Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00258

Full Text



2' QUINZENA
OUTUBRO
DE 2003


omal


Pessoal


ANO XVII
N9 310
R$ 3,00


S A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


FRONTEIRA____ i-._ o


0 sonho


acabou
'/,c
Para a maioria das pessoas que se --
mudou para a Amazonia e para as que
nela sempre tiveram sua moradia, o
sonho da fronteira com o lugar da
realizagao dos sonhos se frustrou. E o
que mostra o Atlas do
Desenvolvimento Humano. A region J
cresceu menos do que o resto do iP
pais e o que produziu vai parar
nas maos de cada vez menos f
gente. Ao inves do paraiso
perdido, o inferno antevisto.


O sonho da fronteira acabou:
depois de quatro decadas de
avango das frentes economi-
cas, a Amaz6nia ficou exa-
tamente igual ao Brasil mais
antigo, ou pior. O Atlas do Desenvol-
vimento Humano, lanqado no inicio do
m6s, mostra que a regiao cresce me-
nos do que as outras regi6es brasilei-
ras, que a buscam como area de ex-
pansao, e o produto da atividade pro-
dutiva 6 partilhado por um ndmero
cada vez menor de pessoas.
Se a concentraqo econ6mica 6 a gran-
de e estigmatizante marca do Brasil do
s6culo XX, em sua maior fronteira de
recursos naturais esse sinete se tornou
ainda mais forte. Deixando de ser a ilu-
sdo do paraiso perdido, como Euclides
da Cunha a viu no inicio do s6culo XX,
ela chegou ao limiar do novo s6culo mais
pr6xima do inferno human e ecol6gi-
co, ainda passivel de atenuacqo, mas ji
visivel no horizonte da rotina.


I JI


Para que pudesse render economica-
mente para o pais, cumprindo uma agen-
da que ji veio fechada, com uma pauta
previamente estabelecida, a Amaz6nia
perdeu nessas quatro d6cadas 17% do seu
bem mais nobre e valioso, a floresta. O
desmatamento atingiu, na regido, area
equivalent ao dobro de So Paulo, onde
se concentrou mais de um terqo da rique-
za national. Os 570 mil quil8metros qua-








drados que foram transformados pela
aqdo dos colonizadores, entretanto, ndo
resultaram em desenvolvimento para os
natives, seja os de nascimento como os
de adogdo. De promessa de future, a
Amaz6nia esti sendo despejada para o
clube dos mais pobres Estados da fede-
ragdo, o Brasil n 3, o enjeitado.
Conforme os dados do Atlas, elabora-
do em conjunto pelo PNUD (Programa das
Naq6es Unidas para o Desenvolvimento),
Ipea (Instituto de Pesquisas Econ6micas
Aplicadas) e Fundacio Jodo Pinheiro, to-
dos os Estados da Amaz6nia (a Classica
como a Legal) tiveram desenvolvimento
entire 1991 e 2000 abaixo da m6dia
national. O IDH (Indice de Desenvolvi-
mento Humano) do Brasil na d6cada cres-
ceu de 0,696 para 0,766 (o maximo 6 1).
Todos os 27 Estados tamb6m cresceram,
mas o ritmo amaz6nico foi menor do que
o desempenho m6dio. O Nordeste acom-
panhou-o. Os Estados nordestinos mais
assolados pelas secas se fundiram com os
Estados amazonicos mais pobres nesse
Brasil de terceira classes.
O Para, Amazonas, Acre e Tocantins
estao nessa faixa mais pobre, na compa-
nhia de (pela ordem) Pernambuco, Ser-
gipe, Ceara, Bahia, Piauf, Paraiba, Ala-
goas e Maranhao. No segment interme-
didrio de desenvolvimento estao, tamb6m
em escala decrescente, Amapa, Roraima,
Mato Grosso e Rond6nia.
O mapa da evoluqgo espacial do de-
senvolvimento explica a razao da me-
lhoria do IDH em todo o territ6rio ama-
z6nico: atividades produtivas em areas
pioneiras exerceram um efeito exponen-
cial que se irradiou pela vizinhanqa, an-
tes destituida de fontes de renda. No en-
tanto, 6 cada vez menor o nimero de
pessoas que se beneficial desse rendi-
mento. Em 1991 apenas Roraima apre-
sentava um indice de Gini (da concen-
traqgo da renda) acima de 0,65 ou mais
(o mAximo de concentragao 6 1). Em
2000 aconteceu exatamente o inverno na
Amaz6nia: Roraima, o dnico Estado (da
regido e de todo pais) que apresentou
melhoria da concentraqgo, tinha Gini
entire 0,61 e 0,62, igual ao de Rondonia,
enquanto todos os demais Estados pas-
saram para a faixa mais grave, a mesma
da qual faziam parte apenas os Estados
nordestinos.
O Pard, o Estado corn a maior popu-
laqao, o maior PIB, o segundo maior ter-
rit6rio e a mais diversificada pauta de
recursos (e de produtos) econ6micos, 6
o caso mais grave de concentracao da
renda (como da maioria dos demais sub-
indicadores do IDH). O Estado apresen-
ta, ao mesmo tempo, os maiores indices
nos dois extremes da piramide: o dos
mais ricos e o dos mais pobres. Era o 100
em concentraco da riqueza em 1991:


10% dos mais ricos detinham 51,7% da
riqueza estadual. Tornou-se o 9 pior em
2000: esses mesmos 10% jf abocanha-
vam 54,7% da renda do Estado. Os 20%
mais pobres, que s6 tinham acesso a 2,6%
da renda total em 1991, no ano 2000 fi-
caram com tdo-somente 1,5% (o Estado
passou do 80 para o 70 lugar entire os de
maior pobreza).
A deterioraCgo, por6m, nao 6 apenas
de renda. O que os t6cnicos chamam de
vulnerabilidade, com base no IDH (que
mede a expectativa de vida, as condicqes
de trabalho e o nivel de escolaridade), se
alastrou pela regiao junto com as cunhas
migrat6rias. Excetuado o Amazonas (que
tern metade da sua populaqao enquista-
da em Manaus), em todos os demais Es-
tados amaz6nicos cresceu o trabalho in-
fantil, em niveis que s6 tnm paralelo corn
os nordestinos.
A region 6 lider na quantidade de cri-
ancas fora da escola (sendo a educagco,
em geral, a razao principal para o cresci-
mento constant do IDH, mais do que
renda e expectativa de vida, embora deva-
se recear pela qualidade desse ensino).
O Pard 6 responsavel pelo quinto indice
mais grave em todo pais, passando A fren-
te de Alagoas, que havia sido o Estado
campedo do trabalho infantil em 1991.
O abandon e o isolamento sao cau-
sas de desempenhos sofriveis de certos
municipios da Amaz6nia. Jorddo, no
Acre, tinha o segundo pior indice de de-
senvolvimento human (0,475) em
2000, abaixo apenas de Manari, em Per-
nambuco (0,467), e o maior percentual
de analfabetos (60,66%), acima apenas
de Itamarati, no Amazonas (59,95%).
Centro do Guilherme, no Maranhao, fi-
cou em quinto lugar nesse item, mas
ocupava constrangedora primeira posi-
go em mat6ria de renda per capital (cada
um de seus moradores recebia, em m6-
d'a, R$ 28,38, para um salArio minimo
de R$ 150).
Problema apenas do sertdo? Ledo en-
gano. Bel6m, a metr6pole da Amazonia,
foi a que mais perdeu posic6es na rela-
qgo do IDH metropolitan: ocupava o
13 lugar entire as regimes metropolita-
nas brasileiras em 1991; despencou para
a 25" posigao em 2000. E um de-
sempenho aviltante, independen-
temente de saber quem 6 o respon-
savel (na eterna queda-de-braco $,
entire a prefeitura municipal pe-
tista e o governor estadual tu- Si
cano) ou se vai mudar a
partir de agora. Ainda que
mude e para bem melhor
- talvez nao se chegue em
2009 na posiq~o de 1991.
Se o modelo de ocupagqo da A ma-
z6nia 6 colonial, espoliativo e concentra-
dor (e 6 realmente), as elites o agraT am


ainda mais com sua inaqco ou sua parti-
cipagao predat6ria, como abutres na car-
caga. O Maranhao do ex-presidente e se-
nador Jos6 Sarney tinha a menor IDH em
1991 (0,543) e continuou a ter o menor
IDH (0,636) em 2000, enquanto a m6dia
national nesses dois anos foi de 0,696 e
0,766. Ja Alagoas, do ex-presidente Fer-
nando Collor de Mello, 6 o Estado brasi-
leiro mais desigual, onde os 10% mais
ricos ficam com 58% da renda.
Os defensores intransigentes da Zona
Franca de Manaus precisam ser mais re-
ceptivos as relativizaq6es: o Amazonas
perdeu tr6s posig6es entire 1991 e 2000,
caindo do 130 IDH para o 16. Seu indi-
ce cresceu, de qualquer maneira, mas a
uma taxa inferior ao da m6dia regional.
Foi, alids, a perder posicao. E os p6ssi-
mos indicadores no interior fazem pen-
sar nos estragos que resultardo de uma
crise maior da Zona Franca de Manaus,
ou da insuficiencia de seu dinamismo
como fator de dispersdo de efeitos.
Fariam bem as elites em refletir sobre
o distorcido espelho que colocaram di-
ante de si e o povo, em geral, de sair da
resignaqco. Melhorar o perfil da Ama-
z6nia ainda esta ao alcance de todos, mas
se o desafio for assumido logo. Ndo hi
muito tempo para comeqar.

0 desenvolvimento
na Amaz6nia


1991


2000


Mato Grosso 0,685 0,773
Amapc 0,691 0,753
Roraima 0,692 0,746
Rond6nia 0,660 0,735
Pard 0,650 0,723
Amazonas 0,664 0,713
Tocantins 0,611 0,710
Acre 0,624 0,697


2 2a QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal


IL' .'










Pobre Manaus
Desde o final do mes passado, duas no-
vas usinas termel6tricas, que originalmen-
te deviam ter sido instaladas no Ceara, for-
necem energia para Manaus. Graqas aos
seus 56 megawatts, a capital da zona fran-
ca nao esta sofrendo racionamento. O equi-
librio 6 precArio e custoso. Para que as t6r-
micas entrassem em operacgo, o governor
federal precisou investor 16 milh6es de re-
ais. O custo da geraqCo sera subsidiado
porque a Manaus Energia, subsidiaria da
Eletronorte, 6 deficitaria.
Arranjo em cima da hora para poupar o
manaoara de mais sofrimento. O suprimen-
to de energia para Manaus 6 um exemplo de
irracionalidade e incompetencia. A hidrel6-
trica de Balbina, com capacidade nominal
de 250 MW, nao resolve o problema nem
quando entrou em operacao. De la para ci,
sua potencia firme tem sido declinante. Em
terms de energia m6dia, elaja deve ter dei-
xado de ser a fonte principal de energia da
cidade, que concentra metade da populaqdo
do Estado. E custou (sem incluir juros de-
pois da construqgo) algo em torno de um
bilhdo de d6lares.
Uma capital estadual corn 1,3 milhdo de
habitantes ja merece um tratamento energ6-
tico melhor. E mais s6rio.


Os municipios mais

desenvolvidos

Bel6m e Ananindeua, os dois municipios
de maior populaqio, tmr os melhores IDHs
do Pard. A partir daf, as posiq6es seguem ou-
tras variaveis. Santar6m, terceiro mais popu-
loso municipio, tinha o 12 IDH em 1991.
Melhorou muito em 2000, alcanqando, po-
r6m, a 7 posiCgo. Barcarena tem o 3 melhor
indice em funqio do p6lo industrial de alu-
mina/aluminio e de caulim. Novo Progresso
vem em seguida por causa das atividades
madeireira e pecuaria. A posiqdo de Tucu-
ruf, a quinta, se deve A hidrel6trica. O maior
salto foiidado por Tucumr, que passou de 48.
em 1991 para 6" em 2000. Desempenhos no-
taveis tamb6m de Sapucaia (de 29a para 16")
e Rio Maria (54" para 20a). Em compensa-
gao, Soure baixou de 6 lugar para 18 e Xin-
guara de 8 para 13. Desempenhos acompa-
nhados por Santa Isabel (de 130 para 190),
Bannach (de 15 para 40o), Salvaterra (de 160
para 23) e Maraba (20 para 24). Marituba,
na Grande Bel6m, caiu de 180 para 26, en-
quanto Benevides subiu de 35 para 290. Mas
ambas evidenciando a concentracao do de-
senvolvimento da regido metropolitan.
Abaixo, os 20 maiores IDHs do Pard em
1991 e 2000:


Educacio ruim


A Amazonia esti ficando para tris
em mat6ria de educacqo, apresentan-
do situaqo melhor apenas do que a
do Nordeste, que continue a ser um
gueto national. E o que mostram as
estatisticas da pesquisa annual do
IBGE, o Pnad/2002. Os nimeros do
Norte do pais ji sdo graves, mas se-
riam piores se o IBGE, nesta regiao,
nao tivesse limitado seus levantamen-
tos A populaCao urbana. Certamente
os indicadores na area rural fariam
as estatisticas cafrem ainda mais.
Entre 1999 e 2002 as matriculas
no ensino superior no Norte aumen-
taram apenas 5,8%, ficando em me-
nos de 240 mil universitirios. No
Centro-Oeste, que teve o segundo
menor crescimento, o incremento
foi de 9,4% (com quase 400 mil alu-
nos nas universidades) e no Nordes-
te foi de 16,9% (aproximando-se de
700 mil universitarios). A taxa no
Sul foi de 18,9% e no Sudeste (pas-
sando de dois milh6es de universi-
tArios, num total de 4,1 milh6es no
Brasil) foi de 49%. Esses ndmeros
mostram a acentuaqco da concen-


traqio das universidades nas Areas
mais modernas do pais.
A porcentagem de criancas e jo-
vens, entire 5 e 17 anos, nas escolas
6 quase a mesma no Brasil inteiro,
mas o Norte tem a menor proporqao,
de 88,8%, contra 88,9% de Centro-
Oeste e Sul, 89,6% do Nordeste e
91,8% do Sudeste.
Quanto a analfabetos, o Nordeste
tem, disparado, essa triste lideranqa:
21,4% dos seus habitantes sao anal-
fabetos, o dobro do indice national.
De cada cinco nordestino, um 6 anal-
fabeto. Sao quase oito milh6es na re-
giao (e mais de 17 milh6es no Bra-
sil), a desafiar o compromisso do pre-
sidente Lula de erradicar o analfabe-
tismo no pais ao long do seu man-
dato, uma n6doa em qualquer proje-
to de civilizagqo, a tornm-la iniqua. A
Amazonia tem o segundo maior in-
dice de analfabetismo, de 9,1%. Vem
atras o Centro-Oeste (8,7%), o Su-
deste (6,5%, produto, principalmen-
te, da desatenqio ao migrant pobre
e As periferias, despejadas na clan-
destinidade) e Sul (6,1%).


1D


BelIm 0,767
Ananindeua 0,733
BaeaTena 0,695
Novo Pro6resso 0,692
Tucurui / 0,679
Soure / 0,676
Castanha1 0,673
Xinguara 0,668
Redepao 0,663
Capanema 0,663
Almeirim 0,662
Spatarem 0,661
Santa Isabel 0,657
PaIauapebas 0,657
Bannch 0,657
Salvaterra 0,654
Vigia 0,649
MaritujL.S,,-_ 0,649
Salin6polis 9
Maraba 0,639


Be.j..B i )-0,806
- Ananindeua ./ 0,782
Barcarena 0,768J
Novo Progresso 0,76Q,
Tucurui 0,75j5
TucumB 0,747
Santarem 0,746
Castanhal V;,746
Almeirim .'0,745
Redengo 0,744
Parauapebas 0,741
Salin6polis 0,740
Xinguara 0,739
Altamira / 0,737
Vigia 0,731
Sapucaia 0,730
CapanemaC 0,729
Soure 1 0,723
-Sarnta lsabel 0,721
Rio Maria 0,718


Journal Pessoal 2- QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 :










0 valor dos ideas


Sou contra a indenizag~o de anistia-
do, uma esp6cie de seguro politico. Se
algudm foi prejudicado em seu trabalho
pela acgo do Estado, deve pedir najusti-
9a repara~go. Ha uma acgo pr6pria para
o caso. O governor podia intervir toran-
do o rito sumdrio. E s6. Quem se op6e a
um governor ou a um regime esti consci-
ente de que nao vai para um piquenique.
Se a litigancia derrapou para a persegui-
qao aberta, em todos os niveis, prejudi-
cando parents e agregados da vitima, a
justiga compete averiguar o problema e
dar-lhe um destino favorivel ao prejudi-
cado. Pagar-lhe uma indenizaqao me pa-
rece uma distorgo.
No entanto, tres mil oposicionistas
do regime militarji receberam, recebem
ou aguardam para receber indenizagao
jd deferida, entire eles os dois iltimos
presidents da repdblica, o professor
Fernando Henrique Cardoso e o operi-
rio Luiz Inacio Lula da Silva, de um to-
tal de 20 mil que pleitearam do governor
o beneficio. HA uma lei amparando-os,
mas o Minist6rio da Justiqa 6 quem faz
a triagem, caso a caso. Pode acertar
muito, mas errard muito tamb6m. Pode
errar de boa f6, mas tamb6m pode acer-
tar com fins escusos ou fisiol6gicos.
Essa bacia das almas faz mal a his-
t6ria do pais e at6 mesmo a sua corrente
de oposicionistas e divergentes dos re-
gimes politicos. E uma tristeza consta-
tar que o Brasil 6 um pais dado a perse-
guir id6ias e reprimir ideas. Mas essa
hist6ria nao ficard melhor apenas por-
que um grupo de injustigados (e certa-
mente a menor parcela deles) levou para
casa uma grana para compensar o que
sofreu. A monetarizagao de conceitos
6ticos, morais e politicos envilece sen-
timentos de outra estatura.
O caso dos guerrilheiros mortos no
Araguaia 6 um exemplo. O governor
Lula esti protelando, e protelando de
forma vergonhosa, um direito das fa-
milias desses jovens: encontrar seus
corpos e enterri-los com dignidade.
Nao precisa ir A letra da lei para funda-


mentar esse direito. Qualquer psicana-
lista amador sabe que sem o luto o
morto permanece fantasma e os que fi-
caram nao desfazem o n6 que os atrela
al6m da vida. E elementary solidarieda-
de humana dizer onde foram enterra-
dos esses guerrilheiros e entregar seus
corpos aos parents. E ponto final.
Mas ai entra a questao da indeniza-
g9o. As families terao que ser ressarci-
das? Quais as conseqtiincias da entrega
dos corpos, como compromisso do Esta-
do para cor essas pessoas?
E af que esse mal-entendido mais se
torna um desprop6sito. A guerrilha do
Araguaia j devia ter-se tornado mat6ria
de hist6ria. A anistia, concedida em 1979,
devia ter-lhe tirado o sentido de libelo,
reparag9o, ajuste de contas. O Brasil pre-
cisa langar-se objetivamente sobre um
acontecimento que parece, notoriamen-
te, de superdimensionamento, tanto do
lado dos vencedores (de Pirro) quanto
dos derrotados (ji derrotados em seus
erros antes de serem liquidados numa
generalizada queima de arquivo).
Para isso, 6 precise partir de dois
pressupostos: os corpos devolvidos a
quem de direito para arrematar o luto e
cumprir o rito de passage, e a indeni-
zaqdo cancelada, dando aos fatos que
passaram o selo de coisa hist6rica. Af,
talvez, de novo, o Brasil se surpreenda
por ver, num suposto moment de dra-
ma e trag6dia, mais uma com6dia de
erros de sua elite. Tanto os jovens ide-
alistas de esquerda, que se transporta-
ram de suas cidades para o teatro de
operaq6es, no "sertao", onde montari-
am o foco da revolugqo, como os co-
mandantes militares de direita, a fren-
te dos seus jovens soldados, igualmen-
te urbanos, nao sabiam o que iam en-
frentar e o que sabiam era, no mais das
vezes, pura fantasia. O Brasil continue
a ser um desconhecido ou uma inc6g-
nita parea o Brasil. Seja em Canudos,
na Coluna Prestes, no Contestado como
no Araguaia, terra da bandeira verde e
nto da bandeira vermelha.


Campo em

chamas


Um dos exercicios intelectuais a que
freqiientemente me dedico e imaginar
como teria evoluido a R6ssia czarista se
os nobres tivessem dado cr6dito de con-
fianga ao Conde Stolypin. Convencido
de que a razao da letargia de seu podero-
so pais estava amarrada ao imobilismo
no campo, o conde quis fazer uma refor-
ma agrdria para valer, capaz de moderni-
zar a agriculture russa. Mas foi sabotado
pelos seus pares. Eles certamente perde-
riam os andis cor Stolypin, mas perde-
ram muito mais com os bolcheviques
(sinceramente preocupados cor os cam-
poneses, 6 verdade, mas incapazes de
entend&-los).
O conde russo me veio a mem6ria
enquanto lia as estatisticas divulgadas
pela Comissao Pastoral da Terra duas
semanas atris. Ha quem question o ri-
gor dos nimeros e dos conceitos usados
pela CPT, sempre sujeitos a inconsistdn-
cia metodol6gica. Mas nao you me dar a
esse trabalho: aceiti-los-ei como estao.
O que eles sugerem? Indicam que papa
Lula recebe de braqos abertos os sem-
terra, enverga-lhes o bon6, promete-lhes
cumprir a reform agrdria incluida como
item de program eleitoral, mas o gover-
no do PT limita-se, no basico, a nao re-
primir essa energia liberada.
Isso nao 6 pouco se lembrarmos da
ferocidade de outros governor, flagran-
temente parciais aos proprietdrios rurais.
Mas isso 6 tamb6m brincar com o fogo -
dos outros, naturalmente. Nao muito pro-
pensos a metaforas, os donos da terra
interpretam a simpatia presidential como
cumplicidade maliciosa. Tratam, entao,
de colocar os cachorros na rua, a maio-
ria deles portando pistolas ou espingar-
das. A ampliagqo do confront e seu cres-
cente saldo de sangue sao previsiveis. Ja
estao ocorrendo.
Segundo a CPT, at6 setembro, as ocu-
pa96es cresceram quase 75% e o ndme-
ro de acampamentos quase triplicou. Em
compensaqoes, houve 84% mais despe-
jos, 41% mais prisoes e 100% mais as-
sassinados, sendo o Pard o campeao, com
quase dois terqos dos casos registrados,
80% a mais do que em 2002.
Vai voltar a lei da selva, com o mo-
cinho homiziado em Brasilia, ou sabe-
se li onde?


4 22 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal


Soja
A soja jd se estabeleceu na Amaz6nia e a perspective e de que tenha um
rdpido incremento nos pr6ximos anos na regiao. A Embrapa, que
apostoufirme na cultural, jd desenvolveu uma semente adaptada ao
clima amaz6nico, de muitas chuvas. Jd os adeptos da soja transg&nica
fizeram-na penetrar na regiao atraves de seu Estado mais setentrional,
Roraima, de contrabando.
Assim, antes de ser escrita, a histdria jd estar6 feita.










Eleicao: a espera



do tiro de largada


Adisputa eleitoral em Belem en-
trou em banho-maria. Tudo vai
defender de duas decisoes: se a
senadora Ana Jilia Carepa acei-
tari ser candidate a sucessdo de Edmil-
son Rodrigues pelo PT e se o ex-gover-
nador Almir Gabriel assumird sua can-
didatura pelo PSDB. Em todas as pes-
quisas feitas at6 agora, pela ordem, eles
sdo os preferidos, A distAncia de outros
pretendentes de expressao, como o se-
nador Duciomar Costa, do PDC. O
PMDB nao tem candidate a prefeito,
embora o deputado Vladimir Costa con-
tinue se insinuando como tal.
Se Ana Jilia e Almir Gabriel decidi-
rem sair candidates no pr6ximo ano a pre-
feito da capital, dificilmente outro nome
poderi aparecer como zebra. Sem a sena-
dora, o PT nio tem uma alternative a altu-
ra do ex-govemador tucano, nao s6 por falta
de densidade eleitoral pr6pria das hip6te-
ses possiveis como por incapacidade de
todas elas de unir tantas dissidencias inter-
nas. Ironicamente, esses rachas deixaram
o prefeito Edmilson Rodrigues sem condi-
q6es de fazer o seu successor. O maximo
que ele pode pretender 6 indicar um vice
de sua tendencia, a Forqa Socialista, caso
o PT forme uma chapa "pura", possibili-
dade que a direcqo national do partido quer
ver expurgada da dispute do pr6ximo ano,
ji pensando na reeleiqao de Lula.
Mesmo sem se envolver diretamente
nas articulaq6es, Edmilson espera que
Ana Jilia saia candidate. Em primeiro
lugar porque quem sobe para o lugar dela,
o suplente de senador, 6 da Forca. Em
segundo lugar, porque, disputando ago-
ra a PMB, Ana Jdlia deixard de ser aspi-
rante ao governor do Estado em 2006. Ed-
milson ainda tem alguma pretensdo de
guardar f6lego para essa ocasiao, embo-
ra a cipula petista acredite que s6 Ihe
restart tentar a Cimara Federal.
O nome mais forte para o govemo 6 o
deputado Paulo Rocha, responsavel direto
pela formagqo da esmagadora maioria dos
diret6rios municipals do partido (embora
ele ainda nao esteja em todos os 143 muni-
cipios paraenses, como pretendia) e o ne-
gociador onipresente em todas as negocia-
96es, tanto as political quanto as de libera-
io de verbas federais, especialmente as
do Banco do Brasil e do Banco da Amaz6-
nia (que comeqaram a ter uma inclinadao
partidaria, paralelamente a adoao de cri-
t6rios t6cnicos na concessio de cr6ditos).


Assim como Almir Gabriel, Ana Jd-
liajura que nao sera candidate, mas exa-
mina com atengao, cuidado e paciencia
a questao. Para ela, ir para a dispute elei-
toral no pr6ximo ano acarretara duas con-
seqiincias. Uma, sera cancelar ou adiar
seu sonho maior: disputar o governor do
Estado. Ela dispensou o cavalo selado
que passou A sua frente no ano passado.
Analisando retrospectivamente a eleicao
de 2002, 6 impossivel nao chegar A con-
clusao de que ela seria uma candidate
muito mais forte do que a atual diretora
da ADA (Agencia de Desenvolvimento
da Amaz6nia), Maria do Carmo. E que
provavelmente venceria Simdo Jatene.
Ana Jilia pagou caro por n~o ter deci-
dido correr os riscos dessa dispute. E ago-
ra, que a taxa de risco parece ser a mes-
ma, ou talvez maior? Estara disposta? Nao
sera melhor esperar por 2006, mantendo-
se em evidencia no Senado at6 l8? Mas se
fizer essa opqao, ela ji sabe a quem terd
que enfrentar: Paulo Rocha, politico do
grupo do president da repdblica e seu
porta-voz no Pard, certamente a ser mais
favorecido por Brasilia. Quais as possibi-
lidades de Ana Jilia num bater de chapa
com Paulo Rocha na convencqo petista?
N~o sera melhor conseguir todo o apoio
do Palacio do Planalto e dos filiados do
partido no Estado para a eleicao munici-
pal de 2004 e pensar em 2010?
Se a resposta for positive, o outro de-
safio que se colocard para a candidatura
de Ana Jdlia sera o desgaste de nunca con-
cluir os mandates para os quais o povo a
elege? Esse detalhe deveri ser muito ex-
plorado na campanha e ela tera que apre-
sentar arguments s6lidos para contrapor
as critics, que certamente virao para des-
gasta-la. Ela disp6e desses arguments?
Se esse 6 o flanco aberto da provivel
candidate do PT, ha tamb6m um ponto
que esta inquietando seu mais provavel
adversario. As pesquisas mostram uma
expressive rejeiqio ao nome do ex-go-
vernador Almir Gabriel. Ele ainda 6 o
mais forte quando se pensa no novo pre-
feito de Bel6m, mas provoca reag6es s6-
lidas em certos segments da populaqao.
Essa marca negative poderi ser explora-
da na campanha, apresentando-o como
um candidate elitista, autoritirio, perso-
nalista. Uma boa assessoria de marketing
politico podera desfazer essa tend8ncia
e apresentd-lo como a melhor escolha a
disposiqao do eleitorado da capital?


O politico Almir Gabriel nao gosta de
corner riscos. Mas se tiver que enfrent,-los,
quer mant8-los sob control, para evitar
surpresas. Daf provavelmente sua cautela
no lanqamento da candidatura, que s6 de-
verd ir para as ruas depois de amadurecida
e consolidada intemamente (muitos tuca-
nos gostaram de v8-lo pelas costas). E em-
bora ele diga a todos os interlocutores que
vai mesmo cuidar de suas orquideas, no
que mais ele pensa 6 em voltar ao poder.
Ana Jdlia e Almir terdo que abrir o
jogo a partir de janeiro para que suas
campanhas comecem a tempo de contor-
nar os aspects negatives ou problema-
ticos e cultivar os lados positives. E ai
que sera declarada aberta a temporada de
caqa aos votos, quando aparecerao os
personagens secundarios ou derivados da
dispute, como Duciomar Costa, Vladi-
mir Costa, Manoel Pioneiro, Mario
Cardoso, Cipriano Sabino ou Elcione Bar-
balho, seja para assuirem a cabeqa de uma
chapa ou a completarem como vices, se
vices ainda houver (como parece provd-
vel, apesar das declaraq6es em contrario).
Nio quer dizer que at6 la todos os pre-
tendentes esperarao pelo desfolhar da mar-
garida. Pelo contrario: cada um deles j esti
fazendo sua horta. Afinal, como diz o povo,
Deus s6 ajuda a quem madruga. E a cidade
ji estn cheia de madrugadores.



Alunorte
O cartel do aluminio esti em plena
febre de investimentos. Expande-se
para se consolidar. A comeqar pela Al-
coa, a mais poderosa das seis irmls, que
estt reabrindo fabrica nos Estados Uni-
dos e absorvendo outras empresas (en-
tre as quais a Pechiney). Os preqos da
alumina, sobretudo, e do aluminio es-
tao alcanqando patamares excepcio-
nais, justificando a retomada das apli-
caq6es em novas unidades e expansao
das ji existentes.
Nesse ambiente international 6 de se
duvidar que seja duradoura a decisao da
Companhia Vale do Rio Doce de conge-
lar, por pelo menos seis meses, os pla-
nos de expansao da Alunorte, em Barca-
rena, e de ativaqao da mina de bauxita
de Paragominas. O preqo da alumina ba-
teu em 285 d6lares, mais de 10 vezes o
que pode alcangar a tonelada do min6-
rio. A Alunorte deveri faturar algo pr6-
ximo de 700 milhoes de d6lares no pr6-
ximo ano. Mas com a terceira linha essa
receita chegard a US$ 1,2 bilhao. E mui-
to dinheiro para defender de dificulda-
des de dialogo entire a empresa e o go-
verno. Logo deverao estar acertando suas
contas. Espera-se que diante do distinto
piblico. E em favor do Estado.


Journal Pessoal 2- QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 5










A ameaca do fim


da floresta paraense


Duas frentes de desmatamento ame-
acam acabar com o que resta de flores-
ta native de maior valor commercial na
margem sul do rio Amazonas, dentro
do territ6rio paraense. Uma frente mais
antiga segue de leste para oeste e ou-
tra, mais recent, em sentido contrario.
Ambas se dirigem para o que ji se con-
vencionou chamar de "terra do meio",
o vale do Xingu/Iriri. Quando elas se
encontrarem nesse bolsao de natureza
ainda pouco alterada, dentro do qual hi
a maior densidade de mogno da Ama-
z6nia, poderi ser dobrado o requiem,
no Pard, por sua melhor floresta e al-
gumas de suas esp6cies mais cobiqa-
das, como o mogno.
Em Marabi, um dos epicentros da
frente mais antiga, do Araguaia, as areas
desflorestadas aumentaram 30 vezes em
menos de 20 anos, passando de 2% da
area do municipio, em 1974, para 60%
em 2000. O ntimero s6 nao 6 mais dra-
mitico ainda porque esse levantamento
exclui as areas legalmente protegidas.
Mas certamente ji ultrapassou o limited
para desmatamento estabelecido pelo
C6digo Florestal, modificado atrav6s de
Medida Provis6ria, que 6 de 20% da area
dos im6veis rurais.
A frente de desmatamento mais re-
cente, que caminha no sentido oeste-les-
te, 6 ainda mais selvagem, como pude-
ram constatar os integrantes da rede te-


mitica Geoma (Grupo de Estudos das
Mudangas de Cobertura e Uso da Ter-
ra), reunidos entire 19 e 23 de setembro,
em Marabi. Entre Marabi e Sao F61ix
do Xingu hi uma "intensificaqao do des-
florestamento, com eliminacqo das re-
servas legais e areas de protecgo per-
manente, e a important expansao do
process em direqgo aos vales do Xin-
gu e do Iriri, sob condiq6es de exclusdo
social, violencia e relative debilidade
dos sistemas de produqao, registrando-
se, no entanto, alguns progresses nas
areas social e econ6mica, nas regiGes de
ocupagdo mais antiga", diz o relat6rio
de conclusdo do seminario.
A aqgo das duas frentes 6 como um
"efeito de tenaz", que, se nao corrigido,
provocard uma explosao de problems
na "terra do meio", que ji esti sofrendo
e vai sofrer ainda mais pressao dos dois
lados. Por sua aqao mais intense nos 61-
timos anos, a frente Sao Fl6ix-Iriri exi-
ge atengdo imediata e redobrada. Segun-
do o relate do grupo Geoma, ela se di-
vidiu em duas areas principals. Uma
delas se localiza a oeste de Marabi e ao
norte de Sao F61ix, onde o desfloresta-
mento aumentou de 76 mil hectares para
133 mil hectares entire 1997 e 2000. No
mesmo period, o desflorestamento pas-
sou de 36 mil hectares para 58 mil hec-
tares na segunda area, situada na mar-
gem esquerda do Xingu.


Os efeitos danosos ji bastante conhe-
cidos na frente do Araguaia estio se re-
petindo, em escala ampliada, na do Xin-
gu/Iriri: "A grilagem organizada, asso-
ciada a pistolagem, como mostrou um
event recent em 12 de setembro, e di-
ante da omissao (quando nao da coni-
v6ncia) dos 6rgaos de gestao fundidria,
deixa pouca ou nenhuma oportunidade
a pequena producgo, configurando-se
numa faceta da apropriaqdo da terra e
da exclusao social", alertam os integran-
tes do Geoma.
As virias misses realizadas na re-
giao por 6rgaos governamentais para
verificar dendncias de grilagem, extra-
9go illegal de madeira ou trabalho es-
cravo "conduziram a Policia Federal a
identificar, em Sao F61ix do Xingu, im-
portantes conex6es (inclusive interna-
cionais) do com6rcio de cocaina", in-
forma o relat6rio final do semindrio,
acrescentando: "A lavagem de renda de
atividades ilfcitas (grilagem, madeira,
trifico, etc.), atrav6s de propriedades
fundiarias legalizadas e firmas que par-
ticipam ativamente da economic ilici-
ta da regido, e at6 mesmo de editais
pdblicos, mostram a existencia de re-
des de corruppqo e influencia, associa-
das ao process de ocupagqo".
O asfaltamento da BR-163, a Santa-
r6m-Cuiabi, certamente teri um efeito
multiplicador sobre todos esses proble-
mas se nao houver uma aqdo preventi-
va, corretiva e orientadora do governor,
substituindo a omissao e a conivencia
atuais. Do contrario, o Pard A margem
esquerda do rio Amazonas teri perdido
grande parte da sua cobertura vegetal
nos pr6ximos anos, em troca de muito
pouco, ou quase nada.


0 relat6rio de Mr. Link


Os 50 anos da Petrobris parecem
ter servido de oportunidade para re-
ver a avaliagqo sobre um dos mais
pol6micos presidents personagens
da hist6ria da empresa, o ge6logo
americano Walter Link. Os naciona-
listas o acusam de ter sabotado a pros-
pecqao de petr6leo no Brasil logo
depois que a Petrobrns foi fundada,
em 1953. O famoso "relat6rio Link"
seria a prova do crime, cometido a
serviqo dos americanos, particular-
mente da Standard Oil, dos Rockefe-
ller, do qual fora empregado.
Em artigos publicados na empre-
sa a prop6sito do cinqtientendrio foi
reconhecido o acerto de Link no ata-
cado e seus erros de varejo. Dividin-
do o Brasil em quatro faixas de prio-


ridade, el& permitiu A Petrobris se
concentrar em areas de retorno
mais imediato, ao mesmo tempo
que indicou um caminho proficuo
para empresa: a prospecqao em
outros pauses. Tamb6m teria sido
uma contribuicgo positive dele
mandar t6cnicos da empresa para
estudar e estagiar nos Estados Uni-
dos, preparando uma competencia
t6cnica que se mant6m at6 hoje.
O relat6rio Link teria acertado
na Amazonia, colocando a bacia se-
dimentar, excetuado o M6dio Ama-
zonas, e o Acre na faixa D de prio-
ridade. S6 recentemente o M6dio
Amazonas se tornou produtor, tres
d6cadas depois que jorrou petr6leo
em Autis Mirim e Barreirinha.


Juros
A Argentina esti falida, como pensa a
opinido pdblica brasileira, mas a taxa de
jurors do pafs vizinho 6 quatro vezes me-
nor do que a nossa. O juro na Argentina 6
o quinto maior entire 16 pauses que t6m
seus indicadores publicados semanalmen-
te pela Folha de S. Paulo (e que exami-
nei ao acaso). O primeiro lugar 6 brasi-
leiro, com taxa de 20%. O segundo 6 na
Venezuela, as portas de uma guerra civil,
com 18,30%. Em terceiro lugar, a ainda
critical Rdssia, com 16%. Em quarto, a
Indon6sia, 8,99%. E a nossa Argentina,
com 5,06%. Depois, a India, com 4,57%.
A inflaqao annual brasileira 6 de 15%.
A argentina, de 4.9%, equivalent aojuro.
Ja a Venezuela tem 26,6% de inflacqo.
Em mat6ria dejuros, 6 como se vives-
semos numa guerra.


6 24 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal








istoleiro matou e fugiu.


isti*a acabou ajudando


Era quase nove horas da noite do dia
13 de maio em Tucumr, cidade do sul do
Pard, a 670 quil6metros de Belem, quan-
do a casa do vereador AdHo Lote Res-
plandes de Souza foi invadida por dois
homes. Um deles, mascarado, deu a
cobertura para que o outro, de rosto des-
coberto, entrasse no banheiro, onde o
vereador estava tomando banho, e Ihe
desse quatro tiros, dois dos quais, na ca-
beqa, o mataram na hora. Depois fugi-
ram de motocicleta.
Um dos dois filhos do vereador, de
12 anos, e sua mae, testemunhas do as-
sassinato, reconheceram, pela fotografia
que Ihes foi mostrada, o autor dos dispa-
ros: era Divino Jos6 Marciano, mais co-
nhecido como Xer6m, apontado pela
policia como membro de uma famflia de
grileiros de terras em Sao F61ix do Xin-
gu, onde mora, e pistoleiro professional.
Divino s6 foi preso quase quatro me-
ses depois, em 1 de setembro, em Ma-
rabi. No dia 26 sua advogada, Aracl6ia
Vieira, requereu no Tribunal de Justiqa
habeas corpus em favor de Divino,


U


mm
mm


aACIA



L2


alegando que sua prisdo fora illegal, por
falta de provas ou mesmo de indicios
suficientes de autoria do crime. Sorte-
ada, a desembargadora Rosa Maria Por-
tugal Gueiros, no dia 3 de outubro (mas
com data datilografada equivocada-
mente como sendo de 3 de setembro),
concede o HC em carter liminar,
mandando soltar o preso sem ouvir a
autoridade coatora.
Argumentou que o cadaver nao foi
necropsiado, o reconhecimento do supos-
to assassino foi efetuado atrav6s de foto-
grafia e o preso, por residir no "distrito
da culpa", podia responder ao process
em liberdade, como a lei faculta.
Como a decisdo da desembargadora
Rosa Gueiros demorou para ser publica-
da, quando saiu no Didrio da Justiga ji
foi simultaneamente com uma outra de-
cisao por ela mesma adotada, revogando
a anterior. Por ironia, os dois despachos
- um concedendo o habeas corpus e ou-
tro cancelando-o sairam juntos, um
debaixo do outro, na edigao do dia 9 do
Diario. O problema 6 que o alvard de
soltura ji havia sido cumprido. Solto,
Divino sumiu. A policia anda atris dele,
mas n2o conseguiu recapturi-lo. No in-
tervalo de cinco dias ele deixou de ser


beneficidrio de uma ordem judicial de li-
vramento para se transformar em fora-
gido dajustiga.
A pris~o preventive de Divino Mar-
ciano (6 nome!) foi pedida pelo delega-
do Raymundo Benassuly e concedida
pelojuiz Flivio Sanchez Leao com base
"apenas na gravidade do crime e na sua
repercussao na sociedade", deixando de
lado as exigencias legais, reclamou a
advogada Arac6lia Vieira no pedido de
HC, sustentando que nao era admissivel
manter a segregaqCo do seu client "por
mera presuncao ou apenas para tender
aos reclamos pdblicos".
Ao deferir liminarmente o pedido, a
desembargadora Rosa Gueiros se mostrou
sensivel ao argument. Quatro dias depois,
embora continuando a sustentar a base
t6cnica da sua decision, voltou atras, por
ter chegado ao seu conhecimento, "atra-
v6s da imprensa local", que Divino "po-
dera evadir-se do distrito da culpa e as-
sim obstaculizar a instruqdo criminal e a
aplicaqao da pena, se condenado".
Desgraqadamente, foi o que aconte-
ceu e o rem6dio, a revogagao do HC,
mostrou-se impotente para debelar o mal
causado pela primeira decisao. Se, ao
inv6s de deferir o alvard em carter limi-
nar, a desembargadora Rosa Gueiros ti-
vesse se informado com a autoridade
coatora, saberia que o Divino de batis-
mo ji ter ficha criminal alentada, acu-
sado de homicidio; que 6 notoriamente
conhecido como pistoleiro em Sdo F6-
lix, morando num bairro, o Taboca, que
teria grande concentraqgo de matadores
profissionais, em alta porque o crime or-
ganizado se instalou definitivamente em
Sao F61ix do Xingu.
Esse, alias, era um dos temas que mais
estava preocupando a Cmrnara Municipal
de Tucuma. O vereador do PSB era um
dos que vinha denunciando a acgo de gri-
leiros e pistoleiros e um dos citados era
Divino Marciano. Talvez por isso, ao in-
vadir a casa de Addo para executi-lo, nem
tenha se preocupado em esconder o ros-
to. A cara limpa talvez tivesse o sentido
de um recado: que se tratava de vinganga
e ia ser consumada em maiores proble-
mas. Com que garantia? Na impunidade.
O recado foi dado. Agora Tucuma
que se cuide para que o circuit da ame-
aga nao prossiga. A justiqa, que podia
ter interrompido esse circulo da matan-
9a, nao o fez.


Jomal Pessoal 2a QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 7


O


A















Ira presidential


Na sua recent visit a Cuba, o presi-
dente Luiz Inicio Lula da Silva conver-
sou durante sete horas com Fidel Castro,
em diversos encontros. Um deles, que
durou hora e meia, teve a participacao
tamb6m do ministry Jos6 Dirceu, chefe
da Casa Civil, e do assessor especial Frei
Beto. Ja no Brasil, depois de ter recebi-
do critics espalhadas pelo mundo, o pre-
sidente informou que essa saison foi in-
tegralmente dedicada aos direitos huma-
nos. Imaginava, assim, calar os critics,
indignados pelas brancas nuvens ofici-
ais sob as quais transcorreu o p6riplo do
presidente-operario quanto ao tema dos
direitos humans, tdo constant e inten-
samente violado pelo regime castrista.
Lula tem sua razao ao ressalvar que
qualquer pronunciamento seu na ilha
sobre temas privativos de Cuba seria uma
deselegancia e uma intromissao. Mas ele
podia falar informalmente, antes e de-
pois, e ser mais enfaticamente favornvel
As liberdades e garantias individuals na
sua agenda, copiando um pouco a pro-
gramaao cumprida pelo entao president
Jimmy Carter na sua viagem ao Brasil
do regime military, na d6cada de 70.
Se o president, dentro de gabinetes
fechados, deu uma prensa (ou um truco)
no camarada Fidel para aliviar a repres-
sao aos oposicionistas ou simplesmente
independents, isso 6 mat6ria para um
future incerto e ndo sabido. Por enquan-
to, se disp6e apenas da palavra do presi-
dente, que pode ser alguma serventia,
mas certamente nio serve de garantia
plena de sua intervenqdo na delicada
questao. Ainda mais porque a jura p6s-


fato de Lula veio numa embalagem tao
autoritaria quanto a do seu amigo Fidel.
O president brasileiro reagiu irado As
critics que a organizagdo "Rep6rteres
sem Fronteira" Ihe fez. Classificou-as de
"descabidas". Nao aceitou ser julgado a
partir de Paris, onde fica a sede da ONG.
"Como algu6m pode ficar fazendo julga-
mento do meu comportamento com rela-
cao a Cuba, li de Paris?", protestou Lula.
Ora, mesmo sendo president, nosso ex-
operdrio nem por isso se tornou imune a
critics. Elas sao legftimas e podem ser
corretas, ainda que feitas em Paris. Nenhum
jornalista pode ser considerado (e se sen-
tir) bom sem fazer coberturas especiais, em
viagens. O enviado especial costuma co-
meter pecados, nem todos veniais, mas seu
legado 6 altamente positive, seja John Reed
descrevendo a revoluqao russa, John Her-
sey a explosao at6mica em Hiroxima, K.
S. Karol o gulag sovi6tico ou Euclides da
Cunha a rebeliao de Canudos.
Ao inv6s de puxar a carteira para sa-
car o "sabe com quem estd falando" ou
se preocupar com a origem geogrdfica da
critica, o president Lula tem que consi-
derar esses fatos normals e responder aos
seus interlocutores, ao inv6s de ataca-los
autoritariamente, como costuma fazer,
em Cuba, seu amigo Fidel Castro. Cuba
6 um exemplo impressionante de resis-
tencia A opressdo externa (e que opres-
sao, tao pr6xima!), mas nao 6 nada exem-
plar muitissimo pelo contrrio na con-
vivencia corn a pluralidade e a democra-
cia nesses mais de 40 anos de mando
vertical e absolute de Fidel. S6 nao ve
essa contradicao quem n~o quer ver.


Floresta paulista


A Amaz6nia de Sio Paulo, o vale do
Ribeira, foi favorecido, no mes passado,
por uma decision sibia do Ibama. O insti-
tuto indeferiu a licenga de construqgo da
hidrel6trica de Tijuco Alto, entire Sao
Paulo e Parand. A usina foi projetada pela
Companhia Brasileira de Aluminio para
gerar 150 megawatts, inundando uma
area de 4.320 hectares.
Daria quase 20 hectares por MW. E
uma area de inundaqdo considerivel para
uma hidrel6trica pequena. Tucurui, com
seus 8,3 mil MW, inundou quase 290 mil
hectares (aproximadamente 35 hectares
por MW). Mas nao foi s6 por afetar o


delicado equilfbrio do vale do Ribeira e
a vida dos seus caiqaras (os caboclos
paulistas) que a obra foi vetada. A turbi-
nagem do reservat6rio revolveria o fun-
do do rio, onde uma garimpagem preda-
t6ria, sobretudo de ouro, fez corn que se
acumulassem metais pesados, como
chumbo, cobre e zinco.
Espera-se que a hist6ria se tenha en-
cerrado e que a CBA, do empresario
Antonio Ermirio de Moraes (em outros
contextos um defensor da ecologia), tente
outra forma de gerar energia sem danos
para uma area tao suscetivel a agress6es
quanto o vale do Ribeira.


Mem6rias

Humberto de Campos, escritor que
nasceu no Maranhao mas se formou in-
telectualmente no Pard, na passage do
s6culo XIX para o XX, quando morreu,
em 1934, deixou confiada A Academia
Brasileira, da qual era membro, parte das
suas mem6rias. Elas s6 deveriam ser
abertas 50 anos depois da sua morte. Ati-
vo cronista e participate da vida social
e political da Primeira Repdblica, Hum-
berto deve ter deixado muita pimenta
guardada nesse acervo. Mas esse reposi-
t6rio continuard vedado ao ptiblico.
Num artigo para a revista eletr6nica
No.minimo, o advogado carioca S6rgio
Bermudes inform que a famflia pediu
para a ABL manter lacrada em seu cofre
a parte final das mem6rias de Humberto
de Campos. Sinal de alerta para algum
journal do Rio de Janeiro colocar o assunto
na sua pauta e ajudar a matar essa saudi-
vel curiosidade.
Para quem nao sabe: Humberto de
Campos foi, para a sua 6poca, um escri-
tor famoso, muito lido.


Niquel
O grupo canadense Canico Resource
Corp. anunciou que pode investor at6
600 milhoes de d6lares na mina de
niquel do Onca-Puma, na provincia
mineral de Carajis. O investimento
vai defender da pesquisa da empresa,
cuja conclusao esti prevista ainda
para este mes. Segundo a empresa, a
mina teria uma capacidade de
producqo de aproximadamente 23 mil
toneladas por ano e entraria em
atividade em 2006 ou 2007.



Peao
O president Lula anunciou, duas
semanas atris, que o tempo das vacas
magras havia acabado. Seu primeiro-
ministro de fato, Jos6 Dirceu, fez a er-
rata logo em seguida: as vacas gordas
deverao entrar no past dos brasileiros
em nove meses (mais um parto), ou tal-
vez 16 meses.
Sabe-se, pelo menos, que de vaca nos-
so president nada entende.


2" QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal










A vida nas ruas:



bem sem valor


A cena me assusta e freio. Uma mu-
Iher, em sua bicicleta, desce a
avenida Conselheiro Furtado. Na-
garupa, mal-atracada, uma crian-
qa, que ainda nao tem seis anos. As mao-
zinhas tentam se atracar As largas costas
da mulher. Pode cair a qualquer momen-
to na via de trifego intense. Paro sobre a
sarjeta A espera da ciclista insensata, pre-
parando-lhe um sermao. Talvez ela tenha
intufdo. Atravessa para o outro lado e
toma a direqao da contra-mao. Pelo re-
trovisor, acompanho a cena at6 que a bi-
cicleta some numa transversal. Sobrevi-
verdo? Por quanto tempo?
Saio ruminando com a cena na cabe-
qa. Ha cada vez mais bicicletas nas ruas
de Bel6m. Solucqo de emergencia: o po-
vao ji nao tem dinheiro para o onibus di-
ario. Recorre A bicicleta. E verdade: 6 ne-
cessirio ter algum capital para imobilizar
na compra. Mas se voc6 reunir tr8s pes-
soas que nao estejam no top de linha da
sociedade, algu6m contard de pronto uma
hist6ria de roubo de bicicleta. Vacilou, ld
se vai a bicicleta. Olhos migicos parecem
estar h espreita do menor descuido para
agir. Demanda aquecida de mercado, di-
agnosticard qualquer economist.
Duas ou quatro passagens de onibus
por dia pesam no orcamento. Resvala-se
para o mercado informal: uma bicicleta
usada pode ficar por 10% do preqo ori-
ginal quando oferecida por um diga-
mos assim descuidista. Dai a multipli-
caqdo do transport sobre duas rodas nio-


motorizadas. Ja hi at6 estacionamento
para trabalhadores que se transportam
por bicicleta. Um deles, numa vila, ao
lado do Lider da Doca. Logo cedo as
pessoas chegam para o service e deixam
sua maquina para um rapaz, que vai en-
fileirando-as dos dois lados da passage
e depois fica cuidando delas com a fide-
lidade de um pastor de ovelhas. Aquele
do sermdo biblico.
Daqui a pouco o 6nibus ficard mais
caro. Graqas h encenaqao de sempre: as
empresas pedem por cima para a prefei-
tura conceder pelo meio. A taxa de lucro
reduz, mas 6 um bom preqo a pagar para
o sistema viciado permanecer intocado.
Sai administraqao e entra administracqo
no municipio, mas a mecAnica permane-
ce inalterada, a despeito dos discursos, A
esquerda e A direita. Itinerarios irracio-
nais e excess de veiculos para guardar
lugar, mantendo o oligop6lio, o cartel.
Para quanto ird a tarifa agora? Tal-
vez R$ 1,30? Nao 6 caro, talvez. Mas 6
insuportAvel para o povdo, o que mais
precisa do transport coletivo. Podia-se
reduzir as gratuidades ao minimo, rigo-
rosamente ao minimo. Por que os Cor-
reios tem essa franquia, que nao conce-
dem a ningu6m? Pois que acrescentem
um plus aos seus carteiros? Ojudiciario
tamb6m pode arcar com as despesas dos
oficiais de justiqa no cumprimento dos
seus mandados. NMo 6 para isso, tam-
b6m, que existe a taxa, um recurso ex-
tra-orqamentario de uso (e comprova-


qao) fluido? Por que policiais entram e
saem dos 6nibus sem-cerim6nia? Nao
recebem vale-transporte? Se nao rece-
bem, que passem a receber.
Ja a faixa de franquia para idosos
pode passar para os 70 anos sem pro-
blemas ou ser modificada. Ao inv6s da
carteira, os idosos receberiam um car-
tao magn6tico, com 60 passagens, por
exemplo. Uma vez esgotado o cartao,
passariam a pagar normalmente. A van-
tagem adicional seria acabar cor a dis-
criminaqao, que faz os motorists "quei-
marem" as paradas quando hi apenas um
idoso esperando. Com o sistema atrav6s
do cartao, nunca saberiam se o passa-
geiro esti no perfodo de gratuidade ou
nao. Para isso, 6 claro, as empresas te-
rao que instalar a catraca eletr6nica e
adotar melhorias para servir melhor o
maltratado pessoal da terceira idade.
As pessoas bem postadas em seu
transport individual ou numa poltrona
do poder costumam se esquecer que o
transport pdblico de massa 6 uma con-
cessao p6blica. Ou seja: um serviqo em
favor do pdblico em geral e nao de uns
mandarinatos ou grupos de privilegiados.
Tem que ser o melhor possivel. Quando
conheci Portland, a capital do Oregon,
em 1990, me espantei ao descobrir que,
na area central da cidade o transport
coletivo 6 completamente gratuito. De-
pois de estudos, a prefeitura descobriu
que saia mais barato e melhor fazer as-
sim do que tentar qualquer outro siste-
ma. E isso num pais como os Estados
Unidos, vacinado contra o socialismo.
Por aqui, tomamos quando vemos
cenas como a da mae e sua filhinha na
bicicleta. Comprovamos, mais uma
vez, a und6cima, que a mis6ria do povo
e a pouca-vergonha dos seus represen-
tantes e dirigentes estdo tornando a vida
um bem sem valor.


Ana Maria

Quantos paraenses ji fo-
ram noticia no journal mais in-
fluente do mundo, o New York
Times? E quantos foram noti-
cia positivamente, engrande-
cendo sua terra? Ana Maria
Martins esti nesta lista exclu-
sivissima. Numjoral que tern
editoria de culindria (cozinha
& restaurante, com abran-
gencia mundial, Ana Maria
ganhou reportagem alentada
pelo seu Ld em Casa. Mere-
ceu atenqdo por haver dado A
cozinha amaz6nica uma per-
sonalidade universal, uma das
primeiras a conferir status a


pratos que at6 entao se aco-
modavam num gueto culini-
rio. Nao foi por um exotismo
primitive ou pela sanguino-
lncia da fronteira que Ana
Maria teve sua foto publica-
da no NYT: foi por competen-
cia pessoal, que transmitiu e
estimulou no filho, seu segui-
dor no restaurant.
Ana Maria Martins esti se
aposentando do neg6cio. Seus
amigos e clients lamentarao
quando ji nao a encontrarem
no LA em Casa/O Outro), ma-
ravilhosa anfitria que sempre
foi, atenciosa, alegre, descon-


traida. Mas ficaro
felizes se souberem
que ela aceitou a
aposentadoria para
curtir melhor a vida,
sem nunca deixar de
voltar ao seu estabe-
lecimento. Nao s6
para partilhar seu invejdvel
savoir-vivre com todos que
tanto bem Ihe querem, como
para manter viva a marca re-
gistrada que imprimiu ao con-
junto de restaurants, hoje
assumido pelos seus descen-
dentes, A frente por direito
de conquista Paulo Martins.


Para perenizar
o agradecimento
de uma terra A qual
Ana Maria Mar-
tins serviu sempre
com grande prazer,
convinha A CAma-
ra Municipal de
Bel6m ou A Assembl6ia Le-
gislativa do Estado conce-
der a essa pioneira um titu-
lo de reconhecimento ao seu
trabalho, que ela muito fez
para merecer. Com ela, o
Pard nao foi noticia por seus
miasmas, mas por seu lado
positive.


Journal Pessoal 2a QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 0


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E RA DO 3 DAN


Casamentos
Foram realizados em
Bel6m, em 1947, 918
casamentos. Os meses
que tiveram mais
casamentos foram
dezembro (131), maio
(115)e julho (85),
Obvio: proximidade
com o natal, mds de
Maria e f6rias. A
distribuicao continue
semelhante?

Constellation
No primeiro dia de
1948 a Panair do Brasil
anunciou ao distinto
p6blico que passaria a
realizar viagens
regulars Rio-Bel6m
nos seus "ji famosos"
avi6es Constellations
(de quatro motors, a
h6lice), da "Frota
Bandeirante", "em seis
horas de v6o direto",
sempre As terqas-feiras.
A passage custaria
2.295 cruzeiros.
Quanto, hoje, 6 dificil
de dizer, num pais que
acumula quintilh6es de
inflagao.


SRem6dio
Nesse mesmo 1948 vendia-se nas far-
S micias o lodolino, "indispensavel"
no period de crescimento das cri-
anqas por fortificar e desenvolver,
corrigindo a nutriqgo e evitando as
doencas desse period da vida. Para as meninas na pu-
berdade, por6m, o Iodolino servia de "garantia contra
desarranjos futures". A propaganda, por6m, nao iden-
tificava os ditos desarranjos que poderiam advir. O re-
m6dio era vendido em garrafas de vidro, que custavam
menos e tinham maior quantidade.

Agua
A Adega Portuguesa no Pard garantia, em antncio publi-
cado ainda em 1948, que s6 tinha falta d'agua na cidade
quem queria. A empresa, estabelecida na avenida Sena-
dor Lemos 177, tinha "grande stock de barris de 250 li-
tros, madeira de primeira qualidade", que colocava A ven-
da, na loja ou pelos telefones 3935 e 3343.


Onibus
Em 1955, todos os dias, de cinco a seis 6nibus da Viaqao
Excelsior eram recolhidos A garage com molas que-
bradas. Eram vitimas das p6ssimas condiq6es da rua An-
t6nio Baena, no perimetro entire Tito Franco (Almirante
Barroso) e Duque de Caxias, "completamente intransi-
tavel, com buracos enormes", conforme a queixa dos mo-
radores. Os proprietarios da empresa j ameagavam sus-
pender o atendimento do bairro da Matinha, com seus
milhares de moradores, por causa dos prejuizos.
As ruas intransitdveis mudam, mas o problema
continue.


Academia
Vencedores do concurso de literature de
1955 da Academia Paraense de Letras:
no genero poesia, o padre Belchior Maia
de Athaide com o livro "Bissextas"; de
teatro, Claudio Barradas, corn a pea "0
trovador de Deus"; mences honrosas
foram concedidas a Cfndido Marinho
da Rocha, por seu livro de contos, a Lin-
danor Celina e Otivio Avertano, por
seus livros de poesia.


- .- Acordeon
(*i illil : Ninguem era
( considerado
por dentro na
S d6cada de
1950, em Be-
16m, se nao freqiientasse as aulas da
Academia de Acordeon Prof. Alen-
car Terra, dirigida pelo professor
Milton Assis. A turma de 1957 dos
novos ases do instrument, da nata
da sociedade, era formada por Adol-
fo Tufias Pinheiro, Alice Fernandes
Noura, Aline Esteves Soares, Arle-
ne Maneschy Horta, Cota Aguiar Be-
nezecry, Fernanda Marques Marcal,
Lea Faciola Pessoa, Maria Angeli-
na Teixeira, Maria Auciliadora
Mota, Maria Luiza Silva, Maria Re-
n6e Fidalgo, Mary Obadia, Nadir
Amorim e Silvia Souza Braga. Doze
mulheres e s6 dois homes.


FOTOGRAFIA

Bale
Essafoto, de 1955, tem quase
meio seculo. Mas nesse ano o
jovem professor Augusto
Rodriguesjd estava realizando
o V Festival de Ballet do seu
Conjunto Coreogrdfico, que se
tornaria uma das referencias
da vida cultural de Belim. Aqui
ele posa com uma de suas
alunas, Cilia Maria da Silva,
que executaria "com garbo e
perfeigdo" duas peas, Riplica
dos Sinos e Lago Encantado.
Nem todas as adolescents
tinham vocaqdo para a danga,
mas todas as bem-nascidas de
entdo tinham que passar pelas
mdos do professor Augusto,
que comandava com rigor e
autoridade. 0 conjunto
coreogrdfico que levava seu
nome durou e brilhou por
muitos anos.


.


I-
pi'1'


2' QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal


r

.
~tl r,












PROPAGANDA

0 melhor

sorvete da

cidade

A Casa Aveirense, na
avenida Independencia
155, esquina da avenida
Alcindo Cacela, se
orgulhava de ser o melhor
lugar para os paraenses
realizarem, na metade da
decada de 40 do seculo
passado, um de seus mais
apreciados programs:
tomar sorvete. "Nossa
sociedade tem predileado
por duas coisas",
proclamava um antuncio
que inaugurava 1948: "o
cinema e o sorvete. As
principals families
paraenses, depois de um
bom filme, fazem questao
fechada de um dtimo
sorvete. Tambem, depois de
umas voltas de 6nibus, ou
de um 'footing' na praga,
nada melhor do que um
sorvete bem feito ".
A Aveirense, fundada mais
de 50 anos antes e dirigida
entdo por Alvaro Pina
Lucas, Emanuel Resque e
Fernando Raposo, havia
contratado os servigos do
mesmo ticnico "que


fabricava os sorvetes para a mais admirdveis sorvetes e Aveirense se incluia entire
extinta Sorveteria os melhores pratos", deviam aqueles lugares atraentes
Japonesa ". Por isso, as ir a Casa Aveirense, "a que podiam ser contados
families belenenses, "e melhor e mais complete nos dedos na cidade,
todas as pessoas de bom padaria, confeitaria, cafe, "onde a gente se senate bem
gosto e paladar requintado, bar e restaurante. e onde a vida nos parece, em
quando desejarem passar Numa cidade "mais triste do verdade, vida", como
horas alegres, num ambiente que alegre", com poucos assegurava o texto
seleto de distingdo e "pontos de diversdo onde se publicitdrio puxado
respeito, saboreando os possa distrair as mdgoas", a para o lirico.


Furto
O director da Biblioteca e Arquivo Puiblico do Para,
Ernesto Cruz, deu queixa A policia mas
nao ficou s6 nisso ao constatar que
haviam desaparecido "pap6is velhos"
do pr6dio da BAP, em marqo de
1962. Quando contactado por um
advogado ao qual os ditos papeis
foram oferecidos por venda,
saiu na pista e chegou a uma
tipografia, que havia comprado
o material como inservivel ou
destinado a reciclagem.
Tratava-se, na verdade, de
livros de atas da prefeitura de
Bel6m do s6culo XIX. Esses,
retornaram. Mas outros podem
ter-se perdido, temia o
historiador. Cena frequente
num pais dado ao desapreqo
por sua hist6ria.


Olhos
Em 1962 o oculista Paulo
Dias avisava aos seus clien-
tes que havia instalado em seu
consult6rio, no edificio Fiti-
ma (na 28 de Setembro corn a
President Vargas), moderno
laborat6rio de pr6tese ocular",
mas que s6 poderia tender
com hora marcada, aos siba-
dos pela manhi, "em virtude
de detalhes que serao neces-
sarios" para a confecqao da
pr6tese. O telefone para con-
tatos era 3095.


Rum
Para os arquivos dos adep-
tos da Cuba-Libre: as pri-
meiras mil caixas do Rum
Bacardi chegaram a Bel6m
em marco de 1962, transpor-
tadas desde Recife pelo na-
vio Maud, sob encomenda de
Evaristo Rezende & Cia., re-
presentante commercial da fir-
ma pernambucana. O lanqa-
mento foi num coquetel rea-
lizado na sede do Autom6-
vel Clube, no edificio Pali-
cio do Radio. Tim-tim.


Jornal Pessoal 2a QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 1 7


I









0 indispensivel Arte Parai


O Arte Pari, da Fundacqo Romulo
Maiorana, ji 6 um item indispensivel
da agenda do Cfrio e um patrim6nio dos
paraenses. Precisa ser mantido. Mas seus
promotores estdo fazendo o contrdrio. A
cada nova edi~go, o salao perde em qua-
lidade. O deste ano 6 o pior de todos. O
nivel da m6dia dos trabalhos 6 sofrivel.
Talvez nem se possa jogar a culpa sobre
os selecionadores. O que 6 que eles nao
tiveram em suas mdos para classificar as
obras postas em exposicqo?
Houve uma queda de nivel na produ-
9qo artistic (local e pr6xima) ou os bons
artists j nao querem mais expor no Arte
Pard? Ou as duas coisas, ambas provoca-
das pela desatenta condu9ao da mostra?
Os especialistas que busquem a resposta,
mas se houver nova queda no salao do
pr6ximo ano, ele vai se tornar completa-
mente desnecessario. Quem possui certo
nivel de exig6ncia nao aparecera mais na
exposiqao. A deste ano pode ser vista (e
mal vista) em, no maximo, 10 minutes.
O visitante sentird a diferenga compa-
rando os trabalhos do Arte Pard com a sala
contigua do Museu do Estado, que abriga
artists paraenses ji consagrados (e por
todos os bons motives), como Ruy Mei-


ra, Benedicto Mello e Jodo Pinto. Nessa
sala, alias, pode-se apreciar Kaminagai e
Yoshio Yamada, que fundou o imp6rio em-
presarial mas nao teve sucessores da sua
destacada face de artist na familiar.
Maior choque teri o visitante quando,
atravessando a praga e indo ao velho Pali-
cio Azul, defrontar os tesouros da Caixa,
com seus Portinari, Cavalcanti, Djanira e
tantos outros, um privil6gio para quem, na
capital dos paraenses, fica t~o ilhado des-
sas riquezas. E por isso, quem sabe, costu-
me perder parametros e perspectives.
Sugiro aos promotores do Arte Para
que, em 2004, suspendam a parte competi-
tiva da mostra e fagam um salao apenas
com artists paraenses convidados. Juntem
gente criteriosa a um curador sensivel para
selecionar alguns dos melhores quadros e
esculturas criados por artists paraenses ao
long do s6culo XX, se possivel impor-
tando alguns trabalhos dos poucos dentre
n6s que conquistaram amplitude national
e al6m-fronteiras deixaram algumas de
suas obras. Talvez diante de um espelho
desses os competidores caiam em brios e
voltem a dar seu brilho a uma exposigio
que precisa mudar para continuar, sob
pena de se tornar mero pretexto.


Maradei


A prefeitura de Belm tornou-se cre-
dora de elogios quando homenageou o
grande m6dico Humberto Maradei, bati-
zando com seu nome o pronto-socorro
do Guama, inaugurado no ano passado.
Passado o moment de festa, por6m, ve-
rifica-se agora que essa foi mais uma obra
de 1,99, marca da atual administraqgo.
A 6nica coisa que permit identificar
a denominagqo do PSM 6 uma placa de
metal ruim, colocada numa lateral do
edificio, na qual mal se pode ler o nome


Hospital

O Banco do Brasil e o BNDES nao
jogaram centenas de milhaes de reais
apenas no Projeto Jari, que passou do mi-
liondrio americano Daniel Ludwig para
um cons6rcio de empresas nacionais li-
derada pelo grupo Antunes e, em segui-
da, para a Orsa, de Sdo Paulo. Os dois
bancos estatais entraram tamb6m com
muito dinheiro na Cadam, a usina de be-
neficiamento de caulim que Ludwig
transferiu para Antunes, isoladamente, e
agora esta sob o control da Companhia
Vale do Rio Doce, que assumiu a Caemi,
holding do grupo Antunes. A Catemi tem
100% do capital votante da Cadam, ain-


de Maradei (se 6 que, neste moment,
ainda esta legivel). O conventional nes-
se tipo de homenagem 6 a placa de bron-
ze ou moldar o nome do estabelecimen-
to em concrete ou cimento em lugar des-
tacado do pr6dio.
Para merecer de novo elogio a pre-
feitura de Bel6m precisa corrigir, urgen-
temente, esses maus modos, homenage-
ando decentemente um cidadao que se
tornou motivo de reverencia na cidade a
que tdo bem serviu.




da a maior produtora de caulim do Para
e do Brasil, mas apenas 61% das ages
preferenciais. O Banco do Brasil tem
22% e o BDES, 17%. O que significa que
devem ter entrado com mais de um tergo
dos investimentos da empresa, mas nao
interferem na sua administragao, limitan-
do-se a buscar seus dividends, quando
eles sdo distribuidos.
Ou seja: as institui qes piblicas ain-
da funcionam como pronto-socorros fi-
nanceiros para empreendimentos priva-
dos, a pretexto das dificuldades decor-
rentes de sua instalaqCo em areas pionei-
ras ou por miasmas interns.


Nobel
Nos dltimos 12 anos a Afri-
ca do Sul deu dois premios
Nobel de literature. Primei-
ro foi Nadine Gordimer,
em 1991. Agora 6 J. M. Coetzee. Am-
bos, da mesma geracgo, representando a
minoria branca, 10% da populacgo do
pais. Um home e uma mulher. Os dois,
solidarios com a causa dos negros e em-
penhados (embora sob prismas distintos)
no fim do apartheid, que subsiste A de-
cretaqIo formal da exting~o. Escrevem
em ingl8s, o que certamente facilitou se
tornarem mais lidos e conhecidos.
De qualquer maneira, a Africa do Sul
tem caminhado mais do que o Brasil,
eterno candidate perdedor a premiaqo,
na trilha da reform social. Mudar a es-
trutura de injustiqas herdada do colonia-
lismo tem-lhe sido mais cara e dolorosa,
mas, talvez por isso mesmo, mais valori-
zada. N6s temos desistido antes da hora.
Daf, quem sabe, o dnico pr8mio para um
escritor em lingua portuguesa ter ido para
um portugu6s (Jos6 Saramago) e nao um
brasileiro. Embora tenhamos muito mais
bons escritores e a academia do Nobel
nem desconfie.




D. Alberto
Bastante decepcionante para mim a de-
fesa aparentemente pouco empenhada que
Jarbas Passarinho faz de dom Alberto Ra-
mos. Pelo menos a defesa tal como ela apa-
receu no Jornal Pessoal (edigfo 309). Tal-
vez para ojomalista a quem originalmente
dirigiu a carta na qual faz menqio A atua-
co do arcebispo em 1964 ele tenha mos-
trado mais disposiiao de revelar o que co-
nheceu a respeito de dom Alberto Ramos.
Se fez isto, de qualquer forma nao obteve
maior repercussao. Este modo discreto de
reagir a divulgaq~o de informaq6es sobre
o Golpe Militar em Bel6m, chama a aten-
9~o, ji que Passarinho dispie de amplo
espaqo na imprensa local e consegue com
facilidade publicar seus artigos nos jomais
de Sdo Paulo. Tem, portanto, todas as con-
diqves de dar um alcance a sua reaao que
eu, nem de long teria, como autor de um
livro publicado em nossa cidade livro ao
qual ele pretenderia contraditar.
Por que o velho coronel nao quer fa-
zer alarde sobre a atuacgo dele e de dom
Alberto Ramos, em Bel6m dos anos de
1964? Quem leu o meu livro talvez te-
nha uma resposta a esta pergunta.
Oswaldo Coimbra
jona Pssol-Eio:IOcoF. it
Foe: 01 21766Cntt: vBnjmn osan 4523
*6.05-4 emil: IEra~aao.cmb
Prdgo nglmPnoEd~od re:Li it