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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00232

Full Text


























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vel pelas obras, atestoo que a parte prin-
cipal dosj servigos jti havia sido execuita-
da. A (11brica estava quase pronta par-a
receber os equipamentos industriais quan-
do o temporal provocou o desastr-e, terri-
vecl, mas sem qualquer assentamento emn
nenhuma fontc de referencia.
Os fiscairs da Sudam devem ter en~con-
trado um terreno limpo. Se hri havia umna
edificaqio industrial quase concluida c
agora nrio restavamn ncm escomnbros, s6i
Ihes cabia atestar que os R$ 3,.3 milhiacs.


m abril de 2000, dois te~cnicos ia
hoje extintla Sudam-a economnis-
to Emira Fecrreira Neves c o en-
genheiro civil Ronaldo Augusto
Pamplona atestaram que um projeto in-
contivado pela Super-intendencia do Desen-
volvimento da Amazonia hiavia sido vitima
de umi acidente f~Ltal: um f~orte \endat al des-
truira todas as instalago~es civis ate: entio
levantadas pela Tropical indulstria Alimecn-
ticia S/A. Numa thigio de tempo a venta-
nia arr-astou 3,3 mnilhoes reais de investi-


mento realizado durantre os quiatro anos an-
teriores grayas nos incentivos fiscais.
Nem a m~eteorologia e nem as orglos
comipetentes, ptiblicos ou privados, regis-
traram o f~no~meno e scu conseqiente
episodio. Mlas n~to parecia haver dilvida
de qlue as instalayoes da fIjbrica de sucos
dos irm50s Romullo c Ronaldo Maiorana,
no district industrial de Icoaraci, no mu-
nicipio de Belemn, tiniham realmecnte vii-
do abaixo. A Plangec (Plancjamento Gc-
ral em Enlgenharia C~ivil Ltda.), responsii-


LUCIO F LA V O PI i-
ANO XV N" 283 1" QUINZENA DE MAIO DE 20 RS 0







Tem Maiorana n

A Tr~opicaIl ndlistr-ia A/intentrcia.i, a ~j)ll eme dalli qual eii o re)igera~-lnief~ BiS, e unt1
projeto nuatlio pareccido aqueles quec o ar\-se nador jaderl Barbalbo~7 e aIcuIsado de bar~1er
patrloc-inad-o por baix~o d-os panios na~ Sudant.1 Aqs irregu;l~llaridade~C- s de-sse sll on'edouo de
in~centlir osfi'scals, poranl, ad~o aprcernlccio nlos r Icucllos dars Olgan~izag~oes Romulllo


k. ,
"r'"r



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C







2 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE MAIO/2002


resultantes de colaboraqio financeira fe-
deral, estavam mesmo perdidos. Talvez
nio tenham prestado atengho a detalhes
intrigantes. Como a ausincia de data nos
relatbrios de execu~go da obra, assinados
pelo s6cio gerente da Plangec, Rodrigo
Chaves. Se os relat6rios de andamento da
construCho estavam sem data, todos os
contratos assinados ate 1998, embora da-
tados, ntio estavam reconhecidos.
Para comprovar que o dinheiro dos
incentives fiscais da Sudam realmente foi
aplicado nas obras destruidas pelo feroz
vendaval, a Plangec emitiu, entire 1996 e
1997, nove notas fiscais e dois recibos em
favor da Tropical, por conta de servings
que teria realizado para a empresa, no
valor de R$ 4,l milhaes. Mas nesses peri-
odo s6 declarou a Receita Federal R$ 142
mil de faturamento bruto. Das duas, uma:
ou cometeu sonega~go fiscal ou emitiu
notas frias, talvez a posteriori do period
em que os fats teriam ocorrido.
Ou seja: papelada sem valor legal, ape-
nas para justificar dinheiro gasto, mas nio
no local onde ja deveria estar a base para
o funcionamento da fibrica de sucos.
Dessa forma, dois dos acionistas das Or-
ganizaqdes Romulo Maiorana teriam pra-
ticado o mesmo tipo de delito que seus
veiculos acusaram outros empresarios de
terem cometido, sob a prote~go do ex-se-
nador Jader Barbalho: desvio ou mB apli-
caqio de dinheiro pilblico, atraves de va-
rios tipos de fraude.
Constatando a discrepincia no con-
fronto entire as documents fornecidos
pela Plangec g empresa dos irmios Maio-
rana e suas declaraqdes ao fisco, a Dele-
gacia da Receita Federal em Belem deci-
diu apurar os fats atrav~s de diligencia,
em 21 de dezembro de 2000. Para isso,
solicitou todos os documents da conta-
bilidade da empresa. A empresa alegou
nio poder tender o pedido porque "gran-
de parte da documenta~go fiscal referen-
te aos anos de 1996 a 1999 foi lamenta-
velmente extraviada e deteriorada". Mes-
mo novamente intimada a apresentar os
livros com suas contas, a Plangec se de-
clarou impossibilitada de cumprir a soli-
citaCio. Argumentou que, por ter parali-
sado suas atividades, toda a sua papelada
se deteriorou ou extraviou, fato s6 perce-
bido muito depois, quando ja nio havia
mais condiqdes de reconstitui-la ou sequer
de publicar os avisos regulars para co-
nhecimento pliblico.
Os procedimentos administrativos con-
tra a empresa prosseguem na Receita Fe-


deral, sob regime de sigilo, mas tambem a
contratante da Plangec esta tendo qlue se
explicar sobre as irregularidades constata-
das. Em julho de 2000 o Procurador Regi-
onal dos Direitos da Cidadania no Estado
do Para, Ubiratan Cazetta, determinou a
instauraqigo de procedimento administra-
tivo para apurar denuncias sobre ma apli-
caCgo de recursos pilblicos pela Tropical.
Nessa 6poca, tudo o qlue havia do projeto,
aprovado em 1995 pela Sudam, era uma
placa fmncada no terreno, anunciando a
implanta~go no local de um empreendi-
mento incentivado pelo governor federal.
No entanto, em apenas dois anos, de
novembro de 1995 a novembro de 1997, a
Sudam liberou para a Tropical R$ 3,3 mi-
lhdes de incentives fiscais, qlue o vento su-
postamente destruiria de uma s6 lufada. O
valor total do projeto era de R$ 20 mnilh~es,
metade de recursosDri)prios eos outros50%
de incentives fiscais, pelo artigo 9" (o "pro-
jeto pro~prio", no qual o investidor aplica
diretamente sua dedu~go do imposto de ren-
da, em geral cobrando uma taxa "por fora"
e estabelecendo esse compromisso atrav~s
de um "contrato de gaveta", para valer ex-
clusivamente entire as parties Deveria en-
trar em operaqio em 1998.
O procedimento administrative do
Ministbrio Publico Federal esti em fase
de conclusio, mas a hist6ria tortuosa do
projeto dos irmios Maiorana ja 6 bem
conhecida. Apesar de aprovado em tra-
mitagio acelerada, suas inconsistincias
eram evidentes desde a carta-consulta,
protocolada em margo de 1994.
Para ser enquadrada na faixa "a" de
prioridade, que lhe garantiu metade de
todo o investimento na forma de incenti-
vos fiscais, a empresa se prop6s a fazer o
beneficiamento de frutas regionals, como
acerola, abacaxi, cupuaqu e guaran8. As
declaragies dos alegados fornecedores
dessas frutas, por~m, era evidentemente
graciosa, a comegar pela ressalva de qune
o fornecimento seria sem "base firme",
algumas delas feitas em papel comum,
sem timbre, com as mesmas marcas dos
atestados da Plangec.
A graciosidade pode ser constatada .
numa gondola de supermercado: o pro-
duto qlue a Tropical comegou a entregar
neste ano 6 um refrigerate artificial, tipo
"pet" (ou tubaina), sem uma gota de fnrta
regional. S6, agora e anunciada uma mis-
tura de agai comn guarand, uma iniciativa
adotada as pressas para preencher lacu-
nas e tentar evitar a apuraCio da verdade.
Tiio as pressas quanto foi n implantaFio


do projeto a partir do ano passado, sob o
impact das investigaF~es administrativas
e judiciais do mar de lama que cobriu a
Sudam, atC enterra-la de vez.
Na carta-consulta, Romulo Junior e Ro-
naldo Maiorana nio comprovaram suas ca-
pacidades econbmico-financeiras para dar
a contrapartida de recursos proprios aos in-
centivos fiscais e nem apresentaram no qua-
dro de acionistas uma pessoa juridica, sem
a qual a Sudam nio podia aprovar o proje-
to. As de Rominho, afinal apresentadas, nio
puderam ser aceitas: elej8 as oferecera para
aprovar outro projeto aprovado pela Sudam,
do Hotel Rio Negro, no Amazonas. O in-
vestimento realizado ate. entio se limitava a
R$ 120 mil, gastos na compra do terreno,
com area de um hectare.
Forgados a ajustar o projeto as normas,
ainda assim os s6cios precisaram fazer
novas modificag6es na empresa que in-
corporaram a sociedade para esse fim, a
Bis Participagies (firma commercial que,
no0 balango de 1994, para um ativo total
de R$ 7,5 milhbes, registrava R$ 7,3 mi-
lhdes de aplicaqdes fmnanceiras), e nio
nomearam os tras investidores que entra-
riam com 43% das aq8es. A comprova-
950 da capacidade de conduzir o empre-
endimento continuou obscura.
Tgo confusa se tornou a danga dos acio-
nistas. Feitas as adequagbes, os irm~os, que
dividiam em metades o control da emnpre-
sa, passaram a ter participa~go simb61ica,
ja que a Bis ficou comn quase 98,9% do ca-
pital da Tropical. Um ano depois de apro-
vado o projeto, esse percentual foi reduzido
para pouco menos de 69%, entrando pesso-
as juridicas com imposto de renda a dedu-
zir, cada um com 10% (a empresa jornalis-
tica Zero Hora, de Porto Alegre, a RBS TV
Florian6polis, do mesmo grupo, e o Frigo-
rifico Industrial Monte Carmelo).
Em dezembro de 1998 a Bis sumiu da
sociedade, assim como os irm~os Romu-
lo e Ronaldo. Em seu lugar entrou a Ecca
Engenharia de ConstruC~o Civil, uma fir-
ma nordestina sobre a qual nio se encon-
trou registro na Sudam. Nem ela aparece
na enxurrada de propaganda do recem-
langado refrigerate, numa campanha que
seria milionaria se os veiculos escolhidos
nio pertencessem ao Sistema Romulo
Maiorana (que, evidentemente, ou nada
cobram ou fazem apenas escrituraCgo para
contabil cobrir a despesa) e que seria at6
adequada se a produgio da fabrica justi-
ficasse tanto apelo a um consumidor que,
ao chegar aos postos de venda, nio en-
contra uma oferta proporcional B expec-







JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE MAIO 3


tativa criada pela publicidade, provavel-
::":e :e dga na I<:::::a d aam
te artificial, ali~s, contrariando o compro-
misso do projeto).
Onde estio os verdadeiros dons apon-
tados no ultimo registro de movimentagio
societaria encontrado nos arquivos da ja
finada Sudam? Por que a Bis, de Ronaldo
Maiorana, aparece de fato como a contro-
ladora principal da Tropical, se vendeu sua
parte a desconhecida (ao menos localmen_
te) empresa de engenharia nordestina? Ele
readqluiriu as aqbes transacionadas?
Muitas perguntas, poucas respostas. O
Grupo Especial de Trabalho instituido em
dezembro de 2000 pelo Ministbrio da Inte-
graFio Nacional para apurar o "escbndalo
Sudam", na trilha de denuncias abertas
contra o ex-senador Jader Barbalho pelo
tambem ex-senador Ant~nio Carlos Maga-
lhttes, enquadrou o projeto da Tropical In-
distria Alimenticia entire aqueles que "de-
verflo merecer nova fiscalizaq~to, em cara-
ter de urg~ncia, verificando principalmen-
te a documentagio original quanto a sua
idoneidade, uma vez que a exigthidade de
tempo nio permitiu que se fizesse a circu-
lagio junto as autoridades competentes".
Anotou a comissio que a uiltima libe-
raqlo feita pela Sudam parao projeto, em
agosto de 2000, havia sido de R$ 1,3 mi-
lhao, arrematando os R$ 3,3 milhaes ja
integralmente liberados, valor que estava
contabilizado como o saldo de 1998, nio
de 2000. A duvida sugere que a soma fi-
nal pode ser bem maior do que os R$ 3,3
milhies apontados.
Ngo por acaso, logo em seguida comne-
param, em ritmo fren~tico, as obras onde,
desde 1998, devia estar funcionando uma
indbstria de sucos de frutas r~egionais, mas
onde s6 havia uma placa. Como por mila-
gre, a TV Liberal fez dezenas de insergies
ditirias anunciando um produto que so co-
megaria a ser comercializado, em doses ho-
meopaticas, dias depois. A inaugura~gio
seria em grande estilo, mas os convidados
ainda teriam pouca coisa a ver num galpio
so residualmente ocupado por maquinas.
Como a elucida~go das muitas drividas
em torno do proj eto nao virat atrav~s dos ve-
iculos dos monopolistas da comunicaqlio no
Para, que s6 dflo atengito (e pouca) a outros
projetos bichados da Sudam, espera-se que
o Mmnisterio Ptiblico e a Receita Federal pos-
sam dar conta do dinheiro pliblico enterra-
do. E, se possivel, restituir ao eiraio o que
tiver sido desviado ou mal aplicado. Com a
pubhicidade que for possivel.


Ao long dos uiltimos tempos tenho
escrito seguidamente sobre a hidreletrica
de Belo Monte, como, antes, ja escrevera
exaustivamente sobre Tucurui. Convida-
do para umn debate em Altamira, achei
mais eficaz nio repetir o qlue ja escrevi.
Aproveitei a oportunidade para apresen-
tar sugesties concretas. Acredito que pelo
menos algumnas dessas indicapaes, se ado-
tadas, possibilitario dar ao projeto de Belo
Monte uma configuraqio nova, evitando
qlue ele repita os erros de Tucurui, ou
mesmo qlue provoque um retrocesso na
insergio desse tipo de obra, de grande
porte, na paisagem fisica e humana do
local onde sera implantado.
Assim, pedi para serem examinadas as
seguint-es sugestijes:
Proper a rec~m-criada Agincia Na-
clonal de Aguas (ANA) a criagito do co-
rnit6 da bacia do Xingu. Apesar de a le-
gisla~gio jai prever essa figure, ela perma-
nece apenas no texto da lei. O comity vai
ser a principal instancia da sociedade ci-
vil no acompanhamento de qualquer obra
na bacia do rio.
Reqluerer a tamb~m recC1m-criada
Ag~ncia do Desenvolvimento da Amazo-
nia (ADA), qune substituiu a Sudam, qlue
elabore os terms de refer~ncia, em cara-
ter de urg~ncia, para abrir licita~go para a
contrata~go do Plano de Desenvolvimen-
to do Vale do Xingu. Esse plano sera sub-
metido ao Senado Federal para ser trans-
formado emn lei. At6 qlue essa lei entire em
vigor, nenhuma obra qlue cause impact
na bacia do Xingu podera ser iniciada. Ela
tera que ser enquadrada no planejamento
federal em sentido mais amplo, que esse
plano estabelecera.
Solicitar ao Ibama, responsavel
pelo licenciamento ambiental da obra
qlue exija do Eia-Rima uma analise so-
bre a transposiCio da barragem princi-
pal e da barragem auxiliar para a nave-
ga~gio O licenciamento nio podera ser
concedido se esse aspect nio for in-
cluido como parimetro de avaliaqflo dos
impacts da barragemn.
Sugerir a realizaqito de duas audi-
ancias pulblicas conj untas, uma delas em
Belem e outra em Cuiaba, entire as se-
cretarias de meio ambiente dos dois Es-
tados, representantes do lbamna, dos Mi-
nist~rios Puiblicos estaduais e federals,
das universidades federals, dos repre-


sentantes da sociedade civil e ONGs,
alem da Eletronorte e de 6rgitos do go-
verno federal envolvidos no empreen-
dimento, para examiner em profundida-
de e extensho o projeto da hidrel~trica
de Belo Monte. O resultado concrete
desse encontro seria um ajustamento de
conduta que o MP julgasse necessario
estabelecer comn base no qlue tiver sido
apresentado como evid~ncia de falhas
e insufici~ncias do projeto da Eletronor-
te ao long dos debates.
Criagio de umna comissio tripartite
(governo, sociedade civil e instituiC~es
tecno-cientificas) para o acompanhamen-
to da evolu~go do projeto da hidreletrica
e de sua execu~gio. A comissito teria cara-
ter consultive, mas todos os seus pedidos
de informaqbes e documents, assim
como todas as suas duividas, teriam que
ser atendidos pelo construtor. A comis-
s~o se reuniria ordinariamente uma vez
por trimestre em Altamira, ou, extraordi-
nariamente, quando convocada por pelo
menos metade dos seus membros.
O president da comissflo seria tam-
bem nomeado, por ato do president da
Repuiblica, ombudsman do projeto, com
mandate de um ano, renovavel por ape-
nas mais umn ano, protegido de afastamen-
to ou demissio nesse period, exceto por
just causa, devidamente caracterizada em
process administrative, referendado pela
maioria absolute dos membros da comis-
sito tripartite. O ombudsman, como os
demais integrantes da comissio, nflo te-
ria direito a salario, recebendo apenas um
jeton por participa~gio em reuni~o. A fun-
Cgo seria considerada de relevant inte-
resse pitblico. O custeio de suas ativida-
des seria retirado do fundo qlue sera cria-
do para tender a populaCio sob mnfluen-
cia da barragem.
Espero que estas id~ias contribuam
para animar os debates necessarios para
que esse novo grande projeto, concebido
para desenvolver a regiio na qual ira se
instalar, nho se transforme numa fonte de
problems, tendo efeito contrario ao pro-
metido. Para qlue isso seja possivel, os
cidadios, a comegar pelos qlue ficario ao
lado da enorme barragem de 90 metros,
precisam nio apenas entender o que esta
ocorrendo diante de si, mas se antecipar a
obra. Do contrario, mais uma vez, serio
atropelados por ela.


Ag ua: e os comit 6s ?







4 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE MAIO/2002


estadual precisava morrer com
Cr$ 200 mil. Quem desse bolo
perdia seu lugar na chapa. O pra-
zo fatal se esgotava tres meses
antes da dispute. Os candidates
qlue ficassem abaixo da s~tima
suplincia de deputado estadual e
da segunda suplincia de deputa-
do federal contavam pelo menos
comn um console: receberiam de
volta metade da cota paga.


Ref rig erante
Em 1962 havia nada menos do
qlue 10 indtistrias de refrigerantes
estabelecidas em Belem: Para
Refrigerantes, Produtos Vitbria,
Hilario Ferreira & Cia., Induistria
Amazonia de Refrigerantes, Fa-
brica Nazare, Vale Alves & Cia.,
B. M. Costa & Cia., Duarte &
Fonseca, Nogueira Mesqluita e
Induistrias Caciqule.


Pesquisa
A primneira pesquisa sobre o
custo de vida no Para foi reali-
zada emn 1962. Responsavel pelo
trabalho, realizado em todo o
pais pela Fundagilo Getulio Var-
gas, ficou o Setor de Estudos,
Treinamento e Aplicaplo
(SETA) da Faculdade de Ciin-
cias Economicas da Universida-
de Federal do Para. O escrit6rio
central de pesquisa era coman-
dado por Armando Mendes, di-
retor da faculdade, comn a parti-
cipaqflo dos professors Adria-
no Menezes, Wilton Brito, Ra-
m7iro Nazarei e Constantino Ote-
ro (qlue tambtm atuava como co-
ordenador). Pesqjuisadores fo-
ram recrutados entire alunos dos
curses de economic, filosofia e
servigo social.


RAd io
As oito horas da noite de do-
mingo, Oseas Silva comandava,
no audit6rio da Radio Marajoa-
ra (com piiblico e tudo, "ao
vivo", como se diz hoje), no Lar-
go de Nazare, o program "Ra-
dio Divertimentos". Subiam ao
palco as estrelas do "cast" Asso-
ciado: Jurema Cordeiro, Celia
Reis, Maria de Nazare, Jose Ra-
malho, Augusto Silva, Mario


Costa e, eventualmente, convida-
dos. Como, em setemnbro de
1962, a "cantora de radio e TV
cariocas" Claudia Moreno.


Dedo

O deputado estadual Athau-
alpa Fernandez, do PSD, em ou-
tubro de 1964, apresentou emen-
da substitutiva a um projeto do
seu colega, Gerson Peres, qlue
requeria solidariedade ao gover-
nador Jarbas Passarinho, dis-
pondo-se a prestar uma "colabo-
ragilo espontbnea": apontar "um
por um dos corruptos, dos con-
trabandistas, dos subversives e
desonestos que estlio agregados
ou apbiam o governor honest"
de Passarinho.
A mate~ria foi rejeitada em
plendrio.


FE B
Um dos contritos romeiros
do Cirio de Nazar6 de 1945 era
o tenente-coronel Manuel Jose
Ferreira Coelho, que havia sido
chefe de policia e comandante
da forga policial em Bel~m (e
depois, ja na reserve, como ge-
neral de exercito, ocuparia car-
gos civis nos governor pos-64).
Ferreira Coelho viera, comu a
mulher, agradecer por ter sobre-
vivido a Segunda Guerra Mun-
dial. Foi um17 dos integrantes do
Regimento Sampaio da For~a
Expedicionaria Brasileira qlue
combateram na Italia, ao lado
das tropas Aliadas, contra s po-
tincias do Eixo.


Luz
Em 1954 a prefeitura de Be-
16m abriu concorrencia publica
national para vender o material
remanescente utilizado pela Para
Eletrica no servigo de bondes da
cidade. A sucata incluia os tri-
lhos. Depois qlue eles fossem ar-
rancados, o vencedor da licitagilo
teria qlue recompor a via pribli-
ca. Comn o dinheiro arrecadado,
a prefeitura subscreveria o capi-
tal da sociedade de economic
mista qlue seria organizada para
explorer o transport coletivo na
capital paraense.
Ja a rede eletrica da extin~ta
companhia, fundada pelos ingle-
ses, seria entregue a Forga e Luz
do Para, em pagamento das
aqdes subscritas pela prefeitura,
qlue criara O Departamento de
Forga e Luz para substituir a
antiga concessionaria particular.
Mementos de transiglio nesse
sempre precatio serving.


Cand idatura
Quem quisesse ser candidate
a senador pelo PSD (Partido So-
cial Democratico) na eleiglio de
1962 tinha que contar comn um 1
milhilo de cruzeiros. Era o valor
da cota estabelecida pelo partido.
O suplente de senador precisaria
entrar comn 400 mil cruzeiros. A
confirmagao da candidatura para
deputado federal custaria Cr$ 500
mil. E um candidate a deputado


gor, nio ha erro; tito somente uma
afetaglio do estilo, uma especie
de preciosismo As avessas".
Essa nota de CAM (iniciais de
Carlos A. de Mendonga) saiu na
Folha do Norte de 17 de feverei-
ro de 1965, mas continue comn
espantosa atualidade. Aplica-se
como corretivo ao linguajar atu-
al, qlue, de novidade, trouxe um
novo uso ("fulano colocou
qlue...", "sicrano fez a coloca-
glio"), aplicado a discursos.
O mundo gira para ficar no
mesmo lugar.


M'lrsica
Eleita Rainha dos Jopagicos
(Jogos Paraenses Ginasio-Cole-
giais) de 1967, ela descansou da
competi~gio vereaneando em
Mosqueiro. Nilo sem antes dei-
xar, "com o musicista Jesus, para
orquestragito", dois sambas bos-
sa-nova, uma composigio "em
ritmo i8-ie-ie" e duas can95es,
letra e muisica de sua lavra. Era
a afinada Jane Moreira, agora
conhecida nacionalmente como
Jane Duboc, um dos grandes no-
mes na histbria da musica popu-
lar paraense.


Caffei raS
Cassado pelo regime military e
afastado da political, o ex-gover-
nador do Amazonas Gilberto
Mestrinho publicou uma nota na
imprensa de Belem, em 1967,
para anunciarqcue estava colocan-
do a1 venda seus 45 apartamentos
no edificio que levava o seu nome,
na Serzedelo Corre~a com a Con-
selheiro Furtado, naquele momnen-
to em construglio pelo engenhei-
ro Ocyr Proenga. As vendas seri-
am feitas por Secundino Portela,
da Imobiliaria Gamna Malcher,
Mestrinho se responsabilizava
"pelo prazo de entrega qlue se fi-
xar nos contratos de venda a se-
remn celebrados".
Mulito rico, Mestrinho volta-
ria a political como governador
(agora e: senador pelo PMDB).
Ocyr Proenga nito sustentaria a
carreira empresarial; morteria
pouco depois. Secundino pularia
para a induistria, mas terminaria
tilo cedo quanto tragicamente.


Linguag em
"EstB-se a praticar freqiien-
te abuso do verbo 'colocar'. Nio
resta duivida qlue a sinonimia
com o verbo 'pir' e perfeita.
Mas, nem sempre bem posto, o
arrebique vernacular deve ser
evitado. Amigo nosso, viu re-
centemente na sala de redaglo
do 'Jornal do Brasil' o seguinte
aviso: 'Fica expressamnente
proibido o emprego do verbo
colocar, em qualquer artigo, to-
pico ou noticia sem permissio
do secretirio'. E qlue o abuso foi
notado. Por da-se-ca-aquela pa-
lha, la vinha o verbo 'colocar',
tomando a vez do seu colega
'por'. E comum se ver impresso
nas gazetas: 'A galinha colo-
cou um ovo'; 'O ladrito foi colo-
cado em liberdade'; 'Pedro co-
locou os olhos em alvo'; 'Maria
estava junto ao altar, de mitos
colocadas'; (!); e assim outros
exemplos. NumT diario local vi-
mos ha dias: -'Plano de triinsito
sera colocado emn pratica'. A ri-







JOURNAL PESSOAL 16 QUINZENA DE MAlo 5


Salvar o institute
T*O Instituto Hist6rico e Geografico do Para completara 102
b'anos no dia 2. E uma senhora data. Mas o IHGP tornou-se uma
palida caricature da mnstituli~o qlue conheci, mal said das cal-
gas curtas, ciceroneado para uma sessio, no inicio dos anos 60,
:a por Jesse Feitosa. Quase quatro d~cadas atras, o institute ainda
vivia. A maioria dos seus integrantes podia ser identificada em
associaqio facil, exatamente por sua vinculagio com a histdria.
A revista da entidade ate saia. Hebdomadaria, e verdade, mas
com presenga pelo menos annual.
Ha muitos anos quase nio ha sessies no assim chamado silo-
geu. As poucas qlue ainda acontecem tiveram que ser transferidas
para a Academia Paraense de Letras. Sob teto podre e a ameaga
de inimigos invisiveis no ar, de acaros a bacterias, os associados,
muitos deles vetustos, quase nao aparecem na sua pr~pria casa.
Durante sua gestio longaa, como de habito entire os presiden-
tes do IHGP), o ex-reitor da UFPA, Jose da Silveira Neto, pelo
m~enos dava seu despacho diatio no lugar, cuidando do qlue via e
mantendo a formalidade da existencia. Sea successor, Geraldo Mar-
tires Coelho, que assumiu atraindo esperangas, nem isso fez,
embora prometesse muito mais. O belo solar, que hospedou a
nobreza local eeC uma das mais belas edificaqdes da cidade, ao
lado dos palacios estadual e municipal (e do monstrengo arquite-
t~nico da Assembli~ia Legislativa), esta em ruinas.
Nao se trata de forga de expresso: a deterioraCio do pr6-
i* dio, sobretudo nos andares superiores (e no mirante, pega rara
de um estilo qlue ainda faz o encanto de Sio Luis do Mara-
nhio), ameaga com desabamentos. Os cupins fazem sua festa
e alguns saqueadores, beneficiados pela desatengio dos res-
ponsaveis pela instituigBo, provavelmente surrupiaram algu-
mas das peas. Valiosas, elas ja provocaram admiraCgo em
exposipies realizadas em outros lugares e nas poucas visits
qlue o institute ainda recebe. A ausancia do qlue ver e agora
mais forte do que os objetos exibidos.
A junta governativa atual, com a adessio de associados e
pessoas de boa vontade, tenta salvar o solar que o Bartio de
Guajara notabilizou e dar importincia social ao institute. Comn


r*


D~LPrr'l hB:4C~TIl(`t' titl'aPua ~SPrrr.
- ~; ;,- ~ i-;l~-;~ ~-- h~ ~:-~i ~ i;~l- -J Pii. .-i y~
IcC--i


ual n lll~o?) major-brigadeiro (da Aneronautica)
Eduardo Gomes era o candidate dos
conlsen a~.dores, a frente dos quais a UDN agitava
as bandeiras, a presidincia da Reptiblica em 1945. Neste
arnincio, publicado em dezembro daquele ano na Folha do
Norte, sua autentica estampa de hert~i aparece com todo o
destaque, apresentado como o candidateo da NaCio". Mesmo
em tamanho menor, por~tm, la esta a imagem de outro official
superior, o general Eurico Gaspar Dutra, candidate rival do
PSD, o mais pr6ximo do perfil do recem-destronado Gettilio
Vargas, do qual havia sido o ministry da Guerra (minist~rio
ainda existente, com jurisdigilo sobre as tres Armas). Jos6 da
Gama Malcher e Agostinho Monteiro eram os nomes da
coliga~go UDN-PPS ao Senado Federal. Deodoro de
Mendonga tentava a Cimara Federal pelo PPS. Todos
representantes da elite local, embora o PPS de Ademar de
Barros se chamasse Partido Popular Sindicalista. O
eleitorado de entio, de 45 milhdes de brasileiros, era pouco
mais de umn tergo do que ird as urnas neste ano para escolher
o successor de um president que tambitm tinha um dos pes, o
paterno, enraizado no geltulismzo. Tinha.


(Maluricinho, seria possivel dizer hoje? Ou


isso, esperam atrair recursos e chamar a atenghio da comunida-
de para o desafio de salvar o institute e o patriminio que, pos-
to sob sua guard, emergiu em sono pre-ag6nico. Sabem que
s6 conseguirio seu objetivo recriando a instituiClo, de tal ma-
neira que nos apercebamos de que ela existe. E dela passemos
a tirar o just e devido proveito.





Sou suspeito para falar, mas you falar: agiu certo o Dia~-
rio do Para ao abrir espago para uma coluna didria (de
terga a sibado) de Elias Ribeiro Pinto, complementada
por sua pigina literaria dominical e uma entrevista is se-
gundas-feiras. Ngo e por ser meu irmio, mas Elias 6 um
dos profissionais que melhor se sai no dificil jornalismo
cultural no pais. E tem a verve do cronista que a cidade
perdeu e nio recuperou. Tomara que tenha aplicaqio e
discipline para ocupar o espago que, de direito, lhe per-
tencia, e, agora, de fato, lhe foi reconhecido.


O Candidate Dagl Nagg A
Presidencia DA~ Re pu blica


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6 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE MAIO/2002


Duas semanas antes de ser assassi-
nado, em dezembro de 1989, o serin-
gueiro Chico Mendes participou de um
debate em Piracicaba, no interior de Sgo
Paulo. Confidenciou aos seus interlocu-
tores, a margem das discusses sobre a
Amazinia: estava com medo de morrer.
Achava que seria mesmo assassinado se
voltasse ao Acre, uma distant paragem
do sertho brasileiro, s6 lembrada quan-
do algum de seus filhos adquire fama,
como o pr6prio Chico (& Jarbas Passa-
rinho & Armando Nogueira & Jose Vas-
concelos & etc.; na verdade, muito pou-
co etcetera a mais).
Francisco Alves Mendes Filho foi
erigido a condigio de her6i por pessoas
fisicas e juridicas (as entio emergentes
ONGs) de varias parties do mundo por
seus "empates", uma resistencia pacifi-
ca (como a do Mahatma Gandhi) aos
desmatamentos, que estavam destruin-
do a seringueira, a "arvore que chora"
do romance de Vick Baum; chorando
latex, a seiva branca da existencia dos
antigos "soldados da borracha", aban-
donados a pr6pria sorte depois de terem
dado seu sangue vermelho no esforgo
de suprimento dessa vital matbria pri-
ma aos paises aliados~na Segunda Guer-
ra Mundial (1939/45).
O violent fazendeiro Darly Alves da
Silva, o donor de fato do municipio de
Xapuri, nio estava nem ai para o herbi
international da ecologia. O que ele nio
tolerava era o caboclinho audacioso, que
juntava gente na mata e se colocava di-
ante dos pedes contratados para derru-
bar floresta e substitui-la por pastagem
para boi. Desacostumado de ver suas or-
dens nio serem cumpridas, o fazendeiro
mineiro colocou o desafeto no que na
Amazinia se tornara (e continue a ser at6
hoje) normal: a lista dos anunciados para
morter. Um tiro de escopeta espalhou 60
fragments de chumbo pelo corpo do
seringueiro, rec~m entrado nos 44 anos.
Com o estrondo, um cabo e um soldado
da Policia Militar acreana, responsaiveis
pela seguranga do seringueiro, a poucos
passes de distincia, fugiram assustados.
Se Chico Mendes tivesse ido para
algum dos paises de origem dos seus
aliados estrangeiros, 14 ficando homi-
ziado por certo tempo, e nio para o
Acre, ainda estaria vivo? Era uma pos-


sibilidade, bastante plausivel. Ja a ou-
tra alternative, a adotada, era uma fa-
talidade: a familiar do fazendeiro tru-
culento ja havia determinado o desti-
no do desatefo. Certamente por isso,
quase chorando, Chico disse aos aca-
dimicos, que o ouviram encantados,
em Piracicaba, que ele s6 queria uma
coisa: viver. Sabia que, enquanto he-
r6i, estava com a sentenga pronta, pen-
dente apenas de execu~go. Queria po-
der voltar a ser um home comum da
mata, marido carinhoso, pai atencioso.
Mas essa era uma dimensio que ja nio
interessava a mais ninguem. Estava
condenado a ser her6i. Por conseqa6n-
cia, precisava seguir seu destiny: mor-
rer; para tornar-se um martir.
O destiny manifesto de Chico Men-
des, s6 lateralmente abordado nos mi-
lhares de paginas escritas a prop6sito
do seu assassinate, deveria ter servido
de incentive a um esforgo coletivo de
atualizaqio, no sentido de conciliar o
sertio amazbnico com o acervo de fran-
quias e direitos individuals do Brasil
modern. Do lado mais glamouroso do
pais, sho poucas as pessoas marcadas
para morter. Quase sempre, porque fi-
zeram da violencia profissio de fe e ofi-
cio. It uma retina entire traficantes de
drogas, por exemplo. O cidadio comum,
porem, entra nessa safra sanguinaria por
acaso, ou sem consciincia da ameaga,
tramada por seqiiestradores, nos casos
mais graves, em funCio da expectativa
de ganhos. Desde a redemocratizagi~o,
deixou de ser rotineira nesse Brasil a
ameaga de morte motivada pelas idei-
as. O crime politico, enfim.
Na Amaz~nia, pori~m, pessoas que se
destacam por sua combatividade ou pe-
las ideias divergentes que adotam, ou
entio porque pertencem as chamadas
"classes subalternas" (rebeldes ou mnar-
ginais), continuam sujeitas a eliminaqio
fisica premeditada, a entrar para a rela-
Cgo da morte anunciada, que circula, com
desenvoltura e cinismo, pelos grotdes da
regiio. Quando um personagem cuja no-
toriedade ultrapassou as fronteiras locals
6 a vitima, hB repercussio no upper-land,
e, as vezes, impact dos grandes, como
no caso de Chico Mendes, porque esse e
o papel principal que cabe a tais perso-
nagens: deixar-se ficar como uma ban-


deira, gloriosa porque p6stuma, e her6i-
ca exatamente porque a dor da perda san-
tificara a biografia, apondo-lhe o sinete
da verdade e encerrando a hist6ria, a ser
consagrada no universe ultramarino.
A colheita de nomes na safra do cri-
me anunciado se faz sem alarido o ano
inteiro quando ceifa a vida de gente ano-
nima. Anbnima para os grandes centros,
onde nascem as ondas de cultural que se
irradiam pelo mundo. Relevante, porem,
para as populagaes das quais nasceram
esses lideres e dos quais elas tanto de-
pendem para continuar a caminhar (quan-
do, de fato, sairam do estado de letargia
e ja caminham). Custa ouro produzir es-
sas liderangas. O process de formaqio
e demorado, claudicante, perigoso. O da
destrui~go 6 simples e rapido.
Ha pistoleiros de aluguel nos arre-
dores de qualquer zona de convergin-
cia dos fatores de tensio e conflito, que
podem ser representados por garimpos
ou fazendas, reserves indigenas ou
acampamentos de lavradores sem aces-
so a terra, batizados como cidades.
Mata-se em domicilio por um cachi que
pode comegar com algumas notas de 50
reais (as ja populares "roseanas", um
escarnio ao Rosa que melhor expressou
literariamente o sertio brasileiro, o mi-
neiro Joso Guimaries). O valor mone-
tario depend do alvo indicado. Mata-
se sem a mais remota ideia do valor so-
cial e pessoal de quem sera eliminado.
Eventualmente, a execugho do "servi-
go" pode trazer dissabores ao profissi-
onal da morte (ou ao empreiteiro, quan-
do ele toma as dores e cuida diretamen-
te do "problema").
A violincia, que ignora os parame-
tros constitucionais em vigor na tercei-
ra maior democracia do planet, e as-
sustadora na Amazonia. Choca ainda
mais quando e possivel dimensiona-la
em toda a sua amplitude. Ela tem uma
face explicit, a dos assassinates politi-
cos, que visam eliminar divergentes e
opositores, mais freqiientes do que su-
pie o noticiario jornalistico. Outra face
se apresenta atrav~s da sobrevivincia de
formas sociais primitivas, algumas delas
remotamente primitivas, como o traba-
lho escravo, legalmente abolido no pais
ha quase 120 anos. Atualmente ha um
debate na regiko entire os que registra-


A lei da selva







JOURNAL PESSOAL In QUINZENA DE MAIO 7


r m l~ nia~- e- br o n n o asp d oe

os que fazem seu calculo com base em
alguns milhares de ocorrencias. A dife-
renga soa comno problema metodol6gico.
Abstrai-se que centenas ou milhares diz
respeito a vidas humans.
Mas ha violincias sutis que a retina
se encarrega de banalizar. Quem viaja
durante o verho pelas grandes estradas
de chio compactado da regiho, ainda as
predominantes, cinco d~cadas depois
das primeiras rodovias de penetraqio na
Amaz~nia, pode testemunhar, sobretu-
do aos domingos, um espeticulo de
agressio dissimulada: families inteiras,
vestindo sua melhor roupa, recebem ca-
madas e mais camadas da grossa poeira
vermelha levantada pelos carros em
trb~nsito, nos quil6metros que precisa-
rio seguir it margem da estrada ate o
culto religioso que as espera.
Sairam limpas e bem vestidas de casa.
Regressad~o empoeiradas e desgrenhadas
do program semanal mais important de
suas agendas. Nio notario o desrespeito
se ja estiverem suficientemente embru-
tecidas pela "lbgica da fr~onteira". E a lei
nflo escrita, mas cumprida a risca, segun-
do a qual os direitos e garantias indivi-
duais s~o para todos os brasileiros, mas
nflo exatamente para os sub-brasileiros
da jungle, da terra selvagem que cabe ao
bandido amansar, como o modelo de pi-
oneiro na frente de abertura economica,
enquanto o mocinho nfro chega. Se 6 que
chegara algum dia.


A aventura de fazer, num pais de di-
mensies continentais como o Brasil, um
journal didrio verdadeiramente national
engoliu mais um aventureiro, a Gazeta
Mercantil. Dirio os apressados que a es-
finge e indecifravel, da mesma maneira
como a culpa pelos fracassos dos proje-
tos Ford e Jari foi jogada sobre as costas
largas da floresta amazonica. E impossi-
vel minimizar as dificuldades da emprei-
tada. No caso da Gazeta, a empresa que
at6: hoje chegou mais perto de domar o
touro bravio, o desastre deve ser atribui-
do, porem, menos a fatores externos do
que a causes internal.
Dispondo de tecnologia mais apropria-
da (do que, por exemplo, o Diairio de Noti-
cias, na decada de 70, que usava sinal de
radio) para editar um jornal simultanea-
mente, cinco dias da semana, em 12 capi-
tais brasileiras, a partir da central, em Sio
Paulo, agregando a edigio national cader-
nos locals, a Gazeta esteve bem pr6ximo
de consolidar um modo e uma estrutura de
produgho de jornalismo brasileiro.
Deve-se creditar esse merito a auda-
cia de Luiz Fernando Levy, que sucedeu
o pai, Herbert Levy, numa empresa com
82 anos de existincia, especializada no
noticidrio econbmico e fmnanceiro. O ex-
cesso de infase, contudo, projetou Luiz
Fernando no vacuo da megalomania. Ten-
tou abarcar ao mesmo tempo o Brasil e o
continent, indo na onda do Mercosul.


Dentro dela, o jacar6: nio era nada simb6-
lico. Temn engolido todas as dificeis con-
quistas da empresa. E exibido seus exces-
sos e irracionalidades.
Na busca do modelo do Wall Street
Journal, que talvez ate pretendesse supe-
rar, a Gazeta encolheu ao tamanho de anos
atrais, involuindo a partir da grandeza a que
chegara. Comprometeu at6 mesmo a sua
sobrevivincia. Sua receita ja nio e bastan-
te para amortizar seu debito. A fi~rmula
salvadora tem dois components. Um, po-
litico, depend do que acontecer ate: as elei-
95es presidenciais. Outro, financeiro, esta
relacionado ao ingresso de capital liquid
estrangeiro na midia national.
No plano estritamente local, deve-se
lamentar o fim precipitado de uma expe-
riincia de dois anos, a Gazeta Mercantil
Parai, que vinha tentando levantar o pa-
drflo da cobertura jornalistica entire n6s,
emnbora com uma entonaqflo acentuada-
mente official, quase chapa branca as ve-
zes. Pelo menos o caderno paraense se-
guia normas profissionais, uma das
quais, basica, parece estar sendo esque-
cida nos shopping de noticias em que
as paginas de jornais (e os espagos de
veicula~go de radios e televises) pare-
cem estar se transformando: o jornalis-
mo nio agride os fats, submete-se a eles.
Quem sacrifice fats ou os negocia faz
comercio, nio jornalismo.
Mais uma perda a lamentar.


anuncia, em entrevista a Elias
Ribeiro Pinto, no Diario do
Parai, que suas mem6rias des-
ta vez sairflo. Se tudo der cer-
to, at6 o fmnal do ano. Tomara
que sim. O livro anterior foi
pouco mais do que um album
de retratos. Consciente de que
escrever mem6rias para nflo
dizer o que sabe 6 infitil, o ex-
governador podera remir suas
falhas, ao menos em parte, ofe-
recendo aos seus contempora-
neos elements para uma anit-
lise mais correta daqueles tem-
pos do que as desculpas esfar-
radadas dos baratistas ou as
acusaC6es ocas (e as vezes tos-
cas) dos seus engomados (e
freqiientemente farisaicos)
acusadores morals.


que voltavam a cena imaginan-
do aproveitar o vicuo deixado
pela morte do lider dessa oli-
garquia, Magalhies Barata.
Fazendo carreira agregado ao
judiciario, que a condigio de
pretor nomeado lhe permitiu,
ou subindo pelas engrenagens
correcionais do baratisrno, en-
quanto chefe de policia, Aur6-
lio era um apparatchick pesse-
dista, uma esp~cie de joyem
turco, se tal fosse possivel nas
hostes do velho PSD.
Os tris anos de Aur61io
como governador revelam um
confuse difuso projeto popu-
lista, derivagao do modelo ge-
ral que aqui chegou desviado
- ou, melhor dizendo, contra-
bandeado, para usar uma refe-


r~ncia marcante da 6poca. Era
uma situaqio desigual, irregu-
lar, contradit6ria. O ultimo so-
pro de autonomia do governa-
dor destituido do cargo e cas-
sado pelos militares vitoriosos
foi de dignidade, fechando
com chave de ouro um desem-
penho administrative desen-
contrado, descontinuo e, fre-
qilentemente, desastrado. Mo-
.mentos de boa inspiraqio e
acerto nio foram mais do que
mementos. O joyem governa-
dor pagou o prego da imaturi-
dade. Diga-se em seu favor
que, ao contrario de virios
companheiros de viagem, pa-
gou devidamente o prego.
Octogenario, o ex-desem-
bargador Aurelio do Carmo


FOCilo de ouro
Aur61io Corr~a do Carmo
nasceu em Bel~m no mesmo
ano, o de 1922, no qual inte-
lectuais paulistas tentavam atu-
alizar a mentalidade brasileira
ao Brasil real, apagando suas
ilus~trias projeq~es parnasianas
e as interpretaCges utilitarias
patrocinadas pela elite no po-
der. Trinta e nove anos depois,
o advogado Aurelio do Carmo
seria o mais joyem governador
do Para, na sua primeira dispu-
ta eleitoral. Emprestou sua jo-
vem estampa, sua linguagem
agradivel e seu carisma ao res-
tabelecimento do poder bara-
tista sobre uma oposigio de
velhas liderangas "coligadas",


Perda jornalistica








Faganha
O Journal Pessoal comple-
ta, nesta edigio, sete anos com
o mesmo prego de capa. Tal-
vez seja um dos raros produ-
tos do mercado a poder apre-
sentar esse resultado. Em ma-
t~ria de pagamento de funcio-
narios, a administraqi~o Almir
Gabriel ficou apenas ligeira-
mente atris. No mesmo perio-
do, reajustou o salario dos bar-
nabe~s estaduais em 7%/.
Parabens, leitores. Meus
pasames, barnab~s.


Advog ad o
Os privilegios dos advoga-
dos sio legitimos e positives
durante as audiancias e em to-
dos os mementos da instrugio
processual, como garantia do
devido process legal e do
amplo contradit6rio. Estendi-
dos a mera entrada e circula-
gio nos diversos foruns, tor-
na-se um favorecimento odi-
oso, discriminatdrio.
A porta de seguranga ins-
talada no Tribunal Regional
do Trabalho ajudata a deslin-
dar o advogado corretamente
aparelhado para o desempe-
nho do seu oficio do profissi-
onal desqualificado ou pes-
porrento (e o mau do bom ci-
dadio em geral). Em nada di-
minui ou humilha o exercicio
da profiss~io. A falsa dignida-
de aviltada pode ser apenas
habeas corpus preventive, in-
devido e imerecido, para a
mentalidade das "carteira-
das", o traditional recurs de
quem, nio tendo razio, julga
ter forga para impor sua von-
tade recorrendo ao "sabe com
quem esta falando?".
Se avaliar melhor a attitude
a adotar em relagi~o a essa ino-
vaCio do TRT do Para, a OAB
mostrar8 que, al~m de entida-
de corporativa, 6 uma institui-
gio da sociedade. N~io um te-
lhado vadio para gatos pardos
e pretos. Ainda que togados.


O Umarizal esti merecendo a urgente aten-
gio dos belenenses. Reduto da popula~go mais
pobre da cidade, sobretudo dos negros, o bairro
se fez com um perfil muito pri~prio: pequenas
casas geminadas, para diminuir o custo da cons-
tru~go, convivencia comn as areas alagiveis, uma
iconograff a quase rural e uma simpatia genera-
lizada entire seus moradores, a despeito dos re-
gistros policiais de fim-de-semana.
Hoje o bairro passa por uma dristica e pro-
funda altera~go de composiEgio e fisionomia. Os
antigos moradores, muitos deles descendentes de
escravos, est~io sendo tocados de suas casas pela
especulagio imobilidria ou pelos hibitos dos no-
vos moradores, emboletados em suas construg~es
verticals. Um dos sintomas dessa mudanga 6 a
press~io para acabar com a escola de samba Quem
Shio Eles, uma evidence perturbaCio sonora, mas
traditional, qlue agora soa intoleraivel a ouvidos
mais sensiveis aos decib~is populares.
Enquanto a simpatica agremiaqio carnava-
lesca esta sendo "convidada" a fazer as trouxas
e procurar outro abrigo, os espigaes de concre-
to, cada vez mais altos, se multiplicam. Con-
quistada a terra as mars gragas a aterro e dre-



NOsso pintor Ra
Emanoel Nassar 6 um dos talvez A
seja mesmo "o" mais cosmopolitas duzid
pintores paraenses. Para veneer o desa- so pal
flo das fronteiras ele nio precisou ade- be, ul
rir a modismos nem a solugdes de mer- dispu
cado. Manteve suas raizes. N~o como na no
uma formula meclinica, um regionalis- queci
mo estreito, uma decoraqio folcl6rica. bre e
Sua linguagem se tornou universal g prim~
media qlue ele foi eliminando o aces- plexic
s6rio on as interferincias em sua obra. elensl
Limpida e clara, ela passou a expressar A
um inconsciente coletivo est~tico ama- Sharo
zonico, com sua geometria e suas co- dem u
res, seus tragos e linhas, explorando ao sua u'
maximo aautonomia da pintura enquan- clara
to criava respiradouros que funcionam nio p
como canals de expresso, sugerindo o onali~
mundo que se encerra nesta regiio. vos cc
Alegra a todos nbs, seus conterri-
neos, admiradores e amigos, que Ema- M
noel Nassar tenha sido um dos poucos M
brasileiros selecionados para a expo- Nr
siCio de pintura brasileira que serb forma
apresentada durante a Copa do Mun- des d~
do. Desta vez, o mercado fez justiga. do pel


nagem, ser~io outros os beneficiarios da melhoria.
Tera que ser assim porque 6 sempre assim que e?
Esta e uma quest~io. A outra diz respeito ao bem
de toda acidade. Os arranha-ceus (amazonicamente
falando, 6 claro: chegando a 30 andares) estio for-
mando um pared~io de concrete justamente na di-
re~go em que o vento, entrando no sitio urban, se
espraia pela cidade, minorando os efeitos dessa
combinaqio mortal de calor e umidade. Sem vento
(e sem arborizagio), Bel6m vai se tornar insupor-
tivel para nossos filhos e netos. Talvez, alias, ja
para n6s mesmos, se a inctiria continuar a evoluir a
galope, como tem ocorrido, e fomos tio omissos
quanto temos sido.
Ja est8 mais do que na hora de nossos legisla-
dores municipals estabelecerem um gabarito dra-
coniano para construgdes em Bele~m. Os especia-
listas, sobretudo os que estilo atentos a formaCgo
das ilhas de calor nas cidades, poderiam definir o
limited de altura. Agora que a macrodrenagem esta
valorizando novas areas de baixada, dificilmente o
efeito dessa salutar provid~ncia podera ser o enca-
recimento da construgio. A nio ser que os admi-
nistradores p~iblicos queiram continuar indiferen-
tes ou coniventes com o lucro especulativo.


Izao
Confederaqio Israelita do Brasil, em nota aqui repro-
la pelo Centro Israelita do Para, admite que vive no nos-
is em harmonia e respeito mlituo com a comunidade Bra-
m modelo que poderia servir de exemplo "as diversas
.tas que ocorrem pelo planeta. As consideraqdes feitas
ta teriam apenas o prop6sito de "contribuir para o enri-
mento do debate sobre o oriented M~dio". Prop6sito no-
justo. No entanto, ao endossar tudo o que tem feito o
eiro-ministro Ariel Sharon, a nota desmente a real com-
dade do problema, exaurindo-o num enunciado: os isra-
es tim razio; os arabes, nio.
nota nio chega a sustentar a soluFho pelas armas, que
,n adotou como bandeira, chocando os que ainda defen-
Ima solu~go political para o sangrento impasse atual, mas
nilateralidade tamb~m nio efetiva os objetivos que de-
defender. Pelo menos ate agora, de qualquer maneira,
rovocou um indesejado efeito lateral: importar o passi-
smo e o odio que transformaram a terra comum de po-
om a mesma origem numa arena de barbaros.


iidsculo
a propaganda que fez para 0 laborat6rio Pfizer, Pel6 in-
Sque "um em cada tris homes adults tem Dificulda-
e Ere~go". O "atleta do seculo", pelo visto, foi escolhi-
la facilidade com que faz as letras ficarem maitisculas.


'"'''' "~_.'1"::'I"':_'""'''''"' :" ~'--'- "''"'"'" i '1'1; '::;';;'"'~ :':'I'-'~,:;'~'~~ imrll I llj'.jr. j; r plo.ujai jl..;. ~...l.j E.ljli~d Pns L.l.;j.,I.:.~,.- 1;lj..,,....l:


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