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Jomal Pessoal A AGENDA AMAZ(NICA DE LUCIO FLAVIO PINTO ANO XVI N9 293 EXTRA DE OUTUBRO DE 2002 R$ 3,00 ELEIGAO Maria governadora? 0 segundo turno poderd consagrar mais uma zebra na political paraense, elegendo Maria do Carmo, do PT, como a nova governadora do Pard. Se isso acontecer, os petistas passardo a ser a forga political dominant no Estado. Vai defender da postura da deputada santarena se esse novo dominio se consolidard ou serd mete6rico. DJ<^ Amateria de capa da edicao 279 deste journal, da 1a quin- zena de marco, levantava ji na manchete a questdo: "ha lugar para uma zebra" na eleiqdo para governador do Pard neste ano? A divida era suscitada no primei- ro parigrafo: "Haverd lugar na pr6xi- ma eleiCgo para uma candidatura alter- nativa ao governor do Para", ou "a dis- puta para valer sera travada entire as velhas raposas da political estadual, di- retamente ou atrav6s de prepostos?" Logo em seguida a mat6ria previa que o governador Almir Gabriel iria dar ao seu candidate "o calor da mi- quina official, mesmo que o judiciario e o Minist6rio PNiblico venham, final- mente, a se manter mais atentos aos abusos do governor O adversario principal da coligaCgo situacionista seria o ex-senador Jader Barbalho, ele pr6prio disputando pela quarta vez o governor ou em alianca. AAA 0 DE A (* 6 2 JOURNAL PESSOAL EXTRA DE OUTUBRO/2002 Tudo como dantes e quase sempre? "Aparentemente, sim. O fatalismo dua- lista, por6m, pode ocultar surpresas", dizia o texto, sete meses atras. Uma das possiveis surpresas podia vir do PT, mas estava entao em plena aqgo a autofagia petista, na qual um grupo engole o ou- tro, anulando suas principals liderangas. Nenhuma delas estava disposta a se ex- por. Restava ao partido "continuar A pro- cura de um nome qualquer para substi- tuir aqueles poucos politicos petistas que tnm um perfil de candidate, mas nao querem ser candidates", ou entao "ado- tar uma definicgo clara e a tempo de dar ao seu candidate, em alianca com ou- tros partidos, uma expressed estadual que, por enquanto, nao possui". Abro excecao para essa auto-citacgo porque ela demarca com clareza o terri- t6rio das expectativas as v6speras de co- meqar a campanha eleitoral. Sabia-se. que havia uma expectativa de mudanga no Para. Nao havia, entretanto, algu6m que personificasse essa ansia de trans- formagqo das condioqes reais de vida da maioria da populaqao do Estado, nIo be- neficiada nem mesmo quando um go- verno, como o de Almir Gabriel, 6 re- conhecido como operoso. Operoso na manuteng~o de um esquema colonial de desenvolvimento, gerando efeitos mul- tiplicadores mais fora do Estado do que em seu interior. Realizador, sim, mas incapaz de transformar as realizaq6es em proveito do habitante comum, aquele que con- templa as obras (e, sobretudo, a maior das obras, o empreendimento exporta- dor) como uma realidade que esti mui- to al6m de suas possibilidades e, in- clusive, do seu direito de ter e possuir essas coisas maravilhosas. Grandezas econ6micas sem traduq~o social, espe- lho de uma esquizofrenia tucana. As lideranqas emergentes do PT, exauridas na dispute internal, preferiram adotar estrat6gias pessoais, seguindo pela rota aparentemente segura ao inv6s de tatear pelo risco. Embora de pdblico dis- sessem que nao, na intimidade reconhe- ciam o poder da miquina official, at6 mesmo porque ji manejavam uma des- sas engrenagens de poder, a prefeitura de Bel6m. Nesse vicuo surgiu o nome de Maria do Carmo, no curso de um pro- cesso de exclusdo das alternatives mais 6bvias (Edmilson Rodrigues, Ana Jdlia Carepa, Paulo Rocha e Valdir Ganzer). Com Maria do Carmo, discreta de- putada de um inico mandate at6 entao na Assembl6ia Legislativa, duas vezes derrotada na dispute pela prefeitura de Santar6m, tudo se acomodava no PT. As principals tend6ncias podiam adiar o confront iminente e se dedicar aos seus respectivos projetos politicos. Nao ha- via incompatibilidade para dar apoio a deputada santarena. Ela pr6pria, mes- mo se fosse derrotada, tinha a perder a possibilidade nao propriamente certa de se reeleger. Em compensaqao, re- forqaria o seu nome para uma nova in- cursdo ao comando do terceiro mais populoso municipio paraense, desta vez na condicqo de favorite. Nao foi por capacidade gravitacio- nal pr6pria que Maria do Carmo foi atra- indo cada vez mais votos: foi pelo cri- t6rio da negagqo. Quem nao queria em- barcar nas canoas de sempre encontra- va, livre e desimpedida, a catraia da political mocoronga. Nada havia nela de explicitamente rejeitivel, at6 mesmo porque, digladiando-se sem maior des- treza, ferindo tanto quanto se ferindo, os tr8s principals candidates (Ademir Andrade, Simio Jatene e Hildegardo Nunes) se esqueceram de Maria. Pou- param-na do desgaste que os fazia pati- nar na prefer6ncia do eleitorado. Repetiu-se, na corrida pelo governor do Estado, neste ano, o que aconteceu na sucessao de H6lio Gueiros em 1996: os lideres da corrida eleitoral se enfra- queceram na rixa desenfreada, desgas- tando-se mutuamente. Quem vinha atris, entretido em fazer figuraqio, foi subin- do sem ser incomodado. Edmilson Ro- drigues foi eleito nio propriamente pelo cidaddo comum que, desde o lanaamen- to do seu nome apostava nele, mas pela guerra de desgaste travada entire Elcione Barbalho e Ramiro Bentes. O atual prefeito, uma vez sagrado vi- torioso, esqueceu os rastros dessa tra- jet6ria. Passou a se declarar dono da coifa de votos com a qual chegou ao redil da PMB. Como de regra nos che- fes da propaganda, acreditou na inven- Cgo e nela ainda persiste, apesar dos cla- ros sinais dados pelo povo para que re- pense sobre o tamanho da sua verdadei- ra grandeza (neste caso, cabe-lhe como luva a auto-intitulacao de "prefeito cri- anga"). Edmilson s6 se reelegeu porque a maquina municipal foi usada a seu favor. NMo confirmou eleitoralmente, no entanto, seu esquema de poder, que ne- cessitava contar com seu escudeiro, Luiz Aradjo, na Camara Federal. A maior parcela dos votos obtidos por Maria do Carmo no 1 turno nao 6 dela. NMo sao votos cativos ou conquis- tados por seu desempenho, em nenhum ponto destacivel sobre o pano de fundo das demais candidaturas, muito pelo contrario. Sao votos que a tomaram como instrument de expressed do pro- testo, da desilusio e da desesperanqa. Nao pesa sobre a biografia da de- putada nenhuma mancha de corrupqao, de mi-f6 no uso da administraCgo pd- blica, de aproveitamento lesivo de re- cursos do Estado. Tamb6m n~o hi nela pontos positives de 6nfase, nenhuma marca de singularidade, aptidao ou competencia. Nio encontrar macula no candidate parece ter sido bastante para centenas de milhares de eleitores cons- trangidos a ter invariavelmente que optar pelo menos ruim. Beneficiada pelo arrastdo emotional de Lula, o mais bem sucedido produto da hist6ria do marketing no Brasil, in- dependentemente dos seus m6ritos pes- soais, Maria do C6u cresceu A sombra do candidate petista A Presid6ncia da Repdblica, na inversio das ponderaq6es eleitorais mais comuns. Foi no palanque de Lula que ela subiu. Nao adianta a maciqa propaganda do governor projetar um Pard rico, limpo, bem servido de infraestrutura, modern, em co- nexio com o mundo. Quando esses foto- gramas ultrapassam os limits dos films de publicidade e dos cartazes, eles se li- mitam as ilhas de excelencia montadas no Pard com o prop6sito de drenar suas ri- quezas para o exterior. O que aqui fica ou permanece 6 tao pouco que o resultado desse process 6 o agravamento dos prin- cipais indicadores sociais. Um Pard pobre, inculto, doente e em vias de explosao quer mudar essa situ- agqo. Nao sabe como, s6 sabe que a si- tuaq~o atual nao di para continuar. O cidaddo comum provavelmente nio consegue explicar porque uma admi- nistragqo que aprova nao Ihe di os be- neficios das obras realizadas, mas como o PT esti lhe prometendo resol- ver essa contradiqao, subiu na onda. Nio sabe o que vird depois do ato de protest, mas quer protestar. Esse impulse fez a candidatura de Maria do Carmo pular no 2 turno para a EXTRA DE OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 3 condiqCo de ligeiro favoritismo, inverten- do as ponderaq6es, sem, no entanto, bas- tar para definir um jogo no qual a forqa do dinheiro 6 proporcional ao tamanho das carencias que dele dependem. A defini- gqo sera dada na linha de chegada. Isso significa que o boca-de-urna podera ter peso muito maior do que no 1 turno. Se tiver a humildade que seu compa- nheiro Edmilson Rodrigues nao teve, re- conhecendo o context que a fez passar para o 2 turno e chegar na frente do can- Ao contrario do que se esperava, Ana J6lia Carepa nao foi uma camped de votos na eleigao para o Senado. Na verdade, ela praticamente repetiu a votaao de quatro anos atris, com a qual ficou em segundo lugar, ligeiramente abaixo de Luiz Otivio Campos, o "senador do governador", cujo lugar s6 estard em dispute em 2006. Agora, ela teve quase 1,1 milhio de votos, mas a votapgo real deve ser dividi- da ao meio porque o eleitor podia votar em dois senadores e nao apenas em um, como aconteceu em 1998. Acabou tam- b6m se nivelando as votaq6es consegui- das por Jader Barbalho e Ademir Andra- de, oito anos atris. De 55% dos votos no infcio da corrida, Ana Jdlia chegou ao fim com menos de 23%, apenas 55 mil votos a mais do que Duciomar Costa, com uma vantage de 1%. Ha uma tend6ncia em seu grupo de atribuir a frustrante votagco h decisdo do PT de mandar descarregar votos em Elcio- ne Barbalho, na derradeira tentative de im- pedir mais um "senador do governador". Mas a ins6lita posicio assumida pela executive estadual do Partido dos Tra- didato situacionista para o confront final, como aut8ntica zebra, Maria do Carmo tal- vez d8 ao seu papel um significado de pio- neirismo e originalidade ainda maior do que o de poder vir a ser a primeira mulher a governor o Pard, e a primeira governado- ra paraense nascida em Santar6m, deslo- cado do segundo para o terceiro lugar en- tre os principals municipios do Estado. A humildade benfazeja consistird em cercar-se de gente competent, hones- ta, qualificada e bem intencionada, in- balhadores s6 veio a 48 horas da vota- qao, com pouco poder de fogo e quando ji havia se consolidado a tendancia de queda nas prefer6ncias por Ana Jdlia. A pr6pria candidate ji havia perce bido essa ameaca muito tempo antes. Procurou desfazer o "ji ganhou" do seu grupo e intensificou os contatos pesso- ais, ampliando os giros pelo interior do Estado. Em mat6ria de exposigqo, desta vez a candidate do PT estava em posi- Cgo de igualdade em relagqo aos seus ad- versarios, inclusive o bem abastecido Du- ciomar. Aproveitou-se tamb6m da com- panhia de Lula, colando sua image a dele em toda a propaganda. O que realmente prejudicou a recep- tividade a Ana Jilia foi sua falta de conteddo. Aldm de palavras de ordem, energia, simpatia e entusiasmo, a can- didata nao teve o que oferecer ao elei- tor. Reparar a injustiga de quatro anos atris, quando teria sido "garfada" pela maquina official, a service de Luiz Oti- vio, nao foi o bastante. Nem sera, se Ana Jdlia pretender ir al6m de um man- dato no Senado. CONSENTIMENTO Um dos principals sinais do nefasto autoritarismo da administragco Almir Gabriel 6 sua recusa em prestar esclarecimentos a opinido public. Entende-se se um governor decide nio bater boca com terceiros. Admite-se que nao aceite provocaq6es de adversarios ou critics. Mas 6 intoleravel que se feche em copas quando fatos graves sdo divulgados publicamente. Nesse caso, apostar na desmemoria do povo, capaz de permitir o esfriamento dos temas mais quentes e sua queda na vala comum do esquecimento, consagra a crenga desse mesmo povo: quem cala, consent. O complete mutismo do govemo sobre o "convenio" da Fundaq~ o de Telecomunicag6es do Pard com a TV Liberal, depois de seguidas dentincias feitas neste journal, a mais recent das quais na edicao anterior, significa o reconhecimento, da parte dele, de que cometeu realmente um ato vergonhoso, que lesou os interesses do Estado e, particularmente, do eririo. dependentemente de arranjos partidari- os e politicos, e estabelecer o nexo de mando na base do bem coletivo, nao na vontade dos grupos ou na diretriz dos interesses corporativos. Aproveitando o sopro da circunstancia para executar um program de mudanqa no Pard e nao apenas pegar o impulse para criar mais um grupo politico atrelado ao poder, tudo fazendo para se manter nele. Bern que essa podia ser a maneira nova de ser Maria. NOTA CURTA A atual administraqSo assegura que elaborou com rigor e seriedade o orqa- mento do Estado para pr6ximo exercf- cio, a ser executado por um membro da equipe, se Simao Jatene for o sucessbr de Almir Gabriel, ou por um adversdrio, se a vencedora for a petista Maria do Carmo. O future governor vai dispor de 4,2 bilhoes de reais, 12% a mais do que o orqamento em vigor, indice de cresci- mento bem maior do que a evolugqo do PIB, da atividade produtiva, da inflaqao e do desempenho da receita federal. Na composiCao desse indice esti embutida a expectativa de que as rendas pr6prias estaduais aumentem 21% e as transfer6n- cias federais cresqam 8,6%. E esperar muito, tanto do desempenho da miquina arrecadadora local quanto das transfer6ncias da Uniao. Ainda mais por- que da proposta do orqamento foram expur- gados 130 milhoes de reais. A atual admi- nistracqo esti recebendo esse dinheiro, uma compensaqCo que o govemo federal di aos Estados atingidos pela Lei Kandir, que de- sonerou de impostos suas exportagqes por um period de 10 anos. Como a lei que pror- roga a compensag~o a partir de 2003 ainda nao foi votada, nao pode ser incluida no or- qamento do pr6ximo exercicio. Nao saindo vitoriosos na dispute pre- sidencial, os tucanos, evidentemente, se descomprometerao do assunto. Ele se transformard num rombo consideravel nas contas de um Estado que export compul- soriamente, pagando o pato (sem tucupi) do superavit cambial que Ihe imp6em. E que, a bem da verdade, ele aceita passi- vamente, como tem ocorrido sob o reina- do do doutor Gabriel, o Serafim do sil6n- cio obsequioso. FrustraGao 4 JOURNAL PESSOAL EXTRA DE OUTUBRO/2002 BIODIVERSIDADE A joia amazonica Nos iltimos seis anos, entire 1996 e 2001, o Brasil exportou 22 bilh6es de d6lares em produtos quimicos. No mes- mo perfodo, suas importaq6es alcancaram US$ 60 bilh6es. O deficit, portanto, foi de US$ 38 bilh6es. A m6dia de perdas nesse item important da balanga comer- cial brasileira foi de pouco mais de US$ 6 bilh6es ao ano, m6dia puxada para cima pelo record negative registrado no ano passado: deficit de US$ 7,2 bilh6es entire exportaq6es decrescentes e importaqces estabilizadas no topo. O rombo cambial foi 10% maior do que o de 2000. O inico caminho que o Brasil tem para evitar essa sangria desatada 6 subs- tituir os insumos quimicos importados por produtos industrials ou derivados obtidos da natureza. Esses recursos es- tio concentrados na mais rica fauna e flora do planet: na Amaz6nia. O primei- ro pass para trilhar essa meta vai ser dado em janeiro, quando o governor fe- deral espera inaugurar o Centro de Bio- tecnologia da Amaz6nia, em Manaus. Reunindo 26 laborat6rios, o CBA pre- tende ocupar rapidamente um lugar na vanguard da pesquisa biotecnol6gica, explorando o acervo inigualavel em bio- diversidade da floresta amaz6nica. Esse ainda 6 um campo pouco explo- rado. A ret6rica costuma andar na frente dos resultados praticos, criando uma ilu- sio de excel8ncia. Na verdade, ha esfor- qos her6icos para manter a geragqo de conhecimento acoplada A criaqao tecno- 16gica, mas os produtos finals sao reduzi- dos. Uma id6ia dessa condiqco 6 dada pela participaqao do Brasil na inddstria de cos- m6ticos, uma das que mais cresce no se- tor: para uma escala international de 195 bilhoes de d6lares, a contribuigqo brasi- leira nao vai al6m de US$ 3 bilh6es, ou menos de 1,5%. As lojas da rede Body Shop na Euro- pa estio repletas de fotos de indios Kaya- p6 e suas prateleiras de produtos corn components extraidos das matas amaz6- nicas. Mas o valor e o volume dessa par- ticipacao tem grandeza molecular. O mais famoso principio ativo fornecido pela re- giao para a cosmetologia mundial, a es- sencia do pau-rosa, vive seu estagio de agonia. Foi tdo intense a destruiq~o da preciosa arvore que agora as remanescen- tes estio pulverizadas no centro da flo- resta, cada vez mais distantes dos cursos d'agua, que serve para o acesso e o transport, e cada vez menos freqtientes. O Laborat6rio de Quimica de Produtos Naturais da Universidade de Campinas, em Sdo Paulo, ter uma proposta de solugqo para a ameaca de extinqao do pau-rosa: substituir o uso do tronco da arvore por suas folhas para a extraaoo do material que cont6m o linalol, a substancia que fixa o perfume no corpo de quem o usa (na for- ma industrial, atrav6s do perfume Chanel n 5, ao preqo de US$ 145 por frasco). Se a experiencia der bom resultado, os "pau-roseiros" do Amazonas, os tni- cos ainda em atividade, nao precisario mais colocar abaixo a arvore para corta- la e levar as toras de 100 quilos na cabe- qa, cor suas cascas submetidas a cozi- mento para a separaqgo do seu 6leo es- sencial: bastara cortar as folhas, deixan- do a arvore preservada na floresta. Se a combinacao de ciencia cor tecnologia resultar em unido harmoniosa, a esp6cie podera vir a ser eliminada da lista de extinqgo, a atividade produtiva voltara a se desenvolver e o Brasil tera ganhos econ6micos maiores e estaveis. Quando essa iniciante hist6ria tiver final feliz, seu desfecho podera tender pelo nome de desenvolvimento auto-sustentavel. At6 a1, por6m, nao passard de discurso. Para que esse rito de passage se consume, os pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas, em S. Paulo), em parceria com seus colegas do Inpa (Instituto Nacional de Pesqui- sas da Amaz6nia), de Manaus, precisa- rao dos 650 mil reais que solicitaram como financiamento ao Minist6rio do Meio Ambiente. O valor em si 6 peque- no, considerando-se nao s6 a gravidade da ameaqa que paira sobre o pau-rosa, mas tamb6m os lucros que advirao do trabalho, se ele tiver desfecho satisfa- t6rio. Mas quando se trata de verba de ciencia e tecnologia no Brasil a raqdo 6 magra e as exig6ncias, modestas. O ministry da ciencia e tecnologia, Ronaldo Sardenberg, se consider feliz se conseguir deixar para o successor um oraamento 20% maior do que aquele corn o qual trabalhou ao long deste ano, gra- vitando em torno de um bilhdo de reais. E um valor de pouca expressio diante da grandeza da realidade enfrentada e at6 mesmo de alguns nimeros grotes- cos. Por exemplo: neste moment ha mais de R$ 100 milh6es em toras de mogno apreendidas pelo Ibama As pro- ximidades de Altamira, no Pard, por um 6nico grupo de extratores. Quanto elas renderiam em informaq6es para a ci6n- cia e geraqao de insumos naturais para a inddstria da biotecnologia se tivessem permanecido na mata, ao inv6s de se- rem remetidas para o exterior na forma primaria de madeira serrada? Essa pergunta nao 6 feita, ou, quando formulada, nao 6 satisfatoriamente res- pondida. Todos trm press em produzir mercadorias que trm imediata aceitaqao no mercado e resultam em dinheiro vivo de pronto. Ningu6m, com algum poder nas atividades produtivas, quer desfazer as cadeias de comercializa~io existentes para esperar pela conclusio de uma pes- quisa, mesmo que ela tenha um sentido pratico evidence, como a do pau-rosa. Num Brasil aqodado, a Amaz6nia 6 fron- teira de mercadorias, nio de informaqges. E fronteira econ6mica, nao fronteira ci- entifica. Quem pensa de outra forma vira estorvo, inimigo. Nao espanta que no 61timo inventario realizado pela ONU, atrav6s do Pnud (Programa das Nacqes Unidas para o De- senvolvimento), o Brasil tenha ficado em 73 lugar entire 173 paises listados no ranking do IDH (Indice de Desenvolvi- mento Humano). Sem falar nos pauses desenvolvidos, 13 pauses do continent americano ficaram na frente do Brasil, sempre indefinido nessa faixa dos emer- gentes aos subdesenvolvidos. Por indicadores econ6micos, nosso pais teria ocupado muitos degraus acima. Ja nao 6 mais a oitava potencia industrial do mundo, mas 6 a 112, ainda um titulo de nobreza. Algo, por6m, que result mais de uma combinagqo fisica de duas ordens de grandeza, o territ6rio e a populaqio, do que propriamente do engenho & arte que constituem uma civilizaqao e susten- tam o progress. Em um dos indicadores qualitativos, o educational, o Brasil nem esta ruim, ao contrario do que acontece com quase todos os outros. O pais gasta 5,1% do EXTRA DE OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 5 seu PIB (Produto Interno Bruto) em edu- cacqo. Nesse caso, esta na m6dia dos pauses desenvolvidos, que varia entire 3% e 8% do PIB. Mas temos 17 vezes me- nos cientistas e engenheiros dedicados a pesquisa do que no Primeiro Mundo. (168 por milhdo de habitantes contra 2.989 entire os ricos). Jamais chegaremos ao outro lado do paraiso, como diria F. Scott Fitzgerald, com tal esforgo na criagao de conheci- mento e na sua aplicaq~o a nossa vida cotidiana. Sera impossivel tapar o bura- co "oz6nico" na nossa balanqa comerci- al de produtos quimicos nesse context. Nem fazendo a inddstria quimica cres- cer exponencialmente, com seus perigo- sos efeitos colaterais, nem investindo na natureza para que nos d& um sucedaneo compativel e muito mais saudivel, inclu- sive para o bolso. De 1,2 bilhao de reais que sejam apli- cados na ci&ncia e na tecnologia do Bra- sil em 2003, nem R$ 30 milh6es talvez se destined A Amaz6nia, onde esth a dnica chave da decifraqgo dos enigmas do pro- gresso brasileiro, da compatibilizaqdo dos indicadores economicos, nos quais vamos bem, cor os sociais e humans de um modo geral, nos quais nosso desempenho 6 sofrivel, quando nao horrivel. Esses ndmeros nao incluem o maior program dito cientifico ji executado na regiio, o Sivam (Sistema de Vigilancia da Amaz6nia), de matriz geopolitica e mili- tar. Hoje ele esti orqado (ao cambio do dia) em mais de R$ 5 bilh6es (ou US$ 1,4 bilhao). Equivale a mais de quatro anos de verba de C&T national e a uns 20 anos de troco de orcamento cientifico na Ama- z6nia. O Sivam ji esti com sua estrutura fisica implantada e comeqou a funcionar. Mas durante quantos anos o pais e a re- giao terao que adotar dieta rigorosa para pagar seu custo financeiro, financiado pelos Estados Unidos, que o financiaram? Sao situag6es nas quais se deve refle- tir quando se procura contextualizar o oti- mismo do governor federal, de que a inau- guragqo do Centro de Biotecnologia da Amaz6nia, dentro de tr8s meses, marcara uma nova etapa na reversdo da hist6ria de prejuizos constantes e crescentes do Brasil no uso dos recursos da natureza para se livrar da canga do subdesenvolvi- mento e ostentar a coroa do progress. Tendo a Amazonia como a pedra mais preciosa dessa nova j6ia uinica e inveji- vel por todos. Se j6ia houver. ader Barbalho nio conseguiu, nem mesmo pelo critrio da proporcionali- dade, ser o deputado federal mais vota- do do pais na eleiqao de outubro. Mas quase 350 mil votos em seu nome e cinco vagas numa bancada de 17 parlamentares (quase um terqo do total), cor a possibilidade de in- corporar mais um lugar, se a demandajudici- al nesse sentido tiver &xito, sao um patrim6- nio invejavel. Principalmente para quem, ha- via pouco, renunciara a presid6ncia do Sena- do e ao mandate de senador para n~o ser cassado, sem conseguir evitar o constrangi- mento de ser preso ou se tornar alvo perma- nente de mandado judicial de prisao, sob acu- saqco de corrupcio ou enriquecimento ilicito (a pr6xima investida, segundo se diz, antes da diplomaqao, seria por evasao fiscal). Dois mandados sucessivos de prisso, fla- grantemente arbitrarios e desnecessarios, amoldaram ao perfil do ex-senador a sem- pre simpitica imagem de vitima. Seu cal- culo de votos, que vinha variando entire 250 mil e 300 mil votos, engordou mais um pou- co: 50 mil ou 100 mil sufragios adicionais, conforme as diversas projeq6es. A incom- petencia ou mi-f6 dos seus adversarios aca- bou por favorec6-lo. Os inimigos fizeram a seu favor o que os amigos n5o haviam con- seguido, muito pelo contrario. Mesmo assim, mais uma vez Jader Bar- balho pode dizer que deve apenas a si esse sucesso; a sua cordialidade, ao seu carisma e a empatia que consegue despertar no povo, principalmente nas faixas mais humildes da populagao, que o v6em como salvador, ou um Robin Hood ao tucupi. Fica, entretanto, uma d6vida: Jader Barbalho teria consegui- do se eleger senador ou governador? Ele pr6prio deve ter-se feito muitas ve- zes essa pergunta. Se preferiu disputar uma vaga de deputado federal, provavelmente foi porque, no minimo, teve d6vidas quanto ao resultado. Algu6m mais critic pode ir al6m e achar que o povo deu ao ex-govemador 13% de todos os votos vilidos para a Ca- mara Federal, mas ndo aceitaria devolv6-lo ao Senado, de onde saiu pela porta dos fun- dos, como uma estrela definitivamente des- colada do firmamento, ou ao govero, que parecia uma altemativa mais viavel. Na moldura de uma dispute proporcio- nal, Jader Barbalho voltou a se agigantar, mas esse pode ser o seu universe exclusi- vo (e excludente) a partir de agora. Ele pode ter sido proscrito do ambito eleitoral majoritArio, que inclui Senado e Governo do Estado, embora de uma forma suas6ria, cor o agrado de uma votac~o miliondria, como conv6m a um verdadeiro (embora desvirtuado) lider politico. Os 14% para deputado federal que im- pressionam (de cada nove votos, um foi dele) representam degraus abaixo na con- dicao do politico que sozinho ganhava eleiqao e elegia terceiros. Ele pode ter dei- xado de ser um eixo da political paraense. A fragdo cativa de Jader Barbalho no elei- torado paraense encolheu. E pode enco- lher ainda mais. Para engordar a bancada federal do PMDB paraense, Jader atraiu um campedo de popularidade, o radialista Wladimir Costa, que 6 tamb6m um recordista de ili- citos 6ticos e morais. Cor espantosos 162 mil votos, metade do "bamburro" do seu godfather, "Wlad" enriqueceu a legend, mas pode contribuir para a dilapidag~o do patrim6nio do seu partido (e do seu pa- drinh) quando entrar em atividade na Ca- pital Federal. Por seu passado, represent um salto no escuro e um cheque em bran- co que Jader Barbalho assumiu, em seu favor de imediato, mas contra si num fu- turo incerto e temerario e, contra o Es- tado que diz amar, sempre. Na tendencia que tmr os lideres auto- ritarios, de andar mal acompanhados, para ndo criar sombras, Jader Barbalho nao es- teve s6. O governador Almir Gabriel, ao ungir a candidatura senatorial de Ducio- mar Costa, andou no mesmo caminho. O Estado de S. Paulo ja deu o sinal de aler- ta, estigmatizando o future senador, um fraudador de habilitacgo professional. Quando ele entrar no plendrio, outros si- nais de alerta serio acionados. A partir daf, quanto tempo levard para a primeira acusaCgo? O que Duciomar, um politico de mentalidade municipal, podera dizer de convincente sobre essa novela cabulo- sa para um plendrio mais qualificado? A bancada paraense que vai para Brasflia promete. E o que promete ndo 6, seguramente, bom para o Estado. Se- quer para os lideres. Ao criar tais cria- turas, os principals lideres politicos do Pard agiram como feiticeiros. Como de regra, desatentos aos efeitos colaterais de seus feitiqos. Feitigo paraense 6 JOURNAL PESSOAL EXTRA DE OUTUBRO/2002 SERRA PELADA A terra do ouro Quem arriscar dizer que Serra Pelada foi o maior garimpo de ouro do Brasil, ou, talvez, do mundo, talvez nao fique muito long da verdade. Em seu period de mais intense atividade, entire 1980 e 1982, Serra Pelada, no sul do Para, pro- duziu 40 toneladas de ouro. Mas noo 6 tanto pela quantidade fisica que impres- siona, embora este seja um dado signifi- cativo. Seu component mais forte era a pr6pria mecanica da produgqo, o modus operandi do garimpo, que lhe conferia marca tinica. O visitante de Serra Pelada nunca dei- xava de se chocar com o espetAculo inad- vertidamente criado por aqueles milhares de homes nisticos, que cavavam num ponto e depositavam a terra retirada num outro pon- to. Ali, cascavilhavam atras das pepitas de ouro, de tamanho descomunal, batendo um record atris do outro (a competicqo era sempre media em dezenas de quilos). O fundo da cava passou de 90 metros de pro- fundidade, o equivalent a um pr6dio de quase 30 andares (mas subterraneo). 0 mor- ro lateral excedeu 60 metros de altura. A paisagem se modificou varias vezes: o morro mudando de lugar conforme mi- grava o ponto de lancamento dos rejeitos e as drenagens sendo desviadas de acor- do cor o posicionamento dos garimpei- ros. Para que eles pudessem continuar a garimpar, era precise manter bombas fun- cionando sem parar, dia e noite secando a cava, que estava bem abaixo do lengol freAtico. As paredes laterals ao grande buraco eram ingremes, tornando ainda mais penoso o trabalho dosformigas, que ganhavam esplendidas quantias para transportar de 20 a 30 quilos de terra, em sacos de aniagem carregados As costas, escalando a escarpa parajogar o material no alto, quatro, cinco, dez vezes ao dia, conforme a resistencia. De vez em quan- to uma dessas paredes desabava. Deze- nas de garimpeiros morreram soterrados sob essas avalanches. O olhar do visitante procurava pela modemidade nesse decor de Babil6nia, na forma de caminhoes, carregadeiras ou esteiras rolantes, e nao a encontrava. Tudo era feito A mao: a escavagdo da terra, os montes de rejeitos, a lavagem do casca- Iho na "cobra" fumando merctrio para o amilgama do metal, com seu halo de po- luiqao, contaminaqco, doenqa e morte. Nao sem motivo, Serra Pelada foi com- parada ao iltimo circulo do inferno de Dante. Seus habitantes estavam sempre cobertos de barro, vestindo andrajos, pri- mitiva mascara na cara, alimentando-se - mal sobre os montes de cascalho, dor- mindo sob precarias lonas pretas, convi- vendo com bichos e lixo. Para eles, por6m, esses inc6modos, de resto um traqo comum em suas vidas sem- pre duras e sofridas, eram um prego su- portivel para chegar ao esperado "bam- burro", esperanca renovada nas hiperb6- licas conversas de fim de tarde e nos so- nhos de prestidigitaCqo sonhados nas noi- tes pesadas. A transmissao oral assegu- rou que, debaixo do solo superficial, se escondia uma enorme laje de ouro. Ali, sim, estava o ouro macigo. Aquelas gi- gantescas pepitas que afloravam eram apenas migalhas desgarradas desse fun- do de riqueza sem fim. Ha 10 anos Serra Pelada 6 uma pilida e amarga lembranca do que foi. As pepitas deixaram de ser refernncia. O ouro aparece agora na forma de fagulha, uma poeira s6 visivel ao olho experimentado, que espora- dicamente se agrega como farinha um pou- co mais baguda. Ainda assim, por causa do garimpo, 30 mil homes quase chegam a uma guerra sangrenta, no final do mss pas- sado, em dois ferozes campos opostos. De um lado, os pioneiros, que ainda se mantem em Serra Pelada, hoje um dis- trito do municipio de Curion6polis, que ganhou esse nome para homenagear um official da reserve do Ex6rcito, Sebastiao Rodrigues de Moura, mais conhecido como Curi6, que gerenciou o garimpo em nome do governor federal (e particular- mente da chamada "comunidade de infor- maqres", A frente o SNI), depois de ter participado vitoriosamente da repressao A guerrilha do Araguaia. De outro lado, garimpeiros que tambem atuaram em Serra Pelada desde o inicio da d6cada de 80, mas acabaram retomando ao seu ponto de origem, em MarabA, no Pard mesmo, ou no Maranhao, o mais impor- tante motor da migraqio. Por terem said do lugar, esses garimpeiros perderam o control institutional da representagao, mas se mantiveram mobilizados atrav6s de uma associacqo informal. Hoje, nao se sen- tem representados pela cooperative, con- trolada pelo grupo de Curi6, que se elegeu prefeito pelo PMDB, partido que comba- teu quando, na ativa como coronel, era um semideus em Serra Pelada. Fazem tudo para derrubar a atual diretoria. O conflito esteve pr6ximo de se torar uma autentica conflagraco b6lica quando os garimpeiros que retomaram A region ten- taram invadir Serra Pelada e foram impe- didos pelo grupo rival, que destruiu a pon- te de acesso e montou barricades na entra- da do garimpo. A policia precisou intervir para evitar o confront direto. 0 grupo dis- sidente acabou convencido a continuar a aguardar pela resposta da justiqa estadual ao seu pedido de realizaio de uma assem- blWia geral extraordindria, na qual esta certo de poder destituir a diretoria atual e abrir caminho para assumir a direqo da Coo- migasp, contando com seu maior ndmero. Os garimpeiros dissidents sao quase 20 mil. A partir de marco eles comeCa- ram a se reunir em Marabi, a maior cida- de da regiao. Continuam acampados ao ar livre, dormindo em redes, enfrentando a longa permanencia num acampamento improvisado. Como antes, ainda sonham com prosperidade. O m6vel desses sonhos tem a forma de 150 milhoes de reais. E o valor que a Cai- xa Econ6mica Federal sera obrigada a pa- gar, por decisao judicial. A Caixa ficou com 900 toneladas de sobra de ouro produzido em Serra Pelada, mas nao remunerou os garimpeiros. Originalmente, esse dinheiro devia ser usado para rebaixar novamente o garimpo e permitir que ele volte a funci- onar. Mas, antes disso, hi muitas dividas a quitar, inclusive a parte que cada garim- peiro reivindica para si. O dinheiro 6 ten- tador, mas a demand de encargos e maior do que a oferta de "desencargos". Serra Pelada tamb6m voltou a atrair gentes e paixoes por outra decisao. Atra- v6s de decreto legislative, o Senado de- volveu no mes passado aos garimpeiros o dominio sobre uma area de 100 hectares, exatamente onde esti o buraco do qual extrairam o ouro, e debaixo do qual ainda estaria, A espera de maos para alcangi-la, a legendiria laje de ouro, um present dos deuses do Eldorado amaz6nico. A Companhia Vale do Rio Doce tinha sido indenizada em 60 milhoes de d6lares EXTRA DE OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 7 pelos seus direitos minerarios sobre essa area para que os garimpeiros pudessem lavri-la. Depois, readquiriu esses direitos e investiu no projeto de uma lavra mecani- zada, que poderia reprocessar os rejeitos e, talvez, encontrar um novo filo. Apa- rentemente, o projeto se mostrou inviavel, ou por seu custo ou pela inexistencia de material lavrivel em escala economic. Os garimpeiros, por6m, nao partilham esse ponto de vista. Eles acreditam firme- mente que se puderem voltar a Serra Pela- da e tiverem dinheiro suficiente para re- baixar a 6rea, afastando o risco de desmo- ronamento e dando condiq6es de trabalho no fundo da cava, logo encontrardo as pe- pitas que fizeram sua riqueza e alimenta- ram seus sonhos duas d6cadas antes. E certo que a maioria deles ji ultrapas- sou a faixa dos 50 ou mesmo dos 60 anos. Alguns ainda se sentem em condiqses de re- tomar suas atividades. Outros querem ao menos conseguir algum dinheiro para voltar para casa sem as maos abandonando, como das outras vezes. Mas para todos ainda soam como mrisica hist6rias sobre os incriveis "bamburros" de Serra Pelada. Descobertas que permitiam aos bem sucedidos ou sortu- dos faiscadores de ouro passar da mis6ria e do absolute anonimato para a riqueza e a notoriedade num literal piscar de olhos. Hist6rias como a do garimpeiro que trocou todos os dentes naturais da boca por blocos de ouro. Do garimpeiro que comprou A vista um carro em Marabi, mesmo sem jamais ter dirigido um, jogou o veiculo contra o primeiro poste do ca- minho e voltou para o garimpo de carona. Do garimpeiro que mandou gravar um disco no qual interpretava suas pr6prias misicas, at6 entdo cantadas apenas no banheiro. Do garimpeiro que entrou numa loja de departamentos e comprou no ato, e a vista, toda a mobilia e os eletrodom6s- ticos que uma casa merece ter. Ou do ga- rimpeiro que fretou dois teco-tecos em Marabk. Num dos aparelhos, foi para Ser- ra Pelada. No outro aviao, mandou seu chap6u. Estava na pista de pouso quando o avi~o chegou. Abriu a porta, tirou o cha- p6u, colocou-o na cabeqa e se virou para a multiddo, que o aplaudiu, entusiasma- da. Desse candidate a milionario ex6tico nao se teve mais noticia. Serra Pelada ainda 6 ditero f6rtil para esses sonhos ou nio passa mesmo de um dolorido retrato na parede? Para os ga- rimpeiros, parece que a pergunta interes- sa muito mais do que a resposta. enhum 6rgao da imprensa comen tou o "Manifesto ao povo do Pard", assinado pelo governador Almir Gabriel e publicado nos jornais de 1 de outubro. Todos preferiram ignorar o document, o mais violent de quan- tos Almir Gabriel jd subscreveu. No ma- nifesto, o governador diz estar certo da vit6ria do seu candidate, Simdo Jatene, mas invested pesadamente contra a co- vardia dos seus adversarios. Essa frente inimiga estaria integrada por "conhecidos figurantes da traigdo, da corrupcqo e do mais deslavado oportu- nismo", com o prop6sito de transferir da votacao popular para o "tapetdo" (dajus- tiga eleitoral, naturalmente) a escolha do novo governador. Nesse context, "pes- quisas s6rias, nao livre- mente divulgadas", deixa- ram de ser repassadas ao pdblico por registrarem a lideranqa de Jatene. A linguagem dura nao avangou da for- ma para o conteddo. O go- vernador distribuiu carapu- qas, mas nao identificou os destinatarios. Para que a opinion pdblica melhor as- simile seu recado e tire dele o proveito pedag6gi- co, e precise expliciti-lo. Os "figurantes da traiqSo, da corrupcao e do mais deslavado oportunismo" aos quais Almir Gabriel se refere sio, pela ordem, seu vice-governador Hildegardo Nunes, o de- putado federal eleito Jader Barbalho e o se- nador (em fim de mandate) Ademir Andra- de. As "pesquisas s6rias" citadas sao as do Ibope. Embora tenha desembolsado 40 mil reais por cada sondagem do institute, o gru- po Liberal deixou de livremente divulgi-las, conforme reclama o govemador, que bem conhece o assunto. Almir Gabriel 6 repetente nessa quei- xa: ele ficou furioso dois anos atrds, quan- do O Liberal divulgou, no dia da eleicao para prefeito, que Edmilson Rodrigues havia aumentado sua diferenqa em relaqao a Duciomar Costa (o que a votaCio propri- amente dita nao confirmou). Os tucanos estao convencidos de que a divulgacgo dessa pesquisa, e, sobretudo, a forma da sua divulgacqo, foi decisive para a reelei- qao do prefeito do PT, que ganhou raspan- do. Iniciativa dos Maiorana que classificam de tudo, menos de risonha e franca. O governador tem seus motives para queixume, mas nao todos. Se o povo esti atris de lideres honestos e capazes (e esti mesmo: o problema 6 encontri-los), sua excelencia nao tem se aplicado em ofere- cer-lhe tais altemativas. Quem acompanhou a campanha elei- toral de Almir Gabriel em 1994 ouviu-o dizer e repetir que cinco politicos, aos quais fazia seriissimas restriq6es, jamais entrariam em seu gabinete. Hoje, todos os cinco sao seus correligionarios ou ali- ados, ocupando cargos de confianqa ou postos de destaque, graqas ao governa- dor, que os indicou, apadrinhou ou no- meou. Nao sao os exem- plos de honestidade e ca- pacidade que em seu ma- nifesto o m6dico Almir Gabriel diz que sao os seus parceiros eleitorais e politicos, em contrast com a turva combinagdo de inimigos melifluos e S) nefastos. A political do Pari nao melhorou um grau com a turma do go- vernador. Na melhor das hip6teses, continuou igual, exceto num fundamento, como se diz no v6lei: hi muito mais ves- tais do que antes. O que apareceu de Ca- tao de dedo em riste nesta eleicqo, nao foi normal. Todos imitando o chefe nas palavras, na mimica, na ret6rica. Quanto a manipular pesquisas e re- correr a "tapet6es", essas pocqes viram veneno quando usadas contra. A favor, sao rem6dio celestial, como admitiu, in- tranet, o ex-ministro Rubens Ricupero, o tucano parab6lico por excelencia, um Goebbels engomado para missa domini- cal. A "mesinha" do governador tem de tudo. Se ele pudesse olhar em volta com senso critico e independ8ncia, veria que se igualou aos politicos em relacqo aos quais se apresentava como oposto. Ago- ra, s6 quando acusa ter razao. Quando se defended, falta-lhe legitimidade, argu- mento, razao. Em polftica, Almir Gabriel virou coronel. Ou se revelou. Sem dra- gonas. Mas com penache colorido. Gabriel furioso 8 JOURNAL PESSOAL EXTRA DE OUTUBRO/2002 .r M:M:I A 0 OTf Leildo A casa de leilbes tinha, na Be- 16m de 1953, a importancia que ndo ter mais hoje. Era um important elo na cadeia de neg6cios e no estabelecimen- to de relacqes sociais. A Agen- cia Freitas, a "grande casa de leil6es", por exemplo, estabe- lecida na travessa Frutuoso Guimaraes, contava com tres seq6es: imobilidria, de m6veis e miudezas e de generos. Os leiloeiros eram Joaquim Frei- tas, Joao Amaral, Manoel Bouth, Jos6 Vilaca e Manoel Nogueira de Freitas. Pizza Durante apenas uma hora (en- tre 11 horas e meio-dia), diari- amente, a Palmeira oferecia aos seus clients um produto raro na Bel6m de 1955 para 1956, quando o anfncio aparecia: pi- zza A napolitana. O forno a le- nha da poderosa Palmeira, que ocupou todo o quarteirdo no qual resta um enorme buraco, a desafiar a efici8ncia da admi- nistragdo pdblica municipal, aceitava encomendas. Uma outra das especialida- des Palmeira dessa 6poca eram os "folhados Fenocchio". De dar agua na boca da saudade. Langa O grito de carnaval do Ama- z6nia Clube ("agremiaqco so- cial" dos funciondrios dos SNAPP, hoje Enasa Empre- sa de Navegacqo da Amaz6- nia) em 1956 seria dado "nos aristocriticos sales da As- sembl6ia Paraense", sob o to- que musical da orquestra de Orlando Pereira, para quem estivesse trajando palet6 "ou fantasia condigna". Ao fazer o convite, a diretoria do clube ia logo advertindo que "tomard providencias imediatas toda vez que for encontrado qual- quer convidado aspirando Lanqa-Perfumes". Ag6ncia No inicio de 1956 a Aeronorte do Brasil comunicava aos seus clients e ao pdblico em geral que estava instalando sua "mo- dema agencia de passagens, en- comendas e cargas" no edificio do Hotel Suisso (assim mes- mo, com dois esses), na rua Caetano Rufino, onde hoje esti uma agencia do Brades- co, numa das laterais da Praqa da Repdblica. Nao esquecen- do o slogan: "De avido 6 bom. Pela Aeronorte 6 melhor". Coluna Nota da coluna Sociedade, de Armando Pinheiro, considera- da a primeira coluna social de BelCm, na Folha do Norte, ja- neiro de 1956: "A hora em que a FOLHA DO NORTE circu- lar, o dr. Domingos Rio Fer- nandez estard elegantecendo e tecnicamente operando minha vesicula e apendice. JA sei que os anestesistas serio os dou- tores Jayme Gabbay e Mario Rubens. O que me di certo conforto. Prometeu-me o dr. Rio fazer tudo para que nao sofra muito. Quanto ao ato ci- rdrgico, disse-me sorrindo: - 'depois eu conto' + Andam dizendo que este colunista ten- tou o suicidio. Por isto esti no Hospital. Acho-vos uma gra- ga... + At6 quinta-feira. Se eu puder ditar as novidades". PU5IDADELU I RMe I Primeiro Cirio "ao vivo" na TV Foi em 1961 a primeira transmissio, "ao vivo", da procissio do Cfrio de Nazar6 pela televised no Para. A partir das 10 horas do dia 8 de outu- bro a TV Marajoara, dos Didrios e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, a primei- ra emissora de TV da Amazonia, comegou a exibir as imagens da romaria. A noite, apresen- tou "uma reportagem retrospective" da mani- festagqo, "mostrando tamb6m algumas cenas da mesma procissao em outros tempos". A inicia- tiva foi patrocinada pelas Lojas RM, de Romu- lo Maiorana, que tinha tres pontos de venda em sua rede (Joio Alfredo, Repdblica e Calqados). Na d6cada seguinte, Romulo estaria promoven- do a transmissao direta do Cirio em sua pr6pria estagao, a TV Liberal. ,l.d.a. ptl i M hl. M,,t t9 h n T Ia tafW t,p a Ol l MIa tl, i it . M.... en |. ta... -wan eI- at 1 -* -u* -a - t-- l = < li*a.n WWW lM n * -. ,4OR o a t--w .- Mtoa. - -- a -. an. -- ita a-' --~~dUIW--ws ~b JOAO ALFIEDO BEPOBIJCA CALCADOS UAP VMF O Movimento Deontol6gico Universitirio foi o vencedor da eleigqo para a Uniao Acad6mi- ca Paraense, em 1957, derro- tando a Renovagdo Universi- taria por 435 contra 417 votos. O MDU elegeu o future m6di- co Dhelio Guilhon para presi- dente da UAP. O vice-presi- dente seria o future advogado Carlos Mendonca e o 2 vice, Nelson Nassar. Os demais car- gos: secretirio-geral, Joao Luiz Aradjo; 1 secretario, Murilo Ferreira; 2 secretirio, Lucy Lucia Mirtires; 1 te- soureiro, Ant6nio Itayguara dos Santos; 2 tesoureiro, Joao Batista Leite; biblioteca- rio, Lucentina Rosa; orador, Cordeiro de Melo. Oito ho- mens e duas mulheres, na re- presentaq~o por genero, como hoje se diz. Como cabecas da chapa derrotada estavam os estudantes Ant6nio Failache, de Medicine, para president, e Djalma Chaves, de Direito (ainda em plena atividade), como vice. A UAP era a entidade re- presentativa dos universitdri- os. Foi perseguida e fechada pelo golpe military de 1964. Nessa 6poca, ainda sem ter sido constituida a atual Uni- versidade Federal do Pari, funcionavam 11 faculdades isoladas: engenharia, servigo social, odontologia, qufmica industrial, medicine, filosofia, direito, agronomia, enferma- gem, farmicia e economic Cirio A gripe asiitica ameacava ser a maior inimiga do Cfrio de Nossa Senhora de Nazar6 de 1957. Por causa da epidemia, as autoridades recomendaram TV se associam PARA QUE TODOS VE3AM 0 C RIo 9 EXTRA DE OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 9 M E NMOR I A DO C OTIDIANO ao povo que evitasse o ajun- tamento na procissdo. Mas quando a madrugada avanqou no rumo da manhn, milhares de pessoas, como sempre, se aglomeravam na romaria para prestar sua homenagem A pa- droeira do Estado e agradecer por gragas recebidas. A "asi- 6tica" nao deu o ar da sua gra- qa. No lugar da gripe epid- mica, surgiram nos c6us os avi6es da Esquadrilha da Fu- maqa da FAB para sua apre- sentadao acrobitica. Foi um sucesso tao grande quanto o estrondo dos fogos prepara- dos pelos estivadores. Servigo Rec6m-chegada pela primeira vez a Bel6m, Mme. Miraceli, paraense natural de Faro, anunciava pela imprensa, no final de 1957, que estava dis- ponivel para consult das 8 as 20 horas, em sua residencia, na rua dos Tamoios, "comn nibus A porta". E quais eram esses serviqos? Ela "nao s6 desven- da o future como se encarrega de trabalhos de natureza cien- tifica sobre a vida e assuntos particulares" dos seus clients. Uma 6nica consult, ao m6di- co preqo de 50 cruzeiros, ji seria o suficiente para o escla- recer ou resolver "dificuldade em vencer na vida, disc6rdia amorosa ou entire famflia, via- gens, separagao de amantes" e virios outros interesses, de forma garantida e rdpida. Era vapt-vupt. Livros Livros mais vendidos na Li- vraria Dom Quixote, de Harol- do Maranhao, que ficava na entao sofisticada galeria do Cine Palacio (hoje temple da igreja do bispo Edir Macedo), com said para a rua 6 de Al- meida, no inicio da primeira semana de 1960: 1) O drama Uma candidatura sempre present O marechal cariocaa) Alexan- dre Zacharias de Assumpcao se P tornaria uma figurinha carim- bada na political do Pard a par- tir de 1945, quando, deixando o Comando Militar da Amaz6- nia, se tornou interventor fede- ral, ap6s a redemocratizagqo do Brasil. Tentou se eleger gover- nador em 1947. mas foi derro- tado por outro military, o coro- nel Moura Carvalho (tratado como general dentro do PSD, a miquina de fazer votos co- mandada por outro military, o 1I coronel-general Magalhaes Barata). Por ligeira margem de votos, Assumpqo finalmente derrotou os pessedistas em 1950, A frente da Coligaqgo PARA GOVERNADOR Democritica Paraense, uma ampla frente anti-baratista. Em seguida se elegeu senador. Na eleiqgo de 1960, Assumpqdo acreditava que o Pard novamente iria precisar dele, conforme dizia sua propaganda, divulgada na imprensa. Mas o povo preferiu eleger o jovem advogado Aur6lio Correa do Carmo, que chegou ao primeiro cargo eletivo ji no topo, depois de ter sido secretirio de interior e justiqa, graqas A miquina do PSD. Assumpqio ainda tentou por uma quarta vez o governor paraense, mas foi novamente derrotado, desta vez por uma diferenqa esma- gadora. Mais uma vez, enfrentando outro military, o coronel Alacid Nunes, que iniciava um novo ciclo (ou recomeqava o mesmo ciclo) na vida political paraense. Assumpcqo abandonou a vida pdblica em 1967, aos 72 anos. Morreu 14 anos depois na sua terra natal, o Rio de Janeiro. da descoberta do petr6leo bra- sileiro, de Edson de Carvalho; 2) Voce gosta de Brahms... (ro- mance), de Franqoise Sagan; 3) Todos os homes sdo mor- tais (romance), de Simone de Beavoir; 4) Discos voadores, de Edward J. Ruppelt; 5) As- sunto pessoal (romance), de Somerset Maugham; 6) Olhos dentro da noite (contos), Apio Campos [inico livro local]; 7) A cartuxa de Parma (roman- ce), de Stendhal; 8) A mulher diante da vida e do amor, de Marian Hillard; 9) Luz e som- bra (romance), da sra. Lean- dro Dupr6; 10) Machado de Assis e o hipopdtamo, de Gon- din da Fonseca. Desses, quantos voce j leu? Justiga Em agosto de 1979 se estabe- leceu uma polemica na im- prensa. De um lado, a policia, querendo prender ou manter press os criminosos, critica- va ajustiqa pela morosidade na tramitaqao dos processes e pela excessive concessao de habeas corpus. Falando em nome da justiqa, o juiz (hoje desembargador) Werther Be- nedito Coelho, que fez reparos ao conteddo dos inqu6ritos policiais, por nao fornecer sub- sidios suficientes para a con- denaqgo judicial, e ressalvan- do os casos de amparo consti- tucional aos HC, que, assim, nao seriam excessivos. Debate, pelo jeito, tao an- tigo quanto insolivel. 10 JOURNAL PESSOAL EXTRA DE OUTUBRO/2002 ECOLOGIA Adeus a floresta Enquanto, na "corrida para oeste", avan- gava a frente de construgdo da nova capital da Reptiblica e da primeira estrada ligando por terra o Brasil A Amaz6nia, da capital da Amaz6nia partia uma frente cientifica na diregqo da area que seria atravessada pela rodovia Bel6m-Brasflia, na metade da d6- cada de 50 do s6culo passado. Enquanto o engenheiro Bernardo Sayao comandava um ex6rcito de maqui- nas pesadas e milhares de trabalhadores braqais, que abririam uma linha com dois mil quil6metros de extensao e 30 metros de largura entire o Planalto Central e a foz do rio Amazonas, t6cnicos do program de pesquisa da FAO (a agencia da ONU para agriculture e alimentagao) e da SPVEA (Superintend6ncia do Piano de Valoriza~go Econ6mica da Amaz6nia, pri- meira agencia de planejamento regional do pais), tentavam inventariar a riqueza florestal que havia ao long do traqado da primeira via de incorporaqao da Ama- z6nia a economic national. Era uma floresta com elevada densida- de de arvores, com mais de 300 esp6cies identificadas por hectare, algumas de alto valor commercial, como o mogno e o cedro. Em um quarto da sua extensao, ao long de 500 quilometros no Para, a Bel6m-Bra- silia atravessava uma compact massa ve- getal, que ocupava os dois lados da pista, sem qualquer clareira. Parecia que estariam disponiveis ali os elements para uma ocupagao racional da nova fronteira que o Brasil estava incor- porando ao se mover dentro do seu pr6- prio territ6rio: uma evidence riqueza natu- ral, a floresta, razoavelmente identificada por cientistas, que haviam se antecipado aos agents produtivos na avaliaqgo do re- curso, produto que se tornaria acessivel ao mercado atrav6s de uma estrada-tronco. Quando o primeiro grande n6cleo ur- bano se formou, por6m, o que o coloniza- dor queria era colocar abaixo a floresta e limpar o terreno para a forma9go de cam- pos de pastagem e, secundariamente, de agriculture. A cada novo verao, dezenas de milhares de arvores eram atiradas ao fogo. Com tanta oferta, logo comegaram a se instalar serrarias. Nos primeiros neg6cios, o madeireiro tinha apenas o trabalho de arrastar as enor- mes toras at6 o patio da serraria, bem per- to da mata, no curto espaqo de tempo que o fazendeiro lhe concedia para livrar a fu- tura pastagem do estorvo das arvores, sem pagar um tostao. Findo o prazo e haven- do ainda madeira no terreno, o fogo com- pletava o serviqo. O que interessava ao pioneiro era o gado, que amansaria a terra e incrementa- ria o desenvolvimento. A terra era muito barata e, al6m disso, havia o dinheiro do governor para financial, praticamente a cus- to zero, os chamados "projetos agropecua- rios". Todo era, entdo, lucro ripido, volu- moso, certo. O future seria entregue aos cui- dados de Deus, brasileiro por delegaqCo dos seus conterrdneos compuls6rios. Logo os pastos comecaram a ser inva- didos por ervas daninhos e o solo foi-se compactando. Para manter a alimentaqio do rebanho, o fazendeiro ji precisava de novos tratos culturais. O dinheiro dos in- centivos fiscais oficiais havia sido queima- do no avanco pela floresta atrav6s da pata do boi. A madeira comecou a ser vendida as serrarias para financial a melhoria dos pastos ou sua expansdo. Ainda havia mui- ta madeira, tanta que o municipio de Para- gominas, o mais dinImico da region, che- gou a ter mais de 400 serrarias em suaju- risdi~go, record mundial. Quem chegava i sede municipal nessa 6poca ficava abalado pela quantidade de fumaga no ar, lanqada A atmosfera (e sobre as pessoas) por rdsticos fomos (de "rabo quente"), que queimavam p6 e sobras de madeira. Parecia a Inglaterra do inicio da industrializaqo, vista por Charles Dickens. No auge do verao, o c6u sumia atris de uma massa de ar saturado pela fumaqa es- cura e densa, particulas resistentes do le- nho fazendo volutas de piromania. Quarenta anos depois de ser inaugura- da por Juscelino Kubitscheck, em 31 de janeiro de 1961, num dos seus iltimos atos de JK antes de passar a faixa presidential a Janio Quadros (que batizaria a grandiosa obra do Piano de Metas do antecessor de "caminho das oncas"), a Bel6m-Brasflia oferece a quem a percorre atualmente uma paisagem diametralmente oposta. Nao ha mais floresta virgem ao long de todo o percurso. Nao 6 visivel a olho nu o mais tenue remanescente daquela mata de alta densidade que a Missdo FAO/ SPVEA inventariou. Ainda ha mais de 250 serrarias em atividade em Paragominas (um ndmero que continue a ser impressionan- te), mas elas tem que ir buscar madeira para suas necessidades a uma distancia minima de 200 quil6metros, freqtientemente no vizinho Maranhao. Milhares de hectares de pastos foram abandonados, imprestiveis. A compactagqo do solo em determinadas areas inviabilizou a agriculture. Poucos dos verdadeiros pioneiros subsistiram. Alguns tim esperanqa em tempos me- Ihores. Uma das tres unicas empresas flo- restais que possuem selo verde no Pard esta instalada as proximidades da Bel6m- Brasilia. Os fazendeiros aprenderam a consorciar cultures e a dar um uso mais inteligente is suas terras. Bosques for- mados a partir dessa nova visao come- 9am a se multiplicar. Mas 6 enorme o desafio que se imp6e aos produtores empenhados na recupe- raqao de uma vasta area degradada pela impericia e o descaso para cor a nature- za. O balan9o do custo/beneficio ainda 6 altamente deficitario. Ha os que preve- em o restabelecimento da atividade flo- restal da area, mas muitos sao c6ticos a esse respeito. Torcem o nariz quando Ihes 6 apresentada uma dessas alternatives, o cultivo de soja. O exemplo da colonizaqgo da Bel6m- Brasilia 6 um testemunho perturbador con- tra a vocaqao florestal da Amazonia. A vocagqo 6 evidence numa regido que con- centra um ter9o das florestas tropicais do planet e que pode exibir ndmeros de peso. A renda da atividade madeireira no Para, o principal produtor da Amaz6nia, foi de mais de cinco bilhoes de reais no ano pas- sado, equivalent a 20% do PIB estadual, gerada por 2.300 empresas, 93% delas de micro a m6dio porte, das quais dependent meio milhao de pessoas. Mas essas grandezas desaparecem no cendrio da economic intemacional. O Para, que 6 responsavel pela maior parte de toda a madeira tropical consumida no Brasil, produz menos de 30 milh6es de metros c6bicos anuais. O consume mundial de madeira 6 de quase 3,5 bilh6es de metros cibicos. Ou seja: a participagao paraense 6 inferior a 1%. Como 80% da madeira produzida no Para 6 illegal, isso significa que a floresta 6 desfalcada das suas me- Ihores esp6cies ou inteiramente posta abai- EXTRA DE OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 11 xo sem renovaqao do estoque. A producao com certificaqao de qualidade ambiental nao vai al6m de 1% do total. Assim, no dia em que a curva do manejo sustentado dos recursos florestais coincidir com a curva da producao talvez nao haja mais mata native, s6 reflorestada ou manejada. Se as duas curvas nao estiverem ser condenadas a ser criaturas paralelas, com ponto de en- contro no infinite. A inserqio florestal amaz6nica 6 mais veloz no quadro dos problems e dos da- nos do que no ambito das soluq6es e dos ganhos. Se o que a regiao produz 6 um traqo no grafico da produqao, o que des- tr6i tem expressao planetaria: o desma- tamento na Amaz6nia tem correspondi- do, nas iltimas tr6s d6cadas, em m6dia, a um quinto de todo o desmatamento no mundo tropical. O panorama 6 grave pela restrita 6ti- ca dominant, a da atividade florestal que result em madeira s6lida. Mas adquire a conformaqao de verdadeira trag6dia quando se amplia a visao para o uso miltiplo da floresta. Mesmo ocupando apenas 9% da superficie da Terra, as flo- restas tropicais concentram metade da bi- odiversidade do planet. Ao ritmo de destruiqCo das d6cadas de fogo da hist6ria recent da Amaz6- nia, o que ji se perdeu se informa~ao e assustador, mesmo tendo se tornado pra- ticamente impossivel saber o quanto (ou justamente por isso). A bioprospecqao, descambando para a biopirataria, 6 o es- forgo, freqtentemente illegal e nocivo ao interesse do Brasil, se montar um cadas- tro da realidade fisica da Amaz6nia e preservar seus testemunhos antes que o operator da motosserra apareqa. O estu- do das linguas e da cultural dos indios 6 a recuperaq~o, por via indireta, do conhe- cimento preste a desaparecer. Por que essa selvageria predat6ria ain- da prevalece sobre a engatinhante mas ji firme racionalidade, impedindo que a vocaqio florestal da Amazonia, livre da camisa-de-forqa da monocultura madei- reira, se afirme no piano das realidades fiticas da sociedade humana na region? As explicaqces s5o tao convincentes quan- to a forqa do potential de biodiversidade da floresta amaz6nica. Muitas foram apre- sentadas durante o 32 Congresso Brasi- leiro de Estudantes de Engenharia Flores- tal, que reuniu na semana passada em Bel6m quase 500 participants. Explica- se, por6m nao se muda a realidade. Ou O governador Almir Gabriel nao conseguiu, no 1 turno, eleger nenhum dos seus candidates in pectori. A dni- ca excegqo foi Duciomar Costa, que nao 6 do seu partido, nem um compa- nheiro de viagem tucana, mas de um partido aliado na coligagao situacionis- ta, o PSD. Sem a miquina estadual e a manifesta preferencia do chefe do exe- cutivo, provavelmente Duciomar nao teria sido eleito. Mas Gerson Peres, de outro parti- do coligado, o PPB, ficou de fora. Du- ciomar foi muito mais "ajudado" do que o deputado federal pepebista. O falso medico dispunha, por6m, de mais capital pr6prio. Seu ponto de partida era bem a frente do suposto companhei- ro de alianga, agora obrigado a inter- romper 40 anos de carreira political. Se Simao Jatene conseguir vencer a dispute pelo governor do Estado, a alian- qa poderi ser restabelecida conforme o piano do governador. Dentro de dois anos Duciomar poderi se licenciar do Sena- do, abrindo a vaga para seu suplente, o empresario Fernando Flexa Ribeiro, compare do governador, e concorrer A sucessao de Edmilson Rodrigues na pre- feitura de Belem como favorite, capita- lizado pela condigqo de o politico corn mais votos na capital. Em 2006 Jatene poderia concorrer A reeleiqao e Almir sucederia a Luiz Ot~vio Campos no Se- nado. O almirismo estaria consolidado. Mas, e se Jatene perder? Duciomar poderd proclamar que se elegeu por seus pr6prios meios e reservar-se o di- reito de recompor seus interesses. Ele viria para a dispute municipal de 2004, mas sem as amarras atuais. Ao inv6s de perpetuar o almirismo, poderia dar uma banana para o chefe e inaugurar o duciomarismo, formando um novo gru- po politico no Estado. Esse grupo (gru- po?) galvanizaria o anti-petismo, prin- cipalmente se as piores previsoes so- bre uma dupla administraqao do parti- do, no Estado e em sua capital, se con- firmarem. Nesse caso, Almir Gabriel se dis- poria a disputar no braqo a prefeitura de Bel6m com Duciomar e com quem mais aparecesse, sem dispor de um bom padrinho e de uma forida estrutura de poder? Ou esperaria mais dois anos e enfrentaria a campanha para o Gover- no, ou o Senado, confiando apenas em seu carisma e na aprovaqao popular A sua administragao? Bem que os fados podiam reservar a Almir de Oliveira Gabriel o privil6- gio de provar, enfim, ter lideranqa pr6- pria. Ou entao Ihe reservar um bom jar- dim para o cultivo de flores, a que pro- meteu se dedicar quando deixar o go- verno do Pari, no dia 31 de dezembro. Provavelmente imaginando que esse 6 um recomendivel roteiro que estadis- tas, como ele, devem seguir. h muda-se, mas a mudanga 6 muito mais lenta do que a permanencia das priticas irracionais, e at6 sua expansao. O triste balan9o entire o que Parago- minas podia ser e o que se tornou hi de ser creditado ao custo de aprender a lidar com uma situaqdo tao original quanto a Amazonia atrav6s de uma metodologia tio onerosa quanto o ensaio e erro. Depois desse desvio, por6m, a regiao ji viven- ciou outros capitulos semelhantes, que fizeram o sertao ocupar quase todo o vale do Araguaia-Tocantins, onde tamb6m a hil6ia patenteara seus dominios, e Ron- d6nia chegar a um grau tal de devastaq~o que hoje os lideres das frentes pioneiras querem uma inversao radical da regra em vigor nas areas de floresta da Amaz6nia: a reserve legal deixaria de ser de 80% e passaria a ficar confinada em 20% da area dos im6veis rurais. Rond6nia se despoja- ria de vez de sua condiqCo de area ama- z6nica e se incorporaria ao Planalto Cen- tral, abandonando as veleidades ecol6gi- cas. Resultado malfadado de uma algara- via de apenas quatro d6cadas do mais in- tenso desmatamento em possessao ama- z6nica. Ou ex-amaz6nica. Em encontros como a ruidosa con- fraternizaqio de futures engenheiros florestais brasileiros, fica cada vez mais tristemente tentador repetir o titulo de um dos livros recentes sobre a region: Amaz6nia, adeus. Por linhas tortas 0 esquema Marinho Estatua No ultimo dia 30 de setem- bro o secretdrio de cultural do Estado, Paulo Chaves Fernan- des, aditivou um contrato as- sinado no ano passado com a empresa Femac Geosolo Engenharia, no valor de 76 mil reais, para a "prestaqao de ser- viqos de sondagem geot6cni- ca no rio Pari". O aditamento foi motivado pela "inclusao de dotacqo orcamentaria". Ou seja: a tres meses de encerrar seu mandate, bisado como o do seu chefe, o gover- nador Almir Gabriel, Paulo Chaves ainda comprometeu recursos do erario num proje- to, o da construcao da estitua de Nossa Senhora de Nazar6, na entrada fluvial de Bel6m, que, al6m de extremamente pol6mico, s6 poderd ser reali- zado pelo seu successor. Se o successor assim o desejar. Se brecar a obra, esses R$ 76 mil ficardo perdidos. Por que nao deixar a quern ficard corn a responsabilidade da obra o direito de decidir se deve ou nao nela aplicar di- nheiro pdblico? Basa No final do primeiro se- mestre deste ano os ativos do Banco da Amazonia soma- vam 4,2 bilhoes de reais. Eram 56% maiores do que os O imp6rio de Roberto Marinho, masto- donte que cabe muito bem numa compara- qdo com o legendario Titanic, esti fazendo agua. Nao 6 pouca agua. A divida da corpo- raqCo 6 de 2,6 bilh6es de d6lares. Ao cam- bio do dia, sao quase 10 bilh6es de reais, o equivalent a 20% do orcamento annual de Sao Paulo, Estado que concentra um terqo do PIB brasileiro. Cada centavo de flutua- Sgo para cima da moeda americana em rela- qio ao real eleva o d6bito em 26 milhoes de d6lares (ou quase R$ 90 milh6es). O pior 6 que o rombo nao para de au- mentar. Em 2001, o imp6rio global deu pre- jufzo equivalent a US$ 568 milh6es (ou R$ 2 bilh6es). Previa-se uma tamponagem de emergencia com um financiamento de um bilhao de reais do BNDES, destinado ao neg6cio mais desastroso que os Marinho ji fizeram, numa sucessao de neg6cios mal su- cedidos nos iltimos tempos: a TV a cabo. Houve uma grita na opinido p6blica, pro- vocada nos bastidores por outras empresas jornalisticas concorrentes. O banco s6 con- seguiu liberar at6 agora R$ 300 milh6es. Ou seja: sete vezes o dinheiro que a extinta Sudam destinou a Usimar, um dos maiores escandalos dos incentives fiscais, que arras- tou Jader Barbalho para o precipicio. Tecnicamente a Globo esti falida. A di- vida 6 duas vezes e meia maior do que o patrim6nio liquid da empresa. A rigor, o unico ramo lucrative do grupo 6 a televised commercial. Ela podia continuar a caminhar corn folga, mas vai precisar drenar recursos para adubar terrenos BridoS ou maltratados. Por isso, houve corte de despesas na Venus Platinada. As tr6s emissoras da empresa no interior de Sao Paulo, o segundo maior mer- cado publicitario depois da pr6pria capital, tiveram que ser vendidas para fazer caixa. Na emergencia, o mais ativo dos filhos, Ro- berto Irineu Marinho, quebrou a isonomia na trade da sucessao do patriarca para as- existentes um ano antes. No final de junho de 2002 os re- cursos do FNO (Fundo Cons- titucional Norte) alcancavam R$ 3,3 bilh6es. Com um dado significativo: o banco come- qou a provisionar as opera- cOes de cr6dito do FNO, que sumir o comando geral, embora corn certa informalidade, a partir da TV Globo, para nao precipitar uma cisdo internal (se tal ain- da 6 possivel). Os esquemas administrativos e de ges- tdo deram algum resultado. Nao sdo sufi- cientes, no entanto, para reverter a tend6n- cia de debacle, que se delineia exatamente quando o companheiro Roberto Marinho ji v6 no horizonte a data do seu centendrio de vida de raro esplendor, alias. Ruim das pernas no piano econ6mico, a Globo esti voltando a recorrer a uma said polfti- ca sagaz, utilizando seu naco de poder, ain- da enorme. O ex-tucano Henri Philippe Reichstul, al- bergado na Globopar depois de deixar a Pe- trobrds, e catapultado da ex-quase-futura holding pela falta de receptividade de in- vestidores ao neg6cio, teria a missdo de se aproximar do future ou provivel governor Lula. Ele seria a ponte entire o PT de resul- tados e o cld Marinho, costurando futuras alianqas. Isso, depois de ter atuado para con- seguir que o governor colocasse em vigor de imediato a abertura da imprensa brasileira ao capital estrangeiro (at6 o limited de 30% do control aciondrio). Com a aprovagqo da lei no Congresso, a media estava aguar- dando regulamentaqco atrav6s de decreto- lei. O governor se antecipou atrav6s de Me- dida Provis6ria, um instrument de exceqdo transformado em 6dito do trono na corte de FHC. Aldm da Globo, o outro grupo bene- ficiado 6 a Editora Abril. O esquema, naturalmente, 6 desmentido. Mas nele pode estar a inspiraqgo para a co- bertura responsdvel e arejada que a rede Glo- bo deu a eleiqio deste ano, contrastando, par- ticularmente em relaqgo ao companheiro Lula, com as tram6ias de 1989, que ajuda- ram a eleger Fernando Collor de Mello. E por essas e outras que o mundo gira e a Lusitana roda. Os Marinho na direcgo. envolvem certo risco, prova- velmente graqas ao cresci- mento, de quase 18%, das amortizacoes do fundo. O saldo da proviso era, em ju- nho, de R$ 95 milh6es. Computados os dois itens, a movimentaqao pr6- pria e o FNO, o ativo global do Basa era de R$ 7,5 bi- lhWes. Ntmeros expressivos. Por6m os dep6sitos no ban- co diminufram 20%. Ou seja: o Basa ji 6 o banco de desenvolvimento em que pretended transformi-lo. JI ornal Pessoal Editor. Lulo FIa. pino. Fonfl 10911 r) 24 l '6 Cono T.'B.i.amln Cnsanl -i j.a 66 0B3-040 I-m l arrlna.urln con I, Produqof. Angrlllm pino Edlo E d Arl Lulnzlry.(wa~napir.I I ~ ~ rl - I I I - __ |
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