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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00256
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00256

Full Text


11/2O QUINZENAS
SETEMBRO
DE 2003


lomal


Pessoal


A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


ELEIQAO


Cade os candidates?

As articulagdes para a eleigao do pr6ximo ano ja comegaram. A maior alianga em
perspective e a do PSDB com o PMDB. Apesar do acerto entire o governador Simao Jatene
e o deputado federal Jader Barbalho, a candidatura para Belem nao estM decidida. Faltam
nomes. E os que existem estao escondendo ojogo.


Apouco mais de uma semana
de um dos prazos fatais para
a corrida as eleiqces munici-
pais do pr6ximo ano, as pers-
pectivas para a dispute na ca-
pital continuam confusas e obscuras.
At6 o dia 30 quem quiser concorrer de-
vera estar em seu domicilio eleitoral e
filiado a um partido politico. Mas nao


dependem desses fatores as principals
condicionantes para a definiqo da cor-
relaqao de forqas em Bel6m. O princi-
pal element de andlise continue na de-
pend8ncia da deciso de alguns dos
nomes apontados como os mais fortes
para o embate de outubro de 2004.
Um deles 6 o ex-governador Al-
mir Gabriel. Se defender de suas de-


ANO XVII
NO 308
R$ 3,00







claraq6es formais, o assunto esta en-
cerrado: ele nao sera aspirante a pre-
feitura de Bel6m, reservando-se para
a campanha ao Senado em 2006. Mas
poucos acreditam que essa seja uma
decis~o final. Se fosse, o ex-gover-
nador nao estaria interessado no co-
mando national do PSDB nem abri-
ria seu apartamento para visits de
nitido sentido politico. Almir Gabriel
esta sondando o terreno para ver se
6 mais seguro percorr6-lo agora ou
s6 em 2006. As orquideas, as quais
pretendia se dedicar integralmente na
aposentadoria, s6 vio t8-lo por meio
expediente. Se tanto.
Teoricamente, estaria mais ao seu
gosto voltar a ocupar uma cadeira se-
natorial em Brasilia, ji aos 74 anos.
Mas estara em dispute apenas um lu-
gar e at6 li o ex-governador estard
no sereno, vendo as coisas aconte-
cerem sem a certeza de que podera
voltar ao jogo. No ambiente famili-
ar, a principal ameaca a viabilizagqo
da melhor opcqo para o ex-governa-
dor seria o seu successor e correligio-
nirio, Simdo Jatene, algumas vezes
ja tratado como traidor.
O principal ressentimento seria
por causa das composiq6es que o go-
vernador atual tern feito corn o
PMDB como um todo e com o de-
putado federal Jader Barbalho em
particular. Essa aproximaqCo seria
a causa dos boatos que comeyaram
a circular duas semanas atras: de
que Jatene trocaria o PSDB pelo
partido de Jader. Mesmo sem qual-
quer fato concrete para dar susten-
tadio a essa especulaqdo, logo come-
qou a ser enfatizada a relaqao que
Jatene teve no passado com o ex-se-
nador, de quem foi secretario na pri-
meira passage do governor e auxi-
liar na administraaoo federal.
Na verdade, Jatene e Jader fize-
ram um amplo acordo para a elei-
qdo do ano que vem, partilhando
entire si municipios e cargos pdbli-
cos no Estado. Criarao uma estru-
tura capaz de fazer frente ao PT, que
terA a cobertura de Brasilia. O go-
vernador apoiara o deputado esta-
dual Helder Barbalho para a prefei-
tura de Ananindeua, o segundo mu-
nicipio mais populoso do Pard (e o
quarto em receita). O deputado fe-
deral endossara o candidate tucano


em Bel6m. O problema 6: qual sera
o candidate do PSDB na capital?
Se for o m6dico Almir Gabriel, Ja-
der, que tem mrgoas acumuladas em
relacao ao ex-governador, subira no
palanque? De sua parte, Almir o to-
mara como aliado publicamente? Aos
apressados, que imediatamente res-
pondem com um nao, 6 bom lembrar
que, ja tendo andado juntos no passa-
do, os dois politicos podem trilhar
outra vez o mesmo caminho. Tudo
dependera da consistencia do acerto
entire Jatene e Jader. Em Santar6m,
terceiro municipio em populagao (e
sexto em receita), funcionou assim:
o cabeca de chapa sera do PMDB, que
indicara quem quiser (provavelmen-
te o atual vice-prefeito, Alexandre
Vaughan, ou o postulante Ant6nio
Rocha, deputado estadual), enquanto
o vice saird do PMDB (quase certo o
professor Aldo Queiroz).
Se a combinaqgo for seguida em
Bel6m, o candidate a prefeito sera
tucano e o vice, peemedebista. Se
nao for Almir Gabriel, de long o
nome mais forte, a alternative pode-
ria ser o atual prefeito de Ananin-
deua, Manoel Pioneiro (que se diz
candidate de qualquer maneira, mes-
mo se for por outro partido), corn a
vantage (para Jader) da dobradinha
Bel6m-Ananindeua. Se isso aconte-
cer, tamb6m estaria aberta uma op-
gqo para Almir ser o candidate ao
Senado, com o respaldo de Jader, e
Jatene tratar da reeleig~o, se 6 que o
lider do PMDB nao esta arquitetan-
do voltar ao convivio senatorial).
A outra grande inc6gnita 6 a sena-
dora Apa Jdlia Carepa. Ela ji decla-
rou, categoricamente, que descartou
a possibilidade de disputar a eleiqao
municipal. Mas ainda nao conseguiu
convencer por um motivo simples: ela
6 a melhor carta para o PT jogar em
Bel6m no pr6ximo ano. O projeto
pessoal mais ambicioso de Ana Jdlia
6 o governor do Estado. A questdo esta
em saber se ela estara mais forte no
future mais longinquo ou nos pr6xi-
mos meses. Se tera maiores possibi-
lidades de vencer em 2004 ou 2006.
Mesmo enfrentando a ma vontade
do prefeito Edmilson Rodrigues, que
preferiria ter como sucessora a depu-
tada Araceli Lemos (ou qualquer mi-
litante da sua fac9qo), a senadora vai


receber muita pressao da c6pula na-
cional para se expor ao risco de dis-
putar a eleiqgo municipal, apesar de
ter um mandate quase complete de
senadora pela frente e o desgaste de
mais uma vez nao chegar ao final do
mandate para o qual foi eleita, pulan-
do para outro lugar. Uma coisa 6 cer-
ta: se for candidate a prefeita de Be-
16m, Ana Jilia nao disputara o gover-
no. Este sera o element de maior
ponderaqco na sua decision.
PSDB/PMDB de um lado e a co-
alizao liderada pelo PT do outro
constituirno os grandes campos de
antagonismo para 2004. Mas poderA
haver candidates independents des-
sa correlacqo. Um dos que ji se lan-
9ou foi o senador Duciomar Costa.
Ele diz que sera candidate com ou
sem o apoio de Jatene, que dificil-
mente embarcard no onibus do ex-
quase m6dico. Por isso, o relaciona-
mento entire os dois se tornou diff-
cil. Mais complicado ainda para Du-
ciomar sera financial sua campanha.
Ser um dos nomes de maior apelo
popular nio garante chegar na fren-
te, at6 mesmo porque a sobreviv6n-
cia da FundaqSo Duciomar Costa,
responsavel pelo clientelismo que
Ihe rende votos, esta ameaqada.
Outra probabilidade 6 o deputado
federal Wladimir Costa, que se pro-
clama candidate, mas que provavel-
mente esta preparando as bases para
apoiar algu6m. Ja o destiny de Ma-
noel Pioneiro tera que ser decidido at6
o dia 30. Se nao for o candidate do
PSDB tera que buscar outra legend,
caso queira de fato encarar a s6rio a
hip6tese da PMB.
Ha, evidentemente, algumas va-
riantes a essa. Uma hip6tese, remo-
ta, entretanto, seria o PMDB ficar
corn o cabeqa de chapa na coliga-
q~o cor o PSDB e apresentar o can-
didato. Mas quem seria? A dificul-
dade em encontrar nomes de expres-
sdo political e eleitoral 6 um dos re-
sultados da political paraense, na
qual todos querem ser caciques, mas
poucos tmr cacife para tanto. E os
que se estabelecem no poder nao
formal equipe e nem preparam su-
cessores para nio ter que dividir sua
cota. Passado tanto tempo do inicio
da Repiblica, a political ainda 6 ple-
biscitaria no Pard.


9 14/2a QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jornal Pessoal










Mais um paraense



e destaque national


Mais um politico paraense ganhou
notoriedade national. Depois de Jader
Barbalho, agora 6 a vez do senador Luiz
Otivio Campos, agora abrigado na mes-
ma legend, o PMDB. Aprovado pela co-
miss~o t6cnica do Senado para ser o novo
ministry do Tribunal de Contas da Unido,
ele atraiu reag6es de todos os lados, in-
clusive dentro do TCU, contra sua indi-
cagdo. Todos, exceto os pares senatori-
ais, consideram que falta ao senador pa-
raense pelo menos uma das condiqges
para ocupar o cargo: a reputagao ilibada.
In6dito protest de servidores do cen-
tendrio tribunal, aq6es populares e decla-
raq6es ptiblicas tentam influir no dnimo
do plendrio para que volte atrds na deci-
sao. E de surpreender que um politico
hibil como o ex-secretirio se tenha per-
mitido acreditar que a simpatia e o livre
trAnsito no Congresso fossem passapor-
te vilido para se juntar aos graduados
funcionarios ptiblicos do TCU, encarre-
gados de fiscalizar a boa aplicagqo das
verbas federais. Ha 11 anos, quando co-
ordenava o grupo Rodomar, de proprie-
dade do seu sogro, Luiz Otavio fez exa-
tamente o oposto: desviou dinheiro de um
banco estatal, o BNDES (Banco Nacio-
nal dee Desenvolvimento Econ6mico e
Social), para os cofres da empresa.
A fraude, revelada na 6poca por este
journal, foi comprovada em inquerito da
Policia Federal e fundamentou dendn-
cia feita pelo Minist6rio Piblico Fede-
ral, tdo bem fundamentada que o entio
Procurador Geral da Repdblica, Geral-
do Brindeiro (caricatamente conhecido
como "engavetador-geral"), a acolheu.


Enviado para o Supremo Tribunal Fe-
deral e distribuido para o ministry Mau-
rfcio Correa, em fevereiro de 2000, o
process ainda aguarda uma decisao.
A16m do senador, foram denunciadas
mais nove pessoas, entire as quais Paulo
Erico e Andr6 Gueiros, filhos do ex-
governador H6lio Gueiros.
O inqudrito policial e a denincia do
Minist6rio Piblico Federal comprovam
que a operaqdo de empr6stimo junto ao
Finame (ag8ncia de fomento industrial
do BNDES), concedido atravds do Ban-
co do Brasil, foi montada nao para a cons-
trugqo de 13 balsas (cada uma de mil to-
neladas), como a Rodomar declarou, mas
para ajudar a empresa a resolver as "s6-
rias dificuldades financeiras" que estava
enfrentando "e reverter valores direta-
mente aos seus diretores e a membros da
pr6pria Ebal" (Estaleiros Bacia Amaz6-
nica, dos quais os Gueiros participavam).
O dinheiro foi liberado atrav6s da fi-
lial de Canudos do Banco do Brasil em
Bel6m, justamente onde a Ebal e a Ro-
domar eram os clients com as maiores
dividas. Dos 12 milh6es de reais repas-
sados pela agencia, R$ 7 milh6es foram
depositados na conta da Rodomar. O res-
tante do dinheiro foi dividido entire os 10
personagens denunciados, incluindo dois
fiscais do Banco do Brasil, que atesta-
ram a entrega das embarcacqes.
A Ebal, conforme a investigagqo poli-
cial, nao tinha capacidade para construir
"13 balsas do porte das contratadas, em
prazo tdo exiguo". Diz a den6ncia de Brin-
deiro: "O Grupo Rodomar emitiu notas
fiscais 'frias', salsas declaraqfes de reci-


bo das balsas, bem assim induziu a erro a
fiscalizaqao empreendida pelo Banco do
Brasil, salvo aquela efetuada pelos denun-
ciados [os dois funciondrios do BB que
participaram da armaqdo], mediante a
utilizagao de velhas balsas pintadas como
se fossem novas, sem que se verificasse a
construgqo de nenhuma das balsas objeto
do contrato de financiamento".
Essas velhas balsas ji estavam em uso
antes mesmo da obtencao do financiamen-
to. A Sudoeste, por exemplo, fora cons-
truida em outro estaleiro, em 1980. De-
pois do financiamento, 12 anos depois,
passou a ser a Sudoeste I. As notas fiscais
emitidas pela Ebal eram frias. Nao tinham
melhor temperature os recibos das balsas
passados pela Rodomar. Apesar da falsi-
dade, a empresa registrou as embarcaq6es
como novas no cart6rio maritime, oficia-
lizou-as junto a Capitania dos Portos e
mandou elaborar escrituras piblicas de
construqao e venda dessas balsas.
A nota fiscal de entrega da Sudoeste
I foi emitida em agosto de 1992 pela Ebal
e assinada pelo ex-secret.rio (do gover-
no H61io Gueiros) e future senador Luiz
Otavio Campos, que declarou haver re-
cebido a balsa "em perfeita condiqao de
uso", como se fosse nova.
Por engenho & arte da composiqao
political, o caso vinha se arrastando no
STF. A audaciosa iniciativa de proper o
nome do senador para o TCU reaqueceu
o escandalo, desta vez, talvez, para levi-
lo As iltimas consequincias. Se for as-
sim, fard jus a um brocado popular em
process de desmoralizageo: a justiga
tarda, mas nao falha.


Usina de Tucurui: quase R$ 25 bilh6es


Qual o preqo atual da hi-
drel6trica de Tucuruf, a mai-
or obra pliblica da hist6ria da
Amaz6nia, que gera 8% da
energia brasileira? A Eletro-.
norte fala em 4,7 bilhoes de
d6lares, mas quando a usina
comeqou a funcionar, em
1984, o orqamento da usina
estava em 5,4 bilh6es de d6-
lares (mais de 16 bilhoes de
reals, do tamanho do PIB do
Pard), incluindo apenas osju-


ros durante a construqao. A
Comissao Mundial de Barra-
gens chegou, em 2001, a US$
7,5 bilh6es (ou R$ 21 bi-
lh6es). Mas hi quem diga que
a conta de chegada ji passou
de US$ 10 bilh6es.
Tanta discrepancia tem
uma explicaqdo, ao menos
uma delas: hi tempos a Ele-
trobris assumiu a divida de
Tucuruf, desonerando a Ele-
tronorte desse encargo, para


que as contas da sua subsidi-
aria melhorassem de cor
(sempre estiveram vermelhis-
simas). Hoje nao 6 ficil fazer
os cilculos, embutindo neles
todos os juros pagos (e ainda
a pagar). NSo s6 pela primei-
ra etapa, a mais dispendiosa,
mas tamb6m incluindo a am-
pliaqao em curso. Os investi-
mentos na duplicagao da usi-
na, que chegard a 8,5 mil me-
gawatts entire 2006 e 2007,


estdo estimados em R$ 3,7
bilh6es, dos quais R$ 2 bi-
lhoes ji foram gastos..
Desse total, R$ 330 milh6es
foram concedidos pelo BN-
DES. A Eletronortej jcomeeou
a negociar com o banco a libe-
rag o de mais R$ 870 milh6es,
em um novo financiamento.
Assim completaria a cota do
banco estatal, de um tero, para
que a pr6pria Eletronorte e a
Eletrobris fechem suas parties.


Jomal Pessoal 1-/2a QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003










Amazonia sangra:


brasileira em plena recessdo, o
desmatamento cresceu 40% na
Amaz6nia. Foi um choque geral.
Para o governor que safa, de Fernando
Henrique Cardoso, oito anos embalado
na litania do "desenvolvimento susten-
tivel", foi um puxdo de orelha. Para o
governor que comeqava, disposto a con-
tinuar essa political, foi uma dura adver-
tencia. A Amazonia voltou, na primeira
d6cada do s6culo XXI, A sanha devasta-
dora dos anos 80 do s6culo anterior. Nes-
sa fase os brasileiros ocuparam seu tris-
te lugar na hist6ria: o povo que mais des-
truiu florestas em todos os tempos.
A resposta para o aparente paradoxo
de incremento na abertura de novas are-
as de ocupaq~o econ6mica num period
de retraqao da atividade produtiva esta
no vigor do assim chamado agrobusiness.
Enquanto a inddstria e o com6rcio se re-
trafam, a agropecuaria se expandiu tanto
que se tornou a fiadora da solv6ncia cam-
bial do pafs, um dos mais sangrados no
mundo pelo custo financeiro da sua di-
vida externa (al6m da internal, que ji 6
maior, mas 6 paga em reais).
A Amaz6nia era chamada a partici-
par dessa blitzkrieg agropecuaria. O pro-
blema 6 que as areas ji exploradas da
regiao tnm baixa produtividade. A causa
principal 6 o rendimento decrescente dos
cultivos, que result do empobrecimen-
to do solo, vulnerivel pela perda da co-
bertura vegetal que o protegia das intem-
p6ries tropicais e o revitalizava de nutri-
entes que ele pr6prio ndo tem. Como re-
cuperar area degradada 6 mais caro, a
alternative imediata e mais rentivel 6
desbravar novas terras.
O brusco salto no desmatamento, ul-
trapassando novamente a marca dos 20
mil quil6metros anuais (o equivalent a
quase dois tercos do territ6rio da B61gi-
ca, o lado rico da imagin6ria Belindia,
metifora sobre a brutal concentraqao da
renda num pafs que ter a sua face de
India, adaptada e agravada em relaqio A
matriz da id6ia) foi dado pelos que estdo
correndo, qual cupins high-tech, atris de
madeira, gado e soja, pondo abaixo mag-
nificas florestas, que ainda cobriam a
parte centro-oeste do Pard.
Um novo choque foi dado nos insen-
siveis espectadores da voragem destrui-
dora nesta semana. De uma s6 vez, com
requintes de viol6ncia, oito pessoas foram
executadas em Sdo F61ix do Xingu: um
pretendente a fazendeiro e sete de seus
empregados, que tentavam se estabelecer


numa area reivindicada por outro fazen-
deiro. Todos foram vitimas de uma em-
boscada. N~o tiveram a menor condigqo
de se defender. Pareceu cena dos filmes
do faroeste americano, produzidos no s6-
culo XX por Hollywood sobre realidades
do s6culo XIX nos Estados Unidos.
Qual a relaqao entire o desmatamen-
to e essas mortes? Todas as relac6es.
Procuradas por empresarios interessa-
dos em exportar e faturar muitos d61a-
res, as terras da Amazonia voltaram a
ser intensamente disputadas (e griladas).
Alguns querem de fato produzir. Outros,
simplesmente especular. Mas todos que-
rem uma coisa em comum: colocar as
arvores abaixo. Poucas delas, as que ji
t6m lugar assegurado no mercado inter-
nacional, serdo serradas e mandadas
para o exterior. A maioria continuard a
ser queimada para adubar o solo, no qual
surgirao plants de soja e capim para o
gado (real ou ilus6rio).
Nao tenho ndmeros A mSo para com-
provar, mas meus olhos nao se lembram
de ter visto tanta madeira no porto de
Bel6m, porto que a direqgo da Compa-
nhia das Docas do Pard queria fechar por
consideri-lo falido (quando falida esti a
visdo dos nossos dirigentes, incapazes de
antever o que se ve no dia seguinte, como
agora: a madeira vindo para Bel6m e nao
indo para Vila do Conde, como prometia
a Alga Vidria). Para quem tomou seu pri-
meiro susto sobre desmatamento vendo
caminh6es emergirem do meio da mata,
no Araguaia (onde havia a maior densi-
dade de mogno do planeta, com quatro
ou cinco toras de madeira no lombo, susto
maior 6 testemunhar jangadas com duas
mil toras de mogno singrando o Xingu
ou algum dos seus afluentes.
Aos olhos desatentos, esses tristes
espeticulos podem nao parecer violen-
tos, talvez porque o inconsciente co-
letivo esti bloqueado pela noqgo de
que arvore s6 ter valor quando 6 aba-
tida e transformada em pranchas. Mas
quando ela 6 apeada da posiq~o que
a natureza a fez ocupar, depois de de-


zenas de milhares de anos, a violen-
cia ji esti consumada.
Quem pensa assim n~o 6 um "ecolou-
co", como pensam (se pensam) os "eco-
cinicos". Nem, necessariamente, um poe-
ta (antes fosse). Desde que o primeiro
naturalista andou pela Amaz6nia (toman-
do-se o fabuloso Alexandre Rodrigues
Ferreira como refernncia, felizmente na-
cional), todas as pessoas dotadas de inte-
ligencia, acuidade, bom senso e honesti-
dade aprenderam que a Amaz6nia s6 6 o
que 6, esse inesgotivel laborat6rio de vida,
por causa das suas florestas. Nem todos
os que se convenceram desse element
vital da harmonia no organismo amaz6ni-
co, ao observi-lo com mais vagar, podi-
am descrever o process que permit a
existencia de arvores de at6 50 metros
sobre solos fracos. Nao havia ferramen-
tas t6cnicas disponiveis para tanto.
Mas agora o projeto LBA, a maior
empreitada cientifica ji realizada numa
area de floresta, esti nos permitindo nao
apenas explicar por que isso acontece,
mas tamb6m revelar a grandiosidade dos
efeitos que a floresta amaz6nica provo-
ca quando absorve carbon da atmosfe-
ra e o fixa em formas sucessivas (aqdcar,
celulose e lenho) at6 former novas arvo-
res e, debaixo delas, solos que dependem
do que virao a plantar sobre suas raizes
superficiais, e nao s6 os solos, mas uma
quantidade tio grande de series vivos
como nao se pode ainda imaginar (e
muito menos acreditar).





V^\


14 l/2' QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jornal Pessoal










em seiva e sangue


Sem floresta nio haveri mais chuvas
na Amazonia. Sem chuvas, a Amazonia
voltara a ser o que era antes das transfor-
maqges mais recentes: uma extensio .ri-
da, hostile a presenga humana. Mas nao
s6 a Amaz6nia: o Centro-Oeste, 6tero
fecundo do Brasil, fonte da recordista
produq~o national de grios, cereais e
gado, deixard de ser area agricola. A hu-
manidade toda, privada do sugamento de
carbon que a floresta faz em seu estado
de climax, sera cada vez mais castigada
pelo gas carb6nico que as arvores libe-
ram quando queimam.
Alguns acham que isso nao interessa
porque nao podem reduzir essa realida-
de a cifr6es e porque pouco se lixam para
o que vira depois que desaparecerem da
Terra. Mas 6 isso o que mais interessa.
Sem sua floresta, a Amaz6nia caminha
para ser o que o Egito esteve pr6ximo de
ser, sem seu Nilo fecundo.
A brutal viol6ncia da destruiqlo da
natureza corresponde a sanguinria rela-
cao entire os homes, no que, recorrendo
a Guimaries Rosa, cabe chamar de ser-
tio. Sim, porque este 6 o verdadeiro Gran-
de Sertdo: Veredas. Quem duvida, saben-
do dessas mortes semanais, anunciadas ou
imprevistas, noticiadas ou omitidas, que
Deus, se aqui vier, que venha armado, se-
nio nio ird muito long? Nestas vastidfes
sem fronteira ou de fronteira ilegitima, a
lei, a ordem, a norma e a regulaqlo ine-
xistem. Quando existem, sao como mira-
gens e mirfades estrelares, vistas A distin-





vWi4i


cia do sertao, tio distant da cornucopia
brasilense, uma corruptela de Brasil. Um
Haiti, aqui, ou uma Calcuta. Talvez, quem
saiba, Marte-in-situ, tingida de vermelho
pelo sangue de sua gente e de amarelo
pelas fogueiras vegetais, que eram verdes.
Nao se pode, a rigor, falar do comba-
te entire Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Nao hi essa dualidade nitida, cristalina.
Exceto, talvez, no maniquefsmo. E lou-
vavel e 6 her6ica a dedicaqio missioni-
ria ao mais fraco, ao desprotegido, ao que
nio tem voz nem vez. Sera esse o moci-
nho, o bom, a que se pode justapor auto-
maticamente o mau, o bandido? Cautela
e caldo de galinha tamb6m sao recomen-
daveis a situaqao.
Como identificar essas categories na
realidade? Esses personagens, assim des-
critos, existem de fato, de came e osso?
O cenArio esta perfeitamente identifica-
do, permitindo aos militants ter certeza
de estar servindo ao sentido da hist6ria
quando se colocam do lado nobre contra
o lado ruim? Estao seguros de nio se-
guir para o inferno, com as melhores das
intenq6es, naturalmente?
No caso do massacre de Sio F6ix
do Xingu, como distribuir os pap6is do
enredo categ6rico da academia entire os
personagens da vida? Indiscutivelmen-
te houve ali violencia, a mais repugnante
e revoltante possfvel. Apenas um lado
cometeu a viol8ncia. O outro foi sua vi-
tima absolute.
O violent deve ser punido e exem-
plarmente punido para que todos sai-
bam que, ao contrario do que pensava o
deputado Delfim Neto, quando estava no
poder executive (agora ele posa de Mr.
Hide no parlamento e muitos acredi-
tam na pantomima), esta nio 6 uma terra
de bandidos, a ser "amansada" com san-
gue, pelo bandido, at6 que o mocinho se
disponha a chegar. Mas, pelo que mos-
tram as informag6es at6 agora, essa sel-
vageria do Xingu foi praticada sem o
concurso de nenhum mocinho.
Muita gente vem para a Amaz6nia
realizar seus sonhos, seus melhores e


mais generosos impulses, tornando-a sua
terra de adolIo, seu lar, sua horta, sua
uiltima morada. Mas a Amaz6nia tamb6m
6 valhacouto para muita gente. NMo 6 por
isso que se deve abolir ou sequer restrin-
gir o sagrado direito constitutional de
ir e vir livremente de todos os cidadaos
brasileiros. Mas a migraclo devia pas-
sar a ser ato de vontade, nio produto da
contingencia ou do compuls6rio. O mi-
grante 6, no Brasil, em geral, aquele que
nao conseguiu ser feliz na pr6pria terra,
aquele que foi expulso de onde estava.
A rota migrat6ria costuma ser um rosa-
rio de trag6dias. O 16cus da migrailo 6
o reduto do equivoco.
Regiio de fronteira, a Amaz6nia 6
vitima dos atos desses colonos, seja a
grande sociedade an6nima como o Jodo
da Silva. A Volkswagen, celebrizada por
montar vefculos automotores desde a
d6cada de 30 do s6culo passado, aqui
montou, pela primeira (e iltima) vez
boi. Para espalhar o gado pelos 40 mil
hectares de past, tocou fogo na mata,
provocando o maior incendio da hist6-
ria contemporanea medido por sat6lite
(o americano Skylab, em 1976). A mais
sofisticada tecnologia da informaq~o re-
gistrando a mais primitive tecnologia do
home. Marcos no tempo do homo sa-
piens que se realizam hodiernamente,
todos os dias de verao, na Amazonia,
com cada vez mais homos e ainda pou-
quissima sapiens.
A sabedoria vem retardadamente,
nio acompanha o migrant (preced&-lo
6 pura utopia) e nio o fertiliza. O co-
nhecimento cientifico, produzido roti-
neiramente com 0,2% ou 0,5% da ver-
ba national de ciencia & tecnologia, 6
insuficientemente produzido e inconsis-
tentemente difundido. Serve nio para
induzir o certo e prevenir o errado, mas
sacramentar a brutalidade e confirmar
a falta de oportunidade para a Amazo-
nia ser contemporanea da sua hist6ria.
Freqientemente serve para confundir as
coisas e obnubilar a percepqao, fazen-
do o desavisado habitante local imagi-
nar que campos de pastagem ou de soja
e madeira serrada posta no porto sao o
future da regiao e nio seu passado, pre-
viamente comprometido em troca do
que jamais vird: o progress, o verda-
deiro desenvolvimento.
Nio foi somente a floresta que desa-
bou 40% mais em 2002 do que no ano
anterior. Foi a Amazonia que acabou um
pouco mais nessa propor~ao, esvaindo-
se em seiva e sangue.


Jornal Pessoal 1a/2" QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 C


Vv










0 riozinho que atravessou


a alma escrevente de Andre


Escrevi o texto abaixo como prefdcio ao
primeiro livro escrito por Andre Costa Nu-
nes, A Batalha do Riozinho do Anfrisio (edi-
gqo do autor, 352 pdginas), langado hd duas
semanas, em Belim.
O jornalista 6 treinado a nao ter emo-
9qes e ser imparcial. Mesmo sem treinamen-
to especifico, acaba se reprimindo em be-
neficio de sua objetividade, um atavismo
que se estende da atividade professional para
a vida. Em setembro de 1984 todo esse con-
dicionamento desmoronou dentro de mim
quando vi o grande rio Tocantins estrangu-
lado por uma parede de concrete com a al-
tura de um edificio de mais de 20 andares,
a maior obra piblica da hist6ria da Amaz6-
nia, onde, no auge do serviqo, a quantidade
de concrete despejado dava para construir
um Maracana a cada semana. Corn seus
2.200 quilometros de extensao, 250 rio do
mundo, o Tocantins estava inteiramente blo-
queado pela barragem da hidrel6trica de
Tucuruf, a sexta maior do planet.
Cheguei ao local no moment exato em
que comeqava a ser formado o reservat6rio,
que viria a acumular 45 trilh6es de litros de
agua em uma area de 2.875 quil6metros qua-
drados (formando o segundo maior lago ar-
tificial do Brasil). O iltimo canal de passa-
gem de Agua de montante parajusante da bar-
ragem havia sido fechado. Pela primeira vez
o Tocantins estava deixando de seguir seu
curso natural at6 o estuirio do rio Pard, ao
largo de Bel6m, onde outros rios a ele sejun-
tam para plantar suas aguas no vasto Oceano
Atldntico. O autor dessa intervenaio brutal
na natureza era o home.
Contemplando aquela paisagem, de be-
leza e agressao, uma monumental obra do
home se sobrepondo A lenta e ainda mais
monumental obra da natureza, chorei. Den-
tro de mim falou mais alto o caboclo niasci-
do nas alvas beiradas do rio Tapaj6s, com-
panheiro mais a oeste do agredido Tocan-
tins. Vi, naquele moment, que a voz da na-
tureza fala mais forte do que a aculturacqo,
a educaqIo, a civilizaqao, o refinamento e
qualquer outro nome que se queira dar ao
nosso caminhar human pelo espaqo e o
tempo. Falou aquela voz primitive, que sem-
pre esteve dentro de mim, mesmo sem eu
saber, prolongando-se quase sem interrup-
9go do lfquido amni6tico no qual naveguei
no venture da minha mae at6 o liquid claro
e acolhedor do Tapaj6s, no qual me banhei
antes de tomar as licqes da cultural.
Contemplava entao, deslumbrado, a en-
genharia do home, express naquela mura-
lha de ferro e terra que retinha o cortejo de


iguas do Tocantins. Em seu moment de pi-
que, na cheia de 1980, essa descarga signifi-
cava um fluxo de 60 milhSes de litros de Agua
por segundo. Contemplava tamb6m aquela
agressao brutal A natureza, a um belo e ma-
ravilhoso rio, de aguas quase tao claras quan-
to o que me recebeu, mal saido do regaqo da
minha mae, rio que percorre minhas art6rias
como um element associado ao sangue que
me di vida. E percorre as art6rias de outros
tantos caboclos amaz6nicos, milhares dos
quais foram obrigados a deixar seu lugar ci-
vilizat6rio, na beira do Tocantins, para bus-
car um lugar que nao era deles na beira de
uma estrada refratiria ao seu ethos.
Estitico, deslumbrado e revoltado, cho-
rei at6 minha raiva se acalmar e eu poder re-
assumir minha condigao de jornalista, obje-
tivo e analitico, e assim visitar mais uma vez
a hidrel6trica de Tucurui.
Lembro o epis6dio porque foi a primeira
associaqao de id6ias que me veio A mente
quando comecei a ler os originals do livro
de Andr6 Nunes. Agora 6 a vez do Xingu, o
iltimo grande afluente da margem direita que
empresta suas aguas ao cicl6pico mas len-
to caminhar do Amazonas at6 sua foz, ali
pr6ximo, ap6s a mais comprida de todas as
peregrinaqces de um rio nesta Terra, desde
os elevados planaltos andinos do Peru, por
quase sete mil quilbmetros. Claro, depois do
Xingu ainda hi o Tocantins, mas hoje ji sa-
bemos que ele forma uma outra bacia, ainda
que sua distincao, ao menos no baixo curso,
nao passe de formalidade geogrdfica. O To-
cantins 6 legitimamente nosso, ao menos at6
a Eletronorte submet8-lo A cirurgia da hidre-
16trica de Tucuruf.
A mesma Eletronorte pretend construir
uma barrage ainda maior no Xingu, rio um
tantinho menor, mas de dimensao amaz6ni-
ca. Nas planilhas de viabilidade da empresa,
o que interessa sao os n6meros, as quantida-
des, a relaqao area inundada versus energia
gerada e outras semelhantes. Este livro de
Andr6 alerta aos engenheiros, se eles tive-
rem a disposiq~o ou o hibito de ler outras
coisas al6m dos seus manuais t6cnicos, que
home e natureza nao podem ser reduzidos
a essas abstraqces ditas cientificas. Ou nao
podem caber em algumas ci8ncias que po-
sam de exatas, sem passar pelo cadinho de
ci8ncias (e saberes) nao tHo pretensiosas, ina-
cabadas como os humans.
Ainda bem que o empresdrio Andr6, o pu-
blicitdrio Andr6, e outras faces mais do au-
tor deste livro, nao tenham sufocado o cabo-
clo xavantino Andr6 Nunes, integrante de
uma famflia que 6 nome de curso d'agua e


outros acidentes naturais da bacia. Quem fala
neste livro 6 a mesma voz da natureza que se
sobrep6s A minha pele urbana diante do es-
trangulamento do rio que navega por dentro
da minha alma. Fala o caboclo ora uma lin-
guagem de ficgao, ora de memorialistica. As
vezes acho que as linguagens estao trocadas
e os valores mudaram de posicao. Fico ima-
ginando se nao seria melhor ir dizendo tudo
"na vera". Sem circunl6quios e mise-en-sc&-
ne, sem esse tal de roman a clef, como se diz
em Cameti, a mais antiga cidade do Tocan-
tins paraoara, de um adorivel patois A pro-
vencal. Mas as hist6rias recontadas por An-
dr6 na passage do real para o imagindrio
sao tao boas que cheguei rapidamente ao fi-
nal do livro sem umjuizo final. E, final, que
importancia tem isso?
O que importa 6 esse registro intimo e
vivo de uma realidade, de uma hist6ria e de
um mundo que os novos senhores da Ama-
z6nia, mal desembarcados de suas naves es-
paciais, a bordo de suas caixas pretas, igno-
ram e teimam em destruir. A modernidade,
se 6 a chave da contemporaneidade, deve ser
bem-vinda. Mas nao pode receber o abre-alas
incondicional apenas por ser uma novidade.
E precise se submeter ao teste, ainda que seja
pelo ensaio-e-erro primitive, como primiti-
vo 6 o mundo que, a custo, inclusive huma-
no, possibilitou essa fantistica biodiversida-
de amaz6nica. Queremos ser o divers, o
variado, o pluralista. Tao distintos somos e
tao unos acabamos sendo, vivendo sob essa
redoma tecida pela natureza com base nos
grandes elements: a agua, o sol, a mata.
E esse element de unidade, essa ener-
gia unica, que faz um caboclo do Tapaj6s
chorar diante da sorte do Tocantins, como
se fossem a mesma agua, ainda que os ge6-
grafos lecionem sobre as bacias comparti-
mentadas. Nao acabem, senhores donos da
tecnologia de ponta, com os elements vi-
tais deste bioma inico da Terra. Do contra-
rio, acabarao conosco. Nao pretendemos
morrer sem reagir. A vida 6 bela e comple-
xa, como nos mostra Andr6 Nunes neste li-
vro de livre reminiscencia da vida no Xin-
gu de nossos antepassados Kayap6s, que,
para nossa felicidade, ainda vivem, viven-
do o desafio de sobreviver e se afirmar num
mundo que toma a Amaz6nia como lema,
sem lhe vestir a camisa.
De volta A sua taba, Andr6 vestiu sua
identidade e nos deu a alegria de ler seu
livro e prefacia-lo com este texto, cuja
dnica razao de existir 6 anunciar, sem pom-
pa e sem circunstancia: entrem e leiam.
Nao se arrependerao.


1'/2A QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Journal Pessoal









Foi-se o general Humberto,



um heroi paraense esquecido


A noticia nao saiu nos jornais e nao
foi comentada por ningu6m, por isso
merece ser registrada, ainda que tarde:
morreu, aos 90 anos, em Vit6ria, no dia
26 de janeiro deste ano, o general pa-
raense Humberto Vasconcelos. Ele vi-
veu os tiltimos 40 anos no Espirito San-
to, ao lado da esposa, a goiana Maria
de Lourdes Calmon Vasconcelos, ago-
ra com 83 anos, num casamento de 67
anos. A vidva ainda mora numa modes-
ta casa de um modesto bairro na cida-
de de Vila Velha, na regido metropoli-
tana de Vit6ria, tnico patrim6nio dei-
xado pelo marido, juntamente com um
carro velho na garagem.
Durante algum tempo o military foi
tratado como her6i por causa de um
epis6dio que protagonizou, em 1934.
Humberto Vasconcelos perdeu a mao
numa instrucao de granada que dava a
recrutas. Ele deveria utilizar uma gra-
nada descarregada, mas Ihe enviaram,
por equivoco, uma granada carregada.
Na hora em que o entdo capitdo puxou
o trinco, a bomba iniciou o seu proces-
so de detonaqgo. Humberto correu para
langi-la no patio. Quando chegou Aja-
nela, viu que embaixo se encontravam
dois pelot6es de soldados. Desespera-
do, voltou-se para os alunos e ordenou
que todos se jogassem ao chdo. Voltou
Sjanela e colocou a mao esquerda para
fora, segurando a granada. Ajoelhou-
se atris da parede. A granada explodiu
e levou a sua mao esquerda. Nao atin-
giu mais ningu6m.
Por causa desse seu gesto de cora-
gem, o Ex6rcito o manteve na ativa at6 o
posto de coronel. Gettilio Vargas, no po-


der como ditador, fez um decreto autori-
zando o general a prosseguir na carreira
military, mesmo sendo mutilado. Ele che-
gou ao posto de tenente-coronel na ativa
e reformou-se como general de brigada.
No Espirito Santo era sempre lembrado
por esse incident e saudado como gran-
de her6i. Depois arriscou uma candidatu-
ra a deputado e nao passou de suplente.
Mas os paraen-
ses o conhecem por
haver assassinado o Por algul
jornalista Paulo
Eleutdrio Filho na o military
sede do journal O Li-
tratado c
beral, que era o 6r- taa
gao official do PSD, her6i por
o ji extinto Partido
Social Democriti- de um e|
co, do caudilho Ma-
galhaes Barata. O que prot
capitao Vasconce- 934
los era entao aju- em 1934
dante de ordem do
general Alexandre
Zacharias de Assumpgao, que se elege-
ra governador em 1950, impondo uma
hist6rica derrota ao pr6prio Barata.
Sentindo-se ofendido por um artigo
publicado em O Liberal, sem assinatu-
ra, foi armado A redacgo para tomar sa-
tisfaqo com o autor do texto. Mas o
entao deputado estadual Jodo Camar-
go, que tamb6m era gerente do journal,
conseguiu demov6-lo na conversa. No
mesmo dia, comentando o epis6dio, o
parlamentar comentou que ficara bem
impressionado com o military, que ima-
ginara ser uma pessoa desqualificada
mas era um "p6-de-arroz".


Anos depois, ao recorder os fatos
em entrevista ao jornalista Carlos Ro-
cque, o deputado baratista disse que
usara a expressao pensando nos tor-
cedores do Fluminense, do Rio de Ja-
neiro, que eram chamados de "p6-de-
arroz" por serem da elite. A Vascon-
celos, por6m, chegou, atrav6s de ter-
ceiros, uma interpretaqCo completa-


m tempo
foi
:omo
causa o
rausa

is6dio
agonizou
m^i


mente oposta, que
questionava sua
masculinidade. No
dia seguinte o capi-
tao voltou armado
a 0 Liberal para
matar o suposto
ofensor (que aca-
bara de entrar, mas,
ao inv6s de subir
para a redacqo se-
guiu ate a oficina),
encontrou o jorna-
lista Paulo Eleut6-
rio Filho, seu desa-
feto desde os tem-


pos em que moraram no Amapi, e se
desentenderam.
Eleut6rio puxou o revolver que car-
regava e atirou virias vezes em Vas-
concelos, sem conseguir acerti-lo. Ten-
tou fugir. Devia ter said para a rua,
mas acabou rumando para a oficina do
journal, onde, acuado, foi morto. O ca-
pitao foi julgado e absolvido A unani-
midade pelo Tribunal de Justiga do
Estado. Mas desistiu de continuar no
Pard, exilando-se em terras capixabas,
onde morreu, ja no anonimato. Seu lu-
gar na hist6ria, por6m, ji estava garan-
tido quando ele se foi de vez.


S Aniversario Perdao

Por capricho dos fados, a present edigdo, que assinala os A edicao anterior do Jornal Pes-
16 anos deste journal, demorou tanto a sair que precisou abran- soal saiu com mais errors do que o nor-
ger a primeira e a segunda quinzena de setembro. Processos, mal ou tolerdvel. Mais uma vez por cul-
outras tarefas, o leite das crianras, palestras, viagens e quetais pa de um fechamento precario, sem a
me desviaram da cada vez mais desgastante tarefa de lan- revisao final, lacuna que costuma ser
gar a ediqao 308, que comeqa a contagem dos 17 anos. Se che- fatal quando ha desatenqao e press ex-
garei a tanto, nao sei. Haver chegado at6 aqui ji foi muito diff- cessivas na chamada horaa h". Espero
cil. Por isso mesmo, divide com meus fi6is e pacientes leitores que a vergonha de constatar a infiltra-
Sa ventura e o prazer de mais esse aniversario. Parab6ns ao Jor- 9o dasgralhasjd com ojoralimpres-
nal Pessoal e, se for o caso, aos seus leitores. Para comemorar, so previna a repeti9ao dos errors. Mais
uma ediq o mais light, digamos assim. uma vez, perdDo, leitores.



Jomal Pessoal 1-/2' QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 7
































S antarem foi palco da avant--
premiere de um terror que se
abateria sobre o Brasil a par-
tir de 13 de dezembro de 1968,
quando foi editado o AI-5, tor-
nando escancarada a ditadura
military, como diz o titulo do segundo
volume da tetralogia do jornalista Elio
Gispari sobre o period mais negro da
repdblica (por ironia, tendo como base
principal os arquivos de um dos arquite-
tos desse regime de excecgo, o general
Golbery do Couto e Silva).
Santar6m nao teve consci8ncia do
duvidoso privil6gio que Ihe coube, de ser
laborat6rio politico, no moment em que
isso se consumou, em 20 de setembro de
1968, nem se lembra dele agora, passa-
dos 35 anos do acontecimento. Guarda-
das as proporq6es, se poderia fazer al-
gum paralelismo cor Guernica, o teste
de bombardeio a6reo que os nazistas fi-
zeram, na Espanha, preparando a guerra
seguinte que empreenderiam, na busca
do Reich dos mil anos. Santar6m, naquele
fim de tarde de uma sexta-feira de muito
calor e sol, tamb6m era um campo de
guerra. Foi quase, como na Espanha de
Franco, a las cinco em punto de la tarde.
Em frente A antiga sede da prefeitura
municipal, voltado para o belo encontro
das aguas verdes do Tapaj6s corn o bar-
ro em suspensdo do Amazonas, 150 ho-
mens da Policia Militar fortemente em-
balados, sob o comando do truculento
tenente Lauro Viana. A caminho dali,
mais de tres mil pessoas caminhavam
atras de um porta-estandarte, que empu-
nhava a bandeira national, repetindo vi-
vas ao "barra limpa" (expressao que Ro-
berto Carlos consagrara) e frases como
"o povo unido jamais sera vencido".
O "barra limpa" era o prefeito Elias
Pinto, autor de uma vit6ria hist6rica (com
65% dos votos vilidos) sobre seu gran-
de opositor, Ubaldo Correa. Filho de
migrants nordestinos, de origem pobre,


Elias fizera uma carreira vertiginosa des-
de que fora, aos 21 anos, com curso pri-
mario incomplete, secretario do prefeito
Adherbal Caetano Correa, o "seu" Babi,
primo de Ubaldo mas seu adversario po-
litico. O jovem era um autentico factd-
tum na administragao municipal e subs-
titufa o prefeito, muito timido, na hora
dos discursos (ficou conhecido como "o
papagaio do prefeito"). Ja como primei-
ro locutor esportivo de Santar6m, mos-
trara que falar era com ele mesmo. Pren-
dia a atengao dos ouvintes, os impressi-
onava e convencia.
Seu mais ilustre interlocutor nessa
6poca fora o president Getdlio Vargas.
Na campanha para se eleger president
pelo voto direto, Getdlio passou por San-
tar6m, em 1950. Prometeu apoiar a ins-
talagdo de uma fibrica para beneficiary a
juta, fibra que os imigrantes japoneses
haviam introduzido na regiao. Empossa-
do, recebeu pedido de audiencia do jo-
vem politico santareno, que o ouvira
embevecido. Elias cobrou o compromis-
so no gabinete presidential, no Palacio
do Catete, o pioneiro Kotaro Tuji ao lado.
Getilio se impressionou e aprovou o fi-
nanciamento do Banco do Brasil para a
importagao da fiagio e tecelagem da In-
glaterra. A Tecejuta seria a maior empre-
sa de toda a region.
Falando bem e prometendo muito,
al6m de trabalhar com firia, Elias Pinto
se elegeu deputado estadual por Santa-
r6m para a legislature 1955-59, o sexto
mais votado no Estado. Findo o manda-
to, Magalhdes Barata, do partido contra-
rio ao PTB, o PSD, nomeou Elias, um
dissidente trabalhista que o apoiava, para
a comissao de planejamento da SPVEA,
a antecessora da Sudam. Mas o irrequie-
to politico nio esquentou a cadeira por
muito tempo. Em 1958 (licenciado da
Assembl6ia Legislativa) ji havia dispu-
tado pela primeira vez a prefeitura de
Santar6m e perdeu, Tentou de novo qua-


f1ra / mo r



I I C 1 I d i II


1 /24 QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jomal Pessoal


tro anos depois. Nova derrota. Sustenta-
va ele, e com ele muita gente, que ga-
nhou na votacqo e perdeu na apuraq-o,
vitima de duas das mais fortes institui-
96es eleitorais paraenses: o emprenha-
mento de votos e o mapismo.
A elite santarena nao queria ser co-
mandada por um filho de "arig6s", os
estigmatizados retirantes nordestinos,
especialmente cearenses, que se confi-
naram no planalto, produzindo comida
para a cidade, li embaixo, ainda orgu-
Ihosa do seu baronato portugu8s. Como
nao tinha esses dons campestres, Elias
se especializou nos oficios urbanos: al6m
de locutor de radio, foi fot6grafo, pro-
fessor de ingl8s e co-proprietdrio (e prin-
cipal redator) do journal "O Baixo-Ama-
zonas". Mas nao vivia s6 para as profis-
soes. Desde cedo se ligou as causes pd-
blicas, comecando por presidir, muito
mogo, a Congregaco Mariana, o braqo
militant da Igreja, "xod6" do bispo ale-
mro. Era "arig6", mas falava bern, pen-
sava ripido e era audacioso nas iniciati-
vas, al6m de visionario.
Para ganhar as eleiq6es de 1966, con-
tra o todo-poderoso Ubaldo Correa, mar-
telou na image do "barra limpa", de um
politico igual ao cidaddo comum, alegre
e comunicativo, e no slogan do "tostdo
contra o milhao", que transformava sua
fraqueza financeira numa catapulta poli-
tica. Se nas outras vezes a fraude deci-
diu, desta vez ela nao esteve present ou
nao foi suficiente para anular a enxurra-
da de votos em favor do candidate da
oposiCgo. Elias ganhou a segunda mais
important prefeitura do Pard. Foi um dos
dois 6nicos prefeitos do MDB no Estado
(o outro foi o de Santa Izabel, de expres-
sdo muito inferior) e no Brasil. O MDB
foi a oposiqCo consentida pelo regime
military, que, no ano anterior, dissolveu o
sistema anterior e instituiu o bipartida-
rismo no Brasil.
Mas Elias s6 p6de administrar seu
municipio por oito meses. O coronel
Alacid Nunes, que governava o Pard
cor mdo de ferro, como quase todos os
sitrapas colocados no poder pela Are-
na (principalmente os recrutados dire-
tamente na caserna, sem uma carreira
political a sustentagqo partidaria da di-
tadura, nao admitia ter opositor e as-
sim tdo important. De pdblico, agia
como um democrat: aceitou a audien-
cia que o prefeito do MDB antecessorr
do PMDB) Ihe pediu tao logo assumiu;
ouviu seus plans; e parecia acatar uma
convivencia pacifica entire contrarios.
Mas era s6 aparencia.
Elias tivera uma vit6ria pessoal con-
sagradora, mas s6 elegera dois dos nove
vereadores da Camara Municipal de
Santar6m. A Arena dispunha de maio-
ria absolute. Desde o inicio os vereado-








res arenistas perseguiram o prefeito, que
nao reagiu como devia. Ca6tico e vo-
luntarista, Elias Pinto foi deixando al-
guns erros pelo caminho. Era o que Ala-
cid, Ubaldo e a maioria parlamentar
queriam. Logo iniciaram um process
para afasti-lo, por improbidade admi-
nistrativa, e cassi-lo, o que acabou sen-
do consumado em novembro de 1967,
oito meses depois da posse.
Os motives? Ant6nio Pereira, profes-
sor e lider dos vereadores da Arena, ex-
plicou, anos depois, em entrevista dada
a pesquisadora Maria de Nazar6 Camar-
go, autora do finico trabalho academico
dedicado ao tema ("Elias Pinto: da aqdo
a reaqio", monografia de conclusdo da
graduaq o em hist6ria pela UFPA, apre-
sentada em 1994): "Elias Pinto fez um
empr6stimo no Banco Moreira Gomes
sem a aprovaqCo do Poder Legislativo;
al6m do mais, usou indevidamente o di-
nheiro destinado ao pagamento do fun-
cionalismo para amortizar as prestaOes
do referido Banco. A Camara tinha que
tomar uma attitude, pois ele estava agin-
do ilegalmente", declarou Pereira.
O ato caracterizava uma irregularida-
de administrative, mas nio um dolo. Po-
dia ser sanado. Ainda que nao fosse pas-
sivel de correg~o, havia puniq~o regular.
O Tribunal de Contas do Estado iniciou
procedimento apurat6rio, que nao che-
gou a ser concluido porque os vereado-
res nao estavam interessados em filigra-
nas administrativas e fundamentaq~o le-
gal e se anteciparam a tudo. O ato era
politico e o objetivo era claro: eliminar
um important personagem oposicionis-
ta e, cor ele, uma alternative de poder.
Na v6spera do fatidico 20 de setem-
bro, o governador Alacid Nunes esteve
em Santar6m. Chamou todos os que po-
dia chamar e gritou cor todos corn os
quais podia (embora nao devesse) gritar,
como era de seu estilo: Elias Pinto nao
podia reassumir a prefeitura, mesmo ten-
do em mdos um mandado judicial, con-
cedido pelo juiz de Obidos (a comarca
de Santar6m estava eventualmente mas
nao incomumente ac6fala); se tentasse
valer-se da ordem judicial, teria que ser
preso; se resistisse A prisio, morto. Sem
saber, Alacid estava imitando a posiqgo
assumida por Carlos Lacerda quando
Getdlio Vargas derrotou a golpista UDN
e voltou a presidencia da Repdblica.
Em outra circunstancia, conciliador
como era, talvez Elias Pinto tivesse re-
cuado. Mas ele tinha o apoio do deputa-
do federal (e da Arena) Haroldo Veloso,
brigadeiro da reserve da Aeronautica.
Veloso se celebrizara pelos atos de re-
volta que comandou em Jacareacanga, ali
perto, e em Aragarcas, mais long, con-
tra o president Juscelino Kubitscheck.
Pensava pelos caminhos da direita, mas


acreditava no que pensava e cumpria o
que dizia. Era um lider na sua corpora-
cqo e um her6i entire os habitantes do
Baixo-Amazonas, que com ele convive-
ram desde que abriu o campo de pouso
de Cachimbo, que serviria de alternative
para os voos entire Brasflia e Manaus.
Veloso foi direto e firme na metodologia
da construqio: jogou seu avido numa cla-
reira e destruiu-o todo, mas conseguiu
pousar. No dia seguinte pegou no macha-
do e comecou a abrir a pista.
Veloso havia assumido publicamen-
te a defesa do prefeito do outro partido.
Discursou em Santar6m para dizer que
se tratava de um golpe politico, para o
qual os motives alegados nao passavam
de pretexto. Quando Elias Pinto chegou
cor o mandado de seguranqa para vol-
tar a ocupar a prefeitura, Veloso disse
que iria a frente. E estava realmente na
testa da passeata quando os manifestan-
tes chegaram ao alcance dos fuzis dos
policiais militares. Cumprindo ordens
que lhe haviam sido transmitidas pouco
antes, pelas fonias do DER e da Celpa,
o tenente Lauro Viana mandou atirar.
Dois dos manifestantes morreram no
local (um terceiro ferido faleceria no
hospital, no dia seguinte).
Haroldo Veloso, tamb6m ba-
leado, estava caido no chao
quando um PM se aproxi-
mou dele e enfiou a bai- '
oneta do seu fuzil a al-
tura da virilha do mi-
litar indefeso. Vi-
rou-se para o tenen-
te e gritou: "servi-
9o feito".
O "serviqo" es-
tava realmente fei-
to. Elias Pinto con-
seguiu escapar e
entrar num hospital
is proximidades da
prefeitura. Os poli-
ciais, que o queri-
am prender, foram
mantidos do lado de
fora pelo decidido
m6dico Waldemar
Penna, director da Casa
de Sadde Sdo Sebastilo.
No dia seguinte, o fu-
turo brigadeiro Pau-
lo Vitor chegou a
Santar6m com
tropa da Aero-
niutica e
resgatou
Elias,


que se esconderia em Bel6m (na residen-
cia do deputado La6rcio Barbalho, pai do
future governador Jader Barbalho), pro-
tegendo-se da ordem de prisdo do gover-
nador, enquanto Veloso seguiria para tra-
tamento no Rio de Janeiro, sem nunca
conseguir recuperar a satide, morrendo
menos de dois anos depois.
Elias tamb6m tentaria voltar A politi-
ca, mas seu grande reduto Ihe fora inter-
ditado. Santar6m foi declarada area de
seguranqa national, perdendo o direito
de eleger seu prefeito. Elias foi cassado
duas vezes, fato talvez in6dito nesse ci-
clo de repressdo: na primeira, foi-se o
mandate; em seguida, os direitos politi-
cos. A cidade, que tentara realizar um ato
her6ico naquele dia 20 de setembro, se
assustara com a selvageria da rea~qo, que
se seguiria nos atos cirirgicos de castra-
qco da dimensdo political de todo um
povo. Ato tdo profundo que at6 hoje
mant6m em branco essa her6ica pigina
da hist6ria de uma region que ji se des-
tacou, no passado, por sua independ&n-
cia e autoconfianca. Desde entio, Santa-
r6m ainda anda a cata de sua identidade.

PS Para quem n~o sabe: Elias Pinto 6
meu pai.


Jornal Pessoal 1/2" QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Q








Banco
Em 31 de janeiro o Banco de
Cr6dito da Amaz6nia (o atual
Basa, na 6poca BCA) langou a
pedra fundamental do seu ediff-
cio-sede. Ele ficaria num terreno
da avenida Presidente Vargas com
a rua Aristides Lobo, contiguo ao
edificio Bern. Teria 14 andares,
todo com ar condicionado, no t6r-
reo a agencia Bel6m, em cima,
audit6rio e restaurant. O terreno
foi doado pela prefeitura. O Esta-
do isentou o banco do imposto de
transmissao do im6vel.
Mas a sede, construida alguns
anos depois, acabaria ficando tres
quadras al6m, do outro lado da
avenida, com mais tr8s andares. O
terreno continue sem uso, mas foi
murado depois da briga entire o
Basa e a prefeitura pela drea. O
edificio Bern esti abandonado.

Carnaval
A Radio Clube do ParA pro-
movia, a prefeitura oficializava e
algumas firmas particulares patro-
cinavam e assim se realizava "o
maior e mais movimentado carna-
val de rua de Bel6m". A progra-
magao incluia sete batalhas de
confetes. A primeira, em 1957, foi
na rua Carlos Gomes esquina com
a Bailique, onde pontificava o Bar
Universal, do popular "Biriba".
Serguiam-se outras batalhas de
samba em frente ao posto policial
do Jurunas, na praga Brasil, em
Icoaraci, naTito Franco (Almiran-
te Barroso) esquina com a Vileta,
na Joao Alfredo com a Padre Eu-
tiquio e, na segunda-feira gorda,
na praga da Repdblica, cor a elei-
qAo do campedo do carnaval.
Naquele ano o carnaval da
PRC-5 foi inaugurado com a apre-
sentagdo da orquestra "Os Copa-
cabanas" no audit6rio da emisso-
ra, na Aldeia do RAdio, no Juru-
nas, "com a colaboragAo de todos
os elements do cast" local.

Comicio
O advogado ClIo Bernardo e
ojornalista Geraldo Palmeira lan-
garam suas candidaturas (de sena-
dor e suplente) contra o baratis-
mo dominant. Centenas de pes-
soas, apesar da chuva, foram ao
Largo de Santa Luzia (onde ainda
sobrevive, moribunda, uma feira
de fim-de-semana) para ouvir os
oradores, que se comprimiam num
palanque improvisado sobre uma
bol6ia de caminhlo.
O primeiro a falar foi o jorna-
lista Jayme Barcessat. O segundo
foi o telegrafista e udenista Ola-
vo Rocha. A seguir, Jos6 Bezerra,
lider dos estivadores. E depois
dele, o deputado Lopo de Castro,
que viria a ser prefeito de Bel6m,


0 Para em 1957
Pela primeira vez nesta seqdo decidi tratar de um gnico ano, regis-
trandofatos que caracterizavam sua vida de diversas maneiras. Alea-
toriamente, me lancei sobre 1957, quando o baratismo vivia sua ilti-
ma onda de dominaFao political e a Amazonia estava preste a sair do
isolamento national de tres seculos e meio.


e Jos6 Maria Platilha, do peque-
no PTN. Dos candidates, o pri-
meiro orador foi o irrequieto Ge-
raldo Palmeira, entlo primeiro
suplente de deputado estadual,
dissidente do PTB. JA eram 10 e
meia da noite quando Cl6o Ber-
nardo falou para encerrar o comi-
cio. Entre outras coisas, pediu
para a Igreja condenar o jogo do
bicho e assim cumprir sua respon-
sabilidade para com "a seguranqa
moral da sociedade cristd".
Ojogo do bicho constituia uma
das fontes de renda do baratismo.

Contrabando
Numa s6 missIo, a Alfandega
apreendeu, no barco "Mensagei-
ro", procedente de Paramaribo,
800 caixas de uisque. Contraban-
deava-se muito no ParA na 6poca.
Bebia-se um tanto. Talvez o con-
sumo "per capital" do liquido es-
coces fosse o maior do pais.
Uma vez efetuada a apreen-
sAo e para legaliza-la, fazendo
parte da "mise-en-sc6ne", a Al-
fandega publicava nos jornais
editais de intimaq~o (como se o
contrabandista fosse aparecer).
Um deles:
"De ordem do sr, Inspetor da
Alfindega de Bel6m, intimo o
dono ou donos de 29 caixas con-
tendo garrafas com ufsque, re-
centemente apreendidas nesta
capital, conforme process n
326/57, a apresentar nesta Al-
fandega, sob pena de revelia, no
prazo de tres (3) dias, defesa a
bem de seu direito, relativamen-
te A mencionada apreensao".


Navegagao
Algumas das empresas de na-
vegacgo em operag~o na region
nessa 6poca:
Navegaqao de Joaquim Fon-
seca & Companhia. Navio/Motor
Rio Amazonas: "Este rapido e
confortavel navio motor saira para
Porto Velho no dia 22 de janeiro,
escalando nos seguintes portos:
Santar6m, Parintins, Itacoatiara e
Manaus, recebendo carga e pas-
sageiros de primeira classes A
firma funcionava na avenida Cas-
tilos Franca, 74, com "automAti-
co" (o nome pomposo do telefone
de entdo) 1707.
Navegaqao da Companhia
Nip6nica de Plantaq~o do Brasil.
N/M Antonina, que ia para Vit6-
ria, no Espirito Santo, escalando
em Jararaca, Araticu, Recreio de
Piria, Breves, Corcovado, Ant6nio
lemos, Gurupa, Porto de Moz "e
demais portos intermediarios onde
houver cargas e passageiros". A
sede da empres ficava na rua Dr.
Malcher, 53, na Cidade Velha.
Empresa de Navegaq~o
Aquidaban. Navio a 6leo Aquida-
ban: "Este excelente navcio saira
para Manaus, em sua viagem men-
sal, no dia 12 do corrente, As 20
horas, escalando nos portos de
Breves, Santar6m, Alenquer, Ibi-
dos, Oriximina, Parintins, Mau6s,
Urucurituba, Urucara, Itapiranga
e Itacoatiara, recebendo cargas e
passageiros de primeira classes A
Aquidaban se distribuia em dois
pr6dios na rua Gaspar Viana, que
era a rua da inddstria e da estiva
por excelencia, no centro.


Farmacia
Por haver encerrado suas ati-
vidades, a traditional Farmacia
Canelas, estabelecida A avenida
President Cargas, 212, leiloou
.seus medicamentos, m6veis e
utensilios, dentre os quais Joao
Neves, da Ag8ncia Neves ("a pre-
ferida"), apregoou: produtos inje-
taveis nacionais e estrangeiros,
sais para manipulaqgo farmaceu-
tica e para laborat6rios clinics,
grande quantidade de quinino,
plants nacionais e estrangeiras,
essencias diversas de virias pro-
ced8ncias, estratos fluidos, moles
e secos, seqao complete de mani-
pulacIo, boi6es para maceraqdo,
corpo de armag~o envidraqado,
armArios com pedra de marmore,
balanqa de precisao, filtro ingles
para Agua destilada, vidros mace-
rados, prensa de ferro e balcbes.

Carrogas
Bel6m tinha tantas carroqas
nas ruas que esse foi um dos te-
mas das reunites do Conselho
Regional de Trinsito, presidido
pelo controversy coronel de
contrastante nome po6tico Ma-
ravalho Narciso Bello, delegado
estadual do trinsito. Como as car-
roqas atravancavam o trafego de
6nibus, caminh6es e outras viatu-
ras, o coronel pretendia proibir
que carroqas trafegassem por onde
transitassem carros motorizados.
Nessa 6poca, alias, possufam
seus terminals no Ver-o-Peso as
linhas dos onibus Circular Inter-
no, Santa Isabel-Castelo, Canudos
e Cemit6rio. Chegavam ao Ver-o-
Peso pela Castilhos Franga as li-
nhas Circular Externo, Padre Eu-
tiquio-Conceigio, Condor, Tel6-
grafo Sem Fio, Sacramenta, Lo-
mas, Mauriti, Pedreira, Ponte do
Galo, Itoror6, Batista Campos,
Tamoios, Jurunas, Arsenal, Mare-
chal Hermes e Icoaraci.
Nunca foi por falta de linhas
que o serviqo de 6nibus nAo fun-
ciona. Muito pelo contrArio.


Programacao domingueira de janeiro da Radio Clube, que comecava as 8 da manhl e terminava as 23,55,
e quando ainda no havia televisao (e muito menos o Fantistico, o x6 da vida): Abertura com o locutor
Vicente Santos Amanheqa Cantando Matinal PRC-5 No Reinado de Momo Sucessos Carnavalescos
- Bazar de Ritmos Clube do Guri Audit6rio com Mario Barradas ("ao vivo" da Aldeia do Radio, no
Jurunas, a nossa Radio Nacional do Rio de Janeiro) A Hora do Garoto Sabido Audit6rio Infantil -
Coquetel Dominical Produqgo de Sandra Suely (locutor: Joio Drummond) A Voz da Profecia (Programa
Evang6lico) A Voz Secundarista (Programa da UECSP) Sucessos Carnavalescos Hora Certa (locutor:
Adelino Lelis) Cr6nica Social (de Edgard Proenca) A Hora Prebisteriana (Programa Evang6lico) A
Hora Certa Carnet Social (Acontecimentos Sociais) Jornada Esportiva Gillette (com Edyr Proenqa e sua
equipe especializada) Angelus (Prece da Ave Maria) Jantar Musicado no Salio Tudo Bem Com Carbo-
leno (locutor: Alvaro Siqueira) Festivais Classic Ritmos Carnavalescos A Voz de Portugal (Programa
escrito por Zenio, apresnetacgo de Zenio e Ardina) Isto 6 Jazz (Programa escrito por Aldo Fernando) -
Resenha Dominical de Ultimas do Esporte (cor Edyr Proenga e Edgar Delgado) A Opera Voltou a Bel6m
(Apresentagio de Lucia di Lammemoor, encerrando a temporada de 6pera da emissora) Boa noite, ouvinte.
E hoje?


IA/2O QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003 Jomal Pessoal


10









As eclusas do rio Tocantins


e a cobertura do governador


Instalado no 21 andar de um pr6dio
de luxo em Nazar6, o ex-governador Al-
mir Gabriel costuma levar seus interlo-
cutores a um ponto do apartamento que
da visdo para aquela que consider uma
das principals obras dos seus oito anos
de mandate: a ponte da Alca'Vidria so-
bre o rio Guami, cor seus dois quil6-
metros de extensdo. E, de fato, uma bela
realizaqao da engenharia. Mesmo possi-
bilitando que se vi e volte a Barcarena,
por exemplo, sem descer do carro e sem
recorrer a balsa, muita gente voltou a fa-
zer o percurso pelo caminho anterior.
A estrada que liga Bel6m a ponte esti
pr6xima da intrafegabilidade, menos de
um ano depois de inaugurada. Nao s6
isso, por6m. A pernada sai mais cara e
nem sempre tdo mais rdpida. Como se
previa, as outras pontes, menores e me-
nos exuberantes, estao sendo muito mais
utilizadas do que a do Guami, cuja ser-
ventia principal 6 para os carros de pas-
seio, enquanto as demais sdo procuradas
pelos veiculos de transport. Quando ser-
ve ao transport de carga geral, ela vem
para Bel6m e nao para Vila do Conde.
Nada a critical se o Pard fosse rico.
Mas os 180 milh6es de reais. aplicados
na Alga Vidria, para dar conforto e ra-
pidez para quem circula entire a capital
e o distrito industrial de Barcena (fazen-
do um percurso que 6 mais do que o
dobro da distancia em linha reta entire
os dois pontos), estao faltando numa
obra iniimeras vezes mais important: a
transposicqo do rio Tocantins. Para atra-
ir os tecnoburocratas de Brasilia, o go-
vernador Simao Jatene se disp6s a en-
trar com metade do dinheiro necessdrio
para concluir as eclusas.
Num orcamento de 360 milh6es de
reals, a metade equivale exatamente ao
que foi gasto na tal da Alga. Se o atual
governador tem de onde tirar esses R$
180 milh6es e seu antecessor (e tamb6m
correligionario tucano) tivesse preferido
as eclusas A Alga, Simao Jatene poderia
inaugurar, ainda neste mandate, o siste-
ma de transposicgo do Tocantins sem
defender dos humores de Brasilia. E usar
essa obra como um fator de cdntribuicao
para um possivel segundo mandate.
Nao precisaria defender da incerta
solidariedade federal nem andar atrds da
mais do que improvdvel adesdo da Com-
panhia Vale do Rio Doce A empreitada.
Ao contrario do que sugeriu o deputado
federal Jader Barbalho, a possibilidade


de incorporaqo da CVRD As eclusas 6
remota. Nao por uma idiossincrasia qual-
quer da empresa, mas porque a obra nao
atende aos seus interesses. Por que a Vale
iria participar da criaqdo de uma via de
transport, a hidrovia, que ird concorrer
diretamente com aquela que jd possui
para os mesmos fins, a ferrovia de Cara-
jds (e por que, a prop6sito, se juntaria A
construcqo de 40 mil casas, como lhe
prop6e o governor estadual)?
Duas hip6teses poderiam responder
afirmativamente a essa divida. A primei-
ra seria a entrega do sistema de transpo-
sigdo ao control exclusive da CVRD,
que cobraria pela prestacqo do serviqo,
al6m de receber alguma forma de subsf-
dio piblico pela fraca oferta de carga a
transportar que a principio haveria. Em
segundo lugar, se a viabilizacqo das eclu-
sas fosse associada a um grande projeto
econ6mico, que provocaria um incremen-
to acentuado na movimentagqo de carga,
podendo chegar a 30 milh6es de tonela-
das anuais nas duas direc6es do rio.
O control da transposicgo de um rio,
como a que se fard na barrage de Tu-
curuf, vencendo o desnivel de 70 metros
por ela criada, 6 uma tarefa govemamen-
tal. Ao contrario da maioria das grandes
obras executadas na Amaz6nia nas ilti-
mas d6cadas (e previstas para os pr6xi-
mos anos), as eclusas de Tucuruf, asso-
ciadas A hidrovia Aragauia-Tocantins,
nao poderd ser apenas uma via de escoa-
mento de riquezas naturais da Amaz6nia
para o exterior, que tem consagrado re-
laq6es de troca desfavordveis A regiao (e,
por conseqiiUncia, seu atraso relative e
sua condiqao colonial). Terd que servir a
uma political de desenvolvimento regio-
nal, voltada para dentro.
Num moment em que falta energia
ao Pard, Estado que tem a sexta maior
produqgo energ6tica national e 6 o ter-
ceiro que mais export energia para fora
de suas divisas, as eclusas podem ser o
elo entire fontes alternatives de energia e
o sonho de implantar, na regiao de Ma-
rabd, um p61o de beneficiamento dos re-
cursos minerals de Carajds. O ge6logo
Breno Augusto dos Santos, que 6 consi-
derado o descobridor das jazidas de mi-
n6rio de ferro, aposta na possibilidade de
descoberta de gas no Tapaj6s. Com base
num estudo a que teve acesso, acredita
que essa hip6tese significaria um inves-
timento de R$ 30 milh6es. E uma quan-
tia m6dica, mesmo se o lance resultar


frustrante. Mas ele e outros ge6logos
apostam no potential de gas do Tapaj6s.
Se essa aposta vingar, gas paraense
poderia ser o combustivel para aciaria
com reduqao direta, dispensando o pro-
cesso mais oneroso e desgastante que
vem sendo seguido atualmente. Mas para
chegar em condig6es econ6micas A re-
giao de MarabA, o gas precisard contar
com o sistema de transposigao da barra-
gem de Tucuruf. O gas, naturalmente,
representard a primeira e decisive deman-
da para as eclusas. Mas outras se segui-
rho. O problema 6 comecar, comeqando
de uma forma racional, consistent.
Auto-sustentdvel, como se diz agora para
definir essas situaq6es (e quase todas).
A comiss~o mista de orgamento do
Congress Nacional jd aprovou a retoma-
da das obras das no Tocantins, reservan-
do-lhes R$ 62 milh6es no orgamento geral
da Uniao deste ano, depois que o Tribunal
de Contas da Uniao concordou em sustar a
paralisacgo do empreendimento, que ha-
via determinado em funqio de irregulari-
dades detectadas na execuqao dos serviqos.
Mas Brasilia terd mudado realmente de
posiqao e passado a considerar as eclusas
como obra prioritAria para o pais, ou esta-
mos vendo mais um capitulo de novela, na
qual o que se diz nao 6 o que se pensa e
muito menos o que se pretend fazer?
Para o governor federal, um projeto
voltado para o desenvolvimento interno,
ao menos nesse moment de angustiante
necessidade de moeda forte para manter
o pagamento da divida externa em dia,
como exige o FMI, pode nao ser tdo in-
teressante quanto vias de escoamento de
uma produgao destinada A exportaqo.
Brasilia nos v6 de uma forma que nao
coincide com o que n6s somos (e, ao que
parece, nunca coincidird). Mas se sabe-
mos o que somos, devemos nos empenhar
em buscar essa identidade. Estarfamos nes-
sa diregdo se tiv6ssemos colocado as eclu-
sas numa prioridade acima da Alga Viaria.
Certamente o ex-governador Almir Gabri-
el nao poderd ver a transposiq~o do To-
cantins a partir de sua privilegiada cober-
tura, em bairro central de Bel6m mas nes-
se caso o que ele pode ver, a Alga, nao vale
o que ele nao vera, as eclusas. No momen-
to, nao pelo problema da distAncia, que 6
insoldvel, mas pelo atraso da obra, que 6
soluciondvel, mas para cuja solugdo o ex-
governador nada fez, embora pudesse.
Quest~o de 6tica, 6 verdade. Ou, dizendo
mais diretamente: de miopia.


Journal Pessoal 1/2* QUINZENAS/SETEMBRO DE 2003


11


_











Deus e o diabo



no subsolo do sol

Este e opreficio que escrevipara meu 100 livro, CVRD A sigla

do enclave (Cejup,256 paginas, R$ 25), langado na semana
passada, que inaugurou a coleg oAmaz6nia.doc da editor.


do brasileiro tem o potential de gran-
deza do Para, o mais dinamico da
maior fronteira de recursos naturais
do planet, a Amaz6nia. O v6rtice desse por-
vir de desenvolvimento estaria fincado numa
sigla: CVRD. A empresa atua no Estado hi
34 anos (dos 61 anos de sua existencia).
Quando se estabeleceu no Pard, era, na es-
s6ncia, uma estatal mineira, que se firmou no
mercado international comercializando um
produto das Minas Gerais: o mindrio de fer-
ro. Foi chamada para dar coloragao verde-
amarela A multinational americana United
States Steel, a gigante do aqo. A USS era dona
exclusive do que viria a ser a maior provin-
cia mineral do mundo, mas ja entao escon-
dia, sob manto de floresta e cobertura de can-
ga, o fil6-mignon de ferro. Os militares nao
gostavam da situaq~o. Chamaram a Compa-
nhia Vale do Rio Doce para que um a empre-
sa do governor se tornasse s6cia da hoje de-
cadente empresa de Pittsburgh.
A US Steel acabou saindo de Carajas,
deixando o que imaginava ser uma batata
quente nas maos exclusivas da Vale, certa de
que a teria de volta, ja esfriada, no future.
Mas ao inv6s de continuar a olhar para o big-
brother do Norte, como se fosse a mulher de
L6, a CVRD se virou para o Oriente e 1A en-
controu a viabilizacqo para sua enorme mina,
encravada no sertdo hostile, distant quase mil
quil6metros do litoral, por onde o Brasil (ain-
da uma civilizaq~o arranhando a areia das
praias, como na 6poca quinhentista) escoa
suas riquezas como se estivesse sempre dre-
nando seu sangue, "destino manifesto" de
doador de vampires.
Hoje, a Vale atua em 14 Estados brasilei-
ros, mas nenhum tem o peso do Pard nas suas
contas de chegada e nos seus prospects de
future. De tudo o que export, como a em-
presa que mais export no Brasil, responsa-
vel por 20% da balanqa commercial, a Vale
extrai do Pard 70% do seu com6rcio exteri-
or. Essa participacqo deveri ser ainda mais
no future, future que desenharA para a ex-
estatal, privatizada (e desastradamente pri-
vatizada) em 1997, um perfil mais complex
do que em qualquer outra parte do pais. Da
cesta de neg6cios paraenses, a CVRD extrai-
rd entao ferro, gusa, manganes, cobre, zinco,
caulim, bauxita, alumina e aluminio, trans-
portados por uma das mais importantes vias
de escoamento de recursos naturais do globo


terrestre, a ferrovia de Carajas (que agora che-
garA a uma capacidade de carga de 85 mi-
IhWes de toneladas anuais).
Apesar desses nimeros aparentemente
gloriosos, o ParB, cada vez maior, esti tam-
bdm cada vez mais pobre. A riqueza que a
CVRD manda para os quatro cantos do mun-
do esta faltando para adubar o progress no
Para. Segundo em territ6rio e nono em po-
pulaqao, o Estado 6 o 16 da federaqao em
IDH (Indice de Desenvolvimento Humano).
Seus indicadores sociais o colocam no "ter-
ceiro Brasil", aquela entrada de servigo pela
qual transitam os Estados nordestinos mais
pobres entiree eles o vizinho Maranhao, con-
siderado um favorecido pela CVRD) e o Para,
ao lado de seu parceiro amaz6nico nessa uil-
tima colocaq~o, o Acre.
Este livro, diagnosticando o paradoxo,
tenta apontar-lhe as causes e sugerir alterna-
tivas melhores do que a consolidaqao do
modelo de enclave, do qual a Vale 6 madri-
nha e porta-estandarte. Intencionalmentejor-
nalistico, este livro evolui no dia-a-dia do
registro e da reflexao sobre a conjuntura, ape-
nas ajustando as datas e atualizando alguns
dados. O objetivo 6 mostrar que o Pard nao
matarg essa charada se nao enfrentar a esfin-
ge. No confront, nao 6 suficiente gritar e
manifestar indignagco. Afinal, a elucidaqao
de qualquer charada 6 produto de reflexao &
transpiragqo. De intelig6ncia aplicada.
S6 evitaremos a explosao social que se
avizinha, aproximando o Pard do drama de
outros sitios minerals, ontem e hoje, aqui e
acold, se desarmarmos a bomba desse mo-
delo de concentraq o (e transferencia) de
renda, e de exclusAo social e political. Tal
pericia 6 produto de aprendizado. A home-
opatia diz que s6 se cura determinada doen-
qa voltando-a contra si, de outra maneira. E
assim que se deve enfrentar o desafio im-
posto por essa gigantesca corporag~o de
neg6cios, que continue a ser um Estado
mesmo jd nao sendo estatal.
E precise conhecer a Companhia Vale do
Rio Doce para aplicar-lhe o rem6dio produ-
zido por seu principio ativo, re-trabalhado.
Embora o desfecho de todas as hist6rias cri-
adas pela empresa tenha significado pouco
para o Estado, na hora de ver os lucros &
perdas, com um balango negative na relaqao
custo/beneficio, a possibilidade de escrever
uma outra hist6ria sempre esteve acessivel
de alguma maneira. N~o de uma maneira fi-


cil, por6m, como mostra o grande desafio atu-
al: implantar um p61o siderdrgico no Estado
que tem o melhor dep6sito de min6rio de fer-
ro do planet. Pode parecer bizarre que o Para
se veja impedido de ter acesso A escala de
beneficiamento do mindrio, restringindo-se
ao ponto de partida, enquanto pelotizadoras,
lingoteadoras e aciarias se estabelecem nos
Estados vizinhos (e no al6m-mar). Mas 6 as-
sim que tem sido e 6 assim que sera, se dei-
xarmos que os autores do enredo mantenham
o monop6lio da trama.
No inicio da d6cada de 80, quando o Pro-
grama Grande Carajas dava seus primeiros
passes (que nao foram muito al6m, mas fo-
ram suficientemente profundos para deixar
um rastro de devastaqao), escrevi um livro
prevendo que em MarabB, na mesopotamia
do vale do Tocantins-Araguaia, surgiria um
nicleo de desenvolvimento como o do Rhur
alemao. A concretizaq~o dessa possibilidade
parecia iminente. Mas hoje ela mais parece
um sonho de verao, se nao um delirio, de
qualquer maneira um event de um passado
jA remote, mesmo que mal tenha sido ontem.
Serd? Embora as vezes seja acusado de
pessimista, nao sou fatalista. Estou conven-
cido de que, ao menos em parte, nossas per-
das tamb6m nos devem ser debitadas. Uma
elite despreparada e desinteressada, que se
move na defesa exclusive do seu ganho pes-
soal, nao estabelece a interlocugqo que obri-
garia a CVRD a, nao diria renunciar, o que
seria excessive, mas a relativizar suas estra-
tdgias diante dos interesses e necessidades do
Estado e do pais. De um relacionamento mar-
cado pelo tom mercantil e o sussurro da chan-
tagem teria que surgir promiscuidade e des-
respeito, mutuamente partilhados.
Este livro ao menos tenta colocar o deba-
te num nivel mais elevado e aproximd-lo do
que deve ser o element de deslinde das po-
18micas e das d6vidas: os fatos. Cor essas
armas, espero que cada um ocupe seu lugar e
desempenhe satisfatoriamente seu papel em
mais este round do confront entire deus e o
diabo na terra do sol (e do subsolo f6rtil, pro-
messa de um amanha melhor num hoje bei-
rando o insuportavel).
A luta e, atrav6s dela, a uma nova hist6ria.




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CV R..D

-i d e l
na Amazonia
AS LTACF% (,A STA L ,