Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00238

Full Text



Journal Pessoal
L C O F L A V I O PI N TO
V, QU iENs

ELEICAO


0 carnaval do voto
A political paraensepode mudar em 2002. Maspode mudar apenas de dono. 0 ex-senadorJader Barbalho
pode ceder suaposivdo hegem6nica a outro dominador. 0 candidate do patrol politico do moment, o
governador Almir Gabriel, exposto no balcdo eleitoral como uma mercadoria intensamente trabalhada
pelo marketing. 0 eleitorpassa a ser "detalhe". E assim que surge uma zebra?


A leiqgo de 2002 pode marcar o
fim dos 20 anos de presenga
hegem8nica de Jader Fontene-
le Barbalho na polftica paraen-
se. Desde 1982, quando se elegeu gover-
nador do Estado pela primeira vez, usan-
do o poderoso suporte de Alacid Nunes,
A-

! e 'I A 0 03


que Ihe passaria o cargo no ano seguin-
te, Jader foi o eixo da dispute pelo po-
der. Sua marca registrada nesse period
foi a capacidade de sobreviver a circuns-
tancias adversas e a golpes duros com o
seu carisma, o element de maior mag-
netismo politico entire as camadas majo-


ritarias da populardo, agrupa4as nas fai-
xas mais pobres de renda.
A derrota de 1998 para Almir Gabriel
indicou um emagrecimento da base de sus-
tentagio eleitoral de Jader, mas sua derro-
ta ainda teve um tom de heroismo: era a
primeira vez que governadores podiam


N A PARA 0 P(a3.3






2 JOURNAL PESSOAL 2A QUINZENA DE JULHO/2002


concorrer a reeleicao permanecendo no
cargo, Almir Gabriel utilizou a maquina
official, aplicou muito mais dinheiro na
campanha e tinha a empurrf-lo o governor
federal, a forqa pliblica predominante dos
investimentos num Estado de fronteira
como o Para, "vocacionado", sobretudo
por suas riquezas minerals, ao modelo eco-
n6mico dos grandes projetos. Deles sem-
pre sobra um "troco" do faturamento, que
constitui a diferenqa para quem se mostra
simpitico a esse tipo de empreendimento,
como o governador Almir Gabriel, e pode
virar "sobras de campanha".
Aparentemente, ao decidir, a iltima
hora, trocar a dispute de um cargo majori-
tirio por uma vaga proporcional, o ex-se-
nador deu um pass atrds para dar dois
passes a frente, num saque de leninismo
intuitive. Assim, ele poderd despontar das
urnas como um dos deputados federais
mais bem votados do pais, carregando para
sua bancada alguns outros parlamentares
(provavelmente incluindo o ex-amigo-de-
pois-adversdrio-agora-amigo-de-novo H-
lio Gueiros) e criando as condiqges para a
"volta por cima" dentro de quatro anos.
Desta maneira fortaleceria regional-
mente o PMDB e se credenciaria para
novamente ser um interlocutor national,
sem se expor ao desgaste de retomar o
caminho pelo Senado, do qual foi defe-
nestrado. Ao mesmo tempo, passaria a
contar com a proteqao da imunidade par-
lamentar para nao ser surpreendido pelo
desfecho de algum dos inimeros proces-
sos, administrativos ou judiciais, em cur-
so contra ele. Qualquer media punitive
passaria a defender de uma autorizaqao
pr6via da CAmara dos Deputados para
poder ser executada.
E o que diz o discurso peemedebista.
Mas nao 6 toda a realidade. Al6m disso, o
desfecho pode nao ser o que ele anuncia.
Serd precise esperar por uma pesquisa de
opiniao s6ria para verificar como o povo
reagiu a essa "volta por cima". Ela pode
muito bem ser entendida como fuga. O
povo nao gosta de quem foge da raia, mes-
mo que tenha raz6es gloriosas para ofor-
fait (expressio que, sintomaticamente, ji
foi corrente em geral de campo de fute-
bol). Em 1998 houve gl6ria na decisao de
Jader Barbalho de enfrentar uma situaqao
francamente desfavoravel, mesmo sob o
forte risco de derrota. Por essa 16gica, serb
desonrosa a attitude atual, de buscar um
novo rumo para nao encarar a possibilida-
de de derrota?
Apesar de toda a conversa em senti-
do contrario, 6 evidence que o ex-presi-
dente do Senado pensou na pr6pria pele
e nao no PMDB quando decidiu dispu-
tar a eleiqao para deputado federal e nao
para senador ou governador. O que pe-


sou nessa escolha foi o indice de rejei-
qao ao nome de Jader. Sua fatia cativa
do eleitorado diminuiu pouco, mesmo
corn a pesada campanha da imprensa
national contra ele, caindo apenas 4 ou
5 pontos percentuais abaixo de um terqo
do col6gio eleitoral paraense. Mas a re-
jeiqao cresceu bastante porque ha mais
eleitores predispostos contra ele.
Certamente Jader passaria para o se-
gundo turno se fosse candidate a gover-
nador, talvez at6 em primeiro lugar. Se
vencesse na segunda votaq~o, por6m, a
diferenqa a seu favor seria minima, abai-
xo provavelmente de 1%. Mas a probabi-
lidade maior seria a de perder, qualquer
que viesse a ser o seu adversirio, por cau-
sa da rejeiqao. Essa tendencia, ajustada
as regras da eleiqgo para o Senado, que
nao tem segundo turno, seria mais ou
menos a mesma ou um pouco pior, caso
decidisse recuperar o mandado ao qual re-
nunciou no ano passado.
O carisma de Jader Barbalho se reno-
varia se ele, como fez ha quatro anos, acei-
tasse pegar o piao na unha, procurando
reverter a conjuntura desfavoravel no con-
tato direto com o eleitor e recorrendo As
suas maiores armas: o discurso facil, a sim-
patia, a ret6rica oposicionista e sua me-
lhor aceitacao entire as pessoas mais hu-
mildes. Por paradoxal que possa parecer,
entretanto, esse caminho s6 ter final feliz
para o candidate que, al6m de ter bastante
dinheiro, disp6e de estrutura fisica para
chegar aos lugares mais distantes do Esta-
do, sensibilizando o eleitorado menos sus-
cetivel a pregacao da midia, que se uniu
nacionalmente contra o politico paraense.
Desta vez Jader Barbalho, com um pas-
sivo a descoberto monumental (e sem um
mandate a sua espera, como havia em
1998, quando ainda tinha quatro anos pela
frente como senador), decidiu nao arris-
car. Ou arriscar sob control. As coisas s6
darao errado para ele se sua votaqao para
deputado nao for consagradora, se a fatia
do PMDB na bancada federal paraense nao
for majoritaria e se o tom da campanha
continuar a ser um plebiscite em torno de
Jader Barbalho. Provavelmente ele nio cr8
numa conjugaqao desses fatores. Mas se
isso ocorrer, 2002 sera o marco do decli-
nio do politico que comandou o poder no
Para ao long das iltimas duas d6cadas.
Ao optar pela coligagao branca, apoi-
ando o senador Ademir Andrade, candi-
dato do PSB ao governor, Jader esta se ex-
pondo a um segundo risco, este in6dito em
sua carreira: permitir que a legend do
PMDB se descole do seu nome. t grande
o ndmero de peemedebistas dispostos a nao
ouvir a voz de comando do lider incontes-
tavel at6 agora. Ao inv6s de seguir a cor-
rente pr6-Ademir, vao former fileira com


Hildegardo Nunes, na dissidencia da "fren-
te trabalhista", comandada pelo PTB, ou
com Simao Jatene, o candidate do PSDB,
atrelando um laranja a outro laranja (nada
que nao seja o estilo da casa, alias).
Se essa dupla marginalia constitui de-
safio para o Minist6rio Piblico e ajustiga
eleitoral, encarregados de fiscalizar e fa-
zer cumprir a exigencia de verticalizaqao
das coligaq6es (no fortalecimento dos par-
tidos para ingl8s social-democrata ver), 6
tambem o produto de uma eleiqao com pin-
tas de novidade. Novidade que se credit,
sobretudo, ao desejo dos mais poderosos
de desafiar a credulidade popular confia-
dos em seu pr6prio poder de convenci-
mento, de manipulacao e de imposicao de
sua vontade absolute.
No moment em que reserve ao sena-
dor Luiz Otivio Campos uma vaga no Tri-
bunal de Contas do Estado, promovendo
uma ne6fita em gestao pdblica como for-
ma de prevenir e compensar revds anun-
ciado com quatro anos de ateced6ncia, o
governador Almir Gabriel endossa a can-
didatura ao Senado do deputado Ducio-
mar Costa, o fraudador de diploma de cur-
so superior, e da locutora Val6ria Pires
Franco a vice-governadoria. Sem nunca
ter disputado uma eleicao e sem ter tido
sequer uma atuaqao vizinha da funcao po-
litica, Val6ria poderi ocupar o segundo
cargo do executive estadual sem receber
um dnico voto, caso a maquina official faqa
de Simao Jatene o successor de Almir Ga-
briel. A syndrome do vice esta de volta a
praca. Agravada.
Em terms estritamente cronol6gicos
e formalmente tematicos, tanto o PSDB
quanto o PSB, que indicou a capital da PM
e joralista Vanessa Vasconcelos compa-
nheira de chapa de Ademir Andrade, o
PMDB como o PT (com mulheres dispu-
tando as duas vagas de senador, e mais uma
mulher como pretendente petista ao gover-
no), podem argumentar que estao renovan-
do a political paraense. Na verdade, estao
abrindo oportunidade ajejunos em politi-
ca, a mulheres e ajovens. Todos eles, po-
r6m, subordinados a uma velha estrutura
de mandonismo e de patronato politico.
Inovagao cosmetica, portanto.
Nesta eleigao, o eleitor esta sendo en-
carado como um comprador de supermer-
cado. Seu inico poder 6 o de optar por uma
ou outra mercadoria colocada na pratelei-
ra. Nenhuma das mercadorias dependeu da
vontade desse comprador. E ele sera indu-
zido a comprar por puro marketing, engo-
lindo gato por lebre, urubu fantasiado de
fais~o. Essa 6 a circunstancia propicia a
surpresas para valer, as verdadeiras zebras.
0 problema 4: quem pode ser zebra
na vergonhosa eleigao dos paraenses
em 2002?




JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE JULHO 3


0 journal acabou.


Viva o jornalismo


Cor este ndmero se encerra a hist6ria do
Jornal Pessoal, a dois meses da festa dos seus
15 anos. A decision 6 de absolute responsabili-
dade pessoal, conform autoriza o titulo da pu-
blicagqo. Sempre enfrentando enormes dificul-
dades para cumprir o compromisso de colocar
um novo nmmero na praqa a cada quinzena, aca-
bei por me impor um principio semelhante ao
do "gol de ouro" da Copa do Mundo: no dia
em que ojomal voltasse a ser deficitirio, como
havia ocorrido em moments anteriores da sua
hist6ria, eu encerraria de pronto sua publica-
qFo, sem outras consideraq6es. Nas ocasioes
dificeis do passado havia ainda uma certa pou-
panga para suplementar o caixa. Agora ela ine-
xiste. O caixa geme de c61icas.
Para reequilibrar as contas seria precise
elevar o preqo de capa. Ha mais de sete anos
ele se mant6m em 2 reais, um dos raros casos
de abstin8ncia de aumento durante a vigencia
do piano de estabilizac o econ8mica (na ver-
dade, monetaria e financeira) da era FHC. Nao
foram poucos os que reclamaram desse valor.
No inicio de 1995 ele realmente continha uma
delgada camada de gordura, sem a qual nao
atravessaria o inverno hostile que se delineava
no horizonte. Hoje, 6 um osso s6, no qual bate
a lamina do custo crescente de produqao. Mas
elevar o preqo para 3 reais representaria mais
uma auto-limitaqao de pdblico, capaz de tirar
o estimulo para trabalhar nessa pedreira que e
o jornalismo independent pra valer. O que
me animou a manter o JP ao long desta dd-
cada e meia foi o entusiasmo. Esse gis tonifi-
cante esta escapando.
Mas tamb6m reconheqo que a razdo de ser
dojoral se exauriu. O JP sempre foi uma ano-
malia, um desafio as regras da natureza, como
um helic6ptero de papel. Concebido para voar,
o helic6ptero contraria as regras da permanan-
cia no ar. Que sucesso se podia esperar de um
journal em format pequeno, que nao usa fo-
tos, nao tem cores, As vezes 6 maqudo, di des-
taque a assuntos Aridos, nao distingue nem se-
leciona adversirios, nao tem senso da oportu-
nidade, nao faz concessoes ao gosto facil e se
recusa a ter publicidade, limitando-se a fatu-
rar o que Ihe paga o leitor e ainda sujeitan-
do-o a ir buscar seu exemplar em bancas de
revista e umas poucas livrarias?
Assim, desafiando 11 das 10 regras do de-
cAlogo publicitArio e mercadol6gico, estejor-
nal resistiu durante quase 15 anos, com duas
interrupq6es na circulaqao, que somaram me-
nos de dois anos (intervalo proporcionalmen-
te menor do que o sofrido por A Provincia do
Pard, teoricamente o quarto journal mais anti-
go do pais com seus 126 anos). Nesse perfo-


do, o JP foi selecionado como a melhor pu-
blicaq~o do Norte e Nordeste do pais pela
Fenaj (Federaqio Nacional dos Jornalistas) e
recebeu um dos mais influentes premios de
jomalismo na ItAlia, que fez deste David im-
presso o primeiro nao-europeu a ganhar o
Colombe d'Oro per la Pace.
Destas deferencias honorificas talvez fique
uma moral de interesse coletivo, estimulando
osjomalistas a respeitar principios 6ticos e com-
promissos profissionais na execugqo de sua ta-
refa: manter a opinilo piblica bem informada,
no grau maximo de possibilidade. A 6nica li-
mitag~o neste jomal sempre foi a capacidade
pessoal do seu redator solitrio, tanto a dos seus
atributos intrinsecos quanto a dos seus meios
materials de trabalho. Jamais uma amizade ou
qualquer outra circunstancia, subjetiva ou ob-
jetiva, condicionou o ato de redigir o material
aqui publicado. Falhas na cobertura, limitaq6es
na apuraq o ou erros nos textos resultaram uni-
camente de defici8ncias do redator ou insufici-
Encia dos seus instruments operandi.
Isto significou perder amizades e ganhar
inimizades, algumas capitals. Fui processa-
dol2 vezes no period por matdrias do Jor-
nal Pessoal, as 12 aq6es movidas por apenas
quatro personagens, todos poderosos, nenhum
dos quais exerceu o direito de resposta a
respeito do conteddo das mat6rias deste jor-
nal, que sempre considerou sagrado esse di-
reito. Todas as mat6rias eram de relevant in-
teresse pdblico, relacionadas A liberdade de
imprensa, ao uso da maquina pdblica para in-
timidar adversarios e ao valioso (e dilapida-
do) patrim6nio fundiArio do ParA.
Em nenhuma dessas mat6rias inc6modas,
seu redator ultrapassou o limited da vida priva-
da dos personagens citados, cujos interesses e
personalidades, hipertrofiados, os levam a con-
siderar lesiva qualquer critical a suas condutas
e a estender o sagrado manto da privacidade
por sobre a cena coletiva, agindo como aquele
tipo popular que atira a pedra e esconde a mao.
Esses processes sao medalha e nao deson-
ra. Atestam o exercicio do compromisso des-
te jomal cor a verdade, independentemente
do preqo que se deva pagar para proclami-la.
Em 10 anos de via crucis forense, paguei o
preqo que os usurpadores me cobraram, em-
bora indevido. Tenho esperanga de um dia es-
crever sobre essa experi8ncia para socializar
o que nela aprendi. Mas ficaria muito grato se
um advogado competent, honest e corajoso
tamb6m auditasse esses processes.
Nao tenho divida que eles caracterizam
um odioso process de perseguiq~o political,
ao qual serviu a ignominia, o despreparo ou a


omissao de alguns magistrados do Tribunal de
Justiqa do Estado do Pari. Eles foram cdm-
plices na trama de me colocar na pele de Pro-
meteu, atado a pedra nada independent da
justiga para servir de festim a abutres, sem pelo
menos a garantia de que a peqa papachib6 re-
editava a matriz grega.
Nos autos tamb6m esti documentado para
sempre o mais tenaz process de sufocamen-
to de um 6rgao de imprensa por outro 6rgao
de imprensa, sem paralelo nos anais do joma-
lismo brasileiro (e mundial?). Ah, se nossos
pesquisadores tivessem o hibito de pesquisar
documents em fontes primdrias...
Creio nao ser desmedida a confianqa de
que este JP serviu de document para alimen-
tar a agenda dos que o leram nesta Amaz6nia
fascinante (e triste), e continuarS a servir de
refernncia aos que eventualmente vierem a l1-
lo nos arquivos (se possivel, num future nao
muito remote, que o nosso talvez venha a ser
mais curto do que merecerfamos). Na maioria
das vezes, o "furo", a abordagem exclusive, a
angulaqgo privilegiada ou a informagao inica
nao proporcionaram a sensaqao de realizacqo,
mas a inc6moda perturbaqao da solidao. O JP
esteve s6 em diversos temas porque a grande
imprensa deles fugiu como o diabo da cruz.
Para nao se comprometer, por exemplo. Ou
para nao atingir interesses comerciais. Nao
raro, infelizmente, por crassa incompetencia.
Nao se trata, por6m, ao contrario do que
muitos proclamam, apenas de um problema de
linha editorial, de desvio corporativo, de vicio
gerado pelo exercicio do poder. Os jomalistas
devem fazer um sdrio exame de consci8ncia
para verificar se muitas dessas lacunas nao fo-
ram abertas individualmente, sem qualquer or-
dem superior ou condicionamento extemo. De-
veram-se a covardia, desleixo ou irresponsabi-
lidade estritamente pessoal. Para tender a in-
teresse commercial de um ente 6nico: o autor da-
quele texto viciado, ou aquele que se ausentou
do tema por deliberado oportunismo (ou esper-
teza). Ja 6 expressive a quantidade dejomalis-
tas pessoas juridicas, que vendem mercadoria
de exclusive direito de jomalistas pessoas fisi-
cas. Por ser expressive, 6 uma situaqao descon-
fortAvel. E nada honoravel.
Disse Drummond, num dos seus muitos
versos maravilhosos, que da luta pela palavra
muitos deserdaram e outros nela nem chega-
ram a entrar. Mas agem como se fossem ex-
combatentes, exibindo medalhas ficticias e fe-
rimentos falsos. A imprensa da Amaz6nia nao
tem estado A altura da Amaz6nia dos nossos
dias. Essa inadequagao causa um imenso mal
t miss~o de impedir que esta regiao se incor-






4 JOURNAL PESSOAL 2, QUINZENA DE JULHO/2002


pore ao acervo de areas espoliadas na hist6ria
do colonialismo no planet.
Nao dou entonaq6es 6picas a esse desaflo.
Vejo-o na sua dimenslo t6cnica, como algo am-
plamente viAvel. A n6s bastaria que fossemos
escravos dos fatos, apurando-os cor todo ri-
gor e divulgando-os com o maximo de clareza
e profundidade que nos fosse possivel.
t tao simples ser jornalista. E 6 tao
complex!
Onde estao os fatos? Eles se esgotam na sua
aparigqo superficial, no que as assessorias de im-
prensa divulgam, nos comunicados oficiais e no
que dizem os personagens nas entrevistas? Tudo
o que sao 6 o que ocorre em nossos limits terri-
toriais? Os fatos sao aqueles c6digos embara-
lhados e para chegar a eles 6 precise decodificar
os sinais? Um fato 6 aut6nomo ou s6 adquire
sentido no conjunto, no context que o ilumina?
E precise seqiiencia-lo e encaded-lo para que ele
deixe de ser controlivel (e manipulavel) apenas
pelos que Ihes deram causa, entrando no merca-
do dos acessos mais amplos?
Aqui ao menos se fez o esforqo para aten-
der a cada uma dessas perguntas, e de nume-
rosas outras. Sem as devidas respostas, o jor-
nalismo vira essa sensaboria de boletim buro-
critico e essa carta enigmitica que a grande
imprensa public todos os dias, com muitas
cores e bugigangas informiticas.
Sempre, 6 claro, hi um ou outro 6rgao em
dia com sua missAo e uma ou outra excecqo
em publicaqces em regra desavindas de sua
tarefa, a renovar a esperanqa de que o joma-
lismo possa vir a ser praticado com mais cons-
tancia e conseqiiencia. Mas logo a exceq~o
retoma a sua condicao de acidente e o percur-
so segue o padrao cosm6tico de um jornalis-
mo acomodado As supostas leis do livre mer-
cado, refletindo as tend&ncias e padres pro-
jetados a partir de algum laborat6rio sagaz,
dono da marca "livre mercado" (que, dejusti-
qa, deveria ser "livre o mercado").
O JP foi, cor todas as suas muitas limita-
q6es e deficiencias, uma exceq~o de longa du-
ragqo aos secos & molhadosjoralisticos, mas
nao podia desafiar inc6lume e olimpico os ris-
cos da lei da selva. Por falta de recursos, foi
deixando a linha de frente, que esti sempre a
se deslocar e se aprofundar no territ6rio ama-
z6nico, recuando para uma posiq~o mais de
retaguarda, analitica. Para nao cair numa vi-
sdo de luneta ou sat6lite, foi gastando o capi-
tal de informaq6es acumulado em anos de tes-
temunho direto dos acontecimentos.
Embora seu esquema de funcionamento co-
lidisse com a equaqdo de viabilidade econ6mi-
ca, mantendo-se com obstinaqao como um mi-
cro-neg6cio, confiei em que o outro lado pon-
to de equilibrio pudesse entrar cor a sua parte.
Como este nio 6 umjomal de rabo preso com o
leitor apenas para efeito de marketing, s6 podia
sobreviver se o leitor pegasse o pio na a unha.
Cada vez que algu6m se dispunha a ajudar, Ihe
sugeria que comprasse mais de um exemplar. Se


possivel, virios. De preferencia mandando ojor-
nal para fora de Bel6m, o que j nao mais podia
fazer por meus pr6prios meios.
Af surge um problema de natureza editorial:
hi mais interesse pela Amazonia fora da regiao
do que dentro dela. O que conta, por6m, nao 6
um interesse massive, que, como sempre, acaba
sendo distorcido pela incompreensao a respeito
do que 6 a Amaz6nia. Poucos, fora da regiao,
sabem o que ela realmente 6. Interpretam-na corn
base em valores a ela atribufdos, o colonizador
impondo o que quer ao que 6.
Para completar a trag6dia, o colonizado
(mais uma vez) pensa pela cabeqa do coloniza-
dor, sem o console de poder ser contempora-
neo de sua pr6pria hist6ria. Mesmo olhando
com os olhos arregalados, v8 mais miragem do
que realidade. A realidade que ele v8 6 apenas
uma parte da realidade e, talvez, a sua part
menos heuristica. A parte principal esti fora da
regiao. A Amaz6nia sempre foi intemacionali-
zada. Agora mais do que nunca. Definitivamen-
te. S6 conseguirA entende-la e domind-la quem
for capaz de ve-la nessa moldura maior, puxan-
do todo o fio do novelo ao inv6s de se conten-
tar cor sua ponta visivel, que emerge neste
quintal da vontade metropolitan. S6 ha hin-
terland por existir oforeland.
Como compor uma agenda essencial, com-
binando os dois elements, o externo e o in-
terno, as razoes do colonizador e as do colo-
nizado, e oferecer o produto dessa cozinhajor-
nalistica nos dois pianos, intervindo como um
agent da libertaq~o?
O pdblico intemo quer saber do jogo de
poder local, no que esta certo. Mas ele preci-
sa saber tamb6m que hi umjogo de powder mais
amplo, nao necessariamente tao conventional
quanto ojogo mais imediato. t precise forqi-
lo a encarar essas quest6es mais complicadas
e como se diz costumeiramente mais Sri-
das. Inclusive com a matdria de primeira pi-
gina, num texto mais long, proporcional A
complexidade do assunto.
JA o ptiblico de fora que interessa a uma
publicacqo verdadeiramente amaz6nida nao
quer perder tempo com as adiposidades paro-
quiais: o que Ihe interessa 6 ir ao cerne das


O grupo Liberal consider o mundo como
um produto da sua vontade. O que deseja que
exista, existird. O que ignora, nao terd vida.
Como acha que a vida humana se reduz a ne-
g6cios, a serem conduzidos de uma forma sin-
cr6nica e consuetudindria, com base num hi-
pot6tico decilogo produzido pelos donos da
empresa, fora do qual no hi salvaqao, o que
nao esti abrangido por essa cosmologia deve
ser lanqado no 6ter.
E assim que os Maiorana nao reagiram a
denincia aqui feita, na ediqao passada, de que a


quest6es de fundo. E precise balancear essas
duas demands. Mas 6 fundamental dispor a
capacidade de atingir os dois p6blicos. Com
que catapulta?
Cada vez mais o JP vinha sendo um jomal
de Bel6m, que monopolizava quase 90% da sua
tiragem. No passado, quando circulava apenas
entire assinantes, essa proporg~o chegou a bai-
xar para menos de 60%, um perfil mais coerente
cor os prop6sitos da publicagqo. Como uma so-
luq~o intermediaria, tentei a Agenda Amaz6ni-
ca, publicacqo mensal, com 50% a mais de pi-
ginas (e no preco), mais temitica, empunhando
com maior decisao uma bandeira de combat
pela consciencia do ethos amaz6nico (e contra o
pathos colonial). Dois anos depois, com a ven-
da abaixo do ponto de nivelamento econ6mico,
foi precise acabar com ela para que ela nao vies-
se a acabar cor o JP. Foi a indesejada comemo-
raqo dos seus dois anos de vida.
Agora 6 a vez deste Jornal Pessoal. A ini-
ciativa 6 penosa. D6i. Mas nao a adoto com
migoa, rancor ou a sensaqao de que tudo foi
indtil. Muito pelo contrario: o leitor do JP me
permitiu a supreme graqa de ser feliz fazendo o
jomalismo de que gosto (e o inico que sei fa-
zer) contra todas recomendaq6es dos analistas
econ6micos, todas t~o certas nas conseqiienci-
as quanto indesejAveis como prospect politi-
co. Provei que o inviavel 6 possivel, ainda que
possa nao ser eterno ou duradouro. Mas, como
consagrou o poeta Vinicius de Moraes, sendo
eterno enquanto durar. A despeito do preqo.
Fiz estejomal sempre pensando nele como
etemo. Encerro sua hist6ria esperando que dure.
Ao menos na mem6ria, no corag~o e na vonta-
de dos que, cor sua leitura, honraram esta pe-
quenina folha impressa. Se o vento soprado por
estruturas mais poderosas pode leva-la, o seu
perfume fica morando no ar, como na mdsica
do grande poeta maranhense Joao do Vale.
Que este perfume more no ar que oxigena
a cabeqa dos personagens empenhados em
construir uma hist6ria melhor para a Amaz6-
nia, 6 a esperanqa que fica, a renascer em no-
vos combates e em novas trincheirasjomalis-
ticas. Ainda hi vento para fazer tremular a
nossa bandeira.


numeraqAo do jomal O Liberal estA grosseira-
mente errada. Nao 6 um erro qualquer, sanivel
por uma nota de redacqo. Trata-se de erro grave,
a comprometer o conceito de uma empresa.
Ojomal nao pode continuar a circular com
uma numeraqCo que esta inflacionada ao do-
bro. Nao importa que a falha tenha sido apon-
tada por um terceiro, antes de ser percebida
por um integrante da pr6pria empresa. Afinal,
quem estA na chuva arrisca-se a se molhar. E
um dos elementos definidores de quem 6 libe.
ral, mesmo que apenas na fachada.


Silencio





JOURNAL PESSOAL 2 QUINZEINA DL) JULHtU


0 cobre silencioso


A Companhia Vale do Rio Doce, a empresa
de maior rentabilidade no Brasil no ano passado
e a que mais export, comecou neste ano, no Par,
uma nova etapa da sua hist6ria de 60 anos. Como
dizem seus executives, ela esta incluindo um novo
produto no seu portfolio. Aos seis itens ativos des-
se mostrurio (ferrosos, bauxita, aluminio, cau-
lim, energia e logistica) esta acrescentando um
s6timo, o cobre, no qual era quase ne6fita atW re-
centemente. Corn essa cesta de neg6cios, acredi-
ta que vai se consolidar como aprimeira multina-
cional brasileira, rigorosamente falando.
O capitulo do cobre promete grandeza equi-
valente A dos moments anteriores. Na Amaz6-
nia, por6m, tera dimenso maior do que tudo o
que a companhia fez at6 hoje, em 33 anos de pre-
senqa na region. At6 o final desta d6cada, cinco
minas estardo funcionando na provincia de Cara-
jds, 550 quil6metros a sudoeste de Bel6m, repre-
sentando investimento de 2,5 bilh6es de d6lares
(mais de sete bilh6es de reais ao cmnbio do dia).
A Vale se torou dona exclusive e absolute
das jazidas, depois de ter-se livrado da socieda-
de com duas enormes multinacionais (a sul-afri-
cana agora de volta a Londres Anglo Ameri-
can e a americana Phelps Dodge). Atrav6s de
subsidiirias, estard produzindo 650 mil tonela-
das de cobre. E o dobro e mais um trocado das
300 mil toneladas que o Brasil importa atual-
mente do produto, que consomem de 400 mi-
lh6es a 500 milh6es de d6lares em divisas, o se-
gundo item mais pesado da pauta de importaqao
de produtos de origem mineral.
Com o cobre rendendo acima de um bilhao
de d6lares de faturamento annual a partir de 2009,
a CVRD dobrard a renda que alcanqa todos os
anos em Carajds atrav6s da exploraqAo de ferro,
manganes e (em vias de exaustao) ouro. Cor a
diferenqa de que o bilhao de d6lares atual result
da venda de mais de 50 milh6es de toneladas de
bens minerals, sobretudo o mindrio de ferro. Para
dobrar esse valor, precisard colocar no mercado
apenas 650 mil toneladas de cobre, pouco mais
de 1% do volume fisico de ferro. A correlagqo di
uma iddia da diferenca de valor relative entire os
dois bens minerals.
No texto distribuido paralelamente a expo-
sicqo que fez para a imprensa, na semana passa-
da, em Bel6m, para anunciar o inicio efetivo do
capitulo cobre na hist6ria da Vale, o director de
operaqbes da companhia, Marcelo Bastos, ten-
tou mostrar que essa nova atividade iri inovar
em relagqo ao padrio de atuaqao da ex-estatal,
privatizada em 1997. Admitiu que, como mine-
radora, "a CVRD ndo verticaliza at6 o tiltimo
grau os produtos do seu portfolio". Se agisse
assim, se tornaria "ainda mais gigante do que ji
6, o que representaria riscos para o equilibrio do
mercado industrial, especialmente no Brasil".
No caso do cobre, por6m, "o produto ji sairn
das minas de Carajis cor 75% de valor agrega-


do", sustenta a empresa no document. Ela argu-
menta que as agregag6es posteriores serao ape-
nas na fundiqao, para a transformaqo em produ-
tos como fios, por exemplo. "A fabricaqio de fios,
alias, represent 50% da utilizacgo do produto no
mundo inteiro", enfatiza ainda.
O primeiro dos cinco projetos de cobre, con-
duzido pela Mineraqao Serra do Sossego, com
investimento equivalent a US$ 380 milh6es (ou
pouco mais de US$ 1 bilhao ao cambio do dia),
foi descrito como o melhor que se poderia con-
ceber em qualquer parte do mundo. Ingressan-
do no mercado exatamente quando hd um ex-
cesso na oferta e uma competiqao feroz entire os
produtores de cobre, a CVRD diz ter buscado
"novos padres de implantaq5o e produgqo",
cor os quais quebrou "verdadeiros paradigmas
do mercado mundial de mineragqo".
O custo de implantaqFo do Projeto Sosse-
go sera de US$ 2,5 mil por tonelada, "o mais
baixo do mundo". Segundo a empresa, novos
projetos de cobre sao implantados com custo
m6dio de US$ 3,8 mil por tonelada e a expan-
sao de minas antigas, como as do Chile, por
exemplo, exigiriam investimentos de US$ 800
e at6 US$ 900 por tonelada.
A reduqAo de quase 20% no orqamento do
projeto, corn a economic de US$ 70 milh6es em
relaq~o A iltima estimativa, antes do inicio da
fase de implantagqo, no primeiro trimestre deste
ano, s6 se torou possivel com medidas extre-
mas de racionalizaq~ o e otimizaqao, incluindo a
substituiqSo de miquinas novas por equipamen-
tos usados. Pesou tamb6m na planilha de cdlcu-
los o diferimento fiscal, que a empresa reivindi-
cou e o govemo do Pard esti examinando, tudo
a indicar que aprovard o beneficio.
Deixar o pagamento de imposto para a fase
operacional e compensar essa vantage com cer-
to adiantamento j se tomou um mecanismo tra-
dicional na viabilizaqao de empreendimentos de
porte expressive (os chamados "grandes proje-
tos", presents em todas as agendas contempo-
rfneas da Amaz6nia), quando eles entram em
mercados muito competitivos, como ocorreu
pouco tempo atris com a alumina.
Seria tamb6m o caso do cobre. O preqo inter-
nacional bateu no fundo do poqo. Os estoques do
produto no mundo estdo muito altos. Empresas
com menor capacidade de competiqao estao fe-
chando, enquanto as corporaq6es gigantes engo-
lem novas press minerals. Mas a CVRD, repe-
tindo a premoniq~o com o ferro de Carajs, mais
de 30 anos atras, senate o cheiro de recuperamqo.
Ela prev6 que a produqao atual, de 13 milh6es
de toneladas, que esta deixando sobras desaten-
didas, seja pressionada pelo aumento da deman-
da no Oriente, especialmente na China. Esse mer-
cado deverd crescerd 5,4 milh6es de toneladas e a
Vale pretend abocanhar grande parte desse naco
com suas 650 mil toneladas de Carajas, toda ela


voltada para a exportagqo. Nao se vexa de pro-
clamar que se trata de uma "proposta ousada".
Mas hd de convir que sujeita ao teste de con-
sistencia da controversial plblica, infelizmente au-
sente no exato moment em que os empreendi-
mentos comeaam a sair das pranchetas para a re-
alidade. Durante muitos dos anos em que gastou
centenas de milhies de d6lares importando co-
bre, o Brasil tinha uma political piblica (equivo-
cada que fosse) para esse setor econ8mico, mas
nao tinha o produto. Nao, ao menos, na escala
desejdvel a sadide financeira, econ6mica e estra-
t6gica do pais. Agora que vai dispor de volumes
significativos do bem, deixou de ter political go-
vemamental para o cobre. A primeira e ultima
palavra esti sendo de quem o produz. Palavra res-
peitivel, 6 certo, mas sujeita ao necessario e salu-
tar questionamento de terceiros.
Talvez por causa dessa lacuna, aberta pela
ausencia do govemo e da sociedade, a CVRD,
que se tomard a monopolista virtual do setor de
cobre no Brasil, se senate autorizada a afirmar,
sem receio de contracanto, que a concentraqao
do cobre 6 o miximo de verticalizagqo em Cara-
jds, n5o s6 possivel (o que nao 6 exatamente a
verdade), como desejdvel (o que esti distant
de ser isento de divida).
A concentraqo, que eleva o teor de cobre
de 1% para 30%, seria uma cunha de rentabili-
dade entire a simples mineraq~o, de ganhos mi-
nimos por sua pr6pria natureza, e a fundiq~o, o
ponto final da cadeia produtiva, onde a exacer-
bada competiq~o teria reduzido a margem de
lucro a um minimo perigoso.
S6 nesse context seria possivel entender o
aparente paradoxo, que se tomarn esmagador em
2009, quando as cinco minas de Carajis estario
produzindo a plena carga: o Brasil se tomaro sexto
ou o quinto maior produtor mundial, no lugar da
inc6moda posigqo atual, de grande importador,
mas continuar comprando li fora concentrado de
cobre. Enquanto inporta, seguirA para o exterior
todo o concentrado de cobre que a Vale do Rio
Doce estarn escoando pela estrada de ferro de Ca-
rajds, com 890 quil6metros de extensao, at6 o por-
to de Ponta da Madeira, no litoral do Maranhao.
Como 6 pr6prio das paralelas, esses dois ca-
minhos jamais irio se encontrar. Tal descompas-
so 6 pr6prio de certas irracionalidades econ6mi-
cas, ou, talvez, sua 16gica tem explicaqgo pr6pria,
que deve ser encontrada nao em manuais de eco-
nomia ou qualquer outro tratado cientifico, mas
em determinadas obras da imaginadao humana
menos press a parametros racionais, como uma
certa Alice no Pais das Maravilhas, escrita muito
tempo atris pelo reverend ingles Lewis Carrol.
t uma questio a pensar. O que nao pode
acontecer 6 uma hist6ria grandiosa, como essa
do cobre de Carajas, estar comeqando e poder
vir a se tornar fato consumado, sob o generi,-
zado silencio atual.





6 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JULHO/2002


Festa
Em 1953 o Clube Sete de Setem-
bro convidava seu "corpo soci-
al" para abrilhantar com sua pre-
senga a "sauterie" danqante que
realizaria nos "aristocrdticos sa-
16es" do Para Clube, "gentil-
mente cedidos por sua ilustrada
Diretoria". 0 arrasta-p6 seria in-
crementado pela Orquestra Ma-
qaneta, "sob a regencia do pro-
fessor Guides de Barros". O tra-
je era a passeio.

Super-rainha
Cla Chady (hoje tamb6m Fa-
rah) foi a recordista de titulos no
carnaval de 1956. Depois de
completar 24 horas de perma-
nencia em festas, ganhou pela
melhor fantasia (de "aguia de
Marte"), como rainha da Assem-
bl6ia Paraense (recebeu 68 vo-
tos do "corpo social do aristo-
critico gremio) e como rainha


das rainhas do caraval, promo-
qFo que passou da Folha do
Norte para O Liberal junto corn
os ossos do barao.

Drama
Um dos sucessos editorials de
1956 em Bel6m foi Severa Ro-
mana. Jacques Flores, o nome
artistic de um cronista muito
popular na 6poca, escreveu o li-
vro para contar a hist6ria da
"jovem e pobre criatura que, as-
sediada pela conquista de um
celerado, resistiu A seduq~o e,
assim, preferiu morrer as mdos
do cruel conquistador a man-
char a sua honra de esposa
amantissima, ciosa de seus de-
veres conjugais", conforme di-
zia no enredo do livro. O fato,
ocorrido em julho de 1900, teve
tal repercussIo que o nome de
Severa Romana foi envolvido
"por um halo de pulcritude e de


Bossa nossa
Quem participou, na v6spera do natal de 1963,
do aniversario do jovem Paulo Guilherme Dantas
Ribeiro, na mansdo dos pais dele, os incontesta-
velmente colunAveis Deusdedith e Maria Eunice
Dantas Ribeiro, ganhou um present inesquecivel:
a oportunidade de ouvir a tera Silvinha Teles can-
tar cor o acompanhamento de Roberto Menescal


admiraq o", que Ihe garantiu a
perenidade na mem6ria. Seu td-
mulo 6 muito visitado no Cemi-
t6rio da Soledade.

Rddio
Em 1964 a (ji extinta) Radio
Educadora se apresentava em
an6ncio como "a tinica que
com a PRC-5 [Rddio Clube] 6
ouvida eficientemente em todo
o Estado do Para, graqas a sua
onda tropical". Proclamava
ainda ser "a dnica que 6 ouvi-
da corn exclusividade em mais
de 500 povoaqces paraenses,
tendo instalado receptores pr6-
prios, cativos As suas duas fre-
qii&ncias". Era o dominio do
radio em seus estertores.

Abstindncia
Em 1964 a Universidade Fede-
ral abriu pela primeira vez ins-
criqces para o curso superior de


ao violdo, dois dos personagens da Bossa Nova.
Silvinha e Menescal tinham vindo para se apresen-
tar na festa do "Top Set", do Autom6vel Clube, e
deram uma canja das melhores aos convivas de Pau-
lo, entire os quais se destacava Eliezer Athias, ao
lado de Silvinha. A cantora morreria algum tempo
depois, num acidente de carro.


jornalismo, que o Conselho Uni-
versitario a autorizara a criar.
Foram oferecidas 30 vagas, mas
apenas nove candidates apare-
ceram, ntimero aqu6m do neces-
sario para o funcionamento re-
gular do novo curso.

IncorporagAo
Em 30 de setembro de 1964 o
Conselho Universitirio aprovou
proposta do reitor Jos6 da Sil-
veira Neto e a UFPA foi autori-
zada a incorporar as Escolas de
Qufmica e Serviqo Social, que
at6 entdo funcionavam isoladas.
Ambas se encontravam em situ-
aq~o de pentiria, prestes a fe-
char. A Escola de Qufmica, que
funcionava onde hoje esti ins-
talado o Teatro Waldemar Hen-
rique, teve atuaqao pioneira.
Nela, Paul Le Cointe deu aula.

Esclarecimento
Em 16 de fevereiro de 1965
Athaualpa Fernandez publicou
na imprensa local a seguinte
nota, como mat6ria paga: "Por
dever de consci8ncia declare
que jamais me referi desairosa-
mente a respeito do Secretaria-
do do Tenente-Coronel Jarbas
Passarinho".
Ah, sim.

Ficha
No carnaval de 1966, em pleno
regime military, s6 podia cair no
samba quem tivesse folha cor-
rida da policia. O delegado de
costumes, Jodo Drumond Mar-
tins, que comunicou a exigen-
cia aos representantes de blo-
cos, ranchos e escolas de sam-
ba, explicou: assim se evitaria
que formerm nas agremiaq6es
elements sem moral ou ficha-
dos na policia".
Sinai dos tempos.

Clipers
Foi na gestio do tenente-coro-
nel Alacid Nunes na prefeitura
de Bel6m, em 1965, que foi pas-
sada a sentenqa de morte aos
clippers da cidade. Construidos
para servir de abrigo para pas-
sageiros de 6nibus, neles foram
instalados pequenos bares, acu-
sados de se transformarem em
"pontos de ajuntamento de de-


E~t~-1LI c:
~'I"BY~7;
...






JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JULHO 7


socupados e marginais", confor-
me a cr6nica policial. O primei-
ro a ser posto abaixo sob a 6gi-
de do regime de 1964 foi o de
Nazar6. Seguiram-se o "Brasil-
Portugal", situado em frente a
sede dos SNAPP (hoje Enasa -
Empresa de Navegaq~o da Ama-
z6nia), e outro mais atras, que
servia de terminal para os 8ni-
bus de Icoaraci.

Rui
No dia 28 de outubro de 1965
os alunos da Faculdade de Di-
reito da Universidade Federal do
Pard inauguraram o Rui Bar
Bossa. A idWia, dos acad8micos
Ali Jezine e S6rgio Couto, era
reunir todos os sibados advoga-


dos ji formados e academicos
em torno de uma feijoada, na
qual uma turma de ex-alunos
seria homenageada. Aproveita-
ram para fazer um jogo de pala-
vras em torno do "Aguia de
Haia". Mas provocaram a rea-
qao dos mais conservadores, que
interpretaram a homenagem
pelo lado negative: de desres-
peito a mem6ria do notivel ju-
rista baiano, que tinha uma ca-
bega proporcional a sua fama.
Em resposta, os estudantes re-
trucaram que, se vivo estivesse
e fosse ainda aluno de direito,
Rui daria ao bar o nome de Jos6
Bar Nifacio.
O Rui Bar Bossa teve vida
curta.


Cigarro native
Para anunciar os cigarros Estadistas, fabricados aqui mes-
mo, pela Y. Serfaty, o jornalista Ubiratan Aguiar (que tamb6m
atendia como o colunista social Pierre Beltrand) fez a melhor
pose neste antncio de 1957. Assegurava que o cigarro se igua-
lava ao melhor importado e continuaria a ser vendido pelo pre-
qo antigo, de 5,70 cruzeiros a carteira. Quem ndo queria um
cigarro de diplomat nos libios?, parecia pensar o Pierre, em
tom decididamente blas6. Ainda se alimentava a ilusdo, na 6po-
ca, de ter uma indtistria local competitive com a do Sul.

d.w m 1"IAl1 EM TAS I


UM
CIGARO

NO [

.r. Polo EXAT91


A hist6ria, agora
Se os politicos do Estado do Para tivessem feito a per-
gunta-chave que o senhor sugeriu sete anos atris, o que
teria acontecido e como estaria o nosso Estado hoje, em
especial o sul e o sudeste do Pari?
(Pergunta de Eliza Lucena de Assunfdo, feita em Marabd)

A pergunta se refere a um epis6dio ocorrido em 1995 e que
relembrei durante debate em Marabd, pouco mais de um mes atras.
O entao prefeito (e hoje deputado federal pelo PSDB) Haroldo
Bezerra, intervindo durante concorrido encontro realizado em Ma-
rabi mesmo, informou que na v6spera (um sAbado) toda a direto-
ria da Salobo Metais tinha se deslocado do Rio de Janeiro para
discutir cor a comunidade local a execuq~o do projeto de explo-
raq~o da jazida de cobre de Carajds.
Tres cidades disputavam ser sede da metaltrgica que a Salobo
estava pretendendo construir para beneficiary o min6rio, cor in-
vestimento total de 1,8 bilhao de d6lares: Parauapebas e Marabi,
no Pard, e Rosario do Oeste, no Maranhao. Cada uma se julgava
no direito de abrigar a fibrica, mas todas tateavam atris de infor-
maq6es seguras, ziguezagueando entire refer8ncias vagas ou total-
mente incorretas. Haroldo admitiu ter said do encontro com o
pessoal da Salobo carregando as mesmas ddvidas e incertezas que
para 1A havia levado.
Perguntei ao prefeito se ele tinha perguntado aos dirigentes
da empresa se a jazida do Salobo era suficiente para permitir a
produq~o de 250 mil toneladas anuais de concentrado de cobre
ao long de 15 anos de vida itil da fabrica. Ele responded que
nao e ficou intrigado: por que aquela pergunta especifica era
important?
Respondi-lhe que esse era o tamanho econ6mico minimo para
viabilizar a instalaqao da Salobo Metais em Maraba. Se nao hou-
vesse essa quantidade de min6rio, a fabrica ficaria perto do porto
da Ponta da Madeira, no Maranhao, para poder receber o concen-
trado importado. E nao haveria pressao political ou da sociedade
capaz de mudar tal decisao. Simplesmente porque qualquer outra
decisao tornaria deficitrio o empreendimento. Mesmo uma em-
presa estatal, como era ento a Companhia Vale do Rio Doce, na
6poca dividindo a Salobo com sua s6cia, a Anglo American, nao
poderia tomar outra decisao.
Citei o epis6dio para mostrar que s6 6 possivel discutir a im-
plantaq~o dos grandes projetos na Amaz6nia (ou mesmo qualquer
outra iniciativa econ8mica de significado) a partir de um quadro de
referencia t6cnico, com base em informaq6es corretas, em cima de
fatos. Sobre essa base comum pode-se derivar para uma s6rie de
alternatives e variantes, relacionadas A vontade, ao maior empe-
nho, a combatividade e outros elements de valor ou subjetivos.
Eles podem ser decisivos no seu moment certo, em sua pr6pria
instancia. Mas se tornardo indteis ou contraproducentes se nao se
assentarem numa estrutura informative s6lida.
Af reside o problema: a geraq~o das informac6es necessArias no
moment certo para embasar as decisTes na Amaz6nia, uma region
de fronteira, onde a hist6ria caminha aos saltos, atropelando ins-
tancias, ignorando aspiraq6es, firmando-se de acordo cor a dire-
triz adrede estabelecida.
O grande desafio 6 aplicar legend a acontecimentos que nao
sao auto-explicativos, sintonizando os fatos com o seu significado,
de tal maneira que possamos intervir efetiamente quando a hist6ria
se nos apresenta, embora com a roupagem de cotidiano. A hist6ria
tem batido A nossa porta e nao a atendemos, simplesmente por nao
sermos capazes de ouvir o som emitido.


SI' 1 ADISTAS enh mm pceo 5aw. mi ,
. a r m. ao nua .. E. :... '- 0.
Podnido*om o iawoo do Rio Grande do S.I C "'"- A.
n.0 tomou man n- J'..
ut s orn.ou ." uo B ia. ra go. n ar. n *e ,- o r, -,,,, ,-r-i
.r ... ',cr,, ESTADISTr S t rigat .i .. a-l V. 5 C,
hem no nc peladar I t cC. l.O.s I

V. tathbem val costar do novo ESTADISTAS I
_______ Wn/f/^__________








Grilagem do Xingu: ponto final na inercia?


Seis anos atris o entao juiz de Altamira,
Jos6 Torquato Alencar, mandou o titular do
cart6rio da comarca se abster de praticar
qualquer ato "que imported em transfer8ncia
ou alienaq~o" de uma enorme area de terras
que a Incenxil, uma empresa local, havia re-
gistrado um pouco antes, como se fosse sua,
nesse mesmo cart6rio. Usando como facha-
da a empresa de uma famflia de Altamira, a
poderosa Construtora C. R. Almeida espe-
rava se apossar de um territ6rio pelo menos
tres vezes maior do que o imp6rio fundidrio
que pertenceu ao milionario americano Da-
niel Ludwig, o Projeto Jari, origem de tanta
celeuma no passado. Se o golpe desse cer-
to, Cecilio do Rego Almeida se tornaria o
senhor feudal de uma drea do tamanho da
ilha de Maraj6, a maior ilha fluvial do mun-
do, algo que jamais passou pela cabeqa do
mais poderoso fazendeiro marajoara.
A perpetraq~o dessa mega-grilagem co-
mecou a ser desfeita quando, em 1996, o Iter-
pa ajuizou em Altamira uma aq~o de nulida-
de e cancelamento dos registros imobilidrios
feitos pela Incenxil, tigre de papel da C. R.
Almeida. As provas do dominio pdblico so-
bre a area eram tao evidentes, assim como o
desmascaramento das fraudes praticadas na
transfer8ncia das terras para o patrim6nio
privado, que o juiz Torquato Alencar nao
hesitou em conceder a tutela antecipada re-
querida pelo Instituto de Terras do Pard.
Profeticamente, o juiz (hoje atuando na
comarca de Bel6m) disse que a cautela de
averbar nas notas do cart6rio o alerta de que
a eficacia dos registros havia sido suspense
por media judicial se devia A "dimensao
monumental da area" e ao risco de "ser ela
desmembrada em um ntimero muito eleva-
do de propriedades menores, o que poderia
vir a lesar terceiros e causar mais dtivida na
ji tumultuada questdo fundidria na regilo".
O efeito prAtico da decisAo seria impe-
dir que a empresa detentora dos registros ne-
gociasse as terras. Mas a Incenxil continua-
ria no dominio fisico da area, podendo dis-
por dela para outro fim que nao fosse o da
venda (como o apregoado projeto ecol6gi-
co). Caso vencesse najustica a dispute com
o Iterpa, poderia alienar a quem quisesse seu
bem patrimonial, sem qualquer outro preju-
fzo. O maior seria o da coletividade, caso
uma terra que efetivamente pertencia ao
Estado fosse repassada a terceiros ou explo-
rada de md-f6.
A aqao do Iterpa continue se arrastando
pelos intermindveis corredores processuais
dajustiqa, mas desde entao todas as instan-
cias oficiais se manifestaram uniformemen-
te: as terras sAo de dominio pdblico e a pre-


senga de um suposto proprietArio na area 6
illegal, fruto de uma grosseira grilagem. Foi
essa a conclusao de um inqu6rito conduzi-
do pela Policia Federal, partilhada por to-
dos os 6rgios da Uniao que se manifesta-
ram sobre a questAo. E essa a posiq~o do
Minist6rio Piiblico Federal, que tenta des-
locar o process originado da iniciativa do
Iterpa para a justiqa federal. Corn base nes-
sa posiqao, a Corregedoria Geral de Justiqa
do Estado estA afastando de seus cargos os
titulares dos cart6rios de registro de im6-
veis da regiao.
Apesar de todas essas provid8ncias, a
grilagem praticada pela C. R. Almeida con-
tinua ativa, possibilitando a derrubada e ex-
traq~o de madeira, especialmente o mogno,
os neg6cios paralelos e o uso da expectati-
va de direito como element de barganha
commercial. Toda essa pilhagem se sustenta
numa dnica base: a decisao tomada, em maio
de 2000, pelo desembargador JoAo Alberto
Paiva, em simples liminar, suspendendo os
efeitos da sentenqa do juiz Torquato Alen-
car e restabelecendo a plenitude dos efeitos
de um registro flagrantemente illegal. Essa
decisao seria confirmada no mes seguinte
pela 3' Camara Civel do TJE, numa sessao
realizada antes de comeqar o expediente
normal do tribunal.
Ningu6m conseguiu at6 agora derrubar
essa proteq~o. Completando agora dois
anos, ela volta a ser lembrada no moment
em que a desembargadora S6nia Parente
pede a presidencia do Tribunal de Justiqa
do Estado providencias, "a fim de que ajus-
tiqa do Pard nao sirva de instrument para
legalizar terras pertencentes A Uniao ou ao
Estado, em nome de terceiros" (ver Jornal
Pessoal 288).
A desembargadora pede que essas me-
didas comecem apurando decis6es de ou-
tras duas desembargadoras, Maria do Cdu
Cabral Duarte e Rosa Portugal Gueiros, em
beneficio de dois dos personagens dessa
hist6ria, que envolve a maior grilagem de
terras em todos os tempos, podendo che-
gar a sete milh6es de hectares, e se estenda
at6 os cart6rios.
Respeitando a autonomia das jurisdig6es
e o devido process legal, o TJE devia dar
a esse caso a importancia que ele ter, usan-
do todos os meios ao seu alcance para im-
pedir que o judiciario paraense acabe sen-
do contaminado pela n6doa que jd macula a
participaq~o de alguns dos seus integrantes
nessa grave hist6ria. Para isso, precisa sair
da in6rcia e da indiferenqa, apostando nao
na forga da acomodasgo, mas na contunden-
cia do compromisso com a verdade.


Como muitos da minha geragqo,
comecei a trilhar o caminho da
poesia guiado por Geir Campos. A
t6cnica estava A disposiq~o no
Pequeno Diciondrio de Arte
Poitica. A mat6ria prima foi
fornecida em abundancia atrav6s de
traduq6es, as mais marcantes, ao
menos no meu caso, em Bertolt
Brecht, Rainer Maria Rilke e Walt
Whitman. A poesia do pr6prio Geir
nAo foi tdo important para mim,
que ja passava da fase discursiva
para o texto eliptico, a exploraq~o
dos sons e mist6rios da palavra.
Mas quem serd insensivel aos
versos que ele esculpiu para "Da
profissAo do poeta"?:

Operdrio do canto, me
apresento
Sem marca ou cicatriz, limpas as
mdos,
Minha alma limpa, a face
descoberta,
Aberto o peito, e expresso
document -
A palavra conforme o
pensamento ".

Como poeta, tradutor, crftico e
militant, Geir Campos fez pela
poesia como poucos no Brasil.
Espalhados pelo pais, ficamos
6rfaos da gratiddo ao trabalho
missionario que ele desenvolveu,
vertendo para o portugues versos
produzidos originalmente em virias
outras linguas, por autores dos quais
foi um introdutor na nossa cultural,
at6 sua morte, em 1999.
A remissao dessa divida
comeqa a ser feita agora, a partir
da publicagqo, pela Imprensa
Official do Estado do Rio de
Janeiro, de um pequeno volume
em homenagem a Geir, contend
depoimentos sobre ele, seus
poemas e alguns textos in6ditos.
Iniciativa de Anibal Braganca e
Maria Lizete dos Santos, A qual
outras 13 pessoas aderiram com
seus testemunhos, interpretando a
vontade de milhares de amigos,
discipulos e admiradores desse
grande intellectual.


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