Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00259

Full Text



1' QUINZENA
NOVEMBRO
DE 2003


ornal


Pessoal


J A AGENDA AMAZONICA DE LlCIO FLAVIO PINTO


ANO XVII
NQ311
R$ 3,00


SIVAM


A caixa preta da


geopolitica vai ser


aberta finalmente?

Maiorprojeto de geragao de informagao da Amazonia, o Sivam nao tem sido discutido
a altura do seu tamanho, no valor de dois bilh6es de d6lares. No moment em que seu
inicio sofre atraso e suscita novas pol6micas, este journal reproduz trecho de um
debate promovido pelo Museu Goeldi, para que nao permanega inedito.


tes, editado pela Coordenagqo
de Pesquisa e P6s-Graduaqao
do Museu Goeldi, 6 dedicado
ao tema "Desenvolvimento
cientifico da Amaz6nia: do Radam ao Sivam/
Sipam". O conteudo 6 important. Mas talvez
o cadernojamais seja publicado. Nem mesmo
poderi ser colocado A disposiqao dos interes-
sados na pigina eletronico do MPEG. Ficara
in&dito, apesar de estar pronto para publicagqo.


Tudo porque os representantes do siste-
ma Sivam/Sipam, que participaram do deba-
te no inicio do ano, transcrito no caderno, at6
hoje nao responderam As consultas dos edi-
tores do Museu para rever seus textos. Sem a
revisao, a comissdo de editoraq~o do "Goel-
di" nao pode liberar a transcricgo do debate,
por um principio 6tico.
Ha dois anos o Museu realize um f6rum
de debates sobre temas de interesse da Ama-
z6nia. Em marqo, aproveitou a concluslo da









implantaq~o do Sivam (Sistema de Vigilancia
da Amaz6nia) e o inicio das atividades do Cen-
sipam (Centro Gestor e Operacional do Siste-
ma de Proteqao da Amaz6nia), investimento
total de dois bilh6es de d6lares (incluindo os
juros a serem pagos at6 a amortizaq~o da divi-
da), para tratar do assunto, associando-o a um
outro projeto semelhante, o Radam (Radar da
Amaz6nia), realizado na d6cada de 70.
Participaram da mesa-redonda o ge6logo
Roberto Dall'Agnol, professor da Universi-
dade Federal do Pard, o engenheiro eletr6ni-
co Gilberto Camara, coordenador geral de ob-
servaqao da Terra do Inpe (Instituto Nacio-
nal de Pesquisas Espaciais, de Sao Paulo), o
ge6logo Edgar Fagundes, diretor-executivo
do Censipam, e eu. A feliz escolha do tema
atraiu dezenas de pessoas, que lotaram o au-
dit6rio do "Goeldi", no parque zoobotanico.
Houve muitas perguntas e a discussao foi
bastante esclarecedora sobre esse projeto, que
tanta pol8mica tem provocado.
E uma enorme pena que o silEncio do en-
genheiro Camara e do ge6logo Fagundes aos
pedidos que a direcao do Museu lhes fez, para
que revisassem suas intervenqbes no debate,
devolvendo os textos corrigidos, tenham im-
pedido, pela primeira vez, a publicaqao do ca-
dero com a transcricqo da mesa-redonda. A
falta de respostas as reiteradas cobranqas pa-
rece ter levado a direqao do MPEG a desistir
de publicar o sexto cadero Iddias e Debates.
JA esta em andamento a editoraqco do cader-
no seguinte, dedicado '"Terra do Meio", no
vale do Xingu.
Preocupado cor o esclarecimento plibli-
co, permito-me reproduzir aqui a minha inter-
venq:o no encontro e os didlogos que mantive
cor os demais debatedores. Infelizmente nao
sera possivel reproduzir a integra das discus-
sbes, mas acho que o excerto aqui reproduzi-
do servird de estimulo aos que desejarem en-
carar o desafio de decifrar essa esfinge.
Previsto para entrar em funcionamento em
julho deste ano, s6 em marqo de 2004, corn
quase um ano de atraso, o Sivam deverd estar
em plena operaqao, com todos os equipamen-
tos previstos no contrato original. A demora foi
atribuida principalmente a dificuldades t6cni-
cas no desenvolvimento de um sofisticado sis-
tema de comunicaqces por radio em VHF. A
empresa norte-americana Raytheon, responsA-
vel pelo projeto, jd deveria ter instalado esses
equipamentos nas 27 unidades de vigilancia dis-
tribuidas pelos nove Estados da Amaz6nia. Por
causa do atraso, a comissao coordenadora do
Sivam suspended o pagamento da iltima etapa
do contrato, correspondent a 72 milh6es de
d6lares, de um total de US$ 760 milh6es.
Segue-se a transcriqao dos principals
trechos da minha participagqo e de meus
interlocutores.

LUCIO FLAVIO PINTO Em primeiro lu-
gar, 6 um absurdo que n6s s6 estejamos discu-
tindo esse tema depois de tantos anos do ini-
cio do Radam e da finalizaq~ o do Sivam. Ali-
as, todos aqui s6 falam no Sipam porque o
Sivam 6 uma heranqa maldita e nem se fala
nele. Quero, desde logo, parabenizar o Museu
por fazer este debate a tarde. Se ele fosse rea-
lizado pela manha, sei que, numa instituicao
que briga por alguns milhares de d6lares, ou-


vir falar de barriga vazia em milh6es e milhbes
de d6lares soaria como ofensivo. E um con-
traste brutal ver que o Sivam custou 1,4 bi-
lhao de d6lares e, at6 o pagamento dos juros,
nos pr6ximos cinco anos, vai precisar de mais
500 milhoes de d6lares. E 6 muito important,
muito interessante, muito elucidativo para que-
brar as cabeqas dogmiticas e os raciocinios
estratificados, fazer uma comparaqdo entire o
Radam, o Sipam e o Sivam.
0 Radam, como disse o D'Allagnol, foi
concebido em pleno regime military, no auge,
na dicada de 70, quando o Brasil tinha taxas
de crescimento equivalentes as do Japdo.
Eram dois grandes milagres economicos: um
baseado na poupanga dojaponjs e outro ba-
seado na propaganda dos brasileiros. Nesse
exato moment, o Radam foi concebido nos
Estados Unidos pela Goodyear Aerospace,
que havia acabado defazer um trabalho exa-
tamente igual no vale do Orenoco, na Vene-
zuela, e a Goodyear queria terminar o traba-
lho pegando o vale do rio Amazonas, a maior
bacia do planet.
E ilusdrio pensar que n6s concebemos o
Projeto Radam. Quem concebeu mesmo foi a
Goodyear, que tinha tecnologia complete para
fazer aquela grande matriz, que era o que inte-
ressava, a grande matriz de dados, cor con-
trole de radar informando aquele mosaico
imenso, matriz sobre a qualforamfeitas as car-
tografias, que sto a grande contribuigdo cien-
tifica do Radam, a cartografia exata. Houve
rio, por exemplo, que antes da cartografia com
restituiqdo de imagensfeitas pelo Radam, que
estava deslocado 150 quilOmetros da sua po-
siCdo real. Era uma cartografia absolutamen-
te literdria, e ndo baseada na geografia real.
Esse levantamento, que a Goodyearpro-
pos, era uma continuidade do que a Comis-
sdo Mista Militar Brasil-Estados Unidos fez
no p6s-guerra. Essa comissdo trabalhou
mais no Brasil no p6s-guerra do que na guer-
ra. Ela fez um grande levantamento da ba-
cia sedimentar da Amazonia e chegou a con-
clusdo de que o alvo da bacia sedimentary,
que hoje e o segundo maior produtor de pe-
trdleo em terra do Brasil, Id em Urucu, era
para depois; ndo era para tecnologia da
dpoca, por causa do prego do petrdleo, que
ndo justificava os investimentos para explo-
rar o 6leo no interior da floresta, como faz
hoje a Petrobrds, no Urucu. Haveria um cus-
to de logistica elevado.
E por isso que Hermann Kahn, em segui-
da, props o projeto do grande lago, num pa-
roxismo de raciocinio a partir dos dados so-
bre a bacia sedimentar amaz6nica. O racio-
cinio era: vamos inundar a bacia sedimentar
e vamos explorer petr6leo sobre lamina
d'agua, que serd mais barato no future, e va-
mos atingir o que nos interessa, o Pr6-Cam-
briano, os espinhagos de terras antigas que


estavam ao sul e ao norte do rio Amazonas.
Ao norte, havia o exemplo da Icomi, que ji
tinha descoberto a jazida de manganes de
Serra do Navio, que foi o primeiro grande
projeto da nova era na Amaz6nia. Logo em
seguida, antes do Radam, a United States Ste-
el, na maior faqanha da hist6ria geol6gica do
mundo, descobriu a provincia mineral de
Carajis com um mes de campanha. E o Bra-
sil, atrav6s do DNPM, havia gastado nove
anos no projeto Xingu-Araguaia para chegar
a conclusio que aquilo era calcirio e nao in-
teressava economicamente.
O Projeto Radam, apesar desse context,
era um projeto cientifico, nao era um projeto
military. Era ciencia a serviqo das grandes em-
presas que entravam na Amaz6nia e que nao
podiam perder tempo e nem capital em ficar
selecionando alvos. Elas exigiam o maximo
possivel de confiabilidade nos dados para de-
finir seu investimento. Ja sabiam mais ou me-
nos o enredo da hist6ria, mas, evidentemen-
te, numa regilo como a Amaz6nia latino-ame-
ricana, que 6 quase do tamanho dos Estados
Unidos, do tamanho da Europa, eles nao po-
diam entrar sem uma ferramenta segura, im-
portante, como foi o Projeto Radam, com a
sua matriz basica, que slo as fotografias cor
control de radar e apoiadas pelo sat6lite.
Foi um projeto da ciencia, da o testemu-
nho do D Allagnol, que trabalhou quatro anos
no projeto. Acho que eu sou o mais velho aqui
na mesa porque eu j4 tinha muito tempo de
estrada quando comecou o Radam. Conver-
sei cor todos os que o iniciaram, o Luis An-
tonio, o Oto, saiem viagem, inclusive usamos
as fotos infravermelho e multiespectrais em
funqio da edicdo especial sobre a Amaz6nia,
da revista Realidade [da Editora Abril, ji fora
de circulaq~o], da qual participei e o
D 'Allagnol citou. Viajei no ultimo Caravelle
da Cruzeiro do Sul, da Lasa, que era uma
empresa de levantamento aerofotogrametri-
co da Cruzeiro do Sul.
Acompanhei tudo aquilo, e realmente a
grande contribuiido do Radamfoi dada a par-
tir do moment em que a Goodyear teve o que
queria e disse: "agora e de voces". Contou
com o apoio do ministry Dias Leite, de Minas
e Energia, que era quem garantia os recursos
na retaguarda, (juntamente cor Eliezer Ba-
tista, foi uma das grandesfiguras por trds da
hist6ria contempordnea da Amazonia, embo-
ra nio aparega nas colunas sociais; mas es-
sas sdo realmente as pessoas mais prestigio-
sas, mais influentes). Eliezer Batista atuou
decididamente para deslocar a influencia
americana na Amaz6nia, colocando o Japdo
nafrente. 0 dr Eliezer Batista e, talvez, o oci-
dental ndo resident no Japdo que mais vezes
esteve id. Ate a dltima vez que tive o control,
ele tinha viajado 102 vezes ao Japio. Fala
fluentemente ojapones. Quem vai na sede da
Companhia Vale do Rio Doce, no Rio de Ja-
neiro, pensa que estd em Tdquio, porque toda
a decoragco ejaponesa.
A maior licao do Radam 6 a checagem de
campo. Realmente, nao 6 suficiente, nao 6 se-
gredo, nao chega a ser o mapa da mina voc8 ter
apenas a informaqao indireta, produzida por
uma ferramenta tecnol6gica. A checagem de
campo ainda 6 fundamental. Isso nos autoriza
a dizer o seguinte: se no Sipam for possivel


1A QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 Journal Pessoal








desfazer todos esses equivocos apontados pelo
Gilberto e esquecer o dinheiro que jd foi joga-
do fora, a sede nao pode ser em Brasilia. Va-
mos acabar corn este neg6cio de Brasilia ser
a sede e ficarmos com esta matriz geopoliti-
ca, cor esta madrasta da compreensAo da
Amazonia. Porque mesmo desfazendo esse
centralismo burocritico, duvido que vamos
desfazer tamb6m essa geopolitica malsi, ma-
ligna, que 6 responsivel por essas distorq6es.
O Projeto Radam 6 uma experi8ncia so-
bre a qual, infelizmente, n6s refletimos pou-
co. Na evoluqio do projeto acabaria ocor-
rendo uma alteragao da concepgCo original:
concebido para fazer o levantamento da
Amaz6nia, o Radam foi estendido para todo
pais. Nao era mais o trabalho de pequenas e
compactas equipes, multidisciplinares, expe-
didas. Passou a pesar a visao autdrquica do
funcionalismo pdblico. A sede deixou de ser
em Bel6m e passou para Salvador.
Sou uma pessoa que leu todos os volumes
do Radam e acho que determinados trabalhos
tiveram um valor prospective, de indagacgo
intellectual e de provocacqo, como ouvimos a
colocaqao do iltimo expositor, mas terrivel
tamb6m. Por exemplo, o uso potential do solo,
pelo aspect de vanguard, foi uma coisa
muito boa, mas em geral se errou. Lembro bern
das brigas cor o dr. Pimenta Veloso, que de-
fendia a tese de que a floresta era senil. Que-
ria substituf-la por cobertura vegetal mais di-
namica ou outras cultures da terra.
O Radam coonestou neste aspect a visao
do regime, e 6 terrivel que o Radam tenha sido
esquadrinhador da destruigqo do Araguaia.
N6s tinhamos, no Araguaia, uma possibilida-
de fantAstica de uso inteligente dos recursos
naturais da Amaz6nia, cor uma densidade de
mogno que 6 o dobro da maior densidade de
mogno que existe hoje, e esta sendo destruida
na nossa frente, no vale do Xingu, que sera
um dos dois estudos que o Sipam tern em vis-
ta. O Radam coonestou tudo isso porque tinha
o peso do govemo, embora nao tenha sido,
em pleno regime military, com toda aquela di-
tadura, tao poderosa a mao do governor quan-
to o peso do nosso president imperial Fer-
nando Henrique Cardoso.
0 Sivam e uma coisa inacreditdvel, que
aconteceu sob os nossos olhos. Elefoi gerado
no Conselho de Defesa Nacional, que sucedeu
o terrivel Conselho de SeguranFa Nacional do
regime military, e que se reuniu duas inicas
vezes, em ambas para tratar da Amaz6nia,
como se a Amaz6nia estivesse sob ameaa de
uma invasdo estrangeira iminente. Foifeita a
reunido, o presidentefoi autorizado a dispen-
sarlicita~copdtblica efazer uma seledo apres-
sada. Qualquerprocesso mais seletivo ndo te-
riapermitido a Raytheon entregar a caixapre-
ta. Pessoas com mais sensatezperceberam logo
o erro que se estava praticando, mas tudo foi
deixado de lado e para trds porque a Amaz6-
nia estaria sob ameaga permanent, iria ser
invadida, embora nosso inimigo real ndo use
(ou ndo use ainda) o F-17 ou o B-52, mas a
estrutura da sociedade anonima.
Esse 6 que 6 o problema da geopolitica:
ela distorce o inimigo, que tem que estar em
attitude b6lica. Daf porque a Aeronautica, ao
inv6s de fazer logo o Cindacta-4 aqui, que era
o que deveria ter feito, implantou primeiro o


Sivam. Com o Cindacta 4 teriamos, na pior
das hip6teses, quatro vezes menos do que gas-
tamos com o que 6 superposiqao. Por que nao
se fez logo o Cindacta-4? Por que no Brasil
todo se fez o Cindacta e aqui nao, havendo a
quebra da continuidade e s6 depois que o Si-
vam jd estava sendo executado 6 que se pas-
sou para o Cindacta na Amaz6nia? Por que
nao se pegou todo esse problema grave que
temos de trafico de drogas, de biopirataria, de
contrabando, por que nao se deu a estrutura
para a Policia Federal, que 6 o 6rgao compe-
tente, para atuar de forma mais agressiva, pre-
ventivamente?. Por que, se n6s queremos fa-
zer um tratamento modern, atual, operacio-
nal, com image de satdlite, nao pegamos o
centro da Sudam, que era muito bom em ins-
trumentos e se qualificava cada vez mais em
pessoal, que estava em desenvolvimento e
agora esta abandonado, 6 lixo, 6 sucata?
Porque sempre Brasilia pensa de uma ma-
neira diferente, Brasilia 6 o nosso 6rgao tute-
lar, e falo Brasflia, nao o Planalto Central,
mas Brasilia, o poder central, que 6 autoriti-
rio, que desconhece a Amaz6nia e vai conti-
nuar cometendo esses atos de imp6rio na nos-
sa regiao. Somos os iltimos filhos do Brasil,
filhos que foram incorporados de uma forma
tardia e indesejada. Somos o tempordo, o que
foi um acidente. Pode parecer uma visao re-
gionalista, mas 6 tamb6m uma visao regiona-
lista porque parte do pressuposto de que a
regilo tem uma identidade, uma hist6ria pr6-
pria, que nao pode ser compartimentada no
residuo que sobra para n6s.
Este Sivam representou, em cinco anos, 20
anos de orqamento de ciencia e tecnologia na
Amaz6nia; minguado, porque os senhores pes-
quisadores sao obrigados a aplicar de uma for-
ma quase que mendiga, tnm que implorar para
que sobre, e agora mesmo ha um movimento
para eliminar recursos destinados ao Norte e
Nordeste porque nao existe demand de pes-
quisas, eles seriam mais bem aplicados no Sul,
onde estao concentrados os PhDs e as institui-
q5es competentes no Brasil.
Acho que vamos continuar nesse proces-
so de sair dispendioso, caro, e somos ape-
nas o acidente de percurso, titulo que se usa
nessas siglas.
Sou do entendimento de que o mal 6 de
origem e o Sivam 6 um mal de origem. Ele
foi pensado de forma centralizada, numa vi-
sao geopolitica, military, nos laborat6rios (1)
do Conselho de Seguranga Nacional, (2) nos
pores da SAE (Secretaria de Assuntos Es-
trat6gicos) e dessas siglas todas que sao ape-
nas variaq6es de letras da mentalidade cen-
tral. Acho que temos 6 que quebrar esse sis-
tema unificado, centralizado, rigido. Pode ser
que, da depuraqao, o que sobreviva permit
criar um novo centro. Mas sera que ele 6 ne-
cessirio? Seri que a soma do que n6s ji te-
mos, a unido e a fusao, em determinados ca-
sos, nao permitird um 6rgao mais capacitado
a interpreter a regiao e ter uma diretriz que
nao seja apenas transformar a Amaz6nia em
um celeiro de mat6rias primas e insumos para
a grande matriz national e intemacional?
Estamos em um moment bastante delica-
do da hist6ria. N~o s6 da nossa, mas da hist6-
ria mundial. Estamos vendo ruir hoje o siste-
ma baseado no contencioso, na arbitragem, no


consenso, em organizaqoes multilaterais. O
mundo estd vendo que, podendo destruir nas
parties, precisa former um todo. Estamos ven-
do ruir e nao sabemos o que vai ser depois.
Pode ser que o piano Bush, executado no Ira-
que com a perfeiq~o cirirgica que eles proje-
taram, leve a pensar de uma outra maneira o
piano Col8mbia, aqui ao lado. Precisamos ter
uma mirada quase igual A que tinha o Carave-
lle na 6poca do Radam, com as suas bandas,
da mesma maneira como os helic6pteros hoje
opera no Iraque, atingindo 19 alvos ao mes-
mo tempo, em pontos diferentes.
Precisamos tentar ver tudo, o mAximo
possivel, mas, neste exato moment, as ve-
zes temos dificuldades de avaliar nossa posi-
qao, o que somos, qual o nosso lugar no mun-
do. Estamos no meio de um debate intense
sobre o p6lo sidenirgico da Companhia Vale
do Rio Doce, e as vezes ficamos chocados
com os dados, porque quando consolidamos
esses dados levamos um susto com a impor-
tancia que temos, independentemente, as ve-
zes, do que pensamos ser.
Por exemplo: somos responsaveis, hoje, por
metade do faturamento bruto da CVRD, que 6
a empresa mais important do pafs em geraqao
liquida de divisas. N6s geramos, hoje, 15% das
divisas do Brasil, n6s, Estado do Para. E qual 6
a nossa importancia, qual a nossa participaqao,
qual a nossa capacidade de criaqao? Tomo este
debate como uma boa provocacqo e espero que
encontremos algum tipo de resposta.


GILBERTO CAMERA E uma pergunta
para o Ldcio. Se entendi corretamente o que
ele colocou, porque ele na verdade, al6m de
ser contra o Sivam e o Sipam como foi feito, 6
contra eles em si. Gostaria de entender um
pouco mais essa posicao, quer dizer, a per-
gunta af 6 a seguinte, s6 para deixar claro: A
divergancia que entendi que existia entire a vi-
sao que o Licio apresentou foi de que apesar
de todos os defeitos e erros, equivocos e um
bilhao e meio jogados pela janela, ainda te-
nho a coragem de definir a existancia de um
centro de inteligencia da Amaz6nia, o CIPAM,
nao como esta hoje, mas enquanto um centro
estrat6gico, e entendi que o L6cio esta colo-
cando isso como nao necessdrio, isso pode ser
diluido nas atribuiq6es dos diversos 6rgaos j
existentes, e gostaria que esclarecesse apenas
para o meu beneficio e da plat6ia.

LUCIO FLAVIO PINTO Sou contra a
visao geopolitica que levou A criaq~o deste
sistema.
Eu estava no Conselho Deliberativo da
SUDAM, em 1976, quando o projeto da Vo-
Ikswagen foi apresentado, projeto de uma fa-
zenda numa area de 139 mil hectares no mu-
nicipio de Santana do Araguaia. O represen-


Jomal Pessoal ia QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 3









tante do Minist6rio dos Transportes se levan-
tou e disse que nao ia aprovar o projeto (isso
em 1976, govemo Geisel), concedendo pou-
panqa national para enriquecer uma empresa
alema. Quase que bato palmas ao coronel.
Depois fui conversar com ele e disse-me que
nio iria aprovar porque, olhando bem o pro-
jeto, viu que o proprietdrio era a Volkswagen
AG empresa alema, portanto. Um mes de-
pois o projeto voltou A pauta e no parecer es-
tava escrito Volkswagen S/A e foi aprovado.
Tinha ocorrido um erro datilogrifico. E essa a
vislo que acho terrivel sobre a Amaz6nia.
E evidence que 6 possivel, como Bush fez
no Iraque, se achar que pode invadir a Ama-
z6nia, invadir a Col6mbia para acabar com o
trifico, invadir a Amaz6nia para impor um uso
mais racional dos recursos naturais, mas 6 pou-
co concebivel hoje que isso aconteqa. No en-
tanto, estamos com os nossos parceiros nacio-
nais ou internacionais pilhando a Amaz6nia,
acabando com ela, e o Bush pode nunca inva-
dir a Amaz6nia, pode nunca ter as raz6es que
levaram o Conselho de Defesa Nacional se reu-
nir para criar o Sivam, e dispensar licitacqo
piblica para uma compra de 1,4 bilhlo de d6-
lares, e ainda assim se acabar com a Amaz6-
nia. Por isso, minha discordancia result de
uma visao filos6fica, 6 um pressuposto, que
acho terrivel, o de raciocinar em terms geo-
politicos na Amaz6nia. Na Amaz6nia a geo-
politica 6 sempre a fonte principal de vi6s e
distorqses quando se raciocina sobre a Ama-
z6nia, e sempre foi.
Vamos dar o pontap6 inicial para discutir
o projeto, mas faz&-lo de uma forma quase
que eu diria academica, porque o essencial
continue. Esses avioes-radares passando por
cima, os cinco avi6es, essa vislo, isso 6 geo-
politica, geopolitica de guerra na Amaz6nia.
Ela pode at6 se aperfeiqoar, mas, embora eu
consider que todas as pessoas que estlo no
Sipam slo competentes e querem acertar, ha
uma estrutura que independe delas, e que As
vezes elas at6 rejeitam, e que impoe uma po-
siqao descentralizada, fora de Brasflia.
A Policia Federal, com o program que
criou na mesma 6poca para aumentar a fisca-
lizaq~o, com 40 milh6es de d6lares, faria tudo
o que, em mat6ria de control de trifico e
biopirataria, o Sivam se propoe a fazer, sem
nenhum problema. O Minist6rio da Aeronau-
tica tamb6m nao precisarA mais do Sivam, se
ele se transformar nessa caixa branca para
controlar o trdfego a6reo na Amazonia.
Agora vejam s6: aqui perto, no mes pas-
sado, aconteceu um acidente no rio Iriri. Ha-
via toneladas de peixes morrendo, a popula-
qao de Altamira e de alguns povoados ficou
em estado de alerta, e algumas vezes de pa-
nico, porque se achava que a agua estava con-
taminada, e se levou quase um m8s e meio
para saber o que aconteceu exatamente ali.
NIo 6 s6 ter o recurso tecnol6gico, 6 ter uma
visao que seja incorporada no process da
vida regional, que nao seja essa visao de guer-
ra, essa vislo da centralizalqo e vislo geo-
politica que precisamos ter, essa parafemd-
lia, como houve, As vezes, no ano passado.
Em novembro veio Brasilia com o Gre-
enpeace fazendo opera~ o no Xingu, que aca-
bou favorecendo o maior grileiro da regiao,
o maior extrator de madeira da regilo. Se 6


possivel, se 6 necessario, se 6 aconselhAvel,
se 6 saudAvel para a Amaz6nia ter um centro
que vA coordenar tudo isso, eu diria: tudo
bem, entao vamos renunciar A ADA, vamos
jogar fora essa heranga terrivel da Sudam, e
nao precisa mais ter coordenag o, o 6rgao que
pense estrategicamente, pense at6 geopoliti-
camente, que ordene isto tudo, que d8 uma
integraqdo ao governor federal, As political
plblicas, entao vamos jogar fora a ADA.
Eu nao estou fechando o debate porque acho
que ele estA comeqando e nao deve ser fecha-
do. E a visdo de quem esta ha 37 anos na estra-
da, que jA viu o Radam, que jA acompanhou o
Sivam e que esta vendo que vamos continuar
cor uma diretriz equivocada porque ela parte
do pressuposto de que a fonte da centralizaqAo
6 a visao metropolitan, e nao a da regiao.
Acho que nao podemos fechar o debate,
temos que continud-lo, por6m precisamos ser
convencidos de que esta estrutura centralizada
fora da region 6 necessaria e 6 dtil A Amaz6nia.


GILBERTO CAMERA Entendo bem a
posiq o do Lticio, s6 queria explicar o seguin-
te: para um debate ser ttil ao piblico, as di-
verg8ncias precisam ficar claras, estamos con-
cordando que n6s divergimos. Deixo claro
aonde 6 que discordo de voc8.
A Amaz6nia, vamos dizer assim, como
foi colocado aqui anteriormente pelo Rober-
to, a competencia cientifica da Amaz6nia vem
evoluindo de forma substantial nos tiltimos
anos; se ela nio 6 o que gostariamos, ela tam-
pouco 6 o que n6s tinhamos hd 20 anos atrds.
Olhando, existe uma questao bAsica de se-
parar a capacidade de coleta de dados. Por
exemplo: se eu tenho estaqces de coleta de
dados ao long dos principals rios da Ama-
z6nia, e elas estao integradas, o Museu Go-
eldi ou outro organismo, a Sudam, pode sa-
ber rapidamente se ha poluigqo no rio ou nao
no exemplo que voc8 citou. O caso das ima-
gens que o radar adiantou, com todos os de-
feitos que ele possa ter na sua concepqao,
ele fornece dados que podem ser fiteis para
biodiversidade, nao necessariamente s6 para
detectar pista clandestine.
O dificil, hoje, no Sivam, 6 como 6 que
voc8, daquela infra-estrutura toda, seleciona
os conjuntos de dados a serem repassados,
como 6 que os dados de coleta, como 6 que os
dados de meteorologia, como 6 que os dados
de sensoriamento remote vdo para as pessoas.
Eu acredito na compet8ncia, acredito que o
sensoriamento remote 6 uma tecnologia que a
Amazonia precisa internalizar cada vez mais,
e chegar e dizer: quero que o aviao voe ali,
porque tenho um projeto de biodiversidade em
Maraba; quero ter sensors em tal local, por-
que aqui 6 uma coisa especifica para um estu-
do ambiental na Amazonia.


Nao acho que a tecnologia implantada de
coleta de dados do Sipam seja necessariamen-
te um maleficio em si; ela precisa estar orga-
nizada de tal forma que as instituicqes cienti-
ficas da Amazonia consigam colocar a mao
nestes dados. E este o dilema que temos hoje
em abrir a caixa preta.
A geopolitica de ter instruments de co-
leta da Amaz6nia nao 6 um mal em si, ela
pode ser ltil, muito dtil para a comunidade
cientifica, comunidade ambiental e a comu-
nidade political da Amaz6nia.

IMA VIEIRA Ldcio, voc8 tem alguma
pergunta?

LUCIO FLAVIO PINTO S6 queria dizer
o seguinte: n6s tinhamos isso, tinhamos cen-
tro de hidrologia e climatologia da Amaz6-
nia na Sudam, que estava evoluindo. Tinha
seus problems, as suas defici8ncias, mas du-
vido que, com os recursos que foram coloca-
dos A disposiqdo do Sivam, ele nao evoluiria.
Acho que ficamos cortando as cabeqas daqui
e fazendo crescer as de fora, estamos trazen-
do uma macrocefalia ex6gena.
(...)

Membro da Sociedade Brasileira de Geo-
logia A Ima colocou que temos que ser bem
sint6ticos, e por isso vou reduzir a imagem
que fiz de tudo isso at6 agora. Lembrou-me
muito aquela hist6ria da "roupa do rei", que
todo mundo vd o rei nu, mas s6 uma crianqa
vai e assume. Este debate aqui, este volume
de informacqes ajuda-nos O Ldcio Flivio
sempre coloca que os amaz6nidas sempre
andam a reboque da Hist6ria. N6s somos ato-
res coadjuvantes e sempre participamos como
atores coadjuvantes nas decisoes sobre a
Amaz6nia. De modo geral sao decididas 1
fora e s6 ficamos olhando, o Liicio Flivio
sempre coloca essas coisas. E mais uma vez
aconteceu que viemos discutir este Sivam
agora depois de estar j bern andado, mas de
qualquer maneira nunca 6 tarde.
A minha questao, dentro do muito que po-
derfamos discutir aqui, 6 a questio das leis e o
que se pretend. Por exemplo: n6s, do serviqo
geol6gico, nao conseguimos entrar em uma
area indigena sequer para conhecer o potenci-
al de recursos minerals que existe 1d. Elas sao
protegidas e agora, 1h em Roraima, os garim-
peiros estdo cor seus avi6ezinhos reinvadindo
as areas do Ianomfmis, passando por cima dos
aeroportos da Aeronautica, passando por cima
dos quart6is do Ex6rcito e ningu6m consegue
center o avango do home sobre recursos na-
turais. E agora se cria no Amapi uma grande
reserve no parque do Tumucumaque. A nossa
Amaz6nia na faixa de fronteiras esta toda to-
mada por area de protegqo, por areas indige-
nas, e o que vai se fazer com todo esse Sivam,
corn todas essas informaqes para controlar e
desenvolver se nio pode sequer ocupar e nem
conhecer? O Ldcio Flivio poderia responder?

LUCIO FLAVIO PINTO Acho que nao
conseguimos ser os protagonistas da hist6ria
porque estamos sempre atrasados em relacao
aos temas. Somos chamados para o banquet
quando os convidados ji foram embora, en-
tao ficamos com os ossos do banquet.


4 1' QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 Jornal Pessoal









Acho que precisamos fazer uma nova con-
cepqlo territorial da Amaz6nia, precisamos re-
ver o espaqo da Amaz6nia, e precisamos ter
attitudes de coragem, de audicia, mas nio a au-
dacia verbal, formal, discursos eloqtientes. Nada
disso: ter certa audacia de mudar as coisas.
Permitam-me dar uma informac~o, que nio
sei se todos conhecem. Uma empresa, a Cons-
trutora C. R. Almeida, esti tentando se apro-
priar de 7 milh6es de hectares do Xingu. Sete
milhies de hectares que, se formassem um
estado brasileiro, seria o 21 maior Estado
brasileiro. Essa empresa quer fundar esse 21
Estado brasileiro no Para. Estd uma destruiqio
de mogno inacreditivel. N6s, mais velhos, vi-
mos como foram destruidas 10 irvores de mog-
no por hectare no Araguaia. Agora, no Xingu,
que tem 4 ou 5 arvores por hectare, s6 se fala
em milhares de toras de mogno estocadas, le-
vadas emjangadas imensas.
Existe o Estatuto da Terra, criado pelos
militares em novembro de 1964, que estabe-
lece o seguinte: "Nenhum im6vel rural pode
ter mais do que 600 vezes o m6dulo rural".
O m6dulo rural varia de um hectare, para
hortifrutigranjeiro, at6 120 hectares, para re-
florestamento. Entlo, nenhuma propriedade
rural no Brasil 6 legal acima de 72 mil hecta-
res. O cidadio quer 100 vezes isso. Estou sen-
do processado nove vezes na justica, exis-
tem nove processes contra mim promovidos
por desembargadores, pela C. R. Almeida,
pelo depositdrio fiel da madeira, porque te-
nho denunciado isso. N6s podiamos exigir
que nenhum im6vel rural no Brasil tenha mais
do que 72 mil hectares. Isso nio 6 comunis-
mo, 6 a nossa lei. Temos que encarar na nos-
sa regiio a realidade por tris dos conceitos
do mundo conceitual, do mundo formalista.
E levi-los A pritica.
Algumas pessoas consideram que ter Area
de protecqo na fronteira 6 uma forma de re-
servar o conhecimento para aqueles que po-
dem ter o conhecimento, e nio 6. Por exem-
plo: o pessoal do serviqo geol6gico nio con-
segue ter acesso a determinadas areas, mas
outros, fantasiados de missionArios, conse-
guem ter; outros, fantasiados de ONGs, con-
seguem ter. Mas isto nio significa que os mis-
siondrios e as ONGs slo ruins.
Ha ONGs e missiondrios ruins e bons. Te-
mos que ter a capacidade e a inteligencia de
separar a agua do vinho, ojoio do trigo. Como
vamos fazer isso? Nio 6 pela natureza geopo-
litica, nio 6 elevando o conceito de seguranqa
national, nio 6 estabelecendo regras de proi-
biqao formalistas, como aquela do coronel so-
bre a Volkswagen. E tendo a inteligencia. Mas
com 0,2%, no mAximo, do orqamento nacio-
nal de ciencia e tecnologia, vamos ter inteli-
gencia? Nio estou falando em intelig8ncia dos
que moram aqui, dos que nasceram aqui, mas
do que estio comprometidos cor a regiio,
como disse o Roberto, e em geral s6 esti com-
prometido aquele que vem A Amaz6nia mais
de uma vez por ano. Aquele que vem pelo
menos no inverno e no verio da Amaz6nia,
este esti vendo alguma coisa. Agora, o que
dita a "verdade de Boeing", este nio esta com-
prometido com a Amaz6nia.
Vou dizer para voc8s, abusando um pou-
quinho do audit6rio, s6 um minute. Tenho
estudado muito o imp6rio pombalino, na


metade do s6culo XVIII na Amaz6nia. As
vezes, de madrugada, quando acordo com
ins6nia, penso assim: sera que se o Marquis
de Pombal tivesse realizado seu projeto e cri-
ado condiques para vencer o imp6rio brasi-
leiro na Amaz6nia, a regiio nio estaria me-
Ihor do que esti hoje? Da mesma maneira
como se Nassau tivesse ganhado 1a no Reci-
fe, nio estarfamos melhores?
Isso ndo interessa para o present. Nds
nao precisamos de doutores, sejam nacionais
ou estrangeiros; n6s temos que ganhar a ba-
talha da inteligencia, do conhecimento. Se as
fontes do conhecimento estdo id fora, ndo
vamos conseguir trazer se ndo soubermos
onde estdo, avaliarmos o que representam e
tivermosforgaspara deslocd-los do centro he-
gembnicopara cd. No entanto, nao consegui-
mos nem fazer com que a sede da Eletronor-
te, empresa do sistema Eletrobrds com juris-
digio sobre a Amazonia, instale sua sede em
Belem, capital do Estado no qual ela obtim
80% da energia que gera. E um abuso: a Ele-
tronorte vaifazer trinta anos [fez, emjunho]
agora em Brasilia, ondefoi instalada e onde
permanece ate hoje. E a anica empresa do
sistema Eletrobrds que ndo estd baseada na
sua irea de atuacdo. E sempre a Eletronorte
nos embromou dizendo que, Id estando, se
beneficiava de estar mais pr6ximo do poder,
podendo barganhar melhor.
Acho que n6s precisamos comeqar a ter
uma certa audicia, nio na verborragia, nao
porque estamos aqui, nascemos aqui, nada
disso, mas sim porque a nossa inteligencia
maxima estd aqui e precisamos trazer isso
para ca. Tem que ter um Sivam 6 aqui, nao
em Brasilia nem em Sao Paulo.



.,










MARIVAM Aproveito a oportunidade
impar; na verdade nao you fazer nenhuma
pergunta aos components da mesa. Isto para
mim 6 uma oportunidade impar porque che-
guei a trabalhar hd 15 anos neste Projeto Ra-
dam, isto em 1971, e aquele posicionamento
do nosso colega D'Allagnol 6 verdadeiro, ou
seja, comeqamos a trabalhar com o Radam,
cor uma tecnologia nova de radar, mas na
verdade nio sabiamos trabalhar corn ela, po-
r6m aprendemos a trabalhar. Graqas a este
esforqo o D'Allagnol fez uma colocaqio que
achei muito interessante. Por que o Radam
deu certo? Por que temos aqui 34 volumes
publicados pelo Radam e ainda existed 4
volumes a serem publicados?
O Radam foi criado em 29 de outubro de
1970 e efetivamente comeqou a trabalhar em
1973, e a sua primeira publica~go foi em 1974.
Eu, por exemplo, me entregaram uma image
do Radam e eu nao sabia o que era aquilo, tive
que aprender, e parece at6 que aprendi, tanto


que escrevi um livro, depois fiz uma tese de
doutorado em cima disso. Acho que o Radam
deu certo porque houve vontade de fazer al-
guma coisa. Observem: se o Radam fosse cri-
ado hoje ele jamais seria realizado, se nos re-
portarmos a 6poca. Naquela 6poca o que exis-
tia em terms de meios, de vias de comunica-
qgo? Nada. Comecamos a trabalhar pelo Nor-
deste e depois trabalhamos com helic6pteros.
Quando o Roberto se referiu Aqueles pontos,
eram pontos de helic6pteros, nao pontos de
levantamentos.
Uma outra coisa: o Radam na verdade nas-
ceu em Minas Gerais, houve um projeto li e
atrav6s da experi8ncia desse projeto foi pen-
sado em ser trabalhado na Amaz6nia; traba-
Ihei at6 1978 aqui na Amaz6nia, depois fui
para Salvador, e hoje trabalho no IBGE, e
como eles tem um contrato de serviqos com o
Sivam para atualizar todas as informaqaes so-
bre recursos naturais da Amaz6nia, envolven-
do geologia, geomorfologia, solos e vegeta-
qao, estamos tendo a oportunidade de jogar
todos estes dados em meios magn6ticos.
Quando o Radam saiu da Amaz6nia em
1978, a id6ia seria pegar todos esses volu-
mes (34, sendo que 22 pertencem a Amaz6-
nia) e jogar em meio magn6tico; hoje esta-
mos tendo essa possibilidade.
Fazendo um resume, evoluimos muito. O
projeto Radam formou pelo menos uma es-
cola de profissionais, nio s6 ge6logos, geo-
morf6logos, engenheiros florestais, engenhei-
ros agr6nomos, que aprenderam a trabalhar
ali. E grande parte deste pessoal se encontra
hoje no IBGE prestando servigos.
A questio que o Licio falou sobre o cal-
cario, confundiram calcario com ferro. Ali 6
falta de chio. Agora, acho dificil o Hermann
Kahn naquela 6poca imaginar a existencia de
petr6leo em Urucu. Mas ...

LUCIO FLAVIO PINTO E que o Hermann
Kahn nio considerou o Urucu, evidentemen-
te, mesmo porque o grande lago nio chegava
at6 li, no Urucu. O que ele considerou foi a
bacia sedimentar do rio Amazonas, a maior
do planet, onde surgiu ajazida de Nova Olin-
da. Era natural que se esperasse petr6leo ali,
mas, como eu disse, o Hudson Institute apre-
sentou o projeto do grande lago como uma
barrage de baixa queda para produzir 100
mil megawats. Mas na verdade isso era uma
"conversa para boi dormir": o lago era para
acessar as Areas do Pr6-Cambriano, que pode-
ria ser explorado cor a tecnologia da 6poca.
Ja o petr6leo ficaria para depois, quando se
alcanqasse o nfvel tecnol6gico apropriado para
operar sobre limina d'Agua. Seria no future,
quando os arabes dessem o choque do petr6-
leo e o litro de gasoline nio fosse mais barato
do que um litro de agua mineral.
Gostaria s6 de destacar este trabalho do
Radam porque acompanhei de perto o tra-
balho da equipe, que conferiu a importan-
cia da campanha de campo. Estafoi a gran-
de contribuigdo do Radam: as pessoas iam
aos lugares, faziam os voos de helic6ptero,
quefoi o quefez a grande diferenga em Ca-
rajds. Ate entdo o trabalho era de interpre-
tagdo, feito com o material rolado, alterado
quimicamente. Entdo era andlise quimica
quase sem checagem de campo. Quando o


Journal Pessoal 1- QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003









pessoal da United States Steel pousou de
helic6ptero na clareira foi fdcil detector o
minerio deferro.
Acho que a grande contribuiqeo que o Ra-
dam di e deveria servir de exemplo 6 de voce
fazer estudo de campo li no lugar, ir a todos
os lugares.
(...)


GILBERTO CAMERA Tive a oportuni-
dade de conhecer pessoalmente o L6cio Fld-
vio, pois j conhecia muito dos escritos dele.
Quero comegar primeiro dizendo que,
pelo seu crit6rio Licio Fldvio, sou quase
amazonida porque ja estive duas vezes este
ano aqui em Bel6m a convite da Ima, e ao
contrArio do que voces possam ter pensado
nao sou paulista, sou cearense de Quixera-
mobim, da cidade mais seca do Brasil, te-
nho outra vivancia.
Mas gostaria de comecar dizendo, pelo
que o Marivam colocou em relacdo aos da-
dos. Se naquela 9poca, acho que em 78,
tivesse mudado os dados para meio mag-
netico; sabe o que tinha acontecido Mari-
vam? Voc6 ndo ia conseguir mais ler. A
melhorforma de preservar um dado e pu-
blicar, voce ve ali, conseguimos ler e isto
nos leva ao ponto que vdrias pessoas le-
vantaram; como e que os dados chegam
no meio acadsmico? Primeiro o seguinte:
o SIVAM ter os dados e de que format
vai estar o [falha na transcriq~o] do Sivam ?
Ser6 que o Museu vai conseguir ler o [ou-
tra falha] do Sivam? Ou, como e que o
Museu consegue ler os dados, para come-
car, e fazer uso deles ?
Sd voltando a hist6ria da caixa branca,
estamos nesta brincadeira hd muito tempo,
e desde que comecou o Sivam nds optamos,
vamosfazer o contra-Sivam, que e colocar a
tecnologia que estd na web, a tiltima versdo
nossa d open code, ou seja, c6digo aberto,
cddigofonte aberto e voce pode fazer o que
quiser com ele, porque acreditamos que hoje
o desafio na drea digital e ter o dado, saber
le-lo, saber o conhecimento todo que estd por
trds e a tecnologia em que isto estd. 0 desa-
fio que a comunidade vai ter com relacdo ai
tecnologia e ao conceito do Sipam/Sivam vai
alem de exigir os dados do Sipdm/Sivam, vai
ser: como e que consigo utilizd-los para um
fim que seja util para a comunidade cientifi-
ca, ambiental, political, brasileira?
E necessdrio, o linpe estd dando a sua
contribuiqao sem ningu6m pedir porque
isto 6 nossa missao, mas outras instituiq6es
tamb6m tem que trabalhar em desenvolver
cooperativamente conhecimento. O mode-
lo de cooperagao do meio digital 6 possi-
vel, mas exige vontade e vontade instituci-
onal. Como 6 que os dados chegam? E


como 6 que voce faz para abrir? Tem todo
um debate que precisamos fazer.

LUCIO FLAVIO PINTO Vou formular
uma pergunta que foi encaminhada por es-
crito pelo Jeferson Alex, aluno do curso de
mestrado de botanica tropical do Museu:
"O program Sipam, o projeto Sivam, o
Calha Norte, o Piano Col6mbia vem de
encontro A id6ia do G8 em implantar o pro-
cesso de internacionalizaqao da Amaz6nia.
Por que, nesse perfodo em que vivemos,
de neoliberalismo, nao conseguimos nos
tornar um pais auto-sustentAvel, capaz de
passar da posiqao de 'col6nia' para a de
aut6nomo, quem sabe, suplantando os Es-
tados Unidos? Por que nao conseguimos
andar cor os nossos pr6prios p6s, como
aconteceu cor o Japao e Alemanha no p6s-
segunda guerra mundial, implantando a
morat6ria, ou saldando as nossas dividas,
visto que temos a maior biodiversidade e
potential do mundo?"
Jeferson, se eu fosse responder, irfamos
comeqar tudo de novo, entao a palestra que
terfamos que dar aqui teria que iniciar se eu
pudesse e se fosse capaz de responder a essa
pergunta. Vou pegar o mote para dar um tes-
temunho pessoal sobre a questao bdsica, a
questao crucial.
Como associar, como compatibilizar a agen-
da do cidadao a agenda da hist6ria? Esse 6 o
grande desafio que todos n6s, intelectuais, que
comemos tras vezes por dia e podemos traba-
lhar corn a cabeqa, temos diante do pais.Como,
na hora de decidir, oferecer aos que vdo decidir
e permitir que a decisao seja partilhada pela
maioria, ter outras informaq6es para decidir
corretamente. Esse 6 o grande desafio.
Na hist6ria recent tivemos um moment
terrivel, quando se comeqou a construir a hi-
drel6trica de Tucuruf. Esta 6 a maior obra pd-
blica da hist6ria da Amaz6nia, 6 a segunda
maior obra piblica da hist6ria do Brasil. Sua
viabilidade foi definida num orqamento de 2,1
bilhaes de d6lares, e hoje sabemos, embora
esse dado seja violentamente reprimido pela
Eletronorte, que o custo dela atualizado pas-
sou de 10 bilhoes de d6lares. Nesse moment
em que comecou a construcqo de Tucurui, n6s,
jomalistas a serviqo da opiniao piblica, pro-
curamos os 6rgaos cientificos, as universida-
des, para esclarecer o que era construir uma
barrage deste porte, com 70 metros de altu-
ra, represando o 250 maior rio do planet, na
Amaz6nia. A universidade nao soube respon-
der, nao quis responder, fugiu da resposta.
Lembro que em 1984, no auge de um de-
bate provocado pela imprensa A base do en-
saio e erro, o director do Inpa (Instituto Naci-
onal de Pesquisas da Amaz6nia) naquela 6po-
ca, que 6 o grande colaborador hoje do Si-
pam, Roberto Vieira, veio a Assembl6ia Le-
gislativa do Pard. No meio de um debate,
quase de forma desapercebida, ele disse que
era possivel fazer o enchimento do reserva-
t6rio da hidrel6trica de Tucuruf em duas eta-
pas. A Eletronorte considerava como "lei de
Salomao" que s6 podia encher de uma s6 vez;
uma vez iniciado o enchimento, teria que
encerrd-lo no mesmo period hidrol6gico.
Fui malandramente com o dr. Roberto
Vieira, a quem jd conhecia de outros tem-


pos, e disse-lhe: "Dr. Roberto, di para o
senhor colocar no papel o piano de enchi-
mento em duas etapas: a primeira at6 a cota
54, depois at6 a cota 72"? Ele disse que
nao tinha problema, ao chegar em Manaus
iria me mandar. NIo mandou na primeira
semana, cobrei pelo telex. Nao mandou na
segunda, cobrei por telex. Nao mandou na
terceira, cobrei por telefone, liguei para ele,
force, at6 que me enviou um telex, que
guard hoje como document terrivel da
hist6ria da ciencia na Amaz6nia, mandndo
dizer que estava proibido pela Eletronorte
de divulgar informagoes cientificas, por-
que o conv6nio fechou a boca cientifica do
Inpa, que foi um escravo e um servo da Ele-
tronorte em todo o process de construqCo
da hidrel6trica de Tucuruf.
As instituiCoes cientificas, que vivem a
mingua na Amazonia, estdo sujeitas a pas-
sarpor isso, inclusive o Museu Goeldi estd
sujeito tambim. Toda grande obra que per-
mite realizaCdo de pesquisa, como estamos
vendo no Rima que a Fadesp [fundaqao de
pesquisa da Universidade Federal do Para]
gerenciou do projeto de Belo Monte, estd
fadado a passar por isso, e o cidaddo ndo
vai receber a informacdo, ndo porque a in-
formacdo ndo foi produzida, ndo porque
ndo se tem o meio tecnol6gico de difundi-
la ao mdximo. E porque existe umfator mais
forte que limita a divulgagdo: a vontade de
quem cede o dinheiro.
Entao, as universidades e os centros de
pesquisa nao responderam ao cidadao como
construir corretamente uma hidrel6trica,
embora a ci8ncia ji tivesse informaqao su-
ficiente para mostrar que famos fazer o ab-
surdo que se fez em Tucuruf, como se fez
em Balbina, como se fard em Belo Monte.
A grande questdo que permeia tudo isto 6:
como terms a informag~o para sermos pro-
tagonistas da hist6ria?
As vezes precisamos ir a campo, daf a
minha brincadeira de exigir que se venha
aqui duas vezes para ter concedido o seu
diploma de amazonida, e tudo mais; de que
as pessoas venham aqui, se incorporem A
regiao e continue fora com o seu distan-
ciamento crftico. Por exemplo, you ao
Jari hi um bocado de tempo e vejo,
numa distfncia de 500 metros, uma fi-
brica de caulim e uma fibrica de celu-
lose juntas, e a minha cabeqa exige: cade
a fibrica de papel? Por que nIo pode-
mos avanqar na escala de agregafio de
valor? Af vem os cientistas, v6m os inte-
lectuais e dizem, hoje, sobre este absurdo,
que estamos long do mercado e nao 6 via-
vel produzir papel na Amaz6nia. Estamos
nos tornando o 30 maior produtor de cau-
lim do mundo, nao produzimos uma grama
de papel, exceto o que a Facepa produz nas
condiqGes em que o produz.
Na metade da d6cada de 50, quando co-
meqou o primeiro grande projeto com a ex-
ploraqao do manganes do Amapi, os Glycon
de Paiva, os Eugenio Gudin e os Roberto Cam-
pos tamb6m diziam que tinhamos que mandar
tudo para os Estados Unidos porque era invi-
avel mandar o manganes para o sul do Brasil
para avanqarmos na siderurgia. Por isso man-
-mmmmmmm


6 1A QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 Journal Pessoal











Violencia e brutalidade:



o cotidiano em Maraba


Foi entire nove e 10 horas da noite que
Jos6 Ferreira da Silva Filho matou Francisca
Elisier Vidal Chaves. Deu-lhe um violent
golpe de porrete na cabeqa. Ela caiu, mas nao
morreu. Recebeu, depois de certo intervalo,
um segundo golpe. Para nao ter ddvidas, Jos6
enforcou-a corn um barbante, enrolado no
pescoqo da mulher e apertado com toda for-
qa. No inicio da tarde do dia seguinte, o cri-
minoso matou por asfixia, usando um traves-
seiro, as duas filhas de Eli, como sua vitima
era conhecida. Enrolou os tr8s corpos num
mesmo lenqol e enterrou-os, em cova rasa,
com um metro de profundidade, debaixo de
uma pia, na area de servigo da casa.
O crime foi cometido em Marabi, no dia
16 de julho. S6 foi descoberto tres meses e
meio depois. Os corpos, decompostos, foram
exumados no mesmo lugar onde haviam sido
enterrados. O assassino confessou tranquila-
mente o triple e bArbaro homicidio, quando
interrogado. O resume do casoji seria o bas-
tante para provocar choque em qualquer lu-
gar do mundo, nao s6 pela brutalidade do
enredo como pela frieza do matador. Hi mui-
to mais, por6m.
Jos6 Ferreira tem 19 anos de idade. E
t6cnico em informitica. Saiu de Imperatriz,


no Maranhao, corn a amante, de 17 anos,
para tentar a sorte em Marabi, na mais in-
tensa rota migrat6ria da regio. Encontrou
Eli, de 39 anos, vendedora aut6noma, que
decidiu ceder ao casal desconhecido um
dos dois quartos de sua casa para aumentar
a renda da famflia. Depois que o marido
morreu assassinado, quatro anos atras, ela
teve as filhas no relacionamento com ou-
tros dois homes, um dos quais mora em
MarabB (mas estava viajando quando ela
foi assassinada) e o outro, negociante de
madeiras, vive em Miami, nos Estados Uni-
dos. "Marretava" colchas, perfumes e pro-
dutos para emagrecimento, usando uma
motocicleta para chegar as clients. Assim
garantia a satide de suas bonitas filhinhas:
Sara Kele Vidal Chaves, de sete anos, e
Rebeca, de tr8s, mortas por asfixia. A se-
gunda nem tomou conscidncia do fato. A
primeira pressentiu a ameaqa, mas nada
p6de fazer para se defender.
O massacre das tres sempre esteve mui-
to long de ser um crime perfeito. O alibi
e as explicaq6es de Jos6 e de sua amante
eram inconsistentes, mas os amigos e a
irma dnica de Eli, que passaram a procu-
ra-la por causa da sibita viagem e a pro-


longada ausencia, s6 tomaram uma inici-
ativa pritica quando os elos da trama fo-
ram se dissolvendo e a mentira comeqou
a aflorar. Jos6 falsificou a assinatura de
sua vitima nos cheques dela, que passou a
usar, e no recibo da alegada compra do
im6vel, numa transagqo cujas caracteris-
ticas (de sdbito, efetuada com desleixo)
contradiziam o comportamento anterior da
proprietaria da casa.
A avolumaq~o de suspeitas chegou a po-
licia, que rapidamente obteve um manda-
do de prisao temporaria para o suspeito e
sua confissao de autoria. Jos6 explicou que
matou para ficar com a casa e se estabele-
cer em MarabA. E ponto final.
Talvez ningu6m se tenha impressiona-
do com tantas contradiq6es nas hist6rias
que o novo dono da casa passou a dar por-
que, tiradas as aberrantes cores dessa bru-
talidade, ela seja um component do coti-
diano em Maraba. No final-de-semana da
descoberta macabra, a cidade registrou sete
mortes. Muito sangue. Como de habito.
E, dias depois, um fazendeiro, preso
por tamb6m cometer homicidio, fugiu
prosaicamente pela porta principal da
penitenciaria.


mmmmmmm m
damos um milhAo de toneladas por ano, du-
rante quatro d6cadas. Depois, quando o teor
de manganes baixou de 48 para 42, para 40,
para 38, ai a matematica torou-se desneces-
saria, a matemitica frivola, e exportamos tudo
para o sul do pafs, ou seja, o resto do manga-
nes, o que sobrou do banquet mineral.
Acho que todos n6s, que temos boa f6, que
usamos a cabeqa e que
comemos o suficiente -_
para tranqiiilizar o es- --
t6mago, temos que
permitir que estas in-
forma6oes estejam 1
presents no moment
da decisao. O terrivel
na Amaz6nia 6 que os
moments de decis6es
graves se sucedem sem
que saibamos. Somos verdadeiros Luis XVI
abrindo a agenda e dizendo: nada de novo; af
vem a Revoluqao Francesa no dia seguinte.
Agora em 2003 poderemos ter um pro-
blema absolutamente novo na Amaz6nia: um
rio ficard congestionado pelo transport de
um mindrio. A Mineraqao Rio do Norte esta
pretendendo produzir 16,3 milhoes de tone-
ladas de bauxita. Nao produzird mais porque
o rio Trombetas nao comporta. Por isso a
Companhia Vale do Rio Doce abriu uma se-
gunda frente em Paragominas. Uma mina que


estava sem viabilidade ou interesse se tor-
nou economic bruscamente.
O que a ciencia esti dizendo para isso? A
ciencia e todas as formas de coleta de infor-
mac~o, transmissdo, processamento e elabo-
raq o, estao disponiveis. Mas por que nao
soubemos na hora se a poluiqgo do Iriri era
uma causa natural ou derivada de poluicqo
do home? Porque, apesar de toda essa pa-
rafernmlia, o rio 6 um
lugar de passage de
mat6ria-prima para o
exterior, o rio nao 6
font, o e de civilizao,
nao 6 fonte de vida.
Scontra essa geo-
politica que me insur-
jo. NMo 6 que eu quei-
ra ser o dono da ver-
dade por ter nascido
na Amaz6nia, n~o. Acho que 6 o contririo:
comrn o nosso crescimento vegetative, atW no
intellectual, ndo vamos conseguir dar conta
do desafio da Amaz6nia. Precisamos da soli-
dariedade dos nossos irmaos, aqui do Brasil
e do exterior. Mas precisamos dialogar no
mesmo nfvel com eles, precisamos que a nos-
sa relaq~o seja pautada pelo respeito de quem
esti encarando aquele que sabe. Acho que
esta sucessao de debates deve significar que
estamos na hora da hist6ria, de dar a r6gua e
o compasso para quem vai faz&-la.


Journal Pessoal 1 QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 7


Vsip'it, a.. ;- 4>. *I -*

Alumfnio
Depois da Albrds, vitima de um
grave acidente ocorrido em 1991,
agora foi a vez da Alumar, a fibri-
ca de alumfnio de porte semelhan-
te, instalada em Sao Luis do Ma-
ranhao. Tres meses depois da ex-
plosdo de um dos seus retificado-
res, s6 agora o Cons6rcio de Alu-
minios do Maranhao estd retoman-
do as operaq6es de sua linha de
produgqo ndmero 2, responsivel
por 40% da produqao, de 12 mil
toneladas de metal por m&s, inter-
rompida pelo acidente.
A reativagqo dessa linha serd
progressive, s6 se normalizando a
partir do final do pr6ximo m8s. Por
causa do acidente, a Alumar deve-
ra produzir 330 mil toneladas de
alumfnio neste ano, contra uma
previslo inicial de 383 mil tonela-
das. Al6m de ter que gastar 20 mi-
lh6es de d6lares no reparo da li-
nha, a empresa sofrerd uma redu-
qao de US$ 80 milh6es no fatura-
mento de 2003.










Imprensa e sociedade


ainda na escuriddio


Um dia depois de Florian6polis, Bel6m
amanheceu sem luz. Mas foi s6 um susto.
Felizmente, a interrupcqo nao foi muito
al6m de meia hora. No dia seguinte, entre-
tanto, os paraenses que se informaram so-
bre o blecaute pelos doisjornais didrios de
Bel6m tiveram que se contentar com uma
noticia curta e superficial, produzida em
Sao Paulo pela Ag6ncia Estado, do journal
0 Estado de S. Paulo.
Nao sei se outros leitores tiveram a mi-
nha sensaq~o de estupor. Tanto o podero-
so O Liberal quanto seu concorrente, o Di-
drio do Pard, nao se dignaram a mandar
um reporter, um s6 que fosse, indagar so-
bre o acontecido. Desavergonhadamente,
se limitaram a colocar em suas pdginas o
registro produzido pela Ag6ncia Estado.
A agencia de noticias paulista, evidente-
mente, nao tinha o menor interesse em
aprofundar o tratamento de um fato que
em nada influiu na vida de paulistanos e
paulistas. Mas, e n6s?
O descaso da imprensa, nesse caso, che-
gou ~s raias da leviandade. Mesmo que nao
tenha sido demorada, a interrupqao no for-
necimento de energia alterou a rotina das
pessoas e provocou prejuizos, ainda que de
menor monta. Esse 6 um aspecto.O mais im-
portante, por6m, diz respeito a repetigqo
desses incidents, nao satisfatoriamente ex-
plicados, particularmente pelo responsdvel
pela geraqao de energia, a Eletronorte.
Sera que o padrao de operaqio da usina
de Tucuruf e das suas linhas de transmis-
sdo estA dentro dos parametros exigidos?
Os manuais estlo sendo seguidos rigoro-


samente? Os programs de manutenq~o
estao conforme as normas? Os equipamen-
tos estao integralmente dentro das especi-
ficaq6es? Essas e tantas outras perguntas
slo cabiveis. Nao s6 em tese. A hist6ria
mostrard, a quem se interessar em perqui-
ri-la, que os paraenses tnm sido desaten-
tos, negligentes ou mesmo inapetentes no
acompanhamento do setor energ6tico no
Estado, apesar de s6 a hidrel6trica de Tu-
curui ser responsdvel por 8% da energia
produzida no Brasil e a Eletronorte operar
algumas das maiores e mais complicadas
linhas de transmissao existentes no pais.
Dois exemplos: enquanto rapidamente a
linha de Tucurui para Sao Luis do Maranhao
era duplicada, a daqui ficava na promessa,
embora em um dos eixos dessa linha esti-
vesse o maior consumidor individual de
energia do pais, a Albrds. AAlumar, em Sao
Luis, voluntariamente ou compulsoriamen-
te, encontrou um esquema atraente para par-
ticipar da duplicaq~o da linha. A Albrds, nao.
E nem a Eletronorte nem o governor se im-
puseram para p6r fim a temeridade da linha
singela de 350 quilbmetros de extensao.
Por causa disso, o segundo exemplo: o
blecaute de 12 horas ocorrido em 8 de mar-
go de 1991. Apesar do impact dessa in-
terrupcao, a Eletronorte mentiu quando ex-
plicou-a oficialmente e os paraenses at6
hoje ignoram que esse foi o maior acidente
jd sofrido por uma inddstria de aluminio
em todo mundo causada pela falta de ener-
gia. Continuamos mentalmente no escuro.
E nem sempre apenas mentalmente, o que
jd seria um blecaute terrivel.


LatifiUndio

O padre Ricardo Rezende, ex-pdroco de
Rio Maria, um dos personagens mais impor-
tantes do sul do Pard entire as d6cadas de 80
e 90, agora fora da regiao, deu uma longa
entrevista ao l6timo O Pasquim 21, a melan-
c6lica extensao da matriz, que estd nas ban-
cas. Perguntas muito fracas e respostas va-
gas. Nada a altura do entrevistado.
Intrigou-me, por6m, que padre Ricardo,
profundo conhecedor da realidade local, te-
nha dito que o tamanho m6dio das grandes
propriedades no vale do Araguaia seja de 150
mil alqueires. Nao ha ddvida que esses im6-
veis se enquadram como latifindios, mas a
m6dia estd muito abaixo da avaliaq~o de Ri-
cardo. Em hectares, significaria uma propri-
edade m6dia de 600 mil hectares. Nio ha
nenhuma desse tamanho.
A desproporqao ou 6 produto da press e
do superficialismo desse neo-Pasquim, ou
efeito do distanciamento do padre Ricardo.


Representaao
O president da Cimara dos Deputados,
como todos sabem, 6 Joao Paulo Cunha. Por
d ois motives principals: por ser do partido
do president da Repdblica, o PT, e por ser
do mais poderoso Estado da federaq~o, Sao
Paulo, que tamb6m 6 a base political (al6m de
o domicilio) de Luis InAcio Lula da Silva.
Mas dos 10 outros cargos da mesa diretora
da Camara, sete sao ocupados por politicos
nordestinos, tr6s do Norte e um apenas da re-
giao Sul (al6m da presidencia, o Sudeste nao
tem mais nada; nem precisa). Dos sete nordes-
tinos, quatro sao pemambucanos. Dos tr6s nor-
tistas, dois sao de Rond6nia e um de Mato Gros-
so (que j nem se consider mais Amaz6nia).
Confesso que fiquei surpreendido.
Voc6, nao?


Colunismo social: balcao de neg6cios


0 Estado de S. Paulo foi o tiltimo dos
jornais da grande imprensa brasileira a incor-
porar coluna social as suas paginas. Nao sem
uma grande resistencia internal. Coluna soci-
al era definida como coisa frivola, superfici-
al e ociosa na redag~o da traditional publi-
caqao paulista. Era e 6, em qualquer lugar.
Mas a bastilha do Estaddo acabou nao resis-
tindo ao ass6dio e adotou a coluna social.
Ela 6 uma seqCo quase tao indispensdvel
quanto o hor6scopo ou a previsao do tem-
po. Tem um dos mais altos indices de leitu-
ra de qualquer journal. E alguns dos seus
exemplos nio desmerecem sua notoriedade.
Ibrahim Sued, Jacinto de Thormes, Z6zimo
Barroso do Amaral, Daniel Mds, Ricardo
Boechat, Hildegard Angel e alguns outros
(mas poucos) nivelaram as colunas sociais
pelo alto, no mesmo nivel das melhores co-
lunas joralisticas.
Ultimamente, por6m, esse nivel desceu
aos subterraneos, principalmente entire


n6s. Diga-se que a queda nao 6 restrita As
colunas sociais, mas a quase todas as co-
lunas, inclusive os carros-chefes dos jor-
nais, o Rep6rter 70, em O Liberal (atual-
mente num louvavel esforqo
de recuperaqao, freqtiente-
mente infrutifero), e o Rep6r-
ter Didrio, no Didrio do Pard.
E inaceitdvel que a coluna
principal de um grande journal
seja dep6sito de press-relea-
ses (o que explica o absurdo
de haver mais jornalistas tra-
balhando em agencias de pro-
paganda e de assessoria do que
em jornais, mais atividade-
meio do que atividade-fim
nessa subversao hierdrquica).
Coluna 6 para publicar noticia ou co-
mentario exclusivos. Coluna social 6 para
explorarpotins e acompanhar as ativida-
des de personalidades p6blicas. Informa-


tivas e prazerosas mesmo sendo frivolas,
superficiais, preconceituosas, exclusivis-
tas e charmosas. Mas a m6dia do colu-
nismo social em Bel6m ter sido pouco
mais do que balcdo de neg6-
cios, extensdo de lobbies ou
posta-restante do anonimato
edulcorado, tudo isso embru-
lhado em textos sofriveis.
JA esta mais do que na hora
de as editorias dos jornais sub-
meterem essa cornuc6pia de co-
lunistas sociais a um process
de depuraq~o e consolidagqo
para que sobrevivam aqueles
espaqos que nos garantam um
direito elementary: nao regredir
a fase anterior, que os Ibrahim
e Z6zimo deixaram para tras, como entida-
des antediluvianas: o colunismo social que
6 sin6nimo de picaretagem ou instrument
de vontades provincianas e mesquinhas.


8 11 QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 Jornal Pessoal











Impacto de Belo Monte:



comecar tudo de novo


Os ministdrios do Meio Ambiente e de
Minas e Energia decidiram esquecer os estu-
dos feitos pela Fadesp (a fundagao de pes-
quisas da Universidade Federal do Pard), sob
contrato da Eletronorte, para a elaboraq~o do
EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental/
Relat6rio de Impacto Ambiental) da hidrel6-
trica de Belo Monte, no rio Xingu e reiniciar
o trabalho do zero. A decisao foi anunciada
na semana passada, pondo fim a uma contro-
v6rsia internal no govero federal.
Prevaleceu a posigqo firmada a partir do re-
conhecimento dajustiqa federal do Pard A a5ao
do Ministdrio Piblico Federal: o que a Fadesp
fez nao tem valor legal. O MP alegou que a
fundacqo nao podia realizar o servigo com base
em contratagqo direta, sem concorr8ncia pdbli-
ca, e a Eletronorte s6 podia iniciar os estudos
para o EIA-Rima com autorizagAo do Senado.
A decisao administrative deverd deixar sem
objeto o contenciosojudicial, caso a Eletronorte


desista (por ordem superior) de contestar o MP.
Nesse caso, tudo tera que recomeqar.
Ha um detalhe. A Eletronorte ji gastou
4,4 milh6es de reais com as pesquisas da Fa-
desp. A fundaqao tera que devolver o dinhei-
ro A estatal, que precisarA se acertar com o
Tribunal de Contas da Unido sobre o contra-
to, se reconhecida sua ilegalidade.
Ainda que tudo isso se confirm, quem ga-
rantird que o material produzido pelos pesqui-
sadores contratados pela Fadesp nao serf usa-
do no EIA-Rima? E de bom senso e media de
economic que isso aconteqa, ao inv6s de dupli-
car esforqos e verbas? Por enquanto, perguntas
ao ar. Pelo sim, pelo nao, o govemo Lula reser-
vou R$ 8,1 milh6es no orqamento deste ano
para os estudos do impact ambiental de Belo
Monte, praticamente o dobro do que foi aplica-
do no govero tucano que o antecedeu.
Num discurso feito na Camara no inicio
de setembro, o deputado Nicias Ribeiro, do


PSDB, garantiu que os estudos ambientais de
Belo Monte "jd estAo concluidos" e que a exe-
cuqao da obra 6 apenas uma questo de tem-
po. Tempo muito caro, pois, segundo o par-
lamentar, "ha um prejuizo da ordem de 100
mil d6lares a cada semana, pelo atraso na
construcao dessa hidrel6trica", para ele "o
projeto hidrel6trico mais perfeito e belo da
hist6ria da engenharia mundial".
Nicias acredita que, alem de Belo Mon-
te (que continue a considerar como tendo
potencia de 11 mil megawatts, embora o go-
verno ja fale em 7,7 mil MW), saird outra
usina a montante, a de Altamira, com ou-
tros 6,5 mil MW. Assim, a volta grande do
Xingu ird gerar tanta energia quanto a mai-
or hidrel6trica em construcao no mundo, a
de Tres Gargantas, na China.
Converter essa bitola barragista no setor
el6trico nao 6 facil. Mesmo quando se quer
enfrentA-la.


Poeta do povo
Maranhao foi o apelido perfeito para
Ant6nio Carlos Carvalho. Ele personifi-
cou aquele modo de falar manhoso e can-
tante dos nascidos na sua terra de jos6s
& ribamares, acrescida de uma ironia
(resvalando As vezes para o sarcasm)
que assustava os mais desafeitos ao seu
humor. Mas quando encontrava um igual
(ou pior) do outro lado, Maranhao se
afeiqoava ao contender. Assim nos de-
mos bem, ele pilheriando de 16 e eu sati-
rizando de cA. Nunca alteamos a voz,
mesmo nos moments de discordancia.
O respeito era mdtuo.
Maranhao me escolheu antes de me
conhecer. Incluiu o Jornal Pessoal na le-
tra de sua mais bem-sucedida composi-
qFo, Nega, em parceria com Alfredo Oli-
veira. Por isso, amargou ser excomunga-
do dos veiculos das Organizaqces Romu-
lo Maiorana, cuja diretriz editorial costu-
ma ser ditada pelo figado. Nao importava
para Maranhao: ele queria mesmo era fa-
zer e nao acontecer. E fez muito ao long
dos seus 55 anos, que chegaram prematu-
ramente ao fim no mes passado.
Verdadeiramente um home do povo,
o compositor Maranhao incorporou o in-
consciente coletivo em suas mdsicas, infe-
lizmente deixadas A margem da divulga-
qao, mas que permanecem como o legado
desse maranhense bravo e bom. Maranhao
podia fazer suas as palavras do conterra-
neo Joo do Vale: se sua flor o vento pode
levar, o seu perfume fica morando no ar.
(Mas 6 de doer que esses amigos do
peito estejam se mandando deste vale tAo
cedo. Peraf, pessoal: vamos maneirar).


Norte?
0 Ministerio da Ciencia e Tecnologia estd montando o
Centro Regional de Ciencias Nucleares do Norte e Nordeste.
Tem sede em Recife e atuard "como um pdlo de
desenvolvimento para todo o Nordeste". 0 Norte, ao que
parece, entra apenas no titulo para enriquece-lo.
Esse ministirio, mais os da inddstria e o do meio ambiente,
estdo tentando implantar tamb6m o Centro de Biotecnologia
da Amazonia, em Manaus. No relatdrio de prestaago de
contas sobre seus oito meses de gestdo (e de despedida?), o
ministry Roberto Amaral diz que atualmente o CBA se limit
a ser "um predio construido e sem uso ", mas promote que se
transformard num centro de pesquisa de fato, formando ao
lado do Inpa e do Goeldi a linha de frente do
desenvolvimento cientifico-tecnoldgico da regido.
Apesar de ser apenas estrutura fisica, o CBA jd engoliu
18 milhoes dos 60 milhdes de reais nos quais
o seu projetofoi concebido.


Misterio chines


Madame Chiang Kai-shek,
que morreu no final do mes pas-
sado, em Nova York, seu exilio
dourado, era uma dessas pesso-
as que valia a pena conhecer.
Tendo chegado aos 105 anos, viu
trfs sdculos (o XIX, o XX e o
XXI), talvez os mais f6rteis da
hist6ria da humanidade. Ela pr6-
pria testemunhou um dos acon-
tecimentos mais marcantes des-
se period: a reativag~o da civi-
lizaq~o chinesa, renascida das
cinzas do colonialismo e matu-
rada em conflitos sangrentos.
Madame Chiang sobreviveu a
esses embates com uma impassi-


vidade verdadeiramente impressi-
onante, sempre parecendo estranha
as convulses e muito maisjovem
do que sua idade cronol6gica, in-
clusive ao ir-se deste vale de lAgri-
mas, aos 105 anos de idade, apa-
rentando 20 anos menos. Levou
consigo um mist6rio: a mascara
que carregava sempitema no ros-
to era sua pele ou era realmente
uma mascara? Era assim por ser
superficial ou porque protegia um
interior impenetrdvel? A frivolida-
de a preservou ou ela entendeu, ab-
sorveu e digeriu o seu tempo?
Dela, talvez, fiquem apenas
as boas perguntas que suscitou.


Landi
O arquiteto Antonio
Giuseppe Landi jd esta-
va com 40 anos quando
chegou A AmazBnia, na
segunda metade do s6cu-
lo XVIII, integrando a
missdo cientifica e cultu-
ral enviada A regilo pelo
d6spota esclarecido de
Portugal, o Marques de
Pombal. Mas foi nos 38
anos seguintes que Lan-
di realizou, aqui, sua
grande obra. O perfodo
anterior foi mais de pre-
paraqao e esboqo, na It&-
lia e em Portugal.
O Semindrio Internaci-
onal Landi e o S6culo 18,
que comeqard no dia 17, 6
a rara oportunidade de tra-
zer a Belnm especialistas
que nos ajudarao a com-
preender o maior de todos
os arquitetos da Amaz6nia
colonial no context do
seu tempo e a visdo do
nosso process hist6rico a
partir de fora. Esse 6 o lado
bom da programaq o. O
ruim 6 ela excluir quem,
dentre n6s, conhece Lan-
di em seu nicho amazoni-
co tao bem (ou mais, sob
certos aspects) do que os
ilustres visitantes.
Santo de casa continue
proibido de fazer milagres?


Journal Pessoal 1 QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 9











Quem vira atras



da usina do Xingu?


Certos elements do projeto mudaram,
critics feitas a partir de fora estlo sendo
incorporadas, mas o governor Lula se ren-
deu a Belo Monte. A sisuda ministry de mi-
nas e energia, Dilma Rouseff, classificou a
hidrel6trica de "j6ia da coroa". Entre outros
motives, principalmente porque cada mega-
watt nela instalado custard 12 d6lares.
Esse era o valor mirifico que os respon-
saveis pelo projeto esgrimiam como um
abre-te-s6samo, capaz de derrubar as portas
da incredulidade. Ceticismo que era parti-
lhado por t6cnicos que agora pularam o bal-
cao da oposiqao e estao agora do lado do
governor, repetindo o ndmero cabalistico.
Tenha 11 mil megawatts, como estava
decidido no governor Fernando Henrique
Cardoso, ou 7,5 mil MW (ou mesmo 5,5
mil MW, como alguns ja falam), a usina 6
um doce de coco. Inundara area menor ain-
da do que o previsto, serd submetida a uma
avaliaqao de impact ambiental muito mais
rigorosa, para minorar ou prevenir seus as-
pectos negatives, e continuara mais barata


do que qualquer outra forma de geraqao
energ6tica em escala comparAvel.
Por isso, a ministry de minas e energia
adiantou, na semana passada que hi "uma
pilha de investidores interessados em par-
ticipar do projeto". NAo um interesse em
abstrato, mas ja com negociagqes em cur-
so. O governor pretend apresentar Belo
Monte como um dos primeiros casos en-
quadraveis no modelo PPP (parceria pibli-
co-privada), que constitui a menina dos
olhos do mundo dos neg6cios no momen-
to. Ainda hi quem garanta que mesmo corn
o reinicio do zero do EIA-Rima e mais ri-
gor nas obras, a usina poderi estar pronta
em 2008 ou, no mais tardar, em 2009.
Esse apertado cronograma seria possi-
vel graqas ao novo esquema associativo.
Tres empresas ainda estatais (Furnas, Chesf
e Eletronorte) subscreveriam 49% das
aq6es da nova companhia, enquanto um
cons6rcio privado ficaria com 51%. A com-
posiq~o do cons6rcio ainda nao foi total-
mente fechada, mas por ele ja manifesta-


ram interesse grandes fabricantes estrangei-
ros de equipamentos, como a Alstom, ABB,
General Electric e Voith Siemens, e as cons-
trutoras Camargo Correa e Andrade Guti-
errez, todos eles tradicionais no ramo (e nas
suas extens6es e derivaq6es).
O grupo foi, significativamente, batiza-
do de "Cons6rcio Brasil". O mesmo do gru-
po que tentou assumir a Companhia Vale
do Rio Doce, com calor official. Conv6m,
portanto, acompanhar atentamente os pas-
sos que dara a partir de agora para assumir
uma das maiores hidrel6tricas do mundo.
Mesmo cor sua nova roupagem petista,
Belo Monte, se conserve o encanto precio-
so do passado, para quem sabe ver coroas,
tamb6m traz alguns de seus mist6rios. O
maior deles, ainda por decifrar, 6: cor to-
das as mudanqas e correq6es, o empreen-
dimento s6 6 viavel se, al6m da barrage
da grande curva do Xingu, outra ou outras
forem construidas rio acima?
Nesse ponto, nao se toca. Talvez por ser
um "detalhe", agora como antes.


0 banco

e o sarcasm
Ao comentar os movimentos
iniciais das pr6ximas eleiqGes
municipals (JP n 310) esse jor-
nalista finalizou a mat6ria com
uma certa dose de sarcasmo, con-
forme se 18 a seguir: "...especial-
mente as do Banco do Brasil e
do Banco da Amaz6nia (que co-
meqaram a ter uma inclicaqlo
partidaria, paralelamente a ado-
qao de crit6rios t6cnicos, na con-
cessao de cr6ditos)". Sabe-se
que, afora alguns rarissimos des-
vios de percurso, os pleitos no
Basa sempre foram discutidos e
decididos A luz das normas e dos
padres t6cnicos pertinentes. As
preferencias partidarias existem,
coexistem e sao salutares, mas
nao devem interferir no pacto
crediticio porque sao incompati-
veis com a operacionalizaq~o dos
investimentos produtivos. Vale
ressaltar, por oportuno, uma dis-
posiq~o de determinado setor da
imprensa deste pais ap6s a as-
censao do metaldrgico Luis Ind-
cio Lula da Silva em achinca-
lhar os seus colaboradores. Para


esse segment, o PT e seus alia-
dos sao uns despreparados e,
portanto, incapazes e incompe-
tentes. Aqui em Bel6m hA um
jornalista e politico frustrado que
vive hostilizando a administragqo
petista local e national. Esse pes-
soal s6 acredita nos super-ho-
mens produzidos pelo M. T. I,
por Harvard, Cambridge,
Oxford, etc., sitio de doutores
andlogos Aquele que formou os
dois americanos (premios Nobel
de Economia), responsaveis di-
retos pela bancarrota duma Cor-
retora nova-iorquina, no inicio
deste s6culo. Tamb6m as cabe-
qas pensantes que engendraram
as maiores fraudes nos grandes
conglomerados dos Estados Uni-
dos, foram forjadas nesses tem-
plos de inteligencia e sabedoria
que tanto encantam e embevecem
certa imprensa e a elite brasilei-
ra. NTo vejo razAo para subesti-
mar a militancia petista e seus
atuais apaniguados, sobretudo
porque os luminares que auxili-
avam (In aetemum) o grupo que
foi apeado do poder, nada fize-
ram em proveito da sociedade no
decurso de suas respectivas pas-
sagens pelos Minist6rios e pri-
meiro escalao do governor, a nio
ser preparar o passaporte para in-


tegrarem futuramente a iniciati-
va privada, e depois retorarem
ao govemo, num perfeitojogo de
oportunismo. Devo esclarecer
que nao sou filiado a nenhum
partido, s6 acho que a alternmn-
cia do poder faz parte dojogo de-
mocratico e ajuda a oxigenar o
cendrio politico.
Rodolfo Lisboa Cerveira

MINHA RESPOSTA
Onde o leitor viu sarcasmo hA
apenas critical (aliAs, nao respon-
dida por quem de direito). Aqui
nao se faz distingao de origem,
formaq~o ou opqao political, par-
tidAria ou ideol6gica. Analisa-se
fatos. A coleq~o do JP esta a dis-
posigao para contraditar a afir-
mativa do leitor de que os em-
pr6stimos concedidos pelo Basa
"sempre foram discutidos e de-
cididos A luz das normas e dos
padres t6cnicos pertinentes". A
comeqar pela segunda ediqAo
deste journal, de setembro de
1987, que denunciou o rombo de
30 milh6es de d6lares, comanda-
do pelo entao director e presiden-
te interino da instituicgo. Nem
sempre e, as vezes, nem princi-
palmente o rigor t6cnico preva-
leceu. Daf as sangrias financei-
ras registradas no passado (os


cr6ditos de dificil recuperagao
chegaram a somar duas vezes e
meia mais do que o capital do
banco, na d6cada de 70) e a sem-
pre existente possibilidade de que
se repitam agora e no future. O
que se conseguira mantendo um
acompanhamento alerta, s6rio e
critic, como estejornal procura
fazer, sem perguntar se o autor
tem titulo do MIT (o famoso
Massachussets Institute of Tec-
nhnology).
Se muitos dos tucanos que
nos enrolaram e enforcaram com
sua political econ6mica vieram de
1l, foi 16 que se criou e ainda se
mant6m o lingiiista Noam
Chomsky, o maior e mais respei-
tado critic do sistema econ8mi-
co erigido a condiqgo de cathedral
pela equipe econ8mica de FHC.
Com outros nomes, parece que
ela continue a dar as cartas no tao
esperado governor do metaltirgi-
co Lula. Governo da mudanqa
que, por enquanto, ningu6m sabe,
ningu6m viu. N~o por acaso, at6
agora, 6 o governor mais em trin-
sito da hist6ria brasileira. Con-
seguiu a faqanha de superar Fer-
nando Henrique Cardoso nesse
fundamento, como conceituam
os abalizados critics esportivos,
fontes do saber national.


10 1A QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003 Journal Pessoal











A polemica do porto



no jornalismo commercial


Para atacar a Companhia Vale do Rio
Doce e, dessa maneira, tentar influir sobre o
contencioso judicial que trava com a empre-
sa na comarca de Bel6m (ver edices ante-
riores do Jornal Pessoal), O Liberal ressus-
citou uma questao que parecia superada: o
escoamento do min6rio de ferro de Carajas.
Revolvendo documents da d6cada de 70 e
opini6es de personagens da 6poca, o journal
tem sustentado que a escolha do Maranhao
como ponto de embarque do mindrio resul-
tou de uma conspiraqao e de uma fraude co-
metida pela CVRD contra o Pard.
A prova da conspiraq~o seria a omissao
ou sonegagqo de um fato que, se conhecido
entao, mudaria completamente o estudo de
viabilidade do transport: o litoral do Pard,
na ponta da Tijoca, oferecia profundidades
semelhantes ou superiores as encontradas na
Ponta da Madeira, em Sao Luis, onde foi
construido o porto privativo da Vale, hoje o
segundo mais important do pais na movi-
mentaq~o de gran6is s6lidos e um dos mais
importantes do mundo. A Vale sabia desse
fato, mas escondeu-o para que a opqao ma-
ranhense prevalecesse.
O desenvolvimento da tese 6 uma salada
de frutas de coisas desiguais ou desconexas.
Como tern sido freqiiente numa publicacao
desmemoriada, O Liberal de hoje desfaz a
hist6ria inscrita nas paginas de O Liberal de
ontem. E estultice dizer, hoje, que o escoa-
mento do min6rio pela Ponta da Madeira foi
imposto goela abaixo dos paraenses, sem dis-
cussao. VArias pessoas, dentre as quais me in-
cluo, escreveram numerosas vezes, nas pigi-
nas de 0 Liberal, contestando a opIo de trans-
porte da CVRD. O eixo da controversial nao
era t6cnico, mas politico. Politico, entretanto,
nao em funqao de uma dispute paroquial entire
Pard e Maranhao, Passarinho e Sarney, mas
do modelo econ6mico entao vigente.
Os principals estrategistas da Vale, a
frente Eliezer Batista, tinham uma batata
quente nas maos: a guerra travada, dentro


da Amaz6nia Mineragao, com o s6cio, a
multinational americana United States Ste-
el, a maior siderdrgica mundial. O dilemma
era: como se livrar da USS, que deveria abrir
o mercado americano para o mindrio brasi-
leiro (mas se desinteressara desse compro-
misso), sem inviabilizar Carajds? A said se-
ria encontrar um novo mercado. Encontra-
ram-no: o Japao. Mas para entrar no Japao,
a CVRD precisava deslocar os australianos,
fornecedores tradicionais.
A proximidade da Australia do Japao era
o desafio. O ferro de Carajas, corn o dobro
do teor do australiano, precisava, entretanto,
vencer uma distancia quatro vezes maior. O
segredo do sucesso era rebaixar o custo da
extraqao e, sobretudo, o do transport. Presa
ao modelo exportador, obsessive (ontem
como hoje), a Vale montou sua equaq~o mina-
porto sobre a ferrovia Carajas-Ponta da Ma-
deira: rapidez, seguranqa e custo menor era
o que interessava. O resto foi descartado.
Mas o "resto" era, justamente, o desen-
volvimento regional. Defendia-se a soluqgo
hidrovidria (ou mista: porto-hidrovia) pelo
Pard nao por simples paralelismo entire as
pontas da Tijoca e da Madeira, mas porque
s6 a hidrovia permitiria reter mais renda in-
ternamente, disseminando os efeitos do in-
vestimento concentrado em Carajas (mais de
tr6s bilh6es de d6lares) e tornando acess6-
ria a fungao do superporto graneleiro de ex-
portaqao. Se fosse para bater chapa entire
Tijoca e Madeira, o sitio maranhense tinha
folgada vantagem.
Por um detalhe que esta flagrante num
mapa que O Liberal publicou na primeira pi-
gina da ediq~o do dia 2, desdizendo o con-
teido da mat6ria: o porto maranhense opera-
ria no continent, enquanto o terminal para-
ense teria que operar off-shore, ligado por
uma correia transportadora de 4, 6 ou 8 qui-
16metros, conforme as diversas avalia96es,
da terra ao pier (sem falar em tres pontes li-
gando o continent A ilha dos Guards).


Independentemente dos dados envolvidos
nos varios documents e andlises apresenta-
dos durante todo o debate (inclusive o "secre-
to" do Geipot, esgrimido como trof6u de ba-
talha por O Liberal), envolvendo interesses le-
gitimos ou espdrios, explicitos ou ocultos (nio
s6 pelo prisma ferrovidrio, mas tamb6m pelo
hidrovidrio), a questao central, na qual O Li-
beral nao tocou porque seu interesse nao 6
joralistico, mas commercial, 6: por que a Vale
escolheria a soluc~o mais inconsistent tec-
nicamente e mais cara, se estava diante do
enorme desafio (formalizado em 1977, com
a said da Steel) de viabilizar Carajas pelo
mercado japones, deslocando os concorren-
tes australianos, que lhe impunha racionali-
dade e custo menor, ainda que pela bitola
colonial do modelo exportador?
A Vale iria sacrificar sua dificil e sofisti-
cada estrat6gia commercial para agradar Sarney
e prejudicar Passarinho, dois representantes do
regime military em seus respectivos Estados
(Passarinho entao mais forte do que o seme-
lhante maranhense)? Qual seria a razAo do 6dio
dedicado pela Vale aos paraenses (e o amor
aos maranhenses) para chegar a tanto?
Toda a espumajornalistica produzida por
O Liberal nao resisted ao menor teste de con-
sistencia na andlise feita a s6rio, nao para in-
timidar. Mas ainda que toda a baboseira pro-
duzida pelo journal, as vezes com base em
dados corretos, embora incompletos e des-
contextualizados, fosse verdadeira, restaria
uma outra pergunta a fazer, tamb6m esqueci-
da pela publicaqao: sim, e agora, para que
construir um superporto na ponta da Tijoca?
Para qual carga ele serviria? Como funcio-
naria sem as eclusas de Tucurui? E, caso elas
venham finalmente a ser construidas, interes-
sa ao Pard ter um terminal off-shore para su-
pernavios, se tal configuraqAo for viAvel tec-
nicamente? Ou, depois de nos restar do trem
o apito, 6 isso que nos sobrard dos navios que
aportarem nessa plataforma telef6rica de
transferencia de riquezas?


Qualidade
Boa inovagqo, a do Didrio do
Pard, encartando na ediqao do
Cfrio um tabl6ide com ensaios
fotogrdficos sobre a grande pro-
cissdo dos paraenses, de autoria
de Elza Lima, Geraldo Ramos,
Miguel Chikaoka, Octdvio Car-
doso. A Companhia Vale do Rio
Doce, ainda em litigio com o
Grupo Liberal, compareceu corn
o patrocinio. Mas o papel utili-
zado pelojornal nao favoreceu a
boa impressao das fotografias,
muito pelo contrArio. O excelen-


te trabalho dos fot6grafos foi pre-
judicado pela falta de qualidade
na reproduaio. Uma boa id6ia
acabou desperdigada.


Viagem
Os sucessivos escAndalos de
viagens de ministros, feitas ir-
regularmente, por isso obrigan-
do-os a devolver dinheiro pd-
blico, atingiu seu pique e j estd
na fase de refluxo. Provavel-
mente nao deixard nenhum pro-
cedimento corretivo e preven-
tivo contra esse desmando. No
vdcuo, retorno a uma sugestao
que dei tempos atrds: todo fun-
cionario pdblico deveria apre-
sentar ao seu superior um rela-
t6rio de viagem, paga pelo erd-


rio ou custeada por terceiros,
sempre que a ausancia tivesse
autorizaq~o official. Um sumi-
rio do relat6rio deveria ser pu-
blicado no DiBrio Oficial.
A integra do document fi-
caria depositada na Ouvidoria
Geral, a disposiqAo dos interes-
sados. Funcionario que nao
apresentasse relat6rio teria que
devolver a verba recebida ou,
em caso de custeio por tercei-
ro, ficaria proibido de fazer
qualquer viagem pelo period
de um ano.
IS dificil adotar essa norma?


Journal Pessoal 1a QUINZENA/NOVEMBRO DE 2003









ESerfaty & Cia.: "pri-
E meiro curtume national deA D C 3 A
peles de crocodile". Estabele-
cido no Boulevard Castilhos
Franca, 68.


A rmador Duarte, de Q. S. Du-
arte. "Encarrega-se de qual-
quer trabalho de armador, por
preqos sem competencia- Deco-
rag6es para casamentos, bailes e
batizados Vasos, tapetes, por
pouco dinheiro". Ficava na ave-
nida Nazar6, 534 (fone 593).

A Renascenga, de Indcio Ga-
briel. "O maior emp6rio de
fazendas, miudezas, enfeites para
vestidos, artigos para noivas,
sombrinhas, redes, calgados, lou-
gas, ferragens, artigos e livraria,
etc.". Ficava na rua Augusto
Montenegro, em Castanhal.


asa Paneirinho, de J. M. Be-
zerra & Cia. Generos ali-
menticios nacionais e estrangei-
ros. Dep6sitos de tabacos e fa-
rinhas d'agua, seca e tapioca, e
esteiras de taboa. Pregos sem
competencia. Aviadora e im-
portadora. Estabelecida na ave-
nida Comandante Castilhos
Franga, 3, Ver-o-Peso. Possui,
na vila do Mosqueiro, as se-
guintes filiais: "Paneirinho no


2", a rua Siqueira Mendes..
Complete sortimento de merce-
aria, perfumaria, miudezas, fer-
ragens e outros artigos. "Pa-
neirinho no 3", a rua 15 de No-
vembro, canto com a Pratiqud-
ra. Variado sortimento das me-
Ihores mercadorias. Na vila de
Mosqueiro estas duas casas co-
merciais sao as que melhores
vantagens oferecem, tanto em
prego e qualidade.


F brica Sublime, de Bento,
Marques & Cia. Ltda. Gua-
rand, suco de frutas regionais, ca-
juina, quinados, cachaqa e alco-
ol. Avenida Padre Eutiquio 197.

af6 15 de Agosto, de F. B.
Peres & Comp. Avenida 15
de Agosto [Presidente Vargas]
130. Especialista em caf6, coa-
lhada, chocolate, queijos e sor-
vetes diversos. Cigarros e charu-
tos de todas as marcas. Bebidas
finas, nacionais s estrangeiras, e
especial salada de frutas.

af6 Gl6ria (avenida Portu-
gal, 27). Confeitaria Seleta
(Joao Alfredo, 35). Sorveterias
Clippers 1 e 2 (Praqa do Rel6gio).
Firmas de moagem de caf6, ser-
viqo de bar, sorveteria, confeita-
ria e pastelaria de Reis & Areas.


FOTOGRAFIA Hotel Suisso


0 Hotel Suisso (com dois esses mesmo) surgiu no lugar do
antigo Rotisserie Suisse, na Praga da Repiblica, numa 6po-
ca em que os paraenses ainda se miravam no espelho da cultural
francesa. O pr6dio, que se ajustava a paisagem tipicamente ,,u-
rop6ia construida nesse local privilegiado da cidade, foi derru-
bado e no seu lugar estd hoje uma agencia do Bradesco, pr6dio
de estilo indecifrdvel. Neste anincio de 1948, o Hotel Suisso


oferecia aos seus clients cozinha tanto regional quanto france-
sa, "de fino paladar, a melhor do norte do Brasil". Possufa "o
melhor, o mais amplo e mais luxuoso salio de refeig6es, pr6prio
para banquetes at6 trezentos talheres". Com aviso pr6vio de 24
horas, podia preparar menu especial, podendo reservar uma ala
para at6 50 pessoas ficarem protegidas. Um padrao do Velho
Continente, claro.


W U_ .:.
*. a Jli H I[..- I-";k'
i~i A.i.l
S. :
-low': x -',


Selegao ae nrmas que publicaram
anuncios na imprensa paraense na
passage do ano de 1947 para 1948:


I J rna Pe soa dit,:WebFldio int one: 091 24-766 Cntao: v.enjai ontn 8523660304 -ai:jrnlaazncmbr-Podro nglmPit dil eAre ut it