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JOfflR CeSSO L CIO F LA VIO PINT O ANO X-V NO 285 *' EDigAO -EXTRA *..MAlO DqE 2002 :R$ 2,00 CARTA Resposta ao pregoeiro das eternas mentiras De md~os dadas novamente com jader Barbalho, Hdlio Gueiros inventou um bode expiard'rio para a inco~moda situagd~o em que se encontra, aliado ao poli'tico que, pouco mais de 10O anos atrdis, chamava de ladrd~o, mas que o havia feito governador do Pard' em 1986. Cria uma intriga para apagar o passado e assegurar um future conveniente. Nesta edipd~o extra, as mentiras de Hdlio Gueiros s~o passadas a limpo. Zq la~:r!?-;-, E '.: :i I ii~: ~rU 1:- .B u~i dEH~k , c'F %%OWB~ 2 JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002 beiro Pinto, no mis passado, a prop6sito de uma carta que havia me mandado, em abril de A1991, o ex-governador H61io Gueiros se escusou de fazer maiores ob- servaC~es. N~o pretendia "Ijustificar o in- justificivel", desculpou-se. Finalmente agia certo: injustificiveis sho mesmo os terms da correspond~n- cia, em linguagem chula, suja e torpe, e o pretexto da manifesta~go, uma entre- vista que fiz com Jader Barbalho, que assumia pela segunda vez o governor em substitui~go a H61io Gueiros, seu ante- cessor, que, por sua vez, veio depois do primeiro mandate de Jader, na dobradi- nha baratista que fez o ParB andar para tris ao long de quase uma d~cada e meia, entire os anos 80 e 90. Na carta, Gueiros se queixava de ter sido injustigado por seu ex-correligio- n~rio e amigo. Na entrevista, Jader o acusava de haver comprometido quase todo o orgamento de 1991, deixando para o successor uma terra arrasada, com compromissos a cumprir e sem dinhei- ro. Limitei-me a reproduzir o que ouvi, pritica que sempre adotara em relaCio a novos governantes no ParB: ouvi-los e registrar suas promessas, programs ou critics, ipsis literis, mal assumiam o mais alto cargo ptiblico no Estado, para depois cobrar o que haviam dito. Ngo podiam alegar depois que eu os cri- ticava sem dar-lhes o direito de voz (em- bora acabassem por alegar exatamente isso em alguns casos). Apesar de se tratar de uma entrevis- ta, na qual o reporter s6 tem a obrigago de ser fiel ao que the foi dito, mesmo quando a utiliza numa coluna assinada, H61io Gueiros reagiu como um posses- so. Agrediu-me e a Jader com pala- vraes e expresses obscenas. Parecia b~bado, ou demente, segundo a interpre- tagio dominant. Ou calculadamente ef- nico, no meu ponto de vista. Entendi que fizera aquilo para me in- timidar, e ao superintendent de A Pro- vincia do Pard, Roberto Jares Martins. H61io tivera o cuidado de enfiar a carta, a mim enderegada, num envelope diri- gido ao responsivel pelo journal no qual entio eu escrevia. Como previra, Jares ficou horrorizado ao ler a carta. Acha- va que eu devia esquec6-la. Por isso mesmo guardou a carta por todo um fim- de-semana, s6 me chamando para 1C-la na manhi de segunda-feira. Depois de ter lido e relido duas vezes a "coisa", que parecia forjada na mais negra fossa, pedi-lhe para ligar imediata- mente para o home que at6 dois meses antes havia sido governador do ParB. A assinatura, o tipo de m~iquina, o estilo e at6 os erros de portugu~s (que eu passara a conhecer no period em que escrevi o Repdrter 70, a principal coluna de O Li- beral, da qual H61io fora um dos redato- res), tudo atestava a autenticidade do s6r- dido document, o mais nojento que eu jB havia lido na minha vida. Jares relutou. Disse-lhe que se nio ligasse eu ia naquele mesmo memento B casa dos Gueiros cobrar satisfagoes. "Mas li deve ter seguranga, tu nio vais entrar", ponderou. "Ngo importa. Vou IA", reagi. Ngo tinha mesmo outra al- ternativa, a nio ser que fosse um co- varde, um tfbio. Apesar de toda a lama que usara na algaravia de ofensas da carta, sem pejo por sua familiar (pela minha, 6 claro, nho tinha a menor con- sideraqio, apesar das ligaqaes entire a minha familiar e os Moraes, da profes- sora Terezinha, na Santardm que nos deu origem), H61io foi al~m. Ameagou: "Nio adianta fingir que tu nio recebes- te nem leste esta porque estou tirando xerox em abundlncia para distribuigio aos teus leitores". Ou seja: nio satis- feito em ser sujo, queria espalhar a su- jeira aos quatro ventos. Jares finalmente decidiu telefonar. Avisei-o que acompanharia a conversa. Ele autorizou. No fundo, n~io estivamos acreditando naquela insinia. A profes- sora Terezinha Gueiros atendeu, fez os cumprimentos de praxe e passou o apa- relho ao marido. Jares confirmou o recebimento da correspond~ncia e, numa mentira neces- skria, ainda tentou uma said conciliat6- ria: pediu autorizag~io para rasgar a car- ta, sem entreg8-la ao destinatirio. Argu- mentou que a carta nio era uma defesa, mas uma ofensa. H61io retrucou: "Eu nio estou me defendendo. Eu quero 6 ofen- der. Diz para o Llicio que estou rompen- do com ele. E guerra". Desfeita a ligagIo, ficamos, Jares e eu, largo tempo em sil~ncio, estupefatos, procurando um caminho. Encontrei-o ali mesmo, na solidariedade do amigo, que ultrapassou todos os seus hibitos de cau- tela e pudor para nio me deixar na mio: decidi submeter a carta a pessoas de in- teiraconflanga, ponderadas, experiences, com posiq8es distintas na vida. Ouvi oito pessoas. Uma delas, um respeitado intellectual, hoje com mais de 70 anos, desistiu de continuar a leitura na segunda linha, enojado e chocado. Quatro me sugeriram enterrar o lixo. Duas leram tudo diversas vezes sem conseguir reagir ao estupor. Todas elas foram consultadas sob o compromisso da confidencialidade. LI document mais sujo Apenas uma, a lini- ;L- ca de fora de Be- i4' 16m, ouvida com o fato consumado, reagiu mandando i~c~v uma carta e autoni- zando sua publica- 950 ("utilize minha carta como melhor aprouver", assinalou num p6s-escrito). Foi o almirante M~rio Jorge da Fonseca Hermes, comandante do IV Distrito Na- val ao tempo em que H61io governor o Estado e, depois, chefe do Estado-Mai- or da Armada brasileira, al~m de cida- dio honorkrio do ParB, por titulo a si con- cedido pelo legislative paraense. Escreveu o almirante que o limiar dos seus 65 anos nio lhe havia permiti- do se deparar "com document t~io in- fame", no qual encontrava "s6 podri- dio". Custava-lhe crer que tal documen- to tivesse partido "de uma pessoa que tenha exercido tio elevados cargos pdi- blicos em nosso pafs". Lamentava que o ParB tivesse entire seus representantes "individuo moralmente tio desqualifi- cado", cujo ato, em "tho triste epis6dio", s6 podia ser atribuido "a um estado de demincia, que merece compaixio e cui- dados medicos urgentes". Mesmo imbuido dessa compaixio, en- tendia 0 almirante que H61io Gueiros nho possula mais "a condigio de apresentar- se na qualidade de home pliblico ao povo do Pard". E acrescentava: "Se hou- ver um pouco de decencia no meio dos seus correligion~rios, caber8 a eles alij8- lo do convivio politico". H61io Gueiros nio apenas nho foi ex- cluido da vida pdblica paraense como, no ano seguinte, se elegeu prefeito de Bel~m, usando e abusando de velhos truques politicos e de sua sordidez mo- ral, que t~m efeito sobre um pdiblico de- sinformado ou mal-informado, mas se tornam menos eficazes em um ambien- te no qual a luz result da elucidagio dos fats que ele manipula. JOURNAL PESSOAL EDIC/~O EXTRA/MAIO/2002 3 para tratar do favorecimento da Sudam, comandada por Henry Kayath, ao estalei- ro Ebal, onde um de seus filhos passara a atuar formalmente como director t~cnico (seguido por outro filho, que assumiria a assessoria juridica). Apresentei ao gover- nador todos os fats apurados, caracteri- zando a rela~go de favorecimento. Na mi- nha frente ele telefonou para Kayath eme repassou as alegaqdes recebidas do supe- rintendente da Sudam. Incorporei a incon- vincente versito B primeira mat~ria de de- nlincia que escrevi sobre a Ebal, publica- da no ntimero dois deste jornal, da 2a quin- zena de setembro de 1987. Na esmagadora maioria das outras conversas, quem as props foi o governa- dor. Ao chegar a uma das primeiras, em 12 de maio de 1987, H61io Gueiros me recebeu jogando um pedago de papel so- bre a mesa: "VC o que o teu amigo me aprontou". Era um telex. O Banco do Bra- sil comunicava o bloqueio, naquele dia, da cota-parte do Estado no fundo federal para guitar a primeira parcela de um em- pr~stimo de 20 milhdes de d61ares. Jader fizera a operagilo tres dias antes de trans- mitir a faixa ao seu successor (e ainda ami- go, ao menos para consume externo), sem carincia, em prestaqaes trimestrais. Nada disse a respeito. "E um imenso papagaio", protestou H61io, com toda razgo. Sem citar a fonte, como 6 norma de um off-the-record, dei a grave informa- glio, que era um fato concrete, objetivo, e a primeira reaqilo negative do novo go- vernador ao esp61io recebido do amigo e correligion~rio. Calado estava, calado Ja- der ficou. Mas sentiu a cutucada. Um outro chamado telefinico e 18 es- tou eu no gabinete do governador, furan- do a fila e provocando a ira de quem ti- nha hora marcada (inquieto, chamava a aten~gio de H61io, que abanava as miios, indiferente B fila de audiencias: "deixa pra li, vamos conversar", o brilho dos olhos antecipando o prazer pela troca de infor- maqaes e as "fofocas", como dizia, bom papo que sempre foi). Um outro papel. Era um levantamento da Secretaria da Fazenda sobre o recolhi- mento de ICM (antes do S, de social, apin- dice artificial acrescentado pela Consti- tuiglio de 1988 a um banco verdadeira- mente elitista) do grupo Belauto, a em- presa dirigida por Jair Bernardino de Sou- za, "o home mais rico do ParB". O que ele pagara de imposto em todo um ano equivalia g comercializaglio de 11 carros da sua revendedora Volkswagen. Na entrevista do mis passado ao Dii- rio do Pardi, o ex-prefeito parecia reco- nhecer a pr6pria culpa ao classificar sua carta de "injustificivel". Assim entenden- do, registrei neste journal sua manifesta- glio, a primeira desde entlio, porque sem- pre evitou encarar o tema de frente nas poucas vezes em que foi questionado a respeito. Considerei encerrado episddio, deixando-o a cargo dos historiadores, se viessem a se interessar pelo caso. No en- tanto, duas semanas depois, numa entre- vista ao journal O Paraense, o ex-prefeito de Bel~m, mesmo repetindo que n~io se devia "Ijustificar o injustificivel", tentou justific8-lo. Com novas mentiras. Disse ter ficado chateado comigo, "porque eu sempre dei muita atengio quando governador ao L6cio Flivio. Como governador eu ficava li horas e horas li falando com ele, esclarecendo tudo que ele queria. Ngo deixava ele it embora sem responder a todas as per- guntas dele. Horas e horas, duas, tris horas. Af, nessas coisas ele vinha e co- megava a citar coisas mirabolantes con- tra o Jader. Af, apesar de eu estar meio estremecido com o Jader eu dizia: isso ntio 6 verdade, nito adianta, isso 6 nove- la, o Jader nio 6 rico. At tudo bem: o Jader assumiu o governor e o L~icio pas- sou a ser o seu intdrprete. Ai era demais. Af eu me zanguei. Niio deveria ter me zangado, mas me zanguei". Tudo isso 6 um amontoado de menti- ras, como provarei em seguida, com a convicqho dos que sabem que o mentiro- so 6 mais f~icil de apanhar do que um coxo (ainda mais se, al~m de mentiroso, 6 um coxo moral). Talvez devesse seguir alguns conselhos e ignorar a verborrigica male- dicancia de H61io Gueiros, que n~io res- peita a ningu~m, muito menos a verdade, algo que niio faz parte da sua agenda. Mas sua perfidia assumiu a forma de document jornalistico, tornando-se fonte potential de consult para os contemporC- neos e os p6steros. Sua entrevista ocupou duas piginas de journal. A refer~ncia que me fez, apesar de caber num parigrafo, mereceu do editor de O Paraense grande destaque: 6 um dos dois "olhos" de todo o texto. Naturalmente, porque sou uma per- sonalidade muito important na political do ParB, com poder, mandate e tudo mais. Para abrir ao leitor do Jornal Pessoal a possibilidade de passar ao largo do tema sem perder a continuidade da cobertura regular, decidi dar a resposta a H61io Mota Gueiros numa edi~ilo especial. Nela, pos- so me permitir expor mais longa e detida- mente os fats. Espero que este seja um ajuste de contas com a histciria, no qual prevalece a velha regra dos confrontos: quem for podre que se quebre. O momen- to 6 apropriado, exatamente porque H6- lio Gueiros pretend se apossar de mais um mandate eleitoral, ludibriando a boa f6 do povo paraense com sua labia de mascate da mentira. Sprivilbgio do rel l,-~ Certa vez, enquanto aguarddvamos para entrar no esttidio da TV Culture, onde F~p~participarfamos de ~um program, a en- tito primeira dama do Estado, Terezinha Gueiros, corri sua voz delicada, me deu um recado: eu devia dar a devida importlncia is gentilezas do seu marido para comigo. "O H61io te recebe, conversa contigo, te diateno. N~io faz isso com os outros jornalistas", observou. Retraquei que a- digamos assim -de- fer~ncia nito era ao cidadio Lticio Flivio, mas ao jornalista, que procurava o gover- nador para tratar de temas do interesse coletivo, niio de assuntos pessoais. Tere- zinha ouviu, mas manteve sua posigio, de que eu era um privilegiado e devia fazer o que fosse possivel para justificar essa concession do governador. H61io retoma o argument. Mas sem ra- z~io. De motor prciprio, poucas vezes provo- quei esses encontros. Na primeira vez, para cobrar aresponsabilidade do governador no retorno a Bel~m de Silas Assis, que daqui safra para o AmapB atropeladamente, na companhia de Haroldo Franco, depois de ter inventado um atentado ao seu carro, es- tacionado em frente ao journal O Estado do Pardi (atual Didrio do Pari) e ao quartel da Policia Militar, na rua Gaspar Viana. O primeiro ntimero do Jornal Popu- lar trazia um anducio do governor do Es- tado. Cobrado a respeito, H61io respon- deu que o andncio era gracioso. N~io man- dara inseri-lo e nito o pagaria. Mas man- dou e pagou, como verifiquei junto g as- sessoria de imprensa. Seu apoio comerci- al foi fundamental para que essa escro- queria jornalistica se restabelecesse no Park. Favoreceu-se dela e foi por ela atin- gido, como 6 comum acontecer com al- guns criadores de serpentes venenosas. Da outra vez em que tomei a iniciati- va de pedir audi~ncia ao governador foi 4 JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002 "Tu achas que o Jair s6 vendeu 11 car- ros o ano mnteiro?", perguntava H61io, sar- cistico, agitando o pedago de papel. Jair era entlio o principal aliado de Jader Bar- balho no mundo empresarial. Seu sbcio por baixo dos panos, dizia-se. Deveriam former uma dupla do barulho em 1990, se Jair niio tivesse morrido, deixando parte do esp61io nas m~os do amigo, aliado e - quem sabe? s6cio. Transfer~ncia posta em question, inclusive nas barras dos tri- bunais, at6 hoje. Estrat~gia da am big Gidade ~Num meio de tar- e i" de de novembro de o ~1987, outra cha- mada do ajudante de ordens do go- i vernador. Era a v~spera da chega- da a Bel~m do president Jos6 Sarney, acompanhado de Jader, jB ministry da re- forma agrdria, ap6s uma sofrida abstinan- cia de poder formal (que provocava a de- Ifcia contida de Gueiros). President e ministry vinham assinar a revoga~gio do decreto-lei 1.164, de lo de abril de 1971 (8 data cabalistica!), que transferiu para o dominio da Uniiio 65% das terras de- volutas do Estado, por onde passassem estradas federals. H61io me pediu que the esclarecesse o significado do ato, para o qual o novo ministry o pressionara muito, querendo- o present e radiante. Mostrei que era uma esperteza de Jader. Quando deputa- do federal, ele lutara pela indeniza~gio federal ao Estado por conta do esbulho fundidrio. Agora, a revogaglio do ato, in- constitucional na essancia, se esta fosse questionada judicialmente (a Carta Mag- na de 88, com o texto jB aprovadlo ~ela Comissio de Sistematiza~gio, iria refor- gar essa garantia), seria feita na graga - e ainda com direito a foguetdrio, para- b~ns e guaran8,. como uma benesse de Brasilia e uma conquista do ministry paraense (embora limitada em relaglio ao que a Constituigilo traria). Com aquele seu risinho melifluo, H6- lio deu sua aprova~bgli minha exposiglio: "'Esse Jader 6 mesmo danado". No dia seguinte, por~m, hi estava ele no Centur, ao lado do president e do ministry, sau- dando os dois estadistas com palavras di- ametralmente opostas is que me disse ao final da avaliaqilo do ato, intramuros. No meu artigo, repeti exatamente tudo o que lhe havia dito na conversa a dois (em tris piginas do JP no 7, da la quinzena de de- zembro de 1987). At6 o rompimento aberto entire os dois, a relagilo foi essa: nas conversas em off, Jader niio prestava para H61io; nos dis- cursos em pbblico, virava estadista. En- quanto isso, eu era abastecido de infor- maqaes relevantes, de verdadeiro interes- se ptiblico, sobre os erros e irregularida- des do primeiro governor Barbalho. Con- firmadas no teste de checagem, as infor- maq~es eram repassadas. Enquanto isso, H61io iniciava uma guer- ra de fancaria aos maraj~s e de defesa da moralidade, projetando uma imagem de seriedade contra o plano inclinado da ima- gem em decomposigilo do antecessor, sem precisar enfrenti-lo, nem mesmo tirando a mascara de amigo e correligion~rio. Ain- da mais porque comprou o apoio integral da imprensa (inclusive, at6 um verto pon- to, do Didirio do Pard, a quem sempre re- servava uma verbinha, a despeito das cres- centes alfinetadas do journal do ministry). Ao me dar tanta aten~gio e me prodi- galizar de informaqaes de algibeira, HC- lio Gueiros estimulava a manutenglio do papel que eu assumira ainda na metade do primeiro governor Barbalho, de critic dos seus atos (que o senador Gueiros aplaudia entusiasticamente de Brasilia, de copo armado para celebrar mais um brin- de a brilhante administragIlo estadual). Talvez se eu me tivesse mostrado sub- misso a sutil advertancia da professor Terezinha, se aparecesse no gabinete do governador para fazer algum pedido pes- soal, ou aceitasse como verdade prova- da tudo o que meu interlocutor dizia, re- produzindo integralmente suas palavras, at6 hoje estaria na corte dos Gueiros e niio teria sofrido o s6rdido ataque daque- la carta nauseabunda. Mas eu sou apenas uma coisa para fins pdiblicos: jornalista. E um jornalista s6 merece esse titulo se niio se deixa embro- mar, se niio se transform em menino de recados, se nito 6 seduzido para acolitar algum grupo de poder, se mantim seus dentes trincados e se inspira respeito (quando necessirio, medo) aos que algu- ma coisa tam a esconder do pdblico. Seguramente eu niio era confi~vel. Tei- mava em checar todos os dados. Atirava contra Jader, mas atirava tamb~m contra H61io, a media que ele revelava a sua face, o outro lado da mesma moeda bara- tista de Jader Barbalho. O que as levava ao conflito niio era uma divergbncia de id~ias ou estilos diferentes de conduglio do neg6cio pdblico, mas a circunstincia irremovivel de que o butim do poder era pequeno demais para duas quadrilhas, digo, dois grupos politicos. Tendo sido o responsivel plenipoten- cidrio pela eleigio do senador Hdlio Guei- ros para o governor, poupando-o at6 de participar de magantes caravanas pelo in- terior, Jader queria reciprocidade na elei- glio seguinte, de 1990. Sabendo que se aceitasse essa regra teria uma passage fugaz pelo governor do Estado, H61io mon- tou um plano para surpreender Jader Bar- balho com seu prbprio candidate B suces- slio, o doutor Henry Kayath, trazido de volta ao Pard por Jader e por ele colocado na superintend~ncia da Sudam. Novamente comn o comando de uma en- grenagem de poder, do qual foi colocado B margem no Estado em 1964, pelos rec~m- vitoriosos militares, Kayath partilhou com H61io a certeza de que ambos s6 teriam ho- rizontes politicos depois de 1990 se se re- belassem contra o avalista do poder de que entlio desfrutavam. Mas quando comega- ram a montar sigilosamente seus ex~rcitos para o inevitivel confront, jB encontra- ram o esperto Jader Barbalho no campo de batalha, de arma empunhada. Mexendo os pauzinhos com o ministry do Interior, Jolio Alves, Jader demitiu Kayath da Sudam. Com um requinte que atropelou a lei, mas serviu-lhe como luva: demisslio a bem do servigo pdblico. Com isso, Kayath se tornaria inelegivel. Ao menos enquanto niio anulasse o opr~brio, o que tenta fazer at6 hoje (com uma com- pensaglio de cinco milhbes de reais de in- deniza~gio, valor de tres anos atras, quan- do comegou a demandar com a Uniiio atris da repara~go civel para o dano moral). Eu estava na porta do Pal~cio Lauro So- dr6, naquela tarde, quando o doutor Kayath chegou, bufando, mal havia sido informa- do de sua demissbi. Estava descontrolada- mente furioso. At6 entbi eu s6 o vira atris de umafleugma verdadeiramente invejitvel, um dominio das emogaes que realgava sua intelig~ncia. Mas naquele dia ele fora gol- peado mortalmente e de surpresa. O governador tamb~m estava furio- so. Abandonou as artimanhas da guerra de desgaste e partiu para a arenga de rua, deixando extravasar para o pliblico os ataques que fazia a Jader sob o manto do sigilo. TSroccu o florete pela baladeira (batoque, para os oriundi) e o discurso empolado pelo bate-boca de arquibanca- da de campo de futebol. JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002 5 Em nlimero posterior, este JP revela- va as "faganhas empresariais" de Jader na montagem do novo imp~rio de comu- nicaqijes, tamb~m o tema de capa da edi- 950 da 21 quinzena de janeiro de 1990. Num dos trechos da matdria, assinalei: "A biografia de Jader Fontenelle Barba- lho, confrontada com o patrim~nio que formou, gera um estado de perplexida- de". Na mesma edigio denuncio o super- faturamento do pridio do INPS em Be- 16m, obra da passage de Jader pelo Minist~rio da Previd~ncia Social, apro- veitando para recorder outras acusagies feitas contra ele no mesmo period. Acho que estes exemplos slio sufici- entes para demonstrar que nlio fui, nesse period, um critic apenas en petite co- mite" de Jader Barbalho. Malmente tinha- mos relacqaes profissionais, quando ine- vitivel. Em julho de 1990, devido ao ac6- mulo de dificuldades, a comegar pelas econ8micas, fui obrigado a suspender a circula~gio do Jornal Pessoal, ji na 64a edi~gio. Voltei g grande imprensa local, escrevendo artigos duas vezes por sema- na em A Provincia do Pari. Mas tirei uma edigio especial do JP, em setembro de 1990, para analisar a elei- ~gi daquele ano. Agi assim por nito que- rer criar problems para a diregio do jor- nal, que visivelmente, por detris de uma aparente neutralidade, apoiava a candida- tura Barbalho. Escrevi que o ex-ministro "despreocupou-se inteiramente de defen- der-se das acusaqiies de enriquecimento ilicito, o mote preferido de seus advers8- rios". Ngo se defendendo, "imprimiu seu jargilo de campanha: Jader Trabalho. Os inimigos e os mais cdticos deduziram a sibilina moral da histbria, uma revislio, modernizada pelo canibalesco marketing politico, do rouba mas faz, lema legen- dirio do paulista Adhemar de Barros". JOmaliSITO Critico Em janeiro de 1991, SJader jB governa- dor, na mais magra vit6ria da sua car- f-~Frareira political at6 en- ,~tio, conform res- L~e saltei, voltei a edi- tar um nlimero do Jornal Pessoal para es- crever uma carta aberta ao cidadlio que era empossado pela segunda vez no cargo. Res- ponsabilizei-o por haver reduzido o Esta- do "B pessoa de Jader Fontenelle Barbalho e suas extensies familiates ou clientelis- tas", tornando o ParB "a terra do neg6cio, uma mentalidade tio disseminada que nem mesmo voc8 [Jader] conseguiu dominar todas as transag~es, inclusive algumas fei- tas em seu nome e sem que vocC tivesse 'levado vantagem', como receitava o ex- jogador de futebol Gerson, precursor do neo-franciscanismo depravado dos Roberto Cardoso Alves da vida". Em que consistia essa permissividade generalizada? "Comerciantes pagam, quan- do muito, entire 10 a 20% do que deveriam pagar de impostos. Empres~rios talvez re- colham um pouco mais. As mediqbes dos empreiteiros de obras pdiblicas atestam um quinto ou um sexto do que efetivamente executaram. Sem nenhum receio de exa- gerar podemos dizer que dessas tr~s fon- tes resultam mais de um bilhio de d61ares sonegados aos cofres pdblicos. Vinte por cento disso 6 dinheiro suficiente para com- prar muita coisa. Niio espanta que fortu- nas pessoais se formem na bifurcaqio dos interesses particulares comn os do Estado. E que este, o de maior potential da Fede- ragio, condene-se g anemia, incapaz de deter hemorragia que est8 aos seus olhos, em seu pr6prio corpo". Dispondo apenas da minha coluna em A Provincia, comecei a preparar o langa- mento do Bandeira 3, que devia ser um semandrio conventional, com redaglio coletiva e recebimento de antincios pu- blicit~rios, um dos alvos da porcaria per- petrada por H61io Gueiros. Nesse interim, fiz a entrevista com o novo governador, praxe de muitos anos. A conversa come- gou tensa e dificil com uma queixa do governador sobre uma mat~ria do JP, na qual dizia que dinheiro do jogo do bicho ia parar no caixa das obras socials da en- tbt primeira dama, Elcione Barbalho. Contrariando a reconstituigilo de Guei- ros, depois da entrevista e da celeuma em torno da carta perdi o espago que tinha em A Provincia. Ora, se o journal era in- formalmente barbalhista e eu um int~r- prete do governador, como explicar a re- cusa de A Provinzcia de continuar acolhen- do meus escritos, que jB comegavam a tocar em temas mais imediatamente in- c6modos d empresa? Em junho de 1991, dois meses de- pois da fatidica entrevista e da carta por- nogrifica, voltei a editar o Jornal Pes- soal, ji fora de A Provincia. A matdria de capa ("Circo ou plio") era ilustrada por uma charge de Jader exibindo um saco de dinheiro diante dos integrantes da sua equipe, pensativo sobre o desti- Menos verdade, portanto, nessa his- tbria de horas e horas de atenglio para me esclarecer e tolerbncia para com os meus enredos mirabolantes sobre Jader Barbalho. O intrigante era H61io Guei- ros, o oportunista era ele, o falso tam- bdm. Entio e agora. Sempre. E sua na- tureza de escorpilio. O ClafO O o SCUrO Agora a outra par- te da mentira. Diz H61io Gueiros que suas medidas es- touraram quando me viu assumir o papel de int~rprete ;I de Jader Barbalho, de volta ao governor, depois de na sua version etflica hav8- lo pintado de dembnio em nossas terttili- as jornalisticas palacianas, mesmo enfren- tando a incredulidade do interlocutor. Sem mencionar as sucessivas mat~ri- as em torno do crescente distanciamento e estremecimento entire H61io e Jader, este journal, na la quinzena de maio de 1988, deu na capa o arquivlamento do "proces- so do AurB" ("Um final sem moral"), cuja chamada diz bastante sobre o contelido do artigo: "Depois de quase quatro anos e tras mil folhas de papel, o process do AurA pode terminar sem conferir moral ao que foi o maior esclndalo politico na histciria recent do Estado do ParB". Na edigio seguinte denunciava a compra dos castanhais de Marabi, a "transaglio agr~ria" que foi a capa do ndimero posterior (da 1" quinzena de ju- nho), com a chamada: "Em oito meses, Jader Barbalho mudou completamente a face do Minist~rio da Reforma AgrB- ria, mais por atos de malabarismo polf- tico e manipulaglio. Mas quanto custa- rs essa conta? E quem a pagar8?". Se- guem-se cinco piginas de critics. O JP 37, da la quinzena de margo de 1989, abria com "Um novo escindalo" e a seguinte chamada: "O governor pagou 547 milhaes de cruzados por 58 mil hec- tares da Fazenda Paraiso. E possivel que esse im6vel nem exista. Ou que a desa- propriagho tenha atingido terras vendidas pelo ministry Jader Barbalho. A um novo 'caso'?". Em mais de quatro pi~ginas, re- velei, rigorosamente pela primeira vez (o que os jornalistas chamam de "furo'q, uma questlio que acabou chegando aos tribu- nais e dando causa a um dos processes contra o ex-ministro, ainda em cursor. G JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRAIMAIO/2002 no a dar B grana. No texto, observava sobre a nova administra~gio: "Um jor- nalista que fizer a mais simples investi- gaglio sobre nepotismo, irregularidades funcionais, desvios administrativos e negociag8es em gestaglio ficara preocu- pado com o sucesso de um governor que precisa ser cristalinamente distinto de seu pnimeiro capitulo para nito ser aque- la enfadonha e degenerescente repeti- glio hist6rica denunciada por Hegel". Nas ediq8es subsequientes, os temas dominantes eram as apuragaes de irregu- laridades na administragil anterior (ocul- tadas por maciga propaganda official na imprensa), o boicote do grupo Liberal a Jader (at6 um acerto entire ambos no cai- xa da empresa) e os rearranjos politicos. Mas jB no journal da 2a quinzena de outu- bro de 1991 alertava para o desmazelo (ou calculado erro) na auditoria que o gover- no pretendia fazer na gestlio anterior, a falta de lisura nos procedimentos politi- cos contra o antecessor e os primeiros es- correg~es nos atos oficiais. A edigio seguinte, da la quinzena de novembro, abria manchete sobre oprimei- ro escindalo da temporada, iniciada no governor anterior e se ramificando jB na administragilo de Jader, atingindo a Cel- pa. O tema foi aprofundado na 1" quinze- na de dezembro e ampliado em seguida. Em maio de 1992 acusei o governador de manipular a imprensa, usando para isso verba da publicidade official. Em setem- bro, mat~ria de capa lamentava que Be- 16m, a "cidade herbica", se tivesse trans- formado numa frente de batalha do bara- tismno, reencarnado em H61io e Jader. Logo em seguida comecei a ser pro- cessado pela diretora do grupo Liberal, Rosingela Maiorana Kzan. Niouma, mas cinco vezes, sempre pelo mesmo motive: apontar o agravamento de diverg~ncias ferozes entire ela e o irmlio, Romulo Mai- orana J~nior, que persistem at6 hoje (como, de resto, os processes, uma tenta- tiva de desfazer, pela pressbi, fats que acabaram levando g atual crise da empre- sa, com desdobramentos ainda imprevi- siveis, mas graves). Em agosto de 1993, nito resistindo a tantas atribulag~es, o JP fez nova para- da. Voltaria em margo do ano seguinte para, na cobertura da morte de M~rcio "Rambo", levantar as associates do go- vernador Jader Barbalho ao mundo do crime, de cujos novelos resultara a con- dena~gio do donor do garimpo de Castelo dos Sonhos, fato que antecipei. os do sensor comum, do empirismo e da verso de segunda miio, tudo isso conta- minado de imprecislio (quem conta um conto acrescenta um ponto, alerta o adi- gio popular). Contribui para seu Estado adotivo repetir hist6rias da carochinha como se fosseni verdadeiras, sem que possam ser consideradas fantasias de pri- meira linha. Como jornalista e politico, Hdlio Mota Gueiros 6 um deseducador, um mistificador e um aproveitador. Que o seja. Mas nito impunemente. AS muimias do baratismo Ao consumer, duas semanas depois, -t C~FInas pjiginas de O Paraense, o que havia se recusado a fazer quando inter- rogado por Elias Ribeiro Pinto, no Didirio do Pardi, justi- ficando o injustificivel, o prop6sito de H61io Gueiros 6 claro: agradar seu ex- quase-futuro amigo de infincia Jader Barbalho, encontrando um bode expia- t6rio para suas culpas. No caso, eu. Assim agindo, poderia atenuar o in- c~modo de estar novamente ao lado da- quele a quem chamou publicamente de ladrlio, em 1990, recebendo como res- posta o tratamento de babado e desequi- librado e traidor. Se novamente Jader Barbalho e Hdlio Gueiros estarlio de miios dadas no palanque eleitoral 6 por- que expulsaram de suas companhias uma cidadli que tem nome certo e claro: a dona moral. Com cinismo e imaginan- do que o povo niio tem memdria, esque- cem que o passado niio 6 apenas um aci- dente, mas um element de prova. Quan- do se acusavam, tinham razlio. Agora que se defendem, mentem. Na entrevista, H61io Gueiros diz que niio vC nada demais nessa mudanga, "vocC hoje estar numa posi~gio, amanhti estar noutra posi~gio". Mas qual 6 o m6- vel da mudanga? A roda da hist6ria e o avangar da consci~ncia, comn o aperfei- goamento politico, ou a mera negocia- glio de interesses pessoais? Se Jader Bar- balho era o ladrilo de 1990, o deminio que cumpria expurgar da vida pdblica paraense, elegendo Sahid Xerfan gover- nador, qual a mudanga que fez H61io Gueiros reembarcar na nau barbalhista em 2002? Algum ganho para a socieda- de, ou apenas os apenas terms de um contrato particular de compra e venda? U ma pratica nociva pra Hg alguma coe- ~i~ rencia entire essa trajet6ria jornalis- ~i~j- tica e o papel de ~ ~"intdrprete" de Ja- der Barbalho, que H61io Gueiros agora me atribui, tentando justificar o injustificivel, em mais uma de suas nu- merosas contradiC~es? O leitor tem af a resposta. Se quiser aprofund8-la, a co- leglio deste journal lhe dar8 material su- ficiente. Perco tempo nessa rememora- ~gl,, nesse esforgo pedag6gico da de- monstraglio da verdade, empenhando- me em contraditar uma pessoa destituf- da de escrdpulos? Estarei dialogando com uma porta, falando em moral a um interlocutor amoral? E verdade. Mas niio me dirijo a ele. Meu alvo sito as pessoas que, seduzi- das pela prosa fluente do jornalista H61io Gueiros, pela sua t~cnica de bom contador de "causos", tomam falsida- des como verdades e deixam-se iludir em sua boa f6. Gueiros personifica um tipo de jornalismo (e de political) para o qual uma boa versito vale muito mais do que a verdade. A verstio 6 boa se lhe serve de instrument, se o favore- ce. Deve-se recobri-la com glac6 ape- titoso para que gator seja engolido como lebre. A retbrica substitui o contetido do discurso. A hist6ria 6 apreendida de segunda miio, por ouvir dizer, pelos sucessivos diz-que-diz sem origem em fats concretes e que acabam por fazC-lo desprezado. Sabemos que um povo, seguindo essa trilha falsa, che- gar8 a lugar nenhum. Quero, com este depoimento, dar minha contribuigio para que tenha um destiny certo. Nho se pode negar as qualidades que Hilio Mota Gueiros possui. Ele escre- ve bem. O artigo que escreveu sobre o irmlio rec~m-falecido, o medico Zo~nio Gueiros, provoca emoglio. Em 76 anos de vida, gravitando em torno do poder, como agent ou parasita, tem experian- cia e conhecimento suficientes para gas- tar em seus cometimentos jornalisticos, adocicados com verve e humor. E um cronista de apreciiveis virtudes, como diria o Isaac Soares. Mas niio 6 uma fonte conflivel dos fats. Niio s6 por deliberadamente fal- se8-los, mas, quando nito age de m8-f6, por se basear nos problemiticos crit~ri- JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002 7 exploraqio do mangan~s de Serra do Navio durou quase meio s~culo, exau- rindo a jazida um pouco antes do fim da concessio, de 50 anos. Para um home que costuma ver as coisas sem nitidez, os objetos embara- lhados, a luz turva, a cor esmaecida e o som amplificado, os gatos pardos serio sempre pretos e a meia-verdade a ver- dade absolute, quando vinda de sua boca, um som que ele pronuncia com esganigada Cnfase, mas que nho ouve. Porque, quando diz as coisas contra al- gu~m, 6 para ofender, nHo 6 para expli- car. E para trumbicar que ele comunica, ao contr~rio do que pedia Chacrinha, O Velho Guerreiro. Ofensa, foi o que escreveu naquela carta miserivel. E 6 o que continue a escrever at6 hoje. Enquanto o povo, atrav~s do voto que Hdlio Gueiros pre- tende voltar a disputar em outubro, pelo mesmo PMDB que o expulsou do parti- do, sob a acusagio de traidor, nio fizer aquilo que lhe foi recomendado pelo no- bre almirante M~rio Jorge da Fonseca Hermes: expurgar H61io Gueiros da vida pdiblica e o devolver A privada. De onde, ali~s, nio devia ter said. LOs documents 4-4-4Para o leitor de Lf hoje ter uma id~ia t: do artigo que es- Screvi para A Pro- vincia do Pard, em abril de 1991, que serviu de pre- texto para a carta de Hilio Gueiros, re- produzo-o na integra: "O Estado gastou, apenas no primei- ro trimestre, 85% dos recursos previstos no seu orgamento para todo este ano. For isso, o governador Jader Barbalho est8 preparando uma mensagem para reme- ter a Assembl~ia Legislativa comn a su- plementa~go orgament~ria. O valor des- se acr~scimo ainda niio foi definido pela Secretaria de Planejamento, encarrega- da de fazer o levantamento, junto aos di- versos drglios da administration estadu- al, do quanto serl necesskrio acrescen- tar para garantir as salvaguardas pdbli- cas at6 o final de 1991. A atualizagio do orgamento teria que ser efetuada simplesmente por cau- sa da erosio inflacion~ria, ji que as projeqdes de julho/agosto do ano pas- sado ficaram defasadas. Mas parte des- Agora que lhe interessa, H61io Guei- ros dB "uma desculpazinha" para Ja- der, no quadro de omissio generaliza- da dos politicos locals diante da extin- Cpo da Sudam, "porque ele estava numa angdstia total, num linchamento con- tra ele", em fungo das dendncias de corrupgho trombeteadas em unissono pela imprensa nacional. Gueiros nio lembra que a causa imediata da extin- gio da Sudam foram os atos de corrup- gio e improbidade de dirigentes da au- tarquia (e suas extensaes, visiveis ou camufladas), indicados ou avalizados por Jader Barbalho. O portunismo de sempre Agora nhio inter~s.- ",;J sa essa lembranga. ~No future, na even- 7-+ tualidade de mais ji uma "mudanga", quem sabe? Para prevenir a hip6tese, 6 precise manter um Jornzal Popular sem- pre B miio (desde H61io Gueiros, todos os governadores, sem excegio, incluido o doutor Almir Gabriel, deram dinheiro pdiblico a essa gazua em forma de letra, oferecendo leite B fera com a mesma mio que a criatura picaria quando a quantida- de de dinheiro jB niio fosse mais conside- rada suficiente). O total descompromisso de H61io Gueiros com a verdade, seu desrespeito B inteligencia da opinikio pdiblica e o ci- nismo militant que abragou o levam a inventar outra justificativa para o injus- tificivel: ele perdeu a elei~gio para o Se- nado, quatro anos atris, porque nio ti- nha dinheiro para a campanha. "Como eu nho tinha dinheiro, quem tinha pas- sou na minha frente", diz ele. Omite o "detalhe" de ter escolhido o filho como companheiro de chapa, depois do grotesco papel que Hdlio Gueiros Jr. desempenhou na interini- dade do governador Almir Gabriel, for- gado a entregar o comando por uma grave cirurgia de emerg~ncia. Sonega o "detalhe" das suas apariqaes debo- chadas na televisio. Extirpa do enredo o clima de "jB ganhou" que exibia no program eleitoral gratuito, como se sua eleiglio fossem favas contadas e ele estivesse ali, enfadado, apenas para cumprir tabela, como se diz em lingua- gem de futebol, que ele sempre adota, aliris, por motives populistas. Comn a mesma sem-ceriminia, des- prezando oacervo jBconsolidado de co- nhecimentos sobre o passado, proclama que nos governor de Magalhlies Barata "ngo havia corruppgo" e que os politi- cos nio trocavam de lado "por alguma vantagem, alguma propina". O tenente reformista que assumiu o poder no Pard em 1930, empenhado em destruir o po- der das elites "carcomidas" da Repdibli- ca Velha no Estado, um inovador que foi ao interior atris do correligion~rio e do eleitor, ao inv~s de esperar na capi- tal pelos votos recolhidos em currais pelos corondis de barranco, transfor- mou-se num soba, num d~spota, num patrocinador de privil~gios, facilmente manipulado por galanteios B sua vaida- de prim~ria, num instrument de mano- bra para arrendat~rios da miquina ofi- cial, concession~rios do servigo pdibli- co e aproveitadores de ilegalidades e ir- regularidades toleradas, nito gratuita- mente, 6 clato, como o jogo do bicho e o contrabando. Se Barata era pessoalmente hones- to e nunca se beneficiou diretamente do er~rio, as engrenagens de arbitrio, viol~ncia e corrupSpo que se criaram sob essa efigie (ou seria mais correto falar em esfinge?) honorivel, usando- a como arete, niio podem ser coloca- das para debaixo do tapete pela verslo utilitarista de um H61io Gueiros. No seu depoimento sobre as 61timas 72 horas do home ao qual dedicou anos de amor e amizade, sendo proscrita do riltimo ato do companheiro pela port de servigo da casa que at6 aquele mo- mento partilhavam, g margem da resi- d~ncia official, Dalila Ohana se quei- xou at6 do roubo de um rel6gio de Ba- rata por algu~m que acusou de "des- cuidista", para dizer o minimo. Isto era o baratismo, que o neoevangdlico HC- lio Gueiros quer canonizar. Falta-lhe autoridade para tal. Como lhe falta, no ditar da histdria, aquilo que o bom caboclo quer encontrar no caldo que toma: substincia. Mesmo quando segue um rumo certo, ele tateia na dire- 950, tripego, claudicante, como se esti- vesse num daqueles niio poucos dias de maior octanagem. Criticando o extrativismo mineral da Companhia Vale do Rio Doce no Pari dos nossos dias, por exemplo, lembra a explora~gio feita pela Icomi no AmapB, "onde se explorou por uns 20 anos". Li- geiro erro de cilculo do doutor H61io: a Jornal Pessoal Editor: Lficio FIBvio Pinto* Fones: (091) 241-7626 Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040**-mal: )omal~amazon.com.br Produgao: Angelim Pinto Edig~o de Arte: Luizantoniodefariapinto sa corrostio 6 atribuida g decisio de seu antecessor de praticar uma political de terra arrasada, passando ao successor uma heranga terrivel. A capacidade de endividamento do Estado neste ano est8 comprometida. A prioridade definida pelo governador 6 o pagamento da folha de pessoal, que atra- sou 11 dias neste m~s e dever6 sofrer id~ntico retardamento no pr6ximo. E para que a Secretaria da Fazenda possa langar miio do fundo de participa~gio, transferido pelo governor federal nesse period. Os recursos pr6prios estaduais jB niio cobrem o total da folha. O custeio da miquina official ter8 que ser mantido em nfveis abaixo do paddiio anterior ou do desejivel por absolute fal- ta de recursos. O governador tomou co- nhecimento dessa indig~ncia quando re- clamou de um texto apagado que man- dou datilografar. Descobriu que o PalB- cio Lauro Sodr6 jB niio tinha fitas de miquina para substituir. Passado o primeiro mis da gestio, Ja- der se declara espantado com outras des- cobertas. A mais impressionante 6 um empr~stimo de 102 milh~es de d61ares, tomado no final do ano passado junto a ag~ncia do Banco do Brasil em Grand Cayman, nas Bahamas. A explicaqlo para o mist~rio de esse empreendimento niio aparecer nos registros oficiais, nem na mensagem enviada no inicio do ano A Assembl~ia Legislativa pelo entlio gover- nador H61io Gueiros, seria que a autori- zaglio legislative foi obtida pelo pr6prio Jader Barbalho em seu primeiro gov~er- no. O dinheiro deveria ser aplicado na hidrel~trica de Aparai, destinada a suprir de energia os municipios da margem es- querda do rio Amazonas, mas acabou desviado de suas finalidades, servindo para o pagamento de empreiteiros e sen- dio aplicado no mercado financeiro. O empr~stimo foi contratado sem prazo de carancia e em 10 parcelas de vencimen- to trimestral. A primeira venceu e foi paga, ainda na gestlio anterior. A segun- da niio foi paga. O Estado se vt obriga- do a renegociar o empr~stimo por falta de condiqaes para seu pagamento nas condi95es definidas. Outras surpresas estio surgindo no exame dos contratos do Estado com em- preiteiros particulares. Um dos casos es- cabrosos, porque documentado, 6 o de uma empresa com direito a receber 30 milhaes de cruzeiros, mas que s6 teve acesso a metade porque um cheque ad- ministrativo transferiu da conta do BanparB 15 milh~es. A empresa anexou c6pia do cheque com seu endosso, s6 que falso. O mesmo esquema teria sido usa- do em varias outras operac;8es. Uma comisslio est8 fazendo a revisio de todos os contratos, com atenglio para o fato de que, apesar de uma lei draconi- ana, 95% das licitaqdes foram dispensa- das. Uma auditagem tamb~m se proces- sa na Secretaria da Fazenda, devendo ser concluida ainda neste mas. A diretriz es- tabelecida 6 de que o combat B sonega- gio elevar8 em 25% a receita estadual, mesmo com a crise econ~mica. Delega- do fazendArio que niio cumprir a meta sera demitido. IEa tinica maneira que o atual governor diz ter encontrado para tentar recompor alguma capacidade de investimento, sem o que consumir8 o seu primeiro ano apenas tapando buracos. O governador assegura que niio fica- rB olhando para o passado, nem transfor- mara seu cargo numa extensio de dele- gacia de policia ou dos palanques eleito- rais, cuja retdrica pretend esquecer. "Quero fazer um grande governor pro- mete Jader Barbalho. Por enquanto, 4 uma promessa" (grifo agora). O que est8 escrito enquadra-se per- feitamente em um artigo assinado. Re- produz os terms de uma entrevista, des- tacando suas parties mais importantes. Dadas em primeira mito, as informagdes mereceram destaque de primeira pigina na edi~go do journal que publicou a mat6- ria. O autor do texto nito assumiu o que ouviu, nem recorreu a fontes an~nimas. Retransmitiu o que lhe pareceu grave nas declaraS~es do entrevistado, tendo o cuidado de condicionar as afirmativas, relativizando- as (e tamb~m contextuali- zando-as). O ex-go- vernador .- ros teria to I ) uei dos os motives para reagir se se conside- rasse injustigado pelas declaraq8es doseu successor. O que lhe caberia era desfazer as afirmativas e esclarecer a opiniko pti- blica, procurando caracterizar as inverda- des e demonstrar as suas razies. Ao in- v~s disso, como no mundo antigo, tratou de matar o mensageiro das mis noticias, responsabilizando-o pelo que nho queria ouvir. Entremeando as 65 linhas da carta que me escreveu, no mesmo dia, havia desmentidos. Mas a ess~ncia eram pala- vries, expresses chulas, grosseria. Nada para explicar, mas para ofender. Tendo re- produzido fotograficamente a carta no ori- ginal na edigio Oinica do Bandeira 3, de maio de 1991, nhio you me sujeitar ao constrangimento de public8-la mais uma vez. Ofenderia os leitores e a mim mes- mo. Permito-me apenas transcrever a pri- meira linha dessa carta abjeta: Llicio Fli- vio, por que tu niio vais chupar o cli [as- sim mesmo, equivocadamzente acentuado] da puta que te pariu"? Pergunto ao distinto leitor: vocC seria capaz de comegar uma carta pdbli- ca nesses terms? Reagiria ao que leu acima com tais expresses? H8, dentro de voc8, impulses que o fariam redigir uma linha que fosse como essa, de H61io Gueiros? Ao long de sua cart, ele con- seguiu escrever 28 expresses vulgares, chulas ou rasteiramente pornogrificas. Revelou, sem disfarce, sem o verniz das conveni~ncias, o que est8 no mais fundo da sua personali- dade. Quem ain |
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