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11/2O QUINZENAS SETEMBRO DE 2003 lomal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO ELEIQAO Cade os candidates? As articulagdes para a eleigao do pr6ximo ano ja comegaram. A maior alianga em perspective e a do PSDB com o PMDB. Apesar do acerto entire o governador Simao Jatene e o deputado federal Jader Barbalho, a candidatura para Belem nao estM decidida. Faltam nomes. E os que existem estao escondendo ojogo. Apouco mais de uma semana de um dos prazos fatais para a corrida as eleiqces munici- pais do pr6ximo ano, as pers- pectivas para a dispute na ca- pital continuam confusas e obscuras. At6 o dia 30 quem quiser concorrer de- vera estar em seu domicilio eleitoral e filiado a um partido politico. Mas nao dependem desses fatores as principals condicionantes para a definiqo da cor- relaqao de forqas em Bel6m. O princi- pal element de andlise continue na de- pend8ncia da deciso de alguns dos nomes apontados como os mais fortes para o embate de outubro de 2004. Um deles 6 o ex-governador Al- mir Gabriel. Se defender de suas de- ANO XVII NO 308 R$ 3,00 claraq6es formais, o assunto esta en- cerrado: ele nao sera aspirante a pre- feitura de Bel6m, reservando-se para a campanha ao Senado em 2006. Mas poucos acreditam que essa seja uma decis~o final. Se fosse, o ex-gover- nador nao estaria interessado no co- mando national do PSDB nem abri- ria seu apartamento para visits de nitido sentido politico. Almir Gabriel esta sondando o terreno para ver se 6 mais seguro percorr6-lo agora ou s6 em 2006. As orquideas, as quais pretendia se dedicar integralmente na aposentadoria, s6 vio t8-lo por meio expediente. Se tanto. Teoricamente, estaria mais ao seu gosto voltar a ocupar uma cadeira se- natorial em Brasilia, ji aos 74 anos. Mas estara em dispute apenas um lu- gar e at6 li o ex-governador estard no sereno, vendo as coisas aconte- cerem sem a certeza de que podera voltar ao jogo. No ambiente famili- ar, a principal ameaca a viabilizagqo da melhor opcqo para o ex-governa- dor seria o seu successor e correligio- nirio, Simdo Jatene, algumas vezes ja tratado como traidor. O principal ressentimento seria por causa das composiq6es que o go- vernador atual tern feito corn o PMDB como um todo e com o de- putado federal Jader Barbalho em particular. Essa aproximaqCo seria a causa dos boatos que comeyaram a circular duas semanas atras: de que Jatene trocaria o PSDB pelo partido de Jader. Mesmo sem qual- quer fato concrete para dar susten- tadio a essa especulaqdo, logo come- qou a ser enfatizada a relaqao que Jatene teve no passado com o ex-se- nador, de quem foi secretario na pri- meira passage do governor e auxi- liar na administraaoo federal. Na verdade, Jatene e Jader fize- ram um amplo acordo para a elei- qdo do ano que vem, partilhando entire si municipios e cargos pdbli- cos no Estado. Criarao uma estru- tura capaz de fazer frente ao PT, que terA a cobertura de Brasilia. O go- vernador apoiara o deputado esta- dual Helder Barbalho para a prefei- tura de Ananindeua, o segundo mu- nicipio mais populoso do Pard (e o quarto em receita). O deputado fe- deral endossara o candidate tucano em Bel6m. O problema 6: qual sera o candidate do PSDB na capital? Se for o m6dico Almir Gabriel, Ja- der, que tem mrgoas acumuladas em relacao ao ex-governador, subira no palanque? De sua parte, Almir o to- mara como aliado publicamente? Aos apressados, que imediatamente res- pondem com um nao, 6 bom lembrar que, ja tendo andado juntos no passa- do, os dois politicos podem trilhar outra vez o mesmo caminho. Tudo dependera da consistencia do acerto entire Jatene e Jader. Em Santar6m, terceiro municipio em populagao (e sexto em receita), funcionou assim: o cabeca de chapa sera do PMDB, que indicara quem quiser (provavelmen- te o atual vice-prefeito, Alexandre Vaughan, ou o postulante Ant6nio Rocha, deputado estadual), enquanto o vice saird do PMDB (quase certo o professor Aldo Queiroz). Se a combinaqgo for seguida em Bel6m, o candidate a prefeito sera tucano e o vice, peemedebista. Se nao for Almir Gabriel, de long o nome mais forte, a alternative pode- ria ser o atual prefeito de Ananin- deua, Manoel Pioneiro (que se diz candidate de qualquer maneira, mes- mo se for por outro partido), corn a vantage (para Jader) da dobradinha Bel6m-Ananindeua. Se isso aconte- cer, tamb6m estaria aberta uma op- gqo para Almir ser o candidate ao Senado, com o respaldo de Jader, e Jatene tratar da reeleig~o, se 6 que o lider do PMDB nao esta arquitetan- do voltar ao convivio senatorial). A outra grande inc6gnita 6 a sena- dora Apa Jdlia Carepa. Ela ji decla- rou, categoricamente, que descartou a possibilidade de disputar a eleiqao municipal. Mas ainda nao conseguiu convencer por um motivo simples: ela 6 a melhor carta para o PT jogar em Bel6m no pr6ximo ano. O projeto pessoal mais ambicioso de Ana Jdlia 6 o governor do Estado. A questdo esta em saber se ela estara mais forte no future mais longinquo ou nos pr6xi- mos meses. Se tera maiores possibi- lidades de vencer em 2004 ou 2006. Mesmo enfrentando a ma vontade do prefeito Edmilson Rodrigues, que preferiria ter como sucessora a depu- tada Araceli Lemos (ou qualquer mi- litante da sua fac9qo), a senadora vai receber muita pressao da c6pula na- cional para se expor ao risco de dis- putar a eleiqgo municipal, apesar de ter um mandate quase complete de senadora pela frente e o desgaste de mais uma vez nao chegar ao final do mandate para o qual foi eleita, pulan- do para outro lugar. Uma coisa 6 cer- ta: se for candidate a prefeita de Be- 16m, Ana Jilia nao disputara o gover- no. Este sera o element de maior ponderaqco na sua decision. PSDB/PMDB de um lado e a co- alizao liderada pelo PT do outro constituirno os grandes campos de antagonismo para 2004. Mas poderA haver candidates independents des- sa correlacqo. Um dos que ji se lan- 9ou foi o senador Duciomar Costa. Ele diz que sera candidate com ou sem o apoio de Jatene, que dificil- mente embarcard no onibus do ex- quase m6dico. Por isso, o relaciona- mento entire os dois se tornou diff- cil. Mais complicado ainda para Du- ciomar sera financial sua campanha. Ser um dos nomes de maior apelo popular nio garante chegar na fren- te, at6 mesmo porque a sobreviv6n- cia da FundaqSo Duciomar Costa, responsavel pelo clientelismo que Ihe rende votos, esta ameaqada. Outra probabilidade 6 o deputado federal Wladimir Costa, que se pro- clama candidate, mas que provavel- mente esta preparando as bases para apoiar algu6m. Ja o destiny de Ma- noel Pioneiro tera que ser decidido at6 o dia 30. Se nao for o candidate do PSDB tera que buscar outra legend, caso queira de fato encarar a s6rio a hip6tese da PMB. Ha, evidentemente, algumas va- riantes a essa. Uma hip6tese, remo- ta, entretanto, seria o PMDB ficar corn o cabeqa de chapa na coliga- q~o cor o PSDB e apresentar o can- didato. Mas quem seria? A dificul- dade em encontrar nomes de expres- sdo political e eleitoral 6 um dos re- sultados da political paraense, na qual todos querem ser caciques, mas poucos tmr cacife para tanto. E os que se estabelecem no poder nao formal equipe e nem preparam su- cessores para nio ter que dividir sua cota. Passado tanto tempo do inicio da Repiblica, a political ainda 6 ple- biscitaria no Pard. 9 14/2a QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jornal Pessoal Mais um paraense e destaque national Mais um politico paraense ganhou notoriedade national. Depois de Jader Barbalho, agora 6 a vez do senador Luiz Otivio Campos, agora abrigado na mes- ma legend, o PMDB. Aprovado pela co- miss~o t6cnica do Senado para ser o novo ministry do Tribunal de Contas da Unido, ele atraiu reag6es de todos os lados, in- clusive dentro do TCU, contra sua indi- cagdo. Todos, exceto os pares senatori- ais, consideram que falta ao senador pa- raense pelo menos uma das condiqges para ocupar o cargo: a reputagao ilibada. In6dito protest de servidores do cen- tendrio tribunal, aq6es populares e decla- raq6es ptiblicas tentam influir no dnimo do plendrio para que volte atrds na deci- sao. E de surpreender que um politico hibil como o ex-secretirio se tenha per- mitido acreditar que a simpatia e o livre trAnsito no Congresso fossem passapor- te vilido para se juntar aos graduados funcionarios ptiblicos do TCU, encarre- gados de fiscalizar a boa aplicagqo das verbas federais. Ha 11 anos, quando co- ordenava o grupo Rodomar, de proprie- dade do seu sogro, Luiz Otavio fez exa- tamente o oposto: desviou dinheiro de um banco estatal, o BNDES (Banco Nacio- nal dee Desenvolvimento Econ6mico e Social), para os cofres da empresa. A fraude, revelada na 6poca por este journal, foi comprovada em inquerito da Policia Federal e fundamentou dendn- cia feita pelo Minist6rio Piblico Fede- ral, tdo bem fundamentada que o entio Procurador Geral da Repdblica, Geral- do Brindeiro (caricatamente conhecido como "engavetador-geral"), a acolheu. Enviado para o Supremo Tribunal Fe- deral e distribuido para o ministry Mau- rfcio Correa, em fevereiro de 2000, o process ainda aguarda uma decisao. A16m do senador, foram denunciadas mais nove pessoas, entire as quais Paulo Erico e Andr6 Gueiros, filhos do ex- governador H6lio Gueiros. O inqudrito policial e a denincia do Minist6rio Piblico Federal comprovam que a operaqdo de empr6stimo junto ao Finame (ag8ncia de fomento industrial do BNDES), concedido atravds do Ban- co do Brasil, foi montada nao para a cons- trugqo de 13 balsas (cada uma de mil to- neladas), como a Rodomar declarou, mas para ajudar a empresa a resolver as "s6- rias dificuldades financeiras" que estava enfrentando "e reverter valores direta- mente aos seus diretores e a membros da pr6pria Ebal" (Estaleiros Bacia Amaz6- nica, dos quais os Gueiros participavam). O dinheiro foi liberado atrav6s da fi- lial de Canudos do Banco do Brasil em Bel6m, justamente onde a Ebal e a Ro- domar eram os clients com as maiores dividas. Dos 12 milh6es de reais repas- sados pela agencia, R$ 7 milh6es foram depositados na conta da Rodomar. O res- tante do dinheiro foi dividido entire os 10 personagens denunciados, incluindo dois fiscais do Banco do Brasil, que atesta- ram a entrega das embarcacqes. A Ebal, conforme a investigagqo poli- cial, nao tinha capacidade para construir "13 balsas do porte das contratadas, em prazo tdo exiguo". Diz a den6ncia de Brin- deiro: "O Grupo Rodomar emitiu notas fiscais 'frias', salsas declaraqfes de reci- bo das balsas, bem assim induziu a erro a fiscalizaqao empreendida pelo Banco do Brasil, salvo aquela efetuada pelos denun- ciados [os dois funciondrios do BB que participaram da armaqdo], mediante a utilizagao de velhas balsas pintadas como se fossem novas, sem que se verificasse a construgqo de nenhuma das balsas objeto do contrato de financiamento". Essas velhas balsas ji estavam em uso antes mesmo da obtencao do financiamen- to. A Sudoeste, por exemplo, fora cons- truida em outro estaleiro, em 1980. De- pois do financiamento, 12 anos depois, passou a ser a Sudoeste I. As notas fiscais emitidas pela Ebal eram frias. Nao tinham melhor temperature os recibos das balsas passados pela Rodomar. Apesar da falsi- dade, a empresa registrou as embarcaq6es como novas no cart6rio maritime, oficia- lizou-as junto a Capitania dos Portos e mandou elaborar escrituras piblicas de construqao e venda dessas balsas. A nota fiscal de entrega da Sudoeste I foi emitida em agosto de 1992 pela Ebal e assinada pelo ex-secret.rio (do gover- no H61io Gueiros) e future senador Luiz Otavio Campos, que declarou haver re- cebido a balsa "em perfeita condiqao de uso", como se fosse nova. Por engenho & arte da composiqao political, o caso vinha se arrastando no STF. A audaciosa iniciativa de proper o nome do senador para o TCU reaqueceu o escandalo, desta vez, talvez, para levi- lo As iltimas consequincias. Se for as- sim, fard jus a um brocado popular em process de desmoralizageo: a justiga tarda, mas nao falha. Usina de Tucurui: quase R$ 25 bilh6es Qual o preqo atual da hi- drel6trica de Tucuruf, a mai- or obra pliblica da hist6ria da Amaz6nia, que gera 8% da energia brasileira? A Eletro-. norte fala em 4,7 bilhoes de d6lares, mas quando a usina comeqou a funcionar, em 1984, o orqamento da usina estava em 5,4 bilh6es de d6- lares (mais de 16 bilhoes de reals, do tamanho do PIB do Pard), incluindo apenas osju- ros durante a construqao. A Comissao Mundial de Barra- gens chegou, em 2001, a US$ 7,5 bilh6es (ou R$ 21 bi- lh6es). Mas hi quem diga que a conta de chegada ji passou de US$ 10 bilh6es. Tanta discrepancia tem uma explicaqdo, ao menos uma delas: hi tempos a Ele- trobris assumiu a divida de Tucuruf, desonerando a Ele- tronorte desse encargo, para que as contas da sua subsidi- aria melhorassem de cor (sempre estiveram vermelhis- simas). Hoje nao 6 ficil fazer os cilculos, embutindo neles todos os juros pagos (e ainda a pagar). NSo s6 pela primei- ra etapa, a mais dispendiosa, mas tamb6m incluindo a am- pliaqao em curso. Os investi- mentos na duplicagao da usi- na, que chegard a 8,5 mil me- gawatts entire 2006 e 2007, estdo estimados em R$ 3,7 bilh6es, dos quais R$ 2 bi- lhoes ji foram gastos.. Desse total, R$ 330 milh6es foram concedidos pelo BN- DES. A Eletronortej jcomeeou a negociar com o banco a libe- rag o de mais R$ 870 milh6es, em um novo financiamento. Assim completaria a cota do banco estatal, de um tero, para que a pr6pria Eletronorte e a Eletrobris fechem suas parties. Jomal Pessoal 1-/2a QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Amazonia sangra: brasileira em plena recessdo, o desmatamento cresceu 40% na Amaz6nia. Foi um choque geral. Para o governor que safa, de Fernando Henrique Cardoso, oito anos embalado na litania do "desenvolvimento susten- tivel", foi um puxdo de orelha. Para o governor que comeqava, disposto a con- tinuar essa political, foi uma dura adver- tencia. A Amazonia voltou, na primeira d6cada do s6culo XXI, A sanha devasta- dora dos anos 80 do s6culo anterior. Nes- sa fase os brasileiros ocuparam seu tris- te lugar na hist6ria: o povo que mais des- truiu florestas em todos os tempos. A resposta para o aparente paradoxo de incremento na abertura de novas are- as de ocupaq~o econ6mica num period de retraqao da atividade produtiva esta no vigor do assim chamado agrobusiness. Enquanto a inddstria e o com6rcio se re- trafam, a agropecuaria se expandiu tanto que se tornou a fiadora da solv6ncia cam- bial do pafs, um dos mais sangrados no mundo pelo custo financeiro da sua di- vida externa (al6m da internal, que ji 6 maior, mas 6 paga em reais). A Amaz6nia era chamada a partici- par dessa blitzkrieg agropecuaria. O pro- blema 6 que as areas ji exploradas da regiao tnm baixa produtividade. A causa principal 6 o rendimento decrescente dos cultivos, que result do empobrecimen- to do solo, vulnerivel pela perda da co- bertura vegetal que o protegia das intem- p6ries tropicais e o revitalizava de nutri- entes que ele pr6prio ndo tem. Como re- cuperar area degradada 6 mais caro, a alternative imediata e mais rentivel 6 desbravar novas terras. O brusco salto no desmatamento, ul- trapassando novamente a marca dos 20 mil quil6metros anuais (o equivalent a quase dois tercos do territ6rio da B61gi- ca, o lado rico da imagin6ria Belindia, metifora sobre a brutal concentraqao da renda num pafs que ter a sua face de India, adaptada e agravada em relaqio A matriz da id6ia) foi dado pelos que estdo correndo, qual cupins high-tech, atris de madeira, gado e soja, pondo abaixo mag- nificas florestas, que ainda cobriam a parte centro-oeste do Pard. Um novo choque foi dado nos insen- siveis espectadores da voragem destrui- dora nesta semana. De uma s6 vez, com requintes de viol6ncia, oito pessoas foram executadas em Sdo F61ix do Xingu: um pretendente a fazendeiro e sete de seus empregados, que tentavam se estabelecer numa area reivindicada por outro fazen- deiro. Todos foram vitimas de uma em- boscada. N~o tiveram a menor condigqo de se defender. Pareceu cena dos filmes do faroeste americano, produzidos no s6- culo XX por Hollywood sobre realidades do s6culo XIX nos Estados Unidos. Qual a relaqao entire o desmatamen- to e essas mortes? Todas as relac6es. Procuradas por empresarios interessa- dos em exportar e faturar muitos d61a- res, as terras da Amazonia voltaram a ser intensamente disputadas (e griladas). Alguns querem de fato produzir. Outros, simplesmente especular. Mas todos que- rem uma coisa em comum: colocar as arvores abaixo. Poucas delas, as que ji t6m lugar assegurado no mercado inter- nacional, serdo serradas e mandadas para o exterior. A maioria continuard a ser queimada para adubar o solo, no qual surgirao plants de soja e capim para o gado (real ou ilus6rio). Nao tenho ndmeros A mSo para com- provar, mas meus olhos nao se lembram de ter visto tanta madeira no porto de Bel6m, porto que a direqgo da Compa- nhia das Docas do Pard queria fechar por consideri-lo falido (quando falida esti a visdo dos nossos dirigentes, incapazes de antever o que se ve no dia seguinte, como agora: a madeira vindo para Bel6m e nao indo para Vila do Conde, como prometia a Alga Vidria). Para quem tomou seu pri- meiro susto sobre desmatamento vendo caminh6es emergirem do meio da mata, no Araguaia (onde havia a maior densi- dade de mogno do planeta, com quatro ou cinco toras de madeira no lombo, susto maior 6 testemunhar jangadas com duas mil toras de mogno singrando o Xingu ou algum dos seus afluentes. Aos olhos desatentos, esses tristes espeticulos podem nao parecer violen- tos, talvez porque o inconsciente co- letivo esti bloqueado pela noqgo de que arvore s6 ter valor quando 6 aba- tida e transformada em pranchas. Mas quando ela 6 apeada da posiq~o que a natureza a fez ocupar, depois de de- zenas de milhares de anos, a violen- cia ji esti consumada. Quem pensa assim n~o 6 um "ecolou- co", como pensam (se pensam) os "eco- cinicos". Nem, necessariamente, um poe- ta (antes fosse). Desde que o primeiro naturalista andou pela Amaz6nia (toman- do-se o fabuloso Alexandre Rodrigues Ferreira como refernncia, felizmente na- cional), todas as pessoas dotadas de inte- ligencia, acuidade, bom senso e honesti- dade aprenderam que a Amaz6nia s6 6 o que 6, esse inesgotivel laborat6rio de vida, por causa das suas florestas. Nem todos os que se convenceram desse element vital da harmonia no organismo amaz6ni- co, ao observi-lo com mais vagar, podi- am descrever o process que permit a existencia de arvores de at6 50 metros sobre solos fracos. Nao havia ferramen- tas t6cnicas disponiveis para tanto. Mas agora o projeto LBA, a maior empreitada cientifica ji realizada numa area de floresta, esti nos permitindo nao apenas explicar por que isso acontece, mas tamb6m revelar a grandiosidade dos efeitos que a floresta amaz6nica provo- ca quando absorve carbon da atmosfe- ra e o fixa em formas sucessivas (aqdcar, celulose e lenho) at6 former novas arvo- res e, debaixo delas, solos que dependem do que virao a plantar sobre suas raizes superficiais, e nao s6 os solos, mas uma quantidade tio grande de series vivos como nao se pode ainda imaginar (e muito menos acreditar). V^\ 14 l/2' QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jornal Pessoal em seiva e sangue Sem floresta nio haveri mais chuvas na Amazonia. Sem chuvas, a Amazonia voltara a ser o que era antes das transfor- maqges mais recentes: uma extensio .ri- da, hostile a presenga humana. Mas nao s6 a Amaz6nia: o Centro-Oeste, 6tero fecundo do Brasil, fonte da recordista produq~o national de grios, cereais e gado, deixard de ser area agricola. A hu- manidade toda, privada do sugamento de carbon que a floresta faz em seu estado de climax, sera cada vez mais castigada pelo gas carb6nico que as arvores libe- ram quando queimam. Alguns acham que isso nao interessa porque nao podem reduzir essa realida- de a cifr6es e porque pouco se lixam para o que vira depois que desaparecerem da Terra. Mas 6 isso o que mais interessa. Sem sua floresta, a Amaz6nia caminha para ser o que o Egito esteve pr6ximo de ser, sem seu Nilo fecundo. A brutal viol6ncia da destruiqlo da natureza corresponde a sanguinria rela- cao entire os homes, no que, recorrendo a Guimaries Rosa, cabe chamar de ser- tio. Sim, porque este 6 o verdadeiro Gran- de Sertdo: Veredas. Quem duvida, saben- do dessas mortes semanais, anunciadas ou imprevistas, noticiadas ou omitidas, que Deus, se aqui vier, que venha armado, se- nio nio ird muito long? Nestas vastidfes sem fronteira ou de fronteira ilegitima, a lei, a ordem, a norma e a regulaqlo ine- xistem. Quando existem, sao como mira- gens e mirfades estrelares, vistas A distin- vWi4i cia do sertao, tio distant da cornucopia brasilense, uma corruptela de Brasil. Um Haiti, aqui, ou uma Calcuta. Talvez, quem saiba, Marte-in-situ, tingida de vermelho pelo sangue de sua gente e de amarelo pelas fogueiras vegetais, que eram verdes. Nao se pode, a rigor, falar do comba- te entire Deus e o Diabo na Terra do Sol. Nao hi essa dualidade nitida, cristalina. Exceto, talvez, no maniquefsmo. E lou- vavel e 6 her6ica a dedicaqio missioni- ria ao mais fraco, ao desprotegido, ao que nio tem voz nem vez. Sera esse o moci- nho, o bom, a que se pode justapor auto- maticamente o mau, o bandido? Cautela e caldo de galinha tamb6m sao recomen- daveis a situaqao. Como identificar essas categories na realidade? Esses personagens, assim des- critos, existem de fato, de came e osso? O cenArio esta perfeitamente identifica- do, permitindo aos militants ter certeza de estar servindo ao sentido da hist6ria quando se colocam do lado nobre contra o lado ruim? Estao seguros de nio se- guir para o inferno, com as melhores das intenq6es, naturalmente? No caso do massacre de Sio F6ix do Xingu, como distribuir os pap6is do enredo categ6rico da academia entire os personagens da vida? Indiscutivelmen- te houve ali violencia, a mais repugnante e revoltante possfvel. Apenas um lado cometeu a viol8ncia. O outro foi sua vi- tima absolute. O violent deve ser punido e exem- plarmente punido para que todos sai- bam que, ao contrario do que pensava o deputado Delfim Neto, quando estava no poder executive (agora ele posa de Mr. Hide no parlamento e muitos acredi- tam na pantomima), esta nio 6 uma terra de bandidos, a ser "amansada" com san- gue, pelo bandido, at6 que o mocinho se disponha a chegar. Mas, pelo que mos- tram as informag6es at6 agora, essa sel- vageria do Xingu foi praticada sem o concurso de nenhum mocinho. Muita gente vem para a Amaz6nia realizar seus sonhos, seus melhores e mais generosos impulses, tornando-a sua terra de adolIo, seu lar, sua horta, sua uiltima morada. Mas a Amaz6nia tamb6m 6 valhacouto para muita gente. NMo 6 por isso que se deve abolir ou sequer restrin- gir o sagrado direito constitutional de ir e vir livremente de todos os cidadaos brasileiros. Mas a migraclo devia pas- sar a ser ato de vontade, nio produto da contingencia ou do compuls6rio. O mi- grante 6, no Brasil, em geral, aquele que nao conseguiu ser feliz na pr6pria terra, aquele que foi expulso de onde estava. A rota migrat6ria costuma ser um rosa- rio de trag6dias. O 16cus da migrailo 6 o reduto do equivoco. Regiio de fronteira, a Amaz6nia 6 vitima dos atos desses colonos, seja a grande sociedade an6nima como o Jodo da Silva. A Volkswagen, celebrizada por montar vefculos automotores desde a d6cada de 30 do s6culo passado, aqui montou, pela primeira (e iltima) vez boi. Para espalhar o gado pelos 40 mil hectares de past, tocou fogo na mata, provocando o maior incendio da hist6- ria contemporanea medido por sat6lite (o americano Skylab, em 1976). A mais sofisticada tecnologia da informaq~o re- gistrando a mais primitive tecnologia do home. Marcos no tempo do homo sa- piens que se realizam hodiernamente, todos os dias de verao, na Amazonia, com cada vez mais homos e ainda pou- quissima sapiens. A sabedoria vem retardadamente, nio acompanha o migrant (preced&-lo 6 pura utopia) e nio o fertiliza. O co- nhecimento cientifico, produzido roti- neiramente com 0,2% ou 0,5% da ver- ba national de ciencia & tecnologia, 6 insuficientemente produzido e inconsis- tentemente difundido. Serve nio para induzir o certo e prevenir o errado, mas sacramentar a brutalidade e confirmar a falta de oportunidade para a Amazo- nia ser contemporanea da sua hist6ria. Freqientemente serve para confundir as coisas e obnubilar a percepqao, fazen- do o desavisado habitante local imagi- nar que campos de pastagem ou de soja e madeira serrada posta no porto sao o future da regiao e nio seu passado, pre- viamente comprometido em troca do que jamais vird: o progress, o verda- deiro desenvolvimento. Nio foi somente a floresta que desa- bou 40% mais em 2002 do que no ano anterior. Foi a Amazonia que acabou um pouco mais nessa propor~ao, esvaindo- se em seiva e sangue. Jornal Pessoal 1a/2" QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 C Vv 0 riozinho que atravessou a alma escrevente de Andre Escrevi o texto abaixo como prefdcio ao primeiro livro escrito por Andre Costa Nu- nes, A Batalha do Riozinho do Anfrisio (edi- gqo do autor, 352 pdginas), langado hd duas semanas, em Belim. O jornalista 6 treinado a nao ter emo- 9qes e ser imparcial. Mesmo sem treinamen- to especifico, acaba se reprimindo em be- neficio de sua objetividade, um atavismo que se estende da atividade professional para a vida. Em setembro de 1984 todo esse con- dicionamento desmoronou dentro de mim quando vi o grande rio Tocantins estrangu- lado por uma parede de concrete com a al- tura de um edificio de mais de 20 andares, a maior obra piblica da hist6ria da Amaz6- nia, onde, no auge do serviqo, a quantidade de concrete despejado dava para construir um Maracana a cada semana. Corn seus 2.200 quilometros de extensao, 250 rio do mundo, o Tocantins estava inteiramente blo- queado pela barragem da hidrel6trica de Tucuruf, a sexta maior do planet. Cheguei ao local no moment exato em que comeqava a ser formado o reservat6rio, que viria a acumular 45 trilh6es de litros de agua em uma area de 2.875 quil6metros qua- drados (formando o segundo maior lago ar- tificial do Brasil). O iltimo canal de passa- gem de Agua de montante parajusante da bar- ragem havia sido fechado. Pela primeira vez o Tocantins estava deixando de seguir seu curso natural at6 o estuirio do rio Pard, ao largo de Bel6m, onde outros rios a ele sejun- tam para plantar suas aguas no vasto Oceano Atldntico. O autor dessa intervenaio brutal na natureza era o home. Contemplando aquela paisagem, de be- leza e agressao, uma monumental obra do home se sobrepondo A lenta e ainda mais monumental obra da natureza, chorei. Den- tro de mim falou mais alto o caboclo niasci- do nas alvas beiradas do rio Tapaj6s, com- panheiro mais a oeste do agredido Tocan- tins. Vi, naquele moment, que a voz da na- tureza fala mais forte do que a aculturacqo, a educaqIo, a civilizaqao, o refinamento e qualquer outro nome que se queira dar ao nosso caminhar human pelo espaqo e o tempo. Falou aquela voz primitive, que sem- pre esteve dentro de mim, mesmo sem eu saber, prolongando-se quase sem interrup- 9go do lfquido amni6tico no qual naveguei no venture da minha mae at6 o liquid claro e acolhedor do Tapaj6s, no qual me banhei antes de tomar as licqes da cultural. Contemplava entao, deslumbrado, a en- genharia do home, express naquela mura- lha de ferro e terra que retinha o cortejo de iguas do Tocantins. Em seu moment de pi- que, na cheia de 1980, essa descarga signifi- cava um fluxo de 60 milhSes de litros de Agua por segundo. Contemplava tamb6m aquela agressao brutal A natureza, a um belo e ma- ravilhoso rio, de aguas quase tao claras quan- to o que me recebeu, mal saido do regaqo da minha mae, rio que percorre minhas art6rias como um element associado ao sangue que me di vida. E percorre as art6rias de outros tantos caboclos amaz6nicos, milhares dos quais foram obrigados a deixar seu lugar ci- vilizat6rio, na beira do Tocantins, para bus- car um lugar que nao era deles na beira de uma estrada refratiria ao seu ethos. Estitico, deslumbrado e revoltado, cho- rei at6 minha raiva se acalmar e eu poder re- assumir minha condigao de jornalista, obje- tivo e analitico, e assim visitar mais uma vez a hidrel6trica de Tucurui. Lembro o epis6dio porque foi a primeira associaqao de id6ias que me veio A mente quando comecei a ler os originals do livro de Andr6 Nunes. Agora 6 a vez do Xingu, o iltimo grande afluente da margem direita que empresta suas aguas ao cicl6pico mas len- to caminhar do Amazonas at6 sua foz, ali pr6ximo, ap6s a mais comprida de todas as peregrinaqces de um rio nesta Terra, desde os elevados planaltos andinos do Peru, por quase sete mil quilbmetros. Claro, depois do Xingu ainda hi o Tocantins, mas hoje ji sa- bemos que ele forma uma outra bacia, ainda que sua distincao, ao menos no baixo curso, nao passe de formalidade geogrdfica. O To- cantins 6 legitimamente nosso, ao menos at6 a Eletronorte submet8-lo A cirurgia da hidre- 16trica de Tucuruf. A mesma Eletronorte pretend construir uma barrage ainda maior no Xingu, rio um tantinho menor, mas de dimensao amaz6ni- ca. Nas planilhas de viabilidade da empresa, o que interessa sao os n6meros, as quantida- des, a relaqao area inundada versus energia gerada e outras semelhantes. Este livro de Andr6 alerta aos engenheiros, se eles tive- rem a disposiq~o ou o hibito de ler outras coisas al6m dos seus manuais t6cnicos, que home e natureza nao podem ser reduzidos a essas abstraqces ditas cientificas. Ou nao podem caber em algumas ci8ncias que po- sam de exatas, sem passar pelo cadinho de ci8ncias (e saberes) nao tHo pretensiosas, ina- cabadas como os humans. Ainda bem que o empresdrio Andr6, o pu- blicitdrio Andr6, e outras faces mais do au- tor deste livro, nao tenham sufocado o cabo- clo xavantino Andr6 Nunes, integrante de uma famflia que 6 nome de curso d'agua e outros acidentes naturais da bacia. Quem fala neste livro 6 a mesma voz da natureza que se sobrep6s A minha pele urbana diante do es- trangulamento do rio que navega por dentro da minha alma. Fala o caboclo ora uma lin- guagem de ficgao, ora de memorialistica. As vezes acho que as linguagens estao trocadas e os valores mudaram de posicao. Fico ima- ginando se nao seria melhor ir dizendo tudo "na vera". Sem circunl6quios e mise-en-sc&- ne, sem esse tal de roman a clef, como se diz em Cameti, a mais antiga cidade do Tocan- tins paraoara, de um adorivel patois A pro- vencal. Mas as hist6rias recontadas por An- dr6 na passage do real para o imagindrio sao tao boas que cheguei rapidamente ao fi- nal do livro sem umjuizo final. E, final, que importancia tem isso? O que importa 6 esse registro intimo e vivo de uma realidade, de uma hist6ria e de um mundo que os novos senhores da Ama- z6nia, mal desembarcados de suas naves es- paciais, a bordo de suas caixas pretas, igno- ram e teimam em destruir. A modernidade, se 6 a chave da contemporaneidade, deve ser bem-vinda. Mas nao pode receber o abre-alas incondicional apenas por ser uma novidade. E precise se submeter ao teste, ainda que seja pelo ensaio-e-erro primitive, como primiti- vo 6 o mundo que, a custo, inclusive huma- no, possibilitou essa fantistica biodiversida- de amaz6nica. Queremos ser o divers, o variado, o pluralista. Tao distintos somos e tao unos acabamos sendo, vivendo sob essa redoma tecida pela natureza com base nos grandes elements: a agua, o sol, a mata. E esse element de unidade, essa ener- gia unica, que faz um caboclo do Tapaj6s chorar diante da sorte do Tocantins, como se fossem a mesma agua, ainda que os ge6- grafos lecionem sobre as bacias comparti- mentadas. Nao acabem, senhores donos da tecnologia de ponta, com os elements vi- tais deste bioma inico da Terra. Do contra- rio, acabarao conosco. Nao pretendemos morrer sem reagir. A vida 6 bela e comple- xa, como nos mostra Andr6 Nunes neste li- vro de livre reminiscencia da vida no Xin- gu de nossos antepassados Kayap6s, que, para nossa felicidade, ainda vivem, viven- do o desafio de sobreviver e se afirmar num mundo que toma a Amaz6nia como lema, sem lhe vestir a camisa. De volta A sua taba, Andr6 vestiu sua identidade e nos deu a alegria de ler seu livro e prefacia-lo com este texto, cuja dnica razao de existir 6 anunciar, sem pom- pa e sem circunstancia: entrem e leiam. Nao se arrependerao. 1'/2A QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Journal Pessoal Foi-se o general Humberto, um heroi paraense esquecido A noticia nao saiu nos jornais e nao foi comentada por ningu6m, por isso merece ser registrada, ainda que tarde: morreu, aos 90 anos, em Vit6ria, no dia 26 de janeiro deste ano, o general pa- raense Humberto Vasconcelos. Ele vi- veu os tiltimos 40 anos no Espirito San- to, ao lado da esposa, a goiana Maria de Lourdes Calmon Vasconcelos, ago- ra com 83 anos, num casamento de 67 anos. A vidva ainda mora numa modes- ta casa de um modesto bairro na cida- de de Vila Velha, na regido metropoli- tana de Vit6ria, tnico patrim6nio dei- xado pelo marido, juntamente com um carro velho na garagem. Durante algum tempo o military foi tratado como her6i por causa de um epis6dio que protagonizou, em 1934. Humberto Vasconcelos perdeu a mao numa instrucao de granada que dava a recrutas. Ele deveria utilizar uma gra- nada descarregada, mas Ihe enviaram, por equivoco, uma granada carregada. Na hora em que o entdo capitdo puxou o trinco, a bomba iniciou o seu proces- so de detonaqgo. Humberto correu para langi-la no patio. Quando chegou Aja- nela, viu que embaixo se encontravam dois pelot6es de soldados. Desespera- do, voltou-se para os alunos e ordenou que todos se jogassem ao chdo. Voltou Sjanela e colocou a mao esquerda para fora, segurando a granada. Ajoelhou- se atris da parede. A granada explodiu e levou a sua mao esquerda. Nao atin- giu mais ningu6m. Por causa desse seu gesto de cora- gem, o Ex6rcito o manteve na ativa at6 o posto de coronel. Gettilio Vargas, no po- der como ditador, fez um decreto autori- zando o general a prosseguir na carreira military, mesmo sendo mutilado. Ele che- gou ao posto de tenente-coronel na ativa e reformou-se como general de brigada. No Espirito Santo era sempre lembrado por esse incident e saudado como gran- de her6i. Depois arriscou uma candidatu- ra a deputado e nao passou de suplente. Mas os paraen- ses o conhecem por haver assassinado o Por algul jornalista Paulo Eleutdrio Filho na o military sede do journal O Li- tratado c beral, que era o 6r- taa gao official do PSD, her6i por o ji extinto Partido Social Democriti- de um e| co, do caudilho Ma- galhaes Barata. O que prot capitao Vasconce- 934 los era entao aju- em 1934 dante de ordem do general Alexandre Zacharias de Assumpgao, que se elege- ra governador em 1950, impondo uma hist6rica derrota ao pr6prio Barata. Sentindo-se ofendido por um artigo publicado em O Liberal, sem assinatu- ra, foi armado A redacgo para tomar sa- tisfaqo com o autor do texto. Mas o entao deputado estadual Jodo Camar- go, que tamb6m era gerente do journal, conseguiu demov6-lo na conversa. No mesmo dia, comentando o epis6dio, o parlamentar comentou que ficara bem impressionado com o military, que ima- ginara ser uma pessoa desqualificada mas era um "p6-de-arroz". Anos depois, ao recorder os fatos em entrevista ao jornalista Carlos Ro- cque, o deputado baratista disse que usara a expressao pensando nos tor- cedores do Fluminense, do Rio de Ja- neiro, que eram chamados de "p6-de- arroz" por serem da elite. A Vascon- celos, por6m, chegou, atrav6s de ter- ceiros, uma interpretaqCo completa- m tempo foi :omo causa o rausa is6dio agonizou m^i mente oposta, que questionava sua masculinidade. No dia seguinte o capi- tao voltou armado a 0 Liberal para matar o suposto ofensor (que aca- bara de entrar, mas, ao inv6s de subir para a redacqo se- guiu ate a oficina), encontrou o jorna- lista Paulo Eleut6- rio Filho, seu desa- feto desde os tem- pos em que moraram no Amapi, e se desentenderam. Eleut6rio puxou o revolver que car- regava e atirou virias vezes em Vas- concelos, sem conseguir acerti-lo. Ten- tou fugir. Devia ter said para a rua, mas acabou rumando para a oficina do journal, onde, acuado, foi morto. O ca- pitao foi julgado e absolvido A unani- midade pelo Tribunal de Justiga do Estado. Mas desistiu de continuar no Pard, exilando-se em terras capixabas, onde morreu, ja no anonimato. Seu lu- gar na hist6ria, por6m, ji estava garan- tido quando ele se foi de vez. S Aniversario Perdao Por capricho dos fados, a present edigdo, que assinala os A edicao anterior do Jornal Pes- 16 anos deste journal, demorou tanto a sair que precisou abran- soal saiu com mais errors do que o nor- ger a primeira e a segunda quinzena de setembro. Processos, mal ou tolerdvel. Mais uma vez por cul- outras tarefas, o leite das crianras, palestras, viagens e quetais pa de um fechamento precario, sem a me desviaram da cada vez mais desgastante tarefa de lan- revisao final, lacuna que costuma ser gar a ediqao 308, que comeqa a contagem dos 17 anos. Se che- fatal quando ha desatenqao e press ex- garei a tanto, nao sei. Haver chegado at6 aqui ji foi muito diff- cessivas na chamada horaa h". Espero cil. Por isso mesmo, divide com meus fi6is e pacientes leitores que a vergonha de constatar a infiltra- Sa ventura e o prazer de mais esse aniversario. Parab6ns ao Jor- 9o dasgralhasjd com ojoralimpres- nal Pessoal e, se for o caso, aos seus leitores. Para comemorar, so previna a repeti9ao dos errors. Mais uma ediq o mais light, digamos assim. uma vez, perdDo, leitores. Jomal Pessoal 1-/2' QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 7 S antarem foi palco da avant-- premiere de um terror que se abateria sobre o Brasil a par- tir de 13 de dezembro de 1968, quando foi editado o AI-5, tor- nando escancarada a ditadura military, como diz o titulo do segundo volume da tetralogia do jornalista Elio Gispari sobre o period mais negro da repdblica (por ironia, tendo como base principal os arquivos de um dos arquite- tos desse regime de excecgo, o general Golbery do Couto e Silva). Santar6m nao teve consci8ncia do duvidoso privil6gio que Ihe coube, de ser laborat6rio politico, no moment em que isso se consumou, em 20 de setembro de 1968, nem se lembra dele agora, passa- dos 35 anos do acontecimento. Guarda- das as proporq6es, se poderia fazer al- gum paralelismo cor Guernica, o teste de bombardeio a6reo que os nazistas fi- zeram, na Espanha, preparando a guerra seguinte que empreenderiam, na busca do Reich dos mil anos. Santar6m, naquele fim de tarde de uma sexta-feira de muito calor e sol, tamb6m era um campo de guerra. Foi quase, como na Espanha de Franco, a las cinco em punto de la tarde. Em frente A antiga sede da prefeitura municipal, voltado para o belo encontro das aguas verdes do Tapaj6s corn o bar- ro em suspensdo do Amazonas, 150 ho- mens da Policia Militar fortemente em- balados, sob o comando do truculento tenente Lauro Viana. A caminho dali, mais de tres mil pessoas caminhavam atras de um porta-estandarte, que empu- nhava a bandeira national, repetindo vi- vas ao "barra limpa" (expressao que Ro- berto Carlos consagrara) e frases como "o povo unido jamais sera vencido". O "barra limpa" era o prefeito Elias Pinto, autor de uma vit6ria hist6rica (com 65% dos votos vilidos) sobre seu gran- de opositor, Ubaldo Correa. Filho de migrants nordestinos, de origem pobre, Elias fizera uma carreira vertiginosa des- de que fora, aos 21 anos, com curso pri- mario incomplete, secretario do prefeito Adherbal Caetano Correa, o "seu" Babi, primo de Ubaldo mas seu adversario po- litico. O jovem era um autentico factd- tum na administragao municipal e subs- titufa o prefeito, muito timido, na hora dos discursos (ficou conhecido como "o papagaio do prefeito"). Ja como primei- ro locutor esportivo de Santar6m, mos- trara que falar era com ele mesmo. Pren- dia a atengao dos ouvintes, os impressi- onava e convencia. Seu mais ilustre interlocutor nessa 6poca fora o president Getdlio Vargas. Na campanha para se eleger president pelo voto direto, Getdlio passou por San- tar6m, em 1950. Prometeu apoiar a ins- talagdo de uma fibrica para beneficiary a juta, fibra que os imigrantes japoneses haviam introduzido na regiao. Empossa- do, recebeu pedido de audiencia do jo- vem politico santareno, que o ouvira embevecido. Elias cobrou o compromis- so no gabinete presidential, no Palacio do Catete, o pioneiro Kotaro Tuji ao lado. Getilio se impressionou e aprovou o fi- nanciamento do Banco do Brasil para a importagao da fiagio e tecelagem da In- glaterra. A Tecejuta seria a maior empre- sa de toda a region. Falando bem e prometendo muito, al6m de trabalhar com firia, Elias Pinto se elegeu deputado estadual por Santa- r6m para a legislature 1955-59, o sexto mais votado no Estado. Findo o manda- to, Magalhdes Barata, do partido contra- rio ao PTB, o PSD, nomeou Elias, um dissidente trabalhista que o apoiava, para a comissao de planejamento da SPVEA, a antecessora da Sudam. Mas o irrequie- to politico nio esquentou a cadeira por muito tempo. Em 1958 (licenciado da Assembl6ia Legislativa) ji havia dispu- tado pela primeira vez a prefeitura de Santar6m e perdeu, Tentou de novo qua- f1ra / mo r I I C 1 I d i II 1 /24 QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jomal Pessoal tro anos depois. Nova derrota. Sustenta- va ele, e com ele muita gente, que ga- nhou na votacqo e perdeu na apuraq-o, vitima de duas das mais fortes institui- 96es eleitorais paraenses: o emprenha- mento de votos e o mapismo. A elite santarena nao queria ser co- mandada por um filho de "arig6s", os estigmatizados retirantes nordestinos, especialmente cearenses, que se confi- naram no planalto, produzindo comida para a cidade, li embaixo, ainda orgu- Ihosa do seu baronato portugu8s. Como nao tinha esses dons campestres, Elias se especializou nos oficios urbanos: al6m de locutor de radio, foi fot6grafo, pro- fessor de ingl8s e co-proprietdrio (e prin- cipal redator) do journal "O Baixo-Ama- zonas". Mas nao vivia s6 para as profis- soes. Desde cedo se ligou as causes pd- blicas, comecando por presidir, muito mogo, a Congregaco Mariana, o braqo militant da Igreja, "xod6" do bispo ale- mro. Era "arig6", mas falava bern, pen- sava ripido e era audacioso nas iniciati- vas, al6m de visionario. Para ganhar as eleiq6es de 1966, con- tra o todo-poderoso Ubaldo Correa, mar- telou na image do "barra limpa", de um politico igual ao cidaddo comum, alegre e comunicativo, e no slogan do "tostdo contra o milhao", que transformava sua fraqueza financeira numa catapulta poli- tica. Se nas outras vezes a fraude deci- diu, desta vez ela nao esteve present ou nao foi suficiente para anular a enxurra- da de votos em favor do candidate da oposiCgo. Elias ganhou a segunda mais important prefeitura do Pard. Foi um dos dois 6nicos prefeitos do MDB no Estado (o outro foi o de Santa Izabel, de expres- sdo muito inferior) e no Brasil. O MDB foi a oposiqCo consentida pelo regime military, que, no ano anterior, dissolveu o sistema anterior e instituiu o bipartida- rismo no Brasil. Mas Elias s6 p6de administrar seu municipio por oito meses. O coronel Alacid Nunes, que governava o Pard cor mdo de ferro, como quase todos os sitrapas colocados no poder pela Are- na (principalmente os recrutados dire- tamente na caserna, sem uma carreira political a sustentagqo partidaria da di- tadura, nao admitia ter opositor e as- sim tdo important. De pdblico, agia como um democrat: aceitou a audien- cia que o prefeito do MDB antecessorr do PMDB) Ihe pediu tao logo assumiu; ouviu seus plans; e parecia acatar uma convivencia pacifica entire contrarios. Mas era s6 aparencia. Elias tivera uma vit6ria pessoal con- sagradora, mas s6 elegera dois dos nove vereadores da Camara Municipal de Santar6m. A Arena dispunha de maio- ria absolute. Desde o inicio os vereado- res arenistas perseguiram o prefeito, que nao reagiu como devia. Ca6tico e vo- luntarista, Elias Pinto foi deixando al- guns erros pelo caminho. Era o que Ala- cid, Ubaldo e a maioria parlamentar queriam. Logo iniciaram um process para afasti-lo, por improbidade admi- nistrativa, e cassi-lo, o que acabou sen- do consumado em novembro de 1967, oito meses depois da posse. Os motives? Ant6nio Pereira, profes- sor e lider dos vereadores da Arena, ex- plicou, anos depois, em entrevista dada a pesquisadora Maria de Nazar6 Camar- go, autora do finico trabalho academico dedicado ao tema ("Elias Pinto: da aqdo a reaqio", monografia de conclusdo da graduaq o em hist6ria pela UFPA, apre- sentada em 1994): "Elias Pinto fez um empr6stimo no Banco Moreira Gomes sem a aprovaqCo do Poder Legislativo; al6m do mais, usou indevidamente o di- nheiro destinado ao pagamento do fun- cionalismo para amortizar as prestaOes do referido Banco. A Camara tinha que tomar uma attitude, pois ele estava agin- do ilegalmente", declarou Pereira. O ato caracterizava uma irregularida- de administrative, mas nio um dolo. Po- dia ser sanado. Ainda que nao fosse pas- sivel de correg~o, havia puniq~o regular. O Tribunal de Contas do Estado iniciou procedimento apurat6rio, que nao che- gou a ser concluido porque os vereado- res nao estavam interessados em filigra- nas administrativas e fundamentaq~o le- gal e se anteciparam a tudo. O ato era politico e o objetivo era claro: eliminar um important personagem oposicionis- ta e, cor ele, uma alternative de poder. Na v6spera do fatidico 20 de setem- bro, o governador Alacid Nunes esteve em Santar6m. Chamou todos os que po- dia chamar e gritou cor todos corn os quais podia (embora nao devesse) gritar, como era de seu estilo: Elias Pinto nao podia reassumir a prefeitura, mesmo ten- do em mdos um mandado judicial, con- cedido pelo juiz de Obidos (a comarca de Santar6m estava eventualmente mas nao incomumente ac6fala); se tentasse valer-se da ordem judicial, teria que ser preso; se resistisse A prisio, morto. Sem saber, Alacid estava imitando a posiqgo assumida por Carlos Lacerda quando Getdlio Vargas derrotou a golpista UDN e voltou a presidencia da Repdblica. Em outra circunstancia, conciliador como era, talvez Elias Pinto tivesse re- cuado. Mas ele tinha o apoio do deputa- do federal (e da Arena) Haroldo Veloso, brigadeiro da reserve da Aeronautica. Veloso se celebrizara pelos atos de re- volta que comandou em Jacareacanga, ali perto, e em Aragarcas, mais long, con- tra o president Juscelino Kubitscheck. Pensava pelos caminhos da direita, mas acreditava no que pensava e cumpria o que dizia. Era um lider na sua corpora- cqo e um her6i entire os habitantes do Baixo-Amazonas, que com ele convive- ram desde que abriu o campo de pouso de Cachimbo, que serviria de alternative para os voos entire Brasflia e Manaus. Veloso foi direto e firme na metodologia da construqio: jogou seu avido numa cla- reira e destruiu-o todo, mas conseguiu pousar. No dia seguinte pegou no macha- do e comecou a abrir a pista. Veloso havia assumido publicamen- te a defesa do prefeito do outro partido. Discursou em Santar6m para dizer que se tratava de um golpe politico, para o qual os motives alegados nao passavam de pretexto. Quando Elias Pinto chegou cor o mandado de seguranqa para vol- tar a ocupar a prefeitura, Veloso disse que iria a frente. E estava realmente na testa da passeata quando os manifestan- tes chegaram ao alcance dos fuzis dos policiais militares. Cumprindo ordens que lhe haviam sido transmitidas pouco antes, pelas fonias do DER e da Celpa, o tenente Lauro Viana mandou atirar. Dois dos manifestantes morreram no local (um terceiro ferido faleceria no hospital, no dia seguinte). Haroldo Veloso, tamb6m ba- leado, estava caido no chao quando um PM se aproxi- mou dele e enfiou a bai- ' oneta do seu fuzil a al- tura da virilha do mi- litar indefeso. Vi- rou-se para o tenen- te e gritou: "servi- 9o feito". O "serviqo" es- tava realmente fei- to. Elias Pinto con- seguiu escapar e entrar num hospital is proximidades da prefeitura. Os poli- ciais, que o queri- am prender, foram mantidos do lado de fora pelo decidido m6dico Waldemar Penna, director da Casa de Sadde Sdo Sebastilo. No dia seguinte, o fu- turo brigadeiro Pau- lo Vitor chegou a Santar6m com tropa da Aero- niutica e resgatou Elias, que se esconderia em Bel6m (na residen- cia do deputado La6rcio Barbalho, pai do future governador Jader Barbalho), pro- tegendo-se da ordem de prisdo do gover- nador, enquanto Veloso seguiria para tra- tamento no Rio de Janeiro, sem nunca conseguir recuperar a satide, morrendo menos de dois anos depois. Elias tamb6m tentaria voltar A politi- ca, mas seu grande reduto Ihe fora inter- ditado. Santar6m foi declarada area de seguranqa national, perdendo o direito de eleger seu prefeito. Elias foi cassado duas vezes, fato talvez in6dito nesse ci- clo de repressdo: na primeira, foi-se o mandate; em seguida, os direitos politi- cos. A cidade, que tentara realizar um ato her6ico naquele dia 20 de setembro, se assustara com a selvageria da rea~qo, que se seguiria nos atos cirirgicos de castra- qco da dimensdo political de todo um povo. Ato tdo profundo que at6 hoje mant6m em branco essa her6ica pigina da hist6ria de uma region que ji se des- tacou, no passado, por sua independ&n- cia e autoconfianca. Desde entio, Santa- r6m ainda anda a cata de sua identidade. PS Para quem n~o sabe: Elias Pinto 6 meu pai. Jornal Pessoal 1/2" QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Q Banco Em 31 de janeiro o Banco de Cr6dito da Amaz6nia (o atual Basa, na 6poca BCA) langou a pedra fundamental do seu ediff- cio-sede. Ele ficaria num terreno da avenida Presidente Vargas com a rua Aristides Lobo, contiguo ao edificio Bern. Teria 14 andares, todo com ar condicionado, no t6r- reo a agencia Bel6m, em cima, audit6rio e restaurant. O terreno foi doado pela prefeitura. O Esta- do isentou o banco do imposto de transmissao do im6vel. Mas a sede, construida alguns anos depois, acabaria ficando tres quadras al6m, do outro lado da avenida, com mais tr8s andares. O terreno continue sem uso, mas foi murado depois da briga entire o Basa e a prefeitura pela drea. O edificio Bern esti abandonado. Carnaval A Radio Clube do ParA pro- movia, a prefeitura oficializava e algumas firmas particulares patro- cinavam e assim se realizava "o maior e mais movimentado carna- val de rua de Bel6m". A progra- magao incluia sete batalhas de confetes. A primeira, em 1957, foi na rua Carlos Gomes esquina com a Bailique, onde pontificava o Bar Universal, do popular "Biriba". Serguiam-se outras batalhas de samba em frente ao posto policial do Jurunas, na praga Brasil, em Icoaraci, naTito Franco (Almiran- te Barroso) esquina com a Vileta, na Joao Alfredo com a Padre Eu- tiquio e, na segunda-feira gorda, na praga da Repdblica, cor a elei- qAo do campedo do carnaval. Naquele ano o carnaval da PRC-5 foi inaugurado com a apre- sentagdo da orquestra "Os Copa- cabanas" no audit6rio da emisso- ra, na Aldeia do RAdio, no Juru- nas, "com a colaboragAo de todos os elements do cast" local. Comicio O advogado ClIo Bernardo e ojornalista Geraldo Palmeira lan- garam suas candidaturas (de sena- dor e suplente) contra o baratis- mo dominant. Centenas de pes- soas, apesar da chuva, foram ao Largo de Santa Luzia (onde ainda sobrevive, moribunda, uma feira de fim-de-semana) para ouvir os oradores, que se comprimiam num palanque improvisado sobre uma bol6ia de caminhlo. O primeiro a falar foi o jorna- lista Jayme Barcessat. O segundo foi o telegrafista e udenista Ola- vo Rocha. A seguir, Jos6 Bezerra, lider dos estivadores. E depois dele, o deputado Lopo de Castro, que viria a ser prefeito de Bel6m, 0 Para em 1957 Pela primeira vez nesta seqdo decidi tratar de um gnico ano, regis- trandofatos que caracterizavam sua vida de diversas maneiras. Alea- toriamente, me lancei sobre 1957, quando o baratismo vivia sua ilti- ma onda de dominaFao political e a Amazonia estava preste a sair do isolamento national de tres seculos e meio. e Jos6 Maria Platilha, do peque- no PTN. Dos candidates, o pri- meiro orador foi o irrequieto Ge- raldo Palmeira, entlo primeiro suplente de deputado estadual, dissidente do PTB. JA eram 10 e meia da noite quando Cl6o Ber- nardo falou para encerrar o comi- cio. Entre outras coisas, pediu para a Igreja condenar o jogo do bicho e assim cumprir sua respon- sabilidade para com "a seguranqa moral da sociedade cristd". Ojogo do bicho constituia uma das fontes de renda do baratismo. Contrabando Numa s6 missIo, a Alfandega apreendeu, no barco "Mensagei- ro", procedente de Paramaribo, 800 caixas de uisque. Contraban- deava-se muito no ParA na 6poca. Bebia-se um tanto. Talvez o con- sumo "per capital" do liquido es- coces fosse o maior do pais. Uma vez efetuada a apreen- sAo e para legaliza-la, fazendo parte da "mise-en-sc6ne", a Al- fandega publicava nos jornais editais de intimaq~o (como se o contrabandista fosse aparecer). Um deles: "De ordem do sr, Inspetor da Alfindega de Bel6m, intimo o dono ou donos de 29 caixas con- tendo garrafas com ufsque, re- centemente apreendidas nesta capital, conforme process n 326/57, a apresentar nesta Al- fandega, sob pena de revelia, no prazo de tres (3) dias, defesa a bem de seu direito, relativamen- te A mencionada apreensao". Navegagao Algumas das empresas de na- vegacgo em operag~o na region nessa 6poca: Navegaqao de Joaquim Fon- seca & Companhia. Navio/Motor Rio Amazonas: "Este rapido e confortavel navio motor saira para Porto Velho no dia 22 de janeiro, escalando nos seguintes portos: Santar6m, Parintins, Itacoatiara e Manaus, recebendo carga e pas- sageiros de primeira classes A firma funcionava na avenida Cas- tilos Franca, 74, com "automAti- co" (o nome pomposo do telefone de entdo) 1707. Navegaqao da Companhia Nip6nica de Plantaq~o do Brasil. N/M Antonina, que ia para Vit6- ria, no Espirito Santo, escalando em Jararaca, Araticu, Recreio de Piria, Breves, Corcovado, Ant6nio lemos, Gurupa, Porto de Moz "e demais portos intermediarios onde houver cargas e passageiros". A sede da empres ficava na rua Dr. Malcher, 53, na Cidade Velha. Empresa de Navegaq~o Aquidaban. Navio a 6leo Aquida- ban: "Este excelente navcio saira para Manaus, em sua viagem men- sal, no dia 12 do corrente, As 20 horas, escalando nos portos de Breves, Santar6m, Alenquer, Ibi- dos, Oriximina, Parintins, Mau6s, Urucurituba, Urucara, Itapiranga e Itacoatiara, recebendo cargas e passageiros de primeira classes A Aquidaban se distribuia em dois pr6dios na rua Gaspar Viana, que era a rua da inddstria e da estiva por excelencia, no centro. Farmacia Por haver encerrado suas ati- vidades, a traditional Farmacia Canelas, estabelecida A avenida President Cargas, 212, leiloou .seus medicamentos, m6veis e utensilios, dentre os quais Joao Neves, da Ag8ncia Neves ("a pre- ferida"), apregoou: produtos inje- taveis nacionais e estrangeiros, sais para manipulaqgo farmaceu- tica e para laborat6rios clinics, grande quantidade de quinino, plants nacionais e estrangeiras, essencias diversas de virias pro- ced8ncias, estratos fluidos, moles e secos, seqao complete de mani- pulacIo, boi6es para maceraqdo, corpo de armag~o envidraqado, armArios com pedra de marmore, balanqa de precisao, filtro ingles para Agua destilada, vidros mace- rados, prensa de ferro e balcbes. Carrogas Bel6m tinha tantas carroqas nas ruas que esse foi um dos te- mas das reunites do Conselho Regional de Trinsito, presidido pelo controversy coronel de contrastante nome po6tico Ma- ravalho Narciso Bello, delegado estadual do trinsito. Como as car- roqas atravancavam o trafego de 6nibus, caminh6es e outras viatu- ras, o coronel pretendia proibir que carroqas trafegassem por onde transitassem carros motorizados. Nessa 6poca, alias, possufam seus terminals no Ver-o-Peso as linhas dos onibus Circular Inter- no, Santa Isabel-Castelo, Canudos e Cemit6rio. Chegavam ao Ver-o- Peso pela Castilhos Franga as li- nhas Circular Externo, Padre Eu- tiquio-Conceigio, Condor, Tel6- grafo Sem Fio, Sacramenta, Lo- mas, Mauriti, Pedreira, Ponte do Galo, Itoror6, Batista Campos, Tamoios, Jurunas, Arsenal, Mare- chal Hermes e Icoaraci. Nunca foi por falta de linhas que o serviqo de 6nibus nAo fun- ciona. Muito pelo contrArio. Programacao domingueira de janeiro da Radio Clube, que comecava as 8 da manhl e terminava as 23,55, e quando ainda no havia televisao (e muito menos o Fantistico, o x6 da vida): Abertura com o locutor Vicente Santos Amanheqa Cantando Matinal PRC-5 No Reinado de Momo Sucessos Carnavalescos - Bazar de Ritmos Clube do Guri Audit6rio com Mario Barradas ("ao vivo" da Aldeia do Radio, no Jurunas, a nossa Radio Nacional do Rio de Janeiro) A Hora do Garoto Sabido Audit6rio Infantil - Coquetel Dominical Produqgo de Sandra Suely (locutor: Joio Drummond) A Voz da Profecia (Programa Evang6lico) A Voz Secundarista (Programa da UECSP) Sucessos Carnavalescos Hora Certa (locutor: Adelino Lelis) Cr6nica Social (de Edgard Proenca) A Hora Prebisteriana (Programa Evang6lico) A Hora Certa Carnet Social (Acontecimentos Sociais) Jornada Esportiva Gillette (com Edyr Proenqa e sua equipe especializada) Angelus (Prece da Ave Maria) Jantar Musicado no Salio Tudo Bem Com Carbo- leno (locutor: Alvaro Siqueira) Festivais Classic Ritmos Carnavalescos A Voz de Portugal (Programa escrito por Zenio, apresnetacgo de Zenio e Ardina) Isto 6 Jazz (Programa escrito por Aldo Fernando) - Resenha Dominical de Ultimas do Esporte (cor Edyr Proenga e Edgar Delgado) A Opera Voltou a Bel6m (Apresentagio de Lucia di Lammemoor, encerrando a temporada de 6pera da emissora) Boa noite, ouvinte. E hoje? IA/2O QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jomal Pessoal 10 As eclusas do rio Tocantins e a cobertura do governador Instalado no 21 andar de um pr6dio de luxo em Nazar6, o ex-governador Al- mir Gabriel costuma levar seus interlo- cutores a um ponto do apartamento que da visdo para aquela que consider uma das principals obras dos seus oito anos de mandate: a ponte da Alca'Vidria so- bre o rio Guami, cor seus dois quil6- metros de extensdo. E, de fato, uma bela realizaqao da engenharia. Mesmo possi- bilitando que se vi e volte a Barcarena, por exemplo, sem descer do carro e sem recorrer a balsa, muita gente voltou a fa- zer o percurso pelo caminho anterior. A estrada que liga Bel6m a ponte esti pr6xima da intrafegabilidade, menos de um ano depois de inaugurada. Nao s6 isso, por6m. A pernada sai mais cara e nem sempre tdo mais rdpida. Como se previa, as outras pontes, menores e me- nos exuberantes, estao sendo muito mais utilizadas do que a do Guami, cuja ser- ventia principal 6 para os carros de pas- seio, enquanto as demais sdo procuradas pelos veiculos de transport. Quando ser- ve ao transport de carga geral, ela vem para Bel6m e nao para Vila do Conde. Nada a critical se o Pard fosse rico. Mas os 180 milh6es de reais. aplicados na Alga Vidria, para dar conforto e ra- pidez para quem circula entire a capital e o distrito industrial de Barcena (fazen- do um percurso que 6 mais do que o dobro da distancia em linha reta entire os dois pontos), estao faltando numa obra iniimeras vezes mais important: a transposicqo do rio Tocantins. Para atra- ir os tecnoburocratas de Brasilia, o go- vernador Simao Jatene se disp6s a en- trar com metade do dinheiro necessdrio para concluir as eclusas. Num orcamento de 360 milh6es de reals, a metade equivale exatamente ao que foi gasto na tal da Alga. Se o atual governador tem de onde tirar esses R$ 180 milh6es e seu antecessor (e tamb6m correligionario tucano) tivesse preferido as eclusas A Alga, Simao Jatene poderia inaugurar, ainda neste mandate, o siste- ma de transposicgo do Tocantins sem defender dos humores de Brasilia. E usar essa obra como um fator de cdntribuicao para um possivel segundo mandate. Nao precisaria defender da incerta solidariedade federal nem andar atrds da mais do que improvdvel adesdo da Com- panhia Vale do Rio Doce A empreitada. Ao contrario do que sugeriu o deputado federal Jader Barbalho, a possibilidade de incorporaqo da CVRD As eclusas 6 remota. Nao por uma idiossincrasia qual- quer da empresa, mas porque a obra nao atende aos seus interesses. Por que a Vale iria participar da criaqdo de uma via de transport, a hidrovia, que ird concorrer diretamente com aquela que jd possui para os mesmos fins, a ferrovia de Cara- jds (e por que, a prop6sito, se juntaria A construcqo de 40 mil casas, como lhe prop6e o governor estadual)? Duas hip6teses poderiam responder afirmativamente a essa divida. A primei- ra seria a entrega do sistema de transpo- sigdo ao control exclusive da CVRD, que cobraria pela prestacqo do serviqo, al6m de receber alguma forma de subsf- dio piblico pela fraca oferta de carga a transportar que a principio haveria. Em segundo lugar, se a viabilizacqo das eclu- sas fosse associada a um grande projeto econ6mico, que provocaria um incremen- to acentuado na movimentagqo de carga, podendo chegar a 30 milh6es de tonela- das anuais nas duas direc6es do rio. O control da transposicgo de um rio, como a que se fard na barrage de Tu- curuf, vencendo o desnivel de 70 metros por ela criada, 6 uma tarefa govemamen- tal. Ao contrario da maioria das grandes obras executadas na Amaz6nia nas ilti- mas d6cadas (e previstas para os pr6xi- mos anos), as eclusas de Tucuruf, asso- ciadas A hidrovia Aragauia-Tocantins, nao poderd ser apenas uma via de escoa- mento de riquezas naturais da Amaz6nia para o exterior, que tem consagrado re- laq6es de troca desfavordveis A regiao (e, por conseqiiUncia, seu atraso relative e sua condiqao colonial). Terd que servir a uma political de desenvolvimento regio- nal, voltada para dentro. Num moment em que falta energia ao Pard, Estado que tem a sexta maior produqgo energ6tica national e 6 o ter- ceiro que mais export energia para fora de suas divisas, as eclusas podem ser o elo entire fontes alternatives de energia e o sonho de implantar, na regiao de Ma- rabd, um p61o de beneficiamento dos re- cursos minerals de Carajds. O ge6logo Breno Augusto dos Santos, que 6 consi- derado o descobridor das jazidas de mi- n6rio de ferro, aposta na possibilidade de descoberta de gas no Tapaj6s. Com base num estudo a que teve acesso, acredita que essa hip6tese significaria um inves- timento de R$ 30 milh6es. E uma quan- tia m6dica, mesmo se o lance resultar frustrante. Mas ele e outros ge6logos apostam no potential de gas do Tapaj6s. Se essa aposta vingar, gas paraense poderia ser o combustivel para aciaria com reduqao direta, dispensando o pro- cesso mais oneroso e desgastante que vem sendo seguido atualmente. Mas para chegar em condig6es econ6micas A re- giao de MarabA, o gas precisard contar com o sistema de transposigao da barra- gem de Tucuruf. O gas, naturalmente, representard a primeira e decisive deman- da para as eclusas. Mas outras se segui- rho. O problema 6 comecar, comeqando de uma forma racional, consistent. Auto-sustentdvel, como se diz agora para definir essas situaq6es (e quase todas). A comiss~o mista de orgamento do Congress Nacional jd aprovou a retoma- da das obras das no Tocantins, reservan- do-lhes R$ 62 milh6es no orgamento geral da Uniao deste ano, depois que o Tribunal de Contas da Uniao concordou em sustar a paralisacgo do empreendimento, que ha- via determinado em funqio de irregulari- dades detectadas na execuqao dos serviqos. Mas Brasilia terd mudado realmente de posiqao e passado a considerar as eclusas como obra prioritAria para o pais, ou esta- mos vendo mais um capitulo de novela, na qual o que se diz nao 6 o que se pensa e muito menos o que se pretend fazer? Para o governor federal, um projeto voltado para o desenvolvimento interno, ao menos nesse moment de angustiante necessidade de moeda forte para manter o pagamento da divida externa em dia, como exige o FMI, pode nao ser tdo in- teressante quanto vias de escoamento de uma produgao destinada A exportaqo. Brasilia nos v6 de uma forma que nao coincide com o que n6s somos (e, ao que parece, nunca coincidird). Mas se sabe- mos o que somos, devemos nos empenhar em buscar essa identidade. Estarfamos nes- sa diregdo se tiv6ssemos colocado as eclu- sas numa prioridade acima da Alga Viaria. Certamente o ex-governador Almir Gabri- el nao poderd ver a transposiq~o do To- cantins a partir de sua privilegiada cober- tura, em bairro central de Bel6m mas nes- se caso o que ele pode ver, a Alga, nao vale o que ele nao vera, as eclusas. No momen- to, nao pelo problema da distAncia, que 6 insoldvel, mas pelo atraso da obra, que 6 soluciondvel, mas para cuja solugdo o ex- governador nada fez, embora pudesse. Quest~o de 6tica, 6 verdade. Ou, dizendo mais diretamente: de miopia. Journal Pessoal 1/2* QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 11 _ Deus e o diabo no subsolo do sol Este e opreficio que escrevipara meu 100 livro, CVRD A sigla do enclave (Cejup,256 paginas, R$ 25), langado na semana passada, que inaugurou a coleg oAmaz6nia.doc da editor. do brasileiro tem o potential de gran- deza do Para, o mais dinamico da maior fronteira de recursos naturais do planet, a Amaz6nia. O v6rtice desse por- vir de desenvolvimento estaria fincado numa sigla: CVRD. A empresa atua no Estado hi 34 anos (dos 61 anos de sua existencia). Quando se estabeleceu no Pard, era, na es- s6ncia, uma estatal mineira, que se firmou no mercado international comercializando um produto das Minas Gerais: o mindrio de fer- ro. Foi chamada para dar coloragao verde- amarela A multinational americana United States Steel, a gigante do aqo. A USS era dona exclusive do que viria a ser a maior provin- cia mineral do mundo, mas ja entao escon- dia, sob manto de floresta e cobertura de can- ga, o fil6-mignon de ferro. Os militares nao gostavam da situaq~o. Chamaram a Compa- nhia Vale do Rio Doce para que um a empre- sa do governor se tornasse s6cia da hoje de- cadente empresa de Pittsburgh. A US Steel acabou saindo de Carajas, deixando o que imaginava ser uma batata quente nas maos exclusivas da Vale, certa de que a teria de volta, ja esfriada, no future. Mas ao inv6s de continuar a olhar para o big- brother do Norte, como se fosse a mulher de L6, a CVRD se virou para o Oriente e 1A en- controu a viabilizacqo para sua enorme mina, encravada no sertdo hostile, distant quase mil quil6metros do litoral, por onde o Brasil (ain- da uma civilizaq~o arranhando a areia das praias, como na 6poca quinhentista) escoa suas riquezas como se estivesse sempre dre- nando seu sangue, "destino manifesto" de doador de vampires. Hoje, a Vale atua em 14 Estados brasilei- ros, mas nenhum tem o peso do Pard nas suas contas de chegada e nos seus prospects de future. De tudo o que export, como a em- presa que mais export no Brasil, responsa- vel por 20% da balanqa commercial, a Vale extrai do Pard 70% do seu com6rcio exteri- or. Essa participacqo deveri ser ainda mais no future, future que desenharA para a ex- estatal, privatizada (e desastradamente pri- vatizada) em 1997, um perfil mais complex do que em qualquer outra parte do pais. Da cesta de neg6cios paraenses, a CVRD extrai- rd entao ferro, gusa, manganes, cobre, zinco, caulim, bauxita, alumina e aluminio, trans- portados por uma das mais importantes vias de escoamento de recursos naturais do globo terrestre, a ferrovia de Carajas (que agora che- garA a uma capacidade de carga de 85 mi- IhWes de toneladas anuais). Apesar desses nimeros aparentemente gloriosos, o ParB, cada vez maior, esti tam- bdm cada vez mais pobre. A riqueza que a CVRD manda para os quatro cantos do mun- do esta faltando para adubar o progress no Para. Segundo em territ6rio e nono em po- pulaqao, o Estado 6 o 16 da federaqao em IDH (Indice de Desenvolvimento Humano). Seus indicadores sociais o colocam no "ter- ceiro Brasil", aquela entrada de servigo pela qual transitam os Estados nordestinos mais pobres entiree eles o vizinho Maranhao, con- siderado um favorecido pela CVRD) e o Para, ao lado de seu parceiro amaz6nico nessa uil- tima colocaq~o, o Acre. Este livro, diagnosticando o paradoxo, tenta apontar-lhe as causes e sugerir alterna- tivas melhores do que a consolidaqao do modelo de enclave, do qual a Vale 6 madri- nha e porta-estandarte. Intencionalmentejor- nalistico, este livro evolui no dia-a-dia do registro e da reflexao sobre a conjuntura, ape- nas ajustando as datas e atualizando alguns dados. O objetivo 6 mostrar que o Pard nao matarg essa charada se nao enfrentar a esfin- ge. No confront, nao 6 suficiente gritar e manifestar indignagco. Afinal, a elucidaqao de qualquer charada 6 produto de reflexao & transpiragqo. De intelig6ncia aplicada. S6 evitaremos a explosao social que se avizinha, aproximando o Pard do drama de outros sitios minerals, ontem e hoje, aqui e acold, se desarmarmos a bomba desse mo- delo de concentraq o (e transferencia) de renda, e de exclusAo social e political. Tal pericia 6 produto de aprendizado. A home- opatia diz que s6 se cura determinada doen- qa voltando-a contra si, de outra maneira. E assim que se deve enfrentar o desafio im- posto por essa gigantesca corporag~o de neg6cios, que continue a ser um Estado mesmo jd nao sendo estatal. E precise conhecer a Companhia Vale do Rio Doce para aplicar-lhe o rem6dio produ- zido por seu principio ativo, re-trabalhado. Embora o desfecho de todas as hist6rias cri- adas pela empresa tenha significado pouco para o Estado, na hora de ver os lucros & perdas, com um balango negative na relaqao custo/beneficio, a possibilidade de escrever uma outra hist6ria sempre esteve acessivel de alguma maneira. N~o de uma maneira fi- cil, por6m, como mostra o grande desafio atu- al: implantar um p61o siderdrgico no Estado que tem o melhor dep6sito de min6rio de fer- ro do planet. Pode parecer bizarre que o Para se veja impedido de ter acesso A escala de beneficiamento do mindrio, restringindo-se ao ponto de partida, enquanto pelotizadoras, lingoteadoras e aciarias se estabelecem nos Estados vizinhos (e no al6m-mar). Mas 6 as- sim que tem sido e 6 assim que sera, se dei- xarmos que os autores do enredo mantenham o monop6lio da trama. No inicio da d6cada de 80, quando o Pro- grama Grande Carajas dava seus primeiros passes (que nao foram muito al6m, mas fo- ram suficientemente profundos para deixar um rastro de devastaqao), escrevi um livro prevendo que em MarabB, na mesopotamia do vale do Tocantins-Araguaia, surgiria um nicleo de desenvolvimento como o do Rhur alemao. A concretizaq~o dessa possibilidade parecia iminente. Mas hoje ela mais parece um sonho de verao, se nao um delirio, de qualquer maneira um event de um passado jA remote, mesmo que mal tenha sido ontem. Serd? Embora as vezes seja acusado de pessimista, nao sou fatalista. Estou conven- cido de que, ao menos em parte, nossas per- das tamb6m nos devem ser debitadas. Uma elite despreparada e desinteressada, que se move na defesa exclusive do seu ganho pes- soal, nao estabelece a interlocugqo que obri- garia a CVRD a, nao diria renunciar, o que seria excessive, mas a relativizar suas estra- tdgias diante dos interesses e necessidades do Estado e do pais. De um relacionamento mar- cado pelo tom mercantil e o sussurro da chan- tagem teria que surgir promiscuidade e des- respeito, mutuamente partilhados. Este livro ao menos tenta colocar o deba- te num nivel mais elevado e aproximd-lo do que deve ser o element de deslinde das po- 18micas e das d6vidas: os fatos. Cor essas armas, espero que cada um ocupe seu lugar e desempenhe satisfatoriamente seu papel em mais este round do confront entire deus e o diabo na terra do sol (e do subsolo f6rtil, pro- messa de um amanha melhor num hoje bei- rando o insuportavel). A luta e, atrav6s dela, a uma nova hist6ria. r L CV R..D -i d e l na Amazonia AS LTACF% (,A STA L , |
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