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Tornal Pessoal S/A AGENDA AMAZONICA DE LLCIO FLAVIO PINTO I ri- I LAN I. 11/22 QUINZENA JUNHO DE 2003 AMEAQA A divida de R$ 1,5 bilhao Um tergo de tudo o que o Estado arrecada ao long de um ano pode ir parar na conta da Construtora Andrade Gutierrez. Alegando nio ter sido paga pelo que fez na PA-150, a empresa recorreu a justiga para receber do Estado 1,5 bilhao de reais, na maior cobranga que uma empresa privada ja fez do governor em todos os tempos. O caso 6 explosive. Bem que merecia uma CPI. Talvez ela pudesse abrir a caixa preta da PA-150, um sorvedouro de dinheiro puiblico. S e veneer uma acao que props contra o Estado exatamente 10 anos atris, a Construtora An- drade Gutierrez, de Minas Ge- rais, uma das maiores emprei- teiras do pais, poderi se credenciar a re- ceber 1,5 bilhao de reais dos cofres pibli- cos paraenses. Seria o equivalent a um terqo da arrecadagqo do Estado prevista para este ano e do tamanho de toda a divi- da mobilidria paraense. Para obrigar o governor a pagi-la, ajustiqa estadual teria que expedir o maior precat6rio requisit6- rio de toda a sua hist6ria, em atendimento a maior cobranqa ji feita ao poder pdbli- co no Estado por uma entidade privada. 0 0CONINA N PA._ ANO XVI N 303 R$ 3,00 -I '*" .**7. t __/o A empresa quer ser indenizada pelos servigos que prestou, sem receber o paga- mento devido, durante a reconstruqdo de mil quil6metros da PA-150 e estradas complementares, que ligam Bel6m ao sul do Estado. O governor, atrav6s da sua Pro- curadoria Geral, nao negando que parte do pagamento atrasou sem ter sido quita- da, alega que o valor da cobranga foi su- perdimensionado, os serviqos executados nao corresponderam as exigencias contra- tuais, houve fraudes na verificaqao das obras e, no final das contas, quando a em- presa foi atris dos seus direitos, eles ji haviam prescrito. Nao podia mais se ha- bilitar ao recebimento porque seu cr6dito havia caducado. Com 10 anos de tramitaqio e centenas de pdginas, os autos do process contem mat6ria explosive. Em v~rios moments, o representante do Estado acusa magis- trados que atuaram na questao, entire juf- zes e desembargador, de nio agirem con- forme as normas legais, nao serem impar- ciais ou terem comportamento d6bio, mas sempre em favor da empresa. Depois de ter vencido no primeiro exame de merito da demand, no juizo singular, a Procura- doria Geral nao parou de perder, tanto na instAncia inferior quanto no segundo grau. Ha grande probabilidade de que, na esfe- ra do Tribunal de Justiqa do Estado, o go- verno perca definitivamente a dispute. Restari o apelo a Brasflia. O enredo desse contencioso 6 grave. A Andrade Gutierrez foi contratada, entire 1985 e 1986 (no governor Jader Barbalho), para refazer a PA-150, uma estrada que mais se parece a teia de Pen6lope, heroin da mitologia grega, que era tecida de dia e desfeita a noite. A PA-150 ja foi inaugu- rada umas tantas vezes para, em outras tantas, ser refeita, sem nunca apresentar as qualidades de durabilidade e boa trafe- gabilidade. Parece ser sempre uma eterna obra em progress (ou regresso), nunca ficando pronta e acabada. O serviqo da Andrade Gutierrez, bem ou mal feito, por inteiro ou parcialmente, foi recebido pelo Estado. As primeiras parcelas foram pagas no tempo acertado. Depois comegaram os atrasos. Quando o atraso se tornou tal que ameaqava de pres- criaio (isto 6, perda do direito de cobran- 9a da divida), o Estado, em 1990 (j0 na administration H6lio Gueiros), assinou a confissdo dessa divida. Valendo-se dessa confissao, que teria interrompido o prazo prescricional e Ihe devolvido o direito de cobranga, em 1993 a empresa mineira acionou o Estado. A Procuradoria nao s6 contestou o valor apontado (de 370 milh6es de d6lares numa avaliaqdo e, em outra, em 1995, de US$ 700 milhoes, ja na gestao Almir Gabriel, quando comegou a reaq~o official como sustentou que ocorreu a prescrigao. A ent~o jufza da 14" vara civel do f6- rum de Bel6m, Marta Ines Antunes, hoje desembargadora, reconheceu a alegaqao do Estado, dando-lhe ganho de causa e mandando arquivar o process. A Andra- de Gutierrez recorreu. Mas Marta nao pode mais julgar o recurso por ter sido convocada para atuar nas camaras do TJE. O process foi para a 21a vara, que tam- b6m trata das aqoes de interesse da fazen- da piblica. Depois de declarar-se impedi- da de atuar no feito, ajuiza Rosileide Bar- ros acabou aceitando-o e deu sentenqa exa- tamente oposta a da titular da 14" vara, em favor da empresa. O Estado reagiu ar- giiindo a suspeiqao de Rosileide. Na sustentagao da exceqgo, a Procu- radoria do Estado alegou que a juiza de- cidiu, em apenas 11 dias, process que vinha sendo instruido nos oito anos an- teriores, mudando por complete o enten- dimento manifestado pela julgadora an- terior. Sequer ouviu o pr6prio represen- tante do poder piblico, numa demand envolvendo "quantia astron6mica", da- nosa ao erario. Epis6dios semelhantes viriam a ocor- rer em novos incidents processuais, tanto no juizo de primeiro grau quanto na instancia superior, do TJE, quando foi submetido a relatoria do desembar- gador Joao Alberto Paiva (atualmente aposentado), levando a Procuradoria a afirmar que os autos andam "por alias estranhas" e a submeter a corte estadual as "censuriveis e desusadas praticas adotadas neste feito". A empresa obteve importantes e sur- preendentes vit6rias na demand, mas o Estado nao esgotou todas as possibilida- des de recurso. A tramitagao do process ainda nio esti no ponto de ameaqar o Pard com o imediato e brutal desencaixe do tesouro estadual apontado pela Procura- doria. Mas seria important, a margem da litigancia judicial, que o poder legis- lativo, atento a esse caso escabroso, ins- talasse uma CPI para apurar o custo da PA-150 e os direitos da Construtora An- drade Gutierrez. Talvez assim se abrisse adequadamente uma das mais nefandas caixas pretas da hist6ria republican do Para: esse sorvedouro de dinheiro (e de procedimentos questioniveis) em que se tornou a PA-150. Con a palavra, os de- putados interessados em tirar essa n6doa lesiva ao Pari. Numerous Sempre atento e prestativo, o ge6logo Alberto Rog6rio manda dados para atualizar a matdria sobre o manganes (ver JP 302). Mostra ele, com base em informaraes do DNPM (Departamento Nacional da Producao Mineral), que a produgao de manganes do Amapd foi de 68,7 milh6es de toneladas ao long da exploragqo realizada pela Icomi. Enquanto o U.S. Geological Survey (o serviqo geol6gico americano), em seus Mineral Commodity Summaries, de janeiro deste ano, preve que a produqao brasileira de manganes deste ano sera de 1,5 milh~o de toneladas, a Companhia Vale do Rio Doce espera 1,75 milhao. Com isso, observa Rogdrio, o Brasil passa a ser o primeiro produtor mundial, superando a Africa do Sul (1,3 milhlo de toneladas). A producqo mundial 6 de 7,6 milh6es de t, com o Brasil respondendo por cerca de 20%. Ainda segundo os sumdrios do serviqo geol6gico dos EUA, as reserves conhecidas do Brasil sao de 25 milh6es e as da Africa do Sul, 18 milhoes de toneladas. A maior reserve 6 da Ucrania (140 milhoes de toneladas). As reserves totais conhecidas do mundo sao de 300 milh6es de toneladas. Ja as reserves estimadas mundiais somam 5 bilhoes de toneladas, sendo as da Africa do Sul de 4 bilh6es. Seja por um ou outro ndmero, com diverg8ncias de fontes, permanece a constatacao fundamental da mat6ria: o Brasil incrementa (as vezes lesivamente) a producao de um bem com preqo desvalorizado, sobretudo pela manobra dos donos de mercado, atrav6s da redugao do produto a commodity, rebaixada de valor pelas manobras dos poderosos cart6is. Comprometemos nossas riquezas naturais por uma remuneraq~o que ji nao tem nem mesmo a grandeza da banana. P/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jomal Pessoal Jatene: cassagao e um risco real? E real a possibilidade de cassacao do mandate do governador Simao Ja- tene? A ddvida voltou a circular na opinido piblica depois que O Liberal noticiou, com destaque, a decisao do Tribunal Superior Eleitoral de rejeitar, por unanimidade (7 a 0), os embargos apresentados pelos defensores do go- vernador contra a cassacqo do seu man- dato. A noticia era confusa e tendenci- osa, mas dava a impressed de que a sor- te de Jatene estava selada. Nao s6 a dele, mas tamb6m a dos governadores de Roraima, Mato Grosso do Sul e Dis- trito Federal. A tendencia que o Tribu- nal Superior Eleitoral deveri seguir na apreciaq~o dos tres casos, prontos para serem levados a julgamento, seria apontada quando a corte vier a decidir sobre o destiny de Joaquim Roriz, cujo process esta na frente dos demais. Fontes de dentro da corte conside- ram que, tecnicamente, os tres gover- nadores estao com suas cabeqas colo- cadas sob a lamina da guilhotina. Se ela nao descer, essa decisao seria mais political do que t6cnica. Nos autos es- taria comprovado o uso da maquina p6blica pelos antecessores dos tres ou por eles mesmos, no caso de Roriz e Zeca do PT, para suas eleiqces. Mas defensores de Jatene ficaram mais tran- qiiilos depois que o procurador-geral da Repdblica, Geraldo Brindeiro, nao endossou a dentincia contra o gover- nador paraense. O chefe do Minist6rio Piblico Fe- deral parece nao se ter se deixado con- vencer pelas provas materials juntadas pela dendncia local nos autos, indican- do a promiscuidade entire a miquina do Estado e a do candidate official. A de- nincia sustenta que funcionarios pdbli- cos estaduais, a comeqar pelo chefe de todos eles, o governador do Estado, par- ticiparam da campanha eleitoral de Ja- tene. Algumas provas parecem sugerir que a pergunta cabivel nao 6 sobre o claro crime eleitoral, mas sobre a ne- glig6ncia do governor na movimentaqao em favor do seu candidate. Impresses digitais foram deixadas a larga. Bastou coleta-las na dentncia. E claro que em outras eleiqces hou- ve promiscuidade semelhante, ou at6 maior. A novidade esti mais por conta do grau dessa promiscuidade agora, sem paralelo no passado recent (ou ao menos nos intervalos de democracia na nossa repdblica). A responsabilidade por esse massive emprego da maquina public deve ser creditada ao ex-gover- nador Almir Gabriel, ji condenado em um dos processes, do qual Jatene foi excluido. Imperialmente, ignorando a todos, inclusive a alguns assessores, Almir imp6s o nome de um candidate que, al6m de ser ne6fito em political, desembarcando de para-quedas no topo do poder, desempenhara at6 entao um papel na administraqao estadual con- trario ao jogo politico, como um guar- dido do absolutismo do executive so- bre os demais poderes. Talvez se o entlo governador tives- se desde cedo preparado seu delfim e exercido atrav6s dele poder de atracgo e aglutinag~o de forqas, Simdo Jatene tivesse conseguido se eleger com mais folga e nao precisaria de recursos tto excepcionalmente perigosos que acaba- riam por lancar uma grande ameaca so- bre seu future mandate. Impondo dita- torialmente, de cima para baixo, o nome de um candidate que tirou do colete a iltima hora, Almir Gabriel sujeitou o triunfo do seu ex-secretirio a ser mais uma vit6ria de Pirro. Essa ameaqa tamb6m esta prejudi- cando a condugqo dos neg6cios pdbli- cos no Para. Se a cassaqgo de Jatene for decidida pelo TSE, sera precise reali- zar novas eleiqoes. At6 que elas ocor- ram, o president da Assembl6ia Legis- lativa, deputado Mario Couto, sera o go- vernador interino. Certamente ele plan- tari alguma semente de poder ao long desses 90 dias para colher durante ou depois da interinidade. Encerrada mais uma campanha eleitoral, quem for un- gido pelas urnas tera que dar inicio a um mandate encurtado de um quarto do seu tempo regular de duracao. A puniqco podera ser coerente corn os atos de uma administraqao pdblica que se dispos a jogar pesado (e perigo- samente) para conseguir o que seria ina- tingivel pelos meios regulars e legais, invertendo, em poucos meses, uma si- tuaqCo que parecia inteiramente desfa- voravel ao candidate pessoal de sua ex- celCncia o governador, el supremo. Mas sera um castigo imerecido para o Esta- do. Talvez at6 para o candidate. Burrocracia Misica e Mdsicos do Pard 6 obra para honrar qualquer Estado brasilei- ro. Trata-se de um complete levanta- mento, em forma enciclop6dica, mas tamb6m analftico, de toda a produqco musical feita no Estado, das origens at6 o iltimo harpejo. Um trabalho que alia a minudencia de um relojoeiro i acuidade paciente de um enxadrista. Publicado pela primeira vez em 1970, Mdsica e Mdsicos do Pard esti com sua segunda edicao, revista, amplia- da e atualizada, prontinha para ser publicada. O volume deveria ter sido impresso em 1999 pela Secretaria de Cultura do Estado. Deveria. Depois de mais de tres anos de espera, Vicente Salles, o autor do li- vro, imprimiu em computador, as suas custas, 10 exemplares de sua obra preciosa e mandou os volumes para algumas bibliotecas p6blicas. At6 o final do ano pretend editar outros 10 exemplares. Como um dos benefici- ados pela generosidade de Vicente, sinto-me honrado pelo privil6gio de poder ler em primeira mdo uma obra que analisei e critiquei mais de 30 anos atris (foi, alids, a ponte para nos conhecermos e firmarmos uma ami- zade que me tem sido enormemente proveitosa). Fico tamb6m feliz por ver que Vi- cente nao apenas se manteve em dia com a produCgo musical paraense (o que faz de Brasilia com admiravel atengqo, inexistente em Bel6m mes- mo), absorvendo-a sem qualquer pre- conceito, por inteira, como melhorou - e muito o que ji constava da pri- meira ediq~o. Como explicar a inciria da Secult diante de um trabalho de nfvel nacio- nal, com qualidade suficiente para ser apresentado em qualquer lugar do mundo? Por que deixar para a seara do incerto e nao sabido uma obra que dignifica a cultural paraense? A Comissao Editorial da Secult aprovou a publicagao do livro para 1999, mas a prioridade acabou sendo transferida para o ano seguinte. Des- de entdo, explicaq6es e protelaq6es se sucederam, s6 o livro 6 que continuou em algum escaninho de supina insen- sibilidade burocratica. A Secult, com essa attitude, nao esta diminuindo um milimetro da es- tatura intellectual de Vicente Salles. Esta 6 revelando seu pr6prio tamanho, liliputeano. E cometendo um crime de lesso a cultural paraense. Jomal Pessoal 1P/2 QUINZENA/JUNHO DE 2003 2 Os rumos definidos do Pardi colonial butAria proposta ao legislative pelo governor federal inviabilizard a admi- nistraqao ptblica estadual no Para. Reagindo a uma ameaca letal, o governador Simdo Jatene props modificaqao no projeto- de-lei para que as perdas na receita de impos- tos, causadas pela desoneraqgo das exporta- q9es, sejam compensadas atrav6s de um fun- do, restabelecendo a capacidade de gestao do executive paraense. Essa compensaqao ird restabelecer a atual situaqdo, corn uma ligeira melhoria em rela- 90o a deterioraCqo continue da receita internal em contrast corn o crescimento da renda que o Pard produz em favor de um grupo de ativi- dades produtivas selecionadas. Mas nao cor- rigird o rumo que o Estado seguiu, por impo- siqao de fora: se tornar um centro de produq~o de mat6rias primas e insumos bisicos volta- dos para a exportaqao, condenado a ter rela- 9oes de troca desfavorecidas. O lema desse modelo 6: crescer para se subdesenvolver. A raiz do problema esti no baixo valor agregado dos produtos paraenses de exporta- ~go. E uma insuficiencia bem mais grave do que a national porque o peso das exporta- q9es 6 2,5 vezes maior na economic paraense do que na economic brasileira. A participa- qCo do Pard no saldo liquid de dividas do pais cresce paralelamente a dois fatos que lhe estdo associados: a reduqao em terms quantitativos e qualitativos da participaqao do Estado na balanga commercial e o encolhi- mento, que ji alcangou o padrdo de um fa- quir, das importaq6es do Estado. Se a fase das importaq6es excessivas que o Brasil fez ao long da d6cada de 90 (de 21 bi- lh6es de d6lares em 1991, elas cresceram para mais do que o dobro ou US$ 50 bilh6es ao ano em 1995 e US$ 56 bilh6es em 2000) serviu para impulsionar o process de industrializa- 9qo do pals, proporcionando o incremento das exportaq6es e saldo significativo na balanqa commercial brasileira desde 2001, esse benefi- cio nao alcanqou o Pard. Muito pelo contra- rio. De s6timo maior exportador da federaqao ao long de toda a d6cada de 90, o Pard des- ceu para o 8 lugar em 2001 e a 9" posigqo no ano passado. Nesse period, passou de 4 Es- tado em saldo de divisas para a 2a posiqao em 2000, superado apenas por Minas Gerais. No entanto, voltou para o 4 lugar em 2000 e caiu para o 5 posto no ano passado. Ja no capitulo das importaq6es, do 11 lugar no conjunto dos Estados em 1991, o Pard desceu para a 15' posigqo em 2000, mantendo-se nesse patamar nos dois primeiros anos desta d6cada. Tradugqo desses n6meros: o Estado tem adotado uma dieta magra demais para im- portaq6es, ressentindo-se dos beneficios que uma rela9Co commercial externa bem ba- lanceada Ihe poderia oferecer. A condigqo do seu organismo econ8mico 6 agravada pela queda do valor relative dos seus pro- dutos e por um com6rcio exterior desorga- nizado, sem uma diretriz pdblica (ou, quan- do existente, insatisfat6ria). O valor das im- portaq6es em 2002 esteve um pouco acima de 10% do valor das exportag6es (US$ 243 milh6es contra US$ 2,26 bilh6es), com um saldo de divisas de US$ 2 bilh6es. Santa Catarina, o Estado que esta logo acima do Pard, ocupando a quarta posiqao por saldo de divisas (de US$ 2,2 bilhoes), 6 o sexto em volume de exportaq6es (de US$ 3,1 bilh6es), bem mais distanciado do Pard nesse item. O oitavo maior exporta- dor brasileiro (um degrau na frente do Pard), a Bahia, vende ao exterior US$ 2,4 bilh6es, mas 6 s6 o oitavo em saldo de di- visas (de US$ 521 milh6es). Mas a Bahia importou, em 2002, US$ 1,8 bilhdo, quase oito vezes mais do que o Para. Esses ndmeros mostram que s6 compen- sar o Estado pelo fato de que a Unido isenta os exportadores de impostos (e vai mais lon- ge: da-lhes cr6dito por conta do imposto que nao pagaram), nao sera suficiente para cor- rigir os rumos que o Estado foi obrigado a seguir, por norma do mesmo governor fede- ral, no rumo de uma fungio claramente co- lonial. E precise quebrar a espinha dorsal desse modelo de enclaves econ6micos (e sociais e culturais), que funcionam como bombas de sucqdo de riquezas naturais nao- elaboradas, sem capacidade de irrigaqgo das veias produtivas estaduais. Nos tiltimos 12 anos, em ndmeros apro- ximados, o Pard exportou US$ 27 bilh6es, importou US$ 3 bilh6es e deixou nos co- fres do Banco Central 24 bilhoes de d61a- res liquidos. O comprador ganhou bastante com essas relaq6es comerciais: recebeu bens de baixo valor e transformou-os em mercadorias de valor multiplicado para ven- der. Os exportadores ganharam menos, mas os que puderam compensar eventuais des- vantagens com subsidies governamentais tamb6m ganharam muito. Quem ganhou menos, ganhando pouco, quando ganhou, foi o Pard. A verticalizaqao econ8mica, portanto, tem que sair da orat6ria e do ora-veja. Sem o que o Pard estara condenado a ser uma vasta col8nia, national e international. Raz6es de forca maior provo- caram tal atraso nesta edi9ao que ela se tornou mensal, passando a abranger a primeira e a segunda semanas de junho. Espero que o jomal volte a sua periodicidade regular no pr6ximo nimero. Balanganda Na mesma semana, enquanto a revista Veja ensina em mat6ria de capa como se manterjovem, a revista Epoca apresenta, tamb6m na capa, a formula para deixar de fumar, e a revista Isto6 fornece o tratamento para o coraqdo. Para qual delas deve ser dado o Trof6u Almanaque Ca- pivarol? Quem nao vencer le- vard, como console, O minimo eu, livro de Christopher Lasch. Minimo mesmo. Corregao Uma correqgo: Roraima se tor- nou territ6rio federal, em 1943, corn a denominagao de Rio Bran- co (o nome do rio que domina boa parte de suas terras) e nao Boa Vis- ta (que 6 sua capital). Aproveito o lapso para registrar meu lamento pelo descaso com que o agora Es- tado tem sido tratado. Roraima 6 a mais complete e, de certa forma, mais bonita unida- de federativa da Amaz6nia, com suas paisagens de florestas, cam- pos naturais e montanhas. O Con- selho Indigenista Missiondrio (Cimi) diz que 6 tamb6m o Estado mais antifndio do pais. Com sua contrafaqdo: 6 o que mais possui 6reas indigenas. Umarealidade tal- vez explicando a outra. E tamb6m o menos conhecido de todos, daf a impericia corn que tem sido trata- do pela administraq~o federal. No vacuo, tem sido entregue a gestdo de espertos e despreparados. Ja estd na hora de Brasilia assu- mir um compromisso decidido com um piano de desenvolvimento ca- paz de preservar Roraima da agqo predadora que marcou a expansdo da fronteira em outras dreas ama- z6nicas e nao deixar que o Estado continue a ser vitima de aventurei- ros. Seria a quitaqgo de uma longa divida do pais com sua mais seten- trional unidade federativa. 1"/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal A escola de minas e a visao caolha A Escola de Minas do Pard, uma luta de vairies anos, que parecia finalmente estar se materializando, foi atropela da por um mal-entendido, se nao por uma mi-f6. Dentro do campus da Universi- dade Federal do Pard em Marabi surgiu uma tonitruante reagco ao projeto, subitamente transformado numa ameaqa. Ameaca, em primeiro lugar, ao que restaria de reserve florestal native no perimetro urban, forte- mente castigado por uma ocupaqco ca6tica e uma aqo governmental irracional ou in- competente. Em segundo lugar, ameaca A expansio future do campus. Em terceiro lu- gar, A pr6pria autonomia universitiria, que estaria sendo usada para servir a interesses empresariais. A reaqio mereceu tal destaque na grande im- prensa de Bel6m que o lfder do movimento, professor Jos6 Pedro de Azevedo, veio a Be- 16m, falou grosso diante do reitor da UFPA e pode ter provocado um recuo na execug~o do convenio com a Companhia Vale do Rio Doce, que daria o primeiro pass para a verdadeira Escola de Minas cor um curso de especializa- qio, ao custo de 1,3 milhio de reais. A plataforma da campanha ter ret6rica simpptica ou fascinante, mas 6 oca. Mais do que isso: esti completamente equivocada. Revela o despreparo de certa vanguard, ao menos a que se declara vanguard, para tratar adequadamente temas de linha de frente na hist6ria da regiio. O convenio UFPA/CVRD foi colocado em dtivida. A empresa estaria utilizando a uni- versidade para ter seu centro de forma go de mao-de-obra, atendendo apenas a seus inte- resses. E evidence que haverd beneficios para a Vale, ou ela nio estaria colocando seu di- nheiro no projeto. Mas se ele correspondesse apenas a seus interesses, a empresa ja o teria implantado a mais tempo e nio teria resistido tanto aos arguments em favor da Escola de Minas. A reivindicaqdo, de varios anos, en- controu, at6 recentemente, uma barreira de re- aqdo ou indiferenqa na CVRD. A empresa mudou. Em parte porque, agora, sua necessidade de mio-de-obra 6 maior. Mas tamb6m porque cresceu a pressdo social, en- quanto se agrava a contradiqgo: segundo Esta- do minerador do pais, em vias de deslocar Mi- nas Gerais da lideranga, o Pard permanecia a margem da qualificacqo de t6cnicos em seu pr6prio territ6rio e da formaqdo de uma cultu- ra da mineraqao, sem a qual nao podera for- mar massa critica, interlocutores e opinido crf- tica sobre um segment vital da sua economic, hoje e (ainda mais) amanhd. A primeira escola de minas do Brasil foi criada em Ouro Preto, pela inspiracqo ilumi- nista do imperador Pedro II e de um sibio francs, 130 anos atras, apenas dois anos de- pois da primeira escola de engenharia, que surgiu na Polit6cnica do Rio de Janeiro. O Pard faz mineracqo (a principio, apenas garimpa- gem) hi 50 anos. A importancia dessa escola na evolucgo da mineraqao em Minas Gerais, devidamente registrada, esta acima de qual- quer questionamento. A nossa escola atende a mesma necessidade, revista e atualizada. Pode servir A Vale, mas, se conduzida adequada- mente, servira ainda mais ao Para. Represen- ta um dos pontos de recuo e concessao da empresa no seu contencioso cor os paraen- ses que a tem questionado ou combatido. Nao ha mata native na antiga unidade do Projeto Rondon em Maraba, onde atualmente funciona um ndicleo de pesquisa do campus e nasceri a Escola de Minas. Mesmo o olhar de- savisado verificard que a vegetacgo 6 comple- tamente secundaria, afetada por desmatamen- tos e queimadas de invas6es urbanas. O proje- to da escola prev6 a derrubada de um dos oito hectares da area. Em volume e qualidade, nada que sustente restriq6es ao empreendimento em linguagem da razdo. De tudo o que foi dito contra a iniciativa, o unico argument plausi- vel 6 aproveitar o moment para instalar o cam- pus numa 6nica area, que seja capaz de abrigar suas previsiveis expanses, tirando-o da divi- sao atual, em duas areas isoladas. Tudo bem. Mas sera que nao se estara dan- do h Vale a ocasiao que sempre favorece o la- drao? Mesmo fazendo uma revisao do projeto e discutindo-o em circuit mais amplo, para colher id6ias e corrigir eventuais erros, seria insensatez coloca-lo em risco dessa maneira. Significaria exp6-lo a ameaqas, incomparavel- mente mais graves, como nao qualificar para- enses (nativos ou adotivos) para ocupar posi- c6es mais elevadas na hierarquia funcional da Vale, nao criar saber local em mineracgo e nao colocar ao alcance da opiniao piblica uma competencia especifica do Estado para atuar em moments critics, como os que periodi- camente temos vivido na nossa relacqo con- flituosa cor a CVRD. Quest6es e problems podem e devem ser suscitados. Mas os que apareceram na grande imprensa com o estardalha9o de uma cause ce- lbre sao produto de uma visao distorcida ou miope. Transformaram em principal o que 6 acess6rio e ameaqam atirar para as calendas gregas o que 6 uma das plataformas mais sig- nificativas da luta por um setor mineral mais de acordo com os interesses do Pard. Lacuna Como gerente em Be- 16m da Companhia Vale do Rio Doce, o castanha- lense David Leal fez do pisar em ovos uma f6 de oficio. Era o representan- te de uma tfpica empresa foranea, metropolitan, que gosta de ditar regras e ordens e ser reconheci- da como a maioral. Ao mesmo tempo, procurava ouvir e interpreter a voz da maltratada planicie. la e vinha com discri- gqo, mas levando nas maos coisas concretas, nao nariz de cera, bales de ensaio ou cartola de magico. Durante todos esses anos, David foi um interlocutor leal (com perdao do trocadilho) ao seu patrao e sincere com os porta-vozes da socie- dade. Acomodou o que p6de o quanto pode. Mui- tas vezes trabalhando so- zinho, dividindo um con- junto de salas com esta- giarios, no que restou da representaqCo da CVRD depois que a empresa se desvencilhou da primeira sede, em um pr6dio de seis andares todo seu. Quando parecia que sua intermediaqdo seria mais requisitada, em mais uma fase de atritos da em- presa com a opiniao pdbli- ca local, David foi chama- do de volta pela Vale ao Rio de Janeiro, seguindo destiny que n6s, do lado de fora, ainda nao sabemos qual sera. Qualquer que venha a ser a sua direcio, certamente ganha a empre- sa corn esse ato, para o bem ou para o mal. Quanto a n6s, seguramente nao. Discreto quando con- vinha e ostensivo quando necessario, David Leal dava a essa empresa de perfil cada vez mais me- tropolitano um toque pa- raense. Sua retirada do es- crit6rio de Bel6m diz mais, no contracanto ao discurso, do que a atual campanha promocional da empresa. Journal Pessoal 1/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 5 A data de Charles Wagley: Duas datas importantes para a Amaz6nia estao passando em brancas nuvens: os 90 anos do nascimento do antrop6logo americano Charles Wagley e os 50 anos da publicagdo do principal livro que ele escreveu, Amazon Town (Uma Comunidade Amazonica estudo do home nos tr6picos, na tradugdo brasileira de Clotilde da Silva Costa), um dos merecidos classicos da bibliografia amaz6nica. T anto a vida quanto a obra de Wagley tem importincia para n6s. Brilhante aluno de Franz Boas nos Estados Unidos, ele trouxe em sua bagagem uma novidade sobre o conhecimento human, a Antro- pologia Cultural, formulada por seu mes- tre, quando veio participar do esforqo ali- ado de guerra, incorporando-se em 1942 ao legendario Sesp (Servico Especial de Sadde Piblica), cujos escombros hoje se abrigam sob a sigla da Funasa. Na companhia de um discipulo bra- sileiro tdo brilhante quanto ele fora de Boas, o carioca Eduardo Galvao, Wa- gley transitou entire as comunidades aculturadas de caboclos e os indios, re- gistrando seus modos de vida e suas re- laq6es com o mundo exterior no estilo dos melhores intelectuais: texto elegan- te e observaq6es comprometidas com suas ferramentas te6ricas de observagSo e cor a melhoria das condig6es de vida de seus objetos de estudo. As relaq6es entire Wagley e Galvao, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, no meio da selva ou nos gabinetes da aca- demia, constituem um dos moments mais ricos da hist6ria cultural brasileira do s6- culo passado. Escreveram livros que re- sistem A deterioracdo do tempo como tes- temunhos de 6poca e referencias perma- nentes para a compreensdo do passado, do present e do future desta enorme e mal- tratada fronteira. Atrav6s da leitura de Amazon Town, lancada no Brasil tr8s anos depois da edig~o norte-americana, pode-se pene- trar numa comunidade native da foz do rio Amazonas (rebatizada como It), descobrindo seus segredos e perceben- do suas relacqes sociais, tendo o autor como guia percuciente. Mas nao se tra- ta apenas de um excepcional estudo de caso ou um survey bem afinado. Gragas ao seu poderoso equipamento intelectu- al e a sensibilidade para com os dramas humans, Wagley nao apenas produziu um cl1ssico das ciencias humans, de igual valor aos que Bates e Wallace ex- trafram das brenhas tropicais para as ci- encias exatas um s6culo antes, mas uma refernncia indispensivel para entender o passado e o present da Amaz6nia, um guia de inquietaq6es e sugest6es para antever seu future, melhor do que ele se encontra delineado. Entre as d6cadas de 40 e 50, quando viveu e pesquisou na Amaz6nia, e a de 70, quando a reviu para uma nova apre- sentaCgo do seu livro, Wagley se defron- tou com a maior de todas as novidades surgidas na regiao, de efeitos literalmente devastadores: as chamadas estradas de integraqdo national. Como ele observou no preficio a segunda edicqo brasileira de Uma Comunidade Amaz6nica, lancada mais de duas d6cadas depois da primeira (o que di uma media da nossa fragilida- de editorial), as estradas, al6m de meio de transport, eram um poderoso agent de cultural e civilizaqdo, ou de incultura e in- civilidade, conforme a 6tica. Se, por um lado, essas rodovias sig- nificavam "a queda da iltima barreira mundial A circulaqdo de autom6veis e caminh6es de transport, e a conexao com as principals art6rias de trifego do Brasil", Wagley nao podia deixar de tamb6m salientar que "um dos mais de- licados sistemas ecol6gicos do mundo, a floresta pluvial amaz6nica, se acha agora em perigo. Ver-se-a toda a inten- sidade de vida da regiao amaz6nica transladar-se do grande sistema fluvial para as proximidades das rodovias; ao inv6s das virzeas dos rios, ocupar-se-a a terra firme". Ainda que nas virzeas estejam "as terras f6rteis, pois, anual- mente, recebem o limo dos rios, en- quanto a terra firme 6 geralmente po- bre para a agriculture", o novo eixo de conquista era rasgado nas desconheci- das terras altas, atraindo para elas uma intense migragao. Depois dessas transformag6es, a Amazonia nunca mais seria a mesma. O problema estava nao na mudanga em si, element constant na hist6ria dos ho- mens, mas na mudanca para pior: "Devo admitir que Ita mudou mais do que eu podia imaginar. Essa mudanCa, porem, nao se operou da forma como eu imagi- nava", confessa Wagley. Ele nao gosta- ria que de seu preficio de 1975 emanas- se um odor pessimista, mas, aos 62 anos, depois de tr6s d6cadas de envolvimento com a regiao, mesmo com seus modos delicados, preocupado em nao ferir sus- cetibilidades entire seus conterraneos adotivos, via-se obrigado a admitir que se sentia desanimado: "de fato, at6 cor receio. Parece-me que o Brasil estd ten- tando mudar a Amazonia mais com es- pirito patri6tico do que com o verdadei- ro planejamento cientifico". A constatacZo, vilida ontem como hoje, a partir do relacionamento do que os homes fazem na Amaz6nia e do que a ci8ncia lhes recomenda fazer. Essas sao duas paralelas aparentemente condenadas a seguir at6 o infinite. De um lado, a irra- cionalidade do process de ocupag~o, nao s6 desviado das terras f6rteis para os so- los inconsistentes, com sua cornuc6pia de efeitos perversos, mas tamb6m produto da diretriz da agCo: "O objetivo a long pra- zo 6 a cultural de exportagdo, nao a ocupa- cao da terra", no sentido da fixagCo do home a regiao de forma saudivel, posi- tiva. A nova economic amazonica "tende para a continuidade do extrativismo, mas sob nova forma". Do extrativismo vege- tal a regiio passaria para o extrativismo mineral, do qual nao resultaria beneficio para o seu povo. O verdadeiro progress s6 poderia sur- gir a partir de uma liqdo da hist6ria: "Uma nova sociedade nao pode nascer do nada; deve ser construida a partir de anteceden- tes hist6ricos. A nova sociedade que o Brasil pretend criar na Amaz6nia tera por base o conhecimento que o povo dessa regiTo acumulou durante s6culos, dos tem- pos aborigenes ao presente, diz Wagley, acrescentando que essa "6 uma heranqa rica que jamais deverd ser ignorada na modern conquista da Amaz6nia". Mas como recuperar esse saber e adu- zir-lhe as contribuioqes do conhecimento cientifico se as instituiq6es cientificas da Amaz6nia "sio d6beis, em comparag~o cor as existentes no Sul do Brasil"? Como elaborar models de integraao do home / 1"/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal uma festa para todos n6s A natureza, no moment mesmo em que a fronteira estA sendo aberta, e fazer essas diretrizes chegarem e ser adotadas pelas frentes de expansao, se a ciencia local 6 assim tao pouco expressive? Mesmo com os choques que sofreu ao voltar A sua icdrica Itd, duas d6cadas de- pois do primeiro contato, e das tristes no- ticias que Ihe chegavam do Brasil, Char- les Wagley tinha consci8ncia de que seu livro amaz6nico estava acima das turbu- lncias do mundo transit6rio e da cultural de ocasiao. Por sua consist6ncia (e, mais do que por ela, devido a sua estatura hu- mana), surgira para ficar para sempre. "Ao refletir sobre o passado, sei agora que sou essencialmente um humanista; e chego a conclusao de que este foi um livro huma- nista com mensagem humanista", foram suas iltimas palavras do preficio. Permanecia esse grande humanista quando voltei a ve-lo ejantei com ele e sua encantadora esposa, a brasileira Ce- cilia Roxo Wagley, em sua confortavel casa em Gainesville, na Fl6rida, em 1984. Aquela altura professor em6rito e monument vivo, cada palavra dele de- via ser sorvida e apreciada como os vi- nhos superiores, produzidos em longos tempos, desde a maturacgo da uva a tem- peranqa do liquid. Wagley se foi, mas sua obra merece ser difundida e sua mem6ria cultuada. Pretendi, no ano passado, passar mais um tempo em Gainesville produzindo um trabalho sobre ele, em associag~o com sua mais f6rtil extensao no Brasil, Eduar- do Galvao, com quem tive longas con- versas no Museu Emilio Goeldi. Mari- anne Schmink e Charles Wood, duas ou- tras marcantes sementes resultantes da semeadura de Wagley, aderiram de pronto a id6ia. Mas as mis6rias plantadas no ca- minho de um jornalista critic na Ama- z6nia me impediram de voltar ao oasis que o Centro de Estudos Latino-Ameri- canos da Universidade da F16rida tem representado na minha vida. Frustrado o projeto, ao menos por en- quanto, aguardei que algu6m lembrasse do cinqtientendrio de Amazon Town. Fi- nalmente, a iltima ediqao do caderno Fim-de-Semana, da Gazeta Mercantil, quebrou o silencio desconfortivel. Mas o artigo escrito por Rodolfo Guttilla, di- retor de assuntos corporativos da Natu- ra Cosm6ticos, ainda nao 6 o registro que o livro merece. Mesmo que a data nao alcance seu eco merecido, o leitor mais inteligente pode fazer sua festa so- zinho. Desde que consiga encontrar, em algum sebo, remanescentes das tres ediq6es que essa grande obra teve at6 agora entire n6s. Vai descobrir entao porque Amazon Town 6 valioso para n6s. Tao valioso quanto para qualquer cidadao do mundo interessado em sa- ber o que acontece quando o home devassa uma area nova do planet. Charles Wagley falou da Amazonia para o mundo inteiro. Raros consegui- ram alcanqar semelhante audit6rio. Tris WtiIhza el~ ] ei uPrn [ a U rifi Ul de M U -a' H a 25 anos uma fundaqao dirigi- da pelo bi6logo No6 Atzingen "descobriu" um paraiso da na- tureza as proximidades da devastada area de influencia de Maraba, onde ele mora. Nos 20 mil hectares de hectares do complex Serra das Andorinhas/ Martirios, ha 113 sitios arqueol6gicos, mais de cinco mil gravuras rupestres, atestando a presenqa do home na re- giao ha pelo menos oito mil anos, oito ecossistemas diferenciados, 212 esp6- cies de arvores de grande porte e uma paisagem propicia ao ecoturismo, al6m da educaqao ambiental. Tamb6m pos- sui sua importancia hist6rica: foi palco da guerrilha do Araguaia, al6m de mote para um ciclo de lendas no caminho do sertao arido para a floresta luxuriante. Sete anos atris o governor do Esta- do incorporou a luta de No6, o equiva- lente marabaense do nosso Camilo Vi- anna (cor o adendo da formaqio aca- demica em biologia), criando o parque ecol6gico Andorinhas/Martirios. Da presence governmental o que se man- teve por uns dois anos foi a placa. Mas nem ela mais existe. A area comeqou a ser depredada. Em fevereiro deste ano No6, disposto a fazer gratuitamente um projeto de educaqio ecol6gica na area, enviou um document ao governor esta- dual. Nao recebeu sequer uma resposta. As arvores, como individuos e popu- laqao, nao tnm tido vez no sul do Pari. No6 assistiu a destruicgo da castanheira, uma das mais belas, iteis e valiosas es- p6cies da regiao, com concentraqdo no poligono de Maraba. Hoje, restam 10% delas. Mas a permissao para a derrubada de castanheiras por aqueles que se com- prometerem a plantar mudas pode ser o golpe de miseric6rdia. Ja inexistente en- quanto ecossistema, a castanheira pode simplesmente ser extinta porque o gover- no nao tera condiqces de controlar e fis- calizar a permuta de arvore real, em p6, pela promessa da muda compensat6ria. No6 ainda luta pela arvore, mas acha que 6 uma luta perdida. Seu pronuncia- mento durante o semindrio promovido pelo Ibama de Maraba, no inicio do mes, teve o tom do desabafo e do protest. Na mesma manha, mais tres pessoas com extenso curriculo de lutas subiram a mesa do audit6rio da secretaria munici- pal de saiide para apresentar seu diag- n6stico da situacqo, oferecer alternati- vas para corrigir os erros acumulados e conclamar a manutengqo da luta. Nao conseguir reprimir, por6m, um certo sentiment de derrota. Mas nao de niilismo ou prostra- gCo. Um desses lutadores 6 o mara- baense Ademir Martins. Ele 6 o novo gerente para a regiao sul do Pard, a mais explosive de todas no pais. Comeeou seu trabalho deixando de lado a face policialesca (necessaria, mas freqtientemente distorcida e mal usada) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Na- turais Renovaveis. Apostou num se- minario para levar a seus companhei- ros de instituiCqo e ao p6blico geral questionamentos, depoimentos e su- gest6es de inimeros expositores. A aposta pode ter dado certo: um audit6rio que chegou a abrigar 400 pessoas, onde s6 caberia pouco mais da metade, acompanhou com atengqo e interesse as palestras e debates. Ao final dos tres dias nao restou a ilusao de que mudar a triste situaqio da re- giao 6 facil. Mas ningu6m podera cru- zar os braqos achando que a tarefa 6 impossivel. O avango ainda 6 peque- no, mas 6 o suficiente para nao perder a conquista alcancada e insistir em querer mais, muito mais. Journal Pessoal 1/2; QUINZENA/JUNHO DE 2003 Os bwanas do sul e os nativos silentes Mesmo quando tentam ser solidarios com seus irmros nortistas, certos intelec- tuais sulistas nao conseguem livrar-se do sentiment de superioridade que viver na parte mais modern e rica do pais Ihes in- cute. A arrogancia, combinada cor o pre- conceito, acaba ditando alguns de seus atos falhos. Foi novamente a essa constataqgo que voltei enquanto ouvia o economist Lu- ciano Coutinho falar, na semana passa- da, no audit6rio da Assembl6ia Legisla- tiva. Ele fazia uma exposiqgo sobre o tra- balho de consultoria que estava prestan- do ao Estado, auditando o estudo sobre a localizacgo da fabrica de places de ago projetada pela Companhia Vale do Rio Doce, corn participaqgo majoritaria de s6cios chineses. Depois de dizer rigorosamente nada, Coutinho, um dos economists da Uni- camp, a famosa universidade paulista, declarou, quando questionado sobre a existencia do estudo de viabilidade eco- n6mica do empreendimento, que esta provocando uma guerra entire Pard e Ma- ranhdo para receber a siderirgica em seu territ6rio, responded quase parodiando a letra daquela mdsica famosa: se o estudo existe, nio sei, nao vi e nao posso dizer se vai ser feito. Olhei em torno: todos, no audit6rio lotado (com a inacreditavel presenqa de 39 parlamentares) e nas galerias, continu- avam impassiveis. Nao se alteraram com as palavras do dono da Macrotempo Con- sultoria. Mas eu estava indignado. Levan- tei-me e fui embora. Luciano Coutinho parecia julgar que os natives ainda estdo na idade da pedra. Podia dizer aquela san- dice sem o risco de ser botado para fora da tribune. Eu nao era dono da casa. Por isso fui respirar ar puro l1 fora e nao vol- tei para o resto da sessdo. Era evidence que Coutinho fugia de todas as quest6es inc6modas. Um depu- tado mais ing6nuo sentou-se ao meu lado para ouvir minha opiniio. Eu achava que o consultor podia antecipar o resultado da andlise sobre a localizaqdo da fabrica? Poder, talvez at6 pudesse. Mas nao o fa- ria. Ele foi contratado por quatro meses (at6 11 de julho). Antecipar qualquer coi- sa podia equivaler a denunciar unilateral- mente o contrato, talvez perdendo dinhei- ro. Rasgar dinheiro equivale, inquestiona- velmente, a assumir o titulo de louco, o que o distinto professor nao 6, claro. Como levar a s6rio um trabalho de acompanhamento dos estudos realizados pela Natrontec se ambos, o de definiqio do local da sidertlrgica e o de critical, es- tdo sendo pagos pela Companhia Vale do Rio Doce? Sera que o governor ndo tem um dinheirinho na algibeira para assegu- rar a efetiva independ6ncia e autonomia dos seus consultores? Quem os indicou? Ou sera que eles foram escolhidos por te- rem igualmente boas relaq6es com o go- vernador (que estudou na Unicamp) e ao president da CVRD, Roger Agnelli? Ainda que tudo tenha sido feito com lisura e o honest prop6sito de acertar, inaceitavel e essa promiscuidade. No pas- sado, a Vale ja posou de bom-mocismo, assumindo serviqos prestados ao Estado, como o estudo dirigido por Eliezer Ba- tista e Raphael de Almeida Magalhies. O resultado foi pffio. Mas agradou, mes- mo que por baixo dos panos, as duas par- tes. Quanto ao distinto pfblico, bom, a este apenas 6 apresentada a conta, ou a hist6ria official. Como fara, no pr6ximo m6s, o senhor doutor Luciano Coutinho, certo, no intimo, de ter deixado miCan- gas e lantejoulas para os natives agra- decidos, alias. Hist6rias da bauxita A mineracqo de bauxita do Trombe- tas vai comeqar um quarto de s6culo de- pois do empreendimento pioneiro des- se setor, o da Mineraqdo Rio do Norte, no Trombetas. Entra em linha exata- mente como um projeto complementary, nao pelas caracteristicas excepcionais do dep6sito mineral. Paragominas tern mais mindrio do que o Trombetas, da mesma qualidade. Mas o acesso as jazidas localizadas no municipio de Oriximind estava mais coerente com o porte da exploraqco. Rios capazes de abrigar navios transo- ceanicos, como o Amazonas e o Trom- betas, permitiriam a extracqo de grande quantidade a um custo muito menor do que as opq6es de transport de Parago- minas. Mas a capacidade de escoamen- to do Trombetas chegou ao limited, de- pois que a MRN multiplicou por quatro o seu nivel de produgqo, que agora che- gou a 16,3 milh6es de toneladas. Atrav6s da Mineraqao Vera Cruz, que adquiriu do grupo ingl6s RTZ, a Compa- nhia Vale do Rio Doce vai comeqar a pro- duzir no Trombetas, dentro de dois anos, numa escala de quase um ter9o do que produz a MRN, da qual tamb6m possui o control acionario. Tudo o que sair dessa segunda zona mineradora de bauxita do Pard sera destinado A Alunorte, que esta batendo seguidos records na produqgo de alumina, insumo para o aluminio da Al- bras, que evolui para consolidar sua posi- gao de maior produtora do continent, oi- tava maior do mundo. Nrimeros grandiosos de uma situadio que muda rapidamente para permanecer a mesma: enormes escalas de produqgo, ne- g6cios feitos em amplitude international, e n6s, supostos donos e declarados benefi- cidrios das riquezas, vendo as cenas trans- correrem diante de nossas retinas sem en- tender o que acontece. Freqtientemente, alias, sem ver um palmo al6m do nariz. Eduardo Lauande retransmitiu-me a seguinte carta, que enderegou ao prefeito de Belm, autorizando-me a publicd-la. Caro amigo Edmilson Rodrigues, Li no Jornal Pessoal que tu proibiste a participaq~o do meu amigo LUcio FlA- vio Pinto num debate patrocinado pela Prefeitura de Belrm. Isso mais uma vez causa-me indignaqio! Teus posicionamentos, vira e mexe, deixa-me a sensaqao que veio A luz foi o quadro de mis6ria intellectual que grassa e ainda impera em nossa sociedade paraen- se na continuidade da repressio a cultural e de autoritarismo politico. Assim como o reaciondrio Orqamen- to Participativo do teu governor, tu tens mais uma no teu curriculo de ocorren- cia autoritiria contra a sociedade. Que tristeza! Apesar dos pesares, aquele abrago do seu amigo, Eduardo Lauande 1/2' QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal A exposicao do ano, assinada pelo alcaide "Mards do C6u", a exposicio de 71 dese- nhos de Edmilson Rodrigues, foi o aconteci- mento do ano nas artes plisticas em Bel6m neste ano. Nada menos que 341 pessoas com- pareceram ao vernissage, no dia 27, no Mabeu (Museu de Arte Brasil-Estados Unidos). Ja na abertura, 15 obras foram vendidas, no valor de 14 mil reais. Se todo o conjunto fosse comer- cializado, a renda da exposicgo seria de 74 mil reais. Por decision do artist, essa receita sera destinada ao Projeto Solar dos Sons, atrav6s do qual a prefeitura procura desenvolver artis- ticamente os filhos dos feirantes do Ver-o-Peso. Por esse angulo, a iniciativa merece to- dos os louvores. Mas sera que realmente es- tamos diante de verdadeiras obras de arte, que mereceram tantos elogios num catdlogo lu- xuoso, dos melhores ji concebidos e impres- sos para uma exposicqo no Para (comerci- alizado a R$ 10 o exemplar)? O p6blico e os avalizadores da exposigio parecem responder afirmativamente. Cada de- senho foi oferecido numa m6dia de preqo alta para os padres locais: pouco mais de um mil reais. Ha trabalhos, por6m, de R$ 2 mil. Um desenho a caneta Bic (ao que parece, o dir- ni-r-cri da criaqio p6s-modema paraoara), corn 5 por 10 centimetros, foi avaliado em R$ 500. Por esses valores, Edmilson Rodrigues 6 o cre- me de la creme das artes plisticas paraenses. Se essa promessa se confirmar em futuras exposiq6es, o empresirio Carlos Nascimento, concessiondrio municipal do serviqo de lixo, teri feito um bom investimento: ele pagou R$ 5 mil por quatro desenhos de Edmilson, formando o maior acervo da exposiqgo. Mesmo sendo ain- da a primeira do novel artist, a mostra inaugu- ral ji incluiu entire suas obras uma que foi extra- ida do "acervo de Vera Rodrigues", precursora, certamente, do estouro que se avizinha. Sinto- maticamente, todas as vendas foram efetuadas no primeiro dia, a vista do piblico, com a devi- da recompensa na repercussao. Nao ha dDvida que o arquiteto Edmilson Rodrigues sabe desenhar. Seus trabalhos ates- tam o dominio dos mecanismos bisicos dessa t6cnica. Se ele fosse um estudante secundaris- ta, sua exposiqio faria sucesso em seu col6gio e ele estaria credenciado a receber a aprova- 9go de seus mestres. Mas, aos 45 anos, a bitola do grafismo nao deixa dtivida de que falta a esse desenhista o sopro da criatividade e in- ventividade do verdadeiro artist. Nao porque ele ji esteja na fase da alta maturidade, vitima de um bordao preconceituoso (segundo o qual papagaio velho nao aprende a falar). Mas por- que tentou ser artist e nao conseguiu. O trabalho mais antigo da exposiqgo, de 1980, document esse esfor9o: an6nimo profes- sor entao, conhecido apenas no circulo profissi- onal e pessoal, Edmilson tentou experimentar as tintas e tentar o abstracionismo. A intencgo do artist nesse trabalho inico 6 tao nitida quanto seu insucesso. A partir daf, ele parece ter aceita- do que seu universe se circunscrevia ao traqo, cor a ajuda de ferramentas mais ajustadas aos seus recursos. Na exposicao, do period de cri- aqio de Edmilson entire 1980 e 1996, quando ele se elegeu prefeito de Bel6m pela primeira vez, aparecem apenas oito trabalhos. Do perio- do 2001-2003 foram selecionados 44 trabalhos. Em quatro meses deste ano o arquiteto-artista produziu 16 obras aproveitadas na mostra. A conclusao 6bvia dessa cronologia 6 de que a dimensao da exposiq~o deve-se menos as qualidades intrinsecas do artist do que a circunstancia de estar ele revestido da autori- dade de prefeito da capital paraense. Aulicos, fornecedores, empreiteiros, subordinados e, claro, tamb6m amigos se sentiram no dever de multiplicar por varias vezes os m6ritos do de- senhista para que sua fundaqCo se tornasse um marco publicitario e politico. Nada de novo: assim funcionam as cortes. Mas, beneficio social a parte pela destina- qCo altruistica da renda da exposicao, ela tem dois efeitos danosos. Levado a crer na consis- tencia de sua veia artistic, o prefeito vai ex- pandir o habito de produzir em solenidades piblicas a que comparece, ignorando os pre- ceitos da cortesia e da educaqao que a co-ha- bita~go na mesa official Ihe imp6e diante dos demais, inclusive do ptblico. Enquanto o vi- zinho se esgoela, ao seu lado o prefeito-artista se p6e a desenhar "em moments de profunda reflexao", conforme atesta Marcio Meira no catalogo da exposicqo. Incorporando as vestes de artist de oca- siao & estalo, Edmilson faz questao de apon- tar nos seus trabalhos o moment da fecunda- q~o. Um desenho foi tra9ado durante o semi- nirio de prefeitos do PT, no dia 26 de janeiro do ano passado. Nesse mesmo dia, mas ji no escrit6rio do senador Jorge Viana, a fecundi- dade obrou outro desenho (cotado em R$ 1,6 mil). Melhor resultado ainda alcancou o artis- ta cor um desenho a Bic do rosto de um indio leitmotivv da obra), garatujado em junho de 2001, que subiu na bolsa para R$ 2 mil. Valor atribuido a desenho que veio ao mundo em qualquer dia de 2001, durante encontro sobre educaqio infantil. O outro efeito lesivo desse sucesso de en- comenda 6 sobre a pr6pria arte e os incontes- tiveis artists. Como seria uma exposiq~o de Edmilson Rodrigues sem as luzes da prefei- tura? Quanto valeriam seus trabalhos sem seu titulo poderoso? O que diriam deles os criti- cos, se critical para valer ainda houvesse em Bel6m? Numa 6poca em que prevalecem as unanimidades coniventes, o desenho escolar de Edmilson Rodrigues vira boa arte e a ginkana de fonemas de Salomao Laredo se torna faqanha literaria. O cendrio me faz lembrar de Jean-Chris- tophe, o romance atrav6s do qual Romain Ro- Iland nos fez entender como, de uma alta civi- lizaq~o como a alema, surgiria o nazismo, corn um moment fugaz de ilusdo em Weimar. Mas neste jomalzinho, nao, gabiru: aqui, o prefeito produziu desenhos escolares e Laredo, pasti- ches. Um se valendo do seu cargo, outro do seu encosto jornalistico. Um dos moments de maior felicidade na minha vida foi, em 1990, ir A exposiqco do bicentendrio de Van Gogh, em Amsterdam, e dar, logo na entrada, com todas as cartas que ele escreveu para o irmao, Theo, integralmen- te enfileiradas nas paredes como se fossem telas. Ler diretamente aquelas cartas fascinan- tes e saborear os desenhos do artist, que ocu- pavam boa parte do papel como vinhetas de um fabuloso process de nascimento de um dos maiores artists da hist6ria humana, me encheu de tal admiragqo por esse process da gestaFgo da grande criagao que me sinto na obrigaq~o, em defesa desse prazer e dessa ventura, de desejar ao desenhista Edmilson Rodrigues um silincio fecundo at6 a pr6xi- ma exposiqao. Se possivel, criando junto com a melhor das mestras: a solidao do eu. Nao, de forma desabusada, em solenidades pdbli- cas para as quais foi convidado em funqCo do seu cargo e nao da sua pessoa. Journal Pessoal 1/2; QUINZENA/JUNHO DE 2003 MEM6RIA DO COTIDIANO Restaurant Quem fosse ao bar do Avenida Hotel, na President Vargas (ainda 15 de Agosto na 6poca), em 1953, podia usufruir as quali- dades do "migico da cozinha e dos fil6s", como se apresentava ao p6blico o cozi- nheiro do restaurante diferente da cida- de": "Em Bel6m, na capital, nao hi igual", proclamava o rimado anincio. O funcio- namento ia de oito da manha A meia-noi- te, sem parar. Como nas grandes cidades. Carnaval A Uecsp (Unido dos Estudantes dos Cur- sos Secunddrios do Parn) se orgulhava das festas de carnaval que promovia. A "Noi- tada Carnavalesca" de 1954 foi realizada na segunda-feira gorda, "nos amplos sa- l es do Jockey Clube do Parn, A avenida Sao Jeronimo, 130", com inicio As 10 ho- ras da noite. Na convocaqco aos foli6es estudantis, o president da entidade, Ira- waldyr Rocha, advertia: "Seri expressa- mente proibido o uso de lanqa-perfumes". Pois sim. Livraria A Livraria Dom Quixote comerou sua existencia, em janeiro de 1960, agitando os arraiais intelectuais de Bel6m com tres sucessivos lanqamentos de livros. Depois de um livro de contos do c6nego Apio Campos, foram os romances "Marabi", de Libero Luxardo, e "Terra Molhada", de Candido Marinho da Rocha. Tres autores, tries livros. Nada de ginkana de H6rcules ao tucupi, com seus 12 livros. A livraria, fundada pelo escritor e jor- nalista Haroldo Maranhao na galeria do Palicio do Radio, tornou-se um freqtien- tadissimo ponto de encontro. Nela, al6m de disporem de livros escolhidos com bom gosto e inteligencia, os intelectuais nao suavam. Foi a primeira livraria com ar condicionado de Bel6m. Carteiras O deputado federal paraense Gabriel Hermes Filho e o senador paulista Lino de Matos fo- ram os grandes prejudicados durante a recep- qco a Jdnio Quadros, no aeroporto de Val-de- Cans, em janeiro de 1960. Punguistas "bate- ram" as carteiras dos dois parlamentares. O paulista, da comitiva do president eleito, ti- nha 19,7 mil cruzeiros na carteira, al6m de fotografias da esposa e da carteirinha de re- conhecimento do Palicio Monroe, onde fun- cionava o parlamento, no Rio de Janeiro. Do paraense, nada foi dito. Nao por acaso. 1 ( ) P/2 QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal PUBLICIDADE Campanha pelo capital Um ano antes de trocar de sigla e de po- litica, o Banco de Cr6dito da Amaz6nia (que comeqou como Banco da Borracha, duran- te a Segunda Guerra Mundial, e se transfor- maria em Banco da Amaz6nia, o atual Basa) fez uma campanha de propaganda, em 1965, para atrair investimentos para a regiao. Pro- metia ao capitalist uma boa taxa de lucro se decidisse entrar no neg6cio. Podia comeqar nao pagando metade do imposto de renda devido. Ao inv6s de reco- Iher o dinheiro na toca do future ledo da Receita Federal, podia depositi-lo em uma das 49 agnncias que o BCA possufa em todo o territ6rio national. Tris anos depois o di- nheiro seria liberado em favor do empreen- dimento que o pr6prio investidor elabora- ria, submetendo-o a aprovaqio da Spvea (a antecessora da Sudam, que surgiria tamb6m em 1966) e do banco. O antincio, dirigido aos optantes poten- ciais de fora da Amazonia, lembrava que desde a construqao da Bel6m-Brasflia, seis anos antes, pronta para ser inaugurada por ser obra prioritaria do governor federal (ah, as prioridades oficiais!), a Amaz6nia estava tdo distant do centro mais modern do pais quanto o Rio Grande do Sul ou o Oeste Ma- togrossense. Al6m de dispor de "uma quan- tidade incalculavel de recursos vegetais, ani- mais, minerals e de todos os generos", a Amaz6nia apresentava um atrativo especial: nela havia "Paz Social", avalizada pelo go- vero forte, rec6m-instalado no pais. MEM6RIA DO COTIDIANO J6quei O restaurant, o bar e a boate do J6quei Clube do Pard, que funcionavam na aveni- da Govemador Jos6 Malcher (a Sao Jer6- nimo de entao), reabriram, em janeiro de 1960, sob a diregqo de um novo concessi- onario, Miroslav Koudela. A entrada era livre para os s6cios "e tamb6m para outras pessoas de nfvel social compativel com o Clube". Haveria almoqos nos sibados e domingos. Em todas as noites seriam ser- vidos jantares a beira da piscina, no salao do restaurant ou na boate com ar refrige- rado (detalhe muito valorizado na 6poca). Todos os sibados haveria feijoada a cario- ca, mas tamb6m pratos regionais. Para colocar em atividade a segqo de confeitaria, o concessionario contratou um confeiteiro-mestre em Sao Paulo. A pisci- na funcionaria de segunda at6 quinta-fei- ra, de 14 as 18 horas; aos sibados e do- mingos, de 10 as 18 horas. Ficaria fecha- da todas as sextas-feiras Vassourada A aristocritica Assembl6ia Paraense foi atropelada, no inicio de 1961, pela deci- sdo do entao president Janio Quadros, em pleno impeto moralizador, se cancelar to- das as rifas e sorteios no territ6rio nacio- nal. O clube teve que sustar a venda de bilhetes do sorteio de um apartamento no pr6dio onde instalou sua sede social. Num comunicado, a AP anunciava que estava elaborando "o esquema de devoluCgo das importancias correspondents aos bilhe- tes vendidos, na hip6tese de ser confirma- da oficialmente aquela deliberaqgo". Foi-o. Faciola Poucos se deram conta quando mais uma das belas lojas do "fastigio da borracha" desapareceu, em 1963. Tamb6m, quase nio havia mais livros na Livraria Mara- nhense, num dos pr6dios mais sofistica- dos da rua Conselheiro Joao Alfredo, a antiga (e agora em ensaio de renascimen- to) da "via dos mercadores". Sem sua mercadoria natural, o vazio das estantes era escondido atrav6s da decoraqdo. Ape- sar da sofisticaqgo das instalaqes, o am- biente era de franca decadencia. Mas foi com sua bem sortida livraria (mais uma grifica nos fundss, sua con- versa afiada, seus modos elegantes, seu tirocinio e vrias habilidades, inclusive ao piano, que o maranhense Ant6nio Faciola fez fama e fortune. Construiu a primeira mansdo no erritico bairro do Marco (da 16gua). Provocou inveja nas mulheres com FOTOGRAFIA Tem agua no leite Uma das brincadeiras mais diab6licas da nossa 6poca de moleques em Bel6m era sair atras das carrocinhas de leite e imitar o sim da sirene do carro de bombeiro. Era o bastan- te para o patricio descer do seu posto, no control da carrocinha, e correr atris da mole- cada com o chicote estalando. O medo era grande, mas quando j estivamos fora do raio de alcance do leiteiro a sensacqo de triunfo era maior. Para a minha geraq~o, essa era a relaqio mais saudivel que tinhamos com o leite. A reaqao ao consume comeqava a surgir na hora de ferver o produto. Aquele inconfundivel odor das impurezas anexadas ao liquido da vaca nos fazia preferir outro tipo de bebida. Claro que havia tamb6m leites bons, mas, como mostra a foto, de uma blitz da Secretaria de Saide numa das muitas vacarias que havia no perimetro urban de Bel6m, em 1961, essa nao era exatamente a regra. Contudo, era agraddvel ver as carrocinhas, puxadas a cavalo, surgirem com a aurora da manha pelas ruas da cidade. Aos moleques, o que importava nao era o suposto saudi- vel liquid guardado na parte traseira do veiculo, em vasilhames metdlicos, mas o distin- to cocheiro da vanguard. A sugestdo de que o contetido transportado tinha mais de agua do que recomendava a boa t6cnica, feita atrav6s da imitaao do som dos bombeiros caqando incendios, provocava efeito quase imediato na maioria das circunstancias. A molecada apostava que o patrfcio era espoletado o suficiente para sair atris do atrevido. Bons tempos em que esse era o maximo de risco que se corria na aventura. diamantes enfiados nos dedos. E se im- p6s aos pares como prefeito da capital. Quando a Livraria Maranhense se foi, nao houve maiores registros do que represen- tara. O passado ji era passado. Secretariado Secretariado que tomou posse com o go- vernador Aur6lio do Carmo, em 1961: Jos6 Maria Mendes Pereira, na chefia de gabi- nete; Joao Augusto Correa, official de ga- binete; 1 tenente Durval Nogueira de Sousa Filho, assistente military; 2 tenente Elidio Nogueira Lima, ajudante de or- dens; P6ricles Guedes de Oliveira, Secre- taria de Interior e Justiga; Waldemar Gui- maraes, Secretaria de Finangas; Evandro do Carmo, Seguranga Piblica; Arnaldo Moraes Filho, Secretaria de Governo; Amflcar Carvalho, Satde; Benedicto Monteiro, Obras; Am6rico Silva, Produ- cao; Ant6nio Lobo, Departamento de Es- tradas de Rodagem. Devastaqao Dendncia feita em 1961: arvores de ucudba e andiroba estavam sendo postas abaixo no vale do rio Tocantins e levadas para serrari- as de Bel6m e Mosqueiro, onde eram trans- formadas em tibuas para caixas leves. A16m da devastagao, havia uma perda econ6mica na operagqo: o 6leo de andiroba rendia mui- to mais do que na forma de madeira s6lida e o preqo pela ucuiba era infimo diante do seu valor depois de beneficiada. O enredo nao mudou muito, 40 anos depois. Fria O "encostado" EPS ocupava, na policia, a funcao de agente de pensdo". Conseguiu ser promovido a escrivio. Ja no cargo, re- digiu, em 1966, um oficio solicitando a re- moqio "de um cadaver que falecera". Nao conseguiu a remoqCo, mas ficou famoso. N~o exatamente por sua intelig8ncia. Jomal Pessoal I:/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 4 4 Eletronorte.: um passive de 30 anos No dia 20 a Eletronorte completard 30 anos. Nasceu em Brasilia para construir na Amaz6nia a maior hidrel6trica intei- ramente national. Permanece com sua sede em Brasilia, enquanto todas as ou- tras empresas regionais do sistema Ele- trobris se instalaram nas suas areas de jurisdiqCo, no Nordeste, no Centro-Sul ou no Sul do pais. A Eletronorte ndo teve essa prerrogativa, provavelmente porque o poder central queria acompanhi-la bem de perto. Sua missao era extremamente dificil: garantir uma vasta quantidade de energia firme a uma ffbrica que os japo- neses projetaram instalar na Amaz6nia, que seria a maior do mundo. Tucuruf e Albris surgiram, em T6- quio, como irmdos siameses. Do parto deu noticia para o general Geisel, em Brasilia, o ministry das minas e ener- gia, o nissei Shigeaki Ueki (ironias ou sadismo da hist6ria?). Os japoneses fi- nanciariam um terco do custo e ficari- am com um terco da energia da mega- usina. Assim garantiriam montar, a 20 mil quil6metros de distancia do seu ter- rit6rio, uma fibrica que lhes supriria um terco de todas as suas necessidades de aluminio quando fechassem todas as suas pr6prias fabricas, inviabilizadas pela elevacao do custo da energia (pro- vocada pelo choque do petr6leo dado pela Opep). O aluminio 6 o produto in- dustrial que mais consome energia. A Albris, empresa fundada pelos ja- poneses e a Companhia Vale do Rio Doce, multiplicaria por quatro a produ- 9ao brasileira de aluminio de entdo e ab- sorveria seis vezes mais do que o con- sumo paraense de energia de entao. Pen- sando melhor, os japoneses reduziram a fibrica r metade. Continuava grande, a maior do continent, mas diminufa a de- pend6ncia nip6nica de um 6nico forne- cedor, tdo important e incerto, sujeito a flutuaq6es e imprevistos. Talvez por causa das preocupaq6es de T6quio, Bra- silia tenha decidido manter a Eletronor- te sob r6dea curta, controlando cor mao de ferro o andamento dos serviqos na hi- drel6trica de Tucuruf, a maior obra pi- blica de toda a hist6ria da Amaz6nia. O control nao foi rigido em relacgo ao oraamento, que estourou virias ve- zes, comeeando em 2,1 bilhoes de d61a- res e indo parar, em calculo rigoroso, em uns US$ 10 bilhoes. Os japoneses, aten- tos a esse digamos assim detalhe, pularam fora da obra. Nao financiaram um iene para Tucuruf, bancada integral- mente pelo tesouro national, a base de financiamentos extorsivos e cliusulas leoninas (os franceses, al6m dos juros, ganharam o direito de fornecer metade das 12 enormes turbines da usina da pri- meira fase). Foram aplicar seu dinheiro na primeira etapa da Albris, fartando- se de tirar vantage de cliusulas unila- teralmente vantajosas. Para eles, claro. Comprometido autoritariamente com a viabilizaqao de uma empreitada de mag- nitude universal, v6rtice do maior pro- cesso de transferencia industrial do s6- culo passado (que possibilitou ao Japdo fechar todas as suas fibricas de aluminio sem sofrer desabatecimento, ainda ga- nhando na relaq~o de troca graqas ao sub- sidio energ6tico brasileiro e A deteriora- qao do valor relative da commodity), o governor federal usou mdo forte contra os natives. Num dos seus gestos mais tris- tes, o president Ernesto Geisel isentou a principal empreiteira da obra, a Cons- trutora Camargo Correa, do pagamento do ISS, o imposto que possibilitaria ao municipio (ao menos em tese) minorar as condiq6es de vida de seus cidadaos, assolados por uma migraqao violent e todas as suas seqtielas sociais. Enquanto tudo foi feito para resol- ver a equacao de custos do p6lo de alu- minio, pouco foi concedido ao usufruto local da grande obra. Os japoneses rea- lizaram uma facanha industrial a um custo lesivo aos nossos interesses. O saldo negative pode ser contabilizado em bilhoes de d6lares se quiser incluir aquela corrupq~o denunciada, entire qua- tro paredes, pelo artifice dessa alianqa nipo-brasileira, o engenheiro Eliezer Batista. Numa entrevista que concede a duas pesquisadoras, ainda nao publi- cada (mas divulgada por este journal, numa exclusividade que diz muito so- bre a vacuidade das nossas representa- qoes da opiniao piblica), Eliezer disse que se nao tivesse havido corruppqo na construqao de Tucuruf, nao teria sido ne- cessirio subsidiary as ind6strias de alu- minio (em Barcarena e Sao Luis do Maranhdo) do Programa Grande Cara- jas. Esse subsidio, em vigor at6 maio do pr6ximo ano, com 20 anos de duraqao, 6 de, no minimo, dois bilh6es de d61a- res (ou seis bilhoes de reais). A hist6ria dos 30 anos da Eletronorte represent um desafio aos paraenses. Ha- bitantes de um Estado que contribui cor 80% da capacidade de geraqao da empre- sa e 8% da producqo energ6tica nacio- nal, o Pard precisa trazer a Eletronorte para o seu territ6rio e assumi-la. Assu- mi-la nao por causa de uma franquia ge- ogrdfica accidental, mas por direito na for- ma da lei e no conteddo da compet6ncia. A primeira condiq~o, atendida, s6 nao se efetivou porque Brasilia descumpre a lei. A segunda ainda 6 uma inc6gnita, na qual nao nos envolvemos como deviamos. No mes passado o senador Luiz Oti- vio Campos, do PMDB, props a transfe- rencia da sede da Eletronorte para Bel6m. Logo seu projeto esbarrou na reacao mais corporativa e burocritica: o custo desse remanejamento de pessoal e da estrutura ffsica da empresa. Comparado aos male- ffcios dessa localizaqao viciada, o custo de relocar gente e equipamentos 6 nada se a Eletronorte perder sua condicio metro- politana e colonial, al6m da arrogancia contumaz, que nem o atual esforgo de re- ciclagem foi ainda capaz de eliminar. Claro que nao basta (e pode at6 nao servir de melhoria) a mudanqa de base da empresa. NMo 6 s6 ela que precisa se arejar e adquirir viqo social e regional: acima de tudo, a principal transforma- cgo precisa ocorrer na political da qual a empresa 6 ferramenta. Mas trazendo a Eletronorte para a Amaz6nia, sua region de atuaqdo, e colocando sua sede em Be- 16m, capital do grande Estado produtor de energia, pelo menos estaremos im- pedindo que ela continue a ser o que tem sido at6 agora: um cavalo de Tr6ia den- tro das muralhas amaz6nicas. I o l e a i, cvs .P o- e 0 2 6o : na n ant 5 3 30 e- lo l n mb d : gl P o i zi |
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