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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
sobekcm - AA00005008_00243
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00243

Full Text






Jomal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO
ANO XVI N" 294 NOVEMBRO DE 2002 R$ 3,00

ELEIGAO


0 companheiro Lula


no paraiso


'98
Ie -


Depois de insistir na dispute
pela PresidOncia da Repziblica
tanto quanto Allende e
Mitterrand, Lula conseguiu
vencer. Sobepara uma
posiido quepoucos lideres de
esquerda ocuparam, como
Gonzdlez e Walesa. Sua
vitoria entrou para a hist6ria.
Mas agora comega outro
capitulo. A gloria podeficar
do lado defora.
Aclasse operdria quem diria!
chegou ao paraiso. NMo na
Italia, terra de Elio Petri, o cri-
ador do belo filme, que reno-
vou utopias, ou em qualquer
outro pafs do Primeiro Mundo. Usando
um desvio da rota principal, pela qual tra-
fega a hist6ria dominant do mundo, num
remote pais da Am6rica do Sul, grande
pela pr6pria natureza, apequenado por
seus dirigentes, um operdrio conquistou
o maximo de poder. Luiz Inicio Lula da
Silva, aos 57 anos, realizou uma faqanha
capaz de lhe assegurar, desde j, indepen-
dentemente do que venha a fazer, um lu-
gar especial nio s6 na hist6ria brasileira,
mas na hist6ria universal.
Seu ingresso no panteao das estrelas
de primeira grandeza exige, por6m, que
ele passe pelo teste de consistencia das
grandes mudangas, feitas para valer. E
inevitivel compard-lo a Salvador Allen-
de. Durante tres d6cadas, Allende pere-
grinou, como m6dico e como politico,
pelos extensos caminhos do territ6rio e


da political chilenas. Conquistou gran-
des vit6rias, sofreu derrotas monumen-
tais. Mas nao desistiu. Acabou tirando
a presidencia das maos supostamente
limpas da democracia cristd para enca-
rar um desafio original para a humani-
dade: a conciliaqao do socialismo com
a democracia.
Para implantar o socialismo num pais
subdesenvolvido e dependent, Allende
precisaria ter forqa. Mas como ser forte se
ele nao dispunha de maioria parlamentar,
sendo o parlamento um dos p6los de equi-
lfbrio e de fianga da democracia? Os com-


panheiros de viagem insistiam para que o
"companheiro president" (a expressao
voltari a ser usada, agora no Brasil) incor-
porasse a visdo leninista da tomada vio-
lenta do poder e da implantaqgo de um sis-
tema politico baseado no partido 6nico.
Seria mais uma "ditadura do proletariado",
fazendo a transiq~o para o paraiso de uma
sociedade sem classes. Observador da his-
t6ria, Allende queriajustamente evitar esse
atalho. No final da reta, invariavelmente
encurtada, surgia nao o comunismo igua-
litArio sonhado pelos utopistas, mas uma
tirania. Ao inv6s de Icaria, o Gulag.


S MAA 'REq3


f-A-.,

"C;


B









2 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002


Para nao se expor A seduhao do golpe
de esquerda, o amavel e decidido Allende
passou a ignorar o que Ihe diziam os seus
companheiros e aliados, personagens de
um amplo espectro, que ia do cristdo Ra-
domiro Tomic a marxista Martha Hannae-
cker. Mas tamb6m deixou de ver os claros
e decididos movimentos golpistas da plu-
tocracia chilena e dos chefes militares,
mantendo o future tirano, general Augus-
to Pinoche:, na chefia do seu metafisico
esquema de seguranga. A mais generosa e
rica experiencia da Amdrica Latina at6
entao (e do mundo mesmo) terminou tra-
gicamente. Allende pagou por seus erros,
praticamente todos veniais, cor a bravura
final, indtil, mas digna. Morreu resistindo
ao golpe no Palacio La Moneda. Foi mais
long do que seu antecessor de duas d6ca-
das nesse gesto extreme, o brasileiro Ge-
tilio Vargas, que peferiu se matar a enfren-
tar o golpismo military.
Allende era um home da elite chile-
na, nao das camadas mais pobres. Era um
m6dico, nao um operdrio. Praticando seu
oficio e suas id61as desde as remotas para-
gens do seu belo pais at6 a capital, de vi6s
europeu, construiu uma carreira e um pro-
grama comprometidos cor um prop6sito
claro: implantar o socialismo no Chile. Sua
ferramenta era macia; retirada de almoxa-
rifados europeus de id6ias, especialmente
do patrim6nio italiano de Ant6nio Grams-
ci. Ao inv6s de ditadura do proletariado,
hegemonia political, em sentido amplo. Mas
nunca escondeu ou maquiou seus objeti-
vos. Era o ide6logo de uma proposta que,
mal comparando, podia ser chamada de
Terceira Via, desnaturada pelo que tem fei-
to o britfnico Tony Blair, tamb6m de um
partido que se proclama trabalhista, no
exercfcio do poder numa Inglaterra atrela-
da abjetamente aos Estados Unidos.
Lula nao 6, portanto, um novo Allen-
de, embora haja pontos de contato entire os
dois lideres latino-americanos. Lula 6 um
verdadeiro home do povo, said de suas
entranhas antes de se solidarizar com as
reivindicaq6es e esperancas do sempre mal
assistido povo brasileiro, buscando uma
ideologia compativel com esses objetivos.
Mas Lula nio fez a campanha deste ano,
que Ihe permitiu finalmente vencer a dis-
puta pela presidencia da Repdblica, pro-
metendo o socialismo aos brasileiros.
Certamente prometeu coisas que pra-
ticamente exigem o socialismo para se
concretizarem. Mas se sua ret6rica tives-
se incluido o socialismo, ele nao teria sido


eleito. Ou pelo menos nao teria tido o
apoio dos que Ihe permitiram eleger-se,
nao por Ihe terem dado diretamente os
votos, mas por Ihe haverem proporciona-
do a grande estrutura de acesso aos vo-
tos, sobretudo aos votos mais distantes e
mais dificeis de conquistar neste gigan-
tesco (e pantagru6lico) pais.
Lula 6, portanto, o que 6. Mas 6 tamb6m
o que nao 6, o que prop6 e o que nao pro-
poe, o que diz e o que nio diz, o que mostra
e o que esconde, seus compromissos pesso-
ais e suas aliancas eleitorais, suas id6ias e
suas conveniencias. Lula realizou o que era
considerado impossivel. Agora que conquis-
tou o poder, o possivel de ontem sera o te-
merario de amanh. O que foi ficil de acre-
ditar na campanha podera ser substituido
pelo ceticismo, a descrenga, a frustraqo e a
revolta. Numa velocidade dificil de anteci-
par hoje. Mas que pode ser acelerada.
Lula tamb6m pode ser comparado ao
president socialist da Franqa, Francois
Mitterrand, que persistiu na derrota at6 ser
eleito, quando parecia estar condenado a
ser um eterno figurante. Mitterrand come-
qou cor quatro comunistas no minist6rio,
embora em cargos secundarios, e um au-
dacioso program de transformaq6es. Na
passage do primeiro mandate para a tem-
porada final de sete anos no poder, ele es-
tava abaixo do perfil dos sociais-democra-
tas. Mitterrand estava mais pr6ximo do
povo do que Allende, mas terminou muito
mais distant. De tudo, alias.
Alguns estao buscando luzes mais for-
tes no paralelo com outro lider socialist
europeu, o espanhol Felipe Gonzalez. Mas
certamente ha mais o que comparar entire
Lula e Lech Walesa, ambos operirios, li-
deres da categoria, animadores de sindica-
to e formadores de partido. O desfecho de
Walesa pode ser mais instrutivo para Lula
do que a trajet6ria ascendente do lider po-
lones. As li96es, bem aprendidas, podem
poupi-lo de surpresas desagradiveis.
Independentemente de todas essas cir-
cunstfncias, Lula ja 6 um personagem da
hist6ria do mundo. E impossivel nao ter
simpatia por ele e desejar que seja bem-
sucedido como o primeiro home do povo
a alcanqar a Presid8ncia da Repdblica. Nao
significa, por6m, que va conseguir reali-
zar o que anunciou na campanha eleitoral
apenas mantendo em alta a sintonia emo-
cional com a maioria dos brasileiros. E cru-
el a heranca que Fernando Henrique Car-
doso Ihe transmitira no dia 1 de janeiro.
Se Lula mant6m no mais intimo a esperan-


qa de poder manter a conduqao do gover-
no sem mudanqas, para acomodar os pro-
blemas e tomar f6lego, a simpatia popular
se esfumara como perfume barato.
Provavelmente nao 6 assim que ele pre-
tende agir. Sua primeira decision como pre-
sidente eleito, de combater a fome, seguiu
o rumo certo. Espera-se, por6m, que ele
nao se oriented por um impulse simplesmen-
te voluntarista, messianico. Combater a
fome significa estimular a producqo de ali-
mentos, montar uma rede de restaurants
pdblicos, estabelecer esquemas de comer-
cializago favoraveis as duas pontas da li-
nha e, o mais important, para que pro-
dutor e consumidor sejam beneficiados,
criar um sistema de coordenaqo, fiscali-
zagdo e intervengqo para impedir os vaza-
mentos nefastos da corrupgdo. Rapidez,
racionalidade e eficiEncia vao ser exigidas
da engrenagem governmental. Sera um
teste de fogo para o governor petista.
Os grandes te6ricos do partido certa-
mente conhecem o New Deal adotado pelo
president americano Franklin Delano
Roosevelt para tirar os Estados Unidos do
buraco da crise de 1929. Os programs
sociais da administraqao Lula, sem os quais
sera impossivel romper o desequilibrio es-
trutural da economic brasileira, baseada em
metas financeiras e na ortodoxia econ6mi-
ca, podiam se inspirar nas aq6es da dupla
Roosevelt-Hopkins. HA uma semelhanga
entire as duas 6pocas. Por que as solug6es
nao podem se comunicar?
Quando ocupar o trono republican,
Lula passara do estado de encantamento,
no qual a estrondosa vit6ria o projetou,
para o choque da realidade. Tomara, para
o bem de todos e a felicidade geral da
naqao, que os problems nao o imobili-
zem e o poder nao o inebrie, como fez
cor o seu antecessor.
Ha um epis6dio que sugere inquietagao.
Quando discursou na avenida Paulista, em
Sao Paulo, comemorando a vit6ria, Lula
procurou ser humilde, mas deixou dentro
de mim um residuo de desconfianga. Dis-
se que "se errar", ira ao povo admitir o erro.
Eu ficaria mais satisfeito que ele tivesse
declarado: "quando eu errar...". O "se" su-
gere ambigiiidade. O "quando" 6 afirmati-
vo. Afinal, Lula errarA. Ou imagine que nao
errara? Esperemos que erre no varejo e
acerte no atacado. O Brasil p6s-FHC nao
lhe dara muito tempo para corrigir o erro,
ou para errar mais do que Fernando Henri-
que Cardoso. Problems sem car8ncia, 6 o
que o antecessor Ihe passara.








NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 3

PARA



Maria morreu na beira


Depois de ter estado tao long do eixo
da dispute para o governor do Para, a de-
putada estadual Maria do Carmo Martins
Lima, de 39 anos, tinha motives para se
considerar satisfeita com o resultado da
votagdo do 20 turo da eleiqCo deste ano.
Desacreditada quando a campanha elei-
toral comecou, conseguiu passar na fren-
te de dois candidates considerados mais
fortes na oposiqao (o senador Ademir An-
drade, do PSB, e o vice-govemador Hil-
degardo Nunes, do PTB) e ir para o 2
tumo. No reinfcio da campanha, manteve
nas pesquisas empate t6cnico ou supre-
macia contra o delfim do governador Al-
mir Gabriel, seu ex-secretario Simao Ja-
tene. Mas quando a praia estava ao alcan-
ce da sua canoa, naufragou na beira.
Talvez nem se deva dar tanto desta-
que a derrota da candidate do PT. O que
mais impression 6 o fato de ela ter con-
seguido chegar tao long. Esquecida pe-
los adversirios, que nao acreditavam nas
suas possibilidades, Maria do Carmo atra-
vessou ilesa a campanha do 1 turno. Mas
quando o confront pas-
sou a ser bipolar, suas ca-
rancias e insuficiencias emer-
giram. No debate contra Jate-
ne,*seu desempenho moldou-a
num perfil que o eleitor esti cada
vez mais propenso a rejeitar: de
despreparada.
Se estivesse mais bem pre-
parada, nao teria cometido
tantos erros, os mais crassos
dos quais, por seu apelo po-
pular, foram o desconheci-
mento do valor exato da ta-
rifa de 6nibus em Bel6m (es-
quecimento de fundo trau-
mitico, talvez, por causa do
bisonho papel da adminis-
traqco municipal do PT nes-
se setor vital para a popula-
gqo urbana) e do efetivo da
Polfcia Militar do Estado,
algo desmoralizante (sobre-
tudo pelo tamanho do erro)
para quem pretendia dar realce
A seguranqa pdblica.
Maria do Carmo errou tamb6m
por calcar muito cedo sapatos muito
altos. A insistencia irritante em se as-
sociar a Lula e deixar-se levar emocio-


nalmente pela onda vermelha, pequena
para abrigar tantos surfistas (como de re-
gra, o mais aqodado foi o prefeito Edmil-
son Rodrigues), sugeria ao eleitor perda
de identidade. Lula fez muito por ela, mas
nao podia fazer tudo e nem a maior parte.
Insistindo no maniquefsmo primario, a
campanha do "jd ganhou" acabou produ-
zindo efeito contrdrio: muitos eleitores
preferiram arriscar na combinagdo hete-
rog8nea, de Lula e Jatene, para ter um
governador dotado de fisionomia pr6pria.
Internamente, o PT paraense voltou a
cometer um erro que o PT national exor-
cizou: o de nao cumprir acordos. Apesar
da declaraqgo de iltima hora em favor
da candidatura da deputada federal Elci-
one Barbalho ao Senado, nas ruas o ges-
to se tornou ret6rico e in6cuo. 0 PT pe-
diu para o eleitor votar em Elcione, mas
nao assumiu sua candidatura. Foi um
apoio para ingles ver.


O PMDB percebeu a farsa. Apanhado
no contrap6, que Ihe rendeu dissabores de
ocasido e ainda poderi acarretar dores de
cabega no future, o ex-senador Jader Bar-
balho se desligou completamente dos pe-
tistas no 2 turno (embora mantendo dii-
logo com a direcqo national do PT, inclu-
sive para assegurar a eleiqao de Jos6 Dir-
ceu h presidEncia da Camara Federal). O
lavar de maos de Jader foi o iltimo sinal
que faltava para os peemedebistas passa-
rem de vez para o lado do PSDB. A mais
valiosa incorporagao a nau tucana foi a
do deputado federal Wladimir Costa, que
reforgou a coleta de votos para Simao Ja-
tene em Bel6m, reduzindo ao minimo a
desvantagem do 1 turno e mostrando que
Edmilson vai ter dificuldades redobradas
para fazer o successor (inclusive porque a
frente intera petista voltari ao estado
anterior de belicosidade).
Outra significativa alteraqao na distri-
buigqo de poder resultou da volta do gru-
po Liberal ao ninho situacionista. A cor-
rec~o de rumo comeqou quando o gover-
no quitou a divida de quase um milhdo
de reais da Funtelpa, pagando de uma
vez os tres meses pendentes do "con-
v8nio" entire a fundaqo de telecomu-
nicaq6es do Estado e a TV Liberal
(ver, a prop6sito, o JP 292). O di-
nheiro entrou nos cofres do grupo
Liberal exatamente em mais uma
circunstancia adversa de caixa
para o pagamento dos salarios
dos funciondrios da empresa.
O entendimento sonante
chegou at6 a ji traditional
divulgaqgo da pesquisa fi-
S nal do Ibope, no dia da vo-
taqAo. S6 que, ao contra-
rio de dois anos atris,
quando a publicagqo favore-
ceu o PT, influindo para a
apertada reeleigio do prefei-
to de Bel6m, desta vez a em-
balagem foi preparada para ser-
vir a Simao Jatene, nAo se saben-
do se da mesma maneira como em
2000 (com a mudanca dos benefici-
os, 6 claro). A reedigao do mesmo
m6todo bem que podia levar um parla-
mentar mais s6rio e audacioso a proper
que as pesquisas eleitorais s6 possam ser
divulgadas at6 o iltimo dia da propagan-








4 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002


PROGRAM


da eleitoral gratuita (que, alias, 6 onero-
sa aos cofres pdblicos). Afinal, pesqui-
sa nao pode ser usada como gazua.
A combinacqo de tantos erros ou cir-
cunstincias no final da reta tirou de Ma-
ria do Carmo uma vit6ria que muitos
dos seus correligionarios (sobretudo os
de dltima hora) ji davam como certa.
De certa forma, por6m, o imprevisto fez
justiga a ur.a situagco que tamb6m re-
sultara do acaso. Tanto o PT como sua
candidate nao fizeram jus A vit6ria.
Mas, e o vitorioso? Simao Jatene ga-
nhou com o rosto de Almir Gabriel,
com sua miquina. A identidade dos
dois se fundiu no curso da conviven-
cia, sendo dificil identificar com clare-
za onde comega um e terminal o outro,
ou quem imita a quem, quem influen-
cia a quem, onde 6 o ponto de origem
desse cons6rcio.
A fusao foi tAo perfeita que, inter-
rompendo longos anos de tradig~o no
uso eleitoral da mdquina official, desta
vez o governor deixou suas impresses
digitais no ilicito eleitoral. Sendo Jate-
ne e Almir uma coisa s6, sem separa-
~io ficaram a engrenagem eleitoral e o
aparato governmental. Na confusao,
muitas provas foram sendo deixadas
pelo caminho do ex6rcito tucano.
Se a representagCo feita pelo PDT
nao conseguir fazer o Tribunal Superi-
or Eleitoral apreciar o m6rito da ques-
tao, uma dentincia do Ministdrio Pibli-
co Federal, se tal for o resultado do in-
qu6rito em curso, reabrirA a questdo,
turvando o brilho da faqanha que o
PSDB do Pard conseguiu e o national,
nao: materializar a profecia do ex-mi-
nistro S6rgio Mota, de que a chegada
dos tucanos ao poder era para durar
pelo menos 20 anos.
Se vencer esse obsticulo, o que fard
o economist Simdo Jatene, 53 anos,
dono do primeiro mandate eletivo de
sua carreira, e justamente o mais im-
portante do Estado? Por enquanto, bas-
ta-lhe ouvir o que lhe diz o atual go-
vernador, discurso que, por sinal, era o
que lhe fazia seu ex-secretirio de pla-
nejamento e da produq~o. E assim,
num vai-e-vem circular, um falou ao
outro, esti falando e falard, nesse cir-
cuito fechado em que se transformou
a corte dita social-democrata na capi-
tal dos sert6es paraense. La fora, o
povo continuard recebendo circo e ta-
teando A procura de pdo.


A utopia: entire


FHC e Lula


PT prometeu criar, quando assu-
mir a Presid8ncia da Repdblica,
um Conselho Nacional de Politi-
cas Regionais para supervisionar uma
Politica Nacional de Desenvolvimento
Regional. A visdo regional do desenvol-
vimento existe no Brasil, na sua feigqo
contemporanea, hi meio s6culo. Devia ter
comecado em 1946, quando os constitu-
intes, reconstruindo a ordem legal no pafs
depois da queda da ditadura do Estado
Novo, de Getdlio Vargas, determinaram
que 3% da receita tributdria liquid da
Unido fossem destinados A "valorizaqdo
econ6mica" da Amaz6nia.
Para que a diretriz nao ficasse A merc8
da regulamentaqio do dispositivo consti-
tucional, tarefa sempre complicada no
a~mbito do parlamento, foi elaborado um
"plano de emerg6ncia". Somente sete anos
depois, por6m, o primeiro piano de de-
senvolvimento regional comeqou a ser
colocado em pritica, cor a criaqao da
SPVEA (Superintend6ncia do Piano de
Valorizaqio Econ6mica da Amazonia).
Desde entio plans e instituiq6es se
sucederam, mas o vasto Brasil seguiu seu
caminho de forma desigual. A expansion
da atividade produtiva incorporou novas
fronteiras territoriais, mas esse alargamen-
to fisico nao se traduziu em desenvolvi-
mento. Notiveis p6los de producio (bati-
zados de "grandes projetos") brotaram no
meio da floresta, em lugares ermos e dis-
tantes, e se conectaram a mercados mun-
diais. Mas a Amaz6nia nao se aproximou
- nem socialmente e nem economicamen-
te dos centros concentradores de rique-
za e de modernidade no Brasil.
O incremento dos elements quantita-
tivos se distanciou dos components qua-
litativos desse crescimento. O resultado 6
que se agravaram os desniveis inter-regio-
nais. A renda per capital amaz6nica perma-
neceu sendo a metade da m6dia national.
A do Nordeste, um degrau abaixo. Duran-
te esse meio s6culo, apenas na metade
meridional do Centro-Oeste houve algum
grau de sincronia entire crescimento fisico
e desenvolvimento. Talvez porque essa
parte esteja mais pr6xima do p6lo nacio-
nal hegem6nico do que as distantes fren-


tes pioneiras, muito mais voltadas para o
al6m-mar do que para o centro do pais.
Pianos regionais hi em abundancia nas
prateleiras da administraqao federal. O do
PT, mesmo que pudesse ser considerado
o melhor at6 agora elaborado, nao 6 o pri-
meiro. E a primeira vez, contudo, que se
propoe um Conselho Nacional de Politi-
cas Regionais. O maximo de sintonia, ao
menos formal, entire a administraqgo cen-
tral do Brasil e suas cinco regi6es (divi-
sdo cuja metodologia 6 freqientemente
contestada), foi durante o hieritico gover-
no do general Emesto Geisel, que funcio-
nou com um Conselho de Desenvolvimen-
to Econ6mico e um Conselho de Desen-
volvimento Social. O primeiro empenha-
do em criar o bolo da riqueza, como meta
prioritdria. O segundo, tratando de encon-
trar uma forma de dividir o bolo, missao
acess6ria (que, alids, se frustrou).
A ofensiva regionalista do governor
Lula consider as cinco regi6es, mas vai
dar enfase ao Nordeste e A Amaz6nia. Ha
gerag6es o Nordeste 6 encarado como re-
giao-problema, vitima de enfermidades
que hi s6culos v8m atrofiando seu orga-
nismo. A Amaz6nia era a promessa de
future, o Eden das utopias, mas sua car-
ga de problems ji suscita ddvidas so-
bre a viabilidade dessas projeq6es. As
duas regi6es tem se distanciado do con-
junto national. Lula promete que vai
aproximi-las do todo, nao de uma forma
messianica, como pareceria pr6prio ao
modo petista de agir, mas confo
rme a melhor linguagem dos tecnocra-
tas, sacerdotes do pragmatismo: integran-
do-as de vez ao mercado, seja ele local,
national ou international.
Se o desenvolvimento do Nordeste 6 tdo
important para o PT quanto o desenvol-
vimento da Amaz6nia, apenas a Amaz6-
nia mereceu um dos sete cadernos temAti-
cos que apresentaram o program de go-
verno de Luiz Inicio Lula da Silva. Foi o
inico cademo regional numa colegLo de
estudos setoriais. Talvez esta singeleza sir-
va para destacar a atengqo do future go-
verno federal a um dos assuntos brasilei-
ros que mais interesse suscita no mundo
atualmente. 0 pais do futebol, das mula-








NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 5


tas, do camaval, de Carmem Miranda e de
Pel6 6 conhecido agora, nos quatro cantos
do planet, como o pafs da floresta amazO-
nica, da enorme bacia amaz6nica, o reino
das aguas e da diversidade de vida.
Justamente por isso, ao final de suas
33 piginas, o caderno temitico O lugar
da Amazonia no desenvolvimento do Bra-
sil constata: "A sociedade da Amazonia
6, hoje, uma das mais organizadas e mo-
bilizadas deste pafs. Redes de organiza-
95es nao governamentais, de associaq5es
comunitarias, de entidades independents
de pesquisa estao estruturadas em toda a
regiao e prontas para realizar parcerias na
gestao dos programs governamentais.
Esse modelo se fortaleceu na resistencia
ao modelo de integraqdo predat6ria e na
ausfncia de polfticas
pdblicas apropriadas. A
sociedade amaz6nica
sabe o que quer para o
seu future. Nosso gover-
no vai trabalhar para que
essa mobilizaqIo hoje
existente, governa-
mental e nao gover-
namental, impulsione
o desenvolvimento
sustentivel da regiao,
como uma contribuicgo
que define o lugar da
Amaz6nia no desenvolvimento do Brasil".
De fato, o document incorpora pon-
tos de vista, interpretaqces e propostas que
vinham sendo feitas A margem ou na
margem oposta das aqces correntes do
governor federal e de seus parceiros na
Amaz6nia. O que era fantasia ou deva-
neio da oposidio pode se transformar em
political piblica. O governor Lula se pro-
poe a combater, por exemplo, "a falsa
id6ia de que impedir a derrubada de no-
vas ireas de floresta engessa a economic
da AmazOnia". Pelo contrdrio, "submeter
a inestimavel riqueza das florestas ama-
z6nicas [isso mesmo: hd vdrias florestas
amaz6nicas e nao uma s6; hd, na verda-
de, vdrias Amazonias escondidas por de-
baixo da copa de numa AmazOniafalsa-
mente homogenea] a duas inicas ativida-
des madeira e pecuiria ou madeira e soja
- 6 que engessa a economic. A base pro-
dutiva da regiao pode ser ampliada com
seu vasto estoque de mat6rias-primas, pro-
porcionando atividades empresariais em
todos os ramos da economic".
Se hi ilhas de novidade no documen-
to do PT em relaqCo aos textos que saf-


ram da forja federal nos dltimos anos,
aproximando o discurso do governor do
discurso de ONGs e outras instincias de
representaao da sociedade, e at6 dos pr6-
prios individuos diretamente, quando se
trata da Amaz6nia o grande desafio de
Lula se assemelha ao grande desafio que
teve o president Fernando Henrique Car-
doso: aproximar os diversos discursos,
mesmo os que se afinam tomando como
parametro o conhecimento cientifico e as
melhores praticas humans, do piano da
realidade. Ou seja: impedir que o discur-
so seja um boi de piranha para que a ma-
nada das atividades atravesse inc61ume
em outro ponto, desviando os interessa-
dos do que, efetivamente, interessa. Trans-
formam-se no ingl8s da parabola, vendo
o falso, ou, como diria o
soci6logo, o ideol6gico.
O governor FHC che-
ga ao fim combinando o
lancamento do maior
plano de proteqgo de
florestas j elaborado no
mundo, "possivelmente
o maior projeto de pre-
servaq~o ambiental do
planeta, como diz o
discurso, com investi-
mento de 395 milhoes
de d61ares (1,4 bilhio de
reais), o Programa de Areas Protegidas
da Amaz6nia (Arpa), destinado a bene-
ficiar uma area de 500 mil quil6metros
quadrados, com o retorno de indices ex-
tremamente graves de desmatamento.
Assim, uma mao de boas intencqes do
governor tenta construir o que a outra
mao, obsessivamente empenhada na
construqao de indices quantitativos,
"desconstr6i", para usar um jargao que
voltari ao coloquialismo do president
no seu retorno As lides acad6micas.
0 PT, eleito com o compromisso da
mudanqa, nio esti imunizado contra essa
forma de esquizofrenia. Embora tenha
montado seu program amazOnico depois
de seminirios realizados em virios Es-
tados da regiao, recebendo e absorven-
do contribuiqces de todos os participan-
tes desses encontros, e nao apenas dos
22 notiveis responsiveis pela elaboraqao
do document (dos quais, apenas quatro
da pr6pria regiao amazonica), os exem-
plos positives que cita do que seri a po-
litica global para a Amaz6nia se restrin-
gem a dois Estados (Acre e Amapi) e a
um municipio (Bel6m) em que o partido


control o poder, diretamente ou atrav6s
de um aliado. Embora nessas unidades
haja bons exemplos a apontar como an-
tecipaqdo do que vird, nelas hi tamb6m
maus exemplos. Pensando bem, nHo 6
ficil definir se o peso positive 6 maior
do que o negative.
O espfrito olimpico e a liberdade de
pensamento que o document pr6-eleito-
ral apresenta podem vir a ser testados bem
cedo, quando Lula sentar na cadeira e
empunhar a caneta do president da Re-
p6blica, no dia 1 de janeiro. A "floresta-
nia", conceito posto em pratica no Acre
para destacar o uso miltiplo dos recursos
da floresta, pode ser confrontado com o
"agrarismo" dos te6ricos do partido e do
seu bravo executive, o MST, a organiza-
Cqo dos "sem-terra".
Uma pressed maior dessas bases pode
colocar as political agrdrias a frente das
politicas ambientais ou da natureza. O
MST e a CPT, principals aliados de Lula
no setor rural, se preocupam mais cor os
assentamentos de lavradores, expandindo
a fronteira, e acreditam que a AmazOnia
6 um lugar certo para a agriculture. Ou-
tras correntes, ao contrArio, acham que a
Amaz6nia nao 6 um lugar pr6prio para a
agriculture, e sim para a atividade flores-
tal, o extrativismo e usos alternatives dos
recursos naturais. Nao querem novos as-
sentamentos em florestas virgens.
HA matizes entire os dois extremes e
hi meios de compatibilizi-los, mas se os
pontos de vista dos agraristas prevalece-
rem, 6 provivel que as taxas de desmata-
mento continue altas ou at6 sejam in-
crementadas. Diga-se que foi essa a posi-
q~o dominant nas administraq6es fede-
rais anteriores, especialmente na de FHC,
que sempre defended, como soci6logo, a
expansdo do capitalism nas frentes pio-
neiras amaz6nicas, seguindo um modelo
estabelecido do centro para a periferia.
Tamb6m 6 bom nao esquecer que
FHC e Lula, formando sua mentalidade
no f6rtil solo paulista, um carioca e o
outro nordestino, um nos livros e outro
nas ruas, andaram juntos sobre o tema
at6 nao muito tempo atrAs. E, sobre o
tema, parecem ter-se afastado menos do
que aparentam, como logo se vera, espe-
rando-se ver realmente o novo do discur-
so se tornar o agradavelmente novo da
agqo. A Amaz6nia, a meio caminho en-
tre o celeiro das utopias, que foi, e o al-
moxarifado de problems, em que vai se
tornando, ji merece essa harmonia.








6 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002

INDIOS



0 capitalism vai A aldeia


Ja vai fazer 30 anos que os Gavi6es re-
alizaram o feito in6dito: foram os primei-
ros indios em toda a hist6ria brasileira a
lidar com o mercado financeiro. Num cer-
to dia de 1976 o indio Cutia (que, a bem da
verdade, era Potiguar e nao Gaviao) abriu
uma conta em nome da tribo na agnncia do
Banco do Brasil em Marabd, distant 30
quil6metros da aldeia, no violent sudeste
do Pard. O dinheiro provinha de uma inde-
nizaqao que a Eletronorte (Centrais E16tri-
cas do Norte do Brasil) pagou para que a
linha de transmissao da hidrel6trica de
Tucuruf atravessasse a drea da reserve Mae
Maria ao long de 15 quil6metros, levan-
do energia para o Maranhao. Era dinheiro
suficiente para que os Gavioes passassem
a ser tratados como clients especiais pelo
gerente do banco.
Muita gente, na 6poca, achou que era
dinheiro demais para entregar nas maos
dos indios, mas os Gavi6es ja nao eram
jejunos no assunto. Em mais um pionei-
rismo, eles haviam conseguido se livrar
da instancia patrimonialista que engorda-
va no vasto venture da Funai, aproveitan-
do-se da tutoria que a fundaqao exerce
sobre os indios. Dando o brado de inde-
pendencia, os Gavi6es, com a inestimi-
vel ajuda da antrop6loga lara Ferraz, afas-
taram da aldeia o DGPI (Departamento
Geral do Patrim6nio Indigena) e passa-
ram a tratar da comercializagao de sua
safra de castanha, o principal produto da
aldeia, diretamente com os exportadores
da valiosa amindoa, negociando em Be-
16m quantidades e pregos. Essa dificil
negociaqao, empacada no mau hibito dos
exportadores de ganhar o maximo e ce-
der o minimo, adestrou alguns lideres da
tribo, especialmente Cutia, uma esp6cie
de ministry da fazenda entire os Gavioes.
A indenizaqao da Eletronorte, que
construfa a segunda maior hidrel6trica
brasileira, tamb6m nao caiu do c6u. O
entao president da subsididria da Eletro-
bras, coronel (da reserve do Ex6rcito)
Raul Garcia Llano, era duro na queda.
Para vencer a resistencia dos indios, ele
decidiu fazer uma reuniao na casa do ca-
cique Kokrenum. Chegou senhor das
aqces, sentou-se a cabeceira da mesa e
falou grosso e alto.
Jokrenum, irmao do cacique, achou
que era petulancia demais. Enquanto o


coronel ditava as regras, levantou do seu
banco e foi 1i dentro. Pressentindo o lan-
ce, Cutia me pediu para acompanhi-lo,
nervoso. Tinha razao: Jokrenum fora bus-
car uma borduna. Queria abrir a cabeqa
do ofensor, que deslocara o cacique do
seu cerimonioso poder. Demorou, mas
final foi convencido a nao lavar corn
sangue a injdria, que era involuntaria.
O coronel nao estava humilhando o ca-
pitao tribal: era seu modo de ser, plan-
tado em bom terreno naquela 6poca de
autoritarismo castrense.
Depois da indenizaqao da Eletronorte,
veio o program de assistencia imposto
pelo Banco Mundial para aprovar a extra-
9ao de minerio da Serra de Carajas e uma
nova indenizaao, a da Companhia Vale
do Rio Doce, para que os trilhos da Ferro-
via de Carajas tamb6m cruzassem a reser-
va Mae Maria, uma ilha de floresta, com
suas belas castanheiras, num mar de des-
matamento avancando por todos os lados.
Para manter essa integridade vegetal,
alias, os bravos Gavi6es tiveram que jo-
gar duro com os posseiros e seu tutor ad-
hoc de entao, o Getat (Grupo Executivo
de Terras do Araguaia-Tocantins), na in-
findavel farra de siglas da burocracia bra-
sileira. Em meio a trapalhadas, ambos
ameaqavam abrir uma cunha de devasta-
qco no 6nico oasis de arvores da regiao.
A conta dos indios em Maraba cres-
ceu muito e rapidamente. O volume de
dinheiro deixou de guardar proporqao corn
a maestria da tribo nos principios de ges-
tao e ger8ncia. Veio mais frouxamente do
que esperavam. Gastaram tamb6m a lar-
ga, para o padrao espartano de antes. Re-
manejaram a aldeia para o outro lado da
estrada e, num lugar mais protegido da
curiosidade dos passantes, consumaram
outra facanha: a construcao da primeira
aldeia indigena em alvenaria do Brasil. In-
felizmente, foram enganados pelo arqui-
teto contratado. As casas eram ruins e o
projeto, deficiente.
Outros erros se seguiram, induzidos pelo
principio do mando verticalizado do chefe
e pelo sistema hierdrquico da sociedade tri-
bal. Criticas nao sao bem-vindas na tribo,
mesmo que oriundas de amigos, que, por
isso mesmo, se tornam menos amigos e aca-
bam se afastando. Ainda assim, entretanto,
os desvios de dinheiro, as aplicaqGes sup6r-


fluas e os erros de concepcio dos Gavioes
nao foram nem um pouco mais graves do
que os dos chamados civilizados, metidos
na pedagogia do com6rcio hi mil6nios.
Marcos na hist6ria dos povos indigenas no
Brasil, os Gavioes continual a tocar sua
vida com autonomia as margens da antiga
PA-70, agora BR-222. Nao fariam a felici-
dade de Rousseau, mas sao de uma came e
de um osso de grande valor.
Deixaram, porem, de estar s6s nessa
cr6nica da aproximaqco de sociedades
primitivas de uma das mais diab6licas das
invenq6es do dito mundo civilizado: o
dinheiro. O mais recent dos capftulos
dessa movimentada novela foi escrito
duas semanas atris, uns 300 quil6metros
a oeste da aldeia Mae Maria, pelos bra-
vos Xikrin do Catet6.
Primos menos c6lebres dos Kayap6s,
eles tiveram no passado que exibir forga
para assegurar a integridade da sua reser-
va. Botaram para correr os fazendeiros
que tentaram expandir seus limits pene-
trando furtivamente na area indigena. Mas
nao precisaram ter a mesma agressivida-
de guerreira com um vizinho que se esta-
beleceu na regiao na segunda metade da
d6cada de 60, assumindo o dominio dos
plates que escondiam a melhor e uma das
maiores jazidas de min6rio de ferro do
mundo. A Companhia Vale do Rio Doce,
que se tornou dnica proprietiria dessa
inestimAvel provincia mineral quando se
desfez da sociedade com a americana
United States Steel, em 1977, procurou
manter sempre boas relaq6es de vizinhan-
Ca com os Xikrin.
Essa diplomacia foi agora perturbada
por outro ineditismo: pela primeira vez os
fndios deixaram de ser vitimas para ser os
autores de uma invasao. Aproveitando-se
da madrugada, eles bloquearam um aces-
so a area de exploracao de ferro. Nao fize-
ram qualquer violencia. Tinham apenas
uma exigencia: que a Vale lhes pagasse
mais do que a cota mensal de 100 mil re-
ais. Os Xikrin, endividados no com6rcio
local, precisavam urgentemente de 400 mil
reais para saldar dividas que os estavam
sufocando. Embora conduzam o inico pro-
jeto de manejo florestal em terras indigenas
que existe no pais, nao era por causa desse
empreendimento que os indios estavam ar-
golados. Era mesmo por consumismo.








NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 7


Esse nao 6 um problema novo, nem
isolado e muito menos singular. Ele esti
se multiplicando e se avolumando porque
as reserves indigenas estao entire as terras
mais valiosas da Amaz6nia. Quando os
Gavi6es se libertaram do jugo do DGPI,
provando que atuando diretamente na ati-
vidade commercial eram capazes de gerar
mais dinheiro do que seus tutores gover-
namentais, a chamada sociedade envol-
vente fazia cavalo de batalha no combat
ao surgimento de areas protegidas para
indios. Muitos conflitos surgiram e se tor-
naram sangrentos para que elas nao che-
gassem aos pap6is oficiais; chegando, nao
se materializassem; e, sendo oficializadas,
nao se tornassem realidade no terreno,
atrav6s da demarcagqo.
Hoje, esse problema se tornou secun-
drio. Reservas indigenas sao mais ficeis
ou mais baratas de explorer pelos "bran-
cos", desde que os pr6prios indios sejam
convencidos ou seduzidos a aceitar o uso
econ6mico de suas areas por terceiros,
quase sempre a margem do ordenamento
legal, aplicavel dentro ou fora dessas re-
servas. Ainda ha um ou outro conflito
eclodindo, mas eles sao a exceq~o e nao


mais a regra. Os choques agora devem-se
geralmente a situacao de primitivismo da
expansdo da frente econ6mica naquele
determinado local. Onde elaja se estabe-
leceu e se desenvolveu, o mais freqtiente
6 encontrar produtores defendendo as re-
servas e os indios do que o contrArio.
Foi assim na relaqdo entire a Andrade
Gutierrez e o cacique Tuto Pombo no
Xingu, entire a Paranapanema e os Wai-
miri-Atroari no Pitinga, entire madeirei-
ros ou garimpeiros e os Kayap6 no Xin-
gu. A pedra de toque na mudanga de ati-
tudes (na dos indios em favor da toleran-
cia a invasdo, na dos "brancos" em apoio
as reserves, que antes abominavam) foi o
dinheiro. Como ele nao pode, a maneira
de Alice no pais das maravilhas, ser "de-
sinventado", para os indios o desafio 6
buscar uma inserqo mais favorAvel no
mundo dos neg6cios da sociedade que os
envolve (e, freqtientemente, os sufoca).
Se jA se tornou inviavel a utopia for-
mulada pelos irmios Vilas-Boas num Par-
que Nacional do Xingu interditado ao
mundo ao redor, a mecAnica do cotidiano
imp6e o know-how administrative e ge-
rencial aos indios. O que suas reserves


contrm 6 conhecido e sofrera press~o cada
vez maior pelas ondas de interesse eco-
n6mico que vao bater nas suas bordas.
Despreparados para ardis como a forma-
cao dos preqos e a valoragao dos produ-
tos, os indios tem sido vitimas tanto de
espertalh6es vorazes quanto at6 mesmo
de amigos muy amigos. alias. Num uni-
verso de competiAqo acirrada, mesmo
quando dao um pass positive na direqao
do amadurecimento de suas organizaqces,
como fizeram os Xikrin, estao sujeitos a
algaravia do consume, ao efeito inebri-
ante de uma moeda viva se agitando em
seus dep6sitos de guard.
Quando um antropdlogo reapareceu na
aldeia Mie Maria, muitos anos depois de
ter escrito sobre os Gavioes um dos mais
preciosos trabalhos da antropologia brasi-
leira, os indios foram recebendo-o corn uma
pergunta acusat6ria: o que 6 que o notdvel
antrop6logo havia feito ou podia fazer em
beneficio, concrete e imediato, da tribo que
tIo bem estudara? O c6lebre antrop6logo
ficou embaracado. Nao contava que suas
cobaias abandonassem o mundo ideal dos
conceitos para cobra-lo sobre events que
estariam mais bem acomodados na socio-
logia, na political ou, quem
sabe, nojomalismo. Fez o
caminho de volta quase
aos tapas, arrastando con-
sigo o camera que regis-
traria o moment hist6ri-
co do reencontro do bwa-
na com os nativos.
O academico nao
fora informado que o ca-
pitalismo j i havia chega-
do a aldeia, pulando as
barreiras do isolacionis-
mo cientifico (que exis-
te para efeito de tese) e
ignorando a litania da
SS boa intengqo. Armado
Sno mais com o rnstico e
Sselvagem 38, mas com o
Scintilante e eficiente di-
nheiro. Sobre esta nova
fase, silenciosa como um
virus, fala-se pouco. Tal-
vez porque, agora, de
pouco valor seja apenas
falar. E precise fazer. Se
os antrop6logos acham
que isso 6 pouco cienti-
fico, os indios nao acham.
E 6 eles o que, nessa his-
t6ria, interessa.








8 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002


Mais lourice na jungle "

Mais lourice na jungle"


Em Tristes Tr6picos, Claude L6vy-
Strauss desnuda e desmascara o habito
metropolitan de fazer da col6nia a ex-
tensdo dos seus sonhos, caprichos e delf-
rios, al6m de travesseiro para aplacar a
conscience mauvaise. Ataca a superficia-
lidade, inocuidade e nocividade dos rela-
tos de viagem, das expediyges a ultramar,
das misses no hinterland e na jungle. t
um livro maravilhoso, que todo coloniza-
do devia ler. Com a condigco de procurar
ser menos colonizador.
Talvez assim as hiperb6licas incursoes
dos nossos bwanas fossem desestimula-
das e a contumaz servidao dos nativos,
inibida. Talvez as matrizes da nossa cul-
tura, mesmo e sobretudo as nacionais,
arrefecessem seu impeto de estar sempre
a descobrir a p6lvora e sancionar os 6di-
tos normativos nas periferias. Talvez se
despojassem do hdbito de mirar-se no es-
pelho de Narciso e contemplar, em seu
umbigo, a universalidade do mundo.
Sem esse impulse generoso, temos que
deixar de lado o grande livro do antrop6-
logo frances e encarar Direto da Selva (As
aventuras de um reporter na Amaz6nia),
livro escrito por Klester Cavalcanti para
a colegco "Vida de Rep6rter" da Geraqio
Editorial. A cole9ao 6 uma boa sacada do
tamb6m jornalista Luiz Fernando Emedi-
tado, o dono da editor. Abre passage
para reportagens e testemunhos de rep6r-
teres, cerceados pelo preconceito de par-
te do mercado editorial, enquanto outra
parte os incensa sem razAo.
A participag~ o de Klester na coleao,
por6m, 6 decepcionante, desperdigando a
bela edigqo que a Geracqo Ihe proporcio-
nou. O tempo de permanencia entire n6s
do reporter pernambucano, de 32 anos, foi
curto: apenas dois anos. Graqas a mobili-
dade que Veja ainda permitia ao seu cor-
respondente, ele percorreu a Amaz6nia,
viu e tomou parte em epis6dios importan-
tes nesse period. Mas nem sempre p6de
entender e mesmo ver o que se passou
diante dos seus olhos. Ou por um com-
prometimento de visao, causada por id6i-
as preconcebidas sobre a Amaz6nia, ou
por fantasia. Ndo viu o que devia ver e
viu o que inexistia.
O principal capitulo do livro, de 247
paginas, excede pela dose de fantasia.
Klester relata o seqiiestro que diz ter so-


frido em Bel6m, em margo de 2000. Por
causa da ameaga a sua vida, o correspon-
dente foi retirado as pressas para Sio Pau-
lo, nao mais retornando a sua antiga base
de operaq6es. Quando sacava dinheiro no
caixa eletr6nico do Shopping Center Igua-
temi, no centro da cidade, em plena luz
do dia, o jornalista foi atacado por dois
homes, encapuzado e colocado no inte-
rior de um carro. Sob a mira de um rev61-
ver, foi levado para um local ermo, na
periferia da capital paraense, amarrado a
uma arvore e abandonado.
Tudo isso "foi desencadeado por uma
mat6ria que caiu nas minhas maos por
acaso", diz o reporter, referindo-se ao tex-
to que estava escrevendo sobre a extra-
9do illegal de madeira em areas griladas
no Pard por uma quadrilha que criara at6
um personagem fantasma, o tristemente
famoso Carlos Medeiros, para servir de
fachada para seus crimes. O suposto se-
qilestro de Klester Cavalcanti foi mat6ria
de capa da edicgo n 231 deste journal.
Nessa mat6ria, expressed minhas d6vidas
sobre esse confuso acontecimento.
Reler a reconstituigo feita por Klester
dois anos depois do epis6dio aumenta sua
inverossimilhanga e, em alguns t6picos, faz
a narrative transbordar para a seara do bi-
zarro.. Depois de se livrar das cordas corn
as quais fora amarrado, Klester diz haver
escalado "uma drvore de uns 25 metros de
altura", tarefa duplamente notdvel: tanto
pela existencia de arvore tdo alta nas cer-
canias (por ele classificadas de "selva",
para efeito de decorar com cores fortes o
pedido de socorro feito A sede da revista)
de uma Bel6m vitimadas pela agco do ho-
mem, como pela escalada em si, de causar
inveja aos pr6prios natives dajungle.
Vencida a "selva", o jornalista chegou
"a uma rodovia". Apesar de ja estar como
correspondent em Bel6m ha dois anos,
ele "nao fazia a menor id6ia de onde esta-
va", um ponto na BR-316 a dois quil8me-
tros do posto da Policia Rodoviiria Fede-
ral, que, segundo sua informaqao (infe-
lizmente, errada), ficava "em Benevides,
a cerca de 35 quil6metros de Bel6m".
Esses dois quil6metros, Klester percor-
reu em duas etapas. Na primeira, corren-
do durante "pelo menos dez minutes". E,
em seguida, caminhando, "ji cambalean-
te e totalmente exaurido, por mais um


quarto de hora". Ou seja: gastou, entire
correndo e andando, 35 minutes para co-
brir os dois quil6metros entire a saida da
"selva" e o posto da Policia Rodovidria.
Devia estar mesmo muito cambaleante e
exaurido.
Do posto policial ele ligou para seus
chefes, em Sao Paulo, para anunciar ter
sido "seqiiestrado e largado no meio da
selva, amarrado a uma drvore". Atendido
por Eduardo Oinegue, editor-executivo de
Veja, que jd teve experi8ncia macarr6ni-
ca algo semelhante no garimpo de Serra
Pelada, anos atrds (cobriu de barro o ros-
to de um jornalista, apresentando-o na
capa da revista como um garimpeiro em
sua enlameada labuta didria), recebeu a
ordem de buscar protegio policial, termi-
nar a mat6ria e "se mandar" para Sao Pau-
lo, saindo "dessa terra sem lei".
O que, de pronto, Klester fez. Com as
honras de algu6m resgatado da terra sel-
vagem, de volta ao itero seguro do cen-
tro metropolitan (onde, como todos sa-
bem, vigora a lei). Sua temida reportagem
se revelou tiro de festim. A revista aca-
bou gastando mais espaqo com o rocam-
bolesco seqiiestro do que com a grilagem
da gangue do fantasma Carlos Medeiros.
A rigor, a reportagem nada trouxe de novo,
muito menos de explosive, que justificas-
se a audacia do seqiiestro. Rep6rteres lo-
cais, nada parecidos a Indiana Jones, jd
haviam escrito textos muito mais profun-
dos, diretos e agressivos. E continuam a
escrev6-los, agora ji sem a companhia do
aventureiro emissario da Veja paulistana.
Sem o colorido que s6 acompanha os en-
viados do sul maravilha. Em prosaico pre-
to-e-branco, portanto.
Infelizmente, os textos de Klester reu-
nidos em Direto da Selva apenas reforcam
estere6tipos e fantasias nacionais sobre
uma region tdo complex, distant e origi-
nal, refratAria ao entendimento estandar-
dizante dos companheiros de federaqao.
Nos dois anos de sua agitada permanencia
na region, o jornalista acredita que se esta-
beleceu "uma ligagio intima e consistent
entire a floresta, cor sua gente digna e cor-
tes e insuperavel riqueza natural, e eu".
Essa intimidade, por6m, nao impediu Kles-
ter de cometer erros primarios, que uma
vivencia mais longa, maior atengo ou um
melhor trabalho de checagem preveniriam.









NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 9


Num dos textos do livro, ele diz que o
Projeto Jari de Daniel Ludwig teve esse
batismo porque Jari 6 o nomee de um rio
da regiao". Podia ser ao mesmo tempo
simples e exato se dissesse que Jari 6 o
nome do rio que banha e corta o projeto,
e n~o associd-lo genericamente A regiao.
Klester esteve na irea e conseguiu saber
que a usina de energia ali em operaqo foi
produto de um piano audacioso do milionA-
rio americano, que "nao titubeou em gastar
270 milh6es de d6lares para construir, no
Japao, e trazer, numa gigantesca balsa, at6 a
Amazonia, uma usina termel6trica".
Mas nao conseguiu ficar sabendo (deve
ter faltado tempo para pesquisa) que, em
outra balsa, tamb6m veio navegando por
20 mil quil6metros, do Japao at6 o Jarf, a
pr6pria ffbrica de celulose, A qual a usina


abasteceria de energia. Alias, as duas es-
truturas metalicas nao vieram propriamente
em balsas. Elas foram construidas nos es-
taleiros da Ishikawajima, em Kure, para
flutuar. Ancorando em Munguba sobre
3.600 estacas de maqaranduba, elas foram
despojadas de centenas de toneladas de
peas acess6rias, que Ihes foram incrusta-
das exatamente para que navegassem.
As narrativas de Klester estao cheias
de tais imprecis6es, mas tudo isso passa a
ser considerado detalhe irrelevant a par-
tir do moment em que o desbravador da
hist6ria amaz6nica abandon a regiao in6s-
pita e volta ao centro do poder e da inteli-
g6ncia national, deixando para tris a mar-
ginalia de primitivismo, atraso, selvageria
e incultura da "jungle", cheia de gente boa,
tanto melhor quanto mais distant estiver.


Vencidas suas aventuras, sdo e salvo na
capital dos paulistas, Klester ficou conheci-
do durante muito tempo como "o jomalista
que foi seqiiestrado na Amaz6nia". Magna-
nimo e superior, ele constata: "Por mais difi-
ceis e cru6is que tenham sido as horas que
passei nas mdos dos meus raptores, elas jA
foram superadas. Fazem parte do passado".
O seqiiestro foi uma hist6ria tao forte que
monopolizou a temida mat6ria, deixando
pouco espaco para as denincias, que tantas
apreens6es precocemente causaram aos rap-
tores. Mas a viol6ncia, em uma forma menos
confusa do que a sofrida pelo entao corres-
pondente de Veja, nio 6 passado para os que
aqui ficaram e que nao podem nem que-
rem ter como cartao de apresentaqao o fu-
gidio epis6dio que marcou a vida de Klester
Cavalcanti, o seqiiestrado na selva.


LOUIO arLAVIo PINTO



ONM l aj


Livros na praga
Coloquei nas bancas de revistas e livrarias meus dois
novos livros: IntemacionalizaVdo da Amazonia (sete
reflexes e alguns apontamentos inconvenientes) e
Hidrelftricas na Amazonia: predestinagdo, fatalidade ou
engodo?. Sao edig6es do author, modestas por isso
mesmo. Pouca divulgagqo terao, naturalmente. Mas
espero que as pessoas interessadas nas quest6es de frente
da regiao saiam atris do que esti contido nos dois livros
e contribuam para sustentar uma iniciativa adotada sem
mecenas e ao largo do sinete official. Uma tentative de
mostrar que podemos caminhar com nossos pr6prios p6s,
sem muletas, sem tutelas, sem bitolas.


Pesquisa: sempre
comegando
Gostaria que um ntmero maior de
cientistas respondesse as provoca5oes
que os jornalistas, metendo o bedelho
onde nem sempre sdo chamados, thesfa-
zem. Infelizmente, vitimas de preconceito
e sapato alto, muitos pesquisadores
olham com desdim para as pdginas de um
journal. Nao the reconhecem o pedigree.
No quefazem mal, muito mal. Ndo e o caso
de Guilherme Maia, ex-diretor do Museu
Goeldi, autor da carta abaixo, que res-
ponde a um artigo da edifdopassada des-
te journal. Eu prdprio poderia adiantar
outras ponderafdes e respostas ao que o
pesquisador suscitou. Prefiro, porim,
apenas registrar sua manifestafdo, na
esperanfa que ela desperate outras vozes,
que raramente sefazem ouvir, e estabele-
ram a controversial necessdria quando
estd prestes afuncionar um novo centro
de pesquisa na Amaz6nia, cor a
promessa de ser oprimo rico dafamilia,
mas sob o risco de vir dividir a misdria.


Jornalista Lucio Flavio Pinto:
Em primeiro lugar, eu quero parabe-
nizi-lo pelo artigo A jia amaz6nica (ver
Jornal Pessoal 293), bem como dizer-lhe
que tenho lido cor frequencia muitas de
suas publicaq6es, particularmente no que
diz respeito Aquelas voltadas a political
e ao meio ambiente de nossa terra. Na mai-
oria das vezes comungo dos seus pensa-
mentos e observagqes.
Em segundo lugar, queria fazer al-
guns comentArios sobre assuntos do seu
artigo, jA que tenho vivenciado mais de
perto essas quest6es.
Substituir os insumos quimicos
importados por produtos naturals da re-
giio, a grosso modo, 6 utopia. Um
grande avango, mesmo que tarde 20 a 30
anos, seria tentar equilibrar essa
balanqa. Em quaisquer circunstAncias
iremos sempre defender da importaqio
de insumos quifmicos, que constituem-
se patentes e dos quais dependemos,
particularmente na questoo da sadde.
Louvo sua observaq~ o de que algo deve
ser feito, eja.


Nao sei se o govero federal esti dan-
do um pass correto na criaqao do Centro
de Biotecnologia da AmazBnia, nos mol-
des em que foi concebido. Como voc8
mencionou, vai constituir-se em 26 labo-
rat6rios que pretendem cobrir desde a
coleta do recurso gendtico (animal ou ve-
getal) atW o lanqamento do produto final.
Af vem a pergunta! Onde estA disponivel
esse volume de recursos financeiros para
equipar esses laborat6rios, tanto de in-
sumos materials (equipamentos cientifi-
cos), quanto humans (mestres e douto-
res)? Se a intenqao 6 s6ria, por que nio
pensaremreforgaras instituiqescientifficas
jA presents na regiao, que vivem A mingua
(porexemplo, o oramento do MPEG para
2002 j estourou desde setembro, face ao
contingenciamento feitopelogovermofede-
ral)? A maioria das atividades previstas para
esses laborat6rios jA vem sendo conduzida
no MPEG, INPA, UFPa, FUA, EMBRAPA,
FCAPeoutros.
0 que de fato falta na regiAo 6 congre-
gar o esforqojA existente e reforqi-lo com a
criaqao de atividades voltadas objetiva-


mente para a criaNo e o estabelecimento
do produto final. Ou seja, coloci-lo na
prateleira. Portanto, ao meu ver, o Centro
deveria ocupar-se cor exclusividade a
question tecnol6gica, que 6 o grande gar-
galo existente na regiio.
Outras quest8es: (1) aonde vai-se
buscar a massa critical de pesquisadores
(mestre e doutores) necessarios para con-
duzir esse Centro? (2) Voc6 sabia que n6s,
pesquisadores na Amaz6nia, somos somen-
te 2% de todos os pesquisadores brasilei-
ros, em uma rea geografica que represent
mais de 50% do territ6rio national? (3)
Pesquisadores do sul e sudeste brasileiros
(onde estA a nata cientifica) tmr atendido
aos nossos ef8meros editais para vir
trabalhar na Amaz6nia? A resposta 6 nio.
Tanto esses, quanto os de fora do pais, s6
serAo motivados cor salArios diferencia-
dos que possam oferecer-lhes um padriode
vida pelo menos igual ao que se oferece no
sudeste brasileiro. Eu tenho essa
experiencia como dirigente no INPA e
MPEG. (4) Se for oferecido esse salario
diferenciado para os pesquisadores do









10 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002


HISTORIC


CEPC: o registry



de uma destruigao


S ob uma luz mortica, num salo com
um nobre ar de decadencia, o pro-
fessor Cl6vis Silva de Moraes
Rego lia o texto da introducao que escre-
veu para seu livro, Subsidios para a his-
toria do Coldgio "Paes de Carvalho ", que
estava sendo lanqado naquela noite, no
mes passado. O audit6rio era quase todo
formado por ex-alunos do CEPC, confra-
ria valorizada pela presenga do ministry
das comunicaq6es, Juarez Quadros.
Extremamente magro, alquebrado por
alguns epis6dios sofridos de sua vida re-
cente, o velho professor, dono de um dos
mais reluzentes curriculos do Estado (ocu-
pando nada menos do que 25 piginas de
seu livro), lia cor dificuldade. Mas valia
a pena prestar atengao ao que estava len-


do, pega introdut6ria a mais rica contri-
buigqo ji prestada a hist6ria da mais im-
portante instituiqio de ensino paraense.
Alguns achario despropositada a ava-
liaqco. Ha excess de palavras nas 455
piginas do livro, que podia ser muito me-
nos volumoso sem qualquer perda de
conteddo. O ex-governador exagera em
certas minicias, nao por serem minici-
as, mas por sua irrelevancia. Incorpora
informaq6es de forma desigual, sem se-
parar o joio do trigo, sem hierarquizar
valores. Apesar da linguagem arcaizan-
te (ou arcaica mesmo) e do crit6rio bu-
rocritico de selegio de dados, hi que se
admirar uma virtude de Cl6vis Moraes
Rego, rara entire n6s: seu apego a infor-
maqao exata, o culto que faz da busca de


cada detalhe que Ihe falta para comple-
tar a situagqo que esti reconstituindo.
Ele 6 um dos mais notiveis pesquisa-
dores em atividade no Para, daqueles tra-
balhadores bragais que nem sempre con-
seguem chegar ao produto final, deriva-
do da compreensao e da interpretag~o dos
fatos. Mas sem eles nao haveria hist6ria,
apenas boatos, murmtirios e especulag6es.
Quanto mais o tempo passar, mais gratos
e reconhecidos seremos ao mestre Coc6,
o tratamento carinhoso que sempre admi-
tiu, mesmo quando foi a maior autorida-
de da terra, no encerramento do mandate
recebido do titular do governor, Aloysio
Chaves, desincompatibilizado em 1978
para concorrer ao Senado.
Sem o pertinaz trabalho de relojoeiro
do ex-presidente do Conselho Estadual de
Cultura, muitos dos subsidies que seu li-
vro tornou perenes teriam desaparecido.
Na introduqao, ele diz que suas principals
fontes de consult foram as atas do CEPC.
Os documents originals, de grande va-
lor hist6rico, provavelmente nao existem


Centro de Biotecnologia, seri uma attitude
correta tendo em vista que os que aqui
seguram o tranco continuariam cor seus
salaries defasados? (5) Neste caso, voc6
imaginaquehaver uma boaintegra*o corn
as instituiq6esji existentes, que carregam
o piano desde o final do s6culo 19, como
no caso do MPEG?
Dou-lhe outro exemplo. Eu e meu
grupo somos os inicos que trabalham a
flora aromrtica da Amaz6nia ha mais de 25
anos, responsiveis por uma base de dados
cor mais de 1.300 esp6cimens de plants,
de cujos 6leos essenciais e aromas tem-se
toda e qualquer informaaio, para leva-los
a produto final. Pois bem, nossos equipa-
mentos cientificos estao cor mais de 12
anos, com sobrevida acima da mrdia, cujas
peas de reposicio nio sio mais fabricadas.
Um novo equipamento custa em torno de
US$ 100 mil (prximo de R$400 mil). Onde
vou conseguir esses recursos? Nessa
eterna mar6 de parcos recursos, como
competir cor o novo Centro? Desistir e
vestir o pijama? Veja, portanto, que hi de
si fazer uma anAlise critical da situacqo da
I esquisa cientifica na Amaz6nia, antes de
.;e criar novos instituiq6es, que poder.o
'ir a ser futures elefantes brancos.
Quando voce fala de uma contribui-
qAo brasileira de US$ 3 bilh6es (1,5%) no
mercado de cosmdticos, logicamente que
exclui a Amaz6nia. De fato, nessa area a
nossa contribuiq~o 6 quase zero. Af pode-
se falar do mercado de pau-rosa que, junto
cor o 6leo-resina de copaiba e sementes
de cumaru, ainda sao (hi mais de 80 anos)
as tnicas essencias exportadas da regiAo.
O que voce disse sobre o pau-rosa 6 quase
tudo verdadeiro. Isto estA nas minhas pu-
blicaq6es ou foi dito nas minhas
conferencias. At6 mesmo a possibilidade


de exploraqAo das parties areas (folhas e
galhos finos) do pau-rosa, que publiquei
em Acta Amaz6nica, em 1971. Esta no
uma questao tio simples de se ver e este
process nao pode ser conduzido (nem
seria aceito pelos usineiros) nos
esp6cimens ainda existentes na floresta. E
um trabalho para ser experimentado em
reflorestamentos com pau-rosa, que pode
levar 12-15 anos, ap6s um bom melhora-
mento gen6tico, para modificar o ciclo fe-
nol6gico da plant visando obter massa
foliar em lugar de madeira do tronco. Se vai
dar certo 6 uma grande ddvida,ji que a
espdcie cresce na floresta em busca do sol,
com aumento vegetative da parte lenhosa
e nao da parte foliar.
Se hb press em modificar essa situa-
aio, por que preocupar-se cor esp6cies
aromrticas de porte arb6reo como o pau-
rosa finala, o linalol sintdtico j substi-
tui o natural e custa 4 vezes menos), que
demandam 40-50 anos para crescerem? Se
for para explorer novas esp6cies da regiao,
cor manejo auto-sustentado, ainda sim.
Caso contririo, devemos apostar em
esp6cies de ciclo vegetative curto, como
no caso de herbiceas (pataqueira, mange-
ricAo, catinga-de-mulata, priprioca), que
levam s6 3-4 meses para atingir a fase
adult, ou arbustivas (pimenta-longa,
erva-do-maraj6, capitid, erva-de-sAo-
joao), entire 6-12 meses.
Quem esta fazendo isso? Ningudm.
Quais empresas regionais empregam essen-
ciais nativas cujo bouquet deve-se de fato
as plants aromaticas nativas da regiao?
Nenhuma. Eu pr6prio constatei a question
da Body Shop em viagem a Londres e New
York. Comprei os seus produtos para
analisar se estavam presents essenciais
nativas da regiio. Quando muito, encontrei


0,2% de icidos graxos que eventualmente
poderiam ser do 6leo de castanha-do-pard,
que diziam adquirir dos caiap6s. Outros
produtos ditos ianomami, ticunas, etc, nao
tem nada da regilo, exceto o aspect mer-
cadol6gico de tribes indigenas da
Amazonia, cor seus aspects misticos e
mrgicos.
Dos funds setoriais do MCT, criados
pelo ministry Sardenberg e cor os quais
contava acrescer o orgamento de C & T do
pals, cerca de R$ 500 milh6es foram con-
tingenciados neste ano pelo governor fe-
deral. Significa dizer que poucos editais
foram publicados no ano de 2002, que po-
deriam permitir uma melhor execuqio da
pesquisa cientifica em 2003. Havera, por-
tanto, um vacuo de mais de 12 meses nadis-
ponibilidade de recursos financeiros para
tocar apesquisa no Brasil e, em particular,
na Amaz6nia. Esperemos que o novo
govemo reverta essa questao em tempo su-
ficiente para que muitas atividades nio
sejam totalmente paralisadas.
Muito hA o que se falar sobre es-
sas quest6es. Quando precisar de um
interlocutor lembre-se que estou a sua
disposigAo.
Atenciosamente,
Dr Jos Guilherme Mala
Laboratrio Adolpho Ducke
Museum Emilio Goeldi

Defesa de Edmilson
Cor uma carta em defesa da prefei-
tura de Belfm e de contestadfo a minha
andlise sobre o governor de Edmilson Ro-
drigues, Elias Tavares me pede que res-
ponda a vdrias de suas provocafqes e
convocafoes. No entanto, sua carta su-
ficientemente longa para me impedir de
aceitar sua chamada neste numero. 0


preCo seria sacrificar ainda mais o espa-
Co destejornal, supostamente pessoal, a
inica publicaado que conheCo na
imprensa brasileira a reproduzir inte-
gralmente as manifestadoes de seus
leitores, mesmo quando as consider ex-
cessivas ou incorretas. Respeito o direi-
to de expressed de Elias, emborafazendo
reparos a vdrios pontos de sua carta. Sd
me permit observa-lhe neste moment
que as administraVoes municipals podem,
sim, criarpoliticas de emprego (se ler a
coleqdo do JP encontrard vdrias suges-
tOes a respeito) e devem, sim, reprimir vi-
olac6es As posturas urbanas, quando se
tornam abusivas, como o comdrcio
ambulante, sem perder de vista suas ori-
gens sociais.lnsisto em ressaltar que Ed-
milson nro dpara Belim o que os Barbe-
rini foram para Roma (jd que nosso
alcaide vive cor um pe viajante na Itdlia,
como agora volta afazer) e que hd pontos
positives em sua gestao. Mas: a) ndo estd
muito long de Barberini: b) os pontos
positives sdo menos numerosos do que os
pontos negatives.
A carta de Elias:
Caro L6cio FlAvio,
Ao contrArio do que voce afirmou em
seu artigo "Maria governadora?" (JP
293), Edmilson Rodrigues jamais seauto-
intitulou "prefeito criana ". 0 titulo foi-
Ihe conferido pela FundaqCo Abrinq e
por dois anos consecutivos.
Trata-se de certame promovido em
ambito national por aquela instituiqio, que
a cada ano seleciona e premia projetos dire-
cionados a crianqas oriundas de families de
baixa renda. A cada ano, sAo selecionados e
conconempojetosdeaproximadamente 200
municipios. Aos 20 municipios vencedores
6 outorgado o titulo "Cidade crianFa",









NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 1


mais. O que restou foram as c6pias, que
Cl6vis mandou xerocopiar.
O que aconteceu com esses pap6is?
Com a palavra, o professor:
"Quando o Govemador Alacid Nunes
[em 1968] restaurou fisicamente o pr6-
dio do 'Paes de Carvalho', f8-lo demo-
lindo-o, inclusive o telhado, resguardan-
do-lhe apenas as paredes externas para
lhes conservar as primitivas linhas arqui-
tet6nicas. Estava eu, ainda em ativida-
de, como professor titular do vetusto edu-
candario, mas comissionado como Secre-
tario de Estado de Governo. Retirar o
telhado logo me acudiu significaria
irreparivel dano ao seu arquivo, um dos
mais ricos e primorosos que conheci.
Tomei entao a iniciativa de xerocopiar
livros de Atas de concursos e de assen-
tamentos funcionais de professors e ser-
vidores do estabelecimento, bem assim
como farto documentario que dona Car-
lota Mendes Leite de Almeida, com in-
superivel requinte, guardava como titu-
lar do cargo de Arquivista".


Acrescenta o historiador:
"Hoje, o acervo do arquivo do 'Paes
de Carvalho' e precario em relacgo ao que
foi, no passado, e o que perdurou, gracas
ao devotamento da sua atual dire9ao, re-
siste desafiando o apoio de recursos fi-
nanceiros e de modern tecnologia".
Nao tendo lido at6 aquele moment a
introdugao ao livro (sequer sabia ser esse
o texto que o professor C16vis empunha-
va), fui ficando espantado e chocado com
o relato. Olhei para a plat6ia: nenhuma
reaao. Finda a leitura, comeqou a festa
de lanqamento. As pessoas pareciam nao
se dar conta de que, do alto de sua exitosa
trajet6ria, o professor C16vis Moraes Rego
havia feito uma grave denincia, ainda que
seu texto nio fosse uma denincia, muito
pelo contrario. Escravo da realidade que
se projeta a partir de sua pesquisa, ele es-
tava apenas relatando o que conhecia a
respeito. O que conhecia, entretanto, era
grave, extremamente grave.
A reform do CEPC, feita no primeiro
governor do coronel Alacid Nunes, foi


como uma bomba neutra: preservou a es-
trutura fisica do pr6dio, mas destruiu sua
alma, a vida guardada naqueles pap6is que
registravam a vida. O governante se mos-
trava incapaz de entender a complexida-
de da hist6ria. Quem de tal coisa sabia
estava numa condicio de nio poder alte-
rar os ditames do chefe. Da mesma ma-
neira como p6s abaixo a caixa d'igua do
centro commercial e, na ftiria modernizan-
te, passou por cima de outros registros ma-
teriais e imateriais do tempo, Alacid
golpeou a mem6ria do col6gio que tam-
b6m foi seu local de aprendizado.
E uma pena que mestre C16vis s6 haja
conseguido tirar c6pias xerox dos origi-
nais, ao inv6s de colocar os documents
primarios sob guard. Triste e constant
sina de uma terra pouco afeita A integri-
dade da mem6ria do seu passado. Tio
desatenta que nenhuma consequincia
houve dos dois parigrafos lidos pelo pro-
fessor, embora ali mesmo estivesse pre-
sente o personagem principal, o ex-aluno
Alacid da Silva Nunes.


ficando o respective governor autorizado a
utilizi-lo em sua logomarca. Aos prefeitos
desses municipios 6 conferido o titulo
"Prefeito crianga", cabendo-lhes,
igualmente, o direito de utilizi-lo.
Num pais como o nosso, onde aq6es
do poder p6blico direcionadas a crianqas
pobres nao constituem propriamente uma
regra, ridicularizar esse titulo, ou o seu
uso, pode at6 parecer engraqado, mas,
certamente, nao 6 IA muito edificante.
AliAs, outros programs de trabalho
da PMB, na gestao Edmilson Rodrigues,
tambdm receberam premios e menq6es da
Unesco, do Unicef, da AssociaqAo de Pre-
vendo e Tratamento da AIDS, das funda-
96es Ford e Getdlio Vargas, do IBAM, da
Conferencia da ONU para Assentamentos
Humanos, da Cmara de Cormrcio e Indts-
tria Brasil-Alemanha, da Unicamp, do
BNDES, da Biblioteca do Congresso dos
EUA, etc.
Quem 1I regularmente o JP sabe: voce
nAo costuma reconhecer m6ritos na gestAo
petista em Beldm. Se considerarmos apenas
o que se acha dito em seus artigos, a PMB
nada fez, nestes 6 anos de "Governo do
Povo", para melhorar as condiq6es de vida
da populagio de nossa capital.
Atd ai, nada demais. Um dos proble-
mas essenciais da administraqao piblica
brasileira 6 promover o ajustamento de re-
cursos escassos a demands imensamente
desproporcionais. Isto implicaeleger pri-
oridades, fazer escolhas (ati porque, num
program de governor onde tudo 6 priori-
dade, nada 6 prioritaiio). Ao eleger suas
prioridades, os governantes sabem que
isso ocorrerd em beneficio de uns e, even-
tualmente, para desagrado de outros. A ins-
piraqio politico-ideol6gica de cada
governor determine quem sao "uns" e


"outros ". Unanimidade, nem pensar... Vai
dai que, por mais e melhor que se faqa,
sempre hi espaqo para critics, a defender
do ponto de vista particular de quem avalia
o desempenho. Que se critique, entio,
como bem parecer a cada critico. Mas, jA
que nao falta objeto concrete para acritica,
nio hA porque se recorrer ao artificio de
atribuir ao criticado, palavras que ele nio
disse, attitudes que ele no tomou ou res-
ponsabilidades que nao Ihe cabem. Isto
facility a critical, mas a desqualifica.
Foi o que voce fez, com o titulo confe-
rido a Edmilson Rodrigues pela Fundaqao
Abrinq. Mas ha outros casos. Por exemplo:
em seu artigo "Belm, pobrezagera" (JP
n" 292), pode-se ler, a prop6sito da questAo
do trabalho informal: "...as administra-
~6es municipals, a ldtima mais que todas
as anteriores, tim procurado tirar
vantage dessa anomalia. Ou, quando
muito, se omitem deprocurarpara o mal o
tratamento i altura da sua gravidade."
Entao tem sido assim, na sua visio: a
atual administra.Ao municipal, mais que
todas asanteriores, temprocurado tirar van-
tagem dessa anomalia. Mais que todas as
aneriores, a atual administraqAo munici-
pal ternseomitidode "procurarparaomal,
o tratamento a altura de sua gravidade."
Nem you lembrar aqui as condiq6es
em que se encontravam as ruas do centro
commercial de Beldm ao final do governor
H6lio Gueiros, porque 6 covardia. Mas, o
que seria um tratamento "& altura da gra-
vidade" desse mal? S6 consigo pensar em
political piblicas tendentes a induzir o
aumento da oferta de emprego formal. Se
existe um outro tratamento, e voce sabe
qual 6, por favor, divida esse conhecimen-
to corn seus leitores. Se nio hi outro, fi-
quemos com esse.


E voc8 sabe que as administraq6es
municipals pouco podem fazer para indu-
zir o aumento da oferta de emprego formal.
0 que se v6 nas ruas das principaiscidades
brasileiras e nio apenas em Belm 6 o
resultado de uma political econ6mica
excludente, que elevou dramaticamente o
ndmero de desempregados e
subempregados em todo o pais. Dizer que
as prefeituras municipais trmrespostapara
isso 6 pular uma passagem...
E um tanto excessive passar a idWia -
embora sem afirmn-lo claramente de que a
atual administracao desta capital influiu
nas decis6es que, atW aqui, tem determinado
a political econ8mica do pais. Absurdo,
tanto quanto, 6 sugerir que a administration
municipal tem poder de fogo para corrigir
as brutais desigualdades geradas por essa
political econ6mica.
Nessa Area, pode o municipio, no rm-
ximo, desenvolver aqCes de carter emer-
gencial e compensat6rio, na tentative de
minimizar os efeitos da political econ6mi-
ca. t o que tern feito o Governo do Povo,
corn iniciativas como aUsina Progresso, o
Banco do Povo, e o permanent esforgo no
sentido de impor um minimo de discipline
ao comrrcio em vias ptblicas. At6 onde
minha mem6ria alcanqa, nada parecido foi
pelo menos tentado pelas nossas queridas
administracdes anteriores. Estas se
limitaram a desenvolver uma political
repressive, tAo perverse quanto ineficaz,
sem pelo menos tangenciar o problema,
dela restando apenas a lembranqa de coi-
sas como o famigerado "Zd do rapa ".
t bom lembrar, aliAs, que, volta e
meia, algumas iniciativas da atual admi-
nistraqlo municipal sAo torpedeadas, im-
pedindo-as de produzir at6 mesmo os
efeitos compensat6rios ha pouco


referidos. Para ficar num dnico exemplo,
cito o ocorrido cor o terreno baldio de
uma das esquinas da Av. President
Vargas, parcialmente pertencente ao
municipio, e onde a PMB estA impedida
de executar um projeto que abrigaria
parte dos ambulantes daquela art6ria, e
que contaria corn barracas para exposigio
de produtos, lanchonete popular e
espaqo para shows. A genialidade
urbanistica que conduziu a esse
impedimento prefer manter o terreno
como viveiro de ratos, ao mesmo tempo
em que, hipocritamente, se queixa dos
inconvenientes provocados pelo com6r-
cio em vias p6blicas.
Aqui no Pard, a situaqao poderia ser
um pouco diferente, se os recursos arre-
cadados corn a privatizaqao do grupo
Vale e da Celpa, por exemplo, houvessem
sido reinjetados na economic,
viabilizando o surgimento de novas
empresas e novos empregos. Para onde
foi essa dinheirama? Se voc8 sabe, por
favor, escreva um artigo a respeito...
Em Bel6m, especificamente, a situa-
qFo tamb6m poderia ser um pouco diferen-
te, se o municipio nio estivesse como
at6 aqui tern estado sob cerco de dife-
rentes procedencias, que obstaculiza o
repasse de recursos federais decorrentes
de emendas parlamentares (esperta e far-
tamente alardeadas em peas de propagan-
da political, como se representassem
dinheiro certo para o municipio), impede
a cobranqa de multas de transito detecta-
das por sensoriamento eletr6nico e "gar-
fa 280 milh6es de reais da receita pi-
blica municipal (outro assunto interes-
sante para um artigo seu).
Umabrago.
EliasTavares











Lixo
Em fevereiro de 1914 o Departa-
mento Municipal de Limpeza Pu-
blica colocou em operaqdo um
"auto-caminhao" para o serviqo
de coleta de lixo em Bel6m, o pri-
meiro a atuar na regido. O veicu-
lo foi fabricado em Paris por uma
firma que tamb6m era fornecedo-
ra da municipalidade francesa.
Com potencia equivalent a 60
cavalos, o "auto-caminhio" tinha
capacidade para cinco toneladas,
mas seu raio de aao era restrito.
Pela manha ele recolhia o lixo nas
avenidas Independencia (Gover-
nador Magalhaes Barata) e Naza-
r6. A tarde, circulava pelas ruas
28 de Setembro, 13 de Maio e
Joao Alfredo. Na 6poca, Dionisio
Bentes era o intendente de Bel6m.
O director do departamento era
Francisco Domingos dos Santos.

Anuncio
Atrav6s de antincio na Folha do
Norte de janeiro de 1956, CIau-
dio Jos6 e Carlos Augusto parti-
ciparam aos parents e amigos de
seus pais, Ajax Carvalho
d'Oliveira e Maria de Nazar6
Rollo d'Oliveira, o nascimento do
irm5o mais novo, Rubens, "ocor-
rido no dia 10 do corrente, na
Maternidade da Santa Casa, sob
os cuidados profissionais do dr.
FlAvio Brito Pontes".
O pai viria a ser prefeito de
Belem, entire outros cargos pd-
blicos. Rubens 6 atualmentejuiz
federal em Bel6m. Os andncios
de "nascimento-participaqao"
eram, na 6poca, tdo comuns
quanto os de pedido de casa-
mento, de saidas de Bel6m e de
chegadas. A falta das colunas
sociais, ainda nao difundidas
como viriam a ser depois (e ba-
nalizadas, hoje), serviam esses
comunicados de mural social.

Asfalto
0 advogado Irawaldyr Rocha
(jd falecido) ocupava
interinamente a prefeitura de
Belim, em agosto de 1964,
quando a Secretaria Municipal
de Obras langou a primeira
canada de asfalto sobre o leito
da avenida Senador Lemos,
preparando-o para receber em
seguida o concrete asfalto. 0
trdfegofoi desviado para a rua
Jer6nimo Pimentel. Era o
Umarizal e o Teligrafo se
incorporando ao sistema vidrio
central da cidade.


Trote
S6 em 1962 a Faculdade de Fi-
losofia cedeu e fez seu primeiro
trote de calouros, que jd se tor-
nara uma tradiqgo entire todos os
cursos superiores. Talvez tenha
servido para quebrar o tabu a
transferencia do curso para uma
nova sede, na avenida Genera-
lissimo Deodoro (onde hoje
esta o serviqo de imigragqo da
Policia Federal).

Contrabando
Itens de um leilao feito pela al-
findega de Bel6m em fevereiro
de 1962, com mercadorias con-
trabandeadas que haviam sido
apreendidas pela fiscalizaqao:
ufsque White Horse (o ultra-con-
sumido Cavalo Branco), Lander-
sel e President; sanddlias japo-
nesas, sapatos de camurqa, cigar-
ros LM, ligas femininas, lagos de
gravata, creme de barbear Bill-
Cream, abotoaduras, perfumes,
mamadeiras, mascaras de borra-
cha, camisas de malha, lengos e
o conjunto mais cobiqado: qua-
tro portas, dois estofos e uma
tampa de mala de um autom6vel
Ford, tipo Fairlane, modelo 1955
partiess que, depois de juntadas
ao principal, a ser arrematado em
outro lance, formariam o Cadi-
llac contrabandeado mas lega-
lizado com o qual um bacana
desfilaria pela cidade).
Os arrematantes do leilao:
Tecidos Ledo, J. Sampaio, Impor-
tadora Rosdrio, a Severino, Elias
Hage, Para Comercial, Mike F
Cooper e Jorge Resque.

Colunista
Menos de dois meses depois de
ter perdido o mandate de vice-
prefeito de Bel6m (o prefeito era
Moura Carvalho, tamb6m cassa-
do) e ficar sem seus direitos po-
liticos por 10 anos, em conseqii-
8ncia de ato institutional dos mi-
litares vitoriosos, Isaac Soares re-
cebeu grandes homenagens por
ocasiao de seu aniversirio, em 12
de agosto de 1964. Atd a Cama-
ra Municipal, que se mantinha
encolhida, temendo punigao re-
voluciondria, comemorou a data.
A cassag~o interrompeu a mete-
6rica carreira political de Isaac,
mas abriu-lhe uma outra aveni-
da, muito mais larga, que ele per-
corre at6 hoje: o colunismo soci-
al. Munido de um passaporte
aceito em qualquer barreira: a
simpatia pessoal.


Quem, tendo mais de 50 anos, nAo se lembra dos tecidos Bangu? Eram
sin6nimo de elegancia, cultivada anualmente atrav6s de um concurso
de beleza, o de Miss Bangu. Para o Rio de Janeiro iam as senhorinhas,
inclusive as paraenses, disputar o cobiqado trof6u, que valorizava ain-
da mais o dote no casamento. Em agosto de 1964 a loja Bangu liqui-
dou o estoque e entregou seu pr6dio, no inicio da rua Joao Alfredo,
que era a passarela da moda. Mudaram os h6bitos, mudou Bel6m.
iiiimmmmmmmmmmminiiimmmmmmiimmm


Mogno
A atuaqAo predat6ria de uma em-
presa estrangeira, a Rio Impex,
na area de Tucurui, destruindo
madeiras de lei, sobretudo o
mogno, levou o entao deputado
estadual Gerson Peres a proper,
em julho de 1964, a criagqo do
Institute Paraense de Mogno.
Aldm de fiscalizar e regulamen-
tar a atividade madeireira, ao
mesmo tempo em que estimula-
ria os investimentos no setor, o
institute deveria criar o Jardim
Botanico e o Museu Florestal do
Estado. A id6ia, por6m, nao pros-
perou. Ja a destruiq~o do mogno
seguiu em frente. A jato.


Cursos
O Centro Cultural Brasil-Estados
Unidos reiniciou suas ativida-
des, em agosto de 1964, ofere-
cendo cursos de pintura (por Pa-


olo Ricci), desenho (Bohdan
Bujnowski), escultura (Joao Pin-
to) e bald (Lilliane Weinberg).
De primeira, portanto.

Cirio
Em 1966 o jomal A Provincia do
Pard colocou em circulaq~o um
tabl6ide especial sobre o Cirio da-
quele ano, com o apoio das suas
empresas estaduais de energia em
atividade na 6poca (a Celpa e a
Forca e Luz do Pari, ou Forluz,
como era mais conhecida). A mai-
or atraqco do suplemento eram as
fotos panoramicas de Leocadio
Ferreira, "reveladas em Fortaleza
e enviadas especialmente a este
jomal", dizia a chamada de primei-
ra pfgina de A Provincia. Mas a
prata da casa tamb6m respondia
present, com os rep6rteres-foto-
grificos Porfirio da Rocha e Ayr-
ton Quaresma, dois dos melhores
que a terra jA produziu.


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