Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00252
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00252

Full Text




Tornal


Pessoal


S/A AGENDA AMAZONICA DE LLCIO FLAVIO PINTO


I ri-












I LAN I.


11/22 QUINZENA
JUNHO
DE 2003


AMEAQA


A divida de R$ 1,5 bilhao
Um tergo de tudo o que o Estado arrecada ao long de um ano pode ir parar na conta da
Construtora Andrade Gutierrez. Alegando nio ter sido paga pelo que fez na PA-150, a empresa
recorreu a justiga para receber do Estado 1,5 bilhao de reais, na maior cobranga que uma
empresa privada ja fez do governor em todos os tempos. O caso 6 explosive. Bem que merecia
uma CPI. Talvez ela pudesse abrir a caixa preta da PA-150, um sorvedouro de dinheiro puiblico.


S e veneer uma acao que props
contra o Estado exatamente 10
anos atris, a Construtora An-
drade Gutierrez, de Minas Ge-
rais, uma das maiores emprei-
teiras do pais, poderi se credenciar a re-
ceber 1,5 bilhao de reais dos cofres pibli-
cos paraenses. Seria o equivalent a um
terqo da arrecadagqo do Estado prevista


para este ano e do tamanho de toda a divi-
da mobilidria paraense. Para obrigar o
governor a pagi-la, ajustiqa estadual teria
que expedir o maior precat6rio requisit6-
rio de toda a sua hist6ria, em atendimento
a maior cobranqa ji feita ao poder pdbli-
co no Estado por uma entidade privada.
0 0CONINA N PA._


ANO XVI
N 303
R$ 3,00


-I '*"
.**7. t


__/o








A empresa quer ser indenizada pelos
servigos que prestou, sem receber o paga-
mento devido, durante a reconstruqdo de
mil quil6metros da PA-150 e estradas
complementares, que ligam Bel6m ao sul
do Estado. O governor, atrav6s da sua Pro-
curadoria Geral, nao negando que parte
do pagamento atrasou sem ter sido quita-
da, alega que o valor da cobranga foi su-
perdimensionado, os serviqos executados
nao corresponderam as exigencias contra-
tuais, houve fraudes na verificaqao das
obras e, no final das contas, quando a em-
presa foi atris dos seus direitos, eles ji
haviam prescrito. Nao podia mais se ha-
bilitar ao recebimento porque seu cr6dito
havia caducado.
Com 10 anos de tramitaqio e centenas
de pdginas, os autos do process contem
mat6ria explosive. Em v~rios moments,
o representante do Estado acusa magis-
trados que atuaram na questao, entire juf-
zes e desembargador, de nio agirem con-
forme as normas legais, nao serem impar-
ciais ou terem comportamento d6bio, mas
sempre em favor da empresa. Depois de
ter vencido no primeiro exame de merito
da demand, no juizo singular, a Procura-
doria Geral nao parou de perder, tanto na
instAncia inferior quanto no segundo grau.
Ha grande probabilidade de que, na esfe-
ra do Tribunal de Justiqa do Estado, o go-
verno perca definitivamente a dispute.
Restari o apelo a Brasflia.
O enredo desse contencioso 6 grave. A
Andrade Gutierrez foi contratada, entire
1985 e 1986 (no governor Jader Barbalho),
para refazer a PA-150, uma estrada que
mais se parece a teia de Pen6lope, heroin
da mitologia grega, que era tecida de dia
e desfeita a noite. A PA-150 ja foi inaugu-
rada umas tantas vezes para, em outras
tantas, ser refeita, sem nunca apresentar
as qualidades de durabilidade e boa trafe-
gabilidade. Parece ser sempre uma eterna
obra em progress (ou regresso), nunca
ficando pronta e acabada.
O serviqo da Andrade Gutierrez, bem
ou mal feito, por inteiro ou parcialmente,
foi recebido pelo Estado. As primeiras
parcelas foram pagas no tempo acertado.
Depois comegaram os atrasos. Quando o
atraso se tornou tal que ameaqava de pres-
criaio (isto 6, perda do direito de cobran-
9a da divida), o Estado, em 1990 (j0 na
administration H6lio Gueiros), assinou a
confissdo dessa divida.
Valendo-se dessa confissao, que teria
interrompido o prazo prescricional e Ihe
devolvido o direito de cobranga, em 1993
a empresa mineira acionou o Estado. A
Procuradoria nao s6 contestou o valor


apontado (de 370 milh6es de d6lares numa
avaliaqdo e, em outra, em 1995, de US$
700 milhoes, ja na gestao Almir Gabriel,
quando comegou a reaq~o official como
sustentou que ocorreu a prescrigao.
A ent~o jufza da 14" vara civel do f6-
rum de Bel6m, Marta Ines Antunes, hoje
desembargadora, reconheceu a alegaqao
do Estado, dando-lhe ganho de causa e
mandando arquivar o process. A Andra-
de Gutierrez recorreu. Mas Marta nao
pode mais julgar o recurso por ter sido
convocada para atuar nas camaras do TJE.
O process foi para a 21a vara, que tam-
b6m trata das aqoes de interesse da fazen-
da piblica. Depois de declarar-se impedi-
da de atuar no feito, ajuiza Rosileide Bar-
ros acabou aceitando-o e deu sentenqa exa-
tamente oposta a da titular da 14" vara,
em favor da empresa. O Estado reagiu ar-
giiindo a suspeiqao de Rosileide.
Na sustentagao da exceqgo, a Procu-
radoria do Estado alegou que a juiza de-
cidiu, em apenas 11 dias, process que
vinha sendo instruido nos oito anos an-
teriores, mudando por complete o enten-
dimento manifestado pela julgadora an-
terior. Sequer ouviu o pr6prio represen-
tante do poder piblico, numa demand
envolvendo "quantia astron6mica", da-
nosa ao erario.
Epis6dios semelhantes viriam a ocor-
rer em novos incidents processuais,
tanto no juizo de primeiro grau quanto
na instancia superior, do TJE, quando
foi submetido a relatoria do desembar-
gador Joao Alberto Paiva (atualmente
aposentado), levando a Procuradoria a
afirmar que os autos andam "por alias
estranhas" e a submeter a corte estadual
as "censuriveis e desusadas praticas
adotadas neste feito".
A empresa obteve importantes e sur-
preendentes vit6rias na demand, mas o
Estado nao esgotou todas as possibilida-
des de recurso. A tramitagao do process
ainda nio esti no ponto de ameaqar o Pard
com o imediato e brutal desencaixe do
tesouro estadual apontado pela Procura-
doria. Mas seria important, a margem
da litigancia judicial, que o poder legis-
lativo, atento a esse caso escabroso, ins-
talasse uma CPI para apurar o custo da
PA-150 e os direitos da Construtora An-
drade Gutierrez. Talvez assim se abrisse
adequadamente uma das mais nefandas
caixas pretas da hist6ria republican do
Para: esse sorvedouro de dinheiro (e de
procedimentos questioniveis) em que se
tornou a PA-150. Con a palavra, os de-
putados interessados em tirar essa n6doa
lesiva ao Pari.


Numerous

Sempre atento e prestativo, o
ge6logo Alberto Rog6rio manda
dados para atualizar a matdria
sobre o manganes (ver JP 302).
Mostra ele, com base em
informaraes do DNPM
(Departamento Nacional da
Producao Mineral), que a
produgao de manganes do Amapd
foi de 68,7 milh6es de toneladas
ao long da exploragqo realizada
pela Icomi.
Enquanto o U.S. Geological
Survey (o serviqo geol6gico
americano), em seus Mineral
Commodity Summaries, de
janeiro deste ano, preve que a
produqao brasileira de manganes
deste ano sera de 1,5 milh~o de
toneladas, a Companhia Vale do
Rio Doce espera 1,75 milhao.
Com isso, observa Rogdrio, o
Brasil passa a ser o primeiro
produtor mundial, superando a
Africa do Sul (1,3 milhlo de
toneladas). A producqo mundial 6
de 7,6 milh6es de t, com o Brasil
respondendo por cerca de 20%.
Ainda segundo os sumdrios
do serviqo geol6gico dos EUA,
as reserves conhecidas do
Brasil sao de 25 milh6es e as
da Africa do Sul, 18 milhoes de
toneladas. A maior reserve
6 da Ucrania (140 milhoes de
toneladas). As reserves totais
conhecidas do mundo sao de 300
milh6es de toneladas. Ja as reserves
estimadas mundiais somam 5
bilhoes de toneladas, sendo as da
Africa do Sul de 4 bilh6es.
Seja por um ou outro ndmero,
com diverg8ncias de fontes,
permanece a constatacao
fundamental da mat6ria: o Brasil
incrementa (as vezes
lesivamente) a producao de um
bem com preqo desvalorizado,
sobretudo pela manobra dos
donos de mercado, atrav6s da
redugao do produto a commodity,
rebaixada de valor pelas
manobras dos poderosos cart6is.
Comprometemos nossas riquezas
naturais por uma remuneraq~o
que ji nao tem nem mesmo a
grandeza da banana.


P/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jomal Pessoal











Jatene: cassagao



e um risco real?


E real a possibilidade de cassacao
do mandate do governador Simao Ja-
tene? A ddvida voltou a circular na
opinido piblica depois que O Liberal
noticiou, com destaque, a decisao do
Tribunal Superior Eleitoral de rejeitar,
por unanimidade (7 a 0), os embargos
apresentados pelos defensores do go-
vernador contra a cassacqo do seu man-
dato. A noticia era confusa e tendenci-
osa, mas dava a impressed de que a sor-
te de Jatene estava selada. Nao s6 a
dele, mas tamb6m a dos governadores
de Roraima, Mato Grosso do Sul e Dis-
trito Federal. A tendencia que o Tribu-
nal Superior Eleitoral deveri seguir na
apreciaq~o dos tres casos, prontos para
serem levados a julgamento, seria
apontada quando a corte vier a decidir
sobre o destiny de Joaquim Roriz, cujo
process esta na frente dos demais.
Fontes de dentro da corte conside-
ram que, tecnicamente, os tres gover-
nadores estao com suas cabeqas colo-
cadas sob a lamina da guilhotina. Se
ela nao descer, essa decisao seria mais
political do que t6cnica. Nos autos es-
taria comprovado o uso da maquina
p6blica pelos antecessores dos tres ou
por eles mesmos, no caso de Roriz e
Zeca do PT, para suas eleiqces. Mas
defensores de Jatene ficaram mais tran-
qiiilos depois que o procurador-geral
da Repdblica, Geraldo Brindeiro, nao
endossou a dentincia contra o gover-
nador paraense.
O chefe do Minist6rio Piblico Fe-
deral parece nao se ter se deixado con-
vencer pelas provas materials juntadas
pela dendncia local nos autos, indican-
do a promiscuidade entire a miquina do
Estado e a do candidate official. A de-
nincia sustenta que funcionarios pdbli-
cos estaduais, a comeqar pelo chefe de
todos eles, o governador do Estado, par-
ticiparam da campanha eleitoral de Ja-
tene. Algumas provas parecem sugerir
que a pergunta cabivel nao 6 sobre o
claro crime eleitoral, mas sobre a ne-
glig6ncia do governor na movimentaqao
em favor do seu candidate. Impresses
digitais foram deixadas a larga. Bastou
coleta-las na dentncia.
E claro que em outras eleiqces hou-
ve promiscuidade semelhante, ou at6
maior. A novidade esti mais por conta
do grau dessa promiscuidade agora,


sem paralelo no passado recent (ou ao
menos nos intervalos de democracia na
nossa repdblica). A responsabilidade
por esse massive emprego da maquina
public deve ser creditada ao ex-gover-
nador Almir Gabriel, ji condenado em
um dos processes, do qual Jatene foi
excluido. Imperialmente, ignorando a
todos, inclusive a alguns assessores,
Almir imp6s o nome de um candidate
que, al6m de ser ne6fito em political,
desembarcando de para-quedas no topo
do poder, desempenhara at6 entao um
papel na administraqao estadual con-
trario ao jogo politico, como um guar-
dido do absolutismo do executive so-
bre os demais poderes.
Talvez se o entlo governador tives-
se desde cedo preparado seu delfim e
exercido atrav6s dele poder de atracgo
e aglutinag~o de forqas, Simdo Jatene
tivesse conseguido se eleger com mais
folga e nao precisaria de recursos tto
excepcionalmente perigosos que acaba-
riam por lancar uma grande ameaca so-
bre seu future mandate. Impondo dita-
torialmente, de cima para baixo, o nome
de um candidate que tirou do colete a
iltima hora, Almir Gabriel sujeitou o
triunfo do seu ex-secretirio a ser mais
uma vit6ria de Pirro.
Essa ameaqa tamb6m esta prejudi-
cando a condugqo dos neg6cios pdbli-
cos no Para. Se a cassaqgo de Jatene for
decidida pelo TSE, sera precise reali-
zar novas eleiqoes. At6 que elas ocor-
ram, o president da Assembl6ia Legis-
lativa, deputado Mario Couto, sera o go-
vernador interino. Certamente ele plan-
tari alguma semente de poder ao long
desses 90 dias para colher durante ou
depois da interinidade. Encerrada mais
uma campanha eleitoral, quem for un-
gido pelas urnas tera que dar inicio a
um mandate encurtado de um quarto do
seu tempo regular de duracao.
A puniqco podera ser coerente corn
os atos de uma administraqao pdblica
que se dispos a jogar pesado (e perigo-
samente) para conseguir o que seria ina-
tingivel pelos meios regulars e legais,
invertendo, em poucos meses, uma si-
tuaqCo que parecia inteiramente desfa-
voravel ao candidate pessoal de sua ex-
celCncia o governador, el supremo. Mas
sera um castigo imerecido para o Esta-
do. Talvez at6 para o candidate.


Burrocracia
Misica e Mdsicos do Pard 6 obra
para honrar qualquer Estado brasilei-
ro. Trata-se de um complete levanta-
mento, em forma enciclop6dica, mas
tamb6m analftico, de toda a produqco
musical feita no Estado, das origens
at6 o iltimo harpejo. Um trabalho que
alia a minudencia de um relojoeiro i
acuidade paciente de um enxadrista.
Publicado pela primeira vez em 1970,
Mdsica e Mdsicos do Pard esti com
sua segunda edicao, revista, amplia-
da e atualizada, prontinha para ser
publicada. O volume deveria ter sido
impresso em 1999 pela Secretaria de
Cultura do Estado. Deveria.
Depois de mais de tres anos de
espera, Vicente Salles, o autor do li-
vro, imprimiu em computador, as suas
custas, 10 exemplares de sua obra
preciosa e mandou os volumes para
algumas bibliotecas p6blicas. At6 o
final do ano pretend editar outros 10
exemplares. Como um dos benefici-
ados pela generosidade de Vicente,
sinto-me honrado pelo privil6gio de
poder ler em primeira mdo uma obra
que analisei e critiquei mais de 30
anos atris (foi, alids, a ponte para nos
conhecermos e firmarmos uma ami-
zade que me tem sido enormemente
proveitosa).
Fico tamb6m feliz por ver que Vi-
cente nao apenas se manteve em dia
com a produCgo musical paraense (o
que faz de Brasilia com admiravel
atengqo, inexistente em Bel6m mes-
mo), absorvendo-a sem qualquer pre-
conceito, por inteira, como melhorou
- e muito o que ji constava da pri-
meira ediq~o.
Como explicar a inciria da Secult
diante de um trabalho de nfvel nacio-
nal, com qualidade suficiente para ser
apresentado em qualquer lugar do
mundo? Por que deixar para a seara
do incerto e nao sabido uma obra que
dignifica a cultural paraense?
A Comissao Editorial da Secult
aprovou a publicagao do livro para
1999, mas a prioridade acabou sendo
transferida para o ano seguinte. Des-
de entdo, explicaq6es e protelaq6es se
sucederam, s6 o livro 6 que continuou
em algum escaninho de supina insen-
sibilidade burocratica.
A Secult, com essa attitude, nao
esta diminuindo um milimetro da es-
tatura intellectual de Vicente Salles.
Esta 6 revelando seu pr6prio tamanho,
liliputeano. E cometendo um crime de
lesso a cultural paraense.


Jomal Pessoal 1P/2 QUINZENA/JUNHO DE 2003 2










Os rumos definidos



do Pardi colonial


butAria proposta ao legislative pelo
governor federal inviabilizard a admi-
nistraqao ptblica estadual no Para.
Reagindo a uma ameaca letal, o governador
Simdo Jatene props modificaqao no projeto-
de-lei para que as perdas na receita de impos-
tos, causadas pela desoneraqgo das exporta-
q9es, sejam compensadas atrav6s de um fun-
do, restabelecendo a capacidade de gestao do
executive paraense.
Essa compensaqao ird restabelecer a atual
situaqdo, corn uma ligeira melhoria em rela-
90o a deterioraCqo continue da receita internal
em contrast corn o crescimento da renda que
o Pard produz em favor de um grupo de ativi-
dades produtivas selecionadas. Mas nao cor-
rigird o rumo que o Estado seguiu, por impo-
siqao de fora: se tornar um centro de produq~o
de mat6rias primas e insumos bisicos volta-
dos para a exportaqao, condenado a ter rela-
9oes de troca desfavorecidas. O lema desse
modelo 6: crescer para se subdesenvolver.
A raiz do problema esti no baixo valor
agregado dos produtos paraenses de exporta-
~go. E uma insuficiencia bem mais grave do
que a national porque o peso das exporta-
q9es 6 2,5 vezes maior na economic paraense
do que na economic brasileira. A participa-
qCo do Pard no saldo liquid de dividas do
pais cresce paralelamente a dois fatos que lhe
estdo associados: a reduqao em terms
quantitativos e qualitativos da participaqao
do Estado na balanga commercial e o encolhi-
mento, que ji alcangou o padrdo de um fa-
quir, das importaq6es do Estado.
Se a fase das importaq6es excessivas que o
Brasil fez ao long da d6cada de 90 (de 21 bi-
lh6es de d6lares em 1991, elas cresceram para
mais do que o dobro ou US$ 50 bilh6es ao
ano em 1995 e US$ 56 bilh6es em 2000) serviu
para impulsionar o process de industrializa-
9qo do pals, proporcionando o incremento das
exportaq6es e saldo significativo na balanqa
commercial brasileira desde 2001, esse benefi-
cio nao alcanqou o Pard. Muito pelo contra-
rio. De s6timo maior exportador da federaqao
ao long de toda a d6cada de 90, o Pard des-
ceu para o 8 lugar em 2001 e a 9" posigqo no
ano passado. Nesse period, passou de 4 Es-
tado em saldo de divisas para a 2a posiqao em
2000, superado apenas por Minas Gerais. No
entanto, voltou para o 4 lugar em 2000 e caiu
para o 5 posto no ano passado. Ja no capitulo
das importaq6es, do 11 lugar no conjunto dos
Estados em 1991, o Pard desceu para a 15'
posigqo em 2000, mantendo-se nesse patamar
nos dois primeiros anos desta d6cada.


Tradugqo desses n6meros: o Estado tem
adotado uma dieta magra demais para im-
portaq6es, ressentindo-se dos beneficios
que uma rela9Co commercial externa bem ba-
lanceada Ihe poderia oferecer. A condigqo
do seu organismo econ8mico 6 agravada
pela queda do valor relative dos seus pro-
dutos e por um com6rcio exterior desorga-
nizado, sem uma diretriz pdblica (ou, quan-
do existente, insatisfat6ria). O valor das im-
portaq6es em 2002 esteve um pouco acima
de 10% do valor das exportag6es (US$ 243
milh6es contra US$ 2,26 bilh6es), com um
saldo de divisas de US$ 2 bilh6es.
Santa Catarina, o Estado que esta logo
acima do Pard, ocupando a quarta posiqao
por saldo de divisas (de US$ 2,2 bilhoes),
6 o sexto em volume de exportaq6es (de
US$ 3,1 bilh6es), bem mais distanciado do
Pard nesse item. O oitavo maior exporta-
dor brasileiro (um degrau na frente do
Pard), a Bahia, vende ao exterior US$ 2,4
bilh6es, mas 6 s6 o oitavo em saldo de di-
visas (de US$ 521 milh6es). Mas a Bahia
importou, em 2002, US$ 1,8 bilhdo, quase
oito vezes mais do que o Para.
Esses ndmeros mostram que s6 compen-
sar o Estado pelo fato de que a Unido isenta
os exportadores de impostos (e vai mais lon-
ge: da-lhes cr6dito por conta do imposto que
nao pagaram), nao sera suficiente para cor-
rigir os rumos que o Estado foi obrigado a
seguir, por norma do mesmo governor fede-
ral, no rumo de uma fungio claramente co-
lonial. E precise quebrar a espinha dorsal
desse modelo de enclaves econ6micos (e
sociais e culturais), que funcionam como
bombas de sucqdo de riquezas naturais nao-
elaboradas, sem capacidade de irrigaqgo das
veias produtivas estaduais.
Nos tiltimos 12 anos, em ndmeros apro-
ximados, o Pard exportou US$ 27 bilh6es,
importou US$ 3 bilh6es e deixou nos co-
fres do Banco Central 24 bilhoes de d61a-
res liquidos. O comprador ganhou bastante
com essas relaq6es comerciais: recebeu
bens de baixo valor e transformou-os em
mercadorias de valor multiplicado para ven-
der. Os exportadores ganharam menos, mas
os que puderam compensar eventuais des-
vantagens com subsidies governamentais
tamb6m ganharam muito. Quem ganhou
menos, ganhando pouco, quando ganhou,
foi o Pard.
A verticalizaqao econ8mica, portanto,
tem que sair da orat6ria e do ora-veja. Sem
o que o Pard estara condenado a ser uma
vasta col8nia, national e international.


Raz6es de forca maior provo-
caram tal atraso nesta edi9ao que
ela se tornou mensal, passando a
abranger a primeira e a segunda
semanas de junho. Espero que o
jomal volte a sua periodicidade
regular no pr6ximo nimero.


Balanganda
Na mesma semana, enquanto
a revista Veja ensina em mat6ria
de capa como se manterjovem, a
revista Epoca apresenta, tamb6m
na capa, a formula para deixar de
fumar, e a revista Isto6 fornece o
tratamento para o coraqdo.
Para qual delas deve ser
dado o Trof6u Almanaque Ca-
pivarol? Quem nao vencer le-
vard, como console, O minimo
eu, livro de Christopher Lasch.
Minimo mesmo.


Corregao
Uma correqgo: Roraima se tor-
nou territ6rio federal, em 1943,
corn a denominagao de Rio Bran-
co (o nome do rio que domina boa
parte de suas terras) e nao Boa Vis-
ta (que 6 sua capital). Aproveito o
lapso para registrar meu lamento
pelo descaso com que o agora Es-
tado tem sido tratado.
Roraima 6 a mais complete e,
de certa forma, mais bonita unida-
de federativa da Amaz6nia, com
suas paisagens de florestas, cam-
pos naturais e montanhas. O Con-
selho Indigenista Missiondrio
(Cimi) diz que 6 tamb6m o Estado
mais antifndio do pais. Com sua
contrafaqdo: 6 o que mais possui
6reas indigenas. Umarealidade tal-
vez explicando a outra. E tamb6m
o menos conhecido de todos, daf a
impericia corn que tem sido trata-
do pela administraq~o federal. No
vacuo, tem sido entregue a gestdo
de espertos e despreparados.
Ja estd na hora de Brasilia assu-
mir um compromisso decidido com
um piano de desenvolvimento ca-
paz de preservar Roraima da agqo
predadora que marcou a expansdo
da fronteira em outras dreas ama-
z6nicas e nao deixar que o Estado
continue a ser vitima de aventurei-
ros. Seria a quitaqgo de uma longa
divida do pais com sua mais seten-
trional unidade federativa.


1"/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal










A escola de minas



e a visao caolha


A Escola de Minas do Pard, uma luta de
vairies anos, que parecia finalmente
estar se materializando, foi atropela
da por um mal-entendido, se nao por
uma mi-f6. Dentro do campus da Universi-
dade Federal do Pard em Marabi surgiu uma
tonitruante reagco ao projeto, subitamente
transformado numa ameaqa. Ameaca, em
primeiro lugar, ao que restaria de reserve
florestal native no perimetro urban, forte-
mente castigado por uma ocupaqco ca6tica
e uma aqo governmental irracional ou in-
competente. Em segundo lugar, ameaca A
expansio future do campus. Em terceiro lu-
gar, A pr6pria autonomia universitiria, que
estaria sendo usada para servir a interesses
empresariais.
A reaqio mereceu tal destaque na grande im-
prensa de Bel6m que o lfder do movimento,
professor Jos6 Pedro de Azevedo, veio a Be-
16m, falou grosso diante do reitor da UFPA e
pode ter provocado um recuo na execug~o do
convenio com a Companhia Vale do Rio Doce,
que daria o primeiro pass para a verdadeira
Escola de Minas cor um curso de especializa-
qio, ao custo de 1,3 milhio de reais.
A plataforma da campanha ter ret6rica
simpptica ou fascinante, mas 6 oca. Mais do
que isso: esti completamente equivocada.
Revela o despreparo de certa vanguard, ao
menos a que se declara vanguard, para tratar
adequadamente temas de linha de frente na
hist6ria da regiio.
O convenio UFPA/CVRD foi colocado em
dtivida. A empresa estaria utilizando a uni-
versidade para ter seu centro de forma go de
mao-de-obra, atendendo apenas a seus inte-
resses. E evidence que haverd beneficios para
a Vale, ou ela nio estaria colocando seu di-
nheiro no projeto. Mas se ele correspondesse
apenas a seus interesses, a empresa ja o teria
implantado a mais tempo e nio teria resistido
tanto aos arguments em favor da Escola de
Minas. A reivindicaqdo, de varios anos, en-
controu, at6 recentemente, uma barreira de re-
aqdo ou indiferenqa na CVRD.
A empresa mudou. Em parte porque, agora,
sua necessidade de mio-de-obra 6 maior. Mas
tamb6m porque cresceu a pressdo social, en-
quanto se agrava a contradiqgo: segundo Esta-
do minerador do pais, em vias de deslocar Mi-
nas Gerais da lideranga, o Pard permanecia a
margem da qualificacqo de t6cnicos em seu
pr6prio territ6rio e da formaqdo de uma cultu-
ra da mineraqao, sem a qual nao podera for-
mar massa critica, interlocutores e opinido crf-
tica sobre um segment vital da sua economic,
hoje e (ainda mais) amanhd.


A primeira escola de minas do Brasil foi
criada em Ouro Preto, pela inspiracqo ilumi-
nista do imperador Pedro II e de um sibio
francs, 130 anos atras, apenas dois anos de-
pois da primeira escola de engenharia, que
surgiu na Polit6cnica do Rio de Janeiro. O Pard
faz mineracqo (a principio, apenas garimpa-
gem) hi 50 anos. A importancia dessa escola
na evolucgo da mineraqao em Minas Gerais,
devidamente registrada, esta acima de qual-
quer questionamento. A nossa escola atende a
mesma necessidade, revista e atualizada. Pode
servir A Vale, mas, se conduzida adequada-
mente, servira ainda mais ao Para. Represen-
ta um dos pontos de recuo e concessao da
empresa no seu contencioso cor os paraen-
ses que a tem questionado ou combatido.
Nao ha mata native na antiga unidade do
Projeto Rondon em Maraba, onde atualmente
funciona um ndicleo de pesquisa do campus e
nasceri a Escola de Minas. Mesmo o olhar de-
savisado verificard que a vegetacgo 6 comple-
tamente secundaria, afetada por desmatamen-
tos e queimadas de invas6es urbanas. O proje-
to da escola prev6 a derrubada de um dos oito
hectares da area. Em volume e qualidade, nada
que sustente restriq6es ao empreendimento em
linguagem da razdo. De tudo o que foi dito
contra a iniciativa, o unico argument plausi-
vel 6 aproveitar o moment para instalar o cam-
pus numa 6nica area, que seja capaz de abrigar
suas previsiveis expanses, tirando-o da divi-
sao atual, em duas areas isoladas.
Tudo bem. Mas sera que nao se estara dan-
do h Vale a ocasiao que sempre favorece o la-
drao? Mesmo fazendo uma revisao do projeto
e discutindo-o em circuit mais amplo, para
colher id6ias e corrigir eventuais erros, seria
insensatez coloca-lo em risco dessa maneira.
Significaria exp6-lo a ameaqas, incomparavel-
mente mais graves, como nao qualificar para-
enses (nativos ou adotivos) para ocupar posi-
c6es mais elevadas na hierarquia funcional da
Vale, nao criar saber local em mineracgo e nao
colocar ao alcance da opiniao piblica uma
competencia especifica do Estado para atuar
em moments critics, como os que periodi-
camente temos vivido na nossa relacqo con-
flituosa cor a CVRD.
Quest6es e problems podem e devem ser
suscitados. Mas os que apareceram na grande
imprensa com o estardalha9o de uma cause ce-
lbre sao produto de uma visao distorcida ou
miope. Transformaram em principal o que 6
acess6rio e ameaqam atirar para as calendas
gregas o que 6 uma das plataformas mais sig-
nificativas da luta por um setor mineral mais
de acordo com os interesses do Pard.


Lacuna

Como gerente em Be-
16m da Companhia Vale
do Rio Doce, o castanha-
lense David Leal fez do
pisar em ovos uma f6 de
oficio. Era o representan-
te de uma tfpica empresa
foranea, metropolitan,
que gosta de ditar regras
e ordens e ser reconheci-
da como a maioral. Ao
mesmo tempo, procurava
ouvir e interpreter a voz
da maltratada planicie.
la e vinha com discri-
gqo, mas levando nas
maos coisas concretas,
nao nariz de cera, bales
de ensaio ou cartola de
magico. Durante todos
esses anos, David foi um
interlocutor leal (com
perdao do trocadilho) ao
seu patrao e sincere com
os porta-vozes da socie-
dade. Acomodou o que
p6de o quanto pode. Mui-
tas vezes trabalhando so-
zinho, dividindo um con-
junto de salas com esta-
giarios, no que restou da
representaqCo da CVRD
depois que a empresa se
desvencilhou da primeira
sede, em um pr6dio de
seis andares todo seu.
Quando parecia que
sua intermediaqdo seria
mais requisitada, em mais
uma fase de atritos da em-
presa com a opiniao pdbli-
ca local, David foi chama-
do de volta pela Vale ao
Rio de Janeiro, seguindo
destiny que n6s, do lado de
fora, ainda nao sabemos
qual sera. Qualquer que
venha a ser a sua direcio,
certamente ganha a empre-
sa corn esse ato, para o bem
ou para o mal. Quanto a
n6s, seguramente nao.
Discreto quando con-
vinha e ostensivo quando
necessario, David Leal
dava a essa empresa de
perfil cada vez mais me-
tropolitano um toque pa-
raense. Sua retirada do es-
crit6rio de Bel6m diz
mais, no contracanto ao
discurso, do que a atual
campanha promocional
da empresa.


Journal Pessoal 1/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003
5










A data de Charles Wagley:


Duas datas importantes para a Amaz6nia estao passando em

brancas nuvens: os 90 anos do nascimento do antrop6logo

americano Charles Wagley e os 50 anos da publicagdo do

principal livro que ele escreveu, Amazon Town (Uma

Comunidade Amazonica estudo do home nos tr6picos, na

tradugdo brasileira de Clotilde da Silva Costa), um dos

merecidos classicos da bibliografia amaz6nica.


T anto a vida quanto a obra de
Wagley tem importincia para
n6s. Brilhante aluno de Franz
Boas nos Estados Unidos, ele
trouxe em sua bagagem uma novidade
sobre o conhecimento human, a Antro-
pologia Cultural, formulada por seu mes-
tre, quando veio participar do esforqo ali-
ado de guerra, incorporando-se em 1942
ao legendario Sesp (Servico Especial de
Sadde Piblica), cujos escombros hoje se
abrigam sob a sigla da Funasa.
Na companhia de um discipulo bra-
sileiro tdo brilhante quanto ele fora de
Boas, o carioca Eduardo Galvao, Wa-
gley transitou entire as comunidades
aculturadas de caboclos e os indios, re-
gistrando seus modos de vida e suas re-
laq6es com o mundo exterior no estilo
dos melhores intelectuais: texto elegan-
te e observaq6es comprometidas com
suas ferramentas te6ricas de observagSo
e cor a melhoria das condig6es de vida
de seus objetos de estudo.
As relaq6es entire Wagley e Galvao,
tanto no Brasil como nos Estados Unidos,
no meio da selva ou nos gabinetes da aca-
demia, constituem um dos moments mais
ricos da hist6ria cultural brasileira do s6-
culo passado. Escreveram livros que re-
sistem A deterioracdo do tempo como tes-
temunhos de 6poca e referencias perma-
nentes para a compreensdo do passado, do
present e do future desta enorme e mal-
tratada fronteira.
Atrav6s da leitura de Amazon Town,
lancada no Brasil tr8s anos depois da
edig~o norte-americana, pode-se pene-
trar numa comunidade native da foz do
rio Amazonas (rebatizada como It),
descobrindo seus segredos e perceben-
do suas relacqes sociais, tendo o autor
como guia percuciente. Mas nao se tra-
ta apenas de um excepcional estudo de
caso ou um survey bem afinado. Gragas
ao seu poderoso equipamento intelectu-


al e a sensibilidade para com os dramas
humans, Wagley nao apenas produziu
um cl1ssico das ciencias humans, de
igual valor aos que Bates e Wallace ex-
trafram das brenhas tropicais para as ci-
encias exatas um s6culo antes, mas uma
refernncia indispensivel para entender
o passado e o present da Amaz6nia, um
guia de inquietaq6es e sugest6es para
antever seu future, melhor do que ele se
encontra delineado.
Entre as d6cadas de 40 e 50, quando
viveu e pesquisou na Amaz6nia, e a de
70, quando a reviu para uma nova apre-
sentaCgo do seu livro, Wagley se defron-
tou com a maior de todas as novidades
surgidas na regiao, de efeitos literalmente
devastadores: as chamadas estradas de
integraqdo national. Como ele observou
no preficio a segunda edicqo brasileira de
Uma Comunidade Amaz6nica, lancada
mais de duas d6cadas depois da primeira
(o que di uma media da nossa fragilida-
de editorial), as estradas, al6m de meio de
transport, eram um poderoso agent de
cultural e civilizaqdo, ou de incultura e in-
civilidade, conforme a 6tica.
Se, por um lado, essas rodovias sig-
nificavam "a queda da iltima barreira
mundial A circulaqdo de autom6veis e
caminh6es de transport, e a conexao
com as principals art6rias de trifego do
Brasil", Wagley nao podia deixar de
tamb6m salientar que "um dos mais de-
licados sistemas ecol6gicos do mundo,
a floresta pluvial amaz6nica, se acha
agora em perigo. Ver-se-a toda a inten-
sidade de vida da regiao amaz6nica
transladar-se do grande sistema fluvial
para as proximidades das rodovias; ao
inv6s das virzeas dos rios, ocupar-se-a
a terra firme". Ainda que nas virzeas
estejam "as terras f6rteis, pois, anual-
mente, recebem o limo dos rios, en-
quanto a terra firme 6 geralmente po-
bre para a agriculture", o novo eixo de


conquista era rasgado nas desconheci-
das terras altas, atraindo para elas uma
intense migragao.
Depois dessas transformag6es, a
Amazonia nunca mais seria a mesma. O
problema estava nao na mudanga em si,
element constant na hist6ria dos ho-
mens, mas na mudanca para pior: "Devo
admitir que Ita mudou mais do que eu
podia imaginar. Essa mudanCa, porem,
nao se operou da forma como eu imagi-
nava", confessa Wagley. Ele nao gosta-
ria que de seu preficio de 1975 emanas-
se um odor pessimista, mas, aos 62 anos,
depois de tr6s d6cadas de envolvimento
com a regiao, mesmo com seus modos
delicados, preocupado em nao ferir sus-
cetibilidades entire seus conterraneos
adotivos, via-se obrigado a admitir que
se sentia desanimado: "de fato, at6 cor
receio. Parece-me que o Brasil estd ten-
tando mudar a Amazonia mais com es-
pirito patri6tico do que com o verdadei-
ro planejamento cientifico".
A constatacZo, vilida ontem como
hoje, a partir do relacionamento do que
os homes fazem na Amaz6nia e do que a
ci8ncia lhes recomenda fazer. Essas sao
duas paralelas aparentemente condenadas
a seguir at6 o infinite. De um lado, a irra-
cionalidade do process de ocupag~o, nao
s6 desviado das terras f6rteis para os so-
los inconsistentes, com sua cornuc6pia de
efeitos perversos, mas tamb6m produto da
diretriz da agCo: "O objetivo a long pra-
zo 6 a cultural de exportagdo, nao a ocupa-
cao da terra", no sentido da fixagCo do
home a regiao de forma saudivel, posi-
tiva. A nova economic amazonica "tende
para a continuidade do extrativismo, mas
sob nova forma". Do extrativismo vege-
tal a regiio passaria para o extrativismo
mineral, do qual nao resultaria beneficio
para o seu povo.
O verdadeiro progress s6 poderia sur-
gir a partir de uma liqdo da hist6ria: "Uma
nova sociedade nao pode nascer do nada;
deve ser construida a partir de anteceden-
tes hist6ricos. A nova sociedade que o
Brasil pretend criar na Amaz6nia tera por
base o conhecimento que o povo dessa
regiTo acumulou durante s6culos, dos tem-
pos aborigenes ao presente, diz Wagley,
acrescentando que essa "6 uma heranqa
rica que jamais deverd ser ignorada na
modern conquista da Amaz6nia".
Mas como recuperar esse saber e adu-
zir-lhe as contribuioqes do conhecimento
cientifico se as instituiq6es cientificas da
Amaz6nia "sio d6beis, em comparag~o
cor as existentes no Sul do Brasil"? Como
elaborar models de integraao do home


/ 1"/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal










uma festa para todos n6s


A natureza, no moment mesmo em que a
fronteira estA sendo aberta, e fazer essas
diretrizes chegarem e ser adotadas pelas
frentes de expansao, se a ciencia local 6
assim tao pouco expressive?
Mesmo com os choques que sofreu ao
voltar A sua icdrica Itd, duas d6cadas de-
pois do primeiro contato, e das tristes no-
ticias que Ihe chegavam do Brasil, Char-
les Wagley tinha consci8ncia de que seu
livro amaz6nico estava acima das turbu-
lncias do mundo transit6rio e da cultural
de ocasiao. Por sua consist6ncia (e, mais
do que por ela, devido a sua estatura hu-
mana), surgira para ficar para sempre. "Ao
refletir sobre o passado, sei agora que sou
essencialmente um humanista; e chego a
conclusao de que este foi um livro huma-
nista com mensagem humanista", foram
suas iltimas palavras do preficio.
Permanecia esse grande humanista
quando voltei a ve-lo ejantei com ele e
sua encantadora esposa, a brasileira Ce-
cilia Roxo Wagley, em sua confortavel


casa em Gainesville, na Fl6rida, em
1984. Aquela altura professor em6rito e
monument vivo, cada palavra dele de-
via ser sorvida e apreciada como os vi-
nhos superiores, produzidos em longos
tempos, desde a maturacgo da uva a tem-
peranqa do liquid. Wagley se foi, mas
sua obra merece ser difundida e sua
mem6ria cultuada.
Pretendi, no ano passado, passar mais
um tempo em Gainesville produzindo um
trabalho sobre ele, em associag~o com
sua mais f6rtil extensao no Brasil, Eduar-
do Galvao, com quem tive longas con-
versas no Museu Emilio Goeldi. Mari-
anne Schmink e Charles Wood, duas ou-
tras marcantes sementes resultantes da
semeadura de Wagley, aderiram de pronto
a id6ia. Mas as mis6rias plantadas no ca-
minho de um jornalista critic na Ama-
z6nia me impediram de voltar ao oasis
que o Centro de Estudos Latino-Ameri-
canos da Universidade da F16rida tem
representado na minha vida.


Frustrado o projeto, ao menos por en-
quanto, aguardei que algu6m lembrasse
do cinqtientendrio de Amazon Town. Fi-
nalmente, a iltima ediqao do caderno
Fim-de-Semana, da Gazeta Mercantil,
quebrou o silencio desconfortivel. Mas
o artigo escrito por Rodolfo Guttilla, di-
retor de assuntos corporativos da Natu-
ra Cosm6ticos, ainda nao 6 o registro
que o livro merece. Mesmo que a data
nao alcance seu eco merecido, o leitor
mais inteligente pode fazer sua festa so-
zinho. Desde que consiga encontrar, em
algum sebo, remanescentes das tres
ediq6es que essa grande obra teve at6
agora entire n6s. Vai descobrir entao
porque Amazon Town 6 valioso para
n6s. Tao valioso quanto para qualquer
cidadao do mundo interessado em sa-
ber o que acontece quando o home
devassa uma area nova do planet.
Charles Wagley falou da Amazonia
para o mundo inteiro. Raros consegui-
ram alcanqar semelhante audit6rio.


Tris WtiIhza el~ ] ei uPrn [ a U rifi Ul de M U -a'


H a 25 anos uma fundaqao dirigi-
da pelo bi6logo No6 Atzingen
"descobriu" um paraiso da na-
tureza as proximidades da devastada
area de influencia de Maraba, onde ele
mora. Nos 20 mil hectares de hectares
do complex Serra das Andorinhas/
Martirios, ha 113 sitios arqueol6gicos,
mais de cinco mil gravuras rupestres,
atestando a presenqa do home na re-
giao ha pelo menos oito mil anos, oito
ecossistemas diferenciados, 212 esp6-
cies de arvores de grande porte e uma
paisagem propicia ao ecoturismo, al6m
da educaqao ambiental. Tamb6m pos-
sui sua importancia hist6rica: foi palco
da guerrilha do Araguaia, al6m de mote
para um ciclo de lendas no caminho do
sertao arido para a floresta luxuriante.
Sete anos atris o governor do Esta-
do incorporou a luta de No6, o equiva-
lente marabaense do nosso Camilo Vi-
anna (cor o adendo da formaqio aca-
demica em biologia), criando o parque
ecol6gico Andorinhas/Martirios. Da
presence governmental o que se man-
teve por uns dois anos foi a placa. Mas
nem ela mais existe. A area comeqou a
ser depredada. Em fevereiro deste ano
No6, disposto a fazer gratuitamente um


projeto de educaqio ecol6gica na area,
enviou um document ao governor esta-
dual. Nao recebeu sequer uma resposta.
As arvores, como individuos e popu-
laqao, nao tnm tido vez no sul do Pari.
No6 assistiu a destruicgo da castanheira,
uma das mais belas, iteis e valiosas es-
p6cies da regiao, com concentraqdo no
poligono de Maraba. Hoje, restam 10%
delas. Mas a permissao para a derrubada
de castanheiras por aqueles que se com-
prometerem a plantar mudas pode ser o
golpe de miseric6rdia. Ja inexistente en-
quanto ecossistema, a castanheira pode
simplesmente ser extinta porque o gover-
no nao tera condiqces de controlar e fis-
calizar a permuta de arvore real, em p6,
pela promessa da muda compensat6ria.
No6 ainda luta pela arvore, mas acha
que 6 uma luta perdida. Seu pronuncia-
mento durante o semindrio promovido
pelo Ibama de Maraba, no inicio do mes,
teve o tom do desabafo e do protest.
Na mesma manha, mais tres pessoas com
extenso curriculo de lutas subiram a
mesa do audit6rio da secretaria munici-
pal de saiide para apresentar seu diag-
n6stico da situacqo, oferecer alternati-
vas para corrigir os erros acumulados e
conclamar a manutengqo da luta. Nao


conseguir reprimir, por6m, um certo
sentiment de derrota.
Mas nao de niilismo ou prostra-
gCo. Um desses lutadores 6 o mara-
baense Ademir Martins. Ele 6 o novo
gerente para a regiao sul do Pard, a
mais explosive de todas no pais.
Comeeou seu trabalho deixando de
lado a face policialesca (necessaria,
mas freqtientemente distorcida e mal
usada) do Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Na-
turais Renovaveis. Apostou num se-
minario para levar a seus companhei-
ros de instituiCqo e ao p6blico geral
questionamentos, depoimentos e su-
gest6es de inimeros expositores.
A aposta pode ter dado certo: um
audit6rio que chegou a abrigar 400
pessoas, onde s6 caberia pouco mais
da metade, acompanhou com atengqo
e interesse as palestras e debates. Ao
final dos tres dias nao restou a ilusao
de que mudar a triste situaqio da re-
giao 6 facil. Mas ningu6m podera cru-
zar os braqos achando que a tarefa 6
impossivel. O avango ainda 6 peque-
no, mas 6 o suficiente para nao perder
a conquista alcancada e insistir em
querer mais, muito mais.


Journal Pessoal 1/2; QUINZENA/JUNHO DE 2003










Os bwanas do sul



e os nativos silentes


Mesmo quando tentam ser solidarios
com seus irmros nortistas, certos intelec-
tuais sulistas nao conseguem livrar-se do
sentiment de superioridade que viver na
parte mais modern e rica do pais Ihes in-
cute. A arrogancia, combinada cor o pre-
conceito, acaba ditando alguns de seus
atos falhos.
Foi novamente a essa constataqgo que
voltei enquanto ouvia o economist Lu-
ciano Coutinho falar, na semana passa-
da, no audit6rio da Assembl6ia Legisla-
tiva. Ele fazia uma exposiqgo sobre o tra-
balho de consultoria que estava prestan-
do ao Estado, auditando o estudo sobre a
localizacgo da fabrica de places de ago
projetada pela Companhia Vale do Rio
Doce, corn participaqgo majoritaria de
s6cios chineses.
Depois de dizer rigorosamente nada,
Coutinho, um dos economists da Uni-
camp, a famosa universidade paulista,
declarou, quando questionado sobre a
existencia do estudo de viabilidade eco-
n6mica do empreendimento, que esta
provocando uma guerra entire Pard e Ma-
ranhdo para receber a siderirgica em seu
territ6rio, responded quase parodiando a
letra daquela mdsica famosa: se o estudo


existe, nio sei, nao vi e nao posso dizer
se vai ser feito.
Olhei em torno: todos, no audit6rio
lotado (com a inacreditavel presenqa de
39 parlamentares) e nas galerias, continu-
avam impassiveis. Nao se alteraram com
as palavras do dono da Macrotempo Con-
sultoria. Mas eu estava indignado. Levan-
tei-me e fui embora. Luciano Coutinho
parecia julgar que os natives ainda estdo
na idade da pedra. Podia dizer aquela san-
dice sem o risco de ser botado para fora
da tribune. Eu nao era dono da casa. Por
isso fui respirar ar puro l1 fora e nao vol-
tei para o resto da sessdo.
Era evidence que Coutinho fugia de
todas as quest6es inc6modas. Um depu-
tado mais ing6nuo sentou-se ao meu lado
para ouvir minha opiniio. Eu achava que
o consultor podia antecipar o resultado da
andlise sobre a localizaqdo da fabrica?
Poder, talvez at6 pudesse. Mas nao o fa-
ria. Ele foi contratado por quatro meses
(at6 11 de julho). Antecipar qualquer coi-
sa podia equivaler a denunciar unilateral-
mente o contrato, talvez perdendo dinhei-
ro. Rasgar dinheiro equivale, inquestiona-
velmente, a assumir o titulo de louco, o
que o distinto professor nao 6, claro.


Como levar a s6rio um trabalho de
acompanhamento dos estudos realizados
pela Natrontec se ambos, o de definiqio
do local da sidertlrgica e o de critical, es-
tdo sendo pagos pela Companhia Vale do
Rio Doce? Sera que o governor ndo tem
um dinheirinho na algibeira para assegu-
rar a efetiva independ6ncia e autonomia
dos seus consultores? Quem os indicou?
Ou sera que eles foram escolhidos por te-
rem igualmente boas relaq6es com o go-
vernador (que estudou na Unicamp) e ao
president da CVRD, Roger Agnelli?
Ainda que tudo tenha sido feito com
lisura e o honest prop6sito de acertar,
inaceitavel e essa promiscuidade. No pas-
sado, a Vale ja posou de bom-mocismo,
assumindo serviqos prestados ao Estado,
como o estudo dirigido por Eliezer Ba-
tista e Raphael de Almeida Magalhies.
O resultado foi pffio. Mas agradou, mes-
mo que por baixo dos panos, as duas par-
tes. Quanto ao distinto pfblico, bom, a
este apenas 6 apresentada a conta, ou a
hist6ria official. Como fara, no pr6ximo
m6s, o senhor doutor Luciano Coutinho,
certo, no intimo, de ter deixado miCan-
gas e lantejoulas para os natives agra-
decidos, alias.


Hist6rias da bauxita


A mineracqo de bauxita do Trombe-
tas vai comeqar um quarto de s6culo de-
pois do empreendimento pioneiro des-
se setor, o da Mineraqdo Rio do Norte,
no Trombetas. Entra em linha exata-
mente como um projeto complementary,
nao pelas caracteristicas excepcionais
do dep6sito mineral. Paragominas tern
mais mindrio do que o Trombetas, da
mesma qualidade.
Mas o acesso as jazidas localizadas
no municipio de Oriximind estava mais
coerente com o porte da exploraqco.
Rios capazes de abrigar navios transo-
ceanicos, como o Amazonas e o Trom-
betas, permitiriam a extracqo de grande
quantidade a um custo muito menor do
que as opq6es de transport de Parago-
minas. Mas a capacidade de escoamen-
to do Trombetas chegou ao limited, de-
pois que a MRN multiplicou por quatro
o seu nivel de produgqo, que agora che-
gou a 16,3 milh6es de toneladas.


Atrav6s da Mineraqao Vera Cruz, que
adquiriu do grupo ingl6s RTZ, a Compa-
nhia Vale do Rio Doce vai comeqar a pro-
duzir no Trombetas, dentro de dois anos,
numa escala de quase um ter9o do que
produz a MRN, da qual tamb6m possui o
control acionario. Tudo o que sair dessa
segunda zona mineradora de bauxita do
Pard sera destinado A Alunorte, que esta
batendo seguidos records na produqgo de
alumina, insumo para o aluminio da Al-
bras, que evolui para consolidar sua posi-
gao de maior produtora do continent, oi-
tava maior do mundo.
Nrimeros grandiosos de uma situadio
que muda rapidamente para permanecer a
mesma: enormes escalas de produqgo, ne-
g6cios feitos em amplitude international,
e n6s, supostos donos e declarados benefi-
cidrios das riquezas, vendo as cenas trans-
correrem diante de nossas retinas sem en-
tender o que acontece. Freqtientemente,
alias, sem ver um palmo al6m do nariz.


Eduardo Lauande retransmitiu-me
a seguinte carta, que enderegou ao
prefeito de Belm, autorizando-me
a publicd-la.
Caro amigo Edmilson Rodrigues,
Li no Jornal Pessoal que tu proibiste
a participaq~o do meu amigo LUcio FlA-
vio Pinto num debate patrocinado pela
Prefeitura de Belrm.
Isso mais uma vez causa-me indignaqio!
Teus posicionamentos, vira e mexe,
deixa-me a sensaqao que veio A luz foi o
quadro de mis6ria intellectual que grassa e
ainda impera em nossa sociedade paraen-
se na continuidade da repressio a cultural
e de autoritarismo politico.
Assim como o reaciondrio Orqamen-
to Participativo do teu governor, tu tens
mais uma no teu curriculo de ocorren-
cia autoritiria contra a sociedade. Que
tristeza!
Apesar dos pesares, aquele abrago
do seu amigo,
Eduardo Lauande

1/2' QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal










A exposicao do ano,




assinada pelo alcaide


"Mards do C6u", a exposicio de 71 dese-
nhos de Edmilson Rodrigues, foi o aconteci-
mento do ano nas artes plisticas em Bel6m
neste ano. Nada menos que 341 pessoas com-
pareceram ao vernissage, no dia 27, no Mabeu
(Museu de Arte Brasil-Estados Unidos). Ja na
abertura, 15 obras foram vendidas, no valor de
14 mil reais. Se todo o conjunto fosse comer-
cializado, a renda da exposicgo seria de 74 mil
reais. Por decision do artist, essa receita sera
destinada ao Projeto Solar dos Sons, atrav6s
do qual a prefeitura procura desenvolver artis-
ticamente os filhos dos feirantes do Ver-o-Peso.
Por esse angulo, a iniciativa merece to-
dos os louvores. Mas sera que realmente es-
tamos diante de verdadeiras obras de arte, que
mereceram tantos elogios num catdlogo lu-
xuoso, dos melhores ji concebidos e impres-
sos para uma exposicqo no Para (comerci-
alizado a R$ 10 o exemplar)?
O p6blico e os avalizadores da exposigio
parecem responder afirmativamente. Cada de-
senho foi oferecido numa m6dia de preqo alta
para os padres locais: pouco mais de um mil
reais. Ha trabalhos, por6m, de R$ 2 mil. Um
desenho a caneta Bic (ao que parece, o dir-
ni-r-cri da criaqio p6s-modema paraoara), corn
5 por 10 centimetros, foi avaliado em R$ 500.
Por esses valores, Edmilson Rodrigues 6 o cre-
me de la creme das artes plisticas paraenses.
Se essa promessa se confirmar em futuras
exposiq6es, o empresirio Carlos Nascimento,
concessiondrio municipal do serviqo de lixo, teri
feito um bom investimento: ele pagou R$ 5 mil
por quatro desenhos de Edmilson, formando o
maior acervo da exposiqgo. Mesmo sendo ain-
da a primeira do novel artist, a mostra inaugu-
ral ji incluiu entire suas obras uma que foi extra-
ida do "acervo de Vera Rodrigues", precursora,
certamente, do estouro que se avizinha. Sinto-
maticamente, todas as vendas foram efetuadas
no primeiro dia, a vista do piblico, com a devi-
da recompensa na repercussao.
Nao ha dDvida que o arquiteto Edmilson
Rodrigues sabe desenhar. Seus trabalhos ates-
tam o dominio dos mecanismos bisicos dessa
t6cnica. Se ele fosse um estudante secundaris-
ta, sua exposiqio faria sucesso em seu col6gio
e ele estaria credenciado a receber a aprova-
9go de seus mestres. Mas, aos 45 anos, a bitola
do grafismo nao deixa dtivida de que falta a
esse desenhista o sopro da criatividade e in-
ventividade do verdadeiro artist. Nao porque
ele ji esteja na fase da alta maturidade, vitima
de um bordao preconceituoso (segundo o qual
papagaio velho nao aprende a falar). Mas por-
que tentou ser artist e nao conseguiu.


O trabalho mais antigo da exposiqgo, de
1980, document esse esfor9o: an6nimo profes-
sor entao, conhecido apenas no circulo profissi-
onal e pessoal, Edmilson tentou experimentar
as tintas e tentar o abstracionismo. A intencgo
do artist nesse trabalho inico 6 tao nitida quanto
seu insucesso. A partir daf, ele parece ter aceita-
do que seu universe se circunscrevia ao traqo,
cor a ajuda de ferramentas mais ajustadas aos
seus recursos. Na exposicao, do period de cri-
aqio de Edmilson entire 1980 e 1996, quando
ele se elegeu prefeito de Bel6m pela primeira
vez, aparecem apenas oito trabalhos. Do perio-
do 2001-2003 foram selecionados 44 trabalhos.
Em quatro meses deste ano o arquiteto-artista
produziu 16 obras aproveitadas na mostra.
A conclusao 6bvia dessa cronologia 6 de
que a dimensao da exposiq~o deve-se menos
as qualidades intrinsecas do artist do que a
circunstancia de estar ele revestido da autori-
dade de prefeito da capital paraense. Aulicos,
fornecedores, empreiteiros, subordinados e,
claro, tamb6m amigos se sentiram no dever de
multiplicar por varias vezes os m6ritos do de-
senhista para que sua fundaqCo se tornasse um
marco publicitario e politico. Nada de novo:
assim funcionam as cortes.
Mas, beneficio social a parte pela destina-
qCo altruistica da renda da exposicao, ela tem
dois efeitos danosos. Levado a crer na consis-
tencia de sua veia artistic, o prefeito vai ex-
pandir o habito de produzir em solenidades
piblicas a que comparece, ignorando os pre-
ceitos da cortesia e da educaqao que a co-ha-
bita~go na mesa official Ihe imp6e diante dos
demais, inclusive do ptblico. Enquanto o vi-
zinho se esgoela, ao seu lado o prefeito-artista
se p6e a desenhar "em moments de profunda
reflexao", conforme atesta Marcio Meira no
catalogo da exposicqo.


Incorporando as vestes de artist de oca-
siao & estalo, Edmilson faz questao de apon-
tar nos seus trabalhos o moment da fecunda-
q~o. Um desenho foi tra9ado durante o semi-
nirio de prefeitos do PT, no dia 26 de janeiro
do ano passado. Nesse mesmo dia, mas ji no
escrit6rio do senador Jorge Viana, a fecundi-
dade obrou outro desenho (cotado em R$ 1,6
mil). Melhor resultado ainda alcancou o artis-
ta cor um desenho a Bic do rosto de um indio
leitmotivv da obra), garatujado em junho de
2001, que subiu na bolsa para R$ 2 mil. Valor
atribuido a desenho que veio ao mundo em
qualquer dia de 2001, durante encontro sobre
educaqio infantil.
O outro efeito lesivo desse sucesso de en-
comenda 6 sobre a pr6pria arte e os incontes-
tiveis artists. Como seria uma exposiq~o de
Edmilson Rodrigues sem as luzes da prefei-
tura? Quanto valeriam seus trabalhos sem seu
titulo poderoso? O que diriam deles os criti-
cos, se critical para valer ainda houvesse em
Bel6m? Numa 6poca em que prevalecem as
unanimidades coniventes, o desenho escolar
de Edmilson Rodrigues vira boa arte e a
ginkana de fonemas de Salomao Laredo se
torna faqanha literaria.
O cendrio me faz lembrar de Jean-Chris-
tophe, o romance atrav6s do qual Romain Ro-
Iland nos fez entender como, de uma alta civi-
lizaq~o como a alema, surgiria o nazismo, corn
um moment fugaz de ilusdo em Weimar. Mas
neste jomalzinho, nao, gabiru: aqui, o prefeito
produziu desenhos escolares e Laredo, pasti-
ches. Um se valendo do seu cargo, outro do
seu encosto jornalistico.
Um dos moments de maior felicidade na
minha vida foi, em 1990, ir A exposiqco do
bicentendrio de Van Gogh, em Amsterdam, e
dar, logo na entrada, com todas as cartas que
ele escreveu para o irmao, Theo, integralmen-
te enfileiradas nas paredes como se fossem
telas. Ler diretamente aquelas cartas fascinan-
tes e saborear os desenhos do artist, que ocu-
pavam boa parte do papel como vinhetas de
um fabuloso process de nascimento de um
dos maiores artists da hist6ria humana, me
encheu de tal admiragqo por esse process da
gestaFgo da grande criagao que me sinto na
obrigaq~o, em defesa desse prazer e dessa
ventura, de desejar ao desenhista Edmilson
Rodrigues um silincio fecundo at6 a pr6xi-
ma exposiqao. Se possivel, criando junto com
a melhor das mestras: a solidao do eu. Nao,
de forma desabusada, em solenidades pdbli-
cas para as quais foi convidado em funqCo do
seu cargo e nao da sua pessoa.


Journal Pessoal 1/2; QUINZENA/JUNHO DE 2003








MEM6RIA DO COTIDIANO


Restaurant
Quem fosse ao bar do Avenida Hotel, na
President Vargas (ainda 15 de Agosto na
6poca), em 1953, podia usufruir as quali-
dades do "migico da cozinha e dos fil6s",
como se apresentava ao p6blico o cozi-
nheiro do restaurante diferente da cida-
de": "Em Bel6m, na capital, nao hi igual",
proclamava o rimado anincio. O funcio-
namento ia de oito da manha A meia-noi-
te, sem parar. Como nas grandes cidades.

Carnaval
A Uecsp (Unido dos Estudantes dos Cur-
sos Secunddrios do Parn) se orgulhava das
festas de carnaval que promovia. A "Noi-
tada Carnavalesca" de 1954 foi realizada
na segunda-feira gorda, "nos amplos sa-
l es do Jockey Clube do Parn, A avenida


Sao Jeronimo, 130", com inicio As 10 ho-
ras da noite. Na convocaqco aos foli6es
estudantis, o president da entidade, Ira-
waldyr Rocha, advertia: "Seri expressa-
mente proibido o uso de lanqa-perfumes".
Pois sim.

Livraria
A Livraria Dom Quixote comerou sua
existencia, em janeiro de 1960, agitando
os arraiais intelectuais de Bel6m com tres
sucessivos lanqamentos de livros. Depois
de um livro de contos do c6nego Apio
Campos, foram os romances "Marabi", de
Libero Luxardo, e "Terra Molhada", de
Candido Marinho da Rocha. Tres autores,
tries livros. Nada de ginkana de H6rcules
ao tucupi, com seus 12 livros.
A livraria, fundada pelo escritor e jor-
nalista Haroldo Maranhao na galeria do


Palicio do Radio, tornou-se um freqtien-
tadissimo ponto de encontro. Nela, al6m
de disporem de livros escolhidos com bom
gosto e inteligencia, os intelectuais nao
suavam. Foi a primeira livraria com ar
condicionado de Bel6m.

Carteiras
O deputado federal paraense Gabriel Hermes
Filho e o senador paulista Lino de Matos fo-
ram os grandes prejudicados durante a recep-
qco a Jdnio Quadros, no aeroporto de Val-de-
Cans, em janeiro de 1960. Punguistas "bate-
ram" as carteiras dos dois parlamentares. O
paulista, da comitiva do president eleito, ti-
nha 19,7 mil cruzeiros na carteira, al6m de
fotografias da esposa e da carteirinha de re-
conhecimento do Palicio Monroe, onde fun-
cionava o parlamento, no Rio de Janeiro. Do
paraense, nada foi dito. Nao por acaso.


1 ( ) P/2 QUINZENA/JUNHO DE 2003 Jornal Pessoal


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Campanha
pelo capital
Um ano antes de trocar de sigla e de po-
litica, o Banco de Cr6dito da Amaz6nia (que
comeqou como Banco da Borracha, duran-
te a Segunda Guerra Mundial, e se transfor-
maria em Banco da Amaz6nia, o atual Basa)
fez uma campanha de propaganda, em 1965,
para atrair investimentos para a regiao. Pro-
metia ao capitalist uma boa taxa de lucro
se decidisse entrar no neg6cio.
Podia comeqar nao pagando metade do
imposto de renda devido. Ao inv6s de reco-
Iher o dinheiro na toca do future ledo da
Receita Federal, podia depositi-lo em uma
das 49 agnncias que o BCA possufa em todo
o territ6rio national. Tris anos depois o di-
nheiro seria liberado em favor do empreen-
dimento que o pr6prio investidor elabora-
ria, submetendo-o a aprovaqio da Spvea (a
antecessora da Sudam, que surgiria tamb6m
em 1966) e do banco.
O antincio, dirigido aos optantes poten-
ciais de fora da Amazonia, lembrava que
desde a construqao da Bel6m-Brasflia, seis
anos antes, pronta para ser inaugurada por
ser obra prioritaria do governor federal (ah,
as prioridades oficiais!), a Amaz6nia estava
tdo distant do centro mais modern do pais
quanto o Rio Grande do Sul ou o Oeste Ma-
togrossense. Al6m de dispor de "uma quan-
tidade incalculavel de recursos vegetais, ani-
mais, minerals e de todos os generos", a
Amaz6nia apresentava um atrativo especial:
nela havia "Paz Social", avalizada pelo go-
vero forte, rec6m-instalado no pais.








MEM6RIA DO COTIDIANO


J6quei
O restaurant, o bar e a boate do J6quei
Clube do Pard, que funcionavam na aveni-
da Govemador Jos6 Malcher (a Sao Jer6-
nimo de entao), reabriram, em janeiro de
1960, sob a diregqo de um novo concessi-
onario, Miroslav Koudela. A entrada era
livre para os s6cios "e tamb6m para outras
pessoas de nfvel social compativel com o
Clube". Haveria almoqos nos sibados e
domingos. Em todas as noites seriam ser-
vidos jantares a beira da piscina, no salao
do restaurant ou na boate com ar refrige-
rado (detalhe muito valorizado na 6poca).
Todos os sibados haveria feijoada a cario-
ca, mas tamb6m pratos regionais.
Para colocar em atividade a segqo de
confeitaria, o concessionario contratou um
confeiteiro-mestre em Sao Paulo. A pisci-
na funcionaria de segunda at6 quinta-fei-
ra, de 14 as 18 horas; aos sibados e do-
mingos, de 10 as 18 horas. Ficaria fecha-
da todas as sextas-feiras

Vassourada
A aristocritica Assembl6ia Paraense foi
atropelada, no inicio de 1961, pela deci-
sdo do entao president Janio Quadros, em
pleno impeto moralizador, se cancelar to-
das as rifas e sorteios no territ6rio nacio-
nal. O clube teve que sustar a venda de
bilhetes do sorteio de um apartamento no
pr6dio onde instalou sua sede social. Num
comunicado, a AP anunciava que estava
elaborando "o esquema de devoluCgo das
importancias correspondents aos bilhe-
tes vendidos, na hip6tese de ser confirma-
da oficialmente aquela deliberaqgo".
Foi-o.

Faciola
Poucos se deram conta quando mais uma
das belas lojas do "fastigio da borracha"
desapareceu, em 1963. Tamb6m, quase
nio havia mais livros na Livraria Mara-
nhense, num dos pr6dios mais sofistica-
dos da rua Conselheiro Joao Alfredo, a
antiga (e agora em ensaio de renascimen-
to) da "via dos mercadores". Sem sua
mercadoria natural, o vazio das estantes
era escondido atrav6s da decoraqdo. Ape-
sar da sofisticaqgo das instalaqes, o am-
biente era de franca decadencia.
Mas foi com sua bem sortida livraria
(mais uma grifica nos fundss, sua con-
versa afiada, seus modos elegantes, seu
tirocinio e vrias habilidades, inclusive ao
piano, que o maranhense Ant6nio Faciola
fez fama e fortune. Construiu a primeira
mansdo no erritico bairro do Marco (da
16gua). Provocou inveja nas mulheres com


FOTOGRAFIA

Tem agua no leite
Uma das brincadeiras mais diab6licas da nossa 6poca de moleques em Bel6m era sair
atras das carrocinhas de leite e imitar o sim da sirene do carro de bombeiro. Era o bastan-
te para o patricio descer do seu posto, no control da carrocinha, e correr atris da mole-
cada com o chicote estalando. O medo era grande, mas quando j estivamos fora do raio
de alcance do leiteiro a sensacqo de triunfo era maior.
Para a minha geraq~o, essa era a relaqio mais saudivel que tinhamos com o leite. A
reaqao ao consume comeqava a surgir na hora de ferver o produto. Aquele inconfundivel
odor das impurezas anexadas ao liquido da vaca nos fazia preferir outro tipo de bebida.
Claro que havia tamb6m leites bons, mas, como mostra a foto, de uma blitz da Secretaria
de Saide numa das muitas vacarias que havia no perimetro urban de Bel6m, em 1961,
essa nao era exatamente a regra.
Contudo, era agraddvel ver as carrocinhas, puxadas a cavalo, surgirem com a aurora
da manha pelas ruas da cidade. Aos moleques, o que importava nao era o suposto saudi-
vel liquid guardado na parte traseira do veiculo, em vasilhames metdlicos, mas o distin-
to cocheiro da vanguard. A sugestdo de que o contetido transportado tinha mais de agua
do que recomendava a boa t6cnica, feita atrav6s da imitaao do som dos bombeiros
caqando incendios, provocava efeito quase imediato na maioria das circunstancias. A
molecada apostava que o patrfcio era espoletado o suficiente para sair atris do atrevido.
Bons tempos em que esse era o maximo de risco que se corria na aventura.


diamantes enfiados nos dedos. E se im-
p6s aos pares como prefeito da capital.
Quando a Livraria Maranhense se foi, nao
houve maiores registros do que represen-
tara. O passado ji era passado.

Secretariado
Secretariado que tomou posse com o go-
vernador Aur6lio do Carmo, em 1961: Jos6
Maria Mendes Pereira, na chefia de gabi-
nete; Joao Augusto Correa, official de ga-
binete; 1 tenente Durval Nogueira de
Sousa Filho, assistente military; 2 tenente
Elidio Nogueira Lima, ajudante de or-
dens; P6ricles Guedes de Oliveira, Secre-
taria de Interior e Justiga; Waldemar Gui-
maraes, Secretaria de Finangas; Evandro
do Carmo, Seguranga Piblica; Arnaldo
Moraes Filho, Secretaria de Governo;
Amflcar Carvalho, Satde; Benedicto
Monteiro, Obras; Am6rico Silva, Produ-
cao; Ant6nio Lobo, Departamento de Es-
tradas de Rodagem.


Devastaqao
Dendncia feita em 1961: arvores de ucudba
e andiroba estavam sendo postas abaixo no
vale do rio Tocantins e levadas para serrari-
as de Bel6m e Mosqueiro, onde eram trans-
formadas em tibuas para caixas leves. A16m
da devastagao, havia uma perda econ6mica
na operagqo: o 6leo de andiroba rendia mui-
to mais do que na forma de madeira s6lida e
o preqo pela ucuiba era infimo diante do
seu valor depois de beneficiada.
O enredo nao mudou muito, 40 anos
depois.

Fria
O "encostado" EPS ocupava, na policia, a
funcao de agente de pensdo". Conseguiu
ser promovido a escrivio. Ja no cargo, re-
digiu, em 1966, um oficio solicitando a re-
moqio "de um cadaver que falecera". Nao
conseguiu a remoqCo, mas ficou famoso.
N~o exatamente por sua intelig8ncia.


Jomal Pessoal I:/2" QUINZENA/JUNHO DE 2003 4 4










Eletronorte.:



um passive de 30 anos


No dia 20 a Eletronorte completard 30
anos. Nasceu em Brasilia para construir
na Amaz6nia a maior hidrel6trica intei-
ramente national. Permanece com sua
sede em Brasilia, enquanto todas as ou-
tras empresas regionais do sistema Ele-
trobris se instalaram nas suas areas de
jurisdiqCo, no Nordeste, no Centro-Sul ou
no Sul do pais. A Eletronorte ndo teve
essa prerrogativa, provavelmente porque
o poder central queria acompanhi-la bem
de perto. Sua missao era extremamente
dificil: garantir uma vasta quantidade de
energia firme a uma ffbrica que os japo-
neses projetaram instalar na Amaz6nia,
que seria a maior do mundo.
Tucuruf e Albris surgiram, em T6-
quio, como irmdos siameses. Do parto
deu noticia para o general Geisel, em
Brasilia, o ministry das minas e ener-
gia, o nissei Shigeaki Ueki (ironias ou
sadismo da hist6ria?). Os japoneses fi-
nanciariam um terco do custo e ficari-
am com um terco da energia da mega-
usina. Assim garantiriam montar, a 20
mil quil6metros de distancia do seu ter-
rit6rio, uma fibrica que lhes supriria um
terco de todas as suas necessidades de
aluminio quando fechassem todas as
suas pr6prias fabricas, inviabilizadas
pela elevacao do custo da energia (pro-
vocada pelo choque do petr6leo dado
pela Opep). O aluminio 6 o produto in-
dustrial que mais consome energia.
A Albris, empresa fundada pelos ja-
poneses e a Companhia Vale do Rio
Doce, multiplicaria por quatro a produ-
9ao brasileira de aluminio de entdo e ab-
sorveria seis vezes mais do que o con-
sumo paraense de energia de entao. Pen-
sando melhor, os japoneses reduziram a
fibrica r metade. Continuava grande, a
maior do continent, mas diminufa a de-
pend6ncia nip6nica de um 6nico forne-
cedor, tdo important e incerto, sujeito
a flutuaq6es e imprevistos. Talvez por
causa das preocupaq6es de T6quio, Bra-
silia tenha decidido manter a Eletronor-
te sob r6dea curta, controlando cor mao
de ferro o andamento dos serviqos na hi-
drel6trica de Tucuruf, a maior obra pi-
blica de toda a hist6ria da Amaz6nia.


O control nao foi rigido em relacgo
ao oraamento, que estourou virias ve-
zes, comeeando em 2,1 bilhoes de d61a-
res e indo parar, em calculo rigoroso, em
uns US$ 10 bilhoes. Os japoneses, aten-
tos a esse digamos assim detalhe,
pularam fora da obra. Nao financiaram
um iene para Tucuruf, bancada integral-
mente pelo tesouro national, a base de
financiamentos extorsivos e cliusulas
leoninas (os franceses, al6m dos juros,
ganharam o direito de fornecer metade
das 12 enormes turbines da usina da pri-
meira fase). Foram aplicar seu dinheiro
na primeira etapa da Albris, fartando-
se de tirar vantage de cliusulas unila-
teralmente vantajosas. Para eles, claro.
Comprometido autoritariamente com
a viabilizaqao de uma empreitada de mag-
nitude universal, v6rtice do maior pro-
cesso de transferencia industrial do s6-
culo passado (que possibilitou ao Japdo
fechar todas as suas fibricas de aluminio
sem sofrer desabatecimento, ainda ga-
nhando na relaq~o de troca graqas ao sub-
sidio energ6tico brasileiro e A deteriora-
qao do valor relative da commodity), o
governor federal usou mdo forte contra os
natives. Num dos seus gestos mais tris-
tes, o president Ernesto Geisel isentou
a principal empreiteira da obra, a Cons-
trutora Camargo Correa, do pagamento
do ISS, o imposto que possibilitaria ao
municipio (ao menos em tese) minorar
as condiq6es de vida de seus cidadaos,
assolados por uma migraqao violent e
todas as suas seqtielas sociais.
Enquanto tudo foi feito para resol-
ver a equacao de custos do p6lo de alu-
minio, pouco foi concedido ao usufruto
local da grande obra. Os japoneses rea-
lizaram uma facanha industrial a um
custo lesivo aos nossos interesses. O
saldo negative pode ser contabilizado
em bilhoes de d6lares se quiser incluir
aquela corrupq~o denunciada, entire qua-
tro paredes, pelo artifice dessa alianqa
nipo-brasileira, o engenheiro Eliezer
Batista. Numa entrevista que concede
a duas pesquisadoras, ainda nao publi-
cada (mas divulgada por este journal,
numa exclusividade que diz muito so-


bre a vacuidade das nossas representa-
qoes da opiniao piblica), Eliezer disse
que se nao tivesse havido corruppqo na
construqao de Tucuruf, nao teria sido ne-
cessirio subsidiary as ind6strias de alu-
minio (em Barcarena e Sao Luis do
Maranhdo) do Programa Grande Cara-
jas. Esse subsidio, em vigor at6 maio do
pr6ximo ano, com 20 anos de duraqao,
6 de, no minimo, dois bilh6es de d61a-
res (ou seis bilhoes de reais).
A hist6ria dos 30 anos da Eletronorte
represent um desafio aos paraenses. Ha-
bitantes de um Estado que contribui cor
80% da capacidade de geraqao da empre-
sa e 8% da producqo energ6tica nacio-
nal, o Pard precisa trazer a Eletronorte
para o seu territ6rio e assumi-la. Assu-
mi-la nao por causa de uma franquia ge-
ogrdfica accidental, mas por direito na for-
ma da lei e no conteddo da compet6ncia.
A primeira condiq~o, atendida, s6 nao se
efetivou porque Brasilia descumpre a lei.
A segunda ainda 6 uma inc6gnita, na qual
nao nos envolvemos como deviamos.
No mes passado o senador Luiz Oti-
vio Campos, do PMDB, props a transfe-
rencia da sede da Eletronorte para Bel6m.
Logo seu projeto esbarrou na reacao mais
corporativa e burocritica: o custo desse
remanejamento de pessoal e da estrutura
ffsica da empresa. Comparado aos male-
ffcios dessa localizaqao viciada, o custo
de relocar gente e equipamentos 6 nada se
a Eletronorte perder sua condicio metro-
politana e colonial, al6m da arrogancia
contumaz, que nem o atual esforgo de re-
ciclagem foi ainda capaz de eliminar.
Claro que nao basta (e pode at6 nao
servir de melhoria) a mudanqa de base
da empresa. NMo 6 s6 ela que precisa se
arejar e adquirir viqo social e regional:
acima de tudo, a principal transforma-
cgo precisa ocorrer na political da qual a
empresa 6 ferramenta. Mas trazendo a
Eletronorte para a Amaz6nia, sua region
de atuaqdo, e colocando sua sede em Be-
16m, capital do grande Estado produtor
de energia, pelo menos estaremos im-
pedindo que ela continue a ser o que tem
sido at6 agora: um cavalo de Tr6ia den-
tro das muralhas amaz6nicas.


I o l e a i, cvs .P o- e 0 2 6o : na n ant 5 3 30 e- lo l n mb d : gl P o i zi