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Jomrnal Pessoal L I C 1O F L A v IO PI N TO ELEIIP Disputa plebiscitaria A pr6xima eleicdo pode ser decidida atravds do confront de dois grandes grupos: o do governador Almir Gabriel e o dos que sdo contra ele. Mais uma vez o PTfica defora da raia dosfavoritos. Ganhard se os adversdrios the derem a vit6ria. 0 panorama 6 o de sempre: tudo muda para tudo continuar igual. A leicao de outubro/novembro no Pard vai defender das ten- tativas em curso para a forma- ao de dois grandes blocos. De m lado, o governador Almir Gabriel procura reeditar a coligagao que Ihe assegurou a vit6ria nas duas iltimas disputes majoritarias. No outro extreme, uma frente de oposiaio pretend tornar o voto uma manifestag~o plebiscitaria con- t 4- ismo da situado. Correndo I ?1 1 por fora, mas desta vez bem por fora, o PT, mais do que nunca na condicqo de zebra. A ofensiva do governador parece mais bem sucedida do que a dos seus adversi- rios, mas esti muito long de poder ga- rantir a Simdo Jatene, o candidate da "Uniao pelo Pard", a condiq~o de favori- to. Seu maior trunfo sdo os altos indices de aprovagao e lideranqa de Almir Ga- briel nas pesquisas de opiniao. Se fosse possivel um terceiro mandate, o gover- nador estaria reeleito. Sua forqa se deve as obras que realizou. Ndo tanto pelo acerto do que fez, executando projetos de antecessores ou assumindo empreen- dimentos federais, mas por sua exist&n- cia, tornada possivel por maior raciona- lidade (e discricionarismo) na gestio p6- blica. Ha algum tempo um governador nao chegava a um period eleitoral com tantas obras na algibeira, uma credencial invejAvel. F:STS VA ACBAR?(Pags, /,5 - : ,OF 2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO/2002 Mas esse triunfo parece ter afetado o senso critic do governador. Sua tenden- cia ao autoritarismo, que remonta as ori- gens, na political estudantil, se agravou. Almir Gabriel se tornou especialista em tudo, um trago que o aproxima de um an- tecessor mais distant, o professor Aloy- sio da Costa Chaves. S6 que o ex-reitor tinha a seu favor o fato de ouvir mais e mudar de opiniao quando convencido a agir assim. Desde que nao o obrigassem a admitir o erro, o corrigia. Almir Gabriel ja s6 ouve pouca gen- te. Mais como concessdo A democracia formal do que como uma firme metodo- logia de aqgo. Essa attitude estimulou o aulicismo (e o abulicismo, reforqado pela propaganda). Ele agora esta cercado de pessoas que s6 falam o que sabem que ele quer ouvir. A pluralidade foi supri- mida do circulo mais pr6ximo do gover- nador. Na corte o pressuposto 6 de que Almir elege quem quiser. A crenqa tem at6 fundamento matemAtico: basta fazer deduqbes a partir do indice de aprova- qao para, por residue, chegar A conclu- sao de que Simao Jatene ja esta no se- gundo turno. Elege-lo passa a defender apenas de alguns acertos. O governador acredita nessas simu- laq5es aritm6ticas tanto quanto esta con- vencido de que seu tabagismo invetera- do, ao inv6s de prejudicar sua sadde, o salvou durante a crise aguda de aneuris- ma. Engrossado pela qufmica do cigar- ro, segundo essa interpretaqao, o sangue continuou dentro das suas art6rias. Se nao fosse fumante, a hemorragia teria sido fa- tal. Por isso o governador continue fumando tanto quanto antes. Sempre, por6m, tendo o cuidado, que diz ser cientifico, de s6 fumar at6 pouco mais da metade do tamanho do cigarro. Da mesma maneira, transformar o ho- mem do nao, que funcionou na Secretaria de Planejamento como o filtro para o aces- so as obras e recursos da administragqo estadual, no candidate do sim, trocando a cara fechada pelo sorriso aberto, a caneta implacivel pelo violao amigivel, seria simples para Almir Gabriel. E sempre bom lembrar que, sem perder seu estilo turrao e suas manias, ele conquistou no parla- mento estadual um apoio sem paralelo, in- clusive no period discricionario do regime military. S6 a bancada do PT, comr seus quatro deputados, nao participou do coro, entoado freqientemente em unissono nas 41 cadeiras da Assembl6ia Legislative. Para praticar o jogo da sedu- 9go de politicos, o governador usou ao mesmo tempo um evang6lico e um ex- banqueiro do jogo do bicho. A esse mesmo jogo ele esti recor- rendo para firmar a dificil candidatura Jatene, adotando o lema do maquiave- lismo depravado, segundo o qual os fins sempre justificam os meios. O objetivo do governador 6 prolongar por mais quatro ou oito anos o modo tucano de levar o Pard a um future grandiose, A base de obras de infraestrutura e da su- plementaCgo dos chamados "grandes projetos", na presunCqo de que seus efei- tos negatives serao atenuados e seus efeitos positives, multiplicados. Se os indicadores sociais desse crescimento quantitative sao desfavoriveis, isso nao passa de acidente de percurso. Poderia vir a ser sanado numa curva mais A fren- te, com mais um tucano no governor. Todos os recursos estao sendo utili- zados para propagar o nome ainda pou- co conhecido do ex-secretdrio e para adu- bar a horta na qual ele esti sendo planta- do. Mas a coligaqao que lhe vai dar res- paldo pode nao ter o mesmo tamanho da que garantiu os dois mandates a Almir Gabriel e nem o porte que apresenta di- ante do pdblico. Politicos e cabos eleito- rais admitem, confidencialmente, que ainda nao deglutiram o candidate, res- ponsabilizado por um ou outro caso de desatenqao ou insensibilidade no trata- mento, e por uma arrogancia que poderia vir a ser sua marca depois de vitorioso. Ha os que nao veem cor bons olhos uma criatura de Almir na sua sucessao. Queri- am um nome de fora da corte. Outros ar- gumentos contra Jatene tambrm sao ex- postos. Mas hi uma d6vida: esses critics internos estariam dispostos a avanqar at6 que ponto nessa posi~go divergente? Defendem um ponto de vista politico ou apenas interesses pessoais? As perguntas tem aplicagdo gendri- ca, mas podem ser dirigidas especifica- mente a um dos mais importantes alia- dos do governor (nao s6 deste, alias, mas de quase todos os governor receptivos aos apelos comerciais): o grupo Libe- ral. Nas piginas dojornal ou atrav6s de recados, a empresa deu sinais de apoiar a candidatura do vice-governador Hil- degardo Nunes. E sempre manteve no ar a hip6tese de o principal executive da corporaCqo, Romulo Maiorana Jdni- or, ser candidate ao Senado. Mesmo que essa possibilidade jamais haja se concretizado, ela deu causa a um es- tremecimento de relaq6es com o candidate official a uma das duas vagas senatoriais da "Uniao pelo Pari", o atual deputado federal Gerson Peres. Ele foi colocado transitoria- mente na geladeira porter ignorado que Ro- minho 6 do mesmo partido, o PPB, e devia ser consultado nos entendimentos para a de- finiqo da candidatura. Almir Gabriel tem feito ouvido de mercador a essa pretensao. O grupo Liberal nao embarcard na esqua- dra do goverador para eleger Jatene? Em qualquer circunstrncia? Pulard entdo para o barco de Hildegardo?Ou vai aumentar o preqo da adesdo? Ha ainda alguma divida tambem em re- lagqo ao PFL, que, em fungqo dos expur- gos internos, se tornou praticamente o par- tido de um home s6, o deputado federal Vic Pires Franco. Seu maior instrument de barganha 6 o tempo disponivel no hori- rio da propaganda eleitoral gratuita, o ter- ceiro maior. O PFL national, entretanto, esti empenhado em um desafio: se tornar o principal partido no parlamento, de ma- neira a reconquistar sua posiqao, abalada pelo fato de nao apresentar candidates a Presid6ncia da Repdblica. Esses problems, contudo, sao de me- lhor administraqdo para o PSD e seus ali- ados do que o front externo. Terd exito a formaqdo de uma ampla frente de oposi- gqo, que principalmente dois dos preten- dentes ao governor, Hildegardo Nunes e o senador Ademir Andrade, vem lideran- do? O vice-governador ji tem a sua pr6- pria frente, derivada da coligaqdo nacio- nal (a "freite trabalhista") em torno da candidatura presidential de Ciro Gomes. Ja Ademir esta metido na camisa-de-for- qa da postulaqao do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Qualquer ampliaqco desses limits vai defender de uma coligaqCo branca, que tangencie a verticalizaqCo estabelecida pelo entendimento do TSE sobre a nor- ma eleitoral que obriga os partidos a re- petir nos Estados os acordos que fizerem para a dispute presidential. Mas o fiel da balanga em todos esses entendimentos 6 o ex-senador Jader Bar- balho. E cada vez mais remota (embora ainda nao inviabilizada de todo) a hip6- tese de ele participar de um entendimen- to com o governador Almir Gabriel para repetir a dobradinha PSDB-PMDB, que ap6ia o ex-ministro Jos6 Serra. Se apre- sentar sua candidatura ao governor, o que parece disposto a deixar para o prazo fi- nal que a lei Ihe faculta, com a conven- qao partidiria at6 o dia 30, Jader obri- JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE JUNHO 3 gard os demais candidates com menor densidade eleitoral e menor estrutura de campanha a se rearrumarem no tabulei- ro. Provavelmente Hildegardo levard at6 o fim sua pretensdo de suceder a Almir Gabriel. Apesar dos baixos in- dices nas pesquisas pr6vias, o vice-go- vernador parece convencido que se seu projeto malograr tera quatro anos para tentar novamente, saindo com o capi- tal acumulado para uma nova dispute (talvez esta seja sua primeira e iltima chance de ser pretendente real ao car- go de governador). Ja Ademir Andrade esti diante de um dilema: acreditar que o empate t6cnico com Jader nas sondagens para o governor pode lhe permitir superar o ex-senador durante a campanha ou se 6 melhor retro- ceder para a reeleigao ao Senado. Certa- mente o lider do PMDB paraense sofrerd mais do que Ademir com os ataques dos adversarios, mas o senador do PSB estari sozinho na rua, com horario de propagan- da diminuto e sem suporte material A al- tura dos contendores. Ja a volta ao Sena- do empaca num complicador: o Pard ele- gera dois candidates que se colocam A esquerda no espectro politico, como Ana Jdlia Carepa e Ademir? Essa frente de oposig o ainda preci- sara vencer barreiras e pular fogueiras para se consolidar, mas da negociaqdo entire todas as correntes podera haver uma conseqiiencia para o segundo turno: a uniio delas em torno do candidate vencedor. Essa grande frente, entretan- to, pode ou nao ter suas forqas aumenta- das. Vai defender de qual sera o nome que passard para o segundo turno. Se for o ex-senador Jader Barbalho pode acar- retar tamb6m uma frente em sentido con- trario, tal o carter plebiscitdrio da figu- ra do ex-governador. Essas muitas alternatives passam ao largo do PT. O partido se parece A medio- cre selegao que represent o pafs na Copa do Mundo: mudou permanentemente de formacao durante os treinos, mas chegou aosjogos oficiais sem a definiqco do elen- co, insegura e imatura. 0 PT examinou vfrias alternatives de chapa, dentro e fora do partido, sozinho ou em alianca. Termi- nou escolhendo por exclusao, na media em que os nomes mais fortes de auto-eli- minaram ou foram sacrificados pela sel- vagem dispute internal. 0 PT regride ao period anterior a 1996, quando apresentou mais um nome para o sacrificio, para fazer figuraqao, e o atropelamento dos favorites acabou por dar a vit6ria a Edmilson Rodrigues para a prefeitura de Bel6m. Essa con- quista foi precariamente confirmada quatro anos depois, mas nao bastou para dar ao PT paraense a densidade de um partido verdadeiramente estadual e con- sistentemente amadurecido. Depois das "queimaqres", restou o nome da depu- tada estadual santarena Maria do Car- mo como rescaldo do incendio. Sua melhor perspective pr6-eleitoral 6 vir a ser um fen6meno como foi Ed- milson Rodrigues (ou, exatamente por vir depois do alcaide da capital, na verdade um epifen6meno, para recorrer a uma expressao mais exata). S6 ganhard se os adversirios Ihe derem a vit6ria. Mas essa 6 uma hip6tese que nao passa pela cabe- qa do imperial goverador dos paraen- ses, o mrdico Almir Jos6 de Oliveira Gabriel, primeiro e inico. O pai da pre- tendida dinastia tucana no Para. Gusa em brasa Tres usinas instaladas em Maraba pro- duzem atualmente 520 mil toneladas de ferro gusa. At6 o final do ano o parque terd mais duas siderirgicas e a produqdo instalada passard para 780 mil toneladas, nivelando-se a capacidade do parque gu- seiro que se estabeleceu do lado mara- nhense da Ferrovia de Carajas. Os dois Estados ji responded por 30% da produ- qao national de gusa. A tendencia de crescimento desse se- tor poderd sofrer um abalo traumitico se a Companhia Vale do Rio Doce decidir implantar sua pr6pria usina, em socieda- de com a Nucor, uma das maiores side- r6rgicas dos Estados Unidos. E a CVRD o inico fornecedor de min6rio de ferro e o 6nico transportador do insumo para as usinas de gusa (nao s6 no Pard e no Mara- nhdo, mas tambrm em Minas Gerais, ainda o maior produtor brasileiro). A par- tir de um acordo assinado em abril, as duas empresas poderdo iniciar no pr6ximo ano a construqdo de uma nova siderdrgica, que comeqard produzindo as mesmas 520 mil toneladas da soma das tres usinas do dis- trito industrial de Maraba. Se o projeto CVRD/Nucor sair, a pro- duqoo de gusa em Marabi pularA para 1,3 milhao de toneladas ao ano. Acrescidas as 700 mil toneladas do Maranhio, Ca- rajas alcangari metade dos 4 milh6es de toneladas de Minas. Mas ha um proble- ma nesse setor da economic: a producgo de ferro gusa em Minas Gerais caminha para a inviabilizagao. As usinas mineiras ji estao indo buscar carvio em Mato Grosso, a uma distancia enorme. O cres- cimento do preqo do min6rio e os fretes pesam cada vez mais nos custos. As usinas estgo operando no vermelho. Re- centemente, ficaram duas semanas sem operar por falta de carvao. A crise das guseiras de Minas, corn capacidade instalada de 4 milh6es de to- neladas, respondendo por 70% da pro- duqCo brasileira, ocorre no moment em que o parque siderirgico do Primeiro Mundo experiment mudanqas. O tama- nho dos altos fornos diminuiu. Os mas- todontes siderdrgicos, que fizeram a gl6- ria (e tambrm a decadencia) de gigan- tes como a United States Steel e a Beth- lehem Steel, foram substituidos por mini-mills, pequenas usinas integradas, que reciclam aco ou usam insumo in- termediario, como a gusa. O consume desse mercado cresce e os preCos, que haviam baixado de mais de US$ 150 por tonelada para quase US$ 90, se recupe- raram um pouco (estao em torno de US$ 110). Com isso, a competicqo vai ficar mais afiada e quem nao tiver escala fi- cari ameaqado de ser despejado. Dai a agitaqao e o nervosismo desencadeados a partir do moment em que a CVRD, ji n~o mais uma empresa estatal, anun- ciou a intenqdo de dar mais um pass na verticalizacgo do min6rio, passando a produzir gusa. Passo que vai esmagar muita gente postada no meio do cami- nho do trem de Carajas. O moment pode ser oportuno para avaliar a entrada da Vale no mercado gu- seiro, mas tamb6m para refazer calcu- los mais bern estruturados na conta de chegada do produto: sera que vale mes- mo a pena parar na transformaqco do rico mindrio de Carajds no precioso fer- ro gusa, enriquecido por carvao vege- tal, a preqo de banana ruim? 4 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO/2002 A natureza da aranha HA 40 anos o Brasil chegou por terra A Amaz6nia. De Brasilia, a nova capital fede- ral, construida por Juscelino Kubitscheck para ser o arremate da cicl6pica "corrida ao Oes- te" dos bandeirantes, uma estrada saiu no rumo norte, chegando a Bel6m, a maior cida- de da regiao. Outra rodovia seguiu o traqado das linhas telegraficas implantadas pelo ma- rechal Rondon para ir bater no extreme oeste do pais, no Acre. At6 esse moment, toda a destruiqco da natureza na regiao praticada pelo ser human era localizada. As feridas abertas podiam ter alguma profundidade, mas quase nenhuma extensao. Era pr6prio do extrativismo, o sistema pro- dutivo entao dominant, essa caracteristica: coletar os frutos das Arvores, esperando que a natureza completasse seu ciclo para usufruir os seus frutos em forma de mercadoria (quan- do esses frutos chegassem ao mercado, natu- ralmente). Poucas atividades exigiam a elimi- nac~o das pr6prias Arvores, como a extraqao de balata ou o corte seletivo de madeira. Destruiqao capaz de ser registrada pelo sen- sor de uma maquina (e assim ganhar legitimi- dade no mundo tecnol6gico modemo) s6 pas- sou a fazer parte dos anais da maior fronteira de recursos naturais do planet na d6cada de 60. Essa mudanqa resultou da indigesta com- binaq~o de estradas rasgando florestas de terra firme (ainda intocadas porque distantes das tlnicas vias de acesso, os rios) e colonos que s6 conseguiam ter sentido pondo abaixo o mundo em tomo de si, que Ihes era estranho e que, por isso, queriam amoldar ao seu universe de origem, uma paisagem jA sem floresta. A cr6nica do desmatamento para valer na Amaz6nia ainda nAo completou, a rigor, qua- tro d6cadas. Mas ja garantiu para o coloniza- dor amazonico o titulo de o maior desmata- dor da hist6ria da humanidade em todos os tempos. Nesse period, o desmatamento foi de 500 mil quil6metros quadrados, atingindo 15% da Area da maior regiao do pais, que ocu- pa dois terqos do territ6rio da quinta maior naqao do globo. Esse desmatamento equivale a duas vezes o tamanho de Sao Paulo, o gi- gante econ6mico e demografico brasileiro. Os brasileiros parecem anestesiados de- mais para perceber a gravidade por trAs des- ses nmmeros, o significado dessa hist6ria l6- gubre que estao escrevendo, com uma velo- cidade sem igual na cr6nica das conquistas de fronteiras na Terra. Talvez imagine, por mimetismo, que se a Amazonia desflorestada ja 6 duas vezes maior do que SAo Paulo, isso significa que pode vir a ter o dobro da grandeza paulista. A insensibilidade, que result dessa incapacidade de entender as caracteristicas fisicas amaz6nicas, diferentes (e opostas) das de Sao Paulo, resisted ao tratamento de choque, que tem sido uma constant na fdria anti-floresta que acompanha o imigrante. O primeiro foi em 1976. Dois produtos da tecnologia humana se chocaram: o mais sofisticado instrument de informacao, o sa- t6lite (no caso, o Skylab), registrando a fer- ramenta mais primitive de intervenqao do home no reino da natureza, o fogo (em questao, um fogar6u com quase 10 mil hec- tares, ateado pela Volkswagen em uma fa- zenda que possufa no sul do ParA). Era o maior incendio at6 entao documentado pela Nasa, a ag&ncia espacial americana. Enviada ao Brasil, a imagem desse incen- dio record exigia uma resposta das autorida- des. A resposta veio atrav6s do primeiro levan- tamento do desmatamento na Amaz6nia, rea- lizado pela extinta Sudam (hoje substituida pela Agencia de Desenvolvimento da Amazonia - ADA) e o extinto IBDF (em cujo lugar entrou o Ibama), nesse cemit6rio de siglas que 6 o Bra- sil. Para tranqiiilizar as consciencias, o inven- tirio, apoiado em imagens de sat6lite, mostrou que a alteraq~o da cobertura vegetal original ainda afetava menos de 1% da Area da regiao. Tudo continuava por fazer, conforme observa- ra Euclides da Cunha ao chegar A Amaz6nia, no inicio do sdculo XX. Mas o que se fez nas tres d6cadas seguintes tomou-se assustador, fa- zendo o indice pular de 1% para 15%. Em 1988 foi outro choque: o Inpe (Insti- tuto Nacional de Pesquisas Espaciais) anun- ciou que, no ano anterior, 80 mil quil6metros quadrados de floresta densa haviam sido pos- tos abaixo. Incluindo-se as matas secundirias e as pastagens, o desmatamento (feito quase integralmente com o uso de fogo) se estende- ra por 200 mil quil6metros quadrados, o cor- respondente a mais de dois terqos do territ6- rio de Sao Paulo em uma tnica safra de verao amaz6nico. A grandiosidade desses numeros provoca controv6rsias atd hoje, uns reafirman- do a confiabilidade da estatistica, outros a desautorizando. O tema continue em aberto, embora o debate haja murchado. Tao chocante quanto a conclusAo do po- l8mico relat6rio do Inpe 6 a causa principal desse alucinante incremento na taxa de des- matamento na Amaz6nia, que se manteve na faixa de 20 mil km2 ao ano nas iltimas tres d6cadas: centenas de milhares de Arvores foram sacrificadas para que os donos de im6veis rurais se imunizassem contra a ameaqa de terem suas terras desapropriadas para a reform agraria, conforme pretendia uma corrente da Assembl6ia Nacional Constituinte, empenhada em inserir na Constituiqao dispositivos mais incisivos contra o latifiindio. Como desmatamento 6 sin6nimo de benfeitoria rural, floresta veio abaixo com esse prop6sito: tornar produtivo o im6vel. Terra com floresta era especulaqao. Terra nua, produq~o. Para se ter uma id6ia da dimensao dos fa- tos, na d6cada de 90 o pique de desmatamen- to, o de 1995, foi de 29 mil km2. Depois a curva se tornou descendente. Mas a partir de 1999 voltou a subir. Talvez nunca mais haja a possibilidade de derrubar 80 mil km2 de flo- resta num s6 ano, mas nao exatamente por melhoria da consci8ncia ecol6gica. E mais provavel que isso decorra simplesmente da inexistencia de florestas continues (ou de in- teresse commercial) capazes de permitir uma razzia nessa escala. Quando a minha geraq~o ingressou no mundo ativo, o total do desmatamento ainda estava bem abaixo do 1% detectado menos de quatro d6cadas atras. Nasci na beirada de um dos mais belos e extensos rios do mundo, o Tapaj6s, 52 anos atras. Eu tinha oito anos quando ali mesmo, em Santar6m, a segunda cidade do Pard, o governor brasileiro criou o Centro de Treinamento da Indistria Madei- reira, com o auxflio e a orientaqao da FAO, o 6rgao das Nagqes Unidas para agriculture e alimentos. Era, entao, o dnico estabelecimen- to no g6nero em toda a zona tropical da Am6- rica do Sul. O outro ficava em zona tempera- da, no Chile. Acreditava-se que a madeira podia ser a redenqAo da Amaz6nia, sem pre- cisar, para isso, desaparecer. Desde entao vi com meus olhos desapare- cer a bela mata alta das margens da Bel6m- Brasilia. Testemunhei tamb6m o sumiqo da rica vegetagao sobre a qual se sobrevoava ao ir para CarajAs atrav6s da lnica via de acesso A melhor mina de ferro do mundo: o aviao. De Carajas para o sul do Para, tamb6m acom- panhei a vegetaqao ir-se rareando, uma espiral que tomaria todas as direqces a partir do epi- centro em Maraba, numa diaspora de macha- dos e motosserras. Estive present A inaugu- raq~o de Xinguara, a "capital do mogno", 30 anos atras. A capital cresceu, ou inchou. JA o mogno que Ihe deu causa, sumiu. Ele ainda existe em grandes concentraq6es mais para oeste, entire os vales do Xingu e do Tapaj6s. Mas o que estamos vendo agora, dian- te dos nossos olhos esbugalhados e indiferente- mente a propalada evoluqao da consciencia am- bientalista mundial, 6 essa floresta ser dizimada com a mesma firia que aniquilou a vegetaqAo native dos vales do Araguaia e do Tocantins. Para o sucesso dessa enfurecida emprei- tada contribui decisivamente a conivencia cri- minosa de funcionArios pdblicos, policiais, cartordrios e magistrados, a sagacidade de ad- JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO 5 vogados inescrupulosos e uma letargia geral que impede a formaqco daquilo que nos in- c6ndios 6 o recurso extreme -e eficaz: o fogo contrario de defesa contra o fogo destruidor. Ou seja: a aqao conjunta, coesa e inteligente do poder pdblico, em todas as suas esferas e em todas as suas jurisdiq6es. Os poucos que ainda cumprem seu dever e fazem esforqos na luta contra grileiros, madeireiros, especu- ladores e compradores, parceiros na political da terra arrasada, estao s6s. S6s, pouco fardo. Sera que estamos condenados a ser im- potentes companheiros de viagem da maior destruigqo de florestas, justamente daquele component vital da paisagem amaz6nica, e do pr6prio ethos amaz6nico, que serve de aval para um future melhor da regido e nao ao mesmo destino colonial imposto a afri- canos e asidticos? Estamos condenados, como a aranha venenosa da lenda, que pica o animal que Ihe cedeu seu dorso para trans- porta-la para o outro lado do rio, a sermos vitimas de uma natureza autodestrutiva, naufragando depois da picada mortifera dada naquele que nos garantia a sobreviven- cia? Da resposta talvez se obtenha a moral adequada para essa hist6ria tdo pouco inte- ligente que 6 a "conquista da Amazonia", na qual ,que se consegue 6 a destruiqCo. 0 bispo de Santarem James M. Ryan possufa tr8s marcas exter- nas caracteristicas. Uma delas era o otimismo. Sempre recebia algudm com um grito de guer- ra: "nloooo diiiiga!". Ao que se seguia sua se- gunda marca: um tapa nas costas, capaz de des- montar o desavisado, seguido de um afetuoso abraqo, que causaria inveja a um grande urso do seu pais de origem, os Estados Unidos. A terceira caracteristica, de acesso apenas aos que conversavam por mais tempo cor ele, eram seguidas xicaras de caf6 preto, imensas, cheias at6 a borda. Numa conversa de duas horas, con- tei cinco ou seis delas. nao lembro mais ao cer- to. Mas era cafeina para manter ativa qualquer preguiqa. Imagine um home forte, com mais de 1,80 metro. Sempre safa dos encontros achando que d. Thiago Ryan, o nome religioso do bispo de Santar6m ao long de 27 anos, exagerava na dose, que talvez Ihe viesse a causar pro- blemas mais cedo do que pensava. Felizmen- te eu estava errado: o caf6 revigorava as ener- gias de um home de linha de frente, ativo e batalhador, mas que conseguia se concentrar ao ouvir hist6rias e confidencias de quem o procurava como conselheiro ou amigo. E de guardar total segredo, mesmo que o interlo- cutor nao tivesse recorrido ao sigilo da con- fissao, dogmaticamente falando. O querido amigo dom Thiago esta para completar 90 anos, de volta a terra na qual nasceu, distant da terra que adotou como sua e a qual dedicou a maior e melhor parte Trinta anos La em O restaurant L4 em Casa complete neste mes 30 anos de funciona- mento ininterrupto. Entre n6s, onde a regra 6 a do abre-e-fecha, 6 uma longevidade que merece comemoraqdo. O restaurant de Ana Maria & Paulo Martins conseguiu se tornar o lnico do Pard a conquistar conceito national e intemacional, nao perdendo essa posiqAo depois de tr8s d6- cadas de existencia. Grande parte do sucesso da casa 6 conquistado antes que o garqom cruze a porta da cozinha para fazer o pedido do client: comeqa na simpatia, na alegria e nas gentilezas de Ana Maria. Foi ela tamb6m, com seu instinto agudo e a experiencia de quituteira, que deu a marca do estabelecimento e sua formula de sucesso: informalida- de no salao combinada com qualidade na cozinha. Durante grande parte da trajet6ria do LA em Casa, que se expandiu pelo O Outro, o segredo do restaurant foi esse. Continue a ser esse. Mas o filho de Ana Maria, transfe- rindo criatividade da arquitetura para a culinaria, projetou, aperfeicoou e sofisticou esse trunfo, ultrapassando os limits do restaurant da familiar. Seguramente Paulo Martins 6 o maior e, sob certos aspects, com todo rigor, o primeiro chef de restaurant commercial do Para, o nome maior da culinaria paraense (e, sem extrapolar na ousadia, amaz6nica). Primeiro Paulo catalogou na mem6ria a rica matdria prima que estava ao seu alcance, entire pratos acabados, components isolados, elements informes ou in6ditos e frutos da regilo. Depois, foi experimentando combinaq6es, com seu paladar apurado, e ousando nas iniciativas, com seu experimentalismo decidido. Desprezou regras sagradas e buscou inspiraqio na audacia das melhores cozinhas do mundo. O resultado pode ser conferido no belo cardApio criado para o L6 em Casa da Estaqao das Docas, cor suas fuses de gostos pi- cantes e neutros, sabores ex6tices e standards, arranjos heterodo- xos e, em certos exemplos, verdadeiros pecados, inclusive por fo- mentar a gula de gourmets ou simples gluties. da sua longa vida. As informaq6es ddo conta de que sofre de doenqa incuravel. Nao haveria muito que fazer. Ha, entretanto, o que pedir. Gostaria que o bispo honorario de Santar6m pudesse comemorar seus 90 anos, que pudesse passar sem dor os dias que lhe restam, que a vida ainda Ihe pudes- se oferecer alguma forma de alegria e que ele tivesse forqas para voltar a ver com seus pr6prios olhos a terra que tanto amou, nela deixando seu corpo, conforme desejo ex- pressamente manifestado, continuando a fertilizer, depois da morte, cor a mesma in- tensidade da sua generosa e fecunda ativi- dade de pastor de almas. Com o que estarfamos preparados para v&- lo partir e ele, para prosseguir sua eldtrica se- meadura em outra diocese, mais longinqua que suas Chicago e Santar6m. Casa Outro dia Paulo Martins deu uma longa e pol8mica entrevista ao semanario O Paraense. Ndo concordei com algumas das coisas que disse, mas estou plenamente convencido de que ele 6 uma das pessoas com maior autoridade para falar sobre alguns dos apimentados temas que abordou. Embora n6s, seus amigos, tenhamos uma certa tendencia a levar na valsa suas opini6es, 6 inquestionavel que Paulo Martins, com seus pratos inspirados, que estabeleceram uma ponte refinada entire a culindria (existente e por inventar) paraense, a mais representative da Amazonia, e o sabor universal, tem promovido mais em favor do nosso turismo do que todos os que se apresentam como autoridades no setor, por poder de mando ou de canudo. Fui, durante alguns anos, seu privilegiado companheiro de mesa nos pantagrudlicos almoqos de sibado. Como consciente cobaia, li estava eu a espera da gurijuba moqueada ou das ovas de tainha, co- zidas ou fritas, entire numerosos pratos que saiam da sua apurada intuigio de cozinheiro e do seu conhecimento testado de mestre em qufmica e arquitetura da comida, a espera do pronunciamento, fre- qiientemente irreverente, dos seus convivas (com ou sem vivas, ali- as). Os festivals de sabado acabaram, como acabam todas as coisas humans para que outras coisas humans possam comegar. Come- qou entao a peregrinaqao de Paulo Martins pelo pais, levando seu bad de preciosidades culindrias, esticando a faixa cativa da nouve- lie cuisine paraense antes que cozinha existisse, estabelecendo uma nova periodizaqio gastron6mica (AP e DP: antes e depois de Pau- lo), e enchendo de orgulho e inveja a n6s todos, seus amigos impi- edosos e admiradores inveterados, que nao conseguimos ir al6m da espera ansiosa pelo pr6ximo prato. A prop6sito, Paulo Martins: qual sera o prato dos 30 anos do nosso LA em Casa? 6 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE JUNHO/2002 ... *.. N-/ MEMORIA DO COTIDIANO ", ,' -', , -- - Arig6s Poucos anos antes eles haviam passado em gl6ria por Beldm. Eram os "soldados da borra- cha", trabalhadores atraidos do Nordeste para voltar a produ- zir borracha nos abandonados seringais dos altos rios da Amaz6nia, como se estives- sem no pr6prio "front". Eram indispensiveis para o forneci- mento dessa matdria prima es- trat6gica para o esforgo de guerra dos pauses aliados, que tiveram bloqueadas suas fontes de acesso, no Oriente. Mas em agosto de 1946, quando esta- vam de volta a Bel6m, a situa- q~o mudara dramaticamente. Pilidos, rostos macilentos, enfraquecidos, 16 imigrantes nordestinos registraram queixa na Central de Policia contra os maus tratos que estariam sofren- do na Hospedaria do Tapana. O director do tristemente famoso local, mantido pela CAETA, res- ponsivel pelo recrutamento de mdo-de-obra para trabalhar nos seringais, condicionou o forne- cimento de alimentaqco A pres- tagAo de algum tipo de serviqo. S6 quem trabalhasse poderia co- mer. O problema 6 que os ho- mens, depois de produzir bor- racha nos seringais em condig6es massacrantes, se encontravam muito debilitados. Eles informaram que haviam chegado a Manaus juntamente com outros 170 nordestinos, que tamb6m escaparam do grilhdo da selva. Terminado o conflito, foram abandonados a pr6pria sorte e com muito custo conseguiram alcanqar a capital amazonense, de onde prossegui- ram viagem, no navio Cambrid- ge, para Beldm. Queriam ajuda para retornar aos seus pontos de origem, no Nordeste. Foram convocados como "soldados da borracha". Mas a populaqao da regiao os tratava pejorativamente de "arig6s". O delegado Joao Fernandes, de plantao, mandou registrar a queixa. Funcionirios da Cen- tral se cotizaram e deram 24 cruzeiros aos nordestinos para que eles pudessem voltar a Hospedaria. Voltar A terra natal ainda era um sonho. Present President do Banco de Crd&ito da Amaz6nia (o atual Basa, que estA fazendo aniversirio), Gabriel Her- mes Filho recebeu um present es- pecial no natal de 1953: um serin- galista do Alto Xingu mandou gra- var, em duas lIminas delgadas e transparentes de borracha fina, um artigo do future senador publicado na Folha do Norte, "Belem e Moe- ma", acompanhado do respective cliche (a fotografia em chapa para impressao tipogrAfica), al6m do te- legrama de um banquet oferecido a Gabriel no Rio de Janeiro, entao capital federal, com a devida ilus- traqio, conforme reproduzido no mesmo journal. O autor do present fez question de ressaltar que nao pretendia favo- res do banco e nunca os pleiteara. A dadiva representava "a admiraao e o reconhecimento dos serviqos pres- tados pelo grande estabelecimento de cr6dito A Amaz6nia". Rocque Felix Rocque morreu em 1959, uma semana antes de completar 50 anos, de um ataque cardiac, ampa- rado por sua filha Elizabeth. Era pa- raense de ascend6ncia libanesa. Fi- cou famoso ao empresariar espetA- culos de variedades durante os 15 dias da Festa de Nazard, que se seguia ao Cfrio e chegava ao fim com o Recirio. Podia ser conhecido como o Carlos Machado paraense. Seu filho mais ilustre (e o segundo de cinco filhos, em dois casamentos) foi ojornalista e escritor Carlos Ro- cque, que tambdm morreu precoce- mente, pelo mesmo motivo. E se ligou ao Cirio idealizando e reali- zando a primeira procissao fluvial, na v6spera da bi-secular peregrina- qao dos romeiros pelas ruas de Beldm. Contrabando O coronel Lino Teixeira, sub-che- fe da Casa Militar da Presidencia da Repdblica no governor Jusceli- no Kubitscheck, mandou em 1959 um assistente em missdo sigilosa ao Para. Queria que ele produzis- se um detalhado relat6rio sobre a mais famosa atividade no Estado: o contrabando, responsAvel por uma imensa evasao fiscal, tornan- do quase insignificant a arreca- daco federal de tributes. Mal p6s os olhos na cidade, o emissArio se declarou estarrecido. O que, evi- dentemente, nao foi o bastante para inibir o contrabando no Esta- do. Talvez ate muito pelo contra- rio. Governo Em agosto de 1959 o Tribunal de Contas do Estado recebeu a decla- rado de bens do govemador Mou- ra Carvalho e dos integrantes de sua administraqao, os secrettrios Amal- do Morais, da Seguranqa Piblica; Pedro Moura Palha, do Interior e Justiqa; Rodolfo Chermont, de Fi- nanqas; Benedito Carvalho, de Go- verno; e Clio Danin Marques, di- retor do Departamento de Despesa da Secretaria de Finanqas. Direito Evandro Diniz Soares, da 4" s6rie, e Francisco Mildo, da 5' s6rie, fo- ram os estudantes escolhidos para falar durante a traditional Festa da Chave, do curso de Direito da Universidade Federal do Para. Na versao de 1959, ela se realizaria nos sales do Palace Teatro (ji demolido, nos funds do Grande Hotel). Seu ponto alto era quando um aluno da 4" s6rie passava para um concluinte a chave com a qual ele podia abrir a parte final do cur- so juridico. Os ingressos estavam sendo vendidos por Djalma Cha- ves, Edson Franco, Francisco Gu- zzo e outros alunos da 5" serie. Rua Em 1960 o muito popular verea- dor Raimundo Noleto e o prefeito Lopo de Castro foram A luta. O motivo: o edil mignon (algo como PUBLICIDADE No canto desfigurado CASA (ORCOVADO Quase meio s6cu- lo atrds, esta foto mostrava como era sofisticado, em 1954, o canto da avenida Portugal com a rua Jodo Al- fredo, no coraioo do comrrcio mais traditional da ca- pital paraense. Ali Arthnr Co sta Cla. Ltda, Adrthur Conoste da a. Ltdar pontificava a Casa noInums u na an co*M ov Corcovado, um tf- l "S b. ,oo "o-"-... IM*NOS IOM"O"" ft NOI pico estabeleci- U..,4. Pa,""I ,O , mento commercial Z" *==. sofisticadopr6-su- -- ' permercados, de Arthur Costa & Cia. Ltda. Clientes permanentes podiam ali adquirir castanhas, queijos, figos "rexiados", tAmaras, passes, nozes, amen- doas, bombons, champanhes e vinhos finos. Ou seja: artigos impor- tados, verdadeiras especiarias no mercado paraense. A Casa Corcovado foi substituida pela Livraria Conte, que ain- da manteve os traqos refinados do pr6dio, mas depois "moderi- zou-o". E agora, para powder executar mais uma etapa da reformm" do Ver-o-Peso, a Prefeitura fincou no passeio da avenida barracas de madeira, que lembram, assustando, as construq6es precirias que ali vendiam fogos durante a quadrajunina. Garante a PMB que vai ser uma acomodagqo temporiria (e preciria) de feirantes, at6 que eles possam voltar ao seu ninho original, se efetivamente voltarem e se os danos, previsiveis, nio forem irremedidiveis. Ah, Bel6m! JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO 7 metro e meio de altura) espalha- va pelos maltratados subtrbios de Bel6m um grupo de capinadores e limpadores de ruas, fazendo um trabalho considerado impr6prio pela administraq~o municipal, com objetivo classificado de elei- toreiro. Para evitar esse trabalho, o prefeito mandava, para o mes- mo lugar visado pelo vereador, servidores municipals com a mis- sdo de capinar e limpar valas. Noleto entdo desistia, mas s6 da- quele local. Remanejava sua blitz para outra rua, para irritagqo do prefeito, que ainda expunha ou- tro argument: os peoes de Nole- to eram presididrios, atraidos para o serviqo pela promessa de remu- neraq~o, que nao era cumprida. Bern Bel6m. Indtistria Em 31 de janeiro de 1964 foi inaugurado, em Bel6m, o I Salao Industrial da Amaz6nia. Entre as empresas que montaram seus stands para o event estavam Ce- ramica Maraj6, Olpasa, Colchao de Molas Imperador, Renda Pri- ori, Cimaq, Agua Mineral Nossa Senhora de Nazar6, Fdbrica Sdo Vicente, Empresa Soares, Con- fecq6es Destex, Perfumarias Phe- bo, Jos6 Soares e Paraense Trans- portes Adreos. Todas ji desapa- recidas. O que ajuda a explicar nao ter havido um segundo salao. Burocracia Em 1966 a Assistencia Judicid- ria do Estado, entao dirigida por PERGUNTA/RESPOSTA Pergunta de Jose Ribamar Soares Jdnior, durante debate realizado em Marabi: Sou ticnico em mineraCdo (cor 10 anos de experiencia) e noto que a maioria dos tecnicos da Companhia Vale do Rio Doce ndo sdo da regido, sendo que na regido existe escola profissionalizante. Quais os criterios ticnicos que a CVRD usa para contrataqdo de mdo-de-obra especializada? * A Vale podia realizar um encontro em Marabd e outro em Bel6m para dar sua resposta a essa per- gunta, que ter procedencia. HA dois centros de for- ma~go de mao-de-obra para os serviqos da empre- sa. Um, de nivel superior, pela Universidade Fede- ral do Para, atraves dos cursos de geociencias, de engenharia e de quimica, principalmente. Outro, de nivel profissionalizante, pela antiga Escola T6cnica Federal do Pard, hoje Cefet. Estard o curriculo ajus- tado hs demands da empresa? A CVRD, por sua vez, participa adequadamente desse necessirio es- forgo de adequaqco? Hd uma outra questao: a qualifica~qo desses fu- turos profissionais para desempenhar na empresa e em seus empreendimentos mais do que uma sim- Ophir Cavalcante, deixou sua an- tiga sede, na sala de casamentos do f6rum de Bel6m (por sua vez funcionando onde era e perma- nece sendo a sede da prefeitu- ra), e se instalou na ala t6rrea do Paldcio Lauro Sodr6, onde esta- va todo o govero estadual (e hoje resta o Museu do Estado), no lu- i ples funqao t6cnica, de execuq~o. O ideal seria que tivessem um papel mais criativo e de mao dupla: resolvendo os problems da empresa e cumprindo suas rotinas, mas tamb6m sendo veiculo dos inte- resses da sociedade. Capazes, por isso, de ter uma atuaqco critical, dando retomo ao investimento pud- blico aplicado na sua formaqao academica. No encontro em Marabd voltei a uma velha su- gestao para a instalaq~ o de uma Escola de Minas na cidade, que 6 o principal nicleo urban na area de influEncia da mais expressive provincia mineral do planet. Ela nao apenas poderia criar as condiqbes para se responder satisfatoriamente A dtivida de Ri- bamar, como contribuir para former no Pard a cul- tura da mineraqgo, sem a qual o Estado nao terd cons- ci8ncia de sua condiqFo, detentor de um rico patri- m6nio de bens no seu subsolo. Essa escola tamb6m permitird aprofundar cada segment de formaqao de mao-de-obra especializada para as virias demands do setor mineral no Pard. Quem sabe nao se consiga at6 abrir os olhos do go- vemo para a fragilidade da sua estrutura institucio- nal diante da grandeza dos desafios que a minera- qao Ihe imp6e e ele teima em ignorar. gar atW entao ocupado pelo Co- mando Geral da Policia Militar. Dividiria o espago com a Repar- tiqgo Criminal, A frente da qual se encontrava o juiz Adalberto Chaves. Claro que, de 16 para ci, a bu- rocracia official tinha que crescer, nao mais podendo se acomodar nos diminutos espaqos de quatro d6cadas atris. Mas quem for ana- lisar sua evoluq o talvez chegue A concluslo de que o tal do "apa- relho de Estado" sofreu incre- mento muito maior do que a po- pulaqio, a atividade produtiva e outros terms referenciais. Ficou muito mais pesado para o cida- duo. Bancada Na legislature iniciada em 1954, o Para teve direito a uma banca- da de nove deputados federais. O Amazonas tinha 7, o Acre, 2, e os territ6rios federais (Amapi, Guapor6 e Rio Branco), um cada. Cabia assim r Amaz6nia ClAssi- ca 21 das 364 cadeiras na Cama- ra dos Deputados. Considerada a Amaz6nia Legal (incorporando ainda Mato Grosso, Goids e Ma- ranhao), o total subia para 46 lu- gares, quase 15% do parlamento. A bancada paulista tinha quase esse tamanho: 44 deputados. Mi- nas Gerais vinha depois, com 39 deputados. Com a fixaqgo de oito depu- tados como a cota minima por Es- tado, a bancada amaz6nica cres- ceu desde entao. Mas a regiao pouco se ter beneficiado desse crescimento. RETRATO ..... Passarinho premiado O "major J. Passarinho, ilustre home de letras e sociedade de nos- sa terra", conform garantia a legen- da da foto, foi o vencedor de um sor- teio, organizado pela Importadora Braga (empresa ji extinta), de uma passage de ida e volta ao Chile, para assistir A Copa do Mundo de 1962, da qual o Brasil sairia como bicampelo mundial de futebol. O sorteio foi realizado nos estidios da TV Marajoara. O taldo premiado ti- nha o ndmero 6331. A fotografia do- cumenta o moment em que o future govemador, Quartel General do Comando Militar da Amaz6- ministro e senador apresentava o taldo ao director da nia e 8" Regido Militar, em Bel6m. Exatamente 40 firma, Carlos Braga, cinco meses antes de a Copa anos antes da atual Copa, a primeira realizada si- comeqar. Jarbas Passarinho trabalhava na 6poca no multaneamente em dois pauses, Cordia e Japao. Gente para as minas Criei na finada Agenda Amaz6nica uma secdo para responder a perguntas que me sdo feitas nos debates de que participo e que costumam ficar de fora da programaqdo, em geral pelo esgotamento do hordrio. Volto a essa seclo, embora deforma mais sintetica, para tender ai demand da opinido publica. Novidade A barranca era ingreme, cor es- cadaria entalhada rusticamente na terra. Mas o cinegrafista decidiu encard-la, sob o peso dos 15 qui- los da sua Auricon sonora, para chegar A casa de uma famflia de indios Gaviao da Montanha. No limiar do topo, o indio apareceu, cor o arco armado. Assustado, o cinegrafista perdeu o equilfbrio e s6 nao levou um tombo grave por- que foi seguro por um colega. A miquina, por6m, se danificou. Quem vinha atrds, mais esperto, logo conseguiu concatenar uma conversa e ser aceito sem inciden- tes. A cara feia era para efeito externo. O indio precisava estar brabo, conforme esperavam que estivesse. O incident foi em 1974, na primeira visit ao local onde se- ria construida a hidreldtrica de Tucuruf, no rio Tocantins. Os Gavi6es da Montanha acabaram tendo que deixar suas terras, ocu- padas pela Eletronorte. Foram colocados A forqa numa vala co- mum corn outros grupos Gaviao na reserve Mde Maria, a uma certa distancia dali. Seus primos, 6 verdade, mas tamb6m inimigos. Agora sero poupados do constrangimento. 0 Tribunal Re- gional Federal da 1a Regilo, em Brasilia, reconheceu o direito desse grupo de receber terras com as mesmas condiq6es eco- 16gicas e extensao daquelas que perdeu cor as obras de Tucuruf. Acolhendo pedido da tribo, o TRF mandou a Eletronorte com- prar essa area e entregi-la aos Gavi6es. Final feliz? Certamente. Os Gavi6es da Montanha (para distingui-los dos GaviOes de Oeste ou dos Gavibes do Maranho) foram ultrajados e tiveram direitos le- gitimos violados. Talvez nao tanto quanto os PanarA, de Mato Grosso, que tamb6m conquistaram reconhe- cimento judicial As suas preten- s6es territoriais. Eles ficaram mundialmente conhecidos como os "indios gigantes", contatados pelos irmaos Vilas Boas As margens do rio Peixoto de Azevedo, em 1972. Deram-lhes o nome de Kreenakarore, que vigorou por muitos anos, at6 Fot6g rafa Aos 70 anos, a fot6grafa sufqa Claudia Andujar continue causando a mesma impressao forte de mais de tres d6cadas atris: bonita, incrivelmente jovem, cheia de energia e dedicada a boas causes. Uma foto, infelizmente em tamanho reduzido, ilustrou mat6ria no Jornal do Brasil a prop6sito do seu precioso acervo de fotografias dos indios Yanomami, talvez a mais rica colegqo ji produzida sobre uma tribo brasileira (e, como sempre nesses casos, com sua perenidade ameaqada). Acho que o primeiro ou pelo menos definitive - contato de Cldudia com a Amaz6nia foi em funqCo da ediqao especial da ji extinta revista Realidade (da Editora Abril) dedicada A regiao. Entre outros m6ritos, a ediqao, comandada por Raimundo Rodrigues Pereira, 6 a que mais belas fotos reuniu em toda a hist6ria da imprensa brasileira. La estdo trabalhos antol6gicos de Maureen Bisilliat, Jean Solari, Amincio Chiodi, Luigi Mampin e George Love (entao marido de Cldudia), aldm do ensaio verdadeiramente etnogrdfico em s6pia de Andujar. Desde entao, ela ter voltado aos Yanomami, nao s6 para aprimorar o registro iconogrdfico maravilhoso, mas tamb6m para viver entire eles e participar da luta que travaram, junto cor aliados preciosos como ela, para demarcar sua reserve, entire Roraima e o Amazonas. Essa luta foi ganha. Mas a batalha continue. Da alegria ver que Claudia continue firme, decidida e olimpica nessa frente, sem que o domicflio paulistano seja empecilho a essa generosa solidariedade amaz6nica. Vida longa para "La Andujar". recentemente. Mas Kreenakaro- re era como desdenhosamente a eles se referiam seus mortals inimigos dtnicos. Eram ofendi- dos e tinham que reagir corn risos. Agora voltaram a ser Panard, seu nome verdadeiro. Na terra que Ihes cabe. De vez em quando 6 bom ver indio ganhar. Perdio A precipitacao do fechamento por causa do feriado de meio de se- mana de Corpus Christi e o ata- que de virus acarretaram virios pequenos mas muito chatos - problemas na ediqao passada. Es- pero que o leitor releve a interfe- r8ncia dessas gralhas eletr6nicas e de um certo aqodamento para colocar o journal nas bancas antes de terminar a semana que o feria- do enforcou. Vale Em marco de 1995, quando foi anunciado que o BNDES contra- taria uma consultora privada para definir o melhor modelo de ven- da da Companhia Vale do Rio Doce, ojornal O Globo registrou que "o mercado" ja especulava "que o preqo da companhia gire entire US$ 10 bilh6es e US$ 16 bilh6es" (edicqo de 9 de marco de 1995). O preqo de venda, em abril de 1997, acabou sendo de 3,2 bilh6es de reais (ou US$ 1,3 bilhio), do tamanho do lucro que a empresa teve somente no ano passado (que marcou seu quinto ano como empresa privada). Essa diferenqa talvbz ajude a entender como o Bradesco, con- tratado para participar da defini- qIo da forma de venda, seja hoje um dos donos da CVRD e seu principal operator, embora as normas proibissem o modelador do leillo de ser seu beneficidrio. E muitas outras coisas mais, de espertezas a propinas. Um dia, talvez. essa caixa pre- ta ainda serd aberta. Qualidade Suely Silva escreveu uma carta ao journal O Liberal, publicada na edicqo do dia 7, fazendo duas reclamaq6es: uma conta de agua inflacionada e a displicencia de uma funciondria, que recebeu sua ligaqco e nao desligou direito o telefone, prendendo a linha du- rante cinco horas. Mesmo que a leitora tivesse toda a razao, era de estranhar, nao a conta em si, mas a retenq~o da linha. Como foi ela quem fez a chamada, o normal seria que, ao desligar, mesmo que a interlocutora con- tinuasse do outro lado, a ligacqo fosse desfeita. Mas nao 6 isso que vem ao caso. E que nessa mesma ediqgo do dia 7 a carta de Suely tam- b6m foi aproveitada na nota de abertura do Rep6rter 70, que ji foi a coluna de prestigio do journal. Mas que hoje esti mais para secos & molhados. Uma autentica bacia das almas. S6 a coluna? Buraco Devo acreditar que a Prefeitura de Belnm finalmente desistiu do projeto de construir um teatro na parte de cima e um estaciona- mento na parte de baixo do Bu- raco da Palmeira? 0 mercado reagiu com bocejos A abertura de propostas para esse projeto. Se tal 6 vero, mesmo que non tro- ppo, que tal a PMB encarar a pro- posta de usar a parte superior como praca (com parlat6rio, ponto para a comercializacao de livros, revistas, discos e outros objetos culturais, bancos e me- sas de pedra, num ambiente gra- deado) e transformar a parte in- ferior em duas quadras poliva- lentes ou quem sabe numa pista de patinaqdo, parajovens e crianqas dos bairros centrais da cidade, ha muitas d6cadas sim- plesmente esquecidos pela admi- nistraq~o municipal? A praqa abriria um espaqo de ventilaq o e um horizonte de ligaqao entire duas igrejas mal- tratadas (a de Santana e a do Rosario). As quadras absorve- riam as energies de gentejovem que nao tem lazer onde mora. Acho que seria absolute novi- dade no centro hist6rico de Be- 16m, o que poderia resultar na- quele tipo de voto que dd mais prestigio e custa menos: o voto' consciente, derivado da alegria e do reconhecimento. Jomal Pessoal Edar. I FlAlo PIn. Fn: | 00i1) 241-7g26 Conl. Tv.Bn|um ConinI a45a203 4l e l onumllnuanom.br PndugK Aigomn Pinto Edgl Aret .LuhtWodenrhlo |
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