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Journal Pessoal L C I O F L A V IO P I N T O ANO XV N. 281.,..J QJ UINZENA DE ABRIL DE 2002 R$ 2,00 f--* c ' ELEI(AO Vai ter marmelada? 0 eleitor, os cabos eleitorais e os candidatosjd pareciam convencidos de que o eixo da pr6xima eleigdo seria definido pelo antagonismo entire o grupo do governador Almir Gabriel e o do ex-senadorJader Barbalho. Porforga depirotecnia formal, elespodem acabar aparecendo como aliados. Como reagira a essa metamorfose o distinto public? goverador Almir Gabriel e o ex-senador Jader Barbalho no mesmo palanque, ou, mais sim- bolicamente, no mesmo pica- deiro? Antes de uma interpretacao do Tri- bunal Superior Eleitoral impor coligacges eleitorais de cima at6 embaixo, essa hi- p6tese era completamente descartada. Mas se a alianqa PSDB-PMDB para a dis- puta da presidencia da Republica se for- malizar, com a chapa Jose Serra-Jarbas Vasconcelos, o goverador e o ex-sena- dor terao que esquecer tudo o que disse- ram atW agora e costurar tamb6m uma co- liga9ao no Para? Por enquanto, nenhum dos dois lados quer examiner essa circunstancia, nem para raciocinar sob hip6teses. Talvez porque ela nem venha a se materializar. Tanto PSDB quanto PMDB poderiam disputar a elei- cgo estadual sozinhos ou buscar coligagd com partidos que nao apresentassem can- didatos a presidencia, aproveitando-se de uma brecha deixada pelo TSE na sua in- terpretaiao, com forqa de aut6ntica lei nova, sobre as coligag6es verticalizadas (ou engessadas). O PFL pode ser o aliado do PSDB paraense, se a candidatura de Rose- ana Samey for mesmo rifada e o partido optar por se fortalecer no parlamento. Ou- ) CL LtltdLCL- [Lj-L,: CI-tLL[[L LL C-L:LLLt1CVLV (Ltz L L (: ) , ~~?i ~ 2 JOURNAL PESSOAL 1- QUINZENA DE ABRIL/2002 tras legends, embora de importincia muito inferior, podem ser oferecidas para agre- gar-se a um dos dois partidos. Se ficar inviabilizada qualquer coli- gacao, exceto a imposta por acordo fe- deral, PSDB e PMDB preferirdo arris- car uma caminhada sozinha ou tentar costurar uma composiggo de nomes? Do lado do governor, uma definigao 6 cate- g6rica: indicar o candidate a sucessao de Almir Gabriel. O escolhido, como todos ja sabem (sobretudo os descon- tentes), 6 o secretario especial da pro- dugao, Simao Jatene. Jader Barbalho pode aceitar esse nome? As indicaqoes feitas pelo PMDB sao de rejeigio a Jatene. Ele seria um can- didato demasiadamente identificado cor Almir Gabriel, que, por isso mes- mo, assumiu uma postura intransigente diante das reacqes dentro da "Uniao pelo Para" i confirmacio do seu favo- rito. Alguns sinais mais recentes, con- tudo, sao de mudanga. No iltimo domin- go, na coluna que, para pasmo de mui- tos, voltou a escrever no Didrio do Para, o ex-prefeito Helio Gueiros s6 faltou se declarar titio de Jatene, depois de ha- ver se referido cor ironia e deboche ao secretario do governador. Apesar de alardear independencia e profissionalismo, Gueiros escreve mais como politico do que como jornalista. Fala tanto por ele mesmo como pelo es- quema politico ao qual voltou a se inte- grar, depois de dele ter sido expulso, em 1990, acusado de traidor, por proposi- gio do deputado Nicias Ribeiro (hoje tucano de carteirinha), aprovada por unanimidade pelo PMDB. A simpatia do ex-atual peemedebis- ta, reincorporado no papel de irmao mais velho de Jader Barbalho, pode sig- nificar que Jatene sera absorvido, des- de que o acordo PSDB-PMDB compen- se. De ambos os lados, alias, ja sao fei- tas refer6ncias a participagio de Jatene como secretario de planejamento no pri- meiro governor de Jader e secretario de assuntos fundiarios na conturbada ges- tao de Jader no Ministerio dos Assun- tos Fundiarios. Nessa hip6tese, o que seria mais van- tajoso para o partido de Jader e H6lio? Talvez a maquina official ampliando o poder de convencimento p6blico para a volta do ex-ministro ao Senado. O es- forco poderia ser complementado corn um trabalho de limpeza de area dos tu- canos, nos bastidores, para que o impac- to do retorno do filho indesejado nao crie constrangimentos intransponiveis. Essa predisposigio parece ja existir a nivel federal. T6m sido constantes as ligaoses telef6nicas de Brasilia para Jader e vice-versa, algumas do Palacio do Planalto e arredores. O PMDB ganharia ainda o direito de preencher a vice-governadoria e parti- cipar da nova administration. Para He- lio Gueiros sobrariam recursos sufici- entes para chegar a Camara Federal corn uma grande votagao, capaz de compen- sar a perda de status para quem ja foi senador e governador. Para o grupo do governador, o maior ganho seria afastar o espectro de Jader Barbalho, que paira como uma grande ameaca sobre a ainda fragil candidatu- ra de Simao Jatene ao governor. As pes- quisas mostram que se os dois fossem para o segundo turno, ha um ligeiro fa- voritismo do ex-governador. Esse e um esquema em tese, talvez o mais provavel se outras altemativas, como um acordo informal ou por baixo dos pa- nos, separando os palanques para os can- didatos dos dois partidos, nao derem cer- to ou forem inviaveis, ate mesmo de pen- sar. Os dois lados evitarao ser associados antes que essa uniao se tome inexoravel. Talvez ela acarrete mais prejuizos para os interesses do governador do que para os do ex-ministro. Mas certamente vao expor seus flancos para o ataque de um terceiro candidate, em condiqges de des- tacar os vicios dessa alianca sem oferecer um rabo de palha ao contra-ataque. Nao bastara bater com insistencia nas trocas de acusaqoes entire o grupo do governa- dor e o do ex-senador, embora essa tatica renda votos certos entire as camadas mais esclarecidas do eleitorado. E precise con- tar cor uma estrutura para fazer essa pre- gacao oposicionista ser difundida por todo o Estado. Sem isso, uma uniao Jader-Al- mir, por mais her6tica que parega, pode acabar alcancando um saldo positive. O senador Ademir Andrade, o nome mais cotado nas pesquisas para ocupar o espaco das oposiqGes, vive o dilema da indefinigdo do quadro eleitoral federal. A media que cresce a cotagao do govema- dor do Rio de Janeiro, Anthony Garoti- nho, minguam as possibilidades de um acordo PT-PSB para a presid6ncia da Repiblica e, por extensao, para o go- verno do Estado. Concorrendo sozinho, Ademir pode acabar tendo o destino do coelho na lenda: sera vencido pelas su- cessivas tartarugas postadas ao long do caminho. Mesmo saindo bem na frente de Jatene, 6 candidate a chegar atras no se- gundo turno por falta de f6lego para rom- per a fita de chegada. Se Garotinho desistir da sucessao de Femando Henrique Cardoso, abrira espa- go para o senador do PSB dar cores de realidade a desbotada moldura dos enten- dimentos que ter mantido cor os petis- tas locais para a montagem de uma chapa de forga: ele para o govemo e a vereadora Ana Jilia Carepa para o Senado. Cor esse arranjo, o prefeito Edmilson Rodrigues nao precisaria se expor aos altos riscos de sua participagio numa dispute majori- taria neste ano e Paulo Rocha poderia con- tinuar no rumo de mais um mandate na Camara dos Deputados. Foram essas as duas condigces esta- belecidas por Ana Jilia para trocar o lu- gar que 6 quase seu no Senado pelo in- certo governor do Estado. Mas se nenhu- ma das hip6teses se tornar factivel e ela puder recusar um palanque de peso para fazer eco a campanha de Lula, seu cami- nho sera a volta a Camara Federal, cor votaCgo para eleger mais um ou dois de- putados petistas, e o partido fara mais um papel coadjuvante na dispute para o go- verno. Indo para o governor, tera condi- cGes de sustentar um confront cor Si- mao Jatene nos debates? Podera reciclar seu discurso pr6-senado para a lingua- gem do executive? Ha ainda o vice-govemador Hildegar- do Nunes. Com as coligaqGes vinculadas, ele nao poderia se beneficiary da aproxi- madao Jader-Almir porque seu partido, o PTB, tem candidate a presidencia, o ex- govemador do Ceara, Ciro Gomes. Esta- ria de fora de cogitaqSes, como um ter- tius, no caso de um impasse entire PSDB e PMDB em tomo da candidatura de Ja- tene. Teria apenas a alternative de dois pequenos partidos para ap6ia-lo, o PDT e o PPS. Podera ir long nessas condig6es? E pouco provavel. Mas tambem sao poucos os que se atre- vem a fazer projeg5es porque tudo pode mudar de repente, seguindo um lance de dados qualquer. Numa inversao da tend6n- cia dominant na republica brasileira, agora os acordos locais estao a reboque dos acer- tos federais, tendo que se acomodar ao que for acordado em (e por) Brasilia. B uma situacao nova, que desfavorece o caciquismo e a oligarquia regional. A rigor, com tantos vicios e dependencias estabelecidas ao long do tempo, ninguem sabe ao certo se essa mudanga 6 positive ou negative, perene ou efemera, real ou manipulada. Por enquanto, ela result de acertos de caipula, com assessorias espe- cializadas, dentre as quais se destacam os marqueteiros e os arapongas. Em meio a tanta sagacidade e engenhosidade, ainda resta pendente uma pergunta: e o povo, o que acha disso tudo? Os marquetreiros tratarao de fazer uma pesquisa para encontrar a resposta. Podem encurtar o tamanho da divida. Mas a resposta verdadeira s6 vira quan- do as uras falarem. t delas que pode vir a maior das surpresas. JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE ABRIL/2002 3 Belem ja tem pre-candidato Com mais de dois anos de anteceden- cia, ja ha um pre-candidato a eleiglo de 2004 para a prefeitura de Belem. O se- cretario de cultural do Estado, Paulo Cha- ves Femandes, ofereceu seu nome como opdao ao PSDB, caso o governador Al- mir Gabriel cumpra o que anunciou em entrevista ao journal da Federaqdo das In- dustrias: deixar a political quando chegar ao fim do seu mandate. O nimero dos que acreditam nessa declaraqgo de amor pelo farniente do cacique tucano e tao grande quanto a quantidade dos que apostam na possibilidade de Paulo Chaves realmente se tornar um candidate para valer a pre- feito da capital paraense. Independentemente dos m6ritos da candidatura, o ceticismo se aplica a pr6- pria personalidade do secretario, combi- nada cor suas condiq6es de saide. Seu perfil de politico 6 tao convincente quan- to o do principal executive do grupo Li- beral, Romulo Maiorana Jinior. Mas, como neste caso, ningu6m pode duvidar do desejo de Paulo de assumir de vez o comando de uma maquina piblica, ao in- ves de permanecer na segunda linha, ain- da que destacada. O problema 6 que ja ningu6m pode chegar a esses cargos sem passar por uma eleicao. Ela combine corn o modo de ser do secretario estadual? Mas ele tem feito o que pode para fi- gurar como personalidade proeminente na vida da cidade. Invadindo competencias alheias e ignorando formalidades, Paulo ja executou em Bel6m obras cor investi- mento superior a 40 milh6es de reais. Vai estar a frente de outras empreitadas de mais de R$ 30 milhoes antes de chegar ao fim a administragao Almir Gabriel. Ed- milson Rodrigues tern esse curriculo? Se seu padrinho conseguir eleger o su- cessor, Paulo tera grandes possibilidades de continuar no govemo, ainda que sem a mes- ma influencia. Tera combustivel suficiente para permanecer em plena evid6ncia, corn projetos de repercussao e impact. Se sair, o que fez ecoara o suficiente para nao dei- xar que o seu nome seja esquecido tao rapi- damente. Mas nao para coloca-lo como can- didato potential a prefeito. Na verdade, ele tera que continuar a ser rebocado por um patrocinador forte, que sustente suas inicia- tivas e estimule seus impulses. A presenga do amigo Gabriel a frente do governor deu a Paulo a rara oportuni- dade de realizar seus sonhos e devaneios, mesmo os mais dispendiosos e volunta- ristas, que estouraram os orgamentos e de- safiaram a capacidade de um Estado po- bre gastar tanto, sem pensar no peso do custeio das estruturas que engendrou, e sem um ajuste 16gico entire a origem do investimento e o seu usufruto. A Estacgo das Docas 6 um exemplo dessa distorcao. Ha poucos reparos a fa- zer a restauracgo das estruturas metalicas dos antigos galp6es do porto. Ja a defini- c9o do seu uso (para a qual houve obras de acrescimo) 6 altamente controvertida. Envidragado e refrigerado, o espaco per- deu sua fungao declarada, de p6lo turisti- co e centro commercial gastron6mico, e esta se ajustando ao novo uso, de ambiente fechado para uso da elite local. Participa- ra do novo circuit da corte, incluindo as igrejas de Sao Joao e de Santo Alexan- dre. Esta correto? E de se esperar melhores resultados da fiel e sensivel restauracgo do Teatro da Paz e do Forte do Presepio, ou da concepqdo do Mangal das GarCas. A predominincia do arquiteto restaurador sobre o projetista de obra nova (ou adaptada, com excessive maneirismo) sera melhor para a sociedade. Na visao do criador, a coletividade estara bem se simplesmente aceitar os presents que o artist lhe da, numa rela~ao tipica en- tre elite (ativa) e massa (passiva). Todos ganhardo mais, entretanto, se o trabalho ja realizado for corretamente avaliado e os projetos passarem por uma audiencia pr6via. Isso, infelizmente, nao esta sendo feito simultaneamente a exe- cu6ao dos projetos. Mas se Paulo se apre- sentar como um surpreendente candidate a prefeito, a oportunidade se apresentara, de qualquer maneira. E democraticamen- te. Como at6 agora nao tem sido. Ideia E pouco prov6vel que, em ha- vendo turista, ele saiba que existe uma delegacia especializada para atende-lo no centro da cidade. Se souber, dificilmente chegara ao lo- cal. Se chegar, se sentira um estra- nho no ninho naquelas instalac6es. Mas o governor podia aproveitar e, olhando em frente, se interessar por desapropriar o belo casarao no qual funcionou o consulado de Portugal, na travessa 13 de maio, restaura-lo e para la fazer atravessar a delega- cia de atendimento ao turista. To- dos ganhariam com a provid&ncia: a cidade, os turistas e a delegacia. O predio, que sofreu um in- c6ndio recentemente, foi abando- nado desde entao. Esta sem o te- lhado e perdeu todo o conte6do. Oco, as paredes comegam a dar sinais de que nao demorara mui- to para comegarem a rachar e ruir. Se isso ocorrer, o centro velho de Belem perdera uma das suas pre- ciosas edificacqes. Sera que o arquiteto Paulo Chaves pode abrir uma excegao e adotar a id6ia? Alguem, se ele nao se sensibilizar, podia se interes- sar antes de termos mais um de- sabamento para lamentar? Placa Num dos seus primeiros atos, a prefeitura petista de Bel6m gas- tou 181 mil reais para recuperar o telhado e reforgar a estrutura do Palacete Pinho, em sua categoria o mais belo da Cidade Velha. Os anos se passaram e nada mais foi realizado. O telhado j6 esta todo perfurado e podre. O palacete tem o ar de complete abandon, que contrast ainda mais com o exce- lente trabalho de restauraqao que a arquiteta e pintora Dina Olivei- ra fez exatamente ao lado, na sua casa, cor recursos pr6prios. Nesse ponto, o diagndstico 6 facil: a administracao do arquite- to Edmilson Rodrigues sofre da sindrome das places. Volta E de lamentar que Pedro Veria- no, um dos mais antigos critics de cinema vivos do pais, esteja fora de atividade. Nao por ter perdido o encanto pela arte ou por ter optado pela aposentadoria, mas por desen- contros e desvios no trajeto da im- prensa diaria paraense, na qual pon- tificou por quatro decadas. Alguem precisa abrir um novo espaco para ele, mantendo-o na militfncia da critical. t o que desejam todos os que o admiram, mesmo discordan- do freqiientemente dele, como eu. Pedro conhece, entende e ama o que trata. Nao e um trunfo abun- dante no mercado. Aprendemos quando lidamos com gente assim. Infelizmente, o leitor mais jovem dejomal nao disp6e de referenci- ais, como os que a nossa geragao teve nos anos da sua fonnagio. No Correio da Manha, no Rio de Ja- neiro, lia e ouvia as liq6es de An- t6nio Moniz Vianna, Salvyano Cavalcanti de Paiva e Jos6 Lino Grtinewald, dos quais Pedro foi confrade quando iniciou sua colu- na di6ria em A Provincia do Para. Ela precisa voltar. Onde, nao importa. A lacuna deixada pela ausencia de Pedro nao foi preen- chida. Nem sera. 4 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE ABRIL/2002 Ford A Ford justificava, no seu balanco referente ao exercicio de 1944, nao ter realizado "uma expansao maior" na plantagao de seringueira, em suas duas concess6es de um milhao de hectares no vale do Tapaj6s, ainda devido "a falta de bracos" para o trabalho na regiio. Justificou ter sido ne- cessario "usar toda a mAo de obra disponivel para a conser- vagao das plantac6es". Mas o serving de enxertia, "corn va- riedades resistentes a mol6s- tia" (o mal das folhas, que di- zimaria o plantio), havia con- tinuado durante o ano inteiro. "Cortes experimentais fo- ram efetuados nas plantac6es de Fordlandia e Belterra", di- zia o relat6rio, assegurando: "O latex obtido destas operacges foi todo vendido no Brasil". Ja o service de construc6es fora paralisado foi paralisado "de- vido a dificuldade de obtermos telhas". Ainda assim, a empre- sa havia conseguido construir um "curro modelo" em Belter- ra, sua segunda possessed. Para um ativo fixo no va- lor de 176 milh6es de cru- zeiros, a Companhia Ford Industrial do Brasil (raz.o social do projeto de borra- cha) tinha um capital reali- zado, em 1944, de apenas Cr$ 8 milhoes. Dois anos depois a Ford desistiria da sua plantacgo de seringueira no Para. Poesia Sera que o poeta Max Martins ainda guard o poe- ma Na Alcova, que a Folha do Norte publicou, em janei- ro de 1945, na segio Os que se iniciam. Max, que partici- pava da Academia dos Novos, dedicou a Z. estes versos, combinando erotismo e sen- sualidade, que seriam duas das marcas da sua obra: "Chegas do baile e diante dos cristais Vestes um penhoir. Por entire anseios, Surge entao sob as sedas orientais, A tumidez fecunda dos teus seios. f ilb i,"111, l1' r [/.' I -'/- ,.l'l l i. l - I l ,.'l ,_l htlL. Ill j L .L [ ',l L ll I I/, .' (' t~dti L/ .' d.I" t,.,. ,,,'ll/ ,.' A)',1m - I,,* ( ,. lll' li _I. /I I" L '' 14/, /-L/- L Ill", '.,,./. I /L f'., '111 'lll0 l 1 L It h llli- E sempre assim: ap6s os teus passeios, Depois de admirar-te muito, vais Prostar-te num divan, e corn meneios, Cantas umas cantigas sensuais. Deixando ver em plena puberdade, Atrav6s do quimono transparent, A nivea forma do teu corpo ardente! Vais a estate e, depois ansiosamente, LUs um romance de Zola, prolixo. Logo ap6s, simulando ingenuidade, L6s orac6es perante o Crucifixo!" Credit Emjulho de 1955, depois de muita luta, Maraba rece- beu a sua primeira agencia bancaria, instalada pelo Banco de Credito da Ama- zonia (que ja fora Banco de U. ll ll I I L II [l l L ', .' \, I/'I.L 1 10L.1/ 'L L 1_'lJlllllLI L IL_- If Il l i. l 1.'7h If ,' u I[L l -'1111 .ll l k' i lll O i ,l l I- *II IL b I ,1 L Primordios economicos $ r.-* '! Crddito da Borracha e agora e Banco da Amaz6nia). Mas nio teve muito o que come- morar: a agencia tinha pou- co dinheiro. Enquanto um inico pecuarista do Tocan- tins conseguia um milhao de cruzeiros emprestado no Banco do Brasil de Beldm, a agencia do BCA em Mara- ba dispunha de apenas Cr$ 250 mil para tender a todos os seus clients. Empresarios interessados em industrializar o babaqu ou ampliar as invernadas para a engorda de gado do Maranhao e de Goias desti- nado ao abastecimento de Bel6m encontravam o credi- to fechado. Talvez porque os financiadores particulares das safras de castanha, do- nos do beneficiamento e da comercializa9ao, nao quises- sem concorrencia para osju- ros extorsivos do dinheiro que adiantavam aos arrenda- tarios, empenhando previa- mente a safra e mantendo o produtor preso ao cr6dito. Realidade de um extrati- vismo primitive. I, lu i, ', -l 'l L I ", C l '" f, lL .L / f1 ll l 1.11 l I I. f 'l I' _' *_,' '. L li_ ll\l l\ 'If \l S, ll ,, . h L l l hi. l l' 1"' lL H\,. 4L I I" II "I J illd'''. Lil " J-II ... I" 11(1 ///' ,.' "-"./ ,II / I ,.' IL h1"-I. I L' 1 1 1/- 1 Ir.'l' L Id 1 1 / 'Il I/ ", h [, i It i/,I ,' 'I L % % I l'% l [ m I 1 l,;_ ],_/ /., /.,' I'l '/; ( ,,I/ ,_l L ./< l l', l /~ r., /,i ll; ui H;'L' llll ,, l ,,.,*ll- i~l '/ .f *';L i i,*' .'"-.*' l llli llill,'i l .l i.' ,.i. h,'1 ,.,,. '- It, "ih', d ,_' / ili (, '-)I I h 'I , I_ 'L .',. I, [. el' ; ,' # ,.,.'/ ,'.lll l ',.l (_ '1*ir1, iifll/li.' ( /it_ 1e 1 .Y "4 JOURNAL PESSOAL 1" QUINZENA DE ABRIL/2002 5 Div6rcio Parecia que nao ia haver surpresas indesejaveis no jiri simulado que o Colegio Santa Rosa organizou, em outubro de 1955, para julgar o div6rcio. A maioria do corpo dejurados era composta de alunas inter- nas, inclusive uma prima da irma superior da instituidao religiosa. Todos ficaram sur- presos ou chocados quan- do o resultado da sessao foi anunciado: os favoraveis ao div6rcio venceram por 4 a 3. Preocupada, a congrega- cao tratou de organizer um ciclo de confer6ncias, sob a responsabilidade de dirigen- tes da AFao Cat6lica, come- cando por Orlando Costa (que viria a ser ministry do Tribu- nal Superior do Trabalho), Armando Mendes futureo pre- sidente do Banco de Credito da Amaz6nia), o advogado Aldebaro Klautau e o arcebis- po de Belem, d. Mario de Mi- randa Villas-Boas. Nao houve mais votaqao, mas quando Orlando Costa, na primeira palestra, pergun- tou a platdia se alguem ainda era divorcista, ouviu-se, de- pois de certa hesitacao, um unissono "nao". Pudera. Ferrovia Em 1959 a Estrada de Fer- ro do Tocantins importou do "sul do pais" tres possantes locomotives e duas automotri- zes, que incrementariam o transport entire os trechos mais encachoeirados do To- cantins, permitindo o transbor- do de cargas vindas de Mara- ba para Bel6m e vice-versa. Era uma funcao vital, princi- palmente no verao, quando a navegaqao ficava restrita ou mesmo impossibilitada pelo afloramento das rochas. Cinco anos depois, porem, num golpe de forFa, que nao admitiu resistencias, o gover- no do marechal Castelo Bran- "L- ,pi LY.? v .-' ...9 ..', . />,'.... /- Jlw' i I , 21" ~rr', t , L. -- r. LL. I 6-- *',..:n:'"1.!l. '.'fll:,'" TI l:ra.. II1 .lilalr., !luJi.nut6inuln wn m nurlM I nu~ll lWC a i rl N o final dj dccada. de -5n. o apircia- dor de liio id pidia azcl u1111,1 pro- I'. .l'Ja c lonl %.i e I.cuts piI,' I eTn- I o cLmie1rciLil] de B-I1em. pcrc rrenido ju h', ri- idu, qI t w, c I. -,paill ha\ ai p r \ 'ri.ij rtu.i coin1 o a Pj.dre LuIqllii. a1 (ai11mpo SA.1 Cl a NII'nCl B[3aIl. a on J .10. \lItr' (nriamc.nte de malit'or L."' oqLL' ira a L i% rarIN Mn arin. tii.C rc- ,iili>oti du d mmbflh'ai nL-io ci.n11 dtm'a C.',pr,'- "IN d a ntl '\ I7en1ICI1 N 131[irl aN II Uttll C [) tri budr.i an 'ig.i *\L''nc].i em l ,in ,Iid ad c i)'- hiio ', coiman ada.dj p IIl. ii nL' .\lbhano .' Al-I henii, L.'con ,cl ceIlenialrii' dc hi-tuoriL-a . -\ Lool.i, nIla iia SanIto -A ton'1110 canto coIl .1 PadriL PrudciLnci:. nI'I, po, I.u .1 ii m '-a - Ill nqir iLlc,'.i ;: ie .c pLm '.i lI.i\. t a oii.i ppl - I i .i I.t, [liil aj s i'., Ir.. io', Lii.tldd Jdo- Jatr s de hb ni',ili C e<'i.liIeC- lCk.hIdd ', co liquidou a ferrovia tocanti- na. A bragantina, tambem. Comegava a era rodoviaria na Amazonia. Avancavamos para o passado. Political Num artigo escrito em fe- vereiro de 1959, no seu 0 Es- tado do Para, ojornalista San- tana Marques disse ter ouvido de Paulo Maranhao, o todo- poderoso dono da Folha do Norte (ainda vivo e muito vivo-na ocasiao, perto dos 90 anos), uma explicacao simpl6- ria para uma das maiores cri- ses da political paraense, pro- vocada pelo rompimento entire Endas Martins e Cipriano San- tos (e, por extensao, o pr6prio Maranhao): iidr,,i s m n, 111 1 e Ib I:IIm i l'tII ,NL, e .,'oljl",o e ptublic.c es com'irc.Aii-. No undo dt pre- di ttll lOr ".1 llin.l I IIp o rL li () a ('IldII1Ill1- to Ci. cori rdil. c.Coin, dcc .i J t.lci e' se .itnunll O . Id uctuluhro dc 195". \ Lo ',lla tc.'h.'ou. SulI lllIuindo--a. hla rml cii\ c' d\ e i iol' o L ecor!crcL cc I r iii tlm .,o0 cln- ir.id~a. .m'in i.inela'.. jdetL'tiando .l es[CLIiC' oC 0 codi-' d 'e p'tIuriJ () dc-cnihi' dLi .J iini.=. Io a. d.i sdlt.aides. dc i.ii 11Iem o 111 que i e |I odidi l.t/cr ,i i.,,'i'tilw p:elo c iii ro di c idide,. 'cin IC 'ci % o d0 e ia re',', e''s inClul'.i L'.N I% ItlIJIN I pel.is rt'. e co1 a cert11 a d qu no 110 nteiiirior d.'l. Io.t'. lii\CnI pelo imeno', boa recepli\ i- dJdc a, I'reLue'ic-'c. (_U anuncLi. qLiem ,.ibhe. podia 'er\ i de eCtimiiul'o pa.ra a icctipei'a,30j deC',' are.i dc mnIadiria 1 e Itl de Bcle Foi por causa da nomea- Fao de uma autoridade de se- gunda categoria no interior. Comentario de Santana: "Um guard sanitario em Ca- meta, um suplente de promo- tor em Araticu, podem preci- pitar a catastrofe". Ela pode ser imensa. A mo- tivacao, nem um pouco. Pode ter o tamanho da political para- ense de sempre: liliputiano. Eleg ncia Em fevereiro de 1959 o ge- neral Magalhaes Barata deixou o governor para tratar da salde no Rio de Janeiro. Estava corn cancer, que o mataria tres me- ses depois, permitindo-lhe ape- nas vir morrer em Belem, no exercicio do seu mandate. A 111 doenga era mantida sob sigilo. 0 cancer era quase tao temido (ou estigmatizado) quanto, hoje, a AIDS (sem a mesma desonra, e claro). O deputado Abel Fi- gueiredo (pai de dona Marilda Nunes, esposa do coronel Ala- cid Nunes, que tambem gover- nou o Estado), como president da Assembleia Legislativa, as- sumiu o cargo. Assumiu tam- bem uma inusitada (para o pa- drao politico paraense) "linha de elegancia", inaugurada por Ca- tette Pinheiro, que tambem era da oposidao a Barata, mas limi- tou-se a cumprir os deveres de oficio, a espera do titular. Linha que e tecida em pou- cos moments e desfiada na maioria das demais ocasi6es. Vice tornou-se sin6nimo de encrenca. Das boas. 6 JOURNAL PESSOAL la QUINZENA DE ABRIL/2002 Military silencioso O coronel Vernon Walters, um raro personagem por sua presenqa tanto na hist6ria contemporanea do Brasil quanto na dos Estados Uni- dos, morreu no mes passado sem deixar um legado do que fez. Fez principalmente duas coisas: foi ele- mento de ligagao entire os militares brasileiros e os do seu pais, na cam- panha da Italia, durante a Segunda Guerra Mundial, e foi adido military (na verdade, espiao da CIA) na embaixada americana no Rio de Janeiro, durante o period do gol- pe military que dep6s o president JoAo Goulart e em parte do gover- no do general Castelo Branco. Por causa do seu desempenho, Walters recebeu varias condeco- raqoes, entire as quais a Cruz de Combate, que Ihe foi conferida pelo governor brasileiro. Varias vezes acompanhou presidents e autoridades brasileiras em visit aos EUA, servindo tambem de in- terprete para os presidents Tru- man e Eisenhower nas visits que fizeram ao Brasil. Costuma-se dizer que Walters teve papel important no que en- tao aconteceu, atuando em parce- ria cor o embaixador Lincoln Gordon. Mas quando se pensou que, a distancia dos acontecimen- tos, ele finalmente daria sua ver- sao, seu livro de mem6rias dispen- sou a leitura depois do titulo, Mis- sdes Silenciosas. Walters foi silen- cioso ou por excess de discricao, ou, talvez, porque talvez ele tenha estado bem pr6ximo do epicentro das relacqes Brasil-EUA por um detalhe: falava fluentemente o por- tugues (alem de seis ou sete outras linguas), atgo que nossos inrnos do norte nao davam (e podem con- tinuar nao dando) maior importan- cia. Quando surge a necessidade, no embalo de alguma crise (sobre- tudo de desinteligencia), a maes- tria lingiiistica 6 valorizada. Ai entrava o military para atuar como interprete, porta-voz e, eventual- mente, espiao nao assumido. Nos perfis e registros fiine- bres do personagem, um detalhe interessante foi completamente ignorado: quando ainda era adi- do military da embaixada dos EUA, Walters gastou quatro dias e meio, em janeiro de 1965, no percurso de Brasilia a Belem pela entao BR-14, a estrada construi- da pelo president Juscelino Ku- bitscheck para ligar pela primei- ra vez, por terra, a Amaz6nia ao restante do Brasil. Grande projeto: sempre enclave? No pr6ximo ano a Mineragao Rio do Norte se tornara a maior produtora mun- dial de bauxita, o minerio do aluminio. Sua producio subira dos atuais 11 mi- lh6es para 16,3 milh6es de toneladas anuais. Sera mais de cinco vezes supe- rior ao nivel de viabilidade econ6mica, cor o qual a empresa comegou a ope- rar em 1979, no extreme oeste do Para, a mil quil6metros do litoral, em pleno sertao amaz6nico. Foi nesse mesmo ano que deu partida a Jari Florestal e Agropecuaria, o "im- perio na selva" do milionario americano Daniel Ludwig, 400 quil6metros rio abai- xo. MRN e Jari foram os dois primeiros dos "grandes projetos", concebidos du- rante o regime military (1964-85) como uma maneira de desenvolver acelerada- mente a Amaz6nia, a passar do nivel da idealizacgo para o piano da realidade. Por isso, sao os mais antigos em atividade no novo e talvez definitive ciclo de penetracao na maior fronteira de recur- sos naturais do planet. A principio, a Rio do Norte parecia fadada a ser uma empresa inviavel, um autentico saco de gatos societario: nela estavam associadas multinacionais mais interessadas em ter lucro comprando mi- nerio, que transformavam em metal, do que como produtoras de bauxita. Elas tambem manobraram para que o ingres- Ja em Bel6m, o military disse que percorrer a Belem-Brasilia foi a maior emogao da sua vida des- de a Segunda Guerra Mundial. O adido americano elogiou as con- diq6es de trafego da estrada, de terraplenagem primaria, que Ihe pennitiram sempre desenvolver a velocidade de 80 quil6metros por hora em seu jipio, e da infraes- trutura de apoio ja existente em seu percurso, tomando desnecets- saria a carga que levara, inclusi- ve cor gasoline. Opinou que o program Ali- anca para o Progresso devia dar apoio integral a rodovia, que iria permitir a Amaz6nia se libertar do isolamento em que estava, sendo "o maior empreendimen- to brasileiro do s6culo XX" Gos- taria de refazer a viagem 10 anos depois, para comprovar essa opinion. Confessou que sua mai- or emocao durante a viagem, em companhia de dois outros ofici- ais americanos, que estavam fa- zendo curso no Brasil, foi des- cobrir a existencia, em Goias, de uma cidadezinha denominada President Kennedy. Gesto inu- sual para um official military e protocolar para um diplomat. Quem alguma vez teve contato so no mercado de um novo produtor de grande porte servisse para manter sob control o movimento dos demais pro- dutores, todos situados no Terceiro Mun- do, em favor de melhores precos para a materia prima. Tambem havia divergen- cias entire as s6cias da Companhia Vale do Rio Doce (detentora de 40% das acoes da mineradora), como a Alcoa e a Al- can, as cabecas do cartel das seiss irnns" do aluminio, e, mais recentemente, de- las como a mais nova parceira, a dina- marquesa Norsk-Hydro. Apesar desses acidentes de percurso, entretanto, o balanoe da empresa refe- rente ao ano passado e reluzente e gar- boso. Para um faturamento bruto de 551 milhoes de reais, o lucro liquid foi de R$ 241 milh6es, 40% maior do que o de 2000, equivalendo a um tergo do ativo fixo. Uma rentabilidade invejavel. Nao por acaso, a MRN foi considerada uma das 100 melhores empresas para traba- lhar no Brasil, segundo o levantamento de uma instituicio especializada. O desempenho da Rio do Norte tem sido tao favoravel que em 1999 a empre- sa decidiu reduzir em 20% o seu capital, que era de R$ 537 milh6es, para R$ 419 milh6es, porjulga-lo excessiveo", man- tendo-o nesse mesmo limited at6 hoje, apesar da notavel evolugio do seu de- sempenho desde entao. Ao que parece, apenas uma pessoa deu atengao a essa reducao de capital, que nao e exatamen- te usual, embora esteja previsto na lei das sociedades an6nimas: foi o representan- te do Ministerio da Fazenda no Conse- lho Deliberativo da extinta Sudam (Su- perintendhncia do Desenvolvimento da Amaz6nia), onde um pedido de nova re- duCgo de imposto de renda em favor da mineradora foi examinado. Jose Barroso Tostes Neto suscitou uma questao elementary, mas descurada no acompanhamento da concessao de be- neficios fiscais e tributarios a empreen- com Vernon Walter talvez nun- ca tenha tido certeza de sua sin- ceridade. Talvez nunca mais va ter a oportunidade de confirmar essa impressao. Vida nova Durante 30 anos o advoga- do Paulo Meira, integrante de uma das mais tradicionais e in- fluentes families do Estado, che- fiou o Ministerio Publico Fede- ral no Para. Seu afastamento do cargo, no mes passado, promo- vido que foi para instancia su- perior, na qual imediatamente se JOURNAL PESSOAL 1F QUINZENA DE ABRIL/2002 7 dimentos incentivados pelo governor na Amaz6nia: no dinheiro que a empresa de- volveria aos seus acionistas, por conta da diminui9io do capital social, nao iria de roldio imposto que o erario deixou de recolher por conta da renincia fiscal pr6-desenvolvimento? Os t6cnicos da Sudam nao atentaram para esse detalhe. Provocada a se mani- festar, a empresa tratou de ressaltar que respeitou "a parcela levada a conta do capital em funcio das isenqces do im- posto de renda originarias de beneficios fiscais concedidos pela Sudam". A dui- vida teria sido satisfatoriamente respon- dida se a MRN tivesse demonstrado, corn calculos e documents, que efetivamen- te cada tostAo oriundo da isengio de im- posto foi apartado do dinheiro que os s6cios receberam de volta quando o ca- pital da empresa encolheu 20%. Mas nio o fez. Nem foi obrigada a efetuar a de- monstraiAo. A poeira do tempo cobriu o assunto. Como de regra. A Sudam aplicou, ao long de sua exist6ncia, de 1966 a 2000, algo acima de 6 bilh6es de d6lares em colaboracgo financeira official, sua parte (variando entire 75% e 25% do investimento ne- cess6rio) na implantacgo de projetos econ6micos na Amaz6nia. O tamanho, o significado e os m6ritos dessa politi- ca de incentives fiscais constituem o foco das discusses, quando debate ha em torno desse tema. Ja a mensuracao da outra forma de colaboracgo, a da isengio ou redugio do imposto que o empreendimento incentivado deveria re- colher ao entrar em atividade comerci- al, essa jamais foi colocada no foco de interesse, embora envolva outros tantos bilh6es de reais. Varios dos empreendimentos que se implantaram recebendo injec9o de incen- tivos fiscais, sobretudo os de grande por- te, receberam o anabolizante adicional de complete isenqcao do pagamento do im- posto de renda por 10 anos. Quando o period da total desobrigagio de reco- Iher IR terminou, eles ainda puderam pleitear e receber reducio a metade do imposto pela metade por mais uma de- cada, beneficio que podera ser usufrui- do at6 2013, pelo menos. Em troca, de- viam apresentar bom desempenho em geracio de renda, criacio de emprego, beneficios socials e aiAo ambiental. Os compromissos foram detalhada- mente especificados na norma legal, mas nao se conhece uma auditagem dos re- sultados. As empresas indicam o que fa- zem nos relat6rios que acompanham seus balangos e nos documents burocraticos encaminhados a finada Sudam. Mas nin- guem parece ter-se dedicado a necessa- ria tarefa de checar as afirmativas e con- firmar os nimeros. Tudo se transfonnou em formalidade ou se desmanchou no ar. Foi o que aconteceu no caso da Rio do Norte. Era realmente confiavel a ga- rantia dada pela empresa de que, no meio dos R$ 118 milh6es devolvidos aos aci- onistas em 1999, nao foi incentive fis- cal? Ou, dito de uma forma mais ristica: pegando de volta capital investido, os s6- cios nao colocaram no bolso imposto fe- deral na forma de renuncia fiscal? A empresa tem um bom alibi para se prevenir contra essa possivel (mesmo que inadvertida) apropriacio ind6bita: todo o recurso fiscal recebido foi apropriado como reserve de lucros, utilizada para aumentos de capital e outros fins consi- derados nobres. Mas a eficacia dessa ex- plicaqio 6 meramente cont6bil, ou for- mal. Nao, necessariamente, efetiva e real. Para ser incondicionalmente aceita, te- ria que ser provada. O que nao foi feito. Mas ainda que as duas rubricas nio tivessem sofrido contaminacio alguma, ha uma questao que transcende a con- tabilizagio quantitativa: nao foi a re- n6ncia fiscal que serviu de alavanca para o efeito multiplicador do capital? A pretexto de enfrentar o desafio de im- plantar empreendimento produtivo em area pioneira, destituida das vantagens existentes nas areas mais desenvolvi- das do pais, que poupam o capital pri- vado, os projetos amaz6nicos tiveram um acesso mais franco ao tesouro na- cional. Esse beneficio especial nio teve um efeito bem maior do que os fatores inibidores da fronteira? O "monstro de Loch Ness" amaz6nico nio e muito menor do que o imaginado? Os iltimos balancos da empresa que esta se tornando a maior mineradora de bauxita do mundo, mas especialmente o do ano passado, parecem estar dando uma resposta francamente positive. Ora, se os components adversos da fronteira amazonica pesaram menos do que a ala- vanca da colaboracio financeira do go- verno, nfo poderia o empreendimento in- centivado, ao inves de diminuir de tama- nho, a partir da constatacio de que o seu capital se tornou excessiveo", alargar sua aiao, fazendo novos reinvestimentos, ainda que eles pareqam heterodoxos a um estreito raciocinio societario, ou desne- cessarios numa 6tica acanhadamente mi- croecon6mica? Por que multiplicar os ganhos individuals do cotista a custa de reduzir os beneficios sociais (ou eventu- almente ambientais) do "grande proje- to"? Nao seria essa a tnica maneira de livra-lo da carapaca de enclave, que man- da a riqueza para fora e, internamente, ter um efeito positive apenas residual, extremamente localizado e restrito? No moment em que os s6cios da MRN tmn de volta, num unico exercicio, quase um dos tres reais investidos nur empreendimento que, considerados os seus prim6rdios, esta completando agora 30 anos de existencia (comecou em 1972, quando a Alcan apresentou o primeiro projeto, exatamente ao Conselho Delibe- rativo da Sudam), eis uma questdo na qual vale a pena pensar. Vale muito. aposentara, nio podia deixar de ser um fato hist6rico. Significa que finalmente a Procuradoria Regional da Repiblica vai po- der se ajustar ao padr.o da Constituicio de 1988. Uma condicao preliminary para esse ajustamento era que a chefia do MP sofresse rodizio a cada dois anos. A permanencia de Paulo Meira por tres decadas no cargo e o prolongamento des- sa anomalia por 14 anos depois da promulgacio do texto consti- tucional em vigor era uma situa- qdo unica em terms nacionais. Independentemente dos meritos e qualificaoqes da pessoa, uma tal perenidade 6 sempre prejudi- cial a chefia, a instituiCgo e a so- ciedade. O crit6rio da alternan- cia, pelo contrario, ter uma fun- Fio salutar, oxigenadora. Registre-se o peso da influ- 6ncia de Paulo Meira, que supor- tou todas as resistencias e rea- 96es, s6 deixando o cargo por forga de uma promocio, que equivalera a uma concessao de aposentadoria em condic6es mais favoraveis e honrosas para o be- neficiario. Contudo, a longa, exa- gerada mesmo, permanencia a frente da Procuradoria da Repi- blica no Para causou prejuizos a entidade, hoje corn um quadro de pessoal insuficiente para a de- manda, acanhada no atendimen- to dos servigos que a sociedade Ihe imp6e, e inferiorizada na comparaygo com as procurado- rias estruturadas de forma mais arejada em outros Estados. Alem de propiciar o rodizio, a said de Paulo Meira tambem permitira que o quadro de pro- curadores seja formado exclusi- vamente por pessoal de carrei- ra. Chegara ao fim a tolerincia corn representantes do MP que tambem advogam. Ja nao ha mais porqu6 admitir essa ubiqiii- dade, ultrapassada a fase em que a Procuradoria se confundia cor a Advocacia da Uniao. Sendo exclusivamente pro- curadores, os representantes do MP serfo o que a Constituigio Ihes imp6s: defensores da soci- edade e fiscais da lei. Chegara ao fim a conciliacao dessa fun- co cor escrit6rios particulares de advocacia. Dedica9go inte- gral e exclusive aos interesses coletivos e a fiel execuiao da lei. Cor 14 anos de atraso, o espi- rito constitutional de 1988 esti chegando ao Para. Record A edigio de O Liberal do ilti- mo domingo, 24 de margo, pode ser inscrita no Guiness, o livro dos re- cordes: trouxe a maior quantidade de fotos de uma mesma pessoa ja pu- blicadas por qualquer journal em qualquer parte do mundo. Em pagi- na dupla, sairam nada menos que 38 fotografias do principal executive da empresa, Romulo Maiorana Jinior, na primeira incursio deste ano, a vizinha Ananindeua, do seu Andan- do pelo Para. A pretexto de divulgar os mu- nicipios do Estado, Romulo Junior conseguiu o patrocinio da Compa- nhia Vale do Rio Doce (algo em tor- no de um milhao de reais por tem- porada) para as excurs6es do seu safari, de identidade empresarial um tanto obscura, dando despesas adicionais is prefeituras anfitriis. Enquanto o foco da empreitada, desfocado ou nio, eram os munici- pios, menos mal. Mas e agora que o centro mono- polistico de tudo 6 a figure "sarada" do empresario, como a CVRD pode justificar o patrocinio? E se, alem de arcar cor o custeio da perman6ncia dos visitantes compuls6rios (um ou outro, compulsive), as prefeituras comparecem cor algum para custe- ar a publicidade, nao estaria ai um tema para o Tribunal de Contas dos Municipios, o Minist6rio Publico e o TRE? Ainda mais se o culto doen- tio da personalidade se transformar em propaganda eleitoral fora de 6po- ca, uma micareta political, cor a (ainda improvavel) confirmaqio da candidatura de Rominho a qualquer coisa nas eleig6es deste ano? A parte essas questoes, a pro- morgo e risivel: exibe como porta- voz dos interesses superiores do Es- tado, um autantico lider, empresa- rio que ha muito tempo nem com- parece a redaggo do seujornal para um contato direto com os temas da agenda ptblica e os que a produ- zem, informando-se, em sua seara especifica de competencia (ao me- nos em tese), sobre o que faz de conta que se interessa nessas ginka- nas de exibicionismo. Alias, para ser field a realidade e prevenir o her6i das segundas inten- 96es dos invejosos do seu prestigio, Maestro Wilson Dias da Fonseca ainda estava lu- cido e produtivo at6 a semana passada, aos 89 anos. Um acidente e seus desdobramentos imprevisiveis (e indesejaveis) abreviaram sua vida, que ainda ti- nha muito a oferecer e a cobrar, nos proporcionando prazer e alegria com suas composiq6es e exigindo o que seus merecimentos tora- ram de direito: nosso reconheci- mento pelo muito que fez (e por tudo o que era como pessoa) em era melhor rebatizar a promogao. Ao inv&s de Andandopelo Para, o nome correto e menos cabalistico, diga- mos assim passaria a ser Passean- do pelo Para. Tribunais Os tribunais de contas se trans- formaram em filtimos postos para os politicos, que nessas cortes agora es- tio vestindo seus pajamas de ouro. A indicapqo dos nomes dos novos conselheiros e antecedida por lon- gas negociaq6es de bastidores, de tal modo que tudo decorra consensual- mente. O maximo de divergtncia que ha e a abstengio. Ninguem mais vota contra. O conselheiro assume seu posto de julgador ja cor um passive de compromissos. A subordinaFio dos TCs ocorre exatamente quando ha um esforqo interno de profissionalizaqgo. Essa onda positive, entretanto, esbarra numa duna de interesses, impedin- do que o fluir da carreira chegue na- turalmente ao seu posto maximo. A estrutura superior esta sendo lotea- da entire pessoas cuja biografia nem ,j prol do engrandecimento da cultural paraense. Paraense, alias, em ter- . ) mos: cor o maestro Isoca vai-se um dos mais genui- S nos artists santarenos- e S talvez um dos lltimos. Era expressed autentica da as- _ piragAo santarena pela au- -- tonomia, hoje entendida 0t em terms mais estreitos, .j politicos. Na verdade, e S muito mais ampla: 6 cul- tural, no sentido que lhe ddo os antrop6logos. Isoca comp6s todos os gene- ros existentes em mtisica para ex- pressar uma consciencia que, em grande media, e determinada nos santarenos por sua posicgo geogra- fica, a meio caminho entire as duas maiores cidades da Amaz6nia, mas intransigente na recusa a ser ape- nas um ponto de passage e trans- bordo entire Manaus e Belem. Santarem se orgulhava de estar nesse hinterland, a quase igual dis- tfncia dos dois centros de irradiacgo sempre as recomendam ao desempe- nho das funqoes de auditagem das contas pliblicas. Muito menos apre- sentam credenciais de independ6n- cia e autonomia. Ao inv6s de ser 6r- gao auxiliar dos legislativos, os tri- bunais de contas se tornaram exten- s6es informais da political partidaria. A se consolidar assim, nio e mais 16gico e muito mais econ6- mico extingui-los, corn pouco ou nenhum prejuizo para a gestdo da coisa public? Milagre Em entrevista ao joral O Para- ense, o arquiteto e secretario de cul- tura Paulo Chaves Femandes infor- mou que durante um encontro sobre parques tematicos realizado em Or- lando, na Fl6rida (EUA), a Estaq~o das Docas foi mencionada como "a melhor intervengao portuaria no mundo". Tal gl6ria certamente se deve aos meritos do projeto do arqui- teto-secretario, que permit aos visi- tantes dos "500 metros debrucados sobre a baia" da Estacgo "descorti- nar a foz do rio Amazonas". e gravitagio. Tinha as veleidades de civilizacao, mesmo tendo destruido uma rica civilizacao, a dos Tapaj6s, e confinado seus sucessores a um bairro sugestivamente denominado de Aldeia. Mesmo sucumbindo, essa cultural se incrustou na cultural do- minante, penetrando-lhe tanto por osmose como por sincretismo. As criac6es de Isoca represen- taram o ponto de converg6ncia dessas vertentes, uma europ6ia, colonizadora e dominant, a ou- tra native, india e cabocla, domi- nada sem ser vencida. A sutileza e a riqueza da sua obra, alguns dos seus tons singelos e puros, de par corn o amor ao torrao natal, ma- triz do seu modo de ver o mundo, deram ao maestro que precipita- damente se foi um lugar definiti- vo na nossa memoria e naquele sitio que a projeta acima das cir- cunstincias do tempo e da preca- riedade dos homes: na hist6ria. Isoca morreu para ficar mais imortal do queja era. S6 nao pre- cisava serji. Autentico milagre,ja que a foz do rio Amazonas esta a 180 quilo- metros de distancia. DebruCando- se na murada, o que o visitante con- templa sao as aguas (severamente poluidas) do estuario do rio Para, nao as do Amazonas. O secretario, naturalmente, vendo sua image refletida nas aguas do Guajara, deve considerar irrelevantes os detalhes geograficos. Nem as iguas do rio-mar, cor seus 250 milh6es de litros despe- jados a cada segundo no Atlantico (mas quase nada no estuario do Para), vao impedir o L(D)andi tu- cano de desfrutar o reconhecimen- to universal que se atribui, como um das pessoas cor maior credi- bilidade "nessa area do patrim6nio e de intervengao urbana". Razao pela qual classificou de justt" a homenagem que Ihe foi prestada, cor a entronizaqco (nao seria ca- nonizaq o?) de sua foto, em tama- nho hiperb6lico, a entrada do tea- tro da Estacgo. Maior do que o Amazonas, s6 mesmo Paulo Chaves Fernandes. Tremei, arquitetos do planet. .E- - -- A .. - - Eoll.~~ L~ F11 - - - - -- - - - - -------- .---- ---ll i ll: .ll~ Ilrl: iII.r ~III1 .. Ill~ lP~j ~llIljll /ll------..---- lllli -' ....a..L. ~L:,:c~.~k-i~l... |
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