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ornal Pessoal IJA AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO ^^^^^Si^^S^^^?^^^^^:^^\\\~\\\\\ 1I QUINZENA AGOSTO DE 2003 GUERRA ATIN AMERCAN COLLECTION UNIVERSITY OF FLOR\DA 0 public vai ganhar? A maior empresa do Para e o mais poderoso grupo de comunicagao est&o em guerra aberta. Mas a sociedade e que podera ganhar se dessa dispute resultar um maior compromisso da Companhia Vale do Rio Doce com o Estado e do grupo Liberal com a informagdo. Por faltarem a ambos identidade com a verdade, por enquanto essa 6 uma briga sem mocinhos pelo meio. S e fosse na epoca da escravi- dao, seria possivel dizer que se trata de uma tipica briga de brancos. Hoje, numa lin- guagem popular, caberia a expressAo "briga de cachorro grande" para a dispute entire a Companhia Vale do Rio Doce, a principal empresa em atu- agAo no Pard e uma das maiores do pais, e o grupo Liberal, dono da maior rede de comunicagao do norte do pais. O trunfo da mineradora 6 o seu milionario caixa. O da empresa jornalistica 6 sua capaci- dade de mobilizar a opinido public. A guerra, que comegou com uma troca de SI ANO XVI Ng 306 R$ 3,00 i farpas verbais e acabou chegando ao ju- diciArio, promete ser total. A situag9o 6 inusitada para grande par- te dos espectadores dessa confrontagdo. Desde que as Organiza96es Romulo Mai- orana se transformaram num impprio da informag9o, poucos se atreveram a en- frenta-las. Esses poucos, geralmente po- liticos, acabaram compondo cor seus inimigos da v6spera, alguns mudando completamente de casaca vermelha na v6spera, azul hoje. Nenhuma empresa havia encarado o desafio assumido ago- ra pela CVRD: ir para o campo de bata- lha contra a familiar Maiorana. No m6s passado a Vale do Rio Doce ajuizou, na 8a vara civel do f6rum de Be- 16m, uma agao de indenizag9o por danos morais contra a Delta Publicidade, respon- sAvel pelo journal O Liberal. Alegou estar sendo vitima de uma campanha de difama- 9~o, desencadeada corn o prop6sito de aba- lar sua imagem. Nos (iltimos tres meses, sem interrupg9o, 24 materias teriam sido publicadas no journal contra a empresa. Nao conseguindo abrigo para seus es- clarecimentos e A merc6 de um noticia- rio tendencioso, s6 teria restado A Vale a alternative judicial para estancar a san- gria no seu patrim6nio, decorrente do sis- tematico noticidrio negative. A indeniza- 9ao requerida, que o pr6prio juizo fica- ria de arbitrar, ao final da demand, ser- viria de fator inibidor ao prosseguimen- to da campanha. O grupo Liberal reagiu cor manche- tes de primeira pagina e uma ofensiva ainda mais aberta. Classificou a agao da Vale de intimidat6ria, proposta com o objetivo de impedir o journal de dar um tratamento critic ao acompanhamento das atividades da mineradora. Diariamen- te passou a publicar manifesta96es de solidariedade As Organiza9oes Romulo Maiorana e notas de rep6dio A Vale. Nesse inicio de guerra a vantage 6 nitidamente da empresajornalistica. Nos 20 dias que decorreram entire a proposi- tura da ag~o e a citagdo do r6u houve um fato novo: o an6ncio de que a fabrica de places de ago da CVRD com s6cios chi- neses, investimento de mais de um bilhdo de d6lares, ficard no MaranhAo e nao no Para (ver mat6ria a respeito nesta edi- go). A ma noticia foi dada simultanea- mente ao anincio da a9go da empresa contra a rede de comunicag9o mais im- portante do Estado. Ojornal acentuou a associagdo: o mal que a Vale estava fazendo atingia tanto o Estado quanto a sua principal via de in- formagao. O m6vel seria o mesmo: para cercear o conhecimento das decis6es, a empresa estava atacando o veiculo dos interesses da sociedade. Ou seja: a Vale matava a cobra e escondia o pau. Por que- rer mostrar a verdade, o grupo Liberal estava sendo punido. A primeira batalha da guerra anunci- ada foi vencida pela empresa dos Maio- rana porque a opinido p6blica paraense incorporou o convencimento alardeado pelo journal. Mesmo sendo uma poderosa corporagao de neg6cios, responsavel por 16% do PIB paraense (e por 20% do sal- do liquid da balanga commercial brasilei- ra), a capacidade de expressed da CVRD junto ao public local 6 incomparavel- mente inferior A de O Liberal. Alem disso, cultivar uma boa image no ParA nunca foi um objetivo estrat6gi- co da Vale, principalmente ao long da gestao de Roger Agnelli, nesse aspect sutil como um trator (que ele imagine estar blindado pelas boas relacges que mant6m com o Planalto petista, anfitrido contumaz que tem sido do ministry Jos6 Dirceu, o poderoso chefe da casa civil do president Lula). Mas a verdade nao 6 a que o journal proclama nas suas edi96es diArias, reple- tas de adjetivos e anemicas de informa- 9bes. Nem o grupo Liberal 6 o mocinho nem a CVRD 6 o bandido descrito no cartaz de procura-se pelo auto-proclama- do defensor dos pobres e oprimidos. Em primeiro lugar, a acao da Vale nao configura nenhum atentado A liberdade de imprensa. A empresa agiu completa- mente dentro da ordem legal ao recorrer A justiga. O contencioso garante amplo direito de defesa e varios graus de recur- so at6 o trAnsito emjulgado da demand, com a condenacgo ou a absolvigdo do r6u. O process admite prova e contraprova e deverA ser demorado at6 a palavra final do julgador, certamente no Ambito do Supremo Tribunal Federal, em Brasilia, por envolver mat6ria constitutional, ji pr6-questionada. Nao 6 correto afirmar que a Vale esta tentando calar as Organiza9oes Romulo Maiorana. A programagdo publicitaria da empresa nao excluiu da midia os veiculos das ORM, que, mesmo j litigando com a empresa, a ela apresentaram um piano de midia no valor de 6 milh6es de reais para o patrocinio de um campeonato de v6lei e futebol amador. As ORM ainda nao so- freram nenhum tipo de restrigdo. A Vale entrou najustiga depois de ter encaminhado notas de esclarecimento ge- n6ricas e cartas de resposta especifica- mente enderegadas ao journal O Liberal. Logo, esgotou a instancia administrative. Podia ter ficado nesse nive como prati- camente todos os interloc tores do gru- po Liberal, mas, declarando se insatisfeita corn a acolhida as suas anifestac6es, decidiu ir em frente no lit gio. A lei Ihe assegura esse direito, que franquia ple- namente democratic. A consistencia dos argu entos expos- tos pelos advogados da le na petigao inicial vai ser posta A pro a na instrug9o processual. Frederico Co lho de Souza, advogado do grupo Liber I, j contestou a ag5o da CVRD, negand que haja uma campanha contra a Vale, argumentando que o direito de resposta a mineradora foi acolhido e contestando a existencia de prejuizos a reparar, entire utros pontos. O grupo Liberal estai m seu direito de relatar os fatos e apres ntar a posigao da empresa sobre a de anda judicial. Mas a cobertura que de ao aconteci- mento guard algum gra de proporgao com o pr6prio fato? O j rnal exp6s os fatos conforme Ihe impa um tratamen- to jornalistico normal? A resposta 6 nao. O g upo Liberal se consider o mais igual d ntre os iguais, com direito absolute sob e o control da informacgo (e sem sofre as conseqiion- cias de nao cumprir sua tarefa). A dire- triz editorial que usa pa a tratar dos as- suntos do seu interesse direto nao 6 a mesma que aplica a tod s os demais. E acima do compromisso ;om a informa- 9Ao tem estado o interest e commercial da empresa. O primeiro co promisso, que legitima uma empresa j rnalistica, vem sendo progressivament sufocado pelo segundo, o que transfer a a redagio num mero balcao de neg6ci s. Tern sido as- sim ha muitos anos. Na eleigao de 1990, por exemplo, a empresa apoiou a cand datura do atual vereador Sahid Xerfan ao governor do Estado. Seu opositor, atual deputado federal Jader Barbalh foi apresenta- do, durante todo o per odo da campa- nha eleitoral, como um acabado ladrao, atacado em mat6rias diarias, totalmen- te editorializadas. Decidida a eleiCgo rm favor de Ja- der, seu nome sumiu o noticiario do grupo Liberal. Empos ado, ele foi tra- tado anonimamente como "o governa- dor". Depois seu nome comegou a apa- recer de novo, mas s6 nas paginas in- ternas do journal. Mais um tempo e ja era citado por inteiro n primeira pagi- na, sua fotografia vol ou a aparecer e 1' QUINZENA/AGOSTO )E 203 Jornal Pessoal el% logo em seguida a cobertura se norma- lizou, sem qualquer restrigao, muito pelo contrario. 0 journal publicou um editorial para explicar ao seu leitor as razbes da mu- danga de tratamento? Pelo menos uma nota da redagao registrou a transforma- 9Co? Nada. O inico e decisive sinal podia ser percebido na propaganda ofi- cial. A media que ela foi crescendo, a boa vontade do grupo Liberal a acom- panhou. Relag9o evidence de causa e efeito. O ladrAo da v6spera passara a ser o estadista do dia seguinte. Como nenhu- ma explicagAo foi dada ao distinto p6- blico sobre a metamorfose, a carapuga podia ser colocada de volta a qualquer moment, bastando as moedas deixarem de tilintar nos cofres da empresa. Acostumado a ignorar a opiniAo pi- blica e a mudar de attitude editorial con- forme os interesses comerciais ou ca- prichos pessoais, o grupo Liberal rea- giu com estardalhago semelhante ao do caso atual da CVRD quando a Rede Celpa se recusou a patrocinar o Para Folia, promogao da corporagao, e o Basa publicou apenas uma versdo resu- mida do seu balango. Seguiram-se edi- torial de primeira pagina, mat6rias de denuncia, enquetes agressivas, cartas indignadas dos alpinistas de sempre, atris do calor da exposigco piblica. Uma vez atendido o interesse comerci- al, voltou a cobertura de antes, oficiali- sta, absorvedora de press-releases, de- satenta, incomplete, incompetent. A informagCo virou adorno na empresa de informagao, quando ndo gazua. A pr6pria Vale j experimentou essa relagao ao suspender o patrocinio do Sa- lao Arte Para, anos atras. Depois de ma- t6rias sucessivas contra a empresa, aca- bou cedendo e aceitou continuar a de- sempenhar o papel que o grupo Liberal Ihe impunha. Da mesma forma, assumiu o patrocinio do program "Andando pelo Para", capitaneado por Romulo Maiorana Jr (sintomaticamente, 6 suce- dida agora pela Rede Celpa). A midia do program podia ser con- siderada interessante e comercialmen- te compensadora pelo estrito Angulo da divulgagdo de mensagens promocionais da empresa nos veiculos das ORM. Mas a outra banda do program, com as an- dangas de Romulo Jr. & troupe, sua in- vestida sobre as prefeituras dos muni- cipios que se dignou visitar e, sobretu- do, suas confusas pretens6es political, eram um complicador para uma empre- sa como a CVRD. Rominho, apesar de seu poder, esta muito long de ser uma unanimidade no Pard ou de ser classifi- cAvel como um benefattore do Estado (para usar uma expressao que estaria ao alcance do pai, cuja familiar era origi- nAria do sul da Italia). Em 2001 o grupo Liberal apresentou mais uma conta do "Andando pelo Para". A Vale pagou, em julho daquele ano, duas duplicatas de uma s6 vez, no valor de 800 mil reais. Mas o Liberal acrescentou mais uma parcela de R$ 400 mil. A Vale nao concordou. O Liberal emitiu entao, unilateralmente, uma ter- ceira duplicate, com vencimento ocor- rendo tr6s meses antes da data prevista na programagao apresentada do "An- dando". Em agosto do ano seguinte o director do grupo Liberal, Jodo Pojucam de Moraes, lembrou, em oficio, que a divida continuava em aberto. Em fevereiro deste ano, 20 meses de- pois, a duplicate foi apresentada para protest. A Vale foi notificada atrav6s de uma estagiaria, sem poderes para re- presentar a empresa, que alega nao ter tido ciencia do protest. S6 foi regula- mente intimada ja da agao monit6ria, proposta em maio pelo grupo Liberal para obter, pela viajudicial, o pagamen- to reclamado (ji entlo, com os acr6sci- mos e atualizag5es, 50% maior, no va- lor de R$ 613 mil). A Vale contestou a agdo e ao mesmo tempo entrou com uma cautelar (para desconstituir o protesto, na 18a vara ci- vel do f6rum de Bel6m, alegando que o titulo apresentado 6 frio, por nao ter o seu aceite, nao estar sustentado num contrato e por nao ter havido qualquer contraprestacgo de serving (ou a efeti- va prestagdo do servigo nao ter sido de- monstrada), o que caracterizaria "enri- quecimento sem causa" por parte da Delta Publicidade. A CVRD pediu limi- narmente o cancelamento do protest, que estaria Ihe causando danos irrepa- raveis (a impede de ter relag6es comer- ciais cor 6rgaos p6blicos, por exem- plo), mas o juiz Gabriel Costa Ribeiro preferiu ouvir a contestag~o da outra parte antes de decidir sobre a liminar. Al6m de adotar rotineiramente esse comportamento, que coloca a divulgagio de informagres a servigo de seus objeti- vos comerciais, o grupo Liberal compro- mete sua legitimidade como 6rgao de re- presentaCgo da sociedade por sua pr6pria linha editorial. E diretriz da empresa nao reconhecer seus erros. Nao s6 nao admi- te errar, como deixa de acolher as mani- festag6es dos que a ela se dirigem para apontar esses erros ou defender-se de acusagFes recebidas. A liberdade de im- prensa 6 uma arma que os Maiorana querem usar a seu favor, mas rejeitam quando 6 esgrimida por terceiros con- tra eles. O grupo s6 6 liberal no titulo. Quantas cartas remetidas para a re- dacgo, no exercicio do direito de res- posta, nao foram parar na lata de lixo, sem o menor respeito ao missivista? Quantas pessoas nao entraram na ge- ladeira dos veiculos de comunicagao da empresa por serem desafetos de al- gum dos Maiorana? Quantos tiveram que engolir mat6rias claramente ma- nipuladas por nao terem o direito de contradita-las ou porque as boas gra- gas dependiam da passage pelo de- partamento commercial? A subordinagio da dimensaojorna- listica da empresa aos seus neg6cios fica perfeitamente clara quando, a co- bertura sistemitica e critical, segue-se o panegirico ou o silencio, tAo logo a exigencia commercial 6 atendida. Ou, quando hA a relutincia em ceder, os ataques se sucederem at6 que o outro lado volta a se sujeitar A vontade da corporagio de comunica~ao. Esta 6 a primeira vez que uma em- presa commercial tem uma attitude dife- rente. A Vale nao apenas se recusou a pagar o que o grupo Liberal Ihe cobrou como sendo a ultima parcela do "An- dando pelo Para", mas tamb6m, em se- guida a propositura da acao de cobran- Ca, reagiu na mesma moeda, ingressan- do em juizo cor uma cautelar contra a monit6ria e uma aqgo de reparagao de danos morais contra o grupo Liberal. Independentemente do resultado das duas brigas judiciais (que, evidente- mente, tme motivagao conexa), a novi- dade da reag~o 6 benfazeja para o es- clarecimento da opiniao pfiblica. Mesmo sendo vitima de tanta ma- nipulag5o, a sociedade paraense jA sabe: a verdade s6 costuma emergir quando os que a produzem ou mono- polizam brigam entire si. A verdade surgira a partir do que um disser do outro, mas certamente estara al6m do que um e outro dizem e ainda dirAo. Estara num ponto intermediArio entire as posi96es dos contendores, se, nes- sa terceira posigao, de equilibrio, al- gu6m for capaz de ponderar o que for dito pelo crit6rio da verdade: os fatos. Como em boa briga de cachorro grande, espera-se que quem for podre se quebre para que possa haver uma verdadeira limpeza no ambiente. Jornal Pessoal 1 QUINZENA/AGOSTO DE 2003 2 Placas vao para Sao Li ils: Sconcluso do estudo realizado pela Natrontec e a Macrotempo, anun- iada na semana passada, de que Sao Luis do Maranhao 6 o melhor lugar para a instalagAo da primeira usina de pla- cas de ago no norte do Brasil, significa o ponto final na hist6ria da siderurgia no ParA? O Estado tern a melhor jazida de min6rio de ferro que existe no planet, localizada na provincia mineral de Cara- jAs. Mas ate agora o inico pass adiante na transformagao da mat6ria prima, um quarto de s6culo depois de iniciada a mi- neragCo do ferro, foi dado pelas cinco usi- nas de gusa implantadas no distrito in- dustrial de MarabA. Desde o ano passado, a primeira pe- lotizadora de ferro, que faz a agregagao do min6rio fino, funciona em Sao Luis. Ela 6 uma das tr6s maiores usinas depe- llets do pais, com capacidade de produ- gdo de seis milh6es de toneladas por ano. Pelotas de ferro e min6rio granulado sao dois dos insumos para a fabricagao de chapas de ago, que representam um es- tagio mais avangado na industrializacgo. Se defender do estudo realizado por en- comenda da Companhia Vale do Rio Doce, a primeira fabrica de chapas, em sociedade com os chineses, tamb6m fi- cara na capital maranhense, produzindo 3,7 milh6es de toneladas anuais. A ou- tra siderfirgica, com metade do tamanho da de Sao Luis, esta surgindo ao lado do porto de Pec6m, no Ceara, a mais nova do Nordeste, mas tamb6m utilizan- do o min6rio de CarajAs. Estariam ai as provas de uma cons- piragao contra o Para, atestando a in- competencia de suas elites e uma com- pulsiva ma-vontade contra o Estado por parte do agent por tras de todas essas iniciativas, a CVRD? Por interesse pr6prio, s6 casualmente coincidindo (ou tentando fazer coincidir) com os interesses do Estado, o grupo Li- beral responded afirmativamente, puxan- do (ou provocando) a reagao da opiniao p6blica local. Sim, proclama ojornal: ha uma conspiragao e quem a comanda 6 a CVRD. Levanta-se contra esse atentado um coro de pessoas de boa intengao, gui- adas pelos oportunistas de sempre. E grave a ameaga que paira sobre o future do Para, disso nAo ha qualquer d6i- vida, se o Estado atuar apenas no ponto de partida do process siderurgico (e, com isso, continuar a crescer como rabo de cavalo: para baixo), condenando-se a ser um mero centro minerador e um for- necedor de semi-elaborados (ainda por cima desonerados de impostos quando di- rigidos A exportag~o), que geram pouco emprego, renda residual e quase nenhum imposto local. Mas s6 se pode atuar competente- mente contra essa restrigao compre- endendo a situaqgo. Agir por mero im- pulso emotional 6 condenar-se ao ris- co de ficar com a brocha na mao quando for retirada a escada. Isto 6: quando os interesses dos mani- N r puladores de informa- 9ges forem satisfeitos t-e e eles voltarem A sua attitude anterior, de - omissao e coniv6ncia, ou de pirataria. l- O primeiro ponto a esclarecer o trabalho da Natrontec. Inicialmente essa empresa de consul- toria foi contratada pela I [I Vale do Rio Doce para estudar a melhor locali- 5 zagao da usina de places que a empresa pretend f t i viabilizar, atraindo para o empreendimento a gi- tler gante chinesa Baosteel, hoje a maior comprado- u le ra individual de min6rio de ferro de CarajAs e a maior siderurgica da Chi- N Bn na. Na verdade, o que a Natrontec fez foi subme- ter a teste uma hip6tese de trabalho evidence: que o melhor lugar era (e 6) no litoral maranhense, ao lado do porto da Ponta da Madeira, um dos melhores do mundo. Con a reagao (retardada, como de re- gra) no ParA a essa pr6via, outra consul- tora, a Macrotempo, do economist Lu- ciano Coutinho, foi contratada para acompanhar os estudos e audita-los. A indicagCo foi do governor paraense, do qual a Macrotempo passou a ser a repre- sentante, mas o dinheiro saiu dos robus- tos cofres da CVRD. Uma relagCo pro- miscua, mas a relagAo padrAo de sempre. A administracgo estadual tem sido su- jeita a chuvas e trovoadas, mudando de I postura conforme o tem conveniencias) do chef mas sempre repassandc Vale, objeto de exaltagi mentos e de furor em o metros objetivos, explic O que nao ha 6 indepen 9Ao de corpos. A despeito dessa ori tedora, o estudo confirm cial, apontando-lhe os Luis represent uma vai 150 milhoes de d6lare Conde milh6e confor vestim o custi no VPI te Liqu para o util da anos, a method( cida un 0S I Pod guma nipulag Depois atengac s itr d6vida foi qua ;e d-e mento usina ] [ e event current que a na Area especial da que mineral 0 estudo assegura qu sistema existente garanti to A demand da fAbrics milh6es de litros por hora convicgao sobre a possib mento sem novos invest tando conseqii6ncias par to da popula~go), que d empresa sideruirgica e n nAria do servigo. Duividas como essa, cia de contabilizagAo pa ental e nenhuma indicaS sibilidade de surgiment fonte de calcario que nE estudo, muito cara, pod peramento (e as fe do executive, a conta para a o em certos mo- utros, sem pard- i os, confiaveis. d"ncia e separa- g m comprome- a a hip6tese ini- nfimeros. Sao n agem de quase s sobre Vila do de US$ 320 s sobre Maraba, ne o valor do in- ento realizado e eio. resultando S(Valor Presen- do), calculado empo de vida fibrica, de 20 partir de uma )ogia reconhe- versalmente. ter havido al- istorgao e ma- o no trabalho? de ter lido com o relat6rio, a que me restou to ao abasteci- e agua para a m Sao Luis e is custos de- s da poluig9o abrica causara de influ8ncia, lmente atrav6s ma de carvao Sa ampliagao do rd o atendimen- , de quase dois , mas fiquei sem lidade de supri- mentos (acarre- o abastecimen- ,veriam caber a io A concessio- iais a inexist6n- *a o custo ambi- ao sobre a pos- o de uma nova o a definida no ;riam afetar em A 1. QUINZENA/AGOSTO IE 2003 Joral Pessoal fim do sonho siderurgico? profundidade a grandeza dos numeros finals da andlise? Nao saberia dizer. Mas fica a questao para quem de direito. Admitida a consist6ncia e corregco do trabalho, restaria outra questao a ser res- pondida: o governor do Para pode modi- ficar essa correlagao de fatores para dar maior capacidade de atragao do investi- mento para as duas hip6teses locacionais no Estado? Pela grande desvantagem que apresenta, Maraba esta fora da dispute. Mas e Vila do Conde? Seria possivel anu- lar os 150 milhaes de d6lares de vanta- gem da capital maranhense sobre o dis- trito industrial de Vila do Conde? Sem um exame mais detalhado, a res- posta 6 nao. O estudo da Natrontec des- considerou a necessidade de dragar o ca- nal de acesso ao porto, optando por na- vios de menor tonelagem, da classes Pa- namax, ao inv6s dos maiores, tipo Cape Size. Ou seja: nao problematizou o exa- me locacional de Vila do Conde. A Anica alteragco significativa de custos poderia ser proporcionada pela navegabilidade plena do rio Tocantins, com a constru- gao do sistema de transposigao da barra- gem de Tucurui, permitindo o transport mina-porto em dois modais (ou mesmo em apenas um, conforme o uso do rio Ita- caiunas). Mas qual seria o peso das eclu- sas no calculo? Por se tratar de mera especulagao, ja que as eclusas inexistem e sua constru- c9o demandaria tempo maior do que o previsto para a usina de places, alem de recursos financeiros (360 milhoes de re- ais) de fontes ainda imprevisiveis, esse element de cAlculo nao consta do estu- do. Bitolado em torno da escolha de um sitio para uma usina de places, o traba- lho nao tem a amplitude do projeto de que o Para necessita: saber se ainda pode ter um ciclo sider6rgico complete dentro do seu territ6rio. Em 1981, a CVRD e a Secretaria Ge- ral do Programa Grande Carajas elabo- raram, a quatro mdos e em gabinete fe- chado (procedimento tipico da 6poca do regime military o Piano de Desenvolvi- mento da Amaz6nia Oriental, que deve- ria servir de guia para a regiao de influ- 6ncia do p6lo mineral. Em uma d6cada seriam investidos 62 bilhaes de d6lares (valor equivalent a divida externa bra- sileira de entao), possibilitando receita annual de US$ 17 bilh6es. A diretriz definida entao, com uma crueza colonial espantosa (o titulo origi- nal do document era "Metal Amazon" e sua mais preciosa image consistia em comprar a Amaz6nia ao monstro de Loch Ness), prevalece at6 hoje: os principals investimentos seriam feitos no litoral, tanto em Vila do Conde quanto (e sobre- tudo) em torno de SAo Luis, aproveitan- do "as condic6es portuArias excelentes para manuseio de grandes toneladas a pregos competitivos". No interior poderiam surgir p6los pro- dutivos de gusa, silicio metAlico, ferro- niquel e ferro-esponja, desde que houves- se carvao vegetal para tender a uma de- manda de 25 milh6es de metros cibicos. O babacu podia entrar como redutor, mas s6 complementarmente. O grosso das ne- cessidades seria suprido por florestas plan- tadas. O document previa a necessidade de 2,3 milhoes de hectares. Nessa area, a floresta native (hoje remanescente em matas secundArias formadas pelo desma- tamento) seria substituida pelo eucalipto. Eis ai, ontem como hoje, a chave para um process siderirgico primArio no in- terior do Pard: o carvao vegetal. Se o car- vao mineral for o redutor, todas as uni- dades de beneficiamento de min6rio fi- carao no litoral, onde poderao receber o coque e o carvao importados (no caso, da China) e embarcar com menor manu- seio e custo os produtos transformados. Para interiorizar a siderurgia, sera preci- so recorrer ao carvio vegetal, como ja fizeram as 12 guseiras instaladas ao Ion- go da ferrovia de Carajas. A oppgo 6 mais ou menos como se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ha solugdo satisfat6ria para esse im- passe? O desafio que se coloca diante das elites pensantes (e "laborantes") do Para nessa questao 6 encontrar um outro ca- minho. De fato, foi atrav6s da destruigao de suas matas para a produgqo de carvao que Minas Gerais se incorporou, na con- digao de periferia, ao process industrial que teve Sao Paulo como centro. Quan- do o capital natural comegou a se exau- rir, as guseiras de Minas migraram, prin- cipalmente para pr6ximo de Carajas, onde, al6m do minerio, ainda ha flores- tas a serem sacrificadas (e campo de ma- nobra para essa hist6ria de gusa tropical). Sera terrivel, para o Pard, repetir o erro de Minas com d6cadas de atraso. Mas entao nao lhe resta outra "voca- 95o" senao a de provincia mineradora (e energ6tica), condenada a ter relac9es de troca desfavoraveis? E o que sugere esse desdobramento da divisao international do trabalho, a se manifestar diante de n6s atrav6s da abertura de mercados consu- midores (como o americano e o chins) para agos de menor valor agregado, e que, por isso mesmo, tem uma margem de lu- cratividade mais apertada (o que induz a uma localizagio o mais pr6xima possi- vel dos grandes portos). Mas essa nao 6 uma regra sem exce- 96es, muito pelo contrario. Na Area do Sistema Sul da CVRD, na qual a fonte de min6rio sao as jazidas de Minas Ge- rais, o panorama justamente o inverso: ha oito aciarias no "sertao" e apenas tres no litoral. E isso sem perda de ganho, ja que dos 10 produtores de ago de maior lucratividade no mundo, seis sao brasi- leiros (e os dois mais eficientes estao ins- taladosjustamente no "sertao"). Em principio, pode-se dizer que a in- teriorizagao siderurgica depend de en- contrar um modelo ajustado as suas li- mitac9es e aproveitador de suas vanta- gens (algumas sao claras: fartura de agua, espagos disponiveis, menos afetag~o aos fatores ecol6gicos, possibilidade de des- congestionar o process econ6mico e, mesmo sem os atrativos da urbanizagAo, poder descentralizi-la). Mas nao se pode dizer algo definitive por falta de um piano para esse setor no Para, embora as premissas sejam a de en- contrar novo component energ6tico e um modelo de usinas compativeis, atra- indo investidores que nao estejam atre- lados A CVRD. Desarmado, o Estado reage aos fatos buscando compensa9oes e deriva96es, ao inv6s de encarar a Vale do Rio Doce com sua pr6pria visdo do setor. Mas como cri- ar essa visao sem estar habilitado a isso e sem buscar respaldo t6cnico, sempre re- correndo A pr6pria empresa para custear estudos e projetos, como aconteceu com os pianos de Eliezer Batista & Raphael de Almeida Magalhaes e se repete ago- ra com a fabrica de places? Nos confrontos que tern havido, a CVRD se tem mostrado mais forte nao s6 por ser intrinsecamente forte, mas por ter diante de si um leao que ruge, mas 6 desdentado. Jornal Pessoal 1P QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Um bilhao illegal sai de Belem em 5 anos Um bilhlo de reais pode ter sido remeti- do ilegalmente de Bel6m para o exterior ou foi sonegado ao imposto de renda, em opera- 96es ilegais de compra e venda de d6lares em casas de cAmbio da capital paraense, durante cinco anos, entire 1996 e 2000. Ainda nao hou- ve qualquer prisao, mas o delegado da Poli- cia Federal de Brasilia, Daniel de Oliveira Santos, ja indiciou 21 pessoas pela pratica dos delitos. Outras 60 pessoas tamb6m estlo sen- do investigadas como participants do esque- ma de evasao de divisas, sonegag~o fiscal, lavagem de dinheiro, formagio de quadrilha e funcionamento de casa de cambio sem au- torizagAo do Banco Central. O inqu6rito policial durou mais de dois anos, de setembro de 2000 a novembro do ano passado. Remetido para a Justiga Fede- ral, tramita atualmente pela 3a vara federal, em Bel6m, cor mais de 40 mil paginas, dis- tribuidas em 103 volumes. Compreende 20 mil documents, entire cheques, ordens de pagamento e transfer6ncias de valores. S6 de conversas telef6nicas gravadas e trans- critas, sao 256 paginas. O esquema, segundo apurou a PF, consis- tia na compra, em Belem, de pequenas quan- tidades de moedas estrangeiras de turistas e entidades religiosas ou beneficentes, "que re- cebiam recursos do exterior, sem, contudo, ve- larem pela escritura~lo destas transages". Essas opera96es encobriam um outro esque- ma, "de grande dimensdo, quer pelas somas, quer pelas pessoas e empresas envolvidas, tudo ramificado por virias unidades da fede- ragdo e conexoes cor o exterior". O suporte para todas as operagces reali- zadas pelas casas de cambio de Bel6m, se- gundo a investigag9o da policia, seria o gru- po Marcos Marcelino & Cia. Ltda, que pos- suia "umbilical ligago" com o "esquema" dessas corretoras, "constituindo este grupo empresarial a verdadeira base financeira na compra e venda de moedas estrangeiras", con- forme diz o delegado Daniel Santos no rela- t6rio final do inqu6rito. Os proprietarios e dirigentes da empre- sa, que manteriam negociaqges com dolei- ros ha muito tempo, sao citados nas varias investigates conduzidas pela Policia Fe- deral na regiao de Foz do Iguagu, no Para- na. A firma 6 acusada de lastrear com moe- da national as opera96es de grande vulto da Casa Cruzeiro com moeda estrangeira. A Cruzeiro foi descredenciada pelo Banco Central em junho de 2000. Ao depor no inquerito, o director finan- ceiro do grupo, Abelardo Lobato Alfaia, ex- plicou que em Janeiro de 1999, durante a ma- cro-desvalorizagAo do real, conseguiu con- vencer a diretoria do grupo a adquirir d61a- res no mercado local para se proteger das grandes flutuag9es de cambio. Os d6lares comprados eram simplesmente guardados no cofre da empresa. A movimentag~o mensal dessas operag9es variava entire 500 mil e 800 mil d6lares. O director, entretanto, negou que o grupo tenha contas no exterior ou haja efe- tuado dep6sitos em contas de terceiros. O recurso a uma moeda forte em 6poca de ins- tabilidade cambial e monetaria visava pre- venir prejuizos para a empresa. Marcos Marcelino de Oliveira Filho, vice- presidente do grupo, declarou em seu depoi- mento na Policia Federal que sabia da aquisi- 9Ao de d6lares na praga de Bel6m, mas des- conhecia os valores envolvidos. Admitiu que emitia cheques, mas ignorava sua destinagao. Tamb6m ignorava como os d6lares adquiri- dos eram contabilizados na empresa. Seu pai, Marcos Marcelino de Oliveira, embora comandando a corporag~o empresa- rial, tamb6m nao soube informar a quantida- de mensal de d6lares comprados. Sequer co- nhecia os titulares das empresas de cambio, habituais fornecedoras de d6lares para o gru- po. Explicou que a remessa de valores em reais para contas correntes de banco em Foz do Iguagu, em 1998, foi parte da "devolugao do pagamento da venda de um avido". O tesoureiro do grupo, Claudio Purcell da Costa, admitiu, em seu depoimento, que, cum- prindo ordens, emitia, em media, um cheque por dia para aquisigAo de d6lares, nominais A firma Marcos Marcelino. Esses cheques eram endossados por AbelardoAlfaia, Marcos Mar- celino Filho e Joana Antunes, passando a ser ao portador. Confirmou tamb6m que eram in- tensas as transagoes corn a Casa de Cambio Cruzeiro, que tinha uma "marcante ramifica- 9&o" no exterior, "cor aportes financeiros muito superiores ao declarado pela empresa", segundo as conclusbes do delegado da PF. A empresa Bombril, acusada pela policia de contar cor dezenas de doleiros espalha- dos pelo pais, tamb6m aparece como benefi- ciada por dep6sitos que o grupo Marcos Mar- celino teria feito em sua conta. Procuradores federais e fiscais do Banco Central, ao ras- trear dinheiro de uma das empresas de Mar- cos Marcelino, depois de identificar doleiros em Foz do Iguagu, detectaram virios dep6si- tos (cheques no valor de R$ 23,7 mil e R$ 300 mil, entire outros) em uma conta corrente da Bombril no Bradesco. Chamada a dar ex- plicag9es A Policia Federal sobre os dep6si- tos, a Bombril negou que tivesse realizado qualquer transagAo cor o grupo paraense. Joamir Alves, diretor-financeiro da Bom- bril, disse inicialmente que os dep6sitos se referiam a um pagamento pela venda de ti- tulos A empresa Logistica. Tres meses de- pois, retificou suas declara96es: a empresa que teria comprado os titulos seria a Hard Sell e nio a Logistica. O auditor fiscal do Tesouro Nacional, Luiz Carlos Macedo Matos, informou A Po- licia Federal que ja existed procedimentos fiscais em andamento na Receita Federal contra Jos6 Samuel Benzecry e Ourovida Serruya Benzecry, dois outros indiciados no process. Corn o casal foram apreendidos, em duas opera9ges, dois milhaes de d61a- res, sendo 1,43 milhao de d6lares em dinhei- ro, no aeroporto do Galeio, no Rio de Janei- ro, e US$ 402 mil em travellers cheques, em Campinas, Sao Paulo. Um inquerito aberto pela Policia Federal de Campinas, em 1998, apurou as circunstan- cias da apreensao de U$$ 402 mil em trave- lers cheques em envelope postado por Jos6 Samuel Benzecry, em Bel6m, cor destiny a Campinas. Mas, em declarag9o a PF, Benze- cry negou ter postado o envelope, afirmando desconhecer seu conteido. Carlos Cezar Chaves Albuquerque, refe- rido como testemunha de defesa de Benze- cry, informou ter sido o responsavel pela pos- tagem do envelope, a pedido de Rubem Da- rio Peralta Ramirez, tendo recebido 100 d6- lares pelo servigo. Garantiu que usou aleato- riamente o nome de Bezencry, consultando um cartAo de visits dele. Apesar de sua veemente negative, meses depois Benzecry, declarando-se "legitimo proprietario" do dinheiro, encaminhou uma petig~o ao juiz do process, em Campinas, pedindo a restituiCgo dos U$$ 402 mil. Outro personagem do inquerito 6 Joao Leal. Mesmo sem capacidade econ6mico-fi- nanceira, ele movimentava valores bancari- os elevados de 13 dos 21 indiciados. A me- canica de sua aCgo consistia na utilizagdo de conta corrente de um "laranja" para receber o dinheiro, emitido atraves de cheques, transferencias eletr6nicas e ordens bancari- as. Os valores correspondents eram saca- dos ou transferidos para contas de dep6sitos de "domiciliados no exterior", de onde re- tornavam, ja devidamente "limpas", para as contas dos verdadeiros movimentadores e nao mais para a de Joao Leal. Um dep6sito de R$ 107 mil, foi feito em 1997, na conta corrente 111686, agencia 224 do Banestado, aberta em nome de Joao Leal, pela Marcos Marcelino & Cia Ltda, confor- me a apuragco policial. Em suas declaracoes A PF, o empresario Marcos Marcelino ale- gou que os documents contabeis e outros, que poderiam comprovar a licitude da ope- ragdo, foram extraviados por ocasiao da mudanca da sede da empresa. Mas nao apre- sentou comprovagco do fato. 6 1 QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Jornal Pcssoal As indignidades de 1964: uma hist6ria por escrever O servigo de utilidade public que o jornalista Oswaldo Coimbra prestou ao escrever Dom Alberto Ramos mandouprender seus padres (Edi- tora Paka-Tatu, 2003, 280 paginas) foi re- afirmar que nao ha temas proibidos, aci- ma de qualquer suspeita ou al6m de ques- tionamento. Bastou uma consult aos ar- quivos dejornais do passado para Coim- bra se municiar de fatos polemicos, reavi- vando a mem6ria da sociedade paraense sobre acontecimentos relevantes, ainda ca- rentes de esclarecimento. Necessidade de elucidagAo que deve ser mais important do que tabus ou interditos proibit6rios. Mas o que 6 o mdrito do livro de Co- imbra 6 tambem sua grande defici8ncia: a pesquisa foi rapida demais, restrita a poucas fontes, insuficientemente checa- das. O merito da sua iniciativa seria mui- to maior se ele tivesse colocado uma in- terrogagao no titulo do livro: Dom Al- berto Ramos mandou prender seus pa- dres? A inquirigao estaria mais bem pos- ta do que a afirmacgo. A acusagao ao home que foi o arce- bispo de Bel6m ao long de 34 anos se baseia num testemunho, o de frei Betto. De passage por Belem, entire margo e abril de 1964, para participar de um con- gresso estudantil latino-americano, o en- tdo dirigente da Juventude Estudantil Ca- t6lica (JEC) diz ter visto, no dia do golpe military contra o president Jodo Goulart, dom Alberto Ramos aparecer na tela da emissora de televisio (s6 havia uma, a TV Marajoara, dos Diarios Associados). De- pois de agradecer a Nossa Senhora Apa- recida e a Deus pelo golpe que teria sal- vado o Brasil do comunismo, "nao satis- feito, o arcebispo apresenta uma lista com- pleta de padres que deveriam ser press porque eram comunistas ou suspeitos". Reconstituindo os fatos tres d6cadas depois, o frade dominicano, hoje assessor da presid6ncia da republica, disse ter fi- cado tao chocado com o "espetaculo" que decidiu abandonar a sede do arcebispado, onde estava hospedado. O lugar, alem dis- so, se tornara inseguro para quem nao par- ticipava do golpe, nao se beneficiara dele, nao o apoiara ou estava "do outro lado". A afirmagdo do livro se fundamental nesse testemunho, o 6nico a declarar ca- tegoricamente que o arcebispo havia lido, diante das cAmeras da televisao, uma lista com os nomes de padres a serem press pelos militares, uma delagao aberta e pu- Jornal Pcssoal 1P QUINZENA/AGOSTO DE 2003 silanime feita pelo chefe da igreja cat6li- ca no Para. Quantos nomes? Nao ha um nfumero precise, mas, por deducgo, a partir de ou- tras provas e evid6ncias, Coimbra citatres nomes, os mesmos encontrados num dia- rio pessoal do arcebispo: padres Aloisio da Silva Neno, que dirigia o MEB (Movi- mento Educacional de Base), Joaquim Diomar Lopes de Araujo, assistente espi- ritual dejovens estudantes, e Mois6s Lin- doso, assistente da juventude operaria. Dos tres, apenas o padre Neno foi preso. Os outros, perseguidos em Belem, pude- ram se transferir para outros lugares, fora de sua base operational de entao. Os mi- litares nao teriam incorporado integral- mente a lista de nomes de dom Alberto? Se frei Betto viu e ouviu a entrevista do arcebispo, por que ningu6m mais par- tilhou essa mem6ria? Por que nenhumjor- nal, incluindo A Provincia do Para, da mesma rede de comunicagao da qual a TV Marajoara fazia parte, fez um rinico re- gistro sobre a tal lista? Coimbra supoe que isso se deveu por censura ou auto-censu- ra, mas ambas as hip6teses sdo improva- veis. Primeiro porque a censura ainda nao estava tao bem organizada naquele tem- po. Agia intensamente mais na repressao do que na preveng5o dos atos considera- dos subversivos. Em segundo lugar por- que seria de interesse dos 6rgaos de im- prensa, que aderiram quase em unissono ao golpe (A excecio do Jornal do Dia, que se mantinha na expectativa de abertura political, com a qual seu proprietario, o deputado Armando Carneiro, se poderia favorecer), reproduzir as declara96es de um bispo favoravel aos novos donos do poder e condenat6rio aos "subversivos". As palavras de frei Betto podiam ser tomadas como pistas para a apuragao dos fatos, mas nao como fatos. O testemunho que ele prestou sobre a participagio de frades dominicanos no assassinate de Car- los Marighella, cinco anos depois do epi- s6dio envolvendo d. Alberto, apesar de tamb6m categ6rico, foi contraditado (e contraditado em profundidade) por Jacob Gorender (ex-militante e respeitado inte- lectual de esquerda) no livro Combate nas Trevas (aliAs, nao citado na bibliografia de Coimbra). Logo, 6 necessArio ter algu- ma cautela com a mem6ria de frei Betto, checando-a em outras fontes. Betto 6 um excelente intellectual, mas suas verdades as vezes sAo enunciadas com fins utilitarios. Sua versao sobre a preparagco da emboscada da policia a Marighella e o papel de seus amigos reli- giosos na operaqgo teve a nitida intengco de encontrar uma said honrosa para os dominicanos, mas Gorender, refazendo a interpretacao dos fatos, apresentou uma perspective oposta e, no meu ponto de vis- ta (tamb6m testemunha desses fatos), mais convincente. Pode ser louvAvel e admiravel a posi- 9do participate de frei Betto na hist6ria, mas ela o deveria inibir de tentar ser, ao mesmo tempo, o historiador dos aconte- cimentos nos quais estA envolvido. Ele viajou para Bel6m, em 1964, com uma passage paga pelo Ministdrio da Educa- 9co e Cultura, chefiado pelo cat6lico Pau- lo de Tarso Santos. Nao para um event do MEC ou uma atividade relacionada As func9es institucionais do ministdrio, ou mesmo A causa t6cnica da educagao bra- sileira, mas para participar de um ato po- litico, o congress dos estudantes latino- americanos. Certamente Betto aceitou o bilhete, obtido pelo soci6logo Betinho, porque o movia a causa da transformagro social e da revolug9o. Com outros prop6- sitos (ainda que muito menos nobres, ou nada nobres), essa mesma promiscuidade com o governor serviria aos novos deten- tores do poder e seria criticada por seus opositores, como Betto. Se tivesse chega- "0 0 CONINUAAPAG8 "S do ao poder, o que mais frei Betto faria? O que esta fazendo e fard agora que acon- selha o president Lula ao p6 do ouvido? A prop6sito, 6 estranha a hist6ria que ele conta logo em seguida A acusacgo a dom Alberto. Diz que se apresentou no balcIo da companhia area no aeroporto para viajar, mas nao p6de embarcar por- que todos os atos do governor anterior ti- nham sido cancelados, inclusive o bilhe- te adreo que ele tinha na mao. Ainda as- sim, a funciondria da empresa permitiu que o frade, sem poder ir diretamente para o Rio de Janeiro, como estava escrito, e a despeito do carimbo de cancelamento, fizesse outro v6o, para Recife, onde bus- cou a protegao de outro bispo, dom H6l- der Camara, que tomou posse no cargo exatamente no dia de sua chegada A ca- pital pernambucana. Parece incrivel que um ato tao grave de traigao, como o que o arcebispo teria praticado, entregando seus subordinados (e protegidos em tese) aos carrascos, nao tenha tido um unico registro na imprensa e nenhum testemunho como o de frei Bet- to. Um dia depois de ter praticado esse ato vil, dom Alberto foi entrevistado pela Folha do Norte e fez esta declaragao, re- produzida na edigao de 3 de abril de 1964: "Pegamos a Jesus, o Salvador que ilumi- ne os vencedores da hora present para restabelecerem a ordem sem violencia ner vinganqas mesquinhas". E inegAvel o comportamento vacilan- te, inseguro ou atd em algum moment menos visivel covarde do arcebispo di- ante das viol6ncias que os militares esta- vam praticando contra o clero, as organi- zac6es religiosas e a comunidade cat6lica que nao se enquadravam nas regras da nova ordem. Dai o telegrama de protest que o padre Aloisio Neno mandou para o arcebispo, depois de ter sido preso e, ja solto, ver-se obrigado a deixar Beldm. Mas, no dia 8 de abril, dom Alberto de- clarou, atravds dojornal 0 Liberal, "nun- ca ter afirmado ser comunista seu irmdo pe. Aloisio da Silva Neno". Ou seja: esta- va em questao se dom Alberto havia ou nao chamado o padre Neno de comunista. Mas nao de haver pedido a prisao dele. Ainda no auge da onda repressive dos militares, dom Alberto incluiu no "Infor- mativo Arquidiocesano", publicado em 21 de abril, que controlava com mao de ferro, uma nota anunciando que a dire- c9o da Voz Catdlica, semanario editado pela prelazia de Macapa, "enviou tele- gramas ao Presidente da Republica e Ministro da Justiga, protestando contra a censura que o Governo do Territ6rio Fe- deral do Amapa estabeleceu sobre aque- lejornal, que sempre foi um paladino no combat ao comunismo". Um simples dedo-duro abrigaria essa nota, que equivale a uma solidariedade? Dom Alberto era e foi, at6 sua morte, em 1991, um conservador, por vezes um direitista, um anticomunista feroz, mas nao uma pessoa amoral, indigna, inescru- pulosa, capaz de qualquer ato de agres- sao aos divergentes ou mesmo adversA- rios, como pedir-lhes a prisio. Mesmo in- tegrando a ala governista da Igreja, era tido A esquerda de alguns dos que se con- sideravam vencedores em 1964. Num artigo escrito para a Folha do Norte, pu- blicado no dia 28 de abril, Paulo de Tar- so admite nao compreender, "embora sentindo, 6 que um Arcebispo confesse que ignora o que sobre o avango verme- Iho se passava no Pago Arquiepiscopal e no seu 'Lar do Sacerdote'". Essa manifestaCgo p6blica indica quan- tas presses o arcebispo deve ter sofrido, de gente ainda mais A direita de sua posi- gao, para que fosse al6m dos atos que in- dubitavelmente ele praticou, ao condenar posig5es de membros do clero, apoiar o golpe, exorcizar o governor anterior, abju- rar toda a postura classificivel de esquer- dista ou subversive. Como quase todas as principals autoridades eclesiAsticas naque- le moment no Brasil (dom Eugenio Sal- les, dom Vicente Scherer, dom Agnello Rossi), o arcebispo de Belm foi dubio, contemporizador, negociador e, em certo sentido, traidor dos compromissos evan- gdlicos e da lealdade que devia manter para com os perseguidos e violentados. Acuado entire os.que o queriam mais A direita e os que cobravam seu compromis- so pastoral, dentro e fora da Igreja, dom Alberto precisou seguidamente defender- se naqueles negros e tristes tempos de in- tolerAncia, abuso e violencia. Mas essas defesas, reproduzidas nosjornais da 6po- ca, nZo autorizam a conclusAo de Coim- bra, segundo o qual "Se o journal [A Pro- vincia do Pard] diz que ele se defended de todas as maneiras, o journal permit supor, inclusive, que ele delatou publi- camente seus padres". Talvez esse tipo de suposig~o caiba num libelo acusat6rio. E inaceitAvel, contudo, numa pesquisa hist6rica ou numa investi- gag~o jornalistica. Para alguns, chamar de comunista ou mandar prender pode ser a mesma coisa. Mas nao deve ser assim para algu6m que escreve um livro ou mesmo uma reportagem de journal. E precise que cada afirmativa e, especialmente, cada acusagAo tenha sua base em fatos, seja em provas como em evidencias muito fortes, passivel de demonstragco (e, naturalmente, contra- dita racional, 16gica). Nenhuma delas per- mite a Oswaldo Coimbra afirmar que dom Alberto "mandou prender seus padres". Seu livro 6 quase totalmente baseado emjornais, principalmente de margo e abril de 1964. Outras fontes de informa6oes fo- ram entrevistas com personagens da 6poca e uma s6rie de artigos publicados em 1979 em O Estado do Para. Essas materias sao provocativas e permitiram requentar temas que vinham sendo mantidos debaixo do tapete, mas elas foram escritas de mem6ria pelo dono dojornal nesse period, o advo- gado Octavio Avertano Rocha. Sofreram, portanto, como se diz, um vi6s do autor, que contou varios contos acrescentando seus pontos (ou vice-versa). Aldm disso, a pesquisa de Coimbra parece se ressentir da press. Ha erros e equivocos flagrantes. Na pagina 170, por exempio, ele estranha que A Provincia do Pard haja quebrado o "sigilo em que sem- pre eram mantidas as reunites do clero", noticiando tudo o que trataram os padres reunidos com dom Alberto no dia 7 de abril e, assim, fazendo ojogo do arcebis- po. Na pagina 171, entretanto, ele repro- duz mat6ria de outro journal, O Estado do Pard, sobre o mesmo assunto e com as mesmas informaCbes. Se houve quebra do sigilo (o que seria o "furo", nojargaojor- nalistico), os doisjornais a praticaram. Na reprodugco da conversa, alias, ojor- nal noticia que dom Alberto atribuiu a pri- sao de padre Neno a ele ter acompanhado estudantes estrangeiros, participants do mesmo congress que atraiu frei Betto, sob patrocinio do MEC. Os estudantes, neces- sitados de vistos para viajar, estavam sen- do perseguidos pelos militares, quando re- ceberam a ajuda de padre Neno. A press (ou desatengco) fez com que Coimbra chegasse a escrever: "A transfe- r8ncia de Benedito [Monteiro] para Be- 16m deu-se numa canoa". Benedito, o mais visado politico naquela 6poca, foi preso nas matas de Alenquer, a uns 900 ou mil quil6metros de Bel6m. Essas e outras lacunas nao tiram os m6- ritos do livro de Oswaldo Coimbra. Ele faz a sociedade se lembrar de que a avaliagao da hist6ria 6 continue e abrange vivos e mortos. Muitos ficaram indignados com o ataque do jomalista ataque a dom Alberto quando o arcebispo jA nao pode se defen- der. Pilatos j virou p6 ha muitos s6culos e continue a provocar apoios e repulsas todos os dias. A orelha de Adio permanece a ar- der, ainda que seja metaforicamente. Mas quando os vivos sio incapazes de se defen- der, os mortos Ihes servem de protegco. Todos sairam em defesa de dom Al- berto, mas ningudm se lembrou de cobrar, dos ainda vivos, o ato de indignidade que cometeram quando, deputados estaduais, cassaram um colega de parlamento (o mesmo Benedito Monteiro) por motivo torpe, em sessao especial convocada as pressas, com enredo previamente acerta- do. Com direito at6 a ajuda de custo extra, que dobrou o valor do salario mensal. Ou 18 milhhes de cruzeiros. Bem mais do que os 30 dinheiros de Judas. 1" QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Jornal Pessoal Sauda4io a duas grades mulheres Maria Helena Oliveira morreu as v6spe- ras de completar 80 anos, no mrs passado. Norma Barata teve a festa que merecia pela mesma data, que chegou ao seu calendirio dois meses antes. Dona Helena podia ter vivido bem mais. Talvez o cancer nao tives- se evoluido tanto nem tao rapidamente - se ela reagisse A altura. Mas dona Helena nao queria mais viver. Perdera, dois anos antes, o companheiro de caminhada ao Ion- go de mais de cinco d6cadas. A morte abre- viaria a separagao e restabeleceria a convi- v6ncia interrompida. Era o que dizia, entire lagrimas, inconformada com a perda. Norma perdeu o casamento quando uma mulher normal se teria deixado aba- ter. Mas ela, nio. Fez vestibular, freqiien- tou a graduagAo e recebeu o diploma de bibliotecAria. Nao para colocar o papel na moldura: logo se tornou uma t6cnica res- peitada no meio, al6m de uma lider incon- teste. Tudo o que acontecia no mundo da biblioteconomia comegava nela ou passa- va por sua avaliago. Ao se aposentar, jA com um curriculo respeitavel, se tornara um marco, uma refernncia, um norte no universe dos livros. Helena incorporava o modelo tradici- onal de mulher, esposa e mie. Praticava, no lar, um jogo de revezamento: da porta para fora o representante da familiar era o marido, a quem apoiava e sustentava do p6rtico de casa para dentro, dando razao a uma das maximas dessa concep9co: todo grande home tem uma grande mulher atras de si (As vezes, na cegueira do pre- conceito, deixamos de ver que o grande home era apenas a projegao da grande mulher, que se anulava para destacar o companheiro transparente. Era a mae dos freqientadores da casa, poucos, na verdade, apenas os que conse- guiam vencer a fachada de sisudez do marido, o coronel Jos6 Lopes de Oliveira, o furibundo e temido "peixe agulha", no- tabilizado no movimento military de 1964, do qual foi um dos executores, um tipico "jovem turco" do Ex6rcito. As vezes, che- gando de surpresa para meus confrontos verbais com o coronel, eu a provocava com uma frase traumatica: "nao tem nada para comer ai, dona Helena?" Nervosa, ela sumia na cozinha e voltava com um expe- dido lanche, feliz, apreciando a aplicagao do convidado sobre seu quitute. O casamento com o advogado e poeta Ruy Barata acabou sem que se ouvisse de dona Norma um lamento ou uma acusa- 9do. Continuou sendo um dos esteios para o maravilhoso e irrequieto amigo e com- panheiro, e para a familiar numerosa e rui- dosa, herdeira dos talents do casal. Nio deixou de comandar sua movimentada casa, um daqueles bangal6s de esquina do Umarizal que faziam a delicia deflaneurs e voyeurs da avenida Generalissimo Deo- doro, como fui desde a meninice. Ela foi para a luta externa, abrindo seu pr6prio caminho, conquistando, por amplo mere- cimento, o destaque, a admiragAo e o res- peito de tantos que compareceram A sua festa dos 80 anos, agradecidos por ela ser, ao mesmo tempo, uma rocha de resisten- cia e umjardim florido de ternuras. Helena e Norma podiam ter sido ad- versArias como foram, em certos momen- tos, seus maridos. O coronel Oliveira es- tava do lado dos vitoriosos, implacaveis depois de certo moment, e Ruy dos que foram derrotados, em 1964, sem terem tido a oportunidade de travar um just combat. Mas ambos freqiientavam um terreno de paz, de socializagAo das dife- rengas e mimetizagao das semelhangas, sob o teto da Livraria Jinkings, coman- dada pelo comunista de paz & amor (nao como um recurso de marketing politico) Raimundo Jinkings. Ele pr6prio um der- rotado e perseguido, Jinkings era o anfi- triao atencioso do antigo ferrabras, que poderia ter sido seu figadal inimigo, e o coronel um client ideal (porque compra- va muito, porque conhecia o que com- prava e porque dialogava com o livreiro de igual para igual). Ruy, com seu hu- mor e sua irreverEncia, era mais perigo- so. Suas tiradas eram totalmente impre- visiveis, al6m de incontrolaveis. Nao sei se algum dia Helena e Norma se encontraram, nem sei (porque tamb6m nao interessa) o que uma pensava da ou- tra. Promovo, nesta sala impressa, uma festa de palavras para lembrar a mem6ria da primeira e saudar a vida da segunda. Onde quer que Helena esteja agora, se esta em algum outro lugar que nao a cova na qual foi depositado seu corpo, tenho cer- teza de que seus meritos, multiplicados durante esta forma mais conventional e visivel de vida que temos, serAo plenamen- te reconhecidos. E ela os podera gozar na companhia da pessoa que buscou ao ir-se do meio de n6s. Quanto a Norma, que por muitos anos mais ela possa continuar a ser a energia boa e acolhedora que tem sido, uma fonte de paz e de calor para o amplo universe das pessoas que conquistou com sua forga de guerreira, mulher de fibra inquebrantavel. Viseira Um dos principals problems do ju- diciario paraense 6 o nepotismo. Varios magistrados nao se inibem na hora de colocar parents nos cargos comissiona- dos postos A sua disposig~o. Alguns pa- rentes, embora favorecidos pelo nepo- tismo, sio capazes e trabalham. Outros se escoram no nome. O vAcuo que abrem tem que ser preenchido atrav6s da con- tratagdo de gente disposta a trabalhar. E um 6nus a mais. Outro surge corn a aposentadoria do magistrado, no final da carreira. Ele se vai, mas os parents ficam. Ha uma acomoda- c9o de interesses nesse moment: o novo desembargador coloca seus protegidos sem perturbar a vida dos jA instalados em seus cabides. A viuva paga a conta dessa acomodag~o. O pfblico sofre as conseqii- encias de ser atendido por pessoas sem qualificacdo para as fun96es, que se con- sideram degraus acima do cidadao comum em fungao do sobrenome. Essa pratica costumeira ji nao tem a forga de passado recent, mas se o nepo- tismo foi requentado pelo mais novo de- sembargador, JoAo Maroja, a OAB, que o indicou pelo quinto constitutional, tem o dever de cobrar a responsabilidade do seu associado. Mas nao deve nem pode isold- lo, como se ele fosse caso unico e o mais grave nessa cornucopia de nepotismo. Se a OAB quer tirar os esqueletos do armArio ou levantar o tapete para retirar o sujo oculto, 6timo. Nesse caso, tem que se colocar a servigo de uma causa, esque- cendo quem vai atingir, assumindo a pr6- pria image dajustiga. Mas se vai tirar a venda para ver apenas a quem Ihe interes- sa ver, protegendo quem nao esta interes- sado em se mostrar, entao faz o jogo da vinganga, que Ihe fica muito mal. Jornal Pcssoal 1P QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Q Cartas A voz Penso, ao ler a materia "Para: sem voz" (Jornal Pes- soal, edigao da 2a quinzena de julho/2003), que caberia a per- gunta: quando foi que o Esta- do teve voz? Do institute de regiao colonizada o Para nun- ca escapou. Existem inclusive formas de apropriag~o que se mantam inalteradas desde a fase efetivamente colonial, tais como o latiffindio, o enclave, o trabalho escravo, a coleta e o aviamento, que convivem solidArias com formas moder- nas de exploragCo, como a exe- cutada pela Vale do Rio Doce, por exemplo. Ambas as formas sao de fato politicals de empobrecer a vizinhanga". No primeiro caso os motives do empobre- cimento sao 6bvios, no segun- do, nem tanto. Mesmo o Para modernn" 6 pobre, porque a expansao econ6mica sempre se faz acompanhar do aumen- to da exclusdo, como 6 a tra- dig9o da economic brasileira em geral. Isso ocorre porque o modelo de producgo 6 alta- mente concentrador e gerador de externalidades inexpressi- vas. Este modelo 6 avalizado e financiado por uma peque- na elite cuja attitude social e eleger governor demagogos e clientelistas, que vao executar a manutengio de seus privild- gios e do sistema que empo- brece os vizinhos. O poder public se legiti- ma no moment do voto, quando essa elite se associa com a "sociedade desorgani- zada", altamente suscetivel ao assistencialismo, e ignorante o suficiente para compreender a tram6ia, o esquema de infla- cao da pr6pria mis6ria que be- neficia meia duzia de bem nascidos. Trata-se da indistria da pobreza, o principal sub- produto do modelo centraliza- dor, que apesar do avango ex- ponencial, deprimindo a qua- lidade de vida, a cultural e as regras basicas da conviv6ncia civilizada, 6 financiada por essa sociedade espuria entire a elite a as favelas, atrav6s de porta-vozes hip6critas. Jader Barbalho e Jarbas Passarinho foram politicos de alguma projecgo national, Almir Gabriel e SimAo Jate- ne sao inexpressivos, mas em nenhum desses governor a trajet6ria da decad6ncia mo- dificou. Um governante com maior acesso ao Planalto nao fez diferente do que fez o outro, sem acesso nenhum. Porque a tal "luta pelo Pari" nao passa de farsa ideol6gi- ca para manter privil6gios e condig9es sociais inalterados. Para e Maranhdo sao irmros gemeos, s6 nao univitelinos, porque cada um 6 miseravel A sua maneira. A maior obra dos governor locais sempre foi o sucesso pessoal de seus integrantes e s6cios. A tal "municipalizagAo do desen- volvimento", por exemplo, 6 um novo nome para este tipo de "organizagco social". O que 6 precise 6 descons- truir o pacto social que estA ai, expressao political da armadi- lha da pobreza. Fazer a socie- dade entender que nenhuma regiao com 6 milhaes de ha- bitantes, um PIB pouco mai- or de 5 bilhoes de d6lares e sem fundamrntos econ6micos elementares, tern o control sobre o pr6prio future, no Ambito do modelo de explo- ra do em vig6ncia. E precise politizar a discussio em tor- no de um mundo em franca degradagCo. E precise banir os porta vozes do orgulho ufanis- ta de um povo humilhado, que rouba fios telef6nicos para comer, e colocar no lugar de- les quem seja capaz de pautar a discussion relevant. Romper a barreira do atraso, os impe- dimentos estruturais ao cres- cimento da renda, e tentar re- criar uma sociedade com um minimo dejustiga, de seguran- Ca e de civilidade. Passar por essa dificil eta- pa depend pouco da capaci- dade de transito dos governor locais nos gabinetes do Planal- to, e muito mais de sua postu- ra e comprometimento com as causes requeridas. Enquanto nao se estabelecer um link en- tre poder pfblico e sociedade, que cuspa fora o demag6gico, o assistencial, o clientelista, e passe a encarar a realidade corn o nivel de preocupagdo que merece, o Para sequer vai co- megar a enunciar o seu future. Antonio Ponte Souza Elite 0 Journal Pessoal n6mero 304 veio prenhe de mat6rias sobre o mastodonte "encla- ve" fincado no sul do territ6- rio paraense, que Ihe conso- me as entranhas sem a respec- tiva contrapartida econ6mica, por omissao consentida e in- compet6ncia do poder pibli- co local. Nao vou alongar-me neste aspect porque o texto sob o titulo "Min6rios: ciclo das oportunidades perdidas", foi muito cristalino. Por6m, discordo da insinuacgo ati- nente ao "despreparo da opi- niao publica. Mesmo que a populagco nao fosse privada dos esclarecimentos por par- te de certa imprensa de "se- cos & molhados" que voc8 acentuou, ela nao mudaria o curso dessa est6ria. Prefiro transferir esse 6nus direta- mente A elite intelectualiza- da, que fala muito de mudan- ga de base produtiva, de ver- ticalizagao industrial, de ge- ragao de emprego e renda e outras nomenclaturas acad&- micas menos votadas. Pois bem, ela se incrustou nos ga- binetes e secretaries do go- verno estadual e se perpe- tuou, independent das siglas vencedoras: PMDB, PSDB, PPS, PT; nao ha ideologia nem cor partidAria, serve a qualquer patrdo e prego. Rodolfo Lisboa Cerveira MINHARESPOSTA Os dois leitores, mas am- bos, t6m razdo, embora a ver- dade seja produto de suas duas razbes e de mais algu- mas outras. Se a sociedade paraense fosse bem informa- da e se dispusesse a fazer va- ler seus direitos, o peso de suas elites nao seria tao gran- de. Como a informagAo 6 um bem escasso e os que o pos- suem preferem nao partilha- lo, muitissimo pelo contra- rio, o papel das elites 6 mais important do que os te6ri- cos (e militants) dos movi- mentos de massa estAo dis- postos a conceder. Por isso, ter lideres influ- entes nacionalmente 6 um ele- mento a considerar no jogo politico das decisoes. O Pard teve poucos lideres nacionais em toda a sua hist6ria. Os mai- ores foram Lauro Sodr6, Jar- bas Passarinho e Jader Barba- Iho. Mesmo quando participa- ram do governor e tiveram al- guma participagao na estrutu- ra do poder, eles fizeram mui- to menos do que podiam. Fi- zeram pouco e fizeram mal. Para fazer muito e correta- mente, teriam que ter uma concepcgo da organizaCgo produtiva, social e political do Pard diferente da que possui- am. Se tivessem id6ias dife- rentes, teriam chegado tao alto na piramide do poder? Mas pensar libertariamente 6 fator impeditivo para ter di- mensdo national e peso efe- tivo no pais? Sao perguntas, que pouco se faz, em busca de respostas, que raramente se consegue. Mas importa continuar a ten- tar. Tanto no piano da compre- ensao quanto no que mais vale: o da transformagAo. Sen- do atualmente um Estado (e um territ6rio) colonial, estara o Para condenado a permane- cer sempre assim? Quem quiser (ou puder) que continue. 1- QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Jornal Pcssoal 0 imperador Marinho Uma das anotag9es do diArio de Getulio Vargas que mais me impressionou, nos dias inaugurals de sua primeira presidEncia, logo depois do movimento revolucionario de 1930, foi sobre uma audiencia concedida a Paulo Bittencourt, que foi Ihe pedir para o pai ser examinador no Banco do Brasil. Edmundo Bittencourt era o poderoso dono do Correio da Manhd, que fundara em 1901 e seria, at6 o golpe military de 1964, ojornal mais influence do pais (e, aparentemente, o mais indepen- dente na grande imprensa). A independencia de um grande veiculo da imprensa 6 ainda mais relative do que na teo- ria de Einstein. O que dizer de um imp6rio jornalistico, no qual ojornal 6 apenas um dos elements, nem sempre o de maior peso? Quando Edmundo foi a Getulio, no Rio, Assis Chateaubriand j havia mandado o pr6- prio irmao ao front revolucionario, no Rio Grande do Sul. Com duas misses: ver de per- to o que acontecia e servir de canal de acesso As informac9es para o future dono do poder. Um golpe no cravo, outro na ferradura. A ser- vigo do client explicit da publica9go, o lei- tor, e do s6cio nao declarado, o anunciante. O maior deles, mesmo quando nao parece, ainda 6 o governor, o federal mais do que to- dos os outros nos Estados e municipios. Chateaubriand nao teria construido o im- p6rio dos Diarios Associados se nao contas- se com a m.o amiga do ditador e president Gethlio Vargas. Getulio tamb6m deu sua aju- da a Edmundo e Paulo Bittencourt, mas am- bos tinham seus principios, por mais questi- onaveis que fossem. Mantiveram um gran- de e influence journal, mas s6. Chato tinha muitosjornais, emissoras de radio e, por fim, de televisao. Com essa mAquina de fazer poder, quis arrotar no jantar a independen- cia que vendera no almogo. O pr6prio Getulio, sagaz, fez de um ex- empregado de Chat6, Samuel Wainer, o n6i- cleo de um novo imprrio, que faliu por ter origem explicit numa chapa branca (o di- nheiro do contumaz Banco do Brasil) e des- dobramento num estr6ina. Getilio, por6m, nao teve tempo nem condicges de dar o gol- pe mortal em Chat6. Ja os militares tive- ram a faca, o queijo e a circunstAncia de Chat6 ter sofrido uma trombose quatro anos antes do golpe, morrendo sem ver a decre- tagao do AI-5. Quando a asa negra desse terrivel instru- mento de excecgo baixou sobre o Brasil, em dezembro de 1968, o parceiroji era o "com- panheiro jornalista" Roberto Marinho, o ti- tulo que ele mais prezava. Desde que se tor- nara herdeiro de Irineu Marinho (em 1925) e assumira o neg6cio deixado pelo pai (1931), depois de seis anos preparat6rios de trabalho como simples empregado, Roberto Marinho nao deixara de crescer. Mas lenta- mente e num universe limitado. 0 Globo era um journal carioca, favoreci- do pela condigao de capital federal do Rio de Janeiro, mas sem maior repercuss.o. Nao con- tava na hora de former opinido. Mas estava sempre disponivel para apoiar governor e im- pulsionar carreiras, fossem de pessoas fisi- cas ou juridicas. Roberto Marinho, met6di- co, trabalhador, aplicado e perspicaz, agia A sombra. Era desenvolto nos bastidores do poder. Viu long o alcance da television e es- tava no lugar certo, na hora certa, quando os militares, percebendo que os Diarios Associ- ados eram inconfiAveis, precisaram de um aliado decidido e competent num setor que Ihes seria vital: o das comunicaq6es. Sem esse impulse, a Rede Globo n.o se- ria o que 6 hoje (ou foi at6 se meter numa divida correspondent a duas vezes e meia o seu patrim6nio liquido. Mas na grandeza do imp6rio hi, sem duvida, o dedo de Roberto Marinho. Ele foi menos jornalista do que Chato, mas foi efetivamente jornalista (qua- lidade nao desprezivel num universe atual- mente dominado por quitandeiros da infor- magao). Foi, entretanto, muito mais empre- sario. Seus funcionArios trabalham sob um padrao professional claro, com suas lacunas no piano conceitual, mas o melhor do merca- do na regulagdo das relag9es de trabalho. Homem empreendedor, talvez Marinho, As v6speras dos 99 anos, tenha sido poupado dos dificeis moments que aguardam o imprrio Globo (global antes da globalizag9o chegar ao Brasil e sua porta de entrada no pais), que a longevidade e suas qualidades pessoais Ihe permitiram ver nascer e se consolidar. Ele nio cometeu alguns dos erros crassos do seu an- tecessor na unica corporagao de comunica- c9es da hist6ria brasileira capaz de rivalizar com a dele, mas seu poder tem a mesma ori- gem, da qual nao conseguiu se desfazer e um dia, por um motivo ou outro, cobrara a conta. A ser apresentada aos herdeiros, que ficam com a bata quente e o desafio de sobreviver ao day after, no qual se verao um diante do outro, sem a mediagao do seu maior, o que, certamente, Ihes destacara a inferioridade. Origem As mensagens de um falso Lucio Flavio Pinto para o Ob- servatdrio da Imprensa (ver Jornal Peossoal 304) foram transmitidas atrav6s de um ser- vidor da Editora Peixes, de Sao Paulo. A editor 6 responsive por vrias publica96es, dentre as quais a revista Terra, da qual 6 editor-contribuinte o jornalista Klester Cavalcanti. Como um dos acusados de inventar mat6rias no artigo a mim atribuido pelo falso L6- cio, Klester se interessou em levantar o assunto e foi quem informou os redatores do Ob- servat6rio da Imprensa, em Sao Paulo, que o tal artigo te- ria sido enviado atrav6s de um cibercaf6 de Bel6m, localiza- do as proximidades de meus dois domicilios. Essa informa- 9 o motivou o pessoal do OI a achar que, a despeito de mi- nhas categ6ricas negatives, eu havia escrito e mandado, dis- simuladamente, o artigo. Dois dias depois de ter indu- zido a "investigag9o" do Obser- vatdrio sobre mim, Klester reti- ficou a informag9o, atribuindo- a a um "lamentivel equivoco". A origem era Sao Paulo mesmo. Ainda assim, Alberto Dines, o principal responsavel pela revis- ta eletr6nica, especializada na analise da imprensa, me criticou por haver difundido o inciden- te. Classificou-me de reinciden- te em erro. O primeiro teria sido cometido atrav6s da resenha que escrevi sobre um livro de Klester, divulgada pelo pr6prio Observatdrio. Nessa resenha apontei inconsistEncias na re- constituigao de um seqiiestro que ele alegou haver sofrido, em margo de 2000, quando era correspondent da revista Veja em Belem. Klester me atacou atrav6s de uma rede de jorna- listas ambientalistas na internet, mas nao mandou nenhuma res- posta para o OI. Um perito, atrav6s de rastre- amento independent, estabele- ceu a conex.o das mensagens transmitidas pelo falso Lucio, uma delas com o artigo sobre os Jayson Blair brasileiros (c6- pias do jornalista do New York Times que inventava suas ma- t6rias), com o servidor da Edi- tora Peixes. Mas nio p6de che- gar ao fraudador porque A cen- tral eletr6nica estao conectados 180 terminals de computadores e o pessoal da informAtica da editor alegou nao possuir ele- mentos t6cnicos para identificar a origem individual das men- sagens, ou por nao querer for- necer a informagio. Segundo o perito, somente atrav6s de uma intervengio nas maquinas seria possivel con- cluir o trabalho. Mas tal inter- vengdo depend de mandado judicial, a ser cumprido por pe- rito dojuiz, o que iria requerer uma a9go na comarca de Slo Paulo, o foro competent para apreciar a questao. Por enquanto, satisfago-me no ponto em que cheguei: o ni- nho do suspeito, onde foi con- cebido o ovo da serpente. Journal Pessoal 1' QUINZENA/AGOSTO DE 2003 11 M E M -ORIA -DO COTIDIANO Congress Eucaristico: meio seculo Meio s6culo atrAs Belem abri- gou o VI Congresso Eucaristico Nacional. Em 1953 (ano da gran- de enchente do rio Amazonas), foi um acontecimento. O Para ti- nha entio 1.123.273 habitantes (hoje tem seis vezes mais), dos quais 1.088.863 se declaravam "cat6licos romanos" (os protes- tantes eram menos de 25 mil e os espiritas nao chegavam a 3 mil). Bel6m, que completara 337 anos de fundacao, tinha 255 mil habi- tantes, as mulheres somando 15 mil a mais do que os homes. As pessoas com mais de 15 anos de idade que sabiam ler e escrever no Pard (325 mil) eram apenas um pouco mais do que as analfa- betas (319 mil). A capital dos paraenses, no ano do congress eucaristico, tinha 10 pontos de estacionamento, tr6s dos quais na Praqa e Banco Nacional Ultramarino). A cidade tinha apenas tr6s bar- bearias de categoria para homes (Grande Hotel, Avenida e Central) e 1 sales de beleza para as mu- lheres. Dispunha de sete lojas de artigos regionais (como a Casa Amazonia e a Perfumaria Flora). Contava com sete hotdis e pens6es: Grande Hotel, Central Hotel, Ave- nida Hotel, Hotel America, Hotel Coelho, Hotel Nova America, Pen- sao Suissa (assim mesmo) e Ro- tiusserie Suisse. Tinha 11 cinemas: Olimpia, Moderno, Guarani, Independencia, Iracema, Iris, Poeira, Popular, Rex, Sao JoAo e Universal. Os clubes tamb6m eram 11: Assembl6ia Pa- raense, Associaqlo Recreativa Bancrdvea, Clube do Remo, Pais- sandu Esporte Clube, Para Clube, Tuna Luso Comercial (depois Bra- sileira), Cedro Esporte Clube, Li- berto Esporte Clube, Sao Domin- gos Esporte Clube, SatSlite Espor- te Clube e Sete de Setembro Es- porte Clube. Operavam na cidade quatro companhias de aviaco: Panair do Brasil, Cruzeiro do Sul, Ae- rovias Brasil e Loide Adreo Na- cional. JA as empresas maritimas eram sete: o Servico de Navega- cao do Estado, Snapp, Booth, Costeira, Lamport & Holt Line, Loide Brasileiro e Moore McCor- mack. Nas comunicaq6es telegrA- ficas, al6m dos Correios e Tel&- grafos, havia a RAdio Internaci- onal e a Western Telegraph. Sete paises possuiam representaqao consular: Estados Unidos, Fran- qa, ItAlia, Portugal, Inglaterra, M6xico e Venezuela. Os campos de futebol profissi- onal eram os do Remo, Paissandu e Tuna. Quadras de basquetebol e v6lei eram poucas: Remo, Paissan- du, Escoteiros e Quartel General da 8a Regilo Militar. Quatro sedes nAuticas: Remo, Paissandu, Tuna e Recreativa. Apenas cinco estac6es de ve- raneio eram indicadas: Icoaraci, Outeiro, Mosqueiro, Salinas e Soure. Uma viagem de 6nibus de Beldm para Salinas durava oito horas nessa 6poca. Podia-se bater fotografias nos fotos Amaz6nia, Carvalho, Elite, Fidanza, Leite, Mendonca, Naza- rd e Oliveira. A rede de hospitals e casas de sailde era integrada pelo hospital da Aeronautica, D. Luiz I, Domingos Freire, Juliano Mo- reira, Maritimos, Militar, Belmm, Pronto Socorro, Naval, Sao Sebas- tiao e Santa Casa. Circulavam os jornais A Pro- vincia do Para, A Vanguarda, Fo- lha do Norte, Folha Vespertina, O Imparcial, Flash, O Estado do Para, O Liberal e A Vanguarda IUitima Exibicl do Monumei.'al Filme de Sensaw o X. >I-. -lAM II U rKoLa4".I "TitWCO Al-I-rhimdeU*L L "lt* ( u PUBLICIDADE Gilda no Para Quem nao se apaixonou por Gilda (Rita Hayworth), quando ela chegou as telas de cinema de Beldm, em 1947? E quem nao invejou o poder de Glenn Ford, no famoso filme de Charles Vidor? Antes de entrar no "escurinho do cinema" e ser enfeitigado pela trama exibida na tela, o espectador ji experimentava as primeiras sensaq es diante do cartaz do filme, preparado com requinte e publicado em generosos espagos que Ihes eram reservados nas piginas dejornal. Era uma au- tentica avant-premidre impressa, como esta, a service da empresa Car- doso & Lopes, proprietAria do Cinema Vit6ria, na Pedreira. Aldm de Gilda, o "filme sensagao", o program era finalizado com Trdgico dlibi, um "filme de mistdrios", por apenas tres cruzeiros a entrada. Ah, sim, o cartaz prometia: "Agora eles sabem o que eu sou", diria Gilda. Era s6 comparecer A bilheteria, pagar e partilhar o se- gredo com quem ja tinha visto a inesquecivel Gilda. , LrwT1 Como era bom ver-o-peso Como era muito mais bonito o Ver-o-Peso dos nossos pais e av6s, nao 6 mesmo? Com espagos livres, era uma das mais agradaveis vizi- nhangas de porto que ja houve numa cidade, impedindo que a tipica pai- sagem das docas predominasse. Mesmo a reform de Edmilson Rodri- gues nao recomp6s esse cenArio nem o substituiu por algo melhor, muito pelo contrArio. Mas o problema j nAo 6 mais de arquitetura, engenharia | ou inventive humana: 6 o resultado da massificaiao nivelada por baixo, da deterioraqlo das condiq es de vida, desse tal de "progreqo". BPP k-f ^ fS-~fSW7 |
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