Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00233

Full Text



Torna CeSSOa
LUIjC IO F LA V IO P IN T O


ANO XV NP 284 2a QUINZENA DE MAIO DE 2002 RS 2,00

COBRE



Nlo apenas buraco?


O preside~nte da Reptiblica ~foi a Caraja's participar do langamzento do primeiro de
cinco projetos de cobre previstos para a area. No final, 2,5 bilboes de dd'lares tera~o
sido investid-os ali, proporcionando faturamwento annual die US$ 1, 5 bilba~o, quiase o
dobro da receita atual da f;JpT qute comanda os empr,~eelndimentos. Desta vez, ha
garantia ~dfltrr gque ficara para nds serai mais do que buracos?


? i?
i
I: Ib i
'8".
S1'
i


M~INRA A


DO SOSSEGO
PROMETEMOS:
AQUI NAO FICARA\ P5


(COBRE DEPOIS)_


II
:~gx~,jaEc;~-~?~~llI


N~o seu tiltimo ano de man-
Repliblica (pelo menos en-
quanto nio prosperar ne-
Nnhuma manobra continuis-
ta para mais uma reeleigio), Fer-nando
Henrique Cardoso foi, na semana passa-
da, g Serra dos Carajis, no coraqio do


ParB. Testemunhou um fato histbrico: o
fim das atividades daquela que foi, du-
rante os dltimos anos, a maior mina de
ouro do pafs. A mina do Igarap6 Bahia,
em plena selva amazcinica, destronou
aquela que se mantivera secularmente
como a maior produtora national de ouro,
a mina de Morro Velho, em Minas Ge-


rais, desenvolvida pelos ingleses. No
auge da sua produgho, o IgarapC Bahia
superou 10 toneladas anuais. Menos de
duas d~cadas depois, entretanto, a jazida
est8 se exaurindo.
Mas nho haveri muito tempo para la-
mentar. Atd o final desta d~cada, as en-
tranhas da maior provincia mineral do


3C~t~*S


CI~i~L1' 'L 1 C'






2 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO/2002


Talvez todo o concentrado que sair de
Carajils, a quase 800 quil8metros do por-
to de embarque, no literal do Maranhilo,
acabe seguindo para o exterior. O dnico
client no territ6rio national, a Carafba
Metals, na Bahia, pode continuar se abas-
tecendo de concentrado no Chile e no
Peru, ao inv~s de utilizar o mindrio bra-
sileiro. E provivel que 1he saia mais ba-
rato, mais c~modo ou de maior interesse
estrat~gico, por uma s~rie de fatores, ra-
ciocinios e conveni~ncias, que nito se
ajustam aos do produtor do min~rio por
raz~es demercado ou por ntohaver uma
political national do cobre.
O governor, sobretudo durante o regi-
me military (1964/85), tratava da impor-
ta~gl do cobre como um autintico en-
saio de Estado-Maior, tiio vital quanto a
andlise geopolitica sobre a Argentina, o
vizinho e rival de sempre. Agora o go-
verno se apresenta como o carimbador e
avalizador das decisaes empresariais, que
responded pelas iniciativas nesse setor,
no viicuo da presenga official.
O que resta dela se realize atravbs do
cr~dito official: comn participates de
50% e 33%, o BNDES (Banco Nacio-
nal do Desenvolvimento Econ~mico
Social) 6 acionista de dois dos cinco
projetos de cobre. Banca as despesas
pr6-operacionais e empresta suas cre-
denciais a viabilizagho dos empreendi-
mentos, mas pode sair (e sairii) quando
o neg6cio assumir tal configuragilo, pro-
vando sua lucratividade para outros par-
ceiros, se isso for do interesse dos gru-
pos privados. Era outro o centirio quan-
do a CVRD tinha origem tiio estatal
quanto a do banco. .
Esse movimento pendular (o produto
amazbnico indo para o exterior e o con-
sumidor national importando produto do
exterior) foi caracteristico do meio s~cu-
lo de extra~gio do mangan~s do AmapB.
Uma jazida de tamanho mundial foi le-
vada a altas escalas de produglio enquanto
o teor de min~rio sustentou o fluxo de
exportaCio. Empobrecida a reserve,
entrou no circuit national de produgio
at6 chegar g exaustlio antes de findar o
prazo da concessito. O Amapti que restou
depois que 50 milhdes de toneladas de
mangan~s foram mandados embora, se
nito 6 tiio pobre, provavelmente tem mais
problems do que antes,


Hoje, a CVRD diz que estli dando pri-
oridade ao concentrado e nito ao catodo
de cobre porque as condigaes do merca-
do international slio mais favoriveis ao
primeiro produto do que ao segundo.
Apenas das jazidas de Salobo e do 118
poder8 resultar metal. Niio exatamente
porque seja uma deliberada opglio eco-
n~mica, mas por causa das caracteristi-
cas especiais do minbrio, que praticamen-
te inviabilizam a concentra~gio.
A Vale 6 agora uma empresa priva-
da (ou semiprivada, em funglio das
amarraqdes societtirias, que, em tese,
ainda conferem o poder formal aos fun-
dos federals de pensIio, uma caixa pre-
ta que s6 agora estil sendo aberta). Suas
decis~jes slio demarcadas pela busca do
lucro. Se ela diz que 6 mais rentivel
ficar numa etapa intermeditiria do pro-
cesso de produgho, ao inv~s de com-
pletar a verticalizaglio, ao menos na sua
primeira etapa, atC o metal, deve ter
suas fortes razies,
Tanto que se desfez de uma parceria
com a americana Phelps Dodge, no apro-
veitamento da jazida do Sossego, e se
mostra disposta a recomprar a parte de
outro s6cio, a Anglo American, maior
produtora de metals preciosos do mun-
do, na jazida do Salobo,. Mas pode estar
raciocinando com parimetros de lucro
imediato e segundo suas prbprias conve-
niancias de agora definitivamente -
multinacional.
Num pafs para o qual o cobre sempre
foi uma fonte de problems e dor de ca-
bega, 6 precise ajustar o prospect pri-
vado ao pano de fundo do interesse cole-
tivo. S6 tardiamente se descobriu que as
razbes da Icomi para mandar para o ex-
terior o m~ximo volume possivel de man-
gan~s, alegando a inviabilidade de co-
mercializil-lo no mercado interno, niio
eram exatamente ditadas por regras de
mercado ou por cillculo de ponta de 18-
pis, mas por interesses unilaterais do
comprador. No caso do cobre, qual o
papel do interesse national na compati-
bilizaqilo com o interesse particular?
Aparentemente, secundilrio, decorative.
A opiniiio pdiblica tem dado pouca ou
nenhuma atenglio a essa segunda gera-
glio de minas de Carajiis, uma hist~ria que
comecgou claudicante, entire ceticismo e
descrenga quanto g riqueza da jazida, e


planet jik estarlio oferecendo ouro sufi-
ciente para dobrar a produglio alcang~a-
da ali mesmo, em Carajits. Niio numa
mina individual, como a do Igarap6
Bahia, mas em conseqilancia da extra-
Cgio de um outro min~rio, o cobre. No
entanto, mesmo com potential pnara 20
toneladas anuais de ouro, como subpro-
duto da lavra em quatro das cinco mi-
nas, que podertio ser exploradas na ser-
ra paraense, nas quais esse mindrio esti
associado ao ouro, a produglio local fi-
car8 abaixo da metade desse referencial
e bem mais abaixo ainda do pique
registrado na mina ji em exaustio, visi-
tada por FHC.
A explicapilo para esse paradoxo, evi-
dentemente, nito foi dada durante a sole-
nidade organizada pela Companhia Vale
do Rio Doce para marcar o inicio da im-
plantaglio do primeiro dos cinco proje-
tos de cobre previstos para Carajils. Mas
6 flicil compreendt-lo. Em apenas dois
desses cinco pr~ojetos a atividade produ-
tiva chegarti ao metal de cobre. Em tr~s
deles a intervenglio do home na natu-
reza consistirik em aumentar a concentra-
glio de cobre na rocha.
Nas condiqaes naturals, o cobre con-
tido nas jazidas 6 de 1% ou pouco mais.
Comn esse percentual, nito tem interesse
commercial. Recorrendo a agents quimi-
cos e energia, cria-se um produto (o con-
centrado) com teor de cobre de 30%,
aproximadamente. O problema 6 que
quem produz o concentrado cede o ouro,
a prata e o molibd~nio, elements mine-
rais associados que s6 podem ser separa-
dos industrialmente na fase metallirgica.
Essa fase, que agrega mais valor ao
produto, seril realizada fora das frontei-
ras do Paril, onde estlio as ocorr~ncias
minerals, e mesmo do Brasil.
A partir de 2004 Carajis comegar8 a
produzir concentrado de cobre. Quatro
anos depois, se o cronograma apresen-
tado pela CVRD for cumprido, todas as
minas estarlio em produqilo. O Brasil po-
der8 ocupar, entlio, posiqilo de destaque
no mercado international, entire o 3o e
5o lugar. Essa subida vertiginosa no
ranking mundial, entretanto, niio o tira-
ril necessariamente da condiCio de mai-
or importador de cobre do continent,
que the impae um gasto annual de divi-
sas de 300 milhdes de d61ares.






JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO 3


agora se transform num memento de
grande importincia.
O capitulo do cobre em Caraj~s pode
atC nao render os ganhos que poderia pro-
porcionar se ele se encaixasse numa po-
litica de desenvolvimento, mas seu tama-
nho reclama pela aten~gio do pafs. No fim
da d~cada, as cinco jazidas proporciona-
riio faturamento equivalent a 1,2 bilhio
de d61ares, quase dobrando a atual recei-
ta mineral da CVRD no Pari, depois de
absorver investimento de US$ 2,5 bi-
lhdes, dos quais US$ 1,5 bilhilo da pr6-
pria Vale (o equivalent a um ano de ven-
da de mindrio de ferro, mangan~s, ouro,
aluminio e alumina extraldos do ParB, o
segundo principal Estado minerador do
pafs, em procedimento para ultrapassar
Minas Gerais).
Isso nho 6 pouco. Seria o bastante para
merecer a aten~gio dos que se interessam
pela definiglio dos rumos do Brasil, as-
sociando esse future g incorporaglio da
fronteira amaz~nica, sobre a qual estio
dispostos a desfraldar as maiores bandei-
ras, se o que lhes couber no enredo for
apenas o papel de porta-bandeiras,
A lavra do cobre vai criar, como sub-
produto, o maior volume de rejeito da
hist6ria da mineraSio na Amaz~nia, com
o agravante de se tratar de escbria con-
taminada quimicamente. Em conseqli-
Cncia, esse seril o maior problema eco-
16gico decorrente da extraglio de
mindrios. S6 da mina do Sossego serio
descartados todos os anos mais de 13
milhaestle toneladas de material estC-
ril, dos quais 1,5 milhilo contertio pro-
dutos qufmicos t6xicos.
Esse 6 apenas o impact sobre o meio
ambiente, que desta vez precisa ser bem
equacionado para niio acarretar desagra-
diveis surpresas no future. Os efeitos so-
bre a economic, por~m, sectio expressivos
para um conjunto de atividades que ird
gerar uma renda quase tras vezes maior
do que a arrecadaglio prbpria do Estado.
Imagine-se o que significaria essa nova
onda de mindrios em Caraj Bs se ela viesse
nito para reeditar as priticas colonials do
passado, dos velhos models de enclave,
mas para inaugurar uma nova era, na qual
o resultado da atividade produtiva fosse
nito os buracos abertos B cata de min~rios,
mas desenvolvimento. Niio s6i ret~rico. D~e
verdade.


Depois do caderno sobre o progra-
ma de macrodrenagem das baixadas e
da veiculagilo sistemitica de an6ncios
da administration Almir Gabriel, deixou
de haver ddvida de que O Paraense 6
um porta-voz niio official do governor (e,
por extensito, um arauto da candidatura
de Simlio Jatene B sucesslio de Almir).
Pode nito acarretar qualquer macula as-
sumir esse papel, desde que a attitude
passe a ser explicit.
A administration Capiberibe susten-
tou a Folhza do Amapd, editada por El-
son Martins da Silveira, um jornalista
de important trajet6ria na imprensa re-
gional, que deu apoio explicit ao go-
verno do PSB no Estado vizinho (eh
candidatura senatorial do jB ex-gover-
nador). AdministraqZ~es do PT espalha-
das pelo pafs, inclusive a de Bel~m, sio
os principals (ou quase iinicos) anunci-
antes da revista Caros Amzigos. Indo
mais al~m, o Pravda foi o porta-voz do
Partido Comunista en-
quanto existiu a Uniio
Sovi~tica. O co man-
dante Fidel Castro fala
(e como fala) por meio
do Granmla.
Em 1982, Jader Bar- Er;'
balho criou o Didrvio do
Pardi porque O Liberal,
que sempre lhe abriu as .
portas, atrav~s de H61io 1 I
Gueiros, Newton Mi-
randa e do pr6prio Ro- 4
mulo Maiorana, fechou
compromisso com a
candidatura rival de q
Oziel Carneiro, a partir
de um entendimento
mais amplo, avalizado
por Jarbas Passarinho.
Precisou de um journal
de partido. O Didirio
sobreviveu k necessida-
de conjuntural da elei-
glio de 82, mantendo-se
atC hoje. Mas nito is '8 ;
origens, que o estigma-
tizaram como porta-
voz dos interesses do


ex-senador. Cmo acontece em toda
eleiglio, o journal voltou a ser vefculo de
partido.
O Paraenlse surgiu em situaqilo an8-
loga. O governador Almir Gabriel con-
ta atualmente com o apoio do grupo Li-
beral. S6 que ele nho 6 nada gratuito,
muitissimo pelo contr~rio. Nem 6 incon-
dicional. Pode, por caprichos de prima
donn~a, ou por conting~ncias de caixa,
descambar para a critical.
No Pal~cio dos Despachos tem-se
como provivel que a folha dos Maio-
rana vB aderir a candidatura dissidente
do vice-governador Hildegardo Nunes.
Mesmo que a ameaga niio se consume,
por~m, o custo da simpatia de O Libe-
ral pode sair cara, em dinheiro e em
exigo~ncias que soam descabidas aos ou-
vidos do governador. Ele niio esquece
da estranha pesquisa divulgada pelo
journal no dia da elei~gio municipal de
2000, que jogou uma pB de cal na can-
didatura de Duciomar
Costa. Niio sem sua
serventia, alias.
Da mesma maneira
i* como a inclinagilo por
Hildegardo pode nito
Spassar de jogo de pr-es-
shio, o explicit enfilei-
aL ramento do governor ao
lado de O Paraense,
dando-lhe suporte para
que possa existir, pode
nito chegar is vias da
pereniza~gio. Mas se as
j4. :condicionantes escapa-
rem is previsaes ou ex-
trapolarem as expecta-
tivas, novos mecanis-
s19~: mos podem ser postos
em pritica. Ao inv~s do
"'?;'if~tyilJI armisticio, o pass se-
guinte ao "apresentar
armas" 6 capaz de ser a
guerra. Niio muito lim-
pa, nem se tornando o
bom combat sugerido
por Slio Paulo. Ser a
b ~6~"9~i~j quando os gatos pretos
se reveladio pardos.


Ar mas a va sta






4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO/2002


_q I_


1~


)' uei


Miss
Foi concor-rido o conlcurso "Miss Elegante Bangu do Pardi eml 1958, realizadlo nlo "g-Llrane salc~o dar sedec
social da Assemlbld'ia Par-aenlse, nla avenrida Presidenzte Vargas (ainlda coml apare~ncia para sereml conlside-ra-
dlas, amblas, "ar-istocrc~iticas "). Pela prdpiria AP conlcorr-eramz Lia Fideza de Melo e Mar~irna Costar. As candli-
dlatas dlo Clube do Remlo foramtr Gracce Solino e Cleidle Autr-an. Disputaramrl pelo Jdqluei Clube Llicia Caindidar
de Azevedo (dlepois Meira) e Marialba Oliveira. E pelo Audtomdv~el Clube, Edn~a Azevedlo e Lais Farah.


Terreno
Foi em 28 de janeiro de 1955 que
a Assembl~ia Legislativa do Es-
tado autorizou a Prefeitura de
Bel~m a doar ao entlo Banco de
Cr~dito da Amazinia (hoje, sim-
plesmente Banco da Amaz~nia)
um val ioso terreno na avenida 15
de Agosto (atual Presidente Var-
gras). O banco se comprometia a
construir no local um edificio
"'que niio poderri ter menos de 10
andares e deverfi ser iniciado den-
tro de 18 meses, no m~ximo".
Passados quase 570 meses, o
terreno permanece baldio e m,-
vel de uma dispute inconclusa
entire a prefeitura e o Basa.


Radio
Os ouvintes da R~dio Clube do
Parlj, a PRC-5, "a voz: que fala e
canta para a planicie", ifder de
audiencia, tinham, em 1958, tris
radio-novelas para ouvir: ao
meio-dia e meio era "Angdistia".
As oito da noite vinha "Madale-
aa Um pecado feito mulher".
U~ma hora depois era a vez de "E
se ela voltasse". Pessoas mais
sensiveis podiam dormir entire Ii-
grimas ou suspiros romfinticos.


Elestorado
Na eleiglio de 1958 estavam ca-
dastrados 274.580 eleitores nas
35 zonas eleitorais do Parji. Na
capital e~ram 82.625 eleitores, dos
quais I1.701 em Icoaraci e Mos-
queiro. Em menos de meio s~cu-
lo, crescimento de mais de 10 ve-
zes. Mais um reforgo g tese de que
o grande desafio para o desenvol-
vimento do Parti 6 humane. Ou
seja: a capacidade de selecionar
e organizer o apr~oveitamento dos
seus vastos recursos naturals.
Crescimento demogrifico, atra-
vis, principalmente, da migra~gio,
6 o que niio falta. On at6 excede.
Como demonstra a evoluglio do
extrcito de eleitores.


Biblioteca

Em agosto de 1958 a diretoria do
Clube do Remo, na 6poca presi-
dida por Alcindo Nova da Costa,
inaugurou a Biblioteca "Dem~trio


Miss Eleganlte Bangu dlo Brarsil, Mar-ia S~rnia dle Aradjo, foi a
"arragdo especialmlente convidcada". O roqlue musical foi dado pelo
manestro Gurides de Barros. O tranje "der rigor" foi exigidlo does parti-
cipanrtes da festa. A renlda serial r-evertida em1 benleficio dlo Clr-so
Pestalozzi, destinadlo aos excepcionlais.


cagas e alvarengas da Petrobrits e
levadas para a capital acreana, de
onde par-tiriam no rumo da nova
capital federal. Arepresentante em
Belim da inddstria americana era
a Cimaq (Companhia Paraense de
Mriquinas), que, como de regra,
nho existe mais.


Emergencia
O quadri motor- Constellation-Su-
per-H era um dos maiores, mais
possantes e mais bonitos avides
rodando pelos ares do planet em
1960, q~uando um desses apare-
lhos, a ser-vigo da Real Aerovias,
fez um pouso de emerg&ncia no
aeroporto de Val-de-Cans, em
Belim. Foi na madrugada de um
domingo de agosto daquele ano.
O problema, pane em um dos
motors, s6 foi resolvido as nove
da noite, quando o v8o, Miami-
Rio, foi retomado. Durante esse
period, os 36 passageiros tive-
ram que ser precariamente aloja-
dos em viirios hospitals da cida-
de. Os poucos hot~is existentes na
ainda langorosa cidade das man-
gueiras estavam lotados. Acomo-
dagies foram arranjadas no Gran-
de Hotel, o melhor de entlio, ape-
nas para os 10 integrantes da tri-
pula~gio, por motives mais do que
6bvios. Os passageiros, porim,
chiaram muito.


Faze nde iros
Ainda poderosos, os fazendeiros
do Maraj6 faziam todos os anos
sua pilcoa. Na v~spera havia pre-
paragilo spiritual para o ato reli-
gioso do domingo, realizado na
capela do Coldgio Nazard, inva-
riavelmente pelo arcebispo de
Beldm. Em 1960 a comisslio pro-


motora era formada pelos casals
M~rio e Alberina Teixeira, Chiu-
dio e Arlete Dias, Domingoos e
Dita Acatuassil, Nestor e Juraci
Bastos, Guilherme e Maria Alice
Cardoso, Howard e Eliana Steg-
mnann, Armando e Altair More-
11!, Irval e Zinda Lobato, e Orlan-
do e Maria Amtlia Costa, mais as
senhoras Leonor Baena Monard
e Georgina Boulhosa de Morais.


Declara~gio
Joana Cavalcante Lima, mais co-
nhecida como "Mosa", dona de
uma das mais freqilentadas e fa-
mosas pensbes da velha Zonana",
no centro de Beldm, viu-se obr-i-
gada a divulgar na imprensa, em
margo de 1963, uma digamos
assim notaa official Nela, de-
clarava, "a bem da verdade, que
nunca detratei ou ofendi a labor-i-
osa classes dos motorists, a quem
r-eputo composta de homes dig-
nos e honr-ados". "Como prova",
assinava embaixo.
Bem Beldm.


Eng en haria
Em 1963 o Direte~rio Acad~mico
de Engenharia da Universidade
do Parti (ainda com a sigla UP)
decidiu criar o Curso "Albert
Einstein", sob sua responsabilida-
de, preparat6rio ao vestibular da
pr6pria Escola de Engenharia. O
professor de ffsica era Ramiro
Bentes; o de matemlitica, Tito
Cardoso; o de qufmica, Joelzio
Bahia; e o de desenho, o ainda
acad~mico H61io Dourado. O cur-
so funcionaria no Coldgio Naza-
rd. A nota de andincio da criaqilo
foi assinada, em nome da direto-
ria do diretdrio, pelo futuro en-
genheiro Geraldo Tuma Haber.


Paiva", numa das salas da sede
social remista, na avenida Naza-
rd. Onde estarlio os livros?


Orquestra
A Orquestra Sinfi~nica do Pari,
se viva fosse continuea, agora
com o titulo de Orquestra Sinf6-
nica do Teatro da Paz?), vai com-
pletar 60 anos de existancia. Ela
foi fundada a 6 de agosto de
1942, pelo maestro Manoel Be-
larmino dia Costa. Seu primeiro
concerto foi no dia 25 de mar~o
do ano seguinte, no Teatro da
Paz, sob a batuta do seu funda-
dor. Entre outros, seguiram-no
como maestros Nin7o Gaionni, do
Teatro Scala, de Millio, e D. Pli-
cido de Oliveira, regente sacro
do IMosteir~o de Stio Bento.
Depois de viirios anos para-
da, a Orquestra voltou a se apre-
sentar em agosto de 1959, para
comemorar seus 17 anos. Era
entlio formada por 41 mlisicos,
sendo 20 violinos, 2 violas, 2
violoncelos, 4 contra-baixos, 1
flauta, I oboC, 2 clarinetas, 2
trompetes, 2 trompas, 2
trombones, I tuba, I timbale el
bacteria. O maestro era, de novo,
Belarmino Costa.


Estrada

Em junho de 1960 passaram por
Beltm, a caminho de Rio Branco,
10 tratores e carregadoras Allis
Chalmers. As miiquinas seriam
utilizadas na abertura da segunda
estrada de liga~gio do Brasil comn a
Amazinia, a Brasilia-Acre, que
sucederia a Belim-Brasilia, inau-
gurada um pouco antes. Trazidas
atC Bel~m em navios de cabota-
gem, foram reembarcadas em bar-


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JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO 5


F'TI CT$URaA P RECI OS s




ReMEDIo SOBERANO NO FAST: /o, c ot /CA S
fNDI~ TC~ES.S O/A RRHAS, OdRES DA MrA DRE,
SALIVaA("O, EMPACHcAMENTO, DORES OO ES-
. TOMA 6O. VOM/ TO 5 NER VOSOS, O YS;PPS/A,
G;ASTRALGIA, SUSPENSAG ORREGRiA, E~TC.

A'~ VENDl NA S PRINT C/PA ES


Pi


O cura-tudo

Num paisde bipocondriacos, a
Tin~ctura Preciosa Jorio Victal, j
venda nas principals
phazrmncicias e drogarias da
cidade, em 1955, faria sucesso.
Afinal, era um "rem~dio
soberano" tanto no combat ao
fastio quantogs "dores da
madre", enfrentava do
"empachamento"' A suspensiono
de regora", da saliva~glo aos
"v6mitos nervosos". Niio
satisfeito, combateria o "etc. ,
se aparecesse. Na pecga de
divulgagilo. uma fada se
encarregava de extrair o frulto
da salide da firvore da natureza.
Quem resistia?


Zepellin ao tucupi

O flagrante 6 r~aro, de um Zepellin qlue colidiu
com uma mangueira da avenida Nazard, entr-e Rui
Barbosa e Benjamin Constant. Os zepellins sobre
rodas foram uma criaqilo exclusivamente paraense
da d~cada de 50. Sobr~e chassis de caminhlio era mon-
tada a estrutura de um qluase autintico dir-igivel, que
chegou a constituir uLma fr~ota ur-bana. Eviden te men-
te, para' circular niio nos ctus, mas nas ruas com pa-
vimentagilo de pedras de gr~anito importado, os pa-
r-alelepipedos, que anteceder-am o asfalto e recebe-
ram os tr-ilhos dos bondes, primeiro a traglio animal
e, em seguida, eldtr-icos. Era um progralma "bem"
circular nos inibus estilizados atravis das princi-
pais arltdrias da cidade, sobr~etudo aos domingos, comn
a familiar, todos se espalhando pelos assentos cober-
tos com pano blanco. Seria um program eur~opeu,
niio houvesse o calor e as chuvas a lemnbrar aos pas-
sageiros onde se achavam.
Este zepellin niio teve sor-te: o motorist perden a
direcgio, quase derrubou a ainda delgada mangueira?
(devidamente "estilizada", com uma pB de cal no tron-
co, h maneir-a de polainas, qlue horrorizariam consci-
&ncius ecol6gicas) e depois, como se diz na crinica
policial, evadiu-se. Cinco passageiros ficar-am feri-
dos, um emn estado grave, tal a viol~ncia da colislio.
Atrds do zepellin passa um Bnibus com~um da
epoca (da "Linha no" l", de Slio Braz), com carro-
ceria de metal e madeira, construida aqui mesmo,
tambim sobr-e chassis de camninhlio, e uma lona pr~o-
tegerno aI parte sulpe;rior do veiculol dos tmraicio-
nais aguaceiros de Beldm. Que ainda era uma ci-
dade com perfil pr6prio, um territdrio do
sincretismo e da aculturaglio luso-indigena quase
a margem da identidade n~acional.






G JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAlO/2002


vam sua parte mnaior em loteamentos concebidos,
executados. "medidos" e "demarcados" nas
pranchetas de desenhistas. Quando eles propri-
os niio "fabricavamn" seus titulos ptiblicos.
Claro: haveria problemnas na hora em que o
titular do papel fosse a campo ver sua proprie-
dade, deparando com ocupantes estabelecidos hi
muito tempo na area ou simplesmiente verifican-
do que outros titulos se superpuniham aos seus,
ou, talvez, que ao inv~s de terra firme o que Ihes
cabia eram iguas de rios. Nesses momnentos cada
vez mais fr~eqiientes de litigio, pela forma irres-
ponsavel de concession da terra, a prova dos nove
foi acertada comi sangue. Muito sangue.
Centenas de conflitos depois, em 1975 o go-
verno do Pari criou um institute especialmente
para tratar da question de terras, o Iterpa, comn o
compromisso de p~r fim a trjgica tradigao da
compra por requerimentos, na qual o particular
era o element ativo da hist6ria e o poder ps-
blico o coadj uvante passive, inerte. omnisso ou
conivente. O Estado amazinico de mais inten-
sa ocupaclio is se modernizar, atualizando suas
praticas a um mundo comn dominio cartorial, car-
togrifico, juridico, agronomico e, agora, geo-
referenciado do seu patrim6nio fundiario. Ao
inv~s do leillio clandestine e dos loteamentos
de faz-de-conta, a alienaqCto se terras se faria
comn procedimentos tecnicos: discriminat6ria.
mediglio, demnarcaglio. licitaglio, pianos de apro-
veitamento, control sobre o uso, cobranga
legal, clausulas resolutivas.
Logo esses compromissos se perderam no
horizonte de uma noite de verilo, levados pelos
ventos oceinicos que ainda varreml Belem, onde
estli a sede do Iterpa. No mes passado o institu-
to expediu 57 titulos de terras, todos incidents
sobre o municipio de Jacareacanga, onde se ex-
pande uma das mais recentes e agressivas fren-
tes de penetraglio econ~mica no extreme sudo-
este do Par6, umna das ultimas areas virgens da
margem direita do rio Amazonas. Passaram do
patrjim~nio publico para o dominio particular,
atrav~s dessa titulaglio, mais de 106 mil becta-
res de terras devolutas.
A familiar Breda se tornou dona de quase 12
mil hectares, gragas ao artificio de upresentar
al guns de seus integrantes comno requerentes de
cinco lotes. Todos com pouco menros de 2.500
hectares, por umn motive: para que a venda nao
tivesse que ser submetida ao Senlado Federal.
Com seus tris lotes, os Miyazima dispoemn agora
de quase 7 mil hectares de terra. Os Tavares,, de
5.400 hectares.
Como de outras vezes, o Estado dira em sua
defesa que esses colonos ja estavam na terra. ja
a haviamn desbravado, nelas montaram unida-
des produtivas, abriram acesso ao mercado e es-
tavam precisando apenas da legailizaglio dos
seus dominios. Obtido o titulo de propriedade.
viio crescer ainda mais, gragas ao acesso ao cre-
dito banctirio e outras operaqdes que exigemn a
garantia real do imn6vel.
E o discurso que acompanha a poeira, o
fogo, a motossecra e o "38" (o ainda popular
"'tris-oitao") na transformagilo da A mazian ia ge-
agrafica emn fronteira econimica. E o asfalto que
pavimenta a estrada da boa inten~gio no caminho
da desvastafjio. Assim temn sido e assim. depois
de um certo intervalo, voltou a ser. Sera sem-
pre?


Ate a abertura das primeiras estradas, no
final da decada de 50, quebrando o isolamen-
to fisico da Amnaz~nia em relaglio ao restante
do Brasil. as terras da regiao valiam muito mais
pelo seu uso do que como mercadoria. A es-
magadora maioria dos detentores de proprie-
dades rurais estava interessada exclusivamnen-
te no aproveitamento da floresta, coletando
seus frutos, ess~ncias. resinas e seivas. Os "co-
roneis de barranco" se consideravam dons de
determinado territ6rio. base para seu extrati-
vismo vegetal (da castanha, de borracha, da
balata). e ponto final. Nao se media, niio se
demarcava e pouco se transacionava comn o
imovel. A Amaz~nia era um mundo sem fimn,
valendo por seu uso e pouco como reserve de
valor ou meio de troca.
As estradas pioneiras da integragio national,
como a Belem-Brasilia e a Brasilia-Acre, trou-
xeram consigo o mnercado modern. O dinheiro
conseguido com a venda de um hectare de terra
nlo sul do pals dava para comprar 7, 8, 10 ou mais
hectares na Amazania. Uma propriedade con-
prada a prego de banana no Para podia ser inte-
gralizada ao capital de uma empresa de mercado
de Slio Paulo por varias vezes mais.
Essa multiplicaqilo contabil e financeira per-
mitin ao empreendedor privado apresentar uma
contrapartida inflacionada artificialmente, sem ti-
rar dinheiro do proprio bolso, como contraparti-
da aos incentives fiscais do governor quando co-
meCou1 a febre de colaboragito financeira official
aos "projetos agropecuarios" como forma prefe-
rencial de ocupaglio produtiva da maior frontei-
ra de recursos naturals do planet.
O primeiro das centenas de projectss agro-
pecuarios", o da Codespar (Companhia de De-
senvolvimento do Sul do Pard). foi aprovado em
1965, quando essa political ainda era coordenada
pela SPVEA (Superintendincia do Plano de Va-
lorizagao Econdmica da Amazonia). Mas a
"onda" das fazendas de criaglio extensive de gado
de corte atingin o grau de febre depois da cria-
glio da ja extinta Sudam7 (Super~intend~ncia do
Desenvolvimnento da Amnazinia), em outubro de
19)66. S6 em 1969, o "pico"' da corrida pecuaria,
a Sudam aprovou a imnplantagilo de mais de 70
fazendas (tamanho medio de 30 mil hectares).
Umn dos resultados desse favorecimento foi
a especulaglio fundidiria. Comn informagilo privi-
legiada, empresas ou pessoas se antecipavamn ao
tragado de uma rodovia comprando terras por
onde ela iria passar. No agodamnento, verificou-
se que determinados titulos de propriedade fazi-
am referencia auma rodovia que s6 passaria pelo
local ap6s a data da expedigio do documnento.
Comno isso era possivel? Pela capacidade de o
investidor (ou especulador) externo (sob as rou-
pagens her6icas de pioneiro) se antecipar ao
Estado. ou substitui-lo.
Ainda moldado pela logica do extrativis-
mo, o poder public. em matdria fundiaria, nito


passava de carimbador de papeis e escrit6rio
imobilitirio, limitando-se a legitimar e sacra-
mentar a iniciativa dos "'coroneis"'. Passada a
pri mei ra decada repu bl ican a, q uan do o gov er-
no local tentou promover um projeto de colo-
niza~gio. assumindo algum poder de iniciati-
va, a partir dal sua funglio foi a de colar es-
tampilhas em papeis que cedia para formali-
zar os atos de particulares poderosos. Tiio po-
derosos que um desses "corondis", Jose Jiulio
de Andrade, tinha em seu cofre um titulo de
propriedade, da Fazenda Saracura, que media
um milhilo de metros lineares de funds a
partir da margem esquerda do rio Amazonas.
On seja: atravessava a Guiana, um pafs estran-
geiro, e teria seus limits sobre o mar.
Registros estapafurdios como esse dormi-
am preguigosamente nos registros de im6veis
das comarcas do interior e mesmo em cart6ri-
os da capital. Os dominios desses autinticos
senhores medievais, mesmo quando exercidos
sobre rios inteiros e suas bacias, niio eram con-
testados, ainda se lhes faltassem medifges e
demarcaFaes regulars que os consolidassem.
Nilo s6 pela capacidade que tinham os "coro-
ndis", dons da vida e da morte, de aplicar boas
sovas aos recalcitrantes, comno porque a 16gica
do extrativismo conferia a terra mais valor de
uso do que de troca.
A situagao mnudou quando valores de merca-
do comegaram a ser con frontados e avi vados -
pela possi bi lidade de uma soc iedade anin ima do
sul poder incorporar capital fundiario para mul-
tiplicar seus ganhos, inclusive (e sobretudo) os
especulativos, saindo na frente no aproveitamen-
to dos beneficios fiscais e tributarios criados pela
Unilio. Ai se desencadeou uma frente avassala-
dora. No que, emn mattria de hist6ria, se poderia
definir como um piscar de olhos, o que era uma
fronteira aberta conv~erteu-se na regiao comn o
maior indice Gini de concentraglo da proprieda-
de da terra.
Onide havia um Cden fuindiario surgiu, de si-
bito, um7 quadrilatero de imensas propriedades,
so eventualmente intercaladas por alguma "so-
bra de terra"', onde se confinou o posseiro (ori-
ginalmente um native ou um migrant deriva-
do, que deu de cara comn a porteira fechada pelo
proprietario rec~m-chegado e caiu na vida da
posse comnpuls6ria).
Mal dava entrada na Secretaria de Terras,
Obras e Viaqilo (posteriormente, Secretaria de
Agricultura), o requerimiento de comlpra de ter-
ras se transformava em moeda. Antes que o po-
der puiblico expedisse o titulo de propriedade
(provis6rio ou definition), aquele papel jli havia
circulado por maitas miios, indo de pessoas ffsi-
cas a empresas organizadas. O governor, ainda
com mentalidade extrativista, se limitava a co-
brar suas taxas e emolumentos, enquanto parti-
culares, em seus prdprios escritdrios, eamanuen-
ses inescrupulosos, em suas repartigbes, ganha-


~~ ~~S I I (~ I(~ [~






JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO 7





Energia: monocultura



da agua na Amazonia


A jgua C o principal ativo de curto, midio e
long prazo da Amaz~nia, que tem estocado em
sua bacia quase 20% de todo o volume hidrogr8-
fico do planet. Mas esse valioso capital estl sen-
do descurado. Por enquanto, sua mais rentivel
aplicaglio 6 na gera~gio de energia. A segunda
maior hidrelitrica em funcionamento no pafs
aproveita as figuas do rio Tocantins, que drena
uma firea equivalent a 8% de todo o territdrio
brasileiro. O Tocantins jB chegou a verter 60
milhies de litros de figua por segundo, em sua
maior cheia, registrada em 1980, no local onde
foi levantada a enorme barragem de Tucurui, 350
quilimetros a sudoeste de Bel~m.
Grande parte do potential hidrdialico rema-
nescente do Brasil se concentra na Amaz~nia. A
regi~io passou a existir de fato, para a hidreletri-
cidade national, em 1984, quando entrou em ope-
ragilo a primeira das 12 gigantescas turbines da
usina de Tucurui, que responded, sozinha, por
mais de 8% de toda a produglio energ~tica brasi-
leira. Hoje, apenas na bacia do Araguaia-Tocan-
tins, tras hidrel~tricas jjl estlo em operagilo. Atd
o final da d~cada, poderilo ser 10 ou atC mesmo
14, dependendo da reaqilo do produtor privado
ao novo modelo do governor federal, que lhe de-
legou competincia e lhe abriu mercado. Mesmo
somadas, essas usinas serlio de tamanho equiva-
lente j de Belo Monte, a primeira hidrel~trica
projetada para o rio seguinte, o Xingu.
No seu balango referente ao exercicio de
2001, divulgado na semana passada, a Eletrobris
registra o saido de 125 milhbes de reais investi-
dos em seis inventiirios de cinco bacias hidro-
grfificas amazcinicas nas quais espera construir
barragens para aproveitamento hidrel~trico: dos
rios Madeira, Tapajbs e Trombetas, alim do
Araguaia-Tocantins (com destaque ao mtdio
Tocantins) e Xingu. Isso sigonifica que transfor-
mar a correnteza dos rios em energia continuard
a ser o uso priorittirio da figua. Ou linico.
A figua 6 responstivel por menos de 20% da
energia usada no planet. No final da pr6xima dC-
cada essa participaglio deverfi baixar para menos
de 5%. Nos paises mais desenvolvidos o percen-
tual poderti ser, nessa 6poca, 10 vezes menor, de
0,5%. No Brasil, portm, a hidreletricidade ainda
responded por mais de 80% da energia que abaste-
ce o pafs. Esse indice jit esteve acima de 90%.
Mesmo com o incremento de outras fontes,
sobretudo o glis, a figua ainda contribuirli com
muito mais do que metade de toda a energia bra-
sileira dentro de 20 anos, se os que optaram e
que ainda esperam poder continuar a optar -
conseguirem fazer novas barragens em rios da
Amaz~nia. Da regillo ainda podiam vir quilo-
watts suficientes para dobrar a atual produgio
energ6tica national.
Consideram absolutamente natural e deseji-
vel a expansito da hidreletricidade no rumo da
fronteira de figuas, por enquanto deixando ao lar-
go dessa cobiga justamente o maior rio do mun-
do. O Amazonas chega a ter uma descarga de


230 milbies de litros de Bgua por segundo. Esse
volume, que o torna um petisco energttico para
os "barrageiros", 6 tamb~m a causa da impossi-
bilidade de energizli-lo.
Na d~cada de 60 o futurdlogo Herman Kahn
pensou, atravis do seu Hudson Institute, de Nova
York, em construir uma barragem de baixa queda
no ponto em que o rio 6 mais estreito, a altura de
Obidos, no ParB, onde tem dois quilimetros de
largura por uns 100 metros de profundidade. Da-
ria para gerar ali 100 mil megawatts, quase o do-
bro do que se produz atualmente no Brasil. Mas o
lago artificial que a barragem formaria a montan-
te seria tio grande que provocaria um deslocamen-
to de peso da Terra, afetando seus movimentos no
espago e em torno de si mesma.
Rio Amazonas a parte, a energia que pode ser
extraida a partir dos seis inventirios realizados ou
em cursor na regillo seria o suficiente para assegu-
rarr, pelas pr6ximas duas d~cadas pelo menos, a
primazia da energia de fonte hidritulica na matriz
energttica do Brasil, comn todas as conseqilencias
desse modelo.
Nosso pafs seria tiio excepcional que nele
nito se aplicariam os motives que deram causa
a perda de expression da hidreletricidade em
todo o mundo, com especial destaque no cha-
mado Primeiro Mundo? La, cada vez se pensa
menos em barrar rios para produzir energia
porque isso acarreta grandes impacts ecol6gi-
cos e exige enormes investimentos, tanto para
levantar as estruturas de concrete que acumu-
lar~o figua e a fadio correr para as turbines,
como para transmitir a energia gerada para os
centros consumidores. Por um detalhe geogri-
fico relevant: os rios que ainda podem ser bar-
rados encontram-se em fireas distantes, naque-
les poucos pauses que ainda t~m fronteiras para
ocupar, nenhuma com a combinagilo de tama-
nho e significado que tem a Amaz~nia.
Nos Estados Unidos, um pals do mundo rico
que pode ser comparado ao Brasil, a era da ener-
gia hidrtiulica praticamente acabou. Ainda hfi rios
com caudal que comporta barramentos para fins
energtticos, mas uma contabilidade mais sofis-
ticada da relaglio custo/beneficio inviabilizou a
acumulaglio de ggua para uso energt~tico no que
resta de saudilvel no sistema hidrogrifico ame-
ricano. O grande desafio dos irmlios do Norte,
agora, 6 se livrar do poluente carviio atravts de
alternatives energtticas mais limpas. Ou, se essa
busca ameagar o ritmo do desenvolvimento, com-
prar esponja antipoluiglio na forma de floresta
de outros pauses para absorver o lixo adreo do
seu gigantismo industrial.
JB o Brasil teria que manter em ritmo acele-
rado o program de constru~gio de hidrelitricas
na Amaz~nia para tirar proveito dessa diga-
mos assim vantagem comparative? Sendo uma
regilio tfpica de fron~teira, a Amazinia estaria ao
largo dos fatores que agem restritivamente ao
aproveitamento dos rios como fonte de energia
em outros pauses?


Uma resposta positive igonora todo o avango
da consci~ncia mundial sobre a construglio de hi-
drel~tricas, sobretudo mega-aproveitamentos
como os de Tucuruf e Belo Monte, com seqiielas
que s6 slio descartadas entire n6s em funglio da
mii apropriaqilo que se faz da relaglio custolbe-
neficio. Mesmo que esse inus seja deixado de
lado, por~m, qual o efeito de aproveitar efetiva-
mente o remanescente hidrel~trico national que
estli contido na Amazinia?
Poderfi ser o agoravamento da concentra~gio da
riqueza, se o pafs estiver disposto a gastar muito
dinheiro para levar a energia gerada na distant
Amazinia at6 os pblos consumidores, no Centro-
Sul (percurso de 3.300 quilimetros no caso da
hidrelttrica de Belo Monte, ao custo de 2,8 bi-
lhaes de d61ares s6 na transmission, mais os US$
3,7 bilhies na geracgio). Outra conseqii~ncia pos-
sfvel, em sentido inverse, seria estimular ainda
mais a concentration de indi~strias eletrointensi-
vas na regilio, como as fjibricas de aluminio da
Albrits, no Part, e da Alumar, no Maranh~io, que,
para se instalarem na jungle, exigem incentives
(em 20 anos, as duas flibricas, as maiores do con-
tinente, tertio consumido um subsidio energttico
equivalent a dois bilhies de d61ares).
A gravidade dessas questies, mantidas com-
pletamente B margem da agenda de debates, au-
menta no memento em que o governo chama em-
presas privadas para atuar como autoprodutores
de energia, privatizando a figua e canalizando os
beneficios para um gruIpo que, al~m de restrito,
se tornarit ainda mais privilegiado.
Afinal, esse 6 um modelo de desenvolvimen-
to ou de subdesenvolvimento? haveria de per-
guntar o chapeleiro malu~co, pela pena de um
Lewis Carrol verde.
Tudo isto sem entrar no Limbito de uma qlues-
tilo ainda mais stria: a substituigio de um modo
exclusivista ou monopolists de usar a figua pelo
que hii de mais modern, mais ajustado ao es-
tado da arte em mat~ria de rigua, cada vez mais
escassa no planet, que 6 o uso mli1tiplo e, se
possivel, mais nobre desse bem precioso para a
vida humana.
Esse novo estigio, umn enredo em- busca do
seu autor, como um personagoem -tropicalistica-
mente becketteano, exigiria dar- consistincia
real i~s normas formats da rec~m-editada (e ain-
da pouco aplicada) legislagio sobre ilgua. Ela
exige a instala~glo de comitis de bacia e um pla-
nejamento mli1tiplo para o uso da terra, coman-
dado nito por uma empresa setorial ou uma
ag~ncia restrita, e muito menos ainda por uma
empresa privada, mas por uma autoridade legf-
tima e acatada por todos, se nito por aceitaglio,
pelo menos por imposiglio legal em, proveito
do pafs e da regilio.
Quando chegaril esse estlgio? Jri af quem ha-
veria de perguntar seria Hamlet, que, como sabem
muito bem os leitores de Shakespeare, era um prin-
cipe mais dado j ddvida elucidativa do que o prin-
cipe que atualmente nos gooverna.















































































lomfll Pessou~l


gio sobre hjbitos e costumes,
al~m de apontamentos sobre
edifica95es e monumentos. O
doutor Clbvis se foi e a
curiosidade persiste. Seus li-
vros, a despeito de um certo
travo acad~mico, por-Cm, per-
duraram como um testemunho
quase Linico sobre o largo pe-
riodo do qual ele participou e
serviu, depois, como testemu-
nho precioso.


H ist6 ria
Nas minhas andangas ma-
tinais pela cidade, percebi que
virios pr~dios particulares
completarito seu primeiro s6-
culo de existancia neste ano de
2002. Sio edificaqaes surgoidas
no auge do monop61io amaz6-
nico da borracha, refletindo
uma 6poca na qual havia di-
nheiro suficiente para atualizar
arquitetonicamente uma
cidade ainda provinciana. Da
constatagilo me surgiu uma
id~ia: a prefeitura podia cr-iar
uma esp~cie de pr-~mio perma-
nente para todas as edificapies
que se tornassem seculares
(com, no minimo, 100 anos).
O proprietirio teria direito
a um ano inteiro de isenglio de
IPTU. Para isso, por~m, sua
casa precisaria estar bem con-
servada ou ele se comprome-
teria, atrav~s de document
com forga de lei entire as par-
tes, a cumprir um plano de res-
tauraglio ou conservac;lo que a
prefeitura lhe entregaria. A
PMB se encarregaria de dar
divulgagilo ao fato, conferin-
do tamb~m uma medalha ao
premiado. Ao final de cada
ano, a administration munici-
pal publicaria um filbum com
as fotos das edificagdes cente-
n~rias e um hist6rico delas,
publica~go simples, mas de
valor documental.
Talvez ~assim, o poder pdi-
blico de miios dadas com o
particular, se conseguisse man-
ter em dia a escritura arquite-
tinica da hist6ria de Beldm.


Insensatez
A desmemdria da impren-
sa paraense, que se tornou in-
capaz de produzir obitu~rios
compativeis comn a expresso
dos personagens da vida pdibli-
ca do Estado, explica o cons-
trangimento pelo qual passou
a familiar do medico Zo~nio
Mota Gueiros, relatado por seu
irmlio, o ex-governador Hilio
Gueiros, em sua li1tima coluna
semanal no Didirio do Pardi. A
morte de Zo~nio nio foi inclu-
ida no registro da TV Liberal
porque, segundo a explicaqlo
dos dirigentes da emissora, ele
niio seria merecedor do que, na
6tica dos responsiveis pelo
noticidrio, seria uma
defer~ncia.
Trata-se de dupla injustiga,
cometida nito s6 pela TV Li-
beral, ali~s, mas por toda a
imprensa local, que ignorou ou
minimizou o assunto. O dou-
tor Zo~nio foi uma pessoa afit-
vel, cordial, atenciosa e pres-
tativa. Duvido que um jorna-
lista tenha tido motives de
queixa no relacionamento com
ele, sempre disposto a ajudar
rep6rteres a cata de informa-
95es. Acho que nho cometeria
uma descortesia dizendo que
ele foi o melhor dos Gueiros.
Presume que deva ser um con-
senso na familia-
Aldm disso, Zo~nio Guei-
ros foi tfpico representante de
uma 6poca em que, apesar de
tudo, a sa~ide pdblica recebia
alguma aten9Ro do governor (Bs
vezes, a devida aten~gio). As
pessoas mais jovens nio po-
dem avaliar o que os "mata-
mosquitos" representaram para
gera95es de paraenses, tanto os
da capital quanto do interior.
O guard sanittirio batia em
todas as casas, mesmo as mais
distantes, inclusive as mais
hostis, coletando sangue para
antilise e borrifando DDT para
eliminar ou afastar o mosquito
agressivo. Nio s6 garantia uma
herdica rede de protegio


epidemiol6gica (rasgada
quando a insensibilidade da
burocracia em Brasilia
suspendia os recursos financei-
ros, provocando um dano de
dificil reparagilo), como era a
fonte das melhores estatisticas
regionals.
Durante muitos anos o dou-
tor Zo~nio foi parte ou coman-
dante dessa engrenagem, re-
presentada pela Sucam (Supe
rintendencia de Campanhas de
Satide, derivada de um comba-
te mais especifico, B malaria,
a doenga de maior amplitude
social na Amazinia). Como
regra, os funcionfirios da
Sucam eram profissionais
dedicados e pessoas abnega-
das. E~sses m~ritos nunca foram
devidamente reconhecidos
institucionalmente, embora a
popula~gio dedicasse aos,
"mata-mosquitos" um carinho
especial. Afacada final veio na
administragilo Collor, quando
essa estrutura foi desmantela
da e o governor quase se tornou
pracista de plano privado de
salide.
Nessa nova situaqio, niio 6
de estranhar que um persona-
gem de um mundo condenado
ao desaparecimento nito seja
considerado "noticitivel". Nem
por isso, entretanto, devemos
aceitar as regras desse vaude-


ville de insensatez eignorincia.
Neste jornalzinho, o doutor
Zoinio Mota Gueiros ter8 o que
nito lhe 6 favor, mas direito de
conquista: nosso agradecimen-
to enosso louvor por sua fecun-
da passage por esta terra.


Memciria
Menos injustigado do que
seu colega Zoinio Gueiros foi
o medico Cl6vis Meira. Ele
ainda ganhou um registro de
sua morte, ocorrida na mesma
semana. Mas nada aaltura dos
seus mdritos. Membro de uma
das mais tradicionais familias
do Estado, Clbvis Meira con-
seguiu combinar uma face de
elite, com a qual desenvolveu
pendores intelectuais, a uma
face mais popular, como mC-
dico do servigo ptiblico. Gra-
gas B sua discipline, aplicapilo,
acuidade e mem6ria, deixou
para aposteridade ricos levan-
tamentos sobre a hist6ria da
medicine no ParB, al~m de va-
liosos depoimentos sobre a
vida de Beldm.
Lendo suas agradilveis cr6-
nicas sobre a infincia e a ju-
ventude numa cidade ainda
isolada do restante do pafs,
sempre tive curiosidade de sa-
ber como ele armazenara tan-
ta pequena e deliciosa informa-