Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00251
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00251

Full Text





jomal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO


2' QUINZENA
MAIO
DE 2003


DESENVOLVIMENTO



A marca de Lula

0 president Lula reacendeu as esperangas de que seja possivel corrigir os erros no
model de ocupagdo da Amazonia. Numa reunido com os governadores (exceto o do
Para), Lula se comprometeu a colocar a floresta como prioridade do desenvolvimento
e ndo mais da destruigdo. Desta vez 6 para valer?


lhoes de reais (ou mais de 120
bilh6es de d6lares) de recursos
pdblicos foram aplicados na
Amaz6nia, com o objetivo de desenvol-
ver a regiao, segundo a contabilidade
official. Da uma m6dia de R$ 37 bilh6es
(ou US$ 12 bilh6es) por ano. Esse di-
nheiro todo, origindrio do Fundo de In-


vestimento da Amaz6nia (Finam), Fun-
do Constitucional de Financiamento do
Norte (FNO), Banco do Brasil, Caixa
Econ6mica e bancos comerciais, daria
para desenvolver qualquer fronteira do
mundo. Mas nao teve esse efeito na
Amazonia Legal.
C [N P0G. 2


ANO XVI
NQ 302
R$ 3,00


~










Muito pelo contr.rio. O Produto Inter-
no Bruto (PIB) regional somava R$ 73
bilh6es em 2000. Representava apenas
6,5% do PIB do Brasil, uma participacgo
que sequer retrata a grandeza demogrifi-
ca da regiao, que possui 12% da popula-
qao brasileira, o dobro, portanto, da sua
expressed econ8mica. Nao surpreende,
assim, que o PIB amaz6nico per capital,
de R$ 3.500, corresponda a pouco menos
dois tergos desse indicador em terms na-
cionais (que ji inclui o Nordeste, claro).
Manter o modelo de ocupacao da Ama-
z6nia significa condenar a regiao a um de-
senvolvimento desigual, injusto, explosi-
vo; que subdesenvolve ao inv6s de desen-
volver; que mais destr6i do que constr6i;
que sacrifice, hoje, os recursos que Ihe vio
faltar no future, dilapidando seu enorme
capital contido (e oculto) na natureza. Ou-
tros governor ji conseguiram fazer esse
diagn6stico, embora sem avancar al6m das
palavras e do formalismo. Alguns tentaram
corrigir os erros. Mas nenhum mudou os
rumos da Amazonia de tal maneira que ela
escapasse a um fatalismo das filtimas d6-
cadas: crescer se empobrecendo.
Entre os dias 9 e 10 o governor do PT
apresentou, em Rio Branco, no Acre, mais
um diagn6stico correto dos problems
amaz6nicos e novas promessas para resol-
ve-los. A rigor, nao haveria novidade para
os observadores mais antigos e experimen-
tados da cena regional. Por isso mesmo
mais c6ticos quando se trata de palavras
ou pap6is. No entanto, o president Luiz
Indcio Lula da Silva se credenciou a um
voto de confianga. Ele efetivamente ino-
vou em relag~o aos seus antecessores.
Em primeiro lugar por ter, finalmente,
estabelecido como prioridade das political
p6blicas o recurso mais valioso da Amaz6-
nia: a sua floresta. At6 agora, comprovan-
do o tom colonial dessas polfticas, a priori-
dade vinha sendo dada a outros componen-
tes, todos secunddrios, do bioma amaz6ni-
co: seu solo, seu subsolo e, por irracional
que seja, o desmatamento. Ou seja: a con-
versao da floresta em pastagem, lavoura,
plantation, estrada, etc. Uma political ba-
seada numa negatividade (a alteracqo da
composiq~o natural) ao inv6s de numa ca-
teg6rica positividade (o aproveitamento das
maiores riquezas ja existentes na regiao,
dependendo de descobertas e invenq6es).
Pela primeira vez um president anun-
cia que a agao pdblica, desta vez, vai se
voltar para a preservacgo, o uso econ6mi-
co, o manejo, o conhecimento e o desfru-
te do element majoritirio na regiao, a sua
floresta native, juntamente com sua enor-
me bacia hidrogrifica, sem igual no pla-
neta. Para nio ficar apenas no ora veja,
como alguns de seus antecessores, Lula
carregou na sua comitiva os presidents


do Incra (Instituto Nacional de Coloniza-
co e ReformaAgrria) e do Ibama (Insti-
tuto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renoviveis). Ali mes-
mo os dois assinaram um protocolo para
substituir o assentamento agririo pelo as-
sentamento florestal.
Ao inv6s de instalar colonos em areas
que eles, para ocupar, precisam desmatar,
na qual implantam cultivos de ciclo curto
de pouca ou nenhuma perenidade, deixan-
do como saldo a natureza saqueada e um
ciclo continuado de migragco humana, os
dois 6rgdos vao se empenhar em instalar
colonos harmonizados com a paisagem,
capazes de aproveitar produtivamente
tudo o que a floresta Ihes pode fornecer,
sem comprometer a continuidade do uso
do recurso. Isto 6: sem dilapidi-lo.
Numa Amaz6nia que ji perdeu 17% da
sua cobertura vegetal original e degradou
definitivamente pelo menos um quarto des-
ses 60 milh6es de hectares, uma tal politi-
ca poderd parecer ut6pica, delirante. Dian-
te dos parcos recursos que Incra e Ibama
dispoem no moment e de toda uma cultu-
ra contriria que precisarao enfrentar para
alcanqar os primeiros resultados nessa nova
diretriz, realmente a distincia entire o dese-
jado e o realizdvel 6 imensa, quase intrans-
ponivel. Mas pelo menos agora o governor
vislumbrou o rumo certo. Nao seguird nes-
sa trilha de for incompetent ou se mostrar
nada mais do que boquirroto. Nesse caso,
o que o president Lula anunciou no Acre
nao passard de mais uma bravata. Sua pre-
sid6ncia continuari reduzida a um palan-
que. Agora, imagindrio, intangivel.
No entanto, ele continue a merecer um
cr6dito de confianca. Podia ter simplesmen-
te juntado uma legiao de tecnoburocratas
em Brasilia, com ligeiras escalas (ou pas-
sagens ajato) pelas capitals amaz6nicas, e
apresentado sua versdo do PPA (Piano Plu-
rianual) para o period 2004-2007, seguin-
do o modelo FHC (como tem feito na polf-
tica national). Mas desta vez reuniu os go-
vernadores da regiao (a excecao do turrio
Simao Jatene) e os fez assinar um termo de
compromisso em conjunto. Nao para refe-
rendar um papel pronto e acabado, como
era a praxe. O document apresentado em
Rio Branco foi apenas o tiro de partida.
At6 o ponto de chegada, uma comis-
s~o interministerial, coordenada pelo todo-
poderoso chefe da Casa Civil da Presiden-
cia da Reptiblica, com a participagao de
representantes de todos os Estados da re-
giio, estari encarregada de dar a forma
final (no curto prazo de tres meses) ao
Program de Desenvolvimento Sustenti-
vel para a Amaz6nia. Espera-se que os
governadores nao considered que sua
participaqCo nesse program se limitara a
assini-lo, como fizeram no Acre. Passa-
rdo a ser responsAveis legais e morais pela
execucqo do que avalizaram.


O que o governor Lula esta propondo
colide em muitos pontos com o que os
governadores (e boa parte das elites regi-
onais) tnm dito e feito. Eles devem estar
dispostos, por6m, a mudar (a mudanqa,
final, 6 a razao de ser dessa nova gera-
cqo de governantes, que pode se mirar no
exemplo argentino antes do efeito Orlo-
ff). Mesmo porque as premissas e as con-
clusoes do program estao acima de sua
capacidade de questionamento.
Quem podera discordar de que os ma-
gros resultados alcanqados por uma political
de desenvolvimento do tamanho de 370 bi-
lh6es de reais se devem a "estrutura produ-
tiva excessivamente concentrada, com re-
duzida articulagqo end6gena; reduzida ca-
pacidade cientifica e tecnol6gica instalada,
que limita iniciativas para a conservaqao,
recuperaqao e aproveitamento econ6mico
sustentavel de seus recursos naturais; escas-
sez e deficiencia de infra-estrutura econ6-
mica; baixos nfveis educacionais; grave qua-
dro de desarticulaqco agrdria, do qual deri-
vam s6rios conflitos de terra; crescente e
desordenado process de urbanizagqo, de-
terminando enormes carencias de infra-es-
trutura e serviqos sociais; deficiente sistema
de gestao do territ6rio amaz6nico e incipi-
ente uso de processes disciplinadores de
gestao ambiental", conforme o document
official apresentado no Acre?
Como negar que "o desenvolvimento
da regido requer uma agio coordenada de
governor, visando um novo padrdo de fi-
nanciamento, cor prioridade na alocacao
de recursos para a produqao sustentavel
com tecnologia avancada, gestao ambien-
tal e ordenamento territorial, inclusdo so-
cial e cidadania e infra-estrutura para o
desenvolvimento"?
O Program de Desenvolvimento Sus-
tentavel para a Amaz6nia, que surgira em
90 dias, deveri contemplar, prioritaria-
mente, a produgio sustentivel com tec-
nologia avanqada, novo padrdo de finan-
ciamento, gestao ambiental e ordenamen-
to territorial, inclusao social e cidadania,
e infra-estrutura para o desenvolvimento.
O governor consider exeqiiivel essa
plataforma porque ji existiriam, hoje,
"condicqes para um novo ciclo de desen-
volvimento que combine diversificapqo da
producqo com incorporag~o de inovaq6es
tecnol6gicas e agregacqo de valor aos pro-
dutos regionais, possibilitando nova inser-
gqo no mercado national e international
que, ao mesmo tempo, estimule a geragao
de empregos, melhor distribuicio de ren-
da e redugao dos impacts ambientais".
Para implantar uma efetiva gestao am-
biental e um ordenamento territorial e fun-
diirio, capaz de mudar o modelo de ocu-
paq~o, o governor diz que vai recorrer a
ferramentas como o zoneamento ecol6gi-
co e econ6mico, o sistema de licenciamen-
to ambiental em propriedade rural, o or-

2" QUINZENA/MAIO DE 2003 Jornal Pessoal








denamento fundidrio, a revisao do mode-
lo de reform agraria e a consolidacao de
um sistema de areas protegidas.
Essas normas se aplicardo a toda a Ama-
z6nia, mas ja ha um alvo selecionado para
uma aq~o imediata destinada a distinguir
com clareza a terra piblica da privada,
como condiqgo essencial para mudar o atual
quadro de conflitos. Atenqao especial de-
vera ser dada As Areas consideradas mais
critics, como no eixo de expansao do des-
matamento, ao long da rodovia Cuiabi-
Santar6m, e na area conhecida como Terra
do Meio, no vale do Xingu.
O grande teste para a implantaqao do
novo modelo sera mesmo o "Projeto de
Assentamento de Produqao Florestal, com
base Familiar e ComunitAria", que o In-
cra e o Ibama vao conduzir. Sua clientele
6 vasta: 380 mil unidades de produqgo de
pequena escala e os migrants que se ha-
bilitarem. Eles terao que desenvolver, corn
prioridade, atividades de manejo florestal
comunitArio, de extrativismo e outras
aq6es que represented baixo impact
ambiental. Essas atividades serao imple-
mentadas nas areas de cobertura florestal
primaria e, em forma alternative, nas de-
mais existentes.
Mas para que esse program d6 certo
nao bastara fazer uma boa seleqao de colo-
nos, instala-los nas areas adequadas, acom-
panhar sua atividade, dar-lhes apoio t6cni-
co e de infraestrutura. Sera precise mudar
toda a cultural agropecuaria e a 16gica do
desmatamento. Mesmo dentro do governor
havera resistencias muito fortes a essa trans-
formacao, que exigirA uma verdadeira re-
voluq~o de mentalidade e de operacionali-
zaSgo, inclusive para que haja recursos fi-
nanceiros em condiq6es de sustentar a vas-
ta reciclagem do aparato ptblico e privado
na regiao. Os mecanismos de cr6dito dife-
renciados serAo um capitulo a parte nessa
batalha. A assistencia t6cnica competent
sera outro imenso desafio.
Atrav6s do termo de cooperaqao que
Incra e Ibama assinaram, com validade de
quatro anos, o governor parece empenha-
do em demonstrar que esta plenamente
consciente dessas dificuldades e disposto
a enfrenta-las. Sua maior arma de comba-
te sera o Banco da Amaz6nia, no ato pre-
senteado com um reforqo de caixa de qua-
se R$ 230 milh6es e com novas perspec-
tivas institucionais. Mas diante da exten-
sao da guerra em perspective, o que inibe
maior entusiasmo nao 6 nem principal-
mente a fragilidade dos recursos ja empe-
nhados no novo program, mas a falta de
sinais concretos de mudanqas efetivas no
pr6prio governor para fazer os observado-
res mais exigentes se convencerem de que,
desta vez, a mudanqa 6 mesmo para valer.
S6 ter f6 no que vira nao basta, embo-
ra, pelo menos, haja com que objetivar a
f6 em tempos melhores. g

Jomal Pessoal 2" QUINZENA/MAIO DE 2003


Hidrovia do Araguaia


e apenas um nome


O orqamento geral da Uniao para
este ano prev8 a aplicacgo de apenas
5,5 milh6es de reais nas hidrovias da
Amaz6nia Oriental. O maior item des-
sa programacqo (R$ 3,1 milh6es) nem
6 para investimento, mas para o cus-
teio da administraqao das hidrovias.
Dos R$ 2,4 milh6es destinados aos
projetos, o mais bem aquinhoado 6 o
da hidrovia do Capim, que recebera R$
1,6 milhio. Outros 700 mil irao para o
porto de Cameta e 80 mil para a hi-
drovia do Maraj6. Embora todos es-
ses projetos estejam abrigados sob o
manto protetor do "corredor Araguaia-
Tocantins", essa hidrovia mesmo nao
recebera um tostao furado do governor
federal no present exercicio. Apenas
cede o nome para usufruto acheio.
Assim, o governador Blairo Mag-
gi, de Mato Grosso, esta atualizadis-
simo com o humor do PalAcio do Pla-
nalto (ou a Granja do Torto) quando
diz que, se defender dele, o projeto da
hidrovia Araguaia-Tocantins vai con-
tinuar onde esta: na prateleira. O go-
vernador, que 6 tamb6m um grande
produtor e exportador de soja, nao
acredita na viabilidade econ6mica des-
ta hidrovia "porque, ao contrario da
Paraguai-Parana, ela nao tem navega-
qao commercial Para ele, o dinheiro
que for gasto para qualquer tipo de
retificaqao nos dois rios, para aumen-
tar o colado dos seus leitos e prepara-
lo para receber embarcaq6es de maior
calado, nao tera retorno.
A 16gica do projeto do Araguaia-
Tocantins, referendado em 1995 pelo
governor federal como um dos eixos
do program Avanqa Brasil (que 6
tamb6m o Piano Plurianual, ou PPA
- 2000/2003), 6, portanto, reduzir os
custos do escoamento da produqco de
soja do Centro-Oeste do pais para Ro-
terdam, na Holanda, atrav6s do porto
do Itaqui, em Sao Luis do Maranhao,
que 6 o porto de carga geral, ao lado
do Porto da Ponta da Madeira, con-
cedido a Companhia Vale do Rio
Doce, especializado em gran6is. Es-
ses sao tres dos maiores portos mun-
diais. O Tocantins-Araguaia s6 inte-
ressa at6 o ponto de intersecqao com
a Ferrovia Norte-Sul ou a Ferrovia de
Carajas. O porto litoraneo do Pard nao
6 considerado.


A luta para modificar essa decisao
(superior, como de praxe) envolve dois
niveis. Um 6 o de nao permitir que a
hidrovia do Araguaia-Tocantins seja
um modal utilitario, que s6 sera usa-
do em metade do seu percurso. O pla-
no original previa uma hidrovia de
2.012 quil6metros, atravessando cin-
co Estados, desde as nascentes do Ara-
guaia at6 Bel6m. Nao se pode permi-
tir que uma obra de interesse regio-
nal, voltada para o desenvolvimento
interno, se transform num corredor
de exportagao, atendendo apenas in-
teresses empresariais ou comerciais.
O segundo nfvel diz respeito A
qualidade da obra. Como foi conce-
bida e esta sendo executada, a hidro-
via esta realmente ajustada as exigen-
cias mais atuais para nao acarretar
danos ambientais, que nao s6 com-
prometeriam sua perenidade como
causariam prejuizos aos seus clien-
tes potenciais? Nesse caso, 6 inc6mo-
do lembrar que o Estudo de Impacto
Ambiental (EIA/Rima), elaborado
pela Fadesp (a fundacgo de pesquisa
da UFPA), foi rejeitado pela Comis-
sao de Meio Ambiente da Cimara dos
Deputados, depois de dentncias de
ambientalistas, t6cnicos, especialistas
e ONGs. O trabalho 6 mesmo incon-
sistente. Mas foi esse fator o que mais
pesou na rejeigao da hidrovia?
Nao se pode ignorar o efeito do
projeto sobre 10 areas de conservacao
ambiental, incluindo a maior ilha flu-
vial do mundo, a Ilha do Bananal, 35
Areas indigenas, com uma populacgo
de 10 mil individuos, das intervenq6es
que o home fara no leito dos rios,
dentre as quais 87 explosdes de dina-
mite, com o objetivo de destruir di-
ques naturais de formacqes rochosas.
E precise ter um control das conse-
qtiincias o mais rigoroso possivel.
Mas tamb6m nao esquecer que um dos
grandes direitos a que a populagao
dessa regiao se credenciou, com sua
ocupaqao da area, 6 ter um rio nave-
gAvel para usar. Em seu pr6prio pro-
veito e nao apenas dos que ficaram
com os frutos do seu trabalho, adqui-
ridos a preco vil.
Nesse Avanqa Brasil, a Amaz6nia
fica com as migalhas do que restar em
nosso pr6prio territ6rio.










0 trem apitou.



E o minerio acabou


O Amapa esta neste ano diante de duas
datas importantes na sua hist6ria: complete
60 anos de vida e o fim do contrato de con-
cessdo da exploraqdo da maior de suas rique-
zas, a jazida de manganes de Serra do Na-
vio. Sdo datas que dio para comemorar um
pouco e chorar, muito.
Em 1943 o Amapa foi desmembrado do
Estado do Pard e transformado em territ6rio
federal, irmdo de criaqco do Guapor6 (hoje
Rondonia) e Boa Vista (atual Roraima). O Es-
tado Novo de Getiilio Vargas, em plena Segun-
da Guerra Mundial, obrigado a se juntar as for-
gas aliadas, apesar das simpatias pelo eixo,
imaginava que assim reforgaria as bases da
soberania national no setentriio brasileiro.
Menos de cinco anos depois a nova unida-
de federativa descobria sua grande riqueza, o
manganes. O primeiro navio carregando o mi-
n6rio para os Estados Unidos desatracaria do
porto de Santana ap6s pouco mais de uma d6-
cada da federalizacdo do territ6rio. Durante
40 anos a jazida de Serra do Navio, que abri-
gava um dos min6rios de mais alto teor do
mundo, foi exaurida. Em duas d6cadas de ex-
ploragdo mais intensive, o manganes saiu a
razto de um milhdo de toneladas a cada ano,
a prego de banana.
A Icomi, empresa formada pela associaqdo
da Bethlehem Steel, a segunda maior minera-
dora americana, com o grupo mineiro de Au-
gusto Antunes, deu por encerrada sua partici-
paqAo nessa empreitada antes mesmo de che-
gar ao fim, agora em maio, o contrato de con-
cessdo da explorag~o, de 50 anos.
As datas e as hist6rias do maltratado Ama-
pa nao estdo sendo lembradas. Trata-se de um
erro, sobretudo para o Pard, Estado minerador
por vocacqo geografica (ou, especificamente,
geol6gica). Devia prestar atencao ao que ocor-
re com seu vizinho e aproveitar as liqGes que
ele oferece, tanto mais valiosas por serem ex-
tremamente caras. Nao na nota de venda, mas
no valor real de pagamento.
Um ciclo de mineraqco comeqa com festas.
Quando terminal, seu fim costuma ser melanc6-
lico. O grande beneficiado geralmente nao esta
mais no lugar para prestar contas (daf a saida da
Icomi do Amapa "A francesa"). Os que haviam
associado a atividade econ6mica os seus sonhos
de desenvolvimento e progress veem-se, de sdi-
bito (tanto mais sdbito quanto maior for sua im-
previdencia) na rua da amargura. Da mineragao
costumam ficar os buracos e o apito do trem. O
que havia antes das escavaoqes fica apenas como
um retrato na parede e como d6i. Chorou essa
desgra9a, por todos n6s, o poeta itabirano Car-
los Drummond de Andrade.


Um tanto chocado e desorientado, o Ama-
pa busca um novo caminho para a esperanca.
A inica coisa de valor que a Icomi Ihe repas-
sou foram os 3,6 milh6es de toneladas de so-
bras dajazida de mangan6s, avaliadas em algo
como 80 milh6es de d6lares, segundo o depu-
tado estadual Jorge Amanajas, do PDT, que
presidiu uma CPI instalada no legislative para
investigar a questio.
O parlamentar quer que o poder p6blico se
assenhoreie logo desse min6rio para evitar que
a Icomi, num iltimo assomo explorat6rio, re-
tome o dominio das sobras do manganes. A
China estaria interessada em comprar esse es-
p6lio. Mas ha um problema acess6rio: as 78
mil toneladas de manganes contaminado de
arsenio, que 6 cancerigeno. Esse estoque re-
manescente foi abandonado no porto, is pro-
ximidades de um bairro, o Elesbao. Resultou
na maior multa por crime ambiental aplicada
na Amazonia, de 52 milhoes de reais. A pri-
meira tarefa do Fundo de Desenvolvimento
para a Serra do Navio, que seria formado corn
esses recursos, teria que ser dar um destino a
esse do residuo de min6rio.
Na sede da mineraqdo, a 200 quil6metros
do litoral, o inico bem do patrim6nio formado
pela Icomi que pode ser imediatamente utili-
zado 6 a vila residential. A ferrovia, que en-
trou em operag~o na segunda metade da d6ca-
da de 50 (do s6culo XX), ja era pouco usada
nos iltimos anos de atividade e nunca mais
recebeu investimentos, ou sequer manutengqo.
O mato tomou conta da linha, os trilhos foram
trocados e muitos dormentes ficaram inservi-
veis. Segundo um levantamento ndo-oficial,
para um custo de manutenc;o da ferrovia de
200 mil reais por mes, a receita seria de apenas
R$ 25 mil. Para continuar funcionando, a li-
nha teria que ser subsidiada pelo governor.
Quando assinou o contrato de exploragqo do
manganes com a Icomi, em 1947, o governor do
territ6rio pretendia realizar nao apenas o apro-
veitamento das jazidas, "mas, tamb6m, e espe-
cialmente, o desenvolvimento da regido, com a
melhoria das condiaqes econ6micas e sanitari-
as, com novos meios de transport, fixagqo de
n6cleos de populacgo, atividades agropecuari-
as, extrag~o de madeiras, inddstrias etc". Por
isso, as cliusulas do contrato "visam, de um lado,
proporcionar o maximo de oportunidade ao pro-
gresso da region e de outro proporcionar a em-
presa condioqes que facilitem e assegurem o
sucesso econ6mico do empreendimento".
A Icomi e, principalmente, a Bethlehem
Steel, ganharam e como! O Amapa, agora,
lamenta o min6rio mandado embora e o leite
derramado. Agora Ines 6 morta?


Compensagoes

Se a implanta~io do p6lo si-
derdrgico em Sao Luis se tor-
nar irreversivel, como parece
provavel, e mesmo que ainda
haja a possibilidade de fazer re-
troceder essa decisao, os para-
enses ja deviam comecar a tra-
balhar com as alternatives de
compensagao em favor do Es-
tado. Nao um cala-boca ou um
bombom para adoqar o purgan-
te, mas verdadeiras opq6es de
desenvolvimento.
Ja sugeri algumas, do p6lo do
aluminio ao iniciante nicleo de
cobre em Carajas. Mas ha vari-
as outras trilhas. Uma delas 6 o
tantas vezes anunciado e frustra-
do projeto da Mineragao Buriti-
rama de retomar o process de
lavra dajazida de manganes que
possui em Carajas, a 6nica que
nao esta sob o control da Com-
panhia Vale do Rio Doce.
Pelo iltimo cronograma, a
mina deveria ter comeqado pro-
duzir em 2001, mas permanece
inativa. O maior obstaculo para
a empresa 6 o transport do mi-
n6rio para exporta~io. Seja hou-
vesse a transposiq~o do rio To-
cantins na hidrel6trica de Tucu-
rui, a produ~io poderia ser trans-
portada por via fluvial at6 Vila
do Conde. Sem esse caminho,
resta a ferrovia at6 a Ponta da
Madeira, no Maranhao.
Economicamente, por6m, o
melhor caminho 6 a instalaCgo
de uma fundidora em Marabi
mesmo, evitando a said do mi-
n6rio in natural. A CVRD pode-
ria se comprometer a viabilizar
esse empreendimento, direta ou
indiretamente. Participando do
neg6cio ou oferecendo-lhe par-
ceiros e vantagens logisticas.

Perigo
Para as autoridades verifica-
rem: uma draga esta retirando
areia do fundo do rio Araguaia,
em frente a cidade de Concei-
cao do Araguaia, para a constru-
9qo do "Beradeiro", que seria
transformado em atra9ao turis-
tica, a semelhanga da praia do
Tucunar6, rio abaixo, ja no To-
cantins, defronte de Maraba.
Quem viu o trabalho ficou pre-
ocupado com o impact ambi-
ental do serviqo sobre o Ara-
guaia. Conv6m checar.


A 2" QUINZENA/MAIO DE 2003 Jomal Pessoal











Balango de um




cinqiientenario


Ja havia escrito meu artigo
sobre a Icomi quando me
chegou, via internet, uma
mensagem da empresa. A
primeira de uma serie,
atraves da qual pretend
esclarecer a opinido puiblica
sobre a desmobilizagao de
suas atividades no Amapa.


arante que o saldo de sua ativi-
dade 6 tdo francamente positi-
vo que p6de ser comemorado
pelos 30 trabalhadores rema-
nescentes da mineracio de mangan6s. No
iltimo dia 3 eles se reuniram num restau-
rante situado a beira de um igarap6, em
Santana, "marcados pelo tempo e pelas
lembrancas de uma vida dedicada ao tra-
balho e a formaaio de suas families. Fo-
ram pioneiros na chegada da ind6stria de
mineragio ao Amapi e se identificam fa-
cilmente cor a historic do Territdrio e do
Estado. Comemoravam a data de encerra-
mento definitive da Icomi.
Foi um encontro simples para compar-
tilhar experi6ncias de vida e reconheci-
mentos. Em cada um deles podia se reco-
Iher est6rias e historic, testemunhos vivos
de uma trajet6ria important para todos
os que 1I estiveram e para muitos outros
amapaenses ausentes e descendentes", re-
lata a mensagem da empresa.
Atrav6s desse exemplo, julga demons-
trar que, ao encerrar a exploraq~o da rica
jazida de Serra do Navio, esti deixando
um acervo de realizaq6es em beneficio da
terra. Lembra que ao se instalar no Ama-
pi "nio recebeu instalaoqes industrials,
equipamentos, via permanent e material
rodante da ferrovia, nem as mais de 300
habitaq6es da Vila Industrial de Serra do
Navio. Tamb6m nao recebeu "os hospi-
tais e escolas que ate hoje atendem a po-
pulaqio". Assegura que bancou todos os
investimentos com seus pr6prios recursos,
"sem nenhum aporte de capital do Terri-
t6rio ou do Estado do Amapi".
E verdade. E 6 verdade que outros
"grandes projetos" se implantariam pos-


teriormente, usufruindo favors e beneff-
cios oficiais, al6m de contrapartida de ca-
pital estatal. Mas na 6poca em que a Ico-
mi chegou ao Amapd o empreendedor pri-
vado, ao se instalar em area pioneira, ban-
cava seus custos, como fez Henry Ford
antes e faria Daniel Ludwig depois. Em
compensa9qo, as concess6es eram tio van-
tajosas que mais do que cobriam as inver-
s6es de capital privado. Ford recebeu um
milhio de hectares no Tapaj6s.
A Icomi ganhou o direito de lavrar, por
50 anos, uma preciosa mina de manganes,
mineral estrat6gico para a ind6stria side-
rirgica, do qual os Estados Unidos eram
carentes, dependendo de importaq6es (fei-
tas na distant Africa) para se suprir. Aldm
de poder operar uma ferrovia cativa. O con-
trato da Icomi esti na tradiqgo de outros
contratos anteriores e posteriores, como o
de fornecimento de energia para a Albris.
O principal beneficio que a Icomi de-
clara ter feito foi o pagamento de aproxi-
madamente 277 milh6es de d6lares ao
Estado, ao long da sua existencia. Da uns
US$ 6 milhoes ao ano, US$ 500 mil (R$
1,4 milhao) ao mes. Grande parte desses
recursos foi utilizada (e mal utilizada) na
construqdo da hidrel6trica do Pared.o, da
qual a Icomi mais seria beneficiada do que
o pr6prio Estado, atrelado a uma usina de
potencia semestral (como nio possufa re-
servat6rio, nao tinha agua para gerar ener-
gia na estiagem). Essa foi uma das causes
da nio industrializacqo do Amapi.
A empresa extraiu, em meio s6culo, 60
milh6es de toneladas de manganes da Ser-
ra do Navio e exportou 35 milh6es. S6 de
exportaqgo, daria a preqos de hoje, sub-
valorizados aproximadamente 1,5 bilhio
de d6lares s6 de vendas ao exterior, quase
exclusivamente para os Estados Unidos.
Ou 4,5 bilh6es de reals. Incluidos R$ 2
bilh6es de venda no mercado interno, a
receita da Icomi teria chegado a quase R$
7 bilh6es. O Estado ficou com menos de
um bilhao. Um residuo do que ganhou a
empresa e, ainda mais do que ela, o com-
prador do min6rio.
Ontem, como hoje, a political mineral
continue a mesma. As reserves medidas de
manganes do Brasil correspondem a 3%
dos dep6sitos mundiais. Sua producqo
equivale a quase 7% da producio mundial.
A Africa do Sul, que tem mais de 70% do
min6rio identificado na crosta terrestre,


produz 15%. Brasil e Austriliajuntos pro-
duzem tanto quanto os sul-africanos.
A Icomi sustenta que tamb6m contri-
buiu para o desenvolvimento da region
"construindo outros empreendimentos,
dos quais permanece ativo e cor grande
perspective de future a Amcel, hoje per-
tencente a International Paper, um dos
maiores grupos internacionais do ramo de
papel e celulose". Acrescenta que a IP, que
adquiriu a Champion Celulose, antiga pro-
prietiria da Amcel, "ter plans de expan-
sao para sua empresa no Amapi".
Tamb6m 6 verdade. Mas at6 agora a
Amcel tem sido uma tipica empresa co-
lonial: limita-se a produzir e exportar ca-
vacos de madeira. Ja atua hi mais de
duas d6cadas dessa forma. Um pass
al6m na escala de beneficiamento, com
a celulose, representaria quanto de
acr6scimo a combalida economic ama-
paense? Esse pass, que a International
diz pretender dar, a Icomi nunca deu.
Mas Antunes ganhou um bom dinheiro
vendendo cavacos para seu antigo ami-
go Ludwig, quando faltou madeira no
Jari. E mandando para os japoneses, do
outro lado do mundo, transformarem em
celulose e papel, enquanto formavam
seu pr6prio reflorestamento.
As critics feitas aos 50 anos de Icomi
no Amapi nio podem ser interpretadas
como uma condenaqco total ao que a em-
presa fez no atual Estado. Acho que seu
saldo 6 negative e nio positive. Espero
que o poder piblico, tanto o estadual quan-
to o federal, reabram o process de des-
mobilizaCio da empresa e o discutam em
profundidade, exigindo novos reinvesti-
mentos e cobrando responsabilidades do
grupo empresarial, se a conclusio coinci-
dir com minha pr6pria avaliaqdo desse
meio s6culo de mineraqdo de manganes.
HA pontos positives na atuaqdo da Ico-
mi. O maior deles result da constataiao
de que, de li para ci, exceto quanto as t6c-
nicas de mineraao e os cuidados corn o
meio ambiente, os "grandes projetos" an-
daram para tris no trato cor seus funcio-
nirios e nos investimentos nao diretamen-
te produtivos, no desempenho da muito
falada (e mais falada do que efetivada) res-
ponsabilidade social. Quem conheceu a vila
residential de Serra do Navio e a compare
com os n6cleos populacionais dos atuais
projetos senate a diferenga. Para pior.


Jorn soaPessoIl 2" QUINZENA/MAIO DE 2003











Indio e floresta:




mais um adeus


Falando em nome do president Lula,
o chefe da casa civil, Jos6 Dirceu, garan-
tiu aos bispos da igreja, recentemente reu-
nidos em Itaici (Sio Paulo), que o gover-
no do PT passaria a dar mais atencgo a
questio indigena, da qual tem sido acusa-
do especialmente pelo Conselho Indi-
genista Missionario de se ter mantido
distant. Mas ao mesmo tempo desfez
expectativas favoriveis ao observer que a
correlaClo de forqas no Congresso 6 des-
favorivel aos indios neste moment.
Pragmatico, por6m, o ministry nao
transferiu a terceiros a responsabilidade
sobre a homologagio da terra indigena
Raposa-Serra do Sol, em Roraima, a mais
polemica da pauta indigenista no momen-
to. Se quisesse fazer a homologag~o, bas-
taria a Lula apor sua assinatura no pro-
cesso de demarcagio, encerrando uma tra-
mitacao de mais de 20 anos, em meio a
muito trabalho e negociaqio. O que falta
6 a simples assinatura do president na
pigina final do process.
Mas o ministry acha dificil que Lula
pratique esse ato. Ele leva em considera-
cao os problems politicos e sociais cria-
dos pela presenga maciqa de invasores
dentro dos limits intemos da reserve. Mas
deve estar avaliando outra situaq o, nao
abordada por Jos6 Dirceu: a recent ade-
sao do governador de Roraima ao PT. O
governador, como toda a classes political e
a elite local, nao quer mais nenhuma re-
serva no Estado. E o president tamb6m
nao parece desejar a perda political. Os
indios que se contentem cor o queji trm.
De uma forma sutil, mas insinuante,
Dirceu deixou no ar a possibilidade de que
os indios tenham que se contentar corn
menos do que trm ou ji tiveram. Do acer-
vo sob ameaga estaria a pr6pria Funai,
duramente criticada pelo chefe da Casa
Civil da Presid6ncia. A Fundaqio Nacio-
nal do Indio "nao presta", sentenciou ele.
As palavras do antigo lider esquerdis-
ta soaram "at6 mais duras do que aque-
las pronunciadas por muitos governor an-
teriores" aos ouvidos do antrop6logo
M6rcio Gomes, professor da Universida-
de Federal Fluminense. Daf sua decisdo
de escrever um artigo a respeito, publi-
cado pelo Jornal do Brasil no iltimo dia
13. Um artigo como poucos poderiam es-
crever sobre o tema no Brasil. Admira-
dor desse bravo e integro indigenista, que


tantos serviqos j i prestou a causa (dentre
os quais o livro "O indio na hist6ria"),
sinto-me no dever de reproduzir seus
principals trechos. E uma tranquila e 6i-
cida liqio aos que querem se atualizar no
problema, mesmo que, no fundo, atuali-
zaqao nao haja. E, infelizmente, muito
pelo contririo.
Transfiro ao leitor os questionamen-
tos de M6rcio:
Em primeiro lugar, nunca na hist6ria
do Brasil a correlacao de forcas political
foi favoravel aos indios, seja no Congres-
so, seja no Executivo, seja no Judiciario,
seja na pr6pria sociedade brasileira. Se o
tivesse sido, os indios estariam ainda hoje
em control do Brasil, 6 claro. Entretanto,
para nao voltarmos aos tempos do imp6-
rio e da col6nia, des-
de que o marechal
Candido Rondon, Se isto soa
em 1910, criou o Ser-
viqo de Proteqio aos a esses bE
Indios (de onde sur-
giu a Funai, em 1967, por nasc
por obra do governor adesdo, d
military o Estado bra-
sileiro, principalmen- aOS OUVido
te o Executivo, tem das coisac
tido a incumbencia
precipua e quase ex- como nos t
clusiva de tratar do re-
lacionamento da na- es
gao com os povos in- cifrco e d
digenas, em detri-
mento de quem a na-
qio brasileira foi
construida. Rondon, grande parte
do Ex6rcito brasileiro, os intelectuais da
6poca e um sentiment inefivel, mas de
consistent de simpatia pelos indios, 6 que
levaram o Estado brasileiro a assuncao da
responsabilidade maior para com os povos
indigenas sobreviventes. Qualquer posi~io
diferente, que signifique uma tendencia a
evas~o de responsabilidade, 6 uma quebra
desse compromisso hist6rico.
Na verdade, a correlagao de forqas no
Congress brasileiro 6 a mais favoravel
aos indios desde o Congresso de 1910,
quando Rondon criou o SPI. Afinal de
contas, a esquerda esti no poder e o go-
verno tem maioria no Congresso! Como
nao passar aquilo que o governor debate e
determine? O Congresso de 1910 foi mo-
vido pelas acusaq6es de que o Brasil esta-


va matando seus indios, daf ter aceitado a
criaiao de um 6rgao que tamb6m, diga-se
de passage, tomava conta dos sem-terra
brasileiros, nio imigrantes estrangeiros, da
6poca. A ousadia de Rondon, o estadismo
do president Nilo Pecanha e a determi-
nagao de seu ministry da Agricultura (onde
estava o SPI), Rodolfo Miranda, 6 que fi-
zeram o SPI comecar a reverter o proces-
so de "estadualizaqio" da question indi-
gena, que deixava nas mros dos interes-
ses locais e regionais a sobrevivencia dos
indios. Eis o que nao pode acontecer ago-
ra no Brasil, e o governor Lula tem que ter
consciencia disso e agir para avangar no
process de conclusdo de demarcaClo das
terras indigenas.
Segundo, a homologagio da terra in-
digena Raposa-/Ser-
ra do Sol 6 proble-
omo miisica matica, realmente.
Mais problemitica
ndeirantes, foi a demarcaigo da
terra indigena Yano-
mento ou mami, e o presiden-
i pra xuxu te Fernando Collor a
realizou e a homolo-
da gente e gou. Mais problemi-
atrasadas, tica foi a demarcaqao
das terras dos Xa-
arecemos a vante, durante o in-
o tenso period de
anas do frentes de expansion
i bigorna. a Oeste do Rio das
Mortes, e os gover-
nos militares, pressi-
onados pelas lide-
ranqas desse povo, inclusive o saudoso
Mario Juruna, a realizaram. A demarca-
qio do Parque Indigena do Xingu foi ini-
ciada por Getdlio Vargas, ap6s projeto
feito por Darcy Ribeiro e Orlando Villas-
Boas, e foi homologada pelo president
Janio Quadros. Enfim, nunca foi ficil
demarcar terras indigenas, e s6 por "von-
tade political expressao tro a gosto do
president Lula, 6 que essas coisas sao
feitas no Brasil.
Afinal, serd que a Funai nao presta?
A Funai ter uma marca negative de ori-
gem, que 6 ter nascido da attitude dos
militares de querer apagar a hist6ria que
vinha ocorrendo no SPI, hist6ria que ti-
nha suas maculas, mas tamb6m seus he-
r6is, inclusive os her6is em vida, como
Noel Nutels, o iltimo director geral do SPI

2" QUINZENA/MAIO DE 2003 Jornal Pessoal


C
iI
ii
6
s

3








antes do golpe military. Todavia, mesmo
com militares no poder, com algumas
falcatruas e muitas irresponsabilidades,
a Funai demonstrou ser capaz de cum-
prir suas obrigaq6es de defender os indi-
os dos seus inimigos locais e promover o
reconhecimento de seus territ6rios. Eis
porque cerca de 80% dos territ6rios in-
digenas atuais estao em vias de demar-
caqio e homologaqio, e todo o process
de demarcaqio poderia ser concluido em
dois anos, a um custo bastante baixo.
Que 6rgio administrative brasileiro
deu conta de tal porcentagem de realiza-
cio de suas atribuiq9es?
Por sorte, nao por resultado de clara e
objetiva acio governmental, na verda-
de, por forga de fatores mais amplos, a
populacio indigena brasileira como um
todo mais que triplicou nos l6timos 40
anos. Sao 210 povos e cerca de 400.000
indios, em crescimento de mais de 4%
ao ano. Esses povos vivem e represen-
tam a raiz diferencial que o Brasil tern
em relaqco is outras nagSes.
Como disse Gonqalves Dias, hi mais
de 150 anos: "Os indios foram o instru-
mento de quanto aqui se praticou de 6til e
grandiose; saio o principio de todas as nos-
sas coisas; sao os que deram a base para o
nosso carter national, ainda mal desen-
volvido, e sera a coroa de nossa prosperi-
dade o dia da sua inteira reabilitaqio".
Ao president Lula, ao ministry da Jus-
tica e ao president da Funai, a realizagio
da profecia do grande poeta.
Apesar de tudo, portanto, Mercio -
por crenqa real, necessidade ou estrat6-
gia ainda confia na atual administra-
aio para que, mesmo com muita luta, a
causa indigena continue a prosperar. Mas
cabe uma observacio final: o que separa
Lula de Fernando Henrique Cardoso nes-
ta questao 6 a rua da ret6rica em Sao Pau-
lo, no centro industrial brasileiro. FHC,
que escreveu sobre a Amaz6nia com base
em fontes secundarias, mas com id6ias
bem definidas a respeito da regiao, en-
tende que o primitivismo deve ceder ao
novo principe na fronteira: o investidor,
o dono do capital.
Lula partilha esse ponto de vista. S6
diverge quanto ao beneficiario: o operi-
rio do ABC, como ele pr6prio o foi. Ou
divergia. No mais, estao de acordo que a
terra de indios e florestas deve ser moder-
nizada para que se instaure a verdadeira
contradigqo: a do capital e do trabalho.
Se isto soa como mdsica a esses ban-
deirantes, por nascimento ou adesdo, d6i
pra xuxu aos ouvidos da gente e das coi-
sas atrasadas, como n6s parecemos a es-
ses bwanas do cifrao e da bigorna. Resta
torcer para que o Lula de Rio Branco, no
Acre, prevaleqa sobre o Lula de Itaici, em
Sao Paulo, nessa luta de contrarios dentro
da mesma pessoa. [

Jomal Pessoal 2' QUINZENA/MAIO DE 2003


A soja


Outro dia vi um documentario sobre a
soja. Um grande produtor brasileiro anun-
ciava que iria abandonar a Bolivia, onde
havia formado um grande plantio. O ne-
g6cio nao estava mais compensando. A
lente da camera foi buscar o que restava
da mata amaz6nica boliviana 1l long,
graqas ao zoom. Percebi ali a antevisio
do que ji esta acontecendo na Amaz6nia
e se consumard no future se nada for feito
para impedir a expansao dessa monocul-
tura, principalmente quando desacompa-
nhada de beneficiamento (o tal do cluster
de que hoje tanto ja se fala).
Ningu6m pode ser contra, por exem-
plo, um porto como o que a Cargill cons-
truiu em Santarem. Em si, 6 um grande
beneficio, embora talvez pudesse ter
sido ajustado um pouco melhor a paisa-
gem. Mas o efeito de um ponto de com-
pra e embarque de soja 6 tio poderoso
quanto o que as guseiras tiveram sobre
a regiao em torno de Marabi. Uma vez


inventada essa p6lvora de sucaio de ter-
ras e h6mus, sera muito dificil e cus-
toso "desinventa-la".
Pode-se cultivar soja na Amaz6nia,
mas cor muito cuidado. Nunca deixan-
do que a area cresqa sem medidas de
industrializaqco e numa circunscriqao
bem definida. Sem medidas acautela-
t6rias e suporte ticnico adequado, alum
de uma definicio clara sobre os objeti-
vos a alcancar, a soja se expand irra-
cionalmente, impulsionada pelo ponto
de compra e embarque.
Santar6m ji comeqou a ouvir noticias
mais freqtientes de conflitos de terra, gri-
lagem, violencia, mortes. A migraqio
campo-cidade se intensificou. Povoados
estao sendo abandonados, escolas fecha-
das. A cidade vai sofrer as conseqiienci-
as dessa plantation. Se ndo quiser sofrer
muito, tera que oferecer alternatives e
melhores aos agricultores. A roda co-
mecou a rodar, moer, esmagar.


Questdo


Na sexta-feira da semana passada a
Mineraq~o Rio do Norte fez um dep6sito
na justiqa federal, em Brasilia, de nada
menos do que 316 milhoes de reais. O alto
valor foi para garantir o direito da empresa
de prosseguir na demand contra a Receita
Federal, que a autuou em 2001 (no valor
original de R$ 220 milh6es, ji atualizado)
por haver reduzido seu capital social em
20% sem levar em conta a contribui~go da
rentncia fiscal do tesouro national para a
formaqido desse capital (ver, a prop6sito,
Journal Pessoal 301). A receita entende que
a empresa, uma das maiores produtoras de
bauxita do mundo, deixou de recolher o
imposto de renda devido pela operacio.


A MRN teve que assegurar o valor da
autuaq o porque o desembargador Hil-
ton Queiroz, do Distrito Federal, indefe-
riu o pedido de liminar requerido pela mi-
neradora, numa media cautelar que in-
tentou no final de abril, a partir da deci-
sdo de nao reconhecer o ato administra-
tivo da receita, dando prosseguimento a
demand em juizo. Com o dep6sito, a
empresa, controlada pela Companhia
Vale do Rio Doce, deixe de ficar sujeita
as sanqSes administrativas que poderiam
ser adotadas, como o cancelamento do re-
financiamento de sua divida, atrav6s do
program Refis, e dos beneficios fiscais
de que desfruta.


Pescador


Foi muito notada a ausencia de Simio
Jatene ao encontro do president Lula com
os governadores da Amaz6nia, realizado
nos dias 9 e 10, em Rio Branco, no Acre.
Mereceu destaque na cobertura do journal
0 Estado de S. Paulo.
Tentando colocar panos quentes, um
porta-voz ndo-oficial explicou que
"compromissos inadiaveis firmados hi
meses" teriam impedido o governador
paraense de comparecer a reunido. O
pr6prio president da repiblica, em au-


diencia no Palacio do Planalto, teria li-
berado Jatene do encontro.
O chato foi o governador ser desco-
berto pescando as proximidades de Bel6m
exatamente quando seus colegas estavam
na capital acreana ao lado de Lula. Fla-
grado em funcio de um lamentavel aci-
dente que o vitimou, obrigando-o a pro-
curar imediato socorro. Jatene foi fisga-
do, literalmente. Nao se tratava de hist6-
ria de coxo, mas de pescador. Pelo jeito,
nao dos melhores.










Grandes personagens,



interpretes mediocres


Lida por sete milh6es de pessoas, a
maior revista de informacqes do pafs, a
quinta maior do mundo, concede ao fale-
cimento, aos 78 anos, de Raymundo Fao-
ro, ex-presidente da Ordem dos Advoga-
dos do Brasil, um acanhado registro na co-
luna de necrol6gio. Num universe de gen-
te que brilha por circunstancias, acasos e
qualidades inatas (e freqientemente mal-
tratadas), o perfil de Faoro nio permitiria
enquadri-lo como um dos her6is de Veja.
O advogado que
morreu na semana retra-
sada, por6m, foi um dos O que mai
principals personagens
da fase de transiqgo at6 em Raymt
o retomo do Brasil A de- era a dime
mocracia, depois de 19
anos de ditadura military. ele tinha d
O elegant cidaddo de simbolos r
Vacaria, no Rio Grande human
do Sul, harmonioso mes-
mo em suas dimens6es percepgao
de jogador de basquete,
assumiu naturalmente p etra
um papel de destaque. dos concei
Noo o buscou: foi procu-
rado para desempenhar
sua fungao. Foi atrafdo e atraiu por seu mag-
netismo pessoal, sem precisar forqar nada,
sem gritar nem carregar nas tintas.
O que mais importava em Raymundo
Faoro era a dimensao que ele tinha do
valor dos simbolos na vida humana. S6
tern essa percepaio quem penetra no mun-
do dos conceitos. Para adquirir o entendi-
mento conceitual 6 precise absorver o le-
gado intellectual da humanidade, o que
cada geraqao produziu e transmitiu de
perene As geraq6es seguintes. Era em sua
biblioteca que Faoro se achava em seu
ambiente natural, entire pares e iguais, di-
alogando corn a hist6ria. Dessa conversa
com os clhssicos do pensamento, ele pr6-
prio ji surgiu clissico na sociologia corn
Os Donos do Poder, publicado em 1958,
quando tinha apenas 33 anos.
u um livro tao desconcertante quanto
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Frei-
re, ou Raizes do Brasil, de S6rgio Buar-
que de Holanda, que tem sido compara-
dos a ele. NMo podem ser enquadrados ri-
gidamente (e muito menos ainda satisfa-


toriamente) em qualquer uma das disci-
plinas das ciencias sociais isoladamente.
Cabem em todas, usando o que tnm a ofe-
recer, e as ultrapassam,m indiferentes as
classificaqbes metodol6gicas. Sdo, na ver-
dade, ensaios de interpretaqgo. Partindo
de um mote, tomam-no como impulse para
apresentar sua visio do pais, uma verda-
deira weltanschaaung.
Nio concordo que esse tipo de suma se
reduza a trilogia. Temos mais desse tipo de
insight, bem caro A tra-
dicqo inglesa, exemplos
importava mais numerosos do que
permit nosso sentimen-
ido Faoro to de inferioridade e au-
saO que tocomiseragqo. Seus au-
tores conhecem e domi-
valor d nam a lingua. Escrevem
vida com clareza e correq~o.
Alguns, com toques de
tern essay verdadeira literature, da
jlem melhor, sem distincgo
undo entire prosa e verso. To-
dos, corn inusual confi-
OS. anqa no pr6prio taco.
Como e que esses inte-
lectuais, corn idades que


mal haviam passado dos 20 anos ou entra-
do nos 30, possufam um conhecimento tao
intimo deste Brasil barroco e racional, ar-
caico e modern, jovem e velho?
Noo era porque o tinham palmilhado ter-
rit6rio por territ6rio. Mas porque o haviam
encontrado nas transversais das grandes abs-
traq6es humans, naquele tipo de teoria que,
refinada, chega a arqu6tipos e tipos ideas,
models e teleologia, abrangente e localis-
ta, universal e especifica. Todos eram cul-
tos, argutos, inventivos. Raymundo Faoro
exumou o patronato brasileiro modelando-
o por Max Weber e seu conceito de patri-
monialismo, mais heuristico do que a teoria
de classes (com seu inelutivel conflito) do
outro alemro, mais otimista, Karl Marx.
Marx reconstituiu a anatomia e a genealo-
gia do capitalism no olho do furacao, em
uma confortavel poltrona do Museu Brita-
nico (que ainda esta la, seduzindo os cren-
tes da osmose, ainda que A derniere). Weber
vinha da Prdssia, dos junkers. Estava mais
perto de n6s, que somos periferia e nao cen-
tro, no sertao da dominancia.


Veja foi o c6mulo do maltrato a esse
grande brasileiro, que estava na hora cer-
ta, com a linguagem certa e a biografia
certa quando o general Geisel, imaginan-
do-se algo entire Bismarck e Ludendorff
(mais afim cor Hindenburg, por6m), an-
dou A cata de interlocutor, quando for-
mava seu governor, no Rio de Janeiro,
para seu projeto da distensio lenta, gra-
dual e segura. Encontrou, do outro lado
do Largo da Miseric6rdia, um home
que nao abria mao da anistia ampla, total
e irrestrita, mas respeitava quem tivesse
uma visio de mundo na cabeqa para dia-
logar (e, se fosse o caso, negociar).
Nao sou e nunca fui um fi do projeto
de Geisel ou do pr6prio general. Grandi-
oso demais para ser de care e osso, bio-
grafando-se antes de ter vivido, o gene-
ral Geisel podia ser seduzido por satl6i-
tes menores, por6m sagazes, como Es-
meraldo Barreto, Heitor Aquino, Shige-
aki Ueki ou mesmo Golbery do Couto e
Silva. Mas foi o finico dos presidents
militares, depois de Castelo, que nHo pen-
sou apenas em si e nas suas extens6es.
Ou que pensou antes de fazer. Havia uma
certa grandeza naqueles tempos dificeis,
um tom de drama e trag6dia que antece-
deria, como sempre nos alerta o banzo
Shakespeare, a com6dia que viria depois,
ou a farsa que a sucederia, nos novos tem-
pos (nao tio novos assim).
Por falar em teatro: era instrutivo
acompanhar as palavras, os gestos, os
movimentos e os silencios dos persona-
gens que naquele moment desafiavam
a linha-dura military e os radicals de es-
querda na montagem de uma said me-
nos traumitico para o fim-do-tinel a que
os condottieri castrenses nos levaram.
Todos entendiam de simbolos. Fala-
vam tanto pelo que diziam quanto pelo que
silenciavam. Quem partilhasse suas refe-
rencias saberia para onde estavam indo e
o que conduziam. Seguraram o andor, que
era de barro puro, em meio aos sacolejos.
Fizeram o que a hist6ria deles esperava.
Nio 6 sua culpa se, quando se vio, os que
ficam sdo tio desmemoriados e tolos quan-
to os editors desta requintada vacuidade
multicolorida na qual a querida Veja de
outros tempos se reduziu.


S2-' QUINZENA/MAIO DE 2003 Jornal Pessoal


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It











Watergate: valiosos




papeis da hist6ria


O material que Bob Woodward e Carl
Bernstein, rep6rteres dojornal Washing-
ton Post, produziram ou reuniram du-
rante a cobertura do "escandalo Water-
gate", que levaria ao afastamento do
president dos Estados Unidos, Richard
Nixon, na d6cada de 70, ocupam 75 cai-
xas. Sio notas, transcriq6es e fitas com
entrevistas, rascunhos e memorandos
que os rep6rteres trocaram entire si. A
Universidade do Texas adquiriu esse
acervo por cinco milh6es de reais (uns
14 milhoes de reais). Ja ricos e cl6ebres
foramm os primeiros jornalistas a desven-
dar o escandalo), os dois deixaram 10%
para a coletividade. Doaram cerca de
US$ 500 mil para uma s6rie de confe-
rencias sobre o caso Watergate.
O director do Harry Ransom Humaniti-
es Research, responsivel pela aquisiqgo,
Thomas F. Staley, justificou o
investimento nos pap6is de
Woodward e Bernstein dizendo
que eles sao "um dos grandes
arquivos da hist6ria da Am6ri-
ca". Mas a instituicio ndo pre-
cisou lanqar mio de seus recur-
sos: o dinheiro da compra veio
de doaqces particulares.
Depois de catalogado e ar-
quivado no centro, que 6 uma
biblioteca de pesquisa instala-
da no campus da universidade,
em Austin (rica em material so-
bre a Amdrica Latina e o Bra-
sil), parte da documentacqo po-
deri se tornar piblica dentro de
um ano. Mas as identidades das
fontes serio preservadas at6 que
elas morram. Assim, s6 dentro
de mais algum tempo os curio-
sos poderio saber quem era o
famoso "Garganta Profunda"
(Deep-Throat), a mais important das fon-
tes usadas pelos dois rep6rteres.
Foi Bernstein quem teve o cuidado de
guardar desde o inicio todo o material que
ele e seu colega foram acumulando a me-
dida que iam aprofundando a cobertura do
assunto, iniciada com a prisio dos arrom-
badores da sede do comity eleitoral do

Jomal Pessoal 2' QUINZENA/MAIO DE 2003


Partido Democrata, no pr6dio Watergate,
em Washington. O epis6dio parecia corri-
queiro at6 que um dos arrombadores, pre-
so de maneira infantil pela policia, segre-
dou ao juiz da instruqgo que havia inte-
grado a CIA, a Central de Inteligencia
Americana. Woodward, plantonista que
cobria sua ronda, ficou intrigado com o
detalhe, iniciando uma coberturajornalis-
tica hist6rica, talvez o mais bem sucedido
caso de investigation jomalistica da im-
prensa mundial.
Tomando conhecimento do fato, talvez
muita gente se escandalize com o valor
pago pelos pap6is e consider indevida a
fortune embolsada pelos jornalistas. Mas
o caso oferece muitas liq6es para noso-
tros, brasileiros. As instituicqes america-
nas estio dispostas a pagar, e a pagar muito
bem, por material ao qual atribuam espe-


cial valor, ainda que o acervo nio tenha
um valor sonante imediato. Podem dar-se
a esse luxo porque sempre aparecem doa-
dores de funds.
Woodward e Bernstein, beneficiados
em US$ 5 milh6es dessa tradiqio da 6tica
protestante, retribuiram para garantir-lhe
a perenidade doando, por sua vez, 10%
do que receberam para financial uma ini-
ciativa visando o bem coletivo (ciclo de
palestras sobre Watergate). Empreendi-
mentos desse genero fornecem o estofo
de projetos de civilizagio (e de poder).
Quando sou confrontado com situaoqes
assim sempre me lembro que, na metade
do s6culo XIX, a Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro era virias vezes maior do
que a de Washington, hoje, de long, a
mais important e rica do planet. Um dos
grandes resultados do deslocamento da
corte portuguesa para o Brasil,
em 1808, por iniciativa de D.
Jodo VI, foi justamente o acer-
vo bibliogrifico e documental
que a acompanhou. Graqas a
ela, o Rio de Janeiro passou a
ter uma das mais valiosas bibli-
otecas do Novo Mundo, equi-
parivel a algumas das principals
da Europa. O que fizemos de l8
para ca? Em terms mundiais,
regredimos. Porque nos falta
uma 6tica coletiva, uma cons-
ciencia de cidadios, uma iden-
tidade national.
O exemplo do material dos
dois rep6rteres nos deixa
mais desconfortiveis em nos-
sa nudez civilizat6ria. Afinal,
quantos pap6is hist6ricos,
muitos deles vitais, ji no jo-
gamos fora?


Coluna social public foto de uma moqa que vai fazer 15 anos. Sua blusa esti
aberta e ela exibe o busto, suti5 A mostra. Os bragos estao levantados, as mios atris
da nuca. Nio hi sensualidade na foto, apenas vulgaridade. E falta de um senso
minimo de ocasiio. Sinai dos tempos.


JJ^^Ii
^^-


'u3










Arquivo morto


Quando o desembargador Christo Al-
ves assumiu a presidencia do Tribunal
de Justiqa do Estado, anos atris, imagi-
nei que iria realizar um velho sonho: ter
acesso aos autos de um hibeas corpus
requerido por meu pai, em 1967, para
reassumir a prefeitura de Santar6m, da
qual fora afastado pela maioria dos ve-
readores municipals, que faziam oposi-
qio a ele. Juiz da comarca de Obidos na
6poca, Christo Alves havia concedido a
chamada media her6ica.
A Policia Militar foi enviada para San-
tar6m pelo governador Alacid Nunes para
impedir a posse. No conflito com a mas-
sa, matou tres dos manifestantes. Santa-
r6m acabaria sendo declarada area de se-
guranqa national. Nao elegeria mais seu
prefeito, que passou a ser nomeado pelo
governador. Papai foi cassado, duas ve-
zes. Na primeira perdeu o mandate. Na
segunda, os direitos politicos.
O desembargador Christo Alves bem
que tentou me ajudar a localizar o proces-
so, um dos documents que gostaria de
examiner para avaliar mais profundamen-
te o epis6dio, mas o esforgo de busca foi
initil. De 1I para ci sei que o arquivo do
judiciario melhorou um pouco, mas nao o
suficiente, nem mesmo o possivel. Dos tres


quil6metros de processes guardados em
suas estantes, apenas 40% foram coloca-
dos em planilhas. Mas nada passou para o
registro eletr6nico. Com 130 anos de exis-
tencia, o arquivo 6 o segundo mais valioso
do Estado. Valioso pelo potential que en-
cerra. Nao, por6m, pelo seu uso corrente.
Incompreensivelmente procrastinado.
Outro dia precise fazer nova consult
e a situagCo permanecia a mesma: sem
estar integrado A rede de computadores do
judicidrio, o arquivo nao presta aos seus
usuarios potenciais (magistrados, advoga-
dos e a sociedade em geral) os serviqos
que estdo, em tese, ao seu alcance. O mais
imediato deles 6 dar a posicqo dos pro-
cessos na tramitagdo em tempo real. Mas
outra serventia important 6 devolver A
vida documentosjogados no arquivo mor-
to como se fossem papel imprestivel, lixo.
No entanto, essa papelada maltratada 6
parte da hist6ria estadual, que esti confi-
nada nas estantes do arquivo, ansiosa por
emergir na vida cotidiana dos cidadaos.
S6 nao o fazendo por estar tolhida por uma
visdo tacanha e superada da arquivistica
no mundo contemporaneo.
Tomara que essa distorcqo seja cor-
rigida, o mais rapidamente que for
possivel ao TJE.


Perguntas
A quem responder possa: por que um grupo de danqa utiliza o Teatro da
Paz sem pagar um tostdo e outro (que, ainda por cima, e comandado por
uma ex-diretora daquela casa de espetdculos) paga? Qual o criterio que
determine a diferenga de tratamento? 0 popular QI?
Por sinal: hd regras objetivas para a aplicaqdo dos recursos dos funds
publicos ou das renuncias tributdrias do Estado para o setor cultural?
E para a andlise dos projetos?

Custo


A Secretaria de Cultura do Estado gas-
tard, nos pr6ximos quatro meses, quase 530
mil reais s6 com a manutenqao, limpeza e
vigilancia do conjunto Feliz Lusitania, na
Cidade Velha. Mas a despesa poderd ir a
quase R$ 740 mil. Dos 18 contratos assi-
nados pelo secretdrio Paulo Chaves Feman-
des, metade diz respeito a despesas de ape-
nas um mes. Se o valor mensal for repetido
nos tres meses seguintes, a soma deixari
de ser de R$ 530 mil e chegari a R$ 740
mil. Mesmo considerando apenas as des-
pesas ji autorizadas para o quadrimestre,
significa que o custeio da Feliz Lusitania,
sem incluir as despesas com igua, luz, te-
lefone e eventualmente impostos, 6 de R$
130 mil ao m8s.


Todos os contratos foram assinados
com dispensa de licitaqao. Os maiores
foram os de vigilancia, no valor de R$
430 mil, divididos entire duas firmas: a
Progresso recebeu R$ 330 mil e a D.
Rocha, R$ 104 mil, divididos em dois
contratos para cada firma. A empresa
que conquistou (sem precisar de licita-
9So, 6 claro) a maior quantidade de con-
tratos foi a Corpenge: foram quatro, no
valor de R$ 47 mil.
A Feliz Lusitania, como se sabe,
integra um circuit de museus e cen-
tros de entretenimento criado e geri-
do pelo secretirio Paulo Chaves Fer-
nandes. Com esse padrdo de adminis-
tragqo public.


Cartas


Despedida

Caro confrade:
Tdo belo e tdo simples simples e belo
o seu "Adeus, cavalheiro" de despedida
do S6rgio Valinoto.
Considere-se abracado por Marilda e
por mim.
Seu Jornal Pessoal da 1a quinzena de
maio esti, como de habito, genial.
Fraternalmente,
Acyr Paiva Pereira de Castro



Justiha

Reporto-me, mesmo com algum atra-
so, a mat6ria "E livre pensar no Pard?",
publicada no Jornal Pessoal n" 298. Nas
discusses que participo (agora com me-
nor freqtincia) sempre fago questao de
frisar aos meus interlocutores que a li-
berdade de se exprimir e critical, que tan-
to se propala neste imenso pais, e con-
signada na Carta Magna, 6 meramente
figure de ret6rica (hi muita coisa na Carta
que nem isso 6). Por essa razdo 6 impor-
tante que as pessoas obstadas ou violen-
tadas em seus direitos tornem-nos p6bli-
cos, para que a sociedade civil tome co-
nhecimento a quantas anda a cidadania
brasileira. A liberdade ter de ser verda-
deira, nao aquela que se confunde com o
poder econ6mico.
A insanidade das instincias superio-
res terminal atropelando as conquistas da
humanidade. O caos que se instalou no
Brasil, principalmente na area de segu-
ranqa piblica, e que tende a agravar-se
no curto prazo, 6 uma prova inconteste
dessa assertive. O estado faliu. A prop6-
sito do control externo do judiciario,
assunto que domina no moment o noti-
cidrio national, em recent artigo trans-
crito num peri6dico local, um magistra-
do da ativa assim se manifesta: "Durante
muito tempo a Justica 'esteve acima de
qualquer suspeita' nao que estivesse imu-
ne a desvios, mas porque o sentiment
de cidadania nio tinha chegado ao ponto
de entender que ajustiqa pode e deve ser
debatida, questionada, fiscalizada, elogi-
ada, criticada". Fiz mais, o articulista: "a)
ricos e pobres sdo tratados diferentemente
pela Justica; b) a Justiga nao resolve os
conflitos que Ihe sao apresentados; c) a
Justiqa nao esti ao alcance do povo; d) a
Justiqa 6 demorada; e) a Justiqa 6 cara".
Portanto, caro Lucio, a questao 6 safar-
se ou salvar-se da Justiqa!
Rodolfo Lisboa Cerveira


I () 2" QUINZENA/MAIO DE 2003 Jornal Pessoal




















J


Tribunal em



policromia


A revista Veja esti fazendo o jornalis-
mo brasileiro retroceder d6cadas. Nela, ou
os rep6rteres todos se transformaram em
editorialistas, ou entao estdo permitindo
que os editors transformed suas repor-
tagens em editorials. A informaq~o se tor-
nou secundiria diante da hegemonia dos
adjetivos. O relato tem sido soterrado pelo
julgamento, a avaliaqao factual pelo pan-
fleto. Ao final de sua leitura, o leitor sai
carregado de etiquetas e epftetos, mas nao
muito capaz de argumentar. Veja se trans-
formou no tribunal dos Civita. O saudi-
vel exercicio da opiniio resvalou para a
quase aberta delaqgo.
Cito como exemplo um trecho da prin-
cipal mat6ria da seqao Economia e Neg6-
cios desta semana. A prop6sito da inicia-
tiva do BNDES de promover um curso de
p6s-graduacqo em desenvolvimento e eco-
n6mico e social para os seus t6cnicos,
ministrada por professors origin.rios da
famosa Cepal (Comissdo Econ6mica para
a Am6rica Latina e o Caribe), a frente a
economic Maria da Conceicqo Tavares,
proclama o reporter Ronaldo Franca (ou
proclama-se sob sua assinatura):
"E surpreendente que uma institui-
g9o governmental da importancia es-
trat6gica do BNDES gaste dinheiro na
formagqo de seus quadros para reched-
los com uma visao econ6mica solitaria
e defasada, porque intervencionista e em
descompasso com a estabilidade fiscal.
Em l6tima instancia, o BNDES esta se
preparando para funcionar em desacor-
do com a visao econ6mica hegem6nica
no Planalto".
Nao satisfeito com essa sentenqa, que
poderia (mal comparando) orar as pigi-
nas do velho Pravda ou do Granma, ou
servir a locucqes na Radio de Pequim ou
da Albania, acrescenta o rep6rter-juiz:


"Essa 6 uma teoria que remonta aos
Estados Unidos e A Europa da d6cada
de 30, quando foi usada com bons re-
sultados, mas em outro context. Hoje
nao se aplicaria ao Brasil, onde a chave
do sucesso 6 manter a confianqa na es-
tabilidade fiscal".
Cada oragqo exigiria uma demonstra-
gqo. O conjunto de frases condensa (e
suprime) um manual inteiro de econo-
mia, al6m de livros sobre conjunturas
hist6ricas. Podia caber, entire aspas, na
boca de fontes ouvidas pela revista. Nao
no texto do reporter, que dispara flechas
como um Zeus descompromissado. Ao
inv6s de fornecer informaq6es aos seus
leitores, torna-se porta-voz nio creden-
ciado do governor (ou do seu centro he-
gem6nico), vestindo aquela surrada e
mal-afamada roupa do Aulico, sempre
mais realista do que o rei.
Al6m de tudo, hi supina ignorancia da
parte do Mefisto. No dia 18 no vale do
Tenessee e, por extensao, os Estados
Unidos, que para Ronaldo sao exemplo
apenas remissivo em mat6ria desse tipo
de teoria econ6mica houve comemora-
gqo pelos 70 anos de um Belzebu, na vi-
sao do reporter escolistico de Veja. Foi o
aniversario do TVA, uma autarquia cria-
da durante o New Deal de Franklin Dela-
no Rososevelt com a versatilidade de uma
empresa privada, que revolucionou os 100
mil quil6metros quadrados dos sete Esta-
dos banhados pelo grande rio, que, gragas
A Autoridade do Vale do Tenessee (a tra-
dudio da sigla), se tomou plenamente na-
vegAvel e proporcionou melhoria de vida
para seus habitantes.
0 TVA continue vivo e ativo, o inter-
vencionismo estatal de que resultou con-
tinua atual, Quem caminha como caran-
guejo (sendo como anta) 6 a revista Veja.


L
,--


Jomal Pessoal 2" QUINZENA/MAIO DE 2003 11


Zona Franca
Desde o inicio do mrs, pela
primeira vez em seus 36 anos de
existencia, a Superintendencia da
Zona Franca de Manaus esti entregue
a um servidor da instituiqao. Pela
primeira vez o superintendent 6
mulher. A nova superintendent da
Suframa 6 a economist Flivia
Grosso. A partir dessas duas facanhas
ela pretend conquistar outras duas.
A primeira 6 prorrogar, de 2013
para 2030, o prazo de vig6ncia dos
incentives fiscais para a ZF
amazonense definidos nas disposiq6es
constitucionais provis6rias. A segunda
6 empatar ou tomar superavitdrias as
contas do p6lo industrial, que hoje
deixa um rombo de mais de um bilhdo
de d6lares no com6rcio exterior e
absorve 3,6 bilh6es de ren6ncia fiscal.
Grosso vai encontrar uma Zona
Franca em melhor situagqo do que
nunca, com maior grau de
industrializacqo, maior volume de
exportagqo e menor artificialismo.
Mas ainda muito distant de um
modelo equilibrado e, conforme o
catecismo, auto-sustentavel.
Trabalhando ha varios anos como
t6cnica da autarquia, agora ela ter a
oportunidade de aplicar essa
experi8ncia para modificar o
movimento da ZF, que tem sido
concentrador, para que se tome
irradiante, disseminando beneficios e
se espraie pelo abandonado e
esvaziado interior do maior Estado da
federagdo. O desafio 6 grande, mas
vem em boa hora.


Perspective
A expectativa que fica, depois do
forfait de Jatene ao encontro com
Lula no Acre, 6 qual vai ser a attitude
do governador em relacao a
administragqo federal petista. Mesmo
sem se juntar aos demais
governadores da regiao no ato com o
president da reptiblica, Jatene
endossou A distfncia o termo de
cooperagao para a montagem de um
program de desenvolvimento
sustentivel para a regiao, que sera
elaborado atrav6s de um grupo
interministerial ampliado para
receber representantes dos Estados.
Mas nao colocou seu aval no outro
document, de fortalecimento do
Banco da Amaz6nia.
Significa que o governador do Para
seguira um caminho a parte ou espera
por compensaqoes melhores e maiores
para embarcar na nau de Lula?









MEM Rr IA DO COTIDIANO


As vozes da rua


Uma das colunas mais interessantes da
imprensa paraensefoi Vozes da Rua, pu-
blicada durante mais de duas dicadas
pela Folha Vespertina, o outrojornal di-
drio do quepode sepodia chamarde gru-
po Folha. 0 principal redatorda coluna
foi Paulo Maranhdo, ele prdprio o dono
da empresa e seu redator-chefe. Sem pre-
cisarassinar, nem compseud6nimo, o ve-
Iho Paulo Maranhdo aproveitava o es-
pago, na primeira pdgina dojornal ves-
pertino, para dar suas opinioes, obser-
var a vida da cidade, atacar desafetos,
informar e aprimorar seu texto. As ve-
zes abusava das palavras dificeis e dos
arcaismos, mas manejava com total con-
trole uma lingua que aprendera (e apre-
endera) tanto na cultural national quan-
to e sobretudo nos cldssicos da lite-
ratura portuguesa. Estava mais ligado a
Herculano, Eca ou Camilo do que aos
brasileiros. A coluna express o intimo
de Paulo Maranhdo mais do que qual-
quer outro dos seus tantos escritos. Por
issso, decidifazer uma antologia das Vo-
zes da Rua. Optei por deixar de lado, ao
menos por ora, os textos politicos. A se-
leqdo buscou retratar os usos e costu-
mes da cidade e dos seus moradores, as
vozes da rua captadas por Maranhdo.
Nas quais podia-se falar de cacete e ca-
cetinho, referindo-se a um tipo de pdo,
sem provocar olhares maliciosos e co-
mentdrios maldosos. Belim ainda era
Belem e ndo se dava conta disso.
Um fiel que freqUienta os atos reli-
giosos da igreja de S. Raimundo consi-
dera inconvenient que padres estrangei-
ros, pronunciando mal a nossa lingua,
preguem sermbes que, em vez de incu-
tirem no espirito cat6lico unqCo e res-
peito, provocam zombarias. Cita ter ou-
vido ha dias a pr6dica de um deles na
par6quia de S. Raimundo, nome que o
sermonista chamava "piroca" de S. Ra-
imundo. O audit6rio desatou a rir e o
revererido, irritado, exclamou: Advir-
to que nao admito riso dentro da "piro-
ca". Quem quiser rir vA pra fora da "pi-
roca". (Agosto de 1958)
Certo juiz aposentado, que se des-
taca pelo vozeirdo, ter um costume p6s-
simo: quando vai a compras em qual-
quer estabelecimento commercial, apro-
veita a distraqao do caixeiro e embolsa
o que Ihe fica ao alcance da mao. Outro
dia, entrou no "Vesdvio" e pediu certa
quantidade de bombons e, na ocasiao em
que o empregado estava a pesA-los, pas-
sou para os bolsos Avidos duas manche-
ias, em quantidade superior Aquela que
adquirira. O surrupiador diz o infor-
mante das "Vozes" ter um dedo da
destra atrofiado. Que faria se nao tives-
se? (Maio de 1960)
Num dos arranha-c6us de Bel6m o
vigia costuma fazer, A noite, "tourndes"


de inspeqCo pelos corredores e foi num
desses giros que surpreendeu a povoar
a povoar a terra uma das moradoras do
Edificio, cujo parceiro era um empre-
gado da Panair.
O fato foi denunciado ao sindico, que
fez sentir A V8nus flagrada que devia
convencer o marido de que nao estA sa-
tisfeita e deseja mudar-se.
Diz o informant das "Vozes" que a
esposa adiltera tem filhas mocas. Que
belo exemplo Ihes da! (Agosto de 1961)
Quem quer camarao! Quem quer
camarao!
o o pregao de um vendedor ambulante
que anda a oferecer o marisco saboroso
por essas ruas afora.
Uma leitora das "Vozes" chamou-o:
Psiu! Psiu!
O home atendeu-a:
A como 6 o quilo?
Duzentos cruzeiros!
Mas custa 50 na praia!
Isso 6 li. Aqui sao duzentos no duro!
Esse ambulante merece as vistas da
Economia Popular. (Dezembro de 1961)
A Condor tem as suas tradiq6es
amorosas que desafiam os anos. De vez
em quando retumba de li um cason es-
candaloso, em que Baco e Cupido se en-
trelaqam. Anteontem, essas tradic6es ti-
veram prosseguimento hist6rico. Um
grupo de pr6ceres politicos e adminis-
trativos ali abancou no bar de Joao de
Barros para o almoqo, As 14 horas, ten-
do cada um a seu lado uma garota das
quais o poeta diria: "ter 17 anos sem luz
nem ino cencia 6 ter morrido ao despon-
tar da vida".
O uisque flufa A larga. Nao menos o
vinho, nao menos outros liquidos mais
generosos e ardentes. Dessas parcelas al-
co6licas desferiu-se uma bebedeira ge-
ral. Eram 8 horas da noite quando ter-
minou o agape pantagrudlico. (Feverei-
ro de 1962)
Prenuncia-se movimentada a tem-
porada de veraneio na ilha do Mosquei-
ro; e como ja se espera, muitos veranis-
tas trocaram quase em definitive o mal-
tratado "Presidente Vargas" [navio do
governor federal quefazia a linha] pelos
velozes tixis-adreos, cujas passagens ca-
ras nio diminuem o elevado nimero de
passageiros. t necessArio alguns cuida-
dos cor o campo de pouso do Chap6u
Virado, cuidados que se fazem urgentes
(desmatamento das bordas laterais e re-
paro da pista) antes que algum desastre
possa trazer dissabores a quem tao ale-
gremente busca as praias para um just
repouso. (Julho de 1963)
Os moradores da estrada "Provi-
d&ncia" "Quarenta Horas" na sua
maioria maciqa japoneses, pediram ao
sr. Prefeito os reparos urgentes de que
precisa aquela via plblica, Para atenu-


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F6sforos paraenses

0 empresario paraense
Secundino Portela con- FOSFOROS
Sseguiu uma faganha: fa- N I i i,
zer os f6sforos da sua 0j
Fasa (F6sforos da Ama-
z6nia S/A) penetrarem Il ,
I no fechado e carteliza- ,T.U
do mercado do sul doM
Spas. Em embalagens te-
m ticas, os palitos co-
meqaram a ser vendidos
Sno Rio e em S eo Paulo,
para estupor dos donos
Sdo peda;o. Da modest
fibrica, instalada na ro-
Idovia Arthur Bernardes,
entire Beltm e Icoaraci,
levantada com recursos
dos incentives fiscais da
Sudam, saiam as caixi-
nhas graciosas e instru-
tivas, que estavam con-
quistando preferencias.
Tudo indicava que,
no movimento inverso WEA L$L; 4 IEN AP D KI, U N X O W
ao dominant, a indis-
tria paraense iria ao sul
(na 6poca, o Basa patrocinava "o sul vai ao norte"). Quando a compe-
tiqlo se acirrava, Secundino preferiu passar em frente seu neg6cio
para o concorrente e ir atris de outras transaq6es de mais imediata
lucratividade.
Acabaria tendo um fim trigico, ainda pendente de complete escla-
recimento. A Fasa tamb6m morreria logo depois. Ficou esse registro, de
uma sagaz campanha de f6sforos, lanqada no inicio de 1970, que corte-
I java as tras grandes (uma delas non troppo) torcidas do futebol paraen-
se, mais a caixinha olfmpica, aproveitando a motivaqgo da ocasi.o.
A Fasa foi um sonho numa noite de verio, que, infelizmente, se
transformaria num pesadelo pessoal para seu sonhador.
mmnmmmmmmmmmmmmmmmmmmm


ar as despesas em que o serviqo foi or-
qado, concorreram com a metade. JA IA
vAo alguns meses e nada at6 hoje se fez.
O inverno vem af, e se nao meterem
desde jA maos A obra, a estrada aludida
sera um lamaqal intransitavel. Lembra-
se ao prefeito que o prometido 6 devi-
do. (Novembro de 1963)
Perguntaram-nos por que a "Palmei-
ra", onde tanta coisa boa ha para ven-
der, nao fabric uns cacetinhos, tao agra-
diveis de merendar.
Sente-se, realmente, a omissho. Man-
dam-nos do Rio, em pacotes de 10, que
por aqui sao vendidos, A razao de 180
cruzeiros o inv61ucro, ou sejam, 18 cru-
zeiros cada cacetinho.
E claro que os homes de conscien-
cia e de probidade que empregam toda
a porqAo da sua capacidade e inteligen-
cia no governor da grande indistria, que
6 a "Palmeira", nao nos pediriam aque-
le preqo escorchante, pondo os caceti-
nhos ao alcance das nossas bolsas.


Se nos 6 permitido interferir o bedelho
onde nao 6 de nossa conta, sugerirfamos
ao eminente padeiro, como ele pr6prio se
chamou, o nosso ilustre amigo Ant6nio
Marques, que metesse maos A obra, dan-
do-nos cacetinhos a comer, e pondo os de
origem carioca para fora do mercado.
Flaubert dizia que quando nos tor-
namos velhos os habitos sao tiranias. 0
pensamento do autor de "Salamb6" pa-
rece aplicar-se ao bancArio Luzio Hori-
cio de Lima, que, a 13 iltimo, atingiu 75
dezembros, sem querer aposentar-se,
mesmo com todas as vantagens legais.
Diariamente vemo-lo chegar ao armaz6m
de borracha do BCA [Banco de Cridito
da Amaz6nia, antecessordo Basa], A hora
regulamentar, e de li sair quase ao cre-
plisculo, deixando em dia o serviqo. Para
o Luzio Lima, que noutros tempos ga-
nhou medalhas de campeao remista, o
hAbito do trabalho sera uma tirania, de
que nao se quer distanciar. Ainda o vere-
mos no centendrio... (Dezembro de 1963)


Jorn l e-P.sj- ....ito ...i .i i 217 6 ............ 036 ., ..m.................... ,io ...... .. ..... ( .......-A