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Jomal PAGAessoaV A AGENDA AMAZONICA DE LOCIO FLAVIO PINTO -'W ELEICAO Procura-se um personage 2 , I ~ Para a maioria dosparaenses, a eleigdo deste ano ainda e um voo cego. Sabe-sepouco sobre os candidates e o que se sabe ndo empolga. Parece umfilme B estreladopor atores coadjuvantes, que ndo sabem o seu papel e estdo deslo cados no cendrio. A realidade do Estado exigird muito mais do successor de um governador que reinou como rei-sol. Olimpicamente indiferente aos saditos. r 4 \H^r <,~ ^T f ^ . # 4 Ha neste ano um produto em falta nas prateleiras do supermercado do voto no Pard: o carisma. Pode- se dar um outro nome a esse pro- duto em desabastecimento: perso- nalidade. Ou ainda: marca. t o que pode ex- plicar a falta de entusiasmo do eleitor diante das opq6es que Ihe sAo oferecidas como can- didatos ao Governo do Estado e ao Senado da Reptblica, os dois principals cargos em dis- puta. Apesar das sensiveis diferencas entire eles nas sondagens pr6vias, nenhum empolgou. Entre os mais lembrados, nao ha um franco favorite. Nem se pode apresentar uma razao A- clara e convincente para um estar A frente do outro. Por esse motive, as poucas pesquisas de opiniAo atd agora divulgadas, send uma apenas do Ibope, slo contestadas com mais veemencia do que em outros anos. O maior eleitor 6 mesmo o governador Almir Gabriel. Ele tern atris de si quase oito anos continues no comando de uma adminis- tracqo estadual com saldo positive e, pela fren- te, varias obras para inaugurar atd a realiza- qao do primeiro turn da eleiaio. Se tivesse apoiado um candidate de maior densidade po- litica, a divida neste moment consistiria em saber se o elegeria ou naojd em primeiro tur- no. Por enquanto, a pendencia real 6 se Simao Jatene, o cabeqa da coligacgo situacionista, irA para o segundo turno; e, indo, se sera o pri- meiro ou o segundo mais votado. E ainda: se, no return, inverterA a tend8ncia dominant, favorAvel a Ademir Andrade. A tinica pesquisa do Ibope registrada no TRE, sob encomenda do grupo Liberal, nao lanqa luz suficiente para iluminar o future. A sondagem estimulada mostra que um balango sobre a decisAo do senador do PSB, de aliar- se ao ex-senador Jader Barbalho, deu saldo positive, ao menos pelo angulo da contabili- dade eleitoral. Ademir alcanqou nivel de pre- VIVE NOA PARA E ['ii CARO (PaU 4) t1 i f~LI~ \1; 2 JOURNAL PESSOAL SETEMBRO/2002 fer8ncia bem acima do miximo em que havia sido registrada at6 entio a sua posiq~o junto ao eleitorado. Obviamente, esse crescimento result da migraq~ o de votos do PMDB. Se isso 6 verdade, 6 pouco provivel que Ademir deixe de ir para o segundo turno. Se nao ha tamb6m inconsistencia na pesquisa, essa tendencia tornard a candidatura de Ade- mir mais forte no segundo turno. Nas simula- Coes feitas pelo Ibope, ele tem uma margem confortivel de vantage sobre todos os de- mais concorrentes. Certamente porque reagru- pard mais gente, sobretudo votos originArios do PT, do PMDB e da coligaio liderada por Hildegardo Nunes, mas tamb6m (embora ape- nas residualmente) bicando votos mesmo den- tro da base tucana. O espectro em favor de Simao Jatene 6 menos amplo. O que pode minar essa forqa? Uma cam- panha mais clara visando o desgaste de Ade- mir em funqIo de se ter tornado um aliado de Jader Barbalho, a quem vinha criticando des- de 1986, com Wnfase crescente, sobretudo quanto ao uso de dinheiro pdblico e enrique- cimento ilicito. Outro ponto no alvo dos ad- versirios 6 a circunstancia de Ademir nao ser paraense (6 baiano) e ter um passado corn muitos ziguezagues, f6rtil para a exploraqao de contradiq6es. A vulnerabilidade desse flanco dependerd nao apenas da contundencia do ataque, mas tamb6m da eficdcia da resposta. O desempe- nho do senador nio tem sido, at6 agora, tao satisfat6rio quanto em campanhas anteriores. Talvez porque ele tenha preferido uma con- duq~o mais morna exatamente para evitar si- tuaqes delicadas. Nao 6 suficiente, por6m, As forgas gover- nistas desgastar os oponentes. Elas precisam reforcar seu pr6prio candidate. A pesquisa do Ibope mostra que o bom desempenho do nome de Sim~o Jatene se deve a miquina que o arrasta. Ela tornou conhecido o esquivo ex- secretario especial da produgio, um home at6 entlo confinado ao gabinete e, em seu reduto tecnocrata, especializado na negaqCo (era o freio de mdo do governor contra a pres- sao dos politicos). Mas o fato, surpreenden- te, de que Jatene jd ganha com folga de Ade- mir na pesquisa espontanea e perde, corn di- ferenga bem razoAvel, na pesquisa estimula- da, sugere que a aceitaqao do delfim de Al- mir Gabriel junto As bases 6 dificil. No minimo, exigiria um trabalho de di- gamos assim "induq~ o e convencimento" mais demorado, ou, tendo que ser curto mes- mo, mais compact e forte do que por m6to- dos que ji se tornaram tradicionais na miqui- na official (convenios em s6rie, por exemplo, mas s6 com parte dos recursos liberados, a parcela maior condicionada ao p6s-eleitoral). Com essa condicionante, o que tem sido feito 6 dar a Jatene uma retaguarda de campanha desproporcionalmente maior do que a dos concorrentes. Os programs de televisao do preferido do govemador se tornaram o seu maior trunfo, tal a vantagem que eles mantem sobre os demais. Por qualidade entenda-se nao s6 o conteddo intrinseco do program, mas os recursos formais e a infraestrutura que edul- cora a participaqio do ex-secretArio. Por isso, um indicador fundamental de avaliacqo serd o resultado da pr6xima pesquisa de opiniao, com a resposta do eleitor A apresentacgo dos can- didatos pela televisao. Cor todos esses recursos, de David con- tra Golias, mais o adendo da garantia de neu- tralismo divino nessa porfia entire o gigante guerreiro e o pequeno atirador de funda, ain- da assim a sorte do escolhido do goverador depend do desempenho dos seus principals concorrentes, especialmente do vice-govema- dor Hildegardo Nunes. Sua campanha tem sido decepcionante porque Ihe vinha faltando uma marca forte, uma identidade pr6pria. No de- bate realizado na TV RBA, a timidez e o ner- vosismo transformaram o candidate numa es- p6cie de intervalo commercial. t provavel que o telespectador nao se tenha apercebido dele como um concorrente. Essa 6 uma dificuldade natural para quem nao tinha encontrado um lugar que pudesse concilid-lo com suas preocupag6es 6ticas sem deixi-lo desconfortdvel. Hildegardo era um oposicionista tardio com receio de assumir essa condiq~o, cobrado a pagar um prego alto por essa indefinigio (imediatamente vem a pecha de traidor ou oportunista). Ele s6 conseguiu chegar a uma definiqio no tiltimo domingo, ao abrir, nas piginas de O Liberal (que o ap6ia discretamente), a sdrie de entrevistas do jomal com os candidates. Desferiu petardos certeiros contra o reduto tucano e atacou com precislo as chagas aber- tas da personalidade e do modo de agir do m6dico Almir Gabriel. Mas nio terA sido tar- de demais para descolar de Hildegardo a ima- gem de Hamlet marajoara? Mais uma pergunta pendente. No entan- to, teria sido tao fAcil para o vice-governa- dor apresentar todas essas restriqces, de for- ma clara, se nao tivesse esperado at6 a un- d6cima hora pelo chamado do governador para ser seu candidate A sucessao. Circuns- tancia ainda mais dificil de admitir por te- rem sido numerosos os sinais de que o vice- governadorjamais foi cogitado a s6rio pelo titular como seu candidate. O governador saiu para o segundo mandate com o nome de Simao Jatene na algibeira e uma estrat6- gia bem clara (e por isso de percepq~o evi- dente) de desgaste das outras altemativas dentro da coligaqao situacionista. Como seu maior trunfo para esse tipo de manobra, Almir Gabriel tinha o apoio ma- joritario da populaq~o ao seu governor. Nao ha dtivida de que ele foi um dos governado- res que mais trabalhou e fez pelo Para em vArias d6cadas. Nao quer dizer, entretanto, que sua administrago se distinguiu das mais destacadas nesse periodo como a mais e melhor. Almir 6 um competent gestor de recursos, como provou desde o inicio de sua vida pdblica, tanto no Hospital Barros Bar- reto quanto na Secretaria de Sadde e na Pre- feitura de Bel6m. Mas nao 6 criativo. Depende de id6ias alheias, nascidas no seu verdadeiro appara- tchick (o que ficou de suas origens esquer- distas 6 o centralismo administrative dos PCs, nome bonito para ditadura) ou "incorpora- das". De um lado, executou tudo o que o se- cretario Paulo Chaves lhe apresentou. De outro, p6s em pritica os projetos que esta- vam engavetados nas prateleiras oficiais ou nos escaninhos dos grandes projetos, do Tra- moeste A Alga ViBria. Se Almir Gabriel fez mais do que seus antecessores imediatos, o que fez resultou de um acerto palaciano, entire os membros da corte e seus parceiros. Ai esta o calcanhar de Aquiles do seu govemo: essas obras nao tem efeito multiplicador de renda, nem sdo con- dutores adequados do progress social. Ao contrdrio, elas renovam o perfil colonial do Estado, delineado pelos grandes projetos: grandes investimentos que se vao refletir no mercado comprador e que s6 beneficiam o local de extrag~o de riqueza e as dreas atra- vessadas pelos corredores de exportaqCo at6 o litoral, formando os "enclaves". Nos oito anos de Almir Gabriel o Pair cres- ceu, mas o produto desse crescimento foi apro- priado por poucos, em doses maiores fora do Estado. Daf os indicadores sociais ruins, den- tre os quais se destacam negativamente os de sadde, um contrast acusador para quem con- seguiu ser um dos raros m6dicos a chegar ao posto maximo no Pard. Quem viveu esses oito anos em gabinete, como membro privilegiado da corte tucana, nWo 6 capaz de perceber esse paradoxo. Re- fletindo-o, o ex-secretirio Simao Jatene ofe- receu sua cabega aos adversarios, no debate na TV RBA, quando disse que o que Ihe inte- ressa 6 promover a expansAo da ocupacgo no Estado, nao a do trabalho. Algu6m podia ter- lhe lembrado na hora (e nio depois) que pros- tituigRo tamb6m 6 ocupaq~o, como o trabalho escravo ou o emprego de criancas nos fomos de carvio, ainda freqUentes no interior do Pard. Esse tipo de ocupaqIo estA entire as que o del- fim tucano pretend estimular? Elas tem sido, pelo menos, aquele tipo de subproduto que se dissemina pelas senzalas sem chegar a pertur- bar a placidez tecnocrAtica das casas grandes. O Pard real, aquele que se viu empobreci- do diante de um Estado cor quistos de rique- za, gostaria de encontrar esse lider para corri- gir os rumos e refazer as engrenagens, sem voltar atrds. Mas nao o encontrar6. O que apa- receu de novo na tela foi um lunitico oportu- nista com suas gags irracionais. Para uma an- sia legitima, respostas tortas. Ao inv6s de his- t6ria, 6pera bufa. Pard tamb6m 6 isso. SETEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 3 PRESIDENCIA A hora da hist6ria p6s-FHC Os ricos j ganharam muito, agora 6 a vez dos pobres. Esta teria que ser a palavra de ordem do candidate a president do Brasil ajustado corn o seu tempo. Nao importa a filiaqao partida- ria ou ideol6gica desse candidate: se ele for capaz de ver, o que perceberd de mais dra- mitico e grave na atual situaqCo brasileira 6 a brutal concentraq~o da renda, incompara- velmente maior do que a de qualquer outro pais ainda cor aspiracao a desenvolvimento no planet. Como o dinheiro esta patologi- camente concentrado em poucas maos, a vi- gencia da lei nao escrita determinante nessas situaq6es (s6 ganha dinheiro quem tem di- nheiro) fez os jurors alcanqarem posiq~o re- corde mundial. O resultado 6 mais concen- traq~o de renda. O nivel das desigualdades esti arrebentando o Brasil. Nao era esse o desdobramento previsivel do Piano Real quando o professor Fernando Henrique Cardoso assumiu o comando da na- qao, em 1994. Ele tinha nas maos o mais in- teligente tratamento contra inflaq~o cronica jA concebido em qualquer parte do globo em qualquer tempo. O simbolo dessa era de mo- eda estivel e tendancia a former poupanqa era o frango. Ou seja: combinava-se uma so- fisticada terapia de tratamento das compli- cadas e nervosas engrenagens financeiras cor o prop6sito de permitir aos milh6es de deserdados realizar a revoluq~o capitalist, passando a fazer parte do mercado. Seria o fim daquela pitada de humor negro, segundo a qual quando pobre come frango, um dos dois esta doente. Cidadao respeitado e intellectual concei- tuado, Fernando Henrique Cardoso podia e devia ter envergado a indumentaria da tran- siqco. Cabia-lhe fazer o Brasil passar de uma fase de caos, anarquia e irracionalidade para entrar numa trilha de progress, ponderada por um valor que havia deixado de ter valor no pais: o trabalho. Ele tiraria das preocupa- c9es dom6sticas a angistia de antecipar um amanha imprevisivel, dando confiabilidade A moeda (na verdade, fazendo-a finalmente existir). E modelaria a ossatura do pais para que a atividade produtiva national pudesse encarar os desafios da concorrencia e da com- petitividade no cenArio mundial, criando ex- cedentes do consume local para exporta-lo. Homem de uma vaidade doentia e de um appetite pelo powder incontrolavel, FHC refez os terms do acordo que assinou com o povo atra- v6s da retumbante vit6ria no primeiro turno contra o entao metaldrgico Luis Inacio Lula da Silva. Refez, 6 claro, unilateralmente. Vendeu a alma a Mefist6feles pela reeleig~o. Pagou o novo mandate de quatro anos com uma espiral financeira simplesmente inacreditavel. Basta uma agencia de classificaqao no- vaiorquina aumentar o chamado risco Bra- sil, com um intolerivel arbitrio, que Ihe per- mite deitar (o verbo 6 outro, mas este 6 um journal de respeito) regras contra os fatos ob- jetivos (ou as provas dos autos, como diria um advogado), ou entao um boato tocar fogo em especulag6es que botam o cimbio para correr, e precisamos gastar nao algumas de- zenas de milh6es, mas alguns bilh6es de d6- lares para center a sangria. Estes ciclones, derivados de ventiladores dom6sticos, dao uma media da vulnerabili- dade deste gigante adormecido de 8,5 mi- lhoes de quilOmetros quadrados e 180 milh6es de habitantes, com PIB superior a um trilhAo de d61ares diante dos Salomons, Merryl et caterva de Wall Street ou da City de Londres. Gente que brinda com champanhe ao nosso culto mandatirio enquanto suga o nosso san- gue. Vampiros de casaca, mas vampires. Mesmo com a sangria financeira desata- da dos tiltimos oito anos, por6m, o Brasil ainda 6 um pais com legitimas e justifica- das aspiraq6es de grandeza. Tem condicqes de pagar seus compromissos internacionais, embora deva submeter o passive a uma au- ditagem independent para expurgar o que se agregou aos nimeros como craca espe- culativa, inflada por bales de ensaio espi- rios. Como grande parte desse endividamen- to 6 da responsabilidade de empresas priva- das, cabe ao governor, avalista de muitas dessas operag6es, apoiar as empresas atra- v6s de induCio hs suas atividades produti- vas, especialmente as destinadas A exporta- qAo. JA a divida internal pode ser facilmente enfrentada por um governor austero e rigo- roso nos seus gastos, capaz de colocar em execuq~o uma equaq~ o fiscal e econ6mica saudAvel, sem deficits e sem recessdo. O Brasil nao sairA do atoleiro atual se nao for guiado pela diretriz de agora fazer os po- bres ganharem dinheiro. E este o nosso New Deal. Uma tarefa moldada para o perfil do intellectual Femando Henrique Cardoso, se ele tivesse realizado at6 o fim a crucial tarefa de estabilizar economicamente o pais entire 1995 e 1998, apresentando-se outra vez em 2002, ap6s o intervalo de um governor alternative (pelo lado das massas ou pelo de elites menos obtusas), como um verdadeiro JK reciclado. Investiria macicamente em educaq~o e sadde para o cidadao comum estar no gozo pleno de todas as suas faculdades. Adensa- ria a infraestrutura piblica e vitalizaria as linhas de cr6dito official para que a rede da produqao se alongasse e se adensasse, abrin- do postos de trabalho e, sobretudo, oportu- nidades para os talents no trato com o ca- pital, a tecnologia e o mercado. Ao inv6s disso, FHC preferiu misturar a malicia de Getdlio Vargas com o golpismo bachareles- co da UDN, que sufocaram seu pr6prio po- tencial de grandeza. A tarefa de redistribuir a renda j acumu- lada e fazer a renda nova ser drenada por no- vas art6rias sociais, oxigenando todo o teci- do da naqAo, para que ela, com bnimo novo, encare seus desafios, 6 cobrada pela hist6ria do Brasil e esta ao alcance de um candidate em condiq6es de tomar o pulso do pafs. Des- de que ele nao nos lance novamente numa aventura sem fim discernivel, nao seja um promesseiro incoerente, um personagem ins- tAvel, nebuloso, inconfiAvel, mesmo quando anuncia o Eden para o comum dos cidadaos. O Brasil precisa de um administrator cora- joso, sensivel, experimentado, temperado pelo saber e impulsionado pela energia, ca- paz de dizer as coisas cor clareza e coeren- cia, sincere e devotado ao que fez, garantia de que farA o que esta a anunciar. Em quem cabe esse perfil? Certa vez, Ge- tWlio Vargas, um dos poucos estadistas que ocupou a presidencia da reptblica brasileira (para o bem e para o mal), falando num comf- cio em Salvador, comeqou a enumerar as qua- lidades do candidate que mereceria seu apoio para o governor da Bahia. Elas eram tantas e tAo raras que o mineiro Benedito Valadares, ao lado do "pai dos pobres", concluiu: "Acho que ele vai apoiar o Senhor do Bonfim". Como boutade, a frase do politico mineiro 6 6tima. Como conselho, p6ssima. Melhor se- guir Galileu Galilei, recriado por Bertolt Bre- cht: infeliz do povo que precisa de her6is. O que 18 precisa mesmo 6 fazer a hist6ria com as pr6prias mAos. Espero que esteja conscien- te dessa possibilidade quando usar suas maos para digitar seu voto na eleicdo de outubro. 4 JOURNAL PESSOAL SETEMBRO/2002 ECONOMIC Paraense: a vida muito mais cara O paraense passou a pagar, no ano passado, as maiores aliquotas de ICMS do pais sobre gis de cozinha, energia e telefone, itens que pesam bastante nos orcamentos dom6sticos e influem sobre o custo de vida. Elevar as aliquotas do prin- cipal imposto ao seu alcance foi a f6rmula - muito pouco engenhosa, por sinal encontrada pela administraqao estadual para ter mais recei- ta. Conseguiu. Mas tamb6m demonstrou insen- sibilidade emrelaq~o aos dramas da populaq~o. Nao seria uma acqo tao danosa se os precos dessas tres despesas nAo estivessem escapando ao control official e at6 mesmo extrapolando os para- metros de regulaqAo pelo mercado. Cor o estouro, viver no Para se torou mais caro do que na maio- ria das unidades da federaqAo. Mais caro nao s6 para o turista, que o governor diz pretender atrair, mas, principalmente, para o native e para o nati- vo de renda mais baixa, que senate no bolso a per- versidade do custo crescente do gasto com o indis- pensAvel gAs de cozinha e a vital energia el6trica. Segundo o Dieese, de janeiro a agosto deste ano o reajuste acumulado no prego m6dio do gAs de cozinha comercializado na Grande Be- 1lm foi de quase 50%. A inflacqo nesse mesmo period, tambdm media pelo Dieese, nao ultra- passou a 4%. O dado mais preocupante para o departamento intersindical 6 que enquanto os preqos experimental ascensAo acentuada, o po- der aquisitivo do salArio em relaq~o ao gAs de cozinha cai. Em dezembro do ano passado, quem vivia de salArio minimo comprometia 9,18% do seu orcamento para comprar um botijio de gAs. Em janeiro deste ano o impact j era superior a 10%. Hoje, chega a 12,27%. Em dezembro de 2001, cor o salario mini- mo de 180 reais era possivel adquirir em Beldm quase 11 botij6es de gas. Hoje, com o salArio mfnimo de R$ 200, 6 possivel comprar apenas 8 botij6es, uma queda de poder de compra consi- derada "impressionante" pelo Diesse porque ocorreu em pouco mais de sete meses. Mesmo cor a reduglo acertada na semana passada, de 4%, por conta de um esforqo combinado gover- no-empresarios para atenuar a pressio sobre o custo de vida, o alivio 6 quase imperceptivel. A situagdo se repete em relaq o A energia. Em janeiro de 2001 o governor do Estado reajus- tou a aliquota do ICMS sobre a energia em qua- se 50%, passando-a de 17% para 25%. O impac- to foi tao grande que a Rede Celpa viu-se obri- gada a convocar uma entrevista coletiva de im- prensa para deixar bem claro que a responsabili- dade por esse incrivel aumento era do governor, nio dela. No final de agosto, quando o consu- midor paraense recebeu sua conta de luz, tomou um novo susto: a energia estava novamente mais cara. A Aneel (Agencia Nacional de Energia Eldtrica) autorizou a Rede Celpa a reajustar em todo o Estado as tarifas de energia em 11,01 %. Oficialmente, conforme alerta o Diesse, esse 6 o primeiro reajuste da energia no Pard em 2002. Na pratica, por6m, 6 o segundo, sem contar com os dois ajustes feitos tambdm este ano no "segu- ro apagao". Como o Estado foi colocado no "apa- g~o solidario" do ano passado, a partir de 1 de janeiro as contas residenciais de luz dos paraen- ses tiveram o primeiro aumento do ano, de 2,90%. JA para o consumidor industrial foram mais 7,90% (para valer por 36 meses). Como se sabe, essa elevago foi concedida pelo govemo federal As distribuidoras devido A perda que elas tiveram com a queda no consume durante o apagao. "O engragado disto tudo 6 que o consumidor, al6m de ser penalizado por todos os problems oriundos do apagao, ainda teve que pagar pelo prejuizo das distribuidoras", lembra o Dieese em boa hora, embora recorrendo a humor negro. Nio satisfeito, o governor criou o "seguro apagao", que jA teve duas atualizaq6es. Assim, juntando o primeiro aumento, de 2,90 %, com o de agosto, de 11,01%, sem contar com os ajustes do "seguro apagio", a energia el6trica no Para acumula uma majoragao de 14,23 % em 2002, quase quatro vezes maior do que a infla- g~o pelo IPCA, que ainda nio chegou a 4% (o INPC, o indice que reajusta os salArios, ainda estA abaixo de 7% no periodo. Desde a privatizag~ o da Celpa, em julho de 1998, esse 6 quarto reajuste que a empresa foi autorizada pela Aneel a efetuar, com as tarifas ja plenamente recompostas. Em 1999 o aumento ocorreu em forma parcelada, chegando a 10,60%. O segundo, em agosto de 2000, tamb6m dividi- do em duas parcelas, atingiu 17,97%. Em agosto 2001 foi o terceiro aumento official, de 14,07%. E agora os 11,01%. Mas para o consumidor paraense o crescimen- to 6 bem maior do que o dos percentuais autori- zados no aniversario das privatizadas, como o de agora. Para chegar a um valor real, o Dieese con- siderou a elevagio das aliquotas de ICMS, de- terminada em janeiro do ano passado, mais os reajustes para cobrir os prejufzos da Rede Cel- pa com o apagio, emjaneiro deste ano, e mais os ajustes do "seguro apagao". Com isso, a elevagio acumulada nas contas de energia para o consumidor paraense, desde a pri- vatizaao, chega a 87%. Significa que a energia aumentou quase trezes a mais do que a inflaqao, que, nesse mesmo period, ficou em tomo de 30%. Desde o inicio do Piano Real, emjulho de 1994, a energia el6trica dos paraenses jA foi reajustada em tomo de 150%. Um verdadeiro choque. Encenagao Em plena ditadura military, conta a lenda que o jornalista Fernando Morais foi chamado a depor na sede da Oban, a sinistra Operaqao Ban- deirantes da repressdo political. Ruy Mesquita, director do journal O Esta- do de S. Paulo e do Jornal da Tar- de, onde Morais trabalhava, decidiu acompanhA-lo, por via das ddvidas. No meio do interrogat6rio, o inqui- sidor quis saber por que Morais era chamado de Fernando B. Trata-se de codinome? insinuou o secretta, imaginando ter encontrado a ponta de um iceberg. Constrangimento e silencio. Insistencia. Morais, falan- do baixo, explicou: o B do Fernan- do queria dizer bosta. Brincadeira de redaq~o, o ldcus da anarquia saudA- vel. Nada de subversdo. Femando escreveu uma grande bi- ografia, a de Assis Chateaubriand, imperador dos DiArios e Emissoras Associados. E muitos outros livros, um ou outro francamente apolog6tico, como soble a ilha de Fidel. Em sua brilhante biografia sempre persistiram, por6m, buracos negros. Como a rela- qIo com Orestes Qu6rcia. Nada a espantar se o apreqo, por ser afetivo, resisted a todos os testes de consistencia. Morais gosta de Qu- 6rcia e ponto final. Direito dele. Mas depois de ter sido lua-preta do quer- cismo, ao qual serviu como deputa- do estadual e secretirio de governor (ja sob Fleury), Fernando Morais se prestou a ser candidate a governador de Slo Paulo pelo PMDB. Nas pesquisas, nio safa do rabo da fila, vexat6ria lantera para algu6m tlo bem conceituado em outras esferas. Nao importa, devem ter pensado os bem intencionados: Qu6rcia criou um espaqo para o jornalista de mio cheia dar seu recado. Menos verdade, po- r6m: o candidate acaba de renunciar, reforgando as suspeitas de que atuou como mero guardador de espago para o capo, digo, chefe. Um flanelinha de luxo. Apesar da encenaq~o de desen- tendimentos entire o candidate, que se disse enganado pelo padrinho (ou go- dfather) e saiu atirando, e o patrono, que guardou sil8ncio obsequioso. Enredo de 6pera bufa? Provavel- mente. Mas o que dizer da peqa es- trelada entire n6s por Rubens Naza- zeano de Brito, o suposto candidate do PMDB ao governor do ParS, colo- cado na ribalta por Jader Barbalho? Com a resposta, o eleitor paraense. SETEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 5 IMPOSTO Diferimento de ICMS: aviltamento do tema Dificilmente haveri ambiente politico fa- vorivel a tramitacgo, ainda neste ano, do pro- jeto de lei encaminhado emjulho pelo gover- no do Estado a Assembl6ia Legislativa, esten- dendo ao cobre o diferimento de ICMS quej6 havia sido concedido a toda a cadeia produti- va do aluminio, abrangendo da bauxita at6 o metal, e aos min6rios extraidos de CarajAs (ver, a prop6sito, JP 291). Depois de ter tentado um entendimento com o president do legis- lativo, a Companhia Vale do Rio Doce, maior interessada na media, resolve recuar. O deputado Martinho Carmona avocou para si a mat6ria, que estava comeqando a tramitar pelas comiss6es da AL. Na conver- sa com o president da CVRD, Roger Agne- lli, manifestou-se contrario a aprovagao da iniciativa e antecipou que nao colocarA o pro- jeto em discussAo e votacqo. Deixou claro que usard a pendencia como arma na guerra de bastidores que estA travando com o go- vernador Almir Gabriel. Apesar de estarem abrigados na mesma legend, o PSDB, am- bos se tratam como inimigos mortais. Por principio, o que for do interesse do governa- dor n5o terA o apoio do president do legis- lativo paraense. E vice-versa. Como n~o ha nesse antagonismo diferen- gas ideol6gicas, intelectuais ou programiticas, a cisAo pode ser interpretada como pessoal e fisiol6gica, e suas motivacqes mais dificeis de serem identificadas, assim como seus desdo- bramentos. Cor isso, o contencioso volunta- rioso absorve tudo o que estiver separando os dois politicos, independentemente do valor intrinseco de cada ponto dessa agenda de be- ligerincia. Anula tanto as boas quanto as mis iniciativas de ambos os lados, nivelando tudo nesse ajuste de contas possessive. A questao do diferimento tributArio, en- tretanto, apesar de ser tratada corn passiona- lidade ou autoritarismo pelos chefes dos dois poderes, e a despeito de continuar a ser ig- norada pela imprensa, 6 extremamente gra- ve. Mesmo que o beneffcio fiscal nao seja estendido is operaq6es de cobre, afetando os cilculos da CVRD para a implantaqao das cinco minas previstas para Carajas, com in- vestimento global de 2,5 bilh6es de d6lares e previsao de faturamento annual de um bi- lh~o de d6lares, ele esta gerando seus efei- tos, negatives ou positives. O mundo vai con- tinuar a rodar, indiferente aos beicinhos do govemador e do president da AL. A primeira iniciativa foi adotada em 1993, beneficiando por 10 anos a produgio de alu- mina e, segundo os t6cnicos, viabilizando a implantaqao da Alunorte, que estancara nos custos e estava com seu cronograma congela- do. Sete anos depois, uma nova lei prorrogou o gozo desse beneficio por mais 15 anos, eli- minando condicionantes e agregando vanta- gens. Al6m dos segments da cadeia do alu- minio, a lei ampliou o diferimento para a mi- neraiao de ferro e de mangan8s. Os defensores da media a sustentam como, na pior das hip6teses, um mal neces- sario diante do favorecimento dado pela Lei Kandir as exportaqoes. Dizem que, na ver- dade, o objetivo maior da concesslo do dife- rimento do ICMS 6 a eliminaqao da divida do Estado para com as empresas exportado- ras, que passaram a acumular cr6ditos em fungdo dos incentives federais, incidents sobre o principal imposto estadual. Este cr6- dito nao quitado fica registrado como passi- vo do Estado, prejudicando sua capacidade de endividamento. Argumenta uma fonte do setor que o ob- jetivo da Lei Kandir foi a desoneragao do ICMS das exportaq6es brasileiras. Entretan- to, considerando que a natureza do ICMS 6 de imposto nio-cumulativo e a Lei Kandir prev8 a manutenq~o dos cr6ditos oriundos das aquisiq6es de insumos e bens do ativo, as ex- portadoras estAo acumulando cr6ditos fiscais que nao conseguem utilizar em suas opera- c6es. O diferimento, seguido do estoro do saldo de cr6ditos acumulados remanescentes (o que continue ocorrendo, mesmo com o di- ferimento), minimizaria entdo o impact que essa acumulagao de cr6ditos causa no balan- go das empresas e do Estado. A fonte sustenta que diferir o imposto at6 a compra de material de consume e de ener- gia nao pode ser considerado um exagero. Em primeiro lugar, porque a lei assegura a manu- tenq~o dos cr&ditos de ICMS oriundos de aqui- siq6es de material de consume e de energia. E, em segundo, porque mesmo diferindo o ICMS sobre a energia, ainda continuaria a haver saldo de cr6ditos a estomar. As empre- sas permaneceriam credoras do Estado. A fonte argument que, ao inv6s de as leis estaduais estabelecerem prazos fixos para o gozo do beneficio, o ideal seria que o usu- fruto fosse permanent: a acumulaq~io de cr6- ditos onera o produto exportado, traduzin- do-se em custo nao repassado, sobrecarregan- do e falseando os balanqos do Estado e das exportadoras. O interessante, para o t6cnico, 6 que, cor o diferimento, os balangos ficam limpos e novos empreendimentos podem efe- tivamente ser estimulados. "Caso tenhamos, um dia, uma reform fis- cal digna deste nome, em que os Estados ex- portadores sejam reconhecidos e tenham am- pliada sua participagio no bolo arrecadado ou no orgamento, o Para estaria melhor posi- cionado ainda", argument a fonte.Para ela, o diferimento "corrige uma enorme defici- 8ncia do sistema e nao 6 injusto". A seu ver, 6 um mecanismo que corrige distorqdes tri- butarias e contibeis, ji que as empresas nao podem mascarar balanqos corn cr6ditos que nao conseguem receber e, os Estados, com dividas que jamais serdo pagas. A posigio 6 diametralmente oposta a mi- nha, embora ambos sustentemos nossos pon- tos de vistas a partir de uma mesma base fac- tual. Nada melhor para provocar um debate em parametros efetivamente t6cnicos, assu- mindo-se as conseqtiUncias das conclus6es alcancadas. Melhor do que enfiar a cabeqa no buraco da desinformaq o (e da omissdo convenient) ou pautar o assunto por uma briga de comadres. O Para exige mais gran- deza dos seus protagonistas. Vez A CRASE nao foi feita para ofender ningu6m. Por isso deve ser empregada corretamen- te. Ha uma erase a mais na mensagem do ex-senador Jader Barbalho ao eleitora- do. Ele tem que apresentar sua candida- tura a deputado federal e nao i deputado federal. Jader tern todo o direito de que- rer sua vez, mas nao sua vOz. Convinha ao president do Senado pri- meiro escrever em computador, que tem program para corrigir erros primdrios de grafia como esses, e s6 depois ma- nuscrever a mensagem, evitando expor mais essa flanco aos adversdrios. Se nao conseguir o voto que pede, pelo menos nao deseducard, mais uma vez. Sem o acento circunflexo, que tamb6m atende por chapeuzinho. Lacuna AO FECHAR seu escrit6rio de representa- I lo em Bel6m, o BNDES se foi sem nun- ca ter vindo. Como na par6dia daquele filme: a volta dos que n~o foram. Uma ausencia que preenche uma lacuna. 6 JOURNAL PESSOAL SETEMBRO/2002 Remedio Em 1952, velhos e moos s6 so- freriam de "fraqueza intima" se nao tomassem as famosas Gotas Mendelinas, "adotadas nos hospi- tais e receitadas diariamente por centenas de m6dicos ilustres". As milagrosas gotas tamb6m da- vam conta de "perturbag6es funcionais masculinas e femi- ninas, medo infundado, vista e mem6ria fracas, mania de suici- dio, cacoete e frieza afetiva". Bas- tava um vidro do rem6dio para tudo isso desaparecer. Bem antes dos gen6ricos do doutor Serra. Restaurant O SAPS Restaurante Popular de Bel6m, ji quebrou muito galho ali- mentar de gente cor baixo poder aquisitivo. Funcionava na Praga Magalhies com Municipalidade (onde hoje 6 um almoxarifado da prefeitura), das 11,30 As 14,30. Di- ariamente o restaurant publicava o "cardApio previsto" do dia. O de 13 de marco de 1952 era: silveiri- nha de came, feijao, arroz, leite, p~o, goiabada e caf6. A refeiqAo no local custava 5 cruzeiros. Em mar- mita, safa por Cr$ 6,00. Hotel Em outubro de 1962 a "Boite Studium Hi-FI" do Grande Ho- tel anunciava a sensationall re- entre" da cantora Gerusa e ofe- recia aos seus freqiientadores um prato especial de lagosta fresca. Nao deixava de destacar um atrativo: nao cobrava consu- maqco. O GH se orgulhava de set "um hotel Intercontinental". Maestro Tamb6m em outubro de 1962, o compositor Waldemar Henrique voltou ao Pard, depois de 15 anos de aus8ncia. Nesse period, an- dou pela Europa, apurando a ma- estria t6cnica de suas mdsicas, inspiradas no folclore amaz6nico. JA conhecido interacionalmente, foi convidado pela reitoria da Universidade Federal do Pard para organizer e ensaiar o Coral Ettore Bosio, que faria sua pri- meira audig~o no mes seguinte, no audit6rio da SAI (Sociedade Artistica Internacional). Top A primeira festa do top-set foi re- alizada no dia 12 de maio de 1963. A tertdlia acontecia aos domingos, a partir das nove da noite, na boate do Autom6vel Clu- be do Pard, no iltimo andar (o que pelo menos justificava o top do titulo) do edificio Palicio do Ra- dio, na entao sofisticada avenida President Vargas (ou 15 de Agos- to para os mais antigos). No co- mando da mdsica, Alberto Mota com sua orquestra (nesse ano ain- da sexteto). Tinham acesso os s6- cios do clube, seus freqtientado- res, os amigos do maestro e quern comprasse os ingressos. Na festa inaugural houve "sorteio de pre- mios e outras atraq6es". A Para- ense Transportes A6reos, empre- sa paraense, patrocinava o even- to. Tipico dos "anos dourados". , \ 1 Energia Em 1963 a capacidade de gerag~o de energia da Forga e Luz do Para, em Bel6m, era de 30 mil quilowatts (menos de 10% da potencia de cada uma das 12 maquinas instaladas na hidrel6trica de Tucuruf). Foi entAo que o deputado federal Cl6vis Ferro Costa, da ala Bossa Nova da UDN, ofereceu ao president da Forluz, LeAo Schulmann, uma solugao salvadora: uma usina t6rmica de 100 mil kw, capaz de abastecer toda a Zona Bragantina, que seria montada na Cortina de Ferro em troca de caf6, algodao e min6rio de ferro. Esquema parecido ao adotado no Rio Grande do Sul de Leonel Brizola, que importou da Pol6nia socialist uma termel6trica de 200 mil kw. Alem da usina maior, Ferro Costa oferecia t6rmicas a a diesel de pequeno porte para tender o consume isolado de municipios menores do Estado. Garantia financiamento integral, graqas a entendimento direto entire os governor brasileiro e os do leste europeu, com largo prazo de carencia e resgate prolongado. A mudanga polftica, menos de um ano depois, interrompeu o esquema. IEP Em 1963, como de praxe, o Insti- tuto de Educagao do Pard fez sua festa do dia das mies, homenage- ando as alunas, inspetoras, profes- soras e serventes maes. Entre os alunos que participaram da orga- nizaqao das festividades, estava Elcione Zahluth, futuramente Bar- balho. No traditional uniform do IEP, ela aparece entire os que fo- ram A redagao da Folha do Norte convidar ojornal, que a registrou como Elcione Zahksth. Ao lado dela, o professor Dionisio Hage, que seria director da escola e, de- pois, secretArio de educaq~o e deputado federal. Panair Nenhuma empresa de aviagao foi mais querida no Brasil do que a Panair (saudada, anos de- pois de seu desaparecimento, numa bela mdsica composta por Milton nascimento). Por isso, foi profundo o impact da stbita decisao do governor Castelo Branco, em fevereiro de 1965, de suspender as concess6es de suas linhas nacionais e interna- cionais, todas estas transferidas de pronto para a Varig. O moti- vo alegado foi a dfvida da em- presa junto ao Banco do Brasil, que a teria favorecido durante o governor do deposto president JoAo Goulart. O ato do marechal foi cate- g6rico. Nao admitiu arguments contrarios, nem mesmo quando a diregdo da Panair mostrou que todas as empresas areas esta- vam em vermelhojunto ao Ban- co do Brasil, inclusive a Varig. O d6bito se devia, sobretudo, a variaq6es cambiais nos empr6s- timos, fato que esti long de ser original nas relaq6es entire o ca- pital privado e o poder pdblico. Mas nao houve qualquer con- descendencia com Paulo Sam- paio, dono da Panair, apontado como amigo do proscrito Jango: no dia 11 de fevereiro o maravi- Ihoso Caravelle da Panair, o 61- timo jato aerodinimico, nao le- vantou v6o de Bel6m para o Rio de Janeiro. No dia seguinte, a Cruzeiro do Sul substituiu a Panair na I L SETEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 7 0 guerreiro Veloso Apesar de ter liderado duas sublevaqces mili- tares, a de Aragargas e a de Jacareacanga, esta no Pard, o brigadeiro Haroldo Veloso se pro- punha a fortalecer a de- mocracia na eleiqCo de outubro de 1962, quan- do se apresentou como candidate a deputado federal, em dobradinha com Mathias Menezes. Seu andncio, por6m, nao indicava o seu par- tido, um dos esteios da democracia, ao menos em tese. Veloso nao conseguiu, nem pela via do man- dato eleitoral, o que se frustrou pelo atalho da rebeliao. Acabaria ferido gravemente pela tropa da Polfcia Military, enviada pelo governador Alacid Nunes para Santar:m cor a missao de im- pedir o cumprimento de sentenqa judicial que recolocava Elias Pinto A frente da pre- feitura municipal, em 1968. Veloso morreria meses depois em con- seqiiencia do ferimen- to sofrido. Jornalismo Abilio Couceiro comandou o program jomalfstico "0 fato em foco", que estreou na TV Marajoara em maio de 1964, prometendo reportagens vibrantes e sensacionais, mas veridicas", porque o reporter iria falar a verdade (cor acento de exclamagqo e tudo). O patrocinio, exclusive, era de A. M. Fidalgo, "o mdximo em qualidade, o minimo em preqos". Verdade? O program nao durou muito. NAD SE DEIXE ACORIKI NTAAR. lrmrpuma us Vi MIuMa SM nu riter hfal a: M0IDLle IW: AM. FIDALOB IC IbHC lsllg mais extensa das linhas amaz6- nicas: um DC-3 decolou as sete da manh5 de Val-de-Cans para Altamira, Monte Alegre, Santa- r6m, Obidos, Parintins, Itacaoa- tiara e Manaus. Depois do per- noite na capital bard, a viagem prosseguia atW Porto Velho e GuajarA-Mirim, ji pr6ximo A fronteira cor a Bolivia. De Ron- d6nia, o avido faria o mesmo percurso, em sentido inverso, at6 Bel6m. no dia seguinte. A Panair tinha entAo 400 funcionArios em Bel6m, a maio- ria dos quais trabalhando no ser- vioe de manutengao de avi6es no aeroporto de Val-de-Cans, al- guns cor muitos anos de servi- qo. Para os servigos amaz6nicos, mantinha em sua base em Beldm cinco avides Catalina (os famo- sos pata-choca) e um DC-3. Sua agencia ficava no t6rreo do Grande Hotel, na Presidente Vargas, e era chefiada por Joa- quim Fernandes, pai do atual secretario de cultural, Paulo Cha- ves Fernandes, atualmente mo- rando no Rio de Janeiro. Como era gostoso voar nas asas da Panair. Quem nio voou, nao sabe o que perdeu. Mas Mil- ton Nascimento bem que sabe. Justi9a No final de 1968 o Tribunal de Justiqa do Estado realizou concur- so pdblico para o preenchimento de 25 vagas de juiz de primeira entrancia nas principals comarcas do interior. Por incrivel que pare- ga, principalmente para os que vivem a realidade de hoje, passa- ram todos os 25 candidates. A maior nota foi alcanqada por Wil- son Marques da Silva (que viria a ser desembargador), cor 8,83. Em segundo lugar ficou a tamb6m future desembargadora Rutda For- tes, cor 8,76. Outra que chegaria ao desembargo, Lucia Clairefont Cruz, ficou em sexto, cor 8,25. S6nia Parente ocupou a nona po- siqio, cor nota 8,18. Rosa Por- tugal (hoje Gueiros) ocupou o 110 lugar, com 8,10. Em seguida, Maria do Cdu Duarte, que teve 8,08. Seguem-se futures desembargadores: Heral- da Rendeiro, Maria de Nazar6 Brabo de Souza, Otavio Maciel, Carmencim Cavalcante, Maria Helena Ferreira, Ana Tereza Mur- rieta, Izabel Benone e Carlos Gon- galves, todos com nota acima de 7,5. De 25 jufzes, 14 se tomariam desembargadores. Uma geraqio bem sucedida, portanto. FORTALECA D3EMOCRACIA VOTANDO NOS MELHORESV' IIAROLDO MATHIAS VELLOSO MENEZES MiI DWEDL. PAM DoR ESPiiw (ATIAS MENEZESHIAROLDO VELLOSO N.0 1229 N. 106 8 JOURNAL PESSOAL SETEMBRO/2002 ECOLOGIA No verao sangrento, a temporada de fogo O verio de 2002, com meio caminho anda- do, promete ser mais uma temporada de san- gue e destruigio na Amaz6nia. Os sat6lites, a partir do alto, estao emitindo sinais de alerta sobre a multiplicaao de queimadas na flores- ta. Os fiscais do governor, em terra, registram indices records de desmatamento. Os senso- res sociais projetam a eclosio de conflitos e de mortes como seu desdobramento. i como se uma lava de vulcAo human se espraiasse no rumo oeste, espalhando em sua passage os mesmos testemunhos da pilhagem. A como se as frentes de expanslo da sociedade national se alimentassem de sua pr6pria irracionalida- de, sem incorporar o aprendizado da experian- cia, a cara e valiosa liglo dos erros. Behemoth de m~os dadas cor Leviata. Mudangas, na verdade, ha. S6 que, in- variavelmente, para pior, mesmo quando re- cobertas por um glac8 de melhoria. Se nao em tudo, pelo menos quanto ao bern mais nobre da Amaz6nia: a sua floresta. Apesar de tudo o que vem sendo feito em educaqAo ambiental, em apoio a formas sustentAveis de produqlo, em estfmulo a certificaq~o eco- 16gica, em linhas de cr6dito orientadas e na adogao de principios 6ticos empresariais, o resultado mais visivel do avango da frontei- ra econ6mica C a diminuigao da area cober- ta pelas exuberantes e inestimAveis flores- tas amaz6nicas. Sem que seu lugar seja ocu- pado por qualquer outra forma de vida subs- titutiva ou compensat6ria. A ONG Amigos da Terra, por exemplo, uma das mais atuantes na regiao, estA divul- gando um relat6rio (Legalidade Predat6ria) que comeqa por um fato auspicioso, a redu- qFo da ilegalidade na extragio de madeira na Amazonia, e chega a uma conclusio desas- trosa: essa legalidade nao quer dizer evolu- q~o. Os madeireiros da Amaz6nia evoluiram muito quanto a legalizaqio de suas atividades, que, alguns anos atras, estavam quase integral- mente A margem da lei. Mas suas praticas, se jA podem ser consideradas majoritariamente legais do ponto de vista formal, tem que ser classificadas como indesejAveis por serem predat6rias. A formalidade das normas esta sendo atendida. Mas ela nio se traduz por melhoria nas condiq6es reais de produlio. O espelho reflete o espelho. Por causa da fiscalizaqCo official, do custo da corrupalo, da pressio da opiniao pdblica e de outros fatores, um ndmero crescente de madeireiros procurou legalizar-se. Calcula a ONG que 75% da madeira da Amaz6nia "tem, hoje, cobertura legal por meio de autorizaqces de desmatamento". No entanto, apenas 5% sao obtidos atravds de pianos de manejo regula- res, permanecendo como decididamente ile- gals 20% do total, uma inversao do quadro dominant atd algum tempo atrds, da ilegali- dade aberta e franca. S6 o doutor Pangloss ou Candido, o oti- mista, poderiam comemorar essa situaqio. Legalidade nao se traduz por prAticas flores- tais desejiveis. "A produgao madeireira sus- tentAvel da Amaz6nia 6 estimada hoje em ape- nas 1,7% do volume produzido", diz o docu- mento dos Amigos da Terra. Assim, o cresci- mento da produqao de madeira C um saque a descoberto sobre reserves que nao se renovam. Um dia vao acabar. As arvores de maior valor econ6mico, e, nos casos mais graves infelizmente, nu- merosos -, toda a cobertura vegetal atd en- tao existente, desapareceram do vale do Araguaia-Tocantins ao long de quatro d6- cadas de avanqo da pecuaria, da agricultu- ra e do pr6prio extrativismo vegetal. Era de se presumir que, em nome da evoluqao, o enredo se modificasse na etapa seguinte da corrida rumo oeste. Ao que parece, en- tretanto, no Xingu mudaram apenas as apa- rencias e as estrat6gias de destruigco. A substancia continue a mesma. Um exemplo, justamente o mais expres- sivo deles, comprova essa situag~o. Em 1996, a Construtora C. R. Almeida, por in- terpostas pessoas e empresas, entrou na re- giao. Suas pretens6es territoriais abrangiam uma extensio minima de cinco milh6es de hectares, que podia evoluir para sete milh6es. t Area maior do que a de sete Estados brasi- leiros. Nela, a empresa dizia que iria implan- tar um projeto ecol6gico de importincia in- ternacional. Mas tinha contra si uma vasta frente de 6rgaos pdblicos, estaduais e fede- rais, questionando seu direito sobre a gleba e pretend anular os registros dessa drea em cart6rio, considerados fraudulentos. Graqas A decisao favorAvel de uma das ca- maras civeis do Tribunal de Justiqa do Para, a empreiteira conseguiu manter ativos seus di- reitos, enquanto sobrestava os efei- tos da contesta~go, imobilizan- ti do a ofensiva dos seus oponen- tes e liberando seus pr6prios mo- vimentos. Dessa maneira, props e conseguiu um interdito proibit6rio ju- dicial contra pessoas que acusou de esta- rem extraindo madeira em sua suposta pro- priedade. Ojuiz de Altamira tambdm aprovou o nome do depositrio fiel indicado pela em- presa para guardar a madeira apreendida, que chegou a atingir 15 mil metros cibicos de mog- no. Estimulada, ainda requereu indenizacao pelos danos que teria sofrido com a aqao dos invasores, que calculou em quatro milhoes de reals. Sempre tendo cuidado de comunicar "s autoridades competentes, do Ibama A Policia Federal, os cuidados que estava tendo para de- fender o patrim6nio ecol6gico. A trama sagaz comeqou a se desfazer quan- do o ministry do meio ambiente, Josd Carlos Carvalho, foi a area, levando consigo o presi- dente do Ibama. Constatou que a madeira apre- endida estava sendo desviada, serrada e colo- cada no mercado, voltando a apreend8-la e des- credenciando o depositArio (in)fiel. A iniciati- va foi inidita para uma autoridade corn esse status. Mas a correao da distorao, apenas ini- ciada, continue pendente de conclusion. Ao fazer a visit, de surpresa, o ministry to- mou o cuidado de levar consigo agents da Polf- cia Federal e fiscais do Ibama de Brasilia. De forma discreta, como de seu estilo, estava lan- qando suspeiqlo sobre o pessoal local. Mas ne- nhuma dessas equipes locals foi modificada at6 agora. E claro que as providencias s6 podem ser tomadas a partirde uma base factual, mas ha um indicador seguro de que elas sao necessArias: as numerosas e constantes queixas, oriundas de to- dos os lados da question, contra os tdcnicos do Institute Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais RenovAveis. Num tom mais academic, os Amigos da Terra vem denunciando,junto corn outras ONGs e instituiqCes de pesquisa, o comrcio das ATPFs, as guias expedidas pelo Ibama para legalizar o transport de madeira. Elas se transformaram em autdntica moeda no mercado da madeira. Em tomo delas surgiu um conjunto de hist6rias jA preocupante sobre a rm-fd na expediclo, no con- trole e no manuseio desses documents, que es- tao servindopara esquentar madeira extraida ili- citamente. No entanto, nenhum inqudrito sobre SETEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 9 o tema 6 conhecido. Se existe, suas conclus6es nao foram divulgadas. Se a apuracqo chegou ao fim, ignoradas sao medidas concretas para re- solver o problema. Esse "nada consta" 6 preocupante a partir do fato, 6bvio, de que sem as ATPFs a madeira illegal nio poderia circular pafs e mundo afora. Como quase todos os madeireiros ja trafegam pelas estradas amaz6nicas corn a guia, se ela foi fraudada 6 pouco provdvel que essa burla tenha sido feita sem o conhecimento (ou a par- ticipagao) de algu6m no Ibama. As providenci- as teriam que comegar a partir do institute. Mas nao basta ao governor fiscalizar, sindi- car, reprimir e punir. t precise apoiar os em- preendimentos que se enquadrarem nas normas do desenvolvimento sustentfvel, para que essa deixe de ser uma expressao privativa do mun- do academico e chegue as prAticas concretas. Ou, como dizem os Amigos da Terra no seu relat6rio, o governor precisa ir al6m do mero "proibicionismo", que acaba sendo aproveita- do por fiscais espertos, aqueles servidores pd- blicos que criam dificuldades para vender faci- lidades, com a mesma eficdcia da formula dos que estAo utilizando ajustica como parceira (in- consciente ou inadvertida) para suas piratarias fundiArias e florestais. Enquanto nio se multiplicarem os projetos de manejo florestal, e o que deles se diz ou pro- mete nao for o que efetivamente neles se faz, deixando de ser apenas "para ingles ver", o des- compasso entire a crescente legalizaAo da ati- vidade madeireira e a insignificant proporq~o de prAticas saudaveis continuarA a ser registra- do pelos observadores atentos. Da mesma ma- neira como a ciencia vai sempre atris do pio- neiro no avanqo das frentes econ6micas, limi- tando-se na maioria das vezes a registrar o erro por nao poder induzir o acerto, o bandido se antecipa ao mocinho nas terras amaz6nicas (su- postamente do sem-fim, inifinitude que trans- fere para um amanhi incerto e nao sabido a correcao dos equivocos), a transgressAo se ali- mentando da norma, servindo-a na aparancia para desfaze-la ou contomA-la na realidade. Os que se escandalizaram corn a devasta- cqo no vale do Araguaia-Tocantins, o primeiro a ser tocado pelo colono trazido pela grande estrada de penetrago, agora se assustam comr o revival no Xingu: ar carregado de tensao so- cial, fogar6u sem control, especuladores em formigueiros ativos pelo sertao, devastagqo das matas, ameaqas de morte, morte. De tudo isso muito ocorrerA antes que o verdo de 2002 se encerre, preveem os que costumam ser con- siderados pessimistas quando os fatos ainda nZo aconteceram, e sao esquecidos quando o leite jA estA derramado. Cabe, A definigco da atual saison ama- z6nica, o tftulo que o negro James Baldwin deu ao seu pequeno e contundente livro so- bre o verao sangrento do racism nos Esta- dos Unidos: da pr6xima vez, o fogo. IFirulas Existe masturbagco sociol6gica? Existe, claro. Como existed masturbacio psicol6gica, masturbaq~o filos6fica, masturbaqio econ6mica, e muitas outras elucubraq6es ou devanei- os intelectuais que sugerem a comparaq o com a matriz sexol6gica. Quando consagrou a expressao, o entAo ministry das comunicaq6es, S6rgio Mota, queria contrapor o soci6logo- presidente aos soci6logos diletantes, projetando o perfil executive de Fernando Henrique Cardoso, um intellectual finalmente no poder, contra o pano de fundo das figures quixotes- cas dos seus ex-companheiros de viagem, que ficaram pelo caminho comendo a poeira abstrata. Daf a achar que esse tipo de firula mental 6 privil6gio dos soci6logos, vai uma distAncia enorme. Mas as vezes, para causar impact, algu6m se lembra da expressao e vai busca-la no saco das mil utilidades, usando-a com a mesma impropriedade do finado Serjio. Foi o que fez o escritor Benedicto Monteiro num artigo publicado em O Liberal. Provocou a reaqAo imediata de Maria Vania de Queiroz, que, em nome de uma categoria ultrajada, mandou sua carta de protest para o journal. E af se encerrou a poldmica, infelizmente. HA soci6logos embromadores. Como hd tamb6m escritores embromadores. Nem por isso a sociologia e a literature devem ser estigmatizadas como ociosas ou intiteis. A socio- logia 6 uma ferramenta intellectual indispensivel para entender a vida humana em socieda- de. Permite a quem dela se utiliza dispor de lentes de aumento que Ihe exibira realidade imperceptivel a olho nu (isto 6, olho sem orientaq~o metodol6gica, sem m6todo). Dou meu testemunho a respeito. Sou soci6logo porque, ao entrar para a universidade, jA praticando o jornalismo, em boa hora escolhi o curso de sociologia e nao o de comunica- qFo. A ci8ncia de FHC me permitiu ver o fato cotidiano em sua moldura social, um joma- lismo de context social, segundo a definiq~o do tamb6m soci6logo Jos6 de Souza Martins, que incentivou e prefaciou meu segundo livro. Portanto, se 6 para falar em masturbacqo, melhor deixi-la para seu moment natural. Se de naturalidade se pode falar no caso. IFestividade Os dois grupos de comunicag~o do Pard tiveram motives para comemoraq6es na sema- na passada. A TV Liberal renovou, por mais nove anos, o contrato de retransmissio das imagens da TV Globo. Ressaltou que enquanto o prazo normal dos contratos da emissora de Roberto Marinho 6 de dois anos, o seu vai durar quatro vezes e meio mais. Seria o reconhecimento da geradora carioca aos m6ritos da afiliada paraense. Sem desmentir a afirmativa, cabe, por6m, um certo ceticismo. Afinal, qual seria a alternative da Globo A Liberal em Bel6m? De sua parte, e na esfera da pr6pria crise, a emissora central tem motives para nao reclamar da parceira. As normas contratuais rela- tivas a faturamento sio cumpridas e a grade estabelecida no Rio de Janeiro 6 acatada ciosamente em Bel6m. Quanto aojornalismo, a reportagem de rede tem sido a tinica a ser preservada pela TV Liberal, mesmo que quase simplesmente para cumprir pautas, geral- mente definidas a partir dos miasmas e preconceitos do "sul maravilha" em relagdo A primitive "jungle" amaz6nica. Se o padrao local estA muitos niveis abaixo do que a Ve- nus Platinada estabeleceu na sede, o problema nio 6 da corporag o do doutor Marinho. Nenhuma razto, portanto, para rompimento contratual. Tim-tim . 0 Didrio do Pard, por sua vez, comemorou apaticamente seus 20 anos de vida. Havia razdo para festa, sem divida: uma rotativa de um milhAo de d6lares que permitiri ao journal imprimir todas as suas pAginas em cores, a razto de 36 mil exemplares rodados por hora. Do ponto de vista grAfico, ojomal do ex-senador Jader Barbalho pulou A frente do concor- rente mais poderoso, embora ainda claudicando nas instalaqes industrials para acomodar a maquina. Mas estarA amadurecido depois de duas d6cadas de vida? Esta- ra em condiq6es de dar o salto a frente quanto ao conteddo editorial? A pergunta 6 ainda mais pertinente por ser feita em 6poca elei- toral. Invariavelmente o journal tem perdido, por ocasiAo dessas temporadas, o capital de credibilidade que, a custo, con- segue acumular nos outros periodos. Como agora o patrio estA voando mais baixo, o journal p6de se permitir o luxo de cobrir melhor as eleiq6es do que a folha dos Maiorana, apesar de sua vinculacao partidAria. Po- dia continuar assim? Como em 6poca de comemoraqo 6 pre- Sciso ter espirito festivo, espera-se que sim. 10 JOURNAL PESSOAL SETEMBRO/2002 Opatrim6nio destejornal result dos seus leitores. Ele vale pelo que valem os que o lWem. Permito-me, entire as muitas cartas recebidas a prop6sito da cruise do JP, publicar as que se seguem. Ndo por dizerem sobre o predator solitdrio destasfolhas impressas. Mas por revelarem os que, estando por trds delas, as projetam urbi et orbi, hic et nunc.Infelizmente, tive que resumir a carta de Chico Feitosa, bibliotecdrio guamaense que migrou para o Oeste do Pard. Muito longa, ela veio naforma de artigo, impossfvel de aproveitar diante do limitagdo de espafo do jomal. Espem que o swndrio tenha aproveitado as parties de maior interesse coletivo da carta. PROVOCA;AO Nunca escrevi antes para o Jornal Pessoal. Na verdade, nunca achei ne- cessario: parecia demais ocupar espa- qo nessas poucas piginas tIo necessi- rias para a regiao. Mas as coisas mu- dam e agora me permit dizer uma coi- sa ou duas. Em 91, aos 19 anos, co- mecei a me envolver no mundo do jor- nalismo; e para n6s, que estAvamos na turma de Comunicaqao de 90 na UFPA, teu nome ji aparecia cor uma lenda. Tinhamos aula de Hist6ria da Imprensa contigo. Sempre duvidei, ao assistir aquelas aulas, sobre o que ti- nhas mais prazer se lecionar on sim- plesmente falar sobre jornalismo. Tem- pos depois, encontramo-nos causal- mente na casa do colunista Edwaldo Martins. Falamos de jornalismo de novo e tu disseste que tua intenqFo na- quelas aulas era provocar pelo menos um de n6s, teus alunos. "Jd me senti- ria feliz". Se foi assim, deu certo. E olhe que foi uma turma brilhante, gente que depois passou a marcar a pro- fissao, pessoas como Syanne Neno, Ur- sula Vidal, Vanessa Vasconcelos (hoje candidate a vice-governadora do Pard), gente que enveredou pelo mundo aca- d8mico como Potiara Castro e eu mes- mo, gente que foi para as artes, a exem- plo de Alberto Silva, os que preferiram o show business (Eloy de Melo). Todos que, de uma maneira on de outra, fo- ram tocados por ti. Mas, 6 claro, escrevo em meu nome. Foi o teu trabalho que me instigou a pesquisar mais sobre a Amazonia. Tuas materias me inspiraram e, de certa for- ma, tambem me impulsionaram a cur- sar o mestrado no Nticleo de Altos Es- tudos Amaz6nicos (NAEA/UFPA), de chegar pr6ximo ao entendimento da uil- tima fronteira. Precisei da tua carta de recomendagao e nao te furtastes a isso. Terminado o mestrado, entro em nova fase, ji que a partir do pr6ximo ano co- mego a fazer o doutorado. Quando li no n* 289 de teu JP que ele se extinguia tive um choque. Nunca ima- gine o Para sem aquele journal. Numa analogia intellectual, foi como imaginar a Amaz6nia sem rios, Bel6m sem man- gueiras, domingos sem Re-Pa. Meu es- tarrecimento nao foi solitario. Pesquisa- dores, estudantes, professors, sindica- listas, muitos que nao te conhecem pes- soalmente, me perguntavam sobre o que estava acontecendo. Disse que certamen- te voltarias cor o JP, mas, desta vez, minha certeza muda nio era suficiente. Nao para mim. Por isso te escrevo em meio a uma constataiao. Sem a presen- qa desse seu peri6dico, a moda I.F Sto- ne, nem sei se meu interesse pela regiao, essa necessidade de entend6-la, seria tio present, se chegaria at6 aqui. Tenho tanta certeza de que sou re- p6rter quanto o meu nome 6 Nem6zio Filho. Mas nao sei se esta certeza seria tao forte se teu trabalho nao existisse. At6 mesmo em nome dos pontos em que penso radicalmente diferente de ti (mas nao 6 esse o bom combate?. Muitos, como eu, tnm essa mesma divida de gra- tidao contigo. Nao escrevem por medo, vergonha ou inveja (que surge necessa- riamente cor a admiracao). Mas se, como disseste, bastava provocar uma pessoa, saibas que conseguiste. Meu de- poimento pode ser utilizado por ti da maneira que achares melhor. Se consu- mir muito espaqo, esquega-o. S6 nao deixes de escrever. Obrigado, professor. Nemizio Filho ESTIMULO Ficamos realmente consternados quando lemos no Jornal Pessoal de n* 289, 2' quinzena de julho/02, que este seria o uiltimo a ser editado por voc8, e, conseqiientemente, terfamos que di- zer adeus a essa tio important, crite- riosa e imparcial fonte de informadao sobre os relevantes assuntos da nossa Amaz6nia, que 6 o seu Jornal Pessoal, que deveria se intitular de Jornal Pes- soal IMPARCIAL. Perguntamo-nos entao:- e agora?, como ficaremos sabendo das realidades da nossa region? Onde haverA uma fonte tao rica em informac6es de real inte- resse para os amazBnidas e para os bra- sileiros, e tao digna de cr6dito como o Jornal Pessoal do grande jornalista Ldcio FlAvio Pinto? Repetimos: fonte muito digna de cr6dito, sim, porque busca a verdade e a transmite de forma imparcial. Daf achar- mos que ao tftulo "pessoal" deveria ser acrescido mais o qualificativo impar- cial. Ficamos tamb6m desolados por nao nos ser possivel prestar a desejada e oportuna ajuda financeira, a fim de evi- tar o "colapso" desse Jornal, porque so- mos tao vitimas dessa calamitosa poli- tica econ8mica adotada pelo governor FHC quanto voce, amigo Ldcio! (pobre Classe M6dia, pobres funciontrios pi- blicos e aposentados!). Por tudo isto, foi grande a nossa surpresa e alegria ao de- pararmos, em uma banca de jornais e revistas, cor mais um ntmero do seu conceituadissimo e imprescindivel Jor- nal Pessoal. Por favor, continue a sua luta porque vale a pena! Voce sempre foi um batalhador, amante da verdade e da justiqa, qualidades estas muito raras na humanidade. Deus ha de lhe ajudar nessa guerra! Quanto ao preqo, sempre achei que estava muito aqu6m do custo de im- pressao. Quanto ao valor das informag6es, a distincia entao 6 astro- n8mica, principalmente porque a gran- de imprensa vive omitindo parcial ou totalmente as informaqSes que real- mente tem importancia para aqueles que se interessam pelo bem do Brasil e do seu povo. Infelizmente, temas po- liciais, propaganda political, novelas e outras banalidades sao o "forte" da maioria dos jornais brasileiros. O novo prego 6 mais do que m6dico e perfeitamente acessfvel. Nao se preo- cupe, porque novos ventos poderao so- prar em seu favor a partir de 2003. Per- severanga e sucesso na sua brilhante carreira de jornalista 6 o que Ihe desejamos. Nem todo mundo 6 cego, alienado ou corrupt. Ainda existe mui- ta gente decent, gragas a Deus. Antonio Pedro e Maria Alda Brito Bezerra DESAFIO Sou Bibliotecario formado pela Uni- versidade Federal do Para (UFPA), onde, durante minha vida academica e minha militancia estudantil, a frente do Centro Academico de Biblioteconomia e Documentaq~o (CABID), pude pro- mover por vArios anos seguidos a Se- mana de Biblioteconomia e Documen- tagao da UFPA, que sempre contava com sua valiosa participaqao. No Jornal Pessoal, voc8 sempre conta um pouco da hist6ria do Para, al- gumas curiosidades fantAsticas para os apaixonados por esse Estado como eu. Por6m, hoje eu queria contar uma his- t6ria para voce. Vivi 27 anos da minha vida no Guami. Sete deles na UFPA, onde aprendi muito mais na militancia do movimento estudantil do que pro- priamente na sala de aula nao que eu esteja me desfazendo dos meus mestres, long de mim isso. Minha vida academica sempre foi ro- deada de amigos, mas al6m deles, tive a oportunidade de participar de grandes debates: com o professor Meirevaldo Paiva, corn a Zeneide Pantoja, corn voce, Ldcio FlAvio. Isso tudo contribuiu mui- to para a minha compreensao do mun- do. Por6m, mesmo cor toda essa forma- qao, alguns problems de meu Estado s6 foram percebidos depois da minha pas- sagem pela UFPA. E olha que quando estava li, eu pensava que sabia tudo. Atualmente moro em Altamira. Ali- As, hoje faz exatamente um ano que vim para ca. E com essa formagao fui logo sugado para o movimento social daqui, onde dou minha parcela de contribui- qFo atrav6s de alguns textos produzi- dos pelo MDTX (Movimento pelo De- senvolvimento da TransamazOnica e Xingu) o qual voc8 jA conhece. Vim para essa regiao do mesmo modo que os imigrantes nordestinos e sulis- tas. Por6m, ao contrArio deles, nao vim a procura de "terra sem homes para homes sem terra". Vim como pioneiro sim, mas para desbravar o mercado de trabalho. Ah, o mercado de trabalho, o principal problema dos rec6m-forma- dos alias gostaria de saber como foi sua entrada no concorrido mercado da comunicaqio. Chegando aqui nao con- segui vaga como BibliotecArio, devido ao fato de os governor da regiao nao investirem em educaao s6 para sua informaao: o Campus Universitario de Altamira, que atende estudantes de toda a regiao, nao ter Bibliotecario atuan- do. A Coordenadora da Casa da Cultu- ra de Altamira foi denunciada por um vereador por estar queimando literal- mente o que ela classificou de "velha- ria", que eram na verdade obras raras da Biblioteca Municipal, num atenta- do violent a cultural desse municipio e a minha profissao. Resolvi tamb6m me fixar por aqui. Para poder, dessa forma, exercer minha profissao cor dignidade, furando o blo- queio educational que aqui existe e, se necessario, encampando mais uma luta de BibliotecArias para as Bibliotecas Piblicas, abrindo mercado para outros profissionais que, igual a mim, vierem desbravar mercado de trabalho. Este mercado existe aqui, pois nos 11 muni- cipios da Transamaz6nica existem Bibli- otecas Publicas, por6m em nenhuma de- las temos o professional Bibliotecario. Hoje, com 28 anos, vejo cor clareza o grave problema da extraqao de nos- sos mindrios nossas riquezas saindo ha 500 anos para sustentar os europeus, os americanos e japoneses. Vejo cor mais clareza ainda o problema fundid- rio e suas conseqiiancias os assassi- natos dos companheiros s6 sao a ponta do iceberg. Vejo tamb6m o total des- preparo da nossa policia para lidar corn essa situaqao. Vejo o Procurador do Mi- nist6rio Pdblico Federal do Para, Dr. Felicio Pontes, falar para o Ministro do Meio Ambiente, Dr. Jos6 Carlos Car- valho, que, se nao forem tomadas pro- vid&ncias urgentes, o Oeste do Para fi- card A merc8 dos bandidos, em uma si- tualio incontrolAvel, comojA acontece no Sul do Pard, mais precisamente em MarabA, Sao F6lix do Xingu, Concei- qao do Araguaia etc. num verdadeiro bang-bang americano, por6m aqui, di- ferente de l, nao temos finals felizes, pois s6 um lado perde: O NOSSO. Vejo ainda a Eletronorte perder mais um round em relaqao ao devaneio de seu president, o engenheiro Muniz, de construir o UHE Belo Monte nas co- xas, sem tomar os cuidados necessAri- os, antes de se construir uma obra des- sa envergadura na Amaz6nia. Vejo tudo isso graqas ao grande tra- balho que desenvolvemos te confes- so que 6 apaixonante o que fazemos aqui. Vejo tudo isso tamb6m devido as andlises que fazes no JP. E imprescin- divel para eu dizer que graqas a algu- mas analises tuas 6 que pudemos saber quais passes poderfamos seguir para conseguir 8xito em nossas empreitadas. Foi um choque quando n6s soubemos pela edigao anterior que o JP iria sair de circulaaio, cheguei a escrever um ar- tigo, mas nao deu para enviar. Ainda bem que inimeros outros fas do JP o fizeram por mim. Muito nos alegra saber que vais con- tinuar dando aquelas "alfinetadas" nos poderosos. E muito bom saber que vais continuar com a edig o do JP. Por mais que haja mudanqas, que elas venham! Saiba que aqui no MDTX todos es- tamos muito contents pelo JP ter vol- tado sem nem mesmo ter ido, e tras de volta com ele a sua opiniao s6ria e com- petente, compromissada cor a verda- de dos fatos doa a quem doer, atrav6s de uma andlise profunda dos aconteci- mentos, e a serviqo do povo do nosso Pari. Por tudo isso, acreditamos ainda que um novo mundo 6 possivel. Pois sabemos que pessoas iguais a voce sao defensoras do desenvolvimento com justica social. Chico Feitosa SETEMBRO/2002 JOURNAL PESSOAL 1 Id6ia curta Em setembro do ano passado a vereadora Ana Jdlia Carepa apresen- tou projeto de lei criando o cadastro de im6veis de valor hist6rico do cen- tro de Bel6m. O cadastro incluiria o nome do proprietario do im6vel, sua condicio legal e sucinto diagn6stico da sua situaq~o ffsica. Depois de noti- ficados a se cadastrar, os proprietiri- os teriam dois meses "para expor o que pretendem fazer cor esses im6veis". Ficariam sujeitos As sanq9es legais os que nao atendessem a convocaqo em tempo hibil. Ao mesmo tempo, a prefeitura de- via constituir uma linha especial de cr6- dito, cor recursos pr6prios e de outras instituiq6es que atuam na area. desti- nada a recuperar os im6veis de valor hist6rico. Caso os proprietarios nio se interessassem em assumir a tarefa, po- deriam assinar um contra- to mdtuo com a Fumbel (Fundaqdo Cultural do Municipio de Bel6m), que se valeria de recursos alo- cados para esse fim. A fundaqdo poderia alu- gar os im6veis que recupe- rasse, dando prefer8ncia ao uso residential ou a algu- mas atividades comerciais ajustadas ao local, como padarias, mercadinhos, res- taurantes e lojas de artesa- nato regional. Da renda obtida, 30% iri- am para o proprietario. Com o projeto, que acolheu suges- t6es de um artigo publicado neste Jor- nal Pessoal, a vereadora do PT (e atual candidate do partido ao Senado) acre- ditava que a prefeitura poderia fazer "um diagn6stico mais precise a res- peito da situaqao legal e de fato" do precioso e dilapidado centro hist6rico da cidade. Assim, proporcionaria A populaqao "uma outra visao" dessa area vital da capital paraense. O projeto era bom, mas foi arqui- vado pela Comissao de Constituiqio e Justiqa da Cimara Municipal. Em seu parecer, o vereador Jos6 Scaff ale- gou nao competir A Camara legislar sobre mat6ria financeira, de iniciativa privativa do poder executive. Ao informar sobre o arquivamen- to, Ana Jdlia ressaltou que, no aspec- to financeiro, o projeto se limitava a sugerir a criaq~o de uma linha de cr6- dito: "fontes de financiamento, nor- mas reguladoras desta linha e o disci- plinamento das isencqes previstas vi- riam em regulamento, ai sim, de ini- ciativa do prefeito". Entende a vereadora que "preva- leceu o entendimento gendrico e cer- ceador do legislative, que s6 contribui para que a sociedade desconsidere cada vez mais desimportante o legis- lativo, na proporgqo inversa da hiper- trofia do executive". E finaliza: "com isto perdeu-se uma grande oportunida- de de, pelo menos, comeqar algo que venha a significar o resgate da beleza da parte mais charmosa da cidade". De fato, o vereador Sca- ff, tAo cioso do rigor das for- malidades legais, podia dei- xar que o prefeito vetasse essa condicionante do pro- jeto, que propunha a linha de cr6dito para embasar a political de revalorizaqio e dinamizaqio do centro his- t6rico da cidade. Podia atd, num excess de comodis- mo, vetar a parte da proposiAio refe- rente ao cr6dito e manter a polftica pdblica, atrav6s da qual se tentaria de- volver os habitantes ao centro e espe- cializar suas atividades comerciais. Simplesmente vetando o projeto, a pretexto de nao avanqar sobre compe- tencia exclusive (e excludente) do exe- cutivo municipal, tomando-se mais re- alista do que o rei, o vereador apostou na mesmice e mandou As favas o espf- rito inovador e oxigenador da id6ia, sem permitir que ela pudesse incorpo- rar uma forma prdtica de execuqAo. Pior para a Camara, 6 claro. E tamb6m para a cidade, infelizmente. Ao edil, as batatas. Escuro A receita lfquida da Rede Celpa no segundo trimestre deste ano (abril a junho) foi de 156 milh6es de reais, inferior A do mesmo period do ano passado, que chegou a R$ 177 millies. O prejufzo, que tinha sido de R$ 4,5 milhbes em 2001, cresceu para quase. 7 milhoes no primeiro trimestre deste ano. Isso, apesar da exagerada elevaglo da tarifa. Ou exatamente por isso. O Pard, quinto maior produtor de energia do pafs e terceiro maior exportador, vive cada vez mais nas trevas da coptradi'o e do paradox. . .l . " *. ""' '' ' TCs: para que? Exige-se de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado que tenha reputaqio ilibada e notAvel saber. A senho- ra Lilian Campos, indicada pelo goverador Almir Gabriel para o cargo, preenche esses requisites legais? Em sua bio- grafia hA apenas um dado pdblico e not6rio: ela 6 esposa do senador Luiz Otavio Campos. At6 entao mais conhecido como o simpitico e cordial "Pepeca", Luiz OtAvio realizou uma faganha quatro anos atrds: elegeu-se senador da repdblica, derrotando H6lio Gueiros e Ana Julia Carepa. O pr6prio vitorioso nio deixou qualquer dtivida pendente sobre a quem cabiam os louros do exito quando incorporou o titulo de "senador do goverador", como se tiv6ssemos retor- nado A Repdblica Velha dos oligarcas. Na verdade, nio volta- mos. Ou pelo menos podemos nio ter voltado. Vai defender de o goverador Almir Gabriel, como em 1998, conseguir agora eleger mais um "poste", usando-se uma expression que, sem ter qualquer coisa a ver com a pessoa referida, consagra o poder absolute que tem esse eleitor privilegiado, de dar a vit6ria nas urnas a quem quer que escolha para beneficidrio de sua vonta- de. At6 um poste, se poste pudesse ser votado. Em beneficio da senhora Lflian Campos pode-se argumen- tar que 6 boa mae, excelente dona de casa, esposa devotada, filha amorosa, amiga leal. Titulos deveras merit6rios, nao ha ddvida. Nenhum dos quais, entretanto, a credenciam a ser con- selheira do TCE. As exigencias de reputaqAo ilibada e notAvel saber tamb6m nao foram fielmente seguidas em outras indica- 96es, mas desta vez a distincia que a indicaqio apresenta em relaqo a elas 6 abissal. Basta comparar a senhora Lilian Cam- pos A mulher que vai substituir, a conselheira Eva Andersen Pinheiro. O minimo que se pode dizer 6 que o curriculo desta nao era incompativel com a funcgo que a esperava, antes a ela se ajustando. O da future conselheira nao guard a menor coe- rencia com as tarefas de um conselheiro das contas pdblicas. Talvez o governador Almir Gabriel esteja levando ao pa- roxismo suas idiossincrasias em relaq~o ao TCE, dispondo- se lhe causar o maior desgaste possivel (e esticando al6m da imaginaq~o o grau desse possivel, fulminando uma institui- qAo que jamais conquistou a simpatia e o apreqo da socieda- de). Por muitos tftulos, o lugar vago do TCE 6 reivindicado pelos auditors. Em defesa de sua tese, eles recorreram ao judiciario, que acolheu a causa. Ao ignorar essa legftima pretensdo, o govemador mexeu em uma casa de marimbondos (nao maranhenses, 6 claro; o que nao lhes garante o fogo), em fim de mandate. Isso, depois de ter-se permitido nao preencher essa vaga por dois anos e meio, como se mandasse ao pdblico o seguinte recado: um conselheiro a mais ou a menos, tanto faz. O TCE 6 mesmo inttil. O governador s6 tomou conhecimento dele porque 6 precise acomodar interesses politicos (interesses, embora de outra ordem, aos quais atribuiu as restric es feitas no passado A sua prestaqAo de contas). Diz-se que por conta de uma derro- ta que aguarda o senador do govemador nas pr6ximas elei- q6es, dentro de quatro anos, 6 precise encontrar compensagIo. Bem que a opiniao ptblica podia aproveitar o mote para p6r em definitive questAo a existencia dos tribunais de contas. Ainda mais porque, simultaneamente, o outro TC, o dos muni- cipios, anda em sua pr6pria via crucis. Se tiver que ser cumpri- da a decision judicial que considerou inconstitucional a lei pro- posta pelo entAo govemador Alacid Nunes, aprovada pela As- sembl6ia Legislativa e executada pelo successor, o govemador Jader Barbalho, que permitiu a nomeaqAo de alacidistas, jade- ristas e aderentes ou simpatizantes aos primeiros cargos da auditoria e da procuradoria do tribunal, sem concurso pdblico, o TCM terA que fechar as portas para balanqo, expurgando do seu organismo a ilegalidade. Seri o bastante para purgar o vf- cio original ou a pena adequada 6 a da extinglo? Ao ptiblico, a resposta. Debutante Sem festa e sem valsa (que a fes- ta acabou e a valsa nio veio, nem veio a utopia e pouco mudou - mal parodiando Carlos Drum- mond de Andrade), o Jornal Pessoal complete nesta ediqao 15 anos de vida. Significa que esta folha impressa alcanqou longevi- dade tr8s vezes superior A m6dia de maior periodicidade das publi- caq6es altemativas no Brasil, se- gundo o levantamento de Bernar- do Kucinski em Jornalistas e Re- volucionArios. Permanece vivo de chato e teimoso que 6, como 6 chato e teimoso o seu leitor, um cri-cri na cola dos poderosos, uma pedra no caminho dos omissos e coniventes. Obrigado, leitores. Mas nada de relaxar: ajomada mal comeQou, como bem sabem as debutantes. Posta-restante O Rep6rter 70, em O Liberal de 21 de agosto, fez o obituArio de Jodo Salomao, destacado empre- sArio no municfpio de Maracani. Disse que ele "deixou sete filhos, dos quais dois jd falecidos". Ora, se os dois filhos j foram, 6 porque nao ficaram, observaria Rosamundo, o distraido persona- gem de Stanislaw Ponte Preta, se tamb6m j nao tivesse ido. Ainda assim ficando. Que em O Liberal, como em Guimaraes Rosa, os per- sonagens s6 morrem se quiserem. Para o journal, se encantam para sempre. Am6m. Praga Quem consegue responder corn convicqao ao desafio de indicar a mais bela cidade da Europa? Al- gu6m poderA mesmo selecionar uma tnica cidade europ6ia mais bela do que todas as muitas? Se a tarefa 6 indigesta, ela fica menos problemitica quando a pergunta passa a ser: quais as ci- dades inesquecfveis na Europa? Veneza, certamente, por ser 6ni- ca. Mas entire esses lugares sin- gulares seri impossivel nio lem- brar de imediato de Praga, a ca- pital tcheca, pouco lembrada nos roteiros turisticos. Ve-la parcialmente submersa nas imagens de televisAo, que do- cumentaram a atual onda (literal- mente falando) de inundaq6es na S A ... ;.-- . .._en- -W-.. ..--. ., S vded. voto itr e Jader, Baraiao houves uma matilha de jaya uroa'sa enten-t procet sosinqrritose rests a pagar, seria o meidade- tdeaM. 5 e]alM ado, con sena- quado de pass ti od. es*papsada limpo. Sua apre- 'te6 j$ e govera -.;s senta q para.uuma el.iio majitaria.teria; do ponto 'fl iEiCfii&6iAa# deviscliic cai rOlebiscitbip. Elaito, teripsido -jow ot&e &'ip ib^ absojyic pelo pov. Condo the restaria enfred- F pmeiro e a ass p ldcia iia da .i" o ontenciso cominoum ddadio qualquer. Capaz de YOUd nio Tw & lirsusa l coid l dignidade. S" -_j ;O -G dado-spcr .- tipo d xealismo, Jader aca- o doK3 bo adecidindoqu e a maq s important neste moment 6 a n b e o'rl xo um inquistar urn am mandado eletivo. Rlgorosamente sua ti ii pam seu, o tehtarapra nni delrppoi srvenniai nti deacusaoeq s de C int aipaha deo j gicargb mrn i idare queo vjqu^ a Ihe as ftaso futuro (ou Jaderdqt d ao soeepa .:ct a )*eo fitas). Doqualquer mneirapo- diaTedi maisvotdode Poarin tdos as tempo rEm os dnunciadores teId diante do si ue depiutado Ninii~' teih duidiado que, l im ihi'quarto do elei. da repiblica. Fortalecido, se a esprada grande vota- to-rd praise B ule6ih u c aMasimfn # qu 'q 4e so. concretiwar. .pardtic0 eise re tonl : --, ,F B Elanocorrerd? 0provavel. eleitor deJader Barba- .,NI exalamnte pr recomier, oi nde haviAS a- h- vota nele por se cars ma, por sua simpatia, par radio 24 no' atras, ates'de setvernador, ministry e alguma coisa de boin que fez (e muita que prometeu e :senada. Mais rcentemente, Aloysio Chaves esperi- d no fez) e porque seria, aos olhos do eleitorado pobre e mnctqossentajetode an aodentsoea deudooGverropaa de rmaado,.umavvers ao o otucup de Robin Hood. o Senade e vltaou ~Cm ara Fmeral Mas fez essay yol- Ladro, talvez, as quw: part o butu com os menos ta pr. cita: por purorealiso6 plftico, calculou que favoreidos, os que slo lembrados pelos politicos, so- :The failtvam votos s0ficientespra a.reeleiqio. Con- bretudo pela elite polftica, perfumada e inconseqlente, SquiptoU uma das .vagas aq bancada federal. Na eleiio. apenap sa y6sprada eleiqiao. seguint, ainda realista, percebe6iquelhe restadr a As- : as sera bompara todos, inclusive, embora na for- sembldia Legislativa Pedin o bone e foi cuidar dos ne- ma de puniio, para o ex-senador, que assim nao venha tos. Como era algo premature, deixou a ports aberta a ser. O home que aseapresenta agora ao eleitor como para receber visitas.,QuaandQela comegavam a bater candidate a deputado federal nio tem mais aquela ex- politicos interessados'em lanfl-lo de novo em vaos pressAode vivacidade e simpatia de antes. A campanha ais altos (urn dos quais era Jader Barbalho),o cAncer qie o.tomou como avo, corn seus acertos e errors, mar- encerrou sna carreira e a vida.' cou-lhe a expresslEb dobrou-o, acuou-o e deu-lhe um ar A situalo do ex-ministro 6de ordem completa- de pecador. Sua apari&o timida, quase envergonhada. mente distinta. Ele ficou na ddvida de se arriscar a fi- Sente-se que Jader Barbalho entrou no limbo: ou paga car po relento tentando pela quarta vez chegar ao Go- por seus pecados ou core o risco de ir parar no inferno. vemo ou arrancar am novo mandate de senator. Se no o que manda a liturgia da punilio. Europa Central, 6 de partir o cora- gqo. Provavelmente nenhum dos estrangeiros que a visitaram nas dltimas d6cadas imaginaria que o MoldAvia um dia a castigaria tan- to. Do seu largo leito podia-se usu- fruir as belas paisagens da cidade de Franz Kafka e penetrar na sua parte mais intima, de cidade me- dieval e barroca. Andar por suas ruas, subindo a partir da margem esquerda do rio, por aqueles caminhos misteriosos e aristocrAticos, 6 uma das mais marcantes experiencias que se pode ter no velho continent. Deixa em quem fez essa viagem gratifdo, pra- zer e apreqo etemos. Diante do surpreendente quadro de ameaga e destruino, uma Iagri- ma de solidariedade de um visitante comovido pela bela capital tcheca. Bordel O bordel da Eny, em Bauru, o mais famoso do interior de Sao Paulo durante mais de duas d6cadas, quem diria, acabou virando livro. to tema de Eny e o Grande Bor- del Brasileiro, escrito por Lucius de Mello e publicado pela Editora Objetiva, nas livrarias desde o 6l- timo dia 24. Nao li o livro, mas por uma resenha de pigina inteira em O Globo, parece que ele incorpo- rou apenas uma pequena parcela das incriveis hist6rias que sempre correram soltas sobre a famosa casa de madame Emy Cezarino, amiga de ricos e poderosos. Ou teve com o tema o mesmo tipo de contato do bauruense Mdrio Rasi, autor da orelha: spiritual. Mas j que o caminho foi aber- to, esti na hora de algu6m como Paulo Cal escrever a biografia da Mosa, a Eny da zona de Bel6m. Contando tudo e com o mAximo de conhecimento de causa possf- vel. Nao 6 trabalho para amador. Corregio "O resto 6 silencio" foram as dlti- mas palavras do principle da Dina- marca no ato final de Hamlet, de William Shakespeare. Frase cl6e- bre, que o gadcho trico Verissi- mo, pai de Luiz Fernando, apro- veitou num dos seus inimeros (e sempre agradiveis) romances. Mas que eu, na ediqao anterior, acometido de lezeira paraoara, co- loquei na pena de Goethe (autor de "luz, mais luz", numa autentica premoniqAo da Eletronorte). Perdao, leitores. Obrigado, Ademar. At6 a pr6xima lombada. Jomal Pessoal Edaor LOol Fo FAi P FPan: e(09) 20 241-7E6 ContaWM Tv.Benwamn Conastm B84~OL& 40 enal jomal: maon.corbr Prmduq: Angln PMo Edig de AMr LuManbinr*lrartapffo |
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