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Torna CeSSOa LUIjC IO F LA V IO P IN T O ANO XV NP 284 2a QUINZENA DE MAIO DE 2002 RS 2,00 COBRE Nlo apenas buraco? O preside~nte da Reptiblica ~foi a Caraja's participar do langamzento do primeiro de cinco projetos de cobre previstos para a area. No final, 2,5 bilboes de dd'lares tera~o sido investid-os ali, proporcionando faturamwento annual die US$ 1, 5 bilba~o, quiase o dobro da receita atual da f;JpT qute comanda os empr,~eelndimentos. Desta vez, ha garantia ~dfltrr gque ficara para nds serai mais do que buracos? ? i? i I: Ib i '8". S1' i M~INRA A DO SOSSEGO PROMETEMOS: AQUI NAO FICARA\ P5 (COBRE DEPOIS)_ II :~gx~,jaEc;~-~?~~llI N~o seu tiltimo ano de man- Repliblica (pelo menos en- quanto nio prosperar ne- Nnhuma manobra continuis- ta para mais uma reeleigio), Fer-nando Henrique Cardoso foi, na semana passa- da, g Serra dos Carajis, no coraqio do ParB. Testemunhou um fato histbrico: o fim das atividades daquela que foi, du- rante os dltimos anos, a maior mina de ouro do pafs. A mina do Igarap6 Bahia, em plena selva amazcinica, destronou aquela que se mantivera secularmente como a maior produtora national de ouro, a mina de Morro Velho, em Minas Ge- rais, desenvolvida pelos ingleses. No auge da sua produgho, o IgarapC Bahia superou 10 toneladas anuais. Menos de duas d~cadas depois, entretanto, a jazida est8 se exaurindo. Mas nho haveri muito tempo para la- mentar. Atd o final desta d~cada, as en- tranhas da maior provincia mineral do 3C~t~*S CI~i~L1' 'L 1 C' 2 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO/2002 Talvez todo o concentrado que sair de Carajils, a quase 800 quil8metros do por- to de embarque, no literal do Maranhilo, acabe seguindo para o exterior. O dnico client no territ6rio national, a Carafba Metals, na Bahia, pode continuar se abas- tecendo de concentrado no Chile e no Peru, ao inv~s de utilizar o mindrio bra- sileiro. E provivel que 1he saia mais ba- rato, mais c~modo ou de maior interesse estrat~gico, por uma s~rie de fatores, ra- ciocinios e conveni~ncias, que nito se ajustam aos do produtor do min~rio por raz~es demercado ou por ntohaver uma political national do cobre. O governor, sobretudo durante o regi- me military (1964/85), tratava da impor- ta~gl do cobre como um autintico en- saio de Estado-Maior, tiio vital quanto a andlise geopolitica sobre a Argentina, o vizinho e rival de sempre. Agora o go- verno se apresenta como o carimbador e avalizador das decisaes empresariais, que responded pelas iniciativas nesse setor, no viicuo da presenga official. O que resta dela se realize atravbs do cr~dito official: comn participates de 50% e 33%, o BNDES (Banco Nacio- nal do Desenvolvimento Econ~mico Social) 6 acionista de dois dos cinco projetos de cobre. Banca as despesas pr6-operacionais e empresta suas cre- denciais a viabilizagho dos empreendi- mentos, mas pode sair (e sairii) quando o neg6cio assumir tal configuragilo, pro- vando sua lucratividade para outros par- ceiros, se isso for do interesse dos gru- pos privados. Era outro o centirio quan- do a CVRD tinha origem tiio estatal quanto a do banco. . Esse movimento pendular (o produto amazbnico indo para o exterior e o con- sumidor national importando produto do exterior) foi caracteristico do meio s~cu- lo de extra~gio do mangan~s do AmapB. Uma jazida de tamanho mundial foi le- vada a altas escalas de produglio enquanto o teor de min~rio sustentou o fluxo de exportaCio. Empobrecida a reserve, entrou no circuit national de produgio at6 chegar g exaustlio antes de findar o prazo da concessito. O Amapti que restou depois que 50 milhdes de toneladas de mangan~s foram mandados embora, se nito 6 tiio pobre, provavelmente tem mais problems do que antes, Hoje, a CVRD diz que estli dando pri- oridade ao concentrado e nito ao catodo de cobre porque as condigaes do merca- do international slio mais favoriveis ao primeiro produto do que ao segundo. Apenas das jazidas de Salobo e do 118 poder8 resultar metal. Niio exatamente porque seja uma deliberada opglio eco- n~mica, mas por causa das caracteristi- cas especiais do minbrio, que praticamen- te inviabilizam a concentra~gio. A Vale 6 agora uma empresa priva- da (ou semiprivada, em funglio das amarraqdes societtirias, que, em tese, ainda conferem o poder formal aos fun- dos federals de pensIio, uma caixa pre- ta que s6 agora estil sendo aberta). Suas decis~jes slio demarcadas pela busca do lucro. Se ela diz que 6 mais rentivel ficar numa etapa intermeditiria do pro- cesso de produgho, ao inv~s de com- pletar a verticalizaglio, ao menos na sua primeira etapa, atC o metal, deve ter suas fortes razies, Tanto que se desfez de uma parceria com a americana Phelps Dodge, no apro- veitamento da jazida do Sossego, e se mostra disposta a recomprar a parte de outro s6cio, a Anglo American, maior produtora de metals preciosos do mun- do, na jazida do Salobo,. Mas pode estar raciocinando com parimetros de lucro imediato e segundo suas prbprias conve- niancias de agora definitivamente - multinacional. Num pafs para o qual o cobre sempre foi uma fonte de problems e dor de ca- bega, 6 precise ajustar o prospect pri- vado ao pano de fundo do interesse cole- tivo. S6 tardiamente se descobriu que as razbes da Icomi para mandar para o ex- terior o m~ximo volume possivel de man- gan~s, alegando a inviabilidade de co- mercializil-lo no mercado interno, niio eram exatamente ditadas por regras de mercado ou por cillculo de ponta de 18- pis, mas por interesses unilaterais do comprador. No caso do cobre, qual o papel do interesse national na compati- bilizaqilo com o interesse particular? Aparentemente, secundilrio, decorative. A opiniiio pdiblica tem dado pouca ou nenhuma atenglio a essa segunda gera- glio de minas de Carajiis, uma hist~ria que comecgou claudicante, entire ceticismo e descrenga quanto g riqueza da jazida, e planet jik estarlio oferecendo ouro sufi- ciente para dobrar a produglio alcang~a- da ali mesmo, em Carajits. Niio numa mina individual, como a do Igarap6 Bahia, mas em conseqilancia da extra- Cgio de um outro min~rio, o cobre. No entanto, mesmo com potential pnara 20 toneladas anuais de ouro, como subpro- duto da lavra em quatro das cinco mi- nas, que podertio ser exploradas na ser- ra paraense, nas quais esse mindrio esti associado ao ouro, a produglio local fi- car8 abaixo da metade desse referencial e bem mais abaixo ainda do pique registrado na mina ji em exaustio, visi- tada por FHC. A explicapilo para esse paradoxo, evi- dentemente, nito foi dada durante a sole- nidade organizada pela Companhia Vale do Rio Doce para marcar o inicio da im- plantaglio do primeiro dos cinco proje- tos de cobre previstos para Carajils. Mas 6 flicil compreendt-lo. Em apenas dois desses cinco pr~ojetos a atividade produ- tiva chegarti ao metal de cobre. Em tr~s deles a intervenglio do home na natu- reza consistirik em aumentar a concentra- glio de cobre na rocha. Nas condiqaes naturals, o cobre con- tido nas jazidas 6 de 1% ou pouco mais. Comn esse percentual, nito tem interesse commercial. Recorrendo a agents quimi- cos e energia, cria-se um produto (o con- centrado) com teor de cobre de 30%, aproximadamente. O problema 6 que quem produz o concentrado cede o ouro, a prata e o molibd~nio, elements mine- rais associados que s6 podem ser separa- dos industrialmente na fase metallirgica. Essa fase, que agrega mais valor ao produto, seril realizada fora das frontei- ras do Paril, onde estlio as ocorr~ncias minerals, e mesmo do Brasil. A partir de 2004 Carajis comegar8 a produzir concentrado de cobre. Quatro anos depois, se o cronograma apresen- tado pela CVRD for cumprido, todas as minas estarlio em produqilo. O Brasil po- der8 ocupar, entlio, posiqilo de destaque no mercado international, entire o 3o e 5o lugar. Essa subida vertiginosa no ranking mundial, entretanto, niio o tira- ril necessariamente da condiCio de mai- or importador de cobre do continent, que the impae um gasto annual de divi- sas de 300 milhdes de d61ares. JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO 3 agora se transform num memento de grande importincia. O capitulo do cobre em Caraj~s pode atC nao render os ganhos que poderia pro- porcionar se ele se encaixasse numa po- litica de desenvolvimento, mas seu tama- nho reclama pela aten~gio do pafs. No fim da d~cada, as cinco jazidas proporciona- riio faturamento equivalent a 1,2 bilhio de d61ares, quase dobrando a atual recei- ta mineral da CVRD no Pari, depois de absorver investimento de US$ 2,5 bi- lhdes, dos quais US$ 1,5 bilhilo da pr6- pria Vale (o equivalent a um ano de ven- da de mindrio de ferro, mangan~s, ouro, aluminio e alumina extraldos do ParB, o segundo principal Estado minerador do pafs, em procedimento para ultrapassar Minas Gerais). Isso nho 6 pouco. Seria o bastante para merecer a aten~gio dos que se interessam pela definiglio dos rumos do Brasil, as- sociando esse future g incorporaglio da fronteira amaz~nica, sobre a qual estio dispostos a desfraldar as maiores bandei- ras, se o que lhes couber no enredo for apenas o papel de porta-bandeiras, A lavra do cobre vai criar, como sub- produto, o maior volume de rejeito da hist6ria da mineraSio na Amaz~nia, com o agravante de se tratar de escbria con- taminada quimicamente. Em conseqli- Cncia, esse seril o maior problema eco- 16gico decorrente da extraglio de mindrios. S6 da mina do Sossego serio descartados todos os anos mais de 13 milhaestle toneladas de material estC- ril, dos quais 1,5 milhilo contertio pro- dutos qufmicos t6xicos. Esse 6 apenas o impact sobre o meio ambiente, que desta vez precisa ser bem equacionado para niio acarretar desagra- diveis surpresas no future. Os efeitos so- bre a economic, por~m, sectio expressivos para um conjunto de atividades que ird gerar uma renda quase tras vezes maior do que a arrecadaglio prbpria do Estado. Imagine-se o que significaria essa nova onda de mindrios em Caraj Bs se ela viesse nito para reeditar as priticas colonials do passado, dos velhos models de enclave, mas para inaugurar uma nova era, na qual o resultado da atividade produtiva fosse nito os buracos abertos B cata de min~rios, mas desenvolvimento. Niio s6i ret~rico. D~e verdade. Depois do caderno sobre o progra- ma de macrodrenagem das baixadas e da veiculagilo sistemitica de an6ncios da administration Almir Gabriel, deixou de haver ddvida de que O Paraense 6 um porta-voz niio official do governor (e, por extensito, um arauto da candidatura de Simlio Jatene B sucesslio de Almir). Pode nito acarretar qualquer macula as- sumir esse papel, desde que a attitude passe a ser explicit. A administration Capiberibe susten- tou a Folhza do Amapd, editada por El- son Martins da Silveira, um jornalista de important trajet6ria na imprensa re- gional, que deu apoio explicit ao go- verno do PSB no Estado vizinho (eh candidatura senatorial do jB ex-gover- nador). AdministraqZ~es do PT espalha- das pelo pafs, inclusive a de Bel~m, sio os principals (ou quase iinicos) anunci- antes da revista Caros Amzigos. Indo mais al~m, o Pravda foi o porta-voz do Partido Comunista en- quanto existiu a Uniio Sovi~tica. O co man- dante Fidel Castro fala (e como fala) por meio do Granmla. Em 1982, Jader Bar- Er;' balho criou o Didrvio do Pardi porque O Liberal, que sempre lhe abriu as . portas, atrav~s de H61io 1 I Gueiros, Newton Mi- randa e do pr6prio Ro- 4 mulo Maiorana, fechou compromisso com a candidatura rival de q Oziel Carneiro, a partir de um entendimento mais amplo, avalizado por Jarbas Passarinho. Precisou de um journal de partido. O Didirio sobreviveu k necessida- de conjuntural da elei- glio de 82, mantendo-se atC hoje. Mas nito is '8 ; origens, que o estigma- tizaram como porta- voz dos interesses do ex-senador. Cmo acontece em toda eleiglio, o journal voltou a ser vefculo de partido. O Paraenlse surgiu em situaqilo an8- loga. O governador Almir Gabriel con- ta atualmente com o apoio do grupo Li- beral. S6 que ele nho 6 nada gratuito, muitissimo pelo contr~rio. Nem 6 incon- dicional. Pode, por caprichos de prima donn~a, ou por conting~ncias de caixa, descambar para a critical. No Pal~cio dos Despachos tem-se como provivel que a folha dos Maio- rana vB aderir a candidatura dissidente do vice-governador Hildegardo Nunes. Mesmo que a ameaga niio se consume, por~m, o custo da simpatia de O Libe- ral pode sair cara, em dinheiro e em exigo~ncias que soam descabidas aos ou- vidos do governador. Ele niio esquece da estranha pesquisa divulgada pelo journal no dia da elei~gio municipal de 2000, que jogou uma pB de cal na can- didatura de Duciomar Costa. Niio sem sua serventia, alias. Da mesma maneira i* como a inclinagilo por Hildegardo pode nito Spassar de jogo de pr-es- shio, o explicit enfilei- aL ramento do governor ao lado de O Paraense, dando-lhe suporte para que possa existir, pode nito chegar is vias da pereniza~gio. Mas se as j4. :condicionantes escapa- rem is previsaes ou ex- trapolarem as expecta- tivas, novos mecanis- s19~: mos podem ser postos em pritica. Ao inv~s do "'?;'if~tyilJI armisticio, o pass se- guinte ao "apresentar armas" 6 capaz de ser a guerra. Niio muito lim- pa, nem se tornando o bom combat sugerido por Slio Paulo. Ser a b ~6~"9~i~j quando os gatos pretos se reveladio pardos. Ar mas a va sta 4 JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO/2002 _q I_ 1~ )' uei Miss Foi concor-rido o conlcurso "Miss Elegante Bangu do Pardi eml 1958, realizadlo nlo "g-Llrane salc~o dar sedec social da Assemlbld'ia Par-aenlse, nla avenrida Presidenzte Vargas (ainlda coml apare~ncia para sereml conlside-ra- dlas, amblas, "ar-istocrc~iticas "). Pela prdpiria AP conlcorr-eramz Lia Fideza de Melo e Mar~irna Costar. As candli- dlatas dlo Clube do Remlo foramtr Gracce Solino e Cleidle Autr-an. Disputaramrl pelo Jdqluei Clube Llicia Caindidar de Azevedo (dlepois Meira) e Marialba Oliveira. E pelo Audtomdv~el Clube, Edn~a Azevedlo e Lais Farah. Terreno Foi em 28 de janeiro de 1955 que a Assembl~ia Legislativa do Es- tado autorizou a Prefeitura de Bel~m a doar ao entlo Banco de Cr~dito da Amazinia (hoje, sim- plesmente Banco da Amaz~nia) um val ioso terreno na avenida 15 de Agosto (atual Presidente Var- gras). O banco se comprometia a construir no local um edificio "'que niio poderri ter menos de 10 andares e deverfi ser iniciado den- tro de 18 meses, no m~ximo". Passados quase 570 meses, o terreno permanece baldio e m,- vel de uma dispute inconclusa entire a prefeitura e o Basa. Radio Os ouvintes da R~dio Clube do Parlj, a PRC-5, "a voz: que fala e canta para a planicie", ifder de audiencia, tinham, em 1958, tris radio-novelas para ouvir: ao meio-dia e meio era "Angdistia". As oito da noite vinha "Madale- aa Um pecado feito mulher". U~ma hora depois era a vez de "E se ela voltasse". Pessoas mais sensiveis podiam dormir entire Ii- grimas ou suspiros romfinticos. Elestorado Na eleiglio de 1958 estavam ca- dastrados 274.580 eleitores nas 35 zonas eleitorais do Parji. Na capital e~ram 82.625 eleitores, dos quais I1.701 em Icoaraci e Mos- queiro. Em menos de meio s~cu- lo, crescimento de mais de 10 ve- zes. Mais um reforgo g tese de que o grande desafio para o desenvol- vimento do Parti 6 humane. Ou seja: a capacidade de selecionar e organizer o apr~oveitamento dos seus vastos recursos naturals. Crescimento demogrifico, atra- vis, principalmente, da migra~gio, 6 o que niio falta. On at6 excede. Como demonstra a evoluglio do extrcito de eleitores. Biblioteca Em agosto de 1958 a diretoria do Clube do Remo, na 6poca presi- dida por Alcindo Nova da Costa, inaugurou a Biblioteca "Dem~trio Miss Eleganlte Bangu dlo Brarsil, Mar-ia S~rnia dle Aradjo, foi a "arragdo especialmlente convidcada". O roqlue musical foi dado pelo manestro Gurides de Barros. O tranje "der rigor" foi exigidlo does parti- cipanrtes da festa. A renlda serial r-evertida em1 benleficio dlo Clr-so Pestalozzi, destinadlo aos excepcionlais. cagas e alvarengas da Petrobrits e levadas para a capital acreana, de onde par-tiriam no rumo da nova capital federal. Arepresentante em Belim da inddstria americana era a Cimaq (Companhia Paraense de Mriquinas), que, como de regra, nho existe mais. Emergencia O quadri motor- Constellation-Su- per-H era um dos maiores, mais possantes e mais bonitos avides rodando pelos ares do planet em 1960, q~uando um desses apare- lhos, a ser-vigo da Real Aerovias, fez um pouso de emerg&ncia no aeroporto de Val-de-Cans, em Belim. Foi na madrugada de um domingo de agosto daquele ano. O problema, pane em um dos motors, s6 foi resolvido as nove da noite, quando o v8o, Miami- Rio, foi retomado. Durante esse period, os 36 passageiros tive- ram que ser precariamente aloja- dos em viirios hospitals da cida- de. Os poucos hot~is existentes na ainda langorosa cidade das man- gueiras estavam lotados. Acomo- dagies foram arranjadas no Gran- de Hotel, o melhor de entlio, ape- nas para os 10 integrantes da tri- pula~gio, por motives mais do que 6bvios. Os passageiros, porim, chiaram muito. Faze nde iros Ainda poderosos, os fazendeiros do Maraj6 faziam todos os anos sua pilcoa. Na v~spera havia pre- paragilo spiritual para o ato reli- gioso do domingo, realizado na capela do Coldgio Nazard, inva- riavelmente pelo arcebispo de Beldm. Em 1960 a comisslio pro- motora era formada pelos casals M~rio e Alberina Teixeira, Chiu- dio e Arlete Dias, Domingoos e Dita Acatuassil, Nestor e Juraci Bastos, Guilherme e Maria Alice Cardoso, Howard e Eliana Steg- mnann, Armando e Altair More- 11!, Irval e Zinda Lobato, e Orlan- do e Maria Amtlia Costa, mais as senhoras Leonor Baena Monard e Georgina Boulhosa de Morais. Declara~gio Joana Cavalcante Lima, mais co- nhecida como "Mosa", dona de uma das mais freqilentadas e fa- mosas pensbes da velha Zonana", no centro de Beldm, viu-se obr-i- gada a divulgar na imprensa, em margo de 1963, uma digamos assim notaa official Nela, de- clarava, "a bem da verdade, que nunca detratei ou ofendi a labor-i- osa classes dos motorists, a quem r-eputo composta de homes dig- nos e honr-ados". "Como prova", assinava embaixo. Bem Beldm. Eng en haria Em 1963 o Direte~rio Acad~mico de Engenharia da Universidade do Parti (ainda com a sigla UP) decidiu criar o Curso "Albert Einstein", sob sua responsabilida- de, preparat6rio ao vestibular da pr6pria Escola de Engenharia. O professor de ffsica era Ramiro Bentes; o de matemlitica, Tito Cardoso; o de qufmica, Joelzio Bahia; e o de desenho, o ainda acad~mico H61io Dourado. O cur- so funcionaria no Coldgio Naza- rd. A nota de andincio da criaqilo foi assinada, em nome da direto- ria do diretdrio, pelo futuro en- genheiro Geraldo Tuma Haber. Paiva", numa das salas da sede social remista, na avenida Naza- rd. Onde estarlio os livros? Orquestra A Orquestra Sinfi~nica do Pari, se viva fosse continuea, agora com o titulo de Orquestra Sinf6- nica do Teatro da Paz?), vai com- pletar 60 anos de existancia. Ela foi fundada a 6 de agosto de 1942, pelo maestro Manoel Be- larmino dia Costa. Seu primeiro concerto foi no dia 25 de mar~o do ano seguinte, no Teatro da Paz, sob a batuta do seu funda- dor. Entre outros, seguiram-no como maestros Nin7o Gaionni, do Teatro Scala, de Millio, e D. Pli- cido de Oliveira, regente sacro do IMosteir~o de Stio Bento. Depois de viirios anos para- da, a Orquestra voltou a se apre- sentar em agosto de 1959, para comemorar seus 17 anos. Era entlio formada por 41 mlisicos, sendo 20 violinos, 2 violas, 2 violoncelos, 4 contra-baixos, 1 flauta, I oboC, 2 clarinetas, 2 trompetes, 2 trompas, 2 trombones, I tuba, I timbale el bacteria. O maestro era, de novo, Belarmino Costa. Estrada Em junho de 1960 passaram por Beltm, a caminho de Rio Branco, 10 tratores e carregadoras Allis Chalmers. As miiquinas seriam utilizadas na abertura da segunda estrada de liga~gio do Brasil comn a Amazinia, a Brasilia-Acre, que sucederia a Belim-Brasilia, inau- gurada um pouco antes. Trazidas atC Bel~m em navios de cabota- gem, foram reembarcadas em bar- i I )() Ct p / JOURNAL PESSOAL 2" QUINZENA DE MAIO 5 F'TI CT$URaA P RECI OS s ReMEDIo SOBERANO NO FAST: /o, c ot /CA S fNDI~ TC~ES.S O/A RRHAS, OdRES DA MrA DRE, SALIVaA("O, EMPACHcAMENTO, DORES OO ES- . TOMA 6O. VOM/ TO 5 NER VOSOS, O YS;PPS/A, G;ASTRALGIA, SUSPENSAG ORREGRiA, E~TC. A'~ VENDl NA S PRINT C/PA ES Pi O cura-tudo Num paisde bipocondriacos, a Tin~ctura Preciosa Jorio Victal, j venda nas principals phazrmncicias e drogarias da cidade, em 1955, faria sucesso. Afinal, era um "rem~dio soberano" tanto no combat ao fastio quantogs "dores da madre", enfrentava do "empachamento"' A suspensiono de regora", da saliva~glo aos "v6mitos nervosos". Niio satisfeito, combateria o "etc. , se aparecesse. Na pecga de divulgagilo. uma fada se encarregava de extrair o frulto da salide da firvore da natureza. Quem resistia? Zepellin ao tucupi O flagrante 6 r~aro, de um Zepellin qlue colidiu com uma mangueira da avenida Nazard, entr-e Rui Barbosa e Benjamin Constant. Os zepellins sobre rodas foram uma criaqilo exclusivamente paraense da d~cada de 50. Sobr~e chassis de caminhlio era mon- tada a estrutura de um qluase autintico dir-igivel, que chegou a constituir uLma fr~ota ur-bana. Eviden te men- te, para' circular niio nos ctus, mas nas ruas com pa- vimentagilo de pedras de gr~anito importado, os pa- r-alelepipedos, que anteceder-am o asfalto e recebe- ram os tr-ilhos dos bondes, primeiro a traglio animal e, em seguida, eldtr-icos. Era um progralma "bem" circular nos inibus estilizados atravis das princi- pais arltdrias da cidade, sobr~etudo aos domingos, comn a familiar, todos se espalhando pelos assentos cober- tos com pano blanco. Seria um program eur~opeu, niio houvesse o calor e as chuvas a lemnbrar aos pas- sageiros onde se achavam. Este zepellin niio teve sor-te: o motorist perden a direcgio, quase derrubou a ainda delgada mangueira? (devidamente "estilizada", com uma pB de cal no tron- co, h maneir-a de polainas, qlue horrorizariam consci- &ncius ecol6gicas) e depois, como se diz na crinica policial, evadiu-se. Cinco passageiros ficar-am feri- dos, um emn estado grave, tal a viol~ncia da colislio. Atrds do zepellin passa um Bnibus com~um da epoca (da "Linha no" l", de Slio Braz), com carro- ceria de metal e madeira, construida aqui mesmo, tambim sobr-e chassis de camninhlio, e uma lona pr~o- tegerno aI parte sulpe;rior do veiculol dos tmraicio- nais aguaceiros de Beldm. Que ainda era uma ci- dade com perfil pr6prio, um territdrio do sincretismo e da aculturaglio luso-indigena quase a margem da identidade n~acional. G JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAlO/2002 vam sua parte mnaior em loteamentos concebidos, executados. "medidos" e "demarcados" nas pranchetas de desenhistas. Quando eles propri- os niio "fabricavamn" seus titulos ptiblicos. Claro: haveria problemnas na hora em que o titular do papel fosse a campo ver sua proprie- dade, deparando com ocupantes estabelecidos hi muito tempo na area ou simplesmiente verifican- do que outros titulos se superpuniham aos seus, ou, talvez, que ao inv~s de terra firme o que Ihes cabia eram iguas de rios. Nesses momnentos cada vez mais fr~eqiientes de litigio, pela forma irres- ponsavel de concession da terra, a prova dos nove foi acertada comi sangue. Muito sangue. Centenas de conflitos depois, em 1975 o go- verno do Pari criou um institute especialmente para tratar da question de terras, o Iterpa, comn o compromisso de p~r fim a trjgica tradigao da compra por requerimentos, na qual o particular era o element ativo da hist6ria e o poder ps- blico o coadj uvante passive, inerte. omnisso ou conivente. O Estado amazinico de mais inten- sa ocupaclio is se modernizar, atualizando suas praticas a um mundo comn dominio cartorial, car- togrifico, juridico, agronomico e, agora, geo- referenciado do seu patrim6nio fundiario. Ao inv~s do leillio clandestine e dos loteamentos de faz-de-conta, a alienaqCto se terras se faria comn procedimentos tecnicos: discriminat6ria. mediglio, demnarcaglio. licitaglio, pianos de apro- veitamento, control sobre o uso, cobranga legal, clausulas resolutivas. Logo esses compromissos se perderam no horizonte de uma noite de verilo, levados pelos ventos oceinicos que ainda varreml Belem, onde estli a sede do Iterpa. No mes passado o institu- to expediu 57 titulos de terras, todos incidents sobre o municipio de Jacareacanga, onde se ex- pande uma das mais recentes e agressivas fren- tes de penetraglio econ~mica no extreme sudo- este do Par6, umna das ultimas areas virgens da margem direita do rio Amazonas. Passaram do patrjim~nio publico para o dominio particular, atrav~s dessa titulaglio, mais de 106 mil becta- res de terras devolutas. A familiar Breda se tornou dona de quase 12 mil hectares, gragas ao artificio de upresentar al guns de seus integrantes comno requerentes de cinco lotes. Todos com pouco menros de 2.500 hectares, por umn motive: para que a venda nao tivesse que ser submetida ao Senlado Federal. Com seus tris lotes, os Miyazima dispoemn agora de quase 7 mil hectares de terra. Os Tavares,, de 5.400 hectares. Como de outras vezes, o Estado dira em sua defesa que esses colonos ja estavam na terra. ja a haviamn desbravado, nelas montaram unida- des produtivas, abriram acesso ao mercado e es- tavam precisando apenas da legailizaglio dos seus dominios. Obtido o titulo de propriedade. viio crescer ainda mais, gragas ao acesso ao cre- dito banctirio e outras operaqdes que exigemn a garantia real do imn6vel. E o discurso que acompanha a poeira, o fogo, a motossecra e o "38" (o ainda popular "'tris-oitao") na transformagilo da A mazian ia ge- agrafica emn fronteira econimica. E o asfalto que pavimenta a estrada da boa inten~gio no caminho da desvastafjio. Assim temn sido e assim. depois de um certo intervalo, voltou a ser. Sera sem- pre? Ate a abertura das primeiras estradas, no final da decada de 50, quebrando o isolamen- to fisico da Amnaz~nia em relaglio ao restante do Brasil. as terras da regiao valiam muito mais pelo seu uso do que como mercadoria. A es- magadora maioria dos detentores de proprie- dades rurais estava interessada exclusivamnen- te no aproveitamento da floresta, coletando seus frutos, ess~ncias. resinas e seivas. Os "co- roneis de barranco" se consideravam dons de determinado territ6rio. base para seu extrati- vismo vegetal (da castanha, de borracha, da balata). e ponto final. Nao se media, niio se demarcava e pouco se transacionava comn o imovel. A Amaz~nia era um mundo sem fimn, valendo por seu uso e pouco como reserve de valor ou meio de troca. As estradas pioneiras da integragio national, como a Belem-Brasilia e a Brasilia-Acre, trou- xeram consigo o mnercado modern. O dinheiro conseguido com a venda de um hectare de terra nlo sul do pals dava para comprar 7, 8, 10 ou mais hectares na Amazania. Uma propriedade con- prada a prego de banana no Para podia ser inte- gralizada ao capital de uma empresa de mercado de Slio Paulo por varias vezes mais. Essa multiplicaqilo contabil e financeira per- mitin ao empreendedor privado apresentar uma contrapartida inflacionada artificialmente, sem ti- rar dinheiro do proprio bolso, como contraparti- da aos incentives fiscais do governor quando co- meCou1 a febre de colaboragito financeira official aos "projetos agropecuarios" como forma prefe- rencial de ocupaglio produtiva da maior frontei- ra de recursos naturals do planet. O primeiro das centenas de projectss agro- pecuarios", o da Codespar (Companhia de De- senvolvimento do Sul do Pard). foi aprovado em 1965, quando essa political ainda era coordenada pela SPVEA (Superintendincia do Plano de Va- lorizagao Econdmica da Amazonia). Mas a "onda" das fazendas de criaglio extensive de gado de corte atingin o grau de febre depois da cria- glio da ja extinta Sudam7 (Super~intend~ncia do Desenvolvimnento da Amnazinia), em outubro de 19)66. S6 em 1969, o "pico"' da corrida pecuaria, a Sudam aprovou a imnplantagilo de mais de 70 fazendas (tamanho medio de 30 mil hectares). Umn dos resultados desse favorecimento foi a especulaglio fundidiria. Comn informagilo privi- legiada, empresas ou pessoas se antecipavamn ao tragado de uma rodovia comprando terras por onde ela iria passar. No agodamnento, verificou- se que determinados titulos de propriedade fazi- am referencia auma rodovia que s6 passaria pelo local ap6s a data da expedigio do documnento. Comno isso era possivel? Pela capacidade de o investidor (ou especulador) externo (sob as rou- pagens her6icas de pioneiro) se antecipar ao Estado. ou substitui-lo. Ainda moldado pela logica do extrativis- mo, o poder public. em matdria fundiaria, nito passava de carimbador de papeis e escrit6rio imobilitirio, limitando-se a legitimar e sacra- mentar a iniciativa dos "'coroneis"'. Passada a pri mei ra decada repu bl ican a, q uan do o gov er- no local tentou promover um projeto de colo- niza~gio. assumindo algum poder de iniciati- va, a partir dal sua funglio foi a de colar es- tampilhas em papeis que cedia para formali- zar os atos de particulares poderosos. Tiio po- derosos que um desses "corondis", Jose Jiulio de Andrade, tinha em seu cofre um titulo de propriedade, da Fazenda Saracura, que media um milhilo de metros lineares de funds a partir da margem esquerda do rio Amazonas. On seja: atravessava a Guiana, um pafs estran- geiro, e teria seus limits sobre o mar. Registros estapafurdios como esse dormi- am preguigosamente nos registros de im6veis das comarcas do interior e mesmo em cart6ri- os da capital. Os dominios desses autinticos senhores medievais, mesmo quando exercidos sobre rios inteiros e suas bacias, niio eram con- testados, ainda se lhes faltassem medifges e demarcaFaes regulars que os consolidassem. Nilo s6 pela capacidade que tinham os "coro- ndis", dons da vida e da morte, de aplicar boas sovas aos recalcitrantes, comno porque a 16gica do extrativismo conferia a terra mais valor de uso do que de troca. A situagao mnudou quando valores de merca- do comegaram a ser con frontados e avi vados - pela possi bi lidade de uma soc iedade anin ima do sul poder incorporar capital fundiario para mul- tiplicar seus ganhos, inclusive (e sobretudo) os especulativos, saindo na frente no aproveitamen- to dos beneficios fiscais e tributarios criados pela Unilio. Ai se desencadeou uma frente avassala- dora. No que, emn mattria de hist6ria, se poderia definir como um piscar de olhos, o que era uma fronteira aberta conv~erteu-se na regiao comn o maior indice Gini de concentraglo da proprieda- de da terra. Onide havia um Cden fuindiario surgiu, de si- bito, um7 quadrilatero de imensas propriedades, so eventualmente intercaladas por alguma "so- bra de terra"', onde se confinou o posseiro (ori- ginalmente um native ou um migrant deriva- do, que deu de cara comn a porteira fechada pelo proprietario rec~m-chegado e caiu na vida da posse comnpuls6ria). Mal dava entrada na Secretaria de Terras, Obras e Viaqilo (posteriormente, Secretaria de Agricultura), o requerimiento de comlpra de ter- ras se transformava em moeda. Antes que o po- der puiblico expedisse o titulo de propriedade (provis6rio ou definition), aquele papel jli havia circulado por maitas miios, indo de pessoas ffsi- cas a empresas organizadas. O governor, ainda com mentalidade extrativista, se limitava a co- brar suas taxas e emolumentos, enquanto parti- culares, em seus prdprios escritdrios, eamanuen- ses inescrupulosos, em suas repartigbes, ganha- ~~ ~~S I I (~ I(~ [~ JOURNAL PESSOAL 2' QUINZENA DE MAIO 7 Energia: monocultura da agua na Amazonia A jgua C o principal ativo de curto, midio e long prazo da Amaz~nia, que tem estocado em sua bacia quase 20% de todo o volume hidrogr8- fico do planet. Mas esse valioso capital estl sen- do descurado. Por enquanto, sua mais rentivel aplicaglio 6 na gera~gio de energia. A segunda maior hidrelitrica em funcionamento no pafs aproveita as figuas do rio Tocantins, que drena uma firea equivalent a 8% de todo o territdrio brasileiro. O Tocantins jB chegou a verter 60 milhies de litros de figua por segundo, em sua maior cheia, registrada em 1980, no local onde foi levantada a enorme barragem de Tucurui, 350 quilimetros a sudoeste de Bel~m. Grande parte do potential hidrdialico rema- nescente do Brasil se concentra na Amaz~nia. A regi~io passou a existir de fato, para a hidreletri- cidade national, em 1984, quando entrou em ope- ragilo a primeira das 12 gigantescas turbines da usina de Tucurui, que responded, sozinha, por mais de 8% de toda a produglio energ~tica brasi- leira. Hoje, apenas na bacia do Araguaia-Tocan- tins, tras hidrel~tricas jjl estlo em operagilo. Atd o final da d~cada, poderilo ser 10 ou atC mesmo 14, dependendo da reaqilo do produtor privado ao novo modelo do governor federal, que lhe de- legou competincia e lhe abriu mercado. Mesmo somadas, essas usinas serlio de tamanho equiva- lente j de Belo Monte, a primeira hidrel~trica projetada para o rio seguinte, o Xingu. No seu balango referente ao exercicio de 2001, divulgado na semana passada, a Eletrobris registra o saido de 125 milhbes de reais investi- dos em seis inventiirios de cinco bacias hidro- grfificas amazcinicas nas quais espera construir barragens para aproveitamento hidrel~trico: dos rios Madeira, Tapajbs e Trombetas, alim do Araguaia-Tocantins (com destaque ao mtdio Tocantins) e Xingu. Isso sigonifica que transfor- mar a correnteza dos rios em energia continuard a ser o uso priorittirio da figua. Ou linico. A figua 6 responstivel por menos de 20% da energia usada no planet. No final da pr6xima dC- cada essa participaglio deverfi baixar para menos de 5%. Nos paises mais desenvolvidos o percen- tual poderti ser, nessa 6poca, 10 vezes menor, de 0,5%. No Brasil, portm, a hidreletricidade ainda responded por mais de 80% da energia que abaste- ce o pafs. Esse indice jit esteve acima de 90%. Mesmo com o incremento de outras fontes, sobretudo o glis, a figua ainda contribuirli com muito mais do que metade de toda a energia bra- sileira dentro de 20 anos, se os que optaram e que ainda esperam poder continuar a optar - conseguirem fazer novas barragens em rios da Amaz~nia. Da regillo ainda podiam vir quilo- watts suficientes para dobrar a atual produgio energ6tica national. Consideram absolutamente natural e deseji- vel a expansito da hidreletricidade no rumo da fronteira de figuas, por enquanto deixando ao lar- go dessa cobiga justamente o maior rio do mun- do. O Amazonas chega a ter uma descarga de 230 milbies de litros de Bgua por segundo. Esse volume, que o torna um petisco energttico para os "barrageiros", 6 tamb~m a causa da impossi- bilidade de energizli-lo. Na d~cada de 60 o futurdlogo Herman Kahn pensou, atravis do seu Hudson Institute, de Nova York, em construir uma barragem de baixa queda no ponto em que o rio 6 mais estreito, a altura de Obidos, no ParB, onde tem dois quilimetros de largura por uns 100 metros de profundidade. Da- ria para gerar ali 100 mil megawatts, quase o do- bro do que se produz atualmente no Brasil. Mas o lago artificial que a barragem formaria a montan- te seria tio grande que provocaria um deslocamen- to de peso da Terra, afetando seus movimentos no espago e em torno de si mesma. Rio Amazonas a parte, a energia que pode ser extraida a partir dos seis inventirios realizados ou em cursor na regillo seria o suficiente para assegu- rarr, pelas pr6ximas duas d~cadas pelo menos, a primazia da energia de fonte hidritulica na matriz energttica do Brasil, comn todas as conseqilencias desse modelo. Nosso pafs seria tiio excepcional que nele nito se aplicariam os motives que deram causa a perda de expression da hidreletricidade em todo o mundo, com especial destaque no cha- mado Primeiro Mundo? La, cada vez se pensa menos em barrar rios para produzir energia porque isso acarreta grandes impacts ecol6gi- cos e exige enormes investimentos, tanto para levantar as estruturas de concrete que acumu- lar~o figua e a fadio correr para as turbines, como para transmitir a energia gerada para os centros consumidores. Por um detalhe geogri- fico relevant: os rios que ainda podem ser bar- rados encontram-se em fireas distantes, naque- les poucos pauses que ainda t~m fronteiras para ocupar, nenhuma com a combinagilo de tama- nho e significado que tem a Amaz~nia. Nos Estados Unidos, um pals do mundo rico que pode ser comparado ao Brasil, a era da ener- gia hidrtiulica praticamente acabou. Ainda hfi rios com caudal que comporta barramentos para fins energtticos, mas uma contabilidade mais sofis- ticada da relaglio custo/beneficio inviabilizou a acumulaglio de ggua para uso energt~tico no que resta de saudilvel no sistema hidrogrifico ame- ricano. O grande desafio dos irmlios do Norte, agora, 6 se livrar do poluente carviio atravts de alternatives energtticas mais limpas. Ou, se essa busca ameagar o ritmo do desenvolvimento, com- prar esponja antipoluiglio na forma de floresta de outros pauses para absorver o lixo adreo do seu gigantismo industrial. JB o Brasil teria que manter em ritmo acele- rado o program de constru~gio de hidrelitricas na Amaz~nia para tirar proveito dessa diga- mos assim vantagem comparative? Sendo uma regilio tfpica de fron~teira, a Amazinia estaria ao largo dos fatores que agem restritivamente ao aproveitamento dos rios como fonte de energia em outros pauses? Uma resposta positive igonora todo o avango da consci~ncia mundial sobre a construglio de hi- drel~tricas, sobretudo mega-aproveitamentos como os de Tucuruf e Belo Monte, com seqiielas que s6 slio descartadas entire n6s em funglio da mii apropriaqilo que se faz da relaglio custolbe- neficio. Mesmo que esse inus seja deixado de lado, por~m, qual o efeito de aproveitar efetiva- mente o remanescente hidrel~trico national que estli contido na Amazinia? Poderfi ser o agoravamento da concentra~gio da riqueza, se o pafs estiver disposto a gastar muito dinheiro para levar a energia gerada na distant Amazinia at6 os pblos consumidores, no Centro- Sul (percurso de 3.300 quilimetros no caso da hidrelttrica de Belo Monte, ao custo de 2,8 bi- lhaes de d61ares s6 na transmission, mais os US$ 3,7 bilhies na geracgio). Outra conseqii~ncia pos- sfvel, em sentido inverse, seria estimular ainda mais a concentration de indi~strias eletrointensi- vas na regilio, como as fjibricas de aluminio da Albrits, no Part, e da Alumar, no Maranh~io, que, para se instalarem na jungle, exigem incentives (em 20 anos, as duas flibricas, as maiores do con- tinente, tertio consumido um subsidio energttico equivalent a dois bilhies de d61ares). A gravidade dessas questies, mantidas com- pletamente B margem da agenda de debates, au- menta no memento em que o governo chama em- presas privadas para atuar como autoprodutores de energia, privatizando a figua e canalizando os beneficios para um gruIpo que, al~m de restrito, se tornarit ainda mais privilegiado. Afinal, esse 6 um modelo de desenvolvimen- to ou de subdesenvolvimento? haveria de per- guntar o chapeleiro malu~co, pela pena de um Lewis Carrol verde. Tudo isto sem entrar no Limbito de uma qlues- tilo ainda mais stria: a substituigio de um modo exclusivista ou monopolists de usar a figua pelo que hii de mais modern, mais ajustado ao es- tado da arte em mat~ria de rigua, cada vez mais escassa no planet, que 6 o uso mli1tiplo e, se possivel, mais nobre desse bem precioso para a vida humana. Esse novo estigio, umn enredo em- busca do seu autor, como um personagoem -tropicalistica- mente becketteano, exigiria dar- consistincia real i~s normas formats da rec~m-editada (e ain- da pouco aplicada) legislagio sobre ilgua. Ela exige a instala~glo de comitis de bacia e um pla- nejamento mli1tiplo para o uso da terra, coman- dado nito por uma empresa setorial ou uma ag~ncia restrita, e muito menos ainda por uma empresa privada, mas por uma autoridade legf- tima e acatada por todos, se nito por aceitaglio, pelo menos por imposiglio legal em, proveito do pafs e da regilio. Quando chegaril esse estlgio? Jri af quem ha- veria de perguntar seria Hamlet, que, como sabem muito bem os leitores de Shakespeare, era um prin- cipe mais dado j ddvida elucidativa do que o prin- cipe que atualmente nos gooverna. lomfll Pessou~l gio sobre hjbitos e costumes, al~m de apontamentos sobre edifica95es e monumentos. O doutor Clbvis se foi e a curiosidade persiste. Seus li- vros, a despeito de um certo travo acad~mico, por-Cm, per- duraram como um testemunho quase Linico sobre o largo pe- riodo do qual ele participou e serviu, depois, como testemu- nho precioso. H ist6 ria Nas minhas andangas ma- tinais pela cidade, percebi que virios pr~dios particulares completarito seu primeiro s6- culo de existancia neste ano de 2002. Sio edificaqaes surgoidas no auge do monop61io amaz6- nico da borracha, refletindo uma 6poca na qual havia di- nheiro suficiente para atualizar arquitetonicamente uma cidade ainda provinciana. Da constatagilo me surgiu uma id~ia: a prefeitura podia cr-iar uma esp~cie de pr-~mio perma- nente para todas as edificapies que se tornassem seculares (com, no minimo, 100 anos). O proprietirio teria direito a um ano inteiro de isenglio de IPTU. Para isso, por~m, sua casa precisaria estar bem con- servada ou ele se comprome- teria, atrav~s de document com forga de lei entire as par- tes, a cumprir um plano de res- tauraglio ou conservac;lo que a prefeitura lhe entregaria. A PMB se encarregaria de dar divulgagilo ao fato, conferin- do tamb~m uma medalha ao premiado. Ao final de cada ano, a administration munici- pal publicaria um filbum com as fotos das edificagdes cente- n~rias e um hist6rico delas, publica~go simples, mas de valor documental. Talvez ~assim, o poder pdi- blico de miios dadas com o particular, se conseguisse man- ter em dia a escritura arquite- tinica da hist6ria de Beldm. Insensatez A desmemdria da impren- sa paraense, que se tornou in- capaz de produzir obitu~rios compativeis comn a expresso dos personagens da vida pdibli- ca do Estado, explica o cons- trangimento pelo qual passou a familiar do medico Zo~nio Mota Gueiros, relatado por seu irmlio, o ex-governador Hilio Gueiros, em sua li1tima coluna semanal no Didirio do Pardi. A morte de Zo~nio nio foi inclu- ida no registro da TV Liberal porque, segundo a explicaqlo dos dirigentes da emissora, ele niio seria merecedor do que, na 6tica dos responsiveis pelo noticidrio, seria uma defer~ncia. Trata-se de dupla injustiga, cometida nito s6 pela TV Li- beral, ali~s, mas por toda a imprensa local, que ignorou ou minimizou o assunto. O dou- tor Zo~nio foi uma pessoa afit- vel, cordial, atenciosa e pres- tativa. Duvido que um jorna- lista tenha tido motives de queixa no relacionamento com ele, sempre disposto a ajudar rep6rteres a cata de informa- 95es. Acho que nho cometeria uma descortesia dizendo que ele foi o melhor dos Gueiros. Presume que deva ser um con- senso na familia- Aldm disso, Zo~nio Guei- ros foi tfpico representante de uma 6poca em que, apesar de tudo, a sa~ide pdblica recebia alguma aten9Ro do governor (Bs vezes, a devida aten~gio). As pessoas mais jovens nio po- dem avaliar o que os "mata- mosquitos" representaram para gera95es de paraenses, tanto os da capital quanto do interior. O guard sanittirio batia em todas as casas, mesmo as mais distantes, inclusive as mais hostis, coletando sangue para antilise e borrifando DDT para eliminar ou afastar o mosquito agressivo. Nio s6 garantia uma herdica rede de protegio epidemiol6gica (rasgada quando a insensibilidade da burocracia em Brasilia suspendia os recursos financei- ros, provocando um dano de dificil reparagilo), como era a fonte das melhores estatisticas regionals. Durante muitos anos o dou- tor Zo~nio foi parte ou coman- dante dessa engrenagem, re- presentada pela Sucam (Supe rintendencia de Campanhas de Satide, derivada de um comba- te mais especifico, B malaria, a doenga de maior amplitude social na Amazinia). Como regra, os funcionfirios da Sucam eram profissionais dedicados e pessoas abnega- das. E~sses m~ritos nunca foram devidamente reconhecidos institucionalmente, embora a popula~gio dedicasse aos, "mata-mosquitos" um carinho especial. Afacada final veio na administragilo Collor, quando essa estrutura foi desmantela da e o governor quase se tornou pracista de plano privado de salide. Nessa nova situaqio, niio 6 de estranhar que um persona- gem de um mundo condenado ao desaparecimento nito seja considerado "noticitivel". Nem por isso, entretanto, devemos aceitar as regras desse vaude- ville de insensatez eignorincia. Neste jornalzinho, o doutor Zoinio Mota Gueiros ter8 o que nito lhe 6 favor, mas direito de conquista: nosso agradecimen- to enosso louvor por sua fecun- da passage por esta terra. Memciria Menos injustigado do que seu colega Zoinio Gueiros foi o medico Cl6vis Meira. Ele ainda ganhou um registro de sua morte, ocorrida na mesma semana. Mas nada aaltura dos seus mdritos. Membro de uma das mais tradicionais familias do Estado, Clbvis Meira con- seguiu combinar uma face de elite, com a qual desenvolveu pendores intelectuais, a uma face mais popular, como mC- dico do servigo ptiblico. Gra- gas B sua discipline, aplicapilo, acuidade e mem6ria, deixou para aposteridade ricos levan- tamentos sobre a hist6ria da medicine no ParB, al~m de va- liosos depoimentos sobre a vida de Beldm. Lendo suas agradilveis cr6- nicas sobre a infincia e a ju- ventude numa cidade ainda isolada do restante do pafs, sempre tive curiosidade de sa- ber como ele armazenara tan- ta pequena e deliciosa informa- |
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