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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00245
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00245

Full Text




ANO XVI
N 296 R$ 3,00 omal Pessoal JE 2

A AGENDA AMAZONICA DE LLCIO FLAVIO PINTO


POLITICAL



Novo governor. Novo?


Ainda nao hA uma marca pessoal de Simdo Jatene no secretariado com o qual ele
inicia o seu governor. Essa constatagdo indica falta de identidade da nova
administragao ou, pelo contrario, 6 sinal de que a continuidade sera o trago forte desse
"modo tucano de governor"? A resposta vai defender dos pr6ximos passes do novo
governor, sobre o qual paira a sombra de quern o viabilizou, o medico Almir Gabriel.


O governor Simdo Jatene co-
mega sem rosto, sem iden-
tidade pr6pria. Parece uma
versdo, embora corn alguma
modificacao e ampliaqco, do governor
Almir Gabriel, num terceiro manda-
to, que a legislaqgo brasileira impos-
sibilita. E uma transiqgo para a volta
ao poder do m6dico, que esteve A fren-
J- te do executive estadual por mais tem-
po continue (oito anos) em toda a his-
4 t6ria republican paraense? Ou uma
continuidade, necessariamente impes-
.:o .~al, do modo hibrido de condugIo
d o neg6cios p6blicos, o que um
V \ / to incorretamente se poderia cha-
6'9 I ebispilcooqe-


mar de "a forma tucana de governor",
com o acompanhamento do molho de
tucupi para dar o sabor local a essa
formula, temperada no Brasil, a par-
tir de receituario global, por sua ex-
cel8ncia o soci6logo Fernando Hen-


rique Cardoso, que tamb6m se vai
pensando logo em voltar?
Aparentemente realimentada a am-
bigiiidade, agora sera mais dificil para
os analistas saber quem influencia mais
a quem: se Simao a Almir, ou Almir a
Simao. Os "luas pretas" do PSDB pa-
raense parecem uma avant-premiere
do que poderi ser a clonagem da esp6-
cie humana: falam da mesma maneira,
tem os mesmos cacoetes, comportam-
se por igual. Mas ndo se trata apenas
de uma especie de gen6tica polftica.
Simao Jatene nao podia mesmo come-
Car seu mandate imprimindo ou ten-
tando imprimir uma marca pr6pria.












As madeiras sao,
hoje, o que os
Scarrnes americanos
representaram,
d6cadas atras?

S eis meses atris a desembargado-
ra S6nia Maria Parente alertou:
ajustiqa do Pard, o segundo mai-
or Estado brasileiro, com territ6rio su-
perior ao da Col6mbia, pode estar ser-
vindo de instrument para "legalizar ter-
ras pertencentes i Unido ou ao Estado,
em nome de terceiros", transformando-
se num braqo auxiliar da grilagem.
A advertencia foi feita a partir de um
caso escabroso. Inconformados com
decisao de uma juiza da comarca de
Altamira, dois grupos a Incenxil e os
herdeiros de Raimundo Ciro de Mou-
ra, atras dos quais esti a C. R. Almeida
- que disputam vastas extensoes de ter-
ras no municipio (o maior do pafs), en-
caminharam recurso, por fax, direta-
mente para a desembargadora Maria do
C6u Cabral Duarte, em Bel6m.
No dia seguinte ao recebimento do
recurso, a magistrada o deferiu e, de


Do cadillac


imediato, determinou A jufza de Alta-
mira que revogasse sua decisao. Duas
horas depois de ter transmitido a or-
dem, tamb6m por fax, a desembarga-
dora Maria do C6u voltou atras. E que,
seguindo por outro caminho, atrav6s
da distribuigo regular pelo protocolo
do tribunal, o recurso foi encaminha-
do a outra desembargadora, S6nia Pa-
rente, que viria a fazer dentincia. Ma-
ria do C6u tentou justificar sua parti-
cipagqo ind6bita no epis6dio: despa-
chara o pedido "por equivoco". Uma
c6pia do recurso havia sido colocada
"sob minha mesa", conforme escreveu.
Seis meses depois do alerta, o pro-
blema volta a se repetir, agora em escala
ampliada. Nao 6 mais apenas o uso da
justica paraense como instrument da
grilagem desenfreada de terras no Esta-
do. Ela tamb6m estaria servindo para
favorecer a extragqo illegal do principal
recurso natural do Pari, a madeira. Nao
qualquer madeira, mas uma esp6cie que,
pelo seu elevado valor, 6 considerada um
verdadeiro ouro verde: o mogno. JA mais
valioso do que o pr6prio ouro amarelo.
Em setembro do ano passado o juiz
da 2a vara cfvel de Altamira determinou
o interdito proibit6rio de 7.200 toras de


mogno, representando 18 mil metros
cibicos, no valor de 120 milhoes de re-
ais, que haviam sido extrafdas ilegalmen-
te no vale do Xingu, alvo preferencial
da aiao dos grileiros e madeireiros clan-
destinos. A madeira foi mantida em jan-
gadas, flutuando no rio, sob os cuidados
de um comerciante local, designado
como depositArio fiel do bem.
No final de novembro do ano pas-
sado esse depositirio, Wandeir dos
Reis Costa, apresentou mandado de
seguranca ao Tribunal de Justiga do
Pard. O process foi distribuido para a
mesma desembargadora Maria do C6u
Cabral Duarte. Mais uma vez atrav6s
de liminar, ela concede o pedido, au-
torizando o comerciante a serrar, em-
pacotar, classificar e depositar a ma-
deira apreendida no armaz6m de pro-
priedade de um m6dico de Altamira.
A noticia provocou forte impact em
Altamira, Belem e Brasflia. O Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio Ambien-
te e dos Recursos Naturais Renoviveis)
e o Minist6rio Piblico Federal reagi-
ram de imediato. Ndo chegaram a de-
clarar que nio cumpririam a decisdo da
desembargadora, mas anunciaram logo
que iriam se empenhar em susti-la.


Primeiro por nao ter ainda
sustentagdo political e admi-
nistrativa para isso. Em se-
gundo lugar, por querer evi-
tar que algu6m Ihe lance a
pecha de ingrato ou desleal.
0 economist Simdo Ro-
bson Jatene, 53 anos, nao po-
deria sequer cultivar a velei-
dade de um dia ser govema-
dor sem dois fatores determi-
nantes para que, desviando do
seu caminho natural, seguis-
se, por um atalho fenomenal,
diretamente para o topo do
poder no Estado. O primeiro
fator foi sua condiqgo de
apparatchick, um aplicado
tecnoburocrata, cumpridor
das ordens superiores. 0 se-
gundo fator foi o uso desre-
grado da miquina official para
elege-lo na dispute de outu-
bro do ano passado, uso (e
abuso) comandado pessoal-
mente pelo seu antecessor,
chefe e correligionirio.


At6 20 anos atras a bio-
grafia de Jatene se dividia
entire a academia, como pro-
fessor simpitico aos seus
alunos, e a boemia, como
um animador de reunites
sociais. Todos eram unini-
mes em consideri-lo "um
bom camarada", tanto ensi-
nando quanto cantando e
tocando.
Em 1983 ele estreou
como um dos principals au-
xiliares do govemador Jader
Barbalho. Cumpriu o quatri-
enio da primeira gestdo do
atual deputado federal do
PMDB, beneficiando-se da
estrutura tdcnica que havia
sido montada ao long dos
oito anos anteriores (de
Aloysio Chaves ao segundo
governor Alacid Nunes). Em
nenhum moment atritou
com o chefe, que, nesse pe-
riodo, comegou a ter que li-
dar com acusacoes de cor-
rupco, neg6cios obscuros e
enriquecimento ilicito.


Jatene cumpriu tdo bem
as ordens recebidas que Ja-
der Barbalho, nomeado mi-
nistro da reform agrdria
pelo president Jos6 Samey,
carregou para Brasflia seu
ex-secretirio de planeja-
mento, entregando-lhe o
control do estrat6gico ca-
dastro fundiArio do Mirad.
Os caminhos dos dois s6 se
separaram quando Jader
passou para o Ministerio da
Previdencia Social, confir-
mando ji entdo como seu
"segundo" o ex-secretArio
de transportes Ant6nio Bra-
sil. A partir daf, Jatene tam-
bem se tomaria um "segun-
do", mas do senador Almir
Gabriel, que, em 1989, se-
ria candidate a vice-presi-
dente da repdblica na chapa
de Mario Covas.
A mission que Simro Ja-
tene recebeu de Almir em
1995 foi montar uma engre-
nagem administrative com
drenagens por todo o terri-


t6rio paraense, mas sob o
rigido control central do
governador. Ela expressou o
"centralismo democritico"
de Almir Gabriel: liberdade
para manifestaqoes enquan-
to a questio esti em aberto,
mas unitarismo na hora da
decisao. Com o tempo de
exercicio do poder, a mar-
gem de liberdade se estrei-
tou tanto que os interlocu-
tores passar a ter o direito
de falar tudo, desde que esse
"tudo" se harmonizasse com
o pensamento do chefe. O
que era uma equipe se trans-
formou numa corte. Conso-
lidada em torno de um rei
republican.
Como um monarca, Al-
mir Gabriel escolheu Simao
Jatene como seu successor e
moveu mundos e funds para
que essa vontade fosse con-
firmadapelos eleitores. Con-
seguir esse resultado foi uma
facanha. Seu significado
pode ser calculado pelo ris-


') JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal











ao mogno


Deixaram claro que nao concordavam
com a autorizaao. Ela contrariava o en-
tendimento dominant, no executive e
no legislative, de que nem mesmo a ale-
gacdo de evitar sua perda 6 suficiente
para legalizar madeira apreendida. O
Senado acabou de vetar Medida Provi-
s6ria que autorizava o Ibama a leiloar
madeira illegal.
O ato da desembargadora Maria do
Cdu tamb6m causou desconforto noju-
diciario paraense. A partir do conflito
de competencia suscitado pela desem-
bargadora Sonia Parente em relaSio a
pr6pria Maria do C6u, o tribunal esta-
dual entendeu que o foro competent
para tratar dessas questoes 6 a justiqa
federal (embora o entendimento seja
passivel de recurso a instdncia superior,
sobrestando sua aplicaqao unilateral).
Por isso, no dia seguinte a publicaqao
do despacho em favor do depositdrio fiel,
Maria do C6u foi chamada ao gabinete
da president do tribunal e aconselhada,
pela desembargadora Climeni6 Pontes,
a revogar mais essa decision.
Com data do dia 20 de dezembro
(fixada com rasura sobre o nimero 19),
a desembargadora Maria do C6u escre-
veu, a mao, em papel sem timbre, o


novo despacho: "Face entendi-
mento com a Exma. Sra. De-
sembargadora Presidente deste
Egr6gio Tribunal de Justiaa e
ante a mat6ria exposta nestes
autos decline de minha com-
petencia para conhecer e julgar o pre-
sente feito, e em conseqtiUncia consi-
dero a competencia para o foro da Jus-
tiga Federal ficando nulos os atos de-
cis6rios at6 aqui praticados".
Talvez seja o caso de perguntar se a
emenda nio ficou pior do que o soneto,
ou, pelo menos, se o soneto nio foi pri-
vado de sua pureza. A forma e o conteii-
do do despacho sugerem que a desem-
bargadora Maria do C6u s6 voltou atrds
por pressao da president. Ambas teri-
am estabelecido, por via do entendimen-
to administrative, uma via marginal ao
curso regular de um process judicial.
Normalmente, caberia A desembar-
gadora-presidente cassar a decision de
sua colega, tomada atrav6s de liminar
(que 6 uma concessao a titulo precario),
se a considerasse illegal. Ji a autora do
despacho, investida de um poder mo-
nocritico, nmo devia abrir mro dessa
prerrogativa, por melhor e mais convin-
cente que fosse a advertancia oral de


sua superior administrative (mas igual
para efeito de jurisdigqo). Desde, evi-
dentemente, que tivesse convicqao so-
bre a legalidade do ato praticado. O
"devido process legal", um dos estei-
os da justiqa, foi arranhado por esse
contencioso informal, que se sobrep6s
a tramitaco regular do recurso.
O problema, entretanto, estI long de
se restringir a uma formalidade proces-
sual najustica, apesar da gravidade des-
sa dimensdo. A questdo mais imediata e
mais preocupante esta na resposta A per-
gunta feita ha seis meses pela desembar-
gadora Sonia Parente: grileiros e extra-
tores ilegais de madeira estdo se valen-
do do poder judicidrio para legalizar os
seus crimes contra o patrim6nio pdibli-
co? Colocando no ambito do seu circui-
to advogados e magistrados, o golpe se
tornou muito mais sofisticado do que as
primitivas verses anteriores? Ao inv6s

~ ~ CONTINUEA PAG. 4


co a que se expuseram o can-
didato e o seu padrinho, ain-
da nao eliminado de todo, de
sofrerem cassaqao e punicqo
pela justiga, por abuso de
poder e crime eleitoral.
O secretariado anuncia-
do por Simdo Jatene reflete
a delicada situagqo em que
ele ainda se encontra. Como
fiel quadro burocratico do
governador (seja na verso
Jader quanto na versao Al-
mir), sua tarefa era atrair
parceiros para a realizacao
de obras, sem que os alia-
dos exercessem qualquer
forma de control sobre o
que estava sendo feito. Por
isso era mais facil falar corn
o governador do que corn o
secretario e mais provavel
obter um sim do chefe do
que do seu auxiliar. A cli-
entela se irritava cor o "se-
gundo" e isso favorecia o
"primeiro". Um m6todo efi-
ciente de realizar obras no
Estado, servindo-se de sua


estrutura clientelista e fisi-
ol6gica, mas mantendo o
poder de mando sobre ela.
O governador Simdo Ja-
tene, ao former sua equipe,
teve que acomodar interes-
ses, acatar circunstancias e
procurar disfarcar sua fra-
queza, que pode ser apenas
uma fraqueza temporaria ou
ticita. Mexeu menos no se-
cretariado anterior do que se
imaginava. Em alguns casos
trocou seis por meia ddzia,
mas pode se dar mal nessa
mudanga formal (ou pode
at6 ser que essa tenha sido
essa a intengio oculta, ma-
quiavl6ica: colocar determi-
nados secretirios em um
context desfavorivel para
se livrar deles no future, tal-
vez breve). No que inovou
em relacgo A equipe anteri-
or, seu objetivo foi ampliar
o universe da coligaqao po-
litica, que se estreitou mui-
to sob o reinado de Gabriel.
Com muito jeito, Jatene


abriu espaqo para o PMDB
barbalhista e renovou sua
reserve de engenhosidade
absorvendo o derrotado can-
didato a senador Gerson
Peres (uma atualizacgo de
Jorge Arbage, s6 que deslo-
cada para uma delicada area
t6cnica, o que poderd acar-
retar embaraqos A adminis-
tragdo estadual).
Ao petismo, anatematiza-
do pelo antecessor, Jatene
lanqou uma proposta de en-
tendimento. Sem excluir a
via mais espinhosa do prefei-
to Edmilson Rodrigues, que
poderi se tornar o grande
adversirio na dispute muni-
cipal do pr6ximo ano, procu-
rou um canal em Brasilia, di-
retamente corn a equipe pre-
sidencial ou atrav6s da ban-
cada federal. Os adversarios
provavelmente nao terao di-
ante de si uma carranca como
a do governor que expirou.
Por todos esses fatores e
mais alguns, o governor que


acaba de tomar posse pode
nao ser a expressao exata do
novo chefe. Ainda 6 cedo
para quantificar o grau de
aproximaqao que essa equi-
pe represent da vontade e
do pensamento do governa-
dor rec6m-empossado. Mas
bem cedo essa aproximacio
comecard a ser feita, estabe-
lecendo um parametro mais
confiavel de aferigqo do que
se pode esperar desta re-
quentada formagdo gover-
namental. Uma primeira
avalia go, sujeita a tantos
fatores ainda imponderi-
veis, mostra que Simao Ja-
tene esta comeqando um
pouco abaixo do que foi o
principio dos oito anos de
Almir Gabriel e aqu6m da
situaqao que ira enfrentar no
Estado. Seu desafio, portan-
to, 6 maior, apesar dessa fes-
ta em famflia que foi a tran-
siqSo (e que ainda 6). Um
tanto mais festival do que
devia ser, alias. M


Jomal Pessoal JANEIRO DE 2002 2












A indicagoo de
Marina foi saudada
como uma enorme
vit6ria e uma
inquietante divida

Oengenheiro agr6nomo Adal-
berto Verissimo costuma dizer
que Deus entregou diretamen-
te ao home as sementes de mogno.
A hip6tese procede. O mogno 6 uma
arvore bonita de se ver na mata, desta-
cando-se por seu porte esbelto, sua al-
tura (de 30 a 40 metros) e sua cor. Im-
pressiona tanto ou mais ainda quando
se transform num m6vel ou num pai-
nel: 6 leve e ao mesmo tempo resis-
tente, s6lida e maleavel, pode durar
s6culos, indiferentemente aos insetos
e aos maus tratos do home, e cativar
por sua cor natural, melhor do que
qualquer outra cor que o computador
imaginar como sucedaneo.
Os presidents dos Estados Unidos
tim utilizado, hi vdrias d6cadas, m6-
veis de mogno na Casa Branca, em
Washington. A marinha inglesa, uma
das mais eficientes de todos os tem-
pos, tamb6m se beneficiou das quali-
dades fisicas e qufmicas da madeira.
Qualquer autor de thriller sabe que, se
descrever como sendo de mogno aque-
la escrivaninha sobre a qual o perso-
nagem se debruca, dar-lhe-a uma apa-
rencia de nobreza.
Em algumas d6cadas mais, entre-
tanto, o mogno poderi se confinar ao
terreno da ficqio. E provivel que Beto
Verissimo, um jovem agr6nomo nor-


0 mogno e a


destino que se apaixonou pela floresta
amaz6nica, antes mesmo de se aposen-
tar ji tera dificuldades para localizar
arvores de mogno nas suas constantes
excurs6es pelo mato.
O mogno, a mais bela e mais va-
liosa madeira da Amaz6nia, region
que concentra 56% das florestas tro-
picais do planet, esta acabando. Ja
acabou no sul do Pard, onde sua pre-
senca era de 5 a 10 vezes maior do
que nas areas onde a madeira esta
sendo agora cagada, cortada e ven-
dida como se fosse ouro (na verda-
de, o ouro verde vale atualmente
mais do que o ouro amarelo).
Beto fica feliz quando, nas suas
excurs6es ao Acre, encontra uma Ar-
vore de mogno por hectare. Na area
de influ8ncia de Rio Maria, no sul do
Para, a densidade podia chegar a 11
arvores por hectare. Hoje, mogno 6
conversa para boi dormir ou para cho-
ro nessa regiao. No principio da sua
ocupacqo, muito mogno deve ter sido
destruido nas queimadas. O que os pi-
oneiros queriam mesmo era former
pastagens para seu gado, incumbido
de, ao menor custo (monetariamente
falando), "amansar a terra", na tal fi-
losofia ditada pela pata bovina (em
sentido literal e figurado).
Depois, quando a madeira foi usa-
da como reforco de capital para a exe-
cugqo do empreendimento ainda prio-
ritario, o "projeto agropecuario" sub-
sidiado pelo governor federal, muito
mogno foi extraido, mas a custa da
destruiqao de muitas outras Arvores de
menor valor. Por um ou outro cami-
nho, dos anos 60 aos 80, o vale do Ara-


guaia-Tocantins, na busca de um "mo-
delo de ocupacao", destruiu uma fa-
bulosa mina de madeira. Ainda ha al-
guma iniciativa de plantio da drvore,
mas quem a conhece intimamente des-
cre dos resultados. Como na longa far-
ra da Sudam, extinta no ano passado
numa lama de corrupqdo, 6 mais uma
placa para agradar ingles.
Segundo o Imazon (Instituto do
Homem e Meio Ambiente Amazoni-
co), ao qual Verissimo pertence, entire
1971 e 2001 o Brasil produziu aproxi-
madamente 5,7 milh6es de metros cd-
bicos serrados de mogno. Pelo menos
quatro milh6es foram exportados, uns
75% do total para os Estados Unidos e
a Inglaterra. Essa exploracao represen-
tou algo bem perto de 4 bilh6es de
d6lares em faturamento, considerando-
se o preqo m6dio hist6rico, de US$ 700
o metro cdbico. Atualmente, os valo-
res variam entire US$ 1,6 mil o m3, no
mercado interno, e US$ 2,5 mil, no
exterior, segundo a tabela do Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio Ambien-
te e dos Recursos Naturais Renovi-
veis). Beneficiado, por6m, cada m3
pode ir parar em US$ 8 mil. Ouro pas-
sa a ser produto de segunda grandeza
nessa pauta de valores.
A febre do mogno 6 uma varieda-
de vegetal da obsessdo que provocou
as incriveis ondas de garimpagem.
Por serem mais convencionais, epo-
p6ias como a de Serra Pelada atraf-
ram mais atencao e espanto da
opiniao ptblica. O que esta aconte-
cendo em tdo pouco tempo com o
mogno, uma das mais valiosas ma-
deiras da hist6ria da humanidade,


de um enredo tdo ristico que
se exauria na apuraqco poli-
cial, agora a pirataria segue
uma trama muito mais com-
plexa, dificil de ser percebi-
da, entendida e desfeita?
Veja-se o caso do deposi-
tario fiel de Altamira. Embo-
ra ele se diga comerciante de
recursos limitados, foi colo-
cado sob sua guard um pa-
trim6nio no valor de 120 mi-
lh6es de reais. Sua preocupa-
co corn a integridade do bem
se acentuou no dia 22 de no-
vembro, quando "um grande


temporal, seguido de ventos
de alta velocidade", provo-
cou o desgarramento de
"grande parte das toras das
amarras que as seguravam,
formando jangadas, deixan-
do as mesmas ao sabor das
Aguas". Nao diz quantas to-
ras. Algu6m sabera realmen-
te quanta madeira se perdeu?
Wandeir Costa notificou a
policia sobre o fato, mas ain-
da assim sua responsabilida-
de continuou em causa: al6m
de sujeitas a acidentes, as to-
ras de madeira estavam sub-
metidas a um process de
apodrecimento na Agua. As-


sim, ele tomou a decisdo, atra-
v6s de mandado de seguran-
qa, de pedir a justiga que o
autorizasse "a antecipar os
valores necessarios" para re-
tirar a madeira da Agua, ser-
ra-la, classifica-la e depositi-
la num local seguro, sempre
sujeita A fiscalizac~o da pr6-
priajustiga, at6 que o destino
dessa riqueza seja decidido,
igualmente pela via judicial.
Um ato de grande nobre-
za. Afinal, ha 13 meses o de-
positdrio fiel tira dinheiro do
pr6prio bolso para pagar guar-
das particulares, que.dividem
a vigildncia sobre a madeira


com soldados da Policia Mili-
tar. O depositrio tamb6m res-
ponde por honorarios advoca-
ticios e outras despesas "ine-
rentes A proteqio dos bens",
que Wandeir diz onerarem
suas "parcas reserves", ja ne-
cessitadas de ressarcimento.
Mesmo nessa situaqao, ele e
disp6s a gastar ainda mais, ten-
do de volta seus investimen-
tos quando num future de
previsibilidade incerta e nio
sabida a madeira tiver seu
destino decidido pelajustiqa.
Apesar de todas as meri-
t6rias alegaqoes apresenta-
das, se o despacho da desem-


A JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal










future ministry


tem significado ainda mais profundo
do que a maioria dos booms aurffe-
ros. S6 n~o tem o mesmo impact.
S6 nao tinha, alias. No mrs passa-
do a TV Globo exibiu para todo pais
as imagens e as informa96es sobre o
que foi classificado como "a maior
apreensao de madeira da hist6ria do
Brasil". Provavelmente por ser ne6fi-
ta no assunto, a Globo nao sustentou a
reportagem em informaqres checadas
ou corretas, mas as imagens supriram
essa defici8ncia.
Ao seu modo, a televised desem-
penhou mais satisfatoriamente uma
funcao que milhares de artigos escri-
tos at6 entao nao haviam realizado:
provocar o interesse da naqco para um
drama muito grave, que comegou e
poderi se consumer antes que a gera-
9ao de Beto Verissimo encerre seu pe-
riodo de vida ativa. Seremos contem-
poraneos da extiniao do mogno, im-
potentes para reverter o mal que temos
causado, a partir de uma presumfvel
didiva divina, na forma das sementes
dessa arvore excepcional?
Em escala menor de utilizagdo, os
parents do mesmo genero da arvore
brasileira na Am6rica Central e Cari-
be ji nao existem mais. A pressao so-
bre as iltimas concentrates, na Ama-
z6nia latino-americana, mas sobretu-
do na area predominante do Brasil, se
tornou um autentico caso de policia.
Os extratores de mogno se-multiplica-
ram e sua audicia resultou em imagens
pat6ticas, como as enormes jangadas,
formadas por milhares de toras de
madeira, que a TV Globo captou e que
ji se tornaram rotineiras na area mais


rica depois (e ji bem abaixo) do Ara-
guaia, a da Terra do Meio, entire os rios
Xingu e Iriri, no Pard.
O Ibama diz ter apreendido madei-
ra no valor de 300 milh6es de reals.
Nao disse o nimero de toras ou a
quantidade de metros cdbicos. Em
qualquer hip6tese, o valor deve ser
tratado em milhares. A esmagadora
maioria dessas arvores foi extraida
dentro de reserves indigenas, princi-
palmente na dos famosos Kayap6s.
Desta vez, nao atrav6s de invasdo das
reserves: agora, foi com a ajuda dos
pr6prios indios. O que eles provavel-
mente ganharam com sua colaboracao
represent 150 vezes menos do que
fatura o agent na ponta da linha de
comercializaqCo.
Os indios alegam, em sua defesa,
que nao tem outra fonte de renda corn
a ruina da Funai e a evaporaqco da
political indigenista pdblica, que se
desmancha no ar como restos de uma
categoria primitive a ser colocada sob
a lipide da hist6ria, no entendimento
de um soci6logo da modernizaqdo (e
com poder de transformar em fatos
suas id6ias, como nosso ainda presi-
dente Fernando Henrique Cardoso). E
que precisam se vestir, comer e beber
- em amplo sentido neste tltimo item.
Cor muitas boas raz6es pode-se
construir uma trag6dia, como a do
mogno. Ningu6m vai para o inferno,
mas nem assim o mal deixa de se con-
sumar. Genio, Dante colocou mais gen-
te no purgat6rio do que no inferno e
no paraiso da sua Divina Comidia.
Contra a posigao do Brasil, o mog-
no foi incluido, tres meses atras, num


encontro de amplitude mundial reali-
zado em Santiago do Chile, no anexo
II da convengdo da Cites. Isto signifi-
ca que a exploracao e a comercializa-
q~o da esp6cie estardo sujeitas ao con-
trole nao apenas do governor national,
mas tamb6m dos outros pauses que in-
tegram o colegiado, de exportadores e
importadores, com a aplicacao das
normas existentes a respeito.
O governor brasileiro, o mais inte-
ressado no assunto por ser o maior pro-
dutor e vendedor de mogno no mun-
do, considerou dispensivel apertar o
control sobre a esp6cie, que, na pr6-
xima abordagem, pode passar para o
Anexo I, das esp6cies em extingqo.
Garante que tem feito tudo que 6 pos-
sfvel para acabar com a exploraqao ile-
gal e predat6ria da madeira, o que nao
6 verdade, ainda que possa ser reco-
nhecido o decidido esforqo official a
respeito. Ou a intencqo, dantescamen-
te falando.
Enquanto o Ibama e a Policia Fe-
deral aprendem alguns milhares de to-
ras de mogno transportadas emjanga-
das pelo rio Xingu (a grande avenida
aquitica para a qual essas ligubres
embarcaq6es convergem de todos os
pontos de drenagem da bacia que pos-
suem a esp6cie "s suas margens), acre-
dita-se que no sul do pafs, cor desta-
que para Sdo Paulo, haja 35 mil me-
tros cibicos estocados. E madeira em
ponto de bala para seguir para o exte-
rior, se possivel (com ganhos melho-
res), ou ter comercializaqo internal, se
os mecanismos de control de embar-

CONTINUA PSG.6


bargadora Maria do C6u ti-
vesse sido cumprido, 6 pou-
co provavel que se pudesse
aplicar a madeira de Altami-
ra a decision do Senado, im-
pedindo que as toras de mog-
no remanescentes ao tempo-
ral do mes passado viessem
a ser levadas a leildo. Torna-
da inevitAvel a venda, have-
ria ainda uma questdo a res-
ponder: quem poderia se
apresentar como concorren-
te A altura de algu6m em con-
diq6es de habilitar os cr6di-
tos acumulados corn a guar-
da e manutenao da madeira
flutuante no rio por 13 me-


ses, com sua serragem, em-
pacotamento, classificaao e
dep6sito a partir de entdo?
A situaqio se assemelha
a uma pratica que se tornou
muito comum no Pard algu-
mas d6cadas atris, quando
o isolamento fisico do Esta-
do em relagqo ao restante do
territ6rio national torou o
contrabando um sucedineo
eficaz e corrente. Para ga-
rantir que autom6veis trazi-
dos ilegalmente do exterior
chegassem aos destinatari-
os, os contrabandistas tira-
vam uma pega essencial do
motor antes de avisar a al-


fandega (anonimamente, 6
claro) sobre o local onde
estaria o veiculo. Depois
compareciam ao leildo para
arrematar a mercadoria
apreendida. Nao havia sur-
presa. Afinal, tinham em
mdos o coraqao do "cutia",
como os "cadillacs" eram
chamados ao circular corn
suas linhas ostentat6rias pe-
las ruas de Bel6m.
Se nao todos, ao menos os
habitantes mais bern informa-
dos sabiam do estratagema.
Mas pouco podiam fazer para
evitA-lo. Por tamb6m estar de
bragos atados pelas formalida-


des legais ou por conivencia,
a justiga acabava servindo de
instrument de legalizac~o
desse mecanismo ilicito.
As terras e as madeiras
desprotegidas do patriminio
piblico estar~o significando,
para o Pard dos nossos dias, o
que os carries americanos re-
presentaram, d6cadas atras,
com sua fauna acompanhan-
te de contrabandistas? A
pergunta fica no ar. Assim
como uma insinuante sensa-
qco de impotencia da soci-
edade diante do problema,
revisto e ampliado. A mesma
impotencia de antes. M


Jomal Pessoal JANEIRO DE 2002








D ois components da perso-
nalidade da nova ministry
do meio ambiente a cre-
denciaram ao respeito da
opinido pdblica e ao destaque na equi-
pe de linha de frente do govemo de
Luiz Inicio Lula da Silva: sua fibra e
sua aplicaco. No espago de tr6s d6ca-
das, desde o moment em que tardia-
mente se alfabetizou, ji aos 16 anos,
Maria Osmarina Silva de Lima a atu-
al Marina construiu uma biografia
que guard certo paralelo com a do
pr6prio president da repdblica.
E, em primeiro lugar, uma sobrevi-
vente: tres dos seus 10 irmaos, oito dos
quais mais novos, foram abatidos pe-
las dificeis condiq6es de vida de um
seringal no distant, isolado e abando-
nado Estado do Acre, onde ela nasceu.
A morte da mae tamb6m a obrigou a
assumir desde cedo sua responsabili-
dade na manutenqgo da familia. Para
se manter, trocou o trabalho incerto do
seringal pelo emprego de dom6stica na
capital, em Rio Branco. Ainda nao era
o lugar que queria: foi entao ser freira.
A companhia das religiosas nao
definiu sua vocaqo, mas foi o incen-
tivo que faltava para deixar a condi-
9io de analfabeta. No Mobral, um pro-
grama criado pelo regime military, do
qual se tornaria uma crftica radical, ela
aprenderia a ler e escrever. Passou ra-


Fazer o certo, enfim

A acreana Marina Silva sobe ao
ministerio sem precisar deserdar a causa amaz6nica


pidamente para o supletivo de primei-
ro e segundo graus e entrou para a
Universidade Federal do Acre, na qual
se formaria em hist6ria e para a qual
logo voltaria, ji como professor.
Comegaria entao sua vida pdblica.
Foi uma das fundadoras do PT estadu-
al. Nessa 6poca conheceu o seringuei-
ro Chico Mendes, que dirigia o sindi-
cato dos trabalhadores rurais de Xa-
puri, uma decadente zona de produgo
de borracha. Assumiu a militAncia sin-
dical, como dirigente da CUT (Cen-
tral Onica dos Trabalhadores). Em
1986, disputou uma vaga na Cimara
Federal, enquanto Chico Mendes con-
corria A Assembl6ia Legislativa. Ne-
nhum dos dois se elegeu.
Dois anos depois, por6m, Marina
conseguiu se tornar a mais votada ve-
readora da hist6ria de Rio Branco. Em
1990, se elegeu deputada estadual,
quando o PT ainda tinha pouca expres-
sao na polftica local. Em 1994, aos 38
anos de idade, ganhou destaque naci-
onal como a senadora mais jovem da


hist6ria da repdblica. Em 2002, foi re-
eleita com uma das maiores votaq6es
proporcionais da hist6ria brasileira.
Mas quando Lula venceu o 20 turn
comeqaram de imediato as especula-
q6es. Nio parecia haver ningu6m com
mais credenciais para o Minist6rio do
Meio Ambiente do que a senadora
acreana. Era a oportunidade de reali-
zar utopias que s6 conseguiam circu-
lar pela contra-mao do poder estabe-
lecido at6 entao.
Para a esmagadora maioria das Or-
ganizaq6es Ndo-Governamentais com
atuaqio na area ambiental, essa verda-
de permanece de p6. Varios outros gru-
pos de pressao e de opinion, por6m, tem
preferido manter uma attitude de expec-
tativa ou mesmo de ceticismo, mesmo
quando nao questionam as credenciais
de Marina Silva para ocupar o cargo.
Ela nao 6 o primeiro cidadao da
Amaz6nia a ocupar o MMA, nem
mesmo o primeiro acreano native a
ser convocado para um minist6rio no
executive federal. O ex-senador pa-


que international estiverem
realmente azeitados e o con-
trabando for inviAvel.
O esforgo end6geno,
portanto, jA nao 6 mais sufi-
ciente. Ou nio 6 o bastante
a tempo de poder dar conta
da selvageria da predaqdo da
esp6cie, em funcio do pre-
Co e da exaustio de outras
fontes de abastecimento do
ouro verde. Um control in-
ternacional efetivo seria a
iltima chance de sobrevi-
v8ncia para o mogno?
Muitos nem querem fa-
zer essa pergunta, mas ela
precisa ser formulada e, aci-
ma de tudo, necessita de
uma resposta eficaz e urgen-
te. O debate ird se intensifi-
car e se radicalizar agora
que a senadora acreana Ma-
rina Silva assumiu o Minis-
t6rio do Meio Ambiente.
Sua indicaqao foi saudada
ao mesmo tempo cor entu-
siasmo e preocupag~o,


como uma enorme vit6ria e
uma inquietante ddvida.
E claro que Marina ten-
tard transformar em politi-
ca federal a experi8ncia
que se tornou a razdo da
sua vida e a explicagdo
para o seu sucesso, tanto
no seu Acre natal quanto
nas praqas mundiais que a
tomaram como aliada e
parceira. Nao foi exata-
mente por acaso que o pre-
sidente eleito Luiz Inicio
Lula da Silva deixou para
confirmar em Washington,
na semana passada, uma
indicaqio que ji se tinha
como certa desde alguns
dias antes no Brasil.
O governador do Acre,
Jorge Viana, conterrfneo e
correligionario da future
ministry, observou que a
decisao de Lula de confir-
mar Marina como ministry
nos Estados Unidos tinha
um simbolismo muito
grande: foi justamente nos
EUA que o sindicalista


Chico Mendes se fortale-
ceu politicamente para lu-
tar em favor do desenvol-
vimento sustentivel do
Acre e da Amaz6nia.
Essa alianga teve um re-
sultado inegavelmente posi-
tivo: projetou mundialmen-
te o antigo seringalista, cri-
ando eco para sua pregagio
em defesa do uso preferen-
cial da floresta na Amaz6nia,
e de um uso mdltiplo, nio
apenas pelas formas conven-
cionais, como a produgdo de
madeira s6lida. E esse enten-
dimento que esta por tris da
"Florestania", uma concep-
9ao de desenvolvimento dis-
tinta da que se encontra em
vigor ou predomina.
Mas essa alianga tamb6rm
superestimou o significado de
experiencias localizadas e de
dificil disseminaqo, ignoran-
do as especificidades do
Acre. No Estado da ministry
o uso dos recursos naturais 6
mais "sustentavel" do que
nas demais unidades federa-


tivas da regiao, mas o Esta-
do continue a ser tamb6m o
mais pobre da Amaz6nia.
A agenda ambiental dos
pr6ximos meses vai estar
carregada: de temas, de im-
passes, de personagens, de
conflitos. Espera-se que,
tendo o m6rito de espantar
a calmaria convenient, o
debate nio se tome um des-
perdicio de vitalidade ao se
desviar pelas rotas rigidas
dos dogmatismos e das ver-
dades eternas.
Brava mulher do mais
rec6ndito sertdo amaz6ni-
co, a nova ministry pode
cumprir seu papel se abrir
todas as portas ao debate e
arejar todos os ambientes
com perguntas que buscam
resposta e um autor A pro-
cura do seu grande enredo:
a salvacqo da madeira que
Deus legou aos homes e
os homes, demasiada-
mente humans, estdo des-
truindo numa velocidade
digna de inferno. M


6 JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal
















raense Fernando Coutinho Jorge, por
indicaqao do ex-senador e tamb6m ex-
ministro Jader Barbalho, do PMDB,
foi o primeiro amaz6nico do atual Mi-
nist6rio do Meio Ambiente, ainda na
fase em que o 6rgao era especifica-
mente o Minist6rio da Amaz6nia, no
governor Itamar Franco.
Por outro lado, quatro acreanos jd
ocuparam minist6rios na repdblica
brasileira. Marina Silva, entretanto, 6
a primeira dos acreanos a chegar a
esse posto sem ter emigrado de um
lugar que nao oferecia horizontes para
suas melhores intelig8ncias. Seus tres
antecessores (Jarbas Passarinho, Said
Farah e Adib Jatene) fizeram suas car-
reiras fora do Acre. Quando foram
chamados para a mais alta adminis-
traqao federal j nao possufam vincu-
los com o Estado, nem com a regiao.
Passarinho ainda era o tnico ainda
com base regional, mas criada no Pard
(um dos seus erros politicos, alias, foi
espaqar demasiadamente suas visits
ao Estado, seu reduto eleitoral, enrai-
zando-se em Brasilia).
Marina, que nasceu no Seringal Ba-
gaqo, no municipio da capital estadual,
6 a primeira acreana a ocupar o posto
de ministry por sua luta political dedi-
cada ao Acre. Assim, sua legitimidade
nao adv6m apenas de uma circunstAn-
cia de nascimento, mas de uma verda-
deira opqao de vida, de um ato de von-
tade: empenhar-se para que na sua re-
giao de origem e de escolha prevaleqa
uma political pdblica coerente com as
condiq6es geograficas da area e as as-
piraqces dos seus habitantes. A nova
titular do MMA se qualificou por suas
raizes de vida, pelo conhecimento ad-
quirido (na formalidade das escolas e
na informalidade de sua atividade pd-
blica) e pela dedicagao a uma causa.
Sao credenciais que impoem res-
peito, mas ainda nao qualificam intei-
ramente a ministry para os desafios que
a aguardam. Por isso mesmo, alimen-
tam a cautela dos que, por a acompa-
nharem mais a distincia, nao sendo,
por isso, beneficiarios da boa impres-
sao que ela causa aos que lhe estao
pr6ximos, podem, entretanto, avalid-
la talvez com maior rigor crftico, sem
os complicadores (ou perturbadores)
da empatia pessoal.
Provavelmente o acelerado cresci-
mento da political acreana deve-se ao


brusco salto que ela deu, de um aca-
nhado assento na Assembl6ia Legisla-
tiva, em Rio Branco, para uma ampla
poltrona do Congresso Nacional, em
Brasilia, e para gabinetes t6cnicos e
politicos interacionais, principalmen-
te nos Estados Unidos. Ela passou a
ser interlocutora freqiente de ONGs
se amplitude mundial e de agnncias
multilaterais, como o Banco Mundial
e a ONU, ou mesmo de outros gover-
nos, como a Usaid, a ag6ncia de coo-
peragdo international dos Estados
Unidos, de passado atribulado, que tem
tido participacgo destacada no Acre.
Embora alguns grupos nacionalis-
tas ou mesmo chauvinistas torqam o
nariz para esse element do curriculo
da ministry, ele represent um dado
positive. Significa que a ex-seringuei-
ra sabe, agora mais do que seu extinto
guru, Chico Mendes, qual 6 a exata
amplitude mundial da Amaz6nia. Mas
talvez nessa empreitada de abertura de
horizontes ela tenha deixado de incluir
na sua visao um component mais vivo
da pr6pria Amaz6nia. Para v6rios au-
dit6rios qualificados regionais, Mari-
na Silva 6 uma refer8ncia distant.
Mais ainda do que isso: em relaqo a
diversas faces do caleidosc6pio ama-
zbnico nao hd uma manifestaqao da
ministry que traduza um conhecimen-
to de causa a respeito. Para uma re-
giao tao ampla e complex, o saber de
Marina pode estar perigosamente es-
pecializado em Acre. Ou estar envie-
sado, como se diz, pelo tipo de inter-
locuqao international que tem tido.
Para infortdnio seu, o Acre vive
sendo confrontado com sua territori-
alidade. Limitado no seu estoque de
recursos naturals e condicionado pela
sua localizaqCo, o Estado nao tern
conseguido um lugar favorecido no
mercado national nem abriu um ni-
cho pr6prio para o lado do Pacifico.
Mas sua viabilidade esta em algum
ponto dessa bifurcagao: ou a conquis-
ta de competitividade na federacao
brasileira ou a abertura de um novo
canal international. Esquemas inter-
medidrios podem ser importantes,
mas nao sao decisivos.
Nao deve ter sido por outro moti-
vo que um dos iltimos atos de Fer-
nando Henrique Cardoso como pre-
sidente tenha sido uma longa estica-
da ao Acre para dividir com o gover-


nador petista (reeleito) Jorge Viana,
aliado de Marina, as honras de pavi-
mentar um pouco mais a estrada para
o Pacifico. Antes de chegar ao poder,
o PT local abominava esse corredor
de exportacgo e, junto com ele, as
ONGs ambientalistas. O desafio, ago-
ra, 6 tornar seu lado positive maior
do que sua banda negative.
0 Acre 6 pequeno e especifico de-
mais, e suas saidas precarias demais,
para ser um modelo aplicavel a toda a
Amaz6nia. O valor da nova ministry do
meio ambiente deve ser relativizado por
esse seu universe de experiencia. Al6m
do mais, ainda que a Amaz6nia seja
item essencial na agenda do seu minis-
t6rio, os temas que vao exigir a atengao
da Marina possuem uma transcend8n-
cia notavelmente maior do que a regiao,
que ocupa 60% do territ6rio national,
numa fronteira de biodiversidade natu-
ral que abriga pouco mais de 10% da
populaqao brasileira, hoje fortemente
concentrada em cidades que se conso-
lidam sobre a agressao ao ambiente em
toro delas. Um dos terrenos pioneiros
para a ministry seri justamente o urba-
no, para o qual sera pressionada a se
interessar com atenCao cada vez maior
e impaciencia crescente.
Na seara restritamente amazonica
(aplicando-se esse "restritamente" a
parametros amaz6nicos, sempre monu-
mentais), Marina logo perceberi que
nao estard entire as ameagas a sua ges-
tao aquela unanimidade burra celebri-
zada por Nl6son Rodrigues. Ela nao 6
unanimidade. Sua ambivaldncia acre-
ano-internacional oferecera flancos
para critics e mesmo ataques, que pro-
vavelmente comeqarao a ser desferi-
dos antes mesmo que possa pretender
apresentar qualquer resultado. Na co-
missao de frente deverao estar os que,
sabendo pouco sobre ela e sua regiao,
do pouco que sabem desconfiam.
Muitos falam sobre Amaz6nia se-
guindo exatamente esse perigoso m6-
todo de ensaio-e-erro: por desconfian-
Ca, suspeita, estere6tipo. Como Mari-
na Silva se enquadra em alguns itens
da tibua das leis desses amazon6logos
metropolitanos, vai ter que se explicar
desde logo. E desde logo tera que des-
fazer equivocos ou, quando pela 6tica
positive, demonstrar conhecimentos.
Sinal de que nao tera muito tempo para
salamaleques: precisard arregagar as
mangas e trabalhar de pronto.
Em se tratando de Amaz6nia, inde-
pendentemente do resultado a ser apu-
rado, 6 um bom comeqo. Se hd uma pa-
lavra que a regiao precisa ouvir 6 essa:
urg6ncia. A urgencia de fazer o certo.
De ver ser feito o torto, a Amaz6nia jd
estd cheia, cansada, maltratada. w


Jomal Pessoal JANEIRO DE 2002 M












Um garimpo de hist6ria

A partir de agora, sera impossivel escrever sobre a Cabanagem sem

considerar os documents ingleses, finalmente lancados


C abanagem documentss ingle-
ses), editado pela Secretaria de
Cultura e a Imprensa Oficial do
Estado (274 piginas) e langado no dl-
timo dia 30, em Bel6m, 6 o mais im-
portante livro sobre a Cabanagem des-
de que Domingos Ant6nio Rayol con-
cluiu o quinto volume de Os Motins
Politicos, 130 anos atrds. O traqo de
unido entire as duas obras, e o que as
valoriza na bibliografia sobre o acon-
tecimento, 6 a quantidade de documen-
tos primirios que nelas estd contido.
Contemporineo do movimento so-
cial que irrompeu em 1835 e se prolon-
gou at6 1840, provocando a morte de
pelo menos 20% dos 150 mil habitan-
tes da provincia do Grio-Pard e Rio
Negro (se ocorrido hoje, teria provoca-
do a morte de aproximadamente 2 mi-
lhMes de pessoas), o Bardo de Guajard
foi o maior de todos os divulgadores da
documentaqio national. Agora, gragas
ao historiador David Cleary, estamos
tendo acesso a uma valiosa porqo dos
pap6is oficiais produzidos na 6poca por
representantes do imp6rio britinico.
A partir de agora, ningu6m poderi
escrever sobre a Cabanagem sem le-
var em consideraqdo os documents do
Minist6rio das Relagqes Exteriores e
da Marinha da Inglaterra, recolhidos
no arquivo pdblico de Londres (o Pu-
blic Record Office, um "paraiso para
historiadores", segundo Cleary) e re-
produzidos no livro. Ha cinco anos
esse material esti A disposiqdo dos pes-
quisadores mais ansiosos e B espera de
aparecer na forma impressa, tantas
vezes anunciada quantas postergada,
sem justificaCqo plausivel.
Ao ver esses pap6is pela primeira
vez, apresentados pelo entio director do
Arquivo Pdblico do Pari, Marcio Mei-
ra, fiquei em estado de choque. Li so-
fregamente todos os documents, mas
com estarrecimento uma carta do em-
baixador ingles no Rio de Janeiro ao
ministry do exterior do seu pafs, lorde
Palmerston, relatando proposta se-
creta e confidencial do padre Diogo
Antonio Feij6 para que a Inglaterra re-
primisse com suas tropas os cabanos
rebelados (e que divulguei nacional-
mente, em artigo de pigina inteira, no
journal O Estado de S. Paulo).


O encontro secret entire o regente
Feij6 e o embaixador Fox estd sendo
divulgado pela primeira vez. Vai dar o
que falar e muito. Mostra at6 que pon-
to ia o desinteresse ou mesmo desprezo
do impdrio nascente por sua distant e
desconhecida provincia. Na recusa do
embaixador, endossada pelo ministry,
de seguir a sugestdo do representante
do governor brasileiro e invadir o Grio-
Pari, esti evidenciado o desinteresse da
Inglaterra por tomar posse daquela pos-
sessdo do imp6rio colonial portugus,
ainda nao consolidada na nova naqao e
ainda nio desligada da antiga matriz.
Desde que a Franqa ficasse ao largo, res-
trita A sua col6nia mais ao norte, era mais
rentavel para John Bull usar uma sub-
metr6pole national. Ontem como hoje,
com uma mudanqa de personagem: onde
se la John Bull, leia-se Uncle Sam.
Essa carta e os demais documents
nao permitem uma visao conclusive so-
bre a Cabanagem, nem sao suficientes
para exprimi-la convincentemente,
mesmo porque ainda hi arquivos a vas-
cular, no Brasil e nos Estados Unidos,
Portugal, Inglaterra, Franqa e, talvez,
Holanda. Mas esses pap6is p6em abai-
xo muitos mitos e distorqoes ideol6gi-
cas sobre o que, na litania petista do pre-
feito Edmilson Rodrigues, por exemplo,
seria a expressed mais pura da revolu-
gqo dos oprimidos contra os opresso-
res, dos que nao tem contra os que t6m
(na bela frase de Handelmann), dos na-
cionais contra os estrangeiros, da aldeia
cabana (ainda que de concrete) contra
a urbe neoliberal e a globalizaq~o.
Ao inv6s de provocar polemica e
discussao, a despeito dos virios arti-
gos que meu irmio, Elias Pinto, e eu
escrevemos, a preciosa documentaqCo
inglesa continuou abandonada nos po-
r6es do Arquivo Pdblico em Bel6m,
ignorada pela intelectualidade e guar-
dada com certa neglig&ncia por seus
responsiveis oficiais. Talvez porque
essa documentagqo primdria, ouro
puro depois de tanto cascalho inter-
pretativo, exija uma complete revisio
conceitual, um recomegar (se nao do
comeqo, ao menos de muito atrds) e
trabalho de verdadeiro historiador,
aquele que revela e nio apenas rein-
terpreta, re-trabalhando fontes secun-


darias, dizendo de outra forma o que
jd foi dito antes (nem sempre citando
a fonte original).
Agora esse silencio convenient
seri quebrado. Os documents chegam
finalmente A rua, ao dominio pdblico.
A press e as circunstincias, infeliz-
mente, provocaram danos i obra. A
apresentagao de Geraldo Coelho, di-
retor do arquivo, 6 dispensdvel. Pare-
ce ter sido escrita com desinteresse e
certo relaxamento. A rica introdugqo
de David Cleary, escrita no melhor es-
tilo do ensaismo ingles, com humor e
clareza, se ressente de uma revisio. Por
causa da falta de pleno dominio do
portugues de seu autor, o texto devia
ter sido ajustado para que incorreq6es
naturals no trato da lingua por um es-
trangeiro fossem expurgadas. Ainda
assim, Cleary ajuda seu leitor na leitu-
ra dos documents e na compreensdo
do seu significado, iluminando o pano
de fundo do acontecimento hist6rico.
A leitura do livro 6 dificultada pelo
tipo pequeno das letras, pela falta de
contrast no papel (de indesejada trans-
par6ncia), pela mancha de impressao
demasiadamente grande, que reduziu as
margens. Mas ainda assim a obra tem
tanto valor que logo deverd estar numa
segunda ediCio, corrigida e melhorada,
como ela merece e todos n6s merece-
mos. Mais do que todos, merece esse
complex e fascinante moment da
nossa hist6ria. Cabanagem (documen-
tos ingleses), liberto dos pores do Ar-
quivo Pdblico, provocard impact em
Bel6m, no Rio de Janeiro, em Londres
e em virias outras praqas, nacionais e
estrangeiras. Pelo simples fato de res-
tabelecer a vida a um acontecimento de
significado para a hist6ria da humani-
dade, tao vivo antes quanto agora.
Para a festa do dia 30 ficar com-
pleta, s6 faltou avisar o autor do livro.
Cleary nao s6 nao recebeu convite
como nem foi avisado do lanqamento,
ele que devia ter sido contemplado,
merecidamente, com uma medalha
pelo relevant serviqo prestado A me-
m6ria paraense. Servigo que deveria
contribuir para o Estado vencer a des-
mem6ria e a deselegancia das auto-
ridades e dos que em seu nome costu-
mam falar, falando abobrinhas. M


Q JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal












O ultimo Villas B6as

Os brasileiros s6 se apercebario de que Orlando Villas Boas foi um her6i de verdade
quando Hollywood fizer um filme 6pico sobre ele. Brasileiro ndo gosta dos seus her6is.


Oapartamento de Orlando Vi-
llas B6as, naquele final dos
anos 60, se debrucava sobre
uma praga Roosevelt ji em mutagao
no centro de Sao Paulo. O velho pr6-
dio continuava a ter um ar aristocriti-
co, estilo neoclissico, do inicio da ex-
plosao industrial na terra dos bandei-
rantes, devassadores de fronteiras e
preadores de mao-de-obra. Mas a pai-
sagem em torno comeqava a se deteri-
orar, despejada de seu passado naque-
le logradouro crescentemente sitiado
pelo concrete, sob o dominio do su-
permercado, temple do consumismo
pr6-shoppings na segunda geraqgo do
golpe military de 1964 (a era do "mila-
gre" do general M6dici), e por um
pombal tamb6m de concrete.
Nao fosse isso, Orlando estaria a
carter na outra face da sua personali-
dade de Indiana Jones. Era ali que ele
se recompunha ao mundo dos brancos,
ap6s meses ou at6 anos entire os
indios na selva. Nao destruindo o pri-
mitivismo, mas tentando ajustd-lo ao
universe dominant e em expansao
- pelas rotas rodovidrias que ji se
multiplicavam, na "corrida ao oeste".
Orlando ji tinha quase tr8s d6cadas
de sertanismo, uma versao melhorada,
A brasileira, do modelo do expedicio-
nirio colonialista europeu ou do bate-
dor americano (Daniel Boone, por
exemplo). Versao bastante melhorada
por um descendente de indios, o mare-
chal CAndido Mariano Rondon, que a
partir do inicio do s6culo XX tentou
criar uma camada estatal de algodao
entire os dois mundos em conflito, o do
native e o do pioneiro. Os irmaos Vilas
B6as viram o trem da hist6ria passar A
sua porta e nao hesitaram em embar-
car. Deixaram o planalto paulista e se
meteram no sertao. Voltavam sempre a
cidade, mas uma parte deles, talvez a
melhor, continuou a vagar pela selva
atris de indio, nao na cacada do preda-
dor, mas na do missiondrio leigo.
Nao conheci Leonardo, o primeiro
a morrer. Claudio era o mais esquivo,
introspective, filos6fico. Lendo "Qua-
rup", o romance de Ant6nio Callado,
que nos pegou o plexo naquela luta da
segunda metade dos anos 60 (nunca
concluidos), fiquei na divida se a des-


criqio de Chico Fontoura era a de Chi-
co Meireles ou de Claudio Vilas Boas,
ou uma fusao dos dois. Chico, pai de
Apoena, foi provavelmente o maior
dos sertanistas brasileiros porque s6.
Os Villas Boas eram dois ou tres. Clau-
dio queria ir numa direqao, mas Or-
lando, o dominador, impunha a rota.
Que colidiu cor a de Meireles (mais
afinado com Claudio, mas nio eram
irm5os) quando JAnio Quadros, presi-
dente da Repiblica, criou o Parque
Nacional do Xingu, soprado pelo ma-
cunaimico Darcy Ribeiro, o alter-ego
da hist6ria, a real e a ficcional.
Era ficil e maravilhoso ser amigo
de Orlando Villas Boas, desde que nao
se discordasse dele. Era dificil ficar
contra ele, tao deslumbrante era a sua
personalidade. Mas Orlando era vo-
luntarioso, al6m de cultivar seu ouvi-
do de mercador as critics, sobretudo
as que tentavam modificar a sua pra-
tica. Jornalistas interessados na ques-
tdo indigena continuaram ao lado dele
sempre. Outros se distanciaram. Es-
tou neste caso. Era alternative melhor
do que perorar contra seu voluntaris-


mo, as vezes manipulado, inclusive
contra os interesses dele e dos ami-
gos indios. Mas Orlando era um tipo.
E um tipo se respeita, mesmo quando
dele se discorda.
Depois de muitos anos voltei a ve-
lo no lancamento do livro sobre os in-
dios Panard (ex-Kreenakarore), em
Sao Paulo, promovido pelo ISA (Ins-
tituto Socioambiental), em 1998. Eu
estava curioso para ouvir o que Orlan-
do diria. A hist6ria desses indios ex-
pressava a perfeiqao os acertos e os
erros do indigenismo dos Villas B6as,
sua dedicacqo a causa e os efeitos as
vezes contraproducentes dessa dedi-
caqdo. Ou seja: a limitacao da acao
missionlria dos irmnos pela realidade
externa e pelo jogo de poder situado
fora das aldeias, freqiientemente a uma
grande distancia delas.
Mas ou Orlando nao teve conscien-
cia da contradicao, que estava implici-
ta naquela festa de lanqamento de livro
(um belo livro, aliis, devido a pertini-
cia de Beto Ricardo e Steven Schwart-
zman), ou, como era seu hAbito, fez de
conta que nao percebeu. Foi generoso,
quando fui chamado para a mesa, como
um dos autores do texto (os outros fo-
ram meu irmao, Raimundo Jos6 Pinto,
e Ricardo Arnt). Mesmo ji meio cego,
fez questao de se aproximar, me abra-
Car e me saudar, lembrando os tempos
passados. Generoso, como sempre. Foi
a dltima vez que o vi. Ainda bem que, a
despeito do peso dos anos e das priva-
9qes e doenqas sofridas pelos ambien-
tes hostis que enfrentou, ele estava 16-
cido e en6rgico.
Ficard para sempre essa image:
a de um home vital, daqueles aos
quais a natureza facultou o privil6gio
de errar sem comprometer sua biogra-
fia. E por isso mesmo, n6s, os meno-
res, tamb6m relevamos os erros, de
olho no que interessa: o privil6gio de
terms podido conviver, ainda que fu-
gazmente, cor esses her6is, her6is
autenticos, embora com os p6s de bar-
ro, a mat6ria prima que nos traz e nos
leva, de uma origem imponderAvel
para um destino mais misterioso ain-
da. E em certos casos, como o de Or-
lando Villas B6as, destino eterno na
mem6ria dos que ficam. W


Jomal Pessoal JANEIRO DE 2002 f








ft



0 "caso Basa"


TCU condena os responsaveis pelo "rombo" de US$ 30 milh6es no Banco da Amazonia.
Ainda 6 o primeiro dos 31 casos escandalosos, mas ja 6 um comego.


E m 1987 o Banco da Amaz6nia
concede empr6stimos fraudu-
lentos a Companhia Fabrica de
Papel Petr6polis. Quinze anos depois,
no mrs passado, o Tribunal de Contas
concluiu que o principal responsavel
pelas irregularidades 6 o entao director
de cr6dito geral e president interino
da instituicgo, o advogado paraense
Augusto Barreira Pereira. Junto com
ele, foram tamb6m condenados os ge-
rentes das ag8ncias que concederam
os cr6ditos, os "agenciadores" das
transaq6es, a empresa beneficiada e
o ex-assessor da diretoria de cr6dito:
Francisco Carmo Jos6 Iannuzzi, Jodo
Carlos Busse, Guilherme Feldhaus e
William Blanco de Abrunhosa Trin-
dade, o popular compositor Billy
Blanco, que tiveram sua participagqo
comprovada nos ilicitos. Todos se be-
neficiaram, recebendo cheques da em-
presa a titulo de comissio pela obten-
9go dos empr6stimos.
O dinheiro foi concedido pelo
Basa em operaq6es que omitiram as
restric6es existentes contra a empre-
sa, utilizando o cr6dito rotativo com
excess no valor, ndo observando as
condicionantes basicas e limitativas
para empr6stimos de capital de giro
e sem estudos ou informagaes sobre
o pedido de cr6dito do client, con-
trariando varias normas do banco.


Mas a operagqo com a fabrica Petr6-
polis 6 apenas um dentre virios ne-
g6cios ruinosos realizados pelo Basa
durante a gestao de Augusto Barreira
Pereira. No TCU ha 91 processes com
situaq6es andlogas, responsabilizan-
do, em cada caso, al6m do director
de cr6dito geral, tamb6m servidores
tidos como participants dos pro-
cessos de liberaqio, e ainda as empre-
sas beneficiArias.
No caso da Petr6polis, foram apu-
rados Cz$ 19.821.467,23 e Cz$
8.588.707 (cruzados da 6poca), valo-
res que deverdo ser atualizadas mone-
tariamente e acrescidos dos juros de
mora, calculados a partir de novembro
de 1987, at6 a data do efetivo recolhi-
mento, na forma da legislagCo vigen-
te. O TCU autorizou, desde logo, a
cobranqa judicial da divida, caso nio
atendida a notificaqao. E remeter c6-
pia dos autos ao Minist6rio Pdblico da
Unido, para ajuizamento das aoqes
civis e penais cabiveis.
A condenagdo dos implicados foi
dada em funqCo de operaq6es irregu-
lares, feitas atrav6s da ag6ncia Metro-
Rio de Janeiro do Basa, como:
concessao de diversas opera-
c6es de cr6dito geral, capital de giro e
desconto de titulos, sem a necessaria
garantia e em desacordo com as nor-
mas do banco;


Navegagao tragic
Um bom inqu6rito apontara os culpados pelo naufragio do barco Luiz XV,
que pode ter matado 60 pessoas (44 mortes ja confirmadas) a menos de 100
quil8metros de Bel6m. O dificil sera definir quem nao 6 culpado nessa sucessao
de omiss6es, acobertamentos e conivencias que tornam a navegaqC o amazonica
uma aventura de alto risco para seus usuarios. A ponta do novelo costuma ficar
invisivel ou aparentar nio ter qualquer ligagao com as trag6dias anunciadas.
Mas ela comeqa no abandon official a essa forma de transport, ou no trato
irresponsavel, clientelistico, ineficiente. A ausencia crescente do Estado tern
sido campo f6rtil para a lei que aca-
ba predominando: a do mais for-
te, que tamb6m atende pelo
nome mais sofisticado de da-
rwinismo social.
Ou seja: a lei da selva.


deferimento de operac6es de
capital de giro a taxas inferiores As
fixadas pelo comite de taxas do ban-
co, no period de dezembro de 1986
ajunho de 1987;
concessao habitual de anteci-
paq6es por conta de futuras opera-
c6es de cr6dito, sem nenhum respal-
do regulamentar e completamente
descobertas de qualquer esp6cie de
garantia;
concessao de cr6ditos, por meio
de operac6es irregulares, a empresas
que foram admitidas como clients da
filial ha menos de um ano da ocor-
rencia dos fatos.
A ado da quadrilha, que provocou
um rombo equivalent a 30 milh6es de
d6lares, foi denunciada por este journal
em sua segunda edicgo, na primeira
quinzena de outubro de 1987. Naque-
la 6poca, nenhum outro 6rgio da im-
prensa noticiou o caso, apesar da sua
gravidade (o desfalque era cem vezes
maior do que o aplicado na mesma
6poca pelo secretirio de finangas da
Pensilvania, nos Estados Unidos; de-
nunciado pela imprensa, o secretirio
se suicidou diante dos jornalistas, que
havia convocado para uma entrevista
coletiva em seu gabinete).
O silencio orquestrado da impren-
sa, quebrado exclusivamente pelo
Jornal Pessoal, se devia a importan-
cia dos personagens que participaram
da negociata, ligados a politicos e
mfdia. O silencio s6 foi interrompido
no ano seguinte, quando uma juiza
federal do Rio de Janeiro decretou a
prisdo dos executives do banco, os
primeiros a serem processados no
Brasil pela lei 7.492, de 1986, conhe-
cida como a lei do colarinho branco,
destinada a punir os crimes contra o
sistema financeiro national.
A condenaq~o do TCU represent
um pass consideravel na responsa-
bilizaqco dos fraudadores do dinhei-
ro public. Mas o caminho at6 o fi-
nal, com a restituigio dos recursos que
foram desviados, ainda 6 long. A de-
cisdo do TCU tem ainda um m6rito
lateral: servir de alerta exatamente
quando esta para ser renovada a dire-
9ao do Banco da Amaz6nia. Eg


I I JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal












0 perfeito Paulo


0 secretario de cultural acredita que o mundo gira em torno dele no Estado do Para.
Quem o critical deve ser ruim da cabega ou doente do ego.


Todos os que criticaram a demo-
liq~o do muro que circundava o
Forte do Castelo sao movidos
por "intolerancia, in6pcia e ressenti-
mento", garante o autor da demoligqo,
o secretario de cultural Paulo Chaves
Fernandes, em artigo publicado no 6l-
timo domingo por O Liberal (atribuf-
do no journal a Paulo Fernandes Cha-
ves). Sua excel8ncia nHo admite que
algu6m possa se opor ao seu ato por
motivaio mais s6ria. Como todos sa-
bem, hi oito anos vige no Pari opaulo-
centrismo: o mundo gira em tomo do
g8nio de PC Fernandes. E se nao gira, 6
por pura provocaqgo. Ou inveja.
Nao hi d6vida de que Paulo 6 in-
teligente, criativo, de bom gosto, tra-
balhador, realizador e merecedor do
nosso cr6dito de gratiddo (e admira-
gqo) por tudo o que tem feito pelo pa-
trim6nio hist6rico e arquitet6nico do
Estado. Mas ele nao esti acima do
bem e do mal. Mais laicamente falan-
do: nao esti acima da lei. Nao 6 a lei.
Nem o indexador do bom gosto ou do
melhor. Nem "o" genio.
Paulo fez um trabalho maravilho-
so no conjunto Feliz Lusitania. Mas
aquilo nao 6 a casa da mre Joana. S6
naquele sitio estao enterrados mais de
30 milhies de reais de recursos pi-
blicos. Utilizados no setor educacio-
nal, podiam ter resultado em 30 boas
escolas, amenizando a grave situaqao
em que o governor Almir Gabriel dei-
xa esse setor. A sociedade esti dis-
posta a referendar o oneroso investi-
mento na reconstituig9o do ttero ur-
bano de Bel6m, mas o autor do proje-
to responded por seus atos perante a
lei, perante os fiscalizadores das nor-
mas legais, perante seu chefe e, mo-
ralmente, diante dos cidadios.
O projeto que arrematou o conjun-
to 6 excelente, mas nao 6 perfeito. Ele
se ressente de falhas do autor. Paulo 6
um magnifico especificador de mate-
rial para construgao, um admirivel cri-
ador de espagos, uma mente estupen-
damente engenhosa. Mas quando pre-
cisa criar do nada 6 incapaz de pensar
no uso social da obra, no seu orqamen-
to e se livrar de um maneirismo con-
g8nito a quem recria com felicidade,


mas nao consegue raciocinar a partir
do zero porque grande parte do que
esti contido em seu c6rebro 6 infor-
mario de primeira viagem, orelha de
livro, suas primeiras piginas, imagens
do que viu pelo mundo, c6pias e cola-
gens, luz brilhante, mas ef6mera, in-
tensidade mete6rica. Basta pensar
numa obra realmente pessoal de Pau-
lo, o palacio do Tribunal de Contas do
Estado, uma criaqao cujos prop6sitos
extrapolaram seu espago, tornando-se
um anacoluto urban naquele lugar. Ou
no antigo restaurant Cristal, que ti-
nha tudo para dar certo... em Paris.
Na combinaqio de contemporaneo
com passado que recriou na Feliz Lu-
sitania depois da passage de Paulo
Chaves Fernandes (ou Fernandes Cha-
ves, apud a folha dos Maiorana), e de
autentico corn postigo, de restauragio
com reconstruqao, o muro levantado
na metade do s6culo XIX podia ter per-
manecido integralmente no local. No
que reduzia a perspective mais ampla
de visualizag~o da genial intervengdo
do nosso neo-Landi, dava ao visitante
um testemunho de 6poca.
Ao contemplar seu vicuo e imagi-
ni-lo, depois de tantas caminhadas ao
lado dele, veio-me a lembranga o Pa-
licio Monroe. Colocaram-no abaixo
por ser considerado um trambolho A
ditadura viiria dos carros na entrada
da Cinelindia, no Rio de Janeiro.
Quando desapareceu, comegou a nos-
talgia national do antigo Senado
Federal.A chaga ficou exposta. Feliz-
mente nao apareceu ningu6m queren-
do refazer o pr6dio, como chegou a ser
sugerido pela prefeitura em relag9o a
muralha do Forte do Castelo (cujas
seculares pedras foram espalhadas pelo
caminho de Bel6m a Icoaraci, Ananin-


deua e outras vilas e praqas, para que
do indigitado nao restassem as parties
para um arremedo de restauragqo, es-
quartejado e dispersado para ter um
firn definitive).
O muro era um autentico testemu-
nho da 6poca em que foi construido,
t~o valioso quanto o que so9obrou, ji
do lado do Ver-o-Peso, da demolicao
paulochaveana. Se, na parte derruba-
da, o muro era um inc8modo (e ener-
vante) sinal do progressive aquartela-
mento do forte, homiziado da cidade
para que a deturpago do seu uso se
consumasse, o que restou da muralha
deve-se a attitude, que o genial arqui-
teto condena, de defender o forte da
cidade. No caso, defender a maravi-
lhosa restauraqdo dos her6ticos fre-
qiientadores da feira do aqaf.
Tenho restri96es a alguns pontos da
opera maxima do nosso Speer tucano
no conjunto do Feliz Lusitinia, em par-
ticular contra a descaracterizagdo da
igreja de Santo Alexandre e certo
maneirismo em torno do Forte do Cas-
telo. Mas curvo-me a sua realizagCo.
O saldo 6 amplamente positive. Teria
sido uma obra perfeita se Paulo, dian-
te da resistEncia de stores ponderi-
veis da sociedade A demoli9go da mu-
ralha, tivesse aceitado reabrir (ou, de
fato, abrir) a discussao para nos con-
vencer do seu ponto de vista. Se s61i-
do, seu argument dobraria nossa rea-
9eo e nos faria defender a abertura de
uma exce9go legal nas normas e con-
venq6es sobre restauro para que ele
levasse seu projeto at6 o fim.
Mas se tivesse sido assim, Paulo nao
seria Chaves Fernandes (ou Fernandes
Chaves). Deixando a obra perfeita de
lado, ele preferiu optar, como sempre,
alias, por ele pr6prio, o perfeito. [


Jomal Pessoal JANEIRO DE 2002 11








Interlocu9ao
pobre
As relac6es entire o ex-
governador Almir Gabriel e
a principal empresa em
atuaqco no Estado, a
Companhia Vale do Rio
Doce, terminaram como
comeqaram: boas, mas
sujeitas a chuvas e
trovoadas. O humor do
governador mudava brusca e
drasticamente conforme sua
vontade era ou nao atendida,
ou entdo ele era
surpreendido pela
divulgaggo de um ato da
empresa que desconhecia. O
derradeiro incident, que
ameaqa se transferir como
compromisso a saldar pelo
successor, Simdo Jatene, foi
provocado pelo termo de
compromisso da CVRD de
instalar uma siderdrgica no
Maranhdo.
Independentemente da
variaqdo nas intenq6es da
empresa e do seu centro
decis6rio instalado no Rio de
Janeiro, os distanciamentos e
aproximarqes entire governor
e Vale expressam a falta de
uma political official para o
trato corn uma empresa que 6
maior do que o pr6prio
Estado. Nao um catecismo
de varejo, preenchido pelos
caprichos, vaidades ou
interesses politicos do
governante, mas um
planejamento empenhado em
impedir que a CVRD seja
um enclave no Pard, mas
competent o suficiente para
tirar da empresa as
vantagens que ela pode
representar, se colocada
diante de um interlocutor
s6rio, que sabe o que quer -
e o que quer se situa no
plano das viabilidades, nao
no terreno do desvario.
Em geral, o governor 6
caudatdrio da empresa. E
quando se antecipa a ela, em
geral 6 apenas para agir
como pedinte, pedindo
migalhas ou favors
politicos e pessoais. Dai essa
inconstincia de um
contencioso distorcido, que
se realize em gabinetes
fechados e tendo como
protagonistas personagens
limitados.


0 senador (que era)


do governador


No auge do regime military, o deputa-
do Francelino Pereira mediu o tamanho
da Arena, que presidia, e concluiu: era o
maior partido politico do Ocidente. Vi-
via-se entio o bipartidarismo compuls6-
rio no Brasil, de Arena e MDB.
Em novembro do ano passado o re-
manescente de terceira geraao da Are-
na, o PPB, ficou sem representacao no
Senado. Para arrematar a ingl6ria, quem
apagou as luzes do partido na chamada
camara alta foi o senador Luiz Otavio
Campos, do ParA. Ainda iniciando a se-
gunda metade do seu mandate de oito
anos, Luiz Otavio jA havia se desligado
do mesmo PPB e ficado algum tempo
sem partido antes de decidir ingressar
no PMDB, para surpresa e espanto atW
de correligiondrios e colegas.
Mesmo sendo o "senador do gover-
nador", gragas A influencia da maquina
estadual na eleiqSo de 1998, sem a qual
teria continuado a ser um poste em ter-


Indios Gavioes

A prop6sito do artigo sobre os indios Gavi6es ("O
Capitalismo vai A aldeia", JP 294), a antrop6loga lara
Ferraz esclarece que Cutia 6 mesmo da turma dos
Gavi6es da Montanha, "entdo legitimo negociador". Da
tribo Potiguar 6 Tiure, que trabalhava desde 1976 na
aldeia Mae Maria a convite do cacique Kr6h6krenhum e
estava present no dia da negociaqio com a Eletronorte,
hoje vivendo auto-exilado no Canadi.
A indenizacio, lembra ainda lara, foi paga em 1980,
e nao em 1976, depois de quatro anos de muita batalha
com a Eletronorte e ameaqas de ocupacao military da
reserve Mae Maria. "Assim mesmo, foi pago apenas
metade do valor estipulado, ao final, pela Funai".
Na verdade, houve tres indenizaoqes: duas da
Eletronorte, pelas linhas de transmissao de energia de
Tucurui, e uma da Companhia Vale do Rio Doce, pela
passage da ferrovia de Carajas. A negociaqao em
torno dessas obras adestrou os Gavi6es como a
vanguard indigena do pais. Ja esta na hora de algu6m
contar toda essa hist6ria. A pr6pria lara 6 uma das mais
credenciadas para essa tarefa.


mos politicos, Luiz Otavio nao consul-
tou Almir Gabriel antes de fazer seu
quarto v6o partidario (comecado pelo
PFL e bisado no PPB). Tamb6m nao se
importou com a circunstancia de o
PMDB ser presidido no Pard pelo depu-
tado federal rec6m-eleito Jader Barba-
lho. No seu segundo mandate como go-
vernador, Jader mandou prender, com a
truculencia ao seu alcance, o ex-secre-
tario de transportes de H6lio Gueiros, e
investiu contra a empresa de navegacao
do sogro do popular e simpatico "Pepe-
ca". Torou-se, a partir daf, inimigo ni-
mero um de Luiz Otavio. Mas nao per
omnia saecula saeculorum, 6 claro.
Uma trajet6ria deveras interessante
a do ex-quase-sempre "senador do go-
vernador". O que ela indica, final?
Nada. Exceto que Luiz Otivio Campos,
mais do que uma sigla partidaria, esti
sempre atrAs de um hAbeas corpus. Pre-
ventivo, de prefer8ncia.


Justiga final

O desembargador Wer-
ther Benedito Coelho tentou
no mes passado, pela tiltima
vez, chegar A diredo do Tri-
bunal de Justiqa do Estado
antes de ser alcangado pela
expuls6ria neste ano, quan-
do completarA 70 anos e tera
que se aposentar. Como das
vezes anteriores, porem, nao
foi bem sucedido. Na dispu-
ta pela presidencia do TJE,
conseguiu tr6s dos 29 votos
possiveis. Para corregedor
da capital, o cargo seguinte,
obteve dois votos. Para cor-
regedor do interior teve que
se contentar com um voto,
provavelmente o dele. Pare-
ce que receb8-lo no desem-
bargo foi o mAximo a que
seus pares se permitiram.


O Jornal Pessoal comeca 2003 da mesma maneira como terminou 2002: corn uma
edicao mais volumosa, de 16 piginas. Gragas a arranjos grificos, pode-se manter o
mesmo pre9o de capa com quatro paginas a mais do que as edises normais. Que,
como o leitor deve saber, deixaram de ser quinzenais no ano passado, tomando-se
menais. Entio, que 2003 pelo menos faa justiga ao nosso merecimento.


JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal


12












0 future das iguas: debate

0 Jornal Pessoal abre espago para a manifestagio de todos os interessados no
aproveitamento das aguas do rio Xingu. 0 debate precisa existir e gerar conseqii6ncias.


O pesquisador Jose Maria Car-
doso da Silva, que represent
a Conservation International
entire nos, aceitou a provocagdo e en-
trou no debate sobre a constru'do da
hidreletrica de Belo Monte, no rio To-
cantins. Seu artigo, reproduzido abai-
xo, represent a abertura, aos inte-
ressados, de um debate que o Jor-
nalPessoal, infelizmente, vem tra- i
vando praticamente sozinho. A
confirmac o, pelo president do
Supremo Tribunal Federal, da
suspensdo do EIA-Rima (estudo e re-
lat6rio de impact ambiental da obra),
pode dar tempo para a ampliaqdo e
aprofundamento do debate proposto
pelo JP, que e absolutamente neces-
sdrio. As observagces e propostas de
Josd Maria suscitam questoes bdsicas,
sem cuja resposta ndo se pode avangar
no servigo. Questoes como: pode-se
delegar uma obra desse porte, se con-
siderada a amplitude da sua repercus-
sdo, a iniciativa privada? Pode-se efe-
tuar intervengio de tal dimensdo num
rio como o Xingu apenas visando a ge-
raCdo de energia? Os investimentos de-
vein ser bitolados pela relagdo custo x
beneficio do kw instalado ou devem ter
os pardmetros do desenvolvimento so-
cial sustentdvel ecologicamente?
Espero que, depois de Jose Maria
Cardoso da Silva, outras vezes auto-
rizadas se manifestem.
O rio Sio Francisco era um dos
mais belos da Am6rica do Sul. Viajan-
tes que por ali passaram descreveram
deslumbrados as riquissimas faunas e
flora das florestas e lagos que existi-
am ao long do rio. Em nome do pro-
gresso, o Sao Francisco foi destruido.
Barragens construidas, florestas remo-
vidas e lagos aterrados. Esp6cies de
plants e animals foram extintas e as
atividades econ6micas das populaoqes
locais que dependiam dos recursos do
rio entraram em colapso. O tal progres-
so nunca chegou em grande parte da
regiao. A mis6ria, continue. A situa-
qao chegou a um ponto extreme que o
governor, talvez assombrado pelas car-
rancas, chegou a conclusdo que o Sio
Francisco precisava ser recuperado
urgentemente. Custo minimo estima-
do: 3 bilhoes de reais.


O rio Tocantins segue a trajet6ria
do Sao Francisco. A sua bacia abriga
as mais desoladoras paisagens que
podem vistas na Amaz6nia. Onde ha-
via diversidade, hoje ha monotonia.
Onde havia perspective, hoje ha desi-
lusao. Tudo chegou para as populaqSes
locais: novas doencas, novos vizinhos,
novas armas e novas formas de vio-
lencia. O que nao chegou foi o pro-
gresso genuine, aquele que faz o nos-
so caboclo amaz6nico mostrar todo o
seu potential criador e empreendedor,
e as tais de eclusas. Aposto que sera
mais facil encontrar o Mapinguari na
floresta do que ver as tais de eclusas
construidas. O preqo pela destruigqo
nao foi e nunca sera pago. Falta sabe-
doria e iniciativa para cobrar o que nos
e devido. Para evitar cobranqas, os
donos do poder, de vez em quando,
acenam com migangas coloridas tra-
vestidas de pianos de desenvolvimen-
to local, que sao, como esperado, dis-
putadas avidamente pela elite local.
Querem agora sacrificar o Xingu.
Nem o tergado rente ao rosto fez de-
sistirem da id6ia. Continuam achando
que tudo podem e, abusando de char-


latanismo travestido de ciencia, tentam
demonstrar que a construcqo de uma,
das virias hidroel6tricas planejadas,
nao causard nenhum dano a um dos
mais importantes rios do planet.
Insinuam que o impact sera lo-
calizado, como se isso fosse pos-
sfvel em um rio como o Xingu.
Com os seus prop6sitos bloqueados
pelajustica, os donos do poder geram
relat6rios suspeitos (pois nio incluem
os custos reais dos empreendimentos,
pois descartam dos cilculos os custos
sociais e ambientais) para choramin-
gar nos jornais e alardear os prejufzos
que o pais vai sofrer se a hidroel6trica
n~o for construida. A hist6ria nos en-
sinou uma ligao e nao queremos que
os erros do passado se repitam. Por
isso, precisamos avaliar adequadamen-
te os custos e os beneficios de entre-
garmos o Xingu.
O ideal 6 que o Xingu continue
integro e que dele floresqa uma eco-
nomia forte e sustentivel baseada
em atividades que respeitem o am-
biente. grama efetivo de desenvol-
vimento sustentavel de toda a bacia;
(e) construcqo de escolas de ensino
fundamental e m6dio em todas as
comunidades; (f) construgqo de hos-
pitais e postos de saide em todas as
cidades e vilas; (g) construcao de
um sistema eficiente de escoamen-
to da produqgo agricola, florestal e
industrial da regiio; (h) criagqo de
um fundo especifico para apoiar ini-
ciativas inovadoras de neg6cios sus-
tentaveis; (i) construir em cada co-
munidade indigena, pelo menos uma
escola e um posto de saide, al6m de
uma rede de vigilancia ao long das
fronteiras de suas terras.
Os donos do poder certamente ar-
gumentarao que estas ac6es sdo mui-
to caras. As hist6rias recentes do Sao
Francisco e do Tocantins desmentem
este argument, pois sabemos que fica
muito mais barato prevenir do que re-
mediar. Assim, o custo da realizagao
destas ac9es agora sera muitissimo
menor do que qualquer projeto futu-
ro para corrigir os danos ambientais
e sociais causados por uma interven-
9qo desordenada, tal como a querem
fazer agora, na bacia do Xingu. M


Jomal Pessoal JANEIRO DE 2002








4.; 0d T Cb. T". IV:


Arranha-ceu
Em 12 de dezembro de
1944 o Ipase (Instituto de Pre-
videncia e Assistencia dos Ser-
vidores do Estado) comprou o
Edificio Bern, da primeira ge-
racqo dos "arranha-c6us" que
surgiram em Bel6m, na aveni-
da President Vargas (a 15 de
Agosto de entao), construido
pelo casal William Bern. A es-
critura de transferencia foi as-
sinada no cart6rio do 200 off-
cio do Rio de Janeiro, o entao
Distrito Federal. Com cinco
andares, o "Bern" vive, hoje, as
pendrias do abandon. Esti
com o perfil de uma demoliqco

Jornal
Em janeiro de 1945 Rai-
mundo Melo e Otavio Blatter
Pinho colocaram em circulaqlo
o "CEPC", um journal que de-
veria ser o porta-voz dos alu-
nos do Coldgio Estadual Paes
de Carvalho. Para poder ser im-
presso (pela "Revista Veterind-
ria"), o journal teve que ser re-
gistrado no DEIP (Departa-
mento Estadual de Imprensa e
Propaganda), da ditadura do
Estado Novo, de Getdlio Var-
gas. Foi colocado A venda no
Salao 15 de Agosto.


Classicos
A Ag8ncia Victor, estabe-
lecida A travessa Campos Sa-
les 100, oferecia aos seus cli-
entes, em janeiro de 1945, "j6i-
as musicals" de compositores
clAssicos (Grofe, Chopin, Wag-
ner, Schubert, Beethoven e Ra-
chmaninoff) e de "muitos ou-
tros artists c6lebres", que ha-
viam gravado para a RCA-Vic-
tor Radio, e que se achavam A
venda "em ricos Albuns".
Alguma loja repetiria esse
andncio, hoje?


Carnaval
O Cassino Maraj6 realizou
o seu grito de caraval de 1945
no dia 20 de janeiro, "com uma
animada 'soiree' nos seus am-
plos salves". No convite, garan-
tia que "virios blocos constitu-
idos pela nossa 'jeunesse dor6e'


estardo presents A elegant reu-
niao", na qual "serdo exibidas
as dltimas novidades em mdsi-
ca caravalesca, mandadas vir
do Rio, especialmente para as
suas duas orquestras".
"No intuito de facilitar o in-
gresso para a noitada", a dire-
toria desse "agradivel centro
de divers6es" havia torado "o
alvitre de estabelecer uma
consumaqCo m6dica, ao alcan-
ce de todas as bolsas, para que
a concorrencia seja numero-
sa". Cor tudo isso, o Cassino
Maraj6 esperava inaugurar a
quadra carnavalesca "num
ambiente de desusada anima-
qdo e franco entusiasmo".


Pesca
Em 17 dejaneiro de 1945 o
delegado regional da Comissdo
Executive de Pesca do Minist&-
rio da Agricultura avisou "aos
pescadores e demais interessa-
dos que o fechamento da pesca
no Lago Arari, situado na Ilha
do Maraj6", comegaria daf a tries
dias. Era para cumprir?


Monstro
Em vesperal, As 15 horas,
e em saraus, as 19 e 21 ho-
ras, o Cine Aldeia do Radio


(no Jurunas) exibiu, em agos-
to de 1957, o film "O Mons-
tro da Lagoa Negra", no qual
a Universal Internacional
apresentava "a hist6ria de um
monstro escalofriante, um
monstro metade besta e me-
tade home, o dltimo da es-
p6cie das aguas lodosas do
Amazonas". Era mesmo de
"escalofriar".


Voto
Em setembro de 1957 a
UAP (Unido Acad8mica Para-
ense) reuniu tr8s advogados,
dois deles professors da Fa-.
culdade de Direito (Orlando
Bitar e Hamilton Ferreira de
Souza) e o terceiro tamb6m
politico (Cl6vis Ferro Costa)
para discutir a extensdo do
voto ao analfabeto. Todos se
manifestaram contra. Argu-
mentaram que o analfabeto
nao votaria conscientemente,
nao saberia nem mesmo como
votar e poderia servir ao jogo
das velhas oligarquias, destro-
nadas do poder pela revoluqgo
de 1930. O debate foi trans-
mitido pela Radio Marajoara,
dos Diirios Associados, por
cortesia de Frederico Barata
(nada a ver com Magalhdes
Barata). O inico convidado


Radio
Amerina Teixeira era a apresentadora de uma das atra-
Cqes da programaqao da Radio Clube do Pard (PRC-5),
em 1957: o "Programa das Mdes", que sorteava entire as
ouvintes uma mdquina de costa super-Vigor, gentileza
de Pickerel Representagoes, estabelecida em sua Loja
Cisne, na rua Santo Ant6nio. Outro program de suces-
so, a partir das oito da noite, era o "Recital Gelomatic",
transmitido diretamente da residencia do maestro Gui-
aes de Barros, "o lider dos ritmos de boite". Enquanto
ele tocava, a Patrulha Gelomatic percorria um dos bair-
ros da cidade distribuindo cart6es para "o grande sorteio
de maravilhosos refrigeradores Gelomatic".
Pr8mio era tamb6m o que nao faltava nos "Diverti-
mentos Antonino Rocha", apresentado logo a seguir,
As 20,45, no audit6rio da Radio Clube (no complexx"
da Aldeia do Radio) pelo pr6prio Antonino, com "mui-
ta mtsica, humorismo e alegria". Quem pagasse os 10
cruzeiros pelo ingresso tinha lugar assegurado porque
as poltronas eram numeradas.
Talvez o radio fosse mais afim com civilizagqo (ou
pelo menos civilidade) do que a televised.


que faltou foi o senador (do
PSD) Lameira Bittencourt. O
coordenador do encontro foi o
academico Ant6nio Carlos Si-
m6es, president da UAP.
Sim6es, alids, assumiu o
cargo porque o titular, o future
advogado Ferdinando Siro-
theau Corr8a, renunciou, em
meio a uma crise que provocou
o afastamento de cinco dire-
t6rios acad8micos da UAP.


Piano
Num andncio dos "mundi-
almente famosos" pianos
Behar, divulgado em outubro
de 1960, as Lojas Salevy asse-
guravam que essa marca era a
preferida por professorss de
piano e pela alta sociedade".
Dedilhavam-no pessoas como
Hildrio Ferreira Filho, Te6filo
Conduru, Ana Maria Nobre
Rio, Maria Leonora Menezes,
Maria Helena Coelho, Alberto
Bendahan, Pedro Moura Palha,
Orlando Fonseca, Oscar Cas-
tro, Jean Bitar, Gervdrio de
Brito Melo, Mdrio Swampaio,
Dilermando Menescal, Jorge
Malcher, Augusto Araijo e
Ulysses Vieira.
Dedos finos.


Show
Com suas poltronas para
1.400 pessoas, o Cine-Teatro
Opera, "o mais amplo e mais
confortAvel teatro do Norte do
pais", recebeu um "show mili-
onArio", apresentado por Ma-
noel Gaspar para a temporada
do Cirio de 1960. Em tres ses-
sees didrias, as principals atra-
q6es eram Vicente Celestino,
"o maior cantor do Brasil";
Consuelo Leandro, "a vedete n
1 do Brasil"; Jararaca e Rati-
nho, "os maiores humoristas
do Brasil, da Radio Nacional
do Rio"; Virginia de Noronha,
"um present de Portugal para
os portugueses residents no
Para"; e Jameldo, "o cantor que
dispensa objetivos" (adjetivos,
certamente).
Como convidados de hon-
ra do espetAculo de estr6ia
apareceram o "Trio Nabor"
(provavelmente Nag6) e S6nia
Mamede.

JANAEIRO DE 2003 Jomal Pessoal








MEM 6 MRI A- D OCo T4D IN 0.
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Graqas a mais uma faganha de edi-
qio, a rara foto do Largo da S6 nao
saiu no JP anterior. Sai entao nesta,
desgarrada do texto. Mas vale a pena
publica-la: mostra a praqa no final da
primeira d6cada do s6culo XIX, antes
de receber a estitua de frei Caetano
Brandio, mas ainda com a primeira
Santa Casa de Miseric6rdia de Bel6m
e o Hospital de Nossa Senhora da Con-
ceiqgo, que ji nao mais
existem. Resta o que
A passara a ser conheci-


0 Largo da Se
da como a Casa das 11 Janelas, inte-
grante do rec6m-concluido conjunto
Feliz Lusitania, que compreende ain-
da o Forte do Pres6pio, o Museu de
Arte Sacra (ex-semindrio), a (um tan-
to desnaturada) igreja de Santo Ale-
xandre e os casar6es contiguos. Bern
ou mal, o casario esti de volta a vida
ativa. Independentemente da apuraqao
se houve ou n5o crime contra o patri-
m6nio hist6rico corn a derrubada do
muro que circundava o Forte, cabe
agora a prefeitura recuperar a praga,
se possivel cor uma intervenqao
melhor do que o padrao do 1,99
da 6ltima obra da PMB no local.
Ja a foto de baixo, da mesma
6poca, pega a praqa
- pelo outro lado,


onde o process de descaracterizagio
tamb6m se fez sentir, embora de for-
ma menos violent. Ao inaugurar a
tiltima parte da Feliz Lusitania, Paulo
Chaves Fernandes, antecipando-se a
confirmaqdo da sua permanencia na
Secretaria de Cultura, anunciou que
seu pr6ximo objetivo sera restaurar a
cathedral de Bel6m, uma bela obra bar-
roca que tem sido tao maltratada. Es-
pera-se que os bons prop6sitos do se-
cretdrio, recordista em sobrevivencia,
nao inspirem seu maneirismo, mexen-
do onde nio deve. O "onde deve" 6
tao amplo que nao faltari trabalho a
fazer na igreja da S6 pelos pr6ximos -
e muitos meses. A praqa frei Caetano
Branddo podera voltar a ser legitima-
mente o Largo da S6 de sempre.


-V-
i ai !iS -,mTT~kl C '1"
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15










Jornada

Fundadora e dirigente do Cedenpa (Centro de Defesa do Ne-
gro no Pari), hi 20 anos Nilma Bentes atua nos movimentos
anti-racistas. Sempre pol8mica na defesa das suas id6ias, que as
vezes defended com ardor, credenciou-se ao respeito da socieda-
de pela dedicaqo ao movimento negro. A combatividade dela e
de outras pessoas e entidades levou a criaqco da Delegacia de
Combate a Crimes Discriminat6rios (DCCD) no Ambito da Se-
cretaria Executiva de Seguranga P6blica do Estado.
Ironicamente, por6m, Nilma pode vir a se torar a primeira
pessoa a ser presa em flagrante por crime de racism, embora
atualmente estejam tramitando, s6 no Conselho Municipal de
Negros de Bel6m, mais de 200 casos de crimes raciais pratica-
dos contra negros, sem que uma pessoa sequer tenha sido con-
denada nos terms da lei 7716, de 1954, mais conhecida como
Lei Afonso Arinos, que pune os crimes de racism.
A hist6ria kafkeana de Nilma aconteceu no dia 30 de se-
tembro do ano passado, quando ela foi detida ao tentar impedir
que um rapaz negro, que estava preso e algemado, fosse con-
duzido a delegacia no porta-malas de um carro da Policia Mili-
tar. "A PM estava fora da lei e nao esti acostumada a que al-
gu6m house questioner com veemencia (que tem sido do meu
feitio) uma attitude dela", diz Nilma, acusando seus algozes de


policial

se aproveitar "do baixo nivel de informaqdo do povo sobre seus
direitos" para agir arbitrariamente. Nilma se diz vitima desse
tipo de viol&ncia, quando sua intervenqco foi transformada em
flagrante, "para me enquadrar e me deixar 'mofando' na pri-
sao, por 'capricho' de uma delegada". "Para isso, eles inventa-
ram que eu fui presa na rua Hon6rio Jos6 dos Santos com a
Fernando Guilhon, quando o fato ocorreu na Dr. Moraes com a
Pariquis, e ainda colocaram na minha boca uma frase que ja-
mais pronunciei em toda a minha vida".
A frase, responsivel pelo enquadramento criminal da diri-
gente do Cedenpa, teria sido a de "preto safado", supostamente
dita por Nilma contra um policial, negro como ela. Colocada
na boca de algu6m que se celebrizou na cidade por comporta-
mento justamente oposto, a frase soa como inverossfmil, mas
serviu de pretexto para um inquirito em curso. Preocupada com
a evoluqco desse procedimento, "pois at6 agora o Promotor airi-'
da ndo se pronunciou e temo que isso se arraste por muito tem-
po e eu continue na tal liberdade provis6ria", Nilma Bentes
enviou ao jomal um relate complete dos acontecimentos de
tres meses atris. Espera com isso a manifestaqao do promoter
pdblico Alcenildo Ribeiro e, em seguida, do juiz Pedro Pi-
nheiro Sotero, responsavel pelo caso.


Tucurui
Fernando Henrique Car-
doso foi prestigiar, na sua il-
tima semana como presiden-
te, a instalagao da primeira
mdquina da duplicaqao da hi-
drel6trica de Tucuruf. As ou-
tras 10 turbines, que duplica-
rio em tese a capacidade de
geragqo da usina, serao inau-
guradas por Lula. FHC s6 nao
teve a alegria de ver a enor-
me maquina em funciona-
mento. 0 reservat6rio, o se-
gundo maior do pais, com
2.875 quil6metros quadrados,
estava com apenas 10% do
volume operacional de aguas.
Elas nao atingiam o ponto de
tomada no moment da visi-
ta presidential.
Essa situanio 6 quase nor-
mal nessa 6poca do ano, mas
nao chega a ser exatamente
normal. Pode servir de duplo
alerta, tanto para os monitora-
dores do reservat6rio quanto
para os planejadores do apro-
veitamento integral da bacia
Araguaia/Tocantins. NMo vai
faltar agua apenas no verao,
mas certamente durante o ano
inteiro para tender a deman-
da das 23 turbines que estarao
alinhadas em Tucuruf quando
a duplicacao for concluida,
dentro de mais dois anos.


Incentives
Toda a political estadual de incentives
ao desenvolvimento 6 decidida por apenas
sete pessoas, representando cinco
secretaries e a procuradoria-geral, que
fazem parte de uma comissao responsivel
pela conducao desses incentives. Tudo
em circuit absolutamente fechado,
sem a possibilidade de participagdo de
representaqGes da sociedade, conforme
a lei e o regulamento que definiram
essa polftica, aprovados entire setembro
e novembro do ano passado. O modelo
6 do mais arrematado autoritarismo, de
colocar no altar da abertura
democritica o esquema da extinta
Sudam, que pelo menos tinha assentos
para pessoas de fora da administragao
federal embora freqtientemente
desatentas, 6 bem verdade.
Ja esta na hora de abrir essa caixa
preta. Melhor dizendo: essa caixa de
Pandora de uso privativo.


Livro
Em 2002, dez editors venderam ao go-
verno federal 82 milhoes de livros, no va-
lor de 28,8 milhoes de d6lares, por conta
do Program Nacional da Biblioteca na Es-
cola. Em dinheiro national, foram mais de
110 milhoes de reais. Fora do segment do
livro didatico, a produqgo das editors bra-
sileiras no ano passado foi inferior a 30
milhoes de exemplares, o que da uma ideia
do porte do governor como client.
Essa montanha de livros devia ser parti-
lhada entire os alunos da rede p6blica de
ensino de todo o pafs. Mas pelo escandalo
registrado em Bel6m, com a venda de li-
vros diditicos novos como papel velho,
pode-se ter uma id6ia dos desvios que sur-
gem pelo caminho da difusdo do livro entire
criancas e jovens. Compreende-se, dessa
maneira, que a traducqo do program nio
seja a melhoria do sofrivel indice de leitura
nas escolas brasileiras, mas o enriquecimen-
to de alguns nefastos espertalhoes.


Universidade
Duas boas noticias no ano passado no territ6rio da Faculdade de Ci8ncias
Agririas do Pard: desta vez ndo houve erro no vestibular da Fcap e a
escola deixou de ser unidade isolada para se transformar em Universidade
Rural da Amazonia. Em 2003 a comunidade podia receber mais uma boa
noticia: o ajuste do curriculo e do corpo docente da nova Ufra para que
ela forme pessoal realmente preparado para enfrentar os desafios da
regido, corn conhecimento apropriado sobre a Amaz6nia.


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