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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00247
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00247

Full Text




ANO XVI MPessARoO
NQ 298 R$ 3,00n a l P e DE 2003

A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


CVRD


0 dragao da



maldade

Para o bem ou para o
mal, a Companhia Vale
do Rio Doce tem, no
Para, importancia que
nenhuma outra empresa
possui em qualquer
outro Estado
brasileiro. Mas n&o 4
amada pelos
paraenses, como prova
mais uma temporada de
caca a companhia. 0
motivo explicit 4 a d
instalaqao de uma
siderurgia no
Maranh&o. Mas ha
razbes ocultas
tambem.


um horizonte de 10 anos,
centre 1998 e 2008, a Com-
panhia Vale do Rio Doce
terd investido mais de 11,5
bilhoes de d6lares (ou 40
bilh6es de reais) no Pard. t investimento
equivalent ao da hidrel6trica de Belo
Monte (projetada para ser a segunda mai-
or do pals e a quarta do mundo), incluindo
seu sistema de transmissao de energia (com
tres mil quil6metros de extensdo). Desse
total, US$ 6,6 bilh6es (R$ 23 bilh6es) ji
foram aplicados, entire 1998 e 2002.
Os restantes US$ 5 bilh6es estdo pre-
vistos para serem gastos em oito projetos
at6 2008, principalmente para viabilizar
umngrande pl6o de cobre em Carajas.
Serlo cinco minas de cobre e uma de ouro
associado ao min6rio: duas em Canad dos


Carajis (Sossego e 118), uma em Curio-
n6polis (Cristalino), duas em Parauape-
bas (Alemao e a quarta fase do Igarap6
Bahia) e uma em Marabd, com a tinica
metalurgia (Salobo). Todas ficardo na re-
gido sul do Estado, onde existe um ativo
movimento separatist.
Ha ainda o projeto de niquel do Verme-
Iho, em Canad dos Carajas, e de bauxita,
em Paragominas. Gragas a exploraqao da


jazida de Paragominas, que se impoe por
causa do esgotamento da capacidade de
transport de min6rio pelo rio Trombetas,
a Alunorte seri expandida, com as fases 4
e 5 da alumina, recebendo a bauxita por
mineroduto, desde Paragominas atW Bar-
carena, cor aproximadamente 200 quil6-
metros de extensao. Esses novos empre-
endimentos deverao gerar 13 mil novos
empregos, entire diretos e indiretos. Ja nes-
te ano a produgqo de bauxita no Trombe-
tas chegard ao seu limited maximo, de 16,3
milh6es de toneladas, enquanto a Alunor-
te serd expandida para 2,4 milh6es de to-
neladas de alumina.
Sdo numeros para impressionar. Ndo hd
nada semelhante em nenhum outro Estado
brasileiro. A CVRD jd responded por 16%
do PIB (Produto Interno Bruto) do Pard.











Em 2007 essa participacao poderi estar
beirando um quarto de toda a riqueza pa-
raense. O faturamento da empresa no Es-
tado, no ano passado, foi de US$ 2,2 bi-
lhoes. Sua receita resultou da venda de 408
mil toneladas de aluminio, 1,6 milhao to-
neladas de alumina, 54 milhoes de tonela-
das de ferro, 9,9 milhoes de toneladas de
bauxita, 1,7 milhao de toneladas de man-
gan8s, 330 mil toneladas de caulim e 4,6
toneladas de ouro (o saldo remanescente
dajazida do igarap6 Bahia, queji foi exau-
rida). Al6m da CVRD, quatro empresas
coligadas (Albras, Alunorte, Mineraqo
Rio do Norte e Pard Pigmentos) responde-
ram por essa produ~go, empregando 17,5
mil funcionarios, dos quais 6 mil direta-
mente e 11,5 mil atrav6s de terceiros.
Quase 80% do faturamento (US$ 1,7
bilhio) foram obtidos com exportaqio
(equivalendo a proporqdo semelhante, de
80%, de todo o comrrcio exterior do Es-
tado, o s6timo maior do Brasil, o segundo
em saldo de divisas). A Uniao Europ6ia
adquiriu 42% do que a Vale vendeu, a Asia
ficou 28 % e a Am6rica do Norte comr
6%. O mercado interno consumiu US$
511 milhaes (23 %).
O Pard j 6 responsivel por metade (R$
7,7 bilh6es) do faturamento bruto da
CVRD (de R$ 15,2 bilh6es). Dos 164 mi-
lhMes de toneladas de mindrio de ferro que
a empresa extraiu no ano passado, mais de
um terqo (54 milh6es de toneladas) safram
do Estado, maciaamente destinadas ao
mercado externo. Dos US$ 3,2 bilh6es de
exportaqges feitas pela empresa em 2002,
US$ 2,2 bilhoes (quase 70%) sao contri-
bui~ao paraense. Se as exportao6es liqui-
das (exportaq6es menos importac6es) da
Vale, no valor de US$ 2,8 bilhoes, corres-
ponderam a 21,3% do superivit da balan-
9a commercial brasileira, o Pard, sozinho,
entrou com pelo menos 15% desse saldo
national. Foi o Estado que permitiu A
CVRD apresentar-se novamente como a
empresa que mais contribuiu para a redu-
9do das necessidades de financiamento
externo do Brasil.
A tradu2io social desses numeros gran-
diosos, por6m, 6 um desastre. Com todo o
imobilizado da CVRD, que opera comer-
cialmente no Estado hi quase um quarto
de s6culo, o Pard integra o terceiro Brasil,
dos Estados mais pobres do pafs, com um
IDH (Indice de Desenvolvimento Huma-
no) abaixo da media. Com todas as aplica-
q9es que estao por vir, essa situaio, se nao
piorar, pode nao ter melhora expressive. E
um resultado coerente com a forma primi-
ria de exploragao dos recursos naturais
adotada pela Vale, que produz efeitos mul-
tiplicadores fora do Estado. Depois do ex-
trativismo vegetal dos coron6is de barran-
co, o extrativismo mineral dajungle com-


pany deixard o Pard atrasado na corrida
para o desenvolvimento. Quando chegar -
e se chegar a festa ji tera acabado.
Uma parte da responsabilidade por
esse paradoxo cabe A pr6pria empresa. A
Vale continue a tratar o Pard como se ele
fosse um residuo nas suas contas e um
detalhe na sua estrat6gia. Batendo recor-
des desde a privatizagqo, em 1997, sobre-
tudo na remuneraq~o dos seus acionistas,
a CVRD nao encarou como devia a
responsabilidade social que decorre do seu
peso no Estado. O que faz para atenuar
seu efeito de enclave 6 pouco expressive.
Preferiu esgotar suas obrigaqres no vare-
jo, pulverizando recursos atrav6s de con-
ta-gotas, e aceitando vincular essa rela-
qao a um padrdo marginal.
Um fato sintomitico: no auge do tiro-
teio de critics e dendncias, desencadeadas
pela possibilidade de implantar uma side-
rirgica em Sao Luis do Maranhao, a em-
presa, ao mesmo tempo em que enviava para
Belnm um director disposto a ouvir e nego-
ciar com os adversirios, colocava um ofici-
al dejustica nas ruas de Marabi para notifi-
car vereadores locais sobre a gravidade das
ameaqas que estavam fazendo.
Do ponto de vista estritamente legal e
formal, a iniciativa da empresa era proce-
dente. A partir da tribune parlamentar, as
ameaqas de bloqueio da ferrovia de Cara-
jds colocam em xeque a integridade patri-
monial e sujeitam a risco funcionarios da
CVRD. Esse tipo de incitamento 6 levia-
no. Quem o faz costume jogar para a pla-
t6ia, mas no meio dela a semente pode fru-
tificar e engendrar atos insensatos. Mas a
melhor attitude diante de Animos exaltados,
ainda mais quando tmr origem em moti-
vacao real ejusta, mesmo se descamba para
a irracionalidade, 6 contemporizar. Faria
melhor a Vale se acautelando e aguardan-
do o moment mais propicio para restabe-
lecer a razdo. Nao para o simples confron-
to, como varios de seus executives pare-
cem propensos, a partir da presuncao de
superioridade, mas para o didlogo.
Nao hi divida que o future nao seri
nada brilhante para o Pard se o Estado con-
tinuar a ser mero exportador de mat6rias
primas (inclusive energia bruta) e insu-
mos bisicos, que s6 sdo submetidos a in-
dustrializagao al6m dos seus limits terri-
toriais. Se executar apenas sua estrat6gia
de mineradora e paper company, obceca-
da por dividends e o valor de suas aobes,
centrada na sua posiqCo metropolitan, a
Vale jogard o Pard nesse buraco cruel.
Mais um no seu curriculo.
Se quiser corrigir os rumos indeseji-
veis (al6m de injustos) e promover efeti-
vamente o desenvolvimento, tera que
mudar sua mentalidade e abandonar es-
trat6gias de manipulagco e desprezo. Mes-
mo nao sendo a tnica culpada pela situa-
cio colonial do Para, 6 a mais visfvel das


culpadas, a mais evidence, a mais direta-
mente imputivel. Ou a empresa se cons-
cientiza disso, ou continuard a enfrentar
graves e crescentes prejuizos.
Mas hM tamb6m a parcela de culpa das
elites paraenses, e ela nio 6 pequena. Para
esconder sua culpa ou seus maus prop6si-
tos, tais elites costumam desencadear cam-
panhas de opinion. Quando a mobilizacqo
da populagqo chega num ponto critic, re-
trocedem e se acomodam outra vez (nada
gratuitamente, 6 claro). NSo estao empe-
nhadas em esclarecer a opiniio piblica e
faz&-la participar das decisoes. Querem
usar a sociedade como massa de manobra
para alcanqar seus objetivos. Uma vez atin-
gido o que estao visando, voltam a convi-
vencia risonha e franca com a CVRD, at6
nova crise, real ou fabricada. Executives
que ji passaram pela Vale poderiam dar
pungentes depoimentos a respeito, se pu-
dessem testemunhar. Ou quisessem.
O contencioso em torno da usina side-
rurgica projetada para o Maranhdo, a par-
tir de fundamentos reals e pertinentes, che-
gou h enfase atual por conta dos prop6si-
tos ocultos de algumas das elites paraen-
ses. Se a empresa est, escondendo cartas,
alguns dos protagonistas que a combatem
tamb6m nao estao sendo nem um pouco
sinceros, muito menos angelicais.
A mi-vontade do grupo Liberal, por
exemplo, principal ativador da campanha
contra a instalaq~o da sidenirgica no Esta-
do vizinho, tem como causa o silencio da
Vale a uma proposta, apresentada pela
empresa no infcio do ano, para retomar o
patrocinio do "Caminhando pelo Pari", um
incerto program de viagens do principal
executive da corporaqo, Romulo Maio-
rana Jdnior, pelo interior do Estado corn
sua comitiva particular (com muito de
Brancaleone e pouco de ex6rcito, mas com
a mesma marca). O program terminou no
ano passado. Sua volta envolveria algo
como 1,5 milh~o de reais. O Liberal pres-
siona para obter resposta positive da Vale,
que tern relutado. Parece que vai conseguir.
TAtica semelhante foi adotada anos
atrds, quando a CVRD decidiu nao conti-
nuar a patrocinar o "Arte Pard", um saldo
organizado pela Fundaqao Romulo Maio-
rana. Mat6rias contra a Vale safram conti-
nuamente at6 a renovaqCo do patrocfnio
commercial. Logo em seguida o tratamento
editorial mudou radicalmente. Nos iltimos
meses, pritica desse tipo foi adotada con-
tra a Rede Celpa e o Banco da Amaz6nia.
A Celpa foi atacada por se recusar a patro-
cinar o Pard Folia. O Basa, por ter dado
meia pigina de balanqo a 0 Liberal, en-
quanto publicava tr6s piginas no Didrio do
Pard. Na semana passada os dois jornais
receberam cota semelhante: sete paginas.
Ambos proclamaram o maior lucro na his-
t6ria do Basa. E nao se fala mais nosas-
suntos inc6modos do passado.


' MARCO DE 2003 Jomal Pessoal








Tanto no governor quanto entire os em-
presarios 6 falsa a aparencia de surpresa
e revolta com a noticia do p610 siderdr-
gico de Sao Luis. Todos haviam sido in-
formados sobre o assunto, nao s6 na sua
versdo atual, como nas suas origens.
Menos de um mrs depois da assinatura
do protocolo entire o governor maranhen-
se e a CVRD para a definigco da viabili-
dade da siderirgica, documents a res-
peito foram mandados para escrit6rios de
empresarios e gabinetes oficiais. Mas a
verdade 6 que nao hi planejamento que
mereqa esse nome, no ambito estadual,
para o setor. Mineraqdo, metalurgia e si-
derurgia ainda sao subprodutos da acgo
piblica no Park. t inevitivel que o Esta-
do fique desprotegido, sujeito As mis
surpresas e as aqces desvantajosas. Ou a
lideres inescrupulosos.
Pela tendencia A acomodago inercial,
cabe ao Pari, dono das minas, localizadas
no "famigerado" sertio (que as elites prai-
anas abominam), o papel extrativo. Ao
porto litoraneo, delega-se a tarefa de bene-
ficiamento primirio da mat6ria prima. Ain-
da mais se o porto tem vantagens locacio-
nais como o da Ponta da Madeira, no Ma-
ranhao, um dos melhores do mundo (com
calado para receber navios de 300 mil to-
neladas). Assim tem sido montada a paisa-
gem das regi6es mineradoras em quase
todo o mundo. Foi assim em Minas Ge-
rais, ainda nossa principal economic mi-
neral. E a dona das decisoes nesse setor da
economic brasileira.
Mesmo que tardiamente, por6m, os
mineiros reagiram e mudaram essa confi-
guraqco, ou a atenuaram. Graqas a um
movimento bem pensado e posto em pr6-
tica por suas elites, conseguiram fomen-
tar certa industrializagao. Mas ela nao im-
pediu que no p6lo litoraneo do process
produtivo, no porto de Tubarjo, no Espi-
rito Santo, se situasse o centro de semi-
elaboraqdo dos mindrios de Minas Gerais.
Para se conseguir algo parecido ao es-
forqo de endogenia dos mineiros nio bas-
ta ter vontade ou boas cordas vocals, no
caso dos agents mais histri6nicos da his-
t6ria. E precise dominar o assunto e saber
trati-lo operacionalmente (ter o chamado
know-how). Essas qualidades estao faltan-
do As elites paraenses, ainda adstritas A
funcio de intermediarias, que Ihes coube
no extrativismo vegetal (algumas delas
claramente predadoras, verdadeiras san-
guessugas). Os mineiros elaboraram um
projeto para o seu Estado. Claro que al-
guns dos c6rebros dessa campanha tira-
ram vantagem pessoal da causa. Mas ela
tamb6m serviu a todos, era legitimamen-
te uma causa coletiva.
O Pard abriu mAo desse poder. Mine-
raqCo 6 o rabo da fila de competencias da
Seicom, a secretaria que deambula na es-
trutura administrative do governor. Os il-


timos estudos prospectivos a respeito fo-
ram produzidos por consultores da CVRD
(e, a rigor, foram pifios, preparados de afo-
gadilho, pour pater les indiens). Ainda
assim, qualquer attitude racional depend
de um conhecimento adequado do tema.
Pelo que foi dito na atual controversial
sidertrgica, ou esse conhecimento nao
existe ou 6 insuficiente. A attitude reco-
mendavel no moment, portanto, nao 6 a
agressdo ou a retaliaqao, muito do agrado
de politicos, mas que geralmente tnm f6-
lego curto e densidade rala. O primeiro
pass 6 buscar o conhecimento, receben-
do-o como concessao ou arrancando-o
como conquista, quando 6 sonegado.
Ao que parece, o estudo de viabilida-
de t6cnica da usina s6 estari concluido no
final do mes, mas hi uma forte tendencia
para a definicao de Sao Luis. Os chine-
ses, que serio os s6cios majoritArios, que-
rem que assim seja. Eles fomeceriam o
carv~o mineral como carga de retoro dos
graneleiros, que Ihes levam o min6rio de
ferro de Carajis (20 milhoes de toneladas
anuais, ou mais de um tergo do que 6 la-
vrado em Carajis, navegando por 20 mil
quil6metros de distancia) e atualmente
v6m do Oriente "batendo lata". O frete de
retorno seria baixo.
A Baostel ficaria com 50% das ages
da nova empresa. A Vale entraria com algo
entire 20% e 10% do capital. Seu maior
interesse 6 vender min6rio e pelotas de fer-
ro. Em Sao Luis ji funciona, ha quase um
ano, a mais modern e maior (juntamente
com outra usina, da Samarco, em Tuba-
rio, cor 6 milh6es de toneladas anuais)
pelotizadora do pais. A id6ia 6 produzir
tr6s milh6es de places para abrir o merca-
do americano.
Segundo os especialistas, esta 6 a hora
certa. Os antigos mastodontes siderdrgi-
cos dos Estados Unidos estao fechando
ou em situagio ag6nicas (como as nossas
conhecidas Bethelehem Steel e United
States Steel). Os que estao renascendo ou
surgiram recentemente, vao se especi-
alizar cada vez mais em bens finals, agre-
gando valor aos seus produtos, economi-
zando energia e aliviando seus imobiliza-
dos. Vio querer comprar produtos semi-
acabados para beneficiary. Nao por acaso,
o incremento mais acentuado na siderur-
gia ocorreu no setor de places, deslocan-
do-se para o Terceiro Mundo. Os chine-
ses acham que 6 a brecha para crescer tam-
b6m para fora. E n6s?
Produzir places 6 melhor do que pro-
duzir apenas min6rio ou gusa, principal-
mente se podemos usar carvao mineral
ao inv6s de queimar floresta para obter o
sucedaneo (de melhor qualidade para
esse fim, mas de custo ambiental e soci-
al pesado), sem nos submetermos a um
frete insuportivel. A sociedade corn os
chineses pode ser boa, se a discutirmos


bem. SHo Luis, que eles querem e ponto
final, pode ser at6 aceitdvel. Mas antes
temos que fazer nossos calculos para ver
se nao cabe um cluster em Carajas mes-
mo. Cor min6rio, gusa (de outra forma
que nao a atual), places e quem sabe -
unidades de lingoteamento, laminaqao e
acabamento?
A montagem de um empreendimento
6timo para n6s, brasileiros e paraenses, nio
6 operaao simples, que pode ser resolvida
por um discurso. Das tres alternatives de
localizaqao (Carajas, Vila do Conde e Sao
Luis), a de Sao Luis parece a de maior po-
tencial. Mas 6 o caso de os representantes
do govemo e da sociedade paraense senta-
rem com os t6cnicos da CVRD para discu-
tir a possibilidade de deslocar o empreen-
dimento para o Estado.
Os 3 milh6es de toneladas de places de
aqo da projetada usina resultam de 4,2 mi-
lh6es de toneladas de min6rio tipo sinter
feed, 1,7 milhao de toneladas de carvao e
1,2 milhao de toneladas de pelotas. A defi-
nipqo da viabilidade 6 funqao de andlises
em torno das tres alterativas possiveis,
combinando custos do process produtivo
e adicionais de fatores extemos (fiscais,
tributarios ou politicos), nem sempre pon-
deriveis ou mensuriveis. Af 6 que deve
ocorrer o teste de consist8ncia: ou o calcu-
lo da Vale 6 exato ou cont6m (e esconde)
algum component extra. Numa mesa-re-
donda, formada por gente competent,
pode-se chegar A prova dos nove.
Obviamente, os chineses s6 se esta-
belecerdo no Brasil se dispuserem, na so-
ciedade commercial, de um guarda-chuva
protetor. A CVRD desempenha essa fun-
9go. Logo, a equaqAo precisa ser monta-
da com esses tres elements. Ou ser des-
montada da sua atual formulaqdo e ser
novamente formulada.
Pode-se at6, convencidos de que a fi-
brica de places de a9o deve ficar em Sao
Luis, negociar a continuaq~o das cadeias
do aluminio e do cobre at6 a industriali-
zaq~o, indo at6m do beneficiamento pri-
mario. Mas em cima de pranchetas e com-
putadores antes de ser levada ao debate
mais amplo. Os dois moments sao indis-
pensAveis. Sem essa harmonia hi o risco
de decis6es em gabinetes fechados, que
tem uma tradigqo ruinosa para o pais, ou
de atos populistas desastrados.
O Pari, que j sofreu muito desses dois
males, precisa mostrar que estA em condi-
96es de buscar a cura por seus pr6prios
meios, mas cor consciencia e competen-
cia (cor alguma humildade, tamb'[em).
Depois de ter atuado erroneamente ou se
omitido de sua hist6ria recent, sobretudo
quando deixou de aproveitar a abundncia
de energia (agora exportada em bruto) para
montar na regiAo de Maraba um poderoso
p61o siderirgico, o Estado pode comegar a
ter uma experiencia nova: a de acertar.


Jomal Pessoal MARGO DE 2003












Os grileiros de
terras van
utilizando o
judiciario para se
apossar de bens
do patrircnio
pdblico no Para.


ara algu6m que ainda tem divi-
da sobre a necessidade do con-
trole externo do judiciario, o
Pard estd oferecendo um con-
tundente exemplo em favor da tese.
O caso envolve a maior grilagem de
terras do pafs e, provavelmente, do
mundo. Diz respeito a uma area situada
no vale do rio Xingu, 800 quil6metros a
oeste de Bel6m. Tendo, no minimo, cin-
co milhies de hectares, pode atingir at6
sete milhoes de hectares.
Corn esse tamanho, a area poderia
former o 21 Estado brasileiro em terri-
t6rio. Corresponde a 6% da superficie
do Para, o segundo inaior Estado da fe-
deraqao. Equivale a quase tres vezes a
extensao de Alagoas, onde vivem tres
milh6es de brasileiros.
O principal atrativo atual dessa area 6
abrigar a maior concentracgo de mogno
da Amaz6nia. Por seu valor, essa esp6cie
6 tratada como ouro verde. Mas na verda-
de vale mais do que o ouro amarelo. E o
bem mais valioso da regido neste momen-
to. Causa de conflitos e de mortes.
O domfnio dessa area era inquestio-
navelmente pdblico em 1923, quando o
governor do Pard assinou contratos de ar-
rendamento com comerciantes da re-
giao, autorizando-os a explorer as arvo-
res de castanha e seringa existentes em
quatro glebas, que podiam alcangar at6
30 mil hectares.
O contrato tinha duracqo de um ano.
Caducaria automaticamente se ndo fosse
renovado. Era a forma comum na relaqdo
do poder pdblico com particulares nessa
6poca, em que a exploraqdo econ8mica da
terra na Amazonia era atrav6s do extrati-
vismo vegetal. Em alguns casos o arren-
damento foi renovado. Em outros, evoluiu
para o aforamento da terra. Mas nessas
quatro situages do Xingu nio houve qual-
quer novo contrato.
Como o extrativismo entrou em deca-
dencia e a exploraqdo dos altos rios foi
abandonada, as coisas ficaram na base do


Onde entra


dito pelo nao dito. A autorizagdo caducou,
mas o Estado nem se deu ao trabalho de
formalizar o fim da relag~o. Os terms do
contrato eram claros quanto A reversed
das terras ao patrim6nio pdblico depois de
um ano.
Al6m disso, o que estava em causa
eram apenas direitos de posse, materiali-
zados na presenga fisica do concessiona-
rio na area. Mesmo assim, os sucessores
daqueles coron6is de barranco (ou da
Guarda Nacional), autorizados a fazer uso
das terras devolutas, levaram os contra-
tos para registro em cart6rio.
A escrivd do cart6rio imobiliario de
Altamira, a capital do Xingu, nio hesitou
em lanqar no livro de propriedades o que
nao passava de posses, registrando no li-
vro tres, especffico de propriedades, o que
s6 caberia ficar no livro dois, de posses.
A partir daf se sucederam operagoes co-
merciais tendo como base aquelas terras,
ja devidamente matriculadas.
Mas como nenhuma cadeia imobi-
liaria pode ser formada sendo a partir
do desmembramento do im6vel do pa-
trim6nio pdblico (ji que os Estados
herdaram as terras da Coroa quando a
Repdblica derrubou o Imp6rio), a fu-
tura Fazenda Curua teve como origem
um "titulo habil".
Qual era esse titulo? Ningu6m sabe,
ja que ningu6m o viu. O Estado nao en-
contra tal document nos seus registros
de concessdo de terras. Os supostos de-
tentores do document jamais o apresen-
taram. O titulo 6 tdo fantasma quanto
Carlos Medeiros, personagem fictfcio
que outra quadrilha de grileiros inven-
tou para acobertar as apropriac6es de ter-
ras piblicas que efetuou, at6 cor maior
gula (suas pretens6es chegaram a 12 mi-
lh6es de hectares, espalhados por nove
municipios paraenses, incluindo a pr6-
pria capital do Estado).
Como no caso do "titulo habil", ne-
nhum ser human jamais viu o tal Carlos
Medeiros em care e osso, embora seus
procuradores judiciais se movimentassem
por cart6rios e gabinetes de magistrados
em nome do client metafisico.
0 que podia nao passar de um incident
paroquial de fraude e promiscuidade de po-
der se transformou num escdndalo de tama-
nho mundial, quando a pretensdo se multi-
plicou, alcancando quatro milh6es de hec-


tares no cart6rio, com base num mero do-
cumento cartogrifico, engoliu mais 700 mil
hectares em seguida e, nas verificaq6es de
campo, com base nas indicaq6es geografi-
cas, ultrapassou cinco milh6es de hectares.
O personagem principal deixou de
ser um coronel de barranco. Agora, era
um grupo empresarial de fora, que se
apresenta com varias faces jurfdicas,
mas gravita em torno de um ndcleo, o
paraense (estabelecido no Parana ha
muitos anos) Cecilio do Rego Almeida,
dono da C. R. Almeida, uma das maio-
res empreiteiras do pais.
O objeto da empreitada commercial dei-
xou de ser o latex da seringueira ou o
ourigo da castanheira. A16m do ativo
imobiliario, o principal alvo do neg6cio
passou a ser o precioso mogno, que, le-
vado para o exterior, pode valer oito mil
d6lares por metro cdbico. Os valores de
referencia passaram a ser medidos em
dezenas de milh6es de reais.
Em 1996, impressionado com a gran-
deza que o problema havia assumido, o
Iterpa (Instituto de Terras do Para) ajui-
zou uma aqgo na comarca de Altamira
para cancelar o registro imobiliario da
Fazenda Curua, que ja ent5o era de 4,7
milh6es de hectares.
Desde logo, independentemente do
julgamento do m6rito da questao, pen-
dente at6 hoje, o institute solicitou aojuiz
que fosse averbada a existencia da con-
testagao judicial A margem da matricula
do im6vel. A media serviria de alerta
para terceiros de boa f6 e acautelaria as
providencias posteriores. O suposto pro-
prietirio continuaria na area. S6 nao po-
deria passa-la adiante at6 que o conten-
cioso fosse decidido.
O juiz Torquato Alencar antecipou
liminarmente a tutela. A empresa recor-
reu da decisao. O desembargador (recen-
temente aposentado) Joao Alberto Pai-
va revogou a decisao de primeiro grau,
restabelecendo todos os efeitos do re-
gistro imobiliario.
Na sua decisao, o desembargador afir-
mou que a .rea era "inquestionavelmen-
te" propriedade particular, embora todas
as instancias do poder pdblico, da Policia
Federal A Procuradoria da Repdblica, do
Ibama A Funai, contestassem essa domi-
nialidade privada e, al6m disso, o tama-
nho da area supostamente titulada.


4 MARCO DE 2003 Jomal Pessoal











o judiciario?


O Tribunal confirmou por unanimida-
de a decisao do desembargador, numa ses-
sdo realizada antes de comegar o expedi-
ente regular do f6rum. Quando o procu-
rador do Iterpa chegou para participar da
sessao da camara, ji os desembargadores
se haviam retirado. Safram mais cedo para
uma viagem de trabalho ao interior do
Estado. Foi a justificativa.
Confirmada a plena disponibilidade
sobre a Fazenda Curui, o grupo conse-
guiu assumir o control de uma outra ex-
tensa area pr6xima, o Seringal Monte
Alegre. Alegando que a area estava sen-
do invadida para a extraqdo de mogno e
cedro, conseguiu um interdito proibit6-
rio judicial e indicou um depositario le-
gal para se responsabilizar pela madeira
derrubada e equipamentos que haviam
sido apreendidos.
Como o bem estivesse sujeito a dete-
rioraq~o, acidentes naturais e roubos, o
depositario fiel, por mandado de seguran-
Ca, foi autorizado a com recursos pr6-
prios serrar, embalar, classificar e ar-
mazenar essa madeira. S6 poderia vir a se
ressarcir desse pesado investimento quan-
do e se a justiqa deliberasse de vez o
que fazer com a madeira (avaliada em 120
milh6es de reais).
Embora a decisao proibisse a comer-
cializacqo da madeira, o Minist6rio do
Meio Ambiente reagiu imediatamente
contra a decisao da desembargadora Ma-
ria do C6u Cabral Duarte, desencadean-
do uma grita national. No dia seguinte a
president do tribunal chamou a colega
para uma conversa e convenceu-a a re-
vogar seu ato, remetendo o process para
a justiqa federal, considerada instancia
competent em funqCo do interesse da
Uniao pelas terras (a empresa esti con-
testando essa competencia).
Ja anteriormente a mesma desem-
bargadora havia concedido um recurso
da empresa, requerido atrav6s de fax,
e pelo mesmo instrument, o fax, co-
municado no dia seguinte sua decisao
Sjuiza de Altamira, que decidira con-
tra a empresa. Quatro horas depois,
quando o process foi distribuido para
outra desembargadora, Maria do C6u
revogou seu ato. Alegou que c6pia do
pedido Ihe fora submetido "por equf-
voco" e o despachara porjulgar-se pre-
venta para decidir a questao.


Enquanto os incidents pi-
pocavam, dentro e fora do
tribunal, os autos do pro-
cesso principal, formado
a partir da aqo do Iter-
pa, que haviam desa-
parecido em setembro
de 2000, reaparece-
ram em algum dia ain-
da nao definido de janei-
ro deste ano. O cart6rio re-
gistrou o dia em que o advogado da em-
presa retirou os autos, mas nao a devolu-
qao (a partir dessa omissao grave do res-
ponsivel, assentamentos passaram a ser
referidos como se existentes, embora pos-
sam ter sido feitos a posteriori).
Materializado novamente, o process
redivivo trazia em seu bojo uma novida-
de: longa sentenqa, de 38 laudas, assina-
da pelo juiz Luiz Ernane Malato, datada
de 19 de setembro de 2000, cinco dias
depois que os autos lhe foram conclusos.
Na 6poca, Malato atuava na comarca de
Altamira. Quando os autos ressurgiram
com sua sentenqa, estava licenciado, mas
de outra comarca, de Braganga, para es-
tudar em Sao Paulo.
Na sentenqa, o juiz decidiu nao exami-
nar o m6rito da questao, apesar da extensa
argumentaqo do Iterpa, extinguindo o pro-
cesso, por considerar que o Estado nao
havia provado sua titularidade da area.
Para assumir a condiqio de parte legi-
tima, o Iterpa precisaria ter discriminado
as terras, provando que elas eram efetiva-
mente pdblicas. A presungao de domfnio
pdblico, antes aceita, nio satisfez o ma-
gistrado. A conseqtiUncia pritica da deci-
sao: os registros em poder da empresa
continuavam vilidos, at6 demonstraqao
positive em contrario.
Durante os 28 meses em que os autos
estiveram em lugar incerto e nao sabido,
essa important e controversy decisao, para
dizer o minimo sobre sua explosividade,
permaneceu desconhecida de todos. Nada
vazou para a imprensa, nem parajornalis-
tas que acompanham o caso desde o inicio
e tiveram contato com o juiz nesse perfo-
do. Ele simplesmente manteve-se calado,
attitude natural para ele, ji que havia dei-
xado a comarca de Altamira.
A situagqo 6 grave e confusa, admitin-
do varias hip6teses e explica96es. Concre-
tamente, por6m, o que houve foi que as


parties interessadas s6 foram intimadas da
decisao 28 meses depois que, teoricamen-
te, ela foi anexada aos autos. Como os au-
tos foram retirados um m6s antes da data
da sentenga e nao hi registro da baixa an-
terior (embora, agora, tenham aparecido
movimentaq6es registradas no livro de car-
ga), todas as suposioqes sao possiveis. Mas
nenhuma elucidaqao foi dada atd hoje.
Tendo decidido, Malato recorreu de
offcio da pr6pria decisao, como manda a
norma processual, exaurindo a instancia
judicial de primeiro grau. Quase dois anos
e meio depois 6 que foi aberto o prazo para
o recurso cabivel, a apelaqao ao Tribunal
de Justiqa do Estado. Mas sua substitute
em Altamira, juiza Danielle Bihmrheim,
na semana passada revogou todos os atos
decis6rios que constavam dos autos e de-
clarou a justiqa estadual incompetent
para apreciar o feito, encaminhando o pro-
cesso para a justiga federal.
Ha um clima de perplexidade, espanto
e incredulidade diante dessa hist6ria toda,
que nao faz berm imagem dajustiga, prin-
cipalmente porque ela tarda demais a pres-
tar os devidos esclarecimentos. Quando
presta esclarecimentos.
O que esti em causa nao 6 um terreni-
nho qualquer, mas, no minimo, cinco mi-
lhaes de hectares, area da grandeza de um
pais. Por um passe de alquimia escritural,
essa vasta area pode evaporar do patrim6-
nio pdiblico e se materializar em um ativo
particular, transferindo o control sobre o
maior adensamento do mais valioso pa-
trim6nio vegetal do Estado, que, no seu
todo, 6 medido em bilh6es de reais, deze-
nas e dezenas.
No v6rtice dessa hist6ria esta ojudicia-
rio, cuja in6rcia leva o cidadao cumpridor
da lei, mas que perquire por seus direitos,
a pensar cada vez mais no control exter-
no, uma altemativa que cabe como luva no
caso paraense. E a quantos outros?


IJmnl Rmasl MARCO DE 2003 -










A Conituio livre o ensar

A Consaituicao
assegura a


liberdade de
dxpressao e de
pensamento. Mas
nao no Para,
onde critical
e crime


lismo durante 19 dos 21 anos do
regime military (1964-1985).
Nesse period, todas as garan-
tias individuals e os direitos elementares
da pessoa estavam sujeitos a violaqao,
inclusive a liberdade de imprensa, princi-
palmente por parte do Estado, que se com-
portava ora como um Leviata ora como
um Behemoth.
Mas fui levado ks barras dos tribunals
apenas uma vez, em 1976. Como editor de
um suplemento que editava em O Liberal
(o Encarte), dei duas pdginas sobre a vio-
18ncia da policia na busca e recapture de
press fugidos. As fotos, de espancamento
e baleamento, eram chocantes. O texto, de
Paulo Ronaldo Albuquerque, duro.
Impressionado, como todos os leito-
res, o governador Aloysio Chaves man-
dou instaurar inqu6rito para apurar os
fatos. Aplaudimos a iniciativa, pr6pria de
um cultor do direito. Chamado a depor
no IPM, fui ao batalhdo da Policia Mili-
tar como testemunha. Saf de 1I como r6u.
Outros jornalistas haviam dito em seus
depoimentos que aqueles flagrantes de
agressdo eram falsos. As fotos teriam
sido montadas.
O president do IPM me ofereceu uma
possibilidade de fuga: bastava incriminar
o Paulo Ronaldo, figure sempre visada
pela policia (nTo exatamente por seus er-
ros, mas por seus acertos). "Queremos
acertar as contas", me confidenciou o ca-
pitdo, depois coronel e secretrio de se-
guranqa pdblica.
Mas eu selecionara aquelas fotos e edi-
tara o texto porque eram a pura verdade:
os press iam ser torturados na ilha de Co-
tijuba; como fugiram durante a travessia
da bafa, na lancha Marta da ConceiqCo,
apanharam depois. O military me olhou de-
sapontado, esperou alguns segundos e de-
pois, com um ar de sem-jeito, ouviu-me.
Em seguida, fui chamado A sede da
Policia Federal, que funcionava na traves-
sa Castelo Branco. Ali fui palmilhado e


fotografado. Estava enquadrado na fami-
gerada Lei de Seguranga Nacional. A acu-
sagao: insuflara a populacgo contra uma
instituigao pdblica, a policia. Era um sub-
versivo. Apenas Paulo Ronaldo e eu ha-
viamos sido despejados do p6lo da ino-
c6ncia para o da culpa. Todos os demais,
por confessar o delito de manipulagao,
foram liberados do constrangimento.
O process nao chegou a esquentar na
Auditoria Militar. Foi logo desqualificado
e remetido para a justiqa comum. Por um
motivo 6bvio: nao haviamos ameagado a
seguranga national. No f6rum criminal de
Bel6m, o process acabou arquivado. O
promoter (depois desembargador) disse em
seu parecer que eu merecia uma medalha
por minha coragem, nao uma puniqgo.
E foi s6, ao menos na via judicial.
Houve outras ameagas fisicas e intimida-
q6es, al6m de numerosos constrangimen-
tos a que osjornalistas eram levados quan-
do cobriam certos acontecimentos. Mas
nem mesmo no auge de polemicas acesas
meu contender, inclusive os dotados de
muito poder (como o multiministro Jar-
bas Passarinho), sequer cogitaram de me
acionar na justiga.
Sou grato, at6 hoje, a esses oponentes
por tomarem nossas divergencias a partir
de uma premissa: de que sou um profissi-
onal suficientemente sdrio para nio escre-
ver sobre o que desconhego e para nao
colocar o boi da privacidade diante do
carro do interesse pdblico.
Continue a serjornalista nestes quase
18 anos de democracia plena que estamos
vivendo, imaculada do ponto de vista for-
mal (ou potential), com outra coloracao
da perspective essencial (o que diz muito
sobre a imaturidade da democracia a bra-
sileira ou sobre essa forma de organiza-
qco political da sociedade humana, en-
quanto tese em si).
Mas nos iltimos 11 anos respond (e
continue a responder) a 15 processes ju-
diciais, 13 dos quais permanecem ativos,
dois deles porque os magistrados se de-
claram suspeitos imotivadamente ou pos-
tergam o desfecho de casos ji prescritos
(um outro 6 natimorto, mas se mant6m por
emulagdo do poder da sua autora).
Sdo seis os autores dessas a6es: Ro-
sangela Maiorana Kzan (5 processes),
Cecilio do Rego Almeida (3 processes),
desembargador (recentemente aposenta-


MARCO DE 2003 Jomal Pessoal


do) Joao Alberto Paiva (2), desembarga-
dora Maria do C6u Cabral Duarte (2),
madeireiro Wandeir dos Reis Costa (2) e
prefeito Edmilson Rodrigues (1). Dois dos
autores sao empresarios, outros dois de-
sembargadores, um 6 comerciante e o ou-
tro 6 politico.
Sao 12 ac6es criminals, todas alegan-
do delito de imprensa (com base na triste
Lei de Imprensa do regime military, de
1967, que subsiste ao pleno restabele-
cimento democritico constitutional, ve-
Iho de 15 anos), e tr6s acqes civeis (duas
de indenizaqdo por dano moral e uma
para me impor silencio etero a respei-
to da autora).
Nenhuma das pessoas que me acionou
na justiqa exerceu o direito de resposta.
Essa caracteristica se contrap6e ao que
elas sao, todas personalidades pdblicas,
com maior ou menor destaque. Reagindo
a artigos publicados neste joral, nenhu-
ma delas foi atacada em sua vida privada.
Todas as andlises inquinadas de crimino-
sas abordaram temas do mais relevant
interesse pdblico. Das 13 aq6es que tra-
mitam atualmente pelo f6rum de Bel6m,
9 se referem A grilagem das terras e de-
vastacdo das florestas do Xingu.
Em nenhuma dessas mat6rias jornalis-
ticas as personagens foram acusadas de
serem criminosas ou ofendidas com adje-
tivos. Os textos sao substantivos: a partir
do estudo de caso e da interpretacgo dos
fatos, os personagens sao criticados por-
que seus atos violam a lei e/ou ameaqam
o patrim6nio da coletividade.
Nenhum dos textos constitui libelo
ou possui tom editorializado. Quando se
manifestam, as opinides se sustentam
em arguments demonstrativos. Logo,
para serem contraditadas, requerem
igual demonstracao.
A isso, em qualquer lugar civilizado
do planet, di-se o nome de dialogo. A
p6rola da democracia 6 a controversial, que
elucida as quest6es e ilumina os caminhos
da sociedade. No Para, esse procedimen-
to tem sido carimbado de criminoso nas
instancias judiciais do Estado.
Por suas decis6es majoritirias, ao me-
nos no que a mim concern, a justiga do
Pard imp6s uma lei nio escrita, 6 claro
- da mordaga A imprensa. Ou, ao menos,
A imprensa que tem a coragem de procla-
mar a verdade inc6moda aos poderosos.











Para?


No m8s passado a jufza da 16a vara
penal, privativa dos crimes de imprensa,
me condenou a um ano de prisao, pena
convertida em duas cestas bisicas, de um
salArio minimo cada, durante seis meses,
em funcgo da minha primariedade. Meu
crime: ter criticado decisao do desembar-
gador Joao Alberto Paiva, na liminar de
uma cautelar, que restabeleceu a plenitu-
de dos efeitos de um registro imobiliArio
feito no cart6rio de Altamira. Por ato do
juiz de primeiro grau, a margem desse re-
gistro havia sido averbada a existencia de
uma acao de anulaqio e cancelamento
dessa matricula, proposta na comarca pelo
Iterpa (Instituto de Terras do Pari).
A providencia, deferida pelo juiz Tor-
quato de Alencar, antecipava a tutela para
que terceiros de boa f6 soubessem que a
dominialidade da Area estava sendo ques-
tionada pelo 6rgdo fundiArio official do
Estado. Se a adquirissem, deixariam de
ter direito A boa f6 e, em conseqiiuncia, a
eventuais indenizaqoes, caso ajustiqa aca-
basse decidindo em favor do Iterpa.
Qual o prejufzo para o detentor do re-
gistro? Nenhum, exceto se ele tivesse pro-
p6sitos especulativos sobre a Area. Como
alardeava que a utilizaria para um projeto
ecol6gico, nada o obstava de realizar seus
intentos. A media acautelat6ria sejustifi-
cava pelo fato de que a Area podia se esten-
der por algum valor entire cinco milhoes e
sete milh6es de hectares.
Essa vastissima extensdo de terras, que
daria para former o 21 mai-
or Estado da federag~o bra-
sileira, composta por 27 uni-
dades, tinha todos os indi-
cios, fortissimos, de jamais
haver sido desmembrada do
patrimonio pdblico.
Evid6ncias nesse senti-
do ji haviam sido reunidas
e apresentadas por todas as
instancias do poder pdbli-
co, federal e estadual, da
Policia Federal ao Ibama,
do Ministdrio Piblico Fe-
deral A Funai, quando o de-
sembargador Joao Alberto,
liminarmente, revogou a
tutela antecipada pelo juiz
de Altamira. E o fez com
fundamento num pressu-
posto: de que aquela area


era inquestionavelmente de proprieda-
de privada. S6 depois de decidir, subme-
teu seu ato ao Minist6rio Ptiblico, que
divergiu de sua posiqao.
Nio escrevi que o magistrado agiu com
intengqes ocultas ou que favoreceu deli-
beradamente a Incenxil (atris da qual esta
o empresario Cecflio do Rego Almeida).
Escrevi que errou. Fiz a afirmativa prepa-
rado para sustenti-la diante da opinion pd-
blica, como estou preparado at6 hoje. Mas
nao estava preparado para ser advertido de
que critical juiz 6 crime (e de lesa-majes-
tade) na 6rbita dajustiqa paraense. Pensei
que a verdadeira democracia tivesse che-
gado aqui e nao apenas grileiros, desma-
tadores, salteadores e cavalos de Tr6ia.
Lamentei que o desembargador nao
explorasse as possibilidades do contradi-
t6rio antes de decidir, ouvindo antes e
nfo depois o MP, por exemplo. Nao
disse que a lei o obrigava a essa consult
pr6via. Disse que o bom senso lhe reco-
mendava a cautela, considerada pelo povo
tao boa quanto o caldo de galinha.
Lamentei que o juiz, obunubilado pe-
las lantejoulas probat6ria dos autos, dei-
xasse de olhar em torno, ouvindo o clamor
das ruas, conforme o chavao de uns anos
atris, nas quais se destacavam as vozes das
instituig6es t6cnicas do govemo, unanimes
e unissonas em denunciar a grilagem mon-
tada por tris dos registros imobiliirios frau-
dulentos (com toda a cornuc6pia de pap6is,
carimbados ou nao, que lhe dao na apar8n-


no


Jomal Pessoal MARCO DE 2003 "7


cia o que nao tem na substincia). Se ouvis-
se esse clamor o magistrado nao poderia
proclamar que aquelas terras de vastidio
continental sio inquestionavelmente de
propriedade particular.
Estou eu, entao, hoje, condenado como
um reles difamador por dizer a verdade,
impedido de poder provi-la diante da ins-
tancia que devia ser o Arbitro das pessoas
pdblicas envolvidas em temas de interes-
se pdblico: a sociedade, ou, tecnicamente
falando, a opinido pdblica. E tamb6m de
lamentar que um servidor pdblico, igno-
rando quem Ihe paga o salArio (e, agora, a
alta aposentadoria), parta diretamente para
o sil6ncio dos autos sem antes prestar con-
tas ao distinto pdblico sobre a controv6r-
sia suscitada pela imprensa.
Infelizmente, demands temerdrias, des-
cabidas ou imotivadas nio s6 estao sendo
acolhidas como levam a condenaoqes que
parecem tomadas sem considerar as provas
nos autos, como se o destiny de jornalistas
inc6modos ji estivesse escrito no c6u.
Talvez por isso a desembargadora Ma-
ria do C6u Cabral Duarte tenha decidido
me processar por ter repetido o que ela pr6-
pria escreveu em uma outra pol8mica de-
cisao sobre o Xingu, transformando pala-
vras que eram suas em minhas e agravan-
do-as com o sentido alegadamente denota-
tivo das aspas, que apliquei ao meu texto,
cumprindo a norma gramatical, ao repro-
duzir afirmativa originalmente dela.
Nao escrevo este texto para pedir aju-
da, clem8ncia ou comiseracqo. NSo con-
sidero just o que estio fazendo comigo,
mas sei me defender e me defenderei.
Sem vergar um milimetro a coluna da mi-
nha dignidade e sem me deixar intimidar.
Escrevo para colocar meus leitores di-
ante de fatos que, incidental-
mente me prejudicando, na
verdade prejudicam a toda a
sociedade, estigmatizando o
Parf com a n6doa do bani-
mento daquilo que 6 vital en-
tre series humans: a liberda-
de de pensar, o direito de ex-
pressar o que se pensou e a
necessAria faculdade de colo-
car esses pensamentos em le-
tra de forma. Para que todos
saibam e o que mais sabe pos-
sa fazer o que sabe, ao inv6s
de ficarmos simplesmente su-
jeitos ao que pode mais, ao
dono da bola.
Neste journal, enquanto
ele conseguir sobreviver, o
6inico jogo aceito 6 o da
verdade.









N-Ai o...ft. CoTi AN o


Energia
At6 metade da d6cada de 50
do s6culo pissado, uma velha
usina do Departamento Muni-
cipal de Forga e Luz fornecia
energia para Bel6m. Quando
esse servigo passou para a For-
qa e Luz do Pari, empresa con-
trolada pelo governor do Esta-
do, surgiu um problema: a usi-
na da prefeitura gerava ener-
gia em corrente continue, en-
quanto a da Forca e Luz funci-
onava em corrente alternada.
A pedido dos industrials, a
prefeitura se comprometeu a
manter sua usina em funciona-
mento, mas no final de 1956
anunciou que iria parar. Dois
eram os motives principals: a
falta de combustivel para as
miquinas e a falta de recursos
municipals para tender o pe-
dido de aumento dos funcio-
narios, que somavam tres mil.
Em janeiro de 1957 uma
comissdo de empresarios, A
frente Wady Thom6 Chami6,
Sa Ribeiro e Felipe e Raimun-
do Farah, pediu para o gover-
no assumir o neg6cio. O go-
vernador Magalhies Barata
preferiu passar o abacaxi para
a Spvea (antecessora da Su-
dam) descascar.

Prestes
Policiais e militares ocupa-
ram nao muito discretamen-
te as ruas de Bel6m entire os
dias 10 e 3 de janeiro de 1957.
A missao: impedir que fosse
comemorado o aniversdrio do
lider comunista Luis Carlos
Prestes, entao em mais uma
clandestinidade, que transcor-
ria no dia 3. Os adeptos do "ca-
valeiro da esperanqa" prome-
tiam realizar atos publicos.
Mas o dnico que se atre-
veu, sendo devidamente tran-
cafiado como subversive, foi
Jos6 Diogo Oliveira, empre-
gado da Tapecaria Artistica,
uma loja que funcionava na
rua Manoel Barata. Bastante
alcoolizado, deu vivas a Pres-
tes e foi preso pelo delegado
do Guami e levado para a
Central de Policia.
Isso, em plena democracia.


Adquira Titulos de 56do Proprielk

do PAYSANDU

Honra e GI6ria do Esporte BrasileirO




N0 RTE 40 c

E| NWLOEI TOS



PUBLICIDADE

A toca novo do Papao
Com base na condidio de "honra e gldria do esporte
brasileiro ", a diretoria do Payssandu langou, em 1965,
a campanha para a construqdo da "melhor sede social
do Norte, no local da sede antiga ", na entdo
"aristocrdtica" avenida Nazare. Seria a maior
conquista do clube: quatro pavimentos "inteiramente
destinados aos s6cios ". Quem quisesse ajudar, podia
comprar novos titulos, comercializados corn
exclusividade pela Norte Melhoramentos, corn
escrit6rio no Edificio Gualo, na entdo imponente
avenida Presidente Vargas, que prometia ser o novo
centro de neg6cios (hoje e um camel6dromo). A peca
de langamento da campanha foi produzida por um
torcedorfandtico: Abilio Couceiro, dono da Mercutrio,
a ativa agencia de publicidade.


Amapa
Em janeiro de 1957 a Ico-
mi (Inddstria e Com6rcio de
Min6rios) inaugurou a primei-
ra base de lanqamento de ri-
quezas minerals da Amaz6-
nia: o porto de Santana, no
Amapa. Conectado por uma
ferrovia de 195 quilometros
de extensdo A jazida, em Ser-
ra do Navio, o porto embar-
caria milhoes de toneladas do
melhor manganes para o ex-
terior, principalmente os Es-
tados Unidos (ndo por acaso,
a Bethlehem Steel era s6cia
no empreendimento).
O president Juscelino Ku-
bitscheck responded present
a inauguracqo. Aldm de JK,
tamb6m discursaram na oca-
sido o president da Icomi,
Augusto Trajano de Azevedo
Antunes, e o deputado federal
Coaracy Nunes, de uma famf-
lia que podia tudo no Amapa
daquela 6poca (incluindo o
coronel Janary Nunes, que era
o president da Petrobris, e
Pauxys Nunes).
Depois de um v6o de cinco
horas de duraqao, desde Boa
Vista, capital de Roraima, Jus-
celino desceu 16pido em Ma-
capi, foi a Santana de navio (a
bordo do "Lobo Dalmada", da
"frota branca" dos SNAPP,
hoje Enasa) e, de trem, a Serra
do Navio. Voltou a tempo de
participar de um arrasta-p6 em
Macapi. No dia seguinte ji
estava de volta a Brasflia.
F61ego (e carisma) de poli-
tico pra valer.

Teatro
O Grupo de Teatro da Uni-
versidade Federal do Para fez
seu festival de fim de ano, em
1962, apresentando de uma s6
vez, em duas sessoes, "O De-
lator", de Bertold Brecht; "Ca-
minho Real", de Anton
Tchekov; "O Velho da Horta",
de Gil Vicente; e "O Ingles
Maquinista", de Martins Pen-
na. Na direq~o de todos os es-
peticulos estava Amir Hada-
dd, contratado pela UFPAjun-
to ao Teatro Oficina, de Sdo
Paulo. Os mais destacados alu-
nos do curso de iniciaqgo tea-

MARCO DE 2003 Jomal Pessoal









M E M 6 R I A :D-


tral eram Claudio Barradas,
Daniel de Carvalho, Dayse
Medeiros, Mendara Mariani,
Martha Goretti, Maria de Be-
16m Negrao Guimaraes e De-
olinda Ovarte.
Safra das boas.

Livro
Em novembro de 1962 o
Departamento de DivulgagCo
e Turismo da Prefeitura Mu-
nicipal de Bel6m realizou uma
Feira do Livro na Praqa da
Repdblica. No estande dos es-
critores paraenses foram colo-
cados A venda livros de Stl6io
Souza, Georgenor Franco, Er-
nesto Cruz, Apio Campos, Ja-
cques Flores, Candido Mari-
nho da Rocha, Vicente Salles,
Eneida, Jarbas Passarinho, II-
defonso Guimaraes, Carlos
Rocque, Libero Luxardo, Bru-
no de Menezes, Luis Osiris
Silva e Renato Tapaj6s.
Talvez tenha sido a inica
vez em que todos esses escri-
tores estiveram juntos e nao
pessoalmente.

Contrabando
Um dos bons programs
em Bel6m entire as d6cadas
de 50 e 60 eram os leil6es de
contrabando apreendido pela
alfandega. O mais concorrido
de 1962, resultado de uma
operaqao executada em Abae-
tetuba, arrecadou 4,2 milh6es
de cruzeiros. Entre os
melhores lotes ofertados
estavam 10 mil pares de
sandilias japonesas, 1.388
embalagens plasticas corn
desodorante Lander, 217
garrafas de uisque Queen
Anne e dois fardos de fazenda
com 227 metros. Mas havia
itens sugestivos da natureza
do contrabando, como um vo-
lante de direcgo para lancha
e peas avulsas para motor de
popa. Esse tipo de mercadoria
s6 faltava vir com o carimbo
do destinatirio.
Os principals arrematan-
tes do leilao, realizado na
Guarda-Moria da Alfandega,
eram comerciantes como Eli-
as Hage, Isaac Obadia e An-
t6nio Severino. Legalizado, o


contrabando ia parar nas pra-
teleiras das lojas.


Cinema
Manoel Pinto da Silva
comprou, em 1952, o grande
terreno na avenida Nazar6, de
"canto" para a Praca da Repd-
blica, onde ergueria o maior
edificio de Bel6m e do norte
do Brasil (em altura, ainda o
n6mero um entire n6s), com seu
nome bem no alto. Original-
mente, o pr6dio, projetado pelo
engenheiro Feliciano Seixas,
deveria abrigar no subsolo
(onde o terreno era natuyral-
mente mais fundo) uma gara-
gem para 300 carros e, no pri-
meiro andar, um cinema luxu-
oso, com ar condicionado e
poltronas estofadas.
Manoel Pinto ji pensava
nesse cinema quando construiu,
do outro lado da praga, a sede
de sua firma de comercializa-
qao de carros, "A Automobilis-
ta". Mas a parceria com Luiz
Severiano Ribeiro, dono da
maioria dos cinemas da cidade,
ndo deu certo. A partir daf, pro-


clamava que iria dar aos para-
enses uma sala de projeqao a
altura de seu merecimento, nao
as "espeluncas" que o distribui-
dor national explorava, interes-
sado s6 no lucro, nao em inves-
tir na terra.
Mas o cinema de Manoel
Pinto da Silva acabou nao
saindo.


Liquidagao
As Lojas Salevy, plurais no
titulo, mas estabelecidas num
dnico endereco (avenida 15 de
Agosto, atual Presidente Var-
gas, onde foi levantado o edi-
ffcio Palacio do Radio) expli-
cava, em anincio de 1956, que
nao escondia uma pitada de
ironia, porque liquidavam todo
seu estoque no tiltimo trimes-
tre do ano: "1 Porque um
balanqo de grande estoque de
mercadorias 6 demasiado tra-
balhoso, demorado e carissi-
mo; 2 Contar dinheiro 6 fa-
cflimo; 3 Liquidar o estoque
para renovi-lo no ano seguin-
te 6 a melhor solugao".
E pt saudaq6es.


Festa
Lourival Barbalho foi o or-
ganizador, em 1956, da tradi-
cional Festa do Term6metro,
na qual os doutorandos de
medicine se despediam dos
colegas da faculdade. A festa
daquele ano foi nos sales do
Palace Theatre, que ficava
atris do Grande Hotel (atual
Hilton Bel6m). Traje passeio
era exigido. As 10 da noite o
maestro Guides de Barros bo-
tava sua orquestra para tocar.
Era um acontecimento fino.

Burros
Os moradores do populo-
so bairro da Cremaqdo se
queixavam, em 1960, do apa-
recimento de grande ntimero
de burros. Andando livremen-
te pelas ruas, sem direqao, os
animals ji haviam atropelado
"elevado nimero" de pesso-
as. Dizia-se no bairro que os
burros eram de propriedade da
prefeitura, que os soltava de
dia para pastarem nos capin-
zais da cidade.


RETRATO

A sede da UAP
Seqiincia realmente hist6rica de fotos, re-
gistrando ato ocorrido em 17 de outubro de
1956. Na primeira, o universitcrio de engenha-
ria Alcyr Meira assina, no cart6rio do tabelido
Chermont, a escritura de compra de uma casa
na avenida Sdo Jeronimo (a Govenador Jose
Malcher dos nossos dias), onde seria instalada
a sede prdpria da gloriosa UAP (Unido Acade-
mica Paraense). Na outra, Alcyr, president da
entidade, entrega um cheque no valor da tran-
saqdo ao antigo proprietdrio. A UAPfuncionou
nessa sede sem problems ate 1964, quando os
militares afecharam aforga. Conseguiu reabrir,
mas ndo por muito tempo. 0 clima ndo era pro-
picio a political estudantil (nem a qualquerpoli-
tica), nos anos de chumbo do regime military A
sede sefoi, a entidade tambem. Mas a legend
permaneceu. A UAP era um dos estdgios mais
importantes para a formagdo de liderancas no
Pard. Depois de nela militarem, os estudantes
tomavam seus rumos, a esquerda, a direita ou
pelo centro. Na maioria das vezes, em qualquer
sentido, cor destaque.


Jomal Pessoal MARCO DE 2003 Q












0 trem da
exportac o leva
as riquezas da
Amaz6nia para
fora. Deixa na
regiao buracos
e problems


a uma profissao em alta no
interior do Para, o segundo
maior Estado brasileiro: a de
stoleiro.A remuneragqo nao
6 1~ grande coisa diante do risco do neg6-
cio porque o valor atribuido aos alvos dos
profissionais do setor tamb6m 6 baixo.
Mas os contratantes prometem que o ser-
vigo sera rapido, nio tera complicaqoes e
conta com um atrativo important: o as-
sassino dificilmente sera identificado e
preso. Seus protetores sempre Ihe prome-
tem um pr8mio de consolaqao para com-
pensar a fraca remuneraqao: a impunida-
de. Freqiientemente total.
Ningu6m conseguird medir visualmen-
te o mercado da morte por encomenda.
Os pistoleiros nao andam pelas ruas poei-
rentas das cidades de beira de estrada com
um 38 na cintura, modelada por um cin-
turao de balas. A arma costuma ser fome-
cida pelo contratante, que tamb6m lhe da
sumigo, despachando o contratado limpo.
Nem sempre esses profissionais do tiro
sdo homes fortes ou violentos. Muitos
sdo franzinos, de olhar humilde e aparen-
cia pacata. Nao 6 raro colocarem sobre o
travesseiro uma cabeqa destituida de qual-
quer dor moral.
Raramente sao recrutados no mesmo
lugar no qual executam sua tarefa m6rbi-
da. Realizado o "serviqo", voltam A sua
atividade regular, que pode ser o cultivo
da terra ou a garimpagem de min6rio. A
esmagadora maioria 6 trazida de Estados
vizinhos, geralmente do Maranhdo, onde
ainda funciona um sindicato do crime para
tender pedidos e desembaragar tarefas.
O Pard 6 o lider em urbanizaqao tar-
dia no Brasil, o que significa possuir a
maior taxa national de ruralizagao. 0
municipio da capital possui apenas
20% da populagdo do Estado (Manaus
acomoda metade de toda a populagdo
do vizinho Amazonas, o maior dos Es-
tados brasileiros).
Mesmo considerando toda a sua area
de influencia, o peso demografico de Be-


Aonde vai o


16m vai pouco al6m de um tergo dos seis
milh6es de habitantes do Estado. Ha uma
pulverizagio de gente nos 1,2 milhho de
quil6metros quadrados do seu territ6rio.
O Pard esti representado na bandeira
national por aquela estrela solitaria, que
fica do lado de cima da faixa de ordem e
progress, o jingle da Repdblica positi-
vista. As outras 26 unidades federativas
foram agrupadas na parte de baixo da fai-
xa, que atravessa o simbolo da patria de
um extreme a outro. Seria uma inadverti-
da simbologia negative, de que o Pard esta
condenado a desordem e ao atraso, ao in-
v6s da interpretacgo dos paraenses sobre
seu privil6gio exclusivista na partilha do
espaqo federativo?
O com6rcio da morte acertada e o tra-
balho escravizado indicam a primeira hi-
p6tese. Nessas duas modalidades nada
olfmpicas o Pard continue disparado no
levantamento national promovido pela
Comissdo Pastoral da Terra. A versao
2002 das estatisticas, que a entidade di-
vulga hi 18 anos, foi langada no mes pas-
sado, em Brasflia, confirmando o Para na
cabeqa em mat6ria de violencia no cam-
po e no abuso da mio-de-obra rural.
Aparentemente, nenhuma novidade
nessaja amarga rotina. Interpretados com
mais atenqAo e melhor conhecimento de
causa, por6m, os dados mostram uma ten-
dencia ao agravamento desses problems,
nao a sua atenuaqio (falar em solugao
parece completamente fora de prop6sito).
Incentivados pela impunidade e a au-
s8ncia de uma arbitragem eficaz, os ato-
res do tumultuado cendrio paraense es-
tao recorrendo cada vez mais diretamen-
te as chamadas vias de fato, sem passar
por etapas intermediarias de negociaqao.
Por isso a quantidade de conflitos de ter-
ra (a principal causa da beligerancia) di-
minuiu ligeiramente, mas o ndmero de
assassinatos cresceu. O primado da vio-
l1ncia esta cada vez mais acentuado, ar-
rastando consigo a disposiiao de contra-
riar as normas legais e de desafiar o apa-
relho pdblico incumbido de aplici-las ou
fiscalizar sua aplicaqao.
Dos 38 assassinatos praticados em
meio a conflitos pela posse da terra no
Brasil no ano passado, 17 (ou 45%) acon-
teceram no Pard (o segundo lugar 6 do
Espirito Santo, muito mais present no
noticidrio jornalistico national, com seis
casos, quase tres vezes menos). O nime-


ro de conflitos baixou um pouco (6%),
mas os assassinatos aumentaram 30%, as
agressoes fisicas foram 50% maiores e as
ameaqas de morte quase dobraram.
Em compensaTao, as prisoes diminuf-
ram em quase 30%. Em mais da metade
dos casos de homicidio, ou os assassinos
nao foram identificados ou conseguiram
fugir. De qualquer maneira, estao livres,
leves e soltos. Para outro homicidio.
O Pard esta em situaqco ainda pior em
mat6ria de trabalho escravo. O cresci-
mento dessa forma a mais vil e antiga
de exploragqo do trabalhador foi con-
siderado "assustador" pela CPT. Atingiu
a quantidade record de 148 casos, en-
volvendo 5.665 pessoas, dos quais 117
casos e 4.333 pessoas trabalhando sob
regime forqado no Pard. Sao espantosos
80% do total. O segundo lugar 6 do vizi-
nho Maranhao, com 12 casos e 432 pes-
soas. Dez vezes menos.
A divisa entire os dois Estados, alias,
ainda pendente de um arbitramento no
contencioso da area do Gurupi, se tor-
nou metaffsica. O trem de transport de
min6rio de ferro de Carajas, manobra-
do pela Companhia Vale do Rio Doce
gragas a uma concessao federal de 50
anos, se tornou um dos principals vef-
culos dos anacronismos nas relaqGes
sociais nessa regiao, justamente a mais
violent dos dois Estados.
Os 900 quil8metros da ferrovia, li-
gando a maior provfncia mineral do pla-
neta, no Para, a um dos mais privilegia-
dos portos oceanicos da Terra, o da Pon-
ta da Madeira, em Sao Lufs do Mara-
nhao, 6 o segundo mais important cor-
redor de exportaqao do pais. Mas entire
esses dois terminals ha um mundo de
marginalidade e exclusdo que se expan-
de como uma bolha de tensdo, sempre
ameagando explodir.
Os p6ssimos indicadores sociais do
Para, sempre em conurbaqao com os do
Maranhao (a despeito da crescente riva-
lidade e antagonismo entire ambos), tem
se tornado cada vez piores, ao inv6s de
melhorarem. No entanto, o Estado 6 o ter-
ceiro que mais recebe investimentos em
infra-estrutura no Brasil. Ostenta tamb6m
alguns indicadores economicos expres-
sivos em funq~o da ampliagco de sua base
mineral e metaldrgica, que Ihe da rele-
vancia mundial. Mas parece condenado
a esquizofrenia social por causa do mo-


1 ( MARCO DE 2003 Jomal Pessoal











trem da Amazonia?


delo de enclave desses investimentos. Os
beneffcios sAo concentrados. Os maleff-
cios, socializados.
Uma simples viagem pela ferrovia de
Carajas, uma das mais modernas do pafs
(pela qual o volume de min6rio transpor-
tado ji bate em 60 milh6es de toneladas,
quatro vezes seu tamanho de projeto), dis-
pensa legends e explicaq6es. Em uma de
suas origens esti o impressionante patio
de manobras e de estocagem de mat6rias
primas da Ponta da Madeira, em proces-
so de ampliaqdo para receber um p6lo si-
derdrgico, que amiudard ainda mais a fre-
qiincia dos imensos navios internacio-
nais, tipo Panamax, cuja capacidade de
carga se conta at6 pelas centenas de mi-
lhares de toneladas.
Na outra ponta da linha esta o mais
deslumbrante conjunto de min6rios acu-
mulado num s6 ponto da crosta terrestre,
cercado por uma exceptional paisagem de
floresta (a tnica ainda integra na regiao),
animals e Agua, sem igual em qualquer
outro cendrio de mineraqio.
Quem consegue transport a guarita de
seguranqa da CVRD, no p6 da serra, e
subir o plat6 da lavra mineral, a 400 me-
tros de altitude, dificilmente deixard de
encantar com o que verd, tanto de obra da
natureza quanto (sujeita aos miasmas pr6-
prios) do home. Os japoneses, que da-


quelas minas extraem 15% de todo o mi-
n6rio de que precisam para os altos-for-
nos de suas siderurgias, se extasiam. Al-
guns asseguram, com bonomia, ser o ini-
co lugar no qual os orientais ficam de
olhos esbugalhados.
No meio do caminho, por6m, o viajante
do trem, que sempre corre lotado de gen-
te humilde, feia e pobre, embarcada aos
empurr6es nos pontos intermedidrios, po-
deri testemunhar o espeticulo triste do
fim de todo um vale, como o do Pindar6,
dilapidado hi geraq5es, mas corn nfase
maior pelas atuais.
Se fizer duas vezes o percurso (18 ho-
ras em cada direcqo), talvez encontre
gente que foi e gente que voltou, gente
que levava seus sonhos para a fronteira
e que de l os trouxe, ji na forma de de-
silusao. Se inquirir seus companheiros de
viagem, talvez se surpreenda em consta-
tar que muitos sequer possuem um do-
cumento de identificaCqo.
Ja os inquiridos se surpreendero de
serem inquiridos, o que raramente suce-
de. A liberdade do ir-e-vir, levada ao pa-
roxismo por um culto constitutional for-
malista, di asas A constant e desinibida
migraqdo de gente que ndo cultua o iden-
tificar-se, como os pistoleiros de aluguel.
O trem foi um element da explora-
9~o de paragens tropicais de fronteira,
como na Asia. Mas um fil6sofo do s6culo
XIX, convencido de que a humanidade
caminha sempre para frente (e para cima),


n5o criando problems que nao possa re-
solver, contemporizava os critics do co-
lonialismo ingles no Oriente.
Os trens que levavam o bwana para os
locais de exploraqdo dos recursos natu-
rais descobertos (futuras mercadorias)
seriam os mesmos que os natives usariam
a expulsar os colonizadores. Mais do que
tudo, funcionaria a modernizaqdo, pedra
de toque para o progress.
Hoje, mais velhos, talvez mais instru-
idos pelas liq6es do tempo, ainda pode-
mos nos dar ao luxo de conviver com o
desperdicio (tanto de recursos naturais
quanto de series humans) e de acreditar
que basta modernizar as regi6es remotas
do pafs para que elas se desenvolvam
atrav6s da autoclave dos "grandes proje-
tos", empreendimentos produtivos que
ir~o ligar esses pontos remotos da civili-
zacao as grandes praqas de consume dos
bens que deverdo produzir, quintessen-
cia da modernidade elevada A condigqo
de p6s-tudo? Serdo mesmo esses empre-
endimentos centros de dinamismo, pro-
vocando efeitos econ6micos para frente
e para tras, multiplicando os investimen-
tos? Ou serio, na verdade, autenticos
cavalos de Tr6ia?
A negra estatistica divulgada na sema-
na passada pela CPT, "verbalizando"
(como diz o patui academico) o que cir-
cula em gabinetes fechados ou no circui-
to do governor, recomenda, como attitude
sensata e humana, verificar cada um des-
ses empreendimentos, olhar em torno de-
les e fazer contas muito bem feitas para
saber aonde eles efetivamente irio levar.
Antes que levem a um destino que nao
nos fard melhores. Nem mais dignos.
Muito pelo contrArio.


Jomal Pessoal MARCO DE 2003 11












Os rios sempre
foram mais do que
S agua na regiao.
Mas podem virar
quase nada se
nada for feito
para protege-los



dores das margens do rio Iriri,
um dos formadores do Xingu,
por sua vez um dos principals
afluentes da margem direita do rio Ama-
zonas, no Pard, comecaram a notar o
aparecimento de peixes mortos. S6 um
m8s depois 6 que foram informados so-
bre a causa provivel da alta concentra-
cao de cianotoxinas nas aguas do rio,
que acabaram se estendendo por boa
parte do baixo Xingu, ameagando a vida
da fauna e de pelo menos 100 mil pes-
soas, incluindo tres dos maiores grupa-
mentos indigenas do Estado. O Iriri e o
Xingu, a partir do ponto em que suas
aguas se fundem, percorrem aproxima-
damente mil quil6metros, de sul a nor-
te, atd desaguar no Amazonas, o maior
rio do planet.
Desde o inicio do fen6meno, atW a
sua identificagqo e registro para comu-
nicacqo As autoridades, foram necessi-
rios 10 dias. Uma amostra da agua con-
taminada s6 chegou alguns dias depois
aos laborat6rios da Universidade Fede-
ral do Para, em Beldm, quase mil quil8-
metros a leste de Altamira, a maior ci-
dade do vale do baixo Xingu (com 85
mil habitantes). Foi fAcil diagnosticar o
problema: teor de nitrogenio amoniacal
muito acima do limited estabelecido pela
legislagao ambiental brasileira para
aguas da classes II, aquelas que podem
ser consumidas pelo ser human.
Quanto A causa do problema, foram
logo apresentadas duas ordens de teorias
explicativas. A origem poderia ser natu-
ral, provocada pela multiplicacao exage-
rada de algas no fundo do Iriri, as proxi-
midades das suas nascentes, que exauri-
ram o oxig8nio. O gis matou diretamente
os peixes mais suscetiveis e foi agindo so-
bre a cadeia alimentar, al6m de se espa-
lhar pela agua. O alcance, a velocidade e
a intensidade dos seus efeitos, entretanto,
surpreenderam as pessoas que vivem ou
acompanham a vida na region.


Sujeitos


Duas hip6teses com base em causes
humans foram tamb6m suscitadas. A pri-
meira especulagqo foi associada ao uso de
produtos qufmicos na extracio madeirei-
ra, a atividade de maior impact na irea
atualmente. O veneno poderia ter sido
aplicado na imunizag~o da madeira ou
seria um desfolhante utilizado para ace-
lerar a acao dos desmatadores.
Posteriormente, a especulaq~o se
deslocou para uma antiga mina de cas-
siterita, ji desativada. Dos tanques de
contenqdo abandonados poderia ter va-
zado arsenio, usado na depuracao do mi-
nerio de estanho.
A prova dos nove terd que aguardar
at6 quando andlises mais profundas po-
derao esclarecer o fenomeno. Indepen-
dentemente de suas origens, por6m, ele
ji assumiu a caracteristica de um auten-
tico desastre ecol6gico, dos maiores nas
aguas da Amaz6nia nos iltimos anos.
Milhares de peixes de virias esp6cies e
outros animals morreram, incluindo os
resistentes jacards.
Privacqes e prejuizos foram causados
A vida humana, embora ainda nio se te-
nha noticia de qualquer morte. Muitas co-
munidades tiveram que suspender o uso
do rio para suas necessidades e recorrer a
poqos artesianos. Algumas ficaram duran-
te virios dias sem agua potivel. Outras
foram privadas tamb6m de sua principal
fonte de alimentaqo, o peixe.
Mais do que tudo, por6m, ficou ates-
tada mais uma vez a precariedade dos
meios de prevenqao e control de proble-
mas na regiao. Problems que tendem a
se diversificar e agravar na media em que
a presenqa humana se adensa e se expan-
de. Se o teor de gis agressivo A vida nas
aguas do Iriri 6 um produto da natureza,
que se realizava e se exauria em seus li-
mites, sua transformacgo em caso de ca-
lamidade piblica deve-se A presenga cada
vez maior do home em dominios novos,
em regimes at6 entdo selvagens, expandin-
do a fronteira antr6pica.
O pioneiro vai avanqando celeremen-
te, mas a estrutura de servigos, dentre as
quais a do governor, como normatizador e
regulador, encarregado de prover o con-
forto e de assegurar o equilibrio, nao o
acompanha. O resultado e que, no caso
do desastre do Iriri, as autoridades rece-
beram a noticia da contaminaqCo das
aguas, mas nao dispunham de recursos


para deslocar imediatamente seus t6cni-
cos atW o local para a verificaCqo do pro-
blema e a coleta de material. Daf a incer-
teza sobre o fen6meno perdurar por tanto
tempo, um contrast cor a capacidade da
ciencia para dar respostas mais imediatas
e oferecer os meios para proteger o ho-
mem desse tipo de agressdo.
O descompasso entire a disponibili-
dade, em tese, dos conhecimentos hu-
manos ja existentes e o avanqo da ativi-
dade produtiva 6 uma das causes dos
grandes danos que o alargamento das
fronteiras amaz6nicas causa, A natureza
e ao pr6prio colonizador. Ao prejuizo
diretamente ecol6gico se aduz a destrui-
q~o de bens que poderiam se tornar pro-
dutos e mercadorias (inclusive renovi-
veis), se o process nao fosse tdo ca6ti-
co, predat6rio, irracional.
A biodiversidade tem sido a principal
vitima, pela qual todos ainda verteremos
ligrimas de sangue (cifronizado ou nao).
Investe-se pouco nas formas de antecipa-
qio e de remediaqdo da presenqa huma-
na, como se a corrida As novas terras ama-
z6nicas tivesse que seguir os mesmos pro-
cessos de s6culos anteriores, ignorando o
avango civilizat6rio.
Essa "filosofia" exp6e os pioneiros (e
tamb6m os nativos, conv6m nao ignorar)
a um risco que seria evitado se a ci8ncia,
a tecnologia e as conquistas da sociedade
humana seguissem junto com os devassa-
dores das novas fronteiras econ6micas.
Como isso nao acontece, quase 100 mil
pessoas ficarem sujeitas A intoxicaqao e
envenenamento por falta de informagao a
tempo sobre a contaminago das aguas
que utilizam para consume pr6prio. A
ameaqa estiveram expostos tanto os habi-
tantes citadinos de Altamira quanto os
indios de trns grandes aldeias.
Se antes do inicio do process de inte-
gragdo fisica e econ6mica da Amaz6nia
ao restante do Brasil, do qual era pouco
mais do que um apendice at6 a d6cada de
50, o home vivia em certa harmonia com
a natureza, que era o element dominant
da relag~o, hoje os p6los se inverteram.
Dava-se ao luxo de retirar do rio grande
parte do que precisava para tender suas
necessidades, da Agua para beber ao pei-
xe para se alimentar.
A natureza As vezes filtra, mas qua-
se sempre incorpora os efeitos da aqac
humana, mesmo que nao gere reaqde


MARCO DE 2003 Jornal Pessoa











aos desastres


imediata, nem ofereqa aviso de contra-
indicaqao. Ha bombas de efeito retar-
dado plantadas em virios pontos da re-
giao, como se fossem minas abandona-
das pelos que combatem a natureza
como se enfrentassem um inimigo odi-
ado (nao a companheira de antes).
A hip6tese sobre a contaminaqco
do Iriri por residuos de ars8nio da mi-
neraqao de cassiterita 6 uma dessas mi-
nas. Na bacia do Xingu, rio acima,
uma outra mineradora utilizou ciane-
to para a produgao de ouro. Tera dei-
xado residues? Eles podem estar che-
gando as drenagens naturais? Quantas
outras lavras, abertas sem qualquer
preocupa50o com seu impact ecol6-
gico, nao foram encerradas cor a mes-
ma negligencia, formando lixeiras a
c6u aberto?


Nas d6cadas de 70 e 80, quando ain-
da nao havia a consci8ncia ecol6gica
dos nossos dias, muitos desastres acon-
teceram na Amaz6nia sem sequer me-
recer o registro que agora teve a conta-
minaqao no Iriri. Fazendeiros aplica-
ram desfolhantes quimicos para se li-
vrar do estorvo da cobertura vegetal de
suas areas (legitimas ou griladas) e pro-
duzir mais rapidamente pastagens, que
logo em seguida entravam em degra-
daqao, na esquizofrenica substituigqo
de paisagens ricas por paisagens po-
bres, que tem sido uma das marcas da
"integragqo" da Amaz6nia.
Em outro epis6dio, t6cnicos safram
atris de venenos que a desastrosa Agro-
pecuaria Capemi supostamente deixa-
ra na area que seria inundada para a for-
maq~o do enorme lago artificial da hi-


r.


drel6trica de Tucuruf, no Tocantins. At6
os p6s da barragem, alias, podia chegar
o mercurio aplicado desbragadamente
pelos garimpeiros de Serra Pelada na
cata de ouro. De drenagem em drena-
gem, assumindo a forma mais sinuosa
de veneno organico, o merclirio pode-
ria chegar at6 Bel6m, a maior cidade
da region.
Tudo 6 possivel. Nao esteve a capi-
tal paraense, bem pouco tempo atris,
exposta A poluiqgo de petr6leo, que era
transportado numa embarcaqgo sem
qualquer condicao de desempenhar
esse tipo de atividade (tanto que nau-
fragou bem na margem, de uma forma
primiria, que s6 por acaso nao se trans-
formou em uma nova trag6dia).
Como se fosse a face oculta da
Lua, essa 6 a face nao iluminada da
glamurosa aventura
amaz6nica, que nao faz
parte do script. 0 ro-
teiro do fascfnio inclui o
ponto de extragdo da ri-
queza, os meios para
levi-la a um ponto lito-
raneo de embarque (ou
reembarque) e as pro-
vid6ncias para faz6-la
chegar at6 um ponto de
consume final. Neste
dltimo 6 que atuam os
atores principals dessa
hist6ria, os mocinhos.
Para tris ficam os
saloons, as minas, as
estradas poeirentas e os
rios que vdo se tornan-
do precarios meios de
transport ou de abaste-
cimento de agua, sem
que seus usuarios se
deem conta da dimensdo
do drama que estdo vi-
vendo. E, menos ainda,
dos elos invisiveis que
os atam A epop6ia de
conquista. Na qual,
como de regra nessas
hist6rias, sao apenas
cendrio, decoracqo ou
figurantes. Condena-
dos, portanto, ao anoni-
mato e ao descaso. E,
frequentemente, A mor-
te antecipada. Estupi-
damente abreviada.


Jc arl a1al MARCO DE 2003 1












0 fimdosgrandesMudan as na


contracts e
energia 4 a
oportunidade
para mudar as


regras do jogo

E m maio do pr6ximo ano a Ele-
tronorte tera que renegociar os
contratos de fornecimento de
energia com seus dois principals
clients. Sao as duas maiores fabricas de
alumfnio do Brasil e da America do Sul:
a Albras, que funciona em Bel6m, capital
do Para, de propriedade da Companhia
Vale do Rio Doce e de um cons6rcio ja-
ponds (a Naac), e a Alumar, instalada em
Sao Luis, no Maranhdo, na qual estao as-
sociadas a Alcoa (maior produtora mun-
dial do metal), a BHP Billiton (uma das
maiores mineradoras do planet) e a Al-
can, tres dos seis integrantes do cartel das
seiss irmas", as principals empresas des-
se mercado.
Juntas, as duas fabricas produzem per-
to de 800 mil toneladas de aluminio pri-
mario (dois tergos do total national), qua-
se integralmente exportado. Produzindo
o bem industrial que mais absorve ener-
gia, elas sao responsaveis por 3% da de-
manda energ6tica brasileira (ou 1,9 mil
megawatts, o triple do consume de todo
o Estado do Pard). Todos os meses pagam
entire 15 milh6es e 20 milh6es de d6lares
de conta de energia a Eletronorte, ou em
tomo de US$ 200 milh6es no final do ano.
Esse custo represent pouco mais de 10%
do valor de suas exportag6es. Se tivessem
que pagar a energia pela tarifa real, teri-
am que acrescentar US$ 400 milh6es ao
que recolhem A conta da empresa estatal.
Em 20 anos de contrato, que serao
completados em 2004, o subsidio chega-
ri a US$ 2 bilh6es, dinheiro suficiente
para construir mais do que uma fibrica
de aluminio inteiramente nova. Entre
1986 e 1995, as inddstrias de aluminio
instaladas no noroeste dos Estados Uni-
dos, que contribufam com 40% da pro-
dugao americana, receberam de subsidio
US$ 935 milh6es. Projetado para 20
anos, 6 quase o mesmo valor que favore-
ce a Albras e a Alumar, com notAvel di-
ferenqa entire os dois casos: nos EUA ha
mais inddstrias e mais produgdo parti-
lhando esse favor. E os EUA sao muito
raais ricos do que o Brasil.


As plants de aluminio do noroeste
americano estao diminuindo sua produ-
gqo ou simplesmente fechandojustamen-
te porque o favorecimento energ6tico se
tornou insustentavel. As tarifas pratica-
das estao na faixa de 20 a 40 d6lares o
megawatt/hora. A tarifa paga pela Al-
bras, a menor do pafs, negociada em
1980, varia entire 12 e 13 d6lares o MWh.
A Alumar, que fechou sua negociaqao
contratual tr6s anos depois, paga ao re-
dor de US$ 22 o MWh.
Porta-vozes da Alumar j mandaram
dizer que renovarao o contrato, se pos-
sivel por mais 20 anos, se esse patamar
for mantido. Ele represent um recolhi-
mento mensal de US$ 5 milh6es cons-
tantes (e pagos em dia) na conta da Ele-
tronorte. Para a Albras, mesmo essa ta-
rifa enormemente favorecida significa-
ra ter que quase dobrar o recolhimento
atual a estatal amaz6nica. Ainda assim,
valera a pena e como!
Mas sera vantajoso para a geradora da
energia? Pelos padres atuais, nio. O pes-


quisador Raymundo Ruy
sor aposentado da Uni-
versidade Federal do
Para e principal autori-
dade sobre o tema no
Estado, calcula em 72
d6lares o custo do me-
gawatt/hora gerado na
hidrel6trica de Tucuruf.
A pr6pria Eletronor-
te diz que essa 6 a tari-
fa da primeira etapa, na
qual investiu de seu,
de terceiros e da Eletro-
bras nao menos de
US$ 8 bilh6es para vi-
abilizar a usina do rio
Tocantins. Mas na se-


gunda etapa, que duplicara a pot6ncia da
hidrel6trica (de 4,2 milh6es para 8,3 mi-
lh6es de MW), com investimento de US$
1,3 bilhao, cada megawatt instalado said
por U$ 17,50, o que Ihe permitiria reno-
var os contratos por mais 20 anos corn uma
tarifa unificada de US$ 22, aparentemen-
te atendendo as duas parties.
Alguns t6cnicos, como o pr6prio
Bahia, discordam do parfimetro dessa de-
finigAo tarifaria. Sob o argument de que
a hidrel6trica 6 uma s6, tanto faz na pri-
meira como na segunda etapa, seria um
absurdo dividi-la, para efeito de calculo,


Bahia, profes-


sua pr6pria saiide finan-
ceira (tomando-se as-
sim, finalmente, auto-
sustentavel), se for al6m
do limited tarifario acei-
to pelos s6cios da indds-
tria maranhense.
Do contrario, Al-
bras e Alumar terdo
que buscar outra fonte
de energia ou refazer
seus calculos de viabi-
lidade, sustentados, na
origem, num nivel exa-
geradamente depen-
dente do mercado inter-
nacional (e por seus


preqos determinado).
Uma fonte alternative, poderia ser o
gas natural, importado de Trinidad-To-
bago, numa primeira etapa, ou da foz do
rio Amazonas, at6 2010, se as prospec-
9oes em curso no litoral amazonico de-
rem bom resultado.
Essa hip6tese, por6m, envolve mui-
tas variiveis incertas e complexidade
tecnol6gica, al6m de ndo ser solugao
de curto prazo. S6 se tornara exeqlif-
vel na pr6xima d6cada. Nunca se apre-
sentara como o substitutivo para os
contratos atuais.


1 MARCO DE 2003 Jomal Pessoal


A Eletronorte s6

poder; continuar

a fornecer

energia para a

Albras e Alumar,

se for alem do

limited tarifario


apenas para tender as duas indjstrias ele-
trointensivas, mesmo com todas as vanta-
gens que elas representam como clients
que consomem uma elevada quantidade
de energia constant, firme.
Ao inv6s de considerar os custos se-
paradamente, defended o estabeleci-
mento de um valor m6dio. Assim resul-
taria uma tarifa de US$ 51,60 MWh, de
acordo com os calculos de Raymundo
Bahia. O custo da hidrel6trica complete
foi arcado integralmente pelo erario.
Tucuruf I chegou a prancheta, em 1975,
por US$ 2,1 bilhao. Computando todo
o custo financeiro, inclusive da trans-
missao, deve ter passado de US$ 10 bi-
lhoes. Tucuruf II foi orgada em US$ 1,3
bilhao. Sera o preqo final?
A prorrogacgo dos dois maiores con-
tratos individuals de energia do pais s6
sera possivel se o governor decidir esque-
cer a conta de amortizagao de Tucuruf e
transferir o 6nus para o tesouro national.
De outra forma, a Eletronorte s6 podera
continuar a fornecer energia para a Albris
e a Alumar, mantendo ao mesmo tempo











fronteira


Na outra alternative, a do auto-su-
primento de energia de fonte hidriuli-
ca, direta ou indiretamente as duas fun-
diq6es de aluminio ji estao investin-
do. A Alumar tem aplicado nos iltimos
anos entire 150 milh6es e 200 milhoes
de d6lares em duas hidreldtricas, tam-
b6m no rio Tocantins, Santa Isabel e
Estreito, que s6 comeqardo a gerar
energia em 2007. Tamb6m poderd dis-
putar a licitaqgo, com parceiros, para o
projeto de Serra Quebrada.
De acordo corn a Associa~qo Brasi-
leira de Produtores de Aluminio, as
companhias ji investiram US$ 1,5 bi-
lhdo na construgqo de novas usinas. A
Alcoa diz que, sozinha, planeja gastar
um bilhdo de d6lares construindo no-
vas usinas no Brasil nos pr6ximos cin-
co anos. S6 para as bacias do Tocan-
tins-Araguaia estao previstas 14 barra-
gens estao sendo propostas.
Naturalmente, essa political ndo visa
apenas o auto-suprimento. As eletroin-
tensivas devem se tornar produtoras in-
dependentes se o mercado se mostrar
rentivel. Mas este 6 ainda um elemen-
to de imponderabilidade alta, principal-
mente porque o novo governor ainda
nao definiu uma diretriz segura para
essa questao.
O final dos dois maiores contratos
de energia pode ser a oportunidade para
a administration petista abrir uma pau-


ta bem mais ampla do


que simplesmente es-
tabelecer o valor da
nova tarifa para os
mais privilegiados
consumidores indus-
triais do Brasil.
Em 20 anos o gros-
so da produqgo foi
transferido para o ex-
terior quase na forma
de energia bruta. O
beneficiamento indus-
trial praticamente se
limitou ao metal pri-
mario, de baixo valor
agregado.
Aceitar esse padrio


Em 20 anos o

grosso da

produgao foi

transferido para

o exterior quase

na forma de

energia bruta


6 condenar o


pais a relaq6es de troca desfavorAveis,
transferindo para o comprador do pro-
duto semi-elaborado o efeito multipli-
cador do investimento (que traz embu-
tido um formidivel custo financeiro
por causa dos empr6stimos internacio-
nais onerosos).
Por outro lado, tem sido muito ti-
mida a atuaqco das empresas na reci-
clagem do aluminio, transformada, nos
pauses do primeiro mundo, em fonte
notavel de poupanqa de energia.
Na Amaz6nia, pelo contrario, o que
ter ocorrido 6 um veloz incremento da
produq~o de bauxita, o mindrio que di
a partida para o ciclo de beneficiamen-


to. No ano passado, a
Mineraqdo Rio do
Norte bateu seu recor-
de de produq~o, che-
gando a 16,3 milhoes
de toneladas, a tercei-
ra maior do mundo.
Sua mina esta sendo
expandida, mas como
chegou ao gargalo em
funqao da limitada ca-
pacidade de escoa-
mento pelo rio Trom-
betas, uma nova fren-
te mineral ji esti sen-
do aberta, mais pr6xi-


ma das fibricas de alumina e aluminio,
para logo chegar A metade da produ-
cao da Rio do Norte.
Isto significa que os compradores,
al6m de receberem energia concentra-
da em metal, vdo acumular reserves de
recursos naturais que se tornardo reci-
cliveis com o reaproveitamento do alu-
minio (cujo horizonte 6 inesgotivel).
A questdo, portanto, 6 mais ampla e
profunda do que parece. Nao pode fi-
car circunscrita a encontros de gabine-
te entire as duas parte. Talvez possa pro-
porcionar o redirecionamento de um
important segment do mundo indus-
trial brasileiro, intimamente associado
ao capital estrangeiro, numa regido de
fronteira, como a Amaz6nia.


Jomal Pessoal MAR(O DE 2003 1C









Agressividade


Tudo parece indicar que a ocupacao da
regiao oeste do Pard seri ainda mais selva-
gem do que o ca6tico process de coloniza-
9do de sua parte sul. Aldm da voracidade dos
pioneiros, quase tao descomprometidos com
as peculiaridades locais quanto seus anteces-
sores do vale do Araguaia-Tocantins, a ausen-
cia do poder arbitral do govemo seri um com-
bustivel ainda mais eficaz para alimentar as
labaredas da depreda5io dos recursos natu-
rais e dos problems sociais, dois elements
definidores do modo de ocupaqao das areas
pioneiras nos vales do Tapaj6s e do Xingu.
Quem vai a essa regiao, como foi o caso
do enviado da ONU (Organizagao das Na-
96es Unidas), Jean Pierre Leroy, no mes pas-
sado, nao consegue esconder o espanto e a
surpresa diante da forma irracional das fren-
tes econ6micas. Mas quem fica na retaguar-
da tamb6m senate esse impact.
Um dos efeitos dessa selvageria pode ser
medido por um fato completamente inusita-
do, que tamb6m ocorreu no mrs passado:


Chapa branca
O semandrio O Paraense
voltou a circular emjaneiro, de-
pois de uma quinzena de reces-
so, apenas para fazer presenqa
no aniversdrio de Bel6m e fa-
turar a farta publicidade esta-
dual (quatro piginas em 12).
Mas nao resistiu A decisao
do novo govemador de sus-
pender a parceria, sensivel a
determinadas presses que re-
cebeu, sobretudo as do grupo
Liberal, indisposto a dividir o


quatro homes armados invadiram a sede do
Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambi-
ente e dos Recursos Naturais Renoviveis),
em um bairro central de Bel6m.
Safram carregando apenas pap6is, dentre
os quais 22,5 mil ATPFs (Autorizaqao de
Transporte de Produtos Florestais) em bran-
co. Esses documents valem muito dinheiro
(no caso, um potential de pelo menos 10
milh6es de reals), principalmente se forem
usados para legalizar o escoamento de ma-
deira extraida ilicitamente. E de onde mais
esti saindo madeira no moment 6 do oeste.
Essa corrida tem um aperfeiqoamento: as
quadrilhas estao mais bem organizadas, am-
plamente ramificadas. Na invasao do Ibama
foi observado um fato: os assaltantes pude-
ram agir rapidamente porque pareciam saber
o que procurar e onde encontrar a papelada.
A16m das autorizaqoes, o butim incluiu tam-
b6md rocessos. Se o governor nao comecar a
agir para valer, vai ter muito leite derramado
a lamentar e muita In8s morta.


bolo e perder o monop6lio do
control e mando. E incomo-
dado com ligeiras farpas do
journal, que, em seu curto perf-
odo de existencia, foi um por-
ta-voz nao official e um instru-
mento de campanha political.
Se os tucanos ficaram sem
seu veiculo de comunicagao,
os petistas ji tnm o seu: 6 a
revista quinzenal Em Ques-
tao, cujo nimero zero circu-
lou no inicio de dezembro do
ano passado. Impressa em
grdfica pr6pria, parece estar


Aviso
Outro dia fiquei conhecendo a revista altemativa inglesa Pros-
pect. De alta qualidade grifica e editorial, muitos colaboradores,
expediente movimentado, boas pautas. Ur anoincio da casa pe-
dia aos leilores para difundirem ao mdximo a publicacAo e man-
darem nomes de clients potenciais para a redag5o. Embora ain-
da nova, a publicaqlo parece sentir seus dias futuros ameacados.
Se uma bem fornida publicaqgo britinica vive em tal situ-
afao, o que esperar de umjornalzinho amazonico, pensei com
meus boties. A unica ajuda que tenho pedido dos meus leito-
res 6 ir As bancas e comprarquantos exemplares puderem. Mas
nao ter sido o suficiente. No entanto, nao renovarei esses
apelos. Tentarei fazer o que esti ao meu alcance para manter o
.Jornal Pessoal.
Como a situaglo se tora cada vez mais critical, vejo-me obri-
gado a reduzir ao minimo minimorum as cortesias. Um cava-
Iheiro s6 adota tal attitude na agonia. E minha condiio atual.
SSei que meus amigos, que me honram com sua leitura, entende-
rao a media. Estejoralzinho chega ao ponto de ter que econo-
mizar tosrles. Espero que ainda hajajantar para vender em pro-
veito do almogo. Se nio houver, que o fin venha tao natural-
mente quanto o princfpio. Por direito de conquista.


visando piblico semelhante
ao do extinto semandrio pr6-
PSDB. Clientela sequiosa por
uma coberturajomalistica de
melhor qualidade, mas susce-
tivel a campanhas que s6 elo-
giam uns e s6 critical outros.


Festanga
A Organizaoo Social Pard
2000 fez sua concorrida festa
de fim de ano na Estacio das
Docas, cedida para sua admi-
nistraqao, a custo zero, depois
de um investimento pdblico de
20 milhoes de reals. Mas quem
pagou a conta, de 150 mil re-
ais, foi o contribuinte.
Corn a palavra, para dizer
se 6 legal (e legitima) essa apli-
caq~ o de verba do governor,
atrav6s da Secretaria de Cul-
tura (que assinou convenio
corn a OS para fazer a transfe-
rencia do dinheiro), o Tribu-
nal de Contas do Estado.

Titulo
O Pard tem a triste fama
de ser o fona na apuracao de
votos no Brasil. Passada a
eleiCgo, pode ganhar um
novo titulo: o tiltimo Estado
,da federaZao a concluir a for-
maq~ o da administragao fe-
deral local. Mas todas as li-
derancas do PT estao presti-
giadas em Brasilia.


Arte agradece
Prezado Licio Flivio,
Fiquei particularmente feliz ao
ler seu texto no Jornal Pessoal so-
bre o livro "Sarubbi" de minha au-
toria, recentemente lanqado em
Bel6m.
Quero dizer que como pesquisa-
dora em artes plisticas, o que tal-
vez realmente compense e recom-
pense trabalhar em projetos como
este, seja sentir que seu prop6sito
maior foi percebido, quanto ao fato
intencional de deixar a verdade da
obra e do artist virem a tona inde-
pendente de qualquer outra analise.
Penso que as publicaoqes sobre arte
e artists necessitam urgentemente
passar por reavaliaqces, no intuito
de encontrar um caminho que as
justifiquem.
Outra alegria proporcionada por
seu artigo foi, quanto A sua visao
acerca da iconografia selecionada,
algo que durante todo o process
muito me angustiou, devido a au-
sancia do querido Valdir Sarubbi in-
dicando com maior precisdo acer-
vos possuidores de trabalhos seus.
Obrigada pela maneira digamos,
diditica e atenciosa cor que abor-
dou esta parceria, ou melhor este
"casamento complementary" da con-
templaqao com a dissertaqCo sobre
a beleza plistica entire eu e meu pai
Lutfala. Ele sem divida com toda a
sua intuigqo, sua sensibilidade e bo-
6mia eterna, pode ser um exemplo
concrete A outras iniciativas do por-
te, para que nao fique em via de mao
dnica esta corrida contra o tempo
em resgatar a mem6ria artistic do
Park, fazendo ainda com que nos-
sos artists sintam-se amados e re-
conhecidos enquanto vivos, o que
infelizmente Sarubbi nao sentiu.
Quanto a um terceiro trabalho,
este se encontra em fase de decan-
tagqo, por6m a aquarela de meu
inesquecivel professor La Rocque
Soares seduz-me bastante. Quem
sabe uma reuniao de nossos aqua-
relistas de outrora, tendo como
ponto de refernncia La Rocque, em
consonhncia com os contempora-
neos que surgem?
Mais uma vez agradeco suas pa-
lavras, esperando que o Jornal Pes-
soal continue a reservar um peque-
no espago no sentido de estimular a
arte e os artists de nossa terra.
Um abrago,
Rosana Bitar


I os Et 6 Pn e (1 4 6Cia e Co a 4 0 6 0 e- l l t i e : n