|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
ANO XVI NO 297 R$ 3,00 [omal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO * \\\\~\\, I '\\\\\\\\\\ FEVEREIRO DE 2003 ELETRONORTE Padim Sarney, de novo 0 Maranhdo 6 um importador da energia de Tucurui (e do Nordeste), mas quem continue a indicar o president da Eletronorte e o senador Jos6 Sarney. Sempre foi assim. Continuou a ser assim com o PT na presidencia da Republica. Por que Sarney pesa tanto nos assuntos de I *'7iT'Pt :'acr UNItVERSITY OF UNIVERSITY OF I energia? E por que da tanta importancia a Eletronorte? Perguntas que o Para, mais uma vez no rabo da fila, ndo responded. Nem o PT. A o deixar a presidencia da Re- pdblica, em 1990, depois de cinco anos no cargo, Jos6 de Ribamar de Aradjo Costa, que atende pelo nome politico de Jos6 Sarney, manteve como reserve de mer- cado para si uma fatia do bolo de po- der que 6 retalhado e partilhado a cada novo embalo na gangorra de Brasilia. A presidencia da Eletronorte (Centrais E16tricas do Norte do Brasil) conti- nuou a ser ocupada por pessoa indi- cada diretamente pelo senador do PMDB ou por ele referendada de preferencia, um maranhense como ele. Independentemente da alternancia de inquilino no Palacio do Planalto, seja um professor ou um metalirgico, a tro- ca de guard na Eletronorte segue a vontade de Sarney. Nem a subida ao poder do PT e de um modo critic e duro de encarar a political energ6tica national em vi- gor at6 entdo, que se abriga na sigla do president Lula, afetou o rito da continuidade na empresa. Pelo contra- rio: ele at6 se aperfeicoou. No mes passado, um maranhense substituiu outro maranhense no comando da Ele- tronorte, ambos indicados por Sarney, que novamente esti com um p6 na pre- sidencia do Senado, agora gragas ao apoio dos petistas. E o Maranhdo ain- da ficou com outra das quatro direto- rias da empresa. A sucessio se reali- zou sem traumas e sem atrair a aten- gqo da opinido p6blica, ainda que muito ranger de dentes tenha sido ou- vido nos bastidores. Qual 6, final, a prenda em causa, a merecer a atencqo e os cuidados de um dos notiveis da Repiblica? A Eletro- norte, em primeiro lugar, 6 grande: tem sob sua jurisdicqo 58% do territ6rio national, abrangendo toda a Amaz6nia. Nela se localiza uma reserve de ener- gia hidriulica que corresponde a me- tade de toda a pot6ncia instalada atual- mente no Brasil. E dona da maior hi- drel6trica inteiramente national, a usi- na de Tucuruf, responsavel por 8% de :LC 94 F I - 1 4, _! N I A t i- T- 2, -t A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FL,, VIO PINTO toda a geraCao de energia do pais. E a segunda maior exportadora de energia do Brasil (transferida da sua regiao de atuaqao para a das vizinhas). Seu orga- mento para este ano 6 de 3,8 bilhoes de reais. Seu program de investimen- to 6 o maior do setor porque a atua numa regiao de fronteira, que atrai em- preendimentos em funq~o da abundan- cia de energia barata, ainda que o sub- sidio tarifario signifique um pesado 6nus aos cofres ptblicos. Neste ano a Eletronorte completard 30 anos de vida. Foi criada na eclosao da primeira crise mundial do petr6leo, em 1973. Ela surgiu no Brasil, mas sua cer- tiddo de nascimento foi passada em T6- quio. Os japoneses, feridos gravemente pela sdbita elevado do custo da energia, chegaram a conclusdo de que suas fibri- cas de aluminio nao conseguiriam mais sobreviver. Sem fontes suficientes de energia e, o que era pior, corn energia cara n5o podiam continuar a produzir em seu pr6prio territ6rio aluminio, o pro- duto industrial mais eletrointensivo que existe. Planejaram abrir no Brasil a mai- or fabrica de alumfnio do mundo. Ela fi- caria no Pard, as margens do rio Tocan- tins, corm aguas suficientes para transfor- mar as jazidas de min6rio de bauxita do Estado (as terceiras maiores do mundo) em metal. Na 6poca, o Pard nao tinha energia nem para suprir suas acanhadas necessidades dom6sticas. Mas a Eletro- norte iria construir no Estado uma usina com capacidade para produzir mais de 40 vezes o consume local. A hidrel6trica entrou em funciona- mento em 1984 e no final do ano passa- do comeqou a ser duplicada para chegar a 8,3 mil megawatts de pot6ncia. Prosse- guindo em seu planejamento, a Eletro- norte espera comeear, o mais breve que for possivel, uma usina ainda maior, para 11 mil MW, no rio Xingu. Por via direta ou induzida (passando o barrete a tercei- ros), na passage de d6cada, um quarto da geraqao energ6tica brasileira estara sob sua responsabilidade ou de associa- dos. O seu acervo incluira tamb6m ex- tensas linhas de transmissao de energia, com milhares de quil6metros. Tr6s d6cadas depois, a Eletronorte 6 a tnica das seis empresas do sistema Eletrobrds que mant6m sua sede fora da sua base de atuaq9o. Contra todos os pedidos e presses, continue em Bra- silia, ao lado do nticleo central do po- der. Contra a 16gica e o bom senso, seu comando tem ligag6es apenas tenues com o Estado que 6 a sua principal ra- zao de ser, o Pard, de onde a empresa extrai 80% do seu produto, a energia. Esse grau de concentraqio deveri pas- sar de 95% se a hidrel6trica de Belo Monte for realizada. No entanto, o Pard forneceu apenas um dos presidents que a empresa ji teve e nem meia de- zena dos seus diretores. O mais recen- te, Dilson Trindade, assumiu no rnms passado como o primeiro lider sindi- calista da dire9Co da Eletronorte. Tera uma dificil tarefa pela frente. Nao 6 pelo simples fato de abrigar esmagadoramente o potential de hidre- letricidade da base fisica da empresa que o Pard deve se julgar no direito de su- prir sua diregqo. Uma circunstdncia ge- ogrdfica nao 6 o suficiente para dar cau- sa a uma prerrogativa administrative. Mas 6 pelo fato de o present e o future da Eletronorte estar umbilicalmente as- sociado ao Pard que a empresa deveria fomentar a cultural da energia no Esta- do. Cultura em seu significado mais amplo: de domfnio tanto do produto como do process, de saber usar como de saber fazer (o popular know-how). Raquitico nesse item, o Pard pode- ra ver-se transformado de provincia energ6tica national (e international), que inevitavelmente sera, em mera co- 18nia energ6tica, a que poderi ver-se reduzido se o model atual continuar em vigor. Nao esti escrito nas estre- las que tenha de ser assim. O enredo ainda pode ser modificado. Desde que a mudanqa comece ji. Mas ainda nao 6 o que se pode vislumbrar nos novos (novos?) rumos da Eletronorte. Criticos do modelo energ6tico domi- nante e petistas de long curso, confron- tados corn a manutengao do status quo na empresa, t6m procurado responder a ironia das observaqoes a respeito corn atenuantes. Garantem que o comando do senador Jos6 Sarney sera apenas formal, atendendo a um arranjo estritamente po- litico. Na pritica, as ages na empresa seriam comandadas por seus tr8s direto- res de origem petista, em ligagao direta corn o novo president da Eletrobris, o fisico (e maior te6rico da visio alternati- va do setor energ6tico dentro do PT) Luis Pinguelli Rosa, e com a ministry de mi- nas e Energia, Dilma Roussef, de inte- gral confianga da cipula do PT. Mesmo que essas previsoes venham a se confirmar, persiste a d6vida: por que o senador maranhense Jos6 Sarney tem direito de preferencia na area da Eletronorte? Qual a sua credencial es- pecifica para esse "direito de origem"? O Maranhao 6 um Estado de importa- qao e nao de exportaqao de energia. Nao 6 e nem sera um produtor expres- sivo. Seu solo nao 6 fecundo a semen- te da cultural energ6tica. Seu maior li- der nunca demonstrou maior intimida- de (ou mesmo interesse) pela questao. Mas talvez o Maranhao e Sarney se- jam mais amoldaveis aos encaixes do modelo em vigor. Talvez seja por isso que ele made na Eletronorte e o seu Estado escoe a producqo bruta da pro- vincia mineral de CarajAs e sirvam de sede para os empreendimentos de trans- formaqdo primiria do min6rio. Como consumidor pesado da ener- gia da hidrel6trica de Tucuruf (por causa da fabrica de aluminio da Alu- mar, em So Luiz), o Maranhao bate palmas para a paradoxal disposicao constitutional que isenta do principal imposto (o ICMS) o consumidor e atarraxa o produtor de energia, tornan- do mais barata a energia para quem compra do que para quem vende. Sem m6ritos ou fundamentos t6cnicos para 'ocupar a cabeca da administraCqo energ6tica, esti mais a cavaleiro para cumprir as ordens de Brasilia, quais- quer ordens, do que um Estado no qual todos os conflitos resultantes de ser a base fisica da produgao acontecem. As presses e o eco dos problems, quando chegam a sede da empresa, no Planalto Central, ji estao enfraquecidos. Mas nao tnm origem na terra de nasci- mento do padrinho da nomeaao e do seu afilhado, aliviados e gratos por recebe- rem a energia que vem de fora das divi- sas do seu Estado. Ao contrario: o Mara- nhao tem sido exportador de fluxos mi- grat6rios e de mis6ria para o seu vizinho, trocando recursos potenciais, que rece- be, por problems em potential, que cede. Os garimpeiros tnm sido as maio- res vitimas desse com6rcio human. Toda a plataforma de langamento de recursos naturals, in natural ou semi- elaborados, que vem sendo montada no litoral maranhense, conectada, como sugadora, aos enclaves instalados no sertdo, e voltada enquanto expedido- ra para os navios interoceanicos, que atracam no seu porto e dele seguem para al6m-mar, toda essa estrutura esti fundada na oferta generosa de energia - em quantidade e preco da Amaz6- nia (e em suas mat6rias-primas). Daf, provavelmente, a Eletronorte ser do Norte, sem ficar no Norte. FEVEREIRO DE 2003 Jomal Pessoal No pr6ximo ano terminal os con- tratos de fornecimento de energia, que favoreceram as duas maiores fibricas de aluminio do continent (a Albras, um empreendimento nipo-brasileiro implantado no Pard, e a multinacio- nal Alumar, no Maranhio), que absor- vem 3% de toda a energia do pais. Nas duas d6cadas em que estiveram em vigor, esses contratos significaram um prejuizo ao erario equivalent a 2 bi- lh6es de d6lares, o valor da diferenqa entire o custo de geraq~o de energia e a tarifa privilegiada concedida is duas ind6strias. Com esse dinheiro seria possivel construir novas fibricas equi- valentes As da Albris e Alumar. E pouco provivel que tarifas tdo baixas sejam mantidas. Ou elas serdo reajustadas para um nivel pr6ximo do de custo, ou as duas inddstrias terio que encontrar novos esquemas de su- primento de energia. Decis6es desse porte estario na agenda da Eletronor- te para os pr6ximos e ainda indefini- dos meses. Mas 6 imperative que a empresa deixe de ser uma fonte de lu- cro para seus clients especiais e para esquemas de poder montados numa 6poca em que os gabinetes do gover- no nao guardavam distancia ou iden- tidade pr6pria dos escrit6rios das grandes empresas, sobretudo das que necessitam de volumes brutais de energia, como as do aluminio. Em 1999, o deficit da Eletronorte alcancou quase 1,2 bilhao de reais. Em 2000, baixou para R$ 520 milh6es. O resultado foi conseguido principalmen- te atrav6s da renegociaqio da divida da empresa, de R$ 3,5 bilh6es, que ainda nao tinha sido repassada a Eletrobris. Ao esforqo de saneamento de suas con- tas deve acrescentar o da sua verdadeira insergqo regional, que nao seja apenas figure de ret6rica, numa regido que tem apenas pouco mais da metade da renda per capital national. E num Estado que, sendo o terceiro maior exportador de energia, responsivel por 10% da ener- gia gerada no pafs, o 20 em tamanho e o 9 em populaq~o, cai para o 16 lugar em IDH (Indice de Desenvolvimento Humano), numa comunidade de 27 uni- dades federativas. Antes que a Eletronorte surgisse costumava-se proclamar que energia era desenvolvimento. E ponto final. Nessa 6poca, o Pard nao tinha energia nem desenvolvimento. Hoje, tem ener- gia. Mas A media que aumenta seu par- que gerador, o que vem associado a ele Quem tem a forca? Uma diretoria na Eletronorte e outra no Minist6rio da Cultura: isso foi tudo o que o PT do Pard havia conseguido da administracao federal de Luiz Ini- cio Lula da Silva at6 o final de janeiro. Estava pendente a definiqao sobre os comandos da ADA (Ag8ncia de Desenvolvimento da Amaz6nia) e do Banco da Amazonia, que poderiam ser preenchidos com nomes indicados pe- los petistas paraenses. Mas o simples fato de que os novos donos do poder em Brasilia ainda nio tivessem acatado as sugest6es dos seus correligionarios no Estado sobre cargos do terceiro escalao indicava que o Pard nao esti entire as prioridades da alta direqao petista. Demonstraqao de fraqueza das lide- ranqas locais? Certamente. Mais at6 do que isso: atestado da pouca expressed dos quadros paraenses do PT, confinados aos limits locais. Mesmo que fossem inter- locutores privilegiados do Palicio do Pla- nalto, quem os lideres do partido poderi- am indicar para funqes t6cnicas, que nao podem ser preenchidas apenas com aco- modaqao de interesses e composites po- liticas? Se esse for o 6nico crit6rio para a selegqo de alguns dos nomes que ainda vem sendo noticiados para ocupar as fun- 9qes que permanecem ao alcance da re- presentagqo estadual, entao a mudanga prometida pelo president Lula seri ape- nas nominal. Na essencia, tudo mudard para continuar igual a antes. Qual a credencial da deputada Ma- ria do Carmo para ser diretora da ADA, se sua cotaq~o n~o for uma maneira de compensi-la pela derrota que sofreu no seu campo especifico de competencia, que 6 o politico? Talvez maquiavelica- mente, o provivel superior dela, o mi- nistro da Integraq~ o Nacional, indicou- a para presidir o grupo de trabalho in- cumbido de sugerir os caminhos da nova agencia, sucessora da falida Sudam, e montar o perfil da nova titular da ADA. Se for revelado que falta A candidate do PT ao governor do Estado na iltima elei- 6 subdesenvolvimento e nao desenvol- vimento. Ou seja: a energia esti subde- senvolvendo o Pard, uma nomenclatura nova para uma situaCgo inusitada, que ameaqa se espalhar pela fronteira ama- qlo atributos para o cargo, Ciro Gomes deveri reivindicar o lugar para pessoa do seu pr6prio esquema. Seu candidate preferido 6 o ex-vice-governador Hilde- gardo Nunes. Com um pouco mais de forqa, o PT do Pard simplesmente teria obrigado o ministry a engolir a indicago. Situa- g9o que se repete no jogo de puxa-en- colhe para a presidencia do Basa. No final, os paraenses podem vencer a que- da de braqo com seus concorrentes do PPS e do pr6prio Partido dos Trabalha- dores de outros Estados amazonicos, ja melhor aquinhoados. Mas nao poderio reivindicar um prestigio que, at6 agora, tem sido mais de coluna de journal. Nao bastari, entretanto, ocupar alguns dos principals postos da administraqao re- gional na Amaz6nia. O que o PT estadual poderi agregar de realmente novo ao de- sempenho desses cargos? Quais as trans- formaqaes de substAncia que poderi rea- lizar em relagao ao modo de agir de Bra- silia na regiao, que tanto criticavam? Que pessoas efetivamente qualificadas pode- rao assumir essa tarefa? Um dos desafios: teremos que come- morar o 30 aniversario da Eletronorte olhando-a de tao long? O Pard continu- ara sem peso politico para abrigar a sede da empresa amaz6nica de energia? Ou- tro desafio: o Nordeste teri de volta a antiga sigla do 6rgao de desenvolvimen- to regional, a Sudene; ji a Sudam esti estigmatizada de vez? t irrecuperdvel at6 como titulo? No hi nada ao alcance das elites locals, responsaveis por parte dos vicios que determinaram a morte da Su- dam (com papel de protagonista final desempenhado pelo deputado federal Jader Barbalho), mas certamente coad- juvantes nessa cornuc6pia de fraudes, se elas forem avaliadas pela soma comple- ta dos recursos desviados, nem sempre atrav6s do roubo aberto, descarado? Sem respostas satisfat6rias, isto aqui continuard a ser o quartel de Abrantes. O de sempre. z6nica. A Eletronorte precisa definir se essa contradiq~o 6 apenas transit6ria ou se veio para ficar. Na era Lula, esse tes- te de qualidade ji comegou. De cabeqa para baixo. Viciado. w Journal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 Quatro meses depois de FHC, SLula ira a Tucurui. Levara alguma novidade? E m abril, Luiz Inicio Lula da Sil- va deveri fazer sua primeira vi- agem a Amaz6nia como presi- dente da Repdblica. Ainda como dirigen- te sindical no ABC paulista, ele esteve pela primeira vez na regiao 20 anos atras. Foi para assistir aojulgamento, na Auditoria Militar de Bel6m, de dois mis- siondrios cat6licos franceses acusados de subversao e enquadrados na Lei de Seguranga Nacional. Francois Gouriou e Aristides Camio foram condenados a lo e 15 anos de prisao, respectivamen- te, por terem apoiado a luta de possei- ros na conflituosa regiao do Araguaia, que havia servido de cendrio, na d6cada anterior, para a guerrilha do Partido Co- munista do Brasil. N~o chegaram a cum- prir a pena: foram expulsos do pais. Lula chegou ao plenirio da audi- toria quando o julgamento ji estava adiantado. A sessao duraria 20 horas. Conversou com um jomalista e dor- miu um pouco na cadeira, ji de ma- drugada, cansado da maratona (uma dentre tantas que ji ej)tao fazia). Deu declarag6es de solidariedade aos pa- dres antes de voltar correndo para Sao Paulo, seu reduto preferencial. Retor- nou algumas outras vezes para comi- cios eleitorais e no roteiro da carava- na da cidadania. A viagem de serviqo do president tera, em abril, um carter mais prdti- co sem perder, contudo, a dimensao simbl6ica das incurs6es amaz6nicas anteriores. Ele ird inaugurar a 14' tur- bina da hidrel6trica de Tucuruf, no Pard, a segunda turbina da fase de du- plicaqdo da usina. A primeira ainda foi inaugurada pelo seu antecessor, num dos seus 61timos compromissos oficiais, no final de dezembro. Mas Fernando Henrique nao teve a alegria de ver a enorme miquina funcionar. Faltava agua para aciond-la. Esse con- Lula faz visit tratempo, Lula nao terd: em abril o re- servat6rio estari cor sua capacidade plena e ele poderd colocar a turbina em atividade. Tucuruf conta com o segundo mai- or lago artificial do pafs: em seus 2.875 quil8metros quadrados (ou 287,5 mil hectares) podem ser armazenados at6 54 trilh6es de litros de agua no auge das chuvas, que ocorre exatamente em abril. Com essa disponibilidade, a usi- na atingird, dentro de tr8s anos, sua capacidade maxima, de 8,3 mil me- gawatts, com todas as 23 miquinas que ja entao estarao instaladas. Ela responderd pelo suprimento de 10% das necessidades de energia do Brasil (contra os quase 8% atuais). Mas no verao o lago diminui mui- to. Nao tanto como no ano passado, quando o nfvel das aguas do rio To- cantins baixou at6 a cota de 54 me- tros. Para que FHC pudesse ver a 14a turbina em operaqao, o reservat6rio precisaria ter alcanqado a cota 62, no nfvel da tomada de agua da barragem. Ao long de mais de um mes, por fal- ta de agua, a usina operou abaixo do minimo de geraqCo considerado eco- n6mico, de 50%. Embora, com suas 12 turbines, pudesse gerar 4,2 mil MW, estava produzindo em torno de 2 mil MW. Ao inv6s de exportar to- dos os dias 1 mil MW, conforme a m6dia do inverno, a Eletronorte esta- va importando 600 MW. Os t6cnicos jogaram a culpa por essa estiagem excepcionalmente rigorosa sobre as costas largas do fen8meno cli- mitico El Nifio, que aquece as aguas do Oceano Paffico. Desde meados da d6cada de 90 a situaqao hidrol6gica na bacia do Tocantins nao foi tao critical. Em 22 anos de operag~o, 2002 bateu o record negative do reservat6rio. D6- ficit passageiro, conforme sustentam os t6cnicos, ou indicador de algum dese- quilibrio estrutural? Ainda que a primeira hip6tese seja a verdadeira, a duplicaqao da deman- da de agua na casa de forga de Tucu- ruf (dos atuais 11 milh6es de litros por segundo para os 23 milh6es por segun- do que serao necessarios em 2006), sem a possibilidade de aumento do reserva- t6rio, que atingiu seu climax, revela o precirio equilfbrio operacional, econ6mi- co e financeiro da hidrel6trica. Se du- rante mais de um mes ela esteve abaixo do limited de viabilidade, com 12 miqui- nas, 6 de se prever que esse nfvel cairA mais ainda quando forem 23 as turbines em linha. A diferenga entire a capacida- de nominal da usina e sua geraCao fir- me (disponivel o ano inteiro) crescerd ainda mais. Ou seja: Tucuruf pode vol- tar (ou continuar) a ser deficitaria, co- mercialmente falando. O problema nao 6 de pequena mon- ta. Tudo, nessa barragem, 6 grandio- so. Ela bateu o record national de uti- lizaqio de concrete. E a maior barra- gem com salto em esqui do mundo. Tern o terceiro maior vertedouro mun- dial. A Eletronorte diz que seu custo hist6rico 6 de 4,5 bilh6es de d61ares, incluindo apenas os juros durante a construq~o. A Comissao Mundial de Barragem acrescenta US$ 3 bilh6es nesse orcamento. Mas quem faz as contas computando todo o custo finan- ceiro at6 agora ji estA em US$ 10 bi- lhoes. A duplicaq~o 6 apontada atual- mente em US$ 1,3 bilhao. Mas qual sera o ndmero de chegada? Uma obra de tais proporc6es tem uma taxa de imprecisao proporcional a sua grandeza. No andncio de come- moraqCo do inicio da duplicaCgo, por exemplo, a responsdvel pelas obras, a Construtora Camargo Correa, afirmou que o lago de Tucuruf possui 2.830 km2, reduzindo-o em nada desprezi- veis 45 km2 (ou 4.500 hectares, ou 45 bilh6es de litros de agua). Se quiser dar a sua visit a hidrel6tri- ca um cartter mais profundo do que o de uma simples espiada de admiraq~o, como presidents anteriores, que estiveram no local para se deslumbrar com aquela pa- rede de concrete, com mais de 70 me- tros de altura, que aprisiona as aguas do 250 maior rio do planet, o president Lula da Silva tera que preceder sua excursao de uma avaliagqo (e reavaliaqco) da po- Iftica energ6tica do govemo federal para FEVEREIRO DE 2003 Jomal Pessoal trazendo mudanca? a Amazonia, que comega (e, por enquanto, praticamente ter- mina) em Tucuruf. A agenda esti tomada por quest6es ainda pendentes, A espera de decisoes firmes, vd- rias delas urgentes. Uma das principals ainda nao foi anun- ciada explicitamente, mas pa- rece subentendida nos discur- sos das novas autoridades do setor: a Eletronorte, subsidia- ria da Eletrobris para o Norte do pais, nao seri mais privati- zada. Para Tucuruf, isto signi- fica, de pronto, que ningu6m pretender desempenhar o pa- pel de um Mois6s biblico da energia, separando a agua "ve- lha" da agua "nova" cor seu bast5o migico. Quando a privatizacgo da Eletronorte era considerada iminente, imaginava-se deixar para o poder piblico a gesto da primeira etapa, cor o me- gawatt/hora a 22 d6lares, e transferir aos particulares a agua da duplicagqo, com o MWh a US$ 15. Seria a faca e o queijo para os que iriam precisar de muita energia para suas necessidades (o caso das empresas eletrointensivas do aluminio), ou para os que queriam entrar no neg6cio da geraqao por cima, comendo s6 o fil6. Ao erdrio, as batatas, ou o osso. No caso, entire outras contas podres, o subsidio de 20 anos concedido As duas maiores inddstrias de aluminio do continent, que tem as tarifas mais baixas do Brasil. Conta que pode variar entire dois bilh6es e qua- tro bilhoes de d6lares, conforme os tantos n6meros desencontrados que um paquiderme de ago, concrete e d6lar pode provocar. Seria bom se o president Lula, metaldrgico por profissao, chegasse para sua primeira visit official A mai- or regido do pais, que 6 tamb6m sua maior fronteira de recursos, carregan- do no palet6 o discurso de uma polfti- ca de antecipagao para a Amaz6nia. Ela ji coleciona outro titulo em for- magqo: o de maior provincia energ6ti- ca national. A turbina que Lula ativara em abril, ela sozinha, represent mais do que o dobro de energia que a Amaz6nia intei- ra consumia at6 nela serem instaladas as duas grandes fibricas de aluminio, que quadruplicaram esse consume, re- presentando atualmente, apenas as duas inddstrias, 3% da demand national de energia. Comerandojuntas na primeira metade da d6cada de 80, inddstria de aluminio e hidrel6tricaestabeleceram um -vfin$lo estreito, quase um circulo vicio- so, que agora precisard ser re- visto ou desfeito, qualquer que venha a ser o discurso presi- dencial dentro de dois meses. Os contratos de forneci- mento de energia subsidiada A Albris, no Para, e A Alu- mar, em Sao Luiz, chegardo ao fim em 2004, o da primei- ra mais favorecido at6 do que o da segunda. Tanto as empresas consumidoras quanto a fornecedora, a Ele- tronorte, que continue esta- S tal, examinam o problema (e vislumbram o eventual con- tencioso) hi tempos. Como desse pr6ximo pass depen- derao virios outros que pre- cisarao ser dados para defi- nir o perfil da maior reserve energ6tica do Brasil pelos pr6ximos anos, o president Lula podia deslocar o deba- te da questio da esfera pri- vada para o piano pdblico, estimulando a participagqo e a criatividade de todos que se interessam pelo tema. Se a viagem prevista para abril for precedida de uma boa preparaqao pela assessoria t6c- nica do president, a visit de Lula a Tucuruf nao sera ape- nas uma continuagqo da pre- senca de Fernando Henrique Cardoso, quatro meses antes, ou mais uma perman8ncia fugaz da maior auto- ridade da Reptiblica numa remota para- gem do interior amaz6nico, que sempre di um belo pano de fundo para imagens promocionais. Talvez ele possa tomar mais explici- tas e claras as posicoes que o Minist6- rio de Minas e Energia, a Eletrobrds e a Eletronorte tnm apenas sugerido sobre uma das political que mais interessam A Amaz6nia e ao Brasil. Se nao for ape- nas ret6rica, a primeira viagem de ser- viqo do novo president poderi trazer logo a marca da verdadeira mudanca que ele prometeu corm nfase nao faz muito tempo. Mas jd faz tempo. 1 Journal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 Para fins . comerciais, o cupulate jae produto japones. E agora? N uma visao simplista, a culpa pelo fim do period de maior enrique- cimento da Amaz6nia, entire 1840 e 1910, tem nome, sobrenome e nacionalidade certas: o ingles Henry Wickham. Bem na metade do ciclo de expansao da economic gomffera, o aventureiro britanico teria se infiltrado em terras brasileiras para contrabande- ar ("biopiratear", na linguagem de hoje) sementes da Hevea Brasiliensis, esp6- cie native amaz6nica, 6nica fonte de borracha para uso industrial at6 entao. Levadas para o Ceilao, as sementes flo- resceram com tal exuberancia que, me- nos de uma d6cada depois de terem che- gado ao mercado mundial, acabariam com o boom da borracha extraida nos seringais amaz6nicos, abrindo um ras- tro de decadencia na region. Elevado A condigqo de lorde do imp6rio britanico pelo rei George V, Sir Wickham 6 tratado at6 hoje pela maioria dos intelectu- ais da regiao (e mesmo do pais) comO um reles traidor, o bandido responsivel pela debdcle da Amaz6nia, aquele que roubou as sementes da seringueira e clandestina- mente as fez plantar nos redutos asiAticos de sua majestade, acabando com o fausto de Bel6m e Manaus, cidades que transita- ram do s6culo XIX para o XX equipardveis as mais afluentes capitals do mundo. Ndo importa que hi quase duas d6ca- das esteja acessivel para consult o livro (0 Brasil e a luta pela borracha, de 1987) no qual o americano Warren Dean docu- menta hist6ria completamente distinta da versAo corrente no Brasil. Com base em documents oficiais, Dean provou que Wickham obteve autorizacao governa- mental para a remessa das sementes para a Inglaterra, devidamente declaradas na alfandega e ao abrigo das normas legais em vigor, ndo s6 com o aceite, mas at6 mesmo com o estimulo das autoridades. Se quisesse, o Brasil podia at6 ter parti- cipado das experi8ncias que, iniciadas no Kew Garden de Londres, se estenderiam ao Ceilao e A Malisia. Deitados eternamente em berqo esplen- dido, conforme referenda o hino national, talvezjulgissemos que um monop6lio con- ferido pela natureza, tornando a seringueira endemica apenas na AmazBnia, nao pode- N6s (atr is) e o ria ser quebrado pelo home. Com o co- nhecimento (e a necessidade) A nossa fren- te, os ingleses nao partilhavam essa con- vicqao. Apostaram na hip6tese contriria. O que se convencionou chamar de pi- rataria foi, na verdade, um bem sucedido empreendimento cientifico e commercial que, at6 se consumer, exigiu quase meio s6culo de engenho, arte e dinheiro. Foi o tempo que decorreu desde a formaq~o do plantio de Wickham no vale do rio Tapa- j6s, no Pard, at6 a Asia inundar um explo- sivo mercado consumidor cor quantidade compativel de borracha natural, a um pre- go e com uma qualidade adequadas a esca- la industrial naquele moment. Se fosse precise roubar, contrabandear ou piratear as sementes, sem d6vida a na- qgo lider do nascente mundo industrial, ca- rente de mat6ria prima em maior quantida- de, mais barata e de qualidade confiivel (condiq6es nao supridas pelo fornecedor monopolista), nao hesitaria em agir dessa forma. Agiu assim em vorios outros pauses e situaqces. Mas nao foi nem necessirio: os brasileiros, e particularmente os amazoni- cos, seduzidos e iludidos por jorros cons- tantes de dinheiro, que recebiam pela ven- da da borracha, achavam que o boom seria eterno, ou pelo menos duradouro. No seu excelente livro, Dean diz que a natureza, de regra benfazeja com a Amaz6- nia, foi madrasta perverse no caso da borra- cha. 0 excess de agua e de umidade, e a inexistencia de um period seco mais bem definido, desenvolvem pragas fatais A serin- gueira quando sua concentraqao 6 aumen- tada para que o seringal natural alcance o tamanho competitive de plantio commercial. Na Asia (e em dreas ndo-amaz6nicas do Brasil), esse problema nao existe ou nao tem a mesma gravidade. Por mais que as autori- dades brasileiras tivessem sido previdentes, antecipando os movimentos da hist6ria e sendo aplicadas nas medidas de protecao ao cultivo, ainda assim a Amaz6nia teria sido derrotada na luta pela borracha. Para os que, desprezando fatos e ar- gumentos, optarem pela origem estrangei- ra (e ainda por cima, americana) do autor para desqualificar sua obra, conv6m lem- brar que o Brasil deve a esse magnifico scholar (precocemente falecido em 1994, num acidente de carro), al6m do livro so- bre a borracha (reconhecido como o tra- balho inaugural de uma hist6ria ecol6- gica j dotada de autonomia), o mais pro- fundo e belo estudo sobre sua mata atlan- tica. Alids, 6 bom nao esquecer, a mata atlantica foi a nossa primeira Amaz6nia, tanto pelo seu potential de realizaq6es como pelo seu resultado de destruicqes. O "caso" da borracha, o capitulo mais polemico da hist6ria (real ou presumida) de apropriacao de bens do patrim6nio na- tural da Amazonia, vem a prop6sito do mais recent epis6dio, que chegou A gran- de imprensa no mes passado, depois de ter transitado bem antes pelos circuitos espe- cializados: o anunciado patenteamento de plants e frutas da Amaz6nia no estrangei- ro por empresas internacionais. Causou escandalo a noticia de que, a par- tir de agora (na verdade, desde 2001), quem quiser usar comercialmente o titulo cupua- qu -e alguns dos seus derivados na Euro- pa, nos Estados Unidos ou no Japdo vai ter que pagar royalties ou se expor a ser multa- do por uma firmajaponesa, a Asahi Foods, estabelecida em Kyoto (cidade que se tor- nou ainda mais c6lebre por ter recentemen- te abrigado conferencia ecol6gica que teve como um dos seus prop6sitos justamente estabelecer regras de respeito aos direitos intelectuais sobre o patrimonio gen6tico da humanidade, especificamente definido con- forme sua dispersdo geogrAfica). Da forma como foi anunciado, distor- cidamente, o fato desabou como uma bom- ba com megatons semelhantes aos da pira- taria de Wickham, de quase um s6culo e meio atris. O problema ter sua gravida- de, embora provavelmente nao na dimen- slo de uma catAstrofe irremediavel. Nio foi a fruta que os japoneses patentearam (hi controv6rsias quanto a essa possibili- dade em alguns pauses), mas o process in- dustrial da sua transformaq~o em cupulate e o nome commercial de cupuaqu. Se servir de alerta e retirar do sono le- tirgico alguns stores da estrutura gover- namental, o fato terd cumprido o seu papel de catarse. Contra o roubo dos direitos so- bre o patrim6nio gen6tico ou o conheci- mento native 6 duvidosa (ou completamen- te in6cua) a eficicia de ferramentas con- vencionais, como o Sivam (Sistema de Vi- gilancia da Amaz6nia) ou todo o aparato geopolitico e policial. Eles nio sao dispen- sAveis, mas nao sao suficientes, sequer sao as armas mais importantes. A principal 6 o saber, o dominio dos processes do conhecimento, o saber fazer (e como) e a informaq~o exata e pronta. Nao 6 atrav6s do isolamento e da pretensa auto-suficiencia que se conquista tais po- siq6es: 6 colocando-se no mundo, diante dele (e, quando o caso, contra ele). Mas nao na posiq~o de um encrenqueiro ou de um presunqoso, mas de algu6m confiante na sua pr6pria forqa, por sab-la consis- tente e convincente. O saber result de pro- cessos educativos, cientificos e civilizat6- rios. Processos que nao podem ser tradu- . FEVEREIRO DE 2003 Jomal Pessoal mundo (atras de n6s) zidos por indices quantitativos nem por bravatas ret6ricas. Resulta de 99% de transpiraqao e 1% de inspiracgo, como re- ceitava Picasso para uma area da criaiao humana, a artistic, onde mais peso costu- ma ter o dom natural dos individuos, ou sua "vocaa-o", do que sua transpiracgo. Mesmo que possua sat6lites, radares, avides, militares e soldados rondando seus limits e patrulhando seu interior, a Ama- z6nia continuard exposta aos interesses e disposiqces alheias se permanecer depen- dendo dos minguados recursos materials colocados a disposiq~o dos seus estudan- tes, tecn6logos, pesquisadores e cientistas. E se esses minguados recursos, desprezi- veis at6 pelos anemicos parametros nacio- nais, permanecerem subordinados a dire- trizes obtusas, vesgas, ex6ticas, coloniais. Ndo seri com uma nova muralha da China que a regido conquistari sua auto- determinaq~o, a capacidade de determinar seu destino na interlocuqdo com o mundo, mas com o melhor conhecimento sobre si mesma. Num moment em que se tratam de quest6es amazinicas nas principals pra- qas mundiais, como um tema de ciencia e de com6rcio, a sede territorial ndo pode ter uma relevancia meramente ret6rica. Ou se condenard a sustos e sobressaltos como os de Wickham e o do cupuaqu japones. O mais recent epis6dio fez o escritor ejornalista amazonense Anibal Beqa lem- brar um caso que aconteceu bem do inicio da Zona Franca de Manaus: "os nossos ca- boclos inventivos resolveram contrabande- ar rel6gios dentro das cascas de cupua9u. Serravam a casca e retiravam a polpa, e em seu lugar colocavam rel6gios, de preferen- cia da marca Seiko. Depois colavam, sem deixar nenhuma marca. O crime perfeito". Um nosso reporter policial do journal onde Beqa trabalhava cunhou uma palavra para esse tipo de crime: o "seikoaqu". Dizia-se entdo que muita gente, enriqueceu expor- tando Seikoaqu, at6 descobrirem o golpe. O crime atesta o escritor s6 foi desco- berto por acaso: "um desses contrabandis- tas deixou cair o cupuaqu. Af caiu rel6gio pra tudo que foi lado". Corn base nessa experiencia, Beqa su- gere as entidades e empresas nacionais, quando forem vender nos mercados euro- peus, americanos ou japoneses, "registra- rem o nome dos produtos da fruta como Seikoaqu". A soluqao seria engenhosa, ain- da que tamb6m significasse uma capitula- q~o a esperteza dos nossos concorrentes es- trangeiros. O novo produto teria ainda que sofrer uma adaptacqo aos novos tempos: ao inv6s de rel6gios made by Zona Franca dentro de caroqos de cupuaqu, mais atra- ente do ponto de vista commercial seria co- locar sementes de cobiqadas plants ama- z6nicas dentro dos Seikos de hoje. 0 direito de patente A propdsito da patente japonesa do cupuacu,consultei informalmente dois especialistas. Carla Belas veio do Ministerio da Ciencia da Tecnologia, em/Brasilia, para auxiliar o Museu Emilio Goeldi justamente sobre essas questoes. Jose Guilherme Maia, ex-diretor da instituigdo, agora atuando no Laborat6rio Adoplpho Ducke, do MPEG. A principal duvida e quanto a possibilidade de o pais perder o direito sobre seu patrimbnio natural. Suas opinioes: Mesmo que cada pais possua as suas pr6prias regulamentacqes na irea de patentes, essas regulamentaqces devem se- guir o padrlo de acordos internacionais como o TRIPS (acordo sobre os direitos de propriedade intellectual relacionados ao comercio). Existem algumas diferenqas de interpretaoqes mas, noo 6 muito usual a pa- tente de recursos naturais no estado em que sao encontrados na natureza, senao quan- do passam por algum process de melho- ramento. E, nesse caso, o que se protege 6 a nova variedade resultante do trabalho em laborat6rio. Para isso, existem acordos in- ternacionais como o UPOV (Proteqao de Novas Variedades Vegetais), que regulam leis nacionais, como a lei de cultivares brasileira. Contudo, trata-se de uma ques- tdo muito diferente essa do cupuaqu. Ain- da nao tive acesso ao texto descritivo da patente propriamente dito, mas venho acompanhando a discussao. Parece-me que o que foi patenteado foi o process de extraqCo do 6leo e da gordura do cu- puaqu. Osjaponeses dizem que foram eles que inventaram. O que se deve fazer 6 ler a patente para avaliar se o process que osjaponeses des- crevem como tendo sido desenvolvido por eles ji nao vinha sendo utilizado por comu- nidades e/ou pesquisadores brasileiros. Se ficar provado que esse process j era utili- zado no Brasil antes da concessao dessa pa- tente, ela pode ser anulada. Certamente ela nao valerA no Brasil porque eles patentea- ram o process associado a um nome de uso comum. Cupuaqu pode ser um nome pouco usual no Japdo, mas 6 bastante conhecido no Brasil. A nossa lei tem restriqbes ao re- gistro de nomes de uso comum. Em relaq~o ao nome, nio se trata de uma patente, mas de registro de marca e, certamente, aqui no Brasil algu6m que tentasse registrar para fins de uso exclusive nomes como cupua- qu, bacuri, manga, etc. nao o conseguiria. Ha ddvidas ainda se esse caso trata-se de biopirataria ou nao. Pois, aparentemen- te, nao hi retirada de material vegetal do Brasil, mas sim de mat6ria prima para confecqdo da gordura de cupuaqu, utili- zada para fazer chocolate vendida co- mercialmente. Carla Arouca Belas Essa regra s6 funciona para a Lei de Patentes Brasileira. La fora vale tudo, infelizmente. Aqui nao se pode pa- tentear organismo vivo plantt, microor- ganismo ou inseto/animal). Nos USA, Europa e Japao isso 6 comum, s6 que com os organismos vivos dos outros, como 6 o caso do cupuaqu, ji que eles nao tnm mais o que patentear. Infeliz- mente (tambrm) essa patente vale na ex- portaqao do produto brasileiro, ji que o mercado 6 exterior. No Brasil, valeria a nossa regra e essa patente nao teria va- lor. Essa 6 uma das raz6es por que esta- mos muito long dos pauses do primeiro mundo. Enquanto eles requerem um mi- lhao de patentes/dia, n6s solicitamos - quando muito 100/dia, porque a nossa lei 6 muito rigorosa. Dai 6 ficil concluir o nosso atraso. Jose Guilherme Maia g Jornal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 7 r 4 000,- <($K4i( MEMORIAL DO COTIDIANO Jari Em maio de 1944 o coronel Jos6 Jdlio de Andrade, "nos- so prezado amigo e distinto capitalista, foi passando do aeroporto, aonde chegou por via area, vindo da capital da repdblica, o Rio de Janeiro, para a redaSgo da Folha do Norte, mantendo com seus dirigentes "agradivel pales- tra". Cumprida a agenda, embarcou no "Virginia Lane", navio dos SNAPP (Serviqo de Navegagdo e Administraq~o dos Portos do Pard, desmembrado de- pois em Enasa e CDP), e foi ver suas propriedades em Arumanduba, onde estava a sede dos seus dominios so- bre uma enorme extensao de terras. Nelas surgiria, 23 anos depois, o Projeto Jari, do miliondrio americano Daniel Ludwig. Outro "dis- tinto capitalista. Suburbano Durava uma semana, em 1944 (como nos anos ante- riores), a festividade em honra do Divino Espirito Santo, realizadas pelos mo- radores da travessa 14 de Marco, entire a passage "Giiela" da Morte e traves- sa Jos6 Pio, na Pedreira. A programaqgo comeqava com o corte do "madeiro", que iria servir de mastro e seria levan- tado no dia da Ascensdo do Senhor, exatamente em fren- te A casa do patrocinador. A partir do dia seguinte havia ladainhas todas as noites, as- sim como leilbes de oferen- das e dois "saraus danqan- tes". O encerramento seria marcado pela derrubada do mastro e por um baile. .0 subirbio estava mais pr6ximo das entranhas da regido do que do seu lado externo. Natalicios As "Notas Mundanas" da Folha do Norte de 9 de ja- neiro de 1945 registravam os aniversirios, naquele dia, dos colundveis de entdo: o de- sembargador Cursino Silva (pai de Maria Silva Nunes e Angelita Silva), que atuava no Tribunal de Apelaqgo; o historiador amazonense Ar- thur Cezar Ferreira Reis, "nosso distinto amigo e co- laborador", que seria o pri- meiro superintendent da SPVEA (antecessora da Su- dam); o rapaz Ayr Linhos, "aplicado aluno do Col6gio do Carmo", filho de Jauffret de Siqueira, agent geral da "Alian9a do Lar" no Pard; a menina Maria Ldcia, filha de Humberto Monteiro, um dos donos da "Discos de Ouro"; Ant6nio Alexandre da Silva, gerente da firma F. Castro, proprietaria da loja de modas Fura-dedo Moradores de Bel6m um pouco mais ve- lhinhos se lembram da 6poca em que os "fura-dedos" apareciam pela porta de en- trada das casas e a molecada sumia pelos funds tentando fugir das espetadas para a coleta de sangue. Era o tempo das cam- panhas de satide p6blica. Emjulho de 1957 o Departamento Nacional de Endemias Rurais, o popular DNERu, desenvolveu uma campanha contra a filariose em todo o bairro do Marco. Todos os dias, de sete e meia As dez e meia da noite, os guards fariam a colhei- ta de sangue. As pessoas doentes seriam submetidas a tratamento inteiramente gratuito no ambulat6rio do departamen- to, na praqa Batista Campos, de 7 As 13 horas. Outros bairros que quisessem re- ceber o mesmo tratamento podiam fazer o pedido de exame pelo telefone 23-16. So que informava um "aviso A popula- cqo", assinado pelo chefe da Circunscri- 9qo Pard do DNERu, o m6dico Luiz Mi- guel Scaff (que, depois, iria dirigir o Museu Emilio Goeldi). Os moleques que ensebassem as ca- nelas: o Estado precisava de sangue para bloquear a propagagao da doenqa. De san- gue continue a entender at6 hoje. De do- enqa, nem tanto. I. -. z z.. "Paris n'Amdrica"; Heitor da Silva Nunes, guarda-livros (contador) da Casa Bonustra- dora; a professor normalis- ta Gimol Gabbay, filha de Jacob Gabbay, que "deixa de recepcionar suas colegas e amigas em virtude de se en- contrar em gozo de ferias no interior do Estado". Socialista Em setembro de 1952 o PSB (Partido Socialista Brasilei- ro), presidido pelo entlo de- putado estadual Cl6o Bernar- do, fundou o Movimento Es- tudantil Socialista Paraense. Seu objetivo era "arregimen- tar em seu seioos estudantes socialists de nossa terra, adeptos e simpatizantes des- te democritico principio". Integravam o primeiro dire- t6rio: Oiran Ribeiro, R. A. Jinkings, Roberto Uchoa, Carlos Cunha, Irapuan Sales, Gilberto Danin, Tomd Cardo- so de Castro, Eudiracy Silva, J. M. Teixeira, Am6rico Alencar, Raimundo Freitas, Benedito Cohen Ribeiro e Wilson Galvio de Lima. O PSB funcionava na rua Gas- par Viana, 28. Belem Havia 25 torneiras piblicas para tender a todos os mo- radores da Condor, "longin- quo recanto da cidade", quando, em 1954, o gover- nador Zacharias de Assump- 9qo inaugurou a tubulaq~o de agua no bairro, "uma de suas grandes realizaq6es". Chegava ao fim o sacriffcio de captar a agua em baldes e latas, levando-a at6 as r5esidencias. Na mesma so- lenidade, o prefeito Celso Malcher prometeu prolongar o asfalto da Condor at6 a Pedreira, "possibilitando as families passeios de recrea- cqo domingueira as margens tranqiiilas do rio". FEVEREIRO DE 2003 Jornal Pessoal MEMORIAL DO C OTIDIANO I. ii. I II I 7 +i 'fw r' r m RETRATO Belem com estilo Foto rara de Belem do inicio do seculo XX, em pleno boom da borracha: a inauguraqdo, em 1908, dos jardins da praga Prudente de Moraes (agora Felipe Patroni), nosfundos do Paldcio Antonio Lemos. Se as drvores plantadas tivessem sido respeitadas, o local teria se tornado um bosque, com mais caminhos para pedestres do que atualmente. Note-se, num extreme, um dos muitos quiosques instalados nos logradouros publicos da cidade. No outro, a terreno murado atrds do Paldcio Lauro Sodre (atual Museu do Estado), no qual surgiria, 60 anos depois, o frum de Belem, abrigando o Tribunal de Justica do Estado e as varas da comarca da capital. Tragos de uma Belem com estilo e marca registrada. Acre Em 1954 pelo menos seis seringalistas e comer- ciantes acreanos mantinham escrit6rios de representaqao em Bel6m (a rua 15 de No- vembro ainda era nossa Wall Street ao tucupi). No inicio desse ano, os coro- n6is de barranco homenage- aram o governador do entdo territ6rio federal, Abel Pi- nheiro Filho, com um jan- tar no Hotel Avenida (que continue no mesmo endere- 9o, na avenida Presidente Vargas, sem o encanto de outrora). Era para comemo- rar a confirmaqao do gover- nador no cargo, depois de uma visit ao Rio de Janei- ro para uma conversa com o president da repdblica e o ministry da justiqa. De- pois de saudado pelo serin- galista Cust6dio Freire, o governador manifestou a es- peranqa de que o Acre pu- desse ressurgir como "o maior produtor de borra- cha" do pais, consolidando- se como "sentinela avanCa- da no territ6rio national". Palavras... Lusitanamente Em 1957 o president de Portugal, Craveiro Lopes, todo uniformizado e com o peito tomado por medalhas, visitou Bel6m. O deputado Acindino Campos, aprovei- tando a oportunidade, apre- sentou projeto na Assem- bl6ia Legislativa para que nos anais da casa fosse transcrito o discurso pro- nunciado pelo governador Magalhdes Barata no ban- (UF&* quete em homenagem ao general visitante. Percebendo o gato na tuba, o deputado oposicio- nista Cl6vis Ferro Costa es- tranhou. Se a homenagem era a Portugal, nao seria o caso de transcrever o dis- curso do mandatdrio lusita- no e nao o do anfitrido, o desp6tico chefe do grupo inimigo do baratismo? Acindino, pego na con- tradigqo, nao perdeu o em- balo: a sugestao do nobre colega nao poderia ser ado- tada porque o general Cra- veiro havia "lido de impro- viso" o seu discurso. Ora, pois. Journal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 () EM -E Rit ---A 0 Passaros O "Tem-Tem" conquis- tou o tetracampeonato no concurso dos "passaros", em 1957. 0 vice-campeao foi o "Periquito". O Con- curso Simpatia foi entao oficializado pela Prefeitu- ra de Bel6m, depois de anos de promoqCo informal - e com muito sucesso. Os "sambistas dos grupos e os seus matutos" receberam taqas e brindes na solenida- de de premiaqdo, realizada no Teatro de Variedades. A escolha foi feita pelos membros da comissdo de folclore: Paulo Maranhio Filho, Margarida Schiwa- zappa e a "senhorinha" Maria Brigido. Radio No dia 6 de junho de 1960 foi ao ar a Radio Di- fusora do Para, que ingres- sava num mercado no qual ja atuavam a pioneira, a Radio Clube, PRC-5, funda- da.por Edgard Proenqa e Roberto Camelier, e a Ra- i// dio Marajoara, ZYE-20, dos Diarios e Emissoras Asso- ciados, dirigida por Frede- rico Barata (nenhum paren- tesco com Magalhaes Bara- ta). Proenqa e Barata, alias, discursaram olimpicamente na solenidade de inaugura- gao dos transmissores da concorrente, no bairro do Guama, "augurando-lhe dias pr6speros e felizes". Para comemorar a data, um grandioseo" show foi re- alizado no Cine-Teatro Pa- lacio, reunindo "destacadas figures do broadcasting na- cional", como S6nia Mame- de, Jameldo, Mara Silva, Norma Benguell, Trio Nago e os paraenses Waldemar Henrique e Maria Helena Coelho. Jos6 Renato ja es- tava formando o cast da nova emissora, que tinha a sua frente Jos6 Carlos Rai- mundo como diretor-tesou- reiro e, nos bastidores, o general Moura Carvalho, que era o governador do Estado quando a radio co- meqou a funcionar. SAffskt BumbaH e 16das a 2as.-tirh. a partfr de 21 hbrx pcaa TV MARAJOARA j P hapson a r i e drmnultd como a prdpri vid, ui ofereduiltn s. a. Ml -clausiro ds ntoa ha de mndft d& 1 Mwlk, PUBLICIDADE Programagao local Em dezembro de 1960 estreou na TV Marajoara, a tnica emissora em funcionamento no norte do Brasil na jpoca, um novo program de reportagem, "palpitante, human, vivo e dramdtico". Eram "Os grandes moments de sua vida ". 0 patrocinio era da mais nova loja de modas da cidade, a Chez Alice (que, segura de si, nem indicava seu endereqo no antincio). Todas as segundas-feiras, em hordrio nobre (e hoje fora do alcance das TVs de rede), as 21 horas, um pouco das hist6rias locais. FEVEREIRO DE 2003 Jomal Pessoal 1_ __ __ _ _^ ^ __ _ _^ ^ __ ^ ^ ____k'_ __ _ Portos e travessas Se o governador SimSo Jatene quer estabelecer um dialogo positive com a prefeitura de Bel6m, o melhor ponto de partida imediato 6 o da estadualizagao da Companhia das Docas do Pard. A media foi consumada no dia 21 de dezembro, quando o entao president Fernando Henrique Cardoso assinou conv6nio com o governador Almir Gabriel, transferindo as concessoes da CDP para a Companhia de Portos e Hidrovias do Estado do Pard, criada dois anos antes. O PT paraense esti tentando desfazer a iniciativa, alegando que ela foi adotada As pressas, em circuit fechado e sem tender as exig6ncias legais. Diz que foi mais um capitulo da estratdgia do PSDB estadual de esvaziar a prefeitura de Bel6m. Por enquanto, o jogo tem cartas marcadas. A estadualizaqdo 6 um tema que esti em andamento hi dois anos. Ainda assim, foi precipitado para se efetivar no final do governor anterior, atropelando certas formalidades. Foi um acerto interno ao tucanato, as parties cedendo e ganhando. A Uniao se livra do tiltimo elo que a vinculava ao setor hidroviirio da Amaz6nia, encerrando um ciclo, que, bem ou mal (muito mais para o segundo do que para o primeiro), atendia a populagao ribeirinha mais necessitada. Aos poucos ela foi esquecida. O crit6rio definidor passou a ser o lucro. A clientele que interessa 6 a que di renda. Nao espanta que a funcionalidade do sistema seja freqientemente quebrada pelas trag6dias da navegagCo, com muitas mortes. De pobres, claro. E, sobretudo, caboclos. 0 patrdo sendo federal ou estadual, essa filosofia nao devera mudar, a nao ser que, na inversdo do transport preferencial, os rios e seus portos deixem de ser encarados apenas como pontos de passage e apoio para as exportaq6es, conforme a diretriz do "Avanga Brasil". A parte dessa questdo mais ampla, ha uma outra, municipal: a CDP 6 proprietiria de uma area estrat6gica em Bel6m. Nio s6 onde estao as docas, mas no chamado retroporto. Nem a CDP e nem o CAP (Conselho da Autoridade Portuaria) tem direito (ou legitimidade) para estabelecer o zoneamento dessa grande e important area, formada por mais de meia centena de im6veis, A revelia da gestao pliblica municipal. Nesse ponto, o PT tem razao, ainda que seja a posteriori (porque ter assento no CAP e nio se manifestou a respeito). Se a CDP excluiu da municipalizag~o o porto de Santana, entregando-o A administragqo municipal, por que nao pode fazer o mesmo em Bel6m? Se as situagqes nao sao iguais, pelo menos 6 necessario explicar porque nao sao iguais, ao menos para nao ficar parecendo que o tratamento distinto tem inspiragqo political, clientelista ou fisiol6gica. t clara a impossibilidade da municipalizaao integral da CDP, com portos sob sua jurisdiqao em outros oito municipios. Mas nao a de Bel6m. Assim, se o governador Simao Jatene quer novos parametros para as duas administraqGes na capital, eis um bom mote: reabrir a caixa preta da CDP estadualizada. Familia artistic Foi um feliz casamento: o do pai, Lutfala Bitar, com a filha, Rosana. Ele 6 um apaixona- do por arte, sobretudo a pintura. Mas nao tem tempo para ir al6m da contemplaq~o da beleza plastica, obrigado que dividir os moments de lazer com a leitura (6 o empresario paraense com maior quilometragem em livros, rigoro- samente mediaa. Tem os recursos e a vontade suficientes, entretanto, para transformar em li- vros os estudos da filha sobre a arte. O resultado 6 o segundo album sobre um ar- tista plastico paraense, lanqado no final do ano passado. Depois de Ruy Meira, o novo docu- mentario de Rosana Bitar foi dedicado a Valdir Sarubbi de Medeiros. E um trabalho de alta qua- lidade, tanto no conteddo quanto na forma. Pru- dente e perspicaz, a autora mais ouve do que fala, provocando as manifestaqres do artist e cedendo espaqo para documentary sua vida e suas id6ias, al6m de selecionar uma iconografia exemplar da obra do pintor, prematuramente falecido no ano passado (fato que privou Rosa- na de completar as entrevistas programadas). Para o bem das artes paraenses, espera-se que pai e filha continue afinados e de maos (da- das) nas obras. Por mim, ficaria muito satisfeito de receber um terceiro album sobre um aquare- lista da terra. La Rocque, de prefer6ncia. Lindanor As universidades da praca podiam anotar: 2003 marca o 40 aniversdrio da estr6ia de Lindanor Celina em livro. Cronista das melhores desde muitos anos antes, foi em 1963 que saiu seu pri- meiro romance, Menina que vem de Itaiara, onde sua notavel capacidade de contar hist6rias e en- veredar pela ficqao se transplantou para a forma escrita com a mesma fluncia da linguagem oral e sem perder o tom memorialistico, significativa- mente proustiano, embora e sempre a maneira daquela moga espevitada de Braganca. Vinda de Itaiara, Lindanor se foi ha muito para Paris, sua legitima origem por afinidade e destino por merecimento. Ambidestra e ubi- qua, Lindanor continuou com um p6 ld e outro aqui, do que sua obra da testemunho. Lembri- la e cultiva-la 6 algo ue nossos centros cademicos podiam Sazer, aproveitando a data oportuna. TUm todo um ano para isso, mas 6 convenient co- meqar ja a prepa- rar um ciclo Lin- danor Celina. Jomal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 A auto-exaltagio e o desd6m aos Sadversarios e critics marcam o livro com a biografia autorizada do ex-governador O ex-goverador Almir Gabriel ja ameagou mandar "para aquele lugar" quem voltar a duvidar da sua decisdo de encerrar a carreira polf- tica e passar a se dedicar exclusivamen- te a floricultura. Apesar do risco, ha motives para colocar em diivida esse prop6sito. Um desses motives pesa mais de 700 gramas. E o livro "Traje- t6ria e pensamento", a biografia auto- rizada de Almir Jos6 de Oliveira Ga- briel, escrita por seu primo, o tamb6m m6dico al6m de escritor e composi- tor Alfredo Oliveira. Editado pela Delta Grafica e Edito- ra, cor tiragem de dois mil exempla- res, e lanqado nos iltimos dias do se- gundo mandate do governador, o livro tern 491 paginas e 217 fotos do perso- nagem principal. Talvez seja a maior relacao foto por pagina da hist6ria bi- bliografica brasileira (e, quem sabe, mundial). Nem o ex-senador Jaibas Passarinho, notabilizado pela vaidade (que ele nega e quase todos lhe atribu- em), chegou a tanto. Nao deve nem ter pensado em tanto. Volumoso, encomidstico, exagerada- mente ilustrado e relativamente caro (40 reais) para suas caracteristicas, o livro nao 6 um bom produto commercial. Mas pode ser uma boa arma para quem quer se manter na linha de frente. Da mem6- ria, como argument o ex-govemador. Ou para promover seu retoro a algum novo cargo politico, cono insisted os analistas e especuladores. Alguns apostam que Almir Gabriel disputara a prefeitura de Bel6m dentro de menos de dois anos. O element mais forte em favor da tese 6 de que, hoje, ele 6 o nome mais forte dentre os possiveis candidates. Se a dispute fosse agora, di- ficilmente perderia. Mas a lembranca do seu nome continuara forte em 2004? E provavel, mas sempre ha o risco de chu- vas e trovoadas at6 1a. O novo "senador do governador", o quase-m6dico-e-ain- da-nao-de-todo-advogado Duciomar Costa (na verdade, bacharel em direito), nao esconde sua pretensio ao cargo. Mais do que isso: ja trabalha para ser o future prefeito da capital. Corn e sem Almir? Almir, o grande Contando com o apoio do presiden- te da Repdblica, o PT espera apresentar uma candidatura de peso. Se fundir as cisoes internal (que voltam a se abrir), pode ter um nome de peso para apre- sentar. Se nao alcanqar a uniao, o nome a ser lanqado sera o da facqco majoriti- ria. De qualquer forma, a maquina mu- nicipal, com a eventual colaboraq~o da engrenagem federal, sera adversaria de expressed para quem se apresentar a lica. E ha ainda a inc6gnita do governa- dor Simao Jatene: tera ele uma prefe- rencia pessoal ou endossard um candi- dato do seu partido (e da sua coligaqgo, provavelmente modificada)? Se voltar realmente a political, 6 pos- sfvel que Almir Gabriel prefira agir como um influence eleitor a entrar na corrida pela sucessdo de Edmilson Ro- drigues. Nesse caso, o long vicuo de poder nao sacramentara suas promessas de aposentadoria? Aparentemente, sim. Mesmo as hip6teses mais desfavoraveis ao ex-goverador, entretanto, nao elimi- nam a possibilidade de que ele reapare- qa dentro de pouco mais de tr6s anos como um poderoso candidate ao Sena- do. Afinal, nenhuma aposentadoria 6 mais dourada na Repiblica do que al- canqada ao fim de oito anos senatoriais na capital federal. Mesmo aos 74 anos em 2006, ele ainda estara em condiq6es de enfrentar uma eleicao, se a maquina official nao Ihe falhar. Nessa dispute, Simao Jatene provavelmente tentara a reeleidio sem se afastar do cargo. Essa hist6ria, todos jd a conhecem. Se a biografia autorizada foi conce- bida para representar uma despedida gloriosa, o livro de Alfredo Oliveira nao cumpre adequadamente essa missed. Ainda vai ser necessario aguardar uma abordagem mais rigorosa da trajet6ria e do pensamento de Almir Gabriel. A primeira metade do livro chega a emo- cionar: document a carreira de um m6dico excelente, dedicado, sensivel, competent, human. O lugar de Gabriel esta assegurado na hist6ria da medicine paraense como um pioneiro e um ino- vador, um professional que se adestrou nos dois grandes centros nacionais (Rio de Janeiro e Sdo Paulo) e voltou a sua terra para nela replantar as boas semen- tes trazidas de fora. Mas o livro 6 pouco mais do que um panegirico ao tratar da face politi- ca do biografado. O autor s6 faz per- guntas convenientes, constantemente "levantando a bola" para o seu entre- vistado e suprimindo as parties consi- deradas inconvenientes. O epis6dio tal- vez mais traumatico dos oito anos do governador, o "massacre" de Eldorado de Carajas, que resultou na morte de 19 "sem-terra", recebeu apenas 13 li- nhas. O triste acontecimento "estava escrito" para acontecer, justifica o bi- ografado. O bi6grafo mant6m-se que- do e mudo a essas palavras. Em rela- qdo a outro acontecimento triste, o da substituicao do governador enfermo pelo seu vice, o destrambelhado H6lio Gueiros Jdnior, nao vai al6m de um an6dino paragrafo. Secretario de sadde no inicio do pri- meiro governor (1983-87) de Jader Bar- balho, que o confirmou no cargo (exer- cido pela primeira vez na segunda ad- ministracao de Alacid Nunes, entire 1979 e 1983), Almir diz que foi a "an- sia de crescimento" que p6s a perder Sahid Xerfan na prefeitura de Bel6m, ao leva-lo a comparecer a "uma ceri- m6nia familiar ligada ao senador Jar- bas Passarinho", entao inimigo ferre- nho de Jader (nao foi uma cerim6nia que atraiu Xerfan para a casa da sogra de Passarinho: foi uma visit de corte- sia ao padrinho de casamento, como o ja frito prefeito tentou explicar ao go- vernador que o fritava). Incensado "por um conhecido sistema de comunicaqao do Para" (nessas circunstancias Almir nunca 6 explicit, preferindo alusdes e insinuaqCes, como essa, ao grupo Libe- ral), Xerfan perdeu "os limits da cons- trugao democratic em marcha. Como a democracia ainda estava em construcao, Almir aceitou, obse- quioso, a convocaqao de Jader para assumir a PMB (o prefeito da capital ainda era nomeado), submetendo-lhe seu secretariado, ao qual o governa- dor "fez restrigio apenas a um nome", mais uma vez detalhe nao revelado pelo biografado. Como trabalharam juntos por tres anos, Almir achar que esse 6 o period aureo de Jader. No segundo mandate (1991-1995), o que ele fez "era muito ruim, quer do pon- to de vista politico, quer do adminis- trativo". Por isso, "muitos entendiam que Jader nao era nem a sombra do que fora em seu primeiro governor , afirma Almir, esquecendo que os es- candalos do Aura, do Banpard, da Maiame e tantos outros aconteceram foi no primeiro mandate, no qual, en- tretanto, a fragil democracia exigia sil8ncio, condescend8ncia e coniv6n- cia dos que sabiam dos fatos, mas fin- giam ignord-los. Talvez porque, jun- FEVEREIRO DE 2003 Jomal Pessoal tamente corn a democracia, esses ca- 9adores das oportunidades tamb6m ainda estavam "em construcgo". Em 1986, finalmente, Almir deixou de ser autoridade piblica e politico por nomeacqo: foi o senador mais votado, com quase 470 mil votos, produzidos pela miquina official, que Jader (no em- balo da democracia em construcqo) co- mandava com tal desenvoltura que ele- geu o seu candidate para a outra vaga em dispute, o ex-adversario Jarbas Pas- sarinho (com 336 mil votos). Almir es- tava maduro para v6os individuals? Nao: quatro anos depois, concorrendo pela primeira vez ao governor do Estado, ele ficou em terceiro lugar, com 230 mil vo- tos, bem menos do que a soma dos nulos e brancos, e a grande distancia do vence- dor, Jader, com 615 mil votos. Essa campanha, como candidate ni- tidamente de esquerda e A margem do aparato official, poderia ter sido um mar- co de despedida se em 1994, depois de ter sido derrotado no primeiro turno por Passarinho, Almir nio se tivesse favo- recido do Piano Real, da vit6ria em pri- meiro turno de Fernando Henrique Car- doso, da crise de depressao do ex-lider do regime military e do ardil montado por Jader, que usou seu antigo desafeto como um escudo para se defender das velhas acusagqes de corrupco e afas- tar um perigoso concorrente ao Sena- do, oferecendo-lhe uma mirage de re- torno ao executive paraense. A partir desse moment, os germens autoritarios na personalidade do brilhan- te m6dico se multiplicaram e se desen- volveram, levando-o at6 o paroxismo da auto-exaltagqo e do desd6m aos adver- sarios e critics, de que esse livro enco- midstico, laudat6rio e narcisista 6 bern o atestado. Almir Gabriel deixou o Pa- licio dos Despachos certo de ter-se tor- nado o maior governador do Estado e de ter colocado o Pard entire as mais desenvolvidas unidades da federaqao. Se a realidade teima em mostrar o con- tririo, de que o Estado, mesmo com as muitas obras executadas (a partir de pro- jetos de seus antecessores ou de inte- resses estabelecidos fora do Pari) nes- tes oito anos, se subdesenvolveu ainda mais, a culpa 6 dos que teimam em ver a nudez do rei. Ou dos que nao leram sua deslumbrante biografia. Nela, o rei 6 s6 pompa e circunstancia. Novo poder 0 governor Jatene ainda nao tem um perfil prdprio, mas certamente esse e o objetivo que o novo governador jd estd buscando. Sem identidade e ainda sem poder gravitacional, Simao Jatene comeCou a manejar os instruments da mdquina official para executar algumas metas. A principal d a de confirmd-lo ndo apenas como um herdeiro de Almir Gabriel, mas uma nova fonte de poder politico no Estado. Para quem ter nas mdos a prerrogativa de nomearfunciondrios e alocar verbas puiblicas, ndo e dificil, no Pard, conquistar apoio politico. Ndo surpreende, assim, a participagdo do chefe do poder executive na escolha do chefe do poder legislative. Mas Jatene retomou uma caracteristica quefoi esmaecendo ate desaparecer na administracdo do seu antecessor tucano: a abertura para conversar cor os adversdrios sem impor decisoes previas e sem uma agenda demasiadamente estreita. Assim, ele pode abrigar novamente politicos do PMDB para uma negociaCdo que poderd acabar ate mesmo numa alianga mais extensa, algo que parecia eliminado do horizonte do PSDB. 0 PT tambem passou a receber estimulos para a interlocuqdo, embora, nesse caso, a amistosidade pareCa ser mais tdcita, de ambos os lados, com enfase maior do governador, que gostaria de manter um canal de acesso ao president Lula. Ao menos ate a eleigdo municipal do pr6ximo ano. Todos, alids, jd estdo de olho nessa dispute. Jatene montou uma engrenagem na administraado estadual mais ampla e pesada, com novas secretaries (ou quase- secretarias) e a reformulagCo das anteriores, dividindo para reinar absolute, atraves de quatro secretaries poderosas, sobre as quais vai manter control direto. 0 reforgo do poder pessoal exige a pulverizagdo dos redutos anteriores de poder, o que e possivel visualizar atraves de sutis movimentos de enfraquecimento de certas peas do tabuleiro. Se aceitarem essa limitagdo, poderdo mais facilmente ser "comidas" pelo enxadrista-chefe. Portanto, o rei morreu; viva o rei. Jomal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 11 Como o computador, essa insaciavel fera eletr6nica, come a parte da carta do pesquisador Jos6 Maria Cardoso da Silva, publicada na edigio anterior, exatamente na sua parte mais important, a das proposig6es sobre o future da bacia do Xingu, em vias de comegar a sofrer o seu primeiro barramento para fins energ6ticos, reproduzo esse trecho, corrigido: Xingu melhor O ideal 6 que o Xingu continue integro e que dele floresqa uma economic forte e sustentivel baseada em atividades que respeitem o ambiente. Entretanto, se isso nao for possivel, entao precisamos exigir todos os cuidados para que a alteraqgo no Xingu seja realmente mi- nima. Para isso, al6m dos cui- dados ambientais a serem to- mados durante a obra, um conjunto de ac6es essenciais para a bacia do Xingu deve ser executado antes da cons- truqao de qualquer hidroel6- trica. As minhas sugest6es sdo: (a) execuqao do zonea- rento econ6mico-ecol6gico participativo em uma escala apropriada (1:10.000) de toda a bacia hidrogrifica do Xingu, para definir quais sao as dreas propicias para a pro- dupqo e as areas para conser- vaqCo; (b) regularizagao fun- diaria ao long de toda a ba- cia; (c) recuperaqdo e conser- vacqo das cabeceiras do Xin- gu, no Mato Grosso, pois es- tas estdo quase que inteira- mente destruidas; (d) criagao da Universidade Federal do Xingu para orientar, imple- mentar e former as compe- tencias necessarias para ge- rir um program efetivo de desenvolvimento sustentivel de toda a bacia; (e) constru- qao de escolas de ensino fun- damental e m6dio em todas as comunidades; (f) constru- gqo de hospitals e postos de sadde em todas as cidades e vilas; (g) construqco de um sistema eficiente de escoa- mento da produgCo agricola, florestal e industrial da re- gido; (h) criagqo de um fun- do especifico para apoiar ini- ciativas inovadoras de neg6- cios sustentaveis; (i) cons- truir em cada comunidade indigena, pelo menos uma escola e um posto de sailde, al6m de uma rede de vigilan- cia ao long das fronteiras de suas terras. Os donos do poder certa- mente argumentardo que es- tas acqes sao muito caras. As hist6rias recentes do Sao Francisco e do Tocantins des- mentem este argument, pois sabemos que fica muito mais barato prevenir do que reme- diar. Assim, o custo da reali- zacqo destas a~qes agora seri muitissimo menor do que qualquer projeto future para corrigir os danos ambientais e sociais causados por uma intervengio desordenada, tal como a querem fazer agora, na bacia do Xingu. Belo Monte ainda Retorno ao caso Belo Monte, tendo em vista o repto lanqado no Jornal Pessoal n 296, mas desejo me reporter somente as ma- t6rias sob os titulos "A der- rota de Belo Monte" e "Por que critical a grande obra", insertas no JP n 295, anteri- or. Naturalmente que conhe- go a posiqio desse jornalista sobre o assunto, exterioriza- do nos diversos artigos publi- cados em jornais, no pr6prio JP, e reunidos nos dois livros recentemente colocados no mercado. Tenho duas raz6es para restringir meus comen- tirios aos aludidos artigos: em primeiro lugar porque o espa9o, evidentemente, nao comporta maior desenvoltu- ra; em segundo lugar porque tudo que foi dito sobre o pro- jeto da hidrel6trica esti ali sintetizado de forma muito civilizada, nao obstante as ameaqas que ensejam os tf- tulos das referidas mat6rias. Nao hi derrota em Belo Monte! Vdo prevalecer as necessidades da sociedade, ainda que mais uma vez a Amaz6nia seja utilizada para fortalecer a unidade national. Claro que muita gente nao desejaria um final desse ca- libre, por6m as noticias a res- peito dos aumentos estratos- f6ricos dos combustiveis (diesel/gis) tendem a invia- bilizar qualquer projeto de energia t6rmica, agora e num horizonte mais pr6ximo. A energia nuclear esti descar- tada, e nem 6 bom falar nis- so. A energia hidriulica, hoje, nao 6 mais uma opgao, em uma inevitabilidade. S6 o menor custo ji justificaria a sua aplicaqCo, al6m do mais existem outros "fato- res" listados por voc6 no tex- to sob exame, que vao ser decisivos no convencimen- to da empreitada. Questiona-se press e prazos apertados. Como? Os estudos preliminares foram iniciados nos anos oitenta, corn algumas paradas estra- t6gicas para arrefecer o im- peto ambientalista, no seu glorioso alvorecer. Portanto, nao procede a sua freqiente observagdo de atos precipita- dos. Ficou claro na sua nova exposiqdo que a contend maior 6 com o Minist6rio Pdblico, baseada nas tres controversias, sobre as quais ji tive oportunidade de me pronunciar, a saber: "terras indigenas", "6rgao licencia- dor" e "escolja direta para execugqo do EIA-Rima". Es- ses 6bices podem ser trans- postos sem arranhdo algum a legisla~lo, as normas e h pr6- pria Lei Maior. Repito aqui, o program Avanqa Brasil, de cunho ni- tidamente eleitoral, funciona (?) ou funcionou sem essas amarras, tratou-se de aplicar a chamada transversalidade, isto 6, a interlocuqao intra e entire os organismos do poder constituido. S6 para dar um exemplo mais recent, o Pro- jeto Grande Carajas e suas ramificaq6es foram executa- das nesse modelo. Enfim, suponho que essa fase vai ser superada sem maiores atro- pelos, mas valeu o embate. Restaria comentar a parte t6cnica. Nao conheqo o pro- jeto, e mesmo que conheces- se, nao poderia aprecia-lo, por nao dispor de competen- cia para tal, at6 porque o es- pago nao 6 pr6prio para fun- damentaqSes do genero. Con- tudo, sabe-se que ji foram produzidos conhecimentos dos recursos naturais existen- tes na area, mais ou menos na seguinte disposiqgo: po- tencial de recursos minerari- os; avaliaqCo do relevo (solo); avaliaqao do clima; potential de utilizagqo agri- cola dos solos; distribuiq~o das regimes fito-ecol6gicas, das dreas antr6picas, do po- tencial florestal e o potenci- al dos recursos faunisticos. Quanto a indicaq~o de estu- dos hidrol6gicos, avaliando regime de rios, bacias e mi- cro-bacias, vazdo, profundi- dade e outras variiveis a CPRM gerou inimeros traba- Ihos t6cnicos sobre este im- portante tema. E bom lembrar, por opor- tuno, que todo este acervo foi produto de anos de labor in- tenso realizado por diversas instituiq6es de pesquisa, tais como: IBGE, Inpa, CPRM, DNPM, Embrapa, Museu Emilio Goeldi e afins. Res- salte-se tamb6m a contribui- 9qo positive do Projeto Ra- dambrasil na exploragao pi- oneira da regido. Para com- pletar, existem estudos espe- cificos desenvolvidos pela equipe de pesquisa do IBGE sobre: Equilibrio e Desequi- librio Ambiental, Agricultu- ra, Extrativismo e Explora- qao de Madeira, Pastagem Natural, Mineraqao e Pesca. Quanto ao aspect de en- genharia e suas derivaq6es, nao devemos ficar apreensi- FEVEREIRO DE 2003 Jomal Pessoal Xingu misterioso Em 1996 o Iterpa (Instituto de Ter- ras do Pard) ajuizou na. comarca de Altamira uma acqo para cancelar as transcriq6es e registros imobilidrios sobre uma area de terras que, desde entdo, se caracterizou como a maior grilagem do pais, podendo chegar a 7 milh6es de hectares. Como essa enorme area nunca foi desmembrada do patrim8nio pdblico para o domf- nio privado, atrav6s de qualquer for- ma regular (seus detentores falam apenas em "titulo hibil", que jamais exibiram), o Iterpa considerou os as- sentamentos feitos no cart6rio de Al- tamira nulos de pleno direito. Pediu logo a tutela antecipada, concedida pelo primeiro apreciador da mat6ria, o juiz Torquato Alencar, para que, a margem do registro da area, fosse averbada a existencia da agqo de can- celamento e anulacao (o que serviria de alerta para terceiros de boa-f6). A partir daf comerou uma guerra judicial entire o Estado (a seguir apoi- ado pelo Minist6rio Pdblico Federal) e uma engrenagem de pessoas fisicas ejuridicas atras das quais esti a Cons- trutora C. R. Almeida. Os lances des- sa dispute tnm sido registrados e co- mentados neste journal, o que me acarre- tou sete processes najustiqa (quatro dos desembargadores Joao Alberto Paiva e Maria do C6u Cabral Duarte e tres do empresirio Cecflio do Rego Almeida), mais um acess6rio (do madeireiro Wan- deir Costa, depositario fiel de mogno apreendido supostamente nessa area). No meio do tiroteio legal os volu- mosos autos do process sumiram do cart6rio de Altamira, onde tramita- vam. Reapareceram agora. Para sur- presa dos autores da aqgo e dos litis- consortes, os autos vieram com sen- tenqa do juiz Ernane Malato, datada de 19 de setembro de 2000. Ojuiz, que ji passou para outra comarca e atual- mente faz curso em SHo Paulo, extin- guiu a agao sem examinar-lhe o m6ri- to. Considerou o Iterpa destituido de legitimidade para proper qualquer coisa sobre a area. Alega que, para ter direito de agao, o institute devia ter provado que a area realmente 6 pdibli- ca, ao inv6s de presumir essa condi- qdo como pressuposto. Para provar o dominio do Estado, devia ter discri- minado as terras, separando o que 6 ptiblico do que 6 privado. S6 assim poderia cadastri-las como bem pdbli- co. Sem o cadastramento da area e sua matricula no cart6rio imobilid- rio, "nao se comprova proprieda- de", fulminou ojuiz. O 6nus da pro- va deixa de ser do particular e pas- sa a ser do poder piblico. Embora Malato se ap6ie em deci- s6es e doutrinas para sustentar sua tese, ela 6, no minimo, polemica. Nem o Estado e nem a Uniao a acei- taram, ainda mais por s6 terem toma- do conhecimento da decisao quase dois anos e meio depois de ela haver sido juntada ao process, ao menos conforme a data que a ela foi dada, com o reaparecimento dos autos. Se os autores nao foram intima- dos regularmente da decisao, ainda cabe recurso ordinario ao segundo grau de jurisdiqao. De qualquer for- ma, o Iterpa pretend contestar inte- gralmente a sentenqa. Mas cabe tam- b6m averiguar pela tramitacqo do fei- to e sua marginalia. Afinal, a senten- qa do juiz ji foi devidamente trans- crita no registro imobilidrio, produ- zindo efeitos. Quais, nao se sabem. Desde quando, tamb6m nao. Sao grandes e, aparentemente, inesgotiveis os mist6rios do Xingu. vos, o Brasil det6m a hege- monia neste setor da constru- qao pesada, exportamos know-how para todo o mun- do. Conclui-se, destarte, que se o projeto esti balizado por essa gama de informarges t6cnico-cientificas, tem tudo para dar certo, ainda que se oponha alguma restrigqo ao seu conteddo, 6 um assunto para ser mediado com a co- munidade, no devido tempo. Agora, a "exigencia do bem-estar social" 6 um fator essencial do qual nao se pode prescindir, como, alias, soe acontecer. Acho muito mo- desta a sugestao do pesqui- sador Jos6 Maria Cardoso da Silva (a relagqo deve ter saf- do truncada, pois comegou com a letra "e"). Deve-se aproveitar a grandiosidade do empreendimento para exigir a inserg~o na estrutura de seu planejamento global de um program consistent de de- senvolvimento regional sus- tentado, nao s6 para a bacia do Xingu, inclua-se o total da area modificada do Sul/Su- deste at6 esta data, cujos re- flexos s6cio-econ6micos possam, finalmente, cumprir a tao sonhada integraqio da Amazonia brasileira ao seu Estado Nacional, que por di- reito lhe pertence. Rodolfo Lisboa Cerveira Embora expondo e analisan- do o conteddo do contenci- oso entire a Eletronorte e o Ministerio Ptblico Federal sobre Belo Monte, tentei mostrar nos artigos comen- tados pelo leitor e em nu- merosos outros que, antes mesmo dos efeitos s6cio-am- bientais da hidreletrica, e a sua viabilidade economic que ainda ndo estd demons- trada. A Eletronorte e prd- diga em ntimeros para nos convencer de que o MW a ser instalado no Xingu serd dos mais baixos do pais, um autintico neg6cio da China (que estd com sua polemica Tres Gargantas em obras no rio Amarelo, cheia do pre- cdrio convencimento que ti- nhamos, quando do inicio de Tucurui, sobre as maravi- lhas da nossa engenharia de barragens, de competencia inquestiondvel mundialmen- te sobre seu restrito oficio, mas de descortino estreito quanto a sua anmplitude de circunstdncias e efeitos). Mas esses cdlculos vem sendo fundamentadamente questionados pelos que, sem subestimar as outras dimensoes da obra, exigem rigor orqamentdrio e con- sistencia tecnica nos estu- dos de viabilidade. Se o projeto de Belo Monte, com todas as modi- ficaqoes que nele jd foram processadas desde oprimei- ro relat6rio, apresentado em 1980 (mas sd aprovado pelo Dnaee, antecessor da Ane- el, oito anos depois), fosse essa maravilha, jd teria ha- vido uma corrida de empre- sas pela sua realizagdo e ele jd teria sido colocado em li- citaCdo. Ao inves disso, a Eletronorte concebeu um caminho hibrido inusitado: conduz o projeto ate a fase de engenharia civil e apor- ta mais de dois terqos dos recursos do BNDES e da Eletrobrds para s6 entdo, com o esquema pronto, con- vocar os sdcios privados, que trardo a parte menor do capital e se arriscardo me- nos (ou ndo se arriscardo). Apesar das centenas de quilos de papel produzido sobre Belo Monte, o projeto ainda ndo e maduro ou con- vincente o suficiente para simplesmente ser aclamado. Quem assim o encarar estd ameaCado de levar gato para casa, pensando ter carrega- do lebre consigo. Jomal Pessoal FEVEREIRO DE 2002 1 Civilidade Jos6 Marcelino Monteiro da Costa foi ao Aur6lio e conferiu: internalizacqo existe realmente. A expres- sdo pode ensejar confused com internacionalizagao (embora o sentido seja exa- tamente o oposto, sem che- gar a ser pelo contrario - o lema da ditadura military, de "integrar para nao entre- gar"), mas s6 para ouvin- tes apressados e preconcei- tuosos. Dicionarizada na lingua, esta. Seu e-mail reaviva ainda mais a lembranqa aqui feita do debate no audit6rio do Hotel Tropical, em Santar6m (hoje, Amazon Park), em 1978, quando se tentava es- capar ao traqado colonial que tem sido feito para a Amaz6nia. Em plena forma, mas ji mais seletivo, Mar- celino desistiu de uma con- vocaqdo para dar assessoria em Timor Leste e preferiu continuar por aqui. Ainda assim, nao lhe tiram o titu- lo, arduamente cultivado,,de o maior globe-trotter entire os economists paraenses, pelo menos entire os que tem profundas raizes lusitanas. Inicio de noite, mas cor o sol do verao italiano ainda present, caminhava pelas ruas de Parma atris de um restaurant, com Mau- rizio Chierici, desfrutando de uma cena civi- lizada: mulheres em traje long e homes em- paletozados pedalavam em suas bicicletas de design classico, imperturbiveis, com natura- lidade e simplicidade. Nao era exercicio. Iam para seus programs noturnos. Em Parma, cor 400 mil habitantes, essa combinaqao de elegincia e despojamento me comoveu. Lembrei os casuais acontecimentos civi- lizados de anos antes pelas ruas do centro his- t6rico de Bel6m, quando cruzava com dona Zafra CUsar Santos Passarinho, sempre as pro- ximidades do belo pr6dia da farmicia da fa- milia, velho de 120 anos (hoje loteado e des- figurado). Ela surgia como se fosse ao baile do imperador, com sua sombrinha delicada, impecavel; nos cumprimentivamos, trociva- mos algumas palavras e segufamos, como se ainda estiv6ssemos na cidade trazida pelos portugueses da Europa para o burgo tropical. Numa outra vez, quase no mesmo lugar, o encontro foi com o professor C6cil Meira e sua esposa, Maria Helena, ela de sombri- nha, ele de chap6u de massa, ambos de rou- pas claras; de linho, se nao estou enganado, o palet6 do mestre da lingua e da literature luso-brasileira. Ele tirou o chap6u quando nos cumprimentamos. Repassei esses retratos da mem6ria enquanto assistia a missa de s6timo dia por Astrid Guimaraes, celebrada tr6s meses depois da morte de seu Smarido, Ant6nio, que fez legioes de amigos como comandante de aviagao e, depois, politico cor passage mete6rica pelo mundo do poder. Astrid tamb6m era um desses elos de discreta civilidade a unir povos e regimes, a nos fazer bem e a deixar, quando cessa seu brilho ativo entire n6s, um doce afago na lembrana -e uma-terna gratiddo, imorredoura. Acho que ela (e seu compa- nheiro de sempre) concordaria com o tom deste singelo regis- tro de admiragqo e respeito pelo que foi e serd sempre: urna verdadeira dama. Editora Al6m do valor que tem como criaqao grifica, o catilogo da Editora Paka-Tatu atesta que o Estado possui novamente uma casa editorial de expressed. Em dois anos, a Paka-Tatu ji colocou na vitrine mais de 20 titulos, com destaque para os temas amaz6nicos. Tomou-se um canal de acesso a auto- res in6ditos e um estimulo a autores em potential. Faz epo ao esforgo editorial da vizinha Valer, no Amazonas. Ganham com isso as letfas regionais. Artist Mdrio Barata II, um dos poucos e bons aquarelistas da terra, jd tem seu atelie-estudio-galeria, muito bem instalado. Um espaqo para aprecisar seu trabalho, mas tambbm um centio de ensino, aprendizado e produvio. Vale a pena visitd-lo, num espaqo acanhado mas criativamente usado, com inteligen- cia e sensibilidade, na travessa Ruy Barbosa. Transport Foi em novembro de 1990, depois de dois anos de entendi- mentos previous, que os governor do Pard e do Japdo assinaram um convenio para implantar o Piano Diretor de Transportes Urbanos na Regiao Metropolitana de Belmr. O projeto deveria estar pronto em 18 meses. Planejaria o sistema de trans- porte ptiblico de passageiros at6 2010. Ja estamos em 2003e a execuqgo do PDTU esbarra nos bicos das administraq5es estadual e municipal. O PDTU 6 a inica ferramenta de long prazo para o transport na Grande Bel6m. Nao pode ser ignorado. Se n~o 6 bom ou se tem falhas, a prefeitura que as aponte (e, se possivel, as corrija). Mas os dois poderes que partam dessa base t6cnica, oferecida pelos japoneses atrav6s de sua agencia international, a Jica (o Estado entrou com o dinheiro e eles com os equipamentos e os t6cnicos). O que nao se pode 6 deixar esse setor vital da vida metropolitan ao alvitre dos conces- sionarios e da lei do mais forte. Ou sujeito ao ping-pong caprichoso entire o Palacio dos Despachos e o "Ant6inio Lemos". Camel6 A prefeitura nao pode mais se restringir a reagir as iniciativas do com6rcio ambulante. Precisa estabelecer al- gumas regras para o setor. Al6m de resol- ver problems e acomodar situaq6es, acei- tando fatos consumados, deve normatizar preventivamente esse com6rcio, impedin- do que ele se expand caoticamente. A eco- nomia informal 6 uma realidade e nao pode ser eliminada. Mas ela nao 6 toda a econo- mia, nem toda a sociedade. Precisa se ajus- tar ao mundo em tomo (e envolvente). Depois do investimento que o gover- no do Estado fez no conjunto Feliz Lusi- tania, a prefeitura, mesmo a contragosto, tinha que participar damontagem do ce- nario, compondo-o de acordo com a nova configuraq~o. Aquele passa a ser um p6lo turistico, para os visitantes, e cultural, para os natives. Nessa paisagem, o Largo da S6 tinha que ser restaurado, o mais pr6ximo que fosse possivel, ao inv6s de ser tomado por camels (ainda mais com jornada de 24 horas, diretamente ou atrav6s de pre- postos). Planejamento, ji. Aqgo, logo. E fim de caos. 10111*i, ....i t .......int.m( 6 . C n 85I26 il ..i. I |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 100 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |