Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00236

Full Text




Jomrnal Pessoal
L I C 1O F L A v IO PI N TO


ELEIIP


Disputa plebiscitaria


A pr6xima eleicdo pode ser decidida atravds do confront de dois grandes grupos:
o do governador Almir Gabriel e o dos que sdo contra ele. Mais uma vez o PTfica
defora da raia dosfavoritos. Ganhard se os adversdrios the derem a vit6ria. 0
panorama 6 o de sempre: tudo muda para tudo continuar igual.


A leicao de outubro/novembro
no Pard vai defender das ten-
tativas em curso para a forma-
ao de dois grandes blocos. De
m lado, o governador Almir
Gabriel procura reeditar a coligagao que Ihe
assegurou a vit6ria nas duas iltimas
disputes majoritarias. No outro extreme,
uma frente de oposiaio pretend tornar o
voto uma manifestag~o plebiscitaria con-
t 4- ismo da situado. Correndo

I ?1 1


por fora, mas desta vez bem por fora, o PT,
mais do que nunca na condicqo de zebra.
A ofensiva do governador parece mais
bem sucedida do que a dos seus adversi-
rios, mas esti muito long de poder ga-
rantir a Simdo Jatene, o candidate da
"Uniao pelo Pard", a condiq~o de favori-
to. Seu maior trunfo sdo os altos indices
de aprovagao e lideranqa de Almir Ga-
briel nas pesquisas de opiniao. Se fosse
possivel um terceiro mandate, o gover-


nador estaria reeleito. Sua forqa se deve
as obras que realizou. Ndo tanto pelo
acerto do que fez, executando projetos
de antecessores ou assumindo empreen-
dimentos federais, mas por sua exist&n-
cia, tornada possivel por maior raciona-
lidade (e discricionarismo) na gestio p6-
blica. Ha algum tempo um governador
nao chegava a um period eleitoral com
tantas obras na algibeira, uma credencial
invejAvel.


F:STS VA ACBAR?(Pags, /,5


- : ,OF







2 JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO/2002


Mas esse triunfo parece ter afetado o
senso critic do governador. Sua tenden-
cia ao autoritarismo, que remonta as ori-
gens, na political estudantil, se agravou.
Almir Gabriel se tornou especialista em
tudo, um trago que o aproxima de um an-
tecessor mais distant, o professor Aloy-
sio da Costa Chaves. S6 que o ex-reitor
tinha a seu favor o fato de ouvir mais e
mudar de opiniao quando convencido a
agir assim. Desde que nao o obrigassem a
admitir o erro, o corrigia.
Almir Gabriel ja s6 ouve pouca gen-
te. Mais como concessdo A democracia
formal do que como uma firme metodo-
logia de aqgo. Essa attitude estimulou o
aulicismo (e o abulicismo, reforqado pela
propaganda). Ele agora esta cercado de
pessoas que s6 falam o que sabem que
ele quer ouvir. A pluralidade foi supri-
mida do circulo mais pr6ximo do gover-
nador. Na corte o pressuposto 6 de que
Almir elege quem quiser. A crenqa tem
at6 fundamento matemAtico: basta fazer
deduqbes a partir do indice de aprova-
qao para, por residue, chegar A conclu-
sao de que Simao Jatene ja esta no se-
gundo turno. Elege-lo passa a defender
apenas de alguns acertos.
O governador acredita nessas simu-
laq5es aritm6ticas tanto quanto esta con-
vencido de que seu tabagismo invetera-
do, ao inv6s de prejudicar sua sadde, o
salvou durante a crise aguda de aneuris-
ma. Engrossado pela qufmica do cigar-
ro, segundo essa interpretaqao, o sangue
continuou dentro das suas art6rias. Se nao
fosse fumante, a hemorragia teria sido fa-
tal. Por isso o governador continue
fumando tanto quanto antes. Sempre,
por6m, tendo o cuidado, que diz ser
cientifico, de s6 fumar at6 pouco mais
da metade do tamanho do cigarro.
Da mesma maneira, transformar o ho-
mem do nao, que funcionou na Secretaria
de Planejamento como o filtro para o aces-
so as obras e recursos da administragqo
estadual, no candidate do sim, trocando a
cara fechada pelo sorriso aberto, a caneta
implacivel pelo violao amigivel, seria
simples para Almir Gabriel. E sempre bom
lembrar que, sem perder seu estilo turrao
e suas manias, ele conquistou no parla-
mento estadual um apoio sem paralelo, in-
clusive no period discricionario do
regime military. S6 a bancada do PT, comr
seus quatro deputados, nao participou do
coro, entoado freqientemente em
unissono nas 41 cadeiras da Assembl6ia
Legislative. Para praticar o jogo da sedu-


9go de politicos, o governador usou ao
mesmo tempo um evang6lico e um ex-
banqueiro do jogo do bicho.
A esse mesmo jogo ele esti recor-
rendo para firmar a dificil candidatura
Jatene, adotando o lema do maquiave-
lismo depravado, segundo o qual os fins
sempre justificam os meios. O objetivo
do governador 6 prolongar por mais
quatro ou oito anos o modo tucano de
levar o Pard a um future grandiose, A
base de obras de infraestrutura e da su-
plementaCgo dos chamados "grandes
projetos", na presunCqo de que seus efei-
tos negatives serao atenuados e seus
efeitos positives, multiplicados. Se os
indicadores sociais desse crescimento
quantitative sao desfavoriveis, isso nao
passa de acidente de percurso. Poderia
vir a ser sanado numa curva mais A fren-
te, com mais um tucano no governor.
Todos os recursos estao sendo utili-
zados para propagar o nome ainda pou-
co conhecido do ex-secretdrio e para adu-
bar a horta na qual ele esti sendo planta-
do. Mas a coligaqao que lhe vai dar res-
paldo pode nao ter o mesmo tamanho da
que garantiu os dois mandates a Almir
Gabriel e nem o porte que apresenta di-
ante do pdblico. Politicos e cabos eleito-
rais admitem, confidencialmente, que
ainda nao deglutiram o candidate, res-
ponsabilizado por um ou outro caso de
desatenqao ou insensibilidade no trata-
mento, e por uma arrogancia que poderia
vir a ser sua marca depois de vitorioso.
Ha os que nao veem cor bons olhos uma
criatura de Almir na sua sucessao. Queri-
am um nome de fora da corte. Outros ar-
gumentos contra Jatene tambrm sao ex-
postos. Mas hi uma d6vida: esses critics
internos estariam dispostos a avanqar at6
que ponto nessa posi~go divergente?
Defendem um ponto de vista politico ou
apenas interesses pessoais?
As perguntas tem aplicagdo gendri-
ca, mas podem ser dirigidas especifica-
mente a um dos mais importantes alia-
dos do governor (nao s6 deste, alias, mas
de quase todos os governor receptivos
aos apelos comerciais): o grupo Libe-
ral. Nas piginas dojornal ou atrav6s de
recados, a empresa deu sinais de apoiar
a candidatura do vice-governador Hil-
degardo Nunes. E sempre manteve no
ar a hip6tese de o principal executive
da corporaCqo, Romulo Maiorana Jdni-
or, ser candidate ao Senado.
Mesmo que essa possibilidade jamais
haja se concretizado, ela deu causa a um es-


tremecimento de relaq6es com o candidate
official a uma das duas vagas senatoriais da
"Uniao pelo Pari", o atual deputado federal
Gerson Peres. Ele foi colocado transitoria-
mente na geladeira porter ignorado que Ro-
minho 6 do mesmo partido, o PPB, e devia
ser consultado nos entendimentos para a de-
finiqo da candidatura. Almir Gabriel tem
feito ouvido de mercador a essa pretensao.
O grupo Liberal nao embarcard na esqua-
dra do goverador para eleger Jatene? Em
qualquer circunstrncia? Pulard entdo para o
barco de Hildegardo?Ou vai aumentar o
preqo da adesdo?
Ha ainda alguma divida tambem em re-
lagqo ao PFL, que, em fungqo dos expur-
gos internos, se tornou praticamente o par-
tido de um home s6, o deputado federal
Vic Pires Franco. Seu maior instrument
de barganha 6 o tempo disponivel no hori-
rio da propaganda eleitoral gratuita, o ter-
ceiro maior. O PFL national, entretanto,
esti empenhado em um desafio: se tornar
o principal partido no parlamento, de ma-
neira a reconquistar sua posiqao, abalada
pelo fato de nao apresentar candidates a
Presid6ncia da Repdblica.
Esses problems, contudo, sao de me-
lhor administraqdo para o PSD e seus ali-
ados do que o front externo. Terd exito a
formaqdo de uma ampla frente de oposi-
gqo, que principalmente dois dos preten-
dentes ao governor, Hildegardo Nunes e
o senador Ademir Andrade, vem lideran-
do? O vice-governador ji tem a sua pr6-
pria frente, derivada da coligaqdo nacio-
nal (a "freite trabalhista") em torno da
candidatura presidential de Ciro Gomes.
Ja Ademir esta metido na camisa-de-for-
qa da postulaqao do ex-governador do
Rio de Janeiro, Anthony Garotinho.
Qualquer ampliaqco desses limits vai
defender de uma coligaqCo branca, que
tangencie a verticalizaqCo estabelecida
pelo entendimento do TSE sobre a nor-
ma eleitoral que obriga os partidos a re-
petir nos Estados os acordos que fizerem
para a dispute presidential.
Mas o fiel da balanga em todos esses
entendimentos 6 o ex-senador Jader Bar-
balho. E cada vez mais remota (embora
ainda nao inviabilizada de todo) a hip6-
tese de ele participar de um entendimen-
to com o governador Almir Gabriel para
repetir a dobradinha PSDB-PMDB, que
ap6ia o ex-ministro Jos6 Serra. Se apre-
sentar sua candidatura ao governor, o que
parece disposto a deixar para o prazo fi-
nal que a lei Ihe faculta, com a conven-
qao partidiria at6 o dia 30, Jader obri-






JOURNAL PESSOAL 2a QUINZENA DE JUNHO 3


gard os demais candidates com menor
densidade eleitoral e menor estrutura de
campanha a se rearrumarem no tabulei-
ro.
Provavelmente Hildegardo levard
at6 o fim sua pretensdo de suceder a
Almir Gabriel. Apesar dos baixos in-
dices nas pesquisas pr6vias, o vice-go-
vernador parece convencido que se seu
projeto malograr tera quatro anos para
tentar novamente, saindo com o capi-
tal acumulado para uma nova dispute
(talvez esta seja sua primeira e iltima
chance de ser pretendente real ao car-
go de governador).
Ja Ademir Andrade esti diante de um
dilema: acreditar que o empate t6cnico
com Jader nas sondagens para o governor
pode lhe permitir superar o ex-senador
durante a campanha ou se 6 melhor retro-
ceder para a reeleigao ao Senado. Certa-
mente o lider do PMDB paraense sofrerd
mais do que Ademir com os ataques dos
adversarios, mas o senador do PSB estari
sozinho na rua, com horario de propagan-
da diminuto e sem suporte material A al-
tura dos contendores. Ja a volta ao Sena-
do empaca num complicador: o Pard ele-


gera dois candidates que se colocam A
esquerda no espectro politico, como Ana
Jdlia Carepa e Ademir?
Essa frente de oposig o ainda preci-
sara vencer barreiras e pular fogueiras
para se consolidar, mas da negociaqdo
entire todas as correntes podera haver uma
conseqiiencia para o segundo turno: a
uniio delas em torno do candidate
vencedor. Essa grande frente, entretan-
to, pode ou nao ter suas forqas aumenta-
das. Vai defender de qual sera o nome
que passard para o segundo turno. Se for
o ex-senador Jader Barbalho pode acar-
retar tamb6m uma frente em sentido con-
trario, tal o carter plebiscitdrio da figu-
ra do ex-governador.
Essas muitas alternatives passam ao
largo do PT. O partido se parece A medio-
cre selegao que represent o pafs na Copa
do Mundo: mudou permanentemente de
formacao durante os treinos, mas chegou
aosjogos oficiais sem a definiqco do elen-
co, insegura e imatura. 0 PT examinou
vfrias alternatives de chapa, dentro e fora
do partido, sozinho ou em alianca. Termi-
nou escolhendo por exclusao, na media
em que os nomes mais fortes de auto-eli-


minaram ou foram sacrificados pela sel-
vagem dispute internal.
0 PT regride ao period anterior a
1996, quando apresentou mais um nome
para o sacrificio, para fazer figuraqao, e
o atropelamento dos favorites acabou
por dar a vit6ria a Edmilson Rodrigues
para a prefeitura de Bel6m. Essa con-
quista foi precariamente confirmada
quatro anos depois, mas nao bastou para
dar ao PT paraense a densidade de um
partido verdadeiramente estadual e con-
sistentemente amadurecido. Depois das
"queimaqres", restou o nome da depu-
tada estadual santarena Maria do Car-
mo como rescaldo do incendio.
Sua melhor perspective pr6-eleitoral
6 vir a ser um fen6meno como foi Ed-
milson Rodrigues (ou, exatamente por vir
depois do alcaide da capital, na verdade
um epifen6meno, para recorrer a uma
expressao mais exata). S6 ganhard se os
adversirios Ihe derem a vit6ria. Mas essa
6 uma hip6tese que nao passa pela cabe-
qa do imperial goverador dos paraen-
ses, o mrdico Almir Jos6 de Oliveira
Gabriel, primeiro e inico. O pai da pre-
tendida dinastia tucana no Para.


Gusa em brasa


Tres usinas instaladas em Maraba pro-
duzem atualmente 520 mil toneladas de
ferro gusa. At6 o final do ano o parque
terd mais duas siderirgicas e a produqdo
instalada passard para 780 mil toneladas,
nivelando-se a capacidade do parque gu-
seiro que se estabeleceu do lado mara-
nhense da Ferrovia de Carajas. Os dois
Estados ji responded por 30% da produ-
qao national de gusa.
A tendencia de crescimento desse se-
tor poderd sofrer um abalo traumitico se
a Companhia Vale do Rio Doce decidir
implantar sua pr6pria usina, em socieda-
de com a Nucor, uma das maiores side-
r6rgicas dos Estados Unidos. E a CVRD
o inico fornecedor de min6rio de ferro e
o 6nico transportador do insumo para as
usinas de gusa (nao s6 no Pard e no Mara-
nhdo, mas tambrm em Minas Gerais,
ainda o maior produtor brasileiro). A par-
tir de um acordo assinado em abril, as duas
empresas poderdo iniciar no pr6ximo ano
a construqdo de uma nova siderdrgica, que
comeqard produzindo as mesmas 520 mil
toneladas da soma das tres usinas do dis-
trito industrial de Maraba.


Se o projeto CVRD/Nucor sair, a pro-
duqoo de gusa em Marabi pularA para 1,3
milhao de toneladas ao ano. Acrescidas
as 700 mil toneladas do Maranhio, Ca-
rajas alcangari metade dos 4 milh6es de
toneladas de Minas. Mas ha um proble-
ma nesse setor da economic: a producgo
de ferro gusa em Minas Gerais caminha
para a inviabilizagao. As usinas mineiras
ji estao indo buscar carvio em Mato
Grosso, a uma distancia enorme. O cres-
cimento do preqo do min6rio e os fretes
pesam cada vez mais nos custos. As
usinas estgo operando no vermelho. Re-
centemente, ficaram duas semanas sem
operar por falta de carvao.
A crise das guseiras de Minas, corn
capacidade instalada de 4 milh6es de to-
neladas, respondendo por 70% da pro-
duqCo brasileira, ocorre no moment em
que o parque siderirgico do Primeiro
Mundo experiment mudanqas. O tama-
nho dos altos fornos diminuiu. Os mas-
todontes siderdrgicos, que fizeram a gl6-
ria (e tambrm a decadencia) de gigan-
tes como a United States Steel e a Beth-
lehem Steel, foram substituidos por


mini-mills, pequenas usinas integradas,
que reciclam aco ou usam insumo in-
termediario, como a gusa. O consume
desse mercado cresce e os preCos, que
haviam baixado de mais de US$ 150 por
tonelada para quase US$ 90, se recupe-
raram um pouco (estao em torno de US$
110). Com isso, a competicqo vai ficar
mais afiada e quem nao tiver escala fi-
cari ameaqado de ser despejado. Dai a
agitaqao e o nervosismo desencadeados
a partir do moment em que a CVRD,
ji n~o mais uma empresa estatal, anun-
ciou a intenqdo de dar mais um pass
na verticalizacgo do min6rio, passando
a produzir gusa. Passo que vai esmagar
muita gente postada no meio do cami-
nho do trem de Carajas.
O moment pode ser oportuno para
avaliar a entrada da Vale no mercado gu-
seiro, mas tamb6m para refazer calcu-
los mais bern estruturados na conta de
chegada do produto: sera que vale mes-
mo a pena parar na transformaqco do
rico mindrio de Carajds no precioso fer-
ro gusa, enriquecido por carvao vege-
tal, a preqo de banana ruim?






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A natureza da aranha


HA 40 anos o Brasil chegou por terra A
Amaz6nia. De Brasilia, a nova capital fede-
ral, construida por Juscelino Kubitscheck para
ser o arremate da cicl6pica "corrida ao Oes-
te" dos bandeirantes, uma estrada saiu no
rumo norte, chegando a Bel6m, a maior cida-
de da regiao. Outra rodovia seguiu o traqado
das linhas telegraficas implantadas pelo ma-
rechal Rondon para ir bater no extreme oeste
do pais, no Acre. At6 esse moment, toda a
destruiqco da natureza na regiao praticada pelo
ser human era localizada. As feridas abertas
podiam ter alguma profundidade, mas quase
nenhuma extensao.
Era pr6prio do extrativismo, o sistema pro-
dutivo entao dominant, essa caracteristica:
coletar os frutos das Arvores, esperando que a
natureza completasse seu ciclo para usufruir
os seus frutos em forma de mercadoria (quan-
do esses frutos chegassem ao mercado, natu-
ralmente). Poucas atividades exigiam a elimi-
nac~o das pr6prias Arvores, como a extraqao
de balata ou o corte seletivo de madeira.
Destruiqao capaz de ser registrada pelo sen-
sor de uma maquina (e assim ganhar legitimi-
dade no mundo tecnol6gico modemo) s6 pas-
sou a fazer parte dos anais da maior fronteira
de recursos naturais do planet na d6cada de
60. Essa mudanqa resultou da indigesta com-
binaq~o de estradas rasgando florestas de terra
firme (ainda intocadas porque distantes das
tlnicas vias de acesso, os rios) e colonos que s6
conseguiam ter sentido pondo abaixo o mundo
em tomo de si, que Ihes era estranho e que,
por isso, queriam amoldar ao seu universe de
origem, uma paisagem jA sem floresta.
A cr6nica do desmatamento para valer na
Amaz6nia ainda nAo completou, a rigor, qua-
tro d6cadas. Mas ja garantiu para o coloniza-
dor amazonico o titulo de o maior desmata-
dor da hist6ria da humanidade em todos os
tempos. Nesse period, o desmatamento foi
de 500 mil quil6metros quadrados, atingindo
15% da Area da maior regiao do pais, que ocu-
pa dois terqos do territ6rio da quinta maior
naqao do globo. Esse desmatamento equivale
a duas vezes o tamanho de Sao Paulo, o gi-
gante econ6mico e demografico brasileiro.
Os brasileiros parecem anestesiados de-
mais para perceber a gravidade por trAs des-
ses nmmeros, o significado dessa hist6ria l6-
gubre que estao escrevendo, com uma velo-
cidade sem igual na cr6nica das conquistas
de fronteiras na Terra. Talvez imagine, por
mimetismo, que se a Amazonia desflorestada
ja 6 duas vezes maior do que SAo Paulo, isso
significa que pode vir a ter o dobro da
grandeza paulista. A insensibilidade, que
result dessa incapacidade de entender as
caracteristicas fisicas amaz6nicas, diferentes


(e opostas) das de Sao Paulo, resisted ao
tratamento de choque, que tem sido uma
constant na fdria anti-floresta que acompanha
o imigrante.
O primeiro foi em 1976. Dois produtos
da tecnologia humana se chocaram: o mais
sofisticado instrument de informacao, o sa-
t6lite (no caso, o Skylab), registrando a fer-
ramenta mais primitive de intervenqao do
home no reino da natureza, o fogo (em
questao, um fogar6u com quase 10 mil hec-
tares, ateado pela Volkswagen em uma fa-
zenda que possufa no sul do ParA). Era o
maior incendio at6 entao documentado pela
Nasa, a ag&ncia espacial americana.
Enviada ao Brasil, a imagem desse incen-
dio record exigia uma resposta das autorida-
des. A resposta veio atrav6s do primeiro levan-
tamento do desmatamento na Amaz6nia, rea-
lizado pela extinta Sudam (hoje substituida pela
Agencia de Desenvolvimento da Amazonia -
ADA) e o extinto IBDF (em cujo lugar entrou
o Ibama), nesse cemit6rio de siglas que 6 o Bra-
sil. Para tranqiiilizar as consciencias, o inven-
tirio, apoiado em imagens de sat6lite, mostrou
que a alteraq~o da cobertura vegetal original
ainda afetava menos de 1% da Area da regiao.
Tudo continuava por fazer, conforme observa-
ra Euclides da Cunha ao chegar A Amaz6nia,
no inicio do sdculo XX. Mas o que se fez nas
tres d6cadas seguintes tomou-se assustador, fa-
zendo o indice pular de 1% para 15%.
Em 1988 foi outro choque: o Inpe (Insti-
tuto Nacional de Pesquisas Espaciais) anun-
ciou que, no ano anterior, 80 mil quil6metros
quadrados de floresta densa haviam sido pos-
tos abaixo. Incluindo-se as matas secundirias
e as pastagens, o desmatamento (feito quase
integralmente com o uso de fogo) se estende-
ra por 200 mil quil6metros quadrados, o cor-
respondente a mais de dois terqos do territ6-
rio de Sao Paulo em uma tnica safra de verao
amaz6nico. A grandiosidade desses numeros
provoca controv6rsias atd hoje, uns reafirman-
do a confiabilidade da estatistica, outros a
desautorizando. O tema continue em aberto,
embora o debate haja murchado.
Tao chocante quanto a conclusAo do po-
l8mico relat6rio do Inpe 6 a causa principal
desse alucinante incremento na taxa de des-
matamento na Amaz6nia, que se manteve na
faixa de 20 mil km2 ao ano nas iltimas tres
d6cadas: centenas de milhares de Arvores
foram sacrificadas para que os donos de
im6veis rurais se imunizassem contra a
ameaqa de terem suas terras desapropriadas
para a reform agraria, conforme pretendia
uma corrente da Assembl6ia Nacional
Constituinte, empenhada em inserir na
Constituiqao dispositivos mais incisivos


contra o latifiindio. Como desmatamento 6
sin6nimo de benfeitoria rural, floresta veio
abaixo com esse prop6sito: tornar produtivo
o im6vel. Terra com floresta era especulaqao.
Terra nua, produq~o.
Para se ter uma id6ia da dimensao dos fa-
tos, na d6cada de 90 o pique de desmatamen-
to, o de 1995, foi de 29 mil km2. Depois a
curva se tornou descendente. Mas a partir de
1999 voltou a subir. Talvez nunca mais haja a
possibilidade de derrubar 80 mil km2 de flo-
resta num s6 ano, mas nao exatamente por
melhoria da consci8ncia ecol6gica. E mais
provavel que isso decorra simplesmente da
inexistencia de florestas continues (ou de in-
teresse commercial) capazes de permitir uma
razzia nessa escala.
Quando a minha geraq~o ingressou no
mundo ativo, o total do desmatamento ainda
estava bem abaixo do 1% detectado menos
de quatro d6cadas atras. Nasci na beirada de
um dos mais belos e extensos rios do mundo,
o Tapaj6s, 52 anos atras. Eu tinha oito anos
quando ali mesmo, em Santar6m, a segunda
cidade do Pard, o governor brasileiro criou o
Centro de Treinamento da Indistria Madei-
reira, com o auxflio e a orientaqao da FAO, o
6rgao das Nagqes Unidas para agriculture e
alimentos. Era, entao, o dnico estabelecimen-
to no g6nero em toda a zona tropical da Am6-
rica do Sul. O outro ficava em zona tempera-
da, no Chile. Acreditava-se que a madeira
podia ser a redenqAo da Amaz6nia, sem pre-
cisar, para isso, desaparecer.
Desde entao vi com meus olhos desapare-
cer a bela mata alta das margens da Bel6m-
Brasilia. Testemunhei tamb6m o sumiqo da
rica vegetagao sobre a qual se sobrevoava ao
ir para CarajAs atrav6s da lnica via de acesso
A melhor mina de ferro do mundo: o aviao.
De Carajas para o sul do Para, tamb6m acom-
panhei a vegetaqao ir-se rareando, uma espiral
que tomaria todas as direqces a partir do epi-
centro em Maraba, numa diaspora de macha-
dos e motosserras. Estive present A inaugu-
raq~o de Xinguara, a "capital do mogno", 30
anos atras. A capital cresceu, ou inchou. JA o
mogno que Ihe deu causa, sumiu.
Ele ainda existe em grandes concentraq6es
mais para oeste, entire os vales do Xingu e do
Tapaj6s. Mas o que estamos vendo agora, dian-
te dos nossos olhos esbugalhados e indiferente-
mente a propalada evoluqao da consciencia am-
bientalista mundial, 6 essa floresta ser dizimada
com a mesma firia que aniquilou a vegetaqAo
native dos vales do Araguaia e do Tocantins.
Para o sucesso dessa enfurecida emprei-
tada contribui decisivamente a conivencia cri-
minosa de funcionArios pdblicos, policiais,
cartordrios e magistrados, a sagacidade de ad-






JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO 5


vogados inescrupulosos e uma letargia geral
que impede a formaqco daquilo que nos in-
c6ndios 6 o recurso extreme -e eficaz: o fogo
contrario de defesa contra o fogo destruidor.
Ou seja: a aqao conjunta, coesa e inteligente
do poder pdblico, em todas as suas esferas e
em todas as suas jurisdiq6es. Os poucos que
ainda cumprem seu dever e fazem esforqos
na luta contra grileiros, madeireiros, especu-


ladores e compradores, parceiros na political
da terra arrasada, estao s6s. S6s, pouco fardo.
Sera que estamos condenados a ser im-
potentes companheiros de viagem da maior
destruigqo de florestas, justamente daquele
component vital da paisagem amaz6nica,
e do pr6prio ethos amaz6nico, que serve de
aval para um future melhor da regido e nao
ao mesmo destino colonial imposto a afri-


canos e asidticos? Estamos condenados,
como a aranha venenosa da lenda, que pica
o animal que Ihe cedeu seu dorso para trans-
porta-la para o outro lado do rio, a sermos
vitimas de uma natureza autodestrutiva,
naufragando depois da picada mortifera
dada naquele que nos garantia a sobreviven-
cia? Da resposta talvez se obtenha a moral
adequada para essa hist6ria tdo pouco inte-


ligente que 6 a "conquista da Amazonia",
na qual ,que se consegue 6 a destruiqCo.

0 bispo de Santarem


James M. Ryan possufa tr8s marcas exter-
nas caracteristicas. Uma delas era o otimismo.
Sempre recebia algudm com um grito de guer-
ra: "nloooo diiiiga!". Ao que se seguia sua se-
gunda marca: um tapa nas costas, capaz de des-
montar o desavisado, seguido de um afetuoso
abraqo, que causaria inveja a um grande urso do
seu pais de origem, os Estados Unidos. A terceira
caracteristica, de acesso apenas aos que
conversavam por mais tempo cor ele, eram
seguidas xicaras de caf6 preto, imensas, cheias
at6 a borda. Numa conversa de duas horas, con-
tei cinco ou seis delas. nao lembro mais ao cer-
to. Mas era cafeina para manter ativa qualquer
preguiqa. Imagine um home forte, com mais
de 1,80 metro.


Sempre safa dos encontros achando que
d. Thiago Ryan, o nome religioso do bispo
de Santar6m ao long de 27 anos, exagerava
na dose, que talvez Ihe viesse a causar pro-
blemas mais cedo do que pensava. Felizmen-
te eu estava errado: o caf6 revigorava as ener-
gias de um home de linha de frente, ativo e
batalhador, mas que conseguia se concentrar
ao ouvir hist6rias e confidencias de quem o
procurava como conselheiro ou amigo. E de
guardar total segredo, mesmo que o interlo-
cutor nao tivesse recorrido ao sigilo da con-
fissao, dogmaticamente falando.
O querido amigo dom Thiago esta para
completar 90 anos, de volta a terra na qual
nasceu, distant da terra que adotou como
sua e a qual dedicou a maior e melhor parte


Trinta anos La em


O restaurant L4 em Casa complete neste mes 30 anos de funciona-
mento ininterrupto. Entre n6s, onde a regra 6 a do abre-e-fecha, 6 uma
longevidade que merece comemoraqdo. O restaurant de Ana Maria &
Paulo Martins conseguiu se tornar o lnico do Pard a conquistar conceito
national e intemacional, nao perdendo essa posiqAo depois de tr8s d6-
cadas de existencia. Grande parte do sucesso da casa 6 conquistado
antes que o garqom cruze a porta da cozinha para fazer o pedido do
client: comeqa na simpatia, na alegria e nas gentilezas de Ana Maria.
Foi ela tamb6m, com seu instinto agudo e a experiencia de quituteira,
que deu a marca do estabelecimento e sua formula de sucesso: informalida-
de no salao combinada com qualidade na cozinha. Durante grande parte da
trajet6ria do LA em Casa, que se expandiu pelo O Outro, o segredo do
restaurant foi esse. Continue a ser esse. Mas o filho de Ana Maria, transfe-
rindo criatividade da arquitetura para a culinaria, projetou, aperfeicoou e
sofisticou esse trunfo, ultrapassando os limits do restaurant da familiar.
Seguramente Paulo Martins 6 o maior e, sob certos aspects, com
todo rigor, o primeiro chef de restaurant commercial do Para, o nome
maior da culinaria paraense (e, sem extrapolar na ousadia, amaz6nica).
Primeiro Paulo catalogou na mem6ria a rica matdria prima que estava
ao seu alcance, entire pratos acabados, components isolados, elements
informes ou in6ditos e frutos da regilo. Depois, foi experimentando
combinaq6es, com seu paladar apurado, e ousando nas iniciativas, com
seu experimentalismo decidido. Desprezou regras sagradas e buscou
inspiraqio na audacia das melhores cozinhas do mundo.
O resultado pode ser conferido no belo cardApio criado para o
L6 em Casa da Estaqao das Docas, cor suas fuses de gostos pi-
cantes e neutros, sabores ex6tices e standards, arranjos heterodo-
xos e, em certos exemplos, verdadeiros pecados, inclusive por fo-
mentar a gula de gourmets ou simples gluties.


da sua longa vida. As informaq6es ddo conta
de que sofre de doenqa incuravel. Nao
haveria muito que fazer. Ha, entretanto, o
que pedir. Gostaria que o bispo honorario
de Santar6m pudesse comemorar seus 90
anos, que pudesse passar sem dor os dias
que lhe restam, que a vida ainda Ihe pudes-
se oferecer alguma forma de alegria e que
ele tivesse forqas para voltar a ver com seus
pr6prios olhos a terra que tanto amou, nela
deixando seu corpo, conforme desejo ex-
pressamente manifestado, continuando a
fertilizer, depois da morte, cor a mesma in-
tensidade da sua generosa e fecunda ativi-
dade de pastor de almas.
Com o que estarfamos preparados para v&-
lo partir e ele, para prosseguir sua eldtrica se-
meadura em outra diocese, mais longinqua
que suas Chicago e Santar6m.

Casa


Outro dia Paulo Martins deu uma longa e pol8mica entrevista ao
semanario O Paraense. Ndo concordei com algumas das coisas que
disse, mas estou plenamente convencido de que ele 6 uma das pessoas
com maior autoridade para falar sobre alguns dos apimentados temas
que abordou. Embora n6s, seus amigos, tenhamos uma certa tendencia
a levar na valsa suas opini6es, 6 inquestionavel que Paulo Martins,
com seus pratos inspirados, que estabeleceram uma ponte refinada
entire a culindria (existente e por inventar) paraense, a mais
representative da Amazonia, e o sabor universal, tem promovido mais
em favor do nosso turismo do que todos os que se apresentam como
autoridades no setor, por poder de mando ou de canudo.
Fui, durante alguns anos, seu privilegiado companheiro de mesa
nos pantagrudlicos almoqos de sibado. Como consciente cobaia, li
estava eu a espera da gurijuba moqueada ou das ovas de tainha, co-
zidas ou fritas, entire numerosos pratos que saiam da sua apurada
intuigio de cozinheiro e do seu conhecimento testado de mestre em
qufmica e arquitetura da comida, a espera do pronunciamento, fre-
qiientemente irreverente, dos seus convivas (com ou sem vivas, ali-
as).
Os festivals de sabado acabaram, como acabam todas as coisas
humans para que outras coisas humans possam comegar. Come-
qou entao a peregrinaqao de Paulo Martins pelo pais, levando seu
bad de preciosidades culindrias, esticando a faixa cativa da nouve-
lie cuisine paraense antes que cozinha existisse, estabelecendo uma
nova periodizaqio gastron6mica (AP e DP: antes e depois de Pau-
lo), e enchendo de orgulho e inveja a n6s todos, seus amigos impi-
edosos e admiradores inveterados, que nao conseguimos ir al6m da
espera ansiosa pelo pr6ximo prato.
A prop6sito, Paulo Martins: qual sera o prato dos 30 anos do
nosso LA em Casa?





6 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE JUNHO/2002


... *.. N-/ MEMORIA DO COTIDIANO
", ,' -', -- -


Arig6s
Poucos anos antes eles haviam
passado em gl6ria por Beldm.
Eram os "soldados da borra-
cha", trabalhadores atraidos do
Nordeste para voltar a produ-
zir borracha nos abandonados
seringais dos altos rios da
Amaz6nia, como se estives-
sem no pr6prio "front". Eram
indispensiveis para o forneci-
mento dessa matdria prima es-
trat6gica para o esforgo de
guerra dos pauses aliados, que
tiveram bloqueadas suas fontes
de acesso, no Oriente. Mas em
agosto de 1946, quando esta-
vam de volta a Bel6m, a situa-
q~o mudara dramaticamente.
Pilidos, rostos macilentos,
enfraquecidos, 16 imigrantes
nordestinos registraram queixa
na Central de Policia contra os
maus tratos que estariam sofren-
do na Hospedaria do Tapana. O
director do tristemente famoso
local, mantido pela CAETA, res-
ponsivel pelo recrutamento de
mdo-de-obra para trabalhar nos
seringais, condicionou o forne-
cimento de alimentaqco A pres-
tagAo de algum tipo de serviqo.
S6 quem trabalhasse poderia co-
mer.
O problema 6 que os ho-
mens, depois de produzir bor-
racha nos seringais em
condig6es massacrantes, se
encontravam muito debilitados.
Eles informaram que haviam
chegado a Manaus juntamente
com outros 170 nordestinos, que
tamb6m escaparam do grilhdo
da selva. Terminado o conflito,
foram abandonados a pr6pria
sorte e com muito custo
conseguiram alcanqar a capital
amazonense, de onde prossegui-
ram viagem, no navio Cambrid-
ge, para Beldm. Queriam ajuda
para retornar aos seus pontos de
origem, no Nordeste. Foram
convocados como "soldados da
borracha". Mas a populaqao da
regiao os tratava
pejorativamente de "arig6s".
O delegado Joao Fernandes,
de plantao, mandou registrar a
queixa. Funcionirios da Cen-
tral se cotizaram e deram 24
cruzeiros aos nordestinos para
que eles pudessem voltar a


Hospedaria. Voltar A terra natal
ainda era um sonho.

Present
President do Banco de Crd&ito da
Amaz6nia (o atual Basa, que estA
fazendo aniversirio), Gabriel Her-
mes Filho recebeu um present es-
pecial no natal de 1953: um serin-
galista do Alto Xingu mandou gra-
var, em duas lIminas delgadas e
transparentes de borracha fina, um
artigo do future senador publicado
na Folha do Norte, "Belem e Moe-
ma", acompanhado do respective
cliche (a fotografia em chapa para
impressao tipogrAfica), al6m do te-
legrama de um banquet oferecido
a Gabriel no Rio de Janeiro, entao
capital federal, com a devida ilus-
traqio, conforme reproduzido no
mesmo journal.
O autor do present fez question
de ressaltar que nao pretendia favo-


res do banco e nunca os pleiteara. A
dadiva representava "a admiraao e
o reconhecimento dos serviqos pres-
tados pelo grande estabelecimento
de cr6dito A Amaz6nia".

Rocque
Felix Rocque morreu em 1959,
uma semana antes de completar 50
anos, de um ataque cardiac, ampa-
rado por sua filha Elizabeth. Era pa-
raense de ascend6ncia libanesa. Fi-
cou famoso ao empresariar espetA-
culos de variedades durante os 15
dias da Festa de Nazard, que se
seguia ao Cfrio e chegava ao fim
com o Recirio. Podia ser conhecido
como o Carlos Machado paraense.
Seu filho mais ilustre (e o segundo
de cinco filhos, em dois casamentos)
foi ojornalista e escritor Carlos Ro-
cque, que tambdm morreu precoce-
mente, pelo mesmo motivo. E se
ligou ao Cirio idealizando e reali-
zando a primeira procissao fluvial,


na v6spera da bi-secular peregrina-
qao dos romeiros pelas ruas de
Beldm.

Contrabando
O coronel Lino Teixeira, sub-che-
fe da Casa Militar da Presidencia
da Repdblica no governor Jusceli-
no Kubitscheck, mandou em 1959
um assistente em missdo sigilosa
ao Para. Queria que ele produzis-
se um detalhado relat6rio sobre a
mais famosa atividade no Estado:
o contrabando, responsAvel por
uma imensa evasao fiscal, tornan-
do quase insignificant a arreca-
daco federal de tributes. Mal p6s
os olhos na cidade, o emissArio se
declarou estarrecido. O que, evi-
dentemente, nao foi o bastante
para inibir o contrabando no Esta-
do. Talvez ate muito pelo contra-
rio.

Governo
Em agosto de 1959 o Tribunal de
Contas do Estado recebeu a decla-
rado de bens do govemador Mou-
ra Carvalho e dos integrantes de sua
administraqao, os secrettrios Amal-
do Morais, da Seguranqa Piblica;
Pedro Moura Palha, do Interior e
Justiqa; Rodolfo Chermont, de Fi-
nanqas; Benedito Carvalho, de Go-
verno; e Clio Danin Marques, di-
retor do Departamento de Despesa
da Secretaria de Finanqas.

Direito
Evandro Diniz Soares, da 4" s6rie,
e Francisco Mildo, da 5' s6rie, fo-
ram os estudantes escolhidos para
falar durante a traditional Festa da
Chave, do curso de Direito da
Universidade Federal do Para. Na
versao de 1959, ela se realizaria
nos sales do Palace Teatro (ji
demolido, nos funds do Grande
Hotel). Seu ponto alto era quando
um aluno da 4" s6rie passava para
um concluinte a chave com a qual
ele podia abrir a parte final do cur-
so juridico. Os ingressos estavam
sendo vendidos por Djalma Cha-
ves, Edson Franco, Francisco Gu-
zzo e outros alunos da 5" serie.

Rua
Em 1960 o muito popular verea-
dor Raimundo Noleto e o prefeito
Lopo de Castro foram A luta. O
motivo: o edil mignon (algo como


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No canto
desfigurado CASA (ORCOVADO
Quase meio s6cu-
lo atrds, esta foto
mostrava como
era sofisticado, em
1954, o canto da
avenida Portugal
com a rua Jodo Al-
fredo, no coraioo
do comrrcio mais
traditional da ca-
pital paraense. Ali Arthnr Co sta Cla. Ltda,
Adrthur Conoste da a. Ltdar
pontificava a Casa noInums u na an co*M ov
Corcovado, um tf- l "S b. ,oo "o-"-...
IM*NOS IOM"O"" ft NOI
pico estabeleci- U..,4. Pa,""I ,O ,
mento commercial Z" *==.
sofisticadopr6-su- -- '
permercados, de
Arthur Costa & Cia. Ltda. Clientes permanentes podiam ali adquirir
castanhas, queijos, figos "rexiados", tAmaras, passes, nozes, amen-
doas, bombons, champanhes e vinhos finos. Ou seja: artigos impor-
tados, verdadeiras especiarias no mercado paraense.
A Casa Corcovado foi substituida pela Livraria Conte, que ain-
da manteve os traqos refinados do pr6dio, mas depois "moderi-
zou-o". E agora, para powder executar mais uma etapa da reformm"
do Ver-o-Peso, a Prefeitura fincou no passeio da avenida barracas
de madeira, que lembram, assustando, as construq6es precirias que
ali vendiam fogos durante a quadrajunina. Garante a PMB que vai
ser uma acomodagqo temporiria (e preciria) de feirantes, at6 que
eles possam voltar ao seu ninho original, se efetivamente voltarem
e se os danos, previsiveis, nio forem irremedidiveis.
Ah, Bel6m!







JOURNAL PESSOAL 2- QUINZENA DE JUNHO 7


metro e meio de altura) espalha-
va pelos maltratados subtrbios de
Bel6m um grupo de capinadores
e limpadores de ruas, fazendo um
trabalho considerado impr6prio
pela administraq~o municipal,
com objetivo classificado de elei-
toreiro. Para evitar esse trabalho,
o prefeito mandava, para o mes-
mo lugar visado pelo vereador,
servidores municipals com a mis-
sdo de capinar e limpar valas.
Noleto entdo desistia, mas s6 da-
quele local. Remanejava sua blitz
para outra rua, para irritagqo do
prefeito, que ainda expunha ou-
tro argument: os peoes de Nole-
to eram presididrios, atraidos para
o serviqo pela promessa de remu-
neraq~o, que nao era cumprida.
Bern Bel6m.

Indtistria

Em 31 de janeiro de 1964 foi
inaugurado, em Bel6m, o I Salao
Industrial da Amaz6nia. Entre as
empresas que montaram seus
stands para o event estavam Ce-
ramica Maraj6, Olpasa, Colchao
de Molas Imperador, Renda Pri-
ori, Cimaq, Agua Mineral Nossa
Senhora de Nazar6, Fdbrica Sdo
Vicente, Empresa Soares, Con-


fecq6es Destex, Perfumarias Phe-
bo, Jos6 Soares e Paraense Trans-
portes Adreos. Todas ji desapa-
recidas. O que ajuda a explicar
nao ter havido um segundo salao.

Burocracia
Em 1966 a Assistencia Judicid-
ria do Estado, entao dirigida por


PERGUNTA/RESPOSTA


Pergunta de Jose Ribamar Soares Jdnior,
durante debate realizado em Marabi:
Sou ticnico em mineraCdo (cor 10 anos de
experiencia) e noto que a maioria dos tecnicos da
Companhia Vale do Rio Doce ndo sdo da regido,
sendo que na regido existe escola
profissionalizante. Quais os criterios ticnicos que
a CVRD usa para contrataqdo de mdo-de-obra
especializada?
* A Vale podia realizar um encontro em Marabd e
outro em Bel6m para dar sua resposta a essa per-
gunta, que ter procedencia. HA dois centros de for-
ma~go de mao-de-obra para os serviqos da empre-
sa. Um, de nivel superior, pela Universidade Fede-
ral do Para, atraves dos cursos de geociencias, de
engenharia e de quimica, principalmente. Outro, de
nivel profissionalizante, pela antiga Escola T6cnica
Federal do Pard, hoje Cefet. Estard o curriculo ajus-
tado hs demands da empresa? A CVRD, por sua
vez, participa adequadamente desse necessirio es-
forgo de adequaqco?
Hd uma outra questao: a qualifica~qo desses fu-
turos profissionais para desempenhar na empresa e
em seus empreendimentos mais do que uma sim-


Ophir Cavalcante, deixou sua an-
tiga sede, na sala de casamentos
do f6rum de Bel6m (por sua vez
funcionando onde era e perma-
nece sendo a sede da prefeitu-
ra), e se instalou na ala t6rrea do
Paldcio Lauro Sodr6, onde esta-
va todo o govero estadual (e hoje
resta o Museu do Estado), no lu-


i


ples funqao t6cnica, de execuq~o. O ideal seria que
tivessem um papel mais criativo e de mao dupla:
resolvendo os problems da empresa e cumprindo
suas rotinas, mas tamb6m sendo veiculo dos inte-
resses da sociedade. Capazes, por isso, de ter uma
atuaqco critical, dando retomo ao investimento pud-
blico aplicado na sua formaqao academica.
No encontro em Marabd voltei a uma velha su-
gestao para a instalaq~ o de uma Escola de Minas na
cidade, que 6 o principal nicleo urban na area de
influEncia da mais expressive provincia mineral do
planet. Ela nao apenas poderia criar as condiqbes
para se responder satisfatoriamente A dtivida de Ri-
bamar, como contribuir para former no Pard a cul-
tura da mineraqgo, sem a qual o Estado nao terd cons-
ci8ncia de sua condiqFo, detentor de um rico patri-
m6nio de bens no seu subsolo.
Essa escola tamb6m permitird aprofundar cada
segment de formaqao de mao-de-obra especializada
para as virias demands do setor mineral no Pard.
Quem sabe nao se consiga at6 abrir os olhos do go-
vemo para a fragilidade da sua estrutura institucio-
nal diante da grandeza dos desafios que a minera-
qao Ihe imp6e e ele teima em ignorar.


gar atW entao ocupado pelo Co-
mando Geral da Policia Militar.
Dividiria o espago com a Repar-
tiqgo Criminal, A frente da qual
se encontrava o juiz Adalberto
Chaves.
Claro que, de 16 para ci, a bu-
rocracia official tinha que crescer,
nao mais podendo se acomodar
nos diminutos espaqos de quatro
d6cadas atris. Mas quem for ana-
lisar sua evoluq o talvez chegue
A concluslo de que o tal do "apa-
relho de Estado" sofreu incre-
mento muito maior do que a po-
pulaqio, a atividade produtiva e
outros terms referenciais. Ficou
muito mais pesado para o cida-
duo.

Bancada

Na legislature iniciada em 1954,
o Para teve direito a uma banca-
da de nove deputados federais. O
Amazonas tinha 7, o Acre, 2, e
os territ6rios federais (Amapi,
Guapor6 e Rio Branco), um cada.
Cabia assim r Amaz6nia ClAssi-
ca 21 das 364 cadeiras na Cama-
ra dos Deputados. Considerada a
Amaz6nia Legal (incorporando
ainda Mato Grosso, Goids e Ma-
ranhao), o total subia para 46 lu-
gares, quase 15% do parlamento.
A bancada paulista tinha quase
esse tamanho: 44 deputados. Mi-
nas Gerais vinha depois, com 39
deputados.

Com a fixaqgo de oito depu-
tados como a cota minima por Es-
tado, a bancada amaz6nica cres-
ceu desde entao. Mas a regiao
pouco se ter beneficiado desse
crescimento.


RETRATO .....

Passarinho premiado
O "major J. Passarinho, ilustre
home de letras e sociedade de nos-
sa terra", conform garantia a legen-
da da foto, foi o vencedor de um sor-
teio, organizado pela Importadora
Braga (empresa ji extinta), de uma
passage de ida e volta ao Chile,
para assistir A Copa do Mundo de
1962, da qual o Brasil sairia como
bicampelo mundial de futebol. O
sorteio foi realizado nos estidios da
TV Marajoara. O taldo premiado ti-
nha o ndmero 6331. A fotografia do-
cumenta o moment em que o future govemador, Quartel General do Comando Militar da Amaz6-
ministro e senador apresentava o taldo ao director da nia e 8" Regido Militar, em Bel6m. Exatamente 40
firma, Carlos Braga, cinco meses antes de a Copa anos antes da atual Copa, a primeira realizada si-
comeqar. Jarbas Passarinho trabalhava na 6poca no multaneamente em dois pauses, Cordia e Japao.


Gente para as minas
Criei na finada Agenda Amaz6nica uma secdo para responder a perguntas que me sdo feitas nos
debates de que participo e que costumam ficar de fora da programaqdo, em geral pelo esgotamento do
hordrio. Volto a essa seclo, embora deforma mais sintetica, para tender ai demand da opinido publica.







Novidade
A barranca era ingreme, cor es-
cadaria entalhada rusticamente na
terra. Mas o cinegrafista decidiu
encard-la, sob o peso dos 15 qui-
los da sua Auricon sonora, para
chegar A casa de uma famflia de
indios Gaviao da Montanha. No
limiar do topo, o indio apareceu,
cor o arco armado. Assustado, o
cinegrafista perdeu o equilfbrio e
s6 nao levou um tombo grave por-
que foi seguro por um colega. A
miquina, por6m, se danificou.
Quem vinha atrds, mais esperto,
logo conseguiu concatenar uma
conversa e ser aceito sem inciden-
tes. A cara feia era para efeito
externo. O indio precisava estar
brabo, conforme esperavam que
estivesse.
O incident foi em 1974, na
primeira visit ao local onde se-
ria construida a hidreldtrica de
Tucuruf, no rio Tocantins. Os
Gavi6es da Montanha acabaram
tendo que deixar suas terras, ocu-
padas pela Eletronorte. Foram
colocados A forqa numa vala co-
mum corn outros grupos Gaviao
na reserve Mde Maria, a uma certa
distancia dali. Seus primos, 6
verdade, mas tamb6m inimigos.
Agora sero poupados do
constrangimento. 0 Tribunal Re-
gional Federal da 1a Regilo, em
Brasilia, reconheceu o direito
desse grupo de receber terras
com as mesmas condiq6es eco-
16gicas e extensao daquelas que
perdeu cor as obras de Tucuruf.
Acolhendo pedido da tribo, o
TRF mandou a Eletronorte com-
prar essa area e entregi-la aos
Gavi6es. Final feliz?
Certamente. Os Gavi6es da
Montanha (para distingui-los
dos GaviOes de Oeste ou dos
Gavibes do Maranho) foram
ultrajados e tiveram direitos le-
gitimos violados.
Talvez nao tanto quanto os
PanarA, de Mato Grosso, que
tamb6m conquistaram reconhe-
cimento judicial As suas preten-
s6es territoriais. Eles ficaram
mundialmente conhecidos como
os "indios gigantes", contatados
pelos irmaos Vilas Boas As
margens do rio Peixoto de
Azevedo, em 1972. Deram-lhes
o nome de Kreenakarore, que
vigorou por muitos anos, at6


Fot6g rafa


Aos 70 anos, a fot6grafa sufqa Claudia Andujar continue
causando a mesma impressao forte de mais de tres d6cadas
atris: bonita, incrivelmente jovem, cheia de energia e dedicada
a boas causes. Uma foto, infelizmente em tamanho reduzido,
ilustrou mat6ria no Jornal do Brasil a prop6sito do seu
precioso acervo de fotografias dos indios Yanomami, talvez a
mais rica colegqo ji produzida sobre uma tribo brasileira (e,
como sempre nesses casos, com sua perenidade ameaqada).
Acho que o primeiro ou pelo menos definitive -
contato de Cldudia com a Amaz6nia foi em funqCo da
ediqao especial da ji extinta revista Realidade (da Editora
Abril) dedicada A regiao. Entre outros m6ritos, a ediqao,
comandada por Raimundo Rodrigues Pereira, 6 a que mais
belas fotos reuniu em toda a hist6ria da imprensa brasileira.
La estdo trabalhos antol6gicos de Maureen Bisilliat, Jean
Solari, Amincio Chiodi, Luigi Mampin e George Love
(entao marido de Cldudia), aldm do ensaio verdadeiramente
etnogrdfico em s6pia de Andujar.
Desde entao, ela ter voltado aos Yanomami, nao s6 para
aprimorar o registro iconogrdfico maravilhoso, mas tamb6m
para viver entire eles e participar da luta que travaram, junto
cor aliados preciosos como ela, para demarcar sua reserve,
entire Roraima e o Amazonas. Essa luta foi ganha. Mas a
batalha continue. Da alegria ver que Claudia continue firme,
decidida e olimpica nessa frente, sem que o domicflio
paulistano seja empecilho a essa generosa solidariedade
amaz6nica. Vida longa para "La Andujar".


recentemente. Mas Kreenakaro-
re era como desdenhosamente a
eles se referiam seus mortals
inimigos dtnicos. Eram ofendi-
dos e tinham que reagir corn
risos. Agora voltaram a ser
Panard, seu nome verdadeiro. Na
terra que Ihes cabe.
De vez em quando 6 bom
ver indio ganhar.

Perdio
A precipitacao do fechamento por
causa do feriado de meio de se-
mana de Corpus Christi e o ata-
que de virus acarretaram virios
pequenos mas muito chatos -
problemas na ediqao passada. Es-
pero que o leitor releve a interfe-
r8ncia dessas gralhas eletr6nicas
e de um certo aqodamento para
colocar o journal nas bancas antes
de terminar a semana que o feria-
do enforcou.

Vale
Em marco de 1995, quando foi
anunciado que o BNDES contra-
taria uma consultora privada para
definir o melhor modelo de ven-


da da Companhia Vale do Rio
Doce, ojornal O Globo registrou
que "o mercado" ja especulava
"que o preqo da companhia gire
entire US$ 10 bilh6es e US$ 16
bilh6es" (edicqo de 9 de marco
de 1995). O preqo de venda, em
abril de 1997, acabou sendo de
3,2 bilh6es de reais (ou US$ 1,3
bilhio), do tamanho do lucro que
a empresa teve somente no ano
passado (que marcou seu quinto
ano como empresa privada).
Essa diferenqa talvbz ajude a
entender como o Bradesco, con-
tratado para participar da defini-
qIo da forma de venda, seja hoje
um dos donos da CVRD e seu
principal operator, embora as
normas proibissem o modelador
do leillo de ser seu beneficidrio.
E muitas outras coisas mais, de
espertezas a propinas.
Um dia, talvez. essa caixa pre-
ta ainda serd aberta.

Qualidade
Suely Silva escreveu uma carta
ao journal O Liberal, publicada na
edicqo do dia 7, fazendo duas


reclamaq6es: uma conta de agua
inflacionada e a displicencia de
uma funciondria, que recebeu
sua ligaqco e nao desligou direito
o telefone, prendendo a linha du-
rante cinco horas. Mesmo que a
leitora tivesse toda a razao, era
de estranhar, nao a conta em si,
mas a retenq~o da linha. Como
foi ela quem fez a chamada, o
normal seria que, ao desligar,
mesmo que a interlocutora con-
tinuasse do outro lado, a ligacqo
fosse desfeita.
Mas nao 6 isso que vem ao
caso. E que nessa mesma ediqgo
do dia 7 a carta de Suely tam-
b6m foi aproveitada na nota de
abertura do Rep6rter 70, que ji
foi a coluna de prestigio do
journal. Mas que hoje esti mais
para secos & molhados. Uma
autentica bacia das almas.
S6 a coluna?

Buraco
Devo acreditar que a Prefeitura
de Belnm finalmente desistiu do
projeto de construir um teatro na
parte de cima e um estaciona-
mento na parte de baixo do Bu-
raco da Palmeira? 0 mercado
reagiu com bocejos A abertura de
propostas para esse projeto. Se
tal 6 vero, mesmo que non tro-
ppo, que tal a PMB encarar a pro-
posta de usar a parte superior
como praca (com parlat6rio,
ponto para a comercializacao de
livros, revistas, discos e outros
objetos culturais, bancos e me-
sas de pedra, num ambiente gra-
deado) e transformar a parte in-
ferior em duas quadras poliva-
lentes ou quem sabe numa
pista de patinaqdo, parajovens e
crianqas dos bairros centrais da
cidade, ha muitas d6cadas sim-
plesmente esquecidos pela admi-
nistraq~o municipal?
A praqa abriria um espaqo
de ventilaq o e um horizonte de
ligaqao entire duas igrejas mal-
tratadas (a de Santana e a do
Rosario). As quadras absorve-
riam as energies de gentejovem
que nao tem lazer onde mora.
Acho que seria absolute novi-
dade no centro hist6rico de Be-
16m, o que poderia resultar na-
quele tipo de voto que dd mais
prestigio e custa menos: o voto'
consciente, derivado da alegria
e do reconhecimento.


Jomal Pessoal
Edar. I FlAlo PIn. Fn: | 00i1) 241-7g26 Conl. Tv.Bn|um ConinI a45a203 4l e l onumllnuanom.br PndugK Aigomn Pinto Edgl Aret .LuhtWodenrhlo