<%BANNER%>
PRIVATE ITEM
Digitization of this item is currently in progress.
Jornal pessoal
ALL VOLUMES CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00235
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00235

Full Text



01713 PeSSOa
L U C O F L A V I O P N T O
ANO XV NP 286 la QUINZENA DE JULNHqDE :q200 R$ 2,00

POIATICA r,,i 7'1rI


Para onde vai


Jader Barbalho?I


O ex-senador deu todos os sinais de que em outubro disputard de novo o governo do
Estado. M~as nd~o disse explicitamente isso. Embora ainda seja o lizder nas pesquisas
para a sucessdo de Almir Gabriel, desta vez ele sabe que suas possibilidades de
vito'ria se equiparam iis de vito'ria. Ou sa~o menores.


na segunda-feira (27) pela lifE -S
N~~o pronunciamento que fez
televisio, aproveitando
hor~rio reservado pelo TRE
N~aos partidos politicos, s6
faltou ao ex-senador Jader Barbalho anun-
ciar que sera candidate ao governor do
Estado em outubro. Todos os recados que
podia dar nessa dire~go, ele os deu, sem
deixar dtivida de que visa um cargo ma- ,/\
jorit~rio, nunca um mandate proporcio- 93 -ii P I a rU
nal, como o de deputado. O intrigante 6 i a~~i.e C~ d d
justamente o detalhe que ficou faltando-
para completar a orag~o: por que nio foi
explicit? Por que nao assumiu definiti-
vamente sua quarta candidatura B chefia 7 -
do executive estadual paraense? rx
A situaqio do ex-presidente do Sena-
do 6 caprichos: ele tem a fac na mao,
mas lhe falta o queijo. Dos seus movimen- p
tos depend a definigio na ponderaqio das
forgas envolvidas na dispute eleitoral, mas ri
seu pr6prio destiny envolve uma taxa de ,
incerteza que extrapola sua capacidade de
decisio. Daf sua inten~go de estender o 'l/,u~
memento de falar claro atC o final do pra-
zo que a lei lhe permit, quando puder,
esgotar todas as hip6teses. I ,.
Se Jader nio for candidate ao gover-
no, o caminho ficar8 mais ficil para o
postulante dos tucanos, o ex-secretirio
Simlio Jatene, se habilitar para ser um **\,






2 JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE JUNHO/2002


dos dois escolhidos no primeiro turno e
chegar a etapa seguinte talvez na condi-
glio de favorite. O outro provivel com-
petidor, nesse caso, seria o atual senador
do PSB, Ademir Andrade. S6 uma feno-
menal zebra colocaria no pireo a prov8-
vel candidate do PT, a deputada estadual
Maria do Carmo, que comegar51 bem atra-
sada e com pouca forga. Jg o vice-gover-
nador Hildegardo Nunes parece ter to-
pado com uma pedra no meio do cami-
nho, atravancando-lhe o avango. Parou
no meio da estrada.
Se nito for candidate ao governor,
com quem Jader Barbalho coligar8?
Formalmente ele s6 pode se aliar ao
governador Almir Gabriel, ji que a ali-
anga national entire o PSDB c o PMDB
impae coligaqaes de cima para baixo,
engessando os dois partidos. Tanto o
governador quanto o ex-senador tim se
manifestado publicamente contra um
acordo desse tipo, mas intermedidrios
de ambos ji se encontraram e examina-
ram as possibilidades de um acerto, tan-
to em Beldm quanto em Brasilia.
Jader estaria disposto a apoiar a can-
didatura de Simlio Jatene, desde que ti-
vesse direito a indicar o vice na chapa,
que seria sua ex-mulher, adeputada fede-
ral Elcione Barbalho, al~m de contar com
o calor da miquina para a sua candidatu-
ra. Com alguma relutincia, esse prego
poderia vir a ser aceito pelo PSDB. Mas
uma fonte peemedebista diz que Jader
estaria disposto a pleitear todas as duas
vagas do Senado, condiglio que os tuca-
nos refugariam por causa do compromis-
so assumido com o deputado federal Ger-
son Peres, aliado do PPB, que gostaria de
encerrar a carreira com um mandate se-
natorial de oito anos. Numa hip6tese (con-
siderada remota) de acerto, por~m, hB uma
vaga em tribunal de contas para servir de
compensaglio para Gerson.
Apenas umas poucas fontes admitem
que um acordo Almir-Jader estil depen-
dendo apenas do prego que o lider do
PMDB est8 cobrando para niio atrapa-
that a vida do favorite do governador.
Mas outras fontes juram que a coligagio
6 impensivel, enfileirando diversos fa-
tos e indicios de uma tensito cada vez
maior entire os dois lads. No seu pro-
grama de television mesmo, Jader bateu
forte na atual administration, criticando
as festejadas realizaCqles da administra-
glio Almir Gabriel e destacando suas pr6-
prias realizaqdes em dois mandates no
cargo. Voltou a um tema recorrente na


campanha anterior, que tanto irritou Al-
mir: a venda da Celpa e obscuridades no
uso dos 450 milhaes apurados na priva-
tizaglio da estatal de energia.
Segundo o raciocinio dos que nio
criem em acordo, os dois lideres jB le-
varam muito adiante o jogo das retalia-
95es para poder apostar uma nova joga-
da agora, aproveitando-se da desmem6-
ria da populagilo. Reconhecem, contu-
do, que a repetiglio no ParB da coliga-
gli national PSDB-PMDB, que formou
a chapa Jos6 Serra-Rita Camata, seria o
melhor arranjo para as duas parties. Ain-
da mais por nlo exigir que os politicos
definitivamente incompatibilizados su-
bam juntos no mesmo palanque. Para
favorecer Jatene, bastaria que Jader sa-
isse do p~reo para o governor. Do outro
lado, do governador seria exigido tiio-
somente colocar parte da miquina ofi-
cial a servig~o da tentative de retorno de
Jader ao Senado, sem precisar entrar em
sua campanha.
Mas se nito houver no Estado a ali-
anga entire tucanos e peemedebistas, am-
bos s6 podertio se coligar a partidos que
niio apresentarem candidates a presidan-
cia da Repdiblica. Isto significa que, ofi-
cialmente, Jader Barbalho nito poderi
apoiar as candidaturas de Ademir An-
drade (porque o ex-governador do Rio
de Janeiro, Anthony Garotinho, 6 can-
didato presidential do PSB) e Hildegar-
do Nunes, do PTB (partido que ainda
apoia Ciro Gomes). Mas tanto Ademir
quanto Hildegardo esperam que, infor-
malmente, o ex-senador imponha seus
nomes a preciosa estrutura political com
que o PMDB ainda conta no interior
paraense (e o grande tempo que lhe cabe
no horitio eleitoral gratuito em radios
e televisess. Se nio for governador, por
quem Jader ir8 optar?
Aparentemente, as melhores possibi-
lidades sito de Ademir Andrade. Na 6lti-
ma pesquisa do Ibope, niio registrada no
TRE e por isso nbt divulgada pelos tuca-
nos (por imaginarem, como acabou acon-
tecendo, que Jader exploraria os resulta-
dos), Ademir aparece em segundo lugar
na preferencia dos entrevistados, com
25% das intenC~es de voto, tecnicamente
empatado comn Jader, que obteve 26%.
Simlio Jatene pulou para 13% e Hildegar-
do desceu para 7%. Nesse context, uma
alianga com Jader Barbalho (mesmo por
baixo dos panos) colocaria o senador do
PSB na condigio de pretendente mais for-
te B sucessilo de Almir Gabriel.


De sua parte, com a alianga, Jader ga-
nharia espago no lugar de Almir (atual-
mente o segundo nas sondagens para o
Senado), tendo adiante dele apenas a can-
didata do PT, Ana Jlilia Carepa, a favori-
ta a uma das duas vagas em dispute. Mas
quem garante que um uso intensive da
miquina estadual nio poderia colocar
mais para o alto a pesada candidatura de
Gerson Peres? E ainda que Jader melho-
rasse suas possibilidades de ficar com uma
das vagas, nio seria uma vit6ria de Pirro,
voltando a encontrar no Senado um am-
biente hostile ao seu nome, ainda mais por-
que Ant~nio Carlos Magalhlies provavel-
mente estar8 de volta a casa, arrastando
uma votagilo consagradora na Bahia?
Se o interesse de Jader Barbalho 6 ga-
rantir um mandate parlamentar para en-
frentar em melhores condiC~es os pro-
cessos e inqudritos contra si instaurados
e ainda em andamento ou pendentes de
decision, a dnica via tranqiiila ao seu dis-
por leva B Camara Federal. Seja como
deputado federal ou senador, por~m, a
imunidade parlamentar j6 niio 6 um ins-
trumento tilo poderoso quanto antes para
congelar processes ou inquiritos. Com
um ou outro mandate, se retornar a Bra-
silia Jader Barbalho vai requentar ani-
mosidades latentes e uma mB vontade
geral, nito s6 dos grupos de poder, mas
da opinitio pdblica.
Numa conjuntura em que a faca esta
em suas m~ios, por~m niio o queijo, ou
vice-versa, Jader Fontenele Barbalho,
aos 57 anos, 36 dos quais como politico
com mandate eleitoral ou cargo pdibli-
co, vai ter que arriscar como nunca.
EstarB mais consciente do que na bilti-
ma eleig to, a de 1998, de que perder 6
uma alternative tito (ou mais) plausivel
do que ganhar, contrariamente g maio-
ria das sete eleiqaes de que par~ticipou
at6 agora. Por isso, nito concluiu o re-
cado que comegou a dar pela television
no dia 27, de que voltar8 a disputar, pela
quarta vez, o governor do ParB.
Pode conseguir o intent pela terceira
vez, aprofundando sua participation na
histbria do Estado. Pode ser derrotado pela
segunda vez, igualando a conta, e, de qual-
quer maneira, assegurando sua presenga
hist6rica, embora niio da forma que pre-
tendia, nem da maneira como diz que ela
se tornou histdrica. Ele tanto pode estar
literalmente renascendo para a hist6ria,
como pode estar seguindo de vez para fora
da dela, pelo caminho de servigo. Ou ou-
tro mais lateral ainda.







JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JUNHo 3





O vale-tudo selvagem



nas terras do Xingu


As 9h48 da manhi de 14 de maio o gabi-
nete da desembargadora Maria do C~u Cabral
Duarte comegou a transmitir por fax (telefone
2182109), de Belim para o f6rum de Altami-
ra, uma decisito que a magistrada acabara de
proferir. Ela havia deferido agravo de instru-
mento interposto por herdeiros inventariantes
do esp61io de Raimundo Ciro de Moura e pela
Incenxil (Inddistria, Com~rcio, Navega~glo e
Exporta~gio do Xingu), por tris da qual est8 o
polamico empreiteiro Cecilio do Rego Almei-
da, donor da construtora C. R. Almeida. Atra-
v~s desse recurs, os autores queriam impedir
o cumprimento de uma decision da jufza da 2a
vara civel de Altamira, Danielle Silveira Bur-
nhein, que liberara miquinas e equipamentos
de pessoas acusadas de extrair ilegalmente ma-
deira de uma Brea em litigio, uma grande ex-
tensilo de terra no Xingu, rica em mogno e
alvo das maiores grilagens do pafs.
Mal a juiza de Altamira determinou o cum-
primento da determina~gio superior, o gabine-
te da desembargadora Maria do Ctu Duarte,
desta vez usando papel timbrado do Tribunal
de Justiga do Estado, expediu novo fax, is
13h21, pouco menos de quatro horas depois.
Agora, atrav~s de oficio, a magistrada pedia &
juiza Danielle Burnheim para desconsiderar
o fax anterior, que continha o deferimento do
agravo, "que por equivoco foi despachado por
esta Desembargadora em uma c6pia que esta-
va sob [sic] minha mesa".
Niko exatamente assim. O agravo foi pro-
tocolado no TJE pelos advogados Octivio
Avertano Rocha e Eduardo Toledo is 10h07
de 13 de maio. O document foi dirigido di-
retamente g desembargadora Maria do C~u
pelos pr6prios advogados, fiados em que pre-
valeceria o principio da dependencia e da co-
nexilo, jB que em outros mementos do litigio
judicial petigies semelhantes haviam sido
distribuidas para essa magistrada. Mas o
agravo acabou sendo remetido para outra de-
sembargadora, S~nia Parente. Essa distribui-
glio, entretanto, s6 foi processada Bs 11h20
daquele dia 14.
Ou seja: duas horas antes que a vice-pre-
sid~ncia do TJE tivesse decidido para quem
iria o recurs, a desembargadora Maria do C~u
jB havia escrito seu despacho, em extensas
quatro laudas, atendendo o pedido dos auto-
res do agravo, e o enviado por fax para a co-
marca de Altamira, assumindo o papel de re-
latora, que iria caber nito a ela, mas g sua co-
lega S~nia Parente. Como isso fora possivel?
Talvez porque os pap~is tenham sido deixa-


dos, "por equivoco", debaixo da (ou sob a)
mesa da desembargadora Maria do C~u?
Exatamente duas horas depois que o pro-
cesso foi mandado para a desembargadora
Sania Parente, desfazendo a presun~gio dos
advogados da Incenxil e do espdlio, a desem-
bargadora Maria do Ctu tratou de cancelar seu
"equivocado" despacho. Mas deu motives
para que, no dia seguinte, o advogado Anti-
nio Villar Pantoja Jlinior, defensor de Adnal-
do Cabral Cunha, contra o qual foi proposto o
agravo, argtiisse sua suspeiglio, enquadrando
Maria do C~u no artigo 135 do Cbdigo de Pro-
cesso Civil. O artigo caracteriza como parcial
o juiz "interessado no j ulgamento da causa em
favor de uma das parties Parte que, lembrava
ainda o advogado, era ningugm menos do que
um dos sete acusados de grilagem no Xingu,
em inquirito realizado pela Policia Federal e
atualmente no aguardo de dendncia do repre-
sentante do Ministdrio Pbblico Federal na co-
marca de Santardm.
O advogado pediu tamb~m g president do
TJE, desembargadora Climenik Pontes que
tome providancias a respeito do caso, inclusi-
ve "a sustaglio em carter excepcional da li-
bera~glo da madeira" em favor da Incenxil. Se
interview em profundidade na questilo, C pos-
sfvel que a president do tribunal constate o
envolvimento do judici~rio paraense em uma
selvagem e poderosa ofensiva em cursor sobre
a Area na qual se encontra a Gltima grande con-
centraglio de Brvores de mogno do ParB, um
autintico garimpo vegetal.
O conturbado agravo diz respeito a ape-
nas um desses muitos incidents que estlio
pipocando no Xingu, sobre um terreno cedi-
go, que tem por base as mais espetaculares
grilagens de terras de que se tem noticia, atin-
gindo mais de 20 milh~es de hectares. Prati-
camente metade desse vasto territ6rio est8 na
mira da C. R. Almeida, apontada, no "livro
branco da grilagem" do Minist~rio do De-
senvolvimento Agrdrio, como a campell na-
cional desse tipo de apropria~gio ilicita, mas
que se vale de registros feitos no cart6rio de
imbveis de Altamira (cancelados e depois res-
tabelecidos judicialmente) para agir como
legitima proprietiria das glebas.
Adnaldo Cabral Cunha foi autuado e mul-
tado (em 369 mil reais) pelo Ibama'(Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recur-
sos Naturais Renoviveis), em outubro do ano
passado, pela extra~gio illegal de 880 toras
de mogno, com 2.461 metros cdbicos de ma-
deira. As Brvores estariam no Seringal Mon-


te Alegre, deixado por Raimundo Ciro de
Moura e sua mulher aos filhos. O inventirio
do esp61io 6 outro tumultuado capitulo late-
ral dessa hist6ria, jB que o cunhado de Ceci-
lio do Rego Almeida acabou sendo nomeado
inventariante, com base num simples contra-
to de arrendamento firmado com um dos her-
deiros, deslocando dessa posiglio o inventa-
riante anterior.
Atrav~s do advogado Avertano Rocha, o
esp61io obteve junto a outro juiz da comarca
de Altamira, Jackson Sodrd Ferraz, interdito
proibit6rio para determinar g Madeireira Fer-
reira e qualquer outra pessoa ou empresa "que
se encontrem no local que se abstenham de
turbar ou esbulhar" o Seringal Monte Alegre.
O juiz determinou ainda a busca e apreensilo
das toras de madeira, colocando-as sob a res-
ponsabilidade de um "fiel deposit~rio", Van-
deir dos Reis Costa.
Imediatamente a Incenxil, utilizando ou-
tro advogado, pediu e conseguiu ser admiti-
da como litisconsorte ativa no mesmo pro-
cesso. Embora alegasse haver uma conexiio
entire os dois casos, na figure do mesmo in-
vasor e extrator de madeira, qlue estaria ame-
agando a ambos os autores, o imbvel supos-
tamente esbulhado da empresa era a Fazen-
da CuruB (individualmente a maior grilagem
do Brasil, segundo o Mirad), situada a ra-
zobvel distincia do Seringal Monte Alegre,
mesmo na escala de gente que trata de mi-
lh8es de hectares como se fossem quintals
(de uma autintica mile-joana, B qual o Esta-
do est8 se reduzindo).
Assim, um mandado judicial, que deve ser
expedido sob fundamentos especificos ji est8
sendo concedido em tese, ou a rogo, podendo
ser aplicado sobre diferentes im6veis, inde-
pendentemente de sua configuraglio fitica e
da demonstration da procedencia do pedido.
Nada a espantar, de acordo com a tese juridi-
ca, jB que a mudanga nos nomes dos advoga-
dos 6 circunstancial, em aqaes que tim atris
de si os mesmos personagens, com pretensaes
sobre uma amplitude territorial equivalent ao
tamanho da maioria dos pauses do planet, nos
quais existem riquezas que equivalem a ouro,
como as preciosas grvores de mogno.
O vale do Xingu se transformou na terra
do vale-tudo, no reino do bandido, no lugar
onde a lei mais forte 6 a do dinheiro. Quan-
do nito a dos tr~s-oitlio. Mesmo quando pa-
rece que a justiga ir8 prevalecer, ao menos
como formalmente pareceria indicar sua par-
ticipagilo na histbria.







4 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JUNHO/2002




A verdade sobre Belo Monte


rar atropelos como o litigio judicial com o
MP federal em torno do EIA/Rima, queiman-
do etapas na base do rolo compressor, a Ele-
tronorte d6 a impression de que comegar a
construir Belo Monte, de qualquer maneira,
continue a prevalecer sobre a tarefa de con-
vencer os formadores de opinilo. Ainda atua
com base na 16gica do fato consumado, que
torna academicas ou decorativas as discus-
sies laterals.
Se as diividas e restrigaes nito tivessem
consistincia, 6 claro que todos estarfamos de
mitos dadas comn a estatal para comegar a as-
segurar, desde jB, na Volta Grande do Xingu,
um excepcional rio interior amaz8nico que
desigua num delta maravilhoso, tr~s anos de
consume adicionado de energia no Brasil. A
experi~ncia, entretanto, ensinou que a gran-
deza e a complexidade da Amazinia, sua con-
diglio especial de dltima reserve para muita
coisa de grandiose ou excepcional que ainda
se espera do Brasil, recomenda um ritmo de
agio e uma forma de abordagem sem sempre
compativeis com os prospects e prop6sitos
dos executores de grandes obras.
Essa cautela se aplica em particular aos
"barragistas", um grupamento professional do-
tado de tradigilo, por um lado, e de obstina-
Fgio, por outro. Mas nem sempre autorizado a
dar a bltima palavra sobre o aproveitamento
de grandes e complicados rios como os ama-
z~nicos. Ainda mais quando esse aproveita-
mento 6 exclusivista e excludente, abstraindo
o conjunto da bacia e a diversidade dos meios
de uso da ggua.
Nesta coluna, pretend apresentar algu-
mas das principals diividas e restriC5es ao
projeto que a Eletronorte est8 apresentando
B sociedade e que pretend ver transformado
na quarta maior hidrel~trica do mundo, tal-
vez num prazo apertado demais, utilizando
uma metodologia nilo exatamente tendente ao
didlogo democritico, aberto, sem pressupos-
to fechado, sem parecer discussion para ingl~s
ver. E claro que a Eletronorte pode ignorar
essa manifestaglio. Acatando-a, conseguir8
desfazer e desautorizar todas as minhas pon-
deragaes e restrigies, sem que com isso te-
sha avangado um millmetro na sua campa-
nha de convencimento national.
Mas pelo menos neste journal se poder8 afir-
mar que a Eletronorte tem mesmo razio e s6
os mal informados ou mal intencionados C que
podem ser contra Belo Monte, se a empresa,
respondendo a todos os questionamentos, con-
seguir demonstrar a justeza da sua posi~gio.
Sera uma gota d'8gua, talvez, em relagIo aos
60 milhdes de litros de Bgua que o rio Xingu
chega a descarregar por segundo, nos seus pi-
ques de cheia. Mas uma gota d'8gua limpida,
transparent e saudivel como costuma ser um
precioso produto humane: a verdade.


A Eletronorte, a subsididria da Eletrobrhs
com jurisdiglio sobre toda a Amazinia Legal,
regilio que ocupa quase dois tergos do territ6-
rio national (embora a empresa mantenha sua
sede em Brasilia, que faz parte do Centro-Oes-
te), est8 em plena campanha. Pretende conven-
cer a opinillo p6blica que s6 dois tipos de pes-
soas podem tentar impedi-la de comegar ainda
neste ano, antes de a administra~glo Fernando
Henrique Cardoso chegar ao fim, a construcho
da segunda maior hidrelttrica do pals: os mal
informados ou os critics de m8-f6.
Aparentemente a empresa tem razio. O
impact ambiental que a hidrel~trica de Belo
Monte poderia causar nito tem parade de di-
minuir. A principio se imaginava que ela ala-
garia 1.200 quil6metros quadrados de greas
marginais no cursor m~dio do Xingu, no ParB.
Hoje, a previsio 6 de que as Bguas represa-
das do rio transbordem para apenas 400 km2.
Essa jB 6 a Brea que o Xingu inunda em qua-
se todos os periods de cheia natural, que
ocorrem de seis em seis meses. A finica dife-
renga seria que essa cheia se tornaria perene,
niio permitindo mais que as gguas voltassem
aos nfveis da vazante semestral.
Com tal minimiza~gio, as families afetadas
nito chegariam a quatro mil, a maioria delas
estabelecidas em favelas de Altamira, a cida-
de mais pr6xima da future usina. Essas Breas
urbanas mais baixas ji slo alagadas pelas mai-
ores cheias do Xingu. Apenas uma pequena
aideia indigena poderia reclamar desse reser-
vat6rio e dos demais efeitos da hidrelttrica.
Mas esses efeitos poderiam ser mitigados por
uma boa previslio de impact ambiental, que a
Eletronorte jura estar tentando fazer atrav~s
de uma funda~glo de pesquisa da Universidade
Federal do ParB, contratada sem licitagio para
fazer o EIA/Rima do projeto (e impedida de
conclui-lo pelo Ministtrio P~blico Federal,
que question na justiga a lisura, a eficicia, a
legalidade e a legitimidade dos estudos, que-
rendo anular o que jB foi feito para que o tra-
balho comece a partir do zero).
Comparada com a hidrel~trica Tucuruf, atu-
almente a segunda maior usina brasileira de-
pois de Itaipu, Belo Monte, que dever8 ultra-
passar a grande barragem do rio Tocantins, pa-
rece um sonho. Segundo os nbimeros da Eletro-
norte, que construiu a primeira e pretend via-
bilizar a segunda (passando-a depois B iniciati-
va privada, devidamente assistida financeira-
mente pelo BNDES e a Eletrobris), Belo Mon-
te vai gastar apenas um tergo do concrete que
foi empregado em Tucurui, a camped national
do concrete. E Tucuruf tem uma capacidade de
gera~gio de energia 50% menor do que a usina
do Xingu. Cada quilbmetro a ser inundado por
Belo Monte permitirb gerar 27,5 megawatts. Em
Tucurui, essa relagIlo 6 10 vezes menor: cada
km2 alagado s6 permit instalar 2,8 MWs.


Belo Monte garantiria a partir de 2008,
quando o cronograma da Eletronorte prev8 a
instala~go da primeira de suas 20 mdquinas, o
atendimento a toda a necessidade de consume
adicional do Brasil (4 mil MW ao ano) durante
tr~s anos, algo que s6 a duplica~gio do gasodu-
to vindo da Bolivia poderia tender, como so-
luglio alternative, ou oito usinas nucleares do
porte de Angra II. A Eletronorte promete ainda
que cada MWh instalado custarfi 12 d61ares, "o
mais baixo do mundo". Boas m~dias em outras
usinas ficam em torno de US$ 20 por MWh.
Na esteira desses n~meros, a empresa ar-
rasta outras grandezas equivalentes, suficien-
tes para fazer de Belo Monte uma maravilha
da hidreletricidade mundial. S6 espiritos de
porco poderiam ser contra uma obra dessa
qualidade. De fato, o desnivel de 90 metros
que o Xingu sofre no cursor de apenas 50 qui-
18metros, em um trecho em que dB uma gran-
de volta, se oferece como um present da na-
tureza (ou de Deus) para quem quer converter
massa de Bgua em energia mechnica.
Mas, como quase sempre acontece na
Amazinia, raramente o que parece, 6. O que
se oferece simples esconde uma complexida-
de surpreendente. Muitos pagaram prego
amargo por essa lic;io. Os empres~rios ame-
ricanos Henry Ford, no Tapaj6s, entire os anos
20 e 40, e Daniel Ludwig, no Jarf, entire as
dtcadas de 60 e 80 do stculo passado, slio
dois notiveis exemplos.
Depois do desastre que provocou quando re-
presou um rio pr~ximo a Manaus, formando no
Uatumit um reservatdrio equivalent ao de Tu-
curuf, que tem 2.875 quilbmetros quadrados, para
possibilitar uma capacidade de geraglio de ener-
gia, na hidrel~trica de Balbina, que represent
apenas 5% do que nominalmente pode produzir
a usina do Tocantins, a Eletronorte estaria se
comportando melhor em relagilo ao inicio do
aproveitamento energttico da bacia do Xingu, o
250 maior rio do planet, que drena 8%do terri-
t6rio brasileiro? O amadurecimento habilita a
empresa a enfrentar melhor, como nenhuma ou-
tra, esse novo desafio? Desta vez a Eletronorte
estL jogando limpo, oferecendo B opinilIo plibli-
ca todos os elements de avaliaglio e julgamen-
to, n"ao conseguindo a aprovagilo uninime (ou
largamente majoritbria) porque adversirios mal
intencionados do projeto nito o permitem?
Se todas as respostas podem ser respondi-
das afirmativamente, sem manipulagaes e en-
godos, seria por inabilidade que a Eletronorte
ainda nito venceu a batalha do convencimento?
Apesar da campanha que vem fazendo, em to-
dos os lugares nos quais pode marcar presenga
e por todos os meios a que consegue ter acesso,
as d~ividas se mantim. E att se adensam, na
media em que a discusslio se aprofunda.
Preocupada em cumprir um cronograma
exageradamente apertado, que parece igno-







JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JUNHO 5


Quando comegou a ser construida, em 1975,
a hidrel~trica de Tucurui, no rio Tocantins, a
segunda maior do pais, abaixo apenas de Itai-
pu, deveria custar 2,1 bilhaes de d61ares. Ao
ser inaugurada, em 1984, seu orgamento jB ha-
via alcangado US$ 5,4 bilhies. A Comissio
Mundial de Barragens calcula que seu prego
atualizado, att 2000, bateu em US$ 7,5 bilhies.
Considerando a linha de transmission de ener-
gia associada g usina, o valor sobe para US$
8,77 bilhaes. HE quem estime esse custo em
algo acima de US$ 10 bilhies. Para a Eletro-
norte, portm, o ndmero official C de US$ 4,7
bilhies. Ou seja: menos do que o valor que ji
estava apropriado em 1984, incluindo juros
durante a constru~gio. Provavelmente essa con-
ta de juros junto aos agents financeiros euro-
peus, transferida para a responsabilidade da
Eletrobris, ainda esteja em aberto.
Quando apresentou no ano passado o pro-
jeto consolidado para a construglIo da hidrel6-
trica de Belo Monte, no rio Xingu, que deveri
deslocar Tucuruf do segundo lugar e se tornar,
ao final, a quarta maior usina de energia de fonte
hidrica do mundo, a Eletronorte disse que a obra
sairia por US$ 6,5 bilhies. Seriam US$ 3,7 bi-
lhdes na hidrel~trica propriamente dita e US$
2,8 bilhaes na linha de transmission, uma das
maiores do mundo, com 3.300 quil~metros de
extensflo, atC os grandes centros consumidores,
no sul do pais.
Na semana passada o president da Eletro-
norte, Jos6 Antinio Muniz Lopes, anunciou um
novo valor: agora Belo Monte estil orgada em
US$ 5,7 bilhdes, 800 milhies de d61ares a me-
nos do que no ano passado, uma boa economic
de 12%. Mas a conta pode se tornar um bilhlo
de d61ares mais leve, prometeu Muniz Lopes,
acenando com a redu~gio do "linhilo" para US$
1,7 bilhilo. Assim, em questilo de meses o cus-
to de Belo Monte baixou de US$ 6,5 bilhies
para US$ 4,7 bilhies, dos quais US$ 3 bilhbes
na usina e US$ 1,7 bilhlio na linha de transmis-
slio. Corte de 30%. Impressionante.
Como o Brasil precisa acrescentar 4 mil me-
gawatts a cada ano g capacidade instalada de
geragilo para tender ao crescimento do consu-
mo national de energia, nito haver8 quem se
negue a apoiar o empreendimento proposto pela
Eletronorte. Desde, naturalmente, que a empre-
sa apresente suas planilhas de c~lculo e se sub-
meta a uma auditagem das suas contas, que nem
sempre podem ser devidamente apuradas, con-
feridas e aprovadas. Precisardi demonstrar que,
nito sendo sua conta apenas um efeito da varia-
Fgi do clmbio, a quanto monta cada um dos
itens de redugio reduglio ainda mais notivel
porque obtida na fase de planejamento da obra
- da UHE Belo Monte.
Mas niio s6 em rela~glo is contas especifi-
cas da usina. E necessfirio fazer uma checagem
mais ampla do projeto. Quando exibiu ao pd-
blico o orgamento inicial, de US$ 6,5 bilhbes
(que jik seria um belo ndmero, se essa pudesse
ser mesmo uma conta de chegada e niio apenas


uma conta de partida da obra, com final impre-
visivel, como acabou sendo Tucuruf), a Eletro-
norte nito previa um acr~scimo, que agora 6 fei-
to: a construgilo de uma usina tdrmica em Be-
16m, a capital do ParB, o Estado no qual a usina
sera construida. Essa termel~trica irli gerar 1,5
mil MW (pouco menos de 15% da potincia
nominal da hidrel~trica), com investimento de
US$ 750 milhies. -
Se essa termel~trica 6 obra complementary da
hidrel~trica, o orgamento geral deixa de ser de
US$ 4,7 bilhies. Sobe para US$ 5,45 bilhaes.
Esse "detalhe", que represent um razobvel en-
carecimento do projeto, niio foi destacado. Mas
outros "pormenores" tambtm permanecem pen-
dentes de esclarecimento. Por que instalar a usi-
na tdrmica em Bel~m, que fica mais de 700 qui-
18metros a leste da future barragem? Seria para
abastecer os consumidores pr6ximos, dos quais
os principais seriam a populagilo da capital pa-
raense e a fabrica de aluminio da Albris, a mai-
or do continente? Ou seria para assegurar a ener-
gizaglio da linha durante quase metade do ano,
qjuando nenhum megawatt estarb saindo de Belo
Monte por falta de 8gua suficiente no Xingu para
permitir a usina produzir energia?
Altm dessas di~vidas, ha uma outra questilo:
quem construir Belo Monte teril que assumir a
responsabilidade pela tdrmica de Bel~m? O fi-
nanciamento para essa obra sera negociado como
um pacote fechado, nas mesmas condigies? Seri
seguido o esquema previsto pela Eletronorte, de
privatizagilo da obra, mas com financiamento
official e com participagilo da Eletrobris em at6
um tergo do capital da empresa particular que
veneer a licitagIlo, passando ao mercado essas
ag~es quando chegar a fase operacional?
O perfil de Belo Monte s6 podera ser traga-
do comn nitidez apbs a elucidaglio desses pon-
tos. Mas ainda ha outros. A Eletronorte ji ad-
mite que a potincia firme da usina sera inferior
ao patamar international de viabiliza~gio da
constru~gio de hidrel~tricas, que 6 de 50% da
capacidade nominal de gera~glo. A potincia te-
6rica de Belo Monte, com suas 20 miiquinas, &
de 11 mil MW, mas a energia firme sera de ape-
nas 4,7 mil MW, ou 40%/ do maximo que ela
sera capaz de gerar no pique de ver~io.
Em quatro meses do "inverno" amazinico, o
Xingu niio teril ggua suficiente para movimentar
as gigantescas engrenagens das turbines, que pre-
cisam de 700 mil litros de figua por segundo (a
demand das 20 miiquinas 6 de 14 milhies de li-
tros de Agua a cada segundo). Em outros dois
meses a produglio de energia sera minima. Essa
depleglio, portanto, afeta profundamente a m~dia.
Belo Monte 6 realmente vi~vel sozinha ou
necessita de outros barramentos a montante do
Xingu? De inicio, para veneer traumas e resis-
tincias do passado, a Eletronorte declarou que
Belo Monte seria a linica hidrelttrica na regilio.
Recentemente, rebatizou seu projeto para "com-
plexo hidrel~trico". Mas sugeriu que a adoglo
desse coletivo se devia a uma modificaqilo na
engenharia do empreendimento: haverdi moto-


rizaqIlo tambtm no vertedouro, a barragem se-
cundiria a ser construida no inicio da curva
fechada (ou Volta Grande) que o Xingu dB, a
50 quilbmetros do local onde surgir8 a barra-
gem principal, assegurando dessa maneira o flu-
xo normal de Bguas enquanto se constr6i, a seco,
a casa de miquinas, rio abaixo. Por que moto-
rizar essa barragem menor se ela vai acrescen-
tar apenas 100 MW ao complex (ou 1% de sua
capacidade nominal)?
Niio sera esse um claro indicador de que
Belo Monte seguir8 o mesmo rumo de Tucurui
tamb~m neste aspect? A Eletronorte est8 nes-
te memento elevando a cota operacional da bar-
ragem do nfvel de 72 metros, que era o normal,
para o nfvel (maximo maximorum) de 74 me-
tros. Esse aumento de dois metros na firea do
lago (que jit ocupa 2.875 km2) representara
menos de 3% de adi~gio a potancia nominal da
usina do Tocantins, ao custo de 30 milh?,es de
reais s6 para o pagamento da indeniza~gio das
benfeitorias dos lavradores que novamente pre-
cisarlio ser remanejados da beira do lago.
O dado maior, por~m, niio 6 esse: 6 ver pas-
sar pelo vertedouro da barragem tanta Agua niio
turbinada no inverno (a vazlio do rio podendo
chegar att a 60 milhies de litros de figua por
segundo. enquanto as necessidades da usina e
assim mesmo apenas no memento em que esti-
ver completamente duplicada, dentro de tris anos
sertio de pouco mais de 11 milhbes de litros
por segundo) e no verlio a escassez de Agua dei-
xar a maioria das milquinas paradas. Dos 8,4 mil
MW maximos, Tucuruf ficara com 3,3 MW mC-
dios ao final da duplicaglio em cursor.
Assim, outras barragens terilo que ser cons-
truidas Xingu acima para elevar a potincia fir-
me de Belo Monte, como certamente acontece-
rB em relaglio a Tucurui. No Tocantins, a barra-
gem que jB est8 engatilhada para cumprir essa
funglio, de suplementar o reservatdrio de Tu-
curui, impossibilitado definitivamente de cres-
cer, sera a de MarabBt No Xingu, sera a barra-
gem de Babaquara.
A drea de inunda~gio sai do Lmbito dos sin-
gelos 400 quilbmetros quadrados de Belo Mon-
te e vai para seis mil quilimetros quadrados de
Babaquara, mais do dobro do lago de Tucurui. E
se na esteira de Babaquara vierem os outros apro-
veitamentos inventariados pela Eletronorte no
Xingu, o ndmero vai parar em 14 mil km2 (para
uma expectativa de produglio de energia de 16
mil MW, mais do que Itaipu). A question ecold-
gica e os impacts humans dos represamentos
deixam de ser questaes acess6rias para serem
itens essenciais na agenda de discusses sobre o
que pretend a Eletronorte fazer no Xingu.
Nestes parimetros, o debate sobre a expan-
slio da frente energttica na bacia amazinica estil
apenas comegando. Se a Eletronorte pretend
mesmo langar a licitaglio de Belo Monte em
agosto, como anunciou, pode estar langando-a
sobre terreno inconsolidado. Qualquer barra-
gista sabe muito bem o que isso significa. Nilo
poderdi alegar desconhecimento no future.






G JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE JUNHO/2002





A grandeza de Claudio SA Leal


que o transformavam em fonte, eram ainda mais
proveitosas. Pareciam libertii-lo de certas amar-
ras, que, com o tempo, foram limitando-o.
Apesar do poder de que desfrutou nesse perfo-
do, ClBudio Leal sempre foi pessoalmente honest,
exemplar no trato com dinheiro, modelar no desem-
penho de responsabilidades que the eram delegadas
pelo patrilo (acabando ate por exagerar no exercicio
de tal delegaglio). Nesses aspects, 6 um caso raro
na imprensa do ParB, em todos os tempos.
Mas aos poucos sua cidadela comegou a sofrer
os embates do tempo e a lenta corrosiio que lhe
impunha o desempenho de cargo tilo poderoso,
com o ode director de reda~gio do maior journal da
Bahia para cima, o "Norte" do Sul monopolista.
Comegou a nlio separar, com a clareza mantida at6
entho, os limits entire o jornalismo e o avango da
political e dos interesses comerciais, embora seja
precise sublinhar com infase: jamais tirou qual-
quer proveito de algumas decisies pol~micas que
adotou, envolvendo essas duas dimensies do as-
sim chamado quarto poder.
Era quase impossivel que tal nito ocorresse a
uma pessoa que precisava equilibrar as duas ba-
langa numa estrutura como a de O Liberal. Com
a morte do criador do impirio, Romulo Maiora-
na, tornou-se cada vez mais forte a tendancia ao
desequilibrio entire os compromissos de manter
bem informada a opinilio pidblica e as exig~ncias
comerciais da empresa. Leal nio pade sustentar a
paridade que precisava haver entire os compro-
missos de um 6rglio da imprensa respeittivel e a
compulsito para us8-lo mais em beneficio corpo-
rativo do que para tender gs necessidades da
opiniiio pd~blica. Orgulho-me de t&-lo acompanha-
do quando iniciou, em 1973, uma empreitada edi-
torial que daria densidade ao journal, e de haver
deixado o barco, voluntariamente, quando esse
produto comegou a ser desvirtuado e, comn o pas-
sar dos anos, desnaturado.
Chiudio Augusto de Sg Leal, por~m, resistiu
a todas essas intempdries como aquela pessoa
que, a despeito de diferengas e diverg~ncias, con-
quista em n6s o que niio more nunca: o afeto
intellectual, o respeito professional, a admira~gio
que o bom trabalho provoca, como o bom com-
bate, quando divergimos.
E uma pena ele nbt ter tido a oportunidade de
receber, em vida, a just homenagem que lhe foi pres-
tada na morte, com o desacerto usual numa corpora-
glio que se distanciara dos pan~metros por ele defi-
nido. Costuma-se dizer em favor dessa omissio in-
sanivel que o pr~prio Leal nlio gostava disso e ja-
mais permitiria que tal homenagem lhe fosse feita.
O argument, portm, 6 preguigoso, sonolento
e c8modo. Leal recebeu com alegria e boa vontade
estudante de comunicaqil social da UFPA, que a
ele enviei com a missbi de colher seu testemunho,
quando orientava trabalhos acad~micos. A resis-
tincia era apenas momentinea e, quando muito,
uma titica para preservar sua intimidade, attitude
coerente com seu enorme pudor. Valia a pena for-
gi-lo a encarar a tarefa necessilria e relevant -
de assegurar que as geragies posteriores, jil des-
providas de sua presenga ffsica, continuassem a se
beneficiary de sua preciosa experiancia e de seus
valiosos conhecimentos sobre o jornalismo e a his-
tdria do Pard.


Isidore Feldenstein Stone niio p8de ler o edito-
rial o principal da pigina de opinibi que o mais
influence journal do planet, o The New York Times,
lhe dedicou em 1989, reconhecendo-o como o mais
important jornalista de todos os tempos nos Esta-
dos Unidos; e, provavelmente, no mundo. O edito-
rial foi escrito no dia em que I. E Stone morreu,
depois de dedicar grande parte da sua vida a escre-
ver, sozinho, um pequeno semandrio (depois quin-
zendrio) alternative, o I. E: Stone's Weekly. A tira-
gem maxima da newsletter de oito piginas, em for-
mato oficio, ao long dos seus 19 anos de circula-
gli, nbi foi altm de 30 mil exemplares. Mas seu
impact era inversamente proporcional ao seu ta-
manho. Daf o reconhecimento, ainda que p6s-mor-
te, do NYTao David de papel, que enfrentara alguns
dos monstros (sagrados ou nbt) do establishment
americano, inclusive o diirio novaiorquino da famf-
lia Sulzberger, com sua funda jornalistica.
ClBudio Augusto de SE Leal morreu, no mbs
passado, privado do mesmo prazer: ver sua foto
pela primeira vez na primeira pigina de O Libe-
ral, journal ao qual dedicara quase 30 anos dos
seus 72 anos de vida, merecendo um raro editori-
al na capa (a mesma capa que havia abrigado, por
algum tempo, pequenos editorais, os sueltos, es-
critos por ele) e toda uma pigina internal a enalte-
c&-lo como o mais important jornalista do Pard
nas lilltimas cinco dtcadas.
Essa importincia niio podia ser media com
clareza e exatidlio pela leitura dos textos que re-
gistraram o desaparecimento de Leal, vitima de
um cancer que combateu com &xito nottivel, re-
sistindo g doenga por mais de 12 anos. As matdri-
as, tanto as redacionais quanto as manifestagies
de entrevistados, nio especificavam em que con-
sistia a relevincia da contribuigio do morto &
imprensa paraense. Limitavam-se a juntar casca-
tas de elogios fliceis ou repetir uma ret6rica que
costuma mais servir de escada ao homenageador
do que de reconhecimento g grandeza do home-
nageado (num certo artigo chamado a convalidar,
jB morto, fato at6 entbi in~dito).
Uma resposta mais satisfat6ria deveria ter sido
obtida atravts da observaglio das pessoas que com-
pareceram ao adeus a Leal. Eram quase todas jor-
nalistas, de viirias geragies, subordinados e apren-
dizes em algum period de suas carreiras do anti-
go chefe de redagIlo, vitimas is vezes do seu mau
humor ciclico, mas beneficiirias do seu amplo co-
nhecimento, transmitido nito em aulas ret6ricas
ou tedricas, mas na forja do fazer, na escola do
cotidiano, ainda a melhor em mat~ria de jornalis-
mo. Jornalistas que participaram do dia-a-dia de
um journal partilharam com Leal um dos maiores
prazeres que pode ter um professional, niio ape-
nas no jornalismo, mas em qualquer dos mi61ti-
plos oficios humans: o fechamento da edigilo di-
Aria de um journal.
Era nesse memento que Clindio Augusto de
Sg Leal, nome de diplomat empenhado bissexta-
mente com o direito, revelava sua maestria. Sem
nenhum rango de provincianismo, ele pode ser con-
siderado um dos maiores jornalistas de retaguarda
da imprensa brasileira modern. O titulo se aplica
a profissionais que sabem "fechar" uma edigio,
dando-lhe um desenho adequado na capa, impon-
do-lhe uma boa marca visual (que se encaixa har-


moniosamente na membria), hierarquizando ade-
quadamente as mat~rias, transmitindo-as com cla-
reza e suficibncia informative.
Madrugada chegando, na fase anterior ao ritmo
acelerado imposto pela escala industrial crescente,
ou noite avangando, em period mais recent, de
circulagio antecipada, os que tiveram o priviltgio
de concluir a edigio do jornal com Cliudio Leal par-
tilharam com ele uma experiincia enriquecedora e o
verdadeiro prazer de um trabalho criativo.
Homem da cozinha da redaglio (e dos seus bas-
tidores tambbm), Leal nunca teve um texto brilhante
e fez raras incursies pela linha de frente. S6 no
inicio da carreira andou trabalhando na reportagem.
O que fazia bem, como poucos, era orientar a pau-
ta da reportagem, para dar-lhe atualidade e consis-
tincia, submeter os textos a um verdadeiro crit~rio
de qualidade, ordenar a edi~go e espicagar a criati-
vidade da equipe, altm de ser uma refer~ncia para
as frentes avangadas da reda~glo nas ruas (e, sobre-
tudo, em misses de enviados especiais).
Homem discrete e timido, Leal seguia uma ro-
tina invaritivel, que seria massacrante ou mesmo
mortal para um professional da information, se ele
nbi fosse guiado por uma curiosidade insaciivel,
um apurado instinto dos fats e uma preocupagilo
com a qualidade incomum em sua gera~gio (e, em
grande media, atC hoje). Seu roteiro didirio pouco
various durante as cinco d~cadas de trabalho (Su-
nab-Pedro Carneiro-A Provincia do PartilO Libe-
ral), nito lhe possibilitando checar pessoalmente o
que acontecia fora desse lumbito.
Mas era como se fosse a todos os lugares atra-
v~s dos rep6rteres, das fontes e dos amigos, aos
quaisformulava suas perguntas na said edosquais
sugava o que haviam obtido, no memento da che-
gada. Como tinha na cabega uma vasta matriz de
entendimento e contextualizagilo, o preenchimen-
to dos claros desse quadro de refer~ncia pela mat&-
ria prima que lhe chegava garantia sua perene atu-
alizagli, habilitando-o amanter-se B frente de qual-
quer redagilo (e do seu tempo).
Infelizmente, Leal nbi foi altm da arena para-
ense. Poucas vezes saiu do ParB, nunca para traba-
lhar em centros maiores, mais exigentes, melhor
qualificados, onde o didlogo lhe permitiria crescer
ainda mais. Manteve-se intramuros nbi por receio
de enfrentar desaflos, mas por temperament. Mes-
mo sintonizado com o que ocorria fora do seu res-
trito circulo de atuaqio, haveria de sofrer algumas
das seqilelas do isolamento e do provincianismo.
Se tivesse tido a iniciativa de seguir em frente,
certamente a histbria do jornalismo lhe teria dado
o reconhecimento que ele merecia, de um dos mais
competentes profissionais do setor em todo o pals,
bem melhor do que algumas das estrelas que cos-
tumam ser colocadas no firmamento da midia, por
compadrio ou emulagil.
Mas quem vinha dos grandes centros, de pas-
sagem ou para voltar a se estabelecer em Bel~m,
encontrava em Leal um interlocutor ansioso por
receber as novidades, mas exigente o suficiente
para questiond-las, Bs vezes por azedume, gs ve-
zes para testar a consistincia do mensageiro. Por
suas qualidades, Leal sempre foi uma refer~ncia,
niio apenas do (e no) jornalismo paraense, mas de
toda a vida pliblica no Estado. Quando travadas
fora das fronteiras da redag~io, essas conversas,







JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE JUNHO 7


Tal beneficio poderia ser obtido atravbs de um
livro com o depoimento de (e sobre) Leal, ele vivo
para receber a prova da nossa gratidbt, afeto e ca-
rinho. Porque, como dizia o maior poeta popular
da miisica brasileira, Nelson Cavaquinho, depois
que a gente vira saudade o que interessa para quem
se foi 6 a paz. A just paz que deve ser o c6digo da
viagem eterna do grande jornalista CI~udio Augusto
de Sg Leal at6 o destiny que lhe cabe: a hist6ria.




umru Esta











A Companhia Vale do Rio Doce 6 respons8-
vel por 16% do Produto Interno Bruto do ParB, o
segundo Estado em tamanho (com 1,2 milhilo de
quil~metros quadrados)e o nono em populagilo
(com mais de seis milh~es de habitantes) do Bra-
sil. No final desta d~cada, essa participagilo po-
der8 se aproximar de um tergo do PIB paraense.
Em nenhuma outra unidade da federagilo uma
6nica empresa pesa tanto na economic estadual.
A CVRD fatura, no ParB, muito mais do que o
pr6prio governor estadual.
Dos seus 60 anos de vida, a Vale tem metade -
ou 33 anos no ParB, um dos nove Estados brasi-
leiros nos quais atua, jB o segundo em importin-
cia, abaixo apenas de Minas Gerais. Mas 6 o pri-
meiro em receita de exporta~gio e aquele no qual a
CVRD mais vem se diversificando. A Vale se esta-
beleceu no Pard em 1969, para se associar g Uni-
ted States Steel, a maior siderbrgica americana, na
exploragilo das jazidas de mindrio de ferro de Ca-
rajis, descobertas pela multinational dois anos
antes e, at6 entlio, sob seu control exclusive. A
USS se retirou de Carajis oito anos depois, mas a
CVRD continuou, sozinha.
Carajis viria a se revelar a maior provincia
mineral do planet. Transformou-se no principal
p61o de exporta~gio de ferro do pais, garantindo
15% de toda a necessidade de mindrio do Japio,
seu principal client. Tamb~m 6 um expressive
centro de exportaglio de manganis e ouro. Mas a
Vale diversificou suas atividades no ParB como
em nenhuma das suas bases: associada a v~rias
multinacionais, detim o comando da maior mina
de bauxita do mundo, da maior fibrica de alumi-
nio do continent e de um p61o de alumina e cau-
lim de representatividade international.
Agora est8 iniciando a segunda geraglIo de
mintrios em Carajis, com cinco projetos de cobre
que podem colocar a provincia como um dos trs
ou quatro mais importantes produtores mundiais.
Gragas a essa nova frente, seu faturamento annual
no Estado ird passar de trQs bilhaes de d61ares, 50%
a mais do que a conta atual do comtrcio exterior
paraense, a sdtima maior em volume e a segunda
em saido de divisas do Brasil.
Apesar de todos esses ndmeros eloqiientes, a
Companhia Vale do Rio Doce nito 6 amada pelos
paraenses. Quando niio 6 desconhecida ou mal co-


nhecida, 6 criticada ou mesmo odiada. Em Serra
Pelada, no inicio da ddcada de 80, quando ali fun-
cionava o maior (ou o mais famoso) garimpo de
ouro do mundo, ela era conhecida como "a gata".
Aproveitando o clima hostile 1 empresa, seus ini-
migos conseguiram convencer os garimpeiros que
ela s6 era national na apar~ncia. Por baixo dos
panos, era uma multinational. Cercada de minei-
ros por todos os lads, 6 claro, uai.
Por isso, o economist Armando Mendes su-
geriu que o nome da CVRD mudasse para Compa-
nhia do Vale do Rio-Mar Doce, numa refer~ncia
ao nome de batismo da regibi pelos espanhbis qui-
nhentistas. Afinal, a Amazania haveria de se tor-
nar mais important para a companhia do que seus
locals de nascimento e crescimento, Minas Gerais
e Espirito Santo, por cujos territbrios correm (ou
tentam correr, vencendo o assoreamento provoca-
do pelas derrubadas de floresta) as gguas do outro-
ra deslumbrante rio Doce.
Quando a Vale foi privatizada, em abril de 1997,
era previsivel que a mudanga iria influir poderosa-
mente sobre o ParB. O governador Almir Gabriel,
correligion~rio tucano do president Fernando
Henrique Cardoso, um social-democrata de tradi-
Fgio na drea de saidde p6blica, vinha se manifestan-
do discretamente contra a venda da estatal. Mas
guardou silbncio obsequioso quando a transaglo
se consumou. Seus assessores garantem nio ter
havido nenhum cala-boca. Nem politico, de Brasf-
lia, nem econbmico, na forma de adiantamento de
recursos pela empresa por conta de diferimento de
ICMS pelo Estado.
Com seu porte incomum, a CVRD, quando
estatal, desempenhava no ParB a fungilo de agin-
cia de desenvolvimento, espelhando e expres-
sando as mutag~es da political federal para a
Amaz~nia, ora em memento de aproxima~gio, ora
de distanciamento. Transformada em empresa
privada, ainda nito estabeleceu um novo status
de interlocu~gio no Estado, se 6 que niio apro-
veita esse vicuo para praticar uma political de
fats consumados, estabelecidos de cima para
baixo, a partir do aumento da centraliza~gio in-
terna de mando.
A expansito das atividades da CVRD no Pard
no li1timo qilinquiinio coincidiu mas nito por
acaso com os excepcionais resultados finan-
ceiros e operacionais no period. Depois de ba-
ter record atris de record, tanto de produgio
quanto de faturamento e de lucro, a direglio da
Vale julga ter encontrado o modelo adequado
para consolidar-se como empresa definitivamen-
te amadurecida, a primeira multinational brasi-
leira rigorosamente falando.
Julga haver criado dentro da corporal "uma
cultural voltada para o desempenho", conforme
acentua seu president, Roger Agnelli, na mensa-
gem aos acionistas, inserida no balango de 2001,
divulgado no mis passado. O lucro do exercicio
anterior, de trs bilhies de reais, foi o maior obtido
por uma empresa privada, superior em 41% ao de
2000. Desse total, R$ 1,7 bilhilo foram distribuf-
dos aos acionistas, proporcionando um retorno so-
bre o patriminio liquid numa taxa impressionan-
te: de mais de 25%.
Esses resultados devem ter provocado estou-
ro de muito champanhe na sede da companhia,
no Rio de Janeiro. Mas os ecos desse excepcional
desempenho niio parecem chegar ao sertlio, onde
estlio algumas das principals bases da Vale. No
mis passado, num seminirio realizado em Mara-


bd, duras critics foram feitas B conduta (consi-
derada colonial) da cmpresa, que continuaria ex-
plorando os recursos naturals da regibl, sem in-
duzir a retenglio da renda gerada, indiferente g
mis~ria que se espraia a partir do lado de fora dos
seus mega-projetos, em Caraj~s.
Um dos casos mais exemplares desse proce-
dimento pode ser visto diariamente na estagilo de
passageiros da ferrovia de Carajis. Dezenas de
imigrantes, na sua esmagadora maioria maranhen-
ses, desembarcam em MarabB sem portar um 6ni-
co document de identificaqilo. Niio-indentifica-
dos sobem nas esta95es do Estado vizinho e na
mesma condigilo chegam ao ponto de origem.
Criminosos se aproveitam da franquia para
procurar novo domicilio para seus delitos e
pessoas "de bem" slio despejadas na margina-
lidade pelo simples fato de que nito possuem
qualquer document que as habilitem a dis-
putar um emprego regular. Um ato primirio
de control, praticado em qualquer aeroporto
e mesmo em estaq~es rodovibrias 6 ignorado
ao long da ferrovia de Caraj~s, cruzando, em
seus 870 quil8metros de extensilo, uma das
Breas mais pobres do Brasil.
MarabB 6 particularmente maltratada por essa
situaglio. As minas em atividade, que proporci-
onam royalties, ficam em municipios que surgi-
ram de desmembramento a partir da unidade-
mile. Mais important municipio de toda a re-
gitio, MarabC perdeu renda e territ6rio com essa
pulveriza~gio e ficou com os restos do banquet,
na forma de migrants miseriveis, desprepara-
dos profissionalmente ou vinculados a uma es-
trutura de crimes para a qual servem como veto-
res de marginalidade.
Enquanto o acionista do process que detona
essas condigaes recebe cada vez mais dividends
(teve de volta um de cada quatro reais imobiliza-
dos no patriminio Ifquido da empresa, que, com
suas controladas, tem um ativo de R$ 26 bilhaes),
os cidadlios que sofrem os efeitos dessa dinimica
estlio cada vez mais entregues g pr~pria sorte.
Naturalmente, a pergunta que se segue 6 6b-
via: se a CVRD conseguiu total defini~gio como
empresa privada nesses cinco anos p6s-privatiza-
glio, tornando-se a mais lucrative empresa brasilei-
ra, qual o peso da sua responsabilidade social?
Para um faturamento bruto de mais de R$ 11
bilhaes e um lucro de R$ 3 bilhi~es no ano passa-
do, a empresa investing R$ 55 milhies no chamado
"quarto setor" (meio ambiente, educaqilo, cultural
e qualificagli de mbi-de-obra), sendo que parte
dessa aplicaqio teve por objetivo n~io contribuir
para o aperfeigoamento da cidadania, em tese, mas
aumentar o rendimento produtivo.
Essa rela~gio (de 1% on 2% em "investimento
social") diz muito sobre o conteddo social dessa
efici~ncia empresarial e ajuda a explicar essa es-
picie de ressentimento do native em relacgio auma
empresa que tem, em seu Estado, peso que nbt
encontra paralelo em nenhum outro ponto do ter-
rit6rio national. Bem sugestivo que as critics do
mis passado tenham sido feitas no antigo Cine
Marrocos, de Marabi. O prddio foi restaurado com
recursos da CVRD.
A propbsito, talvez fosse conveniente.pro-
gramar para breve, em sua sala, o premiado fil-
me de Glauber Rocha, "Deus e o Diabo na Terra
do Sol". Nilo faltariam aos espectadores moti-
vos diante de seus olhos para a confirmaglio des-
sa alegoria do finado Cinema Novo.






















































imprensa T oL In XU~OQ BQDI
em feve- unaor man servi- o,
reiro de
1965, 6
um deta- llii bl aF
lhe: um Cambrkda
banco na- }lllk e
cional (e,
no caso, IIIB 811 A61
interna- dollfl ~lllnl. ( sul
ciona 1) Iilil nlllnlllli SS.
abrindo
uma ag~n-
cia no interior do ParB. O Banco Comdrcio e
Indbstria da Amdrica do Sul ia atris dos seus
melhores clients: os japoneses que plantavam
pimenta-do-reino em TomC-Agu, uma das prin-
cipais cultures agricolas do Estado. Hg muitos
anos a 6nica noticia que se tem 6 de fechamen-
to das poucas agencias que funcionam pelos rin-
cdes paraenses, por onde os richess" apenas
transitam: entire sua fonte de riquezas, no interi-
or, e o lugar para o qual transferem seus rendi-
mentos, no literal ou altm-mar. No traditional
parasitismo da concentraglio renda, que coloca
o Brasil no primeiro lugar mundial.


Jomnal Pessoal
Editor: Ljcio FI6vio Panto* Fones: (091) 241-7626 Contato: TV.Benjamin Constant 845/203/66.053-040*e-6mail: ]omaleamazoncom br Produgdo: Angelim Pinto EdilCo de Airte: Luizantoniodefariapinto


Tr AnsitO
O primeiro sinal luminoso de
trlnsito de Bel~m foi instalado em
margo de 1962, no cruzamento das
avenidas Generalissimo Deodoro e
Nazard. O &xito da experi~ncia levou
a DET (Delegacia Estadual de Trin-
sito), antecessora do Detran, a pro-
gramar a instala~gio de sinais, auto-
miticos e manuals, para mais 100
pontos de cruzamento de veiculos na
cidade. O control deixava de ser fei-
to pelo popular (ou impopular, con-
forme a circunstincia) "sinaleiro", que
trajava uniform claro e portava um
vistoso capacete. Passaria g competin-
cia (ou incompet~ncia) das miquinas.

SorriSOS
Os "Dez mais belos sorrisos da
Cidade Morena" em 1963, confor-
me a escolha feita pelo colunista
social Wilkens, da Folha Vesper-
tina, foram os de Cila Kabacznik,
Maria Jos6 Silva, Ana Maria
Anaissi, Sime Bohadana, Gilka
Silva, S~nia Maria Malcher, San-
dra Ferreira da Silva, Maria Rai-
munda Azevedo e Idalina Brasil.

Une
Em maio de 1963 a equipe volan-
te do Centro Popular de Cultura da
Uniho Nacional dos Estudantes, com
12 atores e cinco diretores, passou por


Beltm. Aqui, em session gratuita, rea-
lizada no Cine-Teatro Palicio (ocupa-
do atualmente pela igreja do bispo Edir
Macedo), o CPC da Une exibiu os fill-
mes "Barravento", de Glauber Rocha,
e "Couro de Gato", de Joaquim Pe-
dro de Andrade, que~ ainda nIio esta-
vam consagrados. Jg no Cine-Teatro
Paramazon (na Travessa Piedade), a
apresentagilo foi da pega teatral "Fi-
lho da Besta Torta do Pajedi", de Odu-
valdo Vianna Filho, dirigida por Car-
los Kroeber, que tratava do problema
do camponds bras~ileiro. Os aplausos
das plat~ias foram generosos em to-
das as ocasi~es.
Aldm dos espeticulos, o pes-
soal da Une foi a virias faculda-
Sdes da Universidade do Pard para
discutir "os problems que afligem
o ensino superior" da capital para-
ense e, sobretudo, a Lei de Dire-
trizes e Bases. os encontros rece-
beram "grande aflu~ncia".

IMel hereS
Atrav~s de sua coluna "Vida
Universitbria", publicada na Folha
do Norte, Cicef o Cantuiria esco-
lheu as personalidades de 1964 na
Universidade Federal do Pardi, de-
pois de "criteriosa enquite". A per-
sonalidade do ano foi o reitor, Jos6
da Silveira Neto, entire cujas reali-
zag8es destacou a entlio recent


aquisiglio "de toda a irea destinada
ao Nticleo Universitbrio, primeiro
pass para a realiza~gio desse so-
nho muito carol da Amaz8nia".
Melhor director: Octivio Casca-
es, de Educagli e Ensino. Melhor
secretirio: D~rio Guerreiro de Le-
mos, secret~rio da Escola Superior
de Administragloe professor deIn-
trodugli B Ciincia do Direito. Me-
lhor catedritico: Otivio Mendon-
ga, da cadeira de Hist6ria da Facul-
dade de Filosofia e tamb~m da Fa-
culdade de Direito. Melhor instra-
tor: Milciades Braga, da cadeira de
Geografia Econ~mica da Escola de
Administraglio. Melhor aluno: Joio
Antinio Moreira Bastos, do cursor
de Ciancias Econ~micas. Melhor
president de diret~rio: Antinio
Roberto Pinto Guimarlies, do Di-
ret~rio Academico de Engenharia.
Melhor semana acad~mica: a pro-
movida pelo Diret6rio Academico
de Farmicia. A mais bela universi-
tiria: Maria Stela Cardoso, da Fa-
culdade de Direito. Destaque: Es-
cola de Teatro da UFPA (cuja sigla
era, na 6poca, apenas UP).

Vencedora
Iracema Trindade
Baker, filha de Joio
Baker, que por muitos
anos cheflou os servings R,


telegrfificos dos Correios em Be-
16m, talvez tenha sido a primeira
paraense a se former num cursor de
jornalismo. Conquistou o laurel em
1964, no Rio de Janeiro, depois de
estagiar na reda~gio do journal O
Globo. Saiu-se tiio bem que se tor-
nou assistente de um dos diretores
da empresa, Rog~rio Marinho, ir-
miio de Roberto, o future todo-po-
deroso. Falando fluentemente o
ingl~s, o francs e o espanhol, Ira-
cema "tencionava enveredar na
carreira diplomitica", mas acabou
optando pelo jornalismo.
A nota que registrava seus fei-
tos nbt deixava de assinalar: era mais
um "paraense vencendo no sul".

Banco
O Banco do ParB, presidido
por Oscar Faciola, foi adquirido
pelo Banco do Estado de Silo Pau-
lo (Banespa), no inicio de 1966,
por 1, I bilhilo de cruzeiros, na
moeda da Cpoca. A moderniza~gio
compuls6ria, com centralizaglio de
poder e concentra~gio de renda,
aplicada pela dupla Octivio Gou-
veia de Bulhies-Roberto Campos
acabava comn os bancos locals.


ca ~
O notivel
nesta
pega, vel-
culada na


o


ETRATO


Futebol
Niio sou Paissandu, mas tambbm nhio me lembrou mais se continue a ser Remo. Como, de
qualquer maneira, as paixdes futebolisticas pertencem a um passado que jB vai long, permi-
to-me homenagear a cristalina primazia do "Papbi da Curuzu" no atual futebol paraense. Vai
af a "artilharia" do Paissandu no inicio de 1956, os cinco integrantes do ataque que tinham a
acaciana missio de atacar, algo que hoje se tornou confuse diante de tantas titicas e neologis-
mos: Nonatinho, Meia-Noite, Luciano, Laxinha e Cacettio (este, o aristocritico Norman Per-
cival Joseph Davis, um dos personagens mais sugestivos do esporte daquela 6poca, cujos
desempenhos variavam entire o sublime e o ridicule no cursor de uns poucos minutes de jogo).
Nessa Cpoca, a roupa que cobria o corpo (ou uniform) era simples. O que interessava
era o que ela cobria. Mas, paradoxalmente, a quantidade de atletas que jogavam em fungio
da camisa envergada era incomensuravelmente maior do que hoje. O que justifica uma
ponta de saudosismo nesta homenagem ao Paissandu adversirio.


n/EMOrRIA DO C)TIDIANO


I UBLICIDADE


PACPacACAo

Tenso a Weases de participa
ia AiutDridades, Cientes
a m ob &nmu~w~~ro~
Agnc-z dia ]S5 do onnes, as