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Journal Pessoal L C O F L A V I O PI N TO V, QU iENs ELEICAO 0 carnaval do voto A political paraensepode mudar em 2002. Maspode mudar apenas de dono. 0 ex-senadorJader Barbalho pode ceder suaposivdo hegem6nica a outro dominador. 0 candidate do patrol politico do moment, o governador Almir Gabriel, exposto no balcdo eleitoral como uma mercadoria intensamente trabalhada pelo marketing. 0 eleitorpassa a ser "detalhe". E assim que surge uma zebra? A leiqgo de 2002 pode marcar o fim dos 20 anos de presenga hegem8nica de Jader Fontene- le Barbalho na polftica paraen- se. Desde 1982, quando se elegeu gover- nador do Estado pela primeira vez, usan- do o poderoso suporte de Alacid Nunes, A- ! e 'I A 0 03 que Ihe passaria o cargo no ano seguin- te, Jader foi o eixo da dispute pelo po- der. Sua marca registrada nesse period foi a capacidade de sobreviver a circuns- tancias adversas e a golpes duros com o seu carisma, o element de maior mag- netismo politico entire as camadas majo- ritarias da populardo, agrupa4as nas fai- xas mais pobres de renda. A derrota de 1998 para Almir Gabriel indicou um emagrecimento da base de sus- tentagio eleitoral de Jader, mas sua derro- ta ainda teve um tom de heroismo: era a primeira vez que governadores podiam N A PARA 0 P(a3.3 2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JULHO/2002 concorrer a reeleicao permanecendo no cargo, Almir Gabriel utilizou a maquina official, aplicou muito mais dinheiro na campanha e tinha a empurrf-lo o governor federal, a forqa pliblica predominante dos investimentos num Estado de fronteira como o Para, "vocacionado", sobretudo por suas riquezas minerals, ao modelo eco- n6mico dos grandes projetos. Deles sem- pre sobra um "troco" do faturamento, que constitui a diferenqa para quem se mostra simpitico a esse tipo de empreendimento, como o governador Almir Gabriel, e pode virar "sobras de campanha". Aparentemente, ao decidir, a iltima hora, trocar a dispute de um cargo majori- tirio por uma vaga proporcional, o ex-se- nador deu um pass atrds para dar dois passes a frente, num saque de leninismo intuitive. Assim, ele poderd despontar das urnas como um dos deputados federais mais bem votados do pais, carregando para sua bancada alguns outros parlamentares (provavelmente incluindo o ex-amigo-de- pois-adversdrio-agora-amigo-de-novo H- lio Gueiros) e criando as condiqges para a "volta por cima" dentro de quatro anos. Desta maneira fortaleceria regional- mente o PMDB e se credenciaria para novamente ser um interlocutor national, sem se expor ao desgaste de retomar o caminho pelo Senado, do qual foi defe- nestrado. Ao mesmo tempo, passaria a contar com a proteqao da imunidade par- lamentar para nao ser surpreendido pelo desfecho de algum dos inimeros proces- sos, administrativos ou judiciais, em cur- so contra ele. Qualquer media punitive passaria a defender de uma autorizaqao pr6via da CAmara dos Deputados para poder ser executada. E o que diz o discurso peemedebista. Mas nao 6 toda a realidade. Al6m disso, o desfecho pode nao ser o que ele anuncia. Serd precise esperar por uma pesquisa de opiniao s6ria para verificar como o povo reagiu a essa "volta por cima". Ela pode muito bem ser entendida como fuga. O povo nao gosta de quem foge da raia, mes- mo que tenha raz6es gloriosas para ofor- fait (expressio que, sintomaticamente, ji foi corrente em geral de campo de fute- bol). Em 1998 houve gl6ria na decisao de Jader Barbalho de enfrentar uma situaqao francamente desfavoravel, mesmo sob o forte risco de derrota. Por essa 16gica, serb desonrosa a attitude atual, de buscar um novo rumo para nao encarar a possibilida- de de derrota? Apesar de toda a conversa em senti- do contrario, 6 evidence que o ex-presi- dente do Senado pensou na pr6pria pele e nao no PMDB quando decidiu dispu- tar a eleiqao para deputado federal e nao para senador ou governador. O que pe- sou nessa escolha foi o indice de rejei- qao ao nome de Jader. Sua fatia cativa do eleitorado diminuiu pouco, mesmo corn a pesada campanha da imprensa national contra ele, caindo apenas 4 ou 5 pontos percentuais abaixo de um terqo do col6gio eleitoral paraense. Mas a re- jeiqao cresceu bastante porque ha mais eleitores predispostos contra ele. Certamente Jader passaria para o se- gundo turno se fosse candidate a gover- nador, talvez at6 em primeiro lugar. Se vencesse na segunda votaq~o, por6m, a diferenqa a seu favor seria minima, abai- xo provavelmente de 1%. Mas a probabi- lidade maior seria a de perder, qualquer que viesse a ser o seu adversirio, por cau- sa da rejeiqao. Essa tendencia, ajustada as regras da eleiqgo para o Senado, que nao tem segundo turno, seria mais ou menos a mesma ou um pouco pior, caso decidisse recuperar o mandado ao qual re- nunciou no ano passado. O carisma de Jader Barbalho se reno- varia se ele, como fez ha quatro anos, acei- tasse pegar o piao na unha, procurando reverter a conjuntura desfavoravel no con- tato direto com o eleitor e recorrendo As suas maiores armas: o discurso facil, a sim- patia, a ret6rica oposicionista e sua me- lhor aceitacao entire as pessoas mais hu- mildes. Por paradoxal que possa parecer, entretanto, esse caminho s6 ter final feliz para o candidate que, al6m de ter bastante dinheiro, disp6e de estrutura fisica para chegar aos lugares mais distantes do Esta- do, sensibilizando o eleitorado menos sus- cetivel a pregacao da midia, que se uniu nacionalmente contra o politico paraense. Desta vez Jader Barbalho, com um pas- sivo a descoberto monumental (e sem um mandate a sua espera, como havia em 1998, quando ainda tinha quatro anos pela frente como senador), decidiu nao arris- car. Ou arriscar sob control. As coisas s6 darao errado para ele se sua votaqao para deputado nao for consagradora, se a fatia do PMDB na bancada federal paraense nao for majoritaria e se o tom da campanha continuar a ser um plebiscite em torno de Jader Barbalho. Provavelmente ele nio cr8 numa conjugaqao desses fatores. Mas se isso ocorrer, 2002 sera o marco do decli- nio do politico que comandou o poder no Para ao long das iltimas duas d6cadas. Ao optar pela coligagao branca, apoi- ando o senador Ademir Andrade, candi- dato do PSB ao governor, Jader esta se ex- pondo a um segundo risco, este in6dito em sua carreira: permitir que a legend do PMDB se descole do seu nome. t grande o ndmero de peemedebistas dispostos a nao ouvir a voz de comando do lider incontes- tavel at6 agora. Ao inv6s de seguir a cor- rente pr6-Ademir, vao former fileira com Hildegardo Nunes, na dissidencia da "fren- te trabalhista", comandada pelo PTB, ou com Simao Jatene, o candidate do PSDB, atrelando um laranja a outro laranja (nada que nao seja o estilo da casa, alias). Se essa dupla marginalia constitui de- safio para o Minist6rio Piblico e ajustiga eleitoral, encarregados de fiscalizar e fa- zer cumprir a exigencia de verticalizaqao das coligaq6es (no fortalecimento dos par- tidos para ingl8s social-democrata ver), 6 tambem o produto de uma eleiqao com pin- tas de novidade. Novidade que se credit, sobretudo, ao desejo dos mais poderosos de desafiar a credulidade popular confia- dos em seu pr6prio poder de convenci- mento, de manipulacao e de imposicao de sua vontade absolute. No moment em que reserve ao sena- dor Luiz Otivio Campos uma vaga no Tri- bunal de Contas do Estado, promovendo uma ne6fita em gestao pdblica como for- ma de prevenir e compensar revds anun- ciado com quatro anos de ateced6ncia, o governador Almir Gabriel endossa a can- didatura ao Senado do deputado Ducio- mar Costa, o fraudador de diploma de cur- so superior, e da locutora Val6ria Pires Franco a vice-governadoria. Sem nunca ter disputado uma eleicao e sem ter tido sequer uma atuaqao vizinha da funcao po- litica, Val6ria poderi ocupar o segundo cargo do executive estadual sem receber um dnico voto, caso a maquina official faqa de Simao Jatene o successor de Almir Ga- briel. A syndrome do vice esta de volta a praca. Agravada. Em terms estritamente cronol6gicos e formalmente tematicos, tanto o PSDB quanto o PSB, que indicou a capital da PM e joralista Vanessa Vasconcelos compa- nheira de chapa de Ademir Andrade, o PMDB como o PT (com mulheres dispu- tando as duas vagas de senador, e mais uma mulher como pretendente petista ao gover- no), podem argumentar que estao renovan- do a political paraense. Na verdade, estao abrindo oportunidade ajejunos em politi- ca, a mulheres e ajovens. Todos eles, po- r6m, subordinados a uma velha estrutura de mandonismo e de patronato politico. Inovagao cosmetica, portanto. Nesta eleigao, o eleitor esta sendo en- carado como um comprador de supermer- cado. Seu inico poder 6 o de optar por uma ou outra mercadoria colocada na pratelei- ra. Nenhuma das mercadorias dependeu da vontade desse comprador. E ele sera indu- zido a comprar por puro marketing, engo- lindo gato por lebre, urubu fantasiado de fais~o. Essa 6 a circunstancia propicia a surpresas para valer, as verdadeiras zebras. 0 problema 4: quem pode ser zebra na vergonhosa eleigao dos paraenses em 2002? JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE JULHO 3 0 journal acabou. Viva o jornalismo Cor este ndmero se encerra a hist6ria do Jornal Pessoal, a dois meses da festa dos seus 15 anos. A decision 6 de absolute responsabili- dade pessoal, conform autoriza o titulo da pu- blicagqo. Sempre enfrentando enormes dificul- dades para cumprir o compromisso de colocar um novo nmmero na praqa a cada quinzena, aca- bei por me impor um principio semelhante ao do "gol de ouro" da Copa do Mundo: no dia em que ojomal voltasse a ser deficitirio, como havia ocorrido em moments anteriores da sua hist6ria, eu encerraria de pronto sua publica- qFo, sem outras consideraq6es. Nas ocasioes dificeis do passado havia ainda uma certa pou- panga para suplementar o caixa. Agora ela ine- xiste. O caixa geme de c61icas. Para reequilibrar as contas seria precise elevar o preqo de capa. Ha mais de sete anos ele se mant6m em 2 reais, um dos raros casos de abstin8ncia de aumento durante a vigencia do piano de estabilizac o econ8mica (na ver- dade, monetaria e financeira) da era FHC. Nao foram poucos os que reclamaram desse valor. No inicio de 1995 ele realmente continha uma delgada camada de gordura, sem a qual nao atravessaria o inverno hostile que se delineava no horizonte. Hoje, 6 um osso s6, no qual bate a lamina do custo crescente de produqao. Mas elevar o preqo para 3 reais representaria mais uma auto-limitaqao de pdblico, capaz de tirar o estimulo para trabalhar nessa pedreira que e o jornalismo independent pra valer. O que me animou a manter o JP ao long desta dd- cada e meia foi o entusiasmo. Esse gis tonifi- cante esta escapando. Mas tamb6m reconheqo que a razdo de ser dojoral se exauriu. O JP sempre foi uma ano- malia, um desafio as regras da natureza, como um helic6ptero de papel. Concebido para voar, o helic6ptero contraria as regras da permanan- cia no ar. Que sucesso se podia esperar de um journal em format pequeno, que nao usa fo- tos, nao tem cores, As vezes 6 maqudo, di des- taque a assuntos Aridos, nao distingue nem se- leciona adversirios, nao tem senso da oportu- nidade, nao faz concessoes ao gosto facil e se recusa a ter publicidade, limitando-se a fatu- rar o que Ihe paga o leitor e ainda sujeitan- do-o a ir buscar seu exemplar em bancas de revista e umas poucas livrarias? Assim, desafiando 11 das 10 regras do de- cAlogo publicitArio e mercadol6gico, estejor- nal resistiu durante quase 15 anos, com duas interrupq6es na circulaqao, que somaram me- nos de dois anos (intervalo proporcionalmen- te menor do que o sofrido por A Provincia do Pard, teoricamente o quarto journal mais anti- go do pais com seus 126 anos). Nesse perfo- do, o JP foi selecionado como a melhor pu- blicaq~o do Norte e Nordeste do pais pela Fenaj (Federaqio Nacional dos Jornalistas) e recebeu um dos mais influentes premios de jomalismo na ItAlia, que fez deste David im- presso o primeiro nao-europeu a ganhar o Colombe d'Oro per la Pace. Destas deferencias honorificas talvez fique uma moral de interesse coletivo, estimulando osjomalistas a respeitar principios 6ticos e com- promissos profissionais na execugqo de sua ta- refa: manter a opinilo piblica bem informada, no grau maximo de possibilidade. A 6nica li- mitag~o neste jomal sempre foi a capacidade pessoal do seu redator solitrio, tanto a dos seus atributos intrinsecos quanto a dos seus meios materials de trabalho. Jamais uma amizade ou qualquer outra circunstancia, subjetiva ou ob- jetiva, condicionou o ato de redigir o material aqui publicado. Falhas na cobertura, limitaq6es na apuraq o ou erros nos textos resultaram uni- camente de defici8ncias do redator ou insufici- Encia dos seus instruments operandi. Isto significou perder amizades e ganhar inimizades, algumas capitals. Fui processa- dol2 vezes no period por matdrias do Jor- nal Pessoal, as 12 aq6es movidas por apenas quatro personagens, todos poderosos, nenhum dos quais exerceu o direito de resposta a respeito do conteddo das mat6rias deste jor- nal, que sempre considerou sagrado esse di- reito. Todas as mat6rias eram de relevant in- teresse pdblico, relacionadas A liberdade de imprensa, ao uso da maquina pdblica para in- timidar adversarios e ao valioso (e dilapida- do) patrim6nio fundiArio do ParA. Em nenhuma dessas mat6rias inc6modas, seu redator ultrapassou o limited da vida priva- da dos personagens citados, cujos interesses e personalidades, hipertrofiados, os levam a con- siderar lesiva qualquer critical a suas condutas e a estender o sagrado manto da privacidade por sobre a cena coletiva, agindo como aquele tipo popular que atira a pedra e esconde a mao. Esses processes sao medalha e nao deson- ra. Atestam o exercicio do compromisso des- te jomal cor a verdade, independentemente do preqo que se deva pagar para proclami-la. Em 10 anos de via crucis forense, paguei o preqo que os usurpadores me cobraram, em- bora indevido. Tenho esperanga de um dia es- crever sobre essa experi8ncia para socializar o que nela aprendi. Mas ficaria muito grato se um advogado competent, honest e corajoso tamb6m auditasse esses processes. Nao tenho divida que eles caracterizam um odioso process de perseguiq~o political, ao qual serviu a ignominia, o despreparo ou a omissao de alguns magistrados do Tribunal de Justiqa do Estado do Pari. Eles foram cdm- plices na trama de me colocar na pele de Pro- meteu, atado a pedra nada independent da justiga para servir de festim a abutres, sem pelo menos a garantia de que a peqa papachib6 re- editava a matriz grega. Nos autos tamb6m esti documentado para sempre o mais tenaz process de sufocamen- to de um 6rgao de imprensa por outro 6rgao de imprensa, sem paralelo nos anais do joma- lismo brasileiro (e mundial?). Ah, se nossos pesquisadores tivessem o hibito de pesquisar documents em fontes primdrias... Creio nao ser desmedida a confianqa de que este JP serviu de document para alimen- tar a agenda dos que o leram nesta Amaz6nia fascinante (e triste), e continuarS a servir de refernncia aos que eventualmente vierem a l1- lo nos arquivos (se possivel, num future nao muito remote, que o nosso talvez venha a ser mais curto do que merecerfamos). Na maioria das vezes, o "furo", a abordagem exclusive, a angulaqgo privilegiada ou a informagao inica nao proporcionaram a sensaqao de realizacqo, mas a inc6moda perturbaqao da solidao. O JP esteve s6 em diversos temas porque a grande imprensa deles fugiu como o diabo da cruz. Para nao se comprometer, por exemplo. Ou para nao atingir interesses comerciais. Nao raro, infelizmente, por crassa incompetencia. Nao se trata, por6m, ao contrario do que muitos proclamam, apenas de um problema de linha editorial, de desvio corporativo, de vicio gerado pelo exercicio do poder. Os jomalistas devem fazer um sdrio exame de consci8ncia para verificar se muitas dessas lacunas nao fo- ram abertas individualmente, sem qualquer or- dem superior ou condicionamento extemo. De- veram-se a covardia, desleixo ou irresponsabi- lidade estritamente pessoal. Para tender a in- teresse commercial de um ente 6nico: o autor da- quele texto viciado, ou aquele que se ausentou do tema por deliberado oportunismo (ou esper- teza). Ja 6 expressive a quantidade dejomalis- tas pessoas juridicas, que vendem mercadoria de exclusive direito de jomalistas pessoas fisi- cas. Por ser expressive, 6 uma situaqao descon- fortAvel. E nada honoravel. Disse Drummond, num dos seus muitos versos maravilhosos, que da luta pela palavra muitos deserdaram e outros nela nem chega- ram a entrar. Mas agem como se fossem ex- combatentes, exibindo medalhas ficticias e fe- rimentos falsos. A imprensa da Amaz6nia nao tem estado A altura da Amaz6nia dos nossos dias. Essa inadequagao causa um imenso mal t miss~o de impedir que esta regiao se incor- 4 JOURNAL PESSOAL 2, QUINZENA DE JULHO/2002 pore ao acervo de areas espoliadas na hist6ria do colonialismo no planet. Nao dou entonaq6es 6picas a esse desaflo. Vejo-o na sua dimenslo t6cnica, como algo am- plamente viAvel. A n6s bastaria que fossemos escravos dos fatos, apurando-os cor todo ri- gor e divulgando-os com o maximo de clareza e profundidade que nos fosse possivel. t tao simples ser jornalista. E 6 tao complex! Onde estao os fatos? Eles se esgotam na sua aparigqo superficial, no que as assessorias de im- prensa divulgam, nos comunicados oficiais e no que dizem os personagens nas entrevistas? Tudo o que sao 6 o que ocorre em nossos limits terri- toriais? Os fatos sao aqueles c6digos embara- lhados e para chegar a eles 6 precise decodificar os sinais? Um fato 6 aut6nomo ou s6 adquire sentido no conjunto, no context que o ilumina? E precise seqiiencia-lo e encaded-lo para que ele deixe de ser controlivel (e manipulavel) apenas pelos que Ihes deram causa, entrando no merca- do dos acessos mais amplos? Aqui ao menos se fez o esforqo para aten- der a cada uma dessas perguntas, e de nume- rosas outras. Sem as devidas respostas, o jor- nalismo vira essa sensaboria de boletim buro- critico e essa carta enigmitica que a grande imprensa public todos os dias, com muitas cores e bugigangas informiticas. Sempre, 6 claro, hi um ou outro 6rgao em dia com sua missAo e uma ou outra excecqo em publicaqces em regra desavindas de sua tarefa, a renovar a esperanqa de que o joma- lismo possa vir a ser praticado com mais cons- tancia e conseqiiencia. Mas logo a exceq~o retoma a sua condicao de acidente e o percur- so segue o padrao cosm6tico de um jornalis- mo acomodado As supostas leis do livre mer- cado, refletindo as tend&ncias e padres pro- jetados a partir de algum laborat6rio sagaz, dono da marca "livre mercado" (que, dejusti- qa, deveria ser "livre o mercado"). O JP foi, cor todas as suas muitas limita- q6es e deficiencias, uma exceq~o de longa du- ragqo aos secos & molhadosjoralisticos, mas nao podia desafiar inc6lume e olimpico os ris- cos da lei da selva. Por falta de recursos, foi deixando a linha de frente, que esti sempre a se deslocar e se aprofundar no territ6rio ama- z6nico, recuando para uma posiq~o mais de retaguarda, analitica. Para nao cair numa vi- sdo de luneta ou sat6lite, foi gastando o capi- tal de informaq6es acumulado em anos de tes- temunho direto dos acontecimentos. Embora seu esquema de funcionamento co- lidisse com a equaqdo de viabilidade econ6mi- ca, mantendo-se com obstinaqao como um mi- cro-neg6cio, confiei em que o outro lado pon- to de equilibrio pudesse entrar cor a sua parte. Como este nio 6 umjomal de rabo preso com o leitor apenas para efeito de marketing, s6 podia sobreviver se o leitor pegasse o pio na a unha. Cada vez que algu6m se dispunha a ajudar, Ihe sugeria que comprasse mais de um exemplar. Se possivel, virios. De preferencia mandando ojor- nal para fora de Bel6m, o que j nao mais podia fazer por meus pr6prios meios. Af surge um problema de natureza editorial: hi mais interesse pela Amazonia fora da regiao do que dentro dela. O que conta, por6m, nao 6 um interesse massive, que, como sempre, acaba sendo distorcido pela incompreensao a respeito do que 6 a Amaz6nia. Poucos, fora da regiao, sabem o que ela realmente 6. Interpretam-na corn base em valores a ela atribufdos, o colonizador impondo o que quer ao que 6. Para completar a trag6dia, o colonizado (mais uma vez) pensa pela cabeqa do coloniza- dor, sem o console de poder ser contempora- neo de sua pr6pria hist6ria. Mesmo olhando com os olhos arregalados, v8 mais miragem do que realidade. A realidade que ele v8 6 apenas uma parte da realidade e, talvez, a sua part menos heuristica. A parte principal esti fora da regiao. A Amaz6nia sempre foi intemacionali- zada. Agora mais do que nunca. Definitivamen- te. S6 conseguirA entende-la e domind-la quem for capaz de ve-la nessa moldura maior, puxan- do todo o fio do novelo ao inv6s de se conten- tar cor sua ponta visivel, que emerge neste quintal da vontade metropolitan. S6 ha hin- terland por existir oforeland. Como compor uma agenda essencial, com- binando os dois elements, o externo e o in- terno, as razoes do colonizador e as do colo- nizado, e oferecer o produto dessa cozinhajor- nalistica nos dois pianos, intervindo como um agent da libertaq~o? O pdblico intemo quer saber do jogo de poder local, no que esta certo. Mas ele preci- sa saber tamb6m que hi umjogo de powder mais amplo, nao necessariamente tao conventional quanto ojogo mais imediato. t precise forqi- lo a encarar essas quest6es mais complicadas e como se diz costumeiramente mais Sri- das. Inclusive com a matdria de primeira pi- gina, num texto mais long, proporcional A complexidade do assunto. JA o ptiblico de fora que interessa a uma publicacqo verdadeiramente amaz6nida nao quer perder tempo com as adiposidades paro- quiais: o que Ihe interessa 6 ir ao cerne das O grupo Liberal consider o mundo como um produto da sua vontade. O que deseja que exista, existird. O que ignora, nao terd vida. Como acha que a vida humana se reduz a ne- g6cios, a serem conduzidos de uma forma sin- cr6nica e consuetudindria, com base num hi- pot6tico decilogo produzido pelos donos da empresa, fora do qual no hi salvaqao, o que nao esti abrangido por essa cosmologia deve ser lanqado no 6ter. E assim que os Maiorana nao reagiram a denincia aqui feita, na ediqao passada, de que a quest6es de fundo. E precise balancear essas duas demands. Mas 6 fundamental dispor a capacidade de atingir os dois p6blicos. Com que catapulta? Cada vez mais o JP vinha sendo um jomal de Bel6m, que monopolizava quase 90% da sua tiragem. No passado, quando circulava apenas entire assinantes, essa proporg~o chegou a bai- xar para menos de 60%, um perfil mais coerente cor os prop6sitos da publicagqo. Como uma so- luq~o intermediaria, tentei a Agenda Amaz6ni- ca, publicacqo mensal, com 50% a mais de pi- ginas (e no preco), mais temitica, empunhando com maior decisao uma bandeira de combat pela consciencia do ethos amaz6nico (e contra o pathos colonial). Dois anos depois, com a ven- da abaixo do ponto de nivelamento econ6mico, foi precise acabar com ela para que ela nao vies- se a acabar cor o JP. Foi a indesejada comemo- raqo dos seus dois anos de vida. Agora 6 a vez deste Jornal Pessoal. A ini- ciativa 6 penosa. D6i. Mas nao a adoto com migoa, rancor ou a sensaqao de que tudo foi indtil. Muito pelo contrario: o leitor do JP me permitiu a supreme graqa de ser feliz fazendo o jomalismo de que gosto (e o inico que sei fa- zer) contra todas recomendaq6es dos analistas econ6micos, todas t~o certas nas conseqiienci- as quanto indesejAveis como prospect politi- co. Provei que o inviavel 6 possivel, ainda que possa nao ser eterno ou duradouro. Mas, como consagrou o poeta Vinicius de Moraes, sendo eterno enquanto durar. A despeito do preqo. Fiz estejomal sempre pensando nele como etemo. Encerro sua hist6ria esperando que dure. Ao menos na mem6ria, no corag~o e na vonta- de dos que, cor sua leitura, honraram esta pe- quenina folha impressa. Se o vento soprado por estruturas mais poderosas pode leva-la, o seu perfume fica morando no ar, como na mdsica do grande poeta maranhense Joao do Vale. Que este perfume more no ar que oxigena a cabeqa dos personagens empenhados em construir uma hist6ria melhor para a Amaz6- nia, 6 a esperanqa que fica, a renascer em no- vos combates e em novas trincheirasjomalis- ticas. Ainda hi vento para fazer tremular a nossa bandeira. numeraqAo do jomal O Liberal estA grosseira- mente errada. Nao 6 um erro qualquer, sanivel por uma nota de redacqo. Trata-se de erro grave, a comprometer o conceito de uma empresa. Ojomal nao pode continuar a circular com uma numeraqCo que esta inflacionada ao do- bro. Nao importa que a falha tenha sido apon- tada por um terceiro, antes de ser percebida por um integrante da pr6pria empresa. Afinal, quem estA na chuva arrisca-se a se molhar. E um dos elementos definidores de quem 6 libe. ral, mesmo que apenas na fachada. Silencio JOURNAL PESSOAL 2 QUINZEINA DL) JULHtU 0 cobre silencioso A Companhia Vale do Rio Doce, a empresa de maior rentabilidade no Brasil no ano passado e a que mais export, comecou neste ano, no Par, uma nova etapa da sua hist6ria de 60 anos. Como dizem seus executives, ela esta incluindo um novo produto no seu portfolio. Aos seis itens ativos des- se mostrurio (ferrosos, bauxita, aluminio, cau- lim, energia e logistica) esta acrescentando um s6timo, o cobre, no qual era quase ne6fita atW re- centemente. Corn essa cesta de neg6cios, acredi- ta que vai se consolidar como aprimeira multina- cional brasileira, rigorosamente falando. O capitulo do cobre promete grandeza equi- valente A dos moments anteriores. Na Amaz6- nia, por6m, tera dimenso maior do que tudo o que a companhia fez at6 hoje, em 33 anos de pre- senqa na region. At6 o final desta d6cada, cinco minas estardo funcionando na provincia de Cara- jds, 550 quil6metros a sudoeste de Bel6m, repre- sentando investimento de 2,5 bilh6es de d6lares (mais de sete bilh6es de reais ao cmnbio do dia). A Vale se torou dona exclusive e absolute das jazidas, depois de ter-se livrado da socieda- de com duas enormes multinacionais (a sul-afri- cana agora de volta a Londres Anglo Ameri- can e a americana Phelps Dodge). Atrav6s de subsidiirias, estard produzindo 650 mil tonela- das de cobre. E o dobro e mais um trocado das 300 mil toneladas que o Brasil importa atual- mente do produto, que consomem de 400 mi- lh6es a 500 milh6es de d6lares em divisas, o se- gundo item mais pesado da pauta de importaqao de produtos de origem mineral. Com o cobre rendendo acima de um bilhao de d6lares de faturamento annual a partir de 2009, a CVRD dobrard a renda que alcanqa todos os anos em Carajds atrav6s da exploraqAo de ferro, manganes e (em vias de exaustao) ouro. Cor a diferenqa de que o bilhao de d6lares atual result da venda de mais de 50 milh6es de toneladas de bens minerals, sobretudo o mindrio de ferro. Para dobrar esse valor, precisard colocar no mercado apenas 650 mil toneladas de cobre, pouco mais de 1% do volume fisico de ferro. A correlagqo di uma iddia da diferenca de valor relative entire os dois bens minerals. No texto distribuido paralelamente a expo- sicqo que fez para a imprensa, na semana passa- da, em Bel6m, para anunciar o inicio efetivo do capitulo cobre na hist6ria da Vale, o director de operaqbes da companhia, Marcelo Bastos, ten- tou mostrar que essa nova atividade iri inovar em relagqo ao padrio de atuaqao da ex-estatal, privatizada em 1997. Admitiu que, como mine- radora, "a CVRD ndo verticaliza at6 o tiltimo grau os produtos do seu portfolio". Se agisse assim, se tornaria "ainda mais gigante do que ji 6, o que representaria riscos para o equilibrio do mercado industrial, especialmente no Brasil". No caso do cobre, por6m, "o produto ji sairn das minas de Carajis cor 75% de valor agrega- do", sustenta a empresa no document. Ela argu- menta que as agregag6es posteriores serao ape- nas na fundiqao, para a transformaqo em produ- tos como fios, por exemplo. "A fabricaqio de fios, alias, represent 50% da utilizacgo do produto no mundo inteiro", enfatiza ainda. O primeiro dos cinco projetos de cobre, con- duzido pela Mineraqao Serra do Sossego, com investimento equivalent a US$ 380 milh6es (ou pouco mais de US$ 1 bilhao ao cambio do dia), foi descrito como o melhor que se poderia con- ceber em qualquer parte do mundo. Ingressan- do no mercado exatamente quando hd um ex- cesso na oferta e uma competiqao feroz entire os produtores de cobre, a CVRD diz ter buscado "novos padres de implantaq5o e produgqo", cor os quais quebrou "verdadeiros paradigmas do mercado mundial de mineragqo". O custo de implantaqFo do Projeto Sosse- go sera de US$ 2,5 mil por tonelada, "o mais baixo do mundo". Segundo a empresa, novos projetos de cobre sao implantados com custo m6dio de US$ 3,8 mil por tonelada e a expan- sao de minas antigas, como as do Chile, por exemplo, exigiriam investimentos de US$ 800 e at6 US$ 900 por tonelada. A reduqAo de quase 20% no orqamento do projeto, corn a economic de US$ 70 milh6es em relaq~o A iltima estimativa, antes do inicio da fase de implantagqo, no primeiro trimestre deste ano, s6 se torou possivel com medidas extre- mas de racionalizaq~ o e otimizaqao, incluindo a substituiqSo de miquinas novas por equipamen- tos usados. Pesou tamb6m na planilha de cdlcu- los o diferimento fiscal, que a empresa reivindi- cou e o govemo do Pard esti examinando, tudo a indicar que aprovard o beneficio. Deixar o pagamento de imposto para a fase operacional e compensar essa vantage com cer- to adiantamento j se tomou um mecanismo tra- dicional na viabilizaqao de empreendimentos de porte expressive (os chamados "grandes proje- tos", presents em todas as agendas contempo- rfneas da Amaz6nia), quando eles entram em mercados muito competitivos, como ocorreu pouco tempo atris com a alumina. Seria tamb6m o caso do cobre. O preqo inter- nacional bateu no fundo do poqo. Os estoques do produto no mundo estdo muito altos. Empresas com menor capacidade de competiqao estao fe- chando, enquanto as corporaq6es gigantes engo- lem novas press minerals. Mas a CVRD, repe- tindo a premoniq~o com o ferro de Carajs, mais de 30 anos atras, senate o cheiro de recuperamqo. Ela prev6 que a produqao atual, de 13 milh6es de toneladas, que esta deixando sobras desaten- didas, seja pressionada pelo aumento da deman- da no Oriente, especialmente na China. Esse mer- cado deverd crescerd 5,4 milh6es de toneladas e a Vale pretend abocanhar grande parte desse naco com suas 650 mil toneladas de Carajas, toda ela voltada para a exportagqo. Nao se vexa de pro- clamar que se trata de uma "proposta ousada". Mas hd de convir que sujeita ao teste de con- sistencia da controversial plblica, infelizmente au- sente no exato moment em que os empreendi- mentos comeaam a sair das pranchetas para a re- alidade. Durante muitos dos anos em que gastou centenas de milhies de d6lares importando co- bre, o Brasil tinha uma political piblica (equivo- cada que fosse) para esse setor econ8mico, mas nao tinha o produto. Nao, ao menos, na escala desejdvel a sadide financeira, econ6mica e estra- t6gica do pais. Agora que vai dispor de volumes significativos do bem, deixou de ter political go- vemamental para o cobre. A primeira e ultima palavra esti sendo de quem o produz. Palavra res- peitivel, 6 certo, mas sujeita ao necessario e salu- tar questionamento de terceiros. Talvez por causa dessa lacuna, aberta pela ausencia do govemo e da sociedade, a CVRD, que se tomard a monopolista virtual do setor de cobre no Brasil, se senate autorizada a afirmar, sem receio de contracanto, que a concentraqao do cobre 6 o miximo de verticalizagqo em Cara- jds, n5o s6 possivel (o que nao 6 exatamente a verdade), como desejdvel (o que esti distant de ser isento de divida). A concentraqo, que eleva o teor de cobre de 1% para 30%, seria uma cunha de rentabili- dade entire a simples mineraq~o, de ganhos mi- nimos por sua pr6pria natureza, e a fundiq~o, o ponto final da cadeia produtiva, onde a exacer- bada competiq~o teria reduzido a margem de lucro a um minimo perigoso. S6 nesse context seria possivel entender o aparente paradoxo, que se tomarn esmagador em 2009, quando as cinco minas de Carajis estario produzindo a plena carga: o Brasil se tomaro sexto ou o quinto maior produtor mundial, no lugar da inc6moda posigqo atual, de grande importador, mas continuar comprando li fora concentrado de cobre. Enquanto inporta, seguirA para o exterior todo o concentrado de cobre que a Vale do Rio Doce estarn escoando pela estrada de ferro de Ca- rajds, com 890 quil6metros de extensao, at6 o por- to de Ponta da Madeira, no litoral do Maranhao. Como 6 pr6prio das paralelas, esses dois ca- minhos jamais irio se encontrar. Tal descompas- so 6 pr6prio de certas irracionalidades econ6mi- cas, ou, talvez, sua 16gica tem explicaqgo pr6pria, que deve ser encontrada nao em manuais de eco- nomia ou qualquer outro tratado cientifico, mas em determinadas obras da imaginadao humana menos press a parametros racionais, como uma certa Alice no Pais das Maravilhas, escrita muito tempo atris pelo reverend ingles Lewis Carrol. t uma questio a pensar. O que nao pode acontecer 6 uma hist6ria grandiosa, como essa do cobre de Carajas, estar comeqando e poder vir a se tornar fato consumado, sob o generi,- zado silencio atual. 6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JULHO/2002 Festa Em 1953 o Clube Sete de Setem- bro convidava seu "corpo soci- al" para abrilhantar com sua pre- senga a "sauterie" danqante que realizaria nos "aristocrdticos sa- 16es" do Para Clube, "gentil- mente cedidos por sua ilustrada Diretoria". 0 arrasta-p6 seria in- crementado pela Orquestra Ma- qaneta, "sob a regencia do pro- fessor Guides de Barros". O tra- je era a passeio. Super-rainha Cla Chady (hoje tamb6m Fa- rah) foi a recordista de titulos no carnaval de 1956. Depois de completar 24 horas de perma- nencia em festas, ganhou pela melhor fantasia (de "aguia de Marte"), como rainha da Assem- bl6ia Paraense (recebeu 68 vo- tos do "corpo social do aristo- critico gremio) e como rainha das rainhas do caraval, promo- qFo que passou da Folha do Norte para O Liberal junto corn os ossos do barao. Drama Um dos sucessos editorials de 1956 em Bel6m foi Severa Ro- mana. Jacques Flores, o nome artistic de um cronista muito popular na 6poca, escreveu o li- vro para contar a hist6ria da "jovem e pobre criatura que, as- sediada pela conquista de um celerado, resistiu A seduq~o e, assim, preferiu morrer as mdos do cruel conquistador a man- char a sua honra de esposa amantissima, ciosa de seus de- veres conjugais", conforme di- zia no enredo do livro. O fato, ocorrido em julho de 1900, teve tal repercussIo que o nome de Severa Romana foi envolvido "por um halo de pulcritude e de Bossa nossa Quem participou, na v6spera do natal de 1963, do aniversario do jovem Paulo Guilherme Dantas Ribeiro, na mansdo dos pais dele, os incontesta- velmente colunAveis Deusdedith e Maria Eunice Dantas Ribeiro, ganhou um present inesquecivel: a oportunidade de ouvir a tera Silvinha Teles can- tar cor o acompanhamento de Roberto Menescal admiraq o", que Ihe garantiu a perenidade na mem6ria. Seu td- mulo 6 muito visitado no Cemi- t6rio da Soledade. Rddio Em 1964 a (ji extinta) Radio Educadora se apresentava em an6ncio como "a tinica que com a PRC-5 [Rddio Clube] 6 ouvida eficientemente em todo o Estado do Para, graqas a sua onda tropical". Proclamava ainda ser "a dnica que 6 ouvi- da corn exclusividade em mais de 500 povoaqces paraenses, tendo instalado receptores pr6- prios, cativos As suas duas fre- qii&ncias". Era o dominio do radio em seus estertores. Abstindncia Em 1964 a Universidade Fede- ral abriu pela primeira vez ins- criqces para o curso superior de ao violdo, dois dos personagens da Bossa Nova. Silvinha e Menescal tinham vindo para se apresen- tar na festa do "Top Set", do Autom6vel Clube, e deram uma canja das melhores aos convivas de Pau- lo, entire os quais se destacava Eliezer Athias, ao lado de Silvinha. A cantora morreria algum tempo depois, num acidente de carro. jornalismo, que o Conselho Uni- versitario a autorizara a criar. Foram oferecidas 30 vagas, mas apenas nove candidates apare- ceram, ntimero aqu6m do neces- sario para o funcionamento re- gular do novo curso. IncorporagAo Em 30 de setembro de 1964 o Conselho Universitirio aprovou proposta do reitor Jos6 da Sil- veira Neto e a UFPA foi autori- zada a incorporar as Escolas de Qufmica e Serviqo Social, que at6 entdo funcionavam isoladas. Ambas se encontravam em situ- aq~o de pentiria, prestes a fe- char. A Escola de Qufmica, que funcionava onde hoje esti ins- talado o Teatro Waldemar Hen- rique, teve atuaqao pioneira. Nela, Paul Le Cointe deu aula. Esclarecimento Em 16 de fevereiro de 1965 Athaualpa Fernandez publicou na imprensa local a seguinte nota, como mat6ria paga: "Por dever de consci8ncia declare que jamais me referi desairosa- mente a respeito do Secretaria- do do Tenente-Coronel Jarbas Passarinho". Ah, sim. Ficha No carnaval de 1966, em pleno regime military, s6 podia cair no samba quem tivesse folha cor- rida da policia. O delegado de costumes, Jodo Drumond Mar- tins, que comunicou a exigen- cia aos representantes de blo- cos, ranchos e escolas de sam- ba, explicou: assim se evitaria que formerm nas agremiaq6es elements sem moral ou ficha- dos na policia". Sinai dos tempos. Clipers Foi na gestio do tenente-coro- nel Alacid Nunes na prefeitura de Bel6m, em 1965, que foi pas- sada a sentenqa de morte aos clippers da cidade. Construidos para servir de abrigo para pas- sageiros de 6nibus, neles foram instalados pequenos bares, acu- sados de se transformarem em "pontos de ajuntamento de de- E~t~-1LI c: ~'I"BY~7; , ... JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JULHO 7 socupados e marginais", confor- me a cr6nica policial. O primei- ro a ser posto abaixo sob a 6gi- de do regime de 1964 foi o de Nazar6. Seguiram-se o "Brasil- Portugal", situado em frente a sede dos SNAPP (hoje Enasa - Empresa de Navegaq~o da Ama- z6nia), e outro mais atras, que servia de terminal para os 8ni- bus de Icoaraci. Rui No dia 28 de outubro de 1965 os alunos da Faculdade de Di- reito da Universidade Federal do Pard inauguraram o Rui Bar Bossa. A idWia, dos acad8micos Ali Jezine e S6rgio Couto, era reunir todos os sibados advoga- dos ji formados e academicos em torno de uma feijoada, na qual uma turma de ex-alunos seria homenageada. Aproveita- ram para fazer um jogo de pala- vras em torno do "Aguia de Haia". Mas provocaram a rea- qao dos mais conservadores, que interpretaram a homenagem pelo lado negative: de desres- peito a mem6ria do notivel ju- rista baiano, que tinha uma ca- bega proporcional a sua fama. Em resposta, os estudantes re- trucaram que, se vivo estivesse e fosse ainda aluno de direito, Rui daria ao bar o nome de Jos6 Bar Nifacio. O Rui Bar Bossa teve vida curta. Cigarro native Para anunciar os cigarros Estadistas, fabricados aqui mes- mo, pela Y. Serfaty, o jornalista Ubiratan Aguiar (que tamb6m atendia como o colunista social Pierre Beltrand) fez a melhor pose neste antncio de 1957. Assegurava que o cigarro se igua- lava ao melhor importado e continuaria a ser vendido pelo pre- qo antigo, de 5,70 cruzeiros a carteira. Quem ndo queria um cigarro de diplomat nos libios?, parecia pensar o Pierre, em tom decididamente blas6. Ainda se alimentava a ilusdo, na 6po- ca, de ter uma indtistria local competitive com a do Sul. d.w m 1"IAl1 EM TAS I UM CIGARO NO [ .r. Polo EXAT91 A hist6ria, agora Se os politicos do Estado do Para tivessem feito a per- gunta-chave que o senhor sugeriu sete anos atris, o que teria acontecido e como estaria o nosso Estado hoje, em especial o sul e o sudeste do Pari? (Pergunta de Eliza Lucena de Assunfdo, feita em Marabd) A pergunta se refere a um epis6dio ocorrido em 1995 e que relembrei durante debate em Marabd, pouco mais de um mes atras. O entao prefeito (e hoje deputado federal pelo PSDB) Haroldo Bezerra, intervindo durante concorrido encontro realizado em Ma- rabi mesmo, informou que na v6spera (um sAbado) toda a direto- ria da Salobo Metais tinha se deslocado do Rio de Janeiro para discutir cor a comunidade local a execuq~o do projeto de explo- raq~o da jazida de cobre de Carajds. Tres cidades disputavam ser sede da metaltrgica que a Salobo estava pretendendo construir para beneficiary o min6rio, cor in- vestimento total de 1,8 bilhao de d6lares: Parauapebas e Marabi, no Pard, e Rosario do Oeste, no Maranhao. Cada uma se julgava no direito de abrigar a fibrica, mas todas tateavam atris de infor- maq6es seguras, ziguezagueando entire refer8ncias vagas ou total- mente incorretas. Haroldo admitiu ter said do encontro com o pessoal da Salobo carregando as mesmas ddvidas e incertezas que para 1A havia levado. Perguntei ao prefeito se ele tinha perguntado aos dirigentes da empresa se a jazida do Salobo era suficiente para permitir a produq~o de 250 mil toneladas anuais de concentrado de cobre ao long de 15 anos de vida itil da fabrica. Ele responded que nao e ficou intrigado: por que aquela pergunta especifica era important? Respondi-lhe que esse era o tamanho econ6mico minimo para viabilizar a instalaqao da Salobo Metais em Maraba. Se nao hou- vesse essa quantidade de min6rio, a fabrica ficaria perto do porto da Ponta da Madeira, no Maranhao, para poder receber o concen- trado importado. E nao haveria pressao political ou da sociedade capaz de mudar tal decisao. Simplesmente porque qualquer outra decisao tornaria deficitrio o empreendimento. Mesmo uma em- presa estatal, como era ento a Companhia Vale do Rio Doce, na 6poca dividindo a Salobo com sua s6cia, a Anglo American, nao poderia tomar outra decisao. Citei o epis6dio para mostrar que s6 6 possivel discutir a im- plantaq~o dos grandes projetos na Amaz6nia (ou mesmo qualquer outra iniciativa econ8mica de significado) a partir de um quadro de referencia t6cnico, com base em informaq6es corretas, em cima de fatos. Sobre essa base comum pode-se derivar para uma s6rie de alternatives e variantes, relacionadas A vontade, ao maior empe- nho, a combatividade e outros elements de valor ou subjetivos. Eles podem ser decisivos no seu moment certo, em sua pr6pria instancia. Mas se tornardo indteis ou contraproducentes se nao se assentarem numa estrutura informative s6lida. Af reside o problema: a geraq~o das informac6es necessArias no moment certo para embasar as decisTes na Amaz6nia, uma region de fronteira, onde a hist6ria caminha aos saltos, atropelando ins- tancias, ignorando aspiraq6es, firmando-se de acordo cor a dire- triz adrede estabelecida. O grande desafio 6 aplicar legend a acontecimentos que nao sao auto-explicativos, sintonizando os fatos com o seu significado, de tal maneira que possamos intervir efetiamente quando a hist6ria se nos apresenta, embora com a roupagem de cotidiano. A hist6ria tem batido A nossa porta e nao a atendemos, simplesmente por nao sermos capazes de ouvir o som emitido. SI' 1 ADISTAS enh mm pceo 5aw. mi , . a r m. ao nua .. E. :... '- 0. Podnido*om o iawoo do Rio Grande do S.I C "'"- A. n.0 tomou man n- J'.. ut s orn.ou ." uo B ia. ra go. n ar. n *e ,- o r, -,,,, ,-r-i .r ... ',cr,, ESTADISTr S t rigat .i .. a-l V. 5 C, hem no nc peladar I t cC. l.O.s I V. tathbem val costar do novo ESTADISTAS I _______ Wn/f/^__________ Grilagem do Xingu: ponto final na inercia? Seis anos atris o entao juiz de Altamira, Jos6 Torquato Alencar, mandou o titular do cart6rio da comarca se abster de praticar qualquer ato "que imported em transfer8ncia ou alienaq~o" de uma enorme area de terras que a Incenxil, uma empresa local, havia re- gistrado um pouco antes, como se fosse sua, nesse mesmo cart6rio. Usando como facha- da a empresa de uma famflia de Altamira, a poderosa Construtora C. R. Almeida espe- rava se apossar de um territ6rio pelo menos tres vezes maior do que o imp6rio fundidrio que pertenceu ao milionario americano Da- niel Ludwig, o Projeto Jari, origem de tanta celeuma no passado. Se o golpe desse cer- to, Cecilio do Rego Almeida se tornaria o senhor feudal de uma drea do tamanho da ilha de Maraj6, a maior ilha fluvial do mun- do, algo que jamais passou pela cabeqa do mais poderoso fazendeiro marajoara. A perpetraq~o dessa mega-grilagem co- mecou a ser desfeita quando, em 1996, o Iter- pa ajuizou em Altamira uma aq~o de nulida- de e cancelamento dos registros imobilidrios feitos pela Incenxil, tigre de papel da C. R. Almeida. As provas do dominio pdblico so- bre a area eram tao evidentes, assim como o desmascaramento das fraudes praticadas na transfer8ncia das terras para o patrim6nio privado, que o juiz Torquato Alencar nao hesitou em conceder a tutela antecipada re- querida pelo Instituto de Terras do Pard. Profeticamente, o juiz (hoje atuando na comarca de Bel6m) disse que a cautela de averbar nas notas do cart6rio o alerta de que a eficacia dos registros havia sido suspense por media judicial se devia A "dimensao monumental da area" e ao risco de "ser ela desmembrada em um ntimero muito eleva- do de propriedades menores, o que poderia vir a lesar terceiros e causar mais dtivida na ji tumultuada questdo fundidria na regilo". O efeito prAtico da decisAo seria impe- dir que a empresa detentora dos registros ne- gociasse as terras. Mas a Incenxil continua- ria no dominio fisico da area, podendo dis- por dela para outro fim que nao fosse o da venda (como o apregoado projeto ecol6gi- co). Caso vencesse najustica a dispute com o Iterpa, poderia alienar a quem quisesse seu bem patrimonial, sem qualquer outro preju- fzo. O maior seria o da coletividade, caso uma terra que efetivamente pertencia ao Estado fosse repassada a terceiros ou explo- rada de md-f6. A aqao do Iterpa continue se arrastando pelos intermindveis corredores processuais dajustiqa, mas desde entao todas as instan- cias oficiais se manifestaram uniformemen- te: as terras sAo de dominio pdblico e a pre- senga de um suposto proprietArio na area 6 illegal, fruto de uma grosseira grilagem. Foi essa a conclusao de um inqu6rito conduzi- do pela Policia Federal, partilhada por to- dos os 6rgios da Uniao que se manifesta- ram sobre a questAo. E essa a posiq~o do Minist6rio Piiblico Federal, que tenta des- locar o process originado da iniciativa do Iterpa para a justiqa federal. Corn base nes- sa posiqao, a Corregedoria Geral de Justiqa do Estado estA afastando de seus cargos os titulares dos cart6rios de registro de im6- veis da regiao. Apesar de todas essas provid8ncias, a grilagem praticada pela C. R. Almeida con- tinua ativa, possibilitando a derrubada e ex- traq~o de madeira, especialmente o mogno, os neg6cios paralelos e o uso da expectati- va de direito como element de barganha commercial. Toda essa pilhagem se sustenta numa dnica base: a decisao tomada, em maio de 2000, pelo desembargador JoAo Alberto Paiva, em simples liminar, suspendendo os efeitos da sentenqa do juiz Torquato Alen- car e restabelecendo a plenitude dos efeitos de um registro flagrantemente illegal. Essa decisao seria confirmada no mes seguinte pela 3' Camara Civel do TJE, numa sessao realizada antes de comeqar o expediente normal do tribunal. Ningu6m conseguiu at6 agora derrubar essa proteq~o. Completando agora dois anos, ela volta a ser lembrada no moment em que a desembargadora S6nia Parente pede a presidencia do Tribunal de Justiqa do Estado providencias, "a fim de que ajus- tiqa do Pard nao sirva de instrument para legalizar terras pertencentes A Uniao ou ao Estado, em nome de terceiros" (ver Jornal Pessoal 288). A desembargadora pede que essas me- didas comecem apurando decis6es de ou- tras duas desembargadoras, Maria do Cdu Cabral Duarte e Rosa Portugal Gueiros, em beneficio de dois dos personagens dessa hist6ria, que envolve a maior grilagem de terras em todos os tempos, podendo che- gar a sete milh6es de hectares, e se estenda at6 os cart6rios. Respeitando a autonomia das jurisdig6es e o devido process legal, o TJE devia dar a esse caso a importancia que ele ter, usan- do todos os meios ao seu alcance para im- pedir que o judiciario paraense acabe sen- do contaminado pela n6doa que jd macula a participaq~o de alguns dos seus integrantes nessa grave hist6ria. Para isso, precisa sair da in6rcia e da indiferenqa, apostando nao na forga da acomodasgo, mas na contunden- cia do compromisso com a verdade. Como muitos da minha geragqo, comecei a trilhar o caminho da poesia guiado por Geir Campos. A t6cnica estava A disposiq~o no Pequeno Diciondrio de Arte Poitica. A mat6ria prima foi fornecida em abundancia atrav6s de traduq6es, as mais marcantes, ao menos no meu caso, em Bertolt Brecht, Rainer Maria Rilke e Walt Whitman. A poesia do pr6prio Geir nAo foi tdo important para mim, que ja passava da fase discursiva para o texto eliptico, a exploraq~o dos sons e mist6rios da palavra. Mas quem serd insensivel aos versos que ele esculpiu para "Da profissAo do poeta"?: Operdrio do canto, me apresento Sem marca ou cicatriz, limpas as mdos, Minha alma limpa, a face descoberta, Aberto o peito, e expresso document - A palavra conforme o pensamento ". Como poeta, tradutor, crftico e militant, Geir Campos fez pela poesia como poucos no Brasil. Espalhados pelo pais, ficamos 6rfaos da gratiddo ao trabalho missionario que ele desenvolveu, vertendo para o portugues versos produzidos originalmente em virias outras linguas, por autores dos quais foi um introdutor na nossa cultural, at6 sua morte, em 1999. A remissao dessa divida comeqa a ser feita agora, a partir da publicagqo, pela Imprensa Official do Estado do Rio de Janeiro, de um pequeno volume em homenagem a Geir, contend depoimentos sobre ele, seus poemas e alguns textos in6ditos. Iniciativa de Anibal Braganca e Maria Lizete dos Santos, A qual outras 13 pessoas aderiram com seus testemunhos, interpretando a vontade de milhares de amigos, discipulos e admiradores desse grande intellectual. Jornal Pessoal Editor Luo FUviPnoFo PM e (10911 241-7826 CaOm: Tv Baemn Coan alnt 8d20303-O0 a-mnalomOa m h Produg|a: Angm PIdl d Ar Lrnnodaflapalo |
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