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Journal Pessoal L C O F L A V I PI N T O ANO XV Na 288 11 QUINZENA..-DE JULHO DE 2002 R$ 2,00 Tk Ia G 'I'#-NA fOLLE"C"UT STI'A LjjV,!tur ::airY ( FLC3;1D A Ha algo de podre no TJE? Uma desembargadora acusa duas colegas de tomarem decisdes que abalam a imagem dajustiga no Pard efavorecem a apropriagdo ilicita de bens do patrim6nio public. As duas desembargadoras criticadas reagem. Pode resultar dai uma attitude do judicidrio diante de seguidas denuncias contra esse powder? Ha um "clima de intranqiilidade" no Tribunal de Justiqa do Para, "em razdo de atos praticados por servidores e magistrados", que estariam contaminando como um todo a atuaqao do judiciario, "de maneira perverse", substituindo "a serenidade, a mo- deraq~o e a discriqao", caracteristicos do ato de julgar, por um "ambiente de procela". Com base nesse diagn6stico, a desem- bargadora S6nia Maria de Macedo Parente requereu A president do TJE, Climeni6 Pon- tes, "providencias urgentes" para a apura- gqo de fatos que apontou, envolvendo, en- Str outros, suas colegas as desembargado- ras Maria do C6u Cabral Duarte e Rosa Maria Portugal Gueiros. S6nia Parente, no oficio dirigido A presi- dente do TJE, lido durante sessao do pleno, comeqa por estranhar a participaq~o, a seu ver indevida, de Maria do C6u em litigios envol- vendo enormes areas de terras no Xingu, o mais recent alvo preferencial de grileiros e madeireiros no Para. Cita como exemplo a distribuiqao para Maria do C6u de um agravo de instrument interposto por Adnaldo Cunha, "emboraji se houvesse estabelecido a preven- gqo da signatiria para relatar o processo. Alertada para o fato, Maria do C6u encami- nhou os autos para S6nia Parente. O epis6dio se repetiu em relaqao a outro agravo, desta vez de Carlos Aguiar, envolven- do as mesmas terras e os mesmos personagens da incessante e cada vez mais selvagem dis- puta pelas terras do Xingu. O recurso seguiu direto para a desembargadora Maria do C6u, como se ela estivesse prevent (isto 6, vincu- lada ao caso, por dele haver participado ante- riormente), quando o process "sequer havia sido distribuido", conforme destaca S6nia Parente, em grifo. Ela 6 que acabaria sendo sorteada como relatora. A novidade resultava de que, desta vez, a desembargadora Maria do C6u j havia con- cedido o pedido ao agravante, em liminar, e i- 1ARLA PERDEa GERRAI DA ENEG (PaU 4/5)1~ : :e T 2 JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE JULHO/2002 mandado por fax a sua decisao (de quatro lau- das) para cumprimento pela juiza de Altami- ra, onde tramitava o process, "sem que exis- tisse o Agravo distribuido e autuado". S6nia Parente consider esse ato "no minimo teme- ririo, principalmente quando se trata de ques- tao de repercussdo national, envolvendo em- presas arroladas na CPI da grilagem de ter- ras e pessoas denunciadas criminalmente pelo Minist6rio Piblico" (ver, a prop6sito, o Jor- nal Pessoal 286). Testemunha a desembargadora denunci- ante que quando os interessados constata- ram a irregularidade, de um recurso ser de- cidido antes de ser autuado e distribuido (acabando por ser encaminhado a outra de- sembargadora, que nao a autora da decisao), criou-se "um grande tumulto nos corredo- res [do fdrum de Belem], onde a boataria corria A solta". S6 entdo S6nia Parente diz ter torado conhecimento "que me coubera por distribuiqHo aquele feito, jd examinado e despachado por outra desembargadora no dia anterior, sem que sequer houvesse che- gado as minhas mdos". Disse S6nia que, ao telefonar para a juiza de Altamira atris de informag6es, ficou sa- bendo que no mes anterior a mesma desem- bargadora havia concedido outra liminar em favor da Incexil, empresa atras da qual esti o empreiteiro Cecilio do Rego Almeida, tentan- do se apossar de at6 sete milhbes de hectares no Xingu. A juiza de Altamira informou que s6 nao cumprira a decision "em razao do tu- multo criado no municipio relativamente a essa fortune que se encontra na mata". Ao consul- tar o computador, Parente verificou a existen- cia de despacho de Maria do C6u "revogando a liminar e determinando que os autos me fos- sem encaminhados". Analisando os processes referentes ao Xin- gu, a desembargadora diz haver constatado situaq6es que deviam ser levadas "em especi- al consideraq~o, a firn de que ajustiqa do Pard nao sirva de instrument para legalizar terras pertencentes a Unido ou ao Estado, em nome de terceiros". Em relacqo a uma dessas areas, o seringal Monte Alegre, que a Incenxil pre- tende ser seu, a partir de habilitaqSo no esp6- lio do suposto propriet~rio, Parente encontrou nos autos um oficio do Iterpa (Instituto de Terras do Pard) informando que essa area nao passaria de uma posse (e nao propriedade), que no maximo poderia ter 3.900 hectares. No entanto, ela foi registrada no cart6rio de im6- veis de Altamira, o principal esquentador de grilagens da regido, como se abrangesse nada menos do que 329.600 hectares. Ciente dessa fraude, em 1996 o Iterpa props uma aqgo de cancelamento do registro, "a qual se encontra aguardando o julgamento do feito". Diante desses fatos, a desembargadora pergunta: "foi apurada a responsabilidade da escriv5"? Ela aproveita para suscitar uma questdo: a formagao do inventirio dos bens deixados por Raimundo Ciro de Moura, incluindo o serin- gal Monte Alegre, e sua propositura na co- marca de Bel6m, ao inv6s de Altamira, "nao seri uma forma de legalizar a propriedade"? Citando o noticidrio da imprensa sobre a pilhagem fundidria e madeireira no vale do rio Xingu, S6nia Parente critical a liminar conce- dida por outra desembargadora, Rosa Portu- gal Gueiros, deferindo habeas corpus que Osmar Ferreira, conhecido na midia como "o rei do mogno", requereu para deixar de com- parecer a uma audiencia na comarca de Alta- mira, onde foi denunciado pelo Minist6rio Publico do Estado. Continuando a folhear os jorais, a de- sembargadora S6nia Parente localizou outra decision polemica: ajuiza Marneide Merabe- th, da 4' vara civel da capital, deferiu certi- dao de quitacao de im6veis financiados pelo governor federal, quitagto essa feita com ti- tulos podres, como os tristemente famosos TDAs (Titulos da Divida Agrdria). S6 depois que os im6veis foram alienados a terceiros, produzindo seus "efeitos nefastos", "a ma- gistrada candidamente revogou a decislo". Mas ai a quitacqo ji havia permitido passar em frente im6veis que continuavam grava- dos junto ao banco financiador, prejudican- do os compradores, lesados em sua boa f6 pela liminar concedida pela juiza em tutela antecipada ao pedido. A desembargadora S6nia Parente diz que sua solicitaqco de providencias represent um grito "ha algum tempo preso na garganta", atra- v6s do qual o TJE poderia "sair do estado le- tirgico em que nos detivemos, separar o joio do trigo, ao inv6s de nos acomodarmos com as acusaq6es contra alguns, se muitos sao os que honram a magistratura estadual, mas aca- bam por ser atingidos quando se ataca a Justi- qa como um todo". Recorre a um famoso trecho da peqa "Ha- mlet", de William Shakespeare ("Ha algo de podre no Reino da Dinamarca"), para desta- car que, como relatora do process sobre as terras do Xingu, haverr sofrido pressoo de toda ordem por parte de desembargadores, asses- sores, advogados e outras eminencias pardas, at6 mesmo um desembargador do Estado do Tocantins". O motive? "Trata-se de uma for- tuna escondida na floresta: mais de duas mil toras de madeira (na maioria mogno), que fa- zem a desta dos madeireiros e seus amigos e a desgraqa da Amaz6nia". Em resposta, a desembargadora Rosa Por- tugal Gueiros atribuiu ao "exacerbado ejusti- ficado zelo" da president do TJE, Climeni6 Pontes, "o fato de que uma desembargadora, em pleno exercicio de sua atividadejurisdici- onal, seja convidada a dar explicac6es sobre ato que praticou em process pdblico e que pode ser objeto da devida consult por qual- quer interessado e a qualquer momento. Justificando o habeas corpus que conce- deu, argumentou que as acusacqes feitas pela policia contra o paciente "careciam de um minimo de credibilidade" e que a concessao do chamado rem6dio her6ico tinha embasa- mento na lei, na doutrina e najurisprudencia. Ainda mais porque grande parte do relat6rio do delegado de policia teria sido obtida atra- v6s da internet, uma fonte de consult temerd- ria, segundo a desembargadora, que conside- rou absolutamente normal sua decisao. O que a surpreendeu nao teria sido nem a divulgaqCo do seu ato pela imprensa, mas a reacao de sua colega de desembargo: "por mais que me esforce, nao consigo compre- ender a revolta e a inconformidade da ilus- tre magistrada", que teria colocado acima dos direitos de um cidaddo de reagir a uma tentative de constrangimento illegal o "aten- dimento de interesses nem sempre legitimos de organizag6es de baderneiros que infes- tam o planeta. Atitudes desse porte 6 que produzem na desembargadora Rosa Guei- ros profundaa vergonha". Ela tamb6m consider irrelevant se sua decisao poderia ser criticada pela imprensa ou o fato de poder favorecer algu6m conhecido como "rei do mogno", mesmo porque, como enumera, cor ironia, o que nao falta na terra sio reis (do rmdio, do futebol, do baiao, do camardo ou do carimbo). Lembrou que um certo "rei do ouro" chegou a aspirar a ser o maior contribuinte pessoa ffsica do imposto de renda, mas hoje "perambula pelas feiras do interior oferecendo seus pr6stimos como car- regador, em troca de comida". JA a desembargadora Maria do C6u Ca- bral Duarte defended seu precipitado des- pacho no agravo que acabou nao lhe sendo distribuido porque "em nenhum moment tive dtvida de que a minha relatoria era pre- venta", ji que havia despachado em ocasido anterior "mat6ria contingente. Enumera doutrina ejurisprudencia em sustentaqao do seu ato e assegura nao ter havido erro "e nem de long md-f6, quando conscientemen- te dei-me por preventa. Diz ter declinado do foro em favor da desembargadora S6nia Parente por presses que teria sofrido para tal, embora ressalte que, mesmo tendo atuado primeiramente na questdo, sua colega ainda nao havia subme- tido a questao ajulgamento. Sustenta que a suscitag~o pelo tribunal do conflito negati- vo de competencia entire as magistradas, uma soluq~o prevista na lei, seria o bastante para dirimir a pend6ncia e "expulsar deste ple- nirio o constrangimento, a duvida e o senti- mento de culpa que aqui se quis imperar". A president do TJE determinou a ins- tauraqgo de procedimento junto ao Conse- Iho Superior da Magistratura para apurar as dendncias feitas pela desembargadora S6- nia Parente. Os passes seguintes sermo da- dos no Ambito restrito desse colegiado at6 que uma decisao seja adotada. Mas, prova- velmente, nao para ji. JOURNAL PESSOAL 14 QUINZENA DE JULHO 3 A eleigao, dias antes de uma das decisoes Ao fechar esta ediq~o, no dia 25, a cinco dias do final do prazo para os partidos politi- cos realizarem suas convencqes e escolherem seus candidates as pr6ximas eleiq6es, o qua- dro da dispute ainda nao estava definido. Ouji apresentava suas definiq6es basicas, mas elas estavam sujeitas a mudanqas de iltima hora, como na previsao caricata da meteorologia (tempo bom, sujeito a chuvas e trovoadas). No encontro cor seus correligionirios, o ex-senador Jader Barbalho disse que apoiard Ademir Andrade para o govero do Estado. Como oficialmente o PMDB nao pode, no Para, coligar-se com outro partido que nao seja o PSDB (exceto se o partido visado nio apre- sentar candidate a presidencia da Reptiblica), o apoio de Jader sera informal. S6 podera su- bir no palanque de Ademir sem estar sujeito A impugnaq~o de sua pr6pria candidatura se o ex-goverador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinha, desistir de sua candidatura a pre- sidencia da Reptiblica e nio apoiar outro can- didato (que seria Lula, na hip6- tese mais factivel). Nao sendo candidate a gover- nador e na eventualidade de tam- b6m nao sair para o Senado, Jader disse aos seus correligionarios es- tar disposto at6 a disputar um lu- gar na Assembl6ia Legislativa, que foi o segundo estagio da sua car- reira political, alcancado mais de 30 anos atris, se assim fosse me- lhor para o PMDB, ou a deputado federal, para ocupar a maioria dos 17 lugares da bancada estadual na Camara dos Deputados. Era previsivel que Jader nao se bandasse para o lado de Hildegar- do Nunes, o candidate da "frente trabalhista", liderada pelo PTB. Ademir Andrade tem o que ofere- cer em contrapartida: sua desistnn- cia de disputar o Senado, que fa- cilitard uma vit6ria de Jader, ten- do apenas a sua frente Ana Jilia Carepa, do PT. Ja de Hildegardo o ex-senador teria apenas a possi- bilidade de se vingar de Almir Gabriel, lancando contra o candi- dato tucano, o ex-secretirio Simdo Jatene, o atual vice-governador, hoje tratado pelos almiristas de traidor. Cor Jader nos bastidores a seu favor, o poder de fogo de Hil- degardo cresceria. Sozinho cor o PPS e o PDT, pode dar chabti. Mas teri mesmo decidido Jader Barbalho compor com Ademir Andrade, arriscando-se a voltar ao Senado e a perder mais suporte poli- tico local (talvez, agora, um quinhao irrecupe- ravel e pesado, capaz de tirar o ex-senador da linha de frente do poder estadual)? E se estiver fechada a coligagdo branca, Jader conseguird arrastar para essa nova legito todos os peeme- debistas, inclusive os mais recalcitrantes a uma uniio com o senador do PSB? Se o que foi dito se confirmar na pratica, as duas candidaturas se fortalecerto. Pelo menos em tese, a ser confirmada pela rea- qao do eleitorado. Talvez a de Jader mais do que a de Ademir, a nao ser que a candi- datura presidential de Anthony Garotinho se esboroe de vez e o PT, ao alcance de uma coligaq~o formal outra vez, nio veja pro- blema em entrar no mesmo barco que abri- ga Jader Barbalho. Desistindo do nome de Maria do Carmo Martins e aderindo a can- didatura governmental de Ademir, o PT dard a ela a condigqo de favorite, um ponto de uniao das principals forqas de oposiqao ao governor Almir Gabriel. Ja os tucanos, para poderem tornar mais conhecido sua problemitica opqao por Ja- tene, estarao apostando num lance de risco ao receber Valdria Pires Franco, a esposa do arrendatirio local da legend do PFL, o deputado Vic Pires Franco, como compa- nheira de chapa do ex-secretirio de plane- jamento. Do ponto de vista do marketing, 6 a reediqao adaptada da opgao national tu- cana por Rita Camata, com seus encantos: uma mulher bonita, cor boa imagem, arti- culada, que pode tirar proveito da aparicqo diante das cameras. Mas como esse decal- que reagirA a sua aplicaqao a realidade, is viagens e comicios pelo interior? Os minutes de televisao parecem ter pe- sado mais na ponderaqao da decisao do que qualquer outro fator. Ela presume que a al- quimia do poder e o laborat6rio dos mar- queteiros farao o milagre, ou qualquer coisa, principal- mente se ha o combustivel da popularidade de Almir Gabri- el. Mas os esquemas te6ricos, por melhores que sejam, es- tao expostos a surpresas, so- bretudo quando ha, como pa- rece estar havendo, um exces- so de confianqa no poder de- cis6rio de um finico home. Que, alias, nem irg participar diretamente da eleiq~o. De certa forma, sob esse as- pecto, parecemos voltar A poli- tica da Repiblica Velha. Nio im- portava quem era o candidate. O que interessava era quem o patrocinava. Por isso, como re- gra, o candidate esperava pelo resultado de sua votagao no bem-bom da capital federal, que era o Rio de Janeiro. Nio regre- dimos tanto, 6 verdade, e o plei- teante ter que dar seu duro pe- las estradas, nos barcos e nos avi- 6es, afagando cabos eleitorais e apertando mios de simpati- zantes. Mas quem o acompanha ou fica acompanhando-o a dis- tancia 6 tao ou mais important do que ele. O patronato politi- co esti forte como ha muito tempo nio se via. E Para 6 isso. 4 JOURNAL PESSOAL I- QUINZENA DE JULHO/2002 0 future da estrela Em junho de 1973 uma misslo t6cnicaja- ponesa chegou ao Pard com uma tarefa: avaliar se era possivel implantar no Estado uma gran- de inddstria de aluminio. Era a pronta reacao do Japao ao impact do primeiro choque do petr6leo, ocorrido tres meses antes. Com o si- bito e elevado aumento do 6leo determinado pela Opep, a organizagdo dos pauses produto- res de petr6leo, dominada pelos xeiques do Ori- ente M6dio, a inddstriajaponesa estava amea- qada de morte. O aluminio era, ao mesmo tem- po, o bern industrial que mais consumia ener- gia e o metal cujo uso mais crescia. Mas o Japao nao dispunha de fontes de energia. Nem adequadas e muito menos abun- dantes e baratas. Iria ter que fechar todas as suas fibricas de aluminio, como acabou fa- zendo, e abrir novas plants industrials fora do seu territ6rio. Algumas ficaram nos sat6li- tes asidticos. Mas a maior seria montada a 20 mil quil6metros de distAncia, na Amaz6nia. Essa fibrica, sozinha, deveria responder por metade das necessidades da inddstriajapone- sa, produzindo 600 mil toneladas por ano. Equivalia a cinco vezes a produq~o brasileira de aluminio de entao. A Amaz6nia, nessa 6poca, era uma regiao asfixiada pela falta de energia. A precAria ge- ragao, tirada de velhas mdquinas t6rmicas a 6leo diesel, mantinha o consume em niveis baixissimos. Havia apenas duas pequenas hi- drel6tricas em andamento, na faixa de 20 mil quilowatts, isoladas junto a mercados inex- pressivos. Quando chegou a Bel6m, a missao japonesa examinava a viabilidade de instalar naquela area pioneira nada menos do que a maior usina de aluminio do mundo. Para que ela pudesse se tomar realidade, pensava-se em fazer subir a partir do leito do rio Tocantins uma enorme barragem de concrete, capaz de acumular Agua para produzir uma quantidade de energia 20 vezes superior ao consume so- mado de toda a regiao. Uma ordem de gran- deza de mais de dois milh6es de kw (a capaci- dade instalada final da hidrel6trica de Tucu- ruf sera de 8,3 milh6es de kw). Os japoneses nao estavam brincando. Eles estavam empenhados no que acabaria se tor- nando o maior process de transfer6ncia indus- trial de todos os tempos. Por isso, os resultados dos seus estudos surgiram rapidamente: em se- tembro de 1973 a Eletrobras criou a Eletronor- te, uma subsididria sua para atuar na Amaz6- nia, region at6 entao mantida a margem da agqo federal. Foi mais long: quebrou o monop6lio estatal da energia, pelo qual tanto lutara o pre- sidente Getilio Vargas (conforme denunciou em sua carta-testamento), ao permitir que empre- sas estrangeiras pudessem subscrever at6 um terqo do capital da Eletronorte. Pouca gente prestou atenq~o a essa novida- de alias, illegal. Mas ela tinha sua razao de ser: a future fabrica de aluminio que a (ainda estatal) Companhia Vale do Rio Doce implan- taria, em sociedade com um cons6rcio de em- presas japonesas, absorveria um terqo da po- tencia fire da hidrel6trica. Afinal, ia precisar de 10 vezes mais energia do que entao consu- mia toda a populaqAo amazonica. Subscreven- do um terqo do capital da Eletronorte, criada exatamente para se encarregar da hidrel6trica, que se tornaria recordista national em concre- to (ganhando da usina de Itaipu nesse item), os japoneses queriam se assegurar de que haveria mesmo energia suficiente para tanta demand. E que a tarifa toraria possivel fazer o lingote de aluminio chegar ao Japao a preqo mais bai- xo do que os pr6prios japoneses poderiam con- seguir, se ainda contassem com fabricas em seu pr6prio territ6rio. No transcurso desse capitulo ainda menos- prezado da nossa hist6ria industrial recent, algumas coisas mudaram. O tamanho da fi- brica de aluminio foi reduzido a metade, em- bora a Albras ainda tenha permanecido como a maior fabrica de aluminio do continent. Os japoneses nao precisaram entrar na Eletronorte para se assegurar energia farta e barata. O custo da hidrel6trica de Tucuruf, inicialmente orqa- do em 2,1 bilh6es de d6lares, foi multiplicado por quatro ou cinco vezes, conforme as dis- crepantes avaliaqces. Mas o objetivo que os japoneses estabeleceram a partir do dia seguin- te ao reajuste dos preqos do petr6leo foi al- canqado plenamente: todas as fabricas de alu- minio em territ6rio japones foram fechadas, mas o pais continuou a ter suas necessidades integralmente supridas de al6m-mar. Com uma vantagem: a um custo menor. Foi formidivel faqanha realizada pelo Japao: deslocou toda a producqo de aluminio para um ultramar satelitizado, cor especial destaque para a Amazonia, que se tomou a fonte de suprimen- to de 15% de todas as necessidades do Japio, abrigando a maior fibrica japonesa de aluminio fora da Asia. Esse 6 um tema capaz de elucidar o present e o future da regiao. A Amaz6nia entrou definitivamente no circuit produtivo mundial por suas reserves de energia. O s6culo XXI comeqou na regiao no exa- to moment em que os drabes forqaram os preqos do petr6leo a dar imensos saltos segui- dos. Nessa ocasiao o mundo rearrumou suas estruturas produtivas para se ajustar A nova realidade, de energia cara e finita (ou, como dizem os te6ricos, realizou-se uma nova divi- sao international do trabalho). A Amaz6nia iria se tornar uma important provincia ener- g6tica para aqueles que, nessa nova acomoda- qao, iriam sair na frente dos demais. O Japao saiu na frente. Nao foi por acaso, assim, que a primeira misslo enviada atras de uma said para o desafio imposto ao pais pelo choque do petr6leo aportou no Para, nesse aspect o Estado lider do process amaz6ni- co. Do nada, no curso de tres d6cadas, o Pard se transformou no quinto maior produtor bra- sileiro de energia e no terceiro maior exporta- dor de energia (porque transfer para fora do seu territ6rio parte da energia bruta que gera). t o segundo em extensdo e o nono em popu- laq~o, mas 6 o 19 em IDH (Indice de Desen- volvimento Humano) da Federagqo. Energia, portanto, nao esta sendo sin6nimo de desen- volvimento no Estado, ao contrdrio do que apregoa o jargao econ6mico. Grande parte do potential hidrAulico re- manescente brasileiro esta localizada no Para. Depois do Tocantins, que proporcionou a sexta maior hidrel6trica do planet, o pr6ximo alvo 6 o rio Xingu, onde a Eletronorte espera insta- lar a quarta maior usina do mundo. Tudo isso numa sucessao que atropela uma recomendd- vel pausa reflexiva: deve a Amazonia seguir a diretriz estabelecida, repassando para grandes consumidores privados uma quantidade fan- tastica de agua, cada vez mais escassa em todo o globo terrestre, na forma de energia bruta, que sera embutida em produtos industrials ele- trointensivos, que, por sua vez, sao vendidos no mercado international a preqos aviltados? O Pard novamente serve de parametro. t o sdtimo maior exportador brasileiro e o se- gundo em saldo de divisas exatamente por- que seu com6rcio exterior estA se especializan- do em produtos semi-manufaturados que car- regam consigo uma formidAvel quantidade de energia, mas tem preqos baixos. O Estado ja produz o maior dos eletrointensivos, o alumi- nio, e o terceiro dos produtos industrials em absorc~o de energia, o silicio metalico. At6 o final da d6cada tamb6m estard produzindo cobre, o segundo dos eletrointensivos. Paran- do nesse ponto da escala de verticalizaq~o, estard se condenando a ser uma provincia ener- g6tica, tanto national quanto international, e a ter relagqes de troca desfavoraveis, exata- mente porque a agregagqo de valor se dard no pais comprador do insumo industrial. Cresce- ri como rabo de cavalo: para baixo. Desen- volvendo o subdesenvolvimento. Quando chegaram ao Para, ha tres d6ca- das, com seu formidavel piano de ali estabe- lecer um p6lo mundial de energia e aliar a ele seu primo mais pr6ximo na escala industrial de transformacqo, o aluminio primario (na forma de lingote), os japoneses ji sabiam que isso ia acontecer: grande parte da produqHo mundial de eletrointensivos iria se transferir para esse lugar amaz6nico. Mas nao estava JOURNAL PESSOAL P QUINZENA DE JULHO 5 escrito nas estrelas que a condigqo para essa autentica revoluqao industrial se processar seria a imposiqao de um velho modelo colo- nial de provincia energ6tica ao Estado e, por extensdo, a toda a Amazonia. Talvez por isso seja bem sugestiva a bata- lha que, um tanto tardiamente, os paraenses estAo comecando a travar para impedir que um projeto em tramitaqao no Congresso Nacio- nal retire da bandeira brasileira a estrela que permanece solitiria num lado do firmamento simb6lico desde que o Brasil se transformou em Repdblica. Aquela estrela represent o Para. Talvez, como produto de um inconsci- ente coletivo perverse, o projeto queira dizer que o future dessa estrela individualizada ji esti escrito. E nao 6 nada bom. Por isso tern que ser embaralhado na constelaqao da ban- deira national e 1d perder visibilidade. Arquivamento precipitado Quinze anos depois do assassinate do ex- deputado estadual Paulo Fonteles, o caso pode ser remetido para o arquivo morto por estar ple- namente elucidado? Aparentemente, sim: o principal personagem conhecido da trama que levou A morte o combative advogado foi preso, julgado duas vezes, condenado em ambas as ocasides a 21 anos de prislo e, depois de cum- prir um tergo da pena, liberado, retomando sua vida no interior de Sao Paulo. Mas s6 a cir- cunstancia de at6 hoje nao ter sido bem escla- recida a participacqo do advogado e agent de seguranqa James Vita Lopes no enredo, ja 6 um indicio de que o tema ainda nio foi satisfatori- amente elucidado. E ponto pacifico que o polemico persona- gem serviu de elo. Continuam faltando as pon- tas dessa cadeia: os executores do crime e os que o conceberam e financiaram. O "capitao" James tratou da logistica do atentado, embora os autos do process, que o levaram As duas condenaq6es pelo Tribunal do Jdri, tenham apresentado ape- nas indicios nesse sentido, sem as provas cabais e definitivas. O que legitimou o julgamento foi sua angulagao 6tica e moral. Mas o que conti- nua a nos impedir de consideri-lo um ponto fi- nal na hist6ria 6 a sua fragilidade t6cnica. O convencimento dos jurados foi estabele- cido mais pela presunqao e pelo sentido moral da reaq~o ao fato chocante do que pelos elemen- tos materials de demonstrag~o da acusagqo. Se era mesmo o responsivel por tudo ou o bode ex- piat6rio, James Vita Lopes preferiu guardar seu segredo e esperar que passassem seus sete anos de hospedagem compuls6ria numa cela especial num quartel da Policia Militar em Bel6m. Cor isso, todos parecem ter se dado por sa- tisfeitos. James ao menos era uma boa cabega, com cuja decapitaqao se podia prestar contas as Ironias da justiga: o caso Eldorado O resultado do julgamento dos militares apontados como responsiveis pelo "massacre de Eldorado de Carajas" deixou um gosto travo de 6pera bufa no ar. Reagir A absolvicao da quase totalidade dos PMs apenas com indignaqao mo- ral, entretanto, nao 6 providEncia capaz de mo- dificar substancialmente as coisas e restabelecer a confianga no primado da justiqa e na eficacia do aparelho de Estado como um todo. O estupor 6 quase inevitavel e ainda havera de acarretar danos ao Brasil. Mas ele 6 apenas um ponto de partida, nao o ponto de chegada. Os elements emocionais e subjetivos sao in- descartaveis em situaqbes como essa, de uma mor- tandade tio grande, agravada pelas circunstinci- as que a configuram como uma simples e birba- ra execupqo direta de cidadaos por agents do poder pdblico revestidos do poder de policia. Logo, nao se pode e nem se deve pretender elimi- ni-los. Eles convivem com os elements factuais, a base material dos acontecimentos. Mas se essa trilha objetiva nao for apagada ou perdida de vista. A apuraqFo judicial do "massacre de Eldora- do de Carajas" terminou mal porque comeqou mal e andou sempre mal. Foi tumultuado e prejudica- do por manipulacges e interfer8ncias, (al6m de ar- der em muitos fogos de vaidades). De boa ou de m4-f6, pouco importa. Os responsaveis por tais interferencias nao estavam muito preocupados com a apuraao da verdade. Estavam convenci- dos de ja possuir a verdade em seus c6rebros. O que queriam era apenas carimbi-la com a f6 pd- blica da justice. Qualquer cidadao medianamente informado sabia desde o principio que um crime de homici- dio qualificado, como o atribuido aos integrantes da PM mandados ao local em que sem-terra, numa manifestagao de protest, haviam interditado uma cobranqas da sociedade. Um dos pistoleiros foi liquidado em queima de arquivo e outro sumiu. Um suspeito de ser o mandante do crime, agin- do por tras do visado "capitio" James, o fazen- deiro mineiro Fibio Vieira Lopes, aqui aponta- do vdrias vezes, permaneceu sem ser importu- nado. Por quem quer que fosse, inclusive a Po- licia Federal, que recuou a meio caminho de uma pista segura, no Rio de Janeiro. Estejornal surgiu com um compromisso edi- torial: repassar a opinilo p6blica tudo o que eu havia conseguido apurar em tr8s meses de dedi- caqao continue ao esclarecimento da morte de Paulo Fonteles. Fundei o Jornal Pessoal por- que nao havia outro lugar na imprensa local dis- posto a assumir o compromisso. Nenhuma in- formagdo, mesmo a mais explosive, foi sonega- rodovia piblica, jamais poderia ser caracterizado com base no conteido daqueles autos. Ante a im- possibilidade de estabelecer nexos especificos en- tre cada crime e cada autor, teria que prevalecer o delito de rixa, crime coletivo, de autoria incerta. Todos teriam que ser absolvidos. Ja um enqua- dramento em lesao grave, seguida de morte, teria outro encaminhamento e, provavelmente, outro desfecho. Nem iria para Tribunal do Jlri: teria julgamento singular. Tecnicamente, portanto, a acusaqao era temerdria, se nao inepta. Talvez a percepao desse fato tenha sido man- tida a margem do interesse porque uma parte dos personagens da trama parecia achar que o feito se- ria deslocado para ajustiqa federal ou seria segurar o andamento do process na justica estadual at6 um moment mais convenient. Talvez quando o govemador Almir Gabriel, quedado na condiqgo de cidadao comum, pudesse ser levado As barras do tribunal e obrigado a falar sobre o que calou. Havia coer8ncia nessa intenqgo: se pelo lado da materialidade dos crimes nao seria pos- sivel estabelecer a causaq~o de responsabili- dade, pelo elo da cadeia de comando inevita- velmente o indicador acusat6rio teria que ir al6m do coronel Pantoja, o principal official da PM no "teatro de operagqes". Teria que chegar ao comandante-geral da PM, ao secretArio de seguranqa pcblica e ao governador, comandan- te-em-chefe de todos. Se a cadeia foi quebra- da, a condenagqo apenas do coronel Pantoja tem um cheiro podre: do bode expiat6rio. Nesse caso, de tomar iniciativa com base no cheiro, ha um que prevalece sobre todos os de- mais: o dos corpos das vitimas desse triste epi- s6dio, em que uma ordem mal dada perde sua origem e se dissolve no ar que a todos encobre: o da impunidade. Mais uma vez. da. Havia material suficiente para nio permitir que esse crime permanecesse envolto em bru- mas acumpliciadoras. Desta vez tudo seria pas- sado a limpo, levando-se a s6rio o bordao que Boris Casoy repete na TV, cor a gravidade de uma bordadeira. Justamente quando o affaire Fonteles j 6 tra- tado como element do passado e se providencia um armirio adequado para receber o esqueleto, fago questao de dizer que o cadaver continue in- sepulto, a reclamar pela resposta a agressao b.r- bara e covarde que sofreu, em 11 de junho de 1987, quando safa de Bel6m. Alguns dos crimi- nosos, justamente os mais perigosos, ainda estao impunes. Nao s6 fora das grades. Nem sequer ci- tados. Parece que nos acomodamos a conviver com a selvageria e a engolir indignidades. 6 JOURNAL PESSOAL 1' QUINZENA DE JULHO/2002 M Televisao Ao decidir implantar a pri- meira emissora de television do norte do pais, a TV Marajoara, em Bel6m, Assis Chateaubriand, o "velho capitao" dos Didrios e Emissoras Associados, apostava no futureo certo e positive da Amaz6nia". Foi o que destacou o primeiro director da television paraense, o jornalista Frederico Barata, ao discursar na inaugu- raCqo da Marajoara, em 30 de setembro de 1961. Ele ressaltou que Chat6 nem se interessou em saber se haveria receita de publi- cidade para manter a estagAo de televisao. Quis desempenhar o papel de pioneiro, confiando em sua premoniqdo de visionario. Por isso mesmo, escolheu para padrinho da TV Marajoara o empresario mineiro (em todos os sentidos) Augusto Trajano de Azevedo Antunes. Em socieda- de com a poderosa siderdrgica americana Bethlehem Steel, ele explorava, ji havia alguns anos, a ricajazida de mangan8s de Ser- ra do Navio, no (entdo Territ6rio Federal) Amapa. Antunes e sua Icomi estavam de olho no futu- ro, que nos remetia ao passado de outros povos coloniais, como n6s nos tornarfamos, em amplo sentido, nos anos seguintes: man- dando riquezas para fora, em for- ma de mat6ria prima, a preqos baixos, e comprando mais caro produtos manufaturados. Chat6 sabia o que fazia. Apoios Na inauguraqao da TV Mara- joara, estava present o director geral dos "Associados", Jodo Cal- mon, responsivel pela instalaqao no Pard do primeiro veiculo da cadeia do impdrio national de Cha- t6, o vespertino "A Vanguarda", em 1943, seguido, quatro anos depois, pela retomada da circula- qFo de "A Provincia do Para". Num "preito de justia", ele citou seus companheiros de empreitada: Mario Couto, Alberto Leite, Car- los Castello Branco, Jos6 Almei- da Castro, Milton Trindade, Alfre- do Sade e Oswaldo Trindade. Para financial os "dispendi- os vultosos" que a instalacgo da TV Marajoara exigiu, cinco fo- E M 6 R 1 A. D 0 ram os bancos que "nos fornece- ram, mais como cooperacgo do que como neg6cio, os cr6ditos in- dispensdveis". Tres de Minas Gerais: o Banlavoura (Banco da Lavoura de MG), o Banco Co- mdrcio e Inddstria e o Banco Nacional (da famflia Magalhles Pinto), d etriste mem6ria final. Mais um banco regional: o (en- tao) Banco de Cr6dito da Ama- z6nia, o atual Basa. E um local: o Banco Comercial do Pard. Psicandlise Foi um sucesso o Curso de Psicandlise para Educaqao dos Filhos, promovido em outubro de 1964 pela Associagqo dos Anti- gos Alunos Maristas, na 6poca presidida por Le6ncio Bitar. Ape- sar da novidade que a psicandlise ainda representava para o grande pdblico paraense, aproximada- mente 500 pessoas se inscreveram para o curso, que teve o Col6gio Nazar6 como sede. O irmao ma- rista Martin Dubois, professor da Faculdade de Filosofia da Bahia, escolheu a dedo os sub-temas do seu curso: Personalidade bem in- C. T I:D I.A N- .. tegrada, personalidade neur6tica, a just personalidade, a sintonia conjugal e pais ideas. Psicandli- se a serviqo da integraqao. Circulo "Culto e inteligente", confor- me garantia o obituario, o padre jesufta Leopoldo Brentano mor- reu aos 80 anos, no Rio de Janei- ro, em outubro de 1964. Gaucho de nascimento, foi o fundador do Circulo OperArio de Bel6m "e o difusor maior do movimento cir- culista no Brasil". Substituiu-o seu assistente eclesiastico, o ho- landes Tiago Wey, tamb6mja fa- lecido. Ja o Circulo, com sua sede na rua Quintino Bocaiiva, permanece vivo. Minerio Ainda em outubro de 1964 a SPVEA (Superintendencia do Piano de Valorizaqao Econ6mica da Amaz6nia) assinou um conv&- nio, no valor de 10 milhaes de cruzeiros (na moeda da 6poca), para a Escola de Quimica do Pard montar e colocar em funciona- mento um laborat6rio de analises P U' L I C IDA D E Radio Exatamente hi 40 anos, em maio de 1962, a finada Ridio Guajard (do grupo Guajard, da familiar Lopo de Castro), se orgulhava de ter em seus S '. quadros a maioria dos 'I melhores do ridio, que "os ouvintes consagra- ram e os crfticos elege- ram". Eram 13: Linomar Bahia, Jayme Bastos, Jos6 Travassos, Aldo Fernando, Fernando Sil- va, Luiz Solheiro, Carlos F, |Cidon, Almir Silva, Arlin- 41 do Dourado, Sflvia Braga e Dalvino Flores. A lide- ranqa da Guajard, segun- do o andincio da Agepan DOS'MELHORES (tamb6m ji desapareci- DO'RDIO da), se devia ao melhor S E. M A& service noticioso, melhor ,, ,.-.., equipe de programado- S. M.HO. EQUIPSE res e "o melhor som da "PROGRAMADRE' tq' bs, ..-__ cidade". Tudo, hoje, na base do "ji foi". minerals. Pelo menos uma parte da elite, no piano federal, ja sabia que o future imediato da regiAo estava escondido no subsolo. A descoberta de manganes e mind- rio de ferro em Carajas, de dois a tres anos depois, nao foi puro aca- so, mas, como diria o quimico Jacques Monod, um acaso criado pela necessidade. Comercio Em dezembro de 1967 o Se- tor Cultural e Recreativo do Sesc- Senac decidiu criar o Teatro Co- mercidrio. Geraldo Salles deu um curso experimental e, dirigindo os alunos, encenou a primeira peqa do grupo: "O Testamento do Can- gaceiro", de Chico Assis. No ano seguinte ele apresentaria, no au- dit6rio da SAI (Sociedade Artis- tica Internacional), em frente ao quarter dos Bombeiros (onde hoje 6 a Academia Paraense de Letras), duas peas: "O delator", drama extraido de "Horrores e Mis6ri- as do Terceiro Reich", de Ber- tolt Brecht, e "Farsa e Justiqa do Corregedor", com6dia satirica de Alejandro Casona. O grupo de atores era composto por Cleodon Gondim, Yara Brasil, Dorinha Barbosa, Jorge Bessa, Clodomir Alves, Cldrio Angelim, ldson Albuquerque, Anasticio Trinda- de, Joao Moreira, Carlos Ursuli- no e Jos6 Lima, al6m do pr6prio Geraldo Salles. Com6rcio esclarecido, s6. Teatro O Teatro de Arte do Pard (TAPA) fez tudo certo naqueles tempos de 1968, um pouco an- tes do AI-5, para apresentar no Teatro da Paz, a peqa "O riso em dois tempos", subdividida em "A farsa do advogado Pathelin" e "As senhoras da alta": mandou o texto para a censura federal em Brasilia. No dia da apresenta- q~o, em agosto, entretanto, a censura nao havia liberado a encenaqgo. Nem mugido e nem chiado. Resultado: a exibigqo teve que ser adiada a espera do sr. censor. Tempos dificeis. Concurso Com a nota 8,80, Hildeberto Mendes Bitar foi aprovado em JOURNAL PESSOAL 1 QUINZENA DE JULHO 7 RE T R AT 0 Baratismo tardio A "Brigada Baratista Livre" ainda acreditava na perenidade do mito de Magalhdes Barata, o caudilho da political paraense: seis anos depois de sua morte, f em 1965, a brigada inaugurava o busto do general no Boulevard Castilhos Franqa, o inico boulevard de Bel6m, entire o casario -. dos antigos dep6sitos de importacqo, ex- portacgo e com6rcio atacadista e o porto construido pelos ingleses. O local era ter- minal dos 6nibus, made in Belem, que ainda circulavam pela cidade antes que a indistria national, com alcance sobre todo o mercado gragas as grandes estra- das, aposentasse o modelo hibrido (car- ' roceria de madeira construida localmente, montada sobre chassis de caminhao). E ainda apresentava quase integra a bela paisagem dos sobradies se sucedendo no curso da larga avenida. ".- .- *"' tt "*4'^' .*--f .if -, 1,; ....*.:'," '.,'" .'l..'.-f.'i*>;-.... -' Apesar do esforqo de perpetuaqao, o baratismo jd estava em decadencia. O process natural foi acelerado pelos novos coron6is (coron6is de verdade, ndo apenas de fancaria), que pularam dos quart6is para a political com o golpe military de 1964, conquis- tando apoio popular com sua aqao modernizadora, inclusive do ponto de vista moral (com os exageros de ,- praxe, herdados da UDN). ,-E Os baratistas cometeriam entdo S- a heresia de apoiar um antigo inimi- go, o general Zacharias de Assump- Sgao, para enfrentar o candidate do Skudenismo castrense, Alacid Nunes, na dispute pelo governor do Estado. Foram arrasados. Ainda assim, na | B forma de ilhas de poder e aguados -. em relaqgo A matriz original, os ba- .. ratistas continual a responder pre- Ssente na political paraense. A sua maneira, 6 claro. t-' ', ., .tfa .Sii -i;, t., J..'pl. !:iZ ; ,,i,-, .. *l .. primeiro lugar no concurso para sub-procurador do Tribunal de Contas do Estado, em 1968. Tam- b6m foram aprovados: Nessima Simdo Tuma (8,04), Jos6 Tadeu de Sales (7,69), Jayme Bastos (7.52), Pedro Crispino (7.51) e Ant6nio Erlindo Braga (7). Ja para auditor do TCE, o primeiro lugar foi de Nessima Tuma (8,82). Jayme Bastos ficou em segundo, com 7,64. Vieram em seguida Jos6 Tadeu de Sales (7,29) e An- t6nio Erlindo Braga (7). Estudantes Pedro Pinho, pelo curso de letras, Aleksei Tourenko Jdnior, pelo de economic, e Fi6za de Melo, pelo de medicine, foram os estudantes que participaram, em agosto de 1968, de um debate pdblico com o ministry da educa- gqo, Tarso Dutra, na TV Marajo- ara. Era o auge da manifestagao de protest estudantil, que culmi- nou com a ocupaqgo das faculda- des e a interrupcdo das aulas. Na Faculdade de Economia foi cons- tituida uma comissao para estu- dar a reform universitdria, o tema central do movimento, da qual participavam os professors Ar- mando Mendes, Jos6 Marcelino, Emilio Martins e Rui Barreiro da Rocha, mais os alunos Rui Mou- ra, Sebastiao Ramalho, Lourdes Medeiros e o mesmo Aleksei. Eram dias defrisson. Memorial Quando o president Costa e Silva esteve em Bel6m, em agos- to de 1968, o prefeito de Bel6m, Stdlio Maroja, Ihe apresentou um memorial com seis reivindica- q6es: complementacqo da pavi- mentaqao da Bel6m-Brasilia; complementagao da construgqo do trecho Pard-Maranhao da BR- m qualquer sociedade, a informaglo 6 um component vital no exercicio do poder. Mas na Amaz6nia essa importAncia cresce ainda mais por sua condigao de fronteira. Infeliz- mente, o process hist6rico da regiao nas 61timas d6cadas evoluiu aos saltos. Ela passa do estigio zero ao 80 tao rapidamente que quando a opiniao pdbli- ca se di conta dos fatos eles ji se tomaram consu- mados. Um dos grandes desafios para sua popula- gao 6 ajustar suas agendas ao tempo hist6rico real. Sem o domfnio do cotidiano, estamos condenados a um destiny colonial: o de ndo sermos autores da nossa pr6pria hist6ria. Em grande parte, cabe parce- la considerivel de culpa pelo descompasso a im- prensa, incapaz de registrar os acontecimentos no moment mesmo de sua materializaao. Se isso ocor- resse, a sociedade amaz6nica teria tempo para im- por a adequaqgo dos grandes projetos de enclave, que estdo Ihe delineando o perfil, as exig8ncias re- gionais. Mas parte expressive dessa culpa tamb6m 6 316 (faltavam, havia anos, 200 quil6metros); elaboraq~o e execu- gao de projeto global de regulari- zagao do regime de aguas da ilha do Maraj6 (principalmente para livrar a pecuiria dos prejuizos ci- clos da seca e da enchente); ace- leramento da execugao pelo DNOS dos projetos de drenagem e saneamento das dreas pantano- sas de Bel6m (com 8nfase nas bacias dos igarap6s do Uma e do Tucunduba); e dragagem do por- to de Bel6m. Ex-deputado federal, St6lio foi um dos politicos que mais es- tudou os problems do Pard e mais se empenhou para resolve& los. Sua pauta continue atual, tres d6cadas e meia depois. de responsabilidade das elites political. Os politicos es- tao abrindo mAo (quando chegam a se preocupar corn a quest~o) de seu papel de lideranqa popular. Seu contato cor o povo nao devia se limitar a pedir voto e a renovar mandate. Precisariam ter uma funqao pedag6gica, tanto para orientar o cidadao como para t&-lo como element nojogo de poder. Assim permitiriam que ojogo deixasse de defender apenas de um lance de esperteza pessoal ou de presses de bastidores, subindo estagios valorativos. Talvez chegasse a ser sentido pelas grandes corporaq6es economicas e pelos grupos de pressao de maior expres- sao. Como essa pedagogia nao 6 praticada, cabia ao povo obrigar os politicos a assumir suas tarefas. Mas o povo nem consegue encontrar os caminhos de acesso ao po- der, nem estA bem informado sobre o que ocorre diante de si. Um ciclo vicioso? Certamente. Mas nao ineviti- vel. Romp-lo 6 muito dificil. Justamente em funco dessa dificuldade, ao superA-lo a sociedade local se colocard na posiqao de poder encontrar uma alternative ao destiny colonial que lhe 6 imposto. P E R G U N T A / R E S P O S T A Poder decisorio Sobre a exploragdo, opovo amapaense e leigo, mas os governantes estdo cientes. Entdo por que eles ndofazem nada para fiscalizar as a9Oes dessas empresas? (Perguntafeita em debate no Amapd, no ms passado). Cotidiano Uma das cenas mais candentes do cotidiano da cidade 6 a caminhada de pessoas, geralmente maes, carregando seus filhos para algumas das poucas escolas da cidade que acolhem deficientes mentais. Sao mulheres que geralmente jd passaram da meia- idade e sao pobres. Mais do que seus misculos, 6 o sentiment da maternidade que parece lhes dar forga para seguir em frente, dobradas por aquele peso que aumenta a cada passada. Nao reclamam, nao parecem ter esperanqa de ainda poderem vir a ser ajudadas e nem dao mostras de desanimo. Se 6 o que precisam fazer para abrir algum horizonte para suas crianqas (ou mesmo adults) mentalmente prejudicadas, entao fazem. E o poder pdblico, havera de se manter indiferente a esses dramas didrios exibidos pela cidade? Certo dia, ao fim de uma caminhada matinal, consegui vencer a in6rcia e tomar nos braqos uma dessas criancas. Deixei-a na porta da escola com a mae, que nao precisou dizer uma s6 palavra para expressar sua gratidao muda, e continue meu caminho pensando em escrever esta nota. O Estado ou a Prefeitura tem a obrigaao de usar uma pequena parte do dinheiro de todos n6s, contribuintes, para minorar o sofrimento dessas families. Como? Fornecendo transport gratuito para os excepcionais. Se nao para todos, ao menos para os despossufdos, aqueles que, sem outro meio, tem que carregar nos pr6prios braqos esses series humans marcados pela ma sorte ou um acidente da vida. Bastaria cadastrar as famflias e montar um esquema de transport, que fosse o mais simples, mais viavel, mais barato e mais human. E, acima de tudo, que fosse eficiente e s6rio, num patamar que o deixasse isento de corrupqao e clientelismo. Algo cor o padrao de dignidade e respeito que essas maes e pais imprimem a sua caminhada triste diante da indiferenqa geral da cidade. A habitaq~o 6 um dos stores mais deficiente- mente assistidos pela prefeitura de Bel6m. O pouco at6 agora realizado em mat6ria de moradia foi mal feito ou esta inconclufdo. Mesmo assim, a PMB foi distinguida pela Caixa Econ6mica Federal: seu pro- jeto de macrodrenagem da bacia do Tucunduba foi selecionado como "uma das 10 melhores praticas de gestfo local". A parte essencial do empreendimento s6 agora esta comeqando, cor financiamento do BID (Ban- co Interamericano de Desenvolvimento) e da pr6- pria Caixa, no valor de aproximadamente 11 milhies de reais. Devera ser a maior intervenqao da atual administraqgo municipal na area habitacional. O objetivo 6 assentar 609 famflias em terreno pr6xi- mo ao igarap6, que 6 densa e absurdamente ocupa- do, sem um inico respiradouro de vegetaqao. Desse total de assentados, 110 famflias se toma- ram clients do projeto porque suas casas, no Ria- cho Doce, uma invasio que se tornou um bairro na divisa com os muros do campus da Universidade Federal do Para, foram destruidas no final do ano passado por um grande inc6ndio. Representam um element conjuntural imprevisto, que acabou incor- porado a uma aqao estruturada adredemente. Ao que parece, o Projeto Tucunduba s6 sera vi- avel se a prefeitura tomar conta de uma area de 70 mil metros quadrados ocupada pela Cooperativa Ha- bitacional dos Funciondrios e Professores da UFPA. A Coohasufpa esta na area ha uma d6cada e meia. Com dificuldades, ali realizou benfeitorias, incluin- do 11 casas, muro, rede de agua e luz, nivelamento de terreno e saneamento do local, que a PMB calcu- lou como valendo pouco menos de 600 mil reais. Sem acordo cor os cooperados, a prefeitura deci- diu desapropriar as benfeitorias realizadas e tomar conta da area, que 6 do dominio da Uniao (por estar no limited das terras de marinha). Alega a prefeitura que o interesse maior da co- letividade se sobrep6e ao de particulares. Com base nesse pressuposto, acha que a dnica coisa que cabe aos atingidos 6 discutir o valor da desapropriaqao, Falha A edig~o de O Liberal de domingo, 16 de junho, registrava na capa: no 29.966. O journal tem 56 anos de existencia. Se circulasse todos os 356 dias do ano desde o primeiro ndmero, a ediqgo desse domingo deveria ter sido a 19.936'. Para ostentar 29.966 edig6es nos seus 56 anos de vida, o journal precisaria circular 535 dias por ano. A numeraqao, mesmo que eles hajam requerido do governor fede- ral, antes da PMB, o aforamento das terras da Uniao, que, justamente por essa condiq~o, nao podem ser desapropriadas. Embora esse ponto seja ignorado pe- los memorials da prefeitura, 6 claro que ele pode desencadear um contencioso judicial e postergar, se nao chegar a impedir, que o municipio lance mao da area e o incorpore ao Projeto Tucunduba. A demand esta sendo travada no ambito da justiqa federal, onde o que deverd prevalecer sera a letra da lei. Independentemente do resultado do litigio, por6m, este 6 o moment exato para o Mi- nist6rio P6blico Estadual dar sua contribuiqao A boa resoluqao do impasse. Podia promover uma audiencia pdblica para esclarecer a questao e, se for o caso, patrocinar um ajuste de conduta ou mesmo um acordo. A grande divida, em torno da qual fluem os in- teresses coletivos e os direitos individuals (ou coo- perados), consiste em saber se realmente o Projeto Tucunduba nao pode prescindir da area sob o domf- nio da cooperative ou se a PMB apenas esta lanqan- do mao do meio mais rapido e mais facil de executar o contrato jA assinado com o BID, com a interveni- 8ncia da Caixa (parte interessada, obviamente, em conferir qualidade ao empreendimento). Ou seja: pode-se tender as necessidades caren, tes do Riacho Doce e do Pantanal sem frustrar o es- forqo, os gastos, os sacrificios e os sonhos de funcio- narios e professors da Universidade, ha uma d6cada e meia nesse barco, do qual nao querem pular, por considerd-lo sua casa, literalmente, mesmo cor o andncio de que ele pode naufragar? Em seu favor, deve-se ressaltar que nao houve m4-f6 na ocupaqao da area nem interesse meramente commercial no trato com a PMB sobre a indenizacao das benfeitorias. Os integrantes da cooperative dizem querer tao-somente consumer o que os levou a iniciar essa aventura: cons- truir suas casas. Por ironia, estio sendo impedidos pelo ente piblico que, no ambito da sua jurisdiqCo, devia promover e nao entravar esse objetivo. Com a palavra, agora, o MP. portanto, esta errada. E muito errada. Em pelo menos 10 mil edicqes excedentes. Tome-se como comparagao o Didrio do Pard. No mesmo domingo, o journal dos Barbalho, com 20 anos de idade, atingia sua 6.573a edicao, numa m6dia de circulagao de 328 dias por ano (descontando alguns dias em que o journal nao apareceu ao long de sua hist6ria). Se essa m6dia for aplicada a 0 Liberal, o journal devia ter atingido 17.364 ediq6es no dia 16 e nao 29.966, como aparece na capa. O ndmero real, entretanto, deve ser ainda menor. E que em periods mais remotos a circulaqao do journal foi incerta. Numa etapa intermediaria, ojornal nao circulava as segundas-feiras. Nem na contagem de suas edig6es, o que 0 Liberal diz nao se deve escrever. Nem acreditar. Dificil moradia Jornal Pessoal Editor Lu)o 2. Pito. FrI. 10911 241-76 Conlato: IT Benrnl CM iant M64i521i 66 0IJ -dJ inan l nai o ar.aon tr, t Produgo: Angeirn Pinio EEdlo dc Arite LuLffroniol.alapinO -- -- ------ -- -- ---------- ll~-""IIIC" Ic---rc------rrr~ |
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