Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00254
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00254

Full Text





omal


Pessoal


VA AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


2' QUINZENA
JULHO
DE 2003


LIDERANQA


Para: sem voz

Estado potencialmente mais rico da federagdo brasileira, o Pard precisa tomar
decis6es certas, na hora certa, para usar bem seus muitos recursos naturais. Mas
falta-lhe um grande lider e outras liderangas para entestar os enredos montados
al6m de seus limits. E um Estado em orfandade political.


O deputado Domingos Dutra, do
PT do Maranhao, realizou em
maio. um seminario, em Sao
Luis, para tentar encontrar
explicaqio para um paradoxo: "por que
o Maranhao, cor todo o seu potential,
continue com os piores indicadores so-
ciais do pais".
O Maranhao 6 o campeao national da
exclusdo social e do analfabetismo. Tern
a pior renda per capital e a menor partici-
pagdo no PIB (Produto Interno Bruto) en-
tre todos os Estados brasileiros. Ao long


das l6timas cinco d6cadas, na qual esses
indicadores sociais se deterioraram, o go-
verno estadual sempre foi aliado do go-


verno federal. Deveria, em tese, ser favo-
recido pelas verbas de Brasilia. Ainda mais
quando um maranhense, o senador Jos6
Sarney, ocupou, durante cinco anos, a che-
fia do poder national.
Nesse period de meio s6culo, no
Maranhdo surgiram grandes obras, como
o porto da Ponta da Madeira, um dos me-
lhores do mundo, a estrada de ferro de
Carajas, a ferrovia Norte-Sul (ainda em
construSqo), o p6lo de aluminio e alu-
CONTINUA NA PAG._2-'q


ANO XVI
Ni 305
R$ 3,00









mina da Alumar, um dos maiores do
mundo, a usina de pelotizacqo da Vale
do Rio Doce, uma das maiores do pais.
Logo comegard a ser construida uma
usina de places de ago no valor de um
bilhdo de d6lares.
Visto com inveja por seus vizinhos
paraenses, que lhe cedem min6rio e ener-
gia para se desenvolver, e reclamam de
terem sido transformados no dep6sito de
problems, que o vizinho export por
nao querer (ou nao saber) enfrentar, o
Maranhao nao se senate nem um pouco
privilegiado, muito menos agradecido.
Seu principal produto de exportagao in-
terna 6 a mis6ria, acompanhada ou nao
de series humans. O maranhense se
transformou no arig6 de d6cadas atris,
um migrant compuls6rio.
Nesses 50 anos de muita expansao
econ6mica e pouco desenvolvimento, o
control do poder politico pouco mudou
no Maranhao. Durante duas d6cadas
quem mandou de fato no Estado foi o
"coronel" Vitorino Freire, expressao (e
exemplar) de uma oligarquia a antiga.
Por quase quatro d6cadas seguintes os
poderosos tnm sido os Sarney, cld oli-
girquica que, se nao chega a ser propri-
amente de novo tipo, 6 de nova tintura
(almr disso, sao miltiplos, enquanto
Vitorino foi do time do um s6).
Se louros sao reivindicados por esses
dois mandarins, o 6nus tamb6m Ihes deve
ser cobrados. Atrav6s de virios m6todos,
licitos ou nio, suas6rios ou coercitivos, eles
impediram que surgissem novas liderangas
(ou as que surgiram se consolidassem) e
que houvesse alternAncia de poder.
Esta foi a conclusdo do semindrio ma-
ranhense. Talvez nao se chegasse a outro
final se a reflexdo fosse transferida para
os nossos dominios, cor alguma varian-
te (e esta mais do que na hora de juntar-
mos nossas reflexes As dos maranhen-
ses, capixabas, mineiros, parananenses e
cariocas para aprender, ensinar e se for-
talecer). Mas enquanto no Maranhao nin-
gu6m tem d6vida de quem da as cartas,
agora sobre a mesa verde de outro presi-
dente da Repdblica (novo em tese, velho
na pratica efetiva, ao menos a adotada at6
agora), o Pard, vitima dos mesmos ma-
les, 6 obrigado a constatar que, neste
moment, esta simplesmente 6rfio de
uma lideranga forte. Tem virios caciques
menores, par6quias, mas nenhum moru-
bixada al6m-divisas.
Quem pode falar em nome do Pard
fora dos limits territoriais do Estado?
Quem, ao falar, tem credenciais para ser
ouvido (ou, ao menos, 6, de fato, conhe-
cido)? E quem, mais do que falar, pode
gritar em nome dos paraenses, princi-
palmente num moment como este, em


que decisoes graves (como a do p6lo si-
derirgico) tam um forte component
externo? Ningu6m.
Nosso iltimo lider national foi Jader
Barbalho. Para o bem (algum), como para
o mal (um bocado). Com uma biografia
mais limpa, Jader poderia ter representa-
do para a VI Rep6blica mais do que Lau-
ro Sodr6 foi para a primeira e Jarbas Pas-
sarinho para a quinta. Mas sua brilhante
trajet6ria political tinha muitas cascas de
banana pelo caminho, nao para flagrar os
adversarios, mas para derrubar o pr6prio
personagem. Subir foi dificil, exigindo
todo seu talent. Para descer, foi extre-
mamente ripido, record mesmo.
Na iltima casca de banana em que
Jader escorregou, talvez definitivamen-
te, houve a contribuicao silenciosa e
maquiav6lica do soci6logo Fernando
Henrique Cardoso, ardiloso o suficien-
te para matar dois coelhos (que haviam
sido seus grandes aliados) de uma s6
cajadada, colocando ambos (Jader e
Ant6nio Carlos Magalhdes) para se des-
truir. Mas FHC jamais se livraria do pe-
rigoso ACM se nao contasse com um
politico professional como Jader, que,
por sua vez, imaginou estar tratando
com um intellectual amador. O engano
pode Ihe ter sido fatal. Ou nao?
Dizem que o deputado federal ainda
age com desenvoltura nos bastidores,
beneficiando-se do que construiu ao lon-
go da carreira political. Mas, para o bem
ou para o mal, ji nao pode mais gritar
sem se expor a um risco mortal. Pelos
tempos que vdo se seguir, teri que ca-
minhar por tetos de zinco quente em
noites sem luz com a maciez e a agili-
dade dos gatos, se quiser sobreviver ou
ter herdeiros politicos de expressao.
Qualquer descuido, por menor que seja,
podern ser-lhe fatal.
Nao por acaso, Jader escolheu o mo-
mento (a polemica sobre o novo investi-
mento da Companhia Vale do Rio Doce)
e o tema (uma usina siderdrgica) para vol-
tar a se expor, duas semanas atrns, res-
paldado numa questdo t6cnica e num in-
teresse coletivo. Deu uma longa entre-
vista ao seujornal, o Didrio do Pard, para
tentar retomar algum comando da opinion
pdblica (e, por extensdo, do eleitorado)
numa posiqao de lideranqa, sem conexdo
com os escandalos que levaram-no a bem
pr6ximo do final da linha.
O caso 6 que o Pard esti agora afoni-
co. Ja nao bastava estar abdlico. Ficou
6rfio de lideres. A procura de um gran-
de lider. Como sempre esteve, alias.
Condenado, como na peqa de Samuel
Beckett, a esperar e, na espera, a nunca
fazer o que precisa ser feito para mudar,
melhorar e seguir um caminho melhor.
Porque, ao que parece, Godot nunca
viri. Ou nao existe.


Banco
O Banco do Brasil publicou an6ncio de
pigina dupla (na imprensa do Sul, 6 claro)
indicando as 136 principals operaqres que
realizou no ano passado. Apenas duas espe-
cificamente no Pard. Uma, de 95 milhaes de
d6lares, de financiamento A exportaqlo, com
a Albris, a fibrica de aluminio da Compa-
nhia Vale do Rio Doce com os japoneses.
Outra, da mesma natureza, com a Minera-
alo Rio do Norte, no valor de US$ 17,7 mi-
lh6es. A MRN, na qual a Vale estA associada
a multinacionais do setor, 6 uma das maio-
res produtoras mundiais de bauxita.


Obra
0 Mangal das Garqas, a tiltima obra do
ciclo Paulo Chaves, ocupando a area ao lado
do Arsenal da Marinha, na Cidade Velha, foi
simplificado em relagao ao projeto original,
mas, ainda assim, ficou quase dois milh6es
de reais mais caro. O govemador Simao Ja-
tene pretend inaugurar a obra em novembro,
com pelo menos um ano de atraso. A Agenda
Minima, apresentada pelo governador no ini-
cio do ano, por6m, nao preve um tostdo se-
quer para o Mangal. Na irea, a tinica aloca-
qao feita foram 10 milh6es de reais para a res-
tauraqao da Catedral Metropolitana, arrema-
tando o projeto Feliz Lusitania.


Entendimento
Duas disciplines deveriam ser incorpora-
das urgentemente ao curriculo do ensino mr-
dio enquanto hd tempo para salvar a lingua e a
inteligibilidade na comunicaqCo entire n6s: se-
mantica e 16gica. A idWia me veio depois de ler
o seguinte "olho" (texto complementary) num
titulo de capa de cadero do jomal O Globo:
"Em seu primeiro v6o solo no Rio, cantora se
firma como promessa".
Como pode algu6m, numa primeira apresen-
ta~ao individual, se firmar como promessa?

Pauta
Passei duas semanas inteiras empenhado
em desfazer a intriga que a incompetencia e a
mi-f6 alheia criaram a partir da fraude eletro-
nica mandada para o Observat6rio da Impren-
sa. Fatos importantes desse period, como os
conflitos de terra, a pressdo dos madeireiros
sobre o Ibama, a recriaqao da Sudam e o terr-
vel incendio na floresta de Carajds, al6m do
contencioso entire o grupo Liberal e a CVRD,
s6 serdo tratados na pr6xima ediqao. Apesar
de sua gravidade latente.
Fica claro porque grupos poderosos, mas
que querem seus atos mantidos a distAncia do
conhecimento pdblico, me desviam da cober-
tura dos acontecimentos. Sem estejomal, mui-
tos itens decisivos da agenda da sociedade se-
rao apagados ou nunca serdo anotados. A quem
interessa esse silencio?


1 2" QUINZENA/JULHO DE 2003 Jomal Pessoal









A boa causa das eclusas


Vamos supor ter sido de moto pr6-
prio a iniciativa do deputado federal Ja-
der Barbalho de proper que a Compa-
nhia Vale do Rio Doce compense o Pard
pela perda, para o Maranhdo, do p6lo
siderirgico que beneficiary o min6rio de
Carajas, ajudando a construir as eclusas
da barragem de Tucuruf, no rio Tocan-
tins. Simultaneamente, o deputado esta-
dual Arthur Tourinho Neto, ex-superin-
tendente da Sudam e liderado de Jader
no PMDB, esteve com a direqSo da
CVRD no Rio de Janeiro para uma lon-
ga conversa. Mas pode ter sido mera co-
incidencia, mesmo que nao parega ser.
O ex-governador esteve certo ao in-
corporar o ponto de vista dos que, ha tem-
pos, vem defendendo um didlogo t6cnico
entire a CVRD, o governor do Estado e a
opiniao p6blica paraense. A arrogancia da
empresa no trato com a sociedade do Es-
tado mais important para sua atividade
exige, de nossa parte, uma reaqao propor-
cional ou mais enfatica do que as segui-
das ofensas praticadas pela empresa por
conta dessa sua postura metropolitan. O
confront, por6m, nao deve impedir o
didlogo s6rio, competent, honest. At6
mesmo porque, se esse entendimento for
impossibilitado pela empresa, o Estado
ataque a partir de uma plataforma moral
e 6tica consistent.
Nao sei se o ex-ministro props as
eclusas de Tucurui como compensaqgo
a partir de uma sondagem pr6via junto
a Vale, recebendo algum estimulo para
assim proceder. De minha parte, nao


consigo ver coerencia na sugestao. O
sistema de transposiqgo da barrage de
Tucuruf 6 uma obra ptblica tipica. E um
investimento de lento retorno, de m6-
dio a long prazo. Efetivamente, nao
existe demand de carga, hoje, para dar
pleno aproveitamento A capacidade das
eclusas, das maiores do mundo. A ren-
tabilidade da obra dependerd exatamen-
te da sua capacidade de alavancar a ati-
vidade econ6mica, fazendo com que o
incremento da demand de carga se mul-
tiplique, passando a ter um crescimen-
to exponencial.
As eclusas nao sao um bom neg6cio
commercial de moment, mas sao um de-
cisivo fator de desenvolvimento para o
vale do Araguaia-Tocantins, sobretudo
para seu baixo curso. Como obra ptibli-
ca, tnm um peso incomparavelmente su-
perior ao da Alga ViBria. Sem verdadei-
ro planejamento, a administragao Almir
Gabriel preferiu aplicar 180 milh6es de
reais na Alga, exatamente o dinheiro que
agora falta ao governor Simao Jatene para
assegurar metade do orqamento de con-
clusdo das eclusas.
NMo ha termo de comparag~o entire o
efeito da ligag~o por terra entire Bel6m e
Barcarena (e o sul do Pard) e a garantia
da navegabilidade atrav6s da enorme bar-
ragem da hidrel6trica de Tucuruf. Se ji
existissem, as eclusas alterariam bastan-
te a andlise das locaqces para o p6lo si-
derirgico sino-brasileiro, aumentando as
vantagens de Vila do Conde e reabrindo
as possibilidades de industrializaq~o do


Saida


A Natrontec estava atrasada duas
semanas na entrega do relat6rio final
sobre a localizacao da fabrica de
places de ago a ser implantada pela
Companhia Vale do Rio Doce e
s6cios japoneses, quando esta edicgo
foi fechada. A data adredemente
anunciada era o dia 11. Ningu6m
bem informado tinha mais ddvida: a
usina ficard mesmo em Sao Luis do
Maranhdo, embora utilizando o
min6rio da Serra dos Carajas.
Mas antes de entregar o estudo, a
CVRD preferiu o contato pr6vio com
o governor do Estado, num terreno
neutro, Brasilia. Os resultados do
encontro informal nao foram


anunciados. A tentative 6 de
encontrar um denominador comum
que previna conflitos resultantes da
decision. O Pard perderi, mas levard
alguma coisa como compensagdo.
A assessoria da Vale tem insistido
que a empresa estara investindo
quase quatro bilh6es de d6lares nos
pr6ximos cinco anos no Pari,
gerando sete mil empregos diretos e
18 mil indiretos. E que o Estado
recebera um terco dos investimentos
da CVRD previstos para este ano.
Isto 6, US$ 600 milh6es, de um total
de US$ 1,8 bilhao. Carajis. Nao
haveria, assim, motivo para choro.
Pois sim.


min6rio de ferro de Carajis no litoral
do Pard. O eixo de transport do pla-
nalto central para a costa, atrav6s do
rio Amazonas, se deslocaria para leste,
poupando o Tapaj6s do problemitico
destino que o espera.
E pouco provavel que a Vale atenda
o apelo para incorporar-se ao projeto
das eclusas. O corredor Araguaia/To-
cantins jd esti definido para empresa e
seus associados: sao os 1.320 quil6me-
tros desde o Mato Grosso at6 o Pard
por via fluvial, por rodovia de Colinas
de Goids a Porto Franco e por via f6r-
rea at6 os portos de Itaqui e Ponta da
Madeira, em Sao Luis, utilizando a
Norte-Sul e a ferrovia de Carajas. Nao
ha atrativo para a empresa em ir mais
para o norte, exceto se os incentives
forem compensadores.
Af entra outra questao: sera que o
projeto original das eclusas de Tucu-
ruf, que reflete as mesmas concepqoes
da suntuaria hidrel6trica (mesmo por-
que ambos foram executados pela mes-
ma empresa, a Camargo Corr8a), foi
convenientemente reajustado, tanto tec-
nicamente quanto em pregos, para ser
uma boa obra ptiblica? Quem pode res-
ponder satisfatoriamente a essa d6vi-
da? Talvez s6 saibamos se a Assembl6ia
Legislative convocar urgentemente
uma sessdo especial sobre o assunto,
reunindo os envolvidos ou interessados
na questlo. Para que uma boa causa nao
acabe servindo a interesses que nao
sejam os legitimamente p6blicos.



Ferrovias
Com a autorizagdo da Agencia Na-
cional de Transportes Terrestres para
a compra da parte da Companhia Si-
dertrgica Nacional na Ferrovia Cen-
tro-Atlantica, a Vale vai assumir a li-
deranqa disparada no setor e consoli-
dar o piano de dominio sobre a maior
logistica de transport em poder de
uma empresa privada no planet. O
president da CVRD, Roger Agnelli,
anunciou que a compra de 66 locomo-
tivas vai desencadear o process de
modernizaqao da malha ferrovidria da
companhia. Al6m de controlar direta-
mente a Estrada de Ferro Carajis e a
Vit6ria a Minas, que escoam 160 mi-
lh6es de toneladas de min6rio de fer-
ro, a Vale participa das principals fer-
rovias do pais. Um poder ainda nao
adequadamente avaliado.


Joral Pessoal 2" QUINZENA/JULHO DE 2003









0 grande reporter


E dwaldo Martins, que morreu, aos
63 anos, no uiltimo dia 18, foi o
maior colunista social da hist6-
ria da imprensa no Pard. O titulo
nao perderia forga se o enfoque fosse am-
pliado um pouco mais: ele tamb6m foi um
dos maiores colunistas do jornalismo pa-
raense. Colunista que escreve qualquer
tipo de coluna, nao s6 a social. Mas foi
tudo isso por nunca ter deixado de ser um
bom reporter.
Edwaldo escrevia por amor, paixao,
compuls~o. Estava sempre atris da 6ltima
informagdo, do potin, da novidade. Queria
saber mais, arrastando consigo seus leito-
res para a atualizadio com osfaits-divers,
o grand-monde, o iltimo grito. Era uma
curiosidade insaciavel. Muitos outros sio
tdo curiosos quanto ele foi. A diferenqa 6
que Edwaldo sabia como saciar essa imen-
sa sede de saber, de estar "por dentro".
Em primeiro lugar, por sua mem6ria
privilegiada. Podia-se testi-la dando-lhe o
nome de uma pessoa da sociedade e pedin-
do-lhe para fornecer um perfil do persona-
gem. Rapidamente Edwaldo descrevia a
genealogia do indigitado, tecia elos e asso-
ciaqdes, arrematando com uma definiqo
pessoal. Tudo de mem6ria. Outro teste fre-
qiiente: perguntar se o jornalista se lem-
brava qual era o nome daquela loja de dis-
cos que ficava ao lado daquele hotel em
que ele havia se hospedado, anos atris, em
Nova York. Aldm da ficha da casa comer-
cial, vinha o relate das visits que o colu-
nista havia feito, no ano tal, comprando tais
discos, ao preqo xis.
Edwaldo Martins lia com sofreguidao.
No inicio, combinavajomais e revistas com
livros, selecionados com crit6rio. Aos pou-
cos, foi se dedicando integralmente ao
mundanismo e A conjuntura. Trazia pilhas
de publicaqces das bancas, onde sua conta
era maquda, e verificava as noticias com
seus sensors de sintonia fina. Recortava o
que lhe interessava, reescrevia quando
aproveitava o material e mandava em fren-
te. Nao precisava mais do papel: o cdrebro
ji havia arquivado as informag6es. Amea-
lhadas em todas as fontes possiveis, num
contato direto (daf o permanent giro por
tudo que fosse acontecimento) ou ao alcan-
ce do telefone, uma de suas armas de com-
bate preferenciais.
Foi seguindo esse m6todo que ele avan-
qou na carreira jornalistica. Sua primeira
coluna, de pigina inteira, na Folha do Nor-
te, no final dos anos 50, era uma tesoura-
press de revistas e jomais sobre cinema,
sua primeira paixao intellectual. Passou para
A Provincia do Pard com Elas sdo noticia,
nova tesourada de notas sobre o mundo


feminine, seu segundo foco de interesse.
Quando comegou a escrever Alegria, Ale-
gria, coluna dedicada aos jovens, no espi-
rito da inovag~ o dos festivals de misica, jai
era criador de textos.
Tinha estilo e conhecia a lingua. Deci-
dia com bom gosto e, quase sempre, corn
absolute dominio dos temas. NSo por lei-
tura apenas: por viver intensamente cada
dia e aproveitar ao maximo as oportunida-
des que a vida lhe oferecia. Nenhum cava-
lo passou selado diante de Edwaldo sem
que ele o montasse, at6 que a doenca silen-
ciosa e traigoeira comegou, literalmente, a
comer-lhe os passes e a derrubi-lo na cama
(nao que nao resistisse, com uma fdria es-
pantosa).
As oportunidades mais fascinantes, para
ele, eram as viagens, sua melhor universi-
dade (a academica ficou pelo meio, no pi-
oneiro curso de economic da Universidade
Federal do Pard). Monoglota formalmen-
te, Didi (como era mais informalmente tra-
tado) foi um exemplo em favor de um es-
peranto lingiiistico, da mecdnica gnoseo-
16gica dos gestos, das expresses, da in-
ventiva, da audacia da iniciativa. Fazia-se
entendido em todos os lugares e entendia
tudo o que queria saber, em qualquer parte
do mundo por onde andou. E como andou.
NMo como um turista apressado ou ob-
tuso. Lia antes, se informava previamente
e, ao voltar, estendia o conhecimento em
papos com quemji tinha ido antes ou mais
vezes, conversas que se estendiam at6 nun-
ca mais acabar graqas a outra de suas mui-
tas qualidades: saber receber visits. Sua
narrative das excurs6es era uma benfazeja
socializacgo do aprendizado. Edwaldo
Martins foi um dos mais competentes tu-
ristas que o Pard ji produziu. Muito mal
aproveitado, por sinal.
Em tudo era um perfeccionista, um se-
vero critic da pr6pria obra. Todo aprendiz
dejomalismo (hi os que nao evoluem mes-
mo com d6cadas de militancia) devia ter
tido a oportunidade de acompanhar Edwal-
do no fechamento de sua coluna. Nao hi
experi8ncia de maior plenitude nas entra-
nhas dojornalismo do que um fechamento
de ediqao. Didi Martins revia com cuidado
seu texto, datilografado com esmero e corn
a preocupaqao de nao errar (nem mesmo
nos esses e erres dos nomes pr6prios, a se-
rem grafados com plena exatidao).
Corrigia com o cuidado de ser entendi-
do pelo editor e pelo grafico, didatico at6
nesse moment, desenhando a letra, dei-
xando pistas claras para o acompanhamento
facil. Depois, juntava aqueles pap6is, que
continham o conteddo das mat6rias, aos
seus titulos, fotos e legends, organizava-


os e, quando nada havia a retocar, manda-
va-os em frente. Uma obra de fino artesa-
nato.
Ali estava uma coluna social modern
e cosmopolita, que podia honrar as pigi-
nas de qualquerjomal do mundo. Cidadao
que se sentia ber em Nova York ou Paris,
T6quio ou Bogota, Sao Paulo ou Rio de
Janeiro, Edwaldo foi sempre o ratinho de
Braganga, aculturado entire as beldades
(uma das quais, hoje dama influence, foi
sua boa amiga at6 o fim) e senhores char-
mosos da Braz de Aguiar.
Ia para todos os lugares com a certeza
de que voltaria a sua querida Bel6m, para
continuar a criar personagens (sua obra-
prima, nesse sentido, foi Francy Meira,
cuidada como boneca de porcelana da co-
luna) e delimitar as fronteiras da socieda-
de, conforme as normas clissicas do colu-
nismo social universal, de bom gosto, mes-
mo quando (e necessariamente) preconcei-
tuoso. La fora, quebrava as arestas do pro-
vincianismo. Aqui, plantava as sementes da
universalidade. Foi um embaixador pleni-
potenciario na lingua universal, a da civili-
dade, da est6tica, do epicurismo, do savo-
ir-faire, do "boa-pracismo".
Didi Martins foi, acima de tudo, um
cavalheiro, um gentleman ou, seria melhor
diz-lo, um gentil-homem. Dono de duas
maravilhosas virtudes: a lealdade e a gene-
rosidade. Seus amigos eram seu maior pa-
trim6nio e isso ele fazia questao de come-
morar todos os dias. Sua preciosa agenda
Ihe permitia rodar por horas inteiras ao te-
lefone, indo de A a Z, da direita A esquerda,
do establishment ao underground. Arma-
do de plena desenvoltura em todos os am-
bientes e com todos os personagens, volta-
va dessas cagadas cor fardos de noticias,
espalhadas aos montes na sua vasta colu-
na, escrita com pontualidade britanica.
Cor esse passe, Edwaldo Martins trans-
formou seu domicilio num sitio democrd-
tico, num ponto de converg6ncia dos dis-
tintos e dos contrrios, unindo o que pare-
cia completamente distinto, juntando at6
mesmo os desavindos em tomo de sua ti-
vola redonda (de frios, doces & salgados,
naturalmente), do seu salao (em certos
moments derivando para o saloon, que
ningu6m 6 de ferro).
Por isso mesmo, o comunicado de sua
morte foi assinado por pessoas que, de ou-
tro modo, seja na vida como na morte, nao
se uniriam nunca nao fosse pelas gragas
desse bragantino em6rito, verdadeiro cida-
dao do mundo, que nos deixou, 6rfaos de
seu carinho, carentes de sua atenq~o, eter-
namente devedores de sua prolifica passa-
gem por este mundo.


A 2" QUINZENA/JULHO DE 2003 Jomal Pessoal









Edwaldo Martins Irregulares
Entre as obras com "indicios de irregulari-
dades graves", apontados pela Cimara dos
-U Deputados, estdo a implantaqo da hidrovia do
Araguaia-Tocantins, a construqgo de trechos
rodoviirios no mesmo corredor (na divisa de
Tocantins cor o ParA) e a construqao das eclu-
sas de Tucuruf, todos projetos no imbito do
Minist6rio dos Transportes.


Viagens
F N, tkDA Tenho lido portarias da Casa Civil do Gover-
no do Estado autorizando servidores pdblicos a
S viajar para fora do Pard "a fim de tratar de inte-
resse" dos 6rgaos aos quais estdo vinculados. Duas
sugest6es. Uma, que se especifique a natureza do
interesse: o que 6 realmente que o bamab6 vai
fazer 16 fora. A outra: que a Assembl6ia Legisla-
I tiva receba um relat6rio do viajante sobre os re-
sultados de suajomada (al6m do chefe do servi-
dor, claro). Ndo precisa ser um relat6rio como o
que Graciliano Ramos escreveu quando era pre-
feito de Palmeira dos Indios, no interior de Ala-
goas. Mas que seja pelo menos informative, as-
segurando que o dinheiro pdblico foi aplicado
com corre~io e resultados.
Fica a observa~go a quem de direito. Se
adotada, bem que podia ter efeito retroativo 6
celebrada missdo commercial rec6m-concluida
KbM 4a Portugal. Depois de muitos fogos (de artiff-
cio) na ida, nenhum estalinho na volta.


Perda


Ao contririo do que sugere o titulo e
dizem os detratores, este raramente con-
segue ser um journal pessoal. Seu redator
solitario v6-se quase sempre esmagado
pelas conting6ncias da conjuntura. Quer
se libertar das amarras do cotidiano, das
injuncoes da hist6ria, mas nao consegue.
Tern que ser objetivo, precisa escrever
sobre o que interessa, nao sobre o que quer
da forma como quer.
Assim escrevi o obituLrio de Edwal-
do de Sousa Martins: centrado na obra
do autor. Mas nesta nota gostaria de re-
gistrar apenas a dor pela perda do ami-
go de quase quatro d6cadas. Eu tinha 16
anos e ele 26 quando nos conhecemos,
no lugar em que melhor nos sentimos
urbi et orbi: uma redaqgo de journal.
Nunca, mas nunca mesmo, nossa ami-


zade foi perturbada por um finico inci-
dente, um tom de voz mais alto, uma re-
criminagqo. Certamente essa trajet6ria
olimpica 6 m6rito do companheiro que
morreu, tantos motives ele podia ter tido
para se irritar e nao se irritou.
Deixo-lhe aqui, neste cantinho de jor-
nal, que devia ser pessoal, a 1igrima que
nao chorei por sua perda. Uma l1grima de
papel, microsc6pica diante da enormida-
de da perda. Mas uma 1~grima sentida. O
que perdi com a morte de Edwaldo s6 o
reencontro, numa eternidade na qual nao
acreditamos, sem dela desdenhar, poderi
recompor. E assim quando sdo dnicas as
pessoas queridas que perdemos. Perdemos
um pouco de n6s corn elas e, com elas,
adiantamos um pouco do que iremos per-
der, quando chegar a nossa vez.


Desemprego
A taxa de desemprego no Nordeste (de
15,70%) praticamente se igualou a do Norte (de
15,65%) no rabo da fila desse grave problema
social, que hoje fustiga o Brasil. Na Amaz6nia,
extremamente critics sao esses indices no
Amapi (21,78%) e Amazonas (21,74%). Como
os ndmeros se referem a desemprego aberto, as
coisas ficam mais negras ainda se incorporado
o desemprego disfarqado e o subemprego. O
IBGE vai tentar atualizar esses nimeros a partir
de outubro, mas Bel6m jd oferece uma realida-
de trdgica: apenas um quarto dos cidadaos em
condiq6es de trabalhar na capital paraense tem
carteira assinada.
E impossivel permanecer indiferente a essa
situagdo. Nossa geraqdo recebeu um mundo
muito melhor do que o que vai passar em fren-
te. O perturbador 6 que exercemos nossa vida
ativa guiados por principios 6ticos, morais e
politicos, tentando servir a causa piblica, ele-
mento j nao tao perceptiveis nos que nos suce-
derao. Na contingencia de entrar na fase cons-
ciente da vida tendo que resolver problems,
para os jovens de hoje 6 quase indescartAvel o
cada um por si. A tarefa que temos diante de
n6s, antes que essa selvageria se propague, 6
voltar a oferecer, para todos, a possibilidade de
serem felizes pelo trabalho. Ou seja: apagar es-
ses indices medonhos de desemprego.


Jornal Pessoal 2' QUINZENA/JULHO DE 2003 _









A fraude eletr6nica e


de 6' feira, dia 11, chegou a cai-
xa postal do Observat6rio da
Imprensa, uma revista eletroni-
ca especializada, com sede em Sao Paulo,
uma sugestao de pauta feita em meu nome,
embora corn outro e-mail (nao o meu
jornal@amazon.com.br, mas sim
luciofpinto@yahoo.com.br). A mensagem
era dirigida ao editor geral do OI, Luiz
Egypto. Como ele estava de f6rias, quem
abriu o e-mail foi o editor-assistente, Luiz
Ant6nio Magalhaes.
O falso L6cio Fldvio Pinto prometia
denunciarjornalistas que, repetindo o cos-
tume de Jayson Blair, reporter do journal
New York Times, tristemente celebrizado
por forjar assuntos para suas mat6rias, re-
produziam declaraq6es atribuidas ao pre-
sidente da ONG ambientalista Conservati-
on Intemacional, que elejamais havia dado.
Ji essa mensagem recomendava cau-
tela da parte do editor do Observat6rio.
Primeiro, por nao ser transmitida atrav6s
do 6nico e-mail que possuo, cor o qual
sempre mantive relaqCo com o 01 ao lon-
go dos iltimos dois anos. Em segundo,
por ser p6blico que minha vinculaq~o ex-
clusiva 6 cor meu Jornal Pessoal.
O falso L6cio Flivio anunciou, em sua
sugestao de pauta, que na quinta-feira se-
guinte seria publicada a entrevista que fi-
zera com o president da Conservation (du-
rante a qual ficou sabendo da fraude), por
isso queria denunciar a fraude brasileira.
Para ter a repercussdo que esperava, certa-
mente a entrevista sairia nio no mindsculo
journal de Bel6m do Pard, mas em um 6rg5io
da grande imprensa do sul do pais.
As 11h34 da segunda-feira, dia 14, a
tal mat6ria foi transmitida pelo falso Li-
cio Flvio. Diante do conteddo, o editor-
assistente do Observatdrio consultou o
responsavel pela revista, o veteran jor-
nalista Alberto Dines. Decidiram que o
texto s6 sairiajunto com "as respostas dos
envolvidos". Klester Cavalcanti (ex-cor-
respondente de Veja em Bel6m, que se
notabilizou por sofrer um confuso seqiies-
tro), Cliudio Angelo e Alexandre Mansur,
apontados no artigo como freqtientadores
da escola de fraude jornalistica de Blair,
consultados, disseram que a acusaqgo era
inconsistent.
No dia seguinte, enquanto recebia os
protests e desmentidos dos acusados,
Magalhies mantinha didlogo apenas por
e-mail com o falso L6cio, que dizia es-
tar fora de casa e nio usar cellular (detinha
essa informagao: abjuro o cellular) para nio
tender aos pedidos do editor do 01 para
conversar cor ele por telefone. Disse ain-


da que precisava recorrer a um cibercaf6
porque seu computador "dera pau" (ex-
pressZo jamais grafada por mim, nem dita
verbalmente uma dnica vez na vida).
S6 um pouco depois das quatro da tar-
de de terca-feira, 12, a menos de duas ho-
ras da ida do artigo para o ar, com as res-
postas dos acusados (que era o que estava
programado), Andrea Margit, coordena-
dora de comunicaq o da Conservation In-
ternational, me contactou de Belo Hori-
zonte por telefone. Felizmente eu me en-
contrava em Bel6m, com meu telefone e
meu computador em perfeito estado, tra-
balhando na minha casa, ao alcance de
quem me quisesse falar, quando Andrea
me perguntou se eu escrevera um artigo
para o 01 com base em entrevista com
Russell Mittermeier (a quem nao conhe-
qo pessoalmente). Eu devia estar em Re-
cife, tomando posse como conselheiro da
SBPC na Amaz6nia, mas nao pude viajar.
Felizmente. Do contrdrio, nao teria con-
seguido segurar a fraude.
As 16h28 Andrea me passou por e-mail
o texto do artigo que me era atribuido.
Fiquei perplexo e respondi-lhe, de pron-
to, que aquilo era uma fraude. Logo de-
pois liga o editor-asssistente do Observa-
tdrio. Declarei-lhe jamais haver escrito
aquele texto. Pedi-lhe para suspender a
publicacgo, ji que se tratava de uma frau-
de. O artigo nao entrou na ediqco do Ob-
servatrrio daquele dia.
As 11h09 do dia seguinte, 17, mandei
uma mensagem descontraida a Luiz An-
t6nio: "Alguma novidade sobre o imbr6-
glio?". E s6. Achava, como professional
e como cidaddo, que a tentative de frau-
de havia sido estancada e o epis6dio se-
guiria outro curso, o normal: sair atrAs
do fraudador.
Resposta dada por Magalhaes, quase
sete horas depois:
"O caso do artigo enviado na semana
passada [erro desconcertante: o artigo ti-
nha sido enviado tres dias antes] sera tema
de debate na pr6xima ediqCo do Observa-
t6rio. N6s investigamos o caso inclusi-
ve rastreando o e-mail do yahoo que foi
usado para passar a matdria e temos evi-
d&ncias suficientes para concluir que o
texto e realmente de sua autoria. O Kles-
ter e o Cliudio Angelo deverio escrever a
respeito, o Dines comentari o epis6dio e
Marinilda e eu escreveremos um texto
contando a hist6ria e a investigated pos-
terior. Pretendemos dar conhecimento a
voc8 do material produzido por n6s e abrir
o espaco para a sua defesa. A partir de
amanhd o Luiz Egypto estard de volta e
comandari a pr6xima ediqao do Observa-


t6rio. Toda a correspondencia que voce
enviar, por favor, o faga com uma c6pia
para ele ou exclusivamente para ele" (gri-
fos meus).
De perplexo passei a chocado, revol-
tado, indignado, furioso. Via-me coloca-
do na cadeira de r6u diante de um tribunal
ji formado (cada um com a sua tarefa es-
pecifica) para me julgar pelos delitos de
mau-caratismo, falta de 6tica, fraude ele-
tr6nica, improbidade professional e falsi-
dade ideol6gica, capituliveis em normas
de redaqao e no C6digo Penal. Meu car-
rasco nao tinha ddvida da minha culpa.
Mas, magnanimo, permitia que eu apre-
sentasse minha defesa, peqa que certamen-
te iria tao-somente decorar a sentenqa de
condenaqgo, antecipadamente anunciada.
Respondi ao Torquemada digital:
"Esta 6 a maior ignomfnia praticada
contra mim. Estou lhe assegurando, corn
o respaldo de 37 anos de profissao, que
nao fui o autor da referida mat6ria. (...) E
um desrespeito A minha pessoa essa deci-
sao que voce estd me comunicando, a mi-
nha revelia. (...) Se voce nao acredita na
minha palavra, dita por quem jamais co-
meteu uma infamia dessa ao long de 37
anos da profissao, apure devidamente o
assunto antes de tomar qualquer media.
Atribuir-me essa sujeira, ignorando meus
protests, sera um ato de ofensa e lesao
praticado contra mim. Reagirei A altura
dessa nefanda agressao".
Nao satisfeito, logo em seguida man-
dei uma segunda mensagem. Presumindo
que o editor, a quem nao conhecia, fosse
"um professional competent, um cidadao
de boa f6, uma pessoa honesta, alertava-
o que estava "agindo com aqodamento,
sem o menor bom senso e ferindo a 16gica
mais simples, al6m de um principio ele-
mentar de direito: todos sio inocentes at6
prova em contrdrio. Inocencia se presu-
me, culpa se prova".
Questionava-o sobre as investigaq9es
que ele alegava haver feito, "tao comple-
tas nestas 24 horas que pode declarar que
o texto 6 meu, a despeito da minha nega-
tiva". Desafiava-o a me mostrar as provas
reunidas contra mim. Admitindo pouco
saber de informatica, submeteria essas
provas a um perito, "para que ele diga se
sao suficientes ou nao, se as tais 'provas'
nao podem ser tao bem fabricadas quanto
esse falso artigo a mim atribuido".
Reafirmava que estava sendo vitima
"de uma trama torpe, s6rdida, criminosa.
Quero que essa manobra canalha seja apu-
rada agora por quem de direito. Quero que
o Observat6rio de queixa a policia, o que
farei aqui, amanha".


4 2" QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal









o jornalismo cumplice


Em resposta, Magalhaes repassou esta
mensagem de Dines:
"O Observat6rio cumpriu cor o seu
dever investigar a denlincia de fraude
jornalistica. Os denunciados protestaram
e acusaram o alegado denunciador. A ma-
t6ria foi suspense e nao entrou na ediqio.
Se o e-mail foi fraudado nada temos a
ver corn isso [grifo nieu]. Cabe ao lesado
tomar todas as providencias mas nao po-
demos nos intimidar cor ameagas de
censura policial [grifo original].
Vamos em frente: vamos historiar o
fato, reproduzir a den6ncia original, as
manifestaq6es dos acusados e, obvia-
mente, reproduzir o que denunciador-de-
nunciado (Lfcio Flivio) ter a dizer.
Mas este nao deve esquecer que os an-
tecedentes o prejudicam. Anteriormen-
te, de boa f6, este Observat6rio acolheu
acusaqdo assinada por ele e que agora
esti sendo contestada por um dos acu-
sados no novo epis6dio".
Voltando A carga, o meio-dia de siba-
do, dia 19 (cinco dias, portanto, depois de
haver recebido o artigo), o editor-assisten-
te responded:
"A investigacgo que realizamos teve
avanqos nos iltimos dois dias. Na pr6xi-
ma edicao do OI vamos publicar um
dossi6 sobre a tentative de fraude de que
fomos vitimas. Nao sera de forma alguma
uma peqa acusat6ria contra voce e nem
poderia ser assim -, mas um relato dos
fatos para que os leitores sejam informa-
dos do caso. Este material deveri estar
pronto hoje e, tao logo esteja, vamos dar
conhecimento a todos envolvidos e
pedir que se manifestem".
Qual havia sido at6 entao o procedi-
mento "rigoroso e responsivel" do editor
do Observat6rio?
Consultou o Yahoo, de onde partira o
e-mail. Seguiu as instruc6es recebidas para
identificar o titular do endereqo eletr6ni-
co usado na correspondencia, mas a che-
cagem "nao foi conclusive". Ja na quarta-
feira, entretanto, em investigacao pr6pria,
o jornalista Klester Cavalcanti comunicou
ao editor "que o e-mail usado pelo frau-
dador havia sido criado em um cibercaf6
em Bel6m e forneceu seu endere9o".
Cor a ajuda da editor Marinilda Car-
valho, Magalhaes constatou "que o ciber-
caf6 ficava a poucas quadras dos dois en-
dereqos que constam da lista telef6nica de
Beldm para Lucio Flivio Pinto", verifi-
cando "que ali realmente funcionava o
estabelecimento informado por Klester".
O editor, quando me jogou na cara que
eu mentia e que era o autor do malsinado
artigo, mesmo negando de p6s juntos, su-


punha estar bem armado para me surpre-
ender. Levava ases de ouro suficientes na
algibeira para me desmascarar numa nota
da redaqao, que certamente acrescentaria
ao meu texto sobre a fraude quando o as-
sunto, enfim, chegasse a ediqio do dia 22
do Observat6rio. Daf sua arrogancia, seu
tom condenat6rio, partilhado pelo big-
boss Alberto Dines. Diz ele, na mat6ria,
que a equipe, reunida para apreciar as
"provas", "decidiu informar a L6cio so-
bre as suspeitas em e-mail enviado pelo
editor-asssistente Luiz Antonio Magalhaes
no fim da tarde de quinta-feira, dia 17".
Peqo ao leitor que, examinando o tex-
to, mais atras reproduzido, se essa 6 uma
comunicaqao de informaCgo. Nada me
foi dito sobre a investigacao de Klester
nem sobre seu resultado. Fui comunica-
do que era culpado e seriajulgado pelo
Gulag de Dines.
O problema 6 que, tao levianamente
como se comportara na investigaqao da
quarta-feira, dois dias depois Klester Ca-
valcanti voltou ao editor-assistente para Ihe
dizer que "havia incorrido num engano la-
mentivel: era impossivel determinar com
precisao a localidade em que o e-mail do
Yahoo havia sido criado". Desinteressada-
mente prestativo, por6m, Klester "afirmou
que seu informant descobrira de onde par-
tiram as mensagens do falsario: da cidade
de Sao Paulo". Mas nao se preocupou em
dizer o nome do estabelecimento e seu en-
dere9o (postal e eletr6nico).
Como a d'nica informacio conclusive
sobre a fraude partira de Klester Caval-
canti, assunto encerrado. Mas um pouco
mais de apuraqao ji nos permit saber,
com base em pericia em curso, que tal
endereqo paulista poderia ser tranquila-
mente identificado. O cadastramento do
e-mail foi efetuado a partir do servidor de
uma empresa especializada do setor em
Sao Paulo. Quem a utilizou? E o dnico
dado que esti faltando.
Cor a volta atras de Klester na acusa-
cao que fazia contra mim e a chegada do
editor Luiz Egypto, o tom dos 6ditos im-
periais expedidos contra mim pelo noti-
vel jornalista e sua equipe aguerrida co-
meqou a mudar. A correspondencia pes-
soal documentando essa mudanqa de tom
esta em meu poder e nao foi usada at6
agora. A evoluqao da mudanqa e do mi-
metismo que se seguiu resultaram no tex-
to de abertura da cobertura do epis6dio na
edigao da semana passada do Observat6-
rio, assinada por Alberto Dines.
Esse cidadao me acusa do que s6 cabe
nele: de ter tido "acesso de desequilibrio,
deselegancia e desonestidade intellectual,


acusando-nos por sabe la qual crime e tor-
nando pdblicos os e-mails e telefonemas
'de servico' trocados com ele durante as
diligencias para desmascarar uma fraude
que envolvia sobretudo o seu nome".
Atacando para nao ter que se defen-
der, ofendendo para intimidar quem ou-
sar flagra-lo na mentira e na vilania, Di-
nes diz que, na qualidade de investigado
pelo 01, estou sujeito ao procedimento que
ele instaurou em seu Gulag (todos sao
culpados atd prova em contririo) e nao
posso pretender obter "um atestado ante-
cipado de inocencia (...), sobretudo por-
que ji nos havia enredado anteriormente
numa dendncia infundada". Ainda mais
por ser do primitive, pobre e desqualifi-
cado Norte, um simples "jornalista para-
ense". O Sul altissonante esti al6m do al-
cance do Norte submetido.
A "dendncia" 6 uma resenha de um li-
vro escrito por Klester Cavalcanti, na qual
mostrei contradiq6es e inconsistencias na
reconstituiqao que ele fez de um seqties-
tro que teria sofrido quando corresponden-
te da revista Veja na Amaz6nia. Os mes-
mos questionamentos eu havia feito por
ocasiao do "fato", em margo de 2002, nes-
te mesmo Jornal Pessoal.
Resenha 6 responsabilidade unilateral
de quem a escreve. Nao deve ser submeti-
da previamente ao resenhado. Este pode
reagir, se quiser, estabelecendo uma pole-
mica, o que nao ocorreu, nem na primeira
abordagem e nem na segunda, ao menos
de pdblico. Fofocas e ranger de dentes
foram intensos, mas nao assumidos. O
Observat6rio publicou duas cartas em re-
forgo da minha resenha.
De novembro do ano passado, quando
ela saiu, at6 a semana passada, quando
Dines revelou a "novidade", acuado no
meio desse epis6dio de fraude, eu ignora-
va que havia enredado a revista "numa
denincia infundada" e nao merecia mais
a f6, naturalmente pdblica, do inquisidor-
mor. Nesse period, Luiz Egypto me pe-
diu para autorizar a transcricao de various
artigos meus do Jornal Pessoal pelo Ob-
servat6rio. Eu autorizei e ele colocou no
ar. Nenhuma palavra sobre meu descr6di-
to, at6 que isso servisse de argument para
esse falso Pilatos tentar lavar as maos.
Elas estao sujas e assim continuarao
para sempre. Se algum dia Alberto Dines
mereceu respeito, esses dias ficaram bem
long, nas brumas do passado. O present
e o future lhe reservam um martirio: ter
que conviver com sua consciencia pesada
e sua alma suja.

CONTINUA0NA [ AG_ 8


Jornal Pessoal 2' QUINZENA/JULHO DE 2003 7









Como um Zeus mindsculo num Olim-
po clinic, Dines escreveu o texto de aber-
tura das mat6rias divulgadas no Observa-
tdrio. Como editor principal da publica-
95o com o privil6gio da iltima palavra,
devia ter se colocado A altura dessa con-
diCio. No entanto, produziu um amontoa-
do de mentiras, que devolvem a um as-
sunto s6rdido a lama de que dele ji devia
ter sido retirada.
Dines mente. De forma cinica e cli-
nica. Pensa estar acima da condiqgo hu-
mana, num nirvana ficticio, que nao abri-
ga her6is, o que ele esti muito long de
ser, mas aquelas criaturas impermeiveis A
realidade, que se olham no espelho pen-
sando ser a Branca de Neve, quando nio
passam da madrasta da hist6ria infantil.
Considera-se autorizado ajulgar e sen-
tenciar pessoas, que a irresponsabilidade
e a leviandade dele pr6prio colocaram no
banco dos r6us desse tribunal de excegqo
que Dines, vitima de uma senilidade an-
tecipada pela fraqueza de carter, julga e
condena. Falta-lhe autoridade para apon-
tar o dedo e anatematizar, como um Zeus
homiziado em sua torre de vidro barato.
Em primeiro lugar, 6 totalmente falso
o titulo ("Jayson Blair faz escola") dado
pelo OI a esse epis6dio de fraude eletr6-
nica. Tr6s profissionais de imprensa fo-
ram comparados ao reporter do New York
Times, que inventava assuntos, por um
covarde an6nimo. Tentando dar credibili-
dade A sua calinia confeitada (e ao mes-
mo tempo se vingar de mim, por motive
que esta difusamente espelhado num dos
textos da "cobertura"), criou um e-mail em
meu nome (graqas a perigosa facilidade
que certos provedores da internet permi-
tem e acobertam) e enviou para o Obser-
vatorio um artigo assinado por mim, mas
claramente sem o meu estilo, nem o da
escrita nem o do raciocinio, objeto com-
pletamente estranho ao meu curriculo de
quase quatro d6cadas de jornalismo pro-
fissional, nas quais enfrentei todos os ini-
migos de cara lavada.
No mundo da realidade e dos series
humans, que podem se dirigir pessoal-
mente um ao outro e se encarar nos olhos,
ningu6m acusou ningu6m de ser um Jay-
son Blair A brasileira, diplomado na (cada
vez mais f6rtil) escola da fraude. O titulo,
portanto, como s6i acontecer na imprensa
apressada e flitil, que nao vai As ruas, aco-
modada diante do instrument de nave-
ga9go por infovias, nao guard a menor
coerencia com o conte6do dos textos.
Trombeteia Dines, El Supremo, que a
fraude foi descoberta a tempo e desfeita
pelo pr6prio Observat6rio, cujos "filtros
e alarmes funcionaram", comprovando
que os "rigorosos crit6rios jornalisticos
adotados" por essa revista eletronica tem


mais meritos do que a tecnologia. "A in-
ternet s6 6 vulnerivel quando a press e a
desatenq~o impbem-se ao senso de justi-
Ca, ao respeito human e ao esmero pro-
fissional". Cr8 o editor que o epis6dio
consagraria "os padres de prud8ncia, li-
sura e descriqdo [sic] incorporados aos
nossos procedimentos".
Do que Dines esta falando? Deram-lhe
press-release trocado.
J5 o texto principal, assinado por Luiz
Egypto, Marinilda Carvalho e Luiz Ant6-
nio Magalhaes, 6 uma reconstituiqgo cap-
ciosa dos fatos. Nao retrata a verdadeira
evolugao dos acontecimentos, nao 6 fiel
ao situar a posiqao de cada um dos perso-
nagens e acoberta graves erros cometidos
pelos editors Alberto Dines e Luiz Ant6-
nio. Como produto dessas falhas, a lamen-
t5vel attitude editorial do Observat6rio da
Imprensa 6 suavizada. Um pecado mortal
se torna pecado venial. Um erro que po-
dia ter sido rapidamente corrigido se hou-
vesse uma linha editorial s6ria, profissio-
nal, competent e 6tica, e boa-f6, 6 joga-
do para as costas largas do computador e
da rede virtual.
Nao 6 correta a moral da hist6ria por-
que 6 completamente manipulada a ver-
sio apresentada pelo texto. Houve m5-f6
na attitude do editor-assistente na condu-
qao da apuraqao do assunto. Nao se trata
apenas de negligencia, desatenqao, can-
saco ou desigualdade de meios no embate
entire ele a internet. O editor foi desonesto
no trato cor as pessoas envolvidas, des-
respeitoso em rela~go ao direito alheio e
profissionalmente incompetent, al6m de
eticamente desastroso.
At6 o moment em que me manifestei
pela primeira vez, ji em cima do dead-
line da ediqao do dia 15, o editor Luiz
Ant6nio Magalhies teria, em seu benefi-
cio, o favor da d6vida. Mas quando Ihe
declare, assumindo cabal e rasa respon-
sabilidade por minha afirmativa, que:
1 Nao conhecia o president da Con-
servation, Russel Mettermeier, jamais, por
isso mesmo, o havendo entrevistado.
2 Nao havia proposto e nao havia
escrito o artigo mandado para o Observa-
t6rio em meu nome.
3 Meu e-mail, o dnico, nao era o
mesmo do fraudador;
o editor devia ter mudado o enfoque
da sua "investigaqao" virtual, efetuada por
meio de e-mails e telefonemas (minhas in-
vestigaq6es sempre requereram conheci-
mento do local, conversa diretamente com
pessoas, etc.).
Ao inv6s disso, o editor continuou ra-
ciocinando a partir da premissa de que eu
realmente escrevera o artigo e, obviamen-
te, mentia para ocultar a responsabilidade
pelo cometimento. Tanto agia assim que,
a partir de informaeao fornecida unilate-
ralmente por um dos envolvidos (Klester


Cavalcanti), predisposto contra mim por
uma polemica que travamos, se conven-
ceu (porque queria se convencer de tal)
que eu usara mesmo um cibercaf6 locali-
zado a proximidade de meus endereqos,
em Bel6m, para arquitetar o golpe contra
tres colegas e outras pessoas e institui9oes.
O grave: o editor do OI, baseando-se
em informaq~o de terceiro interessado
(predisposto ou, na linguagem t6cnica do
direito, suspeito ou impedido de produzir
provas a meu respeito), me mandou duas
correspond6ncias contraditando, de forma
direta, no ato, minhas afirmativas. A mi-
nha declaragqo, perempt6ria e indignada,
de ndo-autoria do artigo fraudado, reagiu
dizendo que tinha provas de que eu nao
s6 escrevera o artigo como me valia de
outra pessoa, em um cybercaf6, para man-
dar a mensagem e ocultar sua origem. Em
me nenhum moment informou que essa
"prova" lhe fora passada pelo jornalista
Klester Cavalcanti.
Perplexo, recorri a peritos em fraude
eletr6nica. Um deles, acionado em Brasi-
lia por uma amiga de Londres, forneceu
um roteiro para o pr6prio Luiz Antonio
Magalhaes elucidar a hist6ria. Eu pr6prio
lhe mandei orientaqgo que recebi de ou-
tro t6cnico para revelar o canalha oculto e
covarde.
Magalhaes nao responded as minhas
insistentes cobranqas sobre as provas. Se
as tinha e elas eram conclusivas, e se es-
tava possuido de verdadeiro interesse em
esclarecer a fraude, que as enviasse para
mim e para todos os envolvidos. E nio as
guardando como armas para o botem fi-
nal de desmascaramento ou seja li qual
tenha sido seu objetivo.
Ao inv6s disso, comunicou que meu
julgamento seria feito nas piginas do OI
e eu, na condiqCo de "acusado-acusador",
teria apenas o direito de me defender. Ou
seja: uma nulidade absolute iria me colo-
car no banco dos r6us pelo crime de ter
feito o que jamais fiz. Jamais fiz em qua-
se 40 anos de carreira professional, mar-
cada exatamente por uma image oposta
(da qual, alids, pretendia se valer o frau-
dador para dar ares de seriedade ao arti-
go, escrito num estilo completamente di-
ferente do meu, como qualquer observa-
dor poderd verificar).
Percebendo que um "fake" ou um
"joke" poderiam se transformar numa vi-
lania sem reparaqao, copiei toda a cor-
respondencia com o editor do OI e co-
mecei a envid-la parajornalistas e ambi-
entalistas responsaveis para que apreci-
assem a questdo e se manifestassem a
respeito. A condenaqco ao comportamen-
to do OI foi geral, unanime. Na transcri-
qgo dos acontecimentos feita pelo Obser-
vatdrio, foi ignorado tudo o que produzi
a partir do moment em que uma gafe
eletr6nica parecia se configurar como


R 2" QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal







uma conspiracao para a vilania e a pre-
sunqao da boa-fe se desfazia.
Ainda supondo que o comportamen-
to caviloso fosse produto de um editor
isolado do Observat6rio, e nao poden-
do conversar com meu interlocutor at6
ent~o, o editor-geral, que estava de f6ri-
as, procurei contato corn Alberto Dines.
Ele certamente acabaria cor o terrivel
mal-entendido, nao s6 pelos fatos em si,
mas tamb6m por conhecer meu trabalho
jornalistico, me ter mandado referenci-
as a respeito desse trabalho e ter aberto
o 01 para colaboraq6es e citac6es mi-
nhas, freqientes, seguidas ou sucedidas
por observaqges suas e de Marinilda
(nao conheco pessoalmente a ambos),
que me reanimavam a prosseguir no meu
jornalismo critico.
Mas as manifestaqdes de Dines vie-
ram como a iltima peqa de uma engre-
nagem que se encaixa em contextos como
os criados por Franz Kafka e George
Orwell, mas nao em um padrdo decent
de jornalismo. Al6m das manifestaq6es
por escrito, referendando os atos do edi-
tor-assistente, quando procurado por
mim, atrav6s de telefone, alegando estar
sem tempo para me ouvir e nada ter a
acrescentar, transferiu irritadamente a
responsabilidade para os outros editors
e para uma sessdo de segunda-feira des-
se autentico tribunal especial, ou Gulag,
que pretendiam montar sobre o meu ca-
diver. Mais um "case" para o curriculo
de den6ncias do OI.
O encaminhamento s6 comeqou a mu-
dar com a "retificaqoo" de Klester Ca-
valcani e o retorno de Luiz Egypto ao co-
mando da ediqao. No entanto, nao era
mais possivel, na busca de uma soluqao
de honra utilitaria, e tamb6m de acomo-
daq~o, reescrever hist6ria tao recent (e
tdo bem documentada), desviando do que
devia ser o empenho das pessoas de bons
prop6sitos: saber quem montou a trama
e como ela p6de prosperar, apesar de to-
das as provas e evidencias de tratar-se de
uma fraude, a ponto de agora poder ser
classificada como o mais grave erro do
jornalismo eletr6nico no Brasil.
Fraudes eletr6nicas ji sao uma cons-
tante na internet. Mas uma publicaqao
jornalistica assumi-la, transformando
uma falsidade num component editori-
al, 6 novidade absolute e das novida-
des muito ruins, perigosas, assustados. A
partir de agora, nao esti mais em causa
apenas a minha pessoa ou uma revista
eletr6nica, mas principios elementares de
direito, violados por esta hist6ria mal-
contada na mat6ria que o Observat6rio
divulgou, omitindo e manipulando fatos.
E consagrando um tipo de jornalismo que
mal consegue, sob maquiagem pink, tin-
gir sua cor verdadeira: de imprensa mar-
rom. Ou amarela.

Journal Pessoal 2' QUINZENA/JULHO DE 2003


Dificuldades
A julgar pela lista de presenqas, a dire-
tora-geral da ADA (Agencia de Desen-
volvimento da Amaz6nia), Maria do
Carmo Martins Lima, nao conta corn a
simpatia dos governadores da regiao.
Nenhum deles compareceu a solenida-
de de posse da ex-deputada estadual (e
candidate do PT ao governor do Estado
na eleigdo do ano passado). Os dnicos
que mandaram representantes foram os
governadores do Pard (terra natal de
Maria do Carmo) e de Roraima (que
aderiu recentemente ao partido de Lula,
apesar da falta de afinidade).
A bancada regional petista mais forte
junto ao governor central em Brasilia, a
do Acre, tamb6m ignorou a assunqdo da
correligionaria ao comando do 6rgdo fe-
deral corn jurisdiqgo sobre toda a Ama-
z6nia. Apenas petistas paraenses foram
ao audit6rio da extinta Sudam prestigiar


A direpqo da Fun-
daqao Cultural
Tancredo Neves
aprovou o repasse
de 40 mil reais, a
titulo de subven-
~go social, para a
Radio P6rola FM
realizar o XII Con-
curso Garota P6ro-
la FM.
Justifica-se?


a concorrida solenidade, cujo principal
orador (ao menos em duracao) foi o pre-
feito Edmilson Rodrigues, que falou tres
vezes mais do que qualquer outro (dizen-
do o nada de sempre).
Tao ruim quanto essas duas lacunas
foi a ausencia do chefe de Maria do Car-
mo, o ministry da IntegragCo Nacional,
Ciro Gomes. O ex-adversario de Lula nao
escondeu sua contrariedade com a indi-
cagqo da political santarena e nao maquia
os esforqos que vem empreendendo nos
bastidores para ressuscitar a Sudam (e,
talvez, enterrar a jovem ADA). Talvez
porque o ex-governador do Ceard consi-
dere a atual situacao incompativel com
seus projetos politicos.
De qualquer maneira, Maria do Car-
mo vai precisar trabalhar muito, desdeji,
para nao ficar parecendo a rainha da In-
glaterra na pleb6ia cadeira da ADA.


Lider?
Em mat6ria de desenvolvimento human, o Brasil ocupa
apenas o quinto lugar no ranking da Am6rica do Sul. A
Argentina 6 lider, com IDH (Indice de Desenvolvimento
Humano) de 0,849 (o maximo 6 um). Ocupa o 34 lugar no
mundo, corn um padrao de desenvolvimento human
elevado. Dessa mesma faixa fazem parte o Uruguai (40
colocado, corn IDH 0,834) e o Chile (43, cor IDH 0,831).
Mais atris, ji corn desenvolvimento human m6dio, vem a
Col6mbia (64 lugar, 0,7779) e, na posiqio seguinte, o
Brasil, o 65 do mundo, com IDH 0,777.
Nosso dnico console, no continent, 6 havermos
ultrapassado a Venezuela, que ficou em 69 lugar
(IDH 0,775), segundo o levantamento feito pela
ONU, com dados de 2001.


Abate


A lei 9.614, que entrou em vigor em
1998, autorizou as forgas militares a der-
rubar os avioes que invadirem o espaqo
a6reo brasileiro e, mesmo contactados,
se recusarem a obedecer As instruqbes
das autoridades nacionais. Conhecida
como lei do abate, at6 hoje nao entrou
efetivamente em vigor por falta de re-
gulamentaq~o, embora ela se tivesse ins-
pirado, sobretudo, na preocupag~o com
a violacao do territ6rio brasileiro por
narcotraficantes.
O governor brasileiro, tanto o anterior
quanto o atual, preferem nao regulamen-
tar a lei. Se fizerem isso, estarao sujeitos
a enquadramento na legislaqco dos Esta-
dos Unidos, que sujeita os detentores de
semelhante norma A proibiqgo de ter re-
laq6es de com6rcio cor empresas norte-
americanas fabricantes de equipamentos
e peas de reposiqdo para a aviaqao.


O alvo nimero um, na hip6tese
dessa retaliacao, seria o Sivam (Sis-
tema de Vigilancia da Amaz6nia), que
ainda depend da assistencia t6cnica
e da orientagqo da Raytheon, uma das
empresas que gravitam em torno do
Pentdgono (e teve destacada atuagao
na guerra do Iraque, como ji mostrou
este journal .
Apesar de todos os bons prop6sitos
para nacionalizd-lo e democratiz--lo, o
Sivam continue a ser uma caixa preta,
sob o control da Raytheon.
Para evitar que a lei permaneca
como letra morta e evitar o desconfor-
to do governor de proper sua revoga-
9ao, o deputado Atila Lins, do PPS do
Amazonas, props aos seus pares que
fagam o primeiro (e 6nico) abate nes-
se campo, revogando a citada (e indi-
gitada) 9.614.








Cartas


0 future de

Paragominas

Encontrando-me em Bel6m,
sempre compro nas bancas o seu
Jornal Pessoal. Acho uma publi-
caqCo interessante, com editorial
independent e que nos permit ter
informaq6es detalhadas sobre os
assuntos em destaque na mfdia.
Para nossa surpresa, na ediqao
da primeira quinzena de julho,
deparamo-nos com uma nota na
"Mem6ria do Cotidiano", relem-
brando da propaganda que o en-
tao BEP (atual Banpara), em
1967, quando se instalou em Pa-
ragominas, divulgou de que sua
agencia iria levar prosperidade e
progress a maior cidade da Be-
lem-Brasilia, especialmente na
pecudria, e na anAlise do Jornal
Pessoal, a pecuAria nao deu essa
resposta, sustentando-se o Muni-
cipio na exploraqao de madeira,
destruindo suas reserves de ma-
tas e que agora a ilusao teria um
novo nome: soja.
Permita-me, nobre articulista,
discordar da sua avaliaqao sobre a
nossa Cidade, e sinceramente acho
que tenho o dever de assim o faze-
lo, nao somente pelo fato de que
hoje estou investido na condicao
de Vice-Prefeito, mas sobretudo,
porque vivenciei todo esse proces-
so, pois nasci em Paragominas tres
anos somente antes do Banpara
aqui ser instalado.
Nossa Cidade nao surgiu por
acaso, de um vilarejo As margens
de uma estrada. Um visionario
chamado C61io Miranda tinha um
sonho de vida, de construir uma
Cidade, e somente dois anos an-
tes de morrer, 6 que encontrou a
regiao dos seus sonhos. O Presi-
dente Juscelino incentivou ban-
deirantes a promoverem a integra-
qao das margens da Bel6m-Bra-
silia, que estava sendo construf-
da. C61io Miranda entendeu que
nossa regiao era como a Meso-
potamia do passado, uma regiao
de terras f6rteis entire os rios Ca-
pim e Gurupi; percebeu que o cli-
ma era propicio para a agricultu-
ra, por ser uma zona de transiqao
entire o seco do Nordeste e o timi-
do da Amaz6nia; percebeu que a
luminosidade ( prdximo a linha
do Equador) era espetacular para
as plants; percebeu que o solo
ter 70% de argila, etc.... Pois
bem, nosso fundador saiu corn
uma caravana de Goiania, de bar-
co, por Aguas que nunca antes
haviam navegado, pelos rios Ara-


guaia, Tocantins, Para, Guama,
at6 aportar 45 dias depois As mar-
gens do rio Capim, sendo acome-
tidos por todos os tipos de intem-
p6ries, como malArias, assaltos,
foram confundidos com contra-
bandistas,... e af, do rio Capim, at6
chegarem as margens da Bel6m
Brasflia, que estava em constru-
qFo, passaram mais 30 dias a p6,
abrindo picadlo numa floresta at6
entAo desconhecida. Daf, esses
bravos her6is comegaram a cons-
truir a nossa Cidade.
Na verdade, essa transforma-
qao na economic que vive hoje o
nosso Municipio, simplesmente
6 o resgate dos sonhos que nos-
sos fundadores tiveram hA 40
anos atrAs.
Se da Area total do Municipio,
que possui 2 milhies de hectares,
foram desflorestados 1 milhao de
hectares, sobretudo foi no passa-
do, quando o pr6prio Governo
Federal, que na 6poca tinha um
lema conhecido: Integrar para
ndo entregar", oferecia recursos
(Proterra, outros) para que jogAs-
semos no chao a floresta e formis-
semos pastagens para a pecuAria.
Simplesmente condenar nossos
pais e o Governo que incentivava
a desflorestar, nao 6 correto. Foi
o moment hist6rico e temos que
respeitar. Podemos simplesmen-
te atirar pedra naqueles que fize-
ram a 6poca da borracha no Pard?
Acho que nao.
t claro tamb6m, prezado Li-
cio, que tivemos nossos erros.
Conscientemente procuramos
resgatA-los. Mas, nao podemos
cometer o erro de nao deixamos.
um horizonte para nossos filhos.
NAo podemos tamb6m deixa-los
sem a floresta para que a mane-
jem de forma sustentada e daf
tamb6m tirarem o sustento das
futuras geraq6es. Pondere-se que
esse conhecimento e a tecnologia
de explorer racionalmente a flo-
resta nao estava A 6poca A dispo-
siqao dos nossos pais.
Confesso-te, cor toda since-
ridade, nao gostaria que nossa Pa-
ragominas fosse toda desfloresta-
da, mas tamb6m nao gostaria que
fosse somente de florestas. Acho
que tudo na vida tem que ter equi-
librio. E 50% da nossa Area terri-
torial abertos e 50% em florestas
acho que estA de bom tamanho.
Os 1 milhlo de hectares em
florestas, assim permanecerao.
Com 70 mil hectares de reserve
indigena (intocaveis em nosso
Municipio), 140 mil hectares de
Area cor certificaq~o florestal'
pelo IFC instituteo international


de certificaqdo a maior drea
continue do Brasil), 250 mil hec-
tares de Areas com projetos de
manejo aprovados pelo Ibama e
o restante areas que comp5e a re-
serva legal das 1.500 proprieda-
des rurais do Municipio.
O que 6 important dizer, 6
que se tivemos a condiqao de ser
o maior p6lo madeireiro do Bra-
sil, cor centenas de serrarias no
passado, foi num moment que
nao havia a conscientizaqAo am-
biental. Tivemos nossos erros,
reconheqo, e estamos nos redi-
mindo deles. Mas, o que importa
6 que hoje temos iniciativas dos
pr6prios madeireiros, de que 6
precise (o equilibro que disse aci-
ma) compatibilizar o progress
corn a proteqAo ambiental. Nao
podemos ter somente um santuA-
rio intocAvel, rico em diversida-
de, e um povo pobre admirando a
floresta. Tamb6m nao podemos
jogar tudo abaixo achando que
iremos ficar ricos. As iniciativas
sao interessantes e devem ser di-
vulgadas tamb6m. A empresa que
possui a maior Area certificada do
Brasil (selo verde) estA em Para-
gominas, ja foram plantados por
intimeros madeireiros (nao sou
madeireiro, mas advogado) e pe-
cuaristas, nos iltimos seis anos,
oito milh6es de Arvores, especi-
almente da essencia ParicA; foi
criada uma associaqao (Parago-
flor) cor 30 associados com o
objetivo de plantar Arvores, etc..
Dos 1 milhao de hectares que
estao abertos, 500 mil devem per-
manecer para a pecuAria (Areas de
baixada, com Agua), e af nessas
pastagens, sustentar com tecnifi-
caqao o dobro do rebanho que te-
mos hoje (500 mil reses), rebanho
este que gera emprego, riquezas
e divisas, em toda a cadeia pro-
dutiva, nas fazendas, nas lojas de
produtos veterinirios, nas selari-
as, nos frigorificos, nos laticini-
os, no transport do gado, etc.
Os aproximados 500 mil restan-
tes, que foram alterados no passa-
do (terras hoje degradadas) e que
sao chapadas, serao destinados A
agriculture. E important dizer que
no nosso Municipio nao estamos
derrubando sequer uma arvore para
plantar graos, estamos aproveitan-
do as Areas que ja foram desflores-
tadas. E estamos comeqando bem
a agriculture, com agricultores tec-
nificados, buscando experiencia em
outras regioes, para nao cometerem
os erros que 1 cometeram, como o
plantio direto que ja estamos prati-
cando, que 6 uma pratica ambien-
talmente correta, etc.


Af, te pergunto, prezado Lucio,
em relaqao A agriculture e ao fato
de voce achar que a soja seria uma
ilusao, se n6s j temos essas terras
alteradas no nosso Municipio, se
temos um clima espetacular (sem
geadas e sem longas estiagens), se
temos um solo apropriado, uma lu-
minosidade espetacular, uma con-
diqco de escoamento da safra inve-
jAvel, se temos a necessidade de en-
contrarmos altemativas econ6mi-
cas para o nosso Estado, se temos
condiq6es de atingirmos m6dias de
produtividades superiores as m6di-
as nacionais, se temos necessidade
de produzir alimentos, necessida-
de de gerar empregos, de produzir
renda, por que nao plantar soja?
Gostarfamos imensamente de
poder convence-lo a mudar a sua
avaliaqco sobre o assunto, cor a
certeza de que voce 6 um dos mai-
ores formadores de opiniao na im-
prensa do Estado. Gostariamos de
receb-lo em nosso Municipio, para
que voc6 tivesse a oportunidade de
visitar plantaq6es, os silos de arma-
zenagem, os 6rgaos oficiais, os sin-
dicatos de produtores e de trabalha-
dores, a oportunidade de ouvir tam-
b6m o nosso povo.
Nao temos d6vidas que esta-
mos ao mesmo tempo, de forma
racional e sustentada, resgatando
o sonho de nossos fundadores,
mas ao mesmo tempo construin-
do um future melhor para as nos-
sas pr6ximas geraoqes.
Cordialmente
Adnan Demachki
adnan@nortnet.com.br
Paragominas

MINHA RESPOSTA
Feito o convite, aceito estA.
No moment devido retomarei o
debate proposto pelo vice-prefei-
to de Paragominas. Debate, aliAs,
que nao foi devidamente instau-
radojunto A opiniao plblica, mas
poderA ser travado nas pAginas
deste journal. Antes que o paraiso
agricola seja criado ou uma nova
fonte de problems se consolide.
O avanqo da soja na Amaz6nia 6
um tema grave demais para ser
tratado cor paixao. E precise
colocar as informaq6es na mesa
da discussao e atrair todos os con-
tendores. A soja pode ser o gran-
de combustivel da bioenergia,
al6m de se consolidar como o
maior item da pauta national da
produc~o agricola, mas, na Ama-
z6nia, os passes precisam ser da-
dos com seguranqa maior do que
a atual e cor as medidas de pre-
venqao (e correqao) de suas dis-
torq6es e problems.


1 2' QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal









CVRD nio da conta



da demand por ferro


No ano passado a Companhia Vale
do Rio Doce produziu 164 milh6es de
toneladas de min6rio de ferro, um recor-
de na sua hist6ria de mais de 60 anos.
Mas 12 milh6es de toneladas desse to-
tal nao sairam de suas pr6prias minas:
foram adquiridos de concorrentes. Pela
primeira vez desde que se tornou a mai-
or produtora mundial de min6rio de fer-
ro e responsivel por um quarto do mer-
cado transoceanico desse min6rio, a
CVRD teve que recorrer a terceiros para
tender os contratos de seus clients
porque sua produgao pr6pria ficou abai-
xo da demand. Assim, em 2002, a po-
derosa Vale deixou de ter auto-suficien-
cia commercial na principal e mais carac-
teristica das suas atividades.
Aparentemente a empresa foi sur-
preendida pela pressio da procura ou
enfrentou alguma dificuldade operaci-
onal, nas minas ou nas vias de escoa-
mento do min6rio. De qualquer forma,
teve que recorrer as pressas a seus
competidores nacionais para dar con-
ta das encomendas internacionais. Dos
152 milh6es de toneladas de producgo
pr6pria, 60 milh6es de toneladas fo-
ram extraidos da Serra dos Carajis, no
Para, e 92 milh6es das jazidas de Mi-
nas Gerais.
Para nao ser novamente atropelada
neste ano, a empresa pretend aumen-
tar a produgao de min6rio em Carajas
para 70 milh6es de toneladas, num in-
cremento de 16% em relacao ao desem-
penho do ano passado. A capacidade de
expansio do Sistema Sul 6 bem menor,


possibilitando o acr6scimo de apenas
cinco milh6es de toneladas. Assim, a
CVRD devera produzir 167 milh6es de
toneladas de min6rio de ferro em 2003.
Respondera, entdo, sozinha, por um ter-
go da producgo mundial de um min6-
rio que 6 abundante ao long de toda a
crosta terrestre. Uma autentica faganha;
dela, em parte, e dos compradores, na
outra parte.
O volume sera suficiente para a em-
presa voltar a responder integralmente
pelas encomendas de seus clients se a
demand deste ano for a mesma de
2002. Mas os t6cnicos acham que a pro-
cura crescera mais um pouco. A pres-
sdo mais forte vem dos chineses, que
se tornaram os maiores compradores da
Vale no ano passado. Em um mercado
global de 500 milh6es de toneladas, as
compras da China, que 6 hoje o maior
mercado siderdrgico do mundo, foram,
em 2002, de 112 milh6es de toneladas.
Desse total, 16% foram fornecidos pela
CVRD, vendas essas que representaram
9% da receita da empresa.
Al1m de compradores de primeira
linha, os chineses estao passando a ser
tamb6m s6cios da Vale. O estreitamen-
to dos neg6cios comegou cor o car-
vao mineral. No primeiro trimestre
deste ano os chineses venderam quase
50 milh6es de d6lares em carvao para
as sete usinas de pelotizaqgo instala-
das no porto de Tubarao, no Espirito
Santo, uma s6 da Vale e algumas ou-
tras a ela associadas. As pelotizado-
ras, por sua' vez, vendem os aglome-


rados de min6rio fino que produzem
para os chineses.
Mas o grande ensaio associativo
sino-brasileiro na area siderdrgica 6 a
fibrica de places de ago, investimento
de aproximadamente um bilhao de d6-
lares para gerar receita annual de US$
600 milhoes. Comecou uma corrida
pelo mercado de places em fungao da
decisdo dos americanos de nao mais
produzir internamente esse bem inter-
medidrio, transferindo para terceiros
uma demand de 40 milh6es de tone-
ladas. A Companhia Siderdrgica de Tu-
barao (da qual a Vale 6 uma das do-
nas) e a Companhia Siderdrgica Naci-
onal estdo investindo, em conjunto,
outro bilhao de d6lares para expandir
em quatro milhoes de toneladas a ca-
pacidade produtiva de suas usinas, que
alcanqardo 15 milh6es de toneladas.
De olho no Oriente e na abertura do
mercado americano.
As boas perspectives do neg6cio te-
riam motivado a Arcelor, s6cia da Vale
na CST, a estudar a possibilidade de se
associar ao empreendimento com a Ba-
osteel. Certamente essa primeira fibri-
ca de places nao serd a inica no novo
p6lo siderdrgico que se constituira em
Sao Luis. A dispute, portanto, nio se
restringe a uma usina de semi-acaba-
dos, mas a um novo centro de atendi-
mento das necessidades dos Estados
Unidos e da China, os dois maiores
mercados do mundo, em bens siderdr-
gicos intermediarios. E uma guerra de
maior amplitude.


Corregao
Manfredo Ximenes dirige a
CPRM (Companhia de Pesquisa de
Recursos Minerais) e Joao Carlos o
DNPM (Departamento Nacional da
Produqgo Mineral). As posiqGes sa-
fram invertidas na edigao anterior
do journal.
Nosso computador, saudosista
que s6 ele, repetiu a chamada de capa
para a mat6ria sobre a cassagao do
mandate do governador. Perddo, lei-
tor. Mais perdao por varios outros
erros de digitaqgo e de ediqgo. Um
dia deixaremos de comete-los.


O Maranhao de Jos6 Sarney 6, com fol-
ga, o Estado de maior exclusao social do
Brasil, com indice 0,197 (quanto mais dis-
tante do indice 1, pior). Em segundo lu-
gar, as Alagoas de Fernando Collor de
Mello (fndice 0,220). S6 entdo o Piauf de
Joao Paulo dos Reis Velloso (o tecnocra-
ta mais poderoso durante o governor Gei-
sel), com 0,247. Em seguida, Pernambu-
co de Marco Maciel (0,257) e o Ceara de
Ciro Gomes (0,289).
Na Amaz6nia, a situaqgo do Pard
(0,328) s6 nao 6 pior do que a do Acre
(0,321). Os dois Estados amaz6nicos, na


oitava e na nona colocag~o, interrompem
a s6rie nordestina dos primeiros lugares
na injusta distribuigo de oportunidades,
conforme o segundo volume do Atlas da
Exclusdo Social no Brasil, produzido por
pesquisadores de tres das mais importan-
tes universidades paulistas e brasileiras
(Unicamp, USP e PUC).
Como os nimeros sdo de 2000, o cres-
cimento para baixo do Pard continuou,
apesar da ret6rica da inflexdo de rumos
da administraqao Almir Gabriel, que pro-
metia interromper a linha descendente dos
seus antecessores.


Jomal Pessoal 2- QUINZENA/JULHO DE 2003 11


Exclusao








M 6 RI-A DO OlDI AN 0


Importagao
Andncio de 1953 de Pereira
Pinto & Cia. (travessa 7 de
Setembro, 61) oferecia, para
pronta entrega, cinco refrige-
radores suecos Elelectrolux
LT-700, tamanho maior, "que
ficam ao dispor dos primeiros
clients que os desejarem ad-
quirir com os 6nicos agents
depositarios, sempre cor pe-
cas em stock!!".
Era ainda a febre de impor-
taqces iniciada na era Dutra,
que consumiu as divisas ame-
alhadas pelo Brasil durante a
Segunda Guerra Mundial.

Navios
Em maio de 1954, em uma das
vitrines do entio modern e
imponente pr6dio da Importa-
dora de Ferragens, na avenida
15 de Agosto (atual Presiden-
te Vargas), foram expostas ao
pdblico as maquetes dos navi-
os que os SNAPP (Servigo de
Navegaqao da Amaz6nia e
Administracao dos Portos do
Para, que antecedeu tanto a


Enasa quanto a CDP) haviam
mandado construir na Holan-
da. A chamada "frota branca",
como viria a ser conhecida, foi
o maior investimento ptblico
na navegagao regional em to-
dos os tempos. Foi usada in-
tensamente, mas durou pouco.

Novidades
Ja M. Zeque & Cia, proprieta-
rio das Casas Duas Am6ricas
(matriz na Joao Alfredo e fili-
al, de m6veis e tapecarias, na
praqa Justo Chermont), comu-
nicava, no mesmo 1953, que
havia acabado de receber do
Rio de Janeiro e Sao Paulo "a
mais modern coleqCo de
Naylons e Failes lisos, lavra-
dos, estampados e dourados,
Organdis suiqos lisos, lavrados
e bordados, Veludo de seda e
mais novidades", ji colocados
em exposiqgo.

Tradutor
Entre 1955 e 1956 o econo-
mista americano John Fried-
man, que atuou no TVA (Te-


nesseee Valey Authority), a
agencia estatal que desenvol-
veu o vale do Tenessee, nos
Estados Unidos, deu um cur-
so de planejamento regional
para alunos paraenses, patro-
cinado pela SPVEA (Superin-
tend8ncia do Piano de Valori-
zaqgo Econ6mica da Amaz6-
nia, antecessora da Sudam) e
a Escola Brasileira de Admi-
nistragdo P6blica. O tradutor
das aulas foi ningu6m menos
do que o jornalista, poeta e
critico Mario Faustino, entdo
com 25 anos. Faustino mor-
reria seis anos depois, num
desastre de avido. Sua obra
complete esti sendo lanqada
agora pela Companhia das
Letras. Sairam os dois pri-
meiros volumes.


Filme
"A Ultima Gargalhada", c6le-
bre filme mudo realizado pelo
director alemdo Wilhelm Mur-
nau, em 1924, foi exibido pela
primeira vez em Bel6m numa
sessdo do cine-clube "Os Es-
pectadores", em 1956. A fita,


exibida no audit6rio da SAI
(Sociedade Artistica Interna-
cional), foi apresentada por
Angelita Silva, cunhada do fi-
16sofo Benedito Nunes, ji fa-
lecida.


Televisao
ProgramaqCo de 6" feira, 22 de
maio de 1964, da TV Marajo-
ara (primeira emissora de te-
levisdo da Amaz6nia, dos Di-
drios Associados, de Assis
Chateaubriand), que comega-
va as 18 horas e encerrava As
23,10: Padr~o Abertura -
Primeira Edigqo (patrocinio
Wilson Souza & Cia.) Pre-
senca da Mulher (pat. Odalis-
ca-Dipercos) Rodos os Es-
portes (pat. Importadora Bra-
ga) Tapete Magico (Guara-
suco) Lassie (Kolynos) -
Rep6rter Marajoara (Banco
Commercial do Par6) Manto-
vani (Grafica Falangola Edito-
ra) Mr. Lucky (Confeccqes
Saragossy) Didrio de um
Reporter (Pres Franco) Cida-
de Nua (Gessy-Lever) Ima-
gens do Dia Encerramento.


FOTOGRAFIA

Estilo Folha
Legenda exemplar da Folha do Norte a esta fotografia, de maio de 1954:
"Vista parcial do plendrio do Congresso, no cinema Odeon de Sao Lou-
renqo. Agrupados os representantes do Para, dr. Osvaldo Melo, secretario
da Administraq~o da Prefeitura de Bel6m; vereador Raimundo Magno, pre-
sidente da Cdmara Municipal prefere meter o dedo no nariz a escutar os
oradores); dr. Achiles Lima, secretirio da Fazenda da P. M. B. (este, inter-
.. vindo num debate, escla-
receu que ndo era prefei-
to, nem vereador. Era se-
cretdrio da Fazenda. Um
orador entendeu, para fa-
zer confusio, que ele qui-
sera diminuir os vereado-
res e prefeitos, o que mo-
tivou justificativas do
acusado, que foram acei-
tas); sr. Tembra, director da
Secretaria da Cdmara
S Municipal de Bel6m (este
prefer dormir); Jofre
Seixas, prefeito de Afud.
's P No outro plano, vereador
Mdrio Nepomuceno (p6e
um pedaqo de papel na
boca, para nio falar); prefeito Vilhena, de
Marabi; um vereador de Itaituba; dr. Emi-
lio Martins e vereador Luiz Mota. Este foi
o primeiro a deixar Sao Lourenqo, 'cheio'
daquilo que via. Ndo fez mal, porisso".


Rn .t.. L A Q U

SPHEBO



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Laque na cabega
Mulher sem laque nos cabelos era imperdoavel
na d6cada de 60. Num anlncio de 1963 (exata-
mente 40 anos atrds), a Perfumaria Phebo colo-
cava no mercado o seu laque, "a n6voa migica
que mant6m impecavel o seu penteado". Em
"modernos vaporizadores plasticos", o produto
mantinha o penteado "mais belo que nunca" e
ainda o deixava "deliciosamente perfumado com
o suave olor da Seiva de Alfazema". Os namo-
rados e maridos das damas, debrugados sobre
seus cabelos nas festas ou outras ocasi6es mais
intimas, agradeciam.