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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00241

Full Text





Jomal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO
ANO XVI NI 292 OUTUBRO DE 2002 R$ 3,00

ELEI;AO


Surpresas na reta final

A uma semana e meia da elei4do, a cassacdo da candidatura de SimdoJatene, o lider nas
pesquisas mais recentes, langou uma nddoa de imprevisto sobre uma dispute marcada pela
ausencia de uma grande lideranga political. Ndo podendo ser revertida ate o dia 6, a
cassagdo deixard o eleitor sujeito a uma circunstdncia inidita na hist6ria: eleger um "sem-
candidatura". E oprego que o governador Almir Gabriel poderd pagarpelo risco que
assumiu, de eleger o seu candidate de qualquer maneira.


4 466fe'


Aconteceu o que se previa:
o governador Almir Ga
briel foi aos limits da ile
galidade para poder ele
ger o seu candidate, o ex-
secretArio estadual Simdo Jatene. Esse
limited criou o risco de cassaqgo da can-
didatura do cabeqa-de-chapa da coli-
gagAo Unido pelo Pard.


Os tucanos v6em inspiraqdo polftica
por tris da sentence do juiz federal Glhu-
cio Ferreira Lima, que acolheu represen-
taqdo do deputado federal Giovanni Quei-
roz, do PDT, candidate a vice-govera-
dor na chapa de Hildegardo Nunes, e cas-
sou Jatene por abuso de poder (al6m de
multar o governador em 20 mil reals).
Suscitam esse alegado vfcio a partir do


fato de que a decisdo do juiz, que funcio-
na como auxiliar no TRE, foi adotada a
uma semana e meia da eleig~o.
Mas na verdade o que gostariam de
argumentar, se pudessem faz8-lo, seria
a defesa de um principio consuetudi-
nario de isonomia: por que s6 os tuca-
nos sao punidos? Praticamente sem ex-
ceg~o, todos os governadores costu-


A [sICA DOc GRUPi LIBERA 1:1=1 7)








2 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002


mam usar a maquina pdblica que co-
mandam para reforqar as candidaturas
que ap6iam. Almir Gabriel nao inovou
na atual temporada. Mas, acomodado
pela terceira eleiqgo seguida ao gover-
no (duas em causa pr6pria, a terceira
em favor do afilhado politico), pode
ter-se descuidado de manter as aparen-
cias ou evitar que o uso da maquina
estadual se tornasse tao explicit. Tam-
b6m se esqueceu que o pais, apesar de
tudo, e, sobretudo, do governor, vem mu-
dando para melhor.
Pode ser que o lento crescimento
inicial da aceitacgo de Jatene o tenha
levado a repetir, ao menos intimamen-
te, a tristemente celebre frase com a
qual o entdo ministry Jarbas Passari-
nho engoliu o AI-5, em 1968, jogan-
do fora os escrdpulos da consci8ncia.
Se ji havia sido ostensivo o envolvi-
mento da estrutura de governor na elei-
q5o de 1998, agora ele se tornou agres-
sivo demais.
Afora a temeraria associacqo de da-
tas feita pelos porta-vozes da Uniao pelo
Pard com o prop6sito de colocar sob sus-
peita a decisao do juiz Gliucio Maciel,
os terms da sua sentence sho suficien-
temente consistentes para levar a ques-
tao, em iltima instfncia, ao TSE. Prever
a decisao que o Tribunal Regional Elei-
toral tomard nesta semana (poderdjd t&-
la adotado quando esta ediado chegar
as ruas) 6 dificil, mas 6 certo que qual-
quer pronunciamento sera por pequena
diferenqa de votos. Certamente haveri
na corte quem se oponha a manifesta-
cqo do juiz federal, mas da mesma ma-
neira 6 previsivel que nao apenas haja
endosso, como o apoio acabe superan-
do a rejeiq~o.
Qualquer que seja a decisao do tri-
bunal regional, por6m, ainda havera re-
curso ao TSE para uma decisao final.
Assim, a eleig~o deste ano apresentara
uma caracteristica original e inusitada:
o lider nas pr6vias para o governor do
Estado chegard ao dia fatal da votaqgo
cor uma espada de Dfmocles penden-
te sobre sua cabega, e corn duas derro-
tas seguidas nos costados (no julgamen-
to monocrAtico e no primeiro pronunci-
amento coletivo, se o TRE confirmar a
sentenga inicial). Como reagird o elei-
tor a essa condicionante? E, particular-
mente, como reagira aquele que vota
para vencer, o dono do voto titil? Cor-
rera o risco de perder seu voto, na hip6-


tese de a cassacgo de Simao Jatene ser
confirmada em tiltimo grau pelo Tribu-
nal Superior Eleitoral?
Depois de uma campanha eleitoral
cinzenta, na qual os gatos podiam ser
pardos ou pretos independentemente de
haver luz em tetos de zinco quente, sera
um desfecho surpreendente. Se tudo
der certo para a coligaqCo situacionis-
ta (se o contencioso judicial reforqar
os dividends da vitima e ela ganhar
no final), o m6dico Almir Gabriel dei-
xara o governor e ingressara num perf-
odo de abstin8ncia convencido de ser
um super-homem, de poder quase tudo,
inclusive eleger postes. Ou inclusive
voltar ao posto que quiser depois das
f6rias compuls6rias, quando diz que es-
tari plantando flores, talvez a prefeito
de Bel6m, em 2004, ou a governador
novamente, em 2006.
Como ji nao ouve ningu6m, muito
menos os critics, Almir Gabriel nao
perguntard sobre o custo desse poder e
o prejuizo que ele acarretara ao que
ainda havia de restos de lisura e decen-
cia na conduqco dos neg6cios pdblicos
no Pard. Se 6 possivel que, A margem
da perlenga judicial, Simao Jatene ven-
qa o primeiro turno e seja o maior forte
pretendente a vit6ria no segundo tur-
no, esse resultado s6 se tornou possi-
vel porque o governador Almir Gabri-
el arriscou tudo nessa aposta, inclusi-
ve a ser flagrado na ilicitude.
Com esta eleiqgo, ele deixou para
tras, vigente apenas em seu curriculo,
o patrim6nio valioso do m6dico respei-
tado que foi e assumiu de vez a identi-
dade do politico de resultados em que
se tornou, defensor de um maquiave-
lismo primario e rasteiro, no qual o
dnico fim que o interessa (o poder)jus-
tifica todos os meios que estiverem ao
seu alcance.
Se tudo der certo para a Uniao pelo
Para, um ne6fito em political, um tec-
nocrata do process, um burocrata dos
meios, um autocrata dos bastidores,
sera o novo governador do Pard. Como
sua substitute eventual, na vice-gover-
nadoria, estarA Val6ria Pires Franco,
uma jejuna em todos esses itens, cria-
tura do seu criador, o deputado federal
Vie Pires Franco, premiado pelo senso
de oportunidade no moment da nego-
ciaqco das mercadorias political, pou-
pado, assim, de trilhar o caminho de
said da vida pdblica.


No Senado estard Duciomar Costa,
um falso m6dico, algu6m que um dia,
quando era apenas comerciante, sem
qualquer participagCo na atividade po-
litica, nHo se vexou de comprar um ti-
tulo forjado para dele tirar vantagens
no seu neg6cio. Como hi de se sentir,
no trato com seus botoes (se ainda os
ter), o m6dico Almir Gabriel de ele-
ger para o topo do legislative federal
algu6m que violou conscientemente o
sagrado compromisso de habilitaq~o da
sua profissao? Como Almir Gabriel
reagiria a essa circunstAncia se ainda
fosse apenas m6dico? Votaria no can-
didato de Almir Gabriel, r6u confesso
no inqu6rito da Policia Federal, con-
denado em primeira instincia pela jus-
tica federal e que continue r6u primi-
rio porque a tramitaqco da acgo de fal-
sidade demorou tanto que acabou pres-
crita, extinguindo a punibilidade do
criminoso? Como reagirdo os senado-
res ao ingresso desse novo par, ap6s o
furacAo Jader Barbalho?
Se vencer a eleigao de outubro, Al-
mir Gabriel legard aos beneficidrios da
maquina estadual que comandou uma
vit6ria de Pirro. Foi incapaz de encon-
trar (ou mesmo criar) herdeiros das
obras que efetivamente fez, da aprova-
q5o que a maioria da populaCgo lhe
conferiu, repassando-lhes um piano de
agco e uma concepqgo de governor, com
os quais poderiam iniciar uma nova
etapa na vida ptiblica do Estado, bus-
cando padres mais elevados de ges-
tao e de acgo political, ajudando a tirar
o Para do lodacal politico no qual pa-
tina hi d6cadas.
Ao inv6s disso, foi a submissdo aos
seus ditames e a incorporaqao dos es-
colhidos a dedo a essa cornucopia pro-
miscua que estabeleceu os crit6rios da
vit6ria. Ao inv6s de entregar o poder
ao que melhor se tivesse habilitado
para a dispute, o governador procurou
eleger uma esp6cie de guardador do
lugar que espera continuar a ser seu,
na vA ilusAo dos aprendizes de feiticei-
ro. Ardilosos e sagazes, ainda assim
nao conseguem se prevenir para suas
criaturas. Talvez porque a traigAo, nes-
sas circunstfncias, seja como um virus
refratario a qualquer antidote.








OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL. 3


PROJETO


Mas se a candidatura de Simao Ja-
tene for efetivamente cassada ou ele,
contra todas as projeq6es, perder a ba-
talha de um segundo turno ainda sujeito
a imprevistos, o que se podera esperar
dos seus adversaries? A julgar pela
apatia do eleitorado e pela linearidade
dos candidates, nada de substancialmen-
te diferente do que foi o "modo tucano"
de governor o Para. A rigor mesmo, as
variaq6es tem sido minimas ha varias
administraqSes estaduais.
Se havia alguma promessa em tor-
no do senador Ademir Andrade, ela se
desvaneceu quando ele, por puro prag-
matismo, se associou ao ex-senador
Jader Barbalho. A decisao foi tomada
pelo candidate do PSB depois de um
calculo frio sobre o desgaste que so-
freria corn essa alianqa branca junto a
opiniao pdblica e o que ganharia corn
a adesdo da maquina do PMDB, mais
eficiente no interior do Estado do que
a do PT, a outra alternative partidaria
a miquina mais important, a do Esta-
do. O problema 6 que essa conta de
chegada esta sempre sujeita a mudan-
cas imprevistas. Imprevistas tanto por
conterem um component insondivel
mesmo, como porque o que mais tern
faltado para a formaq~o de jufzos pr6-
vios sobre a eleigqo deste ano 6 a in-
formaiio, sejam a informaqCo bruta
como a informagao confiavel.
Nesse terreno do imponderivel evolui
a candidatura de Maria do Carmo. Ela tem
se beneficiado do arrastao de Lula, mas
nao na media do possivel se houvesse
mais disposiqao dentro do seu pr6prio
partido, o PT. Um grau maior de unidade
(ou sinceridade) ji teria garantido A de-
putada santarena melhores dividends
junto Aquela parte significativa do elei-
torado que ainda esti indecisa, a espera
de um agrado melhor ou de uma palavra
de sensibilizaqio. Ainda mais porque se
frustrou a candidatura que prometia tra-
balhar exatamente nessa faixa, a do vice-
governador Hildegardo Nunes.
Corn a ameaca pairando sobre o li-
der das pesquisas e as atribulaq6es no
esquema remendado que permitiu a
vice-lideranga de Ademir Andrade, ne-
nhuma previsdo pode ser considerada
definitive. O pr8mio para tanta medio-
cridade 6 exatamente esse: o suspense.
Nao havendo melhor nem pior, quem
vencer sera um detalhe. Que muda sem
mudar nada.


president Fernando Henrique Car-
doso provavelmente fez, no dia 20,
sua viagem de despedida ao Pard.
Apesar de ser goverado por um correligio-
nirio tucano, o m6dico Almir Gabriel, do
PSDB, tamb6m em final de segundo manda-
to, o Estado pouco figurou na movimentada
agenda presidential. Mas 6 destacado figuran-
te nos investimentos federais, ocupando a ter-
ceira posicgo national, graqas ao que se con-
vencionou chamar de "grandes projetos", em-
preendimentos geralmente multinacionais -
que demandam enormes somas de capital e
alta tecnologia para poderem gerar produtos
de exportaq~o, competitivos internacional-
mente. O Pard 6 o s6timo exportador brasilei-
ro e o segundo que mais proporciona divisas
ao pais (dois bilh6es de d6lares liquidos ao
ano, em m6dia, a diferenca de valor entire o
que manda para fora e o que importa).
Na sua derradeira excursao paraense, o
president esteve num desses "grandes proje-
tos". Inaugurou a segunda linha de transmis-
sao de energia da hidrel6trica de Tucuruf para
a AlbrAs, a maior fabrica de aluminio do con-
tinente, produto da associaqao da ex-estatal
Companhia Vale do Rio Doce cor um con-
s6rciojapones, que fez nesse empreendimen-
to o maior investimento de risco de capital
estrangeiro na hist6ria do Brasil (mesmo nao
chegando a 200 milhoes de d6lares). A Al-
bris, sozinha, responded por 1,5% do consu-
mo de energia de todo o Brasil, uma vez e meia
a mais do que o que gastam de energia os 6
milhoes de habitantes do Estado.
Ha quase 17 anos, desde que comegou a
funcionar, a fabrica 6 suprida por uma linha
singular de energia de alta voltagem, com
mais de 300 quil6metros de extensao, cons-
truida pela Eletronorte. Em 1991 um aciden-
te provocou um blecaute de mais de 12 ho-
ras. 0 prejuizo da fibrica foi de mais de 100
milhoes de d6lares, s6 parcialmente cober-
tos pelo seguro. Foi o maior dano que uma
inddstria de aluminio jd sofreu, por falta de
energia, em todos os tempos e em todo o
mundo. Entrou para o Guiness.
Mesmo com esse grave precedent, a du-
plicaqao da linha demorou mais 11 anos para
sair das promessas e das pranchetas. Ela foi
executada por um cons6rcio privado, Schahin/
Alusa, que irA explorer o novo tronco energ6-
tico, desdobrando-o em outras linhas, em ten-
sdo menor, para novos focos de consume.
Embora o governor japones tenha se compro-
metido a garantir recursos financeiros para a


obra, vital para a seguranqa da fabrica, que
fornece 15% de todo o aluminio consumido
pelo Japao, a 20 mil quil8metros de distancia,
o dinheiro nunca saiu.
A Alumar, vizinha e concorrente da Al-
bras, que a Alcoa e a Billiton instalaram em
Sdo Luis do MaranhAo, duplicou com seus
pr6prios recursos a linha atrav6s da qual Ihe
chega a energia de Tucuruf, numa distfncia
quase tr8s vezes maior. Obteve o ressarcimen-
to atrav6s do encontro de contas cor a Ele-
tronorte. Albrds e Alumar desfrutam das me-
nores tarifas de energia do pais, favorecidas
pela political de desconcentraq~o industrial
para o setor de eletrointensivos na drea do
finado Programa Grande CarajAs. O subsi-
dio para manter essa tarifa especial exige o
equivalent a 200 milh6es de d61ares ao ano.
No horizonte de 20 anos do contrato (a ven-
cer em 2004), as duas fabricas absorverlo
quatro bilhoes de d6lares. E o valor de duas
fibricas de aluminio novas.
Naturalmente, ndmeros dessa ordem nao
aparecerao nos festivos discursos de inau-
guraqao da nova linha Tucurui-Albris. Para
um president que pouco foi ao Para ao Ion-
go de oito anos, estar pela segunda vez na
mesma fibrica ter o significado de uma
mensagem: a Amaz6nia continuarA, no rit-
mo dos "grandes projetos", voltada para o
mercado externo.
Al6m da Albris, que se prepare para alcan-
gar a producgo de 450 mil toneladas de alumi-
nio, record no continent, sua irmi-g8mea, a
Alunorte, que produz um insumo do metal, a
alumina, em tres anos vai triplicar sua marca
atual, chegando a 5 milh6es de toneladas, pu-
lando para a linha de frente da inddstria da alu-
mina. Arrastard consigo a mineraq~o de bauxi-
ta, a pouco mais de 300 quil6metros, a ser in-
terligada atrav6s de mineroduto, quejA estA em
implantaqao e logo chegarA A escala de 4 mi-
lh6es de toneladas de min6rio.
Essas ampliaq6es e incorporaq6es per-
mitirao quase dobrar o investimento jd re-
alizado nesse p6lo aluminifero, de US$ 2,5
bilh6es, para US$ 4,7 bilh6es. Sem contar
o cada vez mais important ndcleo indus-
trial em expansAo lateral, o de caulim, que
fard do Pard o terceiro produtor mundial
dentro de dois ou tres anos. O caulim 6 uma
argila usada principalmente para o revesti-
mento de pap6is especiais.
Esses ndmeros poderiam ser lembrados na
solenidade official, marcada para uma propicia
temporada de caqa aos votos. TAo logo ativou


0 rio: apenas


um "detalhe"








4 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002


a linha de energia no projeto que 6 parceiro fa-
vorecido da administration federal, o presiden-
te embarcou num helic6ptero para visitar outra
obra a ser inaugurada, esta muito mais rentAvel
eleitoralmente para o seu anfitriAo, o govema-
dor Almir Gabriel. HA 30 anos os governantes
locais falam da ligaqio entire Bel6m e o princi-
pal porto do complex e rico estudrio no qual
se localiza a capital paraense. Em linha reta, a
distAncia entire a mais important cidade da
Amazonia e o terminal portuArio de Vila do
Conde, onde a Albris estA baseada, 6 de ape-
nas 50 quil6metros.
Entre os dois pontos, por6m, ha um ema-
ranhado de cursos d'Agua, que constituem o
grande fato geogrifico dessa regiio, mas sio
considerados um estorvo para a ligaqio direta
entire uma area metropolitan de 1,5 milhAo
de habitantes e o trecho do litoral cor os mais
profundos canais de navegac o, num comple-
xo hidrogrifico rigorosamente atacado por as-
soreamento. Essa restriqio tem sido o fator
apontado como fatal para o velho porto da ci-
dade, o principal entreposto commercial da
Amazinia e ainda uma important via de es-
coamento de carga.
A segunda obra que FHC inaugurou foi a
"alga vidria", um conjunto de estradas e pontes
que passou a fazer a ligaq o por terra entire Be-
16m e o seu future porto de exportaqio, capaz
de receber navios de atd 60 mil toneladas. Com
seu traqado curvo, essa ligaq~o, de 110 quil6-
metros, represent o dobro do atual percurso
rodo-fluvial. Mas a viagem sera mais ripida
para os que dependem de lentas e freqtiente-
mente acidentadas travessias atrav6s de defa-
sadas embarcaq6es e modorrentas balsas.
Para o motorist de carro de passeio, o cli-
ente preferencial, hA ainda o atrativo de uma
das pontes, sobre o rio Guami, uma daquelas
pontes-monumento consagradas pelo turismo,
com dois quil6metros de extensAo, a terceira
do Brasil no seu tipo (estaiado), e com o maior
vio livre do pais, de 320 metros. Os italianos,
donos da tecnologia de construq o, pediam tris
anos para executA-la. Por pressio do governa-
dor, a obra saiu na metade do tempo e ainda
assim cor atraso de seis meses em relaq o A
data que ele exigira inicialmente.
Esse ligeiro contratempo, contudo, serA
mais do que compensado pela iniciativa da Se-
cretaria Estadual de Infraestrutura do Estado
de batizar essa ponte com o nome do gover-
nador. Se dependesse da secretaria, outra das
quatro pontes do Sistema Integrado do Para
(a designaqio official do conjunto da obra), a
do Moju-Cidade, levaria o nome de Fernando
Henrique Cardoso. FHC preferiu declinar da
honraria, alerta para a proibiq o legal de co-
locar o nome de pessoas vivas em obras pi-
blicas. Assim, Fernando Henrique inaugurou
a Ponte Presidente, an6nima, e a Ponte do
GuamB, que foi logo batizada de Govemador
Almir Gabriel. Ao que se saiba, o m6dico nAo


expressou os mesmos escrdpulos do seu cor-
religionario soci6logo.
Todo esse sistema tem a pretensAo de in-
tegrar a capital a todo o leste do Para e, a par-
tir daf, estabelecer relaq6es mais fortes com o
restante da Area do segundo maior Estado da
federal~ o brasileira, com seus 1,2 milhlo de
quil6metros quadrados permanentemente su-
jeitos a dois projetos separatists (para a cria-
qao de outros dois Estados, ambos maiores do
que a atual unidade). A eficAcia desse rem6-
dio ter sido posta em questio, mas uma coisa
estA provada: esse tipo de iniciativa sempre
comeqa cor um orcamento e terminal corn
outro. O SIP foi iniciado com previsio de custo
de 183 milh6es de reais e vai ser inaugurado
nesta semana com essa conta majorada em
mais um terqo, ou R$ 60 milh6es.
Quando um cidadAo que hoje faz o percurso
entire Bel6m e Vila do Conde em pelo menos
mais de uma hora de duraqio, numa viagem su-
jeita a imprevistos e maus tratos, dependendo
de terceiros, puder ir no seu carro do ponto de
origem ao de chegada, contemplando uma pon-
te realmente de impressionar, "detalhes" outros


As editors brasileiras levaram uns 40 anos
para se lembrar de mandar traduzir e publicar
Hiroshima, a reportagem que John Hersey es-
creveu e a revista The New Yorker publicou,
exatamente quando o bombardeio at6mico da
cidadejaponesa pelos Estados Unidos comple-
tou um ano, em agosto de 1946.
O trabalho era t~o bom, em todos os senti-
dos, que virou livro e provocou enorme impac-
to na opiniAo piblica norte-americana. Teve,
em relaq o ao ingresso da humanidade na era
da bomba nuclear, a importfncia que a reporta-
gem de outrojomalista americano, John Reed,
tivera em relaqao A revoluqso comunista na Rts-
sia, 30 anos antes.
Mas 6 inegAvel que o texto de Hersey 6 tio
superior ao de Reed quanto os ataques a Hiro-
xima e Nagasaki, encerrando tragicamente a
Segunda Guerra Mundial e colocando nos areas
a permanent ameaqa de extinq~o da esp6cie,
superam, em seu significado macabro, o fim
do czarismo e a instauraq~o do primeiro gover-
no socialist como o inicio de uma utopia de
igualitarismo proposta pelos bolcheviques e por
eles mesmos anulada.
A primeira ediqAo de Hiroshima em portu-
gu8s foi tirada pela Record, do Rio de Janeiro.
Quando? Nem o livro indica: como era praxe
na editor de Sdrgio Machado, nao hA a mais
remota refer8ncia a data de langamento da pu-
blicaqAo. Suponho, sem tempo para maior pes-
quisa, que foi bem no inicio da d6cada de 80.
Uma segunda edig~o, muito melhor cui-
dada e mais encorpada, gragas a melhor apre-


se tomarao irrelevantes. O valor da obra, por
exemplo. Seus efeitos negatives, sempre sufo-
cados, na massive propaganda official, por seus
inegAveis efeitos positives. As metas propostas
e nao alcanqadas. E o que, nesse caso, 6 a reno-
vaq o e consagragao de um modelo de transpor-
te, o rodoviario, que ignora a realidade geogrd-
fica da area, dominada pelos cursos d'Agua.
O usudrio ter todos os motives para nao
sentir saudade alguma do sistema de transport
em uso, que desrespeita o client e usufrui um
monop6lio virtual. Mas a ilusao rodoviaria, rea-
quecida e edulcorada, vai impedi-lo novamente
de procurar encontrar uma forma de transport
que consiga ser, ao mesmo tempo, adequada aos
elements naturais da paisagem e modern,
confortavel, capaz de tender As exig8ncias do
cidadao contemporineo. Os rios serAo novamen-
te ignorados, e todos baterdo palmas para mais
uma soluqao importada como caixa preta. Os
braqos dessa ampla paisagem estuarina, ao se-
rem cruzados por ponte de iltima geraq~o, fica-
rio confinados A imagem que deles tem esse
habitante deslocado do seu espaqo: de estorvo,
complicador, lixo.


sentaq~o do trabalho pela Companhia das Le-
tras, saiu agora. EstA sendo saudada, comjus-
tificado jtbilo, por todos os que consideram
a reportagem de Hersey uma das melhores
escritas atd hoje, se nro a melhor.
t impossivel nro se impressionar cor a
narrative de Hersey e a rara combinaqao que
consegue, de objetividade e sensibilidade,
para reconstituir o que aconteceu naquela
manhi de 6 de agosto de 1945 e os dias sub-
seqiientes ao uso da arma mais mortifera ja
criada pelo home, pela primeira vez usada
contra alvos humans. Ao inv6s de um inqu-
6rito exaustivo ou profunda analise, ojorna-
lista-escritor segue a vida de seis persona-
gens da tragddia, como se o narrador nao
existisse e como se estivesse dentro das suas
criaturas, reproduzindo atd seus sentiments
mais intimos sem precisar, um moment se-
quer, recorrer a adjetivos. Graciliano Ramos
nro faria melhor se tivesse ido aos escom-
bros de Hiroxima.
A impression mais forte que me ficou da
acuidade de John Hersey, a liqAo que continue
tentando aprender at6 hoje de sua capacidade
de observaqao, 6 ter percebido que as pessoas
alcanqadas pela radiaqio quimica da detona-
qao sofriam e morriam em sil8ncio, como se
naquela incrivel sociedade morrer s6 tivesse
grandeza se fosse na quietude da resignaaio.
Membro da sociedade dos vencedores, John
Hersey conferiu, com esse "detalhe", dignida-
de A sociedade dos perdedores. Derrotados, sim,
mas s6 naquele moment.


Hiroxima


I







OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL *


LULA


A voz da consciencia


Na fase de cultivar amigos e influenciar
pessoas, Luis Inacio Lula da Silva fez entusi-
asmados elogios A economica planejada" do
regime military. Uma de suas manifestaqces (um
tanto cabalisticamente, na sexta-feira, 13), foi
diante de um audit6rio integrado por altos ofi-
ciais das Forqas Armadas, A frente dos quais
estava o general (agora na reserve) Le6nidas
Pires Gonqalves, ex-ministro do Ex6rcito.
Lembrando cor saudade o tempo da eco-
nomia centralizada que os militares sustenta-
ram (embora nenhum deles tenha ocupado
qualquer das pastas dessa Area, entregue, corn
cheque assinado em branco por desconheci-
mento de causa, a tecnocratas como o tenor
MArio Henrique Simonsen e o czar Delfim
Neto), a intenqAo do candidate do PT a Presi-
dencia da Repiblica era 6bvia: critical o regi-
me economico baseado na liberdade de mer-
cado, o "neoliberalismo" de Fernando Henri-
que Cardoso & Jos6 Serra.
A mais enfAtica e a mais imediata das rea-
q5es veio da parte do soci6logo paulista Jos6
de Souza Martins, considerado uma das mai-
ores autoridades em temas rurais do Brasil, e
particularmente conceituado em quest6es ama-
z6nicas. Martins nao deixou de ressalvar que
os elogios de Lula ao "modelo" econ6mico
adotado nos 20 anos de regime de excecao
mais recent na hist6ria do pais nao se esten-
diam A aq~o political dos governor militares,
cuja condenagqo manteve.
Mas enfileirou todas as mazelas, perversi-
dades e distorq6es engendradas pelo modus
faciendi adotado pela tecnoburocracia domi-
nante entire 1964 e 1985, de fazer o pais cres-
cer economicamente e s6 depois pensar na
redistribuiqao da renda, que, enquanto isso,
ficaria se concentrando sempre mais (o maior
item do esp61io do regime p6s-64 foi justa-
mente a brutal concentraqao de renda, que
coloca o Brasil entire os pauses mais injustos
do planet, heranqa que os govemos seguin-
tes, com destaque para o de FHC, trataram de
continuar a adubar).
Martins adverte ainda que essa mesma eco-
nomia planejada, "que Lula consider maravi-
Ihosa e recomendAvel para o povo brasileiro,
no caso de vencer, foi responsAvel, tamb6m,
pela planejada expansao do grande capital, so-
bretudo do Sudeste, para a regiAo amazonica a
partir de meados dos anos sessenta".
Mostra que a political de incentives fiscais
posta em pratica pela Sudam a partir de 1966
significou uma drenagem de recursos p6bli-
cos para os bolsos de investidores particula-
res, a maioria dos quais se mostraram vorazes
predadores, selecionados como parceiros da
"integrac o national" da regiAo. Eles podiam
receber do governor federal at6 75% do capi-


tal necessArio A implantaqao dos seus projetos
produtivos, sem ter que devolver esse dinhei-
ro ou pagar juros pelo seu uso. E, frequente-
mente, desviando parcela significativa ou
mesmo majoritaria dos recursos para outros
empreendimentos e outras regi6es.
"Nao era empr6stimo, era doaq~o, incen-
tivo fiscal. Essa maravilha era produto da eco-
nomia planejada do elogio de Lula, a mesma
economic do arrocho salarial. Todos n6s, que
viviamos e vivemos do trabalho e do saldrio,
abriamos mao dos nossos direitos sociais le-
gitimos para que a ditadura brincasse de pa-
pai-noel com o grande capital, 6 bom nao es-
quecer", diz Martins.
Mas a coisa nao parava ai, acrescenta ele:
"As empresas que essa 'maravilhosa' engenha-
ria econ6mica da paixao de Lula criava, fo-
ram na maioria fazendas de criaq~o de gado.
Estimativas oficiais da 6poca assinalavam que
na ocupaq~o da Amazonia Legal (mais da me-
tade do territ6rio brasileiro), por meio dos in-
centivos fiscais, seria possivel criar 40 mil
empregos, que era o total de operArios da fA-
brica de autom6veis da Volkswagen, em Sio
Bernardo do Campo, na mesma 6poca. Um
terqo de um continent para criar o mesmo
ntlmero de empregos de uma fabrica de algu-
mas centenas de metros quadrados. A maioria
das empresas que entraram nessa barcarola nao
tinha a menor id6ia de como 6 que se criava
uma vaca. Da vaca, muitos s6 conheciam o
bife. Obtiveram terras comprando titulos de
propriedade ou de aforamento (caso em que
as terras pertenciam de fato ao governor do Es-
tado, como no caso do Pard e do Amazonas),
nao raro titulos falsificados, registraram as
terras em seu nome e delas se apossaram.
Quem quiser conhecer essa hist6ria nao pode
deixar de ler ao menos um livro de Liicio FIa-
vio Pinto, competentejornalista do Para e, pro-
vavelmente, o melhor conhecedor da Amaz6-
nia e de sua hist6ria: Amazdnia No Rastro
do Saque".
Martins tem toda razao em mostrar para a
opiniao pdblica o que significou esse control
centralizado da economic brasileira, que Lula
parece ter esquecido, no aqodamento de mos-
trar aos militares que nao 6 o bicho-papao de
outras 6pocas (e vice-versa). Deixando-se en-
cantar pela ret6rica do "modelo" e pela apre-
ciaqco dos seus mecanismos t6cnicos em tese,
o ex-metaldrgico se mostra vitima indefesa da
prestidigitaqAo de profissionais competentes,
como o economist Joao Paulo dos Reis Ve-
lloso, o te6rico por tris de dois dos cinco go-
vernos militares, que produziu documents as
pencas pensando exatamente no juizo do fu-
turo. Trabalhos de maestria, mas para serem
mantidos em arquivos e estantes. Habeas cor-


pus preventivos para quem ndo duvidava de
que, cedo ou tarde, o julgamento da hist6ria
viria. Mesmo que pelas linhas tortas de um
julgamento de conveni8ncia.
Lula deixou de lado o que j foi evid&ncia
clara aos seus olhos no passado, reavivado por
Martins: "Os anos setenta foram na Amaz6-
nia os anos do terror do trabalho escravo res-
suscitado e multiplicado da experi8ncia dos
velhos seringais, onde milhares de pessoas ji
haviam padecido e morrido desde o inicio da
expansao da borracha, no s6culo XIX. Segun-
do Sue Branford e Oriel Glock, em seu livro
The Last Frontier, cerca de 400 mil pessoas
trabalharam em regime de escraviddo nos nos-
sos anos setenta na Amaz6nia, os anos do lar-
go elogio de Lula ao planejamento econ6mi-
co da ditadura. Branford 6 corretissimajorna-
lista inglesa, muito ligada ao Brasil, fala por-
tugues perfeitamente bem, simpatizante do PT,
dedicada a um jornalismo social de alta com-
petencia", observa o soci6logo.
Cor indignaqIo, complete: "A mis6ria a
que com justissima razao se op6em Lula, o
PT, o PSDB, o PDT, o PCdoB e todos n6s
que temos est6mago e vergonha, foi criada
justamente por essa 'maravilhosa' economic
planejada a que Lula se refere fascinado e
convict, ameaqando-nos a todos com seu re-
torno. Foi essa a mis6ria herdada pelos gover-
nos civis que sucederam a ditadura, mis6ria a
duras penas e lentamente debelada em condi-
q6es mais do que adversas. Para combater os
efeitos dessas atrocidades da economic do re-
gime military, Lula prop6e o rem6dio do mes-
mo veneno de serpente que deu origem a tudo
isso. Como 6 possivel um equivoco desses?
Elogiar o planejamento econ8mico da ditadu-
ra 6 um insulto As suas vitimas e uma ameaqa
a todo o povo brasileiro".
Martins acha que, aldm dessa adesdo aos
principios econ6micos do regime military, Lula
aderiu tamb6m ao militarismo, ao se manifes-
tar contririo ao Tratado de Nao-Proliferaq~o
de Armas Nucleares, "de que o Brasil, por ins-
piraq~o e opcqo pacifista, assinou hi alguns
anos". Adverte para a "clara a teia de com-
promissos estrat6gicos e internacionais" de-
correntes dessa posiq o, prevendo: "Esse sim-
ples imprudente anlncio j! 6 suficiente para
levar inquietaqCes aos pauses vizinhos e de-
sencadear uma corrida armamentista no con-
tinente, com s6rios danos a economies ja de-
bilitadas e graves prejuizos a uma legio de
vitimas de uma economic injusta".
Martins finaliza seu texto com a impressed
de que esse Lula mais recent "estA bem long
do Lula do discurso de primeiro de maio do
ano da morte de Fleury e bem long de todos
n6s que estAvamos IA. O teatro da vida mudou








6 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002


de endereqo. t pena, muita pena, que as pesso-
as mudem tanto para seguir o 'script' da con-
veniencia eleitoral, como 6 pena que nao haja
limits nas alianqas e rendig6es incondicionais".
Os petistas haverAo de reagir a essa mani-
festaqio alegando que o soci6logo Jos6 de
Souza Martins 6 simpatizante da candidatura
de Jos6 Serra A Presid&ncia da Reptblica. Ain-
da assim, por6m, o professor aposentado da
USP tern tocado em pontos nevralgicos de uma
agenda que a maioria dos grupos politicos pre-
fere guardar no bad e esquecer, a pretexto de
nIo criar embaraqos A finalmente possivel vi-
t6ria de Lula na quarta tentative de chegar ao
posto maximo do pais. Bad que, se Lula real-
mente for eleito, sera atirado ao mar da in-
consciencia, deixando uma lacuna da qual os
efeitos danosos s6 serao sentidos quando a si-
tuaqao estiver na casa do sem-jeito, ao avan-
qar para o passado, de centralismo em centra-
lismo, repetindo, com outra ladainha, os erros
cometidos e reprisados.
Mais um "sem", alias, no diciongrio das
car8ncias nacionais.

Mudanga
No dia 9 de agosto, quando completou 60 anos
de vida, o Banco da Amazonia passou por sua quar-
ta metamorfose: estreou uma nova logomarca, um
b cortado por um til. O que essa mudanqa estava a
dizer? Precisamente, ningu6m ficou sabendo por-
que a direqo do banco nao fez qualquer consult
pr6via, nem se preocupou em avaliar o efeito da
transformaq~o. Se a nova logomarca significa de
fato alguma coisa, uma 6 inquestionivel: mudou
para pior. Um pior que deve ter custado muito caro,
como bem sabem os especialistas em marketing.


Jornalismo
Se no houvesse The New Yorker, teria havido
John Hersey? Ou, de outra forma: se no jornalismo
nao existissem publicaqbes dotadas de convicq6es
editorials, dispostas a coloci-las em pritica, mes-
mo arrostando os determinismos das leis comerci-
ais, surgiriam e desabrochariam vocag6es para um
jomalismo de nivel superior?
A sofisticada revista americana e John Hersey
sdo apenas um capitulo numa longa hist6ria, que
remonta praticamente as origens dos tipos m6veis
inventados por Gutenberg. NIo 6jomalismo de pri-
meira o que Daniel Defoe produziu no s6culo XVIII
e Balzac no s6culo seguinte? Claro que 6: jornalis-
ta no precisava de diploma de curso de comuni-
caqdo social (e nao precisa at6 hoje, exceto no Bra-
sil, eterno inventor da roda).
Mas ele precisa de um lugar no qual suas id6i-
as e realizaq6es se transformem em letra de for-
ma. De prefer8ncia, sendo pagos para isso, quem
sabe, o suficiente para poderem se dedicar a des-
gastante tarefa de pensar, conjeturar, andar, via-
jar e conversar sem ter que vender o almoco para
comprar o jantar. Um lugar onde o editor public


Nos gltimos anos a Funtelpa (Fundaqao
de Telecomunicacqes do Pard) pagou a TV
Liberal 18 milh6es de reais, em valor atuali-
zado. Ao contririo do que pode parecer, a
emissora da familiar Maiorana nao prestou
serviqo algum a mantenedora das emissoras
Cultura de ridio e television. Muito ao con-
tririo: a TV Liberal, que 6 uma emissora co-
mercial, afiliada a Rede Globo de Televisao,
lider disparada do mercado, se serviu de 78
retransmissoras do Sistema Funtelpa para le-
var seu sinal de sat6lite ao interior do Esta-
do. Isto mesmo: a TV Liberal embolsou 18
milhoes de reais do erario em 60 meses para
se servir de instalacqes piblicas.
Para colocar um pouco de digamos as-
sim purpurina nessa relaq~o incestuosa, a ad-
ministragio estadual disp6s de certo tempo na
programagio da emissora para veicular sua
propaganda institutional, quase sempre asso-
ciando a realizaqio de obras p6blicas a auto-
ridade momentaneamente no comando da mi-
quina estadual, ou vice-versa, conforme as ne-
cessidades de Wnfase da conjuntura. Esse to-
que de perfume barato, por6m, foi desequili-
brado pela forma encontrada para dar aparen-
cia de legalidade a essa relaq~o espiiria: ao
inv6s de assinarem um contrato commercial,
como manda o tipo de troca entire as parties,
TV Liberal e Funtelpa celebraram um conve-
nio. Isso mesmo: um conv8nio.
Esses e outros absurdos acabaram levando
a questionamentos sobre a correqao do ato no
Tribunal de Contas do Estado e a propositura
de uma aqCo popular na justiqa. O curso das
duas iniciativas foi sobrestado ou permanece
em suspense, principalmente depois que o de-
putado federal Vic Pires Franco, em mais um
dos seus zig-zags politicos, voltou atrAs e de-
sistiu de patrocinar a acqo popular. Um substi-


o que seu leitor quer, mas tamb6m Ihe imp6e o
que precisa ter, seguindo a trilha das pesquisas
mercadol6gicas sem nunca esquecer que jorna-
lismo tamb6m 6 formag~o de mentalidade, defesa
de tese, trincheira de luta ou reduto de sustenta-
qio de conquistas sociais.
Outro dia li entrevista na qual Oliveiros S. Fer-
reira, um dos principals jomalistas de O Estado de
S. Paulo e ao mesmo tempo acad8mico da ci8ncia
political da USP, se referia A sua fungqo de editor das
capas dos caderos de publicidade do journal. Fez-
me lembrar da 6poca em que separava essas capas,
que encobriam piginas e piginas de fomidos antn-
cios classificados, para 18-las no moment certo, em
que se precisa de certa paz para refletir.


tuto assumiu seu lugar, mas a tramitaqAo da adao
nIo readquiriu o ritmo original. Ainda assim,
ela continue ativa, sujeita a acionamento.
O esdr6ixulo convenio Funtelpa-TV Libe-
ral se encerrou no l6timo dia 30. Ha incerte-
zas sobre o seu future, mas nula 6 a possibili-
dade de que ele venha a ser renovado. O go-
vernador Almir Gabriel o assinou para vigo-
rar por cinco anos, quando faltava apenas um
para o encerramento do seu primeiro manda-
to. Se nao tivesse conseguido se reeleger, se-
ria um dos mais pesados abacaxis que trans-
mitiria ao successor. Vencendo o convenio, po-
r6m, antes que ele complete seu tempo como
governador, sobram-lhe problems.
A direqao da TV Liberal solicitou que o
convenio seja aditado por mais tres meses, at6
dezembro. Teria direito a continuar recebendo
os pouco mais de 300 mil reais por mes (ou
quase um milhlo de reais no trimestre). Se fi-
zer isso, o governor, mesmo tendo como escu-
do de protecgo a Funtelpa, responsAvel legal
pela coisa, sofrerd o desgaste, em pleno final
da campanha do primeiro turno da eleiqao des-
te ano (e o risco de prolongamento do mal at6
o final do mes). Se nao prorrogar a relaqao, esti
ameaqado de sofrer outro tipo de desgaste: me-
tade dos municipios paraenses ficarao de sibi-
to sem o hipnotizador sinal da programaqao da
Globo. A TV Liberal apontari com prazer o
culpado pelo dano: o governor do Estado.
Diante do impasse, qual dos cAlices amar-
gos o governador Almir Gabriel decidird to-
mar? Ou, fiel ao seu modo anat6mico de ven-
cer crises, ird empurrar com a barriga o tram-
bolho at6 poder passa-lo a quem o suceder?
O pr6ximo capitulo bem que merecia en-
trar na programaqao global. Novela capaz de
competir cor os dramalh6es mexicanos rivals,
cor seu PRI, sua plumagem e tudo mais.


Nessas capas li pela primeira vez um ensaio
de Isaac Deutscher, que abriu para a minha ge-
raqio uma percepq~o mais critical da revoluq~o
russa. Nio importa que o piblico para esse tipo
de se~io seja pequeno. E precise dar oportuni-
dade a todos, inclusive A elite pensante, que move
a roda da consciencia e plant as sementes da
nova cultural, disposta e habilitada As mais exi-
gentes aventuras do mais autenticamente huma-
no dos prazeres: o de pensar.
Se Sheilas e Romarios tem seu espago, que
6 o dominant e o mais caro, a imprensa nao
pode esquecer do plo, que 6 o fermento do
mundo. S6 circo avilta. E, terminado o espeti-
culo, o que fica?


Renovar ou


nao renovar?








OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 7


IMPRENSA


Triste ineditismo


Na edigqo de 6 de setembro, O Liberal co-
meteu algo provavelmente inddito na hist6ria do
jomalismo mundial: deu manchete de primeira
pAgina a um editorial. Sob o titulo "Basa tenta
calar O LIBERAL", ojomal ocupou quase toda
uma coluna vertical da capa, de alto abaixo, para
acusar o Banco da Amaz6nia de retalia-lo. Na-
quele mesmo dia, o Didrio do Pard e a Gazeta
Mercantil estavam publicando a integra do ba-
lanqo financeiro da instituicqo, em tr8s paginas,
enquanto a 0 Liberal fora destinado apenas um
resume, de meia pagina.
Ojornal estaria sendo retaliado por haver pu-
blicado matdria, um mes antes, sobre a puniqao
que o Tribunal de Contas da Unido aplicou A
diretoria do Basa. Por considerar de "risco ele-
vado e baixa garantia de retomo" um empr6sti-
mo de 4,4 milhies de reais concedidos pelo ban-
co para a construqao de um hotel de selva em
Guajara-Mirim, na fronteira de Rond6nia com a
Bolivia, o TCU multou os cinco diretores, num
total de 52,5 mil reais. Os arguments dos puni-
dos nao foram aceitos pelo ministro-relator do
TCU, Benjamin Zymler, que manteve a caracte-
rizaqao das irregularidades e a multa. Houve re-
curso administrative dos diretores do Basa, ain-
da pendente de decisdo.
O editorial de O Liberal diz que o jomal
tentou inutilmente ouvir os diretores enquadra-
dos pelo TCU, mas nenhum deles quis se ma-
nifestar. Ojornal registrou que uma beneficid-
ria do emprdstimo, Olgarina Saldanha, s6cia no
control do hotel Pakaas Palafitas Lodge, 6
casada com Paulo Cordeiro Saldanha, que foi
director do Basa (e no president, como afirma
o editorial) e hoje estA aposentado. O Liberal
manteve a cobertura do assunto, mesmo enfren-
tando o silencio do banco.
"O tratamento editorial dado ao caso culmi-
na agora corn a retaliaq~o do Basa ao O Libe-
ral", sentenciou o jomal. Por retaliaqco, enten-
deu a attitude da diretoria de s6 programar meia
pagina de anlncio para a folha da familia Maio-
rana, enquanto dava tres pAginas para outros dois
jomais, um local, de menor circulaqao, e outro
national. "O principio da publicidade, que exi-
ge a veiculaqao de peas contabeis e de atos do
Poder Piblico no jomal de maior circulaq~o na
Area foi desrespeitado", vociferou O Liberal.
N~o exatamente. A lei exige que o material
legal de instituiq6es pliblicas ou sociedades an6-
nimas seja divulgado em publicagqo de grande
circulacio, nao necessariamente de maior cir-
culaqio. O Basa pode nao ter seguido os me-
Ihores padres de marketing, mas nao contra-
riou nenhum dispositivo legal ao publicar a inte-
gra do seu balanco no Didrio do Pard e nao em
0 Liberal. Essa suposta retaliaqao tamb6m nao
se caracterizou como um boicote: final, mes-
mo resumido, o balanqo tambdm saiu na folha
dos Maiorana.
Os veiculos do grupo continuaram receben-
do outras peas publicitarias. Foi mantido atW


mesmo o patrocinio do banco ao iltimo telejor-
nal notumo da TV Liberal, no qual, alids, foi lido
o editorial atacando o patrocinador. O Basa foi
parceiro da empresa at6 o fim do projeto Crianqa
Vida, que patrocinou UTI neonatal na Santa Casa
de Miseric6rdia (com pagamento integral das vei-
culaq6es publicitarias na rede do grupo).
Como, entao, trombetear, com desproposi-
tado exagero, a tentative de amordagamento edi-
torial? Reagindo a um fato inexistente ou supe-
restimado, o jomal prometeu continuar cum-
prindo o item 3 do C6digo de ttica da Associ-
aq~o Nacional de Jomais, que Ihe imp6e apu-
rare publicar "a verdade dos fatos de interesse
ptiblico, nao admitindo que sobre eles prevale-
qam quaisquer interesses".
Nesse caso, ojomal podia ter complementa-
do a dentincia sobre o projeto de hotel de selva
em Rond6nia corn a revelagqo de que o vice-pre-
sidente das Organizaqyes Romulo Maiorana tam-
bdm controlador de empreendimento semelhante
no Estado do Amazonas, que recebeu incentives
fiscais da Sudam e esta sob investigag~o de des-
vio do dinheiro liberado, como outras dezenas de
projetos semelhantes, todos eles apontados segui-


O Liberal inovou mais uma vez na edicqo
dominical do iltimo dia 29: na capa, destacou,
da pesquisa encomendada ao Ibope, nao o in-
dice de preferencia dos candidates ao govemo
do Estado, como fazem todos, inclusive atd
entAo ojomal, mas o de rejeiqao. Provavelmen-
te istojamais aconteceu em situacio semelhante
em qualquer parte do mundo: um 6rg~ o da im-
prensa deixar de lado o resultado principal da
pesquisa eleitoral que encomendou para des-
tacar um dado secunddrio.
O indice de preferencia saiu apenas na pi-
gina intema, e mesmo assim esc.ondido. Foi
completamente expurgado da primeira pagi-
na. Para Jatene ficou a puniq~o mAxima: o in-
dice de prefer8ncia pelo candidate tucano sim-
plesmente nao 6 citado. 0 journal se permit
apenas informar que esse indice "em pouco
mais de um mes subiu 13% e alcanqou a pri-
meira colocaqao".
Por que isso aconteceu? Em primeiro lu-
gar, porque o (inico resultado positive para o
candidate apoiado pelas Organizaq6es Romu-
lo Maiorana 6 seu indice de rejeiq~o. O de Hil-
degardo Nunes, da Frente Trabalhista, 6 o me-
nor entire os quatro que estio efetivamente na
dispute, de 9%. A rejeiqAo a Jatene, que lidera
a sondagem pelo crit6rio positive, com 37%, 6
de 21%, s6 inferior ao indice do circense Rai-
mundo Abdon, que alcanqa 36% de rejeiq.o.
Corn esse ndmero, ojomal faz a sua interpreta-


damente por O Liberal como tendo desviado re-
cursos piblicos para o patrimonio pessoal do ex-
senador Jader Barbalho, o politico mais influence
na Sudam nos iltimos anos.
0 Liberal nao deu inusitada manchete de pri-
meira pagina ao seu editorial por estar sendo im-
pedido de dizer a verdade, mat6ria prima que cos-
tuma ser maltratada em suas pAginas. Foi porque
nao ganhou o dinheiro quejulga, por direito qua-
se divino, ser obrigagqo do anunciante Ihe pagar.
Isso nao 6 assunto editorial, mas matdria comer-
cial. Devia ser tratada em outro lugar e de outra
forma, ao menos para que o jomal, dando-se ao
respeito, respeitasse o seu leitor.
Ah, sim: O Liberal nao deu uma linha sequer
sobre o conteiido do balanqo da maior instituicqo
regional de credito, que constitui relevant assun-
tojomalistico. Nem mais voltou a tratar da opera-
qao irregular de empristimo em favor da empre-
sa rondoniense de turismo. Parece at6 que para os
Maiorana o que sai de suas agendas desaparece
do mundo. D'apr&s moi le deluge, diria Romulo
Maiorana II, se pudesse saber o que estaria dizen-
do nessa dificil lingua de seu circunstancial ante-
cessor, um tal de Luis XV, o rei-sol.


qFo da pesquisa: todos os candidates tnm chan-
ce de vencer a corrida pela sucessao de Almir
Gabriel, inclusive Hildegardo. O jomal ainda
acredita que pode eleg&-lo dessa maneira.
O segundo motive diz respeito ao conten-
cioso commercial entire o govemo do Estado e o
grupo Liberal. HA tres meses a Funtelpa nao
paga a cota da TV Liberal no cabuloso conv-
nio entire as duas parties (ver, a prop6sito,
matiria nesta edicio). Esse d6bito chega a
quase um milhbo de reais. O atraso na verba de
publicidade teria ultrapassado 500 mil reals.
Na empresa, uma fonte chegou a garantir que
a divida do Estado supera cinco milh6es de
reais. No govemo, por6m, esse valor 6 desde-
nhado. A cobertura dos atos oficiais e da cam-
panha do candidate situacionista 6 a resposta
do grupo Liberal a essa pendencia. Expressa
tamb6m a pressTo da empresa pela prorroga-
qao do convenio com a Funtelpa.
Um terceiro motive: desta vez a adminis-
tragqo estadual esqueceu de ir aos funds do
Bosque Rodrigues Alves pedir orientaqo a
Romulo Maiorana JMnior, ilustre ignorado nas
negociaq6es de bastidores. Ele, queja cultivou
o sonho de ser alguma coisa de grande na poli-
tica paraense, de govemador a senador, nao
admite que sua poderosa influencia nao se faqa
sentir. Resolveu atirar contra os mal-educados
e incr6us. Por enquanto, por6m, sua artilharia
parece ter a eficAcia de fogos de artificio.


Pena de aluguel







8 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002


Denuncia retardada


O Liberal poderia ter divulgado, com
pelo menos uma semana de antecedancia,
a dendncia feita pelo Didrio do Pard no
dltimo domingo: de que a Policia Federal
abriu inqu6rito para apurar fraude prova-
velmente praticada contra a Receita Fe-
deral pela Engeplan. A Engenharia e Pla-
nejamento Ltda. pertence ao empresdrio
Fernando Flexa Ribeiro, coordenador no
Pard da campanha do candidate a presi-
dente da Repdblica, Jos6 Serra, e do can-
didato ao governor do Estado, Simao Jate-
ne, ambos do PSDB. Uma mat6ria ficou
pronta para ser editada em O Liberal, com
as mesmas informaq6es basicas apuradas
pelo Didrio. Mas foi suspense depois de
entendimento pessoal entire um director da
Engeplan e um director das Organizaqoes
Romulo Maiorana.
Segundo a denincia investigada pela
PF, um representante da Engeplan teria
falsificado quatro guias de arrecadaqCo
fiscal, no valor total de 320 mil reais, que
comprovariam a quitaqdo do d6bito de im-
posto de renda da empresa. Com as guias
pagas, ela obteve certidco negative da
Receita Federal. Armada do "nada cons-
ta" do Ledo, a Engeplan cobrou e rece-
beu cr6ditos do governor do Estado supe-
riores a R$ 7 milhoes por obras e servi-
qos prestados A administragqo Almir Ga-
briel nos iltimos quatro meses.
Mas a fraude acabou sendo descober-
ta pela Receita Federal, que declarou nula
a certidao emitida em favor da Engeplan
e intimou-a a apresentar as guias origi-
nais no prazo de 20 dias, ji que os Darfs
nao apareciam no setor de control da au-
tarquia. A empresa nao responded A noti-
ficaqao. Depois dos procedimentos admi-
nistrativos, a Receita transferiu entao a
apuragCo do caso para a Policia Federal.
Atrav6s de Ato Declarat6rio Executivo, a
Receita cancelou, em agosto, "a certidco
positive cor efeito de negative", alertan-
do que o document "6 nulo de pleno di-
reito, nao produzindo qualquer efeito e
nao deve ser aceito para qualquer fim".
O inqu6rito da Policia Federal sofreu
uma grande perda quando o intermedid-
rio da Engeplan na transagCo, o ex-ser-
vidor lotado na assessoria t6cnica da Se-
cretaria de Saneamento da Prefeitura de
Bel6m, Marcio Oliveira Amaral, foi as-
sassinado. 0 crime aconteceu no dia 18
de julho, em Agua Azul do Norte, em
circunstancias ainda nao esclarecidas. A
PF trabalha com duas hip6teses para a
morte de Amaral: assalto seguido de
morte e crime passional.


Amaral foi morto a tiros e facadas por
dois homes na rodovia PA-279, que liga
Xinguara a Sao F6lix do Xingu. Seu carro
foi roubado pelos assassinos. Dois suspei-
tos ji tiveram sua prisao preventive decre-
tada pelojuiz de Xinguara, Cristiano Aran-
tes. Amaral era a pega mais important tan-
to no inqu6rito da PF, que apura a fraude
contra a Receita, como no inqu6rito admi-
nistrativo, aberto pela Corregedoria da pr6-
pria Receita para a reconstituicio do golpe.
A partir do complete esclarecimento dos
fatos, a Receita poderi executar a Engeplan
no valor apurado do seu d6bito de imposto
de renda. No moment, quem responded pe-
las atividades da empresa 6 Antonio Fabia-
no Coelho. Ferando Flexa Ribeiro se afas-
tou da Engeplan em marco para poder con-
correr ao cargo de suplente de senador, em
dobradinha com Duciomar Costa, que tam-
b6mji foi indiciado em inqu6rito da Policia
Federal por ter falsificado diploma de m6-
dico para exercer ilegalmente a profissdo.
O inquCrito resultou em process najustiqa
federal e condenagao em primeira instAn-
cia. A execuCqo da pena foi suspense em
funCqo de recurso apresentado por Ducio-
mar. O mdrito nao chegou a ser examinado
porque a aqdo prescreveu.
Apesar de ter faturado 25 milhOes de
reals nos dltimos oito meses, a Engeplan
vive em grandes dificuldades, acumulando
divida com centenas de credores no Pard e


Em 1971 os herdeiros de Paulo Ma-
ranhio na lendiria Folha do Norte con-
trataram uma empresa de consultoria
do Rio de Janeiro, a Cronin, para re-
formular o journal e garantir-lhe mui-
tos anos de vida. Comandados pelo
marechal da reserve do Ex6rcito Au-
gusto Magessi, os tecnocratas da em-
presa ocuparam apartamentos no Gran-
de Hotel (o Hilton da 6poca, inclusive
ocupando o mesmo lugar na avenida
President Vargas) e desandaram a
gastar papel em piginas e mais pigi-
nas de inutilidades e brincadeiras no
journal que fora uma trincheira political
contra os governor, amigos e correli-
gionarios de Magalhaes Barata. Deu no
que deu: tr8s anos depois a Folha do
Norte fechou e Romulo Maiorana com-
prou o que restou do patrim6nio jor-
nalfstico dos Maranhao.


em outros Estados. Ha a suspeita de que o
passive pode ji ter superado o ativo da em-
presa. Na administraqao Almir Gabriel a
Engeplan ganhou vdrias concorr8ncias e tem
participado de obras importantes no Esta-
do, como a macrodrenagem das baixadas
de Bel6m, a reform do antigo presidio Sdo
Jos6, transformado em centro de artesanato
e p6lo joalheiro, a criag~o do Mangal das
Garqas ao lado do Arsenal de Marinha, na
Cidade Velha, e a avenida Independencia,
que di acesso as quatro pontes da Alga Vi-
aria.
Depois de ter perdido a dispute para o
Senado, na mesma eleicao em que Almir
Gabriel venceu pela primeira vez para o
govemo do Estado, Ferando Flexa Ribei-
ro foi indicado por Almir para a superinten-
dencia da Sudam. Seu nome, porem, nao
foi endossado pelo president Fernando
Henrique Cardoso, que referendou indica-
qdo do ex-senador Jader Barbalho. Desde
entdo, Flexa 6 o coordenador da arrecada-
qao de funds para a campanha dos candi-
datos tucanos. No dia da eleicao de 1998,
acionados por uma dendncia an6nima, agen-
tes da Policia Federal descobriram e apre-
enderam 20 mil cestas bAsicas dentro de ins-
tala6oes da Engeplan, na rodovia BR-316.
A comida seria distribuida na boca-de-urna
a eleitores. As cestas exibiam propaganda
da coligaqao "Uniao pelo Pari" e do entao
candidate A reeleico, Almir Gabriel. Como
responsaveis pelo crime eleitoral, foram au-
tuados Flexa Ribeiro e Isabela Jatene de
Souza, filha do entao secretario estadual Si-
mao Jatene.


Quando a Cronin Consultores T6cni-
cos assumiu o control do neg6cio, com
seus engenheiros empolados, parecia que
a Folha voltaria a dominar completamen-
te o mercado, como fizera ao long de
muitos anos. Ledo engano. As mudancas
e criaqoes representavam aquela melho-
ra que antecede o passamento do doente,
que melhora para morrer.
Em matdria de imprensa, sempre foi
assim. E pelo que mostram exemplos re-
centes e em curso, parece que continuard
a ser assim. Essa syndrome talvez funcio-
ne para causar surpresa ao ptblico: quan-
do ele pensa que determinada organiza-
qdo jornalistica vai crescer, com tantos
sinais de forga que di, 6justamente quan-
do ela comeqa a entrar em parafuso.
Como o aviao, ojomal que faz parafu-
so s6 para esborrachado no chdo. Quem
sabe do fen6meno, sabe do seu desfecho.


Fatalidade








OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 9

ECOLOGIAmboo da



0 simbolo da destruigao


Em 50 milh6es de hectares de terras
na Amaz6nia podem caber 15 bilh6es de
arvores, se tomado como partmetro a den-
sidade m6dia de uma mata fechada na re-
giao, ou 5 bilh6es de Arvores, reduzindo
o cAlculo a um tergo do valor inicial, para
incorporar as areas de vegetaq~o mais
aberta. E esse o saldo principal de menos
de quatro d6cadas da mais intense frente
pioneira da hist6ria brasileira, que avan-
qa c6lere e feroz em busca da "integra-
g o" da iltima fronteira do pais, a Ama-
z6nia, a economic national e tamb6m o
maior capitulo de destruigqo florestal da
hist6ria da humanidade.
Em 50 milh6es de hectares de terras
ocupadas pelo colonizador, do final da
metade dos anos 60 a este inicio de d6-
cada/s6culo/milenio, de 5 bilh6es a 15
bilh6es de arvores foram postos abaixo
ou simplesmente queimados. Uma fra-
cao desse total foi transformada em pro-
dutos. A esmagadora maioria foi sim-
plesmente destruida, ou porque nao eram
conhecidas suas propriedades naturals (e,
por conseqiiUncia, nao possuiam valor
commercial) ou porque o objetivo, imedi-
ato e categ6rico, era substituir florestas
por qualquer outro tipo de paisagem
(campos de pastagem, cultivos agricolas,
reflorestamento com esp6cies ex6ticas,
garimpos, mineraqdo, hidrel6tricas, estra-
das ou cidades).
O senso comum ji avangou o bastan-
te para permitir avaliar com mais preci-
sao o significado desse "avan9o para o
Norte" (que, visto por outro prisma, o do
centro metropolitan, resultou no "Avan-
qa Brasil" de Fernando Henrique Cardo-
so, que, antes de executar suas id6ias
como president, pensou do nicleo ir-
radiador para a periferia receptora so-
bre a Amaz6nia na condiq~o de soci6lo-
go, um quarto de s6culo atras).
O "dia da Arvore", reservado no ca-
lendario para o iltimo dia 21 de setem-
bro, continuaria a ser uma data vazia ou
involuntariamente ir6nica (e amarga),
nao fora o esforqo de grupos minoriti-
rios para dar-lhe um conteddo de reali-
dade A margem da formalidade. Dia da
Arvore, em qualquer perfodo do ano,
seria a oportunidade de ressaltar sua im-
portncia e defend6-la, nao apenas lem-
bra-la como coisa de museu, ou, pior,


da mem6ria envenenada pela "consci-
ense mauvaise".
Em Rio Claro, no interior de Sao Pau-
lo, a data nio passou em branco. Institui-
9qes municipals e estaduais prepararam,
com cuidado exemplar, um semindrio que
deveria tocar em pontos sensiveis dessa
vasta frente de lutas. Teve carAter memo-
rialistico, ao lembrar o centendrio da co-
memoraqio do "arbor day", que serviu de
inspiraqao, em 1902, em Araras, ao ini-
cio do "primeiro movimento de consci-
6ncia cidadd contra a destruiq~o da natu-
reza", comandado por Alberto Loefgren.
Tamb6m procurou atualizar a pauta dos
militants e interessados, passando em
revista os temas de vanguard do front flo-
restal, do balanqo da Rio + 10 as estrat6-
gias em curso para o setor, incluindo o
element cada vez mais decisive: a agua.
Foi sensivel o bastante para instalar no
semindrio uma camara especifica sobre a
Amaz6nia. E nao terminar sem um toque
emotivo, com o plantio de arvores no hor-
to de Rio Claro.
Em um ambiente desses, o balanqo da
colonizaqao da Amaz6nia, no seu sentido
etimol6gico mais exato, alcanqa sem dis-
farce a dimensao de trag6dia florestal,
como nunca houve igual antes, nem ha-
vera depois. Sem sofismas e atenuantes,
que costumam ser vendidos como verda-
de a opinido publica. Suaviza-se, por
exemplo, a cor e o tamanho dessa man-
cha acusadora com arguments como o
de que apenas uma fraqio do todo 6 com-
posta por arvores aproveitAveis pelo ho-
mem, que muitas arvores j estao na seni-
lidade, que outras foram vitimas dos pr6-
prios predadores naturals, sobretudo pa-
rasitas, ou que as antigas matas deram lu-
gar a agents mais ativos do progress,
como plantaq6es de soja ou pastos.
Na linguagem econ6mica de sentido
mais imediato, tomando como base para
um cAlculo arbitririo os elements mais
conservadores, a ordem de grandeza mo-
netiria da devastaqdo florestal alcanqa al-
guma coisa em tomo de 1,5 trilhao de re-
ais (tres metros cdbicos por arvore, ou 15
bilh6es de metros cibicos na soma, mul-
tiplicados por 100 reais o metro ctibico),
s6 de arvores ja aceitas no mercado inter-
nacional e na forma de comercializaqio
como madeira s6lida. O valor 6 equiva-


lente a mais de cem vezes o PIB (Produto
Intemo Bruto) do Pari, o principal Esta-
do da regiao.
Conquanto seja um calculo por baixo
e meramente especulativo, esse valor diz
pouco sobre o alcance da perda. A avali-
aqdo se restringe a apenas uma das faces
que a floresta pode assumir diante das
necessidades humans, a de madeira, e
num certo estigio do conhecimento que
tem o home sobre esse potential, infe-
lizmente ainda muito atrasado. Mesmo
estando na escala inicial da geraqio de
informaq6es sobre a floresta amaz6nica,
o home ji sabe que precisa encard-la
de um prisma como agora se diz ho-
listico, ou qualquer expressao ou concei-
to que traduza a amplitude de possibili-
dades dos ecossistemas amaz6nicos, sua
agqo interativa e sua sinergia. Ao inv6s
de examiner arvores isoladas, conside-
rar o ambiente no qual ela se situa, en-
quanto parte de um organismo harm6ni-
co. Biodiversidade 6 a pedra de toque
dessa nova alquimia.
Um modo sustentavel de intervengao
do home nesse cendrio complex e fri-
gil s6 podera surgir de um conhecimen-
to mais profundo que puder ser criado e
aplicado na Amaz6nia. A ci8ncia e a tec-
nologia s6 se desincumbirdo desse desa-
fio com eficacia se tiverem recursos para
agir, gente para mobilizar e mat6ria pri-
ma para observer.
Reduzindo-se a ser expedidora de ates-
tados de 6bito, a ci&ncia sempre vira atris
do desbravador para registrar o dano que
ele causou. NZo podera estar a frente dele,
fornecendo-lhe r6gua e compasso para
agir, ou reprimindo suas agressoes e cor-
rigindo seus erros. O descompasso entire
as frentes econ6micas e cientificas (ou,
de um modo mais amplo, do saber) 6 e
continuara a ser fatal para a Amaz6nia.
HA esplndidos estudos de caso na re-
giao, magnificos surveys, interessantes
experiencias de laborat6rio ou projetos-
piloto, e at6 inteligentes referencias em
programs de governor, como os dos atu-
ais candidates a Presidencia da Repdbli-
ca. Mas a brutal diferenqa de meios e de
ritmos entire os que agem para depois se
perguntar pelo significado do que fize-
ram e os que tentam encontrar formas de
penetrar na floresta sem destruf-la, atu-









10 JOURNAL PESSOAL OUTUBRO/2002


ando preventivamente, responded pelo
saldo negative no balanqo entire a des-
truicqo e a construcgo.
A Aimex, a principal associaqdo dos
exportadores de madeira da Amaz6nia,
encomendou um antncio para comemo-
rar o dia da arvore (que, a rigor, do pon-
to de vista legal, deixou de existir no
Brasil em fevereiro de 1965, quando o
president Castelo Branco o extinguiu,
substituindo-o pela Festa Anual das Ar-
vores). E comemorar o plantio de 11 mi-
lhWes de irvores em quatro anos pelas
empresas que orienta, lembrando que
cada hectare reflorestado poupa 10 hec-
tares de floresta native para a atividade
madeireira.
No quatrienio, a m6dia 6 de menos
de tres milh6es de arvores plantadas
por ano. A esse ritmo (e abstraindo a
qualidade do reflorestamento, se 6 cor-
reto ou ndo, se vai subsistir ou ndo), a
Aimex precisaria, na melhor das hip6-
teses, de mais de um milenio e meio
para recobrir de vegetaqio a area que


foi desflorestada na Amaz6nia em me-
nos de quatro d6cadas.
Resultado que teria algum grau de
efeito pratico, independentemente da
andlise do conteido do reflorestamento
que a associaqao promove, se a destrui-
9qo fosse brecada, ou reduzida at6 um
nfvel inferior ao da recomposicao das fe-
ridas na flora amaz6nica. Do contrdrio,
esse esforqo, por mais bem intenciona-
do e consistent que seja, sera mera per-
fumaria diante de um mar de lixo e res-
tos de desmatamento.
Em Rio Claro, al6m das raz6es inte-
lectuais e emocionais que os motivaram,
os organizadores da festa de comemora-
q9o do centenirio do dia da arvore" ti-
nham tamb6m uma motivag~o concrete e
sonante para o tom de vit6ria da reuniao.
Conforme lembrou o secretdrio de meio
ambiente de Sao Paulo, Jos6 Goldenberg,
daquelas sementes de eucalipto que o jo-
vem Edmundo Navarro de Andrade plan-
tou na future floresta estadual, que hoje
leva o seu nome, surgiu "um pr6spero se-


tor da economic national", que fatura 21
bilh6es de d6lares a cada ano, gerando
dois milh6es de empregos diretos e indi-
reto, paga mais de US$ 2 bilh6es de im-
postos e se situa como o 100 produto da
pauta de exportacgo do Brasil.
Nessa grandeza, que 6 bem menos elo-
qiiente quando contextualizada no mer-
cado mundial de madeira e ainda mais di-
minuta quando referida a potencialidade
da economic sustentavel derivada do uso
miltiplo da floresta, a Amaz6nia, que ain-
da tem um terco das reserves de floresta
tropical do planet e s6 tem expressao
como elo remote e primitive dessa cadeia
produtiva, fica de um tamanho econ6mi-
co inversamente proporcional ao de sua
grandeza natural, geografica. Quase de-
saparece. E um atimo, ou um nada. E serd
definitivamente um nada se os capitulos
da sua hist6ria contemporanea continua-
rem a se suceder segundo o enredo mo-
notematico da lamentaqao do que pode-
ria ter sido e nao foi.
At6 quando?


CARTA

Legalidade, ja
Caro Lucio,
Referente ao artigo "No verio
sangrento, a temporada de fogo" [v.
Jornal Pessoal 291], gostaria de co-
mentar que o erro de julgamento co-
metido pela ONG "Amigos da Ter-
ra" tamb6m induziu-o ao erro. Al6m
desse fato, voc6 nao percebeu que o
fator principal, ou melhor, o fato ge-
rador do artigo "Legalidade Predat6-
ria", slo os assentamentos promovi-
dos pelo INCRA em Areas de cober-
tura vegetal.
Explico: de acordo com o relat6-
rio da ONG, o INCRA assentou cer-
ca de 50.000 famflias/ano na Ama-
z6nia nos dltimos 5 anos. Cada uma
destas families recebeu 15 hectares
de terra. Cada uma delas, de acordo
corn o atual C6digo Florestal, tern o
direito de desmatar a corte raso para
uso do solo 20% da area, portanto, 3
hectares. Caso consideremos o indi-
ce autorizado pelo Ibama de extraq~o,
em Projetos de Manejo, por hectare,
que 6 de 30m3, teremos que destas
areas de assentamento foram extraf-
dos (ou simplesmente queimados)
4.500.000m3 de madeira, o equiva-
lente a 150.000 carretas Volvo carre-
gadas de toras.
Este 6 o primeiro fato relevant
no relat6rio.O segundo 6 tamb6m im-
portante o Ibama, por total falta de
sintonia com o Incra (e vice-versa),
nao acompanhou os assentamentos e,


portanto, nIo ofereceu as famosas
ATPF's para que os assentados co-
mercializassem de forma legal a ma-
deira oriunda de seus lotes, ou seja, a
madeira poderia ser extraida, por6m
para ser legalizada necessitaria das
ATPF's, que, de acordo com a Lei,
s6 podem ser adquiridas mediante so-
licitaqio ao Ibama, atrav6s de Proje-
to de Manejo ou Autorizaqgo de
Desmatamento.Voc8 pode imaginar
uma romaria de 50.000 families soli-
citando ATPF's ao Ibama? Parece
incrivel, mas 6 verdade: a extragqo -
ou impact ambiental 6 permitida,
por6m a comercializaqio tendo em
vista a burocracia -, nao .Estamos
diante, portanto, de umaequaqdo sim-
ples a legitimidade de uma socie-
dade que quer transformar em empre-
go e renda a mat6ria prima oriunda
destes assentamentos, de um lado, e
a legalidade do desperdicio (a sim-
ples queima) de outro.
OerrodosAmigosdaTerrafoicon-
fundir esta legitimidade com legalidade
- toda a madeira proveniente destes as-
sentamentos foi comercializada de ma-
neira illegal, jA que nio possufa ATPFe,
quando as possufa, muito provavelmente
foram obtidas de manejos florestais fa-
jutos. O setor madeireiro acaba "pagan-
do o pato" porque a ilegalidade estA na
comercializag~o e nio na extraq~o. Me-
Ihor talvez seria permitir que toda a ma-
deira fosse queimada? Posso Ihe adian-
tar que a Aimex nao se calou quanto a
isto. No entanto, nosso poder "politico"
e falta de legitimidade social impossibi-
litou que fossemos ouvidos.


Acredito que o m6rito do "Re-
lat6rio Legalidade Predat6ria" esta
na identificacqo da atividade madei-
reira como a financiadora dos as-
sentamentos, j que a venda da ma-
deira foi na realidade o PRONAF
inicial para viabilizar o primeiro
plantio.O Estado nao investiu nada,
arrecadou ICMS, multas,etc; No en-
tanto, a imagem do setor madeirei-
ro foi as favas.
A atividade madeireira nao 6 o
dem6nio personificado. Se houver
uma political florestal stria, se a mi-
dia ajudar a desmistificar esta ativi-
dade produtiva e permitir que ela seja
legitima apesar da grande maioria
das madeireiras serem legais elas nao
ter legitimidade social poderemos
entao participar de political pdblicas
e contribuir para o desenvolvimento
sustentAvel da Amaz6nia. No entan-
to, a falta de interesse em adquirir co-
nhecimento sobre o setor de base flo-
restal de grande parte da midia, dos
formadores de opiniao e do pr6prio
governor, assim como a generaliza-
qao que normalmente se faz a respei-
to do setor, reduz a meros ladr6es em-
presarios s6rios e competentes.
Por falar nisso, estamos as v6s-
peras de eleiqao e nenhum candidate
a qualquer cargo que seja menciona
a industrial madeireira em seus pro-
nunciamentos, como se a segunda
maior atividade produtiva do estado
nao existisse. Curioso, n6 ?
Um abraqo e obrigado por deci-
dir nao acabar com o Jornal Pessoal.
Roberto Pupo


MINHA RESPOSTA
Nao hi qualquer diverg6ncia entire
a minha posiqo, a dos Amigos da Ter-
ra e a de Roberto Pupo quanto A irraci-
onalidade (e ilegalidade) dos desmata-
mentos nos assentamentos rurais, pra-
ticados sob o olhar ingles das autarqui-
as federal. Nbo acho que por ser con-
siderado inevitdvel que assim se faqa,
assim deva se tornar legal, ou, por legi-
timo, deva ser apoiado. E a mesma 16-
gica que manteve vivos os "estoques
remanescentes" de animals ilegalmen-
te abatidos na Amaz6nia. Quando se
apreendia uma pele, o contraventor di-
zia que ela tinha sido retirada dos "es-
toques remanescentes" autorizados
pelo IBDF antecessorr do Ibama), e que
se multiplicavam mais do que os paes
e os peixes tocados por Cristo.
Da mesma maneira, quando al-
gu6m, nos anos 70/80, era flagrado
com castanheira serrada, dizia que a
arvore havia sido extraida do future
reservat6rio da hidrel6trica de Tucu-
rui, alibi preventive para muito pira-
ta (que acabou inventando uma nova
esp6cie vegetal: o louro branco).
Estou de acordo corn Pupo que 6
precise conhecer melhor o setor, se-
parar o joio do trigo, apoiar as boas
iniciativas, reprimir as fraudes e etc.
Tudo, jd, nao amanhd (que amanha
pode nem haver). Inclusive a ativi-
dade subterranea do comprador de
madeira que financial o assentado ru-
ral a extrair as arvores e, depois, as
adquire a prego vil, contribuindo para
o ciclo migrat6rio destruidor, da na-
tureza e do home.


I _







OUTUBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 1


Belem, pobreza geral


O mercado informal ja 6 maior do que
o mercado formal de trabalho em Bel6m.
Essa 6 uma realidade visivel ji ha bas-
tante tempo. Precisa ser encarada. Mas
ndo tem que ser aceita. Mercado infor-
mal desse tamanho 6 sinal de doenqa in-
vasiva no organismo produtivo da cida-
de. Poucos sao vendedores ambulantes
por gosto ou opcao. Quase sempre, 6
porque 6 a tnica alternative de sobrevi-
vencia que lhes restou. Manter-se nela 6
extremamente duro. Basta ficar alguns
minutes numa banca de camel para ter
uma id6ia do sofrimento e da brutaliza-
9go a que essas pessoas sao expostas.
Reconhecer o problema deveria ser su-
cedido pela attitude correta: tratar de re-
solv8-lo. Mas as administraq6es munici-
pais, a tiltima mais do que todas as anteri-
ores, t6m procurado tirar vantagem dessa
anomalia. Ou, quando muito, se omitem
de procurar para o mal o tratamento A al-
tura da sua gravidade. O resultado de tan-
ta inctria se fez sentir na semana passa-
da: a explosio do problema a partir de uma


blitz da Policia Federal para apreender
mercadorias contrabandeadas ou pirates
que estavam sendo vendidas no velho cen-
tro commercial da cidade.
A operag~o foi polemica, tanto por
seus m6todos quanto pelo seu senso de
oportunidade. Mas a base legal da inici-
ativa 6 inquestionAvel. A leni8ncia de to-
dos permitiu que a car8ncia individual
se tornasse campo de cultural para o sur-
gimento de empresas clandestinas. Um
dnico suposto camel foi incorporando
colegas e, A margem da lei, se tornou um
verdadeiro empresdrio. Enquanto alguns
se submetem a todas as normas em sua
atividade commercial, outros se favorecem
das sombras para enriquecer A custa de
todos. S6 nao ve isso quem nao quer.
A omissao official permitiu a forma-
cgo de aut6nticas mafias, algumas envol-
vendo representantes da administracgo
pdblica com jurisdicqo sobre esse vasto
mercado informal. Esti na hora de apro-
veitar a intumesc6ncia da semana passa-
da para drenar o pus desse tumor social.


A cidade anseia por um padrdo de nor-
malidade e dec6ncia nas ruas, como, em
ensaio experimental, se p6de observer
nos dias em que os camels, privados de
suas mercadorias, nao puderam trabalhar
e impediram os comerciantes regulars
de tamb6m funcionar. Ah, o prazer urba-
no de andar pela cidade com uma sensa-
qCo de liberdade e paz, de usufruto e be-
neficio, de cidadania.
Como se trata de verdadeiro proble-
ma social, seu tratamento adequado nao
esti na esfera de atribuiq~o policial.
Deve ser resolvido cor medidas soci-
ais e uma visdo menos acanhada e po-
bre do que a dos tiltimos governor mu-
nicipais, este iltimo com destaque ne-
gativo neste setor. Mas o problema so-
cial cresceu tanto que hi nele uma in-
descartivel dimensTo policial, que deve
ser executada com coragem, sempre nos
parametros legais. Os trabalhadores in-
formais merecem vida melhor. A cida-
de, tamb6m. Ambos, livres dos parasi-
tas dessa anomalia.


Justiga
Tr6s novas aq6es foram pro-
postas contra mim perante a 16W
vara criminal de Bel6m, priva-
tiva dos delitos de imprensa.
Todas tomam como pretexto as
mat6rias nas quais tenho denun-
ciado as grilagens de terras e
as extraq6es clandestinas de
madeira, especialmente o mog-
no, no vale do Xingu. Os su-
postos ofendidos dizem que os
difamei ou caluniei com meus
artigos. Nenhum deles exerceu
o direito de resposta, respeita-
do como algo sagrado nestejor-
nal. Duas das queixas-crime
sao dendncias feitas pelo Mi-
nist6rio Pblico Estadual, a par-
tir de representaq6es da desem-
bargadora Maria do C6u Cabral
Duarte, criticada por despacho
que deu (e depois cancelou) em
recursos envolvendo o patrim6-
nio fundidrio e florestal do Es-


tado do Pard (ver Jornal Pes-
soal 286 e 288).
A pretexto de defender ele-
mentos subjetivos da honra de
autoridades piblicas, o MP tem
investido contra a liberdade de
imprensa, contribuindo para
obstruir a critical jornalistica,
torpedear a fiscalizaqio da ati-
vidade pdblica pela midia in-
dependente e desviar legitimos
jomalistas investigativos da sua
salutar atividade, sobretudo
quando eles se constituem em
defensores da integridade do
patrim8nio pdblico contra o
ass6dio de autenticos pirates,
que t8m ameaqado tanto as ter-
ras quanto a cobertura vegetal
do Estado do Pard. Nao por
mero acaso um juiz federal re-
centemente suscitou dividas
quanto A autonomia do Minis-
t6rio Pdblico do Estado.
Oito aq6es de um total
de 12 em tramitaqio no f6-


rum de Beldm -ji foram pro-
postas contra mim, tendo
como alegada motivaqio o
acervo de terras e arvores do
Estado no cobiqado e dilapi-
dado vale do rio Xingu. Em
todas elas apareco em defesa
do interesse pdblico, tendo
contra mim agents do poder
economic.
Essas aqoes revelam at6
que ponto chegou a inversdo
de valores no trato de temas
de grave interesse pdblico,
que sio submersos por uma
torrente de caprichos indivi-
duais e pelo abuso da autori-
dade piblica. A continue
busca das barras dos tribu-
nais nio significa, na verda-
de, a busca da justica, mes-
mo porque os supostos ofen-
didos fogem do tratamento
pdblico do assunto. Tem o
objetivo, ji indisfarqivel, de
me imobilizar, de me afastar


do meu trabalho na linha de
frente do combat A apropri-
agqo ind6bita, A pilhagem da
coisa ptblica e A conivencia
de representantes do poder
piblico, ou A omissao de uma
sociedade desinteressada por
seus pr6prios bens, dentre os
quais, material mas essenci-
al, esti o direito de saber a
verdade, A luz do dia e nao
em restritos autos judiciais.
Serenamente, seguindo os
tramites legais e confiando na
possibilidade de chegar a bom
termo atrav6s do contradit6rio,
me manterei fiel aos meus
compromissos. Ganhar nao 6
o mais important para quem
se empenha em travar o bom
combat. Como acho que te-
nho procurado fazer.
Continuarei, portanto, ares-
ponder present na defesa das
causes pdblicas apesar de todas
as ameagas e intimidaq6es.









M R I A


DO


C O."II D ANO


Cimento
Em 1960 Bel6m era uma
das praqas brasileiras que mais
consumia cimento. Mas para
"bem servir seus clientss, o
comerciante Ant6nio Farias
Coelho, da firma A. F. Coelho
& Cia., teve que ir a Recife
comprar 20 mil sacas do pro-
duto e parar em Fortaleza para
contratar "embarcaq6es apro-
priadas para o transporte. Por
conta dessas despesas, reajus-
tou o preqo de cada saca em
400 cruzeiros. Mas seus privi-
legiados clients "nao terao
dessa maneira suas obras pa-
ralisadas por falta do precioso
material de construqSo".

Colonizaqio
Em julho de 1960 o advo-
gado Aristeu Menck, irmao do
deputado Jos6 Menck, do PDC
de Sdo Paulo, chegou a Bel6m
para uma visit de sondagem.
Percorrendo a Bel6m-Brasilia,
que comegava a entrar em tri-
fego regular, ficou convencido
da "viabilidade de plantag~o de
pastagens para a criaqao de re-
banhos, bem como a instalaqao
de serrarias e criaqao de nucle-
os colonials" em praticamente
toda a extensdo da rodovia. Ele
e o irmio pretendiam instalar
na Area colonos nacionais e si-
cilianos. Pretenderam?

Jornal
Em outubro de 1962 (hi 40
anos, portanto), a direcqo dos
Didrios e Emissoras Associa-
dos, de Assis Chateaubriand,
decidiu suspender a circula-
qao de A Vanguarda, pondo
fim a uma hist6ria de 15 anos.
A sentenqa de morte do ves-
pertino, que sucedia ao matu-
tino da rede, A Provincia do
Pard, na circulagio pelas ruas
de Bel6m, se devia ao "enca-
recimento do custo dos jor-
nais no Pais". Os responsiveis
pelos DA estavam certos de
que o pdiblico paraense "bem
compreenderd os motives
dessa media e a imperiosa
necessidade de ser executada
sem maiores delongas".


Tacacazeira
Enquanto Bel6m comemo-
rava, em 1966, seus 350 anos
de vida, Rosalinda Souza co-
memorava os 17 anos de exis-
tencia da sua banca de tacaci,
na rua Campos Sales, conside-
rada a melhor da cidade naque-
la 6poca. Seu ponto era, inici-
almente, em frente ao journal
Estado do Pard, de Santana
Marques (o local foi ocupado
pelo Edificio Justo Chermont).
Depois, passou para a frente da
Biblioteca e Arquivo Pdblicos.
Mas em 1964, a pedido da Pre-
feitura, que queria mudar a es-


t6tica do local, se mudou mais
uma vez. Por deferfncia do di-
retor da BAP (que hoje 6 ape-
nas arquivo; a biblioteca foi
deslocada para o Centur), his-
toriador Ernesto Cruz, ficou
nos funds do pr6dio. La for-
necia aos seus clients, al6m de
tacaci (mais vatapd, manigoba
e caruru), muita hist6ria e boas
gargalhadas. Era um ponto de
refer8ncia do centro hist6rico
da cidade. Era.

Orquestra
Fundada em agosto de 1942,
a Orquestra Sinfonica do Pard


passou varios anos inativa. Vol-
tou a se apresentar em maio de
1966, sob a regencia do maes-
tro Belarmino Costa, A frente de
30 mdsicos. No concerto de re-
tomo, al6m de uma "Raps6dia
n 1 de cantos Populares", da
lavra do maestro, executou pela
primeira vez para o pdblico o
hino dos 350 anos de Bel6m,
composto por Waldemar Henri-
que e Augusto Meira Filho. A
Waldemar, alias, se devia a reati-
vacqo da orquestra, entao subor-
dinada ao Departamento Cultu-
ral da Secretaria de Educagqo e
Cultura, por ele dirigido.


i, E


TEATRO VAIIEDADE

OJI U Lw HOJ1

Teatro
"Inteiramente coberto e pavimentado de Onda-
lit", o Teatro Coliseu foi reinaugurado em agosto de
'1957. Sob a supervisor de F61ix Rocque (pai do
jornalista e historiaqor Carlos Rocque), se apresen-
tou a Cia. Paulista de Com6dias e Revistas, "corn
23 das mais notiveis figures da ribalta brasileira".
O andncio assegurava que ela.era "a primeira com-
panhia teatral complete que viaja para o Norte do
Brasil encenando as mais belas j6ias da arte
e da literature universal".
Eram sempre dois espetAculos em cada
noite. Na estr6ia, foram "O chauffeur e a
gra-fina", uma "encenaqgo com toda a
magnificdncia da obra prima da ribalta "
national em 3 soberbos atos tragi-
c6micos", e "Na mouraria", a "so-
berba revista de motives portugue- -4
ses em 18 quadros e 1 apoteose
com deslumbrante montagem, ni-
meros musicals e efeitos de luz".
Por se tratar de "um verdadeiro
acontecimento teatral, in6dito no
Pari", o teatro reservava
"localidades, assinaturas
completes ou parciais". /
Notiveis obras do
anonimato teatral em
linguagem de leildo, L BAT TA
mas isso era detalhe.


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