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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00239

Full Text



Jomal Pessoal
A AGENDA AMAZONICA DE LUCIO FLAVIO PINTO


ELEIgAO lO *


Ninguem sabe


ninguem viu
A dois meses doprimeiro turno das elei4desgerais, o quepredomina no cendrioparaense e a desinformagdo e
o desinteresse. Esse quadropodefavorecer o surgimento de surpresas, mas tambdmpode ser um tzimulopara
as novidades. 0 autoritarismo ou afalta de opgoes deverd expor osprincipais caciquespoliticos ao risco de
derrota. Mas o queganha o Pard cor tudo isso?


or teimosia
ou por fal-
ta de op-
cgo, o go-
ve__rn ador __
Almir Gabriel, do
PSDB, e o ex-senador
Jader Barbalho, do PMDB, os maiores ca-
ciques politicos na eleigdo deste ano no Para,
e tamb6m os maiores inimigos, podem ser
surpreendidos pela derrota. O candidate do
governador, Simno Jatene, As v6speras do
6-
567
*bS A A?3~~~~l


inicio da propaganda eleitoral gratuita, ain-
da 6 o terceiro colocado nas previas. Conti-
nua em ascensdo, mas ela 6 lenta.
O preferido nas sondagens, o senador
Ademir Andrade, do PSB, parece ter tido


uma ligeira queda em fungCo do apoio
ptiblico que recebeu de Jader, uma rea-
qao previsivel da opiniao pdiblica encara-
da como o prego a pagar para contar com
o suporte da mdquina peemedebista. 0


MIHE PAA CVR APs 10/11







2 JOURNAL PESSOAL AGOSTO/2002


maior crescimento em julho foi do segun-
do colocado, o vice-goverador Hildegar-
do Nunes, que finalmente conseguiu en-
trar no vacuo da onda de Ciro Gomes, can-
didato a president da Repdblica pela
mesma coligacgo, a Frente Trabalhista.
Como a distancia entire o primeiro e
o terceiro colocado nao 6 tao expressi-
va, nem parece definitive, o quadro esta
embolado. "Todos os candidates sao ja-
poneses", brinca um analista. Literal-
mente, tudo pode acontecer, inclusive a
candidate do PT, Maria do Carmo Mar-
tins, entrar no bolo dos que tem condi-
C es reais de vencer a dispute para o go-
verno, ainda que ela seja a dnica a ainda
nao ter subido para a faixa dos dois digi-
tos. Segundo o iltimo vazamento de pes-
quisa nao registrada no TRE, por isso
mesmo nao divulgada, Ademir teria 24%
das prefer6ncias, Hildegardo 19%, Jate-
ne 16% e Maria do Carmo 9%.
As pesquisas qualitativas que a coli-
gagao official ter feito, as mais consis-
tentes de todas, mostram que o eleitorado
ainda esta mal informado e indiferente a
corrida eleitoral. Pelo menos 70% acham
que Almir Gabriel pode concorrer a mais
um mandate e 40% nao sabem que Jatene
6 o seu candidate. Esse resultado teria le-
vado o governador a se aproximar mais
do seu ex-secretirio e a acompanha-lo em
viagens, que foram incrementadas, inclu-
sive nos fins-de-semana, contrariando os
hibitos do candidate. Algumas fontes, po-
r6m, asseguram que o distanciamento se
deveu a divergencias entire Almir e a equi-
pe de Jatene. Emburrado em fungao de
decis6es que nao endossava, o governa-
dor ter-se-ia afastado.
Os porta-vozes negam a versao, rea-
firmando a unidade da coligaqio. Mas
cresce a boca pequena o coro dos descon-
tentes na corte. E not6rio o desligamento
da campanha de alguns integrantes da li-
nha de frente da administracao estadual.
No nivel intermeditrio, a reagao a Jatene
6 ainda mais nitida. E degenera para o
boicote entire algumas liderangas politi-
cas, desavindas com o candidate desde
que ele foi o todo-poderoso secretario de
planejamento. A dissensao se agravou ain-
da mais com o que esses politicos consi-
deram ser o fraco rendimento de Jatene.
Inegavelmente a vit6ria da alianga si-
tuacionista seria mais fAcil se o cabeqa
de chapa fosse o vice-governador. Por di-
ferentes motives, por6m, conforme a
abordagem sobre as origens do proble-
ma, os caminhos de Almir e Hildegardo


se tornaram tao distantes que o tratamen-
to dispensado ao vice descambou nos
tiltimos dias para a retaliaq~o aberta, corn
demiss6es em seu gabinete e a virtual
extingSo de sua equipe para-eleitoral, que
ainda se beneficiava da engrenagem da
vice-goveradoria.
Se a onda Ciro Gomes nao quebrar
antes de alcancar a praia, Hildegardo tera
recursos (cor os quais at6 agora nao con-
ta) para se beneficiary de outra circunstan-
cia: a reagqo dentro do PMDB a coliga-
qao branca com Ademir Andrade, decidi-
da unilateralmente pelo ex-senador Jader
Barbalho. Cresce o ndmero dos peeme-
debistas que, de forma explicit ou nos
bastidores, ap6ia o candidate da Frente
Trabalhista (ou embarcou na canoa de
votos do governor .
Uns acham que esse crescimento 6
estimulado indiretamente pelo pr6prio
Jader, permitindo-lhe atuar em duas
frentes, a de Ademir e a de Hildegardo.
Mas outros garantem que isso ji 6 indi-
cio de rebeldia na base contra um lider
que vinha mandando recados de que dis-
putaria um cargo majoritario, provavel-
mente o de governador, e acabou optan-
do A iltima hora por um cargo propor-
cional, imiscuindo-se entire politicos que
ficaram subitamente deslocados do eixo
decis6rio. Pensou em si e nao no parti-
do e nos seus correligiondrios, 6 a quei-
xa dos peemedebistas.
Assim, por baixo dos panos, o anda-
mento das campanhas 6 mais tumultuado
e belicoso do que sugere a plicida cober-
tura da imprensa. Essa abulia internal se
reflete externamente: dono do 90 maior
col6gio eleitoral do pais, cor mais de 3,5
milhoes de eleitores, o Pard raramente
aparece no noticidrio national. Ningu6m
li fora se importa cor o que acontece ci
dentro porque n6s pr6prios nao parece-
mos dar maior importancia A dispute elei-
toral no Estado.
O noticiario da imprensa 6 pior do que
registro de didrio official. Ha dias em que
a refer8ncia A temporada de caga ao voto
se resume A agenda dos candidates. Par-
te considerivel do raquitico material pu-
blicado tem origem em press releases.
Nao hi mais rep6rteres acompanhando
as incursoes dos candidates ao interior.
At6 mesmo os comicios na capital pas-
saram a ser ignorados.
Sem receber a minima pressao, os
grupos politicos manipulam como podem
as informaq6es. As pesquisas qualitati-
vas que promovem para orientar as cam-


panhas permanecem sigilosas, sem va-
zamentos confiaveis, o que multiplica a
boataria. Como nenhum dos candidates
assumiu uma posiqao de destaque, as
sondagens nao sao oficializadas para di-
vulgacao. S6 no dia 17 deveri ser divul-
gada a primeira pesquisa do Ibope, im-
posta pelo calendario da Rede Globo. At6
li, se realmente houver a pesquisa, pre-
valeceri a especulagao.
Mas nao s6 ela: a aus6ncia da impren-
sa na divulgaqgo das campanhas dificulta
a difusao dos components da eleigio num
Estado que ter o segundo maior territ6-
rio do pais e uma grande dispersio demo-
grafica. O Pard 6 o 90 col6gio eleitoral,
mas quando o referencial passa a ser o das
capitals, Bel6m desce para a 10i posiqao
(o Ceard 6 o 80 col6gio entire os Estados,
mas Fortaleza 6 a 6a capital com mais elei-
tores, concentrando um quarto deles). Isso
significa mais dificuldades para os can-
didatos chegarem A maior parte dos elei-
tores, ji que na capital encontram-se ape-
nas 20% do contingent.
Daf esse panorama de desinformacao
e desinteresse, que s6 deveri ser rompi-
do pelo inicio da propaganda eleitoral
gratuita e pelo ingresso de recursos com-
pativeis com as campanhas majoritirias.
O primeiro component poderi favore-
cer os candidates cor maior desenvol-
tura, mesmo que nao disponham de re-
cursos compativeis. JA o segundo torna-
ri ainda mais important o peso do po-
der economic: quem for mais long, le-
vando alguma coisa para o eleitor, terd
um potential de voto maior.
Assim, por essas caracteristicas, a
eleicao no Pard sera rapida como um me-
teoro, a ponto de a massa do eleitorado
provavelmente se dirigir para sua seqio
corn um grau surpreendente de desinfor-
maqao. Muitos nao saberao em quem
votar. Inquiridos, muitos eleitores nao
sabem dizer em quem pretendem votar
para a Assembl6ia Legislativa e a Camara
Federal. Simplesmente por nao saberem
quais sao os candidates, ignorados olim-
picamente pela midia.
Mas nao 6 para desesperar: outros tan-
tos que souberem em quem votar, no fun-
do nao saberao em quem realmente vo-
taram. Uma situaqao que tanto 6 campo
f6rtil para surpresas quanto para esma-
gar qualquer possibilidade de novidade.
Mais uma confirmago da condidao co-
lonial do Para. Um Estado em cuja porta
a hist6ria vive a bater, sem que o dono
da casa se d6 conta desse chamado.






AGOSTO/2002 JOURNAL PESSOAL 3

SIVAM



Fronteira amazonica:



uma faixa ignorada


O Brasil tem nove mil quil6metros de
fronteiras com sete pauses na Amaz6nia,
cujo territ6rio equivale a dois tercos de
todo o pais. t mais de 20 vezes a distAn-
cia entire Sao Paulo e Rio de Janeiro. Des-
de que o Itamaraty foi substituido pelo
Conselho de Seguranqa Nacional e os di-
plomatas de carreira (A sombra do Barao
do Rio Branco) trocados pelos militares, a
gestdo dessa fronteira obedece a diretri-
zes geopol ticas. O objetivo 6 manter o
control r acional sobre a linha divis6ria
internac.onal, impedindo a entrada de
clande',tinos e prevenindo a violag~o do
espa~o national. Sempre que possivel,
a'- entando a faixa fronteiriga atrav6s da
presenga humana, via migragqo. Foi a 16-
gica que impulsionou a Perimetral Norte
e o Projeto Calha Norte no passado. t o
combustivel do atual Sivam (Sistema de
Vigilincia da Amazonia), que comegou
de fato no dia 25 do m6s passado.
Em grande parte desses nuve mil qui-
18metros nao hi marcos nem qualquer si-
nal visivel de reparticio de fronteira. A
presenga dominant 6 a natureza, sobre-
tudo na forma de maciqos florestais, se-
cundada pelos indios e por pioneiros na-
cionais, como garimpeiros, barqueiros e
"gateiros" (cagadores). Ha tamb6m con-
trabandistas e traficantes de drogas, numa
malha de criminalidade que se vem aden-
sando, e um personagem com novo nome
para uma velha pritica: o biopirata.
Os doutrinadores da seguranca nacio-
nal se tem preocupado corn o que sucede
da fronteira para ci. Vivem a procura de
um impossivel rem6dio para perenizar a
soberania national nesses ermos do sertio.
Em geral encontram placebos, como o pr6-
prio Sivam. S6 para se implantar ele preci-
sou de 1,4 bilhao de d6lares, 10 vezes o
;-o6ramento annual da ADA, a ag8ncia de
desenvolvimento criada para substituir a
:Sudam, que afundou num mar de lama por
conta do clientelismo politico, combinado
com o fisiologismo empresarial.
Nao 6 pouco dinheiro: 6 20 vezes a
verba de ci6ncia e tecnologia da Amaz6-
nia, que di para a ragdo do dia a dia, mas


n~o para colocar o conhecimento cienti-
fico adiante do colono, geralmente um
predador da natureza. Mas nao 6 tudo: o
Sivam vai precisar de uma expressive ver-
ba de custeio para manter avi6es perma-
nentemente no ar a cata de invasores e
equipes em terra fazendo o monitoramen-
to de informag6es. Como se do despreza-
do "outro lado" da fronteira s6 houvesse
inimigos, reais e potenciais.
Na verdade o que existe do lado de 1a
6 o desconhecido. Gigante continental, o
Brasil continue esnobando seus vizinhos
hispinicos, colocados num saco de gatos
(mais do que preconceituoso, ignorante)
de cucarachas. Os brasileiros preferem
voltar-se exclusivamente para os lados do
Atflntico, na busca do santo graal ameri-
cano, europeu ou asiitico. Mais do que a
portentosa cordilheira dos Andes, nossos
companheiros de co-habitacao seriam
uma barreira intransponivel para divisar
o Pacifico. Falam espanhol, al6m de tudo.
Ja esta na hora de o Brasil considerar
que a conquista desse outro oceano, o
mais important do planet, depend de
dois desafios: a compreensAo da "ques-
tio amaz6nica" e a descoberta da latino-
americanidade para valer.Para entender o
que 6 a Amaz6nia 6 precise colocar na
lata do lixo o aparato geopolitico. Mata
fechada pode ser indicador de soberania
tanto quanto indio que cruza de um lado
para o outro, igilorando essa formalidade
chamada de fronteira. Mesmo porque o
indio, com 20 mil anos de existencia, 6
uma realidade muito anterior A organiza-
9qo do espaco imposta pelos europeus a
partir do s6culo XVI.
A Amaz6nia deixard de ser um empe-
cilho para o alongamento da "corrida para
Oeste", atd que ela desemboque no Paci-
fico, se os elements dessa expansdo dei-
xarem de ser o desmatamento, novas es-
tradas, fazendas de gado e toda a matriz
de atividades supostamente produtivas,
que se legitimam a partir da premissa de
que, ao substituir a floresta compact e a
inanigdo demogrdfica, afirmam a sobera-
nia national, a qualquer preco. Desde que


a faixa de fronteiras nao seja colonizada
pelos padres da selvageria estabelecida
nos eixos rodovidrios nao haveri incom-
patibilidade alguma entire essa nova fren-
te e o melhor conhecimento acumulado
sobre a regiao.
Pondo fim A anomalia de considerar
o que esti al6m-fronteira como um ele-
mento patol6gico, o Brasil descobrird
que um mercado pan-amazonico nao 6
mera ret6rica a emoldurar empolados
discursos oficiais. Milhares de vezes essa
expressao ji foi repetida em assinaturas
de protocolos de intenq6es, acordos e
convenios sem que de sua utilizagao te-
nha resultado um atimo de realidade. A
insensibilidade intercontinental, que 6
mtitua entire descendentes de hispinicos
e lusitanos, ultrapassa de muito a monu-
mental cordilheira andina.
Mas ha dois sinais de que isso pode
nao continuar a ser assim. Um dos si-
nais vem da "questio colombiana". Em
sua atual versao, ela tem 40 anos, a ida-
de da formagqo dos atuais conflitos ar-
mados entire as tropas oficiais e as da
guerrilha, que acabou se ampliando para
uma autentica guerra civil. No pr6ximo
dia 7, Alvaro Uribe Vl6ez assumird a
presidencia da Rep6blica. E mais um re-
presentante das oligarquias, com forma-
cio acad6mica no exterior. Ha quase 20
anos seu pai, um fazendeiro da region
de Antioquia, foi morto pela guerrilha,
o que o predisporia para uma posiqgo
dura contra as Farc-EP, e, a estas, a acu-
si-lo de certamente vir a ser mais um
president sanguindrio.
Mas Uribe disputou as recentes elei-
96es colombianas como um candidate
independent. Eleito, e ji no 1 turno,
quebrou a desgastante sucessdo de pre-
sidentes originarios ora do Partido Li-
beral, ora do Partido Conservador. Essa
gangorra viciada tem funcionado como
desestimulo para novas liderancas po-
liticas no pais e um combustivel a mais
a crepitar no fogar6u das paix6es, que
tem ceifado milhares de vidas a cada ano
nesse belfssimo pais. Uribe pode vir a






4 JOURNAL PESSOAL AGOSTO/2002


trair a ansia do eleitorado colombiano,
mas o recado foi dado nas urnas. A na-
Cao term nsia de paz.
Atravessando a fronteira, esse recado
chega a Brasilia como a cobranga de uma
diplomacia especifica desse gigante do
lado de baixo do rio Grande para assumir
a posigao que Ihe cabe, no vacuo de sua
pr6pria indiferenga. Nao para criar uma
contrapressao aos ensaios desproposita-
dos que comegam a ser tragados em San-
tiago do Chile, de organizaqCo de uma
forga military continental para interacio-
nalizar a guerra civil colombiana, dando
ao Piano Col6mbia uma dimensdo que os
Estados Unidos, mesmo cor todo o seu
poderio, ndo podem dar.
Se a intervengCo urdida em Wa-
shington esta fadada ao insucesso por
sua origem military, a resposta a ela nao
pode padecer do mesmo mal. Ela tem
que ser de natureza econ6mica para
poder se tornar integradora e, por isso
mesmo, desejada, estavel, definitive. E
atrav6s das vias de transport e ener-
g6tica que se abrem as melhores pers-
pectivas para o Brasil desempenhar o
papel de lideranca que Ihe cabe, sem
veleidades sub-coloniais ou sub-impe-


rialistas, o vi6s que impediu o regime
military de ser o veiculo dessa predesti-
nacqo de grandeza.
A via preferential de transport
estA nos rios, um element de harmo-
nia na paisagem, capaz de amoldar a
ocupaqao a esse gigantesco organis-
mo biol6gico que 6 a Amaz6nia. A
matriz energ6tica esta no petr6leo, ou
no gas natural, mais especificamente,
abundante em alguns pauses andinos
e do Caribe. Surge af o segundo sinal
de mudanga: a compra da empresa pe-
trolifera argentina Perez Companc
pela Petrobras.
A curto prazo a transagCo significa
apenas a penetraqdo da estatal brasi-
leira no problemitico mercado do
Cone Sul e o reforqo imediato da sua
produgqo international. Mas a m6dio
e long prazo o melhor efeito dessa
aquisicio serd a abertura de reserves
de petr61eo e gas na Venezuela, Boli-
via, Equador e Peru, que acompanha-
ram a transfer6ncia do ativo da em-
presa argentina. A Petrobras se mexeu
antes da poderosa PDVSA, da Vene-
zuela, que a suplanta em tamanho.
Mesmo que nao tenha sido essa a in-


tengao, pode ser usada como elemen-
to da political national.
Na perspective de uma aqao integra-
dora continental, fomentar hidrovias in-
teracionais, sobretudo na calha do mai-
or rio do mundo, o Amazonas, e inte-
grar os pauses atrav6s de uma teia de ga-
sodutos ou abastecidos por balsas de gas
liquefeito (sem falar no carvio colom-
biano e na hidreletricidade venezuela-
na), significa substituir mecanismos
inoperantes por ferramentas que nao s6
permitirao former um verdadeiro mer-
cado intero latino-americano, como Ihe
darao condigao de competitividade em
escala mundial, sem que essa equaqao
depend de capitals volateis ou de en-
dividamento al6m-mar.
A Amaz6nia deixara de ser uma in-
c6gnita ou o reduto do ignoto, por isso
mesmo temido ou maltratado, para ser
o que efetivamente 6: uma inigualivel
fronteira de recursos naturals. Ou, dito
na linguagem pragmatica dos empre-
sarios: um almoxarifado de riquezas.
Desta vez, para ser bem usada e nao,
como de regra, dilapidada. Ou entao es-
quecida no armaz6m das coisas secun-
darias. At6 mofar.


GEOPOLfTICA



A tutela da doutrina


da seguranga national


Jos6 Hon6rio Rodrigues, um dos
maiores historiadores que o Brasil ji
teve, era um liberal. A definigio 6 exa-
ta, considerando sua vida e sua obra.
Mas talvez nem ele a aceitasse. O con-
ceito de liberal tem uma explosive car-
ga valorativa no Brasil. Quase sempre
6 considerado depreciativo. Liberal 6
'u uma pessoa falsa e traigoeira, no en-
tendimento majoritario. Os critics do
,patriarcado national apontaram para
'um mal de origem: o liberalism nas-
ceu a sombra das casas senhoriais, das
quais as senzalas eram uma extensao,
|onfirmando-as ao inv6s de nega-las.
S(uase todas as vezes que defronta-
ramo desafio das reforms, as elites bra-
sileiras optaram pela conciliagao. Foi o
que mostrou o historiador Jos6 Hon6-
rio Rodrigues, num brilhante livro a res-


peito (Conciliafdo e Reforma no Bra-
sil). Ao inv6s dos acertos de cdpula e
remendos de meia-Agua, em moments
decisivos da hist6ria Jos6 Hon6rio de-
sejou que tivesse havido mudangas con-
seqtientes e nao apenas ideologia e per-
fumaria. Por isso era um autentico libe-
ral. Mas nao no Brasil, que nao disp6e
desse produto: liberal autentico, para
valer. O liberal, aqui, 6 de fancaria.
O acaso colocou o liberal Jos6 Sar-
ney no lugar certo, em 1985. Cor a
morte de Tancredo Neves, assumiu a
presid6ncia da Repdblica (um tanto in-
constitucionalmente, segundo o enten-
dimento de muitos) e completou a tran-
sigao "lenta, gradual e segura" do re-
gime military de 20 anos para a demo-
cracia dita liberal, naturalmente de
antes de 1964, conforme a estrat6gia


do d6spota mais esclarecido dentre os
generais-presidentes, o teuto-ga6cho
Ernesto Geisel.
Os brasileiros se reconciliaram a
partir daf cor a democracia, mesmo a
que resultaria de um arranjo constitu-
cional de meia-sola, a partir de uma as-
sembl6ia national constituinte deriva-
da, e cor as deficiencias de sempre. A
democracia nao chegou, por6m, at6 a
maior de todas as regi6es brasileiras,
que ocupa dois tergos do territ6rio na-
cional: a Amaz6nia. Antes de convo-
car os legisladores extraordindrios para
restabelecer as velhas regras do gover-
no do povo, pelo povo e para o povo,
Sarney lancou o Projeto Calha Norte,
que, logo completado pelo Proffao, es-
tabeleceria um arco de protecgo mili-
tar sobre os nove mil quil6metros de






AGOSTO/2002 JOURNAL PESSOAL 5


fronteiras amaz6nicas com sete pauses
do continent.
Essas duas criaturas representavam
a ressuscitagdo de um lizaro que nao
chegara exatamente a ser lacrado na ca-
verna onde os entulhos autoritdrios fo-
ram depositados a partir de 1985: a tu-
tela military na regiao atrav6s da dou-
trina de seguranca national. Essa tute-
la tem se tornado mais ou menos rigi-
da conforme as instabilidades do de-
mocratismo brasileiro, uma fragil e ten-
ra plantinha que os politicos cultivam
sem muito tato, conforme a observa-
cgo de Joao Mangabeira. Independen-
temente das mudancas no comando do
poder, entretanto, a doutrina de segu-
ranga national manteve o seu percurso
ascendente e o seu vigo na Amaz6nia.
A primeira ameaca depois da Segun-
da Guerra Mundial foi o Instituto Inter-
nacional da Hil6ia Amaz6nica. Depois,
Herman Kahn e o sistema de grandes
lagos amaz6nicos. Em seguida, o risco
de que a importfncia da floresta para o
equilibrio ecol6gico planetdrio, em re-
lago ao qual funcionaria como um pul-
mao, pudesse vir a tornar relative a so-
berania brasileira sobre a regiao, abrin-
do-a a um cons6rcio international. Os
cubanos, que apareciam nas guerras de
libertagao na Africa, como uma inter-
nacional da revolug~o, tamb6m andaram
tirando o sono dos que os viam na imi-
n8ncia de penetrar no Brasil, atrav6s de
Roraima, usando como catapulta a sim-
patia que lhes dedicavam os dirigentes
da ex-Guiana inglesa. Posteriormente,
as ONGs (Organiza9ges Nao-Governa-
mentais) entraram no raio das preocu-
pag6es. E, sempre, missionarios religi-
osos, antrop6logos, o narcotrifico, o
nomadismo dos indios na fronteira, os
pilots de teqo-teco e todos quanto cri-
assem fontes de instabilidade nessa
grande fronteira.
Esses guerreiros frios, embora tro-
picais, tem tratado a Amaz6nia da mes-
ma maneira como a Funai age sobre os
indios, exercendo a tutela que a Cons-
tituigdo e a legislagao ordindria lhe de-
legaram. Nos perfodos de normalida-
de, a tutela 6 difusa. Nos perfodos de
crise, 6 categ6rica. Em qualquer situa-
qao, paira como a espada de Damocles,
tornando relative a autonomia regional.
Revitalizada em 1985 pelo Calha Nor-
te, a doutrina de seguranca national
continuous a ser a fonte de pensamento
do governor sobre a regiao.


Chega a ser ir6nico que Sarney, um
politico maranhense, tenha privado os
amaz6nidas da plenitude democritica
concedida aos demais brasileiros. O
Maranhao 6 um dos tres Estados a se
beneficiary ao mesmo tempo de incen-
tivos fiscais concedidos A Amazonia
e ao Nordeste. E Meio-Norte, Nordes-
te e Norte, o que talvez diga muito
sobre a falta (e o excess) de identi-
dade no Estado.
Mais ir6nico ainda 6 o que o desti-
no reserve ao president Fernando
Henrique Cardoso, intellectual uspea-
no que cometeu seu livro sobre a Ama-
z6nia, escrito em 1977, repleto de in-
terpretac6es sobre a regiao, embora
nem tanto de informag6es. No tltimo
dia 25, o president deu partida A fase
operacional do Projeto Sivam (Siste-
ma de Vigilancia da Amaz6nia), inau-
gurando o Centro Regional de Vigilan-
cia de Manaus. E a consolidacao de
uma tumultuada hist6ria de nove anos,
envolvendo 1,4 bilhao de d61ares (apro-
ximadamente 4 bilh6es de reais, ao
cambio do dia) de investimento.
Essa hist6ria comecou de fato em
junho de 1993, quando o entao presi-
dente Itamar Franco e seus 14 minis-
tros se reuniram no audit6rio do sub-
solo do PalAcio do Planalto, em Brasi-
lia, para ouvir uma exposigCo do mi-
nistro-chefe da Secretaria de Assuntos
Estrat6gicos (herdeira da doutrina de
seguranga military do period military,
bastao passado, ji matizado, para a
Abin, a Agencia Brasileira de Inteli-
gencia). O almirante Mario C6sar Flo-
res apresentou para o seleto ptiblico a
concepcao t6cnica de um sistema de
vigilancia para a Amaz6nia, composto
por sensors (radares e monitoramen-
to por satl6ite), comunicaq6es e pro-
cessamento de dados.
Grande parte dos problems para
cujo combat ou eliminagco o Sivam
foi criado sHo efetivamente reais. O
Brasil precisa enfrentar a desenvoltu-
ra dos narcotraficantes na regiao, a flui-
dez das fronteiras, a clandestinidade de
grande ntmero de v6os feitos no espa-
go a6reo amaz6nico, as agress6es ao
meio ambiente, os abuses do transpor-
te fluvial, a audicia dos biopiratas e
tantos outros problems reais e graves.
As ferramentas trazidas pelo Sivam sao
igualmente valiosas e seus beneficios
se fardo sentir logo. O que constitui a
anomalia desse empreendimento 6 a


sua caracteristica military, tanto na con-
cepqAo e desenvolvimento quanto na
sua operaqao.
Essa parece ser uma criatura conde-
nada A syndrome de Frankenstein. Os di-
rigentes do Sivam garantem que ele fun-
cionard muito bem corn seus bracos mi-
litar, policial e cientifico porque estari
atuando em conjunto corn as instituicqes
de cada um desses diferentes stores.
Todas elas terao acesso a base de dados
e at6 mesmo participarao das operaq6es
executives. Haveri sinergia e harmonia
dentro do sistema, cuja estrutura, enxu-
ta, o prevenird do pior dos males da bu-
rocracia official: a elefantiase.
Enquanto ret6rica, o discurso 6 con-
vincente. No exame pritico do lugar
que este novo organismo vai ocupar 6
que surge a divida: por que nao dar
meios aos 6rgaos ji existentes, especi-
alizados no trato policial, military e ci-
entifico dos problems postos sob suas
jurisdiq6es?
A Policia Federal certamente se sai-
ria muito mais satisfatoriamente no
combat ao narcotrifico se ficasse cor
um naco do bilionario orcamento do
Sivam. O DAC (Departamento de Avi-
aqao Civil) melhoria o control do tri-
fego a6reo cor outra parcela desse di-
nheiro. A Capitania dos Portos e a Ma-
rinha estariam mais aptas para patru-
lhar os rios da maior bacia fluvial do
mundo cor um pouco mais de investi-
mento. Ah, os cientistas: o que nao fa-
riam com um orqamento que represen-
ta 20 anos de verba de ciencia e tecno-
logia para a Amaz6nia?
Talvez com a porta aberta do Sivam,
cada uma dessas instituiq6es tente ba-
ter a campainha para conseguir sua par-
te. Nesse caso, por6m, qual a 16gica de
introduzir esse novo segment na ja
alongada estrutura governmental? Por
que submeter cada um dos problemiti-
cos escaninhos da aqgo federal na re-
giao a um comando central de nature-
za military? Provavelmente para assina-
lar, no terceiro governor civil ap6s o de
Jos6 Sarney, que a fonte do saber ama-
z6nico continue tendo uma matriz: a
doutrina de seguranga national.
Pois que seja: entao agora 6 precise
discuti-la cor clareza, discernimento,
intelig8ncia e coragem. Quando nada,
para homenagear o grande historiador
Jos6 Hon6rio Rodrigues. Mudando, ao
inv6s de apenas conciliar na hora da
reform necessiria.






6 JOURNAL PESSOAL AGOSTO/2002

Ar A-


Aeroporto
O aeroporto de Santar6m foi
inaugurado em dezembro de
1952, cor uma solenidade que
se seguiu A chegada de avi6es
Catalina da FAB com os con-
vidados. Falaram na ocasiao o
deputado Silvio Braga, em
nome da populaqio local, e o
coronel Synval de Castro e Sil-
va, representando o brigadeiro
Carlos Rodrigues Coelho, mi-
nistro da Aeronautica. A espo-
sa do prefeito interno, Osman
Bentes de Sousa, descerrou a
fita de inauguragqo.

Filosofia
A Faculdade de Filosofia,
Ciencias e Letras de Bel6m
comemorou seu primeiro ano
de instalaqao em outubro de
1955, quando ainda ndo havia
a Universidade Federal do
Pard. Na sess2o solene falaram
o director da faculdade, Ant6-
nio Moreira Junior, o aluno
Claudio Barradas e o c6nego
Apio Campos. No final, o his-
toriador Arthur CUsar Ferreira
reis fez uma confer8ncia.

Banco
O Bank of London & Sou-
th Am6rica anunciava, em
1955, que possufa, em sua


Lotagbo
Proibidos de trafegar no Estado da
Guanabara (atual Rio de Janeiro), os
temiveis lotaq6es (equipardveis aos
atuais micro-
,s 6nibus, sem ar
y condicionado e sem
V 0 luxo) foram trazidos para
pnm_ o Pard em 1964. Deixaram
logo sua marca registrada:
muitos acidentes de
Strinsito e mortes. A
velocidade dos
motorists parecia
incontroldvel. Os lotag6es
duraram pouco. Amem.


ag8ncia de Bel6m, na XV de
Novembro (onde esti atual-
mente o Unibanco), 27 mil li-
bras esterlinas de capital e re-
servas. Nesse andncio publica-
va todas as taxas de juros de
remuneragio que pagava aos
seus depositantes e aplicado-
res, oferecendo aos clients
"serviqo complete bancdrio
cor correspondents e agen-
tes em toda ais cidades princi-
pais do Brasil e do mundo".
A agencia do London
Bank, como era mais conheci-
do, funcionava das 7 as 11 da
manhd e das 14 as 17 horas.


Servigo
Em 1956 surgiu a Mercearia Auto-Serviqo Guemba, na ave-
nida Alcindo Cacela 685, que viria resolver "mais um prohlerr
da dona de casa". Suas vantagens: acesso direto do client as
prateleiras, onde todos os produtos tinham etiquetas com os pre-
qos e os cereais ji estavam ensacados. Depois de ser servir, o
client pagava a compra na safda,
podendo checar a exaridao da fa-
tura no comprovante impresso
que Ihe seria entregue. E ha-
viaainda "6timo lugar para
estacionamento I
de carrots .


Escrit6rio
Em 1955 o escrit6rio Men-
donca-Bitar, que se transfor-
mou no atual escrit6rio Otivio
Mendonqa, um dos mais con-
ceituados da praga, contava
com Orlando Costa, Abel Gui-
maraes, Diniz Ferreira, Ader-
bal Meira Matos, Milton Cos-
ta, Maria Lydia Mendonga e
Vicente Braga Eloy, al6m dos
s6cios controladores, Orlando
Bitar e Otivio Mendonca. Ain-
da em plena atividade advoca-
ticia, apenas o mestre Otivio.

Energia
Em 1956 a prefeitura de
Bel6m transferiu, por doaqao,
a rede de distribuiqgo de
energia da cidade para a For-
qa e Luz do Para, a nova em-
presa concessionaria desses
serviqos. A transferencia fi-
cou por conta do d6bito de 8
milh6es de cruzeiros (da 6po-
ca), assumide pela PMB com
a subscricgo de aq6es da em-
presa e em decorr8ncia do
fornecimento de energia para
a iluminagdo pdblica na ca-
pital paraense.
Se o valor dos bens fosse
superior ao do d6bito, o sal-
do restante deveria ser utili-
zado na quitaqio de d6bitos
existentes junto a instituiq6es
de previdencia e companhia


de seguros, ou na indeniza-
qCo de funcionarios do De-
partamento Municipal de
Forqa e Luz, que era o encar-
regado dos serviqos.

Policia
Quando president da
UECSP (Uniao dos Estudan-
tes dos Cursos Secundaristas
do Pard), em 1960, o hoje pu-
blicitario Jos6 Severo sugeriu
ao secretArio de seguranca pi-
blica, Arnaldo Moraes Filho,
a criaqio de uma Polfcia Es-
tudantil. Essa delegacia fica-
ria especializada em tratar
"dos assuntos da classes secun-
darista". Consultado sobre a
idWia, o reporter Jos6 Reymio,
setorista de policia da Folha
do Norte, apontou para o car-
go o delegado da Ordem Po-
lftica e Social, Baleixo, "au-
toridade de atos moderados",
que estaria "A altura de poder
servir aos estudantes". A de-
cisao ficaria corn o chefe de
policia, Vasco Borborema.

Fichado
Em 1961, quando era supe-
rintendente da Estrada de Fer-
ro de Braganca, o engenheiro
Filadelfo Cunha participou de
uma passeata realizada em
Bel6m para enforcar (simboli-
camente, 6 claro) o ministry da


II I II I






AGOSTO/2002 JOURNAL PESSOAL. 7


Mais uma vassoura?


Hd 42 anos que o matogrossense Janio da
Silva Quadros conseguiu empolgar o eleitorado
brasileiro, elegendo-se president da Reptblica
com a maior de todas as votagdes registradas ati
entdo: 48% dos votos. Sua maior credencial era a
estrondosa carreira political que fez em Sdo Paulo,
o carro-chefe da federaado, tornando-se vereador,
deputado estadual, prefeito da capital e
governador do Estado em apenas sete anos. Com
o detalhe, que s6 mostraria seu exato significado
jd tarde demais, de ndo ter completado nenhum
desses mandates, obtidos cor votadao
consagradora.
Ao se apresentar como candidate ao cargo
mais elevado da vida piblica, Jdnio enumerava na
sua propaganda as obras que realizou no governor
de Sao Paulo, destacando a educagdo. Por trds de
todas as mensagens, porim, havia uma que se
destacava: a da moralidade. Janio prometia varrer
a sujeira do pais com sua vassoura, reforgando a
simbologia com um discurso populista e uma
presenga carismdtica.
Era um salvador da pdtria. Mais um. Eles
sempre aparecem. E sempre que recebem a
delegaado do povo atrav&s do voto o resultado e o
mesmo: crise geral, provocada por esse
personalismo doentio, que gera autoritarismo
politico e presuncao de genialidade
administrative.


CONTRA FATOS NAO HA ARGUMENTOSI


manRP 0BAEL


viaq~o. Foi o bastante para o
famigerado DOPS abrir uma
ficha classificando Filadelfo
de comunista e o colocando em
observagbio a partir de entao.
Em junho de 1964, ji sob
o regime military que dep6s
Jcio Goulart, ji suplente de
deputado estadual, Filadelfo
pediu uma "folha corrida" A
Delegacia da Ordem Politica
e Social. Ficou no queria: con-
tinuava fichado como comu-
nista. Ao seu estilo, Filadelfo
carregou nas tintas em ofici-
os encaminhados As autorida-
des do setor, protestando con-
tra a media. Dentre outras,
pediu ao servigo secret do


Ex6rcito para investigi-lo e
fazer a prova dos nove: era
mesmo comunista?

Acidente
Em novembro de 1962 o
entao ginasiano Jose Thomaz
Maroja, que se tornaria advo-
gado, como o pai, tamb6m
Jos6 Thomaz Maroja, chegou
em estado grave "o Hospital
Barros Barreto. Tinha feito
um disparo accidental contra
o peito ao usar, como brin-
quedo, um revolver que en-
contrara na gaveta do av6.
Foi operado as pressas por
uma equipe liderada por Al-
mir Gabriel, secundado por


Jorge Loureiro e Rui Ventu-
ra. Maroja se recuperou, fez
carreira e prometia seguir a
trajet6ria da familiar. Mas
morreria muito cedo, em ou-
tro acidente.

CIeo
No exercfcio do mandate
de senadL,, e ressaltando sua
condiaio de ex-governador do
Pard e ex-conandante da 8'
Regito Militar, o marechal
Alexandre Zacharias de As-
sumpqao escreveu uma carta
ao general Cost. e Silva, mi-
nistro da Guerra, em maio de
1964, para defender o advo-
gado Cl6o Bernardo, presi-


dente do PSB (Partido Socia-
lista Brasileiro no Para). C16o,
na 6poca chegando aos 50
anos, foi preso como subver-
sivo logo depois do golpe mi-
litar de 31 de margo.
Assumpqco lembrou que
C16o se apresentara como vo-
luntArio para participar da
campanha da Forca Expedi-
cionaria Brasileira na Segun-
da Guerra Mundial, que era
socialista moderado" e que
virias vezes denunciara a
corruppqo, inclusive da es-
querda, colocando-se contra
os comunistas. Se fosse sol-
to, saberia defender-se de
qualquer acusag~o.


- 0 1EITO E iaJ O I


'77






8 JOURNAL PESSOAL AGOSTO/2002
FUTEBOL



Paissandu: campeao



das grandes gl6rias


Os supersticiosos podem anotar: o pe-
rfodo de julho a agosto 6 o mais favord-
vel ao Paissandu, o time que mais honras
ji deu ao futebol paraense. A maior de-
las, no infcio do mes, tornando-se cam-
pedo dos campe6es e se habilitando como
o primeiro club de todo o norte do pais a
disputar a Taga Libertadores da Am6rica.
A maior gl6ria anterior havia sido alcan-
gada em 18 de julho de 1965, quando o
Paissandu aplicou goleada de 3 a 0 no
Pefiarol, campeao uruguaio e future cam-
peao do mundo.
Essa hist6ria tinha tudo para ser um
desastre. O entdo president do Paissan-
du, o corretor de im6veis Urubatan
d'Oliveira, era ne6fito em mat6ria de tem-
poradas futebolisticas. Comprometeu-se
a pagar mais de 20 mil d6lares (quase 50
milh6es de cruzeiros, valor da 6poca) por
dois jogos do time uruguaio em Bel6m.
Isso, em plena temporada de f6rias, sem
uma campanha de divulgagqo e sem um
estidio A altura da empreitada. Para que a


empreitada se realizasse, a Urubatan pre-
cisaram sejuntar cartolas bicolores, como
Giorgio Falangola, Abilio Couceiro e Na-
bor Silva, que endossaram a parada.
Financeiramente, a aventura foi mes-
mo desastrosa. O primeiro jogo s6 ren-
deu 12 milh6es de cruzeiros. O Paissan-
du tentou atrair o Remo para uma parce-
ria, mas os azulinos vinham de uma parti-
da com o Nacional, em Manaus, dias an-
tes, e um segundo jogo logo em seguida,
pelo campeonato national, em campanha
vitoriosa. NZo iam ceder jogadores para
um combinado. Nem iam facilitar as coi-
sas para a segunda partida com o Pefiarol
se realizar em seu estidio, o inico com
iluminagdo para jogos noturnos.
O Paissandu teve entdo que se aliar a
Tuna para former o combinado, que nem
tinha camisa (precisou emprestar o uni-
forme do clube dos motorists, o Salevi:
camisas tricolores, meias vermelhas e cal-
96es brancos), e abriu os portoes do aca-
nhado campo da Curuzu, cor capacida-


de para 15 mil pessoas, que recebeu qua-
se 25 mil torcedores, em plena tarde de
uma quarta-feira, 21 de julho. Resultado:
o alambrado separando as arquibancadas
do gramado ruiu duas vezes, ferindo al-
gumas pessoas (inclusive o t6cnico Mi-
guel Cecim), embora sem gravidade. Mais
prejufzo ainda: o conserto custaria um
milhao de cruzeiros.
Mas o Paissandu deixou tonto o Pefia-
rol, com gols de trcio, Milton Dias (que
acabaria contratado pelo time uruguaio)
e Fernando. Na segunda partida, com o
combinado, houve empate de 1 a 1, gol
de Nascimento para os paraenses e de
Spencer, aos 43 minutes do segundo tem-
po, para os uruguaios. Que chegaram a
Bel6m com invencibilidade de 15 parti-
das e duas vit6rias seguidas sobre o San-
tos de Pel6 & Cia., possuindo cinco titu-
lares da seleqao uruguaia, e aqui, como
todos os artists, se acabaram.
O glorioso Paissandu jogou a 18 de
julho de 1965 com Castilho;Oliveira,






AGOSTO/2002 JOURNAL PESSOAL 9


Abel, J. Alves e Carlinhos; Beto e 40;
Fernando, Milton Dias (La6rcio), tdson
Piola (Milton Marabd) e trcio.
O combinado Paissandu-Tuna formou
corn Castilho; Oliveira, Abel, Morais (Joao
Tavares) e Carlinhos; Antenor (Beto) e Da
Silva; Edilson (Santiago), MArio (Vila),
Nascimento (Milton Dias) e trcio.
t bom ndo esquecer que exatamente 20
anos antes, em 22 dejulho de 1945, o Pais-
sandu aplicou a hist6rica goleada de 7 a 0
sobre o meu Clube do Remo, dentro do
estidio Ant6nio Baena, jogo apitado pelo
juiz Alberto da Gama Malcher. O primei-
ro tempo at6 que foi dentro do figuring: 1
a 0 para o Papao, gol de H6lio. Mas o se-
gundo tempo foi arrasador: Farias, Soid,


novamente Soid, de novo ele, Hl6io e Nas-
cimento colocaram a bola, nessa seqiitn-
cia, dentro do arco do at6nito Leao Azul.
O Paissandu jogou com Palm6rio,
Izan e Athe; Mariano, Manuel Pedro e
Nascimento; Arleto, Farias, H6lio, Gui-
marles e Soii.
O Remo teve em campo Tico-Tico; Je-
sus e Expedito; Mariozinho, Rubens e Vi-
cente; Monard, Geju, Jango, Capi e Boro.
Por terem trocado sopapos entire si, Ar-
leto, pelo Paissandu, e Vicente, pelo
Remo, foram expulsos. 0 t6cnico do alvi-
azul era o tenente Floriano e o do azuli-
no, Alfredo Gama. JA os presidents eram
Francisco Aguiar Nogueira e Nestor Pin-
to Bastos, respectivamente.


Para nao ficar s6 Paissandu neste re-
gistro, 6 bom nao esquecer a faganha do
Remo em 1965: conseguiu fazer o San-
tos, campeAo do mundo, jogar no "Evan-
dro Almeida" (por 40 milh6es de cruzei-
ros, ou 20 mil d61ares de entio) uma par-
tida encantadora, na qual os dois times
pareciam iguais, proporcionando um belo
espetaculo a quem esteve no estadio na-
quela noite (eu, inclusive).]
t verdade que Peld, Coutinho & Cia.
fizeram nove gols. Mas o Remo retribuiu
cor seis, dos quais dois nAo foram vali-
dados. Final: 9 a 4, uma derrota gloriosa,
de gosto muito mais doce do que as in-
sossas vit6rias que, de vez em quando, o
time atual consegue alcancar.


ESTRADA



O asfalto na BR-163:



no rastro da destruigao


O governor federal pretend asfaltar no
pr6ximo ano os 784 quil6metros que fal-
tam para concluir a BR-163, consolidan-
do a ligaao entire Cuiaba, a capital de
Mato Grosso, e Santar6m, a mais impor-
tante cidade na calha do rio Amazonas,
entire Manaus, no Amazonas, e Bel6m, no
Pari. Iniciada na d6cada de 70, em plena
euforia do "pra frente, Brasil", do regime
military, a estrada s6 6 plenamente trafe-
gavel atd a divisa de Mato Grosso cor o
Parn. A partir daf, 6 um autentico cami-
nho das ongas, apelido dado A primeira
das grandes rodovias que rasgaram o in-
Sterior da Amaz6nia, a Bel6m-Brasflia, na
d6cada de 50. O leito de terra batida fica
intrafegivel durante grande parte do ano
e as pontes de madeira sdo um desafio a
coragem e a pericia dos motorists que se
Saventuram na travessia, demorada e cus-
tosa apenas na estaqAo do verio.
Mas agora a Santar6m-CuiabB se tor-
nou necessAria. Em primeiro lugar para
os produtores de soja, que economizarlo
! centenas de quil6metros e muitos d61ares
de frete se fizerem sua producio ser em-
barcada em Santar6m, a 700 quil6metros
do Oceano Atlintico, atalhando a rota dos
mercados intemacionais, do que precisan-


do levi-la at6 o porto de Santos, como v8m
fazendo atualmente. A Cargill, maior pro-
dutora desse grao, ji estA construindo um
porto especializado na cidade paraense e
patrocina um comboio, que, entire os dias
7 e 10, percorreu 1.600 quil6metros, corn
a tarefa de sensibilizar a opiniAo pdblica
e as autoridades para a importAncia de
colocar em ponto de trifego a rodovia.
Houve "caminhonagos" e discursos nes-
se period para colocar em prAticas as ir-
realizadas promessas que sucessivos go-
vernos fizeram de terminar a obra.
Nos dias 21 e 22 serb realizada a pri-
meira reuniao, ainda fechada, para discu-
tir o licenciamento da pavimentagao da
BR-163. t um acontecimento in6dito na
Amaz6nia: uma estradaja existente, cons-
truida antes de terem sido criadas as nor-
mas de proteqio ecol6gica, ter que sub-
meter Eia-Rima (estudos e relat6rios de
impact ambiental) para que seus servi-
qos de finalizagao sejam aprovados. O
contingenciamento foi imposto a partir da
premissa de que o asfaltamento, ao per-
mitir um trffego permanent e multipli-
cado, representarA impact equivalent ao
de uma obra nova. Impacto que se fard
sentir sobre uma area de quase 8 milh6es


de hectares, com profundidade de 50 qui-
l6metros para cada lado da estrada ao lon-
go de 784 quil6metros.
Apesar do avanco que essa metodolo-
gia represent e do cuidado que os con-
sultores do Eia-Rima adotaram, dispon-
do-se a abrir a discussAo cor stores re-
presentativos da sociedade antes mesmo
de submeter seus relat6rios As audiencias
pdblicas, que deverio ser convocadas ain-
da neste ano pelo Ibama (Instituto Brasi-
leiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renoviveis), o avango 6 menor
do que aparenta. Mesmo corn a conces-
sao feita pela empresa de consultoria, de
estudar os impacts do asfaltamento da
Santar6m-Cuiabi sobre uma Area de 8
milhoes de hectares e nao apenas no es-
trito tragado da rodovia, o universe de
abrangencia da avaliaqao ainda 6 limita-
do.
Ningu6m duvida do efeito multipli-
cador que resultari do asfaltamento da
BR-163. Mesmo corn sua pista preca-
ria, elaji deu acesso a garimpos de ouro,
e ndcleos de colonizaqao, e permitiu a
formagao de indmeras fazendas. Tam-
b6m ter servido de escoadouro para
uma intense extraqio de madeira, espe-






4 1* JOURNAL PESSOAL AGOSTO/2002


COBRE


cialmente o mogno, feita de uma ma-
neira desordenada e selvagem.
A claro que uma estrada em pleno tra-
fego, incrementando os fluxos migrat6ri-
os e a capacidade de intervencao do pio-
neiro sobre a natureza, pode tamb6m ser
o eixo da lei e do seu aplicador, o gover-
no. Mas a intensidade da presenga do se-
gundo sempre 6 muito menor do que a
forca do primeiro na fronteira amaz6ni-
ca. A razoivel temer o agravamento dos
problems numa escala bem maior do que
o surgimento das solug6es.
A estrada, alias, parece vir para con-
solidar o caos que se estabeleceu nesse
interfldvio Xingd/Tapaj6s, que consti-
tui a area de influencia da BR-163. A a
derivagao norte-sul do eixo predominan-
te, no sentido leste-oeste, da Transama-
z6nica, na voragem da integraao naci-
onal da Amaz6nia ao embalo do "mila-
gre econ6mico" da d6cada de 70. Ao
inv6s de desfazer os n6s, vai legitim&-
los, ou, melhor dizendo, arrematar essa
legitimag~o, jA em curso.
HA duas semanas, Bartolomeu Morais
da Silva, mais conhecido como Brasilia,
foi assassinado em Castelo dos Sonhos,
uma das principals cidades dessa regiao,
se tal expressio urbana cabe na realidade
agreste do local. Delegado do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Altamira no
distrito, Brasilia foi executado corn 12 ti-
ros e requintes de selvageria. Estava mar-
cado para morrer desde meses antes. Seu
crime: garantir um lote para os pequenos
produtores, que tiveram a porteira da pro-
priedade fechada por poderosos ocupan-
tes de terras pdblicas.
Contrariando (e desafiando) a lei, es-
ses mistos de fazendeiros e madeireiros
se instalam nos melhores terrenos, tracam
o que vira a ser seu im6vel e tratam de
requere-lo ao Estado. Sob a justificativa
de que estA apenas consolidando o que ji
esta feito e consumado, o governor esta-
dual voltou a admitir os requerimentos de
compra e a processar as transferencias dos
bens do patrim6nio privado para o domf-
nio particular. N.o faz a discriminat6ria
da area, que Ihe permitiria deslindar a si-
tuagao fatica do terreno, nem submete a
alienagao ao chamamento pdblico, atra-
v6s da concorrencia aberta a todos. Vol-
tou-se atras na hist6ria, ao tempo em que
o Estado era apenas escrit6rio official de
corretagem fundidria.
Repete-se, entire os vales do Xingu e
do Tapaj6s, os mesmos erros da ocupa-


Em surdina, decisao


que vale milhoes


o mes passado opresidenteda As-
sembl6ia: Legislativa do Park,
MartinhoCarmona, aceitou rece-
ber somente o president da Companhia
Vale do Rio Doce, nao os seus dois acom-
panhantes (o director de desenvolvimento da
empresa e seu representante local). Os tries
tinham ido ao gabinete do deputado para
tentar convenc&-tia colocar em vota&qo a
mensagem encaminhada pelo executive no
dia27 dejunho. Esse eraum dos temas, cer-
tamente o mais important e polemico, da
pauta de convocagao extraordinfria do le-
gislativo para o pedodo de firias.
Quando soube que a poderosa CVRD,
dona de um faturamento de dois bilh6es
de d6lares, que responded por 16% do PIB
(Produto InternmBruto) do Estado, Car-
mona retirou a mensagem 028/02/GG das
mios do seu relator, o deputado Andr6
Dias, e guardou o document a sete cha-
ves. Mantinha esse control quando a co-
mitiva da Vale bateu a sua porta. Primei-
ro ameacou nao receber ningu6m. Depois,
quando os tries visitantes chegaram A ante-
sala do seu gabinete, imp6s a condigo:
apenas Roger Agnelli entraria.
Agnelli, executive egresso do Brades-
co, tentou mostrar que a aprovacgo da lei,
incluindo o cobre entire os produtos ji be-
neficiados pelo diferimento tributdrio, era


9go do Araguaia-Tocantins: o pioneiro
vai na frente e define as regras do jogo
conforme os seus interesses; o Estado
vem atras, sacramentando o resultado
desse feroz darwinismo social. A obra
pdblica se insere nessa 16gica, que con-
valida as desigualdades, as injustigas e a
violencia. Quando uma peca da engre-
nagem destoa, 6 afastada: pela via da in-
timidaglo, em alguns casos, ou pela eli-
minaco sumaria, como aconteceu corn
"Brasilia", no reerudescimento da onda
dos crimes anunciados.
0 asfaltamento de uma estrada deixa
entgo de ser uma obra meramente t6cnica
e um event de impact localizado para
ter amplitude mair e mais profunda Cer-


indispensivel para viabilizar o Projeto
Sossego, no valor de um bilhao de reais,
que darl partida a exploralAo econ6mica
da primeira das cinco jazidas do min6rio
existentes em CarajAs. 0 diferimento te-
ria sido decisive, em 1993, para a implan-
taiAo da Alunorte, hoje a maior produto-
ra de alumina do continent, reduzindo em
7% o custo do empreendimento.
0 president do legislative, por6m, nio
recuou. Num dillogo Aspero e dificil, sus-
tentou sua posi~ao com uma conceituagio
depreciativa ao projeto de lei do governor:
sepia vergonhoso para o Estado e leonino
para a CVRD. Nio podia, portanto, ser
aprovado pelos deputados (que nem tive-
ram a oportunidade de se manifestar, ji que
oprojeto nem chegou a tramitar na casa).
Al6m desse argument, por6m, um elemen-
to polftico foi decisive: o rompimento en-
tre Martinho Carmona eo governador Al-
mir Gabriel, ambos do mesmo partido, o
PSDB, mas em barcos antag6nicos.
Com o cuidado de nao expor seu flan-
co para as sang6es legais, em virtude da
verticalizaglo das coliga6es, o president
da AL ap6ia a candidatura do vice-gover-
nador Hildegardo Nunes, do PTB, a su-
cesslo de Almir. Hostiliza e 6 hostilizado
pelos adeptos da candidatura do ex-secre-
tario de planejamento, Simao Jatene, in-


tamente nio faz parte do Ambito do Eia-
Rima da BR-163 indagar sobre a defini-
91o do eixo preferencial de transport: se
a pr6pria estrada de rodagem, se a ferro-
via ou a hidrovia. Tamb6m n4o estA no
seu Ambito questioner pela necessidade
pr6via de haver um comity de baciainsta-
lado para gerenciar 6 uso da bacia hidro-
grafica, nem exigir que antes de um in-
vestimento infraestrutural haja um piano
de desenvolvimento global.
S6 atrav6s desse plano seria pelo me-
nos possivel examiner as variaveis alter-
nativas a estrada, compatibilizar as obras,
as feitas e as projetadas, aproveitar ou
induzir sinergias e, o mais important,
ensaiar um planejamento integrado par


I


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AGOSTO/2002 JOURNAL PESSOAL *


cluido o governador. No iltimo epis6dio
do confront, Carmona conseguiu tornar
in6cua a convocaqco extraordindria, que
ainda causou dissabor entire os governis-
tas por causa da pol8mica em torno de tries
aposentadorias especiais requeridas pelo
executive, tema banal que se tornou ex-
plosivo pela inabilidade da situaqco.
Depois que Carmona mostrou suas ar-
mas, agora parece ser a vez do governor,
que promete cobrar a devolugqo da verba
extra que alocou para os parlamentares
trabalharem durante o period de convo-
cagao extraordinaria. Ja que suspenderam
a apreciaqio das mat6rias, perderam o di-
reito a receber os jetons.
O complicador politico foi decisive
para a ma sorte da missao dos executives
da CVRD. Certamente essa rixa constitui
um element de desqualificagio da resis-
tencia oposta pelo president do legisla-
tivo. Independentemente de sua motiva-
qao delet6ria, por6m, Carmona tocou
numa chaga aberta: o conteddo do proje-
to de lei do governor. Ele estende ao cobre
os beneficios tributirios ja concedidos a
outros bens minerals e de origem mine-
ral: bauxita, ferro, mangan8s, alumina e
alumfnio. Todos eles produzidos pela
Companhia Vale do Rio Doce.
A prdtica do diferimento, que consiste
em transferir o inicio da cobranqa do im-
posto para uma fase posterior, quando a
empresa estiver em atividade commercial,
teve inicio com a Alunorte, investimento
de 500 milh6es de d6lares na 6poca que
possibilitaria completar o ciclo do alumf-
nio no Pard. O Estado ja produzia o mi-


n6rio e a liga de aluminio. Ainda estava
faltando o bem intermediario, a alumina.
A Alunorte, que tivera seu projeto conge-
lado durante vdrios anos, prometia reati-
vA-lo, desde que contasse com o diferi-
mento. Por conta desse beneficio, adian-
taria US$ 14 milh6es ao Estado.
A lei de 1993 estabelecia algumas con-
dic6es para o usufruto da concessao (como
o reconhecimento pela empresa da inciden-
cia de ICMS sobre a exportagio de alumi-
nio, e a desistencia de qualquer demand
judicial nesse sentido), que se tornariam
in6cuas corn a Lei Kandir. Ela simplesmen-
te desonerou de qualquer tribute as expor-
taq6es de semimanufaturados e ainda con-
cedeu cr6ditos aos exportadores por conta
do imposto que ndo recolhem. O diferimen-
to tamb6m obrigava a empresa a favorecer
a verticalizaqgo do aluminio no Para, ofe-
recendo mat6ria prima para ser industria-
lizada internamente (o que foi realizado em
proporg6es despreziveis).
O beneficio permaneceria em vigor por
10 anos. Em 2000, quando a concessao foi
estendida a todas as atividades da CVRD
no Para, ji na administrator Almir Gabri-
el, o tratamento tributario especial passou
a ter vigencia de 15 anos. Mas nao s6 isso:
o diferimento passou a se aplicar nao ape-
nas A atividade diretamente produtiva e as
aquisic6es que fossem incorporadas ao ati-
vo fixo, mas tamb6m aos bens de uso e
consume, inclusive os importados, e at6 A
compra de energia, ja subsidiada, na gera-
co, por media do governor federal. Ou
seja: a CVRD tanto deixava de pagar o
imposto de um insumo destinado ao pro-


cesso produtivo, como pelo papel higi6ni-
co que adquirisse.
Recebendo a mensagem do executive
em regime de urg6ncia, "haja vista a rele-
vAncia da mat6ria nele disciplinada",
como ressaltava o document, o deputa-
do Martinho Carmona teria motives mais
do que suficientes para estranhar a press
da administration Almir Gabriel em resol-
ver uma questao dessa gravidade pelo rolo
compressor da convocaqao extraordini-
ria. Embora o projeto de lei tenha, na es-
sencia, um dnico artigo, com dois pard-
grafos e tres incisos, cada um deles en-
volve dezenas de milhoes de reals de re-
ndncia fiscal do Estado.
Mesmo que os meios adotados pelo
president do legislative paraense possam
vir a ser condenaveis ou sofrer restriq6es,
o fim alcancado 6 legitimo: obrigar o con-
cedente do beneficio e o beneficidrio a
explicarem a sociedade a important me-
dida, que tomariam em gabinete fechado
se a tramitaao urgente do projeto nao ti-
vesse sido brecada nos atoleiros desse
period eleitoral.
Pelo menos desta vez o choque de in-
teresses menores favoreceu uma causa
maior: a demonstraqao da relevancia do
diferimento para viabilizar o primeiro
projeto de exploraqgo de cobre em Ca-
rajas. Al6m disso, sera precise apresen-
tar as compensaqOes a que a sociedade
paraense faz jus por conta dessa conces-
sao. Compensag~o clara, explicit e co-
letiva. Nao entire quatro paredes e para
fins furtivos, como costuma ocorrer em
situaqfes semelhantes.


todo o espaqo regional. Esse planejamen-
to foi examinado na 6poca do regime mi-
litar, mais como um ensaio intellectual (ou
um desencargo de consci8ncia, para efei-
to meramente documental) do que como
ato executive. Mas agora nem isso esta
sendo feito, embora haja um estado de
atenq~o da opiniao pdblica em relaqdo A
Amaz6nia e regulaqoes ambientalistas.
As normas existem, sdo at6 claras e ha
inclusive agencies para coloca-las em pri-
tica. Mas parece ser insuperdvel a distin-
cia entire a letra morta da lei e a dinAmica
da realidade. Nao ha uma dnica agencia
de bacia instalada na maior bacia hidro-
grafica do planet e nenhum plano de de-
senvolvimento estd em vigor na regiAo


que foi pioneira nesse tipo de planejamen-
to. Todo o arcabouco normativo e as be-
las declaraq6es de prop6sitos feitas nos
grandes centros nao conseguem chegar as
frentes pioneiras, como a que esta em ati-
vidade fe6rica na Area de influencia da
BR-163, derrubando Arvores, formando
pastagem, abrindo estradas clandestinas
e assassinando adversArios.
Esquadrinhando essa selva selvaggia
em seus computadores, a partir de pla-
nilhas de calculo, nas quais emerge
como conseqiiencia 6bvia fazer fluir o
fluxo de cargas atrav6s de uma estrada,
que vai reduzir as distancias e diminuir
o custo do frete, dando competitivida-
de international a um produto brasilei-


ro, os criadores das obras pensam-nas
no universe do seu dominio, envolven-
do apenas numeros, abstraq6es, ima-
gens, imaterialidade. Seria a maneira de
considerar veniais seus pecados.
Mas quando nos defrontamos com
as obras na pr6pria realidade, o resul-
tado se torna um aut6ntico pecado mor-
tal: seus efeitos divergem na pratica do
que foi projetado na idealizacqo. O que
foi concebido para ser um instrument
do progress e do bem-estar geral vira
poderoso combustivel no fogar6u da
destruiqao, que nunca parou de lavrar
no sertao amaz6nico. Ele ird se ampli-
ar um pouco mais corn o asfaltamento
da Santar6m-Cuiabi.









Bauxita
A Mineragio Rio do
Norte, a grande produtora
de bauxita do Trombetas,
n2o 6 mais acionista da
Alunorte, empresa que
compra o min6rio para
transformn-lo em alumina.
As ages da MRN foram
transferidas para a Aluvale,
a holding da Companhia
Vale do Rio Doce para o
setor e detentora do
control acionSrio da
Alunorte. Outros s6cios na
fabrica de Barcarena sio a
brasileira CBA
(Companhia Brasileira de
Alumfnio), do grupo
Ermfrio de Moraes, e a
norueguesa Norsk Hydro.
O carioca Murilo
Ferreira foi reconduzido por
mais tres anos A presid8ncia
da Alunorte. A diretoria
industrial continue cor o
mineiro Galibi Chaim.


Dominical
No iltimo domingo 0
Liberal, cor prego de capa
de 3 reals, anunciou estar
circulando corn 82
paginas. JA o Didrio do
Pard, a R$ 1,50 o
exemplar, declarava ter
102 paginas. Na verdade, o
Didrio tinha 80 pAginas no
formado standard porque
seus tr8s de seus cadernos,
contados como tendo
tamanho comum, sho
tabl6ides, com paginas
pela metade. JA O Liberal,
trazendo um tabl6ide, tinha
76 paginas normals.
Isto significa que, na
edicio dominical, O
Liberal custa o dobro do
seu concorrente. Como
nao ha um diferencial
qualitative expressive, a
diferenca 6 um fator de
peso, caso o leitor consiga
examiner a questao por
esse angulo.


Silencio


O Liberal anunciou no mes passado, em
manchete de primeira pagina, que havia fis-
sura em uma das pontes da Alga Viria. No
dia seguinte, a construtora OAS publicou
destacada mat6ria paga no journal desmen-
tindo a informaqgo. A partir do dia imedia-
to o assunto morreu. 0 journal n~o corrigiu
sua mat6ria, nem desmentiu a nota da em-
preiteira baiana. Calou-se apenas.
Na verdade, nao hi a fissura escanda-
losamente noticiada. Ha colisoes de em-
barcaq6es com os pilares das pontes. O
problema existe, mas os acidentes ocorri-
dos at6 agora nao afetaram a estrutura
da obra. A construtora e a capitania dos


Mais uma vez
Escravo da minha criatu-
ra, cedo ao pedido de muitos
leitores e volto a tirar o Jor-
nal Pessoal. Garantem esses
leitores que a elevaqao do pre-
go do journal, que agora se faz,
nao sera problema. Todos es-
tariam conscientes de que 6 a
maneira certa de manter a pu-
blicaqdo viva. Apostam que
nao havera defecoqes. Eu nao
poderia me manter insensivel
a tantas e tdo pungentes men-
sagens, embora me arreceie
de seu custo como o gato es-
caldado da agua fria.
A volta, por6m, traz mu-
dangas. Ainda c6tico quanto A
eficacia de um caminho que


portos tomaram suas providencias para evi-
tar os choques, quase sempre causados por
descuido dos tripulantes ou por uma ou
outra falha operacional, incluindo a ilumi-
nagdo dos pilares.
Todos os jornais de respeito levam mui-
to a s6rio as suites. Acompanham os as-
suntos relevantes que noticiam para man-
ter bem informada a opiniao piblica, para
cobrar providencias das autoridades e para
poder encerrar a cobertura esgotando a
mat6ria. Interrupcoes bruscas podem dei-
xar a impressed de que houve alguma in-
terfer8ncia, geralmente in-
d6bita, para que o tema
fosse abandonado.
NMesmo quando se trata
apenas de incompetencia
professional. pode-se de-
duzir a existnncia
de ma fe na
hisr6ria.


duas semanas atris considera-
va inviavel, fiz duas mudangas
significativas no journal. Por
enquanto sua periodicidade
passara de quinzenal a mensal.
Para nao haver impact, gemi-
dos e ranger de dentes, o nu-
mero de piginas cresceu 50%,
de 8 para 12, uma forma tam-
b6m de encorpar um jomal que
passa a ser mensal.
Gostaria muito de partilhar
com todos os leitores as men-
sagens que me foram envia-
das, mas nao recebi autoriza-
9qo explicit dos seus autores
para divulgi-las. Fiquem eles
sabendo, entretanto, que Ihes
sou imensamente grato. Ler o
que me mandaram dizer foi
um pr6mio maravilhoso, em-


bora imerecido. Superou de
muito os dissabores e perse-
guiqbes que tenho sofrido. Re-
comp8s minha tempora e ter
servido de companhia recon-
fortadora nas reflexes mais
intimas que tenho feito sobre
o significado de continuar a
manter este journal como uma
frente de luta amaz6nica.
Goethe disse, no momen-
to final, que o resto 6 sil8n-
cio. E o que resta dizer neste
moment de renascimento.
Mesmo que seja para morrer
logo em seguida. Afinal, ou-
tro grande poeta, o nosso por-
tugues Fernando Pessoa, dis-
se por n6s (e para n6s) todos
que viver nao 6 precise. Ora,
pois: vamos a navegacqo.


Journal Pessoal
" Edlldr Luoo FIAvlo PP.no FaC (01) 241.-7r26 ColMto: Tv.Baniinn ConmInl 45420.0I53440- nilar r -lul o
4, 149 4F 1 4078
SB4/B1/13 37.8 B


d i&ArMr:LmiduWMii I