|
![]() |
|
| UFDC Home |
myUFDC Home | Help | RSS
|
|
ALL VOLUMES
CITATION
THUMBNAILS
PAGE IMAGE
ZOOMABLE
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Citation | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
STANDARD VIEW
MARC VIEW
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Full Text | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Jomal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO ANO XVI N" 294 NOVEMBRO DE 2002 R$ 3,00 ELEIGAO 0 companheiro Lula no paraiso '98 Ie - Depois de insistir na dispute pela PresidOncia da Repziblica tanto quanto Allende e Mitterrand, Lula conseguiu vencer. Sobepara uma posiido quepoucos lideres de esquerda ocuparam, como Gonzdlez e Walesa. Sua vitoria entrou para a hist6ria. Mas agora comega outro capitulo. A gloria podeficar do lado defora. Aclasse operdria quem diria! chegou ao paraiso. NMo na Italia, terra de Elio Petri, o cri- ador do belo filme, que reno- vou utopias, ou em qualquer outro pafs do Primeiro Mundo. Usando um desvio da rota principal, pela qual tra- fega a hist6ria dominant do mundo, num remote pais da Am6rica do Sul, grande pela pr6pria natureza, apequenado por seus dirigentes, um operdrio conquistou o maximo de poder. Luiz Inicio Lula da Silva, aos 57 anos, realizou uma faqanha capaz de lhe assegurar, desde j, indepen- dentemente do que venha a fazer, um lu- gar especial nio s6 na hist6ria brasileira, mas na hist6ria universal. Seu ingresso no panteao das estrelas de primeira grandeza exige, por6m, que ele passe pelo teste de consistencia das grandes mudangas, feitas para valer. E inevitivel compard-lo a Salvador Allen- de. Durante tres d6cadas, Allende pere- grinou, como m6dico e como politico, pelos extensos caminhos do territ6rio e da political chilenas. Conquistou gran- des vit6rias, sofreu derrotas monumen- tais. Mas nao desistiu. Acabou tirando a presidencia das maos supostamente limpas da democracia cristd para enca- rar um desafio original para a humani- dade: a conciliaqao do socialismo com a democracia. Para implantar o socialismo num pais subdesenvolvido e dependent, Allende precisaria ter forqa. Mas como ser forte se ele nao dispunha de maioria parlamentar, sendo o parlamento um dos p6los de equi- lfbrio e de fianga da democracia? Os com- panheiros de viagem insistiam para que o "companheiro president" (a expressao voltari a ser usada, agora no Brasil) incor- porasse a visdo leninista da tomada vio- lenta do poder e da implantaqgo de um sis- tema politico baseado no partido 6nico. Seria mais uma "ditadura do proletariado", fazendo a transiq~o para o paraiso de uma sociedade sem classes. Observador da his- t6ria, Allende queriajustamente evitar esse atalho. No final da reta, invariavelmente encurtada, surgia nao o comunismo igua- litArio sonhado pelos utopistas, mas uma tirania. Ao inv6s de Icaria, o Gulag. S MAA 'REq3 f-A-., "C; B 2 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002 Para nao se expor A seduhao do golpe de esquerda, o amavel e decidido Allende passou a ignorar o que Ihe diziam os seus companheiros e aliados, personagens de um amplo espectro, que ia do cristdo Ra- domiro Tomic a marxista Martha Hannae- cker. Mas tamb6m deixou de ver os claros e decididos movimentos golpistas da plu- tocracia chilena e dos chefes militares, mantendo o future tirano, general Augus- to Pinoche:, na chefia do seu metafisico esquema de seguranga. A mais generosa e rica experiencia da Amdrica Latina at6 entao (e do mundo mesmo) terminou tra- gicamente. Allende pagou por seus erros, praticamente todos veniais, cor a bravura final, indtil, mas digna. Morreu resistindo ao golpe no Palacio La Moneda. Foi mais long do que seu antecessor de duas d6ca- das nesse gesto extreme, o brasileiro Ge- tilio Vargas, que peferiu se matar a enfren- tar o golpismo military. Allende era um home da elite chile- na, nao das camadas mais pobres. Era um m6dico, nao um operdrio. Praticando seu oficio e suas id61as desde as remotas para- gens do seu belo pais at6 a capital, de vi6s europeu, construiu uma carreira e um pro- grama comprometidos cor um prop6sito claro: implantar o socialismo no Chile. Sua ferramenta era macia; retirada de almoxa- rifados europeus de id6ias, especialmente do patrim6nio italiano de Ant6nio Grams- ci. Ao inv6s de ditadura do proletariado, hegemonia political, em sentido amplo. Mas nunca escondeu ou maquiou seus objeti- vos. Era o ide6logo de uma proposta que, mal comparando, podia ser chamada de Terceira Via, desnaturada pelo que tem fei- to o britfnico Tony Blair, tamb6m de um partido que se proclama trabalhista, no exercfcio do poder numa Inglaterra atrela- da abjetamente aos Estados Unidos. Lula nao 6, portanto, um novo Allen- de, embora haja pontos de contato entire os dois lideres latino-americanos. Lula 6 um verdadeiro home do povo, said de suas entranhas antes de se solidarizar com as reivindicaq6es e esperancas do sempre mal assistido povo brasileiro, buscando uma ideologia compativel com esses objetivos. Mas Lula nio fez a campanha deste ano, que Ihe permitiu finalmente vencer a dis- puta pela presidencia da Repdblica, pro- metendo o socialismo aos brasileiros. Certamente prometeu coisas que pra- ticamente exigem o socialismo para se concretizarem. Mas se sua ret6rica tives- se incluido o socialismo, ele nao teria sido eleito. Ou pelo menos nao teria tido o apoio dos que Ihe permitiram eleger-se, nao por Ihe terem dado diretamente os votos, mas por Ihe haverem proporciona- do a grande estrutura de acesso aos vo- tos, sobretudo aos votos mais distantes e mais dificeis de conquistar neste gigan- tesco (e pantagru6lico) pais. Lula 6, portanto, o que 6. Mas 6 tamb6m o que nao 6, o que prop6 e o que nao pro- poe, o que diz e o que nio diz, o que mostra e o que esconde, seus compromissos pesso- ais e suas aliancas eleitorais, suas id6ias e suas conveniencias. Lula realizou o que era considerado impossivel. Agora que conquis- tou o poder, o possivel de ontem sera o te- merario de amanh. O que foi ficil de acre- ditar na campanha podera ser substituido pelo ceticismo, a descrenga, a frustraqo e a revolta. Numa velocidade dificil de anteci- par hoje. Mas que pode ser acelerada. Lula tamb6m pode ser comparado ao president socialist da Franqa, Francois Mitterrand, que persistiu na derrota at6 ser eleito, quando parecia estar condenado a ser um eterno figurante. Mitterrand come- qou cor quatro comunistas no minist6rio, embora em cargos secundarios, e um au- dacioso program de transformaq6es. Na passage do primeiro mandate para a tem- porada final de sete anos no poder, ele es- tava abaixo do perfil dos sociais-democra- tas. Mitterrand estava mais pr6ximo do povo do que Allende, mas terminou muito mais distant. De tudo, alias. Alguns estao buscando luzes mais for- tes no paralelo com outro lider socialist europeu, o espanhol Felipe Gonzalez. Mas certamente ha mais o que comparar entire Lula e Lech Walesa, ambos operirios, li- deres da categoria, animadores de sindica- to e formadores de partido. O desfecho de Walesa pode ser mais instrutivo para Lula do que a trajet6ria ascendente do lider po- lones. As li96es, bem aprendidas, podem poupi-lo de surpresas desagradiveis. Independentemente de todas essas cir- cunstfncias, Lula ja 6 um personagem da hist6ria do mundo. E impossivel nao ter simpatia por ele e desejar que seja bem- sucedido como o primeiro home do povo a alcanqar a Presid8ncia da Repdblica. Nao significa, por6m, que va conseguir reali- zar o que anunciou na campanha eleitoral apenas mantendo em alta a sintonia emo- cional com a maioria dos brasileiros. E cru- el a heranca que Fernando Henrique Car- doso Ihe transmitira no dia 1 de janeiro. Se Lula mant6m no mais intimo a esperan- qa de poder manter a conduqao do gover- no sem mudanqas, para acomodar os pro- blemas e tomar f6lego, a simpatia popular se esfumara como perfume barato. Provavelmente nao 6 assim que ele pre- tende agir. Sua primeira decision como pre- sidente eleito, de combater a fome, seguiu o rumo certo. Espera-se, por6m, que ele nao se oriented por um impulse simplesmen- te voluntarista, messianico. Combater a fome significa estimular a producqo de ali- mentos, montar uma rede de restaurants pdblicos, estabelecer esquemas de comer- cializago favoraveis as duas pontas da li- nha e, o mais important, para que pro- dutor e consumidor sejam beneficiados, criar um sistema de coordenaqo, fiscali- zagdo e intervengqo para impedir os vaza- mentos nefastos da corrupgdo. Rapidez, racionalidade e eficiEncia vao ser exigidas da engrenagem governmental. Sera um teste de fogo para o governor petista. Os grandes te6ricos do partido certa- mente conhecem o New Deal adotado pelo president americano Franklin Delano Roosevelt para tirar os Estados Unidos do buraco da crise de 1929. Os programs sociais da administraqao Lula, sem os quais sera impossivel romper o desequilibrio es- trutural da economic brasileira, baseada em metas financeiras e na ortodoxia econ6mi- ca, podiam se inspirar nas aq6es da dupla Roosevelt-Hopkins. HA uma semelhanga entire as duas 6pocas. Por que as solug6es nao podem se comunicar? Quando ocupar o trono republican, Lula passara do estado de encantamento, no qual a estrondosa vit6ria o projetou, para o choque da realidade. Tomara, para o bem de todos e a felicidade geral da naqao, que os problems nao o imobili- zem e o poder nao o inebrie, como fez cor o seu antecessor. Ha um epis6dio que sugere inquietagao. Quando discursou na avenida Paulista, em Sao Paulo, comemorando a vit6ria, Lula procurou ser humilde, mas deixou dentro de mim um residuo de desconfianga. Dis- se que "se errar", ira ao povo admitir o erro. Eu ficaria mais satisfeito que ele tivesse declarado: "quando eu errar...". O "se" su- gere ambigiiidade. O "quando" 6 afirmati- vo. Afinal, Lula errarA. Ou imagine que nao errara? Esperemos que erre no varejo e acerte no atacado. O Brasil p6s-FHC nao lhe dara muito tempo para corrigir o erro, ou para errar mais do que Fernando Henri- que Cardoso. Problems sem car8ncia, 6 o que o antecessor Ihe passara. NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 3 PARA Maria morreu na beira Depois de ter estado tao long do eixo da dispute para o governor do Para, a de- putada estadual Maria do Carmo Martins Lima, de 39 anos, tinha motives para se considerar satisfeita com o resultado da votagdo do 20 turo da eleiqCo deste ano. Desacreditada quando a campanha elei- toral comecou, conseguiu passar na fren- te de dois candidates considerados mais fortes na oposiqao (o senador Ademir An- drade, do PSB, e o vice-govemador Hil- degardo Nunes, do PTB) e ir para o 2 tumo. No reinfcio da campanha, manteve nas pesquisas empate t6cnico ou supre- macia contra o delfim do governador Al- mir Gabriel, seu ex-secretario Simao Ja- tene. Mas quando a praia estava ao alcan- ce da sua canoa, naufragou na beira. Talvez nem se deva dar tanto desta- que a derrota da candidate do PT. O que mais impression 6 o fato de ela ter con- seguido chegar tao long. Esquecida pe- los adversirios, que nao acreditavam nas suas possibilidades, Maria do Carmo atra- vessou ilesa a campanha do 1 turno. Mas quando o confront pas- sou a ser bipolar, suas ca- rancias e insuficiencias emer- giram. No debate contra Jate- ne,*seu desempenho moldou-a num perfil que o eleitor esti cada vez mais propenso a rejeitar: de despreparada. Se estivesse mais bem pre- parada, nao teria cometido tantos erros, os mais crassos dos quais, por seu apelo po- pular, foram o desconheci- mento do valor exato da ta- rifa de 6nibus em Bel6m (es- quecimento de fundo trau- mitico, talvez, por causa do bisonho papel da adminis- traqco municipal do PT nes- se setor vital para a popula- gqo urbana) e do efetivo da Polfcia Militar do Estado, algo desmoralizante (sobre- tudo pelo tamanho do erro) para quem pretendia dar realce A seguranqa pdblica. Maria do Carmo errou tamb6m por calcar muito cedo sapatos muito altos. A insistencia irritante em se as- sociar a Lula e deixar-se levar emocio- nalmente pela onda vermelha, pequena para abrigar tantos surfistas (como de re- gra, o mais aqodado foi o prefeito Edmil- son Rodrigues), sugeria ao eleitor perda de identidade. Lula fez muito por ela, mas nao podia fazer tudo e nem a maior parte. Insistindo no maniquefsmo primario, a campanha do "jd ganhou" acabou produ- zindo efeito contrdrio: muitos eleitores preferiram arriscar na combinagdo hete- rog8nea, de Lula e Jatene, para ter um governador dotado de fisionomia pr6pria. Internamente, o PT paraense voltou a cometer um erro que o PT national exor- cizou: o de nao cumprir acordos. Apesar da declaraqgo de iltima hora em favor da candidatura da deputada federal Elci- one Barbalho ao Senado, nas ruas o ges- to se tornou ret6rico e in6cuo. 0 PT pe- diu para o eleitor votar em Elcione, mas nao assumiu sua candidatura. Foi um apoio para ingles ver. O PMDB percebeu a farsa. Apanhado no contrap6, que Ihe rendeu dissabores de ocasido e ainda poderi acarretar dores de cabega no future, o ex-senador Jader Bar- balho se desligou completamente dos pe- tistas no 2 turno (embora mantendo dii- logo com a direcqo national do PT, inclu- sive para assegurar a eleiqao de Jos6 Dir- ceu h presidEncia da Camara Federal). O lavar de maos de Jader foi o iltimo sinal que faltava para os peemedebistas passa- rem de vez para o lado do PSDB. A mais valiosa incorporagao a nau tucana foi a do deputado federal Wladimir Costa, que reforgou a coleta de votos para Simao Ja- tene em Bel6m, reduzindo ao minimo a desvantagem do 1 turno e mostrando que Edmilson vai ter dificuldades redobradas para fazer o successor (inclusive porque a frente intera petista voltari ao estado anterior de belicosidade). Outra significativa alteraqao na distri- buigqo de poder resultou da volta do gru- po Liberal ao ninho situacionista. A cor- rec~o de rumo comeqou quando o gover- no quitou a divida de quase um milhdo de reais da Funtelpa, pagando de uma vez os tres meses pendentes do "con- v8nio" entire a fundaqo de telecomu- nicaq6es do Estado e a TV Liberal (ver, a prop6sito, o JP 292). O di- nheiro entrou nos cofres do grupo Liberal exatamente em mais uma circunstancia adversa de caixa para o pagamento dos salarios dos funciondrios da empresa. O entendimento sonante chegou at6 a ji traditional divulgaqgo da pesquisa fi- S nal do Ibope, no dia da vo- taqAo. S6 que, ao contra- rio de dois anos atris, quando a publicagqo favore- ceu o PT, influindo para a apertada reeleigio do prefei- to de Bel6m, desta vez a em- balagem foi preparada para ser- vir a Simao Jatene, nAo se saben- do se da mesma maneira como em 2000 (com a mudanca dos benefici- os, 6 claro). A reedigao do mesmo m6todo bem que podia levar um parla- mentar mais s6rio e audacioso a proper que as pesquisas eleitorais s6 possam ser divulgadas at6 o iltimo dia da propagan- 4 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002 PROGRAM da eleitoral gratuita (que, alias, 6 onero- sa aos cofres pdblicos). Afinal, pesqui- sa nao pode ser usada como gazua. A combinacqo de tantos erros ou cir- cunstincias no final da reta tirou de Ma- ria do Carmo uma vit6ria que muitos dos seus correligionarios (sobretudo os de dltima hora) ji davam como certa. De certa forma, por6m, o imprevisto fez justiga a ur.a situagco que tamb6m re- sultara do acaso. Tanto o PT como sua candidate nao fizeram jus A vit6ria. Mas, e o vitorioso? Simao Jatene ga- nhou com o rosto de Almir Gabriel, com sua miquina. A identidade dos dois se fundiu no curso da conviven- cia, sendo dificil identificar com clare- za onde comega um e terminal o outro, ou quem imita a quem, quem influen- cia a quem, onde 6 o ponto de origem desse cons6rcio. A fusao foi tAo perfeita que, inter- rompendo longos anos de tradig~o no uso eleitoral da mdquina official, desta vez o governor deixou suas impresses digitais no ilicito eleitoral. Sendo Jate- ne e Almir uma coisa s6, sem separa- ~io ficaram a engrenagem eleitoral e o aparato governmental. Na confusao, muitas provas foram sendo deixadas pelo caminho do ex6rcito tucano. Se a representagCo feita pelo PDT nao conseguir fazer o Tribunal Superi- or Eleitoral apreciar o m6rito da ques- tao, uma dentincia do Ministdrio Pibli- co Federal, se tal for o resultado do in- qu6rito em curso, reabrirA a questdo, turvando o brilho da faqanha que o PSDB do Pard conseguiu e o national, nao: materializar a profecia do ex-mi- nistro S6rgio Mota, de que a chegada dos tucanos ao poder era para durar pelo menos 20 anos. Se vencer esse obsticulo, o que fard o economist Simdo Jatene, 53 anos, dono do primeiro mandate eletivo de sua carreira, e justamente o mais im- portante do Estado? Por enquanto, bas- ta-lhe ouvir o que lhe diz o atual go- vernador, discurso que, por sinal, era o que lhe fazia seu ex-secretirio de pla- nejamento e da produq~o. E assim, num vai-e-vem circular, um falou ao outro, esti falando e falard, nesse cir- cuito fechado em que se transformou a corte dita social-democrata na capi- tal dos sert6es paraense. La fora, o povo continuard recebendo circo e ta- teando A procura de pdo. A utopia: entire FHC e Lula PT prometeu criar, quando assu- mir a Presid8ncia da Repdblica, um Conselho Nacional de Politi- cas Regionais para supervisionar uma Politica Nacional de Desenvolvimento Regional. A visdo regional do desenvol- vimento existe no Brasil, na sua feigqo contemporanea, hi meio s6culo. Devia ter comecado em 1946, quando os constitu- intes, reconstruindo a ordem legal no pafs depois da queda da ditadura do Estado Novo, de Getdlio Vargas, determinaram que 3% da receita tributdria liquid da Unido fossem destinados A "valorizaqdo econ6mica" da Amaz6nia. Para que a diretriz nao ficasse A merc8 da regulamentaqio do dispositivo consti- tucional, tarefa sempre complicada no a~mbito do parlamento, foi elaborado um "plano de emerg6ncia". Somente sete anos depois, por6m, o primeiro piano de de- senvolvimento regional comeqou a ser colocado em pritica, cor a criaqao da SPVEA (Superintend6ncia do Piano de Valorizaqio Econ6mica da Amazonia). Desde entio plans e instituiq6es se sucederam, mas o vasto Brasil seguiu seu caminho de forma desigual. A expansion da atividade produtiva incorporou novas fronteiras territoriais, mas esse alargamen- to fisico nao se traduziu em desenvolvi- mento. Notiveis p6los de producio (bati- zados de "grandes projetos") brotaram no meio da floresta, em lugares ermos e dis- tantes, e se conectaram a mercados mun- diais. Mas a Amaz6nia nao se aproximou - nem socialmente e nem economicamen- te dos centros concentradores de rique- za e de modernidade no Brasil. O incremento dos elements quantita- tivos se distanciou dos components qua- litativos desse crescimento. O resultado 6 que se agravaram os desniveis inter-regio- nais. A renda per capital amaz6nica perma- neceu sendo a metade da m6dia national. A do Nordeste, um degrau abaixo. Duran- te esse meio s6culo, apenas na metade meridional do Centro-Oeste houve algum grau de sincronia entire crescimento fisico e desenvolvimento. Talvez porque essa parte esteja mais pr6xima do p6lo nacio- nal hegem6nico do que as distantes fren- tes pioneiras, muito mais voltadas para o al6m-mar do que para o centro do pais. Pianos regionais hi em abundancia nas prateleiras da administraqao federal. O do PT, mesmo que pudesse ser considerado o melhor at6 agora elaborado, nao 6 o pri- meiro. E a primeira vez, contudo, que se propoe um Conselho Nacional de Politi- cas Regionais. O maximo de sintonia, ao menos formal, entire a administraqgo cen- tral do Brasil e suas cinco regi6es (divi- sdo cuja metodologia 6 freqientemente contestada), foi durante o hieritico gover- no do general Emesto Geisel, que funcio- nou com um Conselho de Desenvolvimen- to Econ6mico e um Conselho de Desen- volvimento Social. O primeiro empenha- do em criar o bolo da riqueza, como meta prioritdria. O segundo, tratando de encon- trar uma forma de dividir o bolo, missao acess6ria (que, alids, se frustrou). A ofensiva regionalista do governor Lula consider as cinco regi6es, mas vai dar enfase ao Nordeste e A Amaz6nia. Ha gerag6es o Nordeste 6 encarado como re- giao-problema, vitima de enfermidades que hi s6culos v8m atrofiando seu orga- nismo. A Amaz6nia era a promessa de future, o Eden das utopias, mas sua car- ga de problems ji suscita ddvidas so- bre a viabilidade dessas projeq6es. As duas regi6es tem se distanciado do con- junto national. Lula promete que vai aproximi-las do todo, nao de uma forma messianica, como pareceria pr6prio ao modo petista de agir, mas confo rme a melhor linguagem dos tecnocra- tas, sacerdotes do pragmatismo: integran- do-as de vez ao mercado, seja ele local, national ou international. Se o desenvolvimento do Nordeste 6 tdo important para o PT quanto o desenvol- vimento da Amaz6nia, apenas a Amaz6- nia mereceu um dos sete cadernos temAti- cos que apresentaram o program de go- verno de Luiz Inicio Lula da Silva. Foi o inico cademo regional numa colegLo de estudos setoriais. Talvez esta singeleza sir- va para destacar a atengqo do future go- verno federal a um dos assuntos brasilei- ros que mais interesse suscita no mundo atualmente. 0 pais do futebol, das mula- NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 5 tas, do camaval, de Carmem Miranda e de Pel6 6 conhecido agora, nos quatro cantos do planet, como o pafs da floresta amazO- nica, da enorme bacia amaz6nica, o reino das aguas e da diversidade de vida. Justamente por isso, ao final de suas 33 piginas, o caderno temitico O lugar da Amazonia no desenvolvimento do Bra- sil constata: "A sociedade da Amazonia 6, hoje, uma das mais organizadas e mo- bilizadas deste pafs. Redes de organiza- 95es nao governamentais, de associaq5es comunitarias, de entidades independents de pesquisa estao estruturadas em toda a regiao e prontas para realizar parcerias na gestao dos programs governamentais. Esse modelo se fortaleceu na resistencia ao modelo de integraqdo predat6ria e na ausfncia de polfticas pdblicas apropriadas. A sociedade amaz6nica sabe o que quer para o seu future. Nosso gover- no vai trabalhar para que essa mobilizaqIo hoje existente, governa- mental e nao gover- namental, impulsione o desenvolvimento sustentivel da regiao, como uma contribuicgo que define o lugar da Amaz6nia no desenvolvimento do Brasil". De fato, o document incorpora pon- tos de vista, interpretaqces e propostas que vinham sendo feitas A margem ou na margem oposta das aqces correntes do governor federal e de seus parceiros na Amaz6nia. O que era fantasia ou deva- neio da oposidio pode se transformar em political piblica. O governor Lula se pro- poe a combater, por exemplo, "a falsa id6ia de que impedir a derrubada de no- vas ireas de floresta engessa a economic da AmazOnia". Pelo contrdrio, "submeter a inestimavel riqueza das florestas ama- z6nicas [isso mesmo: hd vdrias florestas amaz6nicas e nao uma s6; hd, na verda- de, vdrias Amazonias escondidas por de- baixo da copa de numa AmazOniafalsa- mente homogenea] a duas inicas ativida- des madeira e pecuiria ou madeira e soja - 6 que engessa a economic. A base pro- dutiva da regiao pode ser ampliada com seu vasto estoque de mat6rias-primas, pro- porcionando atividades empresariais em todos os ramos da economic". Se hi ilhas de novidade no documen- to do PT em relaqCo aos textos que saf- ram da forja federal nos dltimos anos, aproximando o discurso do governor do discurso de ONGs e outras instincias de representaao da sociedade, e at6 dos pr6- prios individuos diretamente, quando se trata da Amaz6nia o grande desafio de Lula se assemelha ao grande desafio que teve o president Fernando Henrique Car- doso: aproximar os diversos discursos, mesmo os que se afinam tomando como parametro o conhecimento cientifico e as melhores praticas humans, do piano da realidade. Ou seja: impedir que o discur- so seja um boi de piranha para que a ma- nada das atividades atravesse inc61ume em outro ponto, desviando os interessa- dos do que, efetivamente, interessa. Trans- formam-se no ingl8s da parabola, vendo o falso, ou, como diria o soci6logo, o ideol6gico. O governor FHC che- ga ao fim combinando o lancamento do maior plano de proteqgo de florestas j elaborado no mundo, "possivelmente o maior projeto de pre- servaq~o ambiental do planeta, como diz o discurso, com investi- mento de 395 milhoes de d61ares (1,4 bilhio de reais), o Programa de Areas Protegidas da Amaz6nia (Arpa), destinado a bene- ficiar uma area de 500 mil quil6metros quadrados, com o retorno de indices ex- tremamente graves de desmatamento. Assim, uma mao de boas intencqes do governor tenta construir o que a outra mao, obsessivamente empenhada na construqao de indices quantitativos, "desconstr6i", para usar um jargao que voltari ao coloquialismo do president no seu retorno As lides acad6micas. 0 PT, eleito com o compromisso da mudanqa, nio esti imunizado contra essa forma de esquizofrenia. Embora tenha montado seu program amazOnico depois de seminirios realizados em virios Es- tados da regiao, recebendo e absorven- do contribuiqces de todos os participan- tes desses encontros, e nao apenas dos 22 notiveis responsiveis pela elaboraqao do document (dos quais, apenas quatro da pr6pria regiao amazonica), os exem- plos positives que cita do que seri a po- litica global para a Amaz6nia se restrin- gem a dois Estados (Acre e Amapi) e a um municipio (Bel6m) em que o partido control o poder, diretamente ou atrav6s de um aliado. Embora nessas unidades haja bons exemplos a apontar como an- tecipaqdo do que vird, nelas hi tamb6m maus exemplos. Pensando bem, nHo 6 ficil definir se o peso positive 6 maior do que o negative. O espfrito olimpico e a liberdade de pensamento que o document pr6-eleito- ral apresenta podem vir a ser testados bem cedo, quando Lula sentar na cadeira e empunhar a caneta do president da Re- p6blica, no dia 1 de janeiro. A "floresta- nia", conceito posto em pratica no Acre para destacar o uso miltiplo dos recursos da floresta, pode ser confrontado com o "agrarismo" dos te6ricos do partido e do seu bravo executive, o MST, a organiza- Cqo dos "sem-terra". Uma pressed maior dessas bases pode colocar as political agrdrias a frente das politicas ambientais ou da natureza. O MST e a CPT, principals aliados de Lula no setor rural, se preocupam mais cor os assentamentos de lavradores, expandindo a fronteira, e acreditam que a AmazOnia 6 um lugar certo para a agriculture. Ou- tras correntes, ao contrArio, acham que a Amaz6nia nao 6 um lugar pr6prio para a agriculture, e sim para a atividade flores- tal, o extrativismo e usos alternatives dos recursos naturais. Nao querem novos as- sentamentos em florestas virgens. HA matizes entire os dois extremes e hi meios de compatibilizi-los, mas se os pontos de vista dos agraristas prevalece- rem, 6 provivel que as taxas de desmata- mento continue altas ou at6 sejam in- crementadas. Diga-se que foi essa a posi- q~o dominant nas administraq6es fede- rais anteriores, especialmente na de FHC, que sempre defended, como soci6logo, a expansdo do capitalism nas frentes pio- neiras amaz6nicas, seguindo um modelo estabelecido do centro para a periferia. Tamb6m 6 bom nao esquecer que FHC e Lula, formando sua mentalidade no f6rtil solo paulista, um carioca e o outro nordestino, um nos livros e outro nas ruas, andaram juntos sobre o tema at6 nao muito tempo atrAs. E, sobre o tema, parecem ter-se afastado menos do que aparentam, como logo se vera, espe- rando-se ver realmente o novo do discur- so se tornar o agradavelmente novo da agqo. A Amaz6nia, a meio caminho en- tre o celeiro das utopias, que foi, e o al- moxarifado de problems, em que vai se tornando, ji merece essa harmonia. 6 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002 INDIOS 0 capitalism vai A aldeia Ja vai fazer 30 anos que os Gavi6es re- alizaram o feito in6dito: foram os primei- ros indios em toda a hist6ria brasileira a lidar com o mercado financeiro. Num cer- to dia de 1976 o indio Cutia (que, a bem da verdade, era Potiguar e nao Gaviao) abriu uma conta em nome da tribo na agnncia do Banco do Brasil em Marabd, distant 30 quil6metros da aldeia, no violent sudeste do Pard. O dinheiro provinha de uma inde- nizaqao que a Eletronorte (Centrais E16tri- cas do Norte do Brasil) pagou para que a linha de transmissao da hidrel6trica de Tucuruf atravessasse a drea da reserve Mae Maria ao long de 15 quil6metros, levan- do energia para o Maranhao. Era dinheiro suficiente para que os Gavioes passassem a ser tratados como clients especiais pelo gerente do banco. Muita gente, na 6poca, achou que era dinheiro demais para entregar nas maos dos indios, mas os Gavi6es ja nao eram jejunos no assunto. Em mais um pionei- rismo, eles haviam conseguido se livrar da instancia patrimonialista que engorda- va no vasto venture da Funai, aproveitan- do-se da tutoria que a fundaqao exerce sobre os indios. Dando o brado de inde- pendencia, os Gavi6es, com a inestimi- vel ajuda da antrop6loga lara Ferraz, afas- taram da aldeia o DGPI (Departamento Geral do Patrim6nio Indigena) e passa- ram a tratar da comercializagao de sua safra de castanha, o principal produto da aldeia, diretamente com os exportadores da valiosa amindoa, negociando em Be- 16m quantidades e pregos. Essa dificil negociaqao, empacada no mau hibito dos exportadores de ganhar o maximo e ce- der o minimo, adestrou alguns lideres da tribo, especialmente Cutia, uma esp6cie de ministry da fazenda entire os Gavioes. A indenizaqao da Eletronorte, que construfa a segunda maior hidrel6trica brasileira, tamb6m nao caiu do c6u. O entao president da subsididria da Eletro- bras, coronel (da reserve do Ex6rcito) Raul Garcia Llano, era duro na queda. Para vencer a resistencia dos indios, ele decidiu fazer uma reuniao na casa do ca- cique Kokrenum. Chegou senhor das aqces, sentou-se a cabeceira da mesa e falou grosso e alto. Jokrenum, irmao do cacique, achou que era petulancia demais. Enquanto o coronel ditava as regras, levantou do seu banco e foi 1i dentro. Pressentindo o lan- ce, Cutia me pediu para acompanhi-lo, nervoso. Tinha razao: Jokrenum fora bus- car uma borduna. Queria abrir a cabeqa do ofensor, que deslocara o cacique do seu cerimonioso poder. Demorou, mas final foi convencido a nao lavar corn sangue a injdria, que era involuntaria. O coronel nao estava humilhando o ca- pitao tribal: era seu modo de ser, plan- tado em bom terreno naquela 6poca de autoritarismo castrense. Depois da indenizaqao da Eletronorte, veio o program de assistencia imposto pelo Banco Mundial para aprovar a extra- 9ao de minerio da Serra de Carajas e uma nova indenizaao, a da Companhia Vale do Rio Doce, para que os trilhos da Ferro- via de Carajas tamb6m cruzassem a reser- va Mae Maria, uma ilha de floresta, com suas belas castanheiras, num mar de des- matamento avancando por todos os lados. Para manter essa integridade vegetal, alias, os bravos Gavi6es tiveram que jo- gar duro com os posseiros e seu tutor ad- hoc de entao, o Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins), na in- findavel farra de siglas da burocracia bra- sileira. Em meio a trapalhadas, ambos ameaqavam abrir uma cunha de devasta- qco no 6nico oasis de arvores da regiao. A conta dos indios em Maraba cres- ceu muito e rapidamente. O volume de dinheiro deixou de guardar proporqao corn a maestria da tribo nos principios de ges- tao e ger8ncia. Veio mais frouxamente do que esperavam. Gastaram tamb6m a lar- ga, para o padrao espartano de antes. Re- manejaram a aldeia para o outro lado da estrada e, num lugar mais protegido da curiosidade dos passantes, consumaram outra facanha: a construcao da primeira aldeia indigena em alvenaria do Brasil. In- felizmente, foram enganados pelo arqui- teto contratado. As casas eram ruins e o projeto, deficiente. Outros erros se seguiram, induzidos pelo principio do mando verticalizado do chefe e pelo sistema hierdrquico da sociedade tri- bal. Criticas nao sao bem-vindas na tribo, mesmo que oriundas de amigos, que, por isso mesmo, se tornam menos amigos e aca- bam se afastando. Ainda assim, entretanto, os desvios de dinheiro, as aplicaqGes sup6r- fluas e os erros de concepcio dos Gavioes nao foram nem um pouco mais graves do que os dos chamados civilizados, metidos na pedagogia do com6rcio hi mil6nios. Marcos na hist6ria dos povos indigenas no Brasil, os Gavioes continual a tocar sua vida com autonomia as margens da antiga PA-70, agora BR-222. Nao fariam a felici- dade de Rousseau, mas sao de uma came e de um osso de grande valor. Deixaram, porem, de estar s6s nessa cr6nica da aproximaqco de sociedades primitivas de uma das mais diab6licas das invenq6es do dito mundo civilizado: o dinheiro. O mais recent dos capftulos dessa movimentada novela foi escrito duas semanas atris, uns 300 quil6metros a oeste da aldeia Mae Maria, pelos bra- vos Xikrin do Catet6. Primos menos c6lebres dos Kayap6s, eles tiveram no passado que exibir forga para assegurar a integridade da sua reser- va. Botaram para correr os fazendeiros que tentaram expandir seus limits pene- trando furtivamente na area indigena. Mas nao precisaram ter a mesma agressivida- de guerreira com um vizinho que se esta- beleceu na regiao na segunda metade da d6cada de 60, assumindo o dominio dos plates que escondiam a melhor e uma das maiores jazidas de min6rio de ferro do mundo. A Companhia Vale do Rio Doce, que se tornou dnica proprietiria dessa inestimAvel provincia mineral quando se desfez da sociedade com a americana United States Steel, em 1977, procurou manter sempre boas relaq6es de vizinhan- Ca com os Xikrin. Essa diplomacia foi agora perturbada por outro ineditismo: pela primeira vez os fndios deixaram de ser vitimas para ser os autores de uma invasao. Aproveitando-se da madrugada, eles bloquearam um aces- so a area de exploracao de ferro. Nao fize- ram qualquer violencia. Tinham apenas uma exigencia: que a Vale lhes pagasse mais do que a cota mensal de 100 mil re- ais. Os Xikrin, endividados no com6rcio local, precisavam urgentemente de 400 mil reais para saldar dividas que os estavam sufocando. Embora conduzam o inico pro- jeto de manejo florestal em terras indigenas que existe no pais, nao era por causa desse empreendimento que os indios estavam ar- golados. Era mesmo por consumismo. NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 7 Esse nao 6 um problema novo, nem isolado e muito menos singular. Ele esti se multiplicando e se avolumando porque as reserves indigenas estao entire as terras mais valiosas da Amaz6nia. Quando os Gavi6es se libertaram do jugo do DGPI, provando que atuando diretamente na ati- vidade commercial eram capazes de gerar mais dinheiro do que seus tutores gover- namentais, a chamada sociedade envol- vente fazia cavalo de batalha no combat ao surgimento de areas protegidas para indios. Muitos conflitos surgiram e se tor- naram sangrentos para que elas nao che- gassem aos pap6is oficiais; chegando, nao se materializassem; e, sendo oficializadas, nao se tornassem realidade no terreno, atrav6s da demarcagqo. Hoje, esse problema se tornou secun- drio. Reservas indigenas sao mais ficeis ou mais baratas de explorer pelos "bran- cos", desde que os pr6prios indios sejam convencidos ou seduzidos a aceitar o uso econ6mico de suas areas por terceiros, quase sempre a margem do ordenamento legal, aplicavel dentro ou fora dessas re- servas. Ainda ha um ou outro conflito eclodindo, mas eles sao a exceq~o e nao mais a regra. Os choques agora devem-se geralmente a situacao de primitivismo da expansdo da frente econ6mica naquele determinado local. Onde elaja se estabe- leceu e se desenvolveu, o mais freqtiente 6 encontrar produtores defendendo as re- servas e os indios do que o contrArio. Foi assim na relaqdo entire a Andrade Gutierrez e o cacique Tuto Pombo no Xingu, entire a Paranapanema e os Wai- miri-Atroari no Pitinga, entire madeirei- ros ou garimpeiros e os Kayap6 no Xin- gu. A pedra de toque na mudanga de ati- tudes (na dos indios em favor da toleran- cia a invasdo, na dos "brancos" em apoio as reserves, que antes abominavam) foi o dinheiro. Como ele nao pode, a maneira de Alice no pais das maravilhas, ser "de- sinventado", para os indios o desafio 6 buscar uma inserqo mais favorAvel no mundo dos neg6cios da sociedade que os envolve (e, freqtientemente, os sufoca). Se jA se tornou inviavel a utopia for- mulada pelos irmios Vilas-Boas num Par- que Nacional do Xingu interditado ao mundo ao redor, a mecAnica do cotidiano imp6e o know-how administrative e ge- rencial aos indios. O que suas reserves contrm 6 conhecido e sofrera press~o cada vez maior pelas ondas de interesse eco- n6mico que vao bater nas suas bordas. Despreparados para ardis como a forma- cao dos preqos e a valoragao dos produ- tos, os indios tem sido vitimas tanto de espertalh6es vorazes quanto at6 mesmo de amigos muy amigos. alias. Num uni- verso de competiAqo acirrada, mesmo quando dao um pass positive na direqao do amadurecimento de suas organizaqces, como fizeram os Xikrin, estao sujeitos a algaravia do consume, ao efeito inebri- ante de uma moeda viva se agitando em seus dep6sitos de guard. Quando um antropdlogo reapareceu na aldeia Mie Maria, muitos anos depois de ter escrito sobre os Gavioes um dos mais preciosos trabalhos da antropologia brasi- leira, os indios foram recebendo-o corn uma pergunta acusat6ria: o que 6 que o notdvel antrop6logo havia feito ou podia fazer em beneficio, concrete e imediato, da tribo que tIo bem estudara? O c6lebre antrop6logo ficou embaracado. Nao contava que suas cobaias abandonassem o mundo ideal dos conceitos para cobra-lo sobre events que estariam mais bem acomodados na socio- logia, na political ou, quem sabe, nojomalismo. Fez o caminho de volta quase aos tapas, arrastando con- sigo o camera que regis- traria o moment hist6ri- co do reencontro do bwa- na com os nativos. O academico nao fora informado que o ca- pitalismo j i havia chega- do a aldeia, pulando as barreiras do isolacionis- mo cientifico (que exis- te para efeito de tese) e ignorando a litania da SS boa intengqo. Armado Sno mais com o rnstico e Sselvagem 38, mas com o Scintilante e eficiente di- nheiro. Sobre esta nova fase, silenciosa como um virus, fala-se pouco. Tal- vez porque, agora, de pouco valor seja apenas falar. E precise fazer. Se os antrop6logos acham que isso 6 pouco cienti- fico, os indios nao acham. E 6 eles o que, nessa his- t6ria, interessa. 8 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002 Mais lourice na jungle " Mais lourice na jungle" Em Tristes Tr6picos, Claude L6vy- Strauss desnuda e desmascara o habito metropolitan de fazer da col6nia a ex- tensdo dos seus sonhos, caprichos e delf- rios, al6m de travesseiro para aplacar a conscience mauvaise. Ataca a superficia- lidade, inocuidade e nocividade dos rela- tos de viagem, das expediyges a ultramar, das misses no hinterland e na jungle. t um livro maravilhoso, que todo coloniza- do devia ler. Com a condigco de procurar ser menos colonizador. Talvez assim as hiperb6licas incursoes dos nossos bwanas fossem desestimula- das e a contumaz servidao dos nativos, inibida. Talvez as matrizes da nossa cul- tura, mesmo e sobretudo as nacionais, arrefecessem seu impeto de estar sempre a descobrir a p6lvora e sancionar os 6di- tos normativos nas periferias. Talvez se despojassem do hdbito de mirar-se no es- pelho de Narciso e contemplar, em seu umbigo, a universalidade do mundo. Sem esse impulse generoso, temos que deixar de lado o grande livro do antrop6- logo frances e encarar Direto da Selva (As aventuras de um reporter na Amaz6nia), livro escrito por Klester Cavalcanti para a colegco "Vida de Rep6rter" da Geraqio Editorial. A cole9ao 6 uma boa sacada do tamb6m jornalista Luiz Fernando Emedi- tado, o dono da editor. Abre passage para reportagens e testemunhos de rep6r- teres, cerceados pelo preconceito de par- te do mercado editorial, enquanto outra parte os incensa sem razAo. A participag~ o de Klester na coleao, por6m, 6 decepcionante, desperdigando a bela edigqo que a Geracqo Ihe proporcio- nou. O tempo de permanencia entire n6s do reporter pernambucano, de 32 anos, foi curto: apenas dois anos. Graqas a mobili- dade que Veja ainda permitia ao seu cor- respondente, ele percorreu a Amaz6nia, viu e tomou parte em epis6dios importan- tes nesse period. Mas nem sempre p6de entender e mesmo ver o que se passou diante dos seus olhos. Ou por um com- prometimento de visao, causada por id6i- as preconcebidas sobre a Amaz6nia, ou por fantasia. Ndo viu o que devia ver e viu o que inexistia. O principal capitulo do livro, de 247 paginas, excede pela dose de fantasia. Klester relata o seqiiestro que diz ter so- frido em Bel6m, em margo de 2000. Por causa da ameaga a sua vida, o correspon- dente foi retirado as pressas para Sio Pau- lo, nao mais retornando a sua antiga base de operaq6es. Quando sacava dinheiro no caixa eletr6nico do Shopping Center Igua- temi, no centro da cidade, em plena luz do dia, o jornalista foi atacado por dois homes, encapuzado e colocado no inte- rior de um carro. Sob a mira de um rev61- ver, foi levado para um local ermo, na periferia da capital paraense, amarrado a uma arvore e abandonado. Tudo isso "foi desencadeado por uma mat6ria que caiu nas minhas maos por acaso", diz o reporter, referindo-se ao tex- to que estava escrevendo sobre a extra- 9do illegal de madeira em areas griladas no Pard por uma quadrilha que criara at6 um personagem fantasma, o tristemente famoso Carlos Medeiros, para servir de fachada para seus crimes. O suposto se- qilestro de Klester Cavalcanti foi mat6ria de capa da edicgo n 231 deste journal. Nessa mat6ria, expressed minhas d6vidas sobre esse confuso acontecimento. Reler a reconstituigo feita por Klester dois anos depois do epis6dio aumenta sua inverossimilhanga e, em alguns t6picos, faz a narrative transbordar para a seara do bi- zarro.. Depois de se livrar das cordas corn as quais fora amarrado, Klester diz haver escalado "uma drvore de uns 25 metros de altura", tarefa duplamente notdvel: tanto pela existencia de arvore tdo alta nas cer- canias (por ele classificadas de "selva", para efeito de decorar com cores fortes o pedido de socorro feito A sede da revista) de uma Bel6m vitimadas pela agco do ho- mem, como pela escalada em si, de causar inveja aos pr6prios natives dajungle. Vencida a "selva", o jornalista chegou "a uma rodovia". Apesar de ja estar como correspondent em Bel6m ha dois anos, ele "nao fazia a menor id6ia de onde esta- va", um ponto na BR-316 a dois quil8me- tros do posto da Policia Rodoviiria Fede- ral, que, segundo sua informaqao (infe- lizmente, errada), ficava "em Benevides, a cerca de 35 quil6metros de Bel6m". Esses dois quil6metros, Klester percor- reu em duas etapas. Na primeira, corren- do durante "pelo menos dez minutes". E, em seguida, caminhando, "ji cambalean- te e totalmente exaurido, por mais um quarto de hora". Ou seja: gastou, entire correndo e andando, 35 minutes para co- brir os dois quil6metros entire a saida da "selva" e o posto da Policia Rodovidria. Devia estar mesmo muito cambaleante e exaurido. Do posto policial ele ligou para seus chefes, em Sao Paulo, para anunciar ter sido "seqiiestrado e largado no meio da selva, amarrado a uma drvore". Atendido por Eduardo Oinegue, editor-executivo de Veja, que jd teve experi8ncia macarr6ni- ca algo semelhante no garimpo de Serra Pelada, anos atrds (cobriu de barro o ros- to de um jornalista, apresentando-o na capa da revista como um garimpeiro em sua enlameada labuta didria), recebeu a ordem de buscar protegio policial, termi- nar a mat6ria e "se mandar" para Sao Pau- lo, saindo "dessa terra sem lei". O que, de pronto, Klester fez. Com as honras de algu6m resgatado da terra sel- vagem, de volta ao itero seguro do cen- tro metropolitan (onde, como todos sa- bem, vigora a lei). Sua temida reportagem se revelou tiro de festim. A revista aca- bou gastando mais espaqo com o rocam- bolesco seqiiestro do que com a grilagem da gangue do fantasma Carlos Medeiros. A rigor, a reportagem nada trouxe de novo, muito menos de explosive, que justificas- se a audacia do seqiiestro. Rep6rteres lo- cais, nada parecidos a Indiana Jones, jd haviam escrito textos muito mais profun- dos, diretos e agressivos. E continuam a escrev6-los, agora ji sem a companhia do aventureiro emissario da Veja paulistana. Sem o colorido que s6 acompanha os en- viados do sul maravilha. Em prosaico pre- to-e-branco, portanto. Infelizmente, os textos de Klester reu- nidos em Direto da Selva apenas reforcam estere6tipos e fantasias nacionais sobre uma region tdo complex, distant e origi- nal, refratAria ao entendimento estandar- dizante dos companheiros de federaqao. Nos dois anos de sua agitada permanencia na region, o jornalista acredita que se esta- beleceu "uma ligagio intima e consistent entire a floresta, cor sua gente digna e cor- tes e insuperavel riqueza natural, e eu". Essa intimidade, por6m, nao impediu Kles- ter de cometer erros primarios, que uma vivencia mais longa, maior atengo ou um melhor trabalho de checagem preveniriam. NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 9 Num dos textos do livro, ele diz que o Projeto Jari de Daniel Ludwig teve esse batismo porque Jari 6 o nomee de um rio da regiao". Podia ser ao mesmo tempo simples e exato se dissesse que Jari 6 o nome do rio que banha e corta o projeto, e n~o associd-lo genericamente A regiao. Klester esteve na irea e conseguiu saber que a usina de energia ali em operaqo foi produto de um piano audacioso do milionA- rio americano, que "nao titubeou em gastar 270 milh6es de d6lares para construir, no Japao, e trazer, numa gigantesca balsa, at6 a Amazonia, uma usina termel6trica". Mas nao conseguiu ficar sabendo (deve ter faltado tempo para pesquisa) que, em outra balsa, tamb6m veio navegando por 20 mil quil6metros, do Japao at6 o Jarf, a pr6pria ffbrica de celulose, A qual a usina abasteceria de energia. Alias, as duas es- truturas metalicas nao vieram propriamente em balsas. Elas foram construidas nos es- taleiros da Ishikawajima, em Kure, para flutuar. Ancorando em Munguba sobre 3.600 estacas de maqaranduba, elas foram despojadas de centenas de toneladas de peas acess6rias, que Ihes foram incrusta- das exatamente para que navegassem. As narrativas de Klester estao cheias de tais imprecis6es, mas tudo isso passa a ser considerado detalhe irrelevant a par- tir do moment em que o desbravador da hist6ria amaz6nica abandon a regiao in6s- pita e volta ao centro do poder e da inteli- g6ncia national, deixando para tris a mar- ginalia de primitivismo, atraso, selvageria e incultura da "jungle", cheia de gente boa, tanto melhor quanto mais distant estiver. Vencidas suas aventuras, sdo e salvo na capital dos paulistas, Klester ficou conheci- do durante muito tempo como "o jomalista que foi seqiiestrado na Amaz6nia". Magna- nimo e superior, ele constata: "Por mais difi- ceis e cru6is que tenham sido as horas que passei nas mdos dos meus raptores, elas jA foram superadas. Fazem parte do passado". O seqiiestro foi uma hist6ria tao forte que monopolizou a temida mat6ria, deixando pouco espaco para as denincias, que tantas apreens6es precocemente causaram aos rap- tores. Mas a viol6ncia, em uma forma menos confusa do que a sofrida pelo entao corres- pondente de Veja, nio 6 passado para os que aqui ficaram e que nao podem nem que- rem ter como cartao de apresentaqao o fu- gidio epis6dio que marcou a vida de Klester Cavalcanti, o seqiiestrado na selva. LOUIO arLAVIo PINTO ONM l aj Livros na praga Coloquei nas bancas de revistas e livrarias meus dois novos livros: IntemacionalizaVdo da Amazonia (sete reflexes e alguns apontamentos inconvenientes) e Hidrelftricas na Amazonia: predestinagdo, fatalidade ou engodo?. Sao edig6es do author, modestas por isso mesmo. Pouca divulgagqo terao, naturalmente. Mas espero que as pessoas interessadas nas quest6es de frente da regiao saiam atris do que esti contido nos dois livros e contribuam para sustentar uma iniciativa adotada sem mecenas e ao largo do sinete official. Uma tentative de mostrar que podemos caminhar com nossos pr6prios p6s, sem muletas, sem tutelas, sem bitolas. Pesquisa: sempre comegando Gostaria que um ntmero maior de cientistas respondesse as provoca5oes que os jornalistas, metendo o bedelho onde nem sempre sdo chamados, thesfa- zem. Infelizmente, vitimas de preconceito e sapato alto, muitos pesquisadores olham com desdim para as pdginas de um journal. Nao the reconhecem o pedigree. No quefazem mal, muito mal. Ndo e o caso de Guilherme Maia, ex-diretor do Museu Goeldi, autor da carta abaixo, que res- ponde a um artigo da edifdopassada des- te journal. Eu prdprio poderia adiantar outras ponderafdes e respostas ao que o pesquisador suscitou. Prefiro, porim, apenas registrar sua manifestafdo, na esperanfa que ela desperate outras vozes, que raramente sefazem ouvir, e estabele- ram a controversial necessdria quando estd prestes afuncionar um novo centro de pesquisa na Amaz6nia, cor a promessa de ser oprimo rico dafamilia, mas sob o risco de vir dividir a misdria. Jornalista Lucio Flavio Pinto: Em primeiro lugar, eu quero parabe- nizi-lo pelo artigo A jia amaz6nica (ver Jornal Pessoal 293), bem como dizer-lhe que tenho lido cor frequencia muitas de suas publicaq6es, particularmente no que diz respeito Aquelas voltadas a political e ao meio ambiente de nossa terra. Na mai- oria das vezes comungo dos seus pensa- mentos e observagqes. Em segundo lugar, queria fazer al- guns comentArios sobre assuntos do seu artigo, jA que tenho vivenciado mais de perto essas quest6es. Substituir os insumos quimicos importados por produtos naturals da re- giio, a grosso modo, 6 utopia. Um grande avango, mesmo que tarde 20 a 30 anos, seria tentar equilibrar essa balanqa. Em quaisquer circunstAncias iremos sempre defender da importaqio de insumos quifmicos, que constituem- se patentes e dos quais dependemos, particularmente na questoo da sadde. Louvo sua observaq~ o de que algo deve ser feito, eja. Nao sei se o govero federal esti dan- do um pass correto na criaqao do Centro de Biotecnologia da AmazBnia, nos mol- des em que foi concebido. Como voc8 mencionou, vai constituir-se em 26 labo- rat6rios que pretendem cobrir desde a coleta do recurso gendtico (animal ou ve- getal) atW o lanqamento do produto final. Af vem a pergunta! Onde estA disponivel esse volume de recursos financeiros para equipar esses laborat6rios, tanto de in- sumos materials (equipamentos cientifi- cos), quanto humans (mestres e douto- res)? Se a intenqao 6 s6ria, por que nio pensaremreforgaras instituiqescientifficas jA presents na regiao, que vivem A mingua (porexemplo, o oramento do MPEG para 2002 j estourou desde setembro, face ao contingenciamento feitopelogovermofede- ral)? A maioria das atividades previstas para esses laborat6rios jA vem sendo conduzida no MPEG, INPA, UFPa, FUA, EMBRAPA, FCAPeoutros. 0 que de fato falta na regiAo 6 congre- gar o esforqojA existente e reforqi-lo com a criaqao de atividades voltadas objetiva- mente para a criaNo e o estabelecimento do produto final. Ou seja, coloci-lo na prateleira. Portanto, ao meu ver, o Centro deveria ocupar-se cor exclusividade a question tecnol6gica, que 6 o grande gar- galo existente na regiio. Outras quest8es: (1) aonde vai-se buscar a massa critical de pesquisadores (mestre e doutores) necessarios para con- duzir esse Centro? (2) Voc6 sabia que n6s, pesquisadores na Amaz6nia, somos somen- te 2% de todos os pesquisadores brasilei- ros, em uma rea geografica que represent mais de 50% do territ6rio national? (3) Pesquisadores do sul e sudeste brasileiros (onde estA a nata cientifica) tmr atendido aos nossos ef8meros editais para vir trabalhar na Amaz6nia? A resposta 6 nio. Tanto esses, quanto os de fora do pais, s6 serAo motivados cor salArios diferencia- dos que possam oferecer-lhes um padriode vida pelo menos igual ao que se oferece no sudeste brasileiro. Eu tenho essa experiencia como dirigente no INPA e MPEG. (4) Se for oferecido esse salario diferenciado para os pesquisadores do 10 JOURNAL PESSOAL NOVEMBRO/2002 HISTORIC CEPC: o registry de uma destruigao S ob uma luz mortica, num salo com um nobre ar de decadencia, o pro- fessor Cl6vis Silva de Moraes Rego lia o texto da introducao que escre- veu para seu livro, Subsidios para a his- toria do Coldgio "Paes de Carvalho ", que estava sendo lanqado naquela noite, no mes passado. O audit6rio era quase todo formado por ex-alunos do CEPC, confra- ria valorizada pela presenga do ministry das comunicaq6es, Juarez Quadros. Extremamente magro, alquebrado por alguns epis6dios sofridos de sua vida re- cente, o velho professor, dono de um dos mais reluzentes curriculos do Estado (ocu- pando nada menos do que 25 piginas de seu livro), lia cor dificuldade. Mas valia a pena prestar atengao ao que estava len- do, pega introdut6ria a mais rica contri- buigqo ji prestada a hist6ria da mais im- portante instituiqio de ensino paraense. Alguns achario despropositada a ava- liaqco. Ha excess de palavras nas 455 piginas do livro, que podia ser muito me- nos volumoso sem qualquer perda de conteddo. O ex-governador exagera em certas minicias, nao por serem minici- as, mas por sua irrelevancia. Incorpora informaq6es de forma desigual, sem se- parar o joio do trigo, sem hierarquizar valores. Apesar da linguagem arcaizan- te (ou arcaica mesmo) e do crit6rio bu- rocritico de selegio de dados, hi que se admirar uma virtude de Cl6vis Moraes Rego, rara entire n6s: seu apego a infor- maqao exata, o culto que faz da busca de cada detalhe que Ihe falta para comple- tar a situagqo que esti reconstituindo. Ele 6 um dos mais notiveis pesquisa- dores em atividade no Para, daqueles tra- balhadores bragais que nem sempre con- seguem chegar ao produto final, deriva- do da compreensao e da interpretag~o dos fatos. Mas sem eles nao haveria hist6ria, apenas boatos, murmtirios e especulag6es. Quanto mais o tempo passar, mais gratos e reconhecidos seremos ao mestre Coc6, o tratamento carinhoso que sempre admi- tiu, mesmo quando foi a maior autorida- de da terra, no encerramento do mandate recebido do titular do governor, Aloysio Chaves, desincompatibilizado em 1978 para concorrer ao Senado. Sem o pertinaz trabalho de relojoeiro do ex-presidente do Conselho Estadual de Cultura, muitos dos subsidies que seu li- vro tornou perenes teriam desaparecido. Na introduqao, ele diz que suas principals fontes de consult foram as atas do CEPC. Os documents originals, de grande va- lor hist6rico, provavelmente nao existem Centro de Biotecnologia, seri uma attitude correta tendo em vista que os que aqui seguram o tranco continuariam cor seus salaries defasados? (5) Neste caso, voc6 imaginaquehaver uma boaintegra*o corn as instituiq6esji existentes, que carregam o piano desde o final do s6culo 19, como no caso do MPEG? Dou-lhe outro exemplo. Eu e meu grupo somos os inicos que trabalham a flora aromrtica da Amaz6nia ha mais de 25 anos, responsiveis por uma base de dados cor mais de 1.300 esp6cimens de plants, de cujos 6leos essenciais e aromas tem-se toda e qualquer informaaio, para leva-los a produto final. Pois bem, nossos equipa- mentos cientificos estao cor mais de 12 anos, com sobrevida acima da mrdia, cujas peas de reposicio nio sio mais fabricadas. Um novo equipamento custa em torno de US$ 100 mil (prximo de R$400 mil). Onde vou conseguir esses recursos? Nessa eterna mar6 de parcos recursos, como competir cor o novo Centro? Desistir e vestir o pijama? Veja, portanto, que hi de si fazer uma anAlise critical da situacqo da I esquisa cientifica na Amaz6nia, antes de .;e criar novos instituiq6es, que poder.o 'ir a ser futures elefantes brancos. Quando voce fala de uma contribui- qAo brasileira de US$ 3 bilh6es (1,5%) no mercado de cosmdticos, logicamente que exclui a Amaz6nia. De fato, nessa area a nossa contribuiq~o 6 quase zero. Af pode- se falar do mercado de pau-rosa que, junto cor o 6leo-resina de copaiba e sementes de cumaru, ainda sao (hi mais de 80 anos) as tnicas essencias exportadas da regiAo. O que voce disse sobre o pau-rosa 6 quase tudo verdadeiro. Isto estA nas minhas pu- blicaq6es ou foi dito nas minhas conferencias. At6 mesmo a possibilidade de exploraqAo das parties areas (folhas e galhos finos) do pau-rosa, que publiquei em Acta Amaz6nica, em 1971. Esta no uma questao tio simples de se ver e este process nao pode ser conduzido (nem seria aceito pelos usineiros) nos esp6cimens ainda existentes na floresta. E um trabalho para ser experimentado em reflorestamentos com pau-rosa, que pode levar 12-15 anos, ap6s um bom melhora- mento gen6tico, para modificar o ciclo fe- nol6gico da plant visando obter massa foliar em lugar de madeira do tronco. Se vai dar certo 6 uma grande ddvida,ji que a espdcie cresce na floresta em busca do sol, com aumento vegetative da parte lenhosa e nao da parte foliar. Se hb press em modificar essa situa- aio, por que preocupar-se cor esp6cies aromrticas de porte arb6reo como o pau- rosa finala, o linalol sintdtico j substi- tui o natural e custa 4 vezes menos), que demandam 40-50 anos para crescerem? Se for para explorer novas esp6cies da regiao, cor manejo auto-sustentado, ainda sim. Caso contririo, devemos apostar em esp6cies de ciclo vegetative curto, como no caso de herbiceas (pataqueira, mange- ricAo, catinga-de-mulata, priprioca), que levam s6 3-4 meses para atingir a fase adult, ou arbustivas (pimenta-longa, erva-do-maraj6, capitid, erva-de-sAo- joao), entire 6-12 meses. Quem esta fazendo isso? Ningudm. Quais empresas regionais empregam essen- ciais nativas cujo bouquet deve-se de fato as plants aromaticas nativas da regiao? Nenhuma. Eu pr6prio constatei a question da Body Shop em viagem a Londres e New York. Comprei os seus produtos para analisar se estavam presents essenciais nativas da regiio. Quando muito, encontrei 0,2% de icidos graxos que eventualmente poderiam ser do 6leo de castanha-do-pard, que diziam adquirir dos caiap6s. Outros produtos ditos ianomami, ticunas, etc, nao tem nada da regilo, exceto o aspect mer- cadol6gico de tribes indigenas da Amazonia, cor seus aspects misticos e mrgicos. Dos funds setoriais do MCT, criados pelo ministry Sardenberg e cor os quais contava acrescer o orgamento de C & T do pals, cerca de R$ 500 milh6es foram con- tingenciados neste ano pelo governor fe- deral. Significa dizer que poucos editais foram publicados no ano de 2002, que po- deriam permitir uma melhor execuqio da pesquisa cientifica em 2003. Havera, por- tanto, um vacuo de mais de 12 meses nadis- ponibilidade de recursos financeiros para tocar apesquisa no Brasil e, em particular, na Amaz6nia. Esperemos que o novo govemo reverta essa questao em tempo su- ficiente para que muitas atividades nio sejam totalmente paralisadas. Muito hA o que se falar sobre es- sas quest6es. Quando precisar de um interlocutor lembre-se que estou a sua disposigAo. Atenciosamente, Dr Jos Guilherme Mala Laboratrio Adolpho Ducke Museum Emilio Goeldi Defesa de Edmilson Cor uma carta em defesa da prefei- tura de Belfm e de contestadfo a minha andlise sobre o governor de Edmilson Ro- drigues, Elias Tavares me pede que res- ponda a vdrias de suas provocafqes e convocafoes. No entanto, sua carta su- ficientemente longa para me impedir de aceitar sua chamada neste numero. 0 preCo seria sacrificar ainda mais o espa- Co destejornal, supostamente pessoal, a inica publicaado que conheCo na imprensa brasileira a reproduzir inte- gralmente as manifestadoes de seus leitores, mesmo quando as consider ex- cessivas ou incorretas. Respeito o direi- to de expressed de Elias, emborafazendo reparos a vdrios pontos de sua carta. Sd me permit observa-lhe neste moment que as administraVoes municipals podem, sim, criarpoliticas de emprego (se ler a coleqdo do JP encontrard vdrias suges- tOes a respeito) e devem, sim, reprimir vi- olac6es As posturas urbanas, quando se tornam abusivas, como o comdrcio ambulante, sem perder de vista suas ori- gens sociais.lnsisto em ressaltar que Ed- milson nro dpara Belim o que os Barbe- rini foram para Roma (jd que nosso alcaide vive cor um pe viajante na Itdlia, como agora volta afazer) e que hd pontos positives em sua gestao. Mas: a) ndo estd muito long de Barberini: b) os pontos positives sdo menos numerosos do que os pontos negatives. A carta de Elias: Caro L6cio FlAvio, Ao contrArio do que voce afirmou em seu artigo "Maria governadora?" (JP 293), Edmilson Rodrigues jamais seauto- intitulou "prefeito criana ". 0 titulo foi- Ihe conferido pela FundaqCo Abrinq e por dois anos consecutivos. Trata-se de certame promovido em ambito national por aquela instituiqio, que a cada ano seleciona e premia projetos dire- cionados a crianqas oriundas de families de baixa renda. A cada ano, sAo selecionados e conconempojetosdeaproximadamente 200 municipios. Aos 20 municipios vencedores 6 outorgado o titulo "Cidade crianFa", NOVEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 1 mais. O que restou foram as c6pias, que Cl6vis mandou xerocopiar. O que aconteceu com esses pap6is? Com a palavra, o professor: "Quando o Govemador Alacid Nunes [em 1968] restaurou fisicamente o pr6- dio do 'Paes de Carvalho', f8-lo demo- lindo-o, inclusive o telhado, resguardan- do-lhe apenas as paredes externas para lhes conservar as primitivas linhas arqui- tet6nicas. Estava eu, ainda em ativida- de, como professor titular do vetusto edu- candario, mas comissionado como Secre- tario de Estado de Governo. Retirar o telhado logo me acudiu significaria irreparivel dano ao seu arquivo, um dos mais ricos e primorosos que conheci. Tomei entao a iniciativa de xerocopiar livros de Atas de concursos e de assen- tamentos funcionais de professors e ser- vidores do estabelecimento, bem assim como farto documentario que dona Car- lota Mendes Leite de Almeida, com in- superivel requinte, guardava como titu- lar do cargo de Arquivista". Acrescenta o historiador: "Hoje, o acervo do arquivo do 'Paes de Carvalho' e precario em relacgo ao que foi, no passado, e o que perdurou, gracas ao devotamento da sua atual dire9ao, re- siste desafiando o apoio de recursos fi- nanceiros e de modern tecnologia". Nao tendo lido at6 aquele moment a introdugao ao livro (sequer sabia ser esse o texto que o professor C16vis empunha- va), fui ficando espantado e chocado com o relato. Olhei para a plat6ia: nenhuma reaao. Finda a leitura, comeqou a festa de lanqamento. As pessoas pareciam nao se dar conta de que, do alto de sua exitosa trajet6ria, o professor C16vis Moraes Rego havia feito uma grave denincia, ainda que seu texto nio fosse uma denincia, muito pelo contrario. Escravo da realidade que se projeta a partir de sua pesquisa, ele es- tava apenas relatando o que conhecia a respeito. O que conhecia, entretanto, era grave, extremamente grave. A reform do CEPC, feita no primeiro governor do coronel Alacid Nunes, foi como uma bomba neutra: preservou a es- trutura fisica do pr6dio, mas destruiu sua alma, a vida guardada naqueles pap6is que registravam a vida. O governante se mos- trava incapaz de entender a complexida- de da hist6ria. Quem de tal coisa sabia estava numa condicio de nio poder alte- rar os ditames do chefe. Da mesma ma- neira como p6s abaixo a caixa d'igua do centro commercial e, na ftiria modernizan- te, passou por cima de outros registros ma- teriais e imateriais do tempo, Alacid golpeou a mem6ria do col6gio que tam- b6m foi seu local de aprendizado. E uma pena que mestre C16vis s6 haja conseguido tirar c6pias xerox dos origi- nais, ao inv6s de colocar os documents primarios sob guard. Triste e constant sina de uma terra pouco afeita A integri- dade da mem6ria do seu passado. Tio desatenta que nenhuma consequincia houve dos dois parigrafos lidos pelo pro- fessor, embora ali mesmo estivesse pre- sente o personagem principal, o ex-aluno Alacid da Silva Nunes. ficando o respective governor autorizado a utilizi-lo em sua logomarca. Aos prefeitos desses municipios 6 conferido o titulo "Prefeito crianga", cabendo-lhes, igualmente, o direito de utilizi-lo. Num pais como o nosso, onde aq6es do poder p6blico direcionadas a crianqas pobres nao constituem propriamente uma regra, ridicularizar esse titulo, ou o seu uso, pode at6 parecer engraqado, mas, certamente, nao 6 IA muito edificante. AliAs, outros programs de trabalho da PMB, na gestao Edmilson Rodrigues, tambdm receberam premios e menq6es da Unesco, do Unicef, da AssociaqAo de Pre- vendo e Tratamento da AIDS, das funda- 96es Ford e Getdlio Vargas, do IBAM, da Conferencia da ONU para Assentamentos Humanos, da Cmara de Cormrcio e Indts- tria Brasil-Alemanha, da Unicamp, do BNDES, da Biblioteca do Congresso dos EUA, etc. Quem 1I regularmente o JP sabe: voce nAo costuma reconhecer m6ritos na gestAo petista em Beldm. Se considerarmos apenas o que se acha dito em seus artigos, a PMB nada fez, nestes 6 anos de "Governo do Povo", para melhorar as condiq6es de vida da populagio de nossa capital. Atd ai, nada demais. Um dos proble- mas essenciais da administraqao piblica brasileira 6 promover o ajustamento de re- cursos escassos a demands imensamente desproporcionais. Isto implicaeleger pri- oridades, fazer escolhas (ati porque, num program de governor onde tudo 6 priori- dade, nada 6 prioritaiio). Ao eleger suas prioridades, os governantes sabem que isso ocorrerd em beneficio de uns e, even- tualmente, para desagrado de outros. A ins- piraqio politico-ideol6gica de cada governor determine quem sao "uns" e "outros ". Unanimidade, nem pensar... Vai dai que, por mais e melhor que se faqa, sempre hi espaqo para critics, a defender do ponto de vista particular de quem avalia o desempenho. Que se critique, entio, como bem parecer a cada critico. Mas, jA que nao falta objeto concrete para acritica, nio hA porque se recorrer ao artificio de atribuir ao criticado, palavras que ele nio disse, attitudes que ele no tomou ou res- ponsabilidades que nao Ihe cabem. Isto facility a critical, mas a desqualifica. Foi o que voce fez, com o titulo confe- rido a Edmilson Rodrigues pela Fundaqao Abrinq. Mas ha outros casos. Por exemplo: em seu artigo "Belm, pobrezagera" (JP n" 292), pode-se ler, a prop6sito da questAo do trabalho informal: "...as administra- ~6es municipals, a ldtima mais que todas as anteriores, tim procurado tirar vantage dessa anomalia. Ou, quando muito, se omitem deprocurarpara o mal o tratamento i altura da sua gravidade." Entao tem sido assim, na sua visio: a atual administra.Ao municipal, mais que todas asanteriores, temprocurado tirar van- tagem dessa anomalia. Mais que todas as aneriores, a atual administraqAo munici- pal ternseomitidode "procurarparaomal, o tratamento a altura de sua gravidade." Nem you lembrar aqui as condiq6es em que se encontravam as ruas do centro commercial de Beldm ao final do governor H6lio Gueiros, porque 6 covardia. Mas, o que seria um tratamento "& altura da gra- vidade" desse mal? S6 consigo pensar em political piblicas tendentes a induzir o aumento da oferta de emprego formal. Se existe um outro tratamento, e voce sabe qual 6, por favor, divida esse conhecimen- to corn seus leitores. Se nio hi outro, fi- quemos com esse. E voc8 sabe que as administraq6es municipals pouco podem fazer para indu- zir o aumento da oferta de emprego formal. 0 que se v6 nas ruas das principaiscidades brasileiras e nio apenas em Belm 6 o resultado de uma political econ6mica excludente, que elevou dramaticamente o ndmero de desempregados e subempregados em todo o pais. Dizer que as prefeituras municipais trmrespostapara isso 6 pular uma passagem... E um tanto excessive passar a idWia - embora sem afirmn-lo claramente de que a atual administracao desta capital influiu nas decis6es que, atW aqui, tem determinado a political econ8mica do pais. Absurdo, tanto quanto, 6 sugerir que a administration municipal tem poder de fogo para corrigir as brutais desigualdades geradas por essa political econ6mica. Nessa Area, pode o municipio, no rm- ximo, desenvolver aqCes de carter emer- gencial e compensat6rio, na tentative de minimizar os efeitos da political econ6mi- ca. t o que tern feito o Governo do Povo, corn iniciativas como aUsina Progresso, o Banco do Povo, e o permanent esforgo no sentido de impor um minimo de discipline ao comrrcio em vias ptblicas. At6 onde minha mem6ria alcanqa, nada parecido foi pelo menos tentado pelas nossas queridas administracdes anteriores. Estas se limitaram a desenvolver uma political repressive, tAo perverse quanto ineficaz, sem pelo menos tangenciar o problema, dela restando apenas a lembranqa de coi- sas como o famigerado "Zd do rapa ". t bom lembrar, aliAs, que, volta e meia, algumas iniciativas da atual admi- nistraqlo municipal sAo torpedeadas, im- pedindo-as de produzir at6 mesmo os efeitos compensat6rios ha pouco referidos. Para ficar num dnico exemplo, cito o ocorrido cor o terreno baldio de uma das esquinas da Av. President Vargas, parcialmente pertencente ao municipio, e onde a PMB estA impedida de executar um projeto que abrigaria parte dos ambulantes daquela art6ria, e que contaria corn barracas para exposigio de produtos, lanchonete popular e espaqo para shows. A genialidade urbanistica que conduziu a esse impedimento prefer manter o terreno como viveiro de ratos, ao mesmo tempo em que, hipocritamente, se queixa dos inconvenientes provocados pelo com6r- cio em vias p6blicas. Aqui no Pard, a situaqao poderia ser um pouco diferente, se os recursos arre- cadados corn a privatizaqao do grupo Vale e da Celpa, por exemplo, houvessem sido reinjetados na economic, viabilizando o surgimento de novas empresas e novos empregos. Para onde foi essa dinheirama? Se voc8 sabe, por favor, escreva um artigo a respeito... Em Bel6m, especificamente, a situa- qFo tamb6m poderia ser um pouco diferen- te, se o municipio nio estivesse como at6 aqui tern estado sob cerco de dife- rentes procedencias, que obstaculiza o repasse de recursos federais decorrentes de emendas parlamentares (esperta e far- tamente alardeadas em peas de propagan- da political, como se representassem dinheiro certo para o municipio), impede a cobranqa de multas de transito detecta- das por sensoriamento eletr6nico e "gar- fa 280 milh6es de reais da receita pi- blica municipal (outro assunto interes- sante para um artigo seu). Umabrago. EliasTavares Lixo Em fevereiro de 1914 o Departa- mento Municipal de Limpeza Pu- blica colocou em operaqdo um "auto-caminhao" para o serviqo de coleta de lixo em Bel6m, o pri- meiro a atuar na regido. O veicu- lo foi fabricado em Paris por uma firma que tamb6m era fornecedo- ra da municipalidade francesa. Com potencia equivalent a 60 cavalos, o "auto-caminhio" tinha capacidade para cinco toneladas, mas seu raio de aao era restrito. Pela manha ele recolhia o lixo nas avenidas Independencia (Gover- nador Magalhaes Barata) e Naza- r6. A tarde, circulava pelas ruas 28 de Setembro, 13 de Maio e Joao Alfredo. Na 6poca, Dionisio Bentes era o intendente de Bel6m. O director do departamento era Francisco Domingos dos Santos. Anuncio Atrav6s de antincio na Folha do Norte de janeiro de 1956, CIau- dio Jos6 e Carlos Augusto parti- ciparam aos parents e amigos de seus pais, Ajax Carvalho d'Oliveira e Maria de Nazar6 Rollo d'Oliveira, o nascimento do irm5o mais novo, Rubens, "ocor- rido no dia 10 do corrente, na Maternidade da Santa Casa, sob os cuidados profissionais do dr. FlAvio Brito Pontes". O pai viria a ser prefeito de Belem, entire outros cargos pd- blicos. Rubens 6 atualmentejuiz federal em Bel6m. Os andncios de "nascimento-participaqao" eram, na 6poca, tdo comuns quanto os de pedido de casa- mento, de saidas de Bel6m e de chegadas. A falta das colunas sociais, ainda nao difundidas como viriam a ser depois (e ba- nalizadas, hoje), serviam esses comunicados de mural social. Asfalto 0 advogado Irawaldyr Rocha (jd falecido) ocupava interinamente a prefeitura de Belim, em agosto de 1964, quando a Secretaria Municipal de Obras langou a primeira canada de asfalto sobre o leito da avenida Senador Lemos, preparando-o para receber em seguida o concrete asfalto. 0 trdfegofoi desviado para a rua Jer6nimo Pimentel. Era o Umarizal e o Teligrafo se incorporando ao sistema vidrio central da cidade. Trote S6 em 1962 a Faculdade de Fi- losofia cedeu e fez seu primeiro trote de calouros, que jd se tor- nara uma tradiqgo entire todos os cursos superiores. Talvez tenha servido para quebrar o tabu a transferencia do curso para uma nova sede, na avenida Genera- lissimo Deodoro (onde hoje esta o serviqo de imigragqo da Policia Federal). Contrabando Itens de um leilao feito pela al- findega de Bel6m em fevereiro de 1962, com mercadorias con- trabandeadas que haviam sido apreendidas pela fiscalizaqao: ufsque White Horse (o ultra-con- sumido Cavalo Branco), Lander- sel e President; sanddlias japo- nesas, sapatos de camurqa, cigar- ros LM, ligas femininas, lagos de gravata, creme de barbear Bill- Cream, abotoaduras, perfumes, mamadeiras, mascaras de borra- cha, camisas de malha, lengos e o conjunto mais cobiqado: qua- tro portas, dois estofos e uma tampa de mala de um autom6vel Ford, tipo Fairlane, modelo 1955 partiess que, depois de juntadas ao principal, a ser arrematado em outro lance, formariam o Cadi- llac contrabandeado mas lega- lizado com o qual um bacana desfilaria pela cidade). Os arrematantes do leilao: Tecidos Ledo, J. Sampaio, Impor- tadora Rosdrio, a Severino, Elias Hage, Para Comercial, Mike F Cooper e Jorge Resque. Colunista Menos de dois meses depois de ter perdido o mandate de vice- prefeito de Bel6m (o prefeito era Moura Carvalho, tamb6m cassa- do) e ficar sem seus direitos po- liticos por 10 anos, em conseqii- 8ncia de ato institutional dos mi- litares vitoriosos, Isaac Soares re- cebeu grandes homenagens por ocasiao de seu aniversirio, em 12 de agosto de 1964. Atd a Cama- ra Municipal, que se mantinha encolhida, temendo punigao re- voluciondria, comemorou a data. A cassag~o interrompeu a mete- 6rica carreira political de Isaac, mas abriu-lhe uma outra aveni- da, muito mais larga, que ele per- corre at6 hoje: o colunismo soci- al. Munido de um passaporte aceito em qualquer barreira: a simpatia pessoal. Quem, tendo mais de 50 anos, nAo se lembra dos tecidos Bangu? Eram sin6nimo de elegancia, cultivada anualmente atrav6s de um concurso de beleza, o de Miss Bangu. Para o Rio de Janeiro iam as senhorinhas, inclusive as paraenses, disputar o cobiqado trof6u, que valorizava ain- da mais o dote no casamento. Em agosto de 1964 a loja Bangu liqui- dou o estoque e entregou seu pr6dio, no inicio da rua Joao Alfredo, que era a passarela da moda. Mudaram os h6bitos, mudou Bel6m. iiiimmmmmmmmmmminiiimmmmmmiimmm Mogno A atuaqAo predat6ria de uma em- presa estrangeira, a Rio Impex, na area de Tucurui, destruindo madeiras de lei, sobretudo o mogno, levou o entao deputado estadual Gerson Peres a proper, em julho de 1964, a criagqo do Institute Paraense de Mogno. Aldm de fiscalizar e regulamen- tar a atividade madeireira, ao mesmo tempo em que estimula- ria os investimentos no setor, o institute deveria criar o Jardim Botanico e o Museu Florestal do Estado. A id6ia, por6m, nao pros- perou. Ja a destruiq~o do mogno seguiu em frente. A jato. Cursos O Centro Cultural Brasil-Estados Unidos reiniciou suas ativida- des, em agosto de 1964, ofere- cendo cursos de pintura (por Pa- olo Ricci), desenho (Bohdan Bujnowski), escultura (Joao Pin- to) e bald (Lilliane Weinberg). De primeira, portanto. Cirio Em 1966 o jomal A Provincia do Pard colocou em circulaq~o um tabl6ide especial sobre o Cirio da- quele ano, com o apoio das suas empresas estaduais de energia em atividade na 6poca (a Celpa e a Forca e Luz do Pari, ou Forluz, como era mais conhecida). A mai- or atraqco do suplemento eram as fotos panoramicas de Leocadio Ferreira, "reveladas em Fortaleza e enviadas especialmente a este jomal", dizia a chamada de primei- ra pfgina de A Provincia. Mas a prata da casa tamb6m respondia present, com os rep6rteres-foto- grificos Porfirio da Rocha e Ayr- ton Quaresma, dois dos melhores que a terra jA produziu. Ei t r m c] s s 0 aoram z n c92tJ o mr a l P e s s o a l E ltor: Lci Fvio Pinto ^Fon (091) 241-7626/ Cont T njmin Constant 845/24523/66.05303040 / maiI: jornalamazon.com.br / Produgo: Anglim Pinto I Edipi. do Arts: LP ~"?D;:c-T 1-:rD I A N |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| MILLISECOND | CLASS.METHOD | MESSAGE |
|---|---|---|
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Application State validated or built |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor | Navigation Object created from URI query string |
| 0 | sobekcm_database.verify_item_lookup_object | |
| 0 | sobekcm_page_globals.display_item | Retrieving item or group information |
| 0 | sobekcm_page_globals.get_entire_collection_hierarchy | Retrieving hierarchy information |
| 0 | sobekcm_assistant.get_entire_collection_hierarchy | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | |
| 0 | cached_data_manager.retrieve_item_aggregation | Found item aggregation on local cache |
| 0 | item_aggregation_builder.get_item_aggregation | Found 'all' item aggregation in cache |
| 0 | system.web.ui.page.page_load (ufdc.page_load) | |
| 0 | sobekcm_page_globals.constructor.on_page_load | |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_style_references | Adding style references to HTML |
| 0 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Reading the text from the file and echoing back to the output stream |
| 24 | html_echo_mainwriter.add_text_to_page | Finished reading and writing the file |