<%BANNER%>
Jornal pessoal
ALL VOLUMES CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00234
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00234

Full Text


JOfflR CeSSO
L CIO F LA VIO PINT O
ANO X-V NO 285 *' EDigAO -EXTRA *..MAlO DqE 2002 :R$ 2,00

CARTA


Resposta ao pregoeiro

das eternas mentiras

De md~os dadas novamente com jader Barbalho, Hdlio Gueiros inventou um bode expiard'rio
para a inco~moda situagd~o em que se encontra, aliado ao poli'tico que, pouco mais de 10O
anos atrdis, chamava de ladrd~o, mas que o havia feito governador do Pard' em 1986. Cria
uma intriga para apagar o passado e assegurar um future conveniente.
Nesta edipd~o extra, as mentiras de Hdlio Gueiros s~o passadas a limpo.


Zq la~:r!?-;-,
E '.: :i
I ii~: ~rU 1:- .B
u~i dEH~k , c'F %%OWB~







2 JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002


beiro Pinto, no mis passado, a
prop6sito de uma carta que
havia me mandado, em abril de
A1991, o ex-governador H61io
Gueiros se escusou de fazer maiores ob-
servaC~es. N~o pretendia "Ijustificar o in-
justificivel", desculpou-se.
Finalmente agia certo: injustificiveis
sho mesmo os terms da correspond~n-
cia, em linguagem chula, suja e torpe, e
o pretexto da manifesta~go, uma entre-
vista que fiz com Jader Barbalho, que
assumia pela segunda vez o governor em
substitui~go a H61io Gueiros, seu ante-
cessor, que, por sua vez, veio depois do
primeiro mandate de Jader, na dobradi-
nha baratista que fez o ParB andar para
tris ao long de quase uma d~cada e
meia, entire os anos 80 e 90.
Na carta, Gueiros se queixava de ter
sido injustigado por seu ex-correligio-
n~rio e amigo. Na entrevista, Jader o
acusava de haver comprometido quase
todo o orgamento de 1991, deixando
para o successor uma terra arrasada, com
compromissos a cumprir e sem dinhei-
ro. Limitei-me a reproduzir o que ouvi,
pritica que sempre adotara em relaCio
a novos governantes no ParB: ouvi-los
e registrar suas promessas, programs
ou critics, ipsis literis, mal assumiam
o mais alto cargo ptiblico no Estado,
para depois cobrar o que haviam dito.
Ngo podiam alegar depois que eu os cri-
ticava sem dar-lhes o direito de voz (em-
bora acabassem por alegar exatamente
isso em alguns casos).
Apesar de se tratar de uma entrevis-
ta, na qual o reporter s6 tem a obrigago
de ser fiel ao que the foi dito, mesmo
quando a utiliza numa coluna assinada,
H61io Gueiros reagiu como um posses-
so. Agrediu-me e a Jader com pala-
vraes e expresses obscenas. Parecia
b~bado, ou demente, segundo a interpre-
tagio dominant. Ou calculadamente ef-
nico, no meu ponto de vista.
Entendi que fizera aquilo para me in-
timidar, e ao superintendent de A Pro-
vincia do Pard, Roberto Jares Martins.
H61io tivera o cuidado de enfiar a carta,
a mim enderegada, num envelope diri-
gido ao responsivel pelo journal no qual
entio eu escrevia. Como previra, Jares
ficou horrorizado ao ler a carta. Acha-
va que eu devia esquec6-la. Por isso
mesmo guardou a carta por todo um fim-
de-semana, s6 me chamando para 1C-la
na manhi de segunda-feira.


Depois de ter lido e relido duas vezes
a "coisa", que parecia forjada na mais
negra fossa, pedi-lhe para ligar imediata-
mente para o home que at6 dois meses
antes havia sido governador do ParB. A
assinatura, o tipo de m~iquina, o estilo e
at6 os erros de portugu~s (que eu passara
a conhecer no period em que escrevi o
Repdrter 70, a principal coluna de O Li-
beral, da qual H61io fora um dos redato-
res), tudo atestava a autenticidade do s6r-
dido document, o mais nojento que eu
jB havia lido na minha vida.
Jares relutou. Disse-lhe que se nio
ligasse eu ia naquele mesmo memento
B casa dos Gueiros cobrar satisfagoes.
"Mas li deve ter seguranga, tu nio vais
entrar", ponderou. "Ngo importa. Vou
IA", reagi. Ngo tinha mesmo outra al-
ternativa, a nio ser que fosse um co-
varde, um tfbio. Apesar de toda a lama
que usara na algaravia de ofensas da
carta, sem pejo por sua familiar (pela
minha, 6 claro, nho tinha a menor con-
sideraqio, apesar das ligaqaes entire a
minha familiar e os Moraes, da profes-
sora Terezinha, na Santardm que nos
deu origem), H61io foi al~m. Ameagou:
"Nio adianta fingir que tu nio recebes-
te nem leste esta porque estou tirando
xerox em abundlncia para distribuigio
aos teus leitores". Ou seja: nio satis-
feito em ser sujo, queria espalhar a su-
jeira aos quatro ventos.
Jares finalmente decidiu telefonar.
Avisei-o que acompanharia a conversa.
Ele autorizou. No fundo, n~io estivamos
acreditando naquela insinia. A profes-
sora Terezinha Gueiros atendeu, fez os
cumprimentos de praxe e passou o apa-
relho ao marido.
Jares confirmou o recebimento da
correspond~ncia e, numa mentira neces-
skria, ainda tentou uma said conciliat6-
ria: pediu autorizag~io para rasgar a car-
ta, sem entreg8-la ao destinatirio. Argu-
mentou que a carta nio era uma defesa,
mas uma ofensa. H61io retrucou: "Eu nio
estou me defendendo. Eu quero 6 ofen-
der. Diz para o Llicio que estou rompen-
do com ele. E guerra".
Desfeita a ligagIo, ficamos, Jares e
eu, largo tempo em sil~ncio, estupefatos,
procurando um caminho. Encontrei-o ali
mesmo, na solidariedade do amigo, que
ultrapassou todos os seus hibitos de cau-
tela e pudor para nio me deixar na mio:
decidi submeter a carta a pessoas de in-
teiraconflanga, ponderadas, experiences,
com posiq8es distintas na vida.


Ouvi oito pessoas. Uma delas, um
respeitado intellectual, hoje com mais de
70 anos, desistiu de continuar a leitura
na segunda linha, enojado e chocado.
Quatro me sugeriram enterrar o lixo.
Duas leram tudo diversas vezes sem
conseguir reagir ao estupor. Todas elas
foram consultadas sob o compromisso
da confidencialidade.


LI document mais sujo
Apenas uma, a lini-
;L- ca de fora de Be-
i4' 16m, ouvida com o
fato consumado,
reagiu mandando
i~c~v uma carta e autoni-
zando sua publica-
950 ("utilize minha carta como melhor
aprouver", assinalou num p6s-escrito).
Foi o almirante M~rio Jorge da Fonseca
Hermes, comandante do IV Distrito Na-
val ao tempo em que H61io governor o
Estado e, depois, chefe do Estado-Mai-
or da Armada brasileira, al~m de cida-
dio honorkrio do ParB, por titulo a si con-
cedido pelo legislative paraense.
Escreveu o almirante que o limiar
dos seus 65 anos nio lhe havia permiti-
do se deparar "com document t~io in-
fame", no qual encontrava "s6 podri-
dio". Custava-lhe crer que tal documen-
to tivesse partido "de uma pessoa que
tenha exercido tio elevados cargos pdi-
blicos em nosso pafs". Lamentava que
o ParB tivesse entire seus representantes
"individuo moralmente tio desqualifi-
cado", cujo ato, em "tho triste epis6dio",
s6 podia ser atribuido "a um estado de
demincia, que merece compaixio e cui-
dados medicos urgentes".
Mesmo imbuido dessa compaixio, en-
tendia 0 almirante que H61io Gueiros nho
possula mais "a condigio de apresentar-
se na qualidade de home pliblico ao
povo do Pard". E acrescentava: "Se hou-
ver um pouco de decencia no meio dos
seus correligion~rios, caber8 a eles alij8-
lo do convivio politico".
H61io Gueiros nio apenas nho foi ex-
cluido da vida pdblica paraense como,
no ano seguinte, se elegeu prefeito de
Bel~m, usando e abusando de velhos
truques politicos e de sua sordidez mo-
ral, que t~m efeito sobre um pdiblico de-
sinformado ou mal-informado, mas se
tornam menos eficazes em um ambien-
te no qual a luz result da elucidagio
dos fats que ele manipula.







JOURNAL PESSOAL EDIC/~O EXTRA/MAIO/2002 3


para tratar do favorecimento da Sudam,
comandada por Henry Kayath, ao estalei-
ro Ebal, onde um de seus filhos passara a
atuar formalmente como director t~cnico
(seguido por outro filho, que assumiria a
assessoria juridica). Apresentei ao gover-
nador todos os fats apurados, caracteri-
zando a rela~go de favorecimento. Na mi-
nha frente ele telefonou para Kayath eme
repassou as alegaqdes recebidas do supe-
rintendente da Sudam. Incorporei a incon-
vincente versito B primeira mat~ria de de-
nlincia que escrevi sobre a Ebal, publica-
da no ntimero dois deste jornal, da 2a quin-
zena de setembro de 1987.
Na esmagadora maioria das outras
conversas, quem as props foi o governa-
dor. Ao chegar a uma das primeiras, em
12 de maio de 1987, H61io Gueiros me
recebeu jogando um pedago de papel so-
bre a mesa: "VC o que o teu amigo me
aprontou". Era um telex. O Banco do Bra-
sil comunicava o bloqueio, naquele dia,
da cota-parte do Estado no fundo federal
para guitar a primeira parcela de um em-
pr~stimo de 20 milhdes de d61ares. Jader
fizera a operagilo tres dias antes de trans-
mitir a faixa ao seu successor (e ainda ami-
go, ao menos para consume externo), sem
carincia, em prestaqaes trimestrais. Nada
disse a respeito. "E um imenso papagaio",
protestou H61io, com toda razgo.
Sem citar a fonte, como 6 norma de
um off-the-record, dei a grave informa-
glio, que era um fato concrete, objetivo, e
a primeira reaqilo negative do novo go-
vernador ao esp61io recebido do amigo e
correligion~rio. Calado estava, calado Ja-
der ficou. Mas sentiu a cutucada.
Um outro chamado telefinico e 18 es-
tou eu no gabinete do governador, furan-
do a fila e provocando a ira de quem ti-
nha hora marcada (inquieto, chamava a
aten~gio de H61io, que abanava as miios,
indiferente B fila de audiencias: "deixa pra
li, vamos conversar", o brilho dos olhos
antecipando o prazer pela troca de infor-
maqaes e as "fofocas", como dizia, bom
papo que sempre foi).
Um outro papel. Era um levantamento
da Secretaria da Fazenda sobre o recolhi-
mento de ICM (antes do S, de social, apin-
dice artificial acrescentado pela Consti-
tuiglio de 1988 a um banco verdadeira-
mente elitista) do grupo Belauto, a em-
presa dirigida por Jair Bernardino de Sou-
za, "o home mais rico do ParB". O que
ele pagara de imposto em todo um ano
equivalia g comercializaglio de 11 carros
da sua revendedora Volkswagen.


Na entrevista do mis passado ao Dii-
rio do Pardi, o ex-prefeito parecia reco-
nhecer a pr6pria culpa ao classificar sua
carta de "injustificivel". Assim entenden-
do, registrei neste journal sua manifesta-
glio, a primeira desde entlio, porque sem-
pre evitou encarar o tema de frente nas
poucas vezes em que foi questionado a
respeito. Considerei encerrado episddio,
deixando-o a cargo dos historiadores, se
viessem a se interessar pelo caso. No en-
tanto, duas semanas depois, numa entre-
vista ao journal O Paraense, o ex-prefeito
de Bel~m, mesmo repetindo que n~io se
devia "Ijustificar o injustificivel", tentou
justific8-lo. Com novas mentiras.
Disse ter ficado chateado comigo,
"porque eu sempre dei muita atengio
quando governador ao L6cio Flivio.
Como governador eu ficava li horas e
horas li falando com ele, esclarecendo
tudo que ele queria. Ngo deixava ele it
embora sem responder a todas as per-
guntas dele. Horas e horas, duas, tris
horas. Af, nessas coisas ele vinha e co-
megava a citar coisas mirabolantes con-
tra o Jader. Af, apesar de eu estar meio
estremecido com o Jader eu dizia: isso
ntio 6 verdade, nito adianta, isso 6 nove-
la, o Jader nio 6 rico. At tudo bem: o
Jader assumiu o governor e o L~icio pas-
sou a ser o seu intdrprete. Ai era demais.
Af eu me zanguei. Niio deveria ter me
zangado, mas me zanguei".
Tudo isso 6 um amontoado de menti-
ras, como provarei em seguida, com a
convicqho dos que sabem que o mentiro-
so 6 mais f~icil de apanhar do que um coxo
(ainda mais se, al~m de mentiroso, 6 um
coxo moral). Talvez devesse seguir alguns
conselhos e ignorar a verborrigica male-
dicancia de H61io Gueiros, que n~io res-
peita a ningu~m, muito menos a verdade,
algo que niio faz parte da sua agenda.
Mas sua perfidia assumiu a forma de
document jornalistico, tornando-se fonte
potential de consult para os contemporC-
neos e os p6steros. Sua entrevista ocupou
duas piginas de journal. A refer~ncia que
me fez, apesar de caber num parigrafo,
mereceu do editor de O Paraense grande
destaque: 6 um dos dois "olhos" de todo o
texto. Naturalmente, porque sou uma per-
sonalidade muito important na political do
ParB, com poder, mandate e tudo mais.
Para abrir ao leitor do Jornal Pessoal
a possibilidade de passar ao largo do tema
sem perder a continuidade da cobertura
regular, decidi dar a resposta a H61io Mota
Gueiros numa edi~ilo especial. Nela, pos-


so me permitir expor mais longa e detida-
mente os fats. Espero que este seja um
ajuste de contas com a histciria, no qual
prevalece a velha regra dos confrontos:
quem for podre que se quebre. O momen-
to 6 apropriado, exatamente porque H6-
lio Gueiros pretend se apossar de mais
um mandate eleitoral, ludibriando a boa
f6 do povo paraense com sua labia de
mascate da mentira.


Sprivilbgio do rel
l,-~ Certa vez, enquanto
aguarddvamos para
entrar no esttidio da
TV Culture, onde
F~p~participarfamos de
~um program, a en-
tito primeira dama
do Estado, Terezinha Gueiros, corri sua voz
delicada, me deu um recado: eu devia dar a
devida importlncia is gentilezas do seu
marido para comigo. "O H61io te recebe,
conversa contigo, te diateno. N~io faz isso
com os outros jornalistas", observou.
Retraquei que a- digamos assim -de-
fer~ncia nito era ao cidadio Lticio Flivio,
mas ao jornalista, que procurava o gover-
nador para tratar de temas do interesse
coletivo, niio de assuntos pessoais. Tere-
zinha ouviu, mas manteve sua posigio, de
que eu era um privilegiado e devia fazer
o que fosse possivel para justificar essa
concession do governador.
H61io retoma o argument. Mas sem ra-
z~io. De motor prciprio, poucas vezes provo-
quei esses encontros. Na primeira vez, para
cobrar aresponsabilidade do governador no
retorno a Bel~m de Silas Assis, que daqui
safra para o AmapB atropeladamente, na
companhia de Haroldo Franco, depois de
ter inventado um atentado ao seu carro, es-
tacionado em frente ao journal O Estado do
Pardi (atual Didrio do Pari) e ao quartel da
Policia Militar, na rua Gaspar Viana.
O primeiro ntimero do Jornal Popu-
lar trazia um anducio do governor do Es-
tado. Cobrado a respeito, H61io respon-
deu que o andncio era gracioso. N~io man-
dara inseri-lo e nito o pagaria. Mas man-
dou e pagou, como verifiquei junto g as-
sessoria de imprensa. Seu apoio comerci-
al foi fundamental para que essa escro-
queria jornalistica se restabelecesse no
Park. Favoreceu-se dela e foi por ela atin-
gido, como 6 comum acontecer com al-
guns criadores de serpentes venenosas.
Da outra vez em que tomei a iniciati-
va de pedir audi~ncia ao governador foi







4 JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002


"Tu achas que o Jair s6 vendeu 11 car-
ros o ano mnteiro?", perguntava H61io, sar-
cistico, agitando o pedago de papel. Jair
era entlio o principal aliado de Jader Bar-
balho no mundo empresarial. Seu sbcio
por baixo dos panos, dizia-se. Deveriam
former uma dupla do barulho em 1990,
se Jair niio tivesse morrido, deixando parte
do esp61io nas m~os do amigo, aliado e -
quem sabe? s6cio. Transfer~ncia posta
em question, inclusive nas barras dos tri-
bunais, at6 hoje.


Estrat~gia da am big Gidade
~Num meio de tar-
e i" de de novembro de
o ~1987, outra cha-
mada do ajudante
de ordens do go-
i vernador. Era a
v~spera da chega-
da a Bel~m do president Jos6 Sarney,
acompanhado de Jader, jB ministry da re-
forma agrdria, ap6s uma sofrida abstinan-
cia de poder formal (que provocava a de-
Ifcia contida de Gueiros). President e
ministry vinham assinar a revoga~gio do
decreto-lei 1.164, de lo de abril de 1971
(8 data cabalistica!), que transferiu para
o dominio da Uniiio 65% das terras de-
volutas do Estado, por onde passassem
estradas federals.
H61io me pediu que the esclarecesse
o significado do ato, para o qual o novo
ministry o pressionara muito, querendo-
o present e radiante. Mostrei que era
uma esperteza de Jader. Quando deputa-
do federal, ele lutara pela indeniza~gio
federal ao Estado por conta do esbulho
fundidrio. Agora, a revogaglio do ato, in-
constitucional na essancia, se esta fosse
questionada judicialmente (a Carta Mag-
na de 88, com o texto jB aprovadlo ~ela
Comissio de Sistematiza~gio, iria refor-
gar essa garantia), seria feita na graga -
e ainda com direito a foguetdrio, para-
b~ns e guaran8,. como uma benesse de
Brasilia e uma conquista do ministry
paraense (embora limitada em relaglio ao
que a Constituigilo traria).
Com aquele seu risinho melifluo, H6-
lio deu sua aprova~bgli minha exposiglio:
"'Esse Jader 6 mesmo danado". No dia
seguinte, por~m, hi estava ele no Centur,
ao lado do president e do ministry, sau-
dando os dois estadistas com palavras di-
ametralmente opostas is que me disse ao
final da avaliaqilo do ato, intramuros. No
meu artigo, repeti exatamente tudo o que


lhe havia dito na conversa a dois (em tris
piginas do JP no 7, da la quinzena de de-
zembro de 1987).
At6 o rompimento aberto entire os dois,
a relagilo foi essa: nas conversas em off,
Jader niio prestava para H61io; nos dis-
cursos em pbblico, virava estadista. En-
quanto isso, eu era abastecido de infor-
maqaes relevantes, de verdadeiro interes-
se ptiblico, sobre os erros e irregularida-
des do primeiro governor Barbalho. Con-
firmadas no teste de checagem, as infor-
maq~es eram repassadas.
Enquanto isso, H61io iniciava uma guer-
ra de fancaria aos maraj~s e de defesa da
moralidade, projetando uma imagem de
seriedade contra o plano inclinado da ima-
gem em decomposigilo do antecessor, sem
precisar enfrenti-lo, nem mesmo tirando a
mascara de amigo e correligion~rio. Ain-
da mais porque comprou o apoio integral
da imprensa (inclusive, at6 um verto pon-
to, do Didirio do Pard, a quem sempre re-
servava uma verbinha, a despeito das cres-
centes alfinetadas do journal do ministry).
Ao me dar tanta aten~gio e me prodi-
galizar de informaqaes de algibeira, HC-
lio Gueiros estimulava a manutenglio do
papel que eu assumira ainda na metade
do primeiro governor Barbalho, de critic
dos seus atos (que o senador Gueiros
aplaudia entusiasticamente de Brasilia, de
copo armado para celebrar mais um brin-
de a brilhante administragIlo estadual).
Talvez se eu me tivesse mostrado sub-
misso a sutil advertancia da professor
Terezinha, se aparecesse no gabinete do
governador para fazer algum pedido pes-
soal, ou aceitasse como verdade prova-
da tudo o que meu interlocutor dizia, re-
produzindo integralmente suas palavras,
at6 hoje estaria na corte dos Gueiros e
niio teria sofrido o s6rdido ataque daque-
la carta nauseabunda.
Mas eu sou apenas uma coisa para fins
pdiblicos: jornalista. E um jornalista s6
merece esse titulo se niio se deixa embro-
mar, se niio se transform em menino de
recados, se nito 6 seduzido para acolitar
algum grupo de poder, se mantim seus
dentes trincados e se inspira respeito
(quando necessirio, medo) aos que algu-
ma coisa tam a esconder do pdblico.
Seguramente eu niio era confi~vel. Tei-
mava em checar todos os dados. Atirava
contra Jader, mas atirava tamb~m contra
H61io, a media que ele revelava a sua
face, o outro lado da mesma moeda bara-
tista de Jader Barbalho. O que as levava
ao conflito niio era uma divergbncia de


id~ias ou estilos diferentes de conduglio
do neg6cio pdblico, mas a circunstincia
irremovivel de que o butim do poder era
pequeno demais para duas quadrilhas,
digo, dois grupos politicos.
Tendo sido o responsivel plenipoten-
cidrio pela eleigio do senador Hdlio Guei-
ros para o governor, poupando-o at6 de
participar de magantes caravanas pelo in-
terior, Jader queria reciprocidade na elei-
glio seguinte, de 1990. Sabendo que se
aceitasse essa regra teria uma passage
fugaz pelo governor do Estado, H61io mon-
tou um plano para surpreender Jader Bar-
balho com seu prbprio candidate B suces-
slio, o doutor Henry Kayath, trazido de
volta ao Pard por Jader e por ele colocado
na superintend~ncia da Sudam.
Novamente comn o comando de uma en-
grenagem de poder, do qual foi colocado B
margem no Estado em 1964, pelos rec~m-
vitoriosos militares, Kayath partilhou com
H61io a certeza de que ambos s6 teriam ho-
rizontes politicos depois de 1990 se se re-
belassem contra o avalista do poder de que
entlio desfrutavam. Mas quando comega-
ram a montar sigilosamente seus ex~rcitos
para o inevitivel confront, jB encontra-
ram o esperto Jader Barbalho no campo de
batalha, de arma empunhada.
Mexendo os pauzinhos com o ministry
do Interior, Jolio Alves, Jader demitiu
Kayath da Sudam. Com um requinte que
atropelou a lei, mas serviu-lhe como luva:
demisslio a bem do servigo pdblico. Com
isso, Kayath se tornaria inelegivel. Ao
menos enquanto niio anulasse o opr~brio,
o que tenta fazer at6 hoje (com uma com-
pensaglio de cinco milhbes de reais de in-
deniza~gio, valor de tres anos atras, quan-
do comegou a demandar com a Uniiio atris
da repara~go civel para o dano moral).
Eu estava na porta do Pal~cio Lauro So-
dr6, naquela tarde, quando o doutor Kayath
chegou, bufando, mal havia sido informa-
do de sua demissbi. Estava descontrolada-
mente furioso. At6 entbi eu s6 o vira atris
de umafleugma verdadeiramente invejitvel,
um dominio das emogaes que realgava sua
intelig~ncia. Mas naquele dia ele fora gol-
peado mortalmente e de surpresa.
O governador tamb~m estava furio-
so. Abandonou as artimanhas da guerra
de desgaste e partiu para a arenga de rua,
deixando extravasar para o pliblico os
ataques que fazia a Jader sob o manto do
sigilo. TSroccu o florete pela baladeira
(batoque, para os oriundi) e o discurso
empolado pelo bate-boca de arquibanca-
da de campo de futebol.







JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002 5


Em nlimero posterior, este JP revela-
va as "faganhas empresariais" de Jader
na montagem do novo imp~rio de comu-
nicaqijes, tamb~m o tema de capa da edi-
950 da 21 quinzena de janeiro de 1990.
Num dos trechos da matdria, assinalei:
"A biografia de Jader Fontenelle Barba-
lho, confrontada com o patrim~nio que
formou, gera um estado de perplexida-
de". Na mesma edigio denuncio o super-
faturamento do pridio do INPS em Be-
16m, obra da passage de Jader pelo
Minist~rio da Previd~ncia Social, apro-
veitando para recorder outras acusagies
feitas contra ele no mesmo period.
Acho que estes exemplos slio sufici-
entes para demonstrar que nlio fui, nesse
period, um critic apenas en petite co-
mite" de Jader Barbalho. Malmente tinha-
mos relacqaes profissionais, quando ine-
vitivel. Em julho de 1990, devido ao ac6-
mulo de dificuldades, a comegar pelas
econ8micas, fui obrigado a suspender a
circula~gio do Jornal Pessoal, ji na 64a
edi~gio. Voltei g grande imprensa local,
escrevendo artigos duas vezes por sema-
na em A Provincia do Pari.
Mas tirei uma edigio especial do JP,
em setembro de 1990, para analisar a elei-
~gi daquele ano. Agi assim por nito que-
rer criar problems para a diregio do jor-
nal, que visivelmente, por detris de uma
aparente neutralidade, apoiava a candida-
tura Barbalho. Escrevi que o ex-ministro
"despreocupou-se inteiramente de defen-
der-se das acusaqiies de enriquecimento
ilicito, o mote preferido de seus advers8-
rios". Ngo se defendendo, "imprimiu seu
jargilo de campanha: Jader Trabalho. Os
inimigos e os mais cdticos deduziram a
sibilina moral da histbria, uma revislio,
modernizada pelo canibalesco marketing
politico, do rouba mas faz, lema legen-
dirio do paulista Adhemar de Barros".


JOmaliSITO Critico
Em janeiro de 1991,
SJader jB governa-
dor, na mais magra
vit6ria da sua car-
f-~Frareira political at6 en-
,~tio, conform res-
L~e saltei, voltei a edi-
tar um nlimero do Jornal Pessoal para es-
crever uma carta aberta ao cidadlio que era
empossado pela segunda vez no cargo. Res-
ponsabilizei-o por haver reduzido o Esta-
do "B pessoa de Jader Fontenelle Barbalho
e suas extensies familiates ou clientelis-


tas", tornando o ParB "a terra do neg6cio,
uma mentalidade tio disseminada que nem
mesmo voc8 [Jader] conseguiu dominar
todas as transag~es, inclusive algumas fei-
tas em seu nome e sem que vocC tivesse
'levado vantagem', como receitava o ex-
jogador de futebol Gerson, precursor do
neo-franciscanismo depravado dos Roberto
Cardoso Alves da vida".
Em que consistia essa permissividade
generalizada? "Comerciantes pagam, quan-
do muito, entire 10 a 20% do que deveriam
pagar de impostos. Empres~rios talvez re-
colham um pouco mais. As mediqbes dos
empreiteiros de obras pdiblicas atestam um
quinto ou um sexto do que efetivamente
executaram. Sem nenhum receio de exa-
gerar podemos dizer que dessas tr~s fon-
tes resultam mais de um bilhio de d61ares
sonegados aos cofres pdblicos. Vinte por
cento disso 6 dinheiro suficiente para com-
prar muita coisa. Niio espanta que fortu-
nas pessoais se formem na bifurcaqio dos
interesses particulares comn os do Estado.
E que este, o de maior potential da Fede-
ragio, condene-se g anemia, incapaz de
deter hemorragia que est8 aos seus olhos,
em seu pr6prio corpo".
Dispondo apenas da minha coluna em
A Provincia, comecei a preparar o langa-
mento do Bandeira 3, que devia ser um
semandrio conventional, com redaglio
coletiva e recebimento de antincios pu-
blicit~rios, um dos alvos da porcaria per-
petrada por H61io Gueiros. Nesse interim,
fiz a entrevista com o novo governador,
praxe de muitos anos. A conversa come-
gou tensa e dificil com uma queixa do
governador sobre uma mat~ria do JP, na
qual dizia que dinheiro do jogo do bicho
ia parar no caixa das obras socials da en-
tbt primeira dama, Elcione Barbalho.
Contrariando a reconstituigilo de Guei-
ros, depois da entrevista e da celeuma em
torno da carta perdi o espago que tinha
em A Provincia. Ora, se o journal era in-
formalmente barbalhista e eu um int~r-
prete do governador, como explicar a re-
cusa de A Provinzcia de continuar acolhen-
do meus escritos, que jB comegavam a
tocar em temas mais imediatamente in-
c6modos d empresa?
Em junho de 1991, dois meses de-
pois da fatidica entrevista e da carta por-
nogrifica, voltei a editar o Jornal Pes-
soal, ji fora de A Provincia. A matdria
de capa ("Circo ou plio") era ilustrada
por uma charge de Jader exibindo um
saco de dinheiro diante dos integrantes
da sua equipe, pensativo sobre o desti-


Menos verdade, portanto, nessa his-
tbria de horas e horas de atenglio para
me esclarecer e tolerbncia para com os
meus enredos mirabolantes sobre Jader
Barbalho. O intrigante era H61io Guei-
ros, o oportunista era ele, o falso tam-
bdm. Entio e agora. Sempre. E sua na-
tureza de escorpilio.


O ClafO O o SCUrO


Agora a outra par-
te da mentira. Diz
H61io Gueiros que
suas medidas es-
touraram quando
me viu assumir o
papel de int~rprete


;I


de Jader Barbalho, de volta ao governor,
depois de na sua version etflica hav8-
lo pintado de dembnio em nossas terttili-
as jornalisticas palacianas, mesmo enfren-
tando a incredulidade do interlocutor.
Sem mencionar as sucessivas mat~ri-
as em torno do crescente distanciamento
e estremecimento entire H61io e Jader, este
journal, na la quinzena de maio de 1988,
deu na capa o arquivlamento do "proces-
so do AurB" ("Um final sem moral"), cuja
chamada diz bastante sobre o contelido
do artigo: "Depois de quase quatro anos e
tras mil folhas de papel, o process do
AurA pode terminar sem conferir moral
ao que foi o maior esclndalo politico na
histciria recent do Estado do ParB".
Na edigio seguinte denunciava a
compra dos castanhais de Marabi, a
"transaglio agr~ria" que foi a capa do
ndimero posterior (da 1" quinzena de ju-
nho), com a chamada: "Em oito meses,
Jader Barbalho mudou completamente
a face do Minist~rio da Reforma AgrB-
ria, mais por atos de malabarismo polf-
tico e manipulaglio. Mas quanto custa-
rs essa conta? E quem a pagar8?". Se-
guem-se cinco piginas de critics.
O JP 37, da la quinzena de margo de
1989, abria com "Um novo escindalo" e
a seguinte chamada: "O governor pagou
547 milhaes de cruzados por 58 mil hec-
tares da Fazenda Paraiso. E possivel que
esse im6vel nem exista. Ou que a desa-
propriagho tenha atingido terras vendidas
pelo ministry Jader Barbalho. A um novo
'caso'?". Em mais de quatro pi~ginas, re-
velei, rigorosamente pela primeira vez (o
que os jornalistas chamam de "furo'q, uma
questlio que acabou chegando aos tribu-
nais e dando causa a um dos processes
contra o ex-ministro, ainda em cursor.







G JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRAIMAIO/2002


no a dar B grana. No texto, observava
sobre a nova administra~gio: "Um jor-
nalista que fizer a mais simples investi-
gaglio sobre nepotismo, irregularidades
funcionais, desvios administrativos e
negociag8es em gestaglio ficara preocu-
pado com o sucesso de um governor que
precisa ser cristalinamente distinto de
seu pnimeiro capitulo para nito ser aque-
la enfadonha e degenerescente repeti-
glio hist6rica denunciada por Hegel".
Nas ediq8es subsequientes, os temas
dominantes eram as apuragaes de irregu-
laridades na administragil anterior (ocul-
tadas por maciga propaganda official na
imprensa), o boicote do grupo Liberal a
Jader (at6 um acerto entire ambos no cai-
xa da empresa) e os rearranjos politicos.
Mas jB no journal da 2a quinzena de outu-
bro de 1991 alertava para o desmazelo (ou
calculado erro) na auditoria que o gover-
no pretendia fazer na gestlio anterior, a
falta de lisura nos procedimentos politi-
cos contra o antecessor e os primeiros es-
correg~es nos atos oficiais.
A edigio seguinte, da la quinzena de
novembro, abria manchete sobre oprimei-
ro escindalo da temporada, iniciada no
governor anterior e se ramificando jB na
administragilo de Jader, atingindo a Cel-
pa. O tema foi aprofundado na 1" quinze-
na de dezembro e ampliado em seguida.
Em maio de 1992 acusei o governador de
manipular a imprensa, usando para isso
verba da publicidade official. Em setem-
bro, mat~ria de capa lamentava que Be-
16m, a "cidade herbica", se tivesse trans-
formado numa frente de batalha do bara-
tismno, reencarnado em H61io e Jader.
Logo em seguida comecei a ser pro-
cessado pela diretora do grupo Liberal,
Rosingela Maiorana Kzan. Niouma, mas
cinco vezes, sempre pelo mesmo motive:
apontar o agravamento de diverg~ncias
ferozes entire ela e o irmlio, Romulo Mai-
orana J~nior, que persistem at6 hoje
(como, de resto, os processes, uma tenta-
tiva de desfazer, pela pressbi, fats que
acabaram levando g atual crise da empre-
sa, com desdobramentos ainda imprevi-
siveis, mas graves).
Em agosto de 1993, nito resistindo a
tantas atribulag~es, o JP fez nova para-
da. Voltaria em margo do ano seguinte
para, na cobertura da morte de M~rcio
"Rambo", levantar as associates do go-
vernador Jader Barbalho ao mundo do
crime, de cujos novelos resultara a con-
dena~gio do donor do garimpo de Castelo
dos Sonhos, fato que antecipei.


os do sensor comum, do empirismo e da
verso de segunda miio, tudo isso conta-
minado de imprecislio (quem conta um
conto acrescenta um ponto, alerta o adi-
gio popular). Contribui para seu Estado
adotivo repetir hist6rias da carochinha
como se fosseni verdadeiras, sem que
possam ser consideradas fantasias de pri-
meira linha. Como jornalista e politico,
Hdlio Mota Gueiros 6 um deseducador,
um mistificador e um aproveitador. Que
o seja. Mas nito impunemente.


AS muimias do baratismo
Ao consumer, duas
semanas depois,
-t C~FInas pjiginas de O
Paraense, o que
havia se recusado a
fazer quando inter-
rogado por Elias
Ribeiro Pinto, no Didirio do Pardi, justi-
ficando o injustificivel, o prop6sito de
H61io Gueiros 6 claro: agradar seu ex-
quase-futuro amigo de infincia Jader
Barbalho, encontrando um bode expia-
t6rio para suas culpas. No caso, eu.
Assim agindo, poderia atenuar o in-
c~modo de estar novamente ao lado da-
quele a quem chamou publicamente de
ladrlio, em 1990, recebendo como res-
posta o tratamento de babado e desequi-
librado e traidor. Se novamente Jader
Barbalho e Hdlio Gueiros estarlio de
miios dadas no palanque eleitoral 6 por-
que expulsaram de suas companhias
uma cidadli que tem nome certo e claro:
a dona moral. Com cinismo e imaginan-
do que o povo niio tem memdria, esque-
cem que o passado niio 6 apenas um aci-
dente, mas um element de prova. Quan-
do se acusavam, tinham razlio. Agora
que se defendem, mentem.
Na entrevista, H61io Gueiros diz que
niio vC nada demais nessa mudanga,
"vocC hoje estar numa posi~gio, amanhti
estar noutra posi~gio". Mas qual 6 o m6-
vel da mudanga? A roda da hist6ria e o
avangar da consci~ncia, comn o aperfei-
goamento politico, ou a mera negocia-
glio de interesses pessoais? Se Jader Bar-
balho era o ladrilo de 1990, o deminio
que cumpria expurgar da vida pdblica
paraense, elegendo Sahid Xerfan gover-
nador, qual a mudanga que fez H61io
Gueiros reembarcar na nau barbalhista
em 2002? Algum ganho para a socieda-
de, ou apenas os apenas terms de um
contrato particular de compra e venda?


U ma pratica nociva
pra Hg alguma coe-
~i~ rencia entire essa
trajet6ria jornalis-
~i~j- tica e o papel de
~ ~"intdrprete" de Ja-
der Barbalho, que
H61io Gueiros
agora me atribui, tentando justificar o
injustificivel, em mais uma de suas nu-
merosas contradiC~es? O leitor tem af a
resposta. Se quiser aprofund8-la, a co-
leglio deste journal lhe dar8 material su-
ficiente. Perco tempo nessa rememora-
~gl,, nesse esforgo pedag6gico da de-
monstraglio da verdade, empenhando-
me em contraditar uma pessoa destituf-
da de escrdpulos? Estarei dialogando
com uma porta, falando em moral a um
interlocutor amoral?
E verdade. Mas niio me dirijo a ele.
Meu alvo sito as pessoas que, seduzi-
das pela prosa fluente do jornalista
H61io Gueiros, pela sua t~cnica de bom
contador de "causos", tomam falsida-
des como verdades e deixam-se iludir
em sua boa f6. Gueiros personifica um
tipo de jornalismo (e de political) para
o qual uma boa versito vale muito mais
do que a verdade. A verstio 6 boa se
lhe serve de instrument, se o favore-
ce. Deve-se recobri-la com glac6 ape-
titoso para que gator seja engolido como
lebre. A retbrica substitui o contetido
do discurso. A hist6ria 6 apreendida de
segunda miio, por ouvir dizer, pelos
sucessivos diz-que-diz sem origem em
fats concretes e que acabam por
fazC-lo desprezado. Sabemos que um
povo, seguindo essa trilha falsa, che-
gar8 a lugar nenhum. Quero, com este
depoimento, dar minha contribuigio
para que tenha um destiny certo.
Nho se pode negar as qualidades que
Hilio Mota Gueiros possui. Ele escre-
ve bem. O artigo que escreveu sobre o
irmlio rec~m-falecido, o medico Zo~nio
Gueiros, provoca emoglio. Em 76 anos
de vida, gravitando em torno do poder,
como agent ou parasita, tem experian-
cia e conhecimento suficientes para gas-
tar em seus cometimentos jornalisticos,
adocicados com verve e humor. E um
cronista de apreciiveis virtudes, como
diria o Isaac Soares.
Mas niio 6 uma fonte conflivel dos
fats. Niio s6 por deliberadamente fal-
se8-los, mas, quando nito age de m8-f6,
por se basear nos problemiticos crit~ri-







JOURNAL PESSOAL EDICAO EXTRA/MAIO/2002 7


exploraqio do mangan~s de Serra do
Navio durou quase meio s~culo, exau-
rindo a jazida um pouco antes do fim
da concessio, de 50 anos.
Para um home que costuma ver as
coisas sem nitidez, os objetos embara-
lhados, a luz turva, a cor esmaecida e o
som amplificado, os gatos pardos serio
sempre pretos e a meia-verdade a ver-
dade absolute, quando vinda de sua
boca, um som que ele pronuncia com
esganigada Cnfase, mas que nho ouve.
Porque, quando diz as coisas contra al-
gu~m, 6 para ofender, nHo 6 para expli-
car. E para trumbicar que ele comunica,
ao contr~rio do que pedia Chacrinha, O
Velho Guerreiro.
Ofensa, foi o que escreveu naquela
carta miserivel. E 6 o que continue a
escrever at6 hoje. Enquanto o povo,
atrav~s do voto que Hdlio Gueiros pre-
tende voltar a disputar em outubro, pelo
mesmo PMDB que o expulsou do parti-
do, sob a acusagio de traidor, nio fizer
aquilo que lhe foi recomendado pelo no-
bre almirante M~rio Jorge da Fonseca
Hermes: expurgar H61io Gueiros da vida
pdiblica e o devolver A privada. De onde,
ali~s, nio devia ter said.


LOs documents

4-4-4Para o leitor de
Lf hoje ter uma id~ia
t: do artigo que es-
Screvi para A Pro-
vincia do Pard,
em abril de 1991,
que serviu de pre-
texto para a carta de Hilio Gueiros, re-
produzo-o na integra:
"O Estado gastou, apenas no primei-
ro trimestre, 85% dos recursos previstos
no seu orgamento para todo este ano. For
isso, o governador Jader Barbalho est8
preparando uma mensagem para reme-
ter a Assembl~ia Legislativa comn a su-
plementa~go orgament~ria. O valor des-
se acr~scimo ainda niio foi definido pela
Secretaria de Planejamento, encarrega-
da de fazer o levantamento, junto aos di-
versos drglios da administration estadu-
al, do quanto serl necesskrio acrescen-
tar para garantir as salvaguardas pdbli-
cas at6 o final de 1991.
A atualizagio do orgamento teria
que ser efetuada simplesmente por cau-
sa da erosio inflacion~ria, ji que as
projeqdes de julho/agosto do ano pas-
sado ficaram defasadas. Mas parte des-


Agora que lhe interessa, H61io Guei-
ros dB "uma desculpazinha" para Ja-
der, no quadro de omissio generaliza-
da dos politicos locals diante da extin-
Cpo da Sudam, "porque ele estava numa
angdstia total, num linchamento con-
tra ele", em fungo das dendncias de
corrupgho trombeteadas em unissono
pela imprensa nacional. Gueiros nio
lembra que a causa imediata da extin-
gio da Sudam foram os atos de corrup-
gio e improbidade de dirigentes da au-
tarquia (e suas extensaes, visiveis ou
camufladas), indicados ou avalizados
por Jader Barbalho.


O portunismo de sempre
Agora nhio inter~s.-
",;J sa essa lembranga.
~No future, na even-
7-+ tualidade de mais
ji uma "mudanga",
quem sabe? Para
prevenir a hip6tese,
6 precise manter um Jornzal Popular sem-
pre B miio (desde H61io Gueiros, todos os
governadores, sem excegio, incluido o
doutor Almir Gabriel, deram dinheiro
pdiblico a essa gazua em forma de letra,
oferecendo leite B fera com a mesma mio
que a criatura picaria quando a quantida-
de de dinheiro jB niio fosse mais conside-
rada suficiente).
O total descompromisso de H61io
Gueiros com a verdade, seu desrespeito
B inteligencia da opinikio pdiblica e o ci-
nismo militant que abragou o levam a
inventar outra justificativa para o injus-
tificivel: ele perdeu a elei~gio para o Se-
nado, quatro anos atris, porque nio ti-
nha dinheiro para a campanha. "Como
eu nho tinha dinheiro, quem tinha pas-
sou na minha frente", diz ele.
Omite o "detalhe" de ter escolhido
o filho como companheiro de chapa,
depois do grotesco papel que Hdlio
Gueiros Jr. desempenhou na interini-
dade do governador Almir Gabriel, for-
gado a entregar o comando por uma
grave cirurgia de emerg~ncia. Sonega
o "detalhe" das suas apariqaes debo-
chadas na televisio. Extirpa do enredo
o clima de "jB ganhou" que exibia no
program eleitoral gratuito, como se
sua eleiglio fossem favas contadas e ele
estivesse ali, enfadado, apenas para
cumprir tabela, como se diz em lingua-
gem de futebol, que ele sempre adota,
aliris, por motives populistas.


Comn a mesma sem-ceriminia, des-
prezando oacervo jBconsolidado de co-
nhecimentos sobre o passado, proclama
que nos governor de Magalhlies Barata
"ngo havia corruppgo" e que os politi-
cos nio trocavam de lado "por alguma
vantagem, alguma propina". O tenente
reformista que assumiu o poder no Pard
em 1930, empenhado em destruir o po-
der das elites "carcomidas" da Repdibli-
ca Velha no Estado, um inovador que
foi ao interior atris do correligion~rio e
do eleitor, ao inv~s de esperar na capi-
tal pelos votos recolhidos em currais
pelos corondis de barranco, transfor-
mou-se num soba, num d~spota, num
patrocinador de privil~gios, facilmente
manipulado por galanteios B sua vaida-
de prim~ria, num instrument de mano-
bra para arrendat~rios da miquina ofi-
cial, concession~rios do servigo pdibli-
co e aproveitadores de ilegalidades e ir-
regularidades toleradas, nito gratuita-
mente, 6 clato, como o jogo do bicho e
o contrabando.
Se Barata era pessoalmente hones-
to e nunca se beneficiou diretamente
do er~rio, as engrenagens de arbitrio,
viol~ncia e corrupSpo que se criaram
sob essa efigie (ou seria mais correto
falar em esfinge?) honorivel, usando-
a como arete, niio podem ser coloca-
das para debaixo do tapete pela verslo
utilitarista de um H61io Gueiros. No
seu depoimento sobre as 61timas 72
horas do home ao qual dedicou anos
de amor e amizade, sendo proscrita do
riltimo ato do companheiro pela port
de servigo da casa que at6 aquele mo-
mento partilhavam, g margem da resi-
d~ncia official, Dalila Ohana se quei-
xou at6 do roubo de um rel6gio de Ba-
rata por algu~m que acusou de "des-
cuidista", para dizer o minimo. Isto era
o baratismo, que o neoevangdlico HC-
lio Gueiros quer canonizar.
Falta-lhe autoridade para tal. Como
lhe falta, no ditar da histdria, aquilo que
o bom caboclo quer encontrar no caldo
que toma: substincia. Mesmo quando
segue um rumo certo, ele tateia na dire-
950, tripego, claudicante, como se esti-
vesse num daqueles niio poucos dias
de maior octanagem.
Criticando o extrativismo mineral da
Companhia Vale do Rio Doce no Pari
dos nossos dias, por exemplo, lembra a
explora~gio feita pela Icomi no AmapB,
"onde se explorou por uns 20 anos". Li-
geiro erro de cilculo do doutor H61io: a













































































Jornal Pessoal
Editor: Lficio FIBvio Pinto* Fones: (091) 241-7626 Contato: Tv.Benjamin Constant 845/203/66.053-040**-mal: )omal~amazon.com.br Produgao: Angelim Pinto Edig~o de Arte: Luizantoniodefariapinto


sa corrostio 6 atribuida g decisio de seu
antecessor de praticar uma political de
terra arrasada, passando ao successor
uma heranga terrivel.
A capacidade de endividamento do
Estado neste ano est8 comprometida. A
prioridade definida pelo governador 6 o
pagamento da folha de pessoal, que atra-
sou 11 dias neste m~s e dever6 sofrer
id~ntico retardamento no pr6ximo. E
para que a Secretaria da Fazenda possa
langar miio do fundo de participa~gio,
transferido pelo governor federal nesse
period. Os recursos pr6prios estaduais
jB niio cobrem o total da folha.
O custeio da miquina official ter8 que
ser mantido em nfveis abaixo do paddiio
anterior ou do desejivel por absolute fal-
ta de recursos. O governador tomou co-
nhecimento dessa indig~ncia quando re-
clamou de um texto apagado que man-
dou datilografar. Descobriu que o PalB-
cio Lauro Sodr6 jB niio tinha fitas de
miquina para substituir.
Passado o primeiro mis da gestio, Ja-
der se declara espantado com outras des-
cobertas. A mais impressionante 6 um
empr~stimo de 102 milh~es de d61ares,
tomado no final do ano passado junto a
ag~ncia do Banco do Brasil em Grand
Cayman, nas Bahamas. A explicaqlo
para o mist~rio de esse empreendimento
niio aparecer nos registros oficiais, nem
na mensagem enviada no inicio do ano A
Assembl~ia Legislativa pelo entlio gover-
nador H61io Gueiros, seria que a autori-
zaglio legislative foi obtida pelo pr6prio
Jader Barbalho em seu primeiro gov~er-
no. O dinheiro deveria ser aplicado na
hidrel~trica de Aparai, destinada a suprir
de energia os municipios da margem es-
querda do rio Amazonas, mas acabou
desviado de suas finalidades, servindo
para o pagamento de empreiteiros e sen-
dio aplicado no mercado financeiro. O
empr~stimo foi contratado sem prazo de
carancia e em 10 parcelas de vencimen-
to trimestral. A primeira venceu e foi
paga, ainda na gestlio anterior. A segun-
da niio foi paga. O Estado se vt obriga-
do a renegociar o empr~stimo por falta
de condiqaes para seu pagamento nas
condi95es definidas.
Outras surpresas estio surgindo no
exame dos contratos do Estado com em-
preiteiros particulares. Um dos casos es-


cabrosos, porque documentado, 6 o de
uma empresa com direito a receber 30
milhaes de cruzeiros, mas que s6 teve
acesso a metade porque um cheque ad-
ministrativo transferiu da conta do
BanparB 15 milh~es. A empresa anexou
c6pia do cheque com seu endosso, s6 que
falso. O mesmo esquema teria sido usa-
do em varias outras operac;8es.
Uma comisslio est8 fazendo a revisio
de todos os contratos, com atenglio para
o fato de que, apesar de uma lei draconi-
ana, 95% das licitaqdes foram dispensa-
das. Uma auditagem tamb~m se proces-
sa na Secretaria da Fazenda, devendo ser
concluida ainda neste mas. A diretriz es-
tabelecida 6 de que o combat B sonega-
gio elevar8 em 25% a receita estadual,
mesmo com a crise econ~mica. Delega-
do fazendArio que niio cumprir a meta
sera demitido. IEa tinica maneira que o
atual governor diz ter encontrado para
tentar recompor alguma capacidade de
investimento, sem o que consumir8 o seu
primeiro ano apenas tapando buracos.
O governador assegura que niio fica-
rB olhando para o passado, nem transfor-
mara seu cargo numa extensio de dele-
gacia de policia ou dos palanques eleito-
rais, cuja retdrica pretend esquecer.
"Quero fazer um grande governor pro-
mete Jader Barbalho. Por enquanto, 4
uma promessa" (grifo agora).
O que est8 escrito enquadra-se per-
feitamente em um artigo assinado. Re-
produz os terms de uma entrevista, des-
tacando suas parties mais importantes.
Dadas em primeira mito, as informagdes
mereceram destaque de primeira pigina
na edi~go do journal que publicou a mat6-
ria. O autor do texto nito assumiu o que
ouviu, nem recorreu a fontes an~nimas.
Retransmitiu o que lhe pareceu
grave nas declaraS~es
do entrevistado,
tendo o cuidado
de condicionar
as afirmativas,
relativizando-
as (e tamb~m
contextuali-
zando-as).
O ex-go-
vernador .-

ros teria to I ) uei


dos os motives para reagir se se conside-
rasse injustigado pelas declaraq8es doseu
successor. O que lhe caberia era desfazer
as afirmativas e esclarecer a opiniko pti-
blica, procurando caracterizar as inverda-
des e demonstrar as suas razies. Ao in-
v~s disso, como no mundo antigo, tratou
de matar o mensageiro das mis noticias,
responsabilizando-o pelo que nho queria
ouvir. Entremeando as 65 linhas da carta
que me escreveu, no mesmo dia, havia
desmentidos. Mas a ess~ncia eram pala-
vries, expresses chulas, grosseria. Nada
para explicar, mas para ofender. Tendo re-
produzido fotograficamente a carta no ori-
ginal na edigio Oinica do Bandeira 3, de
maio de 1991, nhio you me sujeitar ao
constrangimento de public8-la mais uma
vez. Ofenderia os leitores e a mim mes-
mo. Permito-me apenas transcrever a pri-
meira linha dessa carta abjeta: Llicio Fli-
vio, por que tu niio vais chupar o cli [as-
sim mesmo, equivocadamzente acentuado]
da puta que te pariu"?
Pergunto ao distinto leitor: vocC
seria capaz de comegar uma carta pdbli-
ca nesses terms? Reagiria ao que leu
acima com tais expresses? H8, dentro
de voc8, impulses que o fariam redigir
uma linha que fosse como essa, de H61io
Gueiros? Ao long de sua cart, ele con-
seguiu escrever 28 expresses vulgares,
chulas ou rasteiramente pornogrificas.
Revelou, sem disfarce, sem o verniz das
conveni~ncias, o que est8 no mais fundo
da sua personali-
dade. Quem ain