado pelo Conselho Deliberativo
em novembro de 1999. Ja no m&s se-
guinte a empresa recebeu R$ 1,3 milhao
de incentives fiscais. Em 2000, mais
uma liberaq~o, de R$ 2,2 milh6es, tota-
lizando R$ 3,5 milh6es de recursos da
renincia fiscal do governor federal para
um investimento realizado que, em maio
de 2000, data da iltima fiscalizaqgo, se-
ria de R$ 5,3 milh6es.
Esse projeto era muito semelhante ao
da Ebal, implantado entiree 1987 e 1990)
com incentives fiscais do Finam e que
foi favorecido por financiamento do
BNDES. As diretorias administrativo-fi-
nanceira e operacional do novo estaleiro
seriam ocupadas pelos irmaos Paulo Eri-
co Moraes Gueiros e Andr6 Moraes Guei-
ros, filhos do ex-governador H6lio Guei-
ros, maridos de Inez e Ana Lidia e prin-
cipais acionistas da Ebal.


Mas nao 6 essa a tnica ainda que a
principal ligagao entire as duas empre-
sas. O terreno sobre o qual foi concebido
o projeto do Estaleiro Maguari 6 de pro-
priedade da Ebal. O projeto da constru-
qao civil do Maguari foi elaborado (e par-
cialmente executado) pela Construtora
Paraense de Estruturas Metilicas (Co-
pem). A Copem pertence ao mesmo gru-
po controlador da Construamec (Cons-
truo Agricola Mecanizada), ambas as em-
presas beneficiadas com incentives fis-
cais da Sudam, instaladas no mesmo ter-
reno e de propriedade dos diretores/aci-
onistas do Estaleiro Rio Maguari.
Apesar desse total envolvimento, a
Construamec, que esta em situaqco irre-
gular perante a Sudam (deixou de apre-
sentar a documentaqgo contdbil nas duas
iltimas fiscalizagces da superintenden-
cia, em 1998 e 1999, ficando sujeita ao
cancelamento do seu projeto), moveu
aco contra a Ebal. Conseguiu, pela via
judicial, se apossar das instalaq6es indus-
triais do estaleiro, quando entao transfe-
riu suas cotas no capital da controladora
para as acionistas principals no Estaleiro
Rio Maguari.
O patrim6nio da Ebal compreendia
quatro terrenos, com area total de 230
mil metros quadrados, em Icoaraci. Dois
desses terrenos foram usados no proje-
to original, que a Ebal conseguiu apro-
var na Sudam, em 1985 (mas que s6
comeqou a receber dinheiro dois anos
depois). O terceiro serviu para a ampli-
aqdo do empreendimento, em 1987, que
foi implantado em 1990, com incenti-
vos fiscais liberados no valor equivalen-
te a 670 mil Ufir (ji extinta) O quarto
terreno foi cedido para a empresa con-
troladora para nele ser executado o pro-
jeto do Estaleiro Maguari.
Apesar dessa situa~qo, os donos da
Ebal informaram aos t6cnicos da Sudam,
na iltima fiscalizaqio que fizeram na
empresa, emjunho de 1998 (cujo relat6-
rio s6 foi protocolado em fevereiro de
2000, 20 meses depois da sua conclusdo),
que, por causa da paralisacio das ativi-
dades da Ebal, suas instalaq6es tinham
sido arrendadas a SS Engenharia, Proje-
tos e Consultoria e a SS Administracqo e
Servigos (de propriedade, em parties
iguais, de Maria Inez e Ana Lidia Guei-
ros). Nada disseram sobre a aq~o da
Construamec, que lhe havia transferido
a posse dessas mesmas instalaqces, inte-
grando-as ao seu patrim6nio.
A acqo de execuqdo da Construamec
contra a Ebal foi proposta perante a 2a
vara da comarca de Ananindeua emju-


nho de 1996. A Construamec cobrava
uma divida de 700 mil reais, contraida
pela Ebal em janeiro de 1995 e venci-
da no final desse mesmo ano, confor-
me um contrato de mituo assinado por
Mauro Ant6nio Soares Nassar directorr
da Construamec) e Paulo e Andre Guei-
ros, director da Ebal. O valor, atualiza-
do do d6bito, em abril de 1996, inclu-
indo todos os encargos, ji ultrapassava
R$ 1,6 milhao.
Em garantia, Paulo Gueiros, como
advogado (al6m de director) da Ebal, ofe-
receu A penhora o terreno-sede e todas as
benfeitorias da empresa, bens que ji es-
tavam hipotecados ao Banco Econ6mi-
co. No entanto, no process consta ape-
nas um dos terrenos da Ebal, o que foi
cedido para a implantadio do projeto do
Estaleiro Maguari, onde estao as benfei-
torias da Ebal, realizadas com financia-
mento da Sudam.
Dois meses depois de ter iniciado a
execuqco da Ebal pela divida de R$ 1,6
milhao (sendo um milhao de reais s6 da
atualizaqco do valor da transaqIo), a
Construamec comprou o cr6dito hipote-
cario do Banco Econ6mico cor a Ebal,
no valor de R$ 218 mil, que tinha como
garantia o quarto terreno, de 120 mil me-
tros c6bicos. Esse terreno, no qual o pe-
rito judicial encontrou instaladas as ben-
feitorias da Ebal, foi avaliado, em janei-
ro de 1997, em R$ 2 milh6es, no proces-
so de execugao.
Seis meses depois, a advogada da
Construamec, Kelma de Oliveira Reuter,
props um acordo para o encerramento
da acao. A divida ja era de quase R$ 4,5
milhoes, valor que computava a atuali-
zaqio do d6bito, o cr6dito adquirido do
Banco Econ6mico e R$ 2,4 milh6es re-
ferentes aos "empr6stimos feitos ap6s o
inicio da cobranca judicial", de 1996 a
1997. A advogada props quitar essa di-
vida pelos bens penhorados, que haviam
sido avaliados em R$ 2 milh6es (menos
da metade do total do d6bito). A aaio foi
julgada e declarada extinta pela juiza
auxiliar da 2a vara de Ananindeua, Lua-
na Santalices, que expediu a carta de sen-
tenqa em outubro de 1970. A aqgo havia
durado menos de um ano e meio.
O problema 6 que a auditoria da in-
ventarianca da Sudam verificou uma "in-
coerencia": o terreno de 120 mil metros
quadrados, descrito no registro cartorial
e no laudo de avaliai5o do perito judici-
al, era onde estava sendo implantado o
projeto do Estaleiro Rio Maguari, "toda-
via as benfeitorias ndo se encontram neste
terreno e sim, nos outros terrenos do Es-


2 11 QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 .Jornal Pessoal








taleiros Bacia Amaz6nica S. A.", diz o
relat6rio da inventarianqa.
Ou seja: a Maguari estava instalando
seu projeto no terreno vago, contiguo ao
da Ebal, que devia estar arrendado A SS
Administraqio e Serviqos, atuando no
mesmo ramo de atividade, sob o coman-
do dos mesmos acionistas/diretores. E
mais: ao reavaliar seu ativo, para efeito
de contraprestacqo aos recursos dos in-
centivos fiscais do projeto (apresentado
em 1989 e enquadrado em 1993, com
orqamento de R$ 9,3 milh6es, 50% de
incentives fiscais), a controladora da
Construamec englobou no seu patrim6-
nio todas as instalaq6es da Ebal (que se
encontram em outro terreno), com area
de 395 mil metros quadrados.
A controladora SS Administraqio e
Serviqos foi criada em 1997 por Eug6-
nio Aboud Mau6s (mesmo sobrenome
de solteira de Ana Lidia Mau6s Guei-
ros) e A61cio de Jesus Monteiro dos
Santos, que pouco antes havia deixado
a Ebal, da qual era funciondrio, mas
continuando a prestar serviqos ao Es-
taleiro Maguari. Em 1999 os dois s6ci-
os transferiram o control da empresa
para a Maguari Com6rcio e Participa-
q6es, que, por sua vez, transferiu uma
cota para Ana Lidia Gueiros. A Maguari
Com6rcio e Participaqces, constitufda
em dezembro de 1998, tamb6m perten-
ce em parties iguais a Maria Inez e Ana
Lidia Gueiros.
Por que mais esse malabarismo soci-
etirio? Segundo os auditors da Sudam,
os indicios sao de que o artificio pode ter
sido utilizado "para ocultar a participa-
qao dos acionistas/diretores da Ebal na
solicitao de incentives perante a Su-
dam". Mais uma solicitaqao, alias.
Antes que as senhoras Gueiros as-
sumissem mais essa sociedade, em ou-
tubro de 1998 a SS Administraqio e
Serviqos incorporou ao seu capital so-
cial os 120 mil metros cdbicos do ter-
reno no qual se localizava, pelo valor
de R$ 2 milhoes, im6vel que antes per-
tencia a Ebal, tornou-se objeto da pe-
nhora de 1996, passou para a Costrua-
mec e, em junho de 1999, acabou no
patrimonio do Estaleiro Maguari, em-
bora, nos autos da penhora, no terreno
nao tenham sido encontradas quaisquer
benfeitorias (mas que mesmo assim
possibilitou uma reavaliaqdo patrimo-
nial como se elas existissem).
Foi essa reavaliacqo que fez a Sudam
considerar, em fevereiro de 1999, como
patrim6nio liquido da SS, controladora
do projeto do estaleiro da Construamec,


R$ 7,3 milh6es, dos quais R$ 4,8 mi-
lh6es como reserve de reavaliaqio (e R$
2,5 milh6es de capital social). Os audi-
tores da Sudam verificaram que a rea-
valiaqco foi indevida, ji que a Constru-
amec tinha transferido para a SS apenas
um terreno vazio, de 120 mil m2, e nao
instalaq6es industrials.
Observaram tamb6m os auditors
que Maria Inez Gueiros, s6cia da Ma-
guari Com6rcio e Participaq6es, havia
apresentado, em dezembro de 1998,
"bens e direitos no valor de R$
292.6000,00, conforme c6pia de sua
declaraqdo de ajuste annual entregue A
SRF [Secretaria da Receita Federal],
situacqo conflitante com a posse de uma
empresa que segundo os demonstrativos
contibeis possui patrim6nio liquid de
R$ 7.239.221,46".
Tamb6m conflitante seria, "em prin-
cipio, de acordo com levantamentos re-
alizados", a posicqo de Maria Inez Guei-
ros, enquanto president do Conselho de
Administraqco do Estaleiro Rio Maguari
e diretora da SS Administragao e Servi-
cos e da Maguari Com6rcio e Participa-
q6es, e ocupante do cargo de procura-
dora do Minist6rio Piblico junto ao Tri-
bunal de Contas dos Municipios do Es-
tado do Pard. A constituiqCo federal veda
aos membros do MP "participar de so-
ciedade commercial, na forma da lei" (ar-
tigo 128, parigrafo 5, inciso II, alinea
e). Essa vedaqdo tamb6m existed no re-
gime juridico do servidor piblico para-
ense (artigo 178 da lei 5.810, de 1994).
Os auditors constaram ainda outra
irregularidade: embora o parecer da Su-
dam que aprovou a carta-consulta da
empresa tenha assegurado que nenhum
dos s6cios do capital votante teve carta
consult e/ou projetos ji submetidos a
Sudam, o relat6rio de fiscalizaaio 152/
98 juntou declaraqdo de renda de pes-
soa juridica, referente a 1997, no qual
Maria Inez e Ana Lidia aparecem como
s6cias da Ebal. Os nomes delas tamb6m
aparecem como acionistas nas atas das
assembl6ias da Ebal.
O relat6rio de auditagem aponta vi-
rias falhas no processamento e aprecia-
9ao do projeto pela Sudam e na fiscali-
zacqo da sua execuqao, que podem ter
proporcionado desvio de recursos pibli-
cos, sobretudo na relaq~o cor emprei-
teiros e fornecedores da obra. Por isso,
conclui que as invers6es fisicas existen-
tes no estaleiro "nao guardam compati-
bilidade com os recursos pr6prios inte-
gralizados ao projeto, bem como os re-
cebidos do Finam e ji aplicados".


Resta saber, agora, como a Sudam, se
ressuscitar, dard andamento aos resulta-
dos de muitos meses de trabalho irduo
para identificar as causes de sua morte
sdbita, a corrupqFo, a inciria, o deslei-
xo, o trifico de influencia. Talvez, se bem
combatidos, esses males nao retornem
junto cor um fantasma.



Jornal
Merece louvor o Didrio do
Pard pela decisdo de publicar
integralmente noticidrio de
agencia national sobre a
dentncia feita contra o dono
da empresa, deputado federal
Jader Barbalho, pelo
procurador geral da
Repiblica, Cliudio Fonteles.
Jader foi denunciado ao
Supremo Tribunal Federal por
suposto crime de peculato:
quando ministry da reform
agraria, em 1988, teria
aprovado desapropriacqo de
im6vel rural (a Vila
Amaz6nia, em Parintins) por
valor excessive.
O advogado do ex-
ministro, o paraense Alfredo
Sade (hi muito tempo
estabelecido em Brasflia),
alega que o valor venal das
terras desapropriadas por
Jader (a 250 reais o hectare) 6
bem inferior ao que foi
estabelecido, atrav6s de
pericia judicial, em outro
process (este, de
desapropriaq~o indireta), que
tramita pela mesma vara
federal (de R$ 342 o hectare),
sobre o mesmo im6vel.
As raz6es das parties serdo
ainda devidamente apreciadas
pelo STF, em mais um
process contra o ex-
governador, mas deve-se
aplaudir a postura editorial do
Didrio (nio seguida pelo seu
concorrente, O Liberal, que
nada public de desagrado
dos Maiorana). Essa elogiivel
diretriz result de uma
reflexio jornalistica correta
ou talvez se deva a fragilidade
da dendncia. Mas, se mantida
a partir de agora, representard
um divisor de aguas.


Journal Pessoal 1- QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 ~









Funtelpagate:


tramital&o segue,


lenta, na justice

No dia 11 de fevereiro do pr6ximo ano haveri uma
nova audiencia de conciliaqao na 21" vara civel de Belmrn
entire as parties na agqo popular proposta, em 1997, con-
tra um conv6nio assinado entire a TV Liberal e a Funda-
9ao de Telecomunicaq6es do Pard (Funtelpa), para a re-
transmissao da programa9~o da afiliada da Rede Globo
pelo interior do Estado. A primeira tentative, marcada para
22 de setembro, nao deu certo porque a juiza Rosileide
Cunha Filomeno, doente, nao p6de comparecer A audi8n-
cia, por ela mesma convocada.
Mas ji se sabe e nao 6 de agora: nao haveri concili-
a9ao. Em julho de 2000 o promoter de justiqa Nl6io Cae-
tano Silva observava que o process, agora dividido em
quatro grossos volumes, "esti pronto para o julgamento
de m6rito, haja vista as provas materials necessirias ji
terem sido produzidas".
De fato, embora ainda nao se tenha realizado sequer a
audiencia inaugural, que se tornou mera exigencia for-
mal, todos os elements para a apreciag~o da questao ji
se encontram nos autos. Nem por isso 6 certo que logo
haveri julgamento. A aqao popular foi proposta em de-
zembro de 1997 pelo deputado federal (do PFL) Vic Pi-
res Franco Neto, naquela 6poca rompido tanto com o go-
verno do Estado quanto com o grupo Liberal. Vic pedia
logo uma liminar para sustar o convenio at6 a apreciaCgo
de mrrito, mas o entdo juiz (e hoje desembargador) R6-
mulo Nunes preferiu primeiro instruir o process.
Dois anos depois, alegando "motivo de foro intimo",
Vic (ji recomposto com os dois alvos de sua ag~o) de-
sistiu da iniciativa, mas o soci6logo Domingos Concei-
q~o se habilitou e foi admitido no process, que prosse-
guiu, tramitando lenta e acidentadamente na 21a vara.
Enquanto o m6rito nao 6 apreciado, quase 23 milh6es
de reais ji safram do erdrio para os cofres da TV Liberal
por conta dessa estranha relaqao (ver, a prop6sito, Jor-
nal Pessoal 299).
A TV da famflia Maiorana usa o sistema de transmission
da Funtelpa desde 1977. Durante 20 anos, por6m, havia
alguma aparencia de regularidade na transaqao: as parties
assinaram quatro sucessivos contratos, cor quatro adita-
mentos contratuais, e a TV Liberal era quem fazia paga-
mentos, ainda que simb6licos, para desfrutar da estrutura
da Funtelpa. Mas em 1997, sob o imp6rio do m6dico Al-
mir Gabriel, as coisas se deterioraram completamente.
Um convenio passou a constituir a relaqao adminis-
trativa entire a fundaqgo p6blica e a empresa privada. Ao
inv6s de pagar para transmitir suas imagens atrav6s das
torres da Funtelpa espalhadas pelo Pard, a TV Liberal
passou a receber dinheiro, inicialmente no valor de 200
mil reais por mes (agora, corn os reajustes, R$ 300 mil
mensais).
Essas e virias outras cliusulas levaram Amarildo Guer-
ra, analista de control externo do Tribunal de Contas do
Estado, a denunciar o convenio, mas o process nao teve
andamento porque o TCE, considerando a questio estar
sub judice, preferiu aguardar o pronunciamento da justi-
9a. Aguarda at6 hoje.


Patrimonio santareno


Depois de ter sofrido os
efeitos mal6ficos da saga
dos garimpos de ouro, San-
tar6m comeqa a apresentar
chagas em conseqiiencia do
boom da soja. Antigos lavra-
dores, que estdo vendendo
suas terras aos pioneiros da
soja, comegam a se acumu-
lar na periferia da cidade,
inchando-a e agravando
muitos dos seus atuais pro-
blemas. Um deles, que sus-
citou uma mensagem do
pesquisador William Ove-
ral, 6 a preservagqo do que
resta do seu patrim6nio ar-
quitet6nico e hist6rico.
O centro antigo de San-
tar6m esti em ripido proces-
so de destruiqoo e descarac-
terizaCqo. Logo, se nada for
feito, a feiqao urbana de
maior duraqCo da cidade
tera desaparecido por com-
pleto. Preocupado com o
tema, Overal sugeriu ao go-
verno do Estado que trans-
formasse uma das edifica-
q6es mais valiosas, o solar
do barao de Santar6m, em
espaqo cultural e museu re-
gional. At6 agora a propos-
ta nao foi respondida.
Construfdo na primeira
metade do s6culo XIX para
ser a residencia da familiar de
Miguel Antonio Pinto Gui-
maraes, o barao de Santa-
r6m, o pr6dio se transfor-
mou em estabelecimento co-
mercial, de propriedade de
Joaquim da Costa Pereira, e
atualmente esti fechado. Ao
long de mais de um s6culo
e meio de uso, mant6m-se
integro, em seus tres anda-
res, com fachada azulejada
e porte imponente. De mai-


Publicag6es


or valor, no centro da cida-
de, s6 a igreja de Nossa Se-
nhora da Conceiqao, padro-
eira municipal, mas seria-
mente modificada.
Overal se interessou
pela sorte do pr6dio ao sa-
ber que Joaquim Pereira,
dono da TV e RAdio Tapa-
j6s, recentemente recebeu -
e, felizmente, recusou -
uma oferta de compra do
solar, no valor de 1,2 milhao
de reais, feita por um lojis-
ta que queria demolir o pr6-
dio para uma construgqo co-
mercial nova de quarto an-
dares. Responsivel pela
preservaqio do edificio em
sua forma original (algo ra-
rfssimo em Santar6m), o
comerciante teria preferido
dar um uso mais nobre ao
patrim6nio.
Daf a sugestio de Ove-
ral de utilizaqao do pr6dio
como centro cultural e mu-
seu regional, sob a coorde-
nadio do Sistema Integra-
do dos Museus do Estado
do Pard e do Museu Para-
ense Emilio Goeldi, do qual
o pesquisador faz parte.
Alm de abrigar exposiqoes
sobre a hist6ria de Santar6m
e a hist6ria natural e cultu-
ral da regido, como sugere
o biologo, acho que esse
museu deveria se especi-
alizar no formidivel legado
dos indios Tapaj6, o primei-
ro grupamento human da
area, completamente exter-
minados no s6culo XVIII,
mas personagens da mais
rica cultural primitive da
Amaz6nia.
Cor a palavra, quem de
direito, ou de sensibilidade.


0 Comunicado, publicapqo internal da Unama, tem o do-
bro da vida da Universidade da Amazonia, que completou
10 anos em outubro. E uma publicaqio de periodicidade
invejivel, com mais de 1.200 edi96es em 20 anos. Atesta
uma elogiavel preocupaqao da instituiqao com a divulga-
9qo de informag6es e o debate de id6ias. Preocupaqao que,
a meu ver, atinge seu melhor moment com a revista Asas
da Palavra, do curso de letras. Fica entire as melhores do
pais no genero. Motivo de orgulho para os que a fazem. E
para os que a l1em.
Parab6ns aos tenazes editors dessas publicaqdes.


1a QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 -Jornal Pessoal










A polemica do porto



e suas circunstancias


A id6ia de um superporto no local
mais avangado do litoral paraense, na
ponta da Romana (e nao mais, conforme
a dltima versdo, na ponta da Tijoca) dei-
xou de ser uma id6ia para se transformar
num projeto. Ja ha proposta de emenda
no Congress para assegurar a primeira
verba, de 20 milh6es de reais, para inici-
ar a obra. Ela foi incluida na programa-
qio da Companhia das Docas do Pard e
jd 6 causa nobre no municipio de Curu-
qi, reforqada pela pregaqgo de um grupo
de defensores da tese.
Debat&-la 6 legftimo e produtivo.
Parte-se do pressuposto de que hi um
canal de navegacqo estivel e sufici-
entemente profundo para permitir a
passage de navios graneleiros de at6
400 mil toneladas; que esse canal esta
a uma distancia viavel (dois quil6me-
tros) de uma ilha, a dos Guaris, para a
instalagqo de um porto off-shore; que a
ligaqgo desse porto a ilha e, atrav6s de
tries pontes, ao continent, al6m de
igualmente viavel, nio ird acarretar
grande impact ecol6gico. O custo da
obra estaria gravitando em torno de 600
milh6es de reais (tr8s vezes a Alga Vi-
aria, outro element do sistema vidrio
e de transport da regido).
Vamos admitir como vdlidas essas
premissas, embora elas ainda estejam
sujeitas a consolidaqco t6cnica em deta-
lhes. O pass seguinte 6 saber para que
ird servir esse grande porto em aguas pro-
fundas. Os defensores da id6ia respon-
dem: sera uma nova via de escoamento e
embarque para a produCgo mineral de
Carajas e de outras minas do Estado.
Para chegar ao novo terminal, qual-
quer carga vinda do sul do Pari terd que
transport a barrage da hidrel6trica de
Tucuruf, no rio Tocantins, se quiser usar
a forma mais barata de transport, ou fo-
mentar a construgqo de uma nova via, a
ferrovi.ria, com um ramal a partir da
Norte-Sul. Concluir o sistema de trans-
posiqdo de Tucuruf seria a soluq9o mais
rapida e barata, embora exija, na melhor
das hip6teses, pelo menos 300 milh6es
de reais de investimento. Mas tanto as
eclusas quanto o ramal Imperatriz-Bel6m
da Norte-Sul nio sho prioridades da po-
litica national de transportes. Sem uma
drastica mudanqa de estrat6gia, os defen-
sores do superporto paraense podem es-
tar contando com o pinto antes de a gali-
nha botar o ovo.


Continuemos, por6m, a racionar oti-
misticamente, a partir da construcqo de
uma das duas obras. A pergunta seguinte
6: a Companhia Vale do Rio Doce tera
interesse no novo terminal para escoar
sua produqho de min6rios? No quadro
atual e nas perspectives factiveis, o por-
to de Curuqd s6 ter~ sentido se puder aten-
der pelo menos uma parte do que sair de
Carajas. Por enquanto, todo o min6rio
segue por ferrovia para o porto da Ponta
da Madeira, um dos melhores do mun-
do. Ferrovia e porto sdo de propriedade
da CVRD, ao menos enquanto ela des-
frutar da concessio federal, com valida-
de de 50 anos, renovivel. Ambas as in-
fraestruturas estdo amortizadas. Operam
ha quase 20 anos, em escala crescente.
Esses n6meros oferecem forte suges-
t~o de que dificilmente a Vale teri inte-
resse em deslocar a carga de um sistema
logistico que esta sob seu inteiro contro-
le. Em primeiro lugar, porque a opera-
gqo atual provavelmente Ihe 6 mais lu-
crativa do que a cogitada. Em segundo
lugar, pela combinaqio do custo menor
com domfnio total do sistema, desde a
mina at6 o porto, que nao se repetiria, seja
na hidrovia como na ferrovia Norte-Sul,
operada por uma empresa estatal, a Va-
lec (criada pela pr6pria Vale). Exceto,
talvez, se a Norte-Sul (idealizada nos la-
borat6rios da Vale para a integraqco das
suas duas plataformas horizontais de ex-
portacqo, do sertao para o litoral, que
mant6m nos sistemas Sul e Norte) vier a
ser privatizada e conectada a Ferrovia
Centro-Atlantica.
Mas, por enquanto, nao procede uma
informaqao que tem sido divulgada pe-
los idealizadores do porto no litoral pa-
raense: que Ponta da Madeira esta satu-
rada ou em vias de saturaqgo. O porto
maranhense, que funciona ao lado do ter-
minal pdblico de Itaqui, para carga ge-
ral, foi recentemente ampliado para 70
milh6es de toneladas, equivalent ao vo-
lume de carga que lhe sera destinada nos
pr6ximos anos. Em m6dio prazo, Cara-
jis devera chegar a 100 milh6es de tone-
ladas, mas Ponta da Madeira tem condi-
q6es de crescer para esse volume. Logo,
no horizonte visualizavel, nao apresenta
essa possibilidade de esgotamento.
Claro que a CVRD gostaria de contar
com uma alterativa de transport. Di-
ante das invejaveis condiq6es de que des-
fruta, entretanto, s6 ird se interessar por


essa nova via se ela lhe for mais vantajo-
sa do que sua atual estrutura logistica.
Nesse caso, cabe indagar se tal alternati-
va se enquadrard nos interesses do Para.
Ele teria condic6es de montar todo um
aparato logistico capaz de competir com
a Estrada de Ferro Carajas e o porto da
Ponta da Madeira?
Ao que tenho lido, estas quest6es es-
tdo fora do projeto do superporto ou tnm
sido tocadas apenas lateralmente. No en-
tanto, elas sao a essencia das possibili-
dades de exeqiibilidade do projeto.
Esses sho os components de future
da tese. Mas ela exige questionamento
quando trata do passado, consideran-
do-se uma revisHo corrigida e atualiza-
da do que aconteceu na trajet6ria do
projeto de escoamento da produqho
mineral de Carajas.
Dizem os revisionistas do moment
que as exportaq6es de min6rio de ferro
para o Japdo, responsaveis pela viabili-
zaqgo de Carajas depois da said da Uni-
ted States Steel, em 1977, poderiam ter
sido realizadas pelo litoral paraense,
como agora pretended fazer, se a CVRJ
e seus parceiros nao tivessem sonegado
informaq6es t6cnicas ji entao disponi-
veis, como um relat6rio confidencial do
Geipot (que o journal O Liberal, em re-
portagem recent, julgou ter divulgado
pela primeira vez). Assim, a decisdo de
transportar o min6rio por ferrovia at6 o
Maranhdo teria sido political e nao estri-
tamente t6cnica porque era entho (e con-
tinuaria a ser atualmente) viavel econo-
micamente fazer esse escoamento por
uma ferrovia (40% menor) ou por uma
hidrovia at6 a costa do Para.
Vamos especular juntamente com os
autores dessa revisao, aceitando seus
pressupostos. Por que a Vale optaria por
um projeto mais caro? S6 se tivesse sido
corrupqco, claro. Ningu6m a denunciou
ainda, nem o portentoso O Liberal. Se
corrupt o houve, ela esta a espera de ser
descoberta.
Mas digamos que foi isso mesmo. No
entanto, a Vale reduziu o custo de Cara-
jis de mais de 4 bilh6es de d6lares, con-
forme o orqamento inicial, para US$ 3,1
bilh6es, incluindo a ferrovia, que foi a
obra mais cara do conjunto, mas nio che-
gou sozinha a esse valor, como disse o
journal. Ora, a Vale estava numa dispute
de vida e morte com os futures competi-
dores australianos. S6 os australianos
CONTINUANAPAGINAB


Journal Pessoal 1a QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003







CONTINUACAO DA PAGINA 6
evendiam min6rio ao Japlo na 6poca.
Foi uma verdadeira guerra desloci-los
do mercado. Nesse context, a Vale
escolheria a solulio mais cara de
transport? Deixaria de lado aquela que,
al6m de mais barata, Ihe daria acesso a
um porto em aguas mais profundas do
que o da Ponta da Madeira?
O que se questionava 6 que essa era
uma solugdo colonialista, com efeito
concentrado, nao irradiador de
desenvolvimento. Mas na 6tica da Vale,
era a melhor opqdo: mina ligada a porto
por uma ferrovia, tudo privado, tudo
funcionando sem interfer6ncia de
terceiros ou do governor, ao custo mais
barato, sem se submeter a
democratizacqo hidrovidria e sem o
custo maior (e mais complicacqes) num
sistema de transport cujo finico atrativo
era ter uma ferrovia menor, como
realmente seria CarajAs-Ponta da Tijoca,
Todas as hip6teses t6cnicas e suas
circunstancias econ6micas e comerciais
foram detalhadamente examinadas, em
dezenas de milhares de pAginas da Vale e
dos seus critics ao long de sete anos de
f6rtil debate, conflituoso, mas
esclarecedor, at6 a Vale impor a solugao
ferrovia-porto maranhense. Uma
revisao para valer desse acervo teria que
passd-lo em profunda revisao critical, ao
inv6s de servir como massa de manobra
na guerra OLiberal-CVRD.


Embaralhada
0 PT saird cor uma chapa
fechada para disputar a prefeitura de
Bel6m? Ha petistas defendendo essa
posicqo: candidates s6 do partido
para prefeito e vice. Mas 6 uma
posiqAo minoritiria. A maioria quer
uma composi~go. Se ela for feita cor
o PL, por exemplo, o vice poderia ser
o empresario Ronaldo Maiorana, um
dos donos do grupo Liberal?
A hip6tese 6 encarada cor
ceticismo, mas vem inflando a
boataria na cidade. Resta saber se por
seu conteudo de realidade ou por
algum jogo mais sutil e malicioso
manobrado nos bastidores. Se o
acerto fosse feito, para a eleiqgo
municipal de 2004 os dois grandes
grupos de comunicaqgo da terra, o
Liberal e o do Didrio do Pard se
apresentariam com os papeis
trocados: os Maiorana ao lado do PT
e os Barbalho com os tucanos (ainda
que essa bicada possa vir a excluir os
bicos de maior envergadura, como o
deAlmir Gabriel).
Como sempre, tudo mudando
para tudo ficar como estd.


AI-5: monstro



faz 35 anos


O maior monstrengo da vida pdblica
brasileira, para minha geraqao, esti com-
pletando 35 anos: 6 o Ato Institucional
nimero 5, editado em 13 de dezembro
de 1968. Serviu ele como um abre-te-s6-
samo para s6taos e pores do regime
military, onde se confinava o que havia de
pior naqueles anos de chumbo, os "sin-
ceros, mas radicals", na frase dos chefes
militares, que tentaram agir como ames-
tradores de feras. O AI-5 acabou com a
jovialidade, o humor, a leveza, o saber-
viver, a esperanqa e as utopias de gera-
qGes que descobriram a vida pdblica ao
long do mais extenso perfodo de demo-
cracia no Brasil, entire 1946 e 1968.
O Brasil voltou a mergulhar no con-
finamento da selvageria, que tem sido sua
marca mais forte, apesar das lendas urdi-
das sobre o homem cordial". Entre os
extremes da tristeza (via Paulo Prado) e
da alegria (S6rgio Buarque de Holanda),
os brasileiros tmr sido obrigados a se
submeter a tirania da sua elite e ao man-
donismo de seus governantes. Sobrevi-
ve porque, acima de tudo, triste ou ale-
gre, 6 um forte (Euclides da Cunha).
Minha geraao insistird no ajuste de
contas com essa criatura nauseabunda at6
o fim dos seus dias. Jamais o AI-5 conse-
guird reparar o mal que fez a milh6es de
brasileiros ao long dos seus terrfveis anos
de vig6ncia. Brasileiros que nao acredita-
vam na luta armada contra a ditadura, que
nao tinham filiaqdo politico-partidaria, nao
integravam o espetro ideol6gico das alas
radicals da esquerda, nao apresentavam
qualquer militincia, e, por isso, nao podi-
am ser caracterizados como inimigos do
"sistema", foram atingidos pelo bravo ar-
mado do governor military, foram testemu-
nhas do exterminio de pessoas que, mes-
mo tendo feito opq6es consideradas erra-
das, agiam com sinceridade, visavam a
seu modo o bem do seu pafs, e puderam
conviver com uma engrenagem de arbi-
trio em desvario repressive, o Behemoth
de mdos dadas cor o Leviatd.
No alvorecer dessa era de trevas
(como diria Franz Kafka, se tivesse sido
um brasileiro nesses dias), um represen-
tante do Pard na political national, dos
raros que conseguiram projegqo al6m dos
limits da provincia, cunhou a frase que
expressou e legitimou a viol8ncia esta-
tal. Para tornar-se um dos subscritores do
AI-5, o entdo ministry Jarbas Passarinho
decidiu lanqar as favas os escr6pulos da


consciencia. Frasista em6rito, Passarinho
pagou (e continuard a pagar) por essa
boutade infeliz, macabra.
Podia-se argumentar, em favor do ex-
senador, que sua frase, dita no calor da
hora, express mais o moment infeliz
do que a personalidade de quem produ-
ziu essas palavras. Tudo bem. Tinta e cin-
co anos depois, por6m, o ex-governador
escreve agora, na reclusio de um retire
dourado, artigo tao ou mais infeliz do que
a frase, ji sem a cobertura da tensio que
os idos de 1968 poderiam representar.
O artigo de Passarinho 6 sobre a tortu-
ra como instrument para a obtenqao de
confiss6es por agents do Estado, "um
desses pontos em que jamais as opini6es
coincidirio. Os que a sofreram nunca a
esquecerao. Os que a aplicaram argumen-
tar~o sempre que sem ela jamais conse-
guiriam desmantelar as redes revolucio-
narias". Numa rApida rememoraqgo his-
t6rica, o ex-ministro alega que todos os
regimes e povos, em todos os moments,
a praticaram. "Nada obstante ser uma cru-
eldade, desgraqadamente, pois, a tortura
nao 6 pr6pria de um regime politico, de
uma regido geogrifica ou de uma cultural
inferior", diz Passarinho. Cor raz5o. As
pessoas decentes, que confiam na demo-
cracia e a consideram a mais desejivel
forma de organizaqio political das socie-
dades humans, entretanto, sempre se co-
locaram contra a tortura, de todas as natu-
rezas, ainda que cor o maisjusto dos pro-
p6sitos (como as fases de terror de todas
as revoluq6es). Tornaram-se vitimas de
tortura por sustentar essa posiqgo.
Se Passarinho tem suas razoes para
critical as interpretaq6es utilitaristas e
capciosas a partir da exist6ncia do terro-
rismo de Estado, que acabaram por de-
formar o moment da reparagqo das vio-
l8ncias (como aqui ji se disse), nao ha
d6vida de que os agents do aparelho
estatal precisam ter sua liberdade de mo-
vimento restringida pelo respeito ao pri-
sioneiro, ao cativo, ao dependent.
Confiss6es podem ser obtidas e infor-
macaes coletadas sem que a integridade
fisica do antagonista seja violada, ainda
mais quando ele esti inteiramente sujeito
ao arbitrio da autoridade pdblica. Esse
modo de proceder consolida o Estado de-
mocritico, exorcizando seus impetos to-
talitirios. O artigo de Passarinho, hoje,
como seu artigo, hoje, nao contribuem
para essa evoluqao. Muito pelo contrario.


1A QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 .Jornal Pessoal










E o judiciArio:



onde e que fica?


A desembargadora Maria do C6u
Cabral Duarte ajuizou duas aq6es con-
tra mim no foro de Bel6m. Declarou-
se ofendida pelo conteido de dois arti-
gos do Jornal Pessoal, publicados em
ediq9es de junho e julho do ano passa-
do, relatando decis6es tomadas pela
magistrada em processes relacionados
A grilagem de terras do Xingu pela
Construtora C. R. Almeida. Pediu meu
enquadramento na tristemente conhe-
cida "lei de imprensa", de 1967, pelo
crime de difamagao.
A primeira das denincias feitas pelo
Minist6rio Piblico do Estado, acionado
por representaqio da desembargadora,
se sustenta em uma tinica alegaqao: de
que o delito de difamagao ter-se-ia ma-
terializado "no moment em que o jor-
nalista coloca em dtvida ironicamente
a attitude da Desembargadora, que des-
pachara decisao 'por equivoco'". A re-
presentante do MP entendeu como cla-
ramente evidenciado meu animo de di-
famar porque eu teria afirmado no arti-
go, "em tom ir6nico, que a mesma [a
desembargadora] estaria interessada em
beneficiary parte nos autos do Agravo de
instrument subordinados a [sem crase
no original] sua analise [sem acento]".
O trecho criminoso do meu artigo se-
ria este: "Talvez porque os pap6is te-
nham sido deixados, por equivoco', de-
baixo da (ou sob a) mesa da desembar-
gadora Maria do C6u)".
Os pap6is a que o artigo se refere
continham c6pia de um agravo de ins-
trumento remetido de Altamira, direta-
mente, para a desembargadora Maria do
C6u, atrav6s de fax. Os advogados da
Incenxil, empresa-satdlite da C. R. Al-
meida, queriam derrubar decisao daju-
iza de Altamira, que contrariava seus
interesses. O document chegou ao ga-
binete da desembargadora, em Bel6m,
no meio da tarde. Na manha do dia se-
guinte ela despachou para Altamira uma
decisao que redigira, em quatro laudas
(em papel sem timbre algum), acolhen-
do o recurso da Incenxil e exigindo o
imediato cumprimento da sentenga. A
juiza de Altamira, Danielle Burnheim,
executou de pronto a ordem superior.
Menos de quatro horas depois, po-
r6m, a desembargadora Maria do C6u,
agora utilizando papel official do TJE,
expediu novo fax para ajuiza, pedindo-
lhe para desconsiderar a mensagem an-


terior, com o deferimento do agravo,
"que por equivoco foi despachado por
esta Desembargadora em uma c6pia que
estava sob minha mesa".
Meu texto, portanto, se limitou a re-
produzir literalmente (por isso colocou
a frase entire aspas) e interpreter estrita-
mente as palavras da meretissima. Se a
c6pia foi encontrada sob a mesa da de-
sembargadora, obviamente, estava de-
baixo de sua mesa. Como? Nao sei. Se-
ria um trabalho de apuraqao que caberia
A direqdo do tribunal realizar.
Por que a desembargadora Maria do
C6u voltou atris? Porque o recurso da
Incenxil, que equivocadamente (como
ela pr6pria reconhece, em palavras tex-
tuais) lhe foi remetido diretamente de
Altamira, por fax, ao seguir seu curso
devido, indo ao protocolo do Tribunal,
foi distribuido nao para a desembarga-
dora Maria do C6u, mas para a desem-
bargadora S6nia Parente. Logo, a de-
sembargadora S6nia Parente 6 que se
tornou competent, por distribuiqdo re-
gular (e nao pela indevida presunqao de
prevenqao da Incenxil, que 6 parte e nao
6rgao distribuidor de processes).
Ao perceber que havia decidido cau-
sa distribuida para outra magistrada, a
desembargadora Maria do C6u imedia-
tamente cancelou a decisao anterior so-
bre o agravo, que se tornara indevida, sem
a menor sustentaCio legal, "equivocada",
conforme se expressou a pr6pria autora.
Como seria de se esperar ap6s tal su-
cessao de fatos, simplesmente manifes-
tei minha estranheza em relaqdo A situa-
9qo, inusitada nos anais do judiciario pa-
raense, e fiz critics de natureza t6cnica
aos procedimentos. Estao perfeitamen-
te caracterizados o que os juristas cha-
mam de animus narrandi e criticandi.
Onde estaria a difamaqao alegada?
A segunda dentincia do Minist6rio
Pdblico se sustentou em duas alegaq6es.
A primeira era de que eu teria atingido a
honra da desembargadora ao insinuar em
um de meus artigos que a magistrada, ao
deferir agravo de instrument relaciona-
do a feito que tramitava originalmente na
comarca de Altamira, "teria revelado in-
teresse" pela mesma causa, decidindo em
favor de uma das parties, o que a "subme-
teu a reprovagao 6tica social de todos que
dessa mat6ria tomaram conhecimento".
A outra alegaqao 6 de que tamb6m a
teria ofendido "ao afirmar que existia um


clima de intranquilidade no Tribunal de
Justiqa do Estado, em decorrencia de
atos praticados, dentre outros magistra-
dos e servidores", pela magistrada, "atos
esses que estariam contaminando a atu-
acao do judiciario paraense".
Mais uma vez, limitei-me a relatar
fatos efetivamente acontecidos, nao su-
posiq6es ou ilaq6es. E que, logo ap6s o
epis6dio do "equivoco" com o agravo,
a desembargadora Sonia Maria Parente
levou o assunto a apreciacao do Tribu-
nal Pleno. No document, que leu pe-
rante seus pares, afirmou que havia "um
clima de intranquilidade" no judiciario
"em razio de atos praticados por servi-
dores e magistrados", que estariam agin-
do "de maneira perverse", substituindo
"a serenidade, a moderacqo e a discri-
q~o", caracteristicos do ato dejulgar, por
um "ambiente de procela". Pediu, en-
tao, a presidencia do TJE "provid6ncias
urgentes" para a apuraqao dos fatos que
apontou, envolvendo, entire outros, a de-
sembargadora Maria do C6u.
Se as expresses "por equivoco" e
"sob minha mesa" estio no document
redigido e assinado pela desembargado-
ra Maria do C6u, cujo original consta dos
autos do process do agravo da Incenxil,
a pr6pria desembargadora Sonia Parente
confirmou, ao depor como minha teste-
munha na 16" vara criminal (privativa
dos crimes de imprensa), no mis passa-
do, que meu texto reproduz fielmente as
palavras por ela proferidas na sessdo do
6rgio pleno do TJE. "Estranho que eu
nio tenha sido processada, porque, es-
sas palavras, fui eu quem as disse. O
jornalista apenas as reproduziu", disse
a magistrada na audiencia, lamentando
que a pr6pria desembargadora Maria do
C6u, autora da queixa, nao estivesse pre-
sente para ouvir suas palavras.
A situaqdo se tornou tao irracional
que, kafkianamente, enquanto ouvia o
depoimento categ6rico da desembarga-
dora S6nia Parente, me perguntava so-
bre a razio de estar respondendo a pro-
cesso por relatar fatos e fizer a verdade
quando, li fora da sala de audi8ncias,
no front da violencia, os acontecimen-
tos se sucedem na plena caracterizacqo
do esbulho do patrim6nio pdblico por
pirates travestidos de madeireiros e pro-
prietirios rurais.
Serei punido, ao continuamente fi-
car atrelado a esses processes absurdos,
propostos sem a menor vinculagqo com
a realidade e aceitos sem indagagqo a
respeito de seus prop6sitos mal dissimu-
lados, por me colocar na defesa dos in-
teresses pdblicos?
Se for assim, o judiciirio paraen-
se precisa refletir seriamente sobre o
seu papel no drama que o Pard vive
atualmente.


Journal Pessoal 1I QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 7










McGrath: o realismo



e as meias-verdades


A revista Veja, em rara decisao, con-
cedeu uma de suas iltimas paginas
amarelas a David McGrath, professor
do Nicleo de Altos Estudos Amaz6ni-
cos da Universidade Federal do Pard e
pesquisador do Instituto de Pesquisas
Ambientais da Amaz6nia (Ipam), corn
sede em Bel6m. Por essa dupla condi-
qao e por visitar ou viver na regido ha
tr8s d6cadas, McGrath 6 uma daquelas
vozes locais que tao pouca atencao
merecem de publicacqes nacionais,
como a da Editora Abril. Quantos inte-
lectuais amaz6nicos mereceram entre-
vista nas amarelas nas mais de 1.800
edicqes de Veja? 0 ndmero deve caber
nos dedos de uma inica das maos, em-
bora haja bem mais intelectuais na re-
giao merecedores do destaque.
Mas McGrath 6 norte-americano de
nascimento, pesquisador associado do
Woods Hole Research Center, dos Es-
tados Unidos. E, segundo Veja, "refe-
rencia em estudos sobre a aqdo do ho-
mem no meio ambiente amaz6nico".
Essa condiq~o reforcaria a autoridade
da sua recusa "a participar do coro pre-
servacionista que imagine congelar a
Floresta Amazonica em seu estado atu-
al, por questdo de realismo".
Esse realismo, que costuma ser a
justificativa para attitudes de acomoda-
S5o ao status quo ou mesmo de cum-
plicidade em relaq~o a iniqiiidades (no
c6lebre cumprimento do dever, a ser-
vir de legitimaqao a crimes, pos-facto),
certamente fez a revista, identificada
com essa postura, a conferir a honraria
a McGrath. Ele agrega o saber do seu
conhecimento de "autoridade" sobre
ecologia amaz6nica as id6ias que Veja
tem defendido, em mat6rias editoriali-
zadas sobre temas ambientais (o mais
recent dos quais foram os transgeni-
cos), quando informa:
"Uma vez fiz uma comparaqao da
evolugqo annual do produto interno bru-
to com a taxa annual de desmatamento.
Encontrei duas curvas quase iguais. Isso
indica que a ocupagao da Amaz6nia esti
intimamente ligada ao crescimento da
economic brasileira".
A frase parece center uma inquesti-
onavel verdade, uma hip6tese cientifica
testada e confirmada. Mas nao 6 assim.
Nos dltimos dois anos a economic bra-
sileira nao cresceu, mas as taxas de des-
matamento na Amaz6nia voltaram a dis-


parar. McGrath ficou bem pr6ximo da
observaqao correta, mas a pequena dis-
tancia entire o seu enunciado e a realida-
de 6 a mesma distancia que separa a
meia-verdade da verdade, uma distan-
cia que tem sido muito mais nefasta do
que aquela que, claramente, distingue a
mentira da verdade.
Cor uma mentira nao se vai long e
o mentiroso 6 logo alcanqado at6 pelo
coxo. Com uma meia-verdade consegue-
se uma pigina amarela que, sintomati-
camente, tem como titulo: "A Amaz6-
nia sera ocupada" (nao ha ponto de ex-
clamagqo porque. desde a reform jor-
nalistica da d6cada de 50 do s6culo pas-
sado, ele foi abolido das grandes reda-
qoes brasileiras, por adocao do modelo
americano de fazer imprensa).
Realisticamente, McGrath entoa (e
Veja faz o coro) da aceitaqao do fato con-
sumado: "Temos de entender o desma-
tamento na Amaz6nia nesse context
hist6rico como um inexoravel, resulta-
do da ocupagao do territ6rio brasileiro".
Essa forma de avanqar pela fronteira
derrubando floresta e substituindo a pai-
sagem original por campos de pastagem,
cultivos agricolas ou extraqgo madeirei-
ra faz parte do "modo de ocupagao, que
6 mais civilizado". Com alguma sorte e
certo engenho, esse avanqo pode deixar
que sobrevivam residues do ambiente
criado pela natureza, em areas mantidas
sob preservaq~o, ou exploradas racional-
mente. AAmaz6nia, de qualquer forma,
mudaria muito, mas nada catastr6fico
nem a lamentar demasiadamente.
A entrevista de McGrath esti provo-
cando intense reaqao no mundo acad&-
mico e cercanias. A troca de mensagens
via internet tem sido intense, embora
pouco tenha vazado para o pdblico em
geral e a imprensa. Infelizmente, Veja,
como sempre, inibe ao inv6s de estimu-
lar a reaqco por sua linha editorial: pu-
blica poucas das cartas que recebe e ape-
nas de forma resumida. A limitaqco de
espaqo a obriga a assim proceder. Mas
essa 6 tamb6m uma forma de cercear e
conduzir a opiniao dos leitores.
O mais grave da entrevista de
McGrath, a meu ver, nao 6 por ter dito
inverdades, mas por haver trabalhado
com meias-verdades. Ele ter razdo
quando diz que hi uma intima conexdo
entire a fronteira amaz6nica e o eixo cen-
tral da economic brasileira, mas a rela-


cqo nao 6 sincr6nica. O tamponamento
do desenvolvimento national por poli-
ticas centralizadas que ddo prioridade ao
control fiscal, atrelado aos compromis-
sos internacionais, com seu desdobra-
mento sobre o cimbio, pressionam a ati-
vidade produtiva e detonam o proces-
sam especulativo na Amaz6nia, que aca-
ba pagando a conta da diretriz national.
O irracionalismo, o caos, a selvageria e
a viol6ncia que se alastram na regiio
resultam da racionalidade categ6rica
imposta pelo Estado national. A Ama-
z6nia 6 o faroeste porque essa 6 a fun-
q~o que Ihe imp6e a expansao alucina-
da da fronteira.
O saldo desse "modelo mais civili-
zado" 6 terrivel, como mostram todas
as estatisticas sociais (e as econ6micas
meramente nao-quantitativas). Se ele
prosseguir sua march, sabemos de an-
temro no que vai dar. O mais impor-
tante esforqo que esti sendo feito no
moment 6 para substituir a cultural do
desmatamento pela cultural da floresta.
Nio 6 um process dnico nem criou
ainda um sistema complete. Ha idas e
vindas, acertos e erros, solidez e incon-
sistencia. Mas ele existe. Representa
uma alternative absolutamente nova e
merecedora de cr6dito. Se por enquan-
to constitui uma utopia, sua simples
proposiqao serve para nao deixar que o
realismo pragmitico se torne o cami-
nho inico. A Amazonia tem o direito
de tentar algo melhor do que a destrui-
q9o que Ihe ter sido imposta como uma
esp6cie de destiny manifesto.
As declaraqGes de McGrath tiveram
pelo menos o m6rito de tirar das tocas
muita gente que prefer falar apenas
para seus circulos fechados e motivar
varios dos que empenharam sua com-
pet6ncia no desafio de dar uso mais in-
teligente e nobre ao que constitui o gran-
de patrim6nio natural da Amaz6nia, que
6 a sua floresta.
Ha empenho de quebrar a letargia
deste mes de festa para promover um
debate entire McGrath e outras autori-
dades "em estudos sobre a aqio do ho-
mem no ambiente amaz6nico" menos
afeitos a realismos de ocasido. Tomara
que a iniciativa vingue. A Amaz6nia j i
foi desnecessariamente destruida para
deixar para depois os confrontos de id6i-
as. O debate pode se tornar acad6mico
ou realista demais. Ou in6cuo.


a a1 QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 -Jornal Pessoal










A CVRD est ameacada



de ser desnacionalizada?


Maior mineradora e principal expor-
tadora do Brasil, a Companhia Vale do
Rio Doce foi privatizada, em 1997, ten-
do por parametro um valor de referen-
cia tio baixo que acabou sendo arre-
matada cor um agio de 77%, pago sem
titubeios pelo cons6rcio Valepar. A de-
sestatizacio da CVRD foi estabelecida
com duas medidas preventivas: na nova
empresa nHo poderiam participar os ja-
poneses, que eram seus maiores clien-
tes, ou os australianos, mais diretos
concorrentes, nem os que participaram
da modelagem da venda.
Esta iltima restriqgo foi logo tan-
genciado pelo Bradesco, que, aprovei-
tando-se de filigranas juridicas, acabou
se tornando o segundo maior acionista
do controlador da Vale. Esse mesmo
Bradesco vinha servindo de rampa de
acesso a Mitsui, a maior compradora
individual de min6rio de ferro da
CVRD. A empresa japonesa conseguiu
18% das ages da mineradora brasilei-
ra, adquirindo-as do Bradesco (atrav6s
de sua subsididria, a Bradespar). E es-
tava se preparando para chegar a 25%
do control aciondrio, atrav6s da com-
pra das aq6es do fundo de investimen-
tos dos funcionirios da Vale, InvestVa-
le. Se conseguisse, transformaria a
CVRD numa empresa nipo-brasileira.
A manobra foi abortada pelo BN-
DES (Banco Nacional do Desenvolvi-
mento Econ6mico e Social). Depois de
um rApido entendimento cor os diri-
gentes do InvestVale, Carlos Lessa,
president do banco, fez o lance ven-
cedor: 1,5 bilhio de reais pelos 8,5%
que o fundo detinha no capital da Va-
lepar, equivalentes a 2,5% do capital
votante da CVRD, da qual a Valepar 6
a controladora.
Foi um escandalo na grande impren-
sa e nos meios financeiros nacionais.
O alucinado Carlos Lessa estaria rees-
tatizando a CVRD. A compra teria sido
efetuada sem consult ao superior dele,
o ministry do desenvolvimento, Luiz
Fernando Furlan, que tamb6m integra
o conselho de administraqio do BN-
DES, ao ministry da fazenda, Ant6nio
Palocci, que comanda a equipe econ6-
mica, e ao pr6prio president Luiz Ind-
cio Lula da Silva. Todos teriam sido


surpreendidos pelo antncio da consu-
maqgo do neg6cio. Por isso, Lessa se-
ria demitido do BNDES. Sua cabeqaji
estaria colocada sobre a bandeja de pra-
ta da reform ministerial, cor data pre-
vista, agora, para janeiro.
Se realmente a iniciativa foi da ex-
clusiva responsabilidade de Carlos
Lessa ou se ele a partilhou com seus
chefes (cumprindo ordens deles ou ob-
tendo sua aprovaqio), a rigor, ainda
nao se sabe. As duas hip6teses estdo
colocadas, com possibilidades seme-
lhantes quanto A sua veracidade. Qual-
quer que seja a alternative certa, po-
r6m, ningu6m contestou a fundamen-
taCqo do president do BNDES, mes-
mo porque toda a imprensa preferiu
ignord-la: a Companhia Vale do Rio
Doce, a maior vendedora mundial de
min6rio de ferro, esteve realmente
ameagada de desnacionalizacgo? E, se
o risco representado pela Mitsui foi
contornado, ele nio poderd ressurgir
sob outra forma ou outra via?
Reconhecida como empresa estrat6-
gica, responsivel por dois de cada 10
d6lares liquidos obtidos pelo Brasil em
seu com6rcio exterior, a Vale esti cada
vez mais forte como multinational e
cada vez mais exposta como corpora-
qio brasileira. Para garantir os assus-
tados empresArios locais, Lessa se de-
clarou imediatamente disposto a pas-
sar em frente os 8,5% da Valepar que
adquiriu, em condiq6es aparentemente
satisfat6rias para os envolvidos no ne-
g6cio (o dgio, de 3,5%, foi menor do
que o pago em todas as operaq6es an-
teriores, embora incident sobre acqes
que nao pararam de se valorizar desde
a privatizacqo, propiciando, dessa for-
ma, apreciavel ganho individual para
os vendedores dos pap6is). Fard a ven-
da, desde que a empresas nacionais, foi
sua condiqio.
Cabe A Comissdo de Valores Imobili-
arios, ao parlamento e h justiqa, se pro-
vocada, averiguar se houve uso de infor-
macqo privilegiada ou dano ao patrim6-
nio pdblico. Mas a opinido p6blica po-
dia aproveitar cor mais intelig6ncia o
epis6dio para a reavaliaFio da Compa-
nhia Vale do Rio Doce, as v6speras de
completar sete anos como empresa pri-


vatizada. Seu foco de neg6cio parece es-
tar mais nitido, por6m as teias do seu
comando se tornam mais intrincadas, tor-
nando-a vulnerivel a um golpe, como o
que o BNDES diz haver estancado.
A andlise teri maior nitidez political
nos pr6ximos dias, quando o governor
decidird se capitalize o BNDES (numa
quantia entire um minimo de 5 bilh6es,
se a posicqo dos monetaristas for se-
guida, e um maximo de 15 bilh6es de
reais, se os desenvolvimentistas do ban-
co prevalecerem) para que ele possa in-
crementar, em quase 40%, sua linha de
cr6dito em 2004, chegando a um reali-
zivel de quase R$ 200 bilh6es em car-
teira, e mant6m Lessa na conducgo des-
sa que seria o principal mecanismo de
ativaqco do tal espeticulo do cresci-
mento, tao precipitadamente antecipa-
do pelo president Lula.
Um dos picadeiros do espeticulo 6
o setor siderdrgico. Ele tem crescido
pouco. S6 agora parece ter-se dado con-
ta do reordenamento da siderurgia mun-
dial, a partir da especializaqio dessa ati-
vidade nos Estados Unidos e o acele-
rado incremento na China. A Compa-
nhia Siderirgica de TubarAo, que pla-
neja expandir sua produq~o para 7,5
milh6es de toneladas de ago, 6 a sus-
tentaCgo da siderurgia brasileira, a es-
pinha dorsal do future, voltado tanto
para o atendimento da demand inter-
na quanto para o vicuo que surgird nos
EUA e as novas necessidades chinesas.
O problema 6 que a Vale, alegando a
busca da sua especializaqco em minera-
9io, pretend transferir o bloco de con-
trole da CST para o grupo europeu Ar-
celor, o maior produtor siderdrgico do
mundo e um dos principals clients da
pr6pria CVRD, que pretend investor um
bilhao de d6lares na fibrica capixaba a
partir de 2006. A Arcelor tambbm parti-
cipa do maior projeto de ferro-gusa de
Carajis, ao lado da Vale. Para ser coe-
rente com o que ji fez, o BNDES esta-
ria disposto a nao deixar que a Vale seja
substituida pela Arcelor na CST. Como
agird, entao, o governor?
Como tudo que 6 s6lido desmancha
no ar, 6 precise ficar atento para o pr6-
ximo capitulo. Talvez a grande impren-
sa n5o lhe d8 o destaque devido.


Journal Pessoal 1a QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003









Fatos e noticias da Belem de 1952


Comunista


4j


T


A, ik
_, *


FOTOGRAFIA
Era da arvore
Os moradores da Passagem Sio Pedro, localizada na avenida Itoror6, logo depois da
de Dezembro, viviam atormentados em 1965. O motivo era uma enorme castanheira, c
muitos metros de altura e mais de quatro de circunferencia, sozinha em um descampa
atris da fileira de casas de madeira da passage. Nos dias de ventania, trovoada e chuv;
arvore balangava (o que se devia a ter perdido a companhia das outras arvores da flore
native). Se caisse, atingiria todo o conjunto.
Os moradores tentaram uma soluqco. Primeiro chegaram homes do Corpo de Bomb
ros. Examinaram a situaqio e chegaram a conclusao de que nada podiam fazer: a escada
que dispunham nao tinha a altura suficiente exigida pelo trabalho. Que recorressem ao H
to Municipal. Funcionirios do horto tamb6m foram ao local, olharam, olharam e sentence
ram: s6 os bombeiros podiam resolver.
Quando a reportagem da Folha do Norte esteve na passage, 1i estava ainda a drvc
monumental, uma das reminiscencias da 6poca em que o sftio onde se encontra a cidade
Bel6m tinha essa vegetaqdo original. Hoje, com exceqco do remanescente do paraiso
Aura, s6 a mais de duas centenas de quil6metros pode-se encontrar a mata primaria.
Isto 6 urbanismo.


Logo ao amanhecer do dia
23 de marqo a policia foi avi-
sada, pelo telefone, que em
tres pontos da cidade haviam
sido colocadas faixas de pano
vermelho cor dizeres, em le-
tras brancas, nos quais se lia:
"Salve o 300 aniversdrio do
PCB" legenda do Partido Co-
munista do Brasil, o "Parti-
ddo") e "Viva Prestes. Salve
25-3-922 25-952". As fai-
xas, que estavam na avenida
Sdo Jer6nimo (atual Governa-
dor Jos6 Malcher), esquina da
Alcindo Cacela, em frente ao
Hospital dos Maritimos, na
.,i f Ant6nio Barreto e no Igarap6
das Almas, foram mandadas a
Corregedoria do Departamen-
to Estadual de Seguranca Pi-
blica para serem encaminha-
das em seguida a Delegacia de
Ordem Politica e Social, o fa-
moso (tristemente) DOPS.
Registro da Folha do Nor-
te a respeito: "Aproveitando-
se da escuridao em nossas
ruas, as horas mortas da noi-
te, os inimigos do Brasil de-
ram vaza aos seus criminosos
intentos, colocando nos pos-
tes pedacos infectos de pano
vermelho cor nojentas legen-
das".
S O PC havia sido colocado
na ilegalidade pelo governor
do marechal Eurico Gaspar
Dutra, que havia sucedido o
Estado Novo, de Gettlio Var-
gas, ao qual servira como mi-
nistro da guerra.

Agua
S1 Anuncio do inicio do ano:
om "AGUA, AGUA
ido Faqa sua reserve, adquirin-
a, a do um dep6sito para 200 li-
sta tros. Telefone 4171, PERFU-
MARIAS PHEBO LTDA.,
ei- que lho enviarA a sua resid6n-
de cia, por Cr$ 120,00".
or-
:ia-
Camel6s
ore Em marqo, "grande ndme-
de ro de comerciantes" de Bel6m
do encaminharam um memorial
ao governador do Estado,
marechal Alexandre Zachari-


11 QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 -Jornal Pessoal


10


Ird:s ci ~







as de Assumpqdo, pedindo-lhe
provid8ncias "no sentido de
impedir a instalaqao das ban-
cas de 'camelots' As portas dos
estabelecimentos comerciais,
situados, principalmente, na
rua Joao Alfredo".

Trote
Calouros de Odontologia
(na maioria, mulheres) fize-
ram seu trote como de estilo
na 6poca: primeiro percorren-
do a Joao Alfredo, a mais
"chic" da cidade, seguidos por
um carro com aparelhagem
sonora, "irradiando mtisicas
do 6ltimo carnaval", danqan-
do e confraternizando com os
primeiranistas e veterans.
Ou, como descreve a Folha do
Norte, "livres de preconceitos,
cafram na pandegolandia, tra-
jando [os homes] roupas de
mulheres, shorts ou calq6es,
com as parties expostas dos
corpos pintadas com as mais
variadas cores".
O trote foi encerrado na
praqa Batista Campos, em
cujos lagos mergulharam,
deles saindo ji "como os pa-
catos eapazes que toda cida-
de conhece".

Audacia
Os proprietarios das Lo-
jas Salevy (apesar do plural,
com um inico estabeleci-
mento commercial, na Manu-
el Barata 361) comunicavam
a execuqao de um "audacio-
so piano de vendas", que, de-
pois de estudado minuciosa-
mente, os levaram a fixar seu
lucro maximo em 10%.
Como? Milagre? Ndo.
Explicavam: era uma sim-
ples questao de calculo. Uma
mercadoria cujo preqo embu-
tisse lucro de 50% "demoraria
12 meses para ser vendida. No
decorrer dessses 12 meses as
despesas consumiriam todo
esse fabuloso lucro aparente.
Limitando esse lucro a um
maximo de 10%, ha a possibi-
lidade de ser vendido em 30
dias todo o estoque de um ano.
Vendendo em 30 dias o esto-
que de um ano, o capital sera
girado 12 vezes por ano e aque-
le lucro de 10%, de aparencia
insignificant, ficard transfor-
mado em 120% anuais".


O andncio alertava, po-
r6m, que o 8xito desse auda-
cioso piano dependeria uni-
camente do pdblico. "Se o
piblico corresponder As ex-
pectativas terA oportunidade
de adquirir mercadorias por
preqos mais baixos que na
pr6pria fabrica. Se o pdblico
nao corresponder ao volume
necessario de vendas...".
Elementar, Jac6 Watson.

Figurino
Chegava a Bel6m, final-
mente, Eva, "o figuring que o
Brasil tanto esperava". Porque
s6 publicaria models exclu-
sivos, feito exclusivamente
para o clima brasileiro, orien-
tado por um conselho de mo-
distas, todo ele de figurines,
com models em fotografia. A
publicagqo foi colocada A ven-
da na Livraria Vit6ria, na Tra-
vessa Padre Eutiquio 98, e nos
"pontos de revistas".

Discos
A loja de discos W. Ander-
sen (Joao Alfredo, 46) anun-
ciava os 10 sucessos de uma
semana de marco:
As moqas precisam tra-
balhar (do filme "Susana e o
presidente".
Cancao do torcedor (com
Kathryn Grayson, do film
"Amor vai amor vem").
Drag6es Canadenses.
Cangdo do amor pagao
(Howard Keel).
Cantando no sol (Esther
Williams, do filme "Amor
papdo".
Uma vez, bolero (Greg6-
rio Barrios),
Foi voce (samba-bolero).
Baiao em Portugal.
Lenda do beijo.
Verdo indiano (prefixo
no Radio Clube da novela
Ressurreigqo).
A loja informava tamb6m
que possufa completeo sorti-
mento de m6sicas portugue-
sas, em gravag6es originals
estrangeiras".

Festa
A diretoria do Liberto Es-
porte Clube, "o mais querido
de Batista Campos", convida-
va seus associados e familias,


abrilhantarem o "vesperal dan-
qante" de domingo, "ao som de
um possante 'pick-up'". 0 ini-
cio seria as 17 horas e o traje
exigido era o passeio, "nio
sendo permitido o uso de blu-
s6es, camisas de meia, etc".

Livro
Era lanqado o novo livro
do historiador Emesto Cruz,
Procissdo dos Seculos, em
"primorosa ediqFo da Impren-
sa Official do Estado", que
continha "importantissimos
capitulos da hist6ria social e
political do Pard". O livro po-
dia ser encomendado nos de-
positarios Cruz & Cia., na tra-
vessa Padre Eutiquio, 60, ou
pelo "automitico" 4940.

Moda
"A Dama", de M. Cerquei-
ra & Cia., "a casa que de ven-
der barato criou fama", apre-
sentava "duas grandes novida-


des" para as clients que a vi-
sitassem,n a loja da rua Santo
Ant6nio, 42: "chintz" em seda,
quadriculadom em quatro co-
res, e sarja serid6 para saias,
nas cores preto e marinho, "su-
cessos de Fath em Paris

Mercearia
No final do ano, a casa
Vesivio, "a mercearia nime-
ro um da cidade", oferecia o
maior sortimento dos artigos
finos para as festas da tempo-
rada, s6 acessfveis aos clien-
tes com poder aquisitivo para
pagar por mercadorias impor-
tadas atrav6s de navios de ca-
botagem, como castanhas por-
tuguesas, nozes chilenas,
amrndoas italianas, figos re-
cheados italianos, figos tur-
cos, tamaras francesas, amei-
xas americanas, uvas america-
nas, uvas espanholas, batatas
holandesas, fantasias portu-
guesas, vinhos portugueses e
vinhos iugoslavos.


Journal Pessoal 1- QUINZENA/DEZEMBRO DE 2003 14


PROPAGANDA
"Um dos mais fantdsticos filmes do ano", Minha filha
era cartaz anunciado pelo Cinema Olimpia em janeiro
de 1953. Estrelado pelo eterno bandido Edward G Ro-
binson. Quem v filmes, hoje, ndo os ve com os olhos
dessa 9poca.

1,17 M1 I'm i.F^r VT~IN M W-a'i,









Tribunal
No dia 31 de marqo uma
das vagas de conselheiro do
Tribunal de Contas do Estado
completard quatro anos sem
preenchimento. 0 entdo
governador Almir Gabriel,
turrao como s6 ele, nao
aceitou nomear um auditor
para ocupar esse lugar,
embora fosse essa a ordem
legal da sucessao. Nao s6
legal, mas desejivel: para a
sociedade, seria muito
melhor que os profissionais
da casa, admitidos por
concurso e evoluindo na
carreira, pudessem chegar A
mais important fungao do
TCE, assegurando-lhe
consistencia t6cnica e
independencia political.
Talvez assim a corte pudesse
vir a adquirir o status de
instancia judicial, ao inv6s de
ser mero 6rgdo auxiliar do
legislative (situacqo que, ao
menos at6 agora, parece s6
ter como atrativo dispensar a
prestaqio de contas a um
controlador externo).
A relutancia do
governador, transmitida por
Almir Gabriel e assumida
por Simdo Jatene, sugere
que para o agent da
nomea~io tanto faz o TCE
funcionar complete ou
desfalcada. Tanto faz
funcionar, quem sabe. Cabe
aos conselheiros, efetivos ou
por nomear, apresentar outro
argument.


Monolitismo
A prefeitura de Bel6m co-
mecou a executar seu projeto
para o buraco da Palmeira sem
dar a menos atenqao As criti-
cas e sugest5es sobre o uso
daquele espago, ao menos
para mostrar que sua opcqo
(opgqo? decisao) 6 a melhor.
Nem se importou em estar
agindo contraditoriamente:
enquanto ressuscita um bon-
de para passeios pelo centro
hist6rico, atrai carros para o
estacionamento que surgiri no
buraco da Palmeira.
E assim caminha o alcai-
de para o fim do seu duplo
mandate.


Guerra de antincios


Nenhumjornal 6 grande se nao tiver uma
boa seqao de andncios classificados. Esta
tern sido uma regra quase sem exceqao da
imprensa em qualquer lugar do mundo. Os
pequenos andncios sao o espaco por exce-
l8ncia dos clients da publicacqo, seu pre-
gao popular. Quando querem se tornar gran-
des, osjornais criam esses cadernos. Os que
ja sao grandes inevitavelmente oferecem
esse service aos seus leitores.
Daf a importancia do caderno que o Did-
rio do Pard lanqou na semana passada, de-
pois de uma intense programaqao pr6via.
Anincios, festa e campanha antecederam a
nova seqao, como mandam as t6cnicas de
marketing. 0 resultado foi a imediata resposta
do dono do mercado, O Liberal, que dorme
sobre os louros hi muitos anos. De imediato
os Maiorana iniciaram sua pr6pria campanha
promocional para revidar A promessa (ou
ameaga) de concorr8ncia.
Se o novo caderno der certo, as Organiza-
9qes Romulo Maiorana terdo que ir mais fun-
do, revendo a tabela de preqos, exageradamen-
te alta, al6m de oferecer vantagens aos que op-
tarem por permanecer na casa. A batalha mal
comegou e comeqou um tanto desastrada-
mente para o Didrio, que s6 colocou o Tem!


Foi com imensa satisfa-
g9o que vi o 61timo Jornal
Pessoal publicar, pelo me-
nos, parte do debate sobre a
important mesa redonda
que realizamos no Ciclo
Id6ias e Debates no Museu
Goeldi sobre "O Conheci-
mento cientifico da Amaz6-
nia: do RADAM ao SIVAM/
SIPAM". A id6ia que norteou
o debate foi a de discutir a
produ~go de informaq6es a
respeito da nossa regiao des-
de o principal program ge-
rador de informaq6es sobre
a Amazonia, que foi o RA-
DAM, desenvolvido nos
anos 70 e que propiciou a
base cartogrifica atual, de-
talhando nossa extensa
Amaz6nia at6 o SIVAM, que
disp6e de uma tecnologia
muito mais cara e sofistica-
da que o RADAM. Como
um dos grandes desafios
para a ci6ncia continue a ser
o de proper um modelo de
uso dos recursos naturais da
Amaz6nia, pensamos em
discutir como a implantaqao
do SIVAM ajudaria a atingir


nas ruas horas depois de rodar a ediq~o normal
do journal. Um atraso que poderia transformar
o Tenm! em Tinha!
Se o Didrio decidiu investor em classifica-
dos certamente deve ter sido por ter visto pos-
sibilidades de quebrar o monop6lio de O Libe-
ral. NZo s6 por algum enfraquecimento inter-
no do concorrente, mas por fortalecimento do
pr6prio Didrio. Mesmo cor esse crescimen-
to, por6m, a tiragem dojornal ainda estd muito
distant de O Liberal. Tanto que o Didrio nao
se filiou ao IVC (Instituto de Verificagao de
Circulagio), que muito ajudaria na consolida-
9ao dos seus classificados.
Tempos atris, em proporq6es muito mais
modestas, A Provincia do Pard ofereceu
classificados gratuitos para tentar tirar pi-
blico de O Liberal. Nem assim eles pega-
ram. Nesse segment, o marketing sempre
ajuda, mas o que decide 6 a rdpida resposta
commercial do anuncio, que s6 6 possivel cor
grande tiragem. A declaragSo de guerra do
Didrio, por isso, fard bem a todos se esta-
belecer uma concorrencia para valer. Ja teve
o m6rito de tirar O Liberal da pasmaceira
do monop6lio, a coisa mais nociva do capi-
talismo, que sempre faz o client pagar mais
caro e ser mal servido.


essa meta. Outra questdo im-
portante que norteou o deba-
te foi o de como as institui-
96es de pesquisa, que irdo
participar da rede geradora
de informaq6es para o SI-
PAM, poderao usufruir essa
infraestrutura para produzir
ci8ncia e tecnologia.
Infelizmente, por ques-
t6es de 6tica institucio ,
nao pude, como voc8 co-
ca no inicio do journal, fAu-
blicar o ndmero 6 do cader-
no Id6ias e Debates, que
agora seus leitores, que nao
assistiram ao event, po-
dem, pelo menos, ter aces-
so aos debates calorosos
entire alguns debatedores e
o piblico. Ainda aguardo
que o representante do SI-
VAM made suas correq6es
e autorizaCqo para publicar
esse debate, que muito ser-
viria para esclarecer e mon-
tar uma estrat6gia regional
de C&T com participaq~o
de um SIVAM, que n6s que-
remos e precisamos.
Receba um abraqo,
Ima Vieira


Dileto Ldcio Flvio.
Reitero a certeza no gran-
de serviqo que voce presta
aqueles que perseguem uma
narrative de base para susten-
tar a merecida ascensdo da
hist6ria dos amaz6nidas, pe-
los amaz6nidas. Refiro-me ao
marcante document reprodu-
zido sob vossa honrosa inici-
ativa "A caixa preta da
geopolitica...".
Enquanto m6dico-pesqui-
sador deverei estar coorde-
nando uma "Estaqao Cienti-
fica do IEC" no Alto-Purus,
Amazonas, -nos pr6ximos
anos. E bom saber que po-
demos constituir Resist6n-
cia baseada no reconheci-
mento da capacidade instala-
da na regido e questioner os
"legitimadores oficiais" de
plantao.
Grato,
Manoel Soares
Institute Evandro Chagas
PS Por problema de edi-
qao, as cartas de Ima Vieira
e Manoel Soares deixaram
de sair na ediqCo anterior,
como devia.


licrta


l-EdXP (2 6 Con t: ii Z Costn !20366034 e-mail: 1