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1' QUINZENA OUTUBRO DE 2003 Tomal Pessoal / A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO SARNEY O coronel ataca outra ve Com sua base no Maranhbo, o senador Jose Sarney ataca para todos os lados, influindo tanto no Nordeste quanto na Amaz6nia. Talvez seja o mais bem-sucedido coronel das oligarquias brasileiras. Mais ate do que ACM. Ele ataca novamente no Para, influindo em nomeaqoes e fazendo valer sua influencia na administragao petista. ma conceder ao senador Ant6nio Carlos Magalhdes o titulo de "o maior coronel do Brasil". E um titulo de inspiragdo e utilidade am- biguas. Ou, avaliando melhor: titulo su- tilmente enaltecedor. ACM 6 o campeo -- do coronelismo porque manda e desman-"- da na Bahia como nenhum outro, antes ou depois dele na curul baiana, ou mesmo em qualquer satrapia brasileira. O cabresto, por6m, foi muito al6m: ACM manipulou ministros e at6 mesmo presidents da repdblica para que fizes- sem seu jogo, sagazmente jogado nos bastidores do poder national. Graqas ao seu faro apurado para detectar as mudan- qas nos gabinetes mais poderosos do pais, trocou de lugar e de camisa conforme suas conveniencias, saltando da nau que afundava para embarcar na que passava ao largo. Em algumas das situacqes ar- riscou o pescoco, mas saiu-se invariavel- mente bem na grande maioria das vezes. A luxiria e o excess de autoconfianga o fizeram cometer um erro quase fatal, quando quis se antecipar e identificar os votos dos seus colegas de Senado. Foi dado como politicamente morto. Mas re- nasceu das cinzas. ANO XVII N? 309 R$ 3,00 Quando se trata de compor o perfil do coronel todo-poderoso, a grande impren- sa prefer destacar o lado folcl6rico e cor- dial de ACM do que sua selvageria, s6 bem conhecida pelos mais intimos. O ob- jetivo, se ndo explicit, subentendido, 6 aproxima-lo da figure de um coronel boa- praca e simpatico, como o que Paulo Gra- cindo interpretou na famosa novela de Dias Gomes para a televisao, O Bem-Ama- do. Ou seja: transforma-lo em idolo. Mal- vadeza, sim; mas, sobretudo, Toninho. ACM fez e desfez como raros politi- cos em toda hist6ria brasileira. Foi um dos mais bem-sucedidos no desempenho do papel de eminencia parda. Mas nun- ca conseguiu ser president da repdblica e nem fazer um todo seu. Mas isto foi alcan9ado por outro coronel, a meu ver, por isso mesmo, maior do que ACM: o maranhense Jos6 Sarney. Talvez, sem reivindicar o titulo, ele tenha sido at6 mais convincente no quesito no qual seu eventual concorrente mais se orgulhava de desempenhar: o das relaq6es ptblicas, a arte de fazer amigos & influenciar pes- soas cinzelada por Dale Carnegie. A competencia de ACM em atrair, agru- par e favorecer uma mirfade de estrelas baianas e constelaq6es aderentes levou A fundacqo (por existencia real ou atribuida) da chamada mafia do dende. Dessa Cosa Nostra sdo apontados como inquilinos de esquerdistas (mortos ou vivos), como Jor- ge Amado e Joao Ubaldo Ribeiro, a pop- stars do figuring de Caetano Veloso. A ilharga de Jos6 Sarney (ademais de tudo, um codinome) nunca houve tantos artists como os que gravitaram ou gravi- tam em torno de ACM, mas ele sempre teve pessoas inteligentes e sagazes ao seu lado. E bom nunca esquecer que o nosso Jos6 de Ribamar de Aradjo Costa (o nome de ba- tismo) era da ala esquerda da UDN (a dita Bossa Nova) quando os militares depuse- ram o president Joao Goulart, em 1964. JA deputado federal, relata a cr6nica que Sarney serviu de motorist para levar o perseguido deputado paraense (e igual- mente udenista-bossanovista) Cl6vis Fer- ro Costa A sede de uma embaixada, ainda no Rio de Janeiro, onde o parlamentar se exilou e escapou da prisdo. Mutatis mu- tandis duas d6cadas depois, Sarney tor- nado president pelos caprichos dos deu- ses da Antigiiidade (mais caprichosos na tessitura dos destinos humans do que o monoteismo vigente), o sempre correligi- onario Ferro Costa ganhou um dos me- lhores empregos da reptiblica: o de pro- curador da Itaipu Binacional. A fidelidade canina sempre foi o pas- saporte exigido por Sarney dos que pre- tenderam ingressar no reduto do seu com- padrio e fisiologismo. Retribufa aos ini- ciados com todos os favors dos esque- mas de poder, independentemente de lu- gar ou objeto. O versejador Bandeira Tri- buzzi, por exemplo, apesar da iconoclas- tia, foi erigido a condigdo de maldito san- cionado. Sua obra complete (e irregular) foi publicada p6s-morte como uma pro- va do lado intellectual, altruista e demo- cratico do seu mecenas. Uma no cravo, outra mais forte ain- da na ferradura. Com a gazua do seu arquivo de ex-presidente, Sarey edificou um memorial, encontrou um lugar privi- legiado para tomi-lo como sede, mandou a conta de investimento e custeio para a vidva e nomeou-se o administrator desse legado at6 a morte, sem deixar de benefi- ciar sua obra dos favors do incentive a cultural. Equiparou-se aos marajAs da In- dia. Tanto que muitos pr6dios pdblicos foram construidos no Maranhdo para ho- menagear a familiar Sarney. O exemplo mais edificante (digamos assim) dessa construgqo oligArquica 6 a Unidade Integrada Feranda Sarney, no municipio de Bom Jardim. Fernanda, bis- neta do senador, 6 como se fosse a infant de uma familiar real, aos 6 anos de idade. Antes de poder conceber qualquer id6ia de gl6ria, ja a conquistou. Qual oligarca pode declarar que chegou a tanto? Fiel ao velho lema udenista que con- sagrou a eterna vigildncia, por6m, Jos6 Sarney nao dorme sobre os louros con- quistados. Trata de amplia-los cada vez mais. Depois de haver nomeado presi- dente e director da Eletronorte, a empresa pdblica mais important da Amaz6nia, agora se langa sobre um outro cargo es- trat6gico na regido: a superintendencia da Receita Federal. Disso, pelo menos, 6 o que nos da conta o director da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasilia, Josias de Souza, em artigo publicado recente- mente. O alvo do torpedo maranhense 6 o t6cnico Jos6 Tostes Neto, no cargo, em funqio de carreira, desde o comeqo do governor anterior. A razio da sua longe- vidade 6 o seu desempenho num cargo que tem jurisdicao sobre favors e incen- tivos fiscais, tanto da extinta (e ressusci- tada) Sudam quanto da Suframa (Supe- rintendencia da Zona Franca de Manaus). Na defesa dos interesses do eririo, Tos- tes & equipe ter mantido uma attitude vigi- lante e incisiva. Foi ele o dnico dos conse- Iheiros da Sudam, alias, que se insurgiu, na reuniao do Conselho Deliberativo da Supe- rintendencia do Desenvolvimento da Ama- z6nia (ja extinta, mas A espera da "Nova Sudam" petista, de parto dificil), realizada em Sao Luis do Maranhao, contra a aprova- cao do projeto da Usimar, apoiado pela en- tao governadora Roseana Sarney e seu ma- rido (vice-c6nsul maranhense, ou vice-rei, conforme a circunstfncia), Jorge Murad. A aprovaqao do projeto da Usimar, como agora se sabe, foi o maior dos escindalos na hist6ria recent da Sudam, pondo-a a pique. Mas todos os convidados do transa- tlintico dos incentives fiscais safram a tem- po, avisados por quem podia avisa-los. E ilesos. Com os bens salvados do naufrigio devidamente em caixa. Em relaqao a esse assunto, parecem estar de acordo Sarney e o ainda morubi- xaba paraense, o deputado federal Jader Barbalho, apontado como o principal res- ponsAvel pela onda final de irregularida- des da Sudam, por abonar tanto o supe- rintendente quanto alguns dos principals beneficiirios das fraudes. Afastar Tostes da Receita Federal seria o ato II, a vin- ganca. Afinal, Roseana casou com algu6m com quem o pal tamb6m casaria, se tal fosse possivel, conforme o ex-presidente ja disse e repetiu, dando uma id6ia da sua afeiqao por Jorge Murad, apontado como o articulador de bastidores da aprovaqco do projeto miliondrio da Usimar. A pro- p6sito: os 44 milhaes de reais liberados efetivamente pela Sudam evaporaram mesmo? Bem que seria interessante a im- prensa dar a esse enredo a atencao provo- cada pela descoberta dos milhares de no- tas de reals encontrados em um dos redu- tos dos Sarney, em Sao Luis, no quase- ex-escandalo da Lunus. JA esta na hora, de todo modo, de es- crever uma hist6ria menos cor-de-rosa dos coron6is brasileiros. Mesmo que ainda falte para tal, ja seria algum avanqo man- t6-los em seus redutos. Ao inv6s de dei- xar que espraiem sua sanha de poder. 1 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal 02 Ping-pong Quase simultaneamente, um ping e um pong para Luiz Rebelo, o principal executive do grupo Reicon, cor forte atuaqao na navegaqCo, na construcao naval e na distribui~go de combustivel. O ping: um trof6u que a Congresso International Israelita de Sociosfera na Amazonia (criaqao de Oro Serruya) lhe concede pela contribuigao do seu projeto Protam (Adote Arvores e Tarta- rugas da Amaz6nia) para o meio ambiente. O pong: a aqio de protest judicial movida pelo Banco do Brasil, que cobra uma divida de novembro de 1994, no valor de 5,5 milh6es de reais da 6poca (seriam uns R$ 30 milh6es atualmente), por financiamento contraido e ndo pago. O que pesa mais: o ping ou o pong? CVRD suspended expansao da Alunorte As obras de ampliaqao da Alunorte, no valor de 582 milhoes de d6lares (apro- ximadamente 1,7 bilhao de reais), estdo temporariamente suspensas. A empresa, que pretendia elevar sua capacidade de produgqo dos atuais 2,4 milhoes de to- neladas para 4,2 milh6es de toneladas anuais ji avisou aos seus empreiteiros e fornecedores que o inicio das obras, previsto para este mds, foi sobrestado. A situaq~o assim se manteri at6 que a Sec- tam (Secretaria de Ciencia, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado) decide sobre a liberaqao ou nao do projeto de extra- q9o de bauxita de Paragominas. At6 agora a secretaria nao se mani- festou sobre o licenciamento ambiental requerido pela Mineraqao Vera Cruz, subsididria integral da Companhia Vale do Rio Doce, que 6 tamb6m a principal acionista da Alunorte. A exploraqao dos grandes dep6sitos de bauxita de Para- gominas, congelada durante varios anos, foi retomada exatamente para suprir a Alunorte de mat6ria prima para a pro- du~ao de alumina, que, por sua vez, 6 insumo para a produqao de aluminio metdlico pela Albris, a empresa-prima da Alunorte, tamb6m controlada pela CVRD, ambas instaladas no distrito in- dustrial de Barcarena. Como a produqao de bauxita da Mi- neracqo Rio do Norte, traditional su- pridora da Alunorte, jA esti totalmen- te comprometida com os seus clien- tes, a duplicacao da plant de alumi- na depend da ativagqo da mina de Pa- ragominas, que se localiza a 230 qui- lometros da fibrica de Barcarena. Sem essa nova oferta de min6rio, a Alunor- te teri que permanecer na escala atu- al, que ji a colocou entire as cinco maiores inddstrias do mundo. Subin- do para 4,2 milh6es de toneladas, pre- vista inicialmente para 2006, se tor- nard a ndmero um do mercado de alu- mina. A MRN tamb6m 6 a lider entire as mineradoras de bauxita. As expanses produtivas do p6lo de aluminio do Pard tnm sido continues e de grande porte. No inicio do ano a Alu- norte ji havia pulado de 1,6 milhdo para 2,4 milhoes de toneladas, mais do que dobrando sua capacidade nominal de producao (que, no projeto, era de 1,1 mi- lhao de toneladas). Ja a MRN, embora dificilmente consiga chegar A meta es- tabelecida para este ano, de 16,3 milhoes de toneladas, por problems operacio- nais, devern passar de 15 milhoes de to- neladas (um salto considerivel em rela- gqo A escala de 2002, de 11,6 milhoes de toneladas). A Alcoa, s6cia da CVRD na Rio do Norte, que fica em Oriximi- n~, deveri chegar nos pr6ximos dois anos a uma grande jazida de bauxita em Juruti. Obviamente, vai colocar ainda mais min6rio no mercado international, al6m de tornar-se auto-suficiente em bauxita no Brasil. Assim, ao contrario do que profeti- zavam os futur6logos do s6culo passa- do, a "onda" dos velhos materials nao se exauriu. Muito pelo contririo. O que houve foi um deslocamento geogrifico dos centros produtivos em fung~o de calculo econ6mico, refeito para tender aos custos da energia. Com uma eviden- te depressAo forqada dos preCos que o acompanhou, naturalmente. Essa 6 uma questao relevant e que deve ser tratada quando do exame dos pianos de expansdo das inddstrias de bauxita, alumina e aluminio. Tal refle- xao deve servir de fundamento as deci- soes governamentais. Outra coisa, po- r6m, 6 decidir sem decidir. Ou decidir atrav6s de silencioso embargo de gave- ta, como instrument de negociaqao, barganha ou chantagem. Como parece ser o caso desse affaire combinado Mi- neraqao Vera Cruz-Alunorte. Apesar dessas informacges, ainda nao confirmadas oficialmente, continu- ava previsto para o dia 18 o infcio da implantacgo da mina de bauxita em Pa- ragominas, como se ji houvesse a li- beraqio ambiental, ou ela fosse apenas uma questao formal. Jomal Pessoal Ia QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 03 0 sangrento sul do Parai: E ntre 18 e 23 de agosto os pro- curadores Mario Licio de Ave- lar e Emerson Kalif Siqueira, do Minist6rio Pdblico Federal, participaram de uma operacqo na region do Iriri, nos municipios de Altamira e Sio F6lix do Xingu, no sul do Pard. O objeti- vo da missao, mobilizando ainda o Mi- nist6rio do Trabalho, o Ibama e a Policia Federal, foi verificar as condicaes de tra- balho nas dreas rurais, com atenqdo para a possibilidade de trabalho forqado ou es- cravo. Mas a tarefa se ampliou quando os agents federal descobriram uma vas- ta teia de ilicitudes e ilegalidades, for- mando uma rede de crime organizado. No relat6rio reservado que escreve- ram (estranhamente, com a data de 14 de julho, um mes e meio antes do encerra- mento da missio), os procuradores de- nunciaram o "ripido mas eficiente pro- cesso de empobrecimento" que o patri- m6nio pdblico national vem sofrendo na Amaz6nia, na forma de recursos naturals e fundidrios, "em prol de nenhum ou quase nenhum desenvolvimento econ6- mico e/ou social". Uma "rede hierarqui- zada de agents da criminalidade", atra- v6s de meios escusos, especialmente a grilagem e a atividade econ6mica clan- destina, cor o apoio de politicos e de membros do poder judiciirio, estaria se apossando de bens pdblicos para um en- riquecimento facil e vultoso. No caso da extracqo de madeira, com destaque para o mogno, o mais valioso bem commercial da regiio no moment, a estruturaqCo desse grupo "somente tornou-se possivel em razdo da conexao estabelecida entire o grupo criminoso e autoridades existentes no interior do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Re- noviveis, responsiveis em alguma media pela aprovacgo dos plans de manejo, emissdo de ATPFs [Autoriza- FCo de Transporte de Produtos Flores- tais] e/ou fiscalizaqdo", acusam os re- presentantes do MP federal. Eles tamb6m conclufram ser "nitida a participacao de Jader Barbalho na ex- plora~ao madeireira da regiao, especial- mente de mogno". Participaqao que jul- garam haver estabelecido atrav6s de tres dos maiores extratores de madeira do sul do Pard: Mois6s Carvalho Pereira, An- t6nio Lucena Barros e Osmar Alves Fer- reira. Eles ndo s6 atuariam na extraqgo madeireira, mas tamb6m "atuam no tri- fico de entorpecentes". Os tres, juntamente com outros ma- deireiros, seriam contumazes em subor- nar funcionnrios do Ibama para legali- zar seus crimes ambientais. Para con- sumar seus pianos, eles nao aceitariam limitaq6es: "agem, corrompem, subor- nam pessoas e, se precise, matam. Tan- to assim que sao autores de homicidi- os", garantem os procuradores, acres- centando que o pr6prio prefeito de Sao F6lix do Xingu, hoje um covil de ban- didos, 6 um dentre "outros politicos" - dos invasores da area que estd sendo mais visada atualmente, a terra Apite- rewa. "A pressao dos madeireiros sobre o Minist6rio da Justica/Funai foi respon- sivel pela subtracgo de 200 mil hecta- res de terras indigenas quando do reco- nhecimento", diz o relat6rio. Os procuradores, no trecho mais gra- ve do seu document, denunciam a exis- tencia de um amplo e sangrento "eixo do crime", que estaria funcionando com desenvoltura gracas a penetracqo que conseguiu no aparelho judicial. Consi- deram como sendo "fato a noticia de que Desembargadores do Tribunal de Justi- qa do Estado negociam decisoes". Ci- tam como exemplo "o Desembargador Nilton [sic] Augusto de Brito Nobre", que "teria recebido uma fazenda em tro- ca de decisdo favorivel ao crime e a gri- lagem de terra pdblica". Jodo Cleber de Sousa Torres, apon- tado como responsAvel pela "contrata- qdo de muitos pistoleiros em Xinguara, Redenqdo e outros lugares", usaria es- ses pistoleiros para ter cobertura nas suas grilagens de terras, capitalizadas com a extragqo illegal de madeira. Che- gou a ter sua prisso preventive decreta- da, "quando, entlo, ficou evidence ser possuidor de grande influencia junto a Desembargadores do Tribunal de Justi- qa do Estado do Pard, em razdo do que, logo foi revogada". O relat6rio, de 14 piginas, apesar de "reservado", vazou para virios jornalis- tas, tanto em Bel6m quanto em Brasi- lia. Foi usado em matdrias que aprovei- taram virias de suas informaq6es, mas tangenciaram as mais graves, sobretu- do quando personalizadas. E evitaram abordar um dos aspects de maior im- pacto do trabalho: o descompasso entire a gravidade do seu conteddo e a sua fun- damentaio probat6ria ou mesmo nar- rativa. Os promotores parecem julgar suficiente dar meia ddzia de linhas A de- n6ncia de que desembargadores vendem sentenqas, exemplificando um caso comprobat6rio, e que o deputado fede- ral Jader Barbalho 6 um dos eixos do cartel da madeira illegal e do crime or- ganizado. A simples enunciaCgo da de- n6ncia seria auto-explicativa. A refernncia ao desembargador Mil- ton Nobre (citado relaxadamente como Nilton), vice-presidente do TJE, era chocante. Alvo eventual de controv6r- sias, o advogado j foi criticado em oca- sides passadas por suas iddias e postu- ras, mas jamais se imaginou que pudes- se negociar com criminosos em troca de uma fazenda. Indignado ao ser informa- do sobre a acusagao, o desembargador reagiu imediatamente. Entrou em con- tato com o procurador Mirio Licio Ave- lar, quando ficou claro ter havido um mal-entendido infeliz. 1 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Journal Pessoal 04 entire impericia e omissao O procurador confundiu perfis e tro- cou nomes, atribuindo a uma pessoa o que foi denunciado em relaqgo a outra. O pr6prio Mario Licio disse a Milton Nobre que, ao ser alertado para o erro, retificou-o na versio final do relat6rio, que encaminhou ao procurador geral da repiblica, Claudio Fonteles, em substi- tuiq~o ao primeiro texto. O comportamento do procurador foi espantosamente irresponsivel. Ele co- locou no papel preliminaryr ou ndo, mas timbrado) o que ouviu sem checar ade- quadamente as informaq6es ou sem fa- zer qualquer tipo de verificacqo, como no caso do desembargador Milton No- bre. Quanto a outro peixe graddo, o ex- governador Jader Barbalho (ji denun- ciado por Mario Lucio em outras oca- sides), tamb6m a ligeireza das referen- cias contrast com o conte6do da acu- sagao. O delegado de Sio F61ix do Xin- gu, por exemplo, que atuaria junto com criminosos, 6 tido como "ligado a Sete Camara [secretdrio de seguranqa pti- blica e, depois, da defesa social do governor Almir Gabriel], muito pr6xi- mo de Jader Barbalho". Como? Qual o elo? Observadores da cena local devem ficar perplexos com a informaqao. Essa attitude de desd6m pelas pro- vas 6 lamentivel porque o relat6rio tra- ta de problems explosives e estarre- cedores, que estlo ocorrendo no sul do Pard e se ampliam por causa da omis- sao ou da conivencia das autoridades pilblicas. Ainda mais porque os procu- radores (e certamente outros integran- tes da missao governmental) fizeram um louvAvel esforqo de sistematizaqCo das informaqaes sobre a delinqtiincia, o crime organizado e o aparato pibli- co na regiao, chegando a estabelecer tr8s "eixos do crime", cuja existencia e operacionalidade desafia a ordem pdblica e a decencia. Espera-se que, flagrados num ato que beira a leviandade, os procurado- res deem continuidade ao trabalho ini- ciado, consolidando as informac6es que recolheram na area, aprofundando o que j sabem, ampliando esse conhe- cimento e dando conseqtiincia as de- nuncias, que costumam mais no vazio, pelo desprezo de quem deveria levi-las a s6rio ou pelo despreparo dos que a formula. Uns e outros na raiz dessa erva daninha que estA medrando no Pard: a impunidade, que leva ao crime e conduz ao caos social. Em carta ao jornalista Ubiratan de Aguiar, o ex-senador Jarbas Passarinho di seu testemunho a prop6sito do tema do livro de Osvaldo Coimbra, comenta- do nestejornal (ediq~o 306), de que Dom Alberto Ramos teria pedido a prisao de seus padres durante o golpe military de 1964. Garante Passarinho que "jamais Dom Alberto, seja no period pr6-31 de marqo de 64, quer depois, denunciou qualquer padre. Antes de ser governador, hem durante, nem depois", Buraco Com o seu projeto de urbanizaqgo do "buraco da Palmeira", a prefeitura de Be- 16m esta perdendo a oportunidade de fa- zer algo para mudar profundamente uma das feiq6es do centro velho de Bel6m e repetindo erros. O estacionamento subter- raneo vai realmente tender a uma deman- da reprimida no com6rcio, mas esta em contradiq~o com o projeto da via dos mer- cadores, voltado justamente para tirar os carros dessa area. Essa parte da cidade s6 voltard a ser sauddvel se o trdfego de vef- culos for reduzido ao minimo. O projeto da Palmeira estimula o fluxo. A parte superior da praca nao devia ter construqao alguma, seja um teatro ou mais barracas para vendedores ambulan- tes. Ela devia funcionar como espaco li- vre para o didlogo, entire as igrejas de San- tana e do Rosdrio, abrindo um pulmao no organismo urban deprimido e re-oxige- Acrescenta o ex-ministro: "Ocorre que, em 1963, muitos bispos publicaram um manifesto combatendo a esquerda cat6- lica participate da Aqdo Popular (AP). Entre eles, Dom Alberto, Dom Agnelo Rossi (mais tarde Cardeal) e o Arcebis- po de Belo Horizonte. Isto deve estar sendo cobrado pelos revanchistas, que nao se detim mesmo na fronteira da di- famaq~o. No moment, outro bispo, Dom Luciano Cabral Duarte, virtuoso e inte- gro, esta sendo vitima dos raivosos". nando a area deteriorada. Ja sugeri que o local se torne parlat6rio para oradores populares, abrigue com6rcio cultural tem- porario e seja ponto de encontro, sem edi- ficaq6es que impeqam a visualizagio das duas igrejas simultaneamente. O subsolo, no meu entendimento, de- via se transformar em rinque de patina- qio e quadra de esporte para crianqas e adolescents do bairro, numa area de acesso controlado (o que a retirada do gradil, reminiscencia da era dos estalei- ros Gueiros, vai inviabilizar), para a con- viv6ncia entire pessoas que seriam nova- mente atraidas a ocupar o centro, dando- lhe uso misto (seletivamente commercial e crescentemente residential), para que o umbigo da cidade volte a ser saudavel. A prefeitura, por6m, parece ter pre- ferido optar pelo mais facil e mais con- veniente para ela, nao para a cidade. Incentivo SA edico do Dia- no Oficial do Es- . tado do dia 30 circulou corn dons dias de atra- _. - Sso para que go- -- ; \erno pudesse conclur umna enxurrada de conces- Ssao de beneficio. fiscais e tributa- rios antes de encerrado o prazo fa- tal, naquele dia, para esse tipo de concessdo. Dezenas de decretos e resoluo-es foram elaborados con- | cedendo isenqco total de impostos, remissao de divida tributaria, pror- rogagqo de isencao que estava che- gando ao fim, cr6dito presumido (abatendo o imposto devido em at6 i 95%), diferimento de imposto e outras vantagens, inclusive a revo- gacqo de revogagao de incentives. Os atos foram publicados no dia 2 com a data atrasada de 30 de se- tembro para poderem vigorar an- tes que essa possibilidade pudesse ser eliminada. O que esse festival de incenti- o represent, :o quem o patroci- nou sabe e\atamente. A fundamen- : tac5o para a concesvio 6 magra demals de informarcao na publica- Sio do Dilrlo Oficial. Exige uma . pesquisa maia ampla para que se Ssaiba se o incen'tlo foi dado na ; media cerl e a quem o mereceu. Jornal Pessoal 18 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Dom Alberto 05 li~lY~g Um insubstituivel Diz a sabedoria popular que o cemi- t6rio esti cheio de pessoas insubstituf- veis. E verdade. Mas nao toda verdade. Insubstituiveis sio aquelas pessoas que, quando se vdo, deixam um vicuo eterno. Ficamos para sempre a nos lembrar de- las. E quanto mais lembramos, mais de- puramos a mem6ria, retendo nela ape- nas as coisas boas dessa pessoa que se foi. O mundo continue a girar e a Lusita- na a rodar. Mas com uma sensaqIo de empobrecimento, de perda. Edwaldo de Souza Martins 6 dessas pessoas insubstituiveis. Ja se foi hi qua- se dois meses, sem tempo para comemo- rar os 64 anos, no iltimo dia 3. Mas sua presenqa continue tdo viva quanto nao preenchida a sua ausencia. O colunismo social ficou 6rfao e seus amigos perde- ram uma fonte de refer8ncia, em alguns casos o elo que fazia a conexao dos acon- tecimentos e das agendas de cada um dos integrantes da confraria. Pedro Veriano fez um belo registro da data na coluna de cinema de sua mulher, Luzia Miranda Alvares, em O Liberal. Ja Luzia se sentiu obrigada a se justifi- car por escrever um testemunho pessoal sobre Edwaldo, isso porque leu, certa vez, "a opiniaidde um jomalista paraen- se desprezando a forma das pessoas lem- brarem outras em ocasi6es como esta, a partir de experiencias pessoais e nao do que teria sido a pessoa lembrada". Se a carapuga me tem como destina- tario, gostaria de esclarecer que nio dis- se isso. Sou inteiramente favorivel aos testemunhos. Desde que, naturalmente, a pessoa que fala esteja falando sobre algo relevant ou verdadeiro, ou que te- nha autoridade para falar. Minha critical 6 a alguns contumazes aproveitadores da fama alheia, usada como escada para pro- jetar o autor, em si mesmo destituido de importancia. Pouco tempo atris li artigo de alguin que relatava determinada fa- tos supostamente ocorridos no relacio- namento cor o homenageado, sem que dessa relacgo os verdadeiramente intimos do personagem tivessem a menor cien- cia. Como morto nao fala... Tamb6m consider indevida a citacqo exaustiva de ocorr8ncias menores, liga- das a vida dom6stica e nio a esfera dos interesses pdblicos. Ha obituarios nos quais o que predomina 6 a referencia ao autor do artigo e nao A pessoa que moti- vou o artigo. E o autor, As vezes, nao mereceria o espaqo que ocupa no journal se nio tivesse a ajudazinha involuntaria do morto ilustre. Essas restriqoes nao se aplicam, no caso, ao testemunho de Luzia. Na sua ho- menagem a Edwaldo Martins, ela lembrou fatos curiosos e interessantes, que certa- mente serio dteis a eventual bi6grafo do jomalista, que sempre foi um apaixonado pelo cinema. E dois dos acontecimentos que mais o entusiasmavam tinham a casa de Pedro e Luzia como cenbrio freqiien- te: a transmission da premiag~ o do Oscar e a reuniio para a escolha dos melhores filmes do ano, segundo a Associaqco Pa- raense dos Criticos Cinematogrdficos. Pedro e Luzia fizeram muito bem em dar um tom confessional A homenagem que prestaram a Edwaldo na coluna de cinema de O Liberal. Acho que ele ia adorar se tivesse podido ler. N6s, seus amigos, aprovamos. Tensao em Tucurui O clima esta novamente tenso em Tucuruf. Tudo porque a Eletronorte ele- vou em dois metros a cota operacional de sua grande hidrel6trica, no rio Tocan- tins. Como conseqiiencias, novas areas foram inundadas, moradores tiveram que ser remanejados e prejuizos foram cau- sados. Logo, a empresa tem que pagar indenizag6es e adotar providencias seme- lhantes As de quase duas d6cadas atrds, quando comegou a formaqdo do reserva- t6rio, que ocupou 2.875 quil6metros qua- drados (formando o segundo maior lago artificial do Brasil). O contencioso criou muita confuslo, agravada por dendncias de irregularida- des no process indenizat6rio, uns se di- zendo lesados e outros sendo apontados como favorecidos por avaliacqes exces- sivas. A atual diretoria da Eletronorte tern procurado manter o didlogo com os con- tendores, mas 6 inevitivel formular a pergunta que nio quer calar: valeu a pena ter elevado o nfvel operacional do reser- vat6rio da cota 72 para a cota 74? Esses dois metros adicionais significaram 100 megawatts a mais na potencia da usina, o que represent acr6scimo de menos de 1,5% (considerando-se a capacidade fi- nal de geracgo, de 8,3 mil MW). Qual seri o custo desse beneficio, consideran- do-se a nova area alagada, a populaqgo atingida, os danos ecol6gicos e econ6- micos, o alcance das indenizaqoes e ou- tros fatores? Com a palavra, a Eletronorte. Concentra9ao Uma coisa 6 certa nesse ente mons- truoso em que acabou se transforman- do a reform tributdria: ela nao conse- guird atenuar as disparidades de renda entire as regi6es e dentro delas. Pelo con- trdrio: poderi at6 agrava-las. Em parte pela visao distorcida dos pr6prios idea- lizadores dessa ji malmente chamada reform (hoje uma combinaqio de me- didas reformistas com remendos conjun- turais). Em parte porque, independen- temente da insufici8ncia do projeto-de- lei, o Brasil 6 vitima dessa mal conce- bida federagao, na qual as parties jamais conseguem former um todo e a parte maior sufoca as menores, a comecar pela hipertrofia do ente Unido Federal. Mas todo o litigio entire os governor federal, estaduais e municipals pode ter feito os observadores mais atentos se perguntarem: os Estados e regimes mais pobres sabem como sair da pobreza? Seus representantes estao comprometi- dos com o rompimento do esquema de concentracgo da renda national? Sera se A pobreza material nao esti corres- pondendo uma pobreza mental? Tantas perguntas, tdo poucas res- postas, nenhuma convicqao. Esperteza Manoel Pioneiro pode nao sair como candidate a prefeito de Bel6m pelo PSDB, mas se mostrou mais esperto do que todos. Primeiro, porter said na fren- te. Segundo, por ter colocado seu nome na roleta sem brigar cor os caciques do seu partido, cuidando de falar (e demo- radamente) com o governador Simao Ja- tene e o ex-governador Almir Gabriel antes de formalizar sua decisdo, que 6, de certa forma, um desafio, mas jamais um rompimento. Em terceiro lugar, por ficar livre para quaisquer composiq6es em Ananindeua, o que nao poderia fazer se tivesse permanecido A frente da pre- feitura municipal, e ainda tendo que so- frer o desgaste inevitivel em final de mandate. E, em quarto, por haver se cre- denciado a compensaores se seus pianos de poder se frustrarem e ele tiver que aceitar decisao superior agora. Nao 6 a toa que Pioneiro se tornou popular na area de expansao da capital asfaltando ruas sem drenagem. 1' QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal 06 _ Transgenicos: ontem e hoje O clipping de noticias do Instituto Socioambiental do dia 26 de setembro, um dia depois da ediq!o da Medida Provis6ria que liberou os transgenicos, e um retrato em 3x4 do governor Lula, hoje, diante de temas em rela(ao aos quais se posicionava diferentemente, ontem, quando ainda nao havia chegado ao poder Dispensei a citaqdo dos nomes dos jornais, mantendo apenas o sumdrio de cada materia. Atravis dele, o leitor poderd seguir o ziguezague da administragdo petista. Plantio de soja transgenica sem licenciamento ambiental 6 nova- mente liberado. Visivelmente con- trariado e sofrendo presses do president Lula, que estava em Nova York, o vice-presidente Jos6 de Alencar assinou on- tem a Medida Provis6ria n 131. Hoje, as ma- nifestaq6es contra os transgenicos e em fa- vor da ministry do Meio Ambiente Marina Silva se estenderam ao long do dia. * Para tender ao lobby dos ruralistas, go- verno atropela os ambientalistas e liberal os transgenicos. * As restriq6es sugeridas pela ministry do Meio Ambiente no texto da media pro- vis6ria vao limitar em um terqo a drea pas- sivel de ser cultivada com soja transgeni- ca. A pedido de Marina Silva, foi proibi- do o plantio pr6ximo a mananciais de Agua, Unidades de Conservaqao, Terras In- digenas e dreas prioritArias para a conser- vaqao da biodiversidade. * Deputados favordveis aos transg8nicos jd se movimentam para modificar o texto da media provis6ria. Os parlamentares querem tornar a MP mais branda, apresentando emen- da que modifique ou retire do texto o artigo 3, que trata do Termo de Compromisso, Res- ponsabilidade e Ajustamento de Conduta. * Agricultor brasileiro quer cultivar algo- dao transgenicos. * "Remendo transgenico. Depois de umjogo de empurra, govero toma meia-decisao no caso da soja transg&nica", editorial. *A vit6ria do bom senso", artigo de Ant6- nio Ermirio de Moraes. *A liberaqio desta soja 6 um absurdo", para o ge6grafo Aziz Ab'Saber, decisao do go- verno de permitir plantio de semente trans- g6nica afeta soberania do pais."Engenharia gen6tica vence a fome", entrevista com Luiz Ant6nio Barreto de Castro, director do Cen- tro Nacional de Recursos Gen6ticos e Bio- tecnologia da Embrapa. A pol6mica da soja modificada: quem tern medo dos transg8nicos. A Associaqao Nacional dos Procurado- res da Repdblica entende que a media pro- vis6ria contraria a ConstituiqCo, "por afastar a exig8ncia do Estudo de Impacto Ambiental na safra de 2003, ao mesmo tempo em que reconhece o potential danoso de tal pritica a partir da safra de 2004". A Associaqao Bra- sileira do Minist6rio Piblico de Meio Ambiente divulgou nota em que "repudia" a MP "por contrariar os principios internacio- nais de precauqao e da responsabilidade am- biental constantes da Convenqao da Biodi- versidade, da qual o Brasil 6 signatdrio. Marina Silva afirmou que, entire as con- tribuiq6es do Minist6rio do Meio Ambiente A MP, algumas quest6es ambientais impor- tantes foram incluidas. Entre elas, disse, esta o dispositivo que prev8 que todas as dreas estrat6gicas para a preservaqao da biodiver- sidade fiquem de fora de qualquer plantio de soja transgenica. "Tem muita coisa para acontecer para eu me achar derrotada", entrevista com a mi- nistra Marina Silva, que teve coerancia para nao abrir mro de principios, conquistando salvaguardas importantes na media provi- s6ria para o movimento ambientalista. Ma- rina v8 aspects positives na MP da soja e luta por lei 'adequada' de biosseguranqa. "Preservem a Marina", artigo de Zue- nir Ventura. A Procuradoria-Geral da Repdblica jd estd preparando uma aq~o direta de inconstitucionalidade contra a MP que libe- ra o plantio da soja transgenica, disse sexta- feira o procurador Aur6lio Rios. O PalAcio do Planalto avalia que a pol- mica em torno da ediq~o da MP nao 6 nada perto do que virA cor o novo projeto de bi- osseguranqa e biotecnologia, que deverd ser enviado ao Congresso nos pr6ximos meses. Os stores mais pr6ximos do president Lula defended a reestruturaqao da CTNBio. "Sementes da disc6rdia", coluna de Jo- elmir Betting. Testes mostram transgenicos em vdri- os produtos. Para Greenpeace e Idec, soja e milho modificados tnm sido usados pe- las empresas alimenticias. O president em exercicio Jos6 Alen- car disse que vai comprar e experimentar soja transgenica. Droga Sflvio Santos despreza a opinion pi- blica. O empresdrio, na sua face de apre- sentador de program de estddio, mani- pula o quanto pode. Na sua face de for- mador de opiniao, usa seu poder para fa- vorecimento pessoal, pouco se lixando para os fatos. Seu desprezo pela informa- do 6 tanto que volta-e-mexe desfaz o de- partamento de jomalismo da sua emisso- ra de televisio, o SBT. S6 o recoloca em atividade quando outras circunstancias o obrigam (por forqa de outra circunstan- cia, frequentemente negligenciada: de ser concessiondrio de serviqo ptblico). Recentemente SS declarou a Conti- go, uma revista de fofocas, que estava nos Estados Unidos se tratando de um cancer, que o ameaqava de morte. A en- trevista teve repercussao national. Quan- do o assunto estava em todos os lugares, o empresario-apresentador ocupou pAgi- na inteira dos jornais para explicar que havia brincado com a entrevistadora e ela, sem perceber a brincadeira, dera ares de verdade ao que Ihe havia dito. E 6 assim, com toda essa sem-ceri- m6nia e cinismo, que Silvio Santos ad- ministra sua galinha dos ovos de ouro. De vez em quando o exagero produz uma encrenca, como nesse epis6dio Gugu Liberato. Mas nao ha nada que um ilusi- onista nao consider poder resolver. Afi- nal, o que nio lhe faltam sdo estimulo$ para ousar. E bom lembrar que o clone do patrao fatura seis milh6es de reais por program dominical. A custa de tudo transformar em caricature. Com esse porte commercial, talvez ji es- teja na hora de algu6m mostrar que o rei esti nu. Ou seja: que jomalismo e entrete- nimento se toraram autenticas drogas, cri- ando dependencia e eventualmente empo- brecimento para os usuSrios, mas lucros para os que as traficam. Nio 6 o caso de dar poderes ao Estado para fazer censura pr6via ou se meter no assunto como um macaco em loja de louqa. Mas regulamen- tar de tal maneira a utilizagqo de conces- sao piblica para que os excesses e abusos sejam punidos no tinico lugar que d6i nes- sa gente: seus bolsos, o lugar para onde costumam transferir seu centro vital. Joma Pesoal. i~QUIZENAOUTURO E 203 0 07 Jomal Pessoal 11 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 r 0 suicidio dos dois presidents: Quando Getdlio Vargas se suicidou, em 24 de agosto de 1954, eu ain- da nao havia completa- do cinco anos e morava em Santar6m, a mais de tres mil quil6metros do "teatro de operaq6es", no Palacio do Catete, no Rio de Janei- ro, ainda a capital da repdblica. Mas minhas retinas e minha mem6ria retive- ram para sempre aquelas cenas de luto na minha casa, que se abriu para todos os 6rfaos do "pai dos pobres". Papai mandou um telegrama de con- dol8ncias A familiar do home com o qual se reunira por duas vezes, no mesmo Catete, mal chegado aos 25 anos de ida- de, para tratar cor o president da insta- laqio da maior inddstria de Santar6m, a Tecejuta, que beneficiaria a fibra intro- duzida na regiio por imigrantes japone- ses, ajuta. Gettlio honrou a palavra, dada quando passou pela cidade, na campa- nha de 1950: autorizou a importaq~o das miquinas e liberou financiamento para a fiaqco e tecelagem. Mas nao p6de vol- tar para a comemoraqao da facanha: a crise political national o sugou antes. De volta da viagem "ao sul", papai trouxe um pequeno disco com a grava- qCo, por Pedro Luis, da carta-testamento de Getilio. Foi amor A primeira audiq~o. Decorei a carta. Imitando o sotaque gad- cho, imitado, por sua vez, por Pedro Luis, tornei-me a atracqo dos encontros nos quais papai era o centro. Coadjuvado pela declamaio do seu filho cabequdo, 6 cla- ro. Fazia-o feliz repetindo sem erro ou vacilacqo a leitura daquele documen- to, de dramaticidade impar na hist6ria political de um pais de falsos lideres e mesquinhos estadistas. Desde entio, Getilio se tornou uma das minhas obsesses. Logo que pude, aos 12 anos, percorri o soturo palacio que Ihe servira de morada final. Li tudo de relevant que se escreveu sobre ele. E me concentrei no ato final da trag6dia, at6 hoje a desafiar a capacidade de re- constituiqdo dosjornalistas e de interpre- taqao dos historiadores e demais douto- res. Bibliografia, de todo modo, ainda raquitica diante de ato tao solitario nos anais da quase sempre vergonhosa cr6- nica political brasileira. Afinal, por que Getdlio se suicidou? Continue atris de uma resposta satis- fat6ria. Sem o rito convincente da passa- gem, sem a consumaqao do luto, o cadi- ver ainda estd simbolicamente insepul- to. Bate, como um esqueleto inc6modo, em algum armario indevidamente fecha- do da hist6ria national. Quer sair para a cerim6nia do adeus devido. Conspirariam, por6m, os fados para que duas d6cadas depois, em outro pais, eu pudesse testemunhar outro suicidio politico no continent. Como acontece- ra cor Getdlio, eram os militares que, no Chile, queriam a cabeqa de Salvador Allende Gossens. S6 que a maneira do pais, andino por fatalidade geogrifica, germanico na inspiragdo (ou, dizendo melhor: prussiano). S6 que queriam a cabeqa literalmente e nao de forma ale- g6rica, como nossos militares. Getilio teria said inc61ume do Ca- tete se tivesse concordado com a segun- da deposiqao manu military em menos de uma d6cada. A primeira fora em 1945, quando o marechal Dutra, um dos ava- listas do Estado Novo, tornou-se um dos pais da democracia do p6s-guerra (e da guerra fria que se seguiria). Getdlio con- cordou em apear da miquina estatal e se confinar no seu Rio Grande atW ganhar mandate de senador por mais de um Es- tado (conforme franqueava a legislaqao eleitoral da 6poca), ser um bisonho se- nador para evitar provocaq6es e voltar para a consagradora vit6ria de 1950. Mas uma segunda humilhalio, des- ta vez o velho nao concordaria. Talvez nao tenha sido apenas por insubmissao de quase-anciao (seus 71 anos pesavam, entao, muito mais do que agora), mas tamb6m e sobretudo pela sagacida- de do politico, antegozando (ainda que p6s-morte) o prazer de deixar uma bom- ba de efeito retardado no colo dos gol- pistas civis e militares, liderados pelo hamletiano Carlos Lacerda. Eles tive- ram uma vit6ria de Pirro. A derrota mortal de Vargas foi sua consagra9lo, uma obra-prima de humor negro salpi- cada de grandeza humana. A Salvador Allende, nos seus 65 anos, nao foi dada alternative: ele nun- ca sairia do Palicio La Moneda naque- le 11 de setembro de 1973. Metralha- dora em riste, ele foi 1i fora olhar e viu o que o esperava. Voltou ao palacio, onde uma semana antes eu tinha ido en- trevisti-lo, organizou a resist&ncia lo- cal e quando ela se tornou nada mais do que um lance de dados, matou-se a bala. A principio acreditou-se que ti- vesse sido assassinado, um opr6brio a mais para a ditadura de Pinochet. Mas logo ficou evidenciado o suicidio, a said de honra que as circunstincias do cerco ao La Moneda tornaram mais dramitica do que a de Vargas. Aguardei atento que, na enxurrada de produqgo da imprensa sobre os 30 anos do sangrento golpe chileno, viesse algu- ma andlise comparative dos dois suicidi- os, mas nada. Li o que pude para reviver aqueles dias traumatizantes, mas a sen- saq~o que me ficou foi de insatisfa~go. O que saiu sobre o triste acontecimento do Chile ficou bem aqu6m da sua impor- tancia e significado para os povos deste continent, quase sufocado pela reper- cussdo dos dois anos do atentado de 11 de setembro em Nova York. Ambos os epis6dios, por sinal, mal contados. Significativamente, hi um fio condu- tor entire eles. Esse elo tem nome e sobre- nome: Henry Kissinger. Mr. K. era o chan- celer do president Richard Nixon naquele inicio da d6cada de 70. Um dos itens mais constantes na sua agenda daqueles dias, a segunda mais poderosa na Casa Branca, era o Chile, centro nervoso de interesse de multinacionais americanas, donas das jazidas de cobre daquele pais, min6rio que respondia por mais de dois tergos da pau- ta de exportaq6es chilena. Em 5 de dezembro do ano passado, o president George W. Bush indicou Kis- singer, agora a frente de um dos mais cars escrit6rios de consultoria estrat6- gica dos Estados Unidos, para comandar as investigates sobre os atentados as duas torres de Nova York. Honrado, o alemdo naturalizado americano aceitou. Pouco mais de uma semana depois re- nunciou A honraria, sem dar explicaq6es. Kissinger 6 outro personagem ham- letiano. A feroz autoconfianqa de ante- ontem, que o fazia causar estragos entire as mulheres e os homes, circulando com desenvoltura pelo jet-set e os gabinetes oficiais, esfumou-se. Ele sabe que uma prazerosa estadia em Paris, um de seus melhores programs, pode terminar na cadeia. Mesmo que nao seja trancafiado fisicamente como criminoso de guerra (depois de ter sido Premio Nobel da Paz: atengqo, Mr. Lula!), ele 6 prisioneiro da sua mem6ria e do resto daquilo que al- gum dia ele pr6prio soube chamar de moral ou 6tica. Eleito Allende, Kissinger tragou pianos para evitar que o candidate socialist fosse empossado president. A tram6ia comeCa- ria com a desastrada operaqo da CIA (mais uma) de seqilestrar o general Ren6 Schnei- der. O bravo military resistiu e acabou sen- do assassinado. A indignago national teve efeito oposto ao planejado, garantindo a confirma-ao de Allende. A comogao provocada pela morte de Schneider pode ter afetado a capacidade 08 1 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Jornal Pessoal Brasil de Vargas, Chile de Allende de entendimento do que naquele momen- to acontecia no Chile. O candidate da Frente Popular teve menos de 2% de vo- tos sobre seu oponente mais pr6ximo, o conservador Jorge Alessandri (36,2% contra 34,9%). Influfa no ineditismo da vit6ria (e tamb6m na sua escassa vanta- gem, que comprometia a capacidade do president de goverar numa democra- cia parlamentar, que ele se compromete- ra a respeitar) o reconhecimento a car- reira de um m6dico integro que se torna- ra politico aos 29 anos, permanecera por 40 anos no mesmo partido, que ajudara a fundar, o PS, manteve-se por tres d6ca- das como senador atuante e disputava a eleicao presidential pela quarta vez em 18 anos, comerando cor magros 3% dos votos at6 superar um terco do total, ain- da distant de uma votacqo consagrado- ra, ainda que em trajet6ria bem pareci- da, como a de Lula. Mas havia um outro component, em geral negligenciado pelos analistas. O candidate democrata-cristdo tivera 27,8% dos votos. O problema 6 que Ra- domiro Tomic estava mais pr6ximo de Allende do que de Frei, a esfinge do PDC. Em algumas quest6es, Tomic es- tava al6m de Allende. No meu entendi- mento, a votacao, vista pelo prisma das propostas de programs, muito mais do que de siglas partidarias, indicava que os 64% dos eleitores que votaram em Allende e Tomic queriam mudancas para valer, mas num rumo que tangen- ciasse um ponto m6dio entire os dois. Allende nao pediu carencia nem fez firulas como apresentador de um onfrico espeticulo de crescimento: entrou mu- dando. Mas mudou num esquema orto- doxo, sovi6tico demais, bolchevique de- mais para o perfil social do Chile. A ine- ficicia do seu modelo nao estava em ser radical (o que era, mas apenas na ret6ri- ca), mas em nIo ser adequado. Fazia muita fumaqa, mas tinha pouco fogo. No entanto, Allende acreditava nesse modelo, empenhou-se em realiza-lo numa moldura democritica, que o limi- tava bastante, e pagou com sua vida para levar a mudanqa at6 o fim. Nao merece, depois de morto, ser ironizado por essa triste figure que atende pelo nome de Augusto Pinochet (em sua senilidade proveitosa, aproveitando para gozar ci- nicamente seu papel de duplicidade na- queles idos de setembro de 1973, servin- do com uma cara a Allende e cor outra comandando os golpistas). Doutrinario, o president regulamen- tou os tres stores como se pudesse divi- dir a sofisticada economic chilena em de- partamentos, separando com clareza a area estatal, a privada e a mista, impon- do-lhes um planejamento centralizado que regulamentaria, at6 os limits da re- agdo de interesses contrariados, e profun- damente contrariados. Um locaute de patr6es, seguido pela subsidiada parali- sagdo de caminhoneiros, feriu de morte o modelo de mudanqa de Allende. Um pafs t~o extenso era completamente vul- neravel ao colapso dos transportes. Lembro-me, nas minhas tres semanas chilenas, de uma caminhada de hora e meia em Santiago atras de um restauran- te suburban que fomecia came de car- neiro, cor a qual interromperia dias se- guidos a comer a exaustao apenas frutos do mar. Ja uma indisposigqo s6 foi tratada por um m6dico gragas a gentile- za de meus anfitribes do journal El Mer- cuirio, um dos baluartes do golpe. A conspiracao para a derrubada de Allende se armava diante dos meus olhos, no Sheraton, o hotel da ITT que servia de quartel-general para os homes da CIA. Dias antes do golpe fui a Valparaiso, le- vado por um informant para ver os en- saios que a Marinha fazia (inclusive com bombardeios) para o dia fatal, ja assinala- do na agenda bifronte de Pinochet. Ironia das ironias: o president ig- norava que o golpe comegaria exata- mente na sua terra natal, comandado por seu general de confianqa (algo como Assis Brasil, o general do metafisico esquema military de Jango, aparecer a 1 de abril no lugar de Olympio Mourdo Filho Ou Luiz Carlos Guedes). A desa- tengqo cobraria um preco caro demais do cordial, simpitico e decidido cida- dio Salvador Allende. Estava ao seu alcance criar sovietes no Chile a partir de um golpe de m~o, subvertendo o regime que lhe possibili- tou a vit6ria eleitoral? Hoje, mais do que nunca, estou convencido de que nHo ha- via essa possibilidade, nem na realidade nem na cabeqa de Allende. Mas ele, que- rendo mudar para o future, tinha como refer8ncia o passado. Levaria seu amado pais ao impasse. Duvido que viesse a proper uma solugao de forga para esse impasse, embora tentasse, a maneira do pai, que lhe deu liq6es de firmeza e de- terminagqo numa famflia saudavel e van- guardista, levar o impasse aos seus ex- tremos de ruptura, resguardando a via de- mocritica, na qual vinha trilhando havia quase meio s6culo, exemplarmente. S6 que a elite chilena nao Ihe deu essa oportunidade. Como tem acontecido in- variavelmente no continent, as regras do jogo democritico, quando chegam a en- carar a mudanqa para valer, sao muda- das com a partida ainda em andamento. O dono da bola leva-a para casa e os outros que curtam a frustragao, quando nao a experimental amargamente na pr6pria pele. Num continent no qual a revolu~go costuma ser palavra de ordem vazia de conteddo nas maos dos que se dizem seus parteiros ou um espantalho para os que querem espantar a reform, mudar 6 pecado. Dai o nosso Lula ter- se penitenciado antes de cometer esse pecado. E Allende ter honrado com sua vida os erros cometidos. Quando cheguei ao aeroporto do Rio de Janeiro, vindo da fumegante Santia- go, tive impeto de nojo ao deparar ojeito brasileiro de entdo, entire a tropicilia que se apagara e a pilantragem estabelecida antes de entrar em vigor a lei de Ger- son. A readaptaqgo aos tempos do ge- neral M6dici, num moment em que o general Pinochet ainda nao sentara no seu trono manchado de sangue, foi diff- cil. Talvez por isso, nunca mais tenha conseguido voltar ao Chile. Mas, quem sabe, agora que a estatua de Allende foi colocada diante da porta principal do Pa- licio La Moneda e a rua Morand6 foi reaberta, eu consiga voltar A bela e tri- gica Santiago? Tomara. Voltar, nesse caso, sera ir. Tomara que sim. Colocarei flores e certa- mente deixarei algumas lagrimas timidas em homenagem Aquele home merece- dor dos nossos respeitos, nao de bala. Jomal Pessoal 1' QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 09 I CARTAS Santarem Prezado Ldcio: Parab6ns pelo belo registro, no Jornal Pessoal ndmero 308, da "hist6ria reprimida", envolvendo 35 anos da mem6ria de Santar6m. Conheci teu pai, Elias Pinto, de- putado estadual, que muito admi- rava. Foi um orador excelente, de posiq6es firmes, democraticas, em defesa dos mais humildes e caren- tes. Nao sabia de detalhes da per- seguiqao que sofreu e da cassa- qao dele, pois ji me encontrava no meu "dourado" exilio no Rio e em Sao Paulo. Criaste um docu- mento valioso para que se escre- va, um dia, todos os caminhos e desvios daquela trag6dia que foi 1964 e deixou marcas profundas na vida national e, aqui no Pari, t2o dificeis de superar. O abraqo fraterno Acyr Castro Criminalidade Mengio especial para os comen- tirios acerca do massacre rural (mais um) ocorrido em Sao F&- lix do Xingu (JP n 308). Ha tam- b6m o urban. De prefer8ncia nos fins de semana, os veiculos de co- municaqao noticiam os fatidicos exterminios, notadamente nos centros populacionais mais aden- sados (e mais desorganizados), como Rio de Janeiro e Sao Pau- lo. Contudo, as autoridades, ape- sar de assumirem os fatos, negam a existencia do crime dito orga- nizado; como aconteceu aqui em Bel6m, quando dois representan- tes do poder desautorizaram-se mutuamente pela imprensa. E precise terms a clareza de que se nao forem tomadas provi- dencias inadiAveis sobre nefasto assunto, vamos caminhar para um irreversivel process de es- trangulamento social. Segundo as noticias e os retratos mostrados no cotidiano, parte do poder esti contaminado e a corrupqao gras- sa c6lere por todos os meandros possiveis da nagqo brasileira. Mas, voltando ao campo, os distdrbios que estamos assistin- do no meio rural sao fruto do descaso, da omisslo e da fragili- dade do govero. A Constituiqao de 1988 (art. 51, Ato das Dispo- siq6es Constitucionais Transit6- rias) previa que as doaq6es, ven- das e concess6es de terras pdbli- cas, corn Area acima de 3.000 ha, seriam objeto de revislo pelo Congress Nacional, no prazo de 3 anos, a contar de sua promul- gaqao. Por sua vez, a Constitui- qlo estadual (art. 15 e 16.I), de igual modo determine a revisao dos neg6cios feitos cor as ter- ras do Estado, em areas superio- res a 100 ha, no period de 1954 a 05.10.89 (data da assinatura). A revisoo deveria estender-se at6 o ano de 1995. O caos reinante na zona rural 6 a conseqtiincia direta da nao utilizaqao dos dois dispositivos outorgados pelas respectivas constituiq6es. No nosso caso especifico, como a selvageria no trato do patrim6nio pdblico chega As rai- as do absurdo (para nao usar um termo mais contundente), per- deu-se uma excelente ocasiao para sanear o sistema fundidrio e banir definitivamente do con- tencioso estadual os esbulhos do tipo C. R. Almeida, Daniel Lu- dwig, Cia. Vale do Rio Doce, e outros "grilos" menos votados, embora tao perniciosos quanto esses. Nao custa lembrar que estou deixando de fora o fan- tasma Carlos Medeiros e sua corrente de "representantes" e "sucessores", com umas est6ri- as vergonhosas e ainda insold- veis, que voc8 conhece muito bem. A quem apelar? Rodolfo Lisboa Cerveira MINHA RESPOSTA Aproveito a carona do leitor para fazer meu pedido a nova diretoria da Ordem dos Advo- gados do Brasil/SecCdo do Pard, qualquer que venha a ser a eleita: de imediato, convocar os "representantes" e "sucesso- res" de Carlos Medeiros, aos quais se refere Cerveira, e inti- md-los a apresentar seu consti- tuinte. Seria remedio eficazpara forgar o fantasma-m6r da gri- lagem a se apresentar ou entdo se desmaterializar de vez, aca- bando cor essa ultrajante fan- tasmagoria que paira sobre a vida fundidria do Estado. Do contrdrio, a conclamagdo do leitor, em busca de a quem ape- lar, continuard miseravelmente sem resposta. Jader O procurador-geral da repdblica, Claudio Fonteles, pediu, no mes passado, o arquivamento do process instaurado no Supremo Tribunal Federal contra o deputado federal Jader Barbalho, acusado de participacgo em operagqes ilicitas com Tftulos da Divida Agraria, as tristementes famosas TDAs, uma das mais podres moedas em circulag~o. S6 sob certa media a decisdo do substitute de Geraldo Brindeiro pode ser comemorada como uma vit6ria do ex-mi- nistro da reform agraria. Na verdade, nao chegou a haver a apreciagdo judicial do mrrito da questao. Em parte por falta de provas, inexistentes ou destruidas. Em parte porque hou- ve perda de interesse, corn a decad8ncia do direito do fisco na questao. Al6m disso, a montagem do inqudrito adminis- trativo foi evidence. Ainda que outras condig6es pudessem ter sido supridas na instrugdo processual, as provas juntadas eram inconvincentes. Mas se nao foi provada a culpa, tamb6m nao esti ainda demonstrada a inoc6ncia do ex-governador. Que, alias, nem comemorar pode essa meia-vit6ria: outros processes continu- am a seguir no rumo do judiciario. A luz no fim do tinel ainda esta long. Se luz efetivamente hi no fim do t6nel. Escritor menor Um home sem dividas 6 perigoso? Veio-me esta pergun- ta ao final da novela de Oscar Niemeyer, E agora?. 0 livro (59 paginas, Editora Paz e Ter- ra) 6 bonito. Sobretudo pelos desenhos de Niemeyer e a edi- 9ao grifica, limpa e clara. Numa produgo mais econ6mi- ca, a novela ficaria bem acomo- dada em metade do tamanho. Para gerar um livro, por6m, a editor teve que usar tipos mais graddos e ser generosa no es- paqamento. Resolveu grafica- mente o desafio, mas nao em relaq~o ao conteido. Na verdade, apesar das ul- tragenerosas apresentagces de Eric Nepomuceno e Moacir Werneck de Castro, a fic~qo de Niemeyer nao merecia a mol- dura de um livro. E trabalho de p6ssima qualidade. Um Z6 da Silva qualquer seria man- dado cantar em outra fregue- sia. A dita novela 6 apenas pre- texto para o grande arquiteto codificar suas certezas dogma- ticas, monolfticas, inquisitori- ais. Para ele, Stalin continue a ser um semi-Deus e o marxis- mo uma verdade cientifica. Tudo conforme catecismo no qual j rezaram outros notAveis artists, maravilhosos em seu metier (como Diego Rivera, por exemplo), mas desastrosos quando tratam de polftica (como Jos6 Saramago, outro exemplo, ainda vivo). Por que sera que Oscar Niemeyer, um dos cinco gran- des arquitetos do s6culo XX (ainda criativo neste XXI), 6 um comunista confessional? Sera que, para ancorar emo- cionalmente sua arte numa nega s6lida, ele precisa de uma religido supostamente at6ia, embora fundada em ab- solutos ideas, que apenas co- locam o velho Hegel de cabe- Ca para baixo (o que nunca foi a pretensao de Karl Marx, bem maior do que Hegel?). Correspondendo a exuberin- cia dos tragos, Niemeyer as- sociou o milenarismo de uma crenqa nas formulas da revo- ludo. Ja que jamais, concre- tamente, moveu uma palha por essa revoluqao, radicalis- mo verbal 6 a compensaqao. A ma ficq~o de E agora? 6 para ser vista. Nao para ser lida. Aniversario Agradeqo e retribuo as mensagens de Joaquim Passarinho, Luis Faria, Nicias Ribeiro, Osvaldo Melo, Renato Nazareth, Valeria Pires Franco. E as mensagens verbais de vdrios outros amigos. 1 QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 Journal Pessoal 10 Hidreletrica ficara menor no Xingu O governor Lula decidiu manter como prioritaria a construcio da hidrel6trica de Belo Monte, no rio Xingu, mas exigiu da Eletronorte a revisao do projeto. A nova concepqco vai ter que se ajustar a um novo parimetro: ao inv6s de gerar 11 mil megawatts (apenas um pouco menos do que a usina de Itaipu), Belo Monte ficard bitolada em 7,7 mil MW. Mesmo cor a redugdo da pot&ncia em um terqo da capacidade prevista anteriormente, a hidrel6trica ainda sera a terceira maior do Brasil (abaixo de Itaipu e Tucuruf). Sera do tamanho das duas usinas previs- tas agora para o rio Madeira. E continu- ara a ser uma usina cativa dos consumi- dores do sul do pais. Como at6 agora a grande imprensa nao deu atenqdo a essa revisao de Belo Monte, nao se sabe em que estudo o go- verno federal se fundamentou para defi- nir a nova geraqCo em 7,7 mil MW e qual deveri ser o tamanho do reservat6rio. Certamente a drea inundada sera menor, cor isso aliviando ainda mais o impac- to ambiental da obra. Mas esse impact ji era relativamente pequeno, mesmo na mastod6ntica versao de 11 mil MW, por- que praticamente nao haveria reserva- t6rio e a area de inundaq~o seria de 400 quil6metros quadrados (para 2.875 km2 em Tucuruf), apenas um pouco maior do que o nivel alcancado pelo Xingu em suas cheias anuais. O grande problema nao era esse, mas a diferenqa entire a potincia maxima da usina, de 11 mil MW, e sua potencia fir- me, de 4,3 mil MW, que ficava abaixo do nivel de viabilidade international. Para ajusta-la aos parametros de econo- micidade, seria necessario fazer outros aproveitamentos a montante de Belo A praga dos press-releases, que se expand com facilidade gracas a lenien- cia e anti-profissionalismo dos jornalis- tas nas redaq6es, deixou sua marca inde- 16vel nos didrios da cidade. Em suas edi- q9es do dia 27, O Liberal e Didrio do Pard publicaram o mesmo texto sobre o "buraco da Palmeira", que a prefeitura quer urbanizar e ajustiqa embargo. MEB: ofim Monte, regularizando o rio para que a energia fire pudesse subir, gradas ao acdmulo de dgua para uso nos periodos de seca (de outro modo, as miquinas te- riam que ficar completamente inativas durante tres ou quatro meses do ano). Qual a influtncia da reduoao em um terco na capacidade nominal de gera- cao de Belo Monte sobre a potencia firme? Isso, por enquanto, ningu6m sabe. E ningu6m viu. Ja o governor, coerente com seu m6to- do de morde-e-assopra, reservou no orqa- mento deste ano 8,1 milh6es de reais para os estudos de impact ambiental de Belo Monte. E o dobro do dinheiro gasto pela Eletronorte cor trabalho identico enco- mendado A Fadesp e que acabou sendo colocado na geladeira pela justiqa fede- ral, com base em iniciativa do Minist6rio Piblico, que questionou a irregularidade da contrataiao da fundaiao de pesquisa da Universidade Federal do Pari. E um desrespeito ao leitor: os dois jornais incorporaram como sendo seu texto produzido por t erceiro, pago para defender o client, sobre tema de grande interesse pdblico, al6m de su- jeito a controv6rsias. Depois reclamam quando levam 20 anos para receber um elogio. Reclama- qio, alias, infundada. Uma das mais f6rteis, in- teressantes e importan- tes experiencias da Igreja cat6lica esti chegando ao fim: o Movimento de Edu- cacio de Base, que inclui, como peqa vital, as radios ru- rais. O MEB foi criado em 1961, como um organismo da Confer8ncia Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Deveria prestar serviqos de promorqo integral, humana e crista de jovens e adults, de- senvolvendo programs de educagao popular, com desta- que nas regimes mais pobres do pais, o Norte e o Nordeste. Quando a rede do MEB estava em franco e frondoso crescimento, espalhando a educaqio, a informaqdo e o conhecimento a distantes co- munidades espalhadas pelo interior do Brasil, houve o golpe military de 1964. O novo governor fez do Mobral uma frente alternative a da Igreja - e sua antag6nica. Seguiram- se perseguiqces e escaramu- gas. Mesmo enfraquecido, o MEB sobreviveu ao regime military. Mas nao ao darwinis- mo social do neoliberalismo e As attitudes dubitativas, para dizer o minimo, da hierarquia. Em junho deste ano, os MEBs do Amazonas, Sergi- pe, Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia foram fecha- dos. No mrs seguinte o cu- telo baixou sobre Ceard, Piauf, Maranhao e Pard. Em apenas dois meses, todos os 15 departamentos de base do MEB no Brasil foram fecha- dos. As unidades isoladas acompanharam-nos. Em agosto o MEB de Marabi chegou ao fim. Era a consu- macao brusca e brutal de um melanc6lico suicidio praticado pela Igreja, aca- bando autoritariamente com uma hist6ria gloriosa, embo- ra ainda inconclusa. Dando por encerrada, sem ouvir nin- gu6m, uma participaqco que a c6pula considerou ji ser desnecessaria. Se o MEB foi-se, sem vela nem fita amarela, ha pelo me- nos uma noticia paralela boa: a Radio Rural de Santar6m conseguiu completar 39 anos. Um bom motive para que, em 2004, seus dirigentes e a co- munidade que a prestigia e compreende, na data dos 40 anos, faCam uma reflexao so- bre as demands que levaram ao surgimento da radio e a sua sobrevivencia, enquanto o movimento educativo ao qual deveria servir desaparecia. Ficou a atividade-meio, desa- parecendo a atividade-fim. Sob essa irracionalidade nao se desenvolveram (e nao ha- verao de ainda se desenvol- ver) outros absurdos? Sinal dos tempos, como diriam os te6logos, se ainda se dispusessem a dizer. Como um admirador do trabalho do MEB, desde seu surgimento em Santar6m, em 1964, nao posso deixar aqui registrada minha indignagqo e fazer o meu protest, em nome de dezenas de an6nimos her6is da expansao da educagao de adults e de valorizagao da cultural popular. O que eles nos legaram merecia ter sido tratado com mais respeito. Journal Pessoal 1a QUINZENA/OUTUBRO DE 2003 1 Imprensa S/A p~o~aar~rurr~,gp~~;jlli~;li~nr~pluurz ~ii~i~ Livro Em artigo publicado na Folha do Norte de julho de 1944 (ha quase 60 anos, portanto), o jo- vem jornalista e escritor Harol- do Maranhbo saudava o apare- cimento de um livro que reve- lava uma nova faceta de C6cil Meira. Depois do "fil6sofo es- merilhador e arguto de A Lin- gua Portuguesa no Brasil e Da Analogia e sua influencia na linguagem, o equilibrado peda- gogo de Introdufdo ao estudo da Literature, o livro mais novo, Poetas e Pensadores, re- velava o C6cil Meira ensaista. A avalialo de Haroldo era po- sitiva. A coletinea de ensaios "encanta pela polimorfa erudi- qio que revela o que 6 hoje in- comum, e pela transparencia e naturalidade na exposiiao dos assuntos". Concordava com o jufzo critic de C6cil Meira so- bre o Diciondrio Etimoldgico da Lingua Portuguesa, de Antenor Nascentes, "genuina impostura aos brios filol6gicos do pais", mas discordava de sua opinilo sobre Agripino Grieco, um su- perior "espirito Luciferino". Urbanizagao Edital publicado na imprensa em abril de 1947: "O prefeito mu- nicipal de Bel6m, no intuito de colocar esta Capital no nivel de progress de que ji vem fruin- do, como ja se nota cor as no- vas edificaqbes de arquitetura modern, nao correspondendo a esse surto de adiantamento a existencia dentro de sua urbe de terrenos abertos e outros cerca- dos com estacas e tibuas, des- virtuando, assim, o embeleza- mento da cidade, convida a to- dos os senhores proprietarios dos ditos terrenos a mura-los ou edifici-los e bem assim nos lo- cais onde ji existem bordadu- ras fagam construir os respec- tivos passeios em frente As suas propriedades, independent de intimaq o estabelecida pelo C6- digo de Posturas Municipais, comprovando com esta media a sua boa vontade em cooperar com o governor do Municipio para o fim almejado". Carros A Empresa Soares organizou um grande coquetel para inaugurar, no t6rreo do edificio Dias Paes, onde mantinha seus escrit6rios, a exposiqao de tres luxuosos au- tom6veis das marcas Kaizer e Frazer, modelo do ano, que im- U11 portara naquele mesmo 1947. Os carros foram logo adquiridos pe- los capitalistas Jos6 Teixeira, Luiz Frazo e Fernand. Frota, mas provocaram grande interes- se entire "pessoas de destaque dos circulos comerciais e indus- triais de Bel6m". Mais de 50 pe- didos foram feitos. Contrabando Tudo estava programado, na al- fAndega de Bel6m, em agosto de 1959, para o leildo de um luxu- oso autom6vel Chevrolet, dlti- mo modelo, de propriedade' de Amilcar Moreira, irmlo do en- tdo deputado estadual Amilcar Moreira, apreendido como con- trabando, quando chegou um oficio do juiz dos feitos da fa- I zenda federal, Olavo Nunes, sustando o ato. Antes do oficio, anunciando-o, apareceu na al- fandega o deputado. Jos6 Car- valho de Miranda, inspector da aduana, nao gostou: mandou le- vantar todos os interditos que o magistrado ji havia fornecido para pedir a intervenq o no caso do Tribunal de Recursos (ajus- tiqa federal ainda nao existia). Predio Program de inauguracio do edificio Manoel Pinto da Silva, o maior do Norte e Nordeste do Brasil, em 17 de abril de 1960: * 9 horas: corte da fita simb6lica. * 9,15 horas: benqIo do edificio pelo arcebispo metropolitan. FOTOGRAFIA Uma imagem rara, de 1960: o igarap6 das Almas, ainda na sua forma original, pr6ximo aos armaz6ns do porto de Bel6m e as antigas instalaq6es da Panair (atualmente formando o Beira-Rio). Nessa 6poca as embarcaq6es vindas do interior ainda usavam o igarap6 para desembarcar seus produtos diretamente no bairro do Reduto, pr6ximas do mercado municipal e do centro de comerci- alizaqao que funcionava ao seu: lado. Mas a navegaqdo ficou im- possibilitada pela passage da linha f6rrea que vinha do Entron- camento at6 o porto, uma extensao da Estrada de Ferro de Bra- ganqa. Em pouco mais de 40 anos a paisagem sofreu radical trans- formaqao: o que era um cenArio rural se transformou em point urban, embora ainda enfrentando problems de organizaq~o de espaqo semelhantes aos do p.ifdo d: " `- " "" " l * 9,30 horas, no 25 andar: continuacqo da bencqo. 10 horas, no "top" do edificio: t6rmino da bencqo e hasteamento dos pavilh6es do Brasil, do Para e de Portugal pelas autoridades presented. 10 horas, no 26 andar: coquetel. Cha Em an6ncio na imprensa, em ju- Iho de 1960, a gerencia do Gran- de Hotel tinha "o prazer de in- formar A sua distinta clientele que, devido as f6rias, nao funci- onarA o Chi das 5 do [restauran- te] Maraj6, durante o mes deju- Iho corrente". Colonizagao Em janeiro de 1961 o governa- dor do Estado em exercicio, Di- onisio Bentes de Carvalho, as- sinou decreto aprovando um pia- no piloto para a colonizaqio das margens da entlo BR-14 (hoje, BR-10), a rodovia Bel6m-Brasi- lia. O governor reservou para o piano duas glebas, de 15 mil hectares cada uma, nas quais fa- ria a concessdo de lotes atrav6s de arrendamento. As glebas, en- tre os quil6metros 36 e 60 e 86 e 110, teriam seis quilometros de profundidade a partir do leito da estrada. O decreto terminou tam- b6m a paralisaIao de todos os processes de venda de terras lo- calizados nessas areas, preven- do que eventuais im6veis cons- tituidos nesses locais seriam de- sapropriados. Era a primeira onda da coloniza- qao as margens da rodovia, visan- do o pequeno produtor. Logo vi- ria a segunda onda, em favor das propriedades maiores, que afoga- ria a iniciativa original. Ponte O engenheiro S6rgio Marques veio ao Pard, em janeiro de 1961, para testemunhar a con- clusao do maior de seus proje- tos: a ponte de concrete sobre o rio Tocantins, a principal obra de arte da Bel6m-Brasilia. Tinha (e continue tendo) 140 metros de vao livre, sem apoio em traqado parab6lico, o que a tornava en- tao a maior do mundo em seu estilo. Custara 400 milh6es de cruzeiros (valor da 6poca) e fora custeada pela SPVEA (anteces- sora da Sudam). O detalhe: o engenheiro fez a inspeqao final da ponte em seu pr6prio avido, um "tego-teco" Aero Commander. |
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