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Jomal Pessoal A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO ANO XVI NI 292 OUTUBRO DE 2002 R$ 3,00 ELEI;AO Surpresas na reta final A uma semana e meia da elei4do, a cassacdo da candidatura de SimdoJatene, o lider nas pesquisas mais recentes, langou uma nddoa de imprevisto sobre uma dispute marcada pela ausencia de uma grande lideranga political. Ndo podendo ser revertida ate o dia 6, a cassagdo deixard o eleitor sujeito a uma circunstdncia inidita na hist6ria: eleger um "sem- candidatura". E oprego que o governador Almir Gabriel poderd pagarpelo risco que assumiu, de eleger o seu candidate de qualquer maneira. 4 466fe' Aconteceu o que se previa: o governador Almir Ga briel foi aos limits da ile galidade para poder ele ger o seu candidate, o ex- secretArio estadual Simdo Jatene. Esse limited criou o risco de cassaqgo da can- didatura do cabeqa-de-chapa da coli- gagAo Unido pelo Pard. Os tucanos v6em inspiraqdo polftica por tris da sentence do juiz federal Glhu- cio Ferreira Lima, que acolheu represen- taqdo do deputado federal Giovanni Quei- roz, do PDT, candidate a vice-govera- dor na chapa de Hildegardo Nunes, e cas- sou Jatene por abuso de poder (al6m de multar o governador em 20 mil reals). Suscitam esse alegado vfcio a partir do fato de que a decisdo do juiz, que funcio- na como auxiliar no TRE, foi adotada a uma semana e meia da eleig~o. Mas na verdade o que gostariam de argumentar, se pudessem faz8-lo, seria a defesa de um principio consuetudi- nario de isonomia: por que s6 os tuca- nos sao punidos? Praticamente sem ex- ceg~o, todos os governadores costu- A [sICA DOc GRUPi LIBERA 1:1=1 7) 2 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002 mam usar a maquina pdblica que co- mandam para reforqar as candidaturas que ap6iam. Almir Gabriel nao inovou na atual temporada. Mas, acomodado pela terceira eleiqgo seguida ao gover- no (duas em causa pr6pria, a terceira em favor do afilhado politico), pode ter-se descuidado de manter as aparen- cias ou evitar que o uso da maquina estadual se tornasse tao explicit. Tam- b6m se esqueceu que o pais, apesar de tudo, e, sobretudo, do governor, vem mu- dando para melhor. Pode ser que o lento crescimento inicial da aceitacgo de Jatene o tenha levado a repetir, ao menos intimamen- te, a tristemente celebre frase com a qual o entdo ministry Jarbas Passari- nho engoliu o AI-5, em 1968, jogan- do fora os escrdpulos da consci8ncia. Se ji havia sido ostensivo o envolvi- mento da estrutura de governor na elei- q5o de 1998, agora ele se tornou agres- sivo demais. Afora a temeraria associacqo de da- tas feita pelos porta-vozes da Uniao pelo Pard com o prop6sito de colocar sob sus- peita a decisao do juiz Gliucio Maciel, os terms da sua sentence sho suficien- temente consistentes para levar a ques- tao, em iltima instfncia, ao TSE. Prever a decisao que o Tribunal Regional Elei- toral tomard nesta semana (poderdjd t&- la adotado quando esta ediado chegar as ruas) 6 dificil, mas 6 certo que qual- quer pronunciamento sera por pequena diferenqa de votos. Certamente haveri na corte quem se oponha a manifesta- cqo do juiz federal, mas da mesma ma- neira 6 previsivel que nao apenas haja endosso, como o apoio acabe superan- do a rejeiq~o. Qualquer que seja a decisao do tri- bunal regional, por6m, ainda havera re- curso ao TSE para uma decisao final. Assim, a eleig~o deste ano apresentara uma caracteristica original e inusitada: o lider nas pr6vias para o governor do Estado chegard ao dia fatal da votaqgo cor uma espada de Dfmocles penden- te sobre sua cabega, e corn duas derro- tas seguidas nos costados (no julgamen- to monocrAtico e no primeiro pronunci- amento coletivo, se o TRE confirmar a sentenga inicial). Como reagird o elei- tor a essa condicionante? E, particular- mente, como reagira aquele que vota para vencer, o dono do voto titil? Cor- rera o risco de perder seu voto, na hip6- tese de a cassacgo de Simao Jatene ser confirmada em tiltimo grau pelo Tribu- nal Superior Eleitoral? Depois de uma campanha eleitoral cinzenta, na qual os gatos podiam ser pardos ou pretos independentemente de haver luz em tetos de zinco quente, sera um desfecho surpreendente. Se tudo der certo para a coligaqCo situacionis- ta (se o contencioso judicial reforqar os dividends da vitima e ela ganhar no final), o m6dico Almir Gabriel dei- xara o governor e ingressara num perf- odo de abstin8ncia convencido de ser um super-homem, de poder quase tudo, inclusive eleger postes. Ou inclusive voltar ao posto que quiser depois das f6rias compuls6rias, quando diz que es- tari plantando flores, talvez a prefeito de Bel6m, em 2004, ou a governador novamente, em 2006. Como ji nao ouve ningu6m, muito menos os critics, Almir Gabriel nao perguntard sobre o custo desse poder e o prejuizo que ele acarretara ao que ainda havia de restos de lisura e decen- cia na conduqco dos neg6cios pdblicos no Pard. Se 6 possivel que, A margem da perlenga judicial, Simao Jatene ven- qa o primeiro turno e seja o maior forte pretendente a vit6ria no segundo tur- no, esse resultado s6 se tornou possi- vel porque o governador Almir Gabri- el arriscou tudo nessa aposta, inclusi- ve a ser flagrado na ilicitude. Com esta eleiqgo, ele deixou para tras, vigente apenas em seu curriculo, o patrim6nio valioso do m6dico respei- tado que foi e assumiu de vez a identi- dade do politico de resultados em que se tornou, defensor de um maquiave- lismo primario e rasteiro, no qual o dnico fim que o interessa (o poder)jus- tifica todos os meios que estiverem ao seu alcance. Se tudo der certo para a Uniao pelo Para, um ne6fito em political, um tec- nocrata do process, um burocrata dos meios, um autocrata dos bastidores, sera o novo governador do Pard. Como sua substitute eventual, na vice-gover- nadoria, estarA Val6ria Pires Franco, uma jejuna em todos esses itens, cria- tura do seu criador, o deputado federal Vie Pires Franco, premiado pelo senso de oportunidade no moment da nego- ciaqco das mercadorias political, pou- pado, assim, de trilhar o caminho de said da vida pdblica. No Senado estard Duciomar Costa, um falso m6dico, algu6m que um dia, quando era apenas comerciante, sem qualquer participagCo na atividade po- litica, nHo se vexou de comprar um ti- tulo forjado para dele tirar vantagens no seu neg6cio. Como hi de se sentir, no trato com seus botoes (se ainda os ter), o m6dico Almir Gabriel de ele- ger para o topo do legislative federal algu6m que violou conscientemente o sagrado compromisso de habilitaq~o da sua profissao? Como Almir Gabriel reagiria a essa circunstAncia se ainda fosse apenas m6dico? Votaria no can- didato de Almir Gabriel, r6u confesso no inqu6rito da Policia Federal, con- denado em primeira instincia pela jus- tica federal e que continue r6u primi- rio porque a tramitaqco da acgo de fal- sidade demorou tanto que acabou pres- crita, extinguindo a punibilidade do criminoso? Como reagirdo os senado- res ao ingresso desse novo par, ap6s o furacAo Jader Barbalho? Se vencer a eleigao de outubro, Al- mir Gabriel legard aos beneficidrios da maquina estadual que comandou uma vit6ria de Pirro. Foi incapaz de encon- trar (ou mesmo criar) herdeiros das obras que efetivamente fez, da aprova- q5o que a maioria da populaCgo lhe conferiu, repassando-lhes um piano de agco e uma concepqgo de governor, com os quais poderiam iniciar uma nova etapa na vida ptiblica do Estado, bus- cando padres mais elevados de ges- tao e de acgo political, ajudando a tirar o Para do lodacal politico no qual pa- tina hi d6cadas. Ao inv6s disso, foi a submissdo aos seus ditames e a incorporaqao dos es- colhidos a dedo a essa cornucopia pro- miscua que estabeleceu os crit6rios da vit6ria. Ao inv6s de entregar o poder ao que melhor se tivesse habilitado para a dispute, o governador procurou eleger uma esp6cie de guardador do lugar que espera continuar a ser seu, na vA ilusAo dos aprendizes de feiticei- ro. Ardilosos e sagazes, ainda assim nao conseguem se prevenir para suas criaturas. Talvez porque a traigAo, nes- sas circunstfncias, seja como um virus refratario a qualquer antidote. OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL. 3 PROJETO Mas se a candidatura de Simao Ja- tene for efetivamente cassada ou ele, contra todas as projeq6es, perder a ba- talha de um segundo turno ainda sujeito a imprevistos, o que se podera esperar dos seus adversaries? A julgar pela apatia do eleitorado e pela linearidade dos candidates, nada de substancialmen- te diferente do que foi o "modo tucano" de governor o Para. A rigor mesmo, as variaq6es tem sido minimas ha varias administraqSes estaduais. Se havia alguma promessa em tor- no do senador Ademir Andrade, ela se desvaneceu quando ele, por puro prag- matismo, se associou ao ex-senador Jader Barbalho. A decisao foi tomada pelo candidate do PSB depois de um calculo frio sobre o desgaste que so- freria corn essa alianqa branca junto a opiniao pdblica e o que ganharia corn a adesdo da maquina do PMDB, mais eficiente no interior do Estado do que a do PT, a outra alternative partidaria a miquina mais important, a do Esta- do. O problema 6 que essa conta de chegada esta sempre sujeita a mudan- cas imprevistas. Imprevistas tanto por conterem um component insondivel mesmo, como porque o que mais tern faltado para a formaq~o de jufzos pr6- vios sobre a eleigqo deste ano 6 a in- formaiio, sejam a informaqCo bruta como a informagao confiavel. Nesse terreno do imponderivel evolui a candidatura de Maria do Carmo. Ela tem se beneficiado do arrastao de Lula, mas nao na media do possivel se houvesse mais disposiqao dentro do seu pr6prio partido, o PT. Um grau maior de unidade (ou sinceridade) ji teria garantido A de- putada santarena melhores dividends junto Aquela parte significativa do elei- torado que ainda esti indecisa, a espera de um agrado melhor ou de uma palavra de sensibilizaqio. Ainda mais porque se frustrou a candidatura que prometia tra- balhar exatamente nessa faixa, a do vice- governador Hildegardo Nunes. Corn a ameaca pairando sobre o li- der das pesquisas e as atribulaq6es no esquema remendado que permitiu a vice-lideranga de Ademir Andrade, ne- nhuma previsdo pode ser considerada definitive. O pr8mio para tanta medio- cridade 6 exatamente esse: o suspense. Nao havendo melhor nem pior, quem vencer sera um detalhe. Que muda sem mudar nada. president Fernando Henrique Car- doso provavelmente fez, no dia 20, sua viagem de despedida ao Pard. Apesar de ser goverado por um correligio- nirio tucano, o m6dico Almir Gabriel, do PSDB, tamb6m em final de segundo manda- to, o Estado pouco figurou na movimentada agenda presidential. Mas 6 destacado figuran- te nos investimentos federais, ocupando a ter- ceira posicgo national, graqas ao que se con- vencionou chamar de "grandes projetos", em- preendimentos geralmente multinacionais - que demandam enormes somas de capital e alta tecnologia para poderem gerar produtos de exportaq~o, competitivos internacional- mente. O Pard 6 o s6timo exportador brasilei- ro e o segundo que mais proporciona divisas ao pais (dois bilh6es de d6lares liquidos ao ano, em m6dia, a diferenca de valor entire o que manda para fora e o que importa). Na sua derradeira excursao paraense, o president esteve num desses "grandes proje- tos". Inaugurou a segunda linha de transmis- sao de energia da hidrel6trica de Tucuruf para a AlbrAs, a maior fabrica de aluminio do con- tinente, produto da associaqao da ex-estatal Companhia Vale do Rio Doce cor um con- s6rciojapones, que fez nesse empreendimen- to o maior investimento de risco de capital estrangeiro na hist6ria do Brasil (mesmo nao chegando a 200 milhoes de d6lares). A Al- bris, sozinha, responded por 1,5% do consu- mo de energia de todo o Brasil, uma vez e meia a mais do que o que gastam de energia os 6 milhoes de habitantes do Estado. Ha quase 17 anos, desde que comegou a funcionar, a fabrica 6 suprida por uma linha singular de energia de alta voltagem, com mais de 300 quil6metros de extensao, cons- truida pela Eletronorte. Em 1991 um aciden- te provocou um blecaute de mais de 12 ho- ras. 0 prejuizo da fibrica foi de mais de 100 milhoes de d6lares, s6 parcialmente cober- tos pelo seguro. Foi o maior dano que uma inddstria de aluminio jd sofreu, por falta de energia, em todos os tempos e em todo o mundo. Entrou para o Guiness. Mesmo com esse grave precedent, a du- plicaqao da linha demorou mais 11 anos para sair das promessas e das pranchetas. Ela foi executada por um cons6rcio privado, Schahin/ Alusa, que irA explorer o novo tronco energ6- tico, desdobrando-o em outras linhas, em ten- sdo menor, para novos focos de consume. Embora o governor japones tenha se compro- metido a garantir recursos financeiros para a obra, vital para a seguranqa da fabrica, que fornece 15% de todo o aluminio consumido pelo Japao, a 20 mil quil8metros de distancia, o dinheiro nunca saiu. A Alumar, vizinha e concorrente da Al- bras, que a Alcoa e a Billiton instalaram em Sdo Luis do MaranhAo, duplicou com seus pr6prios recursos a linha atrav6s da qual Ihe chega a energia de Tucuruf, numa distfncia quase tr8s vezes maior. Obteve o ressarcimen- to atrav6s do encontro de contas cor a Ele- tronorte. Albrds e Alumar desfrutam das me- nores tarifas de energia do pais, favorecidas pela political de desconcentraq~o industrial para o setor de eletrointensivos na drea do finado Programa Grande CarajAs. O subsi- dio para manter essa tarifa especial exige o equivalent a 200 milh6es de d61ares ao ano. No horizonte de 20 anos do contrato (a ven- cer em 2004), as duas fabricas absorverlo quatro bilhoes de d6lares. E o valor de duas fibricas de aluminio novas. Naturalmente, ndmeros dessa ordem nao aparecerao nos festivos discursos de inau- guraqao da nova linha Tucurui-Albris. Para um president que pouco foi ao Para ao Ion- go de oito anos, estar pela segunda vez na mesma fibrica ter o significado de uma mensagem: a Amaz6nia continuarA, no rit- mo dos "grandes projetos", voltada para o mercado externo. Al6m da Albris, que se prepare para alcan- gar a producgo de 450 mil toneladas de alumi- nio, record no continent, sua irmi-g8mea, a Alunorte, que produz um insumo do metal, a alumina, em tres anos vai triplicar sua marca atual, chegando a 5 milh6es de toneladas, pu- lando para a linha de frente da inddstria da alu- mina. Arrastard consigo a mineraq~o de bauxi- ta, a pouco mais de 300 quil6metros, a ser in- terligada atrav6s de mineroduto, quejA estA em implantaqao e logo chegarA A escala de 4 mi- lh6es de toneladas de min6rio. Essas ampliaq6es e incorporaq6es per- mitirao quase dobrar o investimento jd re- alizado nesse p6lo aluminifero, de US$ 2,5 bilh6es, para US$ 4,7 bilh6es. Sem contar o cada vez mais important ndcleo indus- trial em expansAo lateral, o de caulim, que fard do Pard o terceiro produtor mundial dentro de dois ou tres anos. O caulim 6 uma argila usada principalmente para o revesti- mento de pap6is especiais. Esses ndmeros poderiam ser lembrados na solenidade official, marcada para uma propicia temporada de caqa aos votos. TAo logo ativou 0 rio: apenas um "detalhe" 4 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002 a linha de energia no projeto que 6 parceiro fa- vorecido da administration federal, o presiden- te embarcou num helic6ptero para visitar outra obra a ser inaugurada, esta muito mais rentAvel eleitoralmente para o seu anfitriAo, o govema- dor Almir Gabriel. HA 30 anos os governantes locais falam da ligaqio entire Bel6m e o princi- pal porto do complex e rico estudrio no qual se localiza a capital paraense. Em linha reta, a distAncia entire a mais important cidade da Amazonia e o terminal portuArio de Vila do Conde, onde a Albris estA baseada, 6 de ape- nas 50 quil6metros. Entre os dois pontos, por6m, ha um ema- ranhado de cursos d'Agua, que constituem o grande fato geogrifico dessa regiio, mas sio considerados um estorvo para a ligaqio direta entire uma area metropolitan de 1,5 milhAo de habitantes e o trecho do litoral cor os mais profundos canais de navegac o, num comple- xo hidrogrifico rigorosamente atacado por as- soreamento. Essa restriqio tem sido o fator apontado como fatal para o velho porto da ci- dade, o principal entreposto commercial da Amazinia e ainda uma important via de es- coamento de carga. A segunda obra que FHC inaugurou foi a "alga vidria", um conjunto de estradas e pontes que passou a fazer a ligaq o por terra entire Be- 16m e o seu future porto de exportaqio, capaz de receber navios de atd 60 mil toneladas. Com seu traqado curvo, essa ligaq~o, de 110 quil6- metros, represent o dobro do atual percurso rodo-fluvial. Mas a viagem sera mais ripida para os que dependem de lentas e freqtiente- mente acidentadas travessias atrav6s de defa- sadas embarcaq6es e modorrentas balsas. Para o motorist de carro de passeio, o cli- ente preferencial, hA ainda o atrativo de uma das pontes, sobre o rio Guami, uma daquelas pontes-monumento consagradas pelo turismo, com dois quil6metros de extensAo, a terceira do Brasil no seu tipo (estaiado), e com o maior vio livre do pais, de 320 metros. Os italianos, donos da tecnologia de construq o, pediam tris anos para executA-la. Por pressio do governa- dor, a obra saiu na metade do tempo e ainda assim cor atraso de seis meses em relaq o A data que ele exigira inicialmente. Esse ligeiro contratempo, contudo, serA mais do que compensado pela iniciativa da Se- cretaria Estadual de Infraestrutura do Estado de batizar essa ponte com o nome do gover- nador. Se dependesse da secretaria, outra das quatro pontes do Sistema Integrado do Para (a designaqio official do conjunto da obra), a do Moju-Cidade, levaria o nome de Fernando Henrique Cardoso. FHC preferiu declinar da honraria, alerta para a proibiq o legal de co- locar o nome de pessoas vivas em obras pi- blicas. Assim, Fernando Henrique inaugurou a Ponte Presidente, an6nima, e a Ponte do GuamB, que foi logo batizada de Govemador Almir Gabriel. Ao que se saiba, o m6dico nAo expressou os mesmos escrdpulos do seu cor- religionario soci6logo. Todo esse sistema tem a pretensAo de in- tegrar a capital a todo o leste do Para e, a par- tir daf, estabelecer relaq6es mais fortes com o restante da Area do segundo maior Estado da federal~ o brasileira, com seus 1,2 milhlo de quil6metros quadrados permanentemente su- jeitos a dois projetos separatists (para a cria- qao de outros dois Estados, ambos maiores do que a atual unidade). A eficAcia desse rem6- dio ter sido posta em questio, mas uma coisa estA provada: esse tipo de iniciativa sempre comeqa cor um orcamento e terminal corn outro. O SIP foi iniciado com previsio de custo de 183 milh6es de reais e vai ser inaugurado nesta semana com essa conta majorada em mais um terqo, ou R$ 60 milh6es. Quando um cidadAo que hoje faz o percurso entire Bel6m e Vila do Conde em pelo menos mais de uma hora de duraqio, numa viagem su- jeita a imprevistos e maus tratos, dependendo de terceiros, puder ir no seu carro do ponto de origem ao de chegada, contemplando uma pon- te realmente de impressionar, "detalhes" outros As editors brasileiras levaram uns 40 anos para se lembrar de mandar traduzir e publicar Hiroshima, a reportagem que John Hersey es- creveu e a revista The New Yorker publicou, exatamente quando o bombardeio at6mico da cidadejaponesa pelos Estados Unidos comple- tou um ano, em agosto de 1946. O trabalho era t~o bom, em todos os senti- dos, que virou livro e provocou enorme impac- to na opiniAo piblica norte-americana. Teve, em relaq o ao ingresso da humanidade na era da bomba nuclear, a importfncia que a reporta- gem de outrojomalista americano, John Reed, tivera em relaqao A revoluqso comunista na Rts- sia, 30 anos antes. Mas 6 inegAvel que o texto de Hersey 6 tio superior ao de Reed quanto os ataques a Hiro- xima e Nagasaki, encerrando tragicamente a Segunda Guerra Mundial e colocando nos areas a permanent ameaqa de extinq~o da esp6cie, superam, em seu significado macabro, o fim do czarismo e a instauraq~o do primeiro gover- no socialist como o inicio de uma utopia de igualitarismo proposta pelos bolcheviques e por eles mesmos anulada. A primeira ediqAo de Hiroshima em portu- gu8s foi tirada pela Record, do Rio de Janeiro. Quando? Nem o livro indica: como era praxe na editor de Sdrgio Machado, nao hA a mais remota refer8ncia a data de langamento da pu- blicaqAo. Suponho, sem tempo para maior pes- quisa, que foi bem no inicio da d6cada de 80. Uma segunda edig~o, muito melhor cui- dada e mais encorpada, gragas a melhor apre- se tomarao irrelevantes. O valor da obra, por exemplo. Seus efeitos negatives, sempre sufo- cados, na massive propaganda official, por seus inegAveis efeitos positives. As metas propostas e nao alcanqadas. E o que, nesse caso, 6 a reno- vaq o e consagragao de um modelo de transpor- te, o rodoviario, que ignora a realidade geogrd- fica da area, dominada pelos cursos d'Agua. O usudrio ter todos os motives para nao sentir saudade alguma do sistema de transport em uso, que desrespeita o client e usufrui um monop6lio virtual. Mas a ilusao rodoviaria, rea- quecida e edulcorada, vai impedi-lo novamente de procurar encontrar uma forma de transport que consiga ser, ao mesmo tempo, adequada aos elements naturais da paisagem e modern, confortavel, capaz de tender As exig8ncias do cidadao contemporineo. Os rios serAo novamen- te ignorados, e todos baterdo palmas para mais uma soluqao importada como caixa preta. Os braqos dessa ampla paisagem estuarina, ao se- rem cruzados por ponte de iltima geraq~o, fica- rio confinados A imagem que deles tem esse habitante deslocado do seu espaqo: de estorvo, complicador, lixo. sentaq~o do trabalho pela Companhia das Le- tras, saiu agora. EstA sendo saudada, comjus- tificado jtbilo, por todos os que consideram a reportagem de Hersey uma das melhores escritas atd hoje, se nro a melhor. t impossivel nro se impressionar cor a narrative de Hersey e a rara combinaqao que consegue, de objetividade e sensibilidade, para reconstituir o que aconteceu naquela manhi de 6 de agosto de 1945 e os dias sub- seqiientes ao uso da arma mais mortifera ja criada pelo home, pela primeira vez usada contra alvos humans. Ao inv6s de um inqu- 6rito exaustivo ou profunda analise, ojorna- lista-escritor segue a vida de seis persona- gens da tragddia, como se o narrador nao existisse e como se estivesse dentro das suas criaturas, reproduzindo atd seus sentiments mais intimos sem precisar, um moment se- quer, recorrer a adjetivos. Graciliano Ramos nro faria melhor se tivesse ido aos escom- bros de Hiroxima. A impression mais forte que me ficou da acuidade de John Hersey, a liqAo que continue tentando aprender at6 hoje de sua capacidade de observaqao, 6 ter percebido que as pessoas alcanqadas pela radiaqio quimica da detona- qao sofriam e morriam em sil8ncio, como se naquela incrivel sociedade morrer s6 tivesse grandeza se fosse na quietude da resignaaio. Membro da sociedade dos vencedores, John Hersey conferiu, com esse "detalhe", dignida- de A sociedade dos perdedores. Derrotados, sim, mas s6 naquele moment. Hiroxima I OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL * LULA A voz da consciencia Na fase de cultivar amigos e influenciar pessoas, Luis Inacio Lula da Silva fez entusi- asmados elogios A economica planejada" do regime military. Uma de suas manifestaqces (um tanto cabalisticamente, na sexta-feira, 13), foi diante de um audit6rio integrado por altos ofi- ciais das Forqas Armadas, A frente dos quais estava o general (agora na reserve) Le6nidas Pires Gonqalves, ex-ministro do Ex6rcito. Lembrando cor saudade o tempo da eco- nomia centralizada que os militares sustenta- ram (embora nenhum deles tenha ocupado qualquer das pastas dessa Area, entregue, corn cheque assinado em branco por desconheci- mento de causa, a tecnocratas como o tenor MArio Henrique Simonsen e o czar Delfim Neto), a intenqAo do candidate do PT a Presi- dencia da Repiblica era 6bvia: critical o regi- me economico baseado na liberdade de mer- cado, o "neoliberalismo" de Fernando Henri- que Cardoso & Jos6 Serra. A mais enfAtica e a mais imediata das rea- q5es veio da parte do soci6logo paulista Jos6 de Souza Martins, considerado uma das mai- ores autoridades em temas rurais do Brasil, e particularmente conceituado em quest6es ama- z6nicas. Martins nao deixou de ressalvar que os elogios de Lula ao "modelo" econ6mico adotado nos 20 anos de regime de excecao mais recent na hist6ria do pais nao se esten- diam A aq~o political dos governor militares, cuja condenagqo manteve. Mas enfileirou todas as mazelas, perversi- dades e distorq6es engendradas pelo modus faciendi adotado pela tecnoburocracia domi- nante entire 1964 e 1985, de fazer o pais cres- cer economicamente e s6 depois pensar na redistribuiqao da renda, que, enquanto isso, ficaria se concentrando sempre mais (o maior item do esp61io do regime p6s-64 foi justa- mente a brutal concentraqao de renda, que coloca o Brasil entire os pauses mais injustos do planet, heranqa que os govemos seguin- tes, com destaque para o de FHC, trataram de continuar a adubar). Martins adverte ainda que essa mesma eco- nomia planejada, "que Lula consider maravi- Ihosa e recomendAvel para o povo brasileiro, no caso de vencer, foi responsAvel, tamb6m, pela planejada expansao do grande capital, so- bretudo do Sudeste, para a regiAo amazonica a partir de meados dos anos sessenta". Mostra que a political de incentives fiscais posta em pratica pela Sudam a partir de 1966 significou uma drenagem de recursos p6bli- cos para os bolsos de investidores particula- res, a maioria dos quais se mostraram vorazes predadores, selecionados como parceiros da "integrac o national" da regiAo. Eles podiam receber do governor federal at6 75% do capi- tal necessArio A implantaqao dos seus projetos produtivos, sem ter que devolver esse dinhei- ro ou pagar juros pelo seu uso. E, frequente- mente, desviando parcela significativa ou mesmo majoritaria dos recursos para outros empreendimentos e outras regi6es. "Nao era empr6stimo, era doaq~o, incen- tivo fiscal. Essa maravilha era produto da eco- nomia planejada do elogio de Lula, a mesma economic do arrocho salarial. Todos n6s, que viviamos e vivemos do trabalho e do saldrio, abriamos mao dos nossos direitos sociais le- gitimos para que a ditadura brincasse de pa- pai-noel com o grande capital, 6 bom nao es- quecer", diz Martins. Mas a coisa nao parava ai, acrescenta ele: "As empresas que essa 'maravilhosa' engenha- ria econ6mica da paixao de Lula criava, fo- ram na maioria fazendas de criaq~o de gado. Estimativas oficiais da 6poca assinalavam que na ocupaq~o da Amazonia Legal (mais da me- tade do territ6rio brasileiro), por meio dos in- centivos fiscais, seria possivel criar 40 mil empregos, que era o total de operArios da fA- brica de autom6veis da Volkswagen, em Sio Bernardo do Campo, na mesma 6poca. Um terqo de um continent para criar o mesmo ntlmero de empregos de uma fabrica de algu- mas centenas de metros quadrados. A maioria das empresas que entraram nessa barcarola nao tinha a menor id6ia de como 6 que se criava uma vaca. Da vaca, muitos s6 conheciam o bife. Obtiveram terras comprando titulos de propriedade ou de aforamento (caso em que as terras pertenciam de fato ao governor do Es- tado, como no caso do Pard e do Amazonas), nao raro titulos falsificados, registraram as terras em seu nome e delas se apossaram. Quem quiser conhecer essa hist6ria nao pode deixar de ler ao menos um livro de Liicio FIa- vio Pinto, competentejornalista do Para e, pro- vavelmente, o melhor conhecedor da Amaz6- nia e de sua hist6ria: Amazdnia No Rastro do Saque". Martins tem toda razao em mostrar para a opiniao pdblica o que significou esse control centralizado da economic brasileira, que Lula parece ter esquecido, no aqodamento de mos- trar aos militares que nao 6 o bicho-papao de outras 6pocas (e vice-versa). Deixando-se en- cantar pela ret6rica do "modelo" e pela apre- ciaqco dos seus mecanismos t6cnicos em tese, o ex-metaldrgico se mostra vitima indefesa da prestidigitaqAo de profissionais competentes, como o economist Joao Paulo dos Reis Ve- lloso, o te6rico por tris de dois dos cinco go- vernos militares, que produziu documents as pencas pensando exatamente no juizo do fu- turo. Trabalhos de maestria, mas para serem mantidos em arquivos e estantes. Habeas cor- pus preventivos para quem ndo duvidava de que, cedo ou tarde, o julgamento da hist6ria viria. Mesmo que pelas linhas tortas de um julgamento de conveni8ncia. Lula deixou de lado o que j foi evid&ncia clara aos seus olhos no passado, reavivado por Martins: "Os anos setenta foram na Amaz6- nia os anos do terror do trabalho escravo res- suscitado e multiplicado da experi8ncia dos velhos seringais, onde milhares de pessoas ji haviam padecido e morrido desde o inicio da expansao da borracha, no s6culo XIX. Segun- do Sue Branford e Oriel Glock, em seu livro The Last Frontier, cerca de 400 mil pessoas trabalharam em regime de escraviddo nos nos- sos anos setenta na Amaz6nia, os anos do lar- go elogio de Lula ao planejamento econ6mi- co da ditadura. Branford 6 corretissimajorna- lista inglesa, muito ligada ao Brasil, fala por- tugues perfeitamente bem, simpatizante do PT, dedicada a um jornalismo social de alta com- petencia", observa o soci6logo. Cor indignaqIo, complete: "A mis6ria a que com justissima razao se op6em Lula, o PT, o PSDB, o PDT, o PCdoB e todos n6s que temos est6mago e vergonha, foi criada justamente por essa 'maravilhosa' economic planejada a que Lula se refere fascinado e convict, ameaqando-nos a todos com seu re- torno. Foi essa a mis6ria herdada pelos gover- nos civis que sucederam a ditadura, mis6ria a duras penas e lentamente debelada em condi- q6es mais do que adversas. Para combater os efeitos dessas atrocidades da economic do re- gime military, Lula prop6e o rem6dio do mes- mo veneno de serpente que deu origem a tudo isso. Como 6 possivel um equivoco desses? Elogiar o planejamento econ8mico da ditadu- ra 6 um insulto As suas vitimas e uma ameaqa a todo o povo brasileiro". Martins acha que, aldm dessa adesdo aos principios econ6micos do regime military, Lula aderiu tamb6m ao militarismo, ao se manifes- tar contririo ao Tratado de Nao-Proliferaq~o de Armas Nucleares, "de que o Brasil, por ins- piraq~o e opcqo pacifista, assinou hi alguns anos". Adverte para a "clara a teia de com- promissos estrat6gicos e internacionais" de- correntes dessa posiq o, prevendo: "Esse sim- ples imprudente anlncio j! 6 suficiente para levar inquietaqCes aos pauses vizinhos e de- sencadear uma corrida armamentista no con- tinente, com s6rios danos a economies ja de- bilitadas e graves prejuizos a uma legio de vitimas de uma economic injusta". Martins finaliza seu texto com a impressed de que esse Lula mais recent "estA bem long do Lula do discurso de primeiro de maio do ano da morte de Fleury e bem long de todos n6s que estAvamos IA. O teatro da vida mudou 6 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002 de endereqo. t pena, muita pena, que as pesso- as mudem tanto para seguir o 'script' da con- veniencia eleitoral, como 6 pena que nao haja limits nas alianqas e rendig6es incondicionais". Os petistas haverAo de reagir a essa mani- festaqio alegando que o soci6logo Jos6 de Souza Martins 6 simpatizante da candidatura de Jos6 Serra A Presid&ncia da Reptblica. Ain- da assim, por6m, o professor aposentado da USP tern tocado em pontos nevralgicos de uma agenda que a maioria dos grupos politicos pre- fere guardar no bad e esquecer, a pretexto de nIo criar embaraqos A finalmente possivel vi- t6ria de Lula na quarta tentative de chegar ao posto maximo do pais. Bad que, se Lula real- mente for eleito, sera atirado ao mar da in- consciencia, deixando uma lacuna da qual os efeitos danosos s6 serao sentidos quando a si- tuaqao estiver na casa do sem-jeito, ao avan- qar para o passado, de centralismo em centra- lismo, repetindo, com outra ladainha, os erros cometidos e reprisados. Mais um "sem", alias, no diciongrio das car8ncias nacionais. Mudanga No dia 9 de agosto, quando completou 60 anos de vida, o Banco da Amazonia passou por sua quar- ta metamorfose: estreou uma nova logomarca, um b cortado por um til. O que essa mudanqa estava a dizer? Precisamente, ningu6m ficou sabendo por- que a direqo do banco nao fez qualquer consult pr6via, nem se preocupou em avaliar o efeito da transformaq~o. Se a nova logomarca significa de fato alguma coisa, uma 6 inquestionivel: mudou para pior. Um pior que deve ter custado muito caro, como bem sabem os especialistas em marketing. Jornalismo Se no houvesse The New Yorker, teria havido John Hersey? Ou, de outra forma: se no jornalismo nao existissem publicaqbes dotadas de convicq6es editorials, dispostas a coloci-las em pritica, mes- mo arrostando os determinismos das leis comerci- ais, surgiriam e desabrochariam vocag6es para um jomalismo de nivel superior? A sofisticada revista americana e John Hersey sdo apenas um capitulo numa longa hist6ria, que remonta praticamente as origens dos tipos m6veis inventados por Gutenberg. NIo 6jomalismo de pri- meira o que Daniel Defoe produziu no s6culo XVIII e Balzac no s6culo seguinte? Claro que 6: jornalis- ta no precisava de diploma de curso de comuni- caqdo social (e nao precisa at6 hoje, exceto no Bra- sil, eterno inventor da roda). Mas ele precisa de um lugar no qual suas id6i- as e realizaq6es se transformem em letra de for- ma. De prefer8ncia, sendo pagos para isso, quem sabe, o suficiente para poderem se dedicar a des- gastante tarefa de pensar, conjeturar, andar, via- jar e conversar sem ter que vender o almoco para comprar o jantar. Um lugar onde o editor public Nos gltimos anos a Funtelpa (Fundaqao de Telecomunicacqes do Pard) pagou a TV Liberal 18 milh6es de reais, em valor atuali- zado. Ao contririo do que pode parecer, a emissora da familiar Maiorana nao prestou serviqo algum a mantenedora das emissoras Cultura de ridio e television. Muito ao con- tririo: a TV Liberal, que 6 uma emissora co- mercial, afiliada a Rede Globo de Televisao, lider disparada do mercado, se serviu de 78 retransmissoras do Sistema Funtelpa para le- var seu sinal de sat6lite ao interior do Esta- do. Isto mesmo: a TV Liberal embolsou 18 milhoes de reais do erario em 60 meses para se servir de instalacqes piblicas. Para colocar um pouco de digamos as- sim purpurina nessa relaq~o incestuosa, a ad- ministragio estadual disp6s de certo tempo na programagio da emissora para veicular sua propaganda institutional, quase sempre asso- ciando a realizaqio de obras p6blicas a auto- ridade momentaneamente no comando da mi- quina estadual, ou vice-versa, conforme as ne- cessidades de Wnfase da conjuntura. Esse to- que de perfume barato, por6m, foi desequili- brado pela forma encontrada para dar aparen- cia de legalidade a essa relaq~o espiiria: ao inv6s de assinarem um contrato commercial, como manda o tipo de troca entire as parties, TV Liberal e Funtelpa celebraram um conve- nio. Isso mesmo: um conv8nio. Esses e outros absurdos acabaram levando a questionamentos sobre a correqao do ato no Tribunal de Contas do Estado e a propositura de uma aqCo popular na justiqa. O curso das duas iniciativas foi sobrestado ou permanece em suspense, principalmente depois que o de- putado federal Vic Pires Franco, em mais um dos seus zig-zags politicos, voltou atrAs e de- sistiu de patrocinar a acqo popular. Um substi- o que seu leitor quer, mas tamb6m Ihe imp6e o que precisa ter, seguindo a trilha das pesquisas mercadol6gicas sem nunca esquecer que jorna- lismo tamb6m 6 formag~o de mentalidade, defesa de tese, trincheira de luta ou reduto de sustenta- qio de conquistas sociais. Outro dia li entrevista na qual Oliveiros S. Fer- reira, um dos principals jomalistas de O Estado de S. Paulo e ao mesmo tempo acad8mico da ci8ncia political da USP, se referia A sua fungqo de editor das capas dos caderos de publicidade do journal. Fez- me lembrar da 6poca em que separava essas capas, que encobriam piginas e piginas de fomidos antn- cios classificados, para 18-las no moment certo, em que se precisa de certa paz para refletir. tuto assumiu seu lugar, mas a tramitaqAo da adao nIo readquiriu o ritmo original. Ainda assim, ela continue ativa, sujeita a acionamento. O esdr6ixulo convenio Funtelpa-TV Libe- ral se encerrou no l6timo dia 30. Ha incerte- zas sobre o seu future, mas nula 6 a possibili- dade de que ele venha a ser renovado. O go- vernador Almir Gabriel o assinou para vigo- rar por cinco anos, quando faltava apenas um para o encerramento do seu primeiro manda- to. Se nao tivesse conseguido se reeleger, se- ria um dos mais pesados abacaxis que trans- mitiria ao successor. Vencendo o convenio, po- r6m, antes que ele complete seu tempo como governador, sobram-lhe problems. A direqao da TV Liberal solicitou que o convenio seja aditado por mais tres meses, at6 dezembro. Teria direito a continuar recebendo os pouco mais de 300 mil reais por mes (ou quase um milhlo de reais no trimestre). Se fi- zer isso, o governor, mesmo tendo como escu- do de protecgo a Funtelpa, responsAvel legal pela coisa, sofrerd o desgaste, em pleno final da campanha do primeiro turno da eleiqao des- te ano (e o risco de prolongamento do mal at6 o final do mes). Se nao prorrogar a relaqao, esti ameaqado de sofrer outro tipo de desgaste: me- tade dos municipios paraenses ficarao de sibi- to sem o hipnotizador sinal da programaqao da Globo. A TV Liberal apontari com prazer o culpado pelo dano: o governor do Estado. Diante do impasse, qual dos cAlices amar- gos o governador Almir Gabriel decidird to- mar? Ou, fiel ao seu modo anat6mico de ven- cer crises, ird empurrar com a barriga o tram- bolho at6 poder passa-lo a quem o suceder? O pr6ximo capitulo bem que merecia en- trar na programaqao global. Novela capaz de competir cor os dramalh6es mexicanos rivals, cor seu PRI, sua plumagem e tudo mais. Nessas capas li pela primeira vez um ensaio de Isaac Deutscher, que abriu para a minha ge- raqio uma percepq~o mais critical da revoluq~o russa. Nio importa que o piblico para esse tipo de se~io seja pequeno. E precise dar oportuni- dade a todos, inclusive A elite pensante, que move a roda da consciencia e plant as sementes da nova cultural, disposta e habilitada As mais exi- gentes aventuras do mais autenticamente huma- no dos prazeres: o de pensar. Se Sheilas e Romarios tem seu espago, que 6 o dominant e o mais caro, a imprensa nao pode esquecer do plo, que 6 o fermento do mundo. S6 circo avilta. E, terminado o espeti- culo, o que fica? Renovar ou nao renovar? OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 7 IMPRENSA Triste ineditismo Na edigqo de 6 de setembro, O Liberal co- meteu algo provavelmente inddito na hist6ria do jomalismo mundial: deu manchete de primeira pAgina a um editorial. Sob o titulo "Basa tenta calar O LIBERAL", ojomal ocupou quase toda uma coluna vertical da capa, de alto abaixo, para acusar o Banco da Amaz6nia de retalia-lo. Na- quele mesmo dia, o Didrio do Pard e a Gazeta Mercantil estavam publicando a integra do ba- lanqo financeiro da instituicqo, em tr8s paginas, enquanto a 0 Liberal fora destinado apenas um resume, de meia pagina. Ojornal estaria sendo retaliado por haver pu- blicado matdria, um mes antes, sobre a puniqao que o Tribunal de Contas da Unido aplicou A diretoria do Basa. Por considerar de "risco ele- vado e baixa garantia de retomo" um empr6sti- mo de 4,4 milhies de reais concedidos pelo ban- co para a construqao de um hotel de selva em Guajara-Mirim, na fronteira de Rond6nia com a Bolivia, o TCU multou os cinco diretores, num total de 52,5 mil reais. Os arguments dos puni- dos nao foram aceitos pelo ministro-relator do TCU, Benjamin Zymler, que manteve a caracte- rizaqao das irregularidades e a multa. Houve re- curso administrative dos diretores do Basa, ain- da pendente de decisdo. O editorial de O Liberal diz que o jomal tentou inutilmente ouvir os diretores enquadra- dos pelo TCU, mas nenhum deles quis se ma- nifestar. Ojornal registrou que uma beneficid- ria do emprdstimo, Olgarina Saldanha, s6cia no control do hotel Pakaas Palafitas Lodge, 6 casada com Paulo Cordeiro Saldanha, que foi director do Basa (e no president, como afirma o editorial) e hoje estA aposentado. O Liberal manteve a cobertura do assunto, mesmo enfren- tando o silencio do banco. "O tratamento editorial dado ao caso culmi- na agora corn a retaliaq~o do Basa ao O Libe- ral", sentenciou o jomal. Por retaliaqco, enten- deu a attitude da diretoria de s6 programar meia pagina de anlncio para a folha da familia Maio- rana, enquanto dava tres pAginas para outros dois jomais, um local, de menor circulaqao, e outro national. "O principio da publicidade, que exi- ge a veiculaqao de peas contabeis e de atos do Poder Piblico no jomal de maior circulaq~o na Area foi desrespeitado", vociferou O Liberal. N~o exatamente. A lei exige que o material legal de instituiq6es pliblicas ou sociedades an6- nimas seja divulgado em publicagqo de grande circulacio, nao necessariamente de maior cir- culaqio. O Basa pode nao ter seguido os me- Ihores padres de marketing, mas nao contra- riou nenhum dispositivo legal ao publicar a inte- gra do seu balanco no Didrio do Pard e nao em 0 Liberal. Essa suposta retaliaqao tamb6m nao se caracterizou como um boicote: final, mes- mo resumido, o balanqo tambdm saiu na folha dos Maiorana. Os veiculos do grupo continuaram receben- do outras peas publicitarias. Foi mantido atW mesmo o patrocinio do banco ao iltimo telejor- nal notumo da TV Liberal, no qual, alids, foi lido o editorial atacando o patrocinador. O Basa foi parceiro da empresa at6 o fim do projeto Crianqa Vida, que patrocinou UTI neonatal na Santa Casa de Miseric6rdia (com pagamento integral das vei- culaq6es publicitarias na rede do grupo). Como, entao, trombetear, com desproposi- tado exagero, a tentative de amordagamento edi- torial? Reagindo a um fato inexistente ou supe- restimado, o jomal prometeu continuar cum- prindo o item 3 do C6digo de ttica da Associ- aq~o Nacional de Jomais, que Ihe imp6e apu- rare publicar "a verdade dos fatos de interesse ptiblico, nao admitindo que sobre eles prevale- qam quaisquer interesses". Nesse caso, ojomal podia ter complementa- do a dentincia sobre o projeto de hotel de selva em Rond6nia corn a revelagqo de que o vice-pre- sidente das Organizaqyes Romulo Maiorana tam- bdm controlador de empreendimento semelhante no Estado do Amazonas, que recebeu incentives fiscais da Sudam e esta sob investigag~o de des- vio do dinheiro liberado, como outras dezenas de projetos semelhantes, todos eles apontados segui- O Liberal inovou mais uma vez na edicqo dominical do iltimo dia 29: na capa, destacou, da pesquisa encomendada ao Ibope, nao o in- dice de preferencia dos candidates ao govemo do Estado, como fazem todos, inclusive atd entAo ojomal, mas o de rejeiqao. Provavelmen- te istojamais aconteceu em situacio semelhante em qualquer parte do mundo: um 6rg~ o da im- prensa deixar de lado o resultado principal da pesquisa eleitoral que encomendou para des- tacar um dado secunddrio. O indice de preferencia saiu apenas na pi- gina intema, e mesmo assim esc.ondido. Foi completamente expurgado da primeira pagi- na. Para Jatene ficou a puniq~o mAxima: o in- dice de prefer8ncia pelo candidate tucano sim- plesmente nao 6 citado. 0 journal se permit apenas informar que esse indice "em pouco mais de um mes subiu 13% e alcanqou a pri- meira colocaqao". Por que isso aconteceu? Em primeiro lu- gar, porque o (inico resultado positive para o candidate apoiado pelas Organizaq6es Romu- lo Maiorana 6 seu indice de rejeiq~o. O de Hil- degardo Nunes, da Frente Trabalhista, 6 o me- nor entire os quatro que estio efetivamente na dispute, de 9%. A rejeiqAo a Jatene, que lidera a sondagem pelo crit6rio positive, com 37%, 6 de 21%, s6 inferior ao indice do circense Rai- mundo Abdon, que alcanqa 36% de rejeiq.o. Corn esse ndmero, ojomal faz a sua interpreta- damente por O Liberal como tendo desviado re- cursos piblicos para o patrimonio pessoal do ex- senador Jader Barbalho, o politico mais influence na Sudam nos iltimos anos. 0 Liberal nao deu inusitada manchete de pri- meira pagina ao seu editorial por estar sendo im- pedido de dizer a verdade, mat6ria prima que cos- tuma ser maltratada em suas pAginas. Foi porque nao ganhou o dinheiro quejulga, por direito qua- se divino, ser obrigagqo do anunciante Ihe pagar. Isso nao 6 assunto editorial, mas matdria comer- cial. Devia ser tratada em outro lugar e de outra forma, ao menos para que o jomal, dando-se ao respeito, respeitasse o seu leitor. Ah, sim: O Liberal nao deu uma linha sequer sobre o conteiido do balanqo da maior instituicqo regional de credito, que constitui relevant assun- tojomalistico. Nem mais voltou a tratar da opera- qao irregular de empristimo em favor da empre- sa rondoniense de turismo. Parece at6 que para os Maiorana o que sai de suas agendas desaparece do mundo. D'apr&s moi le deluge, diria Romulo Maiorana II, se pudesse saber o que estaria dizen- do nessa dificil lingua de seu circunstancial ante- cessor, um tal de Luis XV, o rei-sol. qFo da pesquisa: todos os candidates tnm chan- ce de vencer a corrida pela sucessao de Almir Gabriel, inclusive Hildegardo. O jomal ainda acredita que pode eleg&-lo dessa maneira. O segundo motive diz respeito ao conten- cioso commercial entire o govemo do Estado e o grupo Liberal. HA tres meses a Funtelpa nao paga a cota da TV Liberal no cabuloso conv- nio entire as duas parties (ver, a prop6sito, matiria nesta edicio). Esse d6bito chega a quase um milhbo de reais. O atraso na verba de publicidade teria ultrapassado 500 mil reals. Na empresa, uma fonte chegou a garantir que a divida do Estado supera cinco milh6es de reais. No govemo, por6m, esse valor 6 desde- nhado. A cobertura dos atos oficiais e da cam- panha do candidate situacionista 6 a resposta do grupo Liberal a essa pendencia. Expressa tamb6m a pressTo da empresa pela prorroga- qao do convenio com a Funtelpa. Um terceiro motive: desta vez a adminis- tragqo estadual esqueceu de ir aos funds do Bosque Rodrigues Alves pedir orientaqo a Romulo Maiorana JMnior, ilustre ignorado nas negociaq6es de bastidores. Ele, queja cultivou o sonho de ser alguma coisa de grande na poli- tica paraense, de govemador a senador, nao admite que sua poderosa influencia nao se faqa sentir. Resolveu atirar contra os mal-educados e incr6us. Por enquanto, por6m, sua artilharia parece ter a eficAcia de fogos de artificio. Pena de aluguel 8 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002 Denuncia retardada O Liberal poderia ter divulgado, com pelo menos uma semana de antecedancia, a dendncia feita pelo Didrio do Pard no dltimo domingo: de que a Policia Federal abriu inqu6rito para apurar fraude prova- velmente praticada contra a Receita Fe- deral pela Engeplan. A Engenharia e Pla- nejamento Ltda. pertence ao empresdrio Fernando Flexa Ribeiro, coordenador no Pard da campanha do candidate a presi- dente da Repdblica, Jos6 Serra, e do can- didato ao governor do Estado, Simao Jate- ne, ambos do PSDB. Uma mat6ria ficou pronta para ser editada em O Liberal, com as mesmas informaq6es basicas apuradas pelo Didrio. Mas foi suspense depois de entendimento pessoal entire um director da Engeplan e um director das Organizaqoes Romulo Maiorana. Segundo a denincia investigada pela PF, um representante da Engeplan teria falsificado quatro guias de arrecadaqCo fiscal, no valor total de 320 mil reais, que comprovariam a quitaqdo do d6bito de im- posto de renda da empresa. Com as guias pagas, ela obteve certidco negative da Receita Federal. Armada do "nada cons- ta" do Ledo, a Engeplan cobrou e rece- beu cr6ditos do governor do Estado supe- riores a R$ 7 milhoes por obras e servi- qos prestados A administragqo Almir Ga- briel nos iltimos quatro meses. Mas a fraude acabou sendo descober- ta pela Receita Federal, que declarou nula a certidao emitida em favor da Engeplan e intimou-a a apresentar as guias origi- nais no prazo de 20 dias, ji que os Darfs nao apareciam no setor de control da au- tarquia. A empresa nao responded A noti- ficaqao. Depois dos procedimentos admi- nistrativos, a Receita transferiu entao a apuragCo do caso para a Policia Federal. Atrav6s de Ato Declarat6rio Executivo, a Receita cancelou, em agosto, "a certidco positive cor efeito de negative", alertan- do que o document "6 nulo de pleno di- reito, nao produzindo qualquer efeito e nao deve ser aceito para qualquer fim". O inqu6rito da Policia Federal sofreu uma grande perda quando o intermedid- rio da Engeplan na transagCo, o ex-ser- vidor lotado na assessoria t6cnica da Se- cretaria de Saneamento da Prefeitura de Bel6m, Marcio Oliveira Amaral, foi as- sassinado. 0 crime aconteceu no dia 18 de julho, em Agua Azul do Norte, em circunstancias ainda nao esclarecidas. A PF trabalha com duas hip6teses para a morte de Amaral: assalto seguido de morte e crime passional. Amaral foi morto a tiros e facadas por dois homes na rodovia PA-279, que liga Xinguara a Sao F6lix do Xingu. Seu carro foi roubado pelos assassinos. Dois suspei- tos ji tiveram sua prisao preventive decre- tada pelojuiz de Xinguara, Cristiano Aran- tes. Amaral era a pega mais important tan- to no inqu6rito da PF, que apura a fraude contra a Receita, como no inqu6rito admi- nistrativo, aberto pela Corregedoria da pr6- pria Receita para a reconstituicio do golpe. A partir do complete esclarecimento dos fatos, a Receita poderi executar a Engeplan no valor apurado do seu d6bito de imposto de renda. No moment, quem responded pe- las atividades da empresa 6 Antonio Fabia- no Coelho. Ferando Flexa Ribeiro se afas- tou da Engeplan em marco para poder con- correr ao cargo de suplente de senador, em dobradinha com Duciomar Costa, que tam- b6mji foi indiciado em inqu6rito da Policia Federal por ter falsificado diploma de m6- dico para exercer ilegalmente a profissdo. O inquCrito resultou em process najustiqa federal e condenagao em primeira instAn- cia. A execuCqo da pena foi suspense em funCqo de recurso apresentado por Ducio- mar. O mdrito nao chegou a ser examinado porque a aqdo prescreveu. Apesar de ter faturado 25 milhOes de reals nos dltimos oito meses, a Engeplan vive em grandes dificuldades, acumulando divida com centenas de credores no Pard e Em 1971 os herdeiros de Paulo Ma- ranhio na lendiria Folha do Norte con- trataram uma empresa de consultoria do Rio de Janeiro, a Cronin, para re- formular o journal e garantir-lhe mui- tos anos de vida. Comandados pelo marechal da reserve do Ex6rcito Au- gusto Magessi, os tecnocratas da em- presa ocuparam apartamentos no Gran- de Hotel (o Hilton da 6poca, inclusive ocupando o mesmo lugar na avenida President Vargas) e desandaram a gastar papel em piginas e mais pigi- nas de inutilidades e brincadeiras no journal que fora uma trincheira political contra os governor, amigos e correli- gionarios de Magalhaes Barata. Deu no que deu: tr8s anos depois a Folha do Norte fechou e Romulo Maiorana com- prou o que restou do patrim6nio jor- nalfstico dos Maranhao. em outros Estados. Ha a suspeita de que o passive pode ji ter superado o ativo da em- presa. Na administraqao Almir Gabriel a Engeplan ganhou vdrias concorr8ncias e tem participado de obras importantes no Esta- do, como a macrodrenagem das baixadas de Bel6m, a reform do antigo presidio Sdo Jos6, transformado em centro de artesanato e p6lo joalheiro, a criag~o do Mangal das Garqas ao lado do Arsenal de Marinha, na Cidade Velha, e a avenida Independencia, que di acesso as quatro pontes da Alga Vi- aria. Depois de ter perdido a dispute para o Senado, na mesma eleicao em que Almir Gabriel venceu pela primeira vez para o govemo do Estado, Ferando Flexa Ribei- ro foi indicado por Almir para a superinten- dencia da Sudam. Seu nome, porem, nao foi endossado pelo president Fernando Henrique Cardoso, que referendou indica- qdo do ex-senador Jader Barbalho. Desde entdo, Flexa 6 o coordenador da arrecada- qao de funds para a campanha dos candi- datos tucanos. No dia da eleicao de 1998, acionados por uma dendncia an6nima, agen- tes da Policia Federal descobriram e apre- enderam 20 mil cestas bAsicas dentro de ins- tala6oes da Engeplan, na rodovia BR-316. A comida seria distribuida na boca-de-urna a eleitores. As cestas exibiam propaganda da coligaqao "Uniao pelo Pari" e do entao candidate A reeleico, Almir Gabriel. Como responsaveis pelo crime eleitoral, foram au- tuados Flexa Ribeiro e Isabela Jatene de Souza, filha do entao secretario estadual Si- mao Jatene. Quando a Cronin Consultores T6cni- cos assumiu o control do neg6cio, com seus engenheiros empolados, parecia que a Folha voltaria a dominar completamen- te o mercado, como fizera ao long de muitos anos. Ledo engano. As mudancas e criaqoes representavam aquela melho- ra que antecede o passamento do doente, que melhora para morrer. Em matdria de imprensa, sempre foi assim. E pelo que mostram exemplos re- centes e em curso, parece que continuard a ser assim. Essa syndrome talvez funcio- ne para causar surpresa ao ptblico: quan- do ele pensa que determinada organiza- qdo jornalistica vai crescer, com tantos sinais de forga que di, 6justamente quan- do ela comeqa a entrar em parafuso. Como o aviao, ojomal que faz parafu- so s6 para esborrachado no chdo. Quem sabe do fen6meno, sabe do seu desfecho. Fatalidade OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 9 ECOLOGIAmboo da 0 simbolo da destruigao Em 50 milh6es de hectares de terras na Amaz6nia podem caber 15 bilh6es de arvores, se tomado como partmetro a den- sidade m6dia de uma mata fechada na re- giao, ou 5 bilh6es de Arvores, reduzindo o cAlculo a um tergo do valor inicial, para incorporar as areas de vegetaq~o mais aberta. E esse o saldo principal de menos de quatro d6cadas da mais intense frente pioneira da hist6ria brasileira, que avan- qa c6lere e feroz em busca da "integra- g o" da iltima fronteira do pais, a Ama- z6nia, a economic national e tamb6m o maior capitulo de destruigqo florestal da hist6ria da humanidade. Em 50 milh6es de hectares de terras ocupadas pelo colonizador, do final da metade dos anos 60 a este inicio de d6- cada/s6culo/milenio, de 5 bilh6es a 15 bilh6es de arvores foram postos abaixo ou simplesmente queimados. Uma fra- cao desse total foi transformada em pro- dutos. A esmagadora maioria foi sim- plesmente destruida, ou porque nao eram conhecidas suas propriedades naturals (e, por conseqiiUncia, nao possuiam valor commercial) ou porque o objetivo, imedi- ato e categ6rico, era substituir florestas por qualquer outro tipo de paisagem (campos de pastagem, cultivos agricolas, reflorestamento com esp6cies ex6ticas, garimpos, mineraqdo, hidrel6tricas, estra- das ou cidades). O senso comum ji avangou o bastan- te para permitir avaliar com mais preci- sao o significado desse "avan9o para o Norte" (que, visto por outro prisma, o do centro metropolitan, resultou no "Avan- qa Brasil" de Fernando Henrique Cardo- so, que, antes de executar suas id6ias como president, pensou do nicleo ir- radiador para a periferia receptora so- bre a Amaz6nia na condiq~o de soci6lo- go, um quarto de s6culo atras). O "dia da Arvore", reservado no ca- lendario para o iltimo dia 21 de setem- bro, continuaria a ser uma data vazia ou involuntariamente ir6nica (e amarga), nao fora o esforqo de grupos minoriti- rios para dar-lhe um conteddo de reali- dade A margem da formalidade. Dia da Arvore, em qualquer perfodo do ano, seria a oportunidade de ressaltar sua im- portncia e defend6-la, nao apenas lem- bra-la como coisa de museu, ou, pior, da mem6ria envenenada pela "consci- ense mauvaise". Em Rio Claro, no interior de Sao Pau- lo, a data nio passou em branco. Institui- 9qes municipals e estaduais prepararam, com cuidado exemplar, um semindrio que deveria tocar em pontos sensiveis dessa vasta frente de lutas. Teve carAter memo- rialistico, ao lembrar o centendrio da co- memoraqio do "arbor day", que serviu de inspiraqao, em 1902, em Araras, ao ini- cio do "primeiro movimento de consci- 6ncia cidadd contra a destruiq~o da natu- reza", comandado por Alberto Loefgren. Tamb6m procurou atualizar a pauta dos militants e interessados, passando em revista os temas de vanguard do front flo- restal, do balanqo da Rio + 10 as estrat6- gias em curso para o setor, incluindo o element cada vez mais decisive: a agua. Foi sensivel o bastante para instalar no semindrio uma camara especifica sobre a Amaz6nia. E nao terminar sem um toque emotivo, com o plantio de arvores no hor- to de Rio Claro. Em um ambiente desses, o balanqo da colonizaqao da Amaz6nia, no seu sentido etimol6gico mais exato, alcanqa sem dis- farce a dimensao de trag6dia florestal, como nunca houve igual antes, nem ha- vera depois. Sem sofismas e atenuantes, que costumam ser vendidos como verda- de a opinido publica. Suaviza-se, por exemplo, a cor e o tamanho dessa man- cha acusadora com arguments como o de que apenas uma fraqio do todo 6 com- posta por arvores aproveitAveis pelo ho- mem, que muitas arvores j estao na seni- lidade, que outras foram vitimas dos pr6- prios predadores naturals, sobretudo pa- rasitas, ou que as antigas matas deram lu- gar a agents mais ativos do progress, como plantaq6es de soja ou pastos. Na linguagem econ6mica de sentido mais imediato, tomando como base para um cAlculo arbitririo os elements mais conservadores, a ordem de grandeza mo- netiria da devastaqdo florestal alcanqa al- guma coisa em tomo de 1,5 trilhao de re- ais (tres metros cdbicos por arvore, ou 15 bilh6es de metros cibicos na soma, mul- tiplicados por 100 reais o metro ctibico), s6 de arvores ja aceitas no mercado inter- nacional e na forma de comercializaqio como madeira s6lida. O valor 6 equiva- lente a mais de cem vezes o PIB (Produto Intemo Bruto) do Pari, o principal Esta- do da regiao. Conquanto seja um calculo por baixo e meramente especulativo, esse valor diz pouco sobre o alcance da perda. A avali- aqdo se restringe a apenas uma das faces que a floresta pode assumir diante das necessidades humans, a de madeira, e num certo estigio do conhecimento que tem o home sobre esse potential, infe- lizmente ainda muito atrasado. Mesmo estando na escala inicial da geraqio de informaq6es sobre a floresta amaz6nica, o home ji sabe que precisa encard-la de um prisma como agora se diz ho- listico, ou qualquer expressao ou concei- to que traduza a amplitude de possibili- dades dos ecossistemas amaz6nicos, sua agqo interativa e sua sinergia. Ao inv6s de examiner arvores isoladas, conside- rar o ambiente no qual ela se situa, en- quanto parte de um organismo harm6ni- co. Biodiversidade 6 a pedra de toque dessa nova alquimia. Um modo sustentavel de intervengao do home nesse cendrio complex e fri- gil s6 podera surgir de um conhecimen- to mais profundo que puder ser criado e aplicado na Amaz6nia. A ci8ncia e a tec- nologia s6 se desincumbirdo desse desa- fio com eficacia se tiverem recursos para agir, gente para mobilizar e mat6ria pri- ma para observer. Reduzindo-se a ser expedidora de ates- tados de 6bito, a ci&ncia sempre vira atris do desbravador para registrar o dano que ele causou. NZo podera estar a frente dele, fornecendo-lhe r6gua e compasso para agir, ou reprimindo suas agressoes e cor- rigindo seus erros. O descompasso entire as frentes econ6micas e cientificas (ou, de um modo mais amplo, do saber) 6 e continuara a ser fatal para a Amaz6nia. HA esplndidos estudos de caso na re- giao, magnificos surveys, interessantes experiencias de laborat6rio ou projetos- piloto, e at6 inteligentes referencias em programs de governor, como os dos atu- ais candidates a Presidencia da Repdbli- ca. Mas a brutal diferenqa de meios e de ritmos entire os que agem para depois se perguntar pelo significado do que fize- ram e os que tentam encontrar formas de penetrar na floresta sem destruf-la, atu- 10 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002 ando preventivamente, responded pelo saldo negative no balanqo entire a des- truicqo e a construcgo. A Aimex, a principal associaqdo dos exportadores de madeira da Amaz6nia, encomendou um antncio para comemo- rar o dia da arvore (que, a rigor, do pon- to de vista legal, deixou de existir no Brasil em fevereiro de 1965, quando o president Castelo Branco o extinguiu, substituindo-o pela Festa Anual das Ar- vores). E comemorar o plantio de 11 mi- lhWes de irvores em quatro anos pelas empresas que orienta, lembrando que cada hectare reflorestado poupa 10 hec- tares de floresta native para a atividade madeireira. No quatrienio, a m6dia 6 de menos de tres milh6es de arvores plantadas por ano. A esse ritmo (e abstraindo a qualidade do reflorestamento, se 6 cor- reto ou ndo, se vai subsistir ou ndo), a Aimex precisaria, na melhor das hip6- teses, de mais de um milenio e meio para recobrir de vegetaqio a area que foi desflorestada na Amaz6nia em me- nos de quatro d6cadas. Resultado que teria algum grau de efeito pratico, independentemente da andlise do conteido do reflorestamento que a associaqao promove, se a destrui- 9qo fosse brecada, ou reduzida at6 um nfvel inferior ao da recomposicao das fe- ridas na flora amaz6nica. Do contrdrio, esse esforqo, por mais bem intenciona- do e consistent que seja, sera mera per- fumaria diante de um mar de lixo e res- tos de desmatamento. Em Rio Claro, al6m das raz6es inte- lectuais e emocionais que os motivaram, os organizadores da festa de comemora- q9o do centenirio do dia da arvore" ti- nham tamb6m uma motivag~o concrete e sonante para o tom de vit6ria da reuniao. Conforme lembrou o secretdrio de meio ambiente de Sao Paulo, Jos6 Goldenberg, daquelas sementes de eucalipto que o jo- vem Edmundo Navarro de Andrade plan- tou na future floresta estadual, que hoje leva o seu nome, surgiu "um pr6spero se- tor da economic national", que fatura 21 bilh6es de d6lares a cada ano, gerando dois milh6es de empregos diretos e indi- reto, paga mais de US$ 2 bilh6es de im- postos e se situa como o 100 produto da pauta de exportacgo do Brasil. Nessa grandeza, que 6 bem menos elo- qiiente quando contextualizada no mer- cado mundial de madeira e ainda mais di- minuta quando referida a potencialidade da economic sustentavel derivada do uso miltiplo da floresta, a Amaz6nia, que ain- da tem um terco das reserves de floresta tropical do planet e s6 tem expressao como elo remote e primitive dessa cadeia produtiva, fica de um tamanho econ6mi- co inversamente proporcional ao de sua grandeza natural, geografica. Quase de- saparece. E um atimo, ou um nada. E serd definitivamente um nada se os capitulos da sua hist6ria contemporanea continua- rem a se suceder segundo o enredo mo- notematico da lamentaqao do que pode- ria ter sido e nao foi. At6 quando? CARTA Legalidade, ja Caro Lucio, Referente ao artigo "No verio sangrento, a temporada de fogo" [v. Jornal Pessoal 291], gostaria de co- mentar que o erro de julgamento co- metido pela ONG "Amigos da Ter- ra" tamb6m induziu-o ao erro. Al6m desse fato, voc6 nao percebeu que o fator principal, ou melhor, o fato ge- rador do artigo "Legalidade Predat6- ria", slo os assentamentos promovi- dos pelo INCRA em Areas de cober- tura vegetal. Explico: de acordo com o relat6- rio da ONG, o INCRA assentou cer- ca de 50.000 famflias/ano na Ama- z6nia nos dltimos 5 anos. Cada uma destas families recebeu 15 hectares de terra. Cada uma delas, de acordo corn o atual C6digo Florestal, tern o direito de desmatar a corte raso para uso do solo 20% da area, portanto, 3 hectares. Caso consideremos o indi- ce autorizado pelo Ibama de extraq~o, em Projetos de Manejo, por hectare, que 6 de 30m3, teremos que destas areas de assentamento foram extraf- dos (ou simplesmente queimados) 4.500.000m3 de madeira, o equiva- lente a 150.000 carretas Volvo carre- gadas de toras. Este 6 o primeiro fato relevant no relat6rio.O segundo 6 tamb6m im- portante o Ibama, por total falta de sintonia com o Incra (e vice-versa), nao acompanhou os assentamentos e, portanto, nIo ofereceu as famosas ATPF's para que os assentados co- mercializassem de forma legal a ma- deira oriunda de seus lotes, ou seja, a madeira poderia ser extraida, por6m para ser legalizada necessitaria das ATPF's, que, de acordo com a Lei, s6 podem ser adquiridas mediante so- licitaqio ao Ibama, atrav6s de Proje- to de Manejo ou Autorizaqgo de Desmatamento.Voc8 pode imaginar uma romaria de 50.000 families soli- citando ATPF's ao Ibama? Parece incrivel, mas 6 verdade: a extragqo - ou impact ambiental 6 permitida, por6m a comercializaqio tendo em vista a burocracia -, nao .Estamos diante, portanto, de umaequaqdo sim- ples a legitimidade de uma socie- dade que quer transformar em empre- go e renda a mat6ria prima oriunda destes assentamentos, de um lado, e a legalidade do desperdicio (a sim- ples queima) de outro. OerrodosAmigosdaTerrafoicon- fundir esta legitimidade com legalidade - toda a madeira proveniente destes as- sentamentos foi comercializada de ma- neira illegal, jA que nio possufa ATPFe, quando as possufa, muito provavelmente foram obtidas de manejos florestais fa- jutos. O setor madeireiro acaba "pagan- do o pato" porque a ilegalidade estA na comercializag~o e nio na extraq~o. Me- Ihor talvez seria permitir que toda a ma- deira fosse queimada? Posso Ihe adian- tar que a Aimex nao se calou quanto a isto. No entanto, nosso poder "politico" e falta de legitimidade social impossibi- litou que fossemos ouvidos. Acredito que o m6rito do "Re- lat6rio Legalidade Predat6ria" esta na identificacqo da atividade madei- reira como a financiadora dos as- sentamentos, j que a venda da ma- deira foi na realidade o PRONAF inicial para viabilizar o primeiro plantio.O Estado nao investiu nada, arrecadou ICMS, multas,etc; No en- tanto, a imagem do setor madeirei- ro foi as favas. A atividade madeireira nao 6 o dem6nio personificado. Se houver uma political florestal stria, se a mi- dia ajudar a desmistificar esta ativi- dade produtiva e permitir que ela seja legitima apesar da grande maioria das madeireiras serem legais elas nao ter legitimidade social poderemos entao participar de political pdblicas e contribuir para o desenvolvimento sustentAvel da Amaz6nia. No entan- to, a falta de interesse em adquirir co- nhecimento sobre o setor de base flo- restal de grande parte da midia, dos formadores de opiniao e do pr6prio governor, assim como a generaliza- qao que normalmente se faz a respei- to do setor, reduz a meros ladr6es em- presarios s6rios e competentes. Por falar nisso, estamos as v6s- peras de eleiqao e nenhum candidate a qualquer cargo que seja menciona a industrial madeireira em seus pro- nunciamentos, como se a segunda maior atividade produtiva do estado nao existisse. Curioso, n6 ? Um abraqo e obrigado por deci- dir nao acabar com o Jornal Pessoal. Roberto Pupo MINHA RESPOSTA Nao hi qualquer diverg6ncia entire a minha posiqo, a dos Amigos da Ter- ra e a de Roberto Pupo quanto A irraci- onalidade (e ilegalidade) dos desmata- mentos nos assentamentos rurais, pra- ticados sob o olhar ingles das autarqui- as federal. Nbo acho que por ser con- siderado inevitdvel que assim se faqa, assim deva se tornar legal, ou, por legi- timo, deva ser apoiado. E a mesma 16- gica que manteve vivos os "estoques remanescentes" de animals ilegalmen- te abatidos na Amaz6nia. Quando se apreendia uma pele, o contraventor di- zia que ela tinha sido retirada dos "es- toques remanescentes" autorizados pelo IBDF antecessorr do Ibama), e que se multiplicavam mais do que os paes e os peixes tocados por Cristo. Da mesma maneira, quando al- gu6m, nos anos 70/80, era flagrado com castanheira serrada, dizia que a arvore havia sido extraida do future reservat6rio da hidrel6trica de Tucu- rui, alibi preventive para muito pira- ta (que acabou inventando uma nova esp6cie vegetal: o louro branco). Estou de acordo corn Pupo que 6 precise conhecer melhor o setor, se- parar o joio do trigo, apoiar as boas iniciativas, reprimir as fraudes e etc. Tudo, jd, nao amanhd (que amanha pode nem haver). Inclusive a ativi- dade subterranea do comprador de madeira que financial o assentado ru- ral a extrair as arvores e, depois, as adquire a prego vil, contribuindo para o ciclo migrat6rio destruidor, da na- tureza e do home. I _ OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 1 Belem, pobreza geral O mercado informal ja 6 maior do que o mercado formal de trabalho em Bel6m. Essa 6 uma realidade visivel ji ha bas- tante tempo. Precisa ser encarada. Mas ndo tem que ser aceita. Mercado infor- mal desse tamanho 6 sinal de doenqa in- vasiva no organismo produtivo da cida- de. Poucos sao vendedores ambulantes por gosto ou opcao. Quase sempre, 6 porque 6 a tnica alternative de sobrevi- vencia que lhes restou. Manter-se nela 6 extremamente duro. Basta ficar alguns minutes numa banca de camel para ter uma id6ia do sofrimento e da brutaliza- 9go a que essas pessoas sao expostas. Reconhecer o problema deveria ser su- cedido pela attitude correta: tratar de re- solv8-lo. Mas as administraq6es munici- pais, a tiltima mais do que todas as anteri- ores, t6m procurado tirar vantagem dessa anomalia. Ou, quando muito, se omitem de procurar para o mal o tratamento A al- tura da sua gravidade. O resultado de tan- ta inctria se fez sentir na semana passa- da: a explosio do problema a partir de uma blitz da Policia Federal para apreender mercadorias contrabandeadas ou pirates que estavam sendo vendidas no velho cen- tro commercial da cidade. A operag~o foi polemica, tanto por seus m6todos quanto pelo seu senso de oportunidade. Mas a base legal da inici- ativa 6 inquestionAvel. A leni8ncia de to- dos permitiu que a car8ncia individual se tornasse campo de cultural para o sur- gimento de empresas clandestinas. Um dnico suposto camel foi incorporando colegas e, A margem da lei, se tornou um verdadeiro empresdrio. Enquanto alguns se submetem a todas as normas em sua atividade commercial, outros se favorecem das sombras para enriquecer A custa de todos. S6 nao ve isso quem nao quer. A omissao official permitiu a forma- cgo de aut6nticas mafias, algumas envol- vendo representantes da administracgo pdblica com jurisdicqo sobre esse vasto mercado informal. Esti na hora de apro- veitar a intumesc6ncia da semana passa- da para drenar o pus desse tumor social. A cidade anseia por um padrdo de nor- malidade e dec6ncia nas ruas, como, em ensaio experimental, se p6de observer nos dias em que os camels, privados de suas mercadorias, nao puderam trabalhar e impediram os comerciantes regulars de tamb6m funcionar. Ah, o prazer urba- no de andar pela cidade com uma sensa- qCo de liberdade e paz, de usufruto e be- neficio, de cidadania. Como se trata de verdadeiro proble- ma social, seu tratamento adequado nao esti na esfera de atribuiq~o policial. Deve ser resolvido cor medidas soci- ais e uma visdo menos acanhada e po- bre do que a dos tiltimos governor mu- nicipais, este iltimo com destaque ne- gativo neste setor. Mas o problema so- cial cresceu tanto que hi nele uma in- descartivel dimensTo policial, que deve ser executada com coragem, sempre nos parametros legais. Os trabalhadores in- formais merecem vida melhor. A cida- de, tamb6m. Ambos, livres dos parasi- tas dessa anomalia. Justiga Tr6s novas aq6es foram pro- postas contra mim perante a 16W vara criminal de Bel6m, priva- tiva dos delitos de imprensa. Todas tomam como pretexto as mat6rias nas quais tenho denun- ciado as grilagens de terras e as extraq6es clandestinas de madeira, especialmente o mog- no, no vale do Xingu. Os su- postos ofendidos dizem que os difamei ou caluniei com meus artigos. Nenhum deles exerceu o direito de resposta, respeita- do como algo sagrado nestejor- nal. Duas das queixas-crime sao dendncias feitas pelo Mi- nist6rio Pblico Estadual, a par- tir de representaq6es da desem- bargadora Maria do C6u Cabral Duarte, criticada por despacho que deu (e depois cancelou) em recursos envolvendo o patrim6- nio fundidrio e florestal do Es- tado do Pard (ver Jornal Pes- soal 286 e 288). A pretexto de defender ele- mentos subjetivos da honra de autoridades piblicas, o MP tem investido contra a liberdade de imprensa, contribuindo para obstruir a critical jornalistica, torpedear a fiscalizaqio da ati- vidade pdblica pela midia in- dependente e desviar legitimos jomalistas investigativos da sua salutar atividade, sobretudo quando eles se constituem em defensores da integridade do patrim8nio pdblico contra o ass6dio de autenticos pirates, que t8m ameaqado tanto as ter- ras quanto a cobertura vegetal do Estado do Pard. Nao por mero acaso um juiz federal re- centemente suscitou dividas quanto A autonomia do Minis- t6rio Pdblico do Estado. Oito aq6es de um total de 12 em tramitaqio no f6- rum de Beldm -ji foram pro- postas contra mim, tendo como alegada motivaqio o acervo de terras e arvores do Estado no cobiqado e dilapi- dado vale do rio Xingu. Em todas elas apareco em defesa do interesse pdblico, tendo contra mim agents do poder economic. Essas aqoes revelam at6 que ponto chegou a inversdo de valores no trato de temas de grave interesse pdblico, que sio submersos por uma torrente de caprichos indivi- duais e pelo abuso da autori- dade piblica. A continue busca das barras dos tribu- nais nio significa, na verda- de, a busca da justica, mes- mo porque os supostos ofen- didos fogem do tratamento pdblico do assunto. Tem o objetivo, ji indisfarqivel, de me imobilizar, de me afastar do meu trabalho na linha de frente do combat A apropri- agqo ind6bita, A pilhagem da coisa ptblica e A conivencia de representantes do poder piblico, ou A omissao de uma sociedade desinteressada por seus pr6prios bens, dentre os quais, material mas essenci- al, esti o direito de saber a verdade, A luz do dia e nao em restritos autos judiciais. Serenamente, seguindo os tramites legais e confiando na possibilidade de chegar a bom termo atrav6s do contradit6rio, me manterei fiel aos meus compromissos. Ganhar nao 6 o mais important para quem se empenha em travar o bom combat. Como acho que te- nho procurado fazer. Continuarei, portanto, ares- ponder present na defesa das causes pdblicas apesar de todas as ameagas e intimidaq6es. M R I A DO C O."II D ANO Cimento Em 1960 Bel6m era uma das praqas brasileiras que mais consumia cimento. Mas para "bem servir seus clientss, o comerciante Ant6nio Farias Coelho, da firma A. F. Coelho & Cia., teve que ir a Recife comprar 20 mil sacas do pro- duto e parar em Fortaleza para contratar "embarcaq6es apro- priadas para o transporte. Por conta dessas despesas, reajus- tou o preqo de cada saca em 400 cruzeiros. Mas seus privi- legiados clients "nao terao dessa maneira suas obras pa- ralisadas por falta do precioso material de construqSo". Colonizaqio Em julho de 1960 o advo- gado Aristeu Menck, irmao do deputado Jos6 Menck, do PDC de Sdo Paulo, chegou a Bel6m para uma visit de sondagem. Percorrendo a Bel6m-Brasilia, que comegava a entrar em tri- fego regular, ficou convencido da "viabilidade de plantag~o de pastagens para a criaqao de re- banhos, bem como a instalaqao de serrarias e criaqao de nucle- os colonials" em praticamente toda a extensdo da rodovia. Ele e o irmio pretendiam instalar na Area colonos nacionais e si- cilianos. Pretenderam? Jornal Em outubro de 1962 (hi 40 anos, portanto), a direcqo dos Didrios e Emissoras Associa- dos, de Assis Chateaubriand, decidiu suspender a circula- qao de A Vanguarda, pondo fim a uma hist6ria de 15 anos. A sentenqa de morte do ves- pertino, que sucedia ao matu- tino da rede, A Provincia do Pard, na circulagio pelas ruas de Bel6m, se devia ao "enca- recimento do custo dos jor- nais no Pais". Os responsiveis pelos DA estavam certos de que o pdiblico paraense "bem compreenderd os motives dessa media e a imperiosa necessidade de ser executada sem maiores delongas". Tacacazeira Enquanto Bel6m comemo- rava, em 1966, seus 350 anos de vida, Rosalinda Souza co- memorava os 17 anos de exis- tencia da sua banca de tacaci, na rua Campos Sales, conside- rada a melhor da cidade naque- la 6poca. Seu ponto era, inici- almente, em frente ao journal Estado do Pard, de Santana Marques (o local foi ocupado pelo Edificio Justo Chermont). Depois, passou para a frente da Biblioteca e Arquivo Pdblicos. Mas em 1964, a pedido da Pre- feitura, que queria mudar a es- t6tica do local, se mudou mais uma vez. Por deferfncia do di- retor da BAP (que hoje 6 ape- nas arquivo; a biblioteca foi deslocada para o Centur), his- toriador Ernesto Cruz, ficou nos funds do pr6dio. La for- necia aos seus clients, al6m de tacaci (mais vatapd, manigoba e caruru), muita hist6ria e boas gargalhadas. Era um ponto de refer8ncia do centro hist6rico da cidade. Era. Orquestra Fundada em agosto de 1942, a Orquestra Sinfonica do Pard passou varios anos inativa. Vol- tou a se apresentar em maio de 1966, sob a regencia do maes- tro Belarmino Costa, A frente de 30 mdsicos. No concerto de re- tomo, al6m de uma "Raps6dia n 1 de cantos Populares", da lavra do maestro, executou pela primeira vez para o pdblico o hino dos 350 anos de Bel6m, composto por Waldemar Henri- que e Augusto Meira Filho. A Waldemar, alias, se devia a reati- vacqo da orquestra, entao subor- dinada ao Departamento Cultu- ral da Secretaria de Educagqo e Cultura, por ele dirigido. i, E TEATRO VAIIEDADE OJI U Lw HOJ1 Teatro "Inteiramente coberto e pavimentado de Onda- lit", o Teatro Coliseu foi reinaugurado em agosto de '1957. Sob a supervisor de F61ix Rocque (pai do jornalista e historiaqor Carlos Rocque), se apresen- tou a Cia. Paulista de Com6dias e Revistas, "corn 23 das mais notiveis figures da ribalta brasileira". O andncio assegurava que ela.era "a primeira com- panhia teatral complete que viaja para o Norte do Brasil encenando as mais belas j6ias da arte e da literature universal". Eram sempre dois espetAculos em cada noite. Na estr6ia, foram "O chauffeur e a gra-fina", uma "encenaqgo com toda a magnificdncia da obra prima da ribalta " national em 3 soberbos atos tragi- c6micos", e "Na mouraria", a "so- berba revista de motives portugue- -4 ses em 18 quadros e 1 apoteose com deslumbrante montagem, ni- meros musicals e efeitos de luz". Por se tratar de "um verdadeiro acontecimento teatral, in6dito no Pari", o teatro reservava "localidades, assinaturas completes ou parciais". / Notiveis obras do anonimato teatral em linguagem de leildo, L BAT TA mas isso era detalhe. Jomal Pessoal Editor LUc FIAVo Pinto ForM: (091) 241-7626 ContDet: Tv.Benjamln Constant 845203/6.053-040 aH: jomalOamazon.com.br Produlo: Angelin Pinto EdlIco de Arlt: Luizanoniodelartaplto |
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