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oomal Pessoal VA AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO 1I QUINZENA JULHO DE 2003 COAM5& CVRD A hora da decisao Nos pr6ximos dias a CVRD anunciara onde ira instalar a maior unidade de beneficiamento prevista para o minerio de Carajas. O resultado ja esta sendo antecipado: a fdbrica ficard em Sdo Luis. Logo oferecera compensagbes ao Para, mais uma vez restrito a produtor de mat6ria prima. Mas isso e tudo o que o Estado pode obter da maior empresa que atua no seu territ6rio? quinta-feira, dia 10, os con- sultores t6cnicos contrata- dos pela Companhia Vale do Rio Doce entregarAo os estudos que fizeram sobre a melhor locali- zacqo da fibrica de places que a empresa vai implantar, em sociedade corn a BaoS- teel, a maior siderdrgica chinesa. Mas pou- cos trn d6vida sobre o resultado do anin- cio official, que o president da Vale, Ro- ger Agnelli, deveri fazer no dia seguinte: a usina sidernrgica, que promoveri a mai- or verticalizagio at agora empreendida do minerio de Carajas, ficard mesmo ao lado do porto exportador da empresa, na Ponta COTNANAPG ANO XVI N 304 R$ 3,00 S ., Cfi da Madeira, na ilha de Sao Luis. Um porto de aguas profundas, acessivel a navios de grande tonelagem, conforme a exig6n- cia dos chineses, pactuada com a CVRD quando comegaram a examiner a viabili- dade econ6mica do empreendimento. Antecipando-se a decisao previsivel, o governador Simdo Jatene fez tambdm sua pr6via: se essa for a conclusao dos estudos de localizacgo da plant indus- trial, ele ird cobrar o ICMS sobre o mi- ndrio de ferro que a CVRD ird transpor- tar. A isengao do imposto, imposta pela legislaqao federal (incluindo a Constitui- qgo), aplica-se apenas a exportagao, nao a movimentapqo da mercadoria dentro do mercado interno, como sera o caso. O 6nus nao 6 pesado porque a aliquo- ta (de 3%) 6 baixa e o imposto incide apenas sobre a receita Ifquida (desconta- dos os custos de producio), e nio sobre o faturamento bruto da venda do mind- rio (ha propostas para elevar a alfquota e aplica-la sobre a receita bruta, mas o pro- jeto ainda nio passou pelo Congresso). Mesmo assim, como a margem de ren- tabilidade sobre a comercializaaio do mi- n6rio 6 extremamente delgada, s6 calcu- los mais especificos dirao se a vantagem da Vale (de 9 d6lares por tonelada, se- gundo as estimativas pr6vias) em insta- lar a usina siderirgica em Sao Luis (e nao em Maraba ou Vila do Conde, que sao as alternatives paraenses ao sitio maranhen- se) compensard esse custo adicional. Em principio, o ganho annual da em- presa funcionando em Sao Luis seria de 30 milh6es de d6lares ao ano, o que cor- responderia a 5% do faturamento bruto. Teoricamente, um valor mais elevado do que o peso do ICMS que o governor do Estado pretend cobrar. Mas esses sao calculos brutos. A Vale e sua parceira chinesa, que tnm os nimeros certos apu- rados desde o principio dessa guerra, sa- bem o que estao fazendo. Certamente o jogo de pressao que sera praticado at6 a data da oficiali- zaqgo da decisao (que, no domingo, dia do fechamento desta ediq~o, al- gumas fontes anunciavam que pode- ria ser antecipado) 6, em parte, vol- tado para as galerias. Ningu6m quer sair perdendo dessa queda de braco. E, provavelmente, isso nao ocorrera. A Vale ja preparou compensaq6es para oferecer ao Pard e o governor sabe que ha um limited ap6s o qual as retalia- 96es passam ao terreno do imponderi- vel. Nenhuma das parties tera tudo. 0 vencedor tamb6m nao poderd deixar que o vencido saia da luta de maos abanan- do. Mas a Vale dard o que deve? 0 Pard tera o que pode ter? Esse nio 6 um jogo de cartas marcadas ou, ao menos, um circulo dentro da quadratura? Nas ma- tdrias que se seguem, este journal procu- ra ampliar a pauta do contencioso e for- necer informaq6es que ajudem os para- enses a refletir cor mais amplitude (e, se possivel, cor maior profundidade e conseqiiencia) sobre o que esta emjogo, muito al6m da decisao sobre onde fica- ra a fibrica que vai dar um beneficia- mento maior ao min6rio de Carajas. Parimetros mais amplos talvez ilu- minem o verdadeiro pano de fundo, que esta al6m da percepqdo da opiniao pi- blica local, induzida a acompanhar o pingue-pongue travado diante de seus olhos enquanto, dos lados, trava-se uma dispute muito maior, em torno de mais um movimento pendular de transforma- qgo da economic international. Nao 6 a toa que, a distancia dos ter- rit6rios do Pard e do Maranhao, o enre- do inclua, como personagens decisivos, o mercado para o qual as places de ago serao destinada (os Estados Unidos, que planejam fechar todas as fabricas desse produto ainda nesta d6cada) e a China (a economic que mais cresce no plane- ta). Por enquanto, n6s somos apenas a escala na qual o carvao chins, mistu- rado com min6rio de ferro, derivados e complementos, sera transformado em produtos intermediarios para a siderur- gia americana, a um custo menor do que ela teria se ainda continuasse nesse seg- mento da produgHo. A hist6ria, mais uma vez, se faz aqui. Mas n6s nao a podemos fazer. Nao po- demos mesmo? DNPM apura desvio De minerio pela Vale O DNPM (Departamento Nacional da Produqgo Mineral) esta investigan- do. as transferencias de min6rio de fer- ro efetuadas pela Companhia Vale do Rio Doce do porto da Ponta da Madei- ra, no Maranhio, para o porto de Tu- barao, no Espirito Santo, e os possi- veis destinos que podem ter tido a par- tir daf. Apesar de den6ncias feitas so- bre o constant desvio, para o consu- mo interno, do min6rio de Carajas que chega ao litoral maranhense corn o des- tino declarado do mercado internacio- nal, beneficiando-se de toda a political federal de desoneracqo de impostos concedida as exportaq6es, at6 agora os t6cnicos do departamento s6 consegui- ram comprovar um volume muito pe- queno de min6rio irregular: pouco mais de 6 milh6es de toneladas ao lon- go de 10 anos, entire 1991 e 2002. Quando as inspeg6es foram inici- adas, a expectativa era de que a quan- tidade de min6rio manipulado pela empresa seria muito maior. A pr6pria CVRD aponta quantidades bem su- periores em seus relat6rios anuais de lavra. A apuracio dos dados prosse- gue em Sao Luis, devendo se esten- der at6 Tubarao, o outro grande por- to de embarque da Vale, no Sistema Sul. A pesquisa esta sendo efetuada corn base nas notas fiscais de venda, devolugao e transferencia de min6rio emitidas pela empresa. As primeiras denincias concretas sobre o desvio do min6rio de ferro de Carajas comeearam a ser feitas ha al- gum tempo, mas s6 se tornaram mais incisivas depois que a Vale colocou em operaqao a usina de pelotizacao, uma das maiores do pais, ao lado do porto da Ponta da Madeira. Embora a fabri- ca conte com uma unidade de moa- gem de min6rio, a Vale continuou a enviar o sinter-feed, que 6 o min6rio mais fino, para ser moido no porto de Tubario, onde funcionam oito fabri- cas semelhantes a de Sao Luis. Uma outra parte do min6rio era vendida ou transformada em pelotas. A manutencao desse fluxo comeqou a intrigar. Normalmente, o sinter-feed sai de Ponta da Madeira cor nota fis- cal de transferencia cor valor de custo de aproximadamente 2,5 d6lares a to- nelada. Em Tubarao, o min6rio agrega valor em funqio do beneficiamento da pelotizaq~o, passando a ser comerci- alizado eentre 30 a 32 d6lares por to- nelada, tanto na fabrica da pr6pria CVRD quanto das sete outras unida- des independents. Aldm de servir a agregacio em pelotas, o min6rio 6 mo- fdo e depois vendido. Ao fazer o levantamento dessas ven- das, os t6cnicos do DNPM investigam se a ex-estatal esta deixando de pagar os royalties devidos, estimados em algo em torno de 200 milh6es de reais. 1 1"' QUINZENA/JULHO DE 2003 Jomal Pessoal Uma CVRD enorme. Um Para diminuido A Companhia Vale do Rio Doce 6 a maior mineradora brasileira, cor 22 mil funcionirios e receita de 5,2 bilh6es de d6lares no ano passado. E tamb6m a em- presa brasileira que mais export, sendo responsdvel por mais de 20% das divisas lfquidas faturadas pelo pais. S6tima maior mineradora mundial at6 2000, a CVRD agora ocupa a quarta posiqgo. Seu valor atual de mercado 6 de 11 bi- lh6es de d6lares. Mas sua diretoria, coman- dada pela Bradespar (do Bradesco) e um grupo de funds de pensao liderados pela Previ (do Banco do Brasil), quer eleva-lo para US$ 25 bilh6es no final desta d6ca- da. Para isso, estd executando uma agres- siva political de crescimento. Os pianos sao tro ambiciosos quanto a distancia que ainda separa a Vale da maior de todas as mineradoras, a Anglo Ameri- can. A empresa sul-africana (anglicizada de novo hd dois anos), avaliada em US$ 29 bilh6es, ter um faturamento quase qua- tro vezes maior do que a concorrente (e ex-parceira) brasileira. Um dos eixos (e o mais important) da estrat6gia de multinacionalizaqgo da Vale se assenta no Pard, mas esse piano man- t6m em relaqgo ao Estado uma distancia correspondent a que existe entire a Terra e Marte. Ou o Sol. Ja 6 hora, por6m, de verificar onde o Pard entra nessas proje- qoes e que papel lhe caberd ocupar. Nao pela vontade exclusive da empresa, que continue a considerd-lo nao mais do que um enclave. Na concepygo da CVRD, ao Estado fi- cou reservado o papel de sitio de algumas das principals atividades produtivas. Ten- do min6rios em abundancia, o Pard nao poderia avanqar na escala do beneficia- mento industrial porque a Vale se acha li- mitada por seu foco econ6mico. Enquan- to mineradora, a Vale teria que controlar seu avanqo sobre a transformaqgo da ma- t6ria prima para nio ameaqar concorrer com seus atuais clients, induzindo-os a procurar outro fornecedor de min6rios. Para jantar bem, a empresa teria que se privar do almoqo. NMo faria sentido. Dessa maneira, a circunstancia de abri- gar tantos dep6sitos minerals funcionaria como interdito proibit6rio ao future indus- trial do Pard, ao menos no que defender dos plans estrat6gicos da CVRD. Para poder colocar em prdtica seus designios de grandeza, envolvendo tantos grupos Jornal Pessoal 1' QUINZENA/JULHO DE 2003 economicos, recursos naturais, logistica e composigdo de mercado, a empresa esta- ria impossibilitada de avangar na escala da veriticalizaqgo econ6mica em territ6rio paraense. Aqui, estaria condenada a ser um tipico enclave. E o Pard, uma col6nia. Antes de endossar essa visdo (de que 6 assim porque as leis do mercado e a perso- nalidade da empresa o exigem), 6 precise verificar e avaliar os movimentos expan- sionistas da Vale, que agindo assim diz estar seguindo a tendencia dos maiores grupos mineradores internacionais. Nos filtimos dois anos, a ex-estatal in- vestiu 5,3 bilh6es de d61ares na incorpora- 9go de 13 companhias Em abril, concluiu investimentos de mais de um bilhdo de d6lares em quatro grandes neg6cios: a compra de metade do capital que sua s6cia japonesa Mitsui possufa na mineradora Caemi, fundada por Augusto Antunes; a inauguraqao da duplicagao da usina de alu- mina Alunorte, em Barcarena, de 2,4 mi- lh6es para 4,2 milh6es de toneladas; a con- clusao da maior pelotizadora de ferro do pais, em Sdo Luis, no Maranhto, de 6 mi- lhWes de toneladas; e a aquisiqgo da Mine- raqgo Vera Cruz (antes da RTZ), para co- megar a lavrar bauxita em Paragominas, assegurando o abastecimento da Alunorte como a maior produtora do continent e das maiores da alumina no mundo. Tres desses empreendimentos estao se- diados no Parn. Todos sdo importantes, mas nenhum tem forga inovadora tdo grande quanto o quinto neg6cio, o do cobre, um setor totalmente novo, no qual a Vale estd entrando agora e que, jd em 2008, devera responder por 15% do seu faturamento. O grau de valoi pode ser medido pelo prego de venda desses produtos: o ferro vale ape- nas US$ 16, a bauxita pouco menos que o dobro, a gusa sai a US$ 150, a placa de ago a US$ 200, a alumina a US$ 300 e o cobre a US$ 1.600 a tonelada (o aluminio flutua mais, porem nao abaixo de US$ 2 mil). Daf a rapidez da empresa em iniciar a explora- qio da mina do Sossego, jd em 2005, com investimento de 330 milh6es de d6lares. No mes passado foi fechada, com a Nucor Corporation, dos Estados Unidos, uma associaggo para a construqao e opera- 9go de um dos maiores projetos de ferro- gusa do mundo, em Marabd, no valor de 80 milh6es de d6lares. Assim, foi concluf- do um process de negociaqao iniciado um ano antes, com a assinatura de um proto- colo de intenqaes (a mesma trajet6ria se- guida pela anunciada fabrica de places). A associaqao, que possibility A Vale ampliar sua presenqa no setor sidenirgi- co, casa com o aumento de sua participa- go na Companhia Siderirgica de Tuba- rao (CST), no Espfrito Santo; sua posi- qao de acionista da Calif6rnia Steel, nos EUA, e seus plans de investimento em novas unidades de produgao de places de ago. Ndo 6 pouca coisa. Empresa lider do process de modi- ficaqCo e consolidagqo da siderurgia nor- te-americana e maior produtora de ago dos EUA, a Nucor produziu no ano pas- sado 13,6 milh6es de toneladas de ago. Deveri alcangar 18 milhoes de tonela- das neste ano. Em 2002, obteve lucro li- quido de US$ 162 milh6es. A fabrica prevista para Marabi come- gard em 2005, produzindo 380 mil tone- ladas por ano, em dois mini-altos-fornos convencionais. Utilizard como insumo o min6rio de ferro extraido de Carajas. A Vale ficara com 78% do capital da nova empresa e a Nucor com os outros 22% Segundo o esquema anunciado, a multi- nacional americana investira US$ 10 milhoes em dinheiro e a Vale capitaliza- ri as terras e os ativos florestais da sua subsidiaria integral Celmar, no Mara- nhdo, cuja floresta renovavel sera usada para a produqgo de carvao vegetal. Embora organizada para produzir ce- lulose, 6 quase certo que a Celmar ficard no meio do caminho porque a Vale saiu desse setor do mercado (passou em fren- te as participagoes que tinha na Bahia- Sul e na Cenibra, fabricantes de celulo- se). Toda a produgao de ferro-gusa serd adquirida pela Nucor, para consume pr6- prio nas suas usinas nos Estados Unidos. O anincio do projeto Vale-Nucor em Marabd estd provocando impact no p6lo guseiro da regido, que depend integral- mente do min6rio de ferro fornecido pela ex-estatal. Embora a principio a deman- da da nova fdbrica, de 600 mil toneladas de min6rio de ferro, permit uma acomo- daqio de interesses, a tendencia a expan- sdo podera levar a uma concorr6ncia ru- inosa com as cinco inddstrias jd instala- das no distrito industrial de Marabd e, embora com menos 8nfase, as outras sete fincadas ao long da ferrovia de Carajas. 0 0 0 CONTI~sNUA NA PA Minrios: o cico das MrIlerios: o ciclo das Em 1994 a Companhia Vale do Rio Doce, ainda estatal, requereu A Sudam (Supe- rintendencia do Desenvolvimento da Amaz6nia) isenq~o de imposto de renda para produzir ouro dajazida do igarapd Bahia e au- mentar a produqCo de min6rio de ferro em Carajas. No ano seguinte o Conselho Delibe- rativo da Sudam rejeitou o beneficio para a la- vra do ouro (que chegaria a bater o record de produ~go national do metal) por nao se tratar de process industrial. O pedido para o ferro, que tinha o mesmo enquadramento, ficou nos gabinetes da superintendencia. Tres anos depois ele emergiu novamente no Condel. Mas enfrentou a resistencia de um dos conselheiros, que havia liderado a reaqao ao beneficio para a lavra de ouro: Jos6 Tostes Neto, superintendent da Receita Federal no Pard representante do Minist6rio da Fazenda no colegiado. A sorte do pedido da CVRD, jd entao privatizada, parecia selada, com a ade- sao de outros conselheiros, inclusive do repre- sentante do Pari, A tese de que a empresa n.o atendia aos requisitos legais para o recebimento do favor fiscal, quando uma iniciativa do pre- sidente da sessdo, o secretario especial de po- liticas regionais (cargo equivalent ao de mi- nistro), Ant6nio de Angelis, mudou a situaqio. Diante dos arguments e da pressdo do ministry e do superintendent da Sudam, o hoje deputado estadual (pelo PMDB) Arthur Touri- nho Neto, o representante do Pard, S6rgio Ledo (agora secretirio especial na administracgo Simio Jatene), condicionou a aprovaqgo da solicitaqgo ao compromisso da Vale de promo- Esse mostruario commercial mostra que a CVRD montari seu poderio em bens eletrointensivos. Sua capacidade de com- peticqo no mercado dependerd da conso- lidaqAo e expansao da sua invejdvel es- trutura logistica, que j Ihe di uma receita de tres bilh6es de reais ao ano e corres- pondera a um quinto de todo o seu fatura- mento no final da d6cada. E tamb6m do seu acesso a energia farta e barata. Com essa infraestrutura os pianos de crescimento da Vale t6m um horizonte quase ilimitado. Permitir-lhe-iam, por exemplo, continuar a expandir a produ- qgo de aluminio da Albris, que ji 6 a oitava maior fabrica do mundo, no esti- gio mais avanqado da cadeia, e pular para a linha de frente do cobre, num crescimento que seria inimaginivel na d6cada anterior. Logo podern aparecer entire as tres ou quatro maiores produto- ras mundiais de cobre. Nos 6ltimos dois anos a Vale inaugu- rou quatro hidrel6tricas pr6prias. Outras cinco estdo projetadas para entrar em ver a verticalizaqco da mineragqo. Juarez Sa- liba, superintendent da CVRD, que estava no audit6rio acompanhando a sesslo, foi convi- dado a se pronunciar a respeito, algo raro nas reuniSes do Condel. Ele comeqou lembrando que em moment algum da tramitag~o do projeto da Vale "mos foi solicitado qualquer tipo de coisa nessa li- nha de projeto de verticalizacqo no sentido de viabilizar a concessao dos pleitos, mesmo por- que isso nao estA na legislacao do Condel e por isso n6s nao tratamos do assunto". Destacou que o Projeto Carajis, inicialmen- te no valor de dois bilhoes de d6lares, ja signi- ficava, em 1998, um ativo de US$ 5 bilh6es, numa demonstraqgo das incorporaq6es de in- vestimento que a empresa fez ao long de uma d6cada. Aproveitou para informar que "em apenas dois ou tr8s anos, n6s fizemos uso dos incentives objeto da concessao passada", na fase de implantaqdo. Saliba disse que a Vale, al6m de agregar valor cor suas expanses, ji vinha conversan- do cor o govemo do Pard para estudar a pos- sibilidade de "promover a verticalizacqo da industrializaq~o do min6rio de ferro e manga- nes", produzindo gusa, aqo "e assim por dian- te". Assinalou que ao long da ferrovia de Ca- rajas ji havia usinas produzindo 1,7 milhlo de toneladas de gusa e que as aciarias s6 aparece- riam "caso se tenha sustentabilidade na pro- duq~o desses produtos [siderurgicos] a partir do carvao vegetal", ji que a regido nao se mos- trava competitivea para a producio de aco ba- seado em outros tipos de redutores". operaqco at6 2008, com investimento de um bilhdo de d6lares. Mas esse desem- penho j comeqa a ser ameacado pela re- aqio aos represamentos de rios e pela contestaqdo aos valores das tarifas prati- cadas. O caminho nao esti bloqueado, mas transitar nele apresentari mais difi- culdades do que os estrategistas da em- presa previam. Sera um dos maiores de- safios ao poder da empresa. Mas a condiqgo da CVRD no setor de infra-estrutura 6 privilegiada: ela conta com tres ferrovias pr6prias, somando mais de tries mil quil8metros, dois dos melho- res portos do mundo e quatro terminals portuarios. Desde 2000, a logistica vem crescendo em m6dia 20% ao ano. O pr6- ximo pass 6 interligar entire si as ferrovi- as de Carajis, Vit6ria a Minas e Centro Atlantica, aproveitando-se tamb6m da Norte-Sul. Nenhuma empresa no planet teri a logistica da Vale. O movimento de expansdo internal se complete cor a sua internacionalizacao crescente. A fase Steinbruch, embalada por Mas advertiu que o carvao vegetal exigia florestas plantadas e a producao de um milhao de toneladas de gusa requeria 200 mil hectares de plantios de eucalipto. Aproveitou para in- formar que a Vale ji havia apresentado uma carta de intenq~o ao Banco Mundial "no senti- do de financial este projeto de plantio de flo- restas energ6ticas". A plantaqCo devia ser ini- ciada em 2000, mas seu sucesso nao dependia apenas de dinheiro. Seria precise at6 modifi- car a legislaqio: as florestas energ6ticas devi- am ter um tratamento diferenciado dos desma- tamentos para outros fins, saindo da bitola de manter intactos 80% da area do im6vel, ji que o plantio seria feito em terras degradadas para a reposicdo de sua cobertura vegetal. Saliba finalizou sua intervenlao dizendo que naquele mesmo dia havia anunciado ao secretario S6rgio Ledo, em mais um de seus encontros, que a Vale havia aprovado em seu orqamento de 1999 um milhao de d6lares para a instalaqio de um viveiro em Marabi capaz de tender a demand de mudas para um plan- tio de 200 mil hectares de eucalipto. Feito o relato e assumido o compromisso pela Vale, o ministry de Angelis conseguiu a aprova- qo dos conselheiros (contra os votos do Minis- t6rio da Fazenda e do Banco da Amaz6nia, mais a abstenqio do Minist6rio do Planejamento) corn a proposta de cria~go de um grupo de trabalho tripartite (CVRD, Sudam e govemo do Pard) "para poder examiner as possibilidades de verti- calizagdo num prazo maximo de cinco anos", com o acr6scimo, a seguir, de uma condicionante: "ob- servadas as regras de mercado". uma entusiistica cobertura da imprensa, significou quebras seguidas de records de lucratividade (o que foi maravilhoso para os financiadores e parceiros da pri- vatizaqCo da estatal, promovida pelo go- verno Fernando Henrique Cardoso em abril de 1997), mas manteve a empresa encolhida. A manutenqCo dessa postura poderia ser fatal (e por isso Benjamin Steinbruch foi defenestrado, levando consigo como console seu bilhio de d6lares). O setor da mineragqo segue a tendencia globalizada pela concentraqao, com fuses e incorpo- raqces para aumento da receita e do con- trole de mercado. No inicio de 2000, hou- ve uma corrida mundial nessa direCqo. No lance mais relevant, a inglesa Rio Tinto Zinc incorporou a North, grande minera- dora da Australia, aproximando-se da li- der Anglo American. Para nao perder posicqo e ainda avan- Car, a Vale, enquanto faz um movimen- to na direcqo do mercado americano, continue a pender preferencialmente 1" QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal oportun Quase decorrido esse prazo, a CVRD cum- priu seu compromisso ou, deixando de seguir a exigencia do Ato Declarat6rio, esta sujeita a perder o beneficio da isencgo do imposto de renda e a ressarcir a Sudam pelo gozo indevi- do da vantage? Se a resposta 6 negative, mais um contencioso entire a empresa e o Estado seguirA o caminho dajustica. Em primeiro lugar, a empresa pode alegar que a exigencia da industrializacgo nio passa de uma liberalidade, que ter validade ainda mais relative porque ficou condicionada as "re- gras de mercado". Em segundo lugar, pode ale- gar que sua fdbrica de gusa em sociedade corn a Nucor, prevista para Marabi, j realize o pac- to, sem falar na usina de placa que deveri fi- car no Maranhdo, Estado que esti no imbito jurisdicional da Sudam. Independentemente da reaqFo da empre- sa, por6m, fica flagrante no epis6dio, um den- tre virios, o despreparo do Estado enquanto interlocutor de uma corporaqCo do peso da CVRD. Ha nio apenas desqualificacgo pro- fissional: inexiste uma political orientando (e ditando) os atos da administraqgo estadual, impedindo que ela se perca em ziguezagues e siga caminhos equivocados. Ou seja cauda- tiria das iniciativas que sio tomadas mesmo 6 pela empresa, seja no moment de contra- tar consultores para orientar o governor seja para engendrar falsos dilemas, bitolando o campo de acgo do Estado. Como pode o governor sentar A mesa de negociagqo e de confront com o aparato t6c- nico-comercial-financeiro da Companhia idades perdidas Vale do Rio Doce tendo atris de si um cor- ada? A tarifa atual poderia ser mantida ap po funcional e uma estrutura institutional tio nas para o aluminio cuja produqao fosse ve tenues como a atual? Political pdblica nao 6 ticalizada no Estado. E impossivel? Cert feita cor intuiqao, golpes de imaginaqao, mente seri se nada for tentado e o Estado genialidade de privilegiados, decisdo con- contentar com a litania da reclamaqao. centrada, mando verticalizado. Estamos vendo o maravilhoso caulim c O Pari, que fala tanto em verticalizacgo vale do rio Capim ser drenado para o mu] do process econ6mico e agregaqao de va- do, substituindo (com ganhos de qualidad lor A atividade produtiva, o que fez at6 ago- produtividade e pasmo preco para o con ra para tornar factfveis essas palavras de or- prador) a producao da Ge6rgia, nos Estad4 dem, vazias de conteddo no discurso de uma Unidos, e da Cornualha, na Inglaterra, a ret6rica de palanque? Nao 6 por falta de entlo os grandes celeiros dessa argila, se oportunidade que essas palavras de ordem um movimento do governor para o benefic deixaram se ser factiveis. Tem sido por in- amento desse excepcional present da nati competencia do governor e despreparo da reza. No Jari, uma fibrica de caulim cont opiniao piblica, privada de informag6es vi- nua a funcionar, impivida, a 500 metros tais por uma imprensa de secos & molha- uma fibrica de celulose. Papel pra qu6? das, de linha'editorial pautada pela movi- Qual o ato concrete do governor paraei mentaqao do seu caixa. se para preencher o vicuo derivado da ai Em 15 anos de vida, a jazida do igarap6 sencia da administraq~o federal no setor d Bahia fez a Vale bater o record national da cobre, deixado as rivalidades incompative produqao de ouro, superando a marca secu- de duas empresas privadas, uma na Bah lar da mina de Morro Velho, em Minas Ge- e outra no Parn? Quando nao tinhamos c rais. Mas o que ficou dessa ginkana geol6- bre o que nao faltava era political de cob] gica? Qual o elo entire essa producao e o dito (ainda que equivocada). Agora que tem( p6lo joalheiro de Bel6m? o min6rio nao temos qualquer previsao of A Albrns completard no pr6ximo ano o cial a respeito. primeiro ciclo da sua vida. Qual o pass adi- Nem teremos jamais enquanto conco ante na verticalizaqao que a empresa deu? darmos com essa mecAnica da improvisaqg Qual a alternative que o governor do Estado da pretensa iluminacao de meia duizia de at criou para esse avango? Um amigo, provo- res que, As vezes, simulam declamar um te, cado por artigo destejornal, me escreve para to dramitico e, no mais das vezes, estao et sugerir algo que 6 novo sem deixar de ser cenando 6 mesmo uma com6dia. Opera buf 16gico: por que nao tentar uma parceria com quando muito. o governor federal para uma tarifa diferenci- At6 quando? e- ;r- a- se lo n- e, n- os t6 m :i- u- :i- le n- u- lo is ia o- re )S i- r- 0, 3- x- n- a, pela Asia, com a perspective de sincro- nizar os dois movimentos, estabelecen- do uma relaqgo triangular entire China/ Japao, Brasil e Estados Unidos. Para os EUA a Vale direciona atu- almente apenas 3% de suas exporta- q6es de ferro ou 5% do total das ex- porta96es de min6rios em geral que efetua. A empresa expandiu suas ven- das na China, que no ano passado se tornou a maior compradora do min6- rio de ferro extraido pela CVRD (qua- se totalmente de Carajas), deslocando a lideranca japonesa. A Rio Doce Manganese Norway, subsididria integral, iniciou em 30 de junho suas operaCqes na No- ruega. A RDMN, antiga Elkem Rana, foi adquirida pela CVRD em feverei- ro deste ano, por 17,6 milh6es de d6- lares. Outros US$ 10 milh6es foram aplicados na convers.o da plant. Para produzir 110 mil toneladas anu- ais de ferro-ligas, mais ligas de ferro silicio mangan8s e de ferro mangan8s alto carbon, a fibrica receberi min6- rio fino de manganes da mina do Azul, em Carajas. A CVRD, que ji 6 uma das lideres globais no mercado de mangan6s e fer- ro-ligas, corn a nova controlada aumen- tari sua competitividade nesse merca- do e teri mais facilidades para tender as necessidades dos clients europeus. Al6m das minas de mangan8s e plants de ferro-ligas no Brasil, a Vale ji pos- sui e opera uma plant de ferro-ligas na Europa Continental, a Rio Doce Man- ganese Europe, localizada em Dun- querque, na Franga. A CVRD 6 como diz seu material de propaganda um dos maiores "players" globais no mercado de man- gan8s e ferro-ligas. Possui e opera qua- tro minas de manganes (Azul, em Cara- jis, Urucum, Morro da Mina e MMN) e sete plants produtoras de ferro-ligas (Corumba, Santa Rita, Barbacena, Ran- charia, Sdo Jodo Del Rey, Sibra e RDME). Su-a capacidade corrente de produdao annual 6 de 2,3 milh6es de to- neladas de min6rio de mangan6s, 450 mil toneladas de ligas de ferro-manga- n8s e 25 mil toneladas de liga de calcio- silicio. O Para entra exclusivamente com a mat6ria prima. Nao possui uma tinica unidade de beneficiamento. Como parte dessa estrat6gia, de assu- mir a lideranca do mercado de ferro-li- gas de manganes, a Vale negocia ainda a compra de metade do capital da OFZ, fa- bricante de ferro-ligas da Esloviquia, cor duas fibricas em seu pais, uma de ferro-liga de cromo e a outra de silicio e manganes. A previsdo da empresa 6 de que este segment represent em 2010, receita de quase US$ 1 bilhdo, o triple do registrado atualmente. Com a OFZ, a CVRD estard produ- zindo em tr6s pauses europeus (Eslovi- quia, Franga e Noruega). Com isso, venderi mais min6rio e ainda dari um pass al6m, chegando ao ferro-liga, que tem maior valor agregado. Mas nao no Para, obviamente. Jornal Pessoal 1P QUINZENA/JULHO DE 2003 c A grilagem Na comarca paulista quem defended o interesse public e poupado dessas iniciativas, nitidamente intimat6rias. Por aqui, 6, como fui, condenado, em julgados impermediveis as provas dos autos. Por qu6? E m 1999 o empresario Cecilio do Rego Almeida ajuizou, em Sao Paulo, uma aqgo de indenizaqgo por danos morais contra a Editora Abril, o ve- reador Francisco Eduardo Modesto da Sil- va e o procurador do Estado Carlos Al- berto Lamarao Correa. O dono da Cons- trutora C. R. Almeida pediu a condena- qgo dos r6us ao pagamento de um valor, que caberia ajustiqa arbitrar, por suposta- mente terem ofendido sua honra. Os tries acusaram o empreiteiro, em reportagem publicada na revista Veja, pela pratica dos crimes de roubo, esbulho possess6rio, es- telionato, homicidio, ocultaqgo de cada- ver e trabalho escravo. Veja dedicou mat6ria de capa a Ceci- lio Almeida, acusando-o de se apossar de uma area de terras do tamanho da Ho- landa e da B61gica somadas, tornando-se "o maior latifundidrio do pais ocupando terra alheia no Pard". O empresario se considerou ofendido moralmente por uma frase dita por Lamarao em entrevis- ta ao reporter Policarpo Junior. Segundo o procurador, "se as instituiq6es funcio- nassem como deveriam, esse sujeito ja estaria na cadeia". Disse mais: "E terrivel ficar discutin- do esse neg6cio como se fosse mat6ria juridica, quando nio passa de caso de po- licia. Isso porque a 'compra' das terras equivale ao que o C6digo Penal tipifica como estelionato, um crime com pena de at6 seis anos de prisao. E estelionato por- que, nessa operaqio, o empreiteiro obte- ve uma vantagem ilicita' (as terras) em 'prejuizo alheio' (no caso, o Estado do Pard) e, numa caracterizacgo complete de estelionato, ainda sabia que estava parti- cipando de uma fraude". O empresario entendeu que essas de- claraq6es configurariam o ato ilicito de caldnia, ja que o procurador ter-lhe-ia imputado, falsamente, ato definido como crime, o estelionato, previsto no artigo 171 do C6digo Penal. Em sua defesa, o advogado Carlos La- mario sustentou que o objetivo da aqio ea era, na verdade, impedir sua atuagqo como procurador do Estado do Para, res- ponsavel por demands judiciais que bus- cam impedir a consumaqCo da grilagem que vem sendo praticada por Cecilio Al- meida. Mostrou que o pedido era juridi- camente impossivel porque os titulos apresentados pelo autor nio o autoriza- vam a se dizer proprietirio das terras, que eram e continuam a ser publicas. Argu- mentou que apenas transmitiu h socieda- de informaq6es e juizos de valor neces- sarios a defesa do patrim6nio p6blico, nao havendo ofens.a A honra quando as alega96es sio verdadeiras. Francisco Eduardo Modesto da Silva declarou que, como vereador em Altami- ra, nada mais fez do que exercer sua fun- 9go representative. Destacou que a idonei- dade da documentaqdo imobiliaria apre- sentada pelo autor tem sido contestada. Acrescentou que ha den6ncias contra fun- cionarios do autor, bem como processes contra sua empresa. A Editora Abril suscitou, em abono do seu procedimento, o direito constitu- cional de informar, exercido dentro dos crit6rios que norteiam a atividade da im- prensa. Defendeu que os textos jornalis- ticos criticados nao implicaram prdtica de ato ilicito, nao permitindo cogitar de responsabilidade civil. Disse ainda que o autor adquiriu terras sabendo que se tratava de fraude. A reportagem apenas publicou fatos, com todas as fontes de- vidamente identificadas. Dela resultou inclusive abertura de uma CPI naAssem- bl6ia Legislativa do Para. Ojuiz Gustavo Santini Teodoro, da 23" vara civel de Sao Paulo, decidiu que nao assisted razao ao dono da C. R. Almeida. Lembrou que Lamarao 6 procurador do Estado do Para e assinou, juntamente corn procuradores do Instituto de Terras do Para (Iterpa), a petiqCo inicial da acgo de nuli- dade e cancelamento da matricula, trans- cricqes e averbaq6es no registro de im6- veis da comarca de Altamira. Desses do- cumentos que se valeu o empresirio para se declarar dono de uma area de terras que poderia ir de 4,7 milh6es a 7 milh6es de hectares, no vale do Xingu. O juiz reconhece que essa aqao ainda esta subjudice, mas acrescenta que nada impedia ao advogado, "no exercicio de sua funq~o e como qualificado operator do direito", de formular a opiniao que mani- festou pelas paginas da revista paulista. "Nao se ignora observa ainda o ma- gistrado que a autoridade policial ne- gou a instauragao de inqu6rito policial corn base nas denincias do r6u Carlos Alberto. justiga No entanto, este agiu no estrito cumpri- mento do dever legal, no legitimo exerci- cio das suas funq6es de procurador do Estado. Nao deu apenas declaraq6es ao jornalista, para se exibir numa revista, mas efetivamente requereu a tomada de provi- dencias na esfera criminal. Se a autorida- de competent entendeu que nao era caso de tomar essas providencias, nao se ha falar, s6 por isso, em crime de caldnia. Nio 6 ato ilicito 'a queixa dada a policia atri- buindo a algu6m determinado crime, a nio ser que se prove a ma-f6 do queixoso, ou culpa sua'. Esta se configura, 'se o denun- ciante, embora sem agir corn ma-f6, pro- cedeu cor imprudencia, acusando com leviandade'", sentenciou, recorrendo a doutrina e jurisprud6ncia a respeito. Continue o Gustavo Teodoro na sua sentenqa: "O fato de o r6u Carlos Alberto ter feito declaraq6es a imprensa imputan- do o crime de estelionato ao autor nao autoriza o pedido indenizat6rio, porque, A semelhanqa dos casos de pedido frus- trado de abertura de inqu6rito policial, nao se evidenciou nestes autos que ele tenha agido com dolo, ma-f6, imprudencia, cul- pa, temeridade, leviandade ou malicia". O empresirio atribuiu intengqo ofen- siva a um outro trecho da reportagem de Veja, que diz: "A ocupacio irregular de terras p6blicas 6 a ponta de uma selva de irregularidades. Ha dois meses, o verea- dor Eduardo Modesto, do PPS, vice-pre- sidente da Camara de Altamira, enviou carta de tres paginas ao president Fer- nando Henrique listando as ages ilegais de Cecilio do Rego Almeida na region. No document existed acusacqes cabe- ludissimas, como assassinate, ocultaqgo de cadaver, trabalho escravo e formagqo de quadrilha, mas nenhuma 6 comprova- da. (...) 'Um indio da tribo xipaia foi morto a facadas porque nao concordava em seguir as orientaq6es da empresa de Cecflio', acusa o vereador. 'Para expul- sar os ribeirinhos de suas terras, ele man- dou fotografar todos eles, dizendo que era para tirar document. Pouco depois, apa- receram um cabo e um sargento infor- mando aos moradores que as fotos foram usadas para ficha-los na policia e que, se criassem problems, seriam expulsos e presss, conta o vereador". Segundo Cecilio, esse trecho eviden- ciaria que Modesto "praticou o ato ili- cito de caldnia, pois imputou falsamen- te ao autor varios atos definidos cotno crimes, quais sejam homicidio, oculta- cgo de cadaver, trabalho escravo e for- ma~go de quadrilha ou bando". Outra vez, por6m, ojuiz negou-lhe razdo. Nio -1 QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal (em Sio Paulo e no Pari) s6 pelos motives que ji havia invocado, mas por novos arguments. Historiou que o vereador havia re- cebido, "de cidaddos comuns do povo", uma carta cor as acusaq6es que repro- duziu: "Suas declaraqoes A revista, em essencia, nada mais sao do que repro- duqio delas. A Comissdo Parlamentar de Inqu6rito formada na Assembl6ia Legislative do Estado do Pard dedicou- se ao tema, o que nao teria ocorrido se fosse completamente descabido. E cer- to que a aludida CPI concluiu pela ine- xistencia de provas dos crimes antes mencionados. Mas isso nao significa que o r6u deva ser condenado por ofen- sa A honra do autor, porque, como ve- reador, nao poderia simplesmente ficar calado. Novamente, tamb6m desse r6u, nio se evidenciou nestes autos dolo, mi-f6, imprudencia, culpa, temeridade, leviandade ou malicia nas suas decla- rag6es 6 revista", arrematou. "Evidentemente complementou o magistrado se nao se reconheceu a res- ponsabilidade dos co-r6us pelas decla- raq6es que deram ao jornalista da revis- ta Veja, a co-r6 Abril S/A tamb6m nao pode ser condenada pela transcricgo fei- ta delas na questionada reportagem". Examinando as opini6es que ojornalis- ta expressou na matdria para verificar se elas poderiam levar a conclusdo di- versa, ojuiz concluiu negativamente. Os outros trechos da reportagem que pretextaram a agqo do empresirio foram: "A diferenqa dessas iniciativas antigas, e malogradas, em relaqCo a de Cecilio do Rego Almeida 6 que, no seu caso, o fazenddo selvagem consiste num dos maiores assaltos A terra de que se tem noticia na hist6ria do pais das sesmari- as e capitanias hereditirias. (...). Aldm disso, o empreiteiro levou 199.000 hec- tares (uma drea maior que a cidade de Sio Paulo) que pertencem a Fundacqo Nacional do Indio, Funai, e outros 268.000 hectares (o que corresponde a mais de duas vezes a cidade do Rio de Janeiro) cujo dono, na 6poca, era o Es- tado-Maior das Forcas Armadas, EMFA. Nessa area military, conhecida como Ser- ra do Cachimbo, os militares construf- ram um campo secret para testes nu- cleares nos anos 80, onde pretendiam explodir a bomba at6mica, caso o Bra- sil viesse a construf-la. Ou seja: de um golpe s6, Cecilio tomou terras do Esta- do do Pard, uma reserve indigena e ain- da um pedaqo de uma area de seguranqa national. (...) Chumbo Grosso. O ex- capataz H6lio Ferreira da Silva, 34 anos, chefiou durante sete meses uma das ba- ses nas terras do empreiteiro, em Entre Rios: 'La tem espingarda, revolver e pistolas 7.65, al6m de muniqao. A or- dem 6 passar p6lvora em quem entrar sem autorizaqdo. (...) O rigor com a se- guranca talvez nao seja tdo b6lico quanto diz o ex-capataz, ji que nao se ter noti- cia de algu6m que tenha recebido 'p61- vora' por 1l. (...) O General Indigena. O cacique Manuel Xipaia, 46 anos, 6 uma das figures emblemiticas no pais de Ce- cilio. Ex-garimpeiro, deixou Altamira para chefiar o ex6rcito de indios forma- do pela Rondon Projetos Ecol6gicos: 'N6s ajudamos a defender as terras e a empresa nos di a muniqSo'. (...) Em 1971, gravou uma conversa sua com o entao governador do Parana, Haroldo Leon Peres, que Ihe pedia 1 milhdo de d6lares para liberar pagamentos. Peres acabou afastado do cargo. Anos depois, grampeou tamb6m o entao governador Alvaro Dias em represdlia i desclassifi- caCqo da CR Almeida numa concorren- cia piblica. Dessa vez, nada provou. Sua intimidade com grampos levou-o a ser apontado como um dos suspeitos no caso das fitas clandestinas do Banco Na- cional de Desenvolvimento Econ6mico e Social, BNDES, mas nao apareceu ne- nhum indicio que o comprometa". Examinando esses trechos, ojuiz con- cluiu que a mat6ria "visa dar subsidies para o leitor compreender a afirmaqao da reportagem de que o autor envolve-se em polemicas e em neg6cios sobre os quais pendem d6vidas. Ressalte-se novamente que o Instituto de Terras do Pard moveu aqao de nulidade e cancelamento de ma- tricula, transcriq6es e averbaq6es no re- gistro de im6veis. Observe-se ainda que a CPIji aludida nesta sentenqa tamb6m con- siderou ilegitima a pretensao de posse e propriedade da area de terras. Outrossim, as pessoas ouvidas na reportagem nao fo- ram inquiridas em Jufzo e assim nao ne- garam as acusa9qes que fizeram perante o jornalista. O autor se limitou a trazer de- claraq9es extrajudiciais, que nao bastam para former convicqao segura quanto a falsidade do que o jornalista escreveu". O julgador faz refer6ncia ao "Livro Branco da Grilagem", editado pelo Minis- t6rio da Politica Fundidria e do Desenvol- vimento Agrario, "que em essencia nao se distingue" da reportagem da revista Veja, no qual o julgador encontrou afirmaq6es, como: "Um caso famoso de terras apossa- das ilegalmente no Estado do Pard 6 o da empreiteira C.R. Almeida. Ela se intitulou proprietiria de sete milh6es de hectares, area equivalent 6 soma das superficies da B61gica e da Holanda. Levantamento feito junto aos cart6rios da regiao mostram que as terras jamais pertenceram A familia que as teria vendido a empresa. (...) O governor do Pard requereu a nulidade da transaqgo da C.R. Almeida e teve ganho de causa em primeira instdncia. As terras estao interdi- tadas, o que significa que nada pode ser feito com elas, nem mesmo qualquer tipo de exploraqao econ6mica, at6 que haja de- cisao final da Justiqa". "Conquanto sensacionalista prossegue o juiz em sua sentenqa a revista nao ex- cedeu os limits da liberdade de imprensa, na media em que ilustrou com fatos con- cretos as afirmaoqes contidas na reporta- gem. Nftido o interesse pdblico na divul- gagqo. Nessas circunstfncias, 6 irrelevant o fato de nao ter havido decisao judicial sobre tudo que 6 discutido. Pouco impor- tante tamb6m eventuais imprecisoes jurf- dicas. A r6 tem a liberdade de acompanhar os fatos e de os contar a seus leitores A media que os apura. S6 se haveria de re- conhecer sua responsabilidade em caso de se mostrar nitido o prop6sito de pouco es- clarecer, ou a falta de dilig6ncia em apurar as acusaqoes, o que no caso nao ocorreu. A verdade objetiva nao 6 limited da liberdade de expressao e informaqao. O que se erige A condiq~o de limited da liberdade de ex- pressao e informaq~o 6 a verdade subjeti- va, que o sujeito que informa revela ter al- canqado por se mostrar diligente em che- car a seriedade ou idoneidade da noticia antes de qualquer divulgaqao". No arremate de sua decisao, o juiz considerou irrelevante juridicamente o fato de no passado Cecilio Almeida ji ter sido alvo de critics da revista: "O que se deve verificar 6 se a reportagem criti- cada provocou danos morais e a res- posta, no caso, por todos esses fundamen- tos, 6 negative". Por isso, julgou impro- cedente a ag~o, condenando o empresa- rio a pagar as custas, despesas processu- ais e honorarios advocaticios que fixou, em relagqo a cada um dos r6us, em 10% do valor atualizado da causa. No Para, no exame do mesmo caso, a justiqa tem decidido em favor do empre- sario contra os que formula, aqui, as mesmas acusaqoes que, em Sao Paulo, receberam a devida tutelajurisdicional, em decis6es tao categ6ricas como a do juiz Gustavo Santini Teodoro. Na comarca paulista quem defended o interesse pdbli- co 6 poupado dessas iniciativas, nitida- mente intimat6rias. Por aqui, 6, como fui, condenado, emjulgados impermeiveis as provas dos autos. Por qua? Jomal Pessoal 1P QUINZENA/JULHO DE 2003 7 President novo, mesmice amazonica O president Luiz Indcio Lula da Silva foi a Parintins, no Amazonas, ver a festa do boi, considerada ultimamente como o maior acontecimento folcl6rico da Amaz6- nia. Ocupando o lugar onde se senate mais A vontade e do qual se recusa a apear, o palanque, Lula fez um discurso como de regra pol8mico. Sem apartes, conform seu estilo presidential, deitou regras e as- sentou verdades sobre a Amaz6nia. Garantiu, por exemplo, que a region deixou de receber investimentos por cau- sa do movimento de preservaco ecol6gica. Lamentando o prejuizo, o president advertiu que a Ama- z6nia "nao pode se tratada como uma coi- sa de outro mundo, intocivel, onde as pes- soas nio trm direito aos beneficios". Diante de um grande portal em forma de cocar indigena, construido is proximi- dades do aeroporto, que inaugurou, o pre- sidente tratou de promoter que estenderi uma linha de transmissao de energia el6- trica desde Tucuruf at6 a capital do boi (folcl6rico, 6 claro) amaz6nico. Estimu- lado pelo mon6logo brejeiro, saudou a melhoria antecipada pelo seu lado diga- mos assim mais intimista para os mora- dores locais: "Voc6s vdo poder namorar no claro, o que nem sempre 6 muito bom, mas 6 necessirio", observou o president, cujo humor foi reforqado pela unanimi- dade da claque. Acostumado aos confortos proporcio- nados pela maior area metropolitan do continent, o ex-torneiro mecanico do ABC paulista estA certo de que nao viver no escuro 6 tao fundamental quanto fazer tres refeig6es por dia, ter escola de quali- dade e acesso A sadde. "Chegou a hora de as pessoas tomarem, se quiserem, um ba- nho quente, mesmo numa regiao quente como a Amaz6nia", garantiu o president da reptiblica. disse ele. Verba do Minist6- rio de Minas e Energia havia possibilita- do, um pouco antes, a compra de mais um gerador a diesel para Parintins, totalmen- te dependent de energia t6rmica A base de derivado de petr6leo. Entusiasmado cor a festa de Parintins, Lula lembrou que ela comegou an6nima, trazida por migrants. "Durante anos nao foi levada em conta pela elite intellectual brasileira, porque muitas vezes as coisas s6 acontecem no Brasil depois que acon- tecem no New York Times". Mas, em sua versdo, "a competencia dos que consegui- ram montar uma festa sem apoio finan- ceiro, fez com que a festa virasse uma re- fer8ncia national e mundial". O discurso do lider maior do PT mere- cia atengdo (e rigor) maior do que o rece- bido. Se muita mudancaji ocorreu na for- ma e no conteddo de Luiz Inicio, seu pre- conceito em relagao aos intelectuais tran- sitou sem alteraqbes na passage para o exercicio do poder. O intelectualismo tem suas mazelas, destacadas durante os oito anos do soci6logo Fernando Henrique Cardoso. Mas o antiintelectualismo 6 pelo menos tao nocivo quanto a auto-suficien- cia dos nossos mandarins (piorada pelo palanque e sua conseqtiUncia vitoriosa). Perfeitamente certo na critica a maca- queacao colonial brasileira, que s6 aplau- de as criaqfes nacionais quando sacramen- tadas pela metr6pole, o president esque- ceu que o sincretismo do boi de Parintins s6 6 o que 6 pela forca da Coca-Cola, tao entusiasticamente saudada em Nova York quanto em Brasilia ou Sao Bernardo. No dia em que a Disney montar seu parque temitico najungle, li deveri Lula apare- cer para aplaudir e enaltecer, ainda que nao na lingua de Tio Sam (de resto, ociosa di- ante desse novo esperanto fanhoso). Com pipoca, torresmo e la dcqua nera. Esses mesmos intelectuais pern6sticos, com suas filigranas conceituais, como a ecologia, colocaram area na pagoca do de- senvolvimentismo, um mesmo altar no qual fazem suas oraqfes o intellectual e o opera- rio paulistas, indiferentes as suas diversi- dades ret6ricas, que se acomodam num cendrio metropolitan, anos-luz A frente do primitive hinterland. Nesse aspect, Lula e FHC sao brancos; n6s, os outros. Admitamos que esse prejuizo seja ver- dadeiro. Pode ser, entretanto, apenas um prejuizo nominal. Na andlise do custo/be- neficio, a estrada que nao veio, a fazenda que nao se implantou, a mineraqo que foi adiada, todos podem acarretar mais custo do que receita. Pode-se citar o exemplo do p6lo de alumfnio de Barcarena, onde o president j pousou. S6 de subsidio ener- g6tico, o tesouro entrou com dois bilh6es de d6lares para viabilizar investimento de tamanho proporcional, mas que ainda tem um passive a descoberto de um bilhio de d6lares. A conta nao inclui outros subsi- dios menos explicitos e volumosos, mas na ponta do lipis certamente mais perde- mos do que ganhamos. Freqiientemente os preservacionistas (para aceitar a camisa-de-forqa conceitu- al que seus contendores, declarados ou nao, Ihes imp6em) se posicionam equivo- cadamente, as vezes raciocinando de for- ma irrealistica. Mas seus adversarios, mesmo quando agem sob o signo do prag- matismo e da objetividade, nao obram melhor. Lula estava a postos para tonitro- ar quando os militares gastavam fortunes para permitir ao colono de Gy-Parand li- gar diretamente para T6quio daquele ermo no meio da floresta poeirenta. O agora president nao quer saber quanto custa levar uma linha de energia de alta tensdo por centenas de quil6metros para permitir ao danqante do boi amazonense tomar banho quente em terras equatoriais. Menos conventional, e no entanto mais sensato, era o economist (nordes- tino, como Lula) Rubens Vaz. Em plena ditadura, props que as grandes rodovi- as fossem construidas a muque human, com a coadjutoria de animals de traqao, ao inv6s de abertas com miquinas. Sai- ria mais barato e renderia socialmente mais, ainda que nao na mesma velocida- de. Arriscando seu pescoqo, Rubens Vaz preferia o modelo chines, trabalho inten- sivo, ao modo que requer necessariamen- te o capital intensive. Nao foi ouvido. Nem, felizmente, anatematizado. O operdrio-presidente, avesso aos inte- lectuais, peca pela superficialidade (e o mesmo mimetismo mental que abjura) quando defended a mesmice: grandes usi- nas hidrel6tricas numa planicie densamen- te arborizada, extensas (e caras) linhas de transmission at6 mercados cujo consume 6 premido por hibitos perfunct6rios, sem qualquer mediagao da recomendivel con- servaqo. Se defender desse modelo que o president defended, a Amaz6nia continua- ri a ser a mesma. Para que, entao, teri vo- tado na mudanqa (para melhor) de Lula? 1" QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal A volta das hidrelitricas: primeiro no rio Madeira Se defender do govemo Lula, o pr6ximo pass para a geraqao de grande volume de energia na Amaz6nia sera dado no rio Ma- deira, em Rondonia. At6 novembro deste ano devera ser concluido o estudo de viabilidade economic para a construqno, a partir de 2005, de duas hidrel6tricas no Alto Madeira, entire Porto Velho e Abuna. Quando estiverem con- cluidas, em 2012, as usinas terdo absorvido 14 bilhoes de reais (R$ 10 bilh6es na geramo e R$ 4 bilhoes no sistema de transmissio), com capacidade instalada de 7,3 milhoes de quilowatts, na soma apenas 15% menor do que a hidrel6trica de Tucuruf. O projeto do Madeira vem sendo con- duzido ha dois anos por uma equipe de t6c- nicos de Furnas (subsididria da Eletrobris) e da Construtora Norberto Odebrecht, com a assessoria da Projetos e Consultorias de Engenharia Ltda. As sondagens visavam nao s6 ampliar a capacidade de produCqo ener- g6tica national como tamb6m incrementar a navegaqio ao long de quase todos os 4.200 quil6metros do rio Madeira, regulari- zando o trecho entire a capital de Rond6nia e Abuna, na fronteira com a Bolivia.. O estudo de engenharia concluiu pela viabilidade da construqio de duas usinas hidrel6tricas, de Santo Antonio e Jirau, corn potential 7.362.000 quilowatts de energia. Tamb6m apontou para a possibilidade de serem abertas saidas fluviais para Manaus, Rio Branco e Cuiaba, permitindo ainda a integracao energ6tica e econ6mica entire Brasil, Bolivia e Peru. Plenamente navegi- vel na fronteira, o Madeira sera interligado aos seus principals afluentes, o Mamor6 e o Guapor6, criando uma said da navegaqao para o Oceano Atldntico. O Brasil, assim, no s6culo seguinte, estaria cumprindo o compro- misso que comeqou a saldar no s6culo XX e deixou inconcluso corn a legendaria ferrovia Madeira-Mamor6 (onde cada dormente as- sentado corresponderia a uma morte). Os estudos do cons6rcio asseguram que o empreendimento teria efeito imediato so- bre Mato Grosso, que produz tres milh6es de toneladas de soja, atualmente escoadas por rodovias at6 os portos de embarque para exportaqao. Com a navegabilidade do Ma- deira, essa producao seguiria por via fluvi- al, com frete inferior ao praticado hoje. A produCqo internal de grios poderia alcanqar 25 milhoes de toneladas em Rondonia e Mato Grosso, utilizando sete milhoes de hectares de areas agricultnveis nos dois Es- tados, que nao sio cultivadas devido ao alto custo do transport. Cor a hidrovia, o frete ficaria mais barato 15 d6lares por tonelada. As obras teriam pequeno impact eco- 16gico porque os reservat6rios das hidrel6- tricas corresponderiam a 40% da area que o pr6prio Madeira alaga is suas margens durante o period de chuvas mais intensas. No curso do rio a ocupa~qo humana noo 6 densa, o que atenuaria os efeitos sociais. Quanto ao desmatamento, a quantificaqao ficara para o period de elaboraq~o do EIA- Rima (Estudo de Impacto Ambiental/Re- lat6rio de Impacto Ambiental), que sera executado em seguida a definiq~o da via- bilidade econ6mica. Para levar adiante a construgao da obra, a participagqo estatal no empreendimento deve ser maior que a prevista anteriormente, podendo ter Furnas a frente do cons6rcio de empresas que participariam do projeto O cons6rcio liderado por Furnas justi- fica ainda a necessidade do complex pelo baixo desenvolvimento atual da regiao de influencia, necessitada de investimentos em infra-estrutura para estimular a economic. A area apresenta solos de baixa fertilidade, nao disp6e de programs de incentive para a pesca commercial e a sua base econ6mica 6 constituida por microempresas. Com a sdbita ampliaqo da oferta de energia e o desembarago da navegacao no rio Madei- ra, a capacidade da regiao de atrair capitals seria incrementada notavelmente. Os indicios s~o de que Brasilia prefer retomar no Madeira o ciclo dos grandes aproveitamentos hidrel6tricos, dando inf- cio a execuqao de Belo Monte um ou dois anos depois. Nao parece que a usina do Xingu, com custo previsto de R$ 18 bi- lhoes e geracao de mais de 11 milh6es de kw, va ser arquivada. Mas perdeu em pri- oridade para os projetos de Rond6nia. No Madeira o modelo de construcao es- tabelece o control do empreendimento por Furnas, que, assim, rompe a jurisdiqao da Eletronorte e, por enquanto, se sobrep6e a subsididria da Eletrobras para a Amaz6nia. Esse deslocamento parece ter sido realiza- do para que o grupo do president da Ele- trobras, Luiz Pinguelli Rosa, possa assumir o control do projeto e dar-lhe uma feigqo de acordo com o que o fisico da Universida- de Federal do Rio de Janeiro pensa sobre esses aproveitamentos Para levar adiante a construqSo da obra, a participagqo estatal no empreen- dimento deve ser maior que a prevista an- teriormente, podendo ter Furnas a frente do cons6rcio de empresas que participa- riam do projeto. Ele nao sera apenas de geracqo de energia, mas de desenvolvi- mento regional. Os trabalhos prelimina- res tnm incluido a construqdo de eclusas para o Madeira, ao contrario do procedi- mento da Eletronorte, que preve a trans- posiqgo do rio, mas transfer a responsa- bilidade para outra instituigqo. 0 president da Eletrobris, provavelmen- te preocupado com seu passado de contesta- dor das grandes barragens, garante que os projetos de Santo Antonio, Jirau e de Belo Monte nio significam uma volta ao modelo estatal de expansao da geracao de energia cri- ado no final dos anos 50 e mantido at6 o ini- cio dos anos 90. Apesar de algumas modifi- caqges nessa matriz, por6m, fica a sensaqao de que a essencia permanece. E vai continuar a seguir em frente, como um trator Pode ser que entire o barragismo radi- cal de antes e o anti-hidrel6tricas obtuso de alguns grupos ambientalistas, o gover- no Lula encontre uma linha de equilibrio capaz de compatibilizar a fome de ener- gia do Brasil com as limitaq6es naturais da Amaz6nia para atende-la sem pagar um preqo alto demais pelo cardapio apresen- tado. Entre a apregoada "vocaqio natural" brasileira para a hidreletricidade e a pro- blematizaqao que uma visdo mais ampla e sensivel suscitou hi uma nesga de luci- dez. Brasilia (ou seria melhor dizer: o Rio de Janeiro) vislumbrou-a? E o caso de checar. Vendo para crer. Journal Pessoal 1P QUINZENA/JULHO DE 2003 Q Como a hist6ria dos arquivos piblicos no Brasil (e, em particular, no Pard) costuma ser trigica (ver, a pro- p6sito, Jornal Pessoal 302), vale a pena registrar um caso positive no Tribunal Regional do Trabalho, por seu contrast com o tratamento que o Tribunal de Jus- tiqa do Estado vem dando ao seu arquivo. Ha algum tempo tramita no TRT um process ad- ministrativo regulamentando a lei federal que permit a incineracgo de autos de processes finalizados. En- quanto vivo, o juiz e bacharel em hist6ria Jos6 Au- gusto Affonso op6s-se tenazmente a media, secunda- do por seu colega Jos6 Alencar, que o sucedeu na defe- sa da nobre causa da mem6ria national. No dia 24 de abril a resolucao que autorizaria a in- cineraco deveria ser aprovada pelo tribunal. A juiza Lygia Oliveira, por6m, requereu a baixa dos autos em dilig8ncia, para melhor exame. O process foi entao encaminhado ao juiz Alencar para apreciaqdo e suges- toes. Por feliz coincidencia, o relator ficou sabendo que o edificio administrative do Parque do Material Aero- nautico havia sido cedido ao Tribunal de Contas da Unido e que o Comando da Aeronautica estava que- rendo livrar-se de galpoes e hangares. A direqCo do TRT requereu ao Comandante da Ae- rondutica a cessao dos quatro galpoes para neles insta- lar seu arquivo e o Dep6sito Pliblico Metropolitano. Simultaneamente, foi incluida no orqamento do tribu- nal uma verba de 1,2 milh-o de reais para a reform e adaptaqao dos galpoes para o novo uso. Aparentemente, Aeronautica e TRT caminham para resolver o problema do arquivo e do dep6sito de bens penhorados. Em boa hora: os processes estao estragan- do, sob permanent risco de virarem cinzas. Neles cons- ta parte important da hist6ria do trabalho na Amazonia desde 1937. Serviram de base, recentemente, para uma dissertacgo de mestrado da historiadora Edilza Fontes, transformado em livro pela Editora Paka-Tatu, sobre os padeiros de Bel6m. O resultado do trabalho mostra que essa documentaqo, quando bem utilizada, pode ajudar a recuperar uma parte da mem6ria coletiva que tem sido maltratada, subestimada ou completamente ignorada. O final da hist6ria s6 ndo 6 ainda feliz porque subi- tamente esses galpdes, que estavam sem destinaqao, agora parecem ter provocado um sibito interesse. O Estado tamb6m os teria incluido no seu projeto de ali montar a logistica do seu setor aerotransportado, para o qual estaria pretend adquirir dois helic6pteros. A proposta do govemo do Estado, que oferece como contrapartida a construqao de casas para os militares e suas families, 6 tentadora. Mas espera-se que a decisao leve em conta o mais alto interesse ptblico. No caso, evitar que a mem6ria coletiva vire lixo. Mem6ria public Cartas Da conspiragdo do sil&ncio que se formou em torno da grave questdo revelada por estejornal na sua edigdo pas- sada, a cobranqa de uma divi- da de 1,5 bilhdo de reais pela Construtora Andrade Gutier- rez junto ao Estado, a unica quebra da ormeti e a carta do leitor Rodolfo Lisboa Cervei- ra, publicada a seguir 0 silen- cio do parlamento, do Minis- terio Plblico e do Tribunal de Contas do Estado, se mantido, a despeito das informag&es pu- blicadas, poderd ser interpre- tado pelo que e: omissdo di- ante da ameaga de dilapida- qdo de recursos pdblicos. Ou seja: descumprimento de suas nobresfunCoes. Concordo cor o exposto na mat6ria sob o titulo "A di- vida de R$ 1,5 bilhao", publi- cada no Jornal Pessoal n 303, dejunho/03. A missed dos de- putados ndo se encerra tao-so- mente corn a elaboracqo das leis, estende-se a fiscalizagio dos atos do executive e dos outros poderes do Estado. Cumpre, principalmente, a es- ses ditos representantes do povo exigir 6tica e transparen- cia nas quest6es relatives A aplicaq o dos recursos prove- nientes da arrecadagqo tributi- ria. As compras e/ou services realizados com essas verbas, que sao decorrentes dos impos- tos pagos pela populacgo, na sua a9 o consumidora, devem ser rigorosamente desembolsa- das na forma prevista nos seus respectivos orqamentos. As fraudes e os desvios para ou- tras obras/serviqos, ou cami- nhos duvidosos, devem ser objeto de rigorosa apuraqgo por parte da autoridade com- petente, com a punicqo dos envolvidos nos escandalos. Assim 6 a regra nas democra- cias civilizadas. No Brasil e no Pari, infe- lizmente, as coisas nao funci- onam desse jeito, a corrupqco grassa indene e as lesres e os descaminhos do dinheiro pi- blico sao freqiientes, regulars e repetitivos. As autoridades, quando tomam alguma provi- dencia, nunca repassam o re-. sultado a sociedade. A t6nica 6 dar-se a prescriqdo, ou en- tao os casos tornarem-se lon- gos e cansativos at6 o esque- cimento total. HA uma infini- dade de crimes denunciados com processes formados, mas os indiciados nao sao moles- tados; pelo contrario, cabulam arrogantes pelas ruas de Be- 16m e adjacencias, e muitos deles tnm lugares cativos nas altas esferas sociais. Cabe a Assembl6ia Legis- lativa empunhar a bandeira da moralidade e exibir as entra- nhas podres dessa acqo que a Construtora Andrade Gutierrez move contra o Estado, na ten- tativa de confiscar-lhe essa as- tron6mica quantia. Os deputa- dos paraenses podem seguir o exemplo de seus pares na C- mara Alta, que estao apurando a evasao de cerca de 32 bilhoes de d6lares do Tesouro Nacio- nal, via Banco do Estado do Paran6. Rodolfo Lisboa Cerveira Caro Licio Como leitor assiduo do Jornal Pessoal quero parabe- nizi-lo pela excelente mat6ria intitulada "Os bwuanas do sul e os natives silentes", de ju- nho de 2003. Nao estive pre- sente a explanacao do sr. Lu- ciano Coutinho na Assem- bl6ia Legislativa, mas acho que faria a mesma coisa que voce fez. Me retiraria do re- cinto para nao ouvir os absur- dos, meias verdades, falsas promessas e as costumeiras e esfarrapadas desculpas que a Companhia Vale do Rio Doce e/ou seus propostos fazem hb anos para o povo paraense. Mas realmente o que me cau- sou mais espanto foi saber que nenhum dos ilustres de- putados presents se manifes- tou, pediu um aparte, ou at6 em gesto de protest (como voc6) se retirou do plendrio. Quando mais precisamos dos politicos eles nao se fazem presents: Por que? At6 quan- do vamos continuar aceitando sermos tratados como acultu- rados de nariz furado, rece- bendo de lambuja espelhos e migalhas: At6 quando? Denis Cavalcante SPrezado Ltcio Continue realizando este excepcional trabalho com o Jornal Pessoal; nos conscien- tizando da importdncia que tem a Amaz6nia e nos informando de maneira critical, verdadeira e imparcial. Parab6ns! Michel Guedes 1P QUINZENA/JULHO DE 2003 Jornal Pessoal Prestigio Um observador destaca: o audit6rio do Banco da Amaz6- nia parece estar se transfor- mando no novo temple do pe- tismo no Pard. Todos os atos importantes da administraqao federal e suas extensies poli- ticas o tnm como palco. Os ca- sos mais recentes foram as pos- ses de Manfredo Ximenes na direq~o do DNPM (Departa- mento Nacional da Produgqo Mineral) e de Jodo Carlos na CPRM (Companhia de Pesqui- sa de Recursos Minerais). O prestigio de Mancio Lima e dos acreanos esti em alta em Brasflia. Tanto que a ex-presidente do Basa (sigla colocada agora fora de circu- la~ao), a tamb6m acreana Flo- ra Valadares, recebeu titulo honorifico da Assembl6ia Le- gislativa. A mesma Al que, oito anos atris, quando Flora chegou a Bel6m, a hostilizou. Um (bom) neg6cio chamado governor O grupo Maggi tem um porto privativo em Itacoatiara, no Amazonas, no qual nio precisou imobilizar nem 20% do capital ne- cessario gracas ao aporte de recursos do BN- DES e do governor do Estado. Por causa des- se neg6cio, Blairo Maggi, chefe do grupo, agora no governor de Mato Grosso, defen- deu o asfaltamento do trecho paraense da Cuiab~-Santar6m (mais da metade de todo o percurso da BR-163) apenas at6 Mirititu- ba, nio at6 o ponto final da rodovia, que 6 justamente Santar6m, j~ em frente ao rio Amazonas, 400 quil6metros abaixo. Qual a razio desse absurdo? Agindo mais como empres6rio (e empresario exclusivis- ta) do que como governador, Maggi nao quer favorecer seu concorrente, a Cargill, que acaba de construir um porto semelhante ao do grupo Maggi, em Santar6m, para movi- mentar gran6is. Nesse caso, a political pi- blica 6 subsidiAria do interesse privado.Para nao se subordinarem a intermedidrios, alguns empresarios, como Maggi, resolveram assu- mir logo o mando politico. O governador matogrossense tern dei- xado as sutilezas de lado e ido logo ao que interessa, contando para abre-alas com a sigla do partido pelo qual se elegeu, o PPS, da base aliada do president Luiz Inicio Lula da Silva. Na outra via de escoamento, a do Araguaia-Tocantins, que tamb6m co- meqa no seu Estado, a ele nio ter interes- sado que a hidrovia (independentemente dos seus pontos polemicos) chegue a Be- 16m. Basta que vA at6 Xambiod e daf siga por outro modal, o rodoviirio, a ferrovia de Carajas, passando pela Norte-Sul, at6 o porto exportador da Ponta da Madeira, no Maranhio. Sentido 16gico, coerencia e cus- tos relatives sio secundirios se o investi- mento pdblico subsidiary o lucro privado de quem esti tomando as decis6es sobre uma mesa do executive p6blico. Cor essa promiscuidade, montam-se esquemas nos quais o Estado entra com o dinheiro e a iniciativa privada cor o usu- fruto da iniciativa. Na Santar6m-Cuiabd, por exemplo, a proposta 6 construir a ro- dovia durante o prazo de carencia, de tres a quatro anos, e pagar o financiamento em 15 anos com a arrecadaqFo de peddgio. O custo de pedagio seria de oito d6lares por tonelada de carga, cobrado apenas de vef- culos com mais de 10 toneladas. Estima-se o potential atual de escoamento de soja da regido pela BR-163 em seis milhoes de to- neladas por ano. Ja as ind6strias da Zona Franca, outras usuirias da estrada, transportam aproxima- damente cinco mil carretas de produtos por mis, cada uma cor 20 toneladas. Assim, propiciariam uma renda mensal em pedi- gio de US$ 800 mil ou US$ 9,6 milh6es por ano. Cor mais US$ 5 milh6es da soja, dariam US$ 15 milh6es ao ano. Em 15 anos, a receita do pedagio seria de US$ 230 mi- lh6es. Igual ou at6 mais do que o custo da pr6pria obra. Nao surpreende que, de imediato, tenham manifestado interesse de participar no con- s6rcio de construcqo as quatro grandes da soja em Mato Grosso (os grupos BUnge, Cargill, ADM e Amaggi), as ind6strias da Zona Franca de Manaus, a BR Distribuido- ra e as empreiteiras Queiroz Galvdo, Ode- brecht, Andrade Gutierrez e Estacon. O governador Simio Jatene agiu certo ao exigir o asfaltamento da BR-163 at6 Santa- r6m (investimento de 200 milh6es de d61a- res) e se comprometer a arranjar metade dos investimentos (180 milh6es de reais) para concluir o sistema de transposiqao da barra- gem de Tucuruf no rio Tocantins, estenden- do a navegabilidade da hidrovia at6 Bel6m. Tudo bem? Mas qual a serventia dessas Desinformagaio Uma comissao especial deveria ser, na Assembl6ia Legislative, a unidade de vanguard do Estado na luta para manter em seus pr6prios limits a fibrica de places de aco que vai dar beneficiamento ao min6rio de Cara- jas. A comissao ter trabalhado muito, mas nao chegard a tempo a nenhum resultado concrete, nem mesmo a iden- tificaqio de um bom rumo. Sera atropelada, em plenas f6rias, pela decision da CVRD sobre o tema, tornando-o, a partir daf, obsolete ou academico. Metaffsico, talvez. Um dos problems dos deputados da comissao sem- pre foi a desinformaqio. No depoimento do superinten- dente da receita federal, Jos6 Tostes Neto, por exemplo, os parlamentares estavam interessados em saber muita coisa. Pipocavam as perguntas e as denincias. Os depu- tados queriam saber os nimeros dos balanqos e das de- claraoqes de renda da Vale e de suas coligadas ou con- troladas. Mas nao houve uma tinica pergunta a respeito do auto de infraqco lavrado pela receita contra a Minera- qCo Rio do Norte, que levou a empresa a ter que deposi- tar mais de 300 milh5es de reais para poder continuar a recorrer contra a autuaq~o em juizo. A grave question ji foi noticiada por tres vezes, em detalhes, neste journal. E referida depois, "a v6o de pis- saro", em O Liberal. obras, que exigirao uns R$ 500 milh6es do erdrio paraense? Expandir a irracional ofen- siva da soja por areas impr6prias, sacrifican- do a sempre ameaqada floresta native e o delicado solo sob a qual ela se assenta (ji que nio sabe levitar)? Nao se pode examiner isoladamente o meio de transport. E precise consideri-lo as- sociadamente A produqao a que vai servir. Mas essa analise nao tem sido feita. Vive-se no Pard o inicio de novos ciclos de monocultu- ras cujo fim 6 bem previsivel. Depois do boom, a soja mostrari o que 6: uma cultural desaconselhdvel para as regi6es amazonicas nas quais estA se instalando, com uma irraci- onalidade que beira o crime e uma firia de lucro que nao esconde seu descompromisso. Colocam-se pontos de compra e portos de embarque que funcionam como bombas de sucqAo ou de fragmentaiAo em areas pionei- ras, com toda a sua seqilela de conseqiienci- as, do desmatamento i exaustio dos solos, da concentraqao fundidria aos conflitos, da mi- gragqo compuls6ria aos dramas pessoais. JA pagamos caro por essas avalanches monocul- toras na pecuAria, na atividade madeireira e, agora, comeqa a ser cobrada a conta do den- d&. A soja pode ser o pr6ximo "pendura". Director O economist mato-grossense Francisco Serafim de Barros, que desde 1994 vinha exercendo a ge- rencia regional do Banco da Ama- z6nia no Mato Grosso, 6 o director que estava faltando para comple- tar a diretoria da instituigao. Elei- to pelo Conselho de Administra- gEo para a diretoria administrati- va do banco, ele foi indicado para o cargo pelo governador Blairo Maggi, do PPS, cor o apoio do PT de Mato Grosso. A nomeacio veio em hora oportuna. Serafim estava em vias de perder o cargo de gerente regi- onal. A alegacio, apresentada em reunites internal do banco: insu- fici&ncia operacional. A mesma razto que recomendava indicar um professional competent para dar um choque de renovaq~o na diretoria, uma das mais criticadas do Banco da Amaz6nia. Journal Pessoal 1- QUINZENA/JULHO DE 2003 11 I MEM6RIA DO COTIDIANO Coluna ndo assinada em journal costuma ser uma bacia das almas. Como todo mundo mete a mdo, serve de abrigo a todos os interesses e estilos. Assim era a coluna "Pelos 4 Cantos da Cidade ", da Folha Vespertina, que surgiu simultaneamente a "Vozes da Rua ". Mas podia-se perceber, tambim nela, o dedo do dono, Paulo Maranhdo, nas notas mais apimentadas e cdusticas. Na regra, porem, a coluna era um registro do cotidiano da cidade. Prosseguindo-se na reproduado dessas seqoes da imprensa, segue-se uma seleCdo de "Pelos 4 Cantos da Cidade". TNFELIZMENTE n8o se confir- mou o boato que ontem cor- reu com insistencia na ci- dade: nao foi descoberto, ainda, nenhum lengol pe- trolifero em Bel6m. A son- da da Petrobris que se acha no distrito de Icoaraci ali esti simplesmente para ma- nutengdo. (1959) U M JOVEM causidico, ainda com os ghiteos cansados dos assentos universitarios, esti agora querendo recuperar-se das forcas dispendidas nas vi- gflias estudantis no ubre apoia- do das vacas political. (1960) S/BoNrrOES" estao usando tra- *jes "bossa nova" para as- O Banco do Estado do Pard Instals.s, agora em Paragmins, o n6vo promissor cantro pecuirto do Parn t a quinta "bandlrinha" BEP, que iri itrn a mnsagem do proprpwidade progreso. Emn Paragomins. o Banco do Estado do Parl Iri colocar A disposIio do* criadore do gado a sue carlair do fomentfo pecIurla. Finalmaon, as bm - dertihas" BEP as podem Iraduzr come sguranga o ap61o de um grande estabolecimento bancirio. Paragomina agora est servida par rm grand* banco Paraonga 0 BANCO DO ESTADO DO PARA SA. S <1 mu s< CuAnTAr* GSAN U PARAG6OMIAS sistir aos jogos, pois vao ape- nas de calqao e camisa. No campo, tiram esta, ficando de calqo. Assim mesmo dirigem os veiculos. (1961) OCINE NAZAREI esta rece- bendo aparelhagem para ar condicionado, querendo passar a ser classificado cine- ma de primeira classes. (1961) A MANHa voltari o trem da EFB [Estrada de Ferro de Braganfa]. Caso o movimento nao seja compensador, o sr, Filadelpho Cunha suspenders esse ser- viqo. (1961) JA SE tornou costu- me entire os mole- ques de Bel6m dize- rem as mooas que lhes passam perto: "Me segura que eu vou ter um troqo". Assim 6 que hi papinhos amigiveis nos coletivos, algumas delas declararam que se encontram prevenidas para dar uma bo- fetada no primeiro que lhe aparecer com essa pilhdria. (1962) A ALFANDEGA de Bel6m esti convidando o proprietirio de duas maletas contend 69 pares de sandilias japonesas apreendidas no posto fiscal da estrada de Maracangalha a comparecer aquela Aduana e apresentar as alegaq6es que ti- ver a bem de seu direito. (1962) s QUITANDEIRAS de esquina (tacaci e caruru) ji se tornaram uma esp6cie de res- taurante popular, pois se Ihes acercam para uma refeiqao li- geira at6 gentes com ares grd- finos... (1963) PROPAGANDA 0 banco da pecuaria Em abril de 1967 o Banco do Estado (que era BEP e nao Banpard) instalou uma ag6ncia em Paragominas, "o novo e promissor centro pecuario do Pard". Era a quinta ag6ncia da instituiq~o, criada em 1961, depois das de Bel6m, Santar6m, Castanhal e Guanabara (atual Rio de Janeiro). As bandeirinhas do banco iriam levar "a mensagem de prosperidade e progress" a maior cidade da rodovia Bel6m-Brasflia em territ6rio paraense. A pecuAria nao deu essa resposta. Na verdade, se sustentou na exploragqo da floresta, que chegou a dar a Paragominas o triste titulo de o municipio com maior ndmero de serrarias do mundo. O resultado foi a destruigqo de suas reserves de mata. Agora, a ilusdo tem um novo nome: soja. O desfecho sera o mesmo? BANCO DO ESTADO DO PARA S. A. -mensagem paraweus do progress |
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