Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00255
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00255

Full Text





ornal Pessoal


IJA AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
^^^^^Si^^S^^^?^^^^^:^^\\\~\\\\\


1I QUINZENA
AGOSTO
DE 2003


GUERRA


ATIN AMERCAN COLLECTION
UNIVERSITY OF FLOR\DA


0 public vai ganhar?
A maior empresa do Para e o mais poderoso grupo de comunicagao est&o em
guerra aberta. Mas a sociedade e que podera ganhar se dessa dispute resultar um
maior compromisso da Companhia Vale do Rio Doce com o Estado e do grupo
Liberal com a informagdo. Por faltarem a ambos identidade com a verdade, por
enquanto essa 6 uma briga sem mocinhos pelo meio.


S e fosse na epoca da escravi-
dao, seria possivel dizer que
se trata de uma tipica briga
de brancos. Hoje, numa lin-
guagem popular, caberia a
expressAo "briga de cachorro grande"
para a dispute entire a Companhia Vale
do Rio Doce, a principal empresa em atu-


agAo no Pard e uma das maiores do pais,
e o grupo Liberal, dono da maior rede de
comunicagao do norte do pais. O trunfo
da mineradora 6 o seu milionario caixa.
O da empresa jornalistica 6 sua capaci-
dade de mobilizar a opinido public. A
guerra, que comegou com uma troca de
SI


ANO XVI
Ng 306
R$ 3,00


i










farpas verbais e acabou chegando ao ju-
diciArio, promete ser total.
A situag9o 6 inusitada para grande par-
te dos espectadores dessa confrontagdo.
Desde que as Organiza96es Romulo Mai-
orana se transformaram num impprio da
informag9o, poucos se atreveram a en-
frenta-las. Esses poucos, geralmente po-
liticos, acabaram compondo cor seus
inimigos da v6spera, alguns mudando
completamente de casaca vermelha na
v6spera, azul hoje. Nenhuma empresa
havia encarado o desafio assumido ago-
ra pela CVRD: ir para o campo de bata-
lha contra a familiar Maiorana.
No m6s passado a Vale do Rio Doce
ajuizou, na 8a vara civel do f6rum de Be-
16m, uma agao de indenizag9o por danos
morais contra a Delta Publicidade, respon-
sAvel pelo journal O Liberal. Alegou estar
sendo vitima de uma campanha de difama-
9~o, desencadeada corn o prop6sito de aba-
lar sua imagem. Nos (iltimos tres meses,
sem interrupg9o, 24 materias teriam sido
publicadas no journal contra a empresa.
Nao conseguindo abrigo para seus es-
clarecimentos e A merc6 de um noticia-
rio tendencioso, s6 teria restado A Vale a
alternative judicial para estancar a san-
gria no seu patrim6nio, decorrente do sis-
tematico noticidrio negative. A indeniza-
9ao requerida, que o pr6prio juizo fica-
ria de arbitrar, ao final da demand, ser-
viria de fator inibidor ao prosseguimen-
to da campanha.
O grupo Liberal reagiu cor manche-
tes de primeira pagina e uma ofensiva
ainda mais aberta. Classificou a agao da
Vale de intimidat6ria, proposta com o
objetivo de impedir o journal de dar um
tratamento critic ao acompanhamento
das atividades da mineradora. Diariamen-
te passou a publicar manifesta96es de
solidariedade As Organiza9oes Romulo
Maiorana e notas de rep6dio A Vale.
Nesse inicio de guerra a vantage 6
nitidamente da empresajornalistica. Nos
20 dias que decorreram entire a proposi-
tura da ag~o e a citagdo do r6u houve um
fato novo: o an6ncio de que a fabrica de
places de ago da CVRD com s6cios chi-
neses, investimento de mais de um bilhdo
de d6lares, ficard no MaranhAo e nao no
Para (ver mat6ria a respeito nesta edi-
go). A ma noticia foi dada simultanea-
mente ao anincio da a9go da empresa
contra a rede de comunicag9o mais im-
portante do Estado.
Ojornal acentuou a associagdo: o mal
que a Vale estava fazendo atingia tanto o


Estado quanto a sua principal via de in-
formagao. O m6vel seria o mesmo: para
cercear o conhecimento das decis6es, a
empresa estava atacando o veiculo dos
interesses da sociedade. Ou seja: a Vale
matava a cobra e escondia o pau. Por que-
rer mostrar a verdade, o grupo Liberal
estava sendo punido.
A primeira batalha da guerra anunci-
ada foi vencida pela empresa dos Maio-
rana porque a opinido p6blica paraense
incorporou o convencimento alardeado
pelo journal. Mesmo sendo uma poderosa
corporagao de neg6cios, responsavel por
16% do PIB paraense (e por 20% do sal-
do liquid da balanga commercial brasilei-
ra), a capacidade de expressed da CVRD
junto ao public local 6 incomparavel-
mente inferior A de O Liberal.
Alem disso, cultivar uma boa image
no ParA nunca foi um objetivo estrat6gi-
co da Vale, principalmente ao long da
gestao de Roger Agnelli, nesse aspect
sutil como um trator (que ele imagine
estar blindado pelas boas relacges que
mant6m com o Planalto petista, anfitrido
contumaz que tem sido do ministry Jos6
Dirceu, o poderoso chefe da casa civil
do president Lula).
Mas a verdade nao 6 a que o journal
proclama nas suas edi96es diArias, reple-
tas de adjetivos e anemicas de informa-
9bes. Nem o grupo Liberal 6 o mocinho
nem a CVRD 6 o bandido descrito no
cartaz de procura-se pelo auto-proclama-
do defensor dos pobres e oprimidos.
Em primeiro lugar, a acao da Vale nao
configura nenhum atentado A liberdade
de imprensa. A empresa agiu completa-
mente dentro da ordem legal ao recorrer
A justiga. O contencioso garante amplo
direito de defesa e varios graus de recur-
so at6 o trAnsito emjulgado da demand,
com a condenacgo ou a absolvigdo do r6u.
O process admite prova e contraprova
e deverA ser demorado at6 a palavra final
do julgador, certamente no Ambito do
Supremo Tribunal Federal, em Brasilia,
por envolver mat6ria constitutional, ji
pr6-questionada.
Nao 6 correto afirmar que a Vale esta
tentando calar as Organiza9oes Romulo
Maiorana. A programagdo publicitaria da
empresa nao excluiu da midia os veiculos
das ORM, que, mesmo j litigando com a
empresa, a ela apresentaram um piano de
midia no valor de 6 milh6es de reais para
o patrocinio de um campeonato de v6lei e
futebol amador. As ORM ainda nao so-
freram nenhum tipo de restrigdo.
A Vale entrou najustiga depois de ter
encaminhado notas de esclarecimento ge-


n6ricas e cartas de resposta especifica-
mente enderegadas ao journal O Liberal.
Logo, esgotou a instancia administrative.
Podia ter ficado nesse nive como prati-
camente todos os interloc tores do gru-
po Liberal, mas, declarando se insatisfeita
corn a acolhida as suas anifestac6es,
decidiu ir em frente no lit gio. A lei Ihe
assegura esse direito, que franquia ple-
namente democratic.
A consistencia dos argu entos expos-
tos pelos advogados da le na petigao
inicial vai ser posta A pro a na instrug9o
processual. Frederico Co lho de Souza,
advogado do grupo Liber I, j contestou
a ag5o da CVRD, negand que haja uma
campanha contra a Vale, argumentando
que o direito de resposta a mineradora
foi acolhido e contestando a existencia de
prejuizos a reparar, entire utros pontos.
O grupo Liberal estai m seu direito
de relatar os fatos e apres ntar a posigao
da empresa sobre a de anda judicial.
Mas a cobertura que de ao aconteci-
mento guard algum gra de proporgao
com o pr6prio fato? O j rnal exp6s os
fatos conforme Ihe impa um tratamen-
to jornalistico normal?
A resposta 6 nao. O g upo Liberal se
consider o mais igual d ntre os iguais,
com direito absolute sob e o control da
informacgo (e sem sofre as conseqiion-
cias de nao cumprir sua tarefa). A dire-
triz editorial que usa pa a tratar dos as-
suntos do seu interesse direto nao 6 a
mesma que aplica a tod s os demais. E
acima do compromisso ;om a informa-
9Ao tem estado o interest e commercial da
empresa. O primeiro co promisso, que
legitima uma empresa j rnalistica, vem
sendo progressivament sufocado pelo
segundo, o que transfer a a redagio num
mero balcao de neg6ci s. Tern sido as-
sim ha muitos anos.
Na eleigao de 1990, por exemplo, a
empresa apoiou a cand datura do atual
vereador Sahid Xerfan ao governor do
Estado. Seu opositor, atual deputado
federal Jader Barbalh foi apresenta-
do, durante todo o per odo da campa-
nha eleitoral, como um acabado ladrao,
atacado em mat6rias diarias, totalmen-
te editorializadas.
Decidida a eleiCgo rm favor de Ja-
der, seu nome sumiu o noticiario do
grupo Liberal. Empos ado, ele foi tra-
tado anonimamente como "o governa-
dor". Depois seu nome comegou a apa-
recer de novo, mas s6 nas paginas in-
ternas do journal. Mais um tempo e ja
era citado por inteiro n primeira pagi-
na, sua fotografia vol ou a aparecer e

1' QUINZENA/AGOSTO )E 203 Jornal Pessoal


el%








logo em seguida a cobertura se norma-
lizou, sem qualquer restrigao, muito
pelo contrario.
0 journal publicou um editorial para
explicar ao seu leitor as razbes da mu-
danga de tratamento? Pelo menos uma
nota da redagao registrou a transforma-
9Co? Nada. O inico e decisive sinal
podia ser percebido na propaganda ofi-
cial. A media que ela foi crescendo, a
boa vontade do grupo Liberal a acom-
panhou. Relag9o evidence de causa e
efeito. O ladrAo da v6spera passara a ser
o estadista do dia seguinte. Como nenhu-
ma explicagAo foi dada ao distinto p6-
blico sobre a metamorfose, a carapuga
podia ser colocada de volta a qualquer
moment, bastando as moedas deixarem
de tilintar nos cofres da empresa.
Acostumado a ignorar a opiniAo pi-
blica e a mudar de attitude editorial con-
forme os interesses comerciais ou ca-
prichos pessoais, o grupo Liberal rea-
giu com estardalhago semelhante ao do
caso atual da CVRD quando a Rede
Celpa se recusou a patrocinar o Para
Folia, promogao da corporagao, e o
Basa publicou apenas uma versdo resu-
mida do seu balango. Seguiram-se edi-
torial de primeira pagina, mat6rias de
denuncia, enquetes agressivas, cartas
indignadas dos alpinistas de sempre,
atris do calor da exposigco piblica.
Uma vez atendido o interesse comerci-
al, voltou a cobertura de antes, oficiali-
sta, absorvedora de press-releases, de-
satenta, incomplete, incompetent. A
informagCo virou adorno na empresa de
informagao, quando ndo gazua.
A pr6pria Vale j experimentou essa
relagao ao suspender o patrocinio do Sa-
lao Arte Para, anos atras. Depois de ma-
t6rias sucessivas contra a empresa, aca-
bou cedendo e aceitou continuar a de-
sempenhar o papel que o grupo Liberal
Ihe impunha. Da mesma forma, assumiu
o patrocinio do program "Andando
pelo Para", capitaneado por Romulo
Maiorana Jr (sintomaticamente, 6 suce-
dida agora pela Rede Celpa).
A midia do program podia ser con-
siderada interessante e comercialmen-
te compensadora pelo estrito Angulo da
divulgagdo de mensagens promocionais
da empresa nos veiculos das ORM. Mas
a outra banda do program, com as an-
dangas de Romulo Jr. & troupe, sua in-
vestida sobre as prefeituras dos muni-
cipios que se dignou visitar e, sobretu-
do, suas confusas pretens6es political,
eram um complicador para uma empre-
sa como a CVRD. Rominho, apesar de


seu poder, esta muito long de ser uma
unanimidade no Pard ou de ser classifi-
cAvel como um benefattore do Estado
(para usar uma expressao que estaria ao
alcance do pai, cuja familiar era origi-
nAria do sul da Italia).
Em 2001 o grupo Liberal apresentou
mais uma conta do "Andando pelo
Para". A Vale pagou, em julho daquele
ano, duas duplicatas de uma s6 vez, no
valor de 800 mil reais. Mas o Liberal
acrescentou mais uma parcela de R$ 400
mil. A Vale nao concordou. O Liberal
emitiu entao, unilateralmente, uma ter-
ceira duplicate, com vencimento ocor-
rendo tr6s meses antes da data prevista
na programagao apresentada do "An-
dando". Em agosto do ano seguinte o
director do grupo Liberal, Jodo Pojucam
de Moraes, lembrou, em oficio, que a
divida continuava em aberto.
Em fevereiro deste ano, 20 meses de-
pois, a duplicate foi apresentada para
protest. A Vale foi notificada atrav6s
de uma estagiaria, sem poderes para re-
presentar a empresa, que alega nao ter
tido ciencia do protest. S6 foi regula-
mente intimada ja da agao monit6ria,
proposta em maio pelo grupo Liberal
para obter, pela viajudicial, o pagamen-
to reclamado (ji entlo, com os acr6sci-
mos e atualizag5es, 50% maior, no va-
lor de R$ 613 mil).
A Vale contestou a agdo e ao mesmo
tempo entrou com uma cautelar (para
desconstituir o protesto, na 18a vara ci-
vel do f6rum de Bel6m, alegando que o
titulo apresentado 6 frio, por nao ter o
seu aceite, nao estar sustentado num
contrato e por nao ter havido qualquer
contraprestacgo de serving (ou a efeti-
va prestagdo do servigo nao ter sido de-
monstrada), o que caracterizaria "enri-
quecimento sem causa" por parte da
Delta Publicidade. A CVRD pediu limi-
narmente o cancelamento do protest,
que estaria Ihe causando danos irrepa-
raveis (a impede de ter relag6es comer-
ciais cor 6rgaos p6blicos, por exem-
plo), mas o juiz Gabriel Costa Ribeiro
preferiu ouvir a contestag~o da outra
parte antes de decidir sobre a liminar.
Al6m de adotar rotineiramente esse
comportamento, que coloca a divulgagio
de informagres a servigo de seus objeti-
vos comerciais, o grupo Liberal compro-
mete sua legitimidade como 6rgao de re-
presentaCgo da sociedade por sua pr6pria
linha editorial. E diretriz da empresa nao
reconhecer seus erros. Nao s6 nao admi-
te errar, como deixa de acolher as mani-
festag6es dos que a ela se dirigem para


apontar esses erros ou defender-se de
acusagFes recebidas. A liberdade de im-
prensa 6 uma arma que os Maiorana
querem usar a seu favor, mas rejeitam
quando 6 esgrimida por terceiros con-
tra eles. O grupo s6 6 liberal no titulo.
Quantas cartas remetidas para a re-
dacgo, no exercicio do direito de res-
posta, nao foram parar na lata de lixo,
sem o menor respeito ao missivista?
Quantas pessoas nao entraram na ge-
ladeira dos veiculos de comunicagao
da empresa por serem desafetos de al-
gum dos Maiorana? Quantos tiveram
que engolir mat6rias claramente ma-
nipuladas por nao terem o direito de
contradita-las ou porque as boas gra-
gas dependiam da passage pelo de-
partamento commercial?
A subordinagio da dimensaojorna-
listica da empresa aos seus neg6cios
fica perfeitamente clara quando, a co-
bertura sistemitica e critical, segue-se
o panegirico ou o silencio, tAo logo a
exigencia commercial 6 atendida. Ou,
quando hA a relutincia em ceder, os
ataques se sucederem at6 que o outro
lado volta a se sujeitar A vontade da
corporagio de comunica~ao.
Esta 6 a primeira vez que uma em-
presa commercial tem uma attitude dife-
rente. A Vale nao apenas se recusou a
pagar o que o grupo Liberal Ihe cobrou
como sendo a ultima parcela do "An-
dando pelo Para", mas tamb6m, em se-
guida a propositura da acao de cobran-
Ca, reagiu na mesma moeda, ingressan-
do em juizo cor uma cautelar contra a
monit6ria e uma aqgo de reparagao de
danos morais contra o grupo Liberal.
Independentemente do resultado das
duas brigas judiciais (que, evidente-
mente, tme motivagao conexa), a novi-
dade da reag~o 6 benfazeja para o es-
clarecimento da opiniao pfiblica.
Mesmo sendo vitima de tanta ma-
nipulag5o, a sociedade paraense jA
sabe: a verdade s6 costuma emergir
quando os que a produzem ou mono-
polizam brigam entire si. A verdade
surgira a partir do que um disser do
outro, mas certamente estara al6m do
que um e outro dizem e ainda dirAo.
Estara num ponto intermediArio entire
as posi96es dos contendores, se, nes-
sa terceira posigao, de equilibrio, al-
gu6m for capaz de ponderar o que for
dito pelo crit6rio da verdade: os fatos.
Como em boa briga de cachorro
grande, espera-se que quem for podre
se quebre para que possa haver uma
verdadeira limpeza no ambiente.


Jornal Pessoal 1 QUINZENA/AGOSTO DE 2003 2










Placas vao para Sao Li


ils:


Sconcluso do estudo realizado pela
Natrontec e a Macrotempo, anun-
iada na semana passada, de que
Sao Luis do Maranhao 6 o melhor lugar
para a instalagAo da primeira usina de pla-
cas de ago no norte do Brasil, significa o
ponto final na hist6ria da siderurgia no
ParA? O Estado tern a melhor jazida de
min6rio de ferro que existe no planet,
localizada na provincia mineral de Cara-
jAs. Mas ate agora o inico pass adiante
na transformagao da mat6ria prima, um
quarto de s6culo depois de iniciada a mi-
neragCo do ferro, foi dado pelas cinco usi-
nas de gusa implantadas no distrito in-
dustrial de MarabA.
Desde o ano passado, a primeira pe-
lotizadora de ferro, que faz a agregagao
do min6rio fino, funciona em Sao Luis.
Ela 6 uma das tr6s maiores usinas depe-
llets do pais, com capacidade de produ-
gdo de seis milh6es de toneladas por ano.
Pelotas de ferro e min6rio granulado sao
dois dos insumos para a fabricagao de
chapas de ago, que representam um es-
tagio mais avangado na industrializacgo.
Se defender do estudo realizado por en-
comenda da Companhia Vale do Rio
Doce, a primeira fabrica de chapas, em
sociedade com os chineses, tamb6m fi-
cara na capital maranhense, produzindo
3,7 milh6es de toneladas anuais. A ou-
tra siderfirgica, com metade do tamanho
da de Sao Luis, esta surgindo ao lado
do porto de Pec6m, no Ceara, a mais
nova do Nordeste, mas tamb6m utilizan-
do o min6rio de CarajAs.
Estariam ai as provas de uma cons-
piragao contra o Para, atestando a in-
competencia de suas elites e uma com-
pulsiva ma-vontade contra o Estado por
parte do agent por tras de todas essas
iniciativas, a CVRD?
Por interesse pr6prio, s6 casualmente
coincidindo (ou tentando fazer coincidir)
com os interesses do Estado, o grupo Li-
beral responded afirmativamente, puxan-
do (ou provocando) a reagao da opiniao
p6blica local. Sim, proclama ojornal: ha
uma conspiragao e quem a comanda 6 a
CVRD. Levanta-se contra esse atentado
um coro de pessoas de boa intengao, gui-
adas pelos oportunistas de sempre.
E grave a ameaga que paira sobre o
future do Para, disso nAo ha qualquer d6i-
vida, se o Estado atuar apenas no ponto
de partida do process siderurgico (e,


com isso, continuar a crescer como rabo
de cavalo: para baixo), condenando-se a
ser um mero centro minerador e um for-
necedor de semi-elaborados (ainda por
cima desonerados de impostos quando di-
rigidos A exportag~o), que geram pouco
emprego, renda residual e quase nenhum
imposto local.
Mas s6 se pode atuar competente-
mente contra essa restrigao compre-
endendo a situaqgo. Agir por mero im-
pulso emotional 6 condenar-se ao ris-
co de ficar com a brocha na mao
quando for retirada a
escada. Isto 6: quando
os interesses dos mani- N r
puladores de informa-
9ges forem satisfeitos t-e
e eles voltarem A sua
attitude anterior, de -
omissao e coniv6ncia,
ou de pirataria. l-
O primeiro ponto a
esclarecer o trabalho da
Natrontec. Inicialmente
essa empresa de consul-
toria foi contratada pela I [I
Vale do Rio Doce para
estudar a melhor locali- 5
zagao da usina de places
que a empresa pretend f t i
viabilizar, atraindo para
o empreendimento a gi- tler
gante chinesa Baosteel,
hoje a maior comprado- u le
ra individual de min6rio
de ferro de CarajAs e a
maior siderurgica da Chi- N Bn
na. Na verdade, o que a
Natrontec fez foi subme-
ter a teste uma hip6tese
de trabalho evidence: que o melhor lugar
era (e 6) no litoral maranhense, ao lado
do porto da Ponta da Madeira, um dos
melhores do mundo.
Con a reagao (retardada, como de re-
gra) no ParA a essa pr6via, outra consul-
tora, a Macrotempo, do economist Lu-
ciano Coutinho, foi contratada para
acompanhar os estudos e audita-los. A
indicagCo foi do governor paraense, do
qual a Macrotempo passou a ser a repre-
sentante, mas o dinheiro saiu dos robus-
tos cofres da CVRD. Uma relagCo pro-
miscua, mas a relagAo padrAo de sempre.
A administracgo estadual tem sido su-
jeita a chuvas e trovoadas, mudando de


I


postura conforme o tem
conveniencias) do chef
mas sempre repassandc
Vale, objeto de exaltagi
mentos e de furor em o
metros objetivos, explic
O que nao ha 6 indepen
9Ao de corpos.
A despeito dessa ori
tedora, o estudo confirm
cial, apontando-lhe os
Luis represent uma vai
150 milhoes de d6lare
Conde
milh6e
confor
vestim


o custi
no VPI
te Liqu
para o
util da
anos, a
method(
cida un


0S


I


Pod
guma
nipulag
Depois
atengac
s itr d6vida
foi qua
;e d-e mento
usina
] [ e event
current
que a
na Area
especial
da que
mineral
0 estudo assegura qu
sistema existente garanti
to A demand da fAbrics
milh6es de litros por hora
convicgao sobre a possib
mento sem novos invest
tando conseqii6ncias par
to da popula~go), que d
empresa sideruirgica e n
nAria do servigo.
Duividas como essa,
cia de contabilizagAo pa
ental e nenhuma indicaS
sibilidade de surgiment
fonte de calcario que nE
estudo, muito cara, pod


peramento (e as
fe do executive,
a conta para a
o em certos mo-
utros, sem pard-
i os, confiaveis.
d"ncia e separa-

g m comprome-
a a hip6tese ini-
nfimeros. Sao
n agem de quase
s sobre Vila do
de US$ 320
s sobre Maraba,
ne o valor do in-
ento realizado e
eio. resultando
S(Valor Presen-
do), calculado
empo de vida
fibrica, de 20
partir de uma
)ogia reconhe-
versalmente.
ter havido al-
istorgao e ma-
o no trabalho?
de ter lido com
o relat6rio, a
que me restou
to ao abasteci-
e agua para a
m Sao Luis e
is custos de-
s da poluig9o
abrica causara
de influ8ncia,
lmente atrav6s
ma de carvao

Sa ampliagao do
rd o atendimen-
, de quase dois
, mas fiquei sem
lidade de supri-
mentos (acarre-
o abastecimen-
,veriam caber a
io A concessio-

iais a inexist6n-
*a o custo ambi-
ao sobre a pos-
o de uma nova
o a definida no
;riam afetar em


A 1. QUINZENA/AGOSTO IE 2003 Joral Pessoal










fim do sonho siderurgico?


profundidade a grandeza dos numeros
finals da andlise? Nao saberia dizer. Mas
fica a questao para quem de direito.
Admitida a consist6ncia e corregco do
trabalho, restaria outra questao a ser res-
pondida: o governor do Para pode modi-
ficar essa correlagao de fatores para dar
maior capacidade de atragao do investi-
mento para as duas hip6teses locacionais
no Estado? Pela grande desvantagem que
apresenta, Maraba esta fora da dispute.
Mas e Vila do Conde? Seria possivel anu-
lar os 150 milhaes de d6lares de vanta-
gem da capital maranhense sobre o dis-
trito industrial de Vila do Conde?
Sem um exame mais detalhado, a res-
posta 6 nao. O estudo da Natrontec des-
considerou a necessidade de dragar o ca-
nal de acesso ao porto, optando por na-
vios de menor tonelagem, da classes Pa-
namax, ao inv6s dos maiores, tipo Cape
Size. Ou seja: nao problematizou o exa-
me locacional de Vila do Conde. A Anica
alteragco significativa de custos poderia
ser proporcionada pela navegabilidade
plena do rio Tocantins, com a constru-
gao do sistema de transposigao da barra-
gem de Tucurui, permitindo o transport
mina-porto em dois modais (ou mesmo
em apenas um, conforme o uso do rio Ita-
caiunas). Mas qual seria o peso das eclu-
sas no calculo?
Por se tratar de mera especulagao, ja
que as eclusas inexistem e sua constru-
c9o demandaria tempo maior do que o
previsto para a usina de places, alem de
recursos financeiros (360 milhoes de re-
ais) de fontes ainda imprevisiveis, esse
element de cAlculo nao consta do estu-
do. Bitolado em torno da escolha de um
sitio para uma usina de places, o traba-
lho nao tem a amplitude do projeto de
que o Para necessita: saber se ainda pode
ter um ciclo sider6rgico complete dentro
do seu territ6rio.
Em 1981, a CVRD e a Secretaria Ge-
ral do Programa Grande Carajas elabo-
raram, a quatro mdos e em gabinete fe-
chado (procedimento tipico da 6poca do
regime military o Piano de Desenvolvi-
mento da Amaz6nia Oriental, que deve-
ria servir de guia para a regiao de influ-
6ncia do p6lo mineral. Em uma d6cada
seriam investidos 62 bilhaes de d6lares
(valor equivalent a divida externa bra-
sileira de entao), possibilitando receita
annual de US$ 17 bilh6es.


A diretriz definida entao, com uma
crueza colonial espantosa (o titulo origi-
nal do document era "Metal Amazon" e
sua mais preciosa image consistia em
comprar a Amaz6nia ao monstro de Loch
Ness), prevalece at6 hoje: os principals
investimentos seriam feitos no litoral,
tanto em Vila do Conde quanto (e sobre-
tudo) em torno de SAo Luis, aproveitan-
do "as condic6es portuArias excelentes
para manuseio de grandes toneladas a
pregos competitivos".
No interior poderiam surgir p6los pro-
dutivos de gusa, silicio metAlico, ferro-
niquel e ferro-esponja, desde que houves-
se carvao vegetal para tender a uma de-
manda de 25 milh6es de metros cibicos.
O babacu podia entrar como redutor, mas
s6 complementarmente. O grosso das ne-
cessidades seria suprido por florestas plan-
tadas. O document previa a necessidade
de 2,3 milhoes de hectares. Nessa area, a
floresta native (hoje remanescente em
matas secundArias formadas pelo desma-
tamento) seria substituida pelo eucalipto.
Eis ai, ontem como hoje, a chave para
um process siderirgico primArio no in-
terior do Pard: o carvao vegetal. Se o car-
vao mineral for o redutor, todas as uni-
dades de beneficiamento de min6rio fi-
carao no litoral, onde poderao receber o
coque e o carvao importados (no caso,
da China) e embarcar com menor manu-
seio e custo os produtos transformados.
Para interiorizar a siderurgia, sera preci-
so recorrer ao carvio vegetal, como ja
fizeram as 12 guseiras instaladas ao Ion-
go da ferrovia de Carajas. A oppgo 6 mais
ou menos como se correr o bicho pega,
se ficar o bicho come.
Ha solugdo satisfat6ria para esse im-
passe? O desafio que se coloca diante das
elites pensantes (e "laborantes") do Para
nessa questao 6 encontrar um outro ca-
minho. De fato, foi atrav6s da destruigao
de suas matas para a produgqo de carvao
que Minas Gerais se incorporou, na con-
digao de periferia, ao process industrial
que teve Sao Paulo como centro. Quan-
do o capital natural comegou a se exau-
rir, as guseiras de Minas migraram, prin-
cipalmente para pr6ximo de Carajas,
onde, al6m do minerio, ainda ha flores-
tas a serem sacrificadas (e campo de ma-
nobra para essa hist6ria de gusa tropical).
Sera terrivel, para o Pard, repetir o erro
de Minas com d6cadas de atraso.


Mas entao nao lhe resta outra "voca-
95o" senao a de provincia mineradora (e
energ6tica), condenada a ter relac9es de
troca desfavoraveis? E o que sugere esse
desdobramento da divisao international
do trabalho, a se manifestar diante de n6s
atrav6s da abertura de mercados consu-
midores (como o americano e o chins)
para agos de menor valor agregado, e que,
por isso mesmo, tem uma margem de lu-
cratividade mais apertada (o que induz a
uma localizagio o mais pr6xima possi-
vel dos grandes portos).
Mas essa nao 6 uma regra sem exce-
96es, muito pelo contrario. Na Area do
Sistema Sul da CVRD, na qual a fonte
de min6rio sao as jazidas de Minas Ge-
rais, o panorama justamente o inverso:
ha oito aciarias no "sertao" e apenas tres
no litoral. E isso sem perda de ganho, ja
que dos 10 produtores de ago de maior
lucratividade no mundo, seis sao brasi-
leiros (e os dois mais eficientes estao ins-
taladosjustamente no "sertao").
Em principio, pode-se dizer que a in-
teriorizagao siderurgica depend de en-
contrar um modelo ajustado as suas li-
mitac9es e aproveitador de suas vanta-
gens (algumas sao claras: fartura de agua,
espagos disponiveis, menos afetag~o aos
fatores ecol6gicos, possibilidade de des-
congestionar o process econ6mico e,
mesmo sem os atrativos da urbanizagAo,
poder descentralizi-la).
Mas nao se pode dizer algo definitive
por falta de um piano para esse setor no
Para, embora as premissas sejam a de en-
contrar novo component energ6tico e
um modelo de usinas compativeis, atra-
indo investidores que nao estejam atre-
lados A CVRD.
Desarmado, o Estado reage aos fatos
buscando compensa9oes e deriva96es, ao
inv6s de encarar a Vale do Rio Doce com
sua pr6pria visdo do setor. Mas como cri-
ar essa visao sem estar habilitado a isso
e sem buscar respaldo t6cnico, sempre re-
correndo A pr6pria empresa para custear
estudos e projetos, como aconteceu com
os pianos de Eliezer Batista & Raphael
de Almeida Magalhaes e se repete ago-
ra com a fabrica de places?
Nos confrontos que tern havido, a
CVRD se tem mostrado mais forte nao
s6 por ser intrinsecamente forte, mas
por ter diante de si um leao que ruge,
mas 6 desdentado.


Jornal Pessoal 1P QUINZENA/AGOSTO DE 2003










Um bilhao illegal sai



de Belem em 5 anos


Um bilhlo de reais pode ter sido remeti-
do ilegalmente de Bel6m para o exterior ou
foi sonegado ao imposto de renda, em opera-
96es ilegais de compra e venda de d6lares em
casas de cAmbio da capital paraense, durante
cinco anos, entire 1996 e 2000. Ainda nao hou-
ve qualquer prisao, mas o delegado da Poli-
cia Federal de Brasilia, Daniel de Oliveira
Santos, ja indiciou 21 pessoas pela pratica dos
delitos. Outras 60 pessoas tamb6m estlo sen-
do investigadas como participants do esque-
ma de evasao de divisas, sonegag~o fiscal,
lavagem de dinheiro, formagio de quadrilha
e funcionamento de casa de cambio sem au-
torizagAo do Banco Central.
O inqu6rito policial durou mais de dois
anos, de setembro de 2000 a novembro do
ano passado. Remetido para a Justiga Fede-
ral, tramita atualmente pela 3a vara federal,
em Bel6m, cor mais de 40 mil paginas, dis-
tribuidas em 103 volumes. Compreende 20
mil documents, entire cheques, ordens de
pagamento e transfer6ncias de valores. S6
de conversas telef6nicas gravadas e trans-
critas, sao 256 paginas.
O esquema, segundo apurou a PF, consis-
tia na compra, em Belem, de pequenas quan-
tidades de moedas estrangeiras de turistas e
entidades religiosas ou beneficentes, "que re-
cebiam recursos do exterior, sem, contudo, ve-
larem pela escritura~lo destas transages".
Essas opera96es encobriam um outro esque-
ma, "de grande dimensdo, quer pelas somas,
quer pelas pessoas e empresas envolvidas,
tudo ramificado por virias unidades da fede-
ragdo e conexoes cor o exterior".
O suporte para todas as operagces reali-
zadas pelas casas de cambio de Bel6m, se-
gundo a investigag9o da policia, seria o gru-
po Marcos Marcelino & Cia. Ltda, que pos-
suia "umbilical ligago" com o "esquema"
dessas corretoras, "constituindo este grupo
empresarial a verdadeira base financeira na
compra e venda de moedas estrangeiras", con-
forme diz o delegado Daniel Santos no rela-
t6rio final do inqu6rito.
Os proprietarios e dirigentes da empre-
sa, que manteriam negociaqges com dolei-
ros ha muito tempo, sao citados nas varias
investigates conduzidas pela Policia Fe-
deral na regiao de Foz do Iguagu, no Para-
na. A firma 6 acusada de lastrear com moe-
da national as opera96es de grande vulto
da Casa Cruzeiro com moeda estrangeira.
A Cruzeiro foi descredenciada pelo Banco
Central em junho de 2000.
Ao depor no inquerito, o director finan-
ceiro do grupo, Abelardo Lobato Alfaia, ex-
plicou que em Janeiro de 1999, durante a ma-
cro-desvalorizagAo do real, conseguiu con-
vencer a diretoria do grupo a adquirir d61a-


res no mercado local para se proteger das
grandes flutuag9es de cambio. Os d6lares
comprados eram simplesmente guardados no
cofre da empresa. A movimentag~o mensal
dessas operag9es variava entire 500 mil e 800
mil d6lares. O director, entretanto, negou que
o grupo tenha contas no exterior ou haja efe-
tuado dep6sitos em contas de terceiros. O
recurso a uma moeda forte em 6poca de ins-
tabilidade cambial e monetaria visava pre-
venir prejuizos para a empresa.
Marcos Marcelino de Oliveira Filho, vice-
presidente do grupo, declarou em seu depoi-
mento na Policia Federal que sabia da aquisi-
9Ao de d6lares na praga de Bel6m, mas des-
conhecia os valores envolvidos. Admitiu que
emitia cheques, mas ignorava sua destinagao.
Tamb6m ignorava como os d6lares adquiri-
dos eram contabilizados na empresa.
Seu pai, Marcos Marcelino de Oliveira,
embora comandando a corporag~o empresa-
rial, tamb6m nao soube informar a quantida-
de mensal de d6lares comprados. Sequer co-
nhecia os titulares das empresas de cambio,
habituais fornecedoras de d6lares para o gru-
po. Explicou que a remessa de valores em
reais para contas correntes de banco em Foz
do Iguagu, em 1998, foi parte da "devolugao
do pagamento da venda de um avido".
O tesoureiro do grupo, Claudio Purcell da
Costa, admitiu, em seu depoimento, que, cum-
prindo ordens, emitia, em media, um cheque
por dia para aquisigAo de d6lares, nominais A
firma Marcos Marcelino. Esses cheques eram
endossados por AbelardoAlfaia, Marcos Mar-
celino Filho e Joana Antunes, passando a ser
ao portador. Confirmou tamb6m que eram in-
tensas as transagoes corn a Casa de Cambio
Cruzeiro, que tinha uma "marcante ramifica-
9&o" no exterior, "cor aportes financeiros
muito superiores ao declarado pela empresa",
segundo as conclusbes do delegado da PF.
A empresa Bombril, acusada pela policia
de contar cor dezenas de doleiros espalha-
dos pelo pais, tamb6m aparece como benefi-
ciada por dep6sitos que o grupo Marcos Mar-
celino teria feito em sua conta. Procuradores
federais e fiscais do Banco Central, ao ras-
trear dinheiro de uma das empresas de Mar-
cos Marcelino, depois de identificar doleiros
em Foz do Iguagu, detectaram virios dep6si-
tos (cheques no valor de R$ 23,7 mil e R$
300 mil, entire outros) em uma conta corrente
da Bombril no Bradesco. Chamada a dar ex-
plicag9es A Policia Federal sobre os dep6si-
tos, a Bombril negou que tivesse realizado
qualquer transagAo cor o grupo paraense.
Joamir Alves, diretor-financeiro da Bom-
bril, disse inicialmente que os dep6sitos se
referiam a um pagamento pela venda de ti-
tulos A empresa Logistica. Tres meses de-


pois, retificou suas declara96es: a empresa
que teria comprado os titulos seria a Hard
Sell e nio a Logistica.
O auditor fiscal do Tesouro Nacional,
Luiz Carlos Macedo Matos, informou A Po-
licia Federal que ja existed procedimentos
fiscais em andamento na Receita Federal
contra Jos6 Samuel Benzecry e Ourovida
Serruya Benzecry, dois outros indiciados no
process. Corn o casal foram apreendidos,
em duas opera9ges, dois milhaes de d61a-
res, sendo 1,43 milhao de d6lares em dinhei-
ro, no aeroporto do Galeio, no Rio de Janei-
ro, e US$ 402 mil em travellers cheques, em
Campinas, Sao Paulo.
Um inquerito aberto pela Policia Federal
de Campinas, em 1998, apurou as circunstan-
cias da apreensao de U$$ 402 mil em trave-
lers cheques em envelope postado por Jos6
Samuel Benzecry, em Bel6m, cor destiny a
Campinas. Mas, em declarag9o a PF, Benze-
cry negou ter postado o envelope, afirmando
desconhecer seu conteido.
Carlos Cezar Chaves Albuquerque, refe-
rido como testemunha de defesa de Benze-
cry, informou ter sido o responsavel pela pos-
tagem do envelope, a pedido de Rubem Da-
rio Peralta Ramirez, tendo recebido 100 d6-
lares pelo servigo. Garantiu que usou aleato-
riamente o nome de Bezencry, consultando
um cartAo de visits dele.
Apesar de sua veemente negative, meses
depois Benzecry, declarando-se "legitimo
proprietario" do dinheiro, encaminhou uma
petig~o ao juiz do process, em Campinas,
pedindo a restituiCgo dos U$$ 402 mil.
Outro personagem do inquerito 6 Joao
Leal. Mesmo sem capacidade econ6mico-fi-
nanceira, ele movimentava valores bancari-
os elevados de 13 dos 21 indiciados. A me-
canica de sua aCgo consistia na utilizagdo de
conta corrente de um "laranja" para receber
o dinheiro, emitido atraves de cheques,
transferencias eletr6nicas e ordens bancari-
as. Os valores correspondents eram saca-
dos ou transferidos para contas de dep6sitos
de "domiciliados no exterior", de onde re-
tornavam, ja devidamente "limpas", para as
contas dos verdadeiros movimentadores e
nao mais para a de Joao Leal.
Um dep6sito de R$ 107 mil, foi feito em
1997, na conta corrente 111686, agencia 224
do Banestado, aberta em nome de Joao Leal,
pela Marcos Marcelino & Cia Ltda, confor-
me a apuragco policial. Em suas declaracoes
A PF, o empresario Marcos Marcelino ale-
gou que os documents contabeis e outros,
que poderiam comprovar a licitude da ope-
ragdo, foram extraviados por ocasiao da
mudanca da sede da empresa. Mas nao apre-
sentou comprovagco do fato.


6 1 QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Jornal Pcssoal










As indignidades de 1964:



uma hist6ria por escrever


O servigo de utilidade public que
o jornalista Oswaldo Coimbra
prestou ao escrever Dom Alberto
Ramos mandouprender seus padres (Edi-
tora Paka-Tatu, 2003, 280 paginas) foi re-
afirmar que nao ha temas proibidos, aci-
ma de qualquer suspeita ou al6m de ques-
tionamento. Bastou uma consult aos ar-
quivos dejornais do passado para Coim-
bra se municiar de fatos polemicos, reavi-
vando a mem6ria da sociedade paraense
sobre acontecimentos relevantes, ainda ca-
rentes de esclarecimento. Necessidade de
elucidagAo que deve ser mais important
do que tabus ou interditos proibit6rios.
Mas o que 6 o mdrito do livro de Co-
imbra 6 tambem sua grande defici8ncia:
a pesquisa foi rapida demais, restrita a
poucas fontes, insuficientemente checa-
das. O merito da sua iniciativa seria mui-
to maior se ele tivesse colocado uma in-
terrogagao no titulo do livro: Dom Al-
berto Ramos mandou prender seus pa-
dres? A inquirigao estaria mais bem pos-
ta do que a afirmacgo.
A acusagao ao home que foi o arce-
bispo de Bel6m ao long de 34 anos se
baseia num testemunho, o de frei Betto.
De passage por Belem, entire margo e
abril de 1964, para participar de um con-
gresso estudantil latino-americano, o en-
tdo dirigente da Juventude Estudantil Ca-
t6lica (JEC) diz ter visto, no dia do golpe
military contra o president Jodo Goulart,
dom Alberto Ramos aparecer na tela da
emissora de televisio (s6 havia uma, a TV
Marajoara, dos Diarios Associados). De-
pois de agradecer a Nossa Senhora Apa-
recida e a Deus pelo golpe que teria sal-
vado o Brasil do comunismo, "nao satis-
feito, o arcebispo apresenta uma lista com-
pleta de padres que deveriam ser press
porque eram comunistas ou suspeitos".
Reconstituindo os fatos tres d6cadas
depois, o frade dominicano, hoje assessor
da presid6ncia da republica, disse ter fi-
cado tao chocado com o "espetaculo" que
decidiu abandonar a sede do arcebispado,
onde estava hospedado. O lugar, alem dis-
so, se tornara inseguro para quem nao par-
ticipava do golpe, nao se beneficiara dele,
nao o apoiara ou estava "do outro lado".
A afirmagdo do livro se fundamental
nesse testemunho, o 6nico a declarar ca-
tegoricamente que o arcebispo havia lido,
diante das cAmeras da televisao, uma lista
com os nomes de padres a serem press
pelos militares, uma delagao aberta e pu-

Jornal Pcssoal 1P QUINZENA/AGOSTO DE 2003


silanime feita pelo chefe da igreja cat6li-
ca no Para.
Quantos nomes? Nao ha um nfumero
precise, mas, por deducgo, a partir de ou-
tras provas e evid6ncias, Coimbra citatres
nomes, os mesmos encontrados num dia-
rio pessoal do arcebispo: padres Aloisio
da Silva Neno, que dirigia o MEB (Movi-
mento Educacional de Base), Joaquim
Diomar Lopes de Araujo, assistente espi-
ritual dejovens estudantes, e Mois6s Lin-
doso, assistente da juventude operaria.
Dos tres, apenas o padre Neno foi preso.
Os outros, perseguidos em Belem, pude-
ram se transferir para outros lugares, fora
de sua base operational de entao. Os mi-
litares nao teriam incorporado integral-
mente a lista de nomes de dom Alberto?
Se frei Betto viu e ouviu a entrevista
do arcebispo, por que ningu6m mais par-
tilhou essa mem6ria? Por que nenhumjor-
nal, incluindo A Provincia do Para, da
mesma rede de comunicagao da qual a TV
Marajoara fazia parte, fez um rinico re-
gistro sobre a tal lista? Coimbra supoe que
isso se deveu por censura ou auto-censu-
ra, mas ambas as hip6teses sdo improva-
veis.
Primeiro porque a censura ainda nao
estava tao bem organizada naquele tem-
po. Agia intensamente mais na repressao
do que na preveng5o dos atos considera-
dos subversivos. Em segundo lugar por-
que seria de interesse dos 6rgaos de im-
prensa, que aderiram quase em unissono
ao golpe (A excecio do Jornal do Dia, que


se mantinha na expectativa de abertura
political, com a qual seu proprietario, o
deputado Armando Carneiro, se poderia
favorecer), reproduzir as declara96es de
um bispo favoravel aos novos donos do
poder e condenat6rio aos "subversivos".
As palavras de frei Betto podiam ser
tomadas como pistas para a apuragao dos
fatos, mas nao como fatos. O testemunho
que ele prestou sobre a participagio de
frades dominicanos no assassinate de Car-
los Marighella, cinco anos depois do epi-
s6dio envolvendo d. Alberto, apesar de
tamb6m categ6rico, foi contraditado (e
contraditado em profundidade) por Jacob
Gorender (ex-militante e respeitado inte-
lectual de esquerda) no livro Combate nas
Trevas (aliAs, nao citado na bibliografia
de Coimbra). Logo, 6 necessArio ter algu-
ma cautela com a mem6ria de frei Betto,
checando-a em outras fontes.
Betto 6 um excelente intellectual, mas
suas verdades as vezes sAo enunciadas
com fins utilitarios. Sua versao sobre a
preparagco da emboscada da policia a
Marighella e o papel de seus amigos reli-
giosos na operaqgo teve a nitida intengco
de encontrar uma said honrosa para os
dominicanos, mas Gorender, refazendo a
interpretacao dos fatos, apresentou uma
perspective oposta e, no meu ponto de vis-
ta (tamb6m testemunha desses fatos), mais
convincente.
Pode ser louvAvel e admiravel a posi-
9do participate de frei Betto na hist6ria,
mas ela o deveria inibir de tentar ser, ao
mesmo tempo, o historiador dos aconte-
cimentos nos quais estA envolvido. Ele
viajou para Bel6m, em 1964, com uma
passage paga pelo Ministdrio da Educa-
9co e Cultura, chefiado pelo cat6lico Pau-
lo de Tarso Santos. Nao para um event
do MEC ou uma atividade relacionada As
func9es institucionais do ministdrio, ou
mesmo A causa t6cnica da educagao bra-
sileira, mas para participar de um ato po-
litico, o congress dos estudantes latino-
americanos. Certamente Betto aceitou o
bilhete, obtido pelo soci6logo Betinho,
porque o movia a causa da transformagro
social e da revolug9o. Com outros prop6-
sitos (ainda que muito menos nobres, ou
nada nobres), essa mesma promiscuidade
com o governor serviria aos novos deten-
tores do poder e seria criticada por seus
opositores, como Betto. Se tivesse chega-

"0 0 CONINUAAPAG8 "S










do ao poder, o que mais frei Betto faria?
O que esta fazendo e fard agora que acon-
selha o president Lula ao p6 do ouvido?
A prop6sito, 6 estranha a hist6ria que
ele conta logo em seguida A acusacgo a
dom Alberto. Diz que se apresentou no
balcIo da companhia area no aeroporto
para viajar, mas nao p6de embarcar por-
que todos os atos do governor anterior ti-
nham sido cancelados, inclusive o bilhe-
te adreo que ele tinha na mao. Ainda as-
sim, a funciondria da empresa permitiu
que o frade, sem poder ir diretamente para
o Rio de Janeiro, como estava escrito, e
a despeito do carimbo de cancelamento,
fizesse outro v6o, para Recife, onde bus-
cou a protegao de outro bispo, dom H6l-
der Camara, que tomou posse no cargo
exatamente no dia de sua chegada A ca-
pital pernambucana.
Parece incrivel que um ato tao grave
de traigao, como o que o arcebispo teria
praticado, entregando seus subordinados
(e protegidos em tese) aos carrascos, nao
tenha tido um unico registro na imprensa
e nenhum testemunho como o de frei Bet-
to. Um dia depois de ter praticado esse
ato vil, dom Alberto foi entrevistado pela
Folha do Norte e fez esta declaragao, re-
produzida na edigao de 3 de abril de 1964:
"Pegamos a Jesus, o Salvador que ilumi-
ne os vencedores da hora present para
restabelecerem a ordem sem violencia
ner vinganqas mesquinhas".
E inegAvel o comportamento vacilan-
te, inseguro ou atd em algum moment
menos visivel covarde do arcebispo di-
ante das viol6ncias que os militares esta-
vam praticando contra o clero, as organi-
zac6es religiosas e a comunidade cat6lica
que nao se enquadravam nas regras da
nova ordem. Dai o telegrama de protest
que o padre Aloisio Neno mandou para o
arcebispo, depois de ter sido preso e, ja
solto, ver-se obrigado a deixar Beldm.
Mas, no dia 8 de abril, dom Alberto de-
clarou, atravds dojornal 0 Liberal, "nun-
ca ter afirmado ser comunista seu irmdo
pe. Aloisio da Silva Neno". Ou seja: esta-
va em questao se dom Alberto havia ou
nao chamado o padre Neno de comunista.
Mas nao de haver pedido a prisao dele.
Ainda no auge da onda repressive dos
militares, dom Alberto incluiu no "Infor-
mativo Arquidiocesano", publicado em
21 de abril, que controlava com mao de
ferro, uma nota anunciando que a dire-
c9o da Voz Catdlica, semanario editado
pela prelazia de Macapa, "enviou tele-
gramas ao Presidente da Republica e
Ministro da Justiga, protestando contra a
censura que o Governo do Territ6rio Fe-
deral do Amapa estabeleceu sobre aque-
lejornal, que sempre foi um paladino no
combat ao comunismo".


Um simples dedo-duro abrigaria essa
nota, que equivale a uma solidariedade?
Dom Alberto era e foi, at6 sua morte,
em 1991, um conservador, por vezes um
direitista, um anticomunista feroz, mas
nao uma pessoa amoral, indigna, inescru-
pulosa, capaz de qualquer ato de agres-
sao aos divergentes ou mesmo adversA-
rios, como pedir-lhes a prisio. Mesmo in-
tegrando a ala governista da Igreja, era
tido A esquerda de alguns dos que se con-
sideravam vencedores em 1964. Num
artigo escrito para a Folha do Norte, pu-
blicado no dia 28 de abril, Paulo de Tar-
so admite nao compreender, "embora
sentindo, 6 que um Arcebispo confesse
que ignora o que sobre o avango verme-
Iho se passava no Pago Arquiepiscopal e
no seu 'Lar do Sacerdote'".
Essa manifestaCgo p6blica indica quan-
tas presses o arcebispo deve ter sofrido,
de gente ainda mais A direita de sua posi-
gao, para que fosse al6m dos atos que in-
dubitavelmente ele praticou, ao condenar
posig5es de membros do clero, apoiar o
golpe, exorcizar o governor anterior, abju-
rar toda a postura classificivel de esquer-
dista ou subversive. Como quase todas as
principals autoridades eclesiAsticas naque-
le moment no Brasil (dom Eugenio Sal-
les, dom Vicente Scherer, dom Agnello
Rossi), o arcebispo de Belm foi dubio,
contemporizador, negociador e, em certo
sentido, traidor dos compromissos evan-
gdlicos e da lealdade que devia manter
para com os perseguidos e violentados.
Acuado entire os.que o queriam mais A
direita e os que cobravam seu compromis-
so pastoral, dentro e fora da Igreja, dom
Alberto precisou seguidamente defender-
se naqueles negros e tristes tempos de in-
tolerAncia, abuso e violencia. Mas essas
defesas, reproduzidas nosjornais da 6po-
ca, nZo autorizam a conclusAo de Coim-
bra, segundo o qual "Se o journal [A Pro-
vincia do Pard] diz que ele se defended
de todas as maneiras, o journal permit
supor, inclusive, que ele delatou publi-
camente seus padres".
Talvez esse tipo de suposig~o caiba num
libelo acusat6rio. E inaceitAvel, contudo,
numa pesquisa hist6rica ou numa investi-
gag~o jornalistica. Para alguns, chamar de
comunista ou mandar prender pode ser a
mesma coisa. Mas nao deve ser assim para
algu6m que escreve um livro ou mesmo uma
reportagem de journal. E precise que cada
afirmativa e, especialmente, cada acusagAo
tenha sua base em fatos, seja em provas
como em evidencias muito fortes, passivel
de demonstragco (e, naturalmente, contra-
dita racional, 16gica). Nenhuma delas per-
mite a Oswaldo Coimbra afirmar que dom
Alberto "mandou prender seus padres".
Seu livro 6 quase totalmente baseado
emjornais, principalmente de margo e abril
de 1964. Outras fontes de informa6oes fo-


ram entrevistas com personagens da 6poca
e uma s6rie de artigos publicados em 1979
em O Estado do Para. Essas materias sao
provocativas e permitiram requentar temas
que vinham sendo mantidos debaixo do
tapete, mas elas foram escritas de mem6ria
pelo dono dojornal nesse period, o advo-
gado Octavio Avertano Rocha. Sofreram,
portanto, como se diz, um vi6s do autor,
que contou varios contos acrescentando
seus pontos (ou vice-versa).
Aldm disso, a pesquisa de Coimbra
parece se ressentir da press. Ha erros e
equivocos flagrantes. Na pagina 170, por
exempio, ele estranha que A Provincia do
Pard haja quebrado o "sigilo em que sem-
pre eram mantidas as reunites do clero",
noticiando tudo o que trataram os padres
reunidos com dom Alberto no dia 7 de
abril e, assim, fazendo ojogo do arcebis-
po. Na pagina 171, entretanto, ele repro-
duz mat6ria de outro journal, O Estado do
Pard, sobre o mesmo assunto e com as
mesmas informaCbes. Se houve quebra do
sigilo (o que seria o "furo", nojargaojor-
nalistico), os doisjornais a praticaram.
Na reprodugco da conversa, alias, ojor-
nal noticia que dom Alberto atribuiu a pri-
sao de padre Neno a ele ter acompanhado
estudantes estrangeiros, participants do
mesmo congress que atraiu frei Betto, sob
patrocinio do MEC. Os estudantes, neces-
sitados de vistos para viajar, estavam sen-
do perseguidos pelos militares, quando re-
ceberam a ajuda de padre Neno.
A press (ou desatengco) fez com que
Coimbra chegasse a escrever: "A transfe-
r8ncia de Benedito [Monteiro] para Be-
16m deu-se numa canoa". Benedito, o mais
visado politico naquela 6poca, foi preso
nas matas de Alenquer, a uns 900 ou mil
quil6metros de Bel6m.
Essas e outras lacunas nao tiram os m6-
ritos do livro de Oswaldo Coimbra. Ele faz
a sociedade se lembrar de que a avaliagao
da hist6ria 6 continue e abrange vivos e
mortos. Muitos ficaram indignados com o
ataque do jomalista ataque a dom Alberto
quando o arcebispo jA nao pode se defen-
der. Pilatos j virou p6 ha muitos s6culos e
continue a provocar apoios e repulsas todos
os dias. A orelha de Adio permanece a ar-
der, ainda que seja metaforicamente. Mas
quando os vivos sio incapazes de se defen-
der, os mortos Ihes servem de protegco.
Todos sairam em defesa de dom Al-
berto, mas ningudm se lembrou de cobrar,
dos ainda vivos, o ato de indignidade que
cometeram quando, deputados estaduais,
cassaram um colega de parlamento (o
mesmo Benedito Monteiro) por motivo
torpe, em sessao especial convocada as
pressas, com enredo previamente acerta-
do. Com direito at6 a ajuda de custo extra,
que dobrou o valor do salario mensal. Ou
18 milhhes de cruzeiros. Bem mais do que
os 30 dinheiros de Judas.

1" QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Jornal Pessoal










Sauda4io a duas




grades mulheres


Maria Helena Oliveira morreu as v6spe-
ras de completar 80 anos, no mrs passado.
Norma Barata teve a festa que merecia pela
mesma data, que chegou ao seu calendirio
dois meses antes. Dona Helena podia ter
vivido bem mais. Talvez o cancer nao tives-
se evoluido tanto nem tao rapidamente -
se ela reagisse A altura. Mas dona Helena
nao queria mais viver. Perdera, dois anos
antes, o companheiro de caminhada ao Ion-
go de mais de cinco d6cadas. A morte abre-
viaria a separagao e restabeleceria a convi-
v6ncia interrompida. Era o que dizia, entire
lagrimas, inconformada com a perda.
Norma perdeu o casamento quando
uma mulher normal se teria deixado aba-
ter. Mas ela, nio. Fez vestibular, freqiien-
tou a graduagAo e recebeu o diploma de
bibliotecAria. Nao para colocar o papel na
moldura: logo se tornou uma t6cnica res-
peitada no meio, al6m de uma lider incon-
teste. Tudo o que acontecia no mundo da
biblioteconomia comegava nela ou passa-
va por sua avaliago. Ao se aposentar, jA
com um curriculo respeitavel, se tornara
um marco, uma refernncia, um norte no
universe dos livros.
Helena incorporava o modelo tradici-
onal de mulher, esposa e mie. Praticava,
no lar, um jogo de revezamento: da porta
para fora o representante da familiar era o
marido, a quem apoiava e sustentava do
p6rtico de casa para dentro, dando razao
a uma das maximas dessa concep9co: todo
grande home tem uma grande mulher
atras de si (As vezes, na cegueira do pre-
conceito, deixamos de ver que o grande
home era apenas a projegao da grande
mulher, que se anulava para destacar o
companheiro transparente.
Era a mae dos freqientadores da casa,
poucos, na verdade, apenas os que conse-
guiam vencer a fachada de sisudez do
marido, o coronel Jos6 Lopes de Oliveira,
o furibundo e temido "peixe agulha", no-
tabilizado no movimento military de 1964,
do qual foi um dos executores, um tipico
"jovem turco" do Ex6rcito. As vezes, che-
gando de surpresa para meus confrontos
verbais com o coronel, eu a provocava
com uma frase traumatica: "nao tem nada
para comer ai, dona Helena?" Nervosa, ela
sumia na cozinha e voltava com um expe-
dido lanche, feliz, apreciando a aplicagao
do convidado sobre seu quitute.
O casamento com o advogado e poeta
Ruy Barata acabou sem que se ouvisse de


dona Norma um lamento ou uma acusa-
9do. Continuou sendo um dos esteios para
o maravilhoso e irrequieto amigo e com-
panheiro, e para a familiar numerosa e rui-
dosa, herdeira dos talents do casal. Nio
deixou de comandar sua movimentada
casa, um daqueles bangal6s de esquina do
Umarizal que faziam a delicia deflaneurs
e voyeurs da avenida Generalissimo Deo-
doro, como fui desde a meninice. Ela foi
para a luta externa, abrindo seu pr6prio
caminho, conquistando, por amplo mere-
cimento, o destaque, a admiragAo e o res-
peito de tantos que compareceram A sua
festa dos 80 anos, agradecidos por ela ser,
ao mesmo tempo, uma rocha de resisten-
cia e umjardim florido de ternuras.
Helena e Norma podiam ter sido ad-
versArias como foram, em certos momen-
tos, seus maridos. O coronel Oliveira es-
tava do lado dos vitoriosos, implacaveis
depois de certo moment, e Ruy dos que
foram derrotados, em 1964, sem terem
tido a oportunidade de travar um just
combat. Mas ambos freqiientavam um
terreno de paz, de socializagAo das dife-
rengas e mimetizagao das semelhangas,
sob o teto da Livraria Jinkings, coman-
dada pelo comunista de paz & amor (nao
como um recurso de marketing politico)
Raimundo Jinkings. Ele pr6prio um der-


rotado e perseguido, Jinkings era o anfi-
triao atencioso do antigo ferrabras, que
poderia ter sido seu figadal inimigo, e o
coronel um client ideal (porque compra-
va muito, porque conhecia o que com-
prava e porque dialogava com o livreiro
de igual para igual). Ruy, com seu hu-
mor e sua irreverEncia, era mais perigo-
so. Suas tiradas eram totalmente impre-
visiveis, al6m de incontrolaveis.
Nao sei se algum dia Helena e Norma
se encontraram, nem sei (porque tamb6m
nao interessa) o que uma pensava da ou-
tra. Promovo, nesta sala impressa, uma
festa de palavras para lembrar a mem6ria
da primeira e saudar a vida da segunda.
Onde quer que Helena esteja agora, se esta
em algum outro lugar que nao a cova na
qual foi depositado seu corpo, tenho cer-
teza de que seus meritos, multiplicados
durante esta forma mais conventional e
visivel de vida que temos, serAo plenamen-
te reconhecidos. E ela os podera gozar na
companhia da pessoa que buscou ao ir-se
do meio de n6s.
Quanto a Norma, que por muitos anos
mais ela possa continuar a ser a energia boa
e acolhedora que tem sido, uma fonte de
paz e de calor para o amplo universe das
pessoas que conquistou com sua forga de
guerreira, mulher de fibra inquebrantavel.


Viseira


Um dos principals problems do ju-
diciario paraense 6 o nepotismo. Varios
magistrados nao se inibem na hora de
colocar parents nos cargos comissiona-
dos postos A sua disposig~o. Alguns pa-
rentes, embora favorecidos pelo nepo-
tismo, sio capazes e trabalham. Outros
se escoram no nome. O vAcuo que abrem
tem que ser preenchido atrav6s da con-
tratagdo de gente disposta a trabalhar. E
um 6nus a mais.
Outro surge corn a aposentadoria do
magistrado, no final da carreira. Ele se vai,
mas os parents ficam. Ha uma acomoda-
c9o de interesses nesse moment: o novo
desembargador coloca seus protegidos
sem perturbar a vida dos jA instalados em
seus cabides. A viuva paga a conta dessa
acomodag~o. O pfblico sofre as conseqii-
encias de ser atendido por pessoas sem
qualificacdo para as fun96es, que se con-


sideram degraus acima do cidadao comum
em fungao do sobrenome.
Essa pratica costumeira ji nao tem a
forga de passado recent, mas se o nepo-
tismo foi requentado pelo mais novo de-
sembargador, JoAo Maroja, a OAB, que o
indicou pelo quinto constitutional, tem o
dever de cobrar a responsabilidade do seu
associado. Mas nao deve nem pode isold-
lo, como se ele fosse caso unico e o mais
grave nessa cornucopia de nepotismo.
Se a OAB quer tirar os esqueletos do
armArio ou levantar o tapete para retirar o
sujo oculto, 6timo. Nesse caso, tem que
se colocar a servigo de uma causa, esque-
cendo quem vai atingir, assumindo a pr6-
pria image dajustiga. Mas se vai tirar a
venda para ver apenas a quem Ihe interes-
sa ver, protegendo quem nao esta interes-
sado em se mostrar, entao faz o jogo da
vinganga, que Ihe fica muito mal.


Jornal Pcssoal 1P QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Q








Cartas


A voz
Penso, ao ler a materia
"Para: sem voz" (Jornal Pes-
soal, edigao da 2a quinzena de
julho/2003), que caberia a per-
gunta: quando foi que o Esta-
do teve voz? Do institute de
regiao colonizada o Para nun-
ca escapou. Existem inclusive
formas de apropriag~o que se
mantam inalteradas desde a
fase efetivamente colonial, tais
como o latiffindio, o enclave,
o trabalho escravo, a coleta e
o aviamento, que convivem
solidArias com formas moder-
nas de exploragCo, como a exe-
cutada pela Vale do Rio Doce,
por exemplo.
Ambas as formas sao de
fato politicals de empobrecer
a vizinhanga". No primeiro
caso os motives do empobre-
cimento sao 6bvios, no segun-
do, nem tanto. Mesmo o Para
modernn" 6 pobre, porque a
expansao econ6mica sempre
se faz acompanhar do aumen-
to da exclusdo, como 6 a tra-
dig9o da economic brasileira
em geral. Isso ocorre porque
o modelo de producgo 6 alta-
mente concentrador e gerador
de externalidades inexpressi-
vas. Este modelo 6 avalizado
e financiado por uma peque-
na elite cuja attitude social e
eleger governor demagogos e
clientelistas, que vao executar
a manutengio de seus privild-
gios e do sistema que empo-
brece os vizinhos.
O poder public se legiti-
ma no moment do voto,
quando essa elite se associa
com a "sociedade desorgani-
zada", altamente suscetivel ao
assistencialismo, e ignorante
o suficiente para compreender
a tram6ia, o esquema de infla-
cao da pr6pria mis6ria que be-
neficia meia duzia de bem
nascidos. Trata-se da indistria
da pobreza, o principal sub-
produto do modelo centraliza-
dor, que apesar do avango ex-
ponencial, deprimindo a qua-
lidade de vida, a cultural e as


regras basicas da conviv6ncia
civilizada, 6 financiada por
essa sociedade espuria entire a
elite a as favelas, atrav6s de
porta-vozes hip6critas.
Jader Barbalho e Jarbas
Passarinho foram politicos de
alguma projecgo national,
Almir Gabriel e SimAo Jate-
ne sao inexpressivos, mas em
nenhum desses governor a
trajet6ria da decad6ncia mo-
dificou. Um governante com
maior acesso ao Planalto nao
fez diferente do que fez o
outro, sem acesso nenhum.
Porque a tal "luta pelo Pari"
nao passa de farsa ideol6gi-
ca para manter privil6gios e
condig9es sociais inalterados.
Para e Maranhdo sao irmros
gemeos, s6 nao univitelinos,
porque cada um 6 miseravel
A sua maneira. A maior obra
dos governor locais sempre
foi o sucesso pessoal de seus
integrantes e s6cios. A tal
"municipalizagAo do desen-
volvimento", por exemplo, 6
um novo nome para este tipo
de "organizagco social".
O que 6 precise 6 descons-
truir o pacto social que estA ai,
expressao political da armadi-
lha da pobreza. Fazer a socie-
dade entender que nenhuma
regiao com 6 milhaes de ha-
bitantes, um PIB pouco mai-
or de 5 bilhoes de d6lares e
sem fundamrntos econ6micos
elementares, tern o control
sobre o pr6prio future, no
Ambito do modelo de explo-
ra do em vig6ncia. E precise
politizar a discussio em tor-
no de um mundo em franca
degradagCo. E precise banir os
porta vozes do orgulho ufanis-
ta de um povo humilhado, que
rouba fios telef6nicos para
comer, e colocar no lugar de-
les quem seja capaz de pautar
a discussion relevant. Romper
a barreira do atraso, os impe-
dimentos estruturais ao cres-
cimento da renda, e tentar re-
criar uma sociedade com um
minimo dejustiga, de seguran-
Ca e de civilidade.


Passar por essa dificil eta-
pa depend pouco da capaci-
dade de transito dos governor
locais nos gabinetes do Planal-
to, e muito mais de sua postu-
ra e comprometimento com as
causes requeridas. Enquanto
nao se estabelecer um link en-
tre poder pfblico e sociedade,
que cuspa fora o demag6gico,
o assistencial, o clientelista, e
passe a encarar a realidade corn
o nivel de preocupagdo que
merece, o Para sequer vai co-
megar a enunciar o seu future.
Antonio Ponte Souza


Elite
0 Journal Pessoal n6mero
304 veio prenhe de mat6rias
sobre o mastodonte "encla-
ve" fincado no sul do territ6-
rio paraense, que Ihe conso-
me as entranhas sem a respec-
tiva contrapartida econ6mica,
por omissao consentida e in-
compet6ncia do poder pibli-
co local. Nao vou alongar-me
neste aspect porque o texto
sob o titulo "Min6rios: ciclo
das oportunidades perdidas",
foi muito cristalino. Por6m,
discordo da insinuacgo ati-
nente ao "despreparo da opi-
niao publica. Mesmo que a
populagco nao fosse privada
dos esclarecimentos por par-
te de certa imprensa de "se-
cos & molhados" que voc8
acentuou, ela nao mudaria o
curso dessa est6ria. Prefiro
transferir esse 6nus direta-
mente A elite intelectualiza-
da, que fala muito de mudan-
ga de base produtiva, de ver-
ticalizagao industrial, de ge-
ragao de emprego e renda e
outras nomenclaturas acad&-
micas menos votadas. Pois
bem, ela se incrustou nos ga-
binetes e secretaries do go-
verno estadual e se perpe-
tuou, independent das siglas
vencedoras: PMDB, PSDB,
PPS, PT; nao ha ideologia
nem cor partidAria, serve a
qualquer patrdo e prego.
Rodolfo Lisboa Cerveira


MINHARESPOSTA

Os dois leitores, mas am-
bos, t6m razdo, embora a ver-
dade seja produto de suas
duas razbes e de mais algu-
mas outras. Se a sociedade
paraense fosse bem informa-
da e se dispusesse a fazer va-
ler seus direitos, o peso de
suas elites nao seria tao gran-
de. Como a informagAo 6 um
bem escasso e os que o pos-
suem preferem nao partilha-
lo, muitissimo pelo contra-
rio, o papel das elites 6 mais
important do que os te6ri-
cos (e militants) dos movi-
mentos de massa estAo dis-
postos a conceder.
Por isso, ter lideres influ-
entes nacionalmente 6 um ele-
mento a considerar no jogo
politico das decisoes. O Pard
teve poucos lideres nacionais
em toda a sua hist6ria. Os mai-
ores foram Lauro Sodr6, Jar-
bas Passarinho e Jader Barba-
Iho. Mesmo quando participa-
ram do governor e tiveram al-
guma participagao na estrutu-
ra do poder, eles fizeram mui-
to menos do que podiam. Fi-
zeram pouco e fizeram mal.
Para fazer muito e correta-
mente, teriam que ter uma
concepcgo da organizaCgo
produtiva, social e political do
Pard diferente da que possui-
am. Se tivessem id6ias dife-
rentes, teriam chegado tao
alto na piramide do poder?
Mas pensar libertariamente 6
fator impeditivo para ter di-
mensdo national e peso efe-
tivo no pais?
Sao perguntas, que pouco
se faz, em busca de respostas,
que raramente se consegue.
Mas importa continuar a ten-
tar. Tanto no piano da compre-
ensao quanto no que mais
vale: o da transformagAo. Sen-
do atualmente um Estado (e
um territ6rio) colonial, estara
o Para condenado a permane-
cer sempre assim?
Quem quiser (ou puder)
que continue.


1- QUINZENA/AGOSTO DE 2003 Jornal Pcssoal










0 imperador Marinho


Uma das anotag9es do diArio de Getulio
Vargas que mais me impressionou, nos dias
inaugurals de sua primeira presidEncia, logo
depois do movimento revolucionario de 1930,
foi sobre uma audiencia concedida a Paulo
Bittencourt, que foi Ihe pedir para o pai ser
examinador no Banco do Brasil. Edmundo
Bittencourt era o poderoso dono do Correio
da Manhd, que fundara em 1901 e seria, at6 o
golpe military de 1964, ojornal mais influence
do pais (e, aparentemente, o mais indepen-
dente na grande imprensa).
A independencia de um grande veiculo da
imprensa 6 ainda mais relative do que na teo-
ria de Einstein. O que dizer de um imp6rio
jornalistico, no qual ojornal 6 apenas um dos
elements, nem sempre o de maior peso?
Quando Edmundo foi a Getulio, no Rio,
Assis Chateaubriand j havia mandado o pr6-
prio irmao ao front revolucionario, no Rio
Grande do Sul. Com duas misses: ver de per-
to o que acontecia e servir de canal de acesso
As informac9es para o future dono do poder.
Um golpe no cravo, outro na ferradura. A ser-
vigo do client explicit da publica9go, o lei-
tor, e do s6cio nao declarado, o anunciante.
O maior deles, mesmo quando nao parece,
ainda 6 o governor, o federal mais do que to-
dos os outros nos Estados e municipios.
Chateaubriand nao teria construido o im-
p6rio dos Diarios Associados se nao contas-
se com a m.o amiga do ditador e president
Gethlio Vargas. Getulio tamb6m deu sua aju-
da a Edmundo e Paulo Bittencourt, mas am-
bos tinham seus principios, por mais questi-
onaveis que fossem. Mantiveram um gran-
de e influence journal, mas s6. Chato tinha


muitosjornais, emissoras de radio e, por fim,
de televisao. Com essa mAquina de fazer
poder, quis arrotar no jantar a independen-
cia que vendera no almogo.
O pr6prio Getulio, sagaz, fez de um ex-
empregado de Chat6, Samuel Wainer, o n6i-
cleo de um novo imprrio, que faliu por ter
origem explicit numa chapa branca (o di-
nheiro do contumaz Banco do Brasil) e des-
dobramento num estr6ina. Getilio, por6m,
nao teve tempo nem condicges de dar o gol-
pe mortal em Chat6. Ja os militares tive-
ram a faca, o queijo e a circunstAncia de
Chat6 ter sofrido uma trombose quatro anos
antes do golpe, morrendo sem ver a decre-
tagao do AI-5.
Quando a asa negra desse terrivel instru-
mento de excecgo baixou sobre o Brasil, em
dezembro de 1968, o parceiroji era o "com-
panheiro jornalista" Roberto Marinho, o ti-
tulo que ele mais prezava. Desde que se tor-
nara herdeiro de Irineu Marinho (em 1925)
e assumira o neg6cio deixado pelo pai
(1931), depois de seis anos preparat6rios de
trabalho como simples empregado, Roberto
Marinho nao deixara de crescer. Mas lenta-
mente e num universe limitado.
0 Globo era um journal carioca, favoreci-
do pela condigao de capital federal do Rio de
Janeiro, mas sem maior repercuss.o. Nao con-
tava na hora de former opinido. Mas estava
sempre disponivel para apoiar governor e im-
pulsionar carreiras, fossem de pessoas fisi-
cas ou juridicas. Roberto Marinho, met6di-
co, trabalhador, aplicado e perspicaz, agia A
sombra. Era desenvolto nos bastidores do
poder. Viu long o alcance da television e es-


tava no lugar certo, na hora certa, quando os
militares, percebendo que os Diarios Associ-
ados eram inconfiAveis, precisaram de um
aliado decidido e competent num setor que
Ihes seria vital: o das comunicaq6es.
Sem esse impulse, a Rede Globo n.o se-
ria o que 6 hoje (ou foi at6 se meter numa
divida correspondent a duas vezes e meia o
seu patrim6nio liquido. Mas na grandeza do
imp6rio hi, sem duvida, o dedo de Roberto
Marinho. Ele foi menos jornalista do que
Chato, mas foi efetivamente jornalista (qua-
lidade nao desprezivel num universe atual-
mente dominado por quitandeiros da infor-
magao). Foi, entretanto, muito mais empre-
sario. Seus funcionArios trabalham sob um
padrao professional claro, com suas lacunas
no piano conceitual, mas o melhor do merca-
do na regulagdo das relag9es de trabalho.
Homem empreendedor, talvez Marinho, As
v6speras dos 99 anos, tenha sido poupado dos
dificeis moments que aguardam o imprrio
Globo (global antes da globalizag9o chegar
ao Brasil e sua porta de entrada no pais), que
a longevidade e suas qualidades pessoais Ihe
permitiram ver nascer e se consolidar. Ele nio
cometeu alguns dos erros crassos do seu an-
tecessor na unica corporagao de comunica-
c9es da hist6ria brasileira capaz de rivalizar
com a dele, mas seu poder tem a mesma ori-
gem, da qual nao conseguiu se desfazer e um
dia, por um motivo ou outro, cobrara a conta.
A ser apresentada aos herdeiros, que ficam
com a bata quente e o desafio de sobreviver
ao day after, no qual se verao um diante do
outro, sem a mediagao do seu maior, o que,
certamente, Ihes destacara a inferioridade.


Origem


As mensagens de um falso
Lucio Flavio Pinto para o Ob-
servatdrio da Imprensa (ver
Jornal Peossoal 304) foram
transmitidas atrav6s de um ser-
vidor da Editora Peixes, de Sao
Paulo. A editor 6 responsive
por vrias publica96es, dentre as
quais a revista Terra, da qual 6
editor-contribuinte o jornalista
Klester Cavalcanti.
Como um dos acusados de
inventar mat6rias no artigo a
mim atribuido pelo falso L6-
cio, Klester se interessou em
levantar o assunto e foi quem
informou os redatores do Ob-
servat6rio da Imprensa, em
Sao Paulo, que o tal artigo te-
ria sido enviado atrav6s de um
cibercaf6 de Bel6m, localiza-
do as proximidades de meus


dois domicilios. Essa informa-
9 o motivou o pessoal do OI a
achar que, a despeito de mi-
nhas categ6ricas negatives, eu
havia escrito e mandado, dis-
simuladamente, o artigo.
Dois dias depois de ter indu-
zido a "investigag9o" do Obser-
vatdrio sobre mim, Klester reti-
ficou a informag9o, atribuindo-
a a um "lamentivel equivoco".
A origem era Sao Paulo mesmo.
Ainda assim, Alberto Dines, o
principal responsavel pela revis-
ta eletr6nica, especializada na
analise da imprensa, me criticou
por haver difundido o inciden-
te. Classificou-me de reinciden-
te em erro. O primeiro teria sido
cometido atrav6s da resenha
que escrevi sobre um livro de
Klester, divulgada pelo pr6prio


Observatdrio. Nessa resenha
apontei inconsistEncias na re-
constituigao de um seqiiestro
que ele alegou haver sofrido,
em margo de 2000, quando era
correspondent da revista Veja
em Belem. Klester me atacou
atrav6s de uma rede de jorna-
listas ambientalistas na internet,
mas nao mandou nenhuma res-
posta para o OI.
Um perito, atrav6s de rastre-
amento independent, estabele-
ceu a conex.o das mensagens
transmitidas pelo falso Lucio,
uma delas com o artigo sobre
os Jayson Blair brasileiros (c6-
pias do jornalista do New York
Times que inventava suas ma-
t6rias), com o servidor da Edi-
tora Peixes. Mas nio p6de che-
gar ao fraudador porque A cen-


tral eletr6nica estao conectados
180 terminals de computadores
e o pessoal da informAtica da
editor alegou nao possuir ele-
mentos t6cnicos para identificar
a origem individual das men-
sagens, ou por nao querer for-
necer a informagio.
Segundo o perito, somente
atrav6s de uma intervengio nas
maquinas seria possivel con-
cluir o trabalho. Mas tal inter-
vengdo depend de mandado
judicial, a ser cumprido por pe-
rito dojuiz, o que iria requerer
uma a9go na comarca de Slo
Paulo, o foro competent para
apreciar a questao.
Por enquanto, satisfago-me
no ponto em que cheguei: o ni-
nho do suspeito, onde foi con-
cebido o ovo da serpente.


Journal Pessoal 1' QUINZENA/AGOSTO DE 2003 11








M E M -ORIA -DO COTIDIANO


Congress

Eucaristico:

meio seculo
Meio s6culo atrAs Belem abri-
gou o VI Congresso Eucaristico
Nacional. Em 1953 (ano da gran-
de enchente do rio Amazonas),
foi um acontecimento. O Para ti-
nha entio 1.123.273 habitantes
(hoje tem seis vezes mais), dos
quais 1.088.863 se declaravam
"cat6licos romanos" (os protes-
tantes eram menos de 25 mil e os
espiritas nao chegavam a 3 mil).
Bel6m, que completara 337 anos
de fundacao, tinha 255 mil habi-
tantes, as mulheres somando 15
mil a mais do que os homes. As
pessoas com mais de 15 anos de
idade que sabiam ler e escrever
no Pard (325 mil) eram apenas
um pouco mais do que as analfa-
betas (319 mil).
A capital dos paraenses, no ano
do congress eucaristico, tinha 10
pontos de estacionamento, tr6s dos
quais na Praqa e Banco Nacional
Ultramarino).
A cidade tinha apenas tr6s bar-
bearias de categoria para homes
(Grande Hotel, Avenida e Central)
e 1 sales de beleza para as mu-
lheres. Dispunha de sete lojas de
artigos regionais (como a Casa
Amazonia e a Perfumaria Flora).
Contava com sete hotdis e pens6es:
Grande Hotel, Central Hotel, Ave-
nida Hotel, Hotel America, Hotel
Coelho, Hotel Nova America, Pen-
sao Suissa (assim mesmo) e Ro-
tiusserie Suisse.
Tinha 11 cinemas: Olimpia,
Moderno, Guarani, Independencia,
Iracema, Iris, Poeira, Popular, Rex,
Sao JoAo e Universal. Os clubes
tamb6m eram 11: Assembl6ia Pa-
raense, Associaqlo Recreativa
Bancrdvea, Clube do Remo, Pais-
sandu Esporte Clube, Para Clube,


Tuna Luso Comercial (depois Bra-
sileira), Cedro Esporte Clube, Li-
berto Esporte Clube, Sao Domin-
gos Esporte Clube, SatSlite Espor-
te Clube e Sete de Setembro Es-
porte Clube.
Operavam na cidade quatro
companhias de aviaco: Panair
do Brasil, Cruzeiro do Sul, Ae-
rovias Brasil e Loide Adreo Na-
cional. JA as empresas maritimas
eram sete: o Servico de Navega-
cao do Estado, Snapp, Booth,
Costeira, Lamport & Holt Line,
Loide Brasileiro e Moore McCor-
mack. Nas comunicaq6es telegrA-
ficas, al6m dos Correios e Tel&-
grafos, havia a RAdio Internaci-
onal e a Western Telegraph. Sete
paises possuiam representaqao
consular: Estados Unidos, Fran-
qa, ItAlia, Portugal, Inglaterra,
M6xico e Venezuela.
Os campos de futebol profissi-
onal eram os do Remo, Paissandu
e Tuna. Quadras de basquetebol e
v6lei eram poucas: Remo, Paissan-
du, Escoteiros e Quartel General da
8a Regilo Militar. Quatro sedes
nAuticas: Remo, Paissandu, Tuna e
Recreativa.
Apenas cinco estac6es de ve-
raneio eram indicadas: Icoaraci,
Outeiro, Mosqueiro, Salinas e
Soure. Uma viagem de 6nibus de
Beldm para Salinas durava oito
horas nessa 6poca.
Podia-se bater fotografias nos
fotos Amaz6nia, Carvalho, Elite,
Fidanza, Leite, Mendonca, Naza-
rd e Oliveira. A rede de hospitals
e casas de sailde era integrada pelo
hospital da Aeronautica, D. Luiz
I, Domingos Freire, Juliano Mo-
reira, Maritimos, Militar, Belmm,
Pronto Socorro, Naval, Sao Sebas-
tiao e Santa Casa.
Circulavam os jornais A Pro-
vincia do Para, A Vanguarda, Fo-
lha do Norte, Folha Vespertina, O
Imparcial, Flash, O Estado do Para,
O Liberal e A Vanguarda


IUitima Exibicl do Monumei.'al Filme de Sensaw o


X.

>I-. -lAM II U rKoLa4".I "TitWCO Al-I-rhimdeU*L L "lt* ( u

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Gilda no Para
Quem nao se apaixonou por Gilda (Rita Hayworth), quando ela
chegou as telas de cinema de Beldm, em 1947? E quem nao invejou o
poder de Glenn Ford, no famoso filme de Charles Vidor? Antes de
entrar no "escurinho do cinema" e ser enfeitigado pela trama exibida
na tela, o espectador ji experimentava as primeiras sensaq es diante
do cartaz do filme, preparado com requinte e publicado em generosos
espagos que Ihes eram reservados nas piginas dejornal. Era uma au-
tentica avant-premidre impressa, como esta, a service da empresa Car-
doso & Lopes, proprietAria do Cinema Vit6ria, na Pedreira. Aldm de
Gilda, o "filme sensagao", o program era finalizado com Trdgico
dlibi, um "filme de mistdrios", por apenas tres cruzeiros a entrada.
Ah, sim, o cartaz prometia: "Agora eles sabem o que eu sou",
diria Gilda. Era s6 comparecer A bilheteria, pagar e partilhar o se-
gredo com quem ja tinha visto a inesquecivel Gilda.


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Como era bom ver-o-peso
Como era muito mais bonito o Ver-o-Peso dos nossos pais e av6s,
nao 6 mesmo? Com espagos livres, era uma das mais agradaveis vizi-
nhangas de porto que ja houve numa cidade, impedindo que a tipica pai-
sagem das docas predominasse. Mesmo a reform de Edmilson Rodri-
gues nao recomp6s esse cenArio nem o substituiu por algo melhor, muito
pelo contrArio. Mas o problema j nAo 6 mais de arquitetura, engenharia
| ou inventive humana: 6 o resultado da massificaiao nivelada por baixo,
da deterioraqlo das condiq es de vida, desse tal de "progreqo".



BPP


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