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Jomal Pessoal L C I O F L A V IO P I N T O ANO XV NO 279 1l QUINZENA DE MAR9O DE 2002 R$ 2,00 LATIN AMERICAN COLLECTIOIL- , UNIVE.,ITY OF FLORIDA ELEIA Ha lugar para uma zebra? Ameaga ir ao ar mais um capitulo da velha novela eleitoralparaense: diretamente ou atraves de afilbados, as velbas raposas da political vdo disputar o governor do Estado. Parece nao haver lugarpara luma candidatura alternative, uma novidade, uma surpresa. Ou ha? 1 : avera lugar na pr6xima eleigfo para -.. um candidate altemativo ao gover- Sno do Para? Ou a dispute para va- ler sera travada entire as velhas ra- posas da political estadual, diretamente ou atra- ves de prepostos? E a pergunta que se deve fazer a media que vai se delineando o grande antagonism entire o campo de dominacqo do govemador Almir Gabri- el e o do ex-senador Jader Barbalho. Permanecen- do ate o final do mandate, o govemador dara ao seu candidate o calor da maquina official, mesmo que o judiciario e o Minist&rio Ptblico venham, finalmente, a se manter atentos aos abuses do go- vemo, que costumam sera marca registrada da pre- senga do govemo na estaco eleitoral. Sera un can- didato forte mesmo que ndo tenha forca pessoal. Teria de um terqo a 40% dos votos validos. A candidatura de Jader Barbalho ao govemo do Estado, pela quarta vez (o que seria um recor- de estadual em eleic6es), preenchera outro gran- de espago. Ele tem, ao mesmo tempo, o maior eleitorado cativo e o maior indice de rejeiCio do Para. Um tergo dos eleitores votam nele em qual- quer circunstancia. Mais de 40% nele nio votam de maneira alguma. Haveria uma faixa aproxi- mada de 15% do colegio eleitoral que ainda pode votar nele, dependendo da conjuntura no moment da votaqio. E o que dizem as pesquisas, essas emulag6es despudoradas do oriculo de Delfos. A. LLt-c LLLEL1AKCLk K,. LC PLLOLL-- (LiZL. )L -GT 2 JOURNAL PESSOAL 1V QUINZENA DE MARO/2002 A ser verdadeira essa partilha de votos, o que sobrar para terceiros candidates Ihes permitiria apenas uma participaqdo secundaria no 10 tumo. O 20 tumo estaria reservado para o candidate do govemador e o ex-senador Jader Barbalho. Seja Simao Jatene ou qualquer dos outros politicos que postulam o lugar dentro da coligaq~o situacionis- ta o nome que Almir Gabriel carregara, uma vit6- ria no 20 tumo sera por estreita margem de votos, para um ou para o outro lado. A isso se resume o enredo eleitoral paraense deste ano? Aparentemente, sim. O fatalismo du- alista, porem, pode ocultar surpresas. O gover- nador pode se convencer da inviabilidade elei- toral do seu delfim, o secretario especial da pro- duqgo, Simao Jatene, ou o pr6prio candidate jogar a toalha. Optar entao pelo vice-govema- dor Hildegardo Nunes significara, para Almir Gabriel, desligar-se da principal dispute. Ele poderia deixar o govemo e candidatar-se ao se- nado. Mas, para garantir a condiqao de franco favorite a uma das duas vagas, enfrentando Ana Julia Carepa ou Ademir Andrade, vai precisar contar com o decidido apoio do seu substitute na chefia do executive paraense. Rei morto cos- tuma ser rei posto. E o lugar de vice nao 6 um cargo, mas um formigueiro. Certamente o filho do ex-govemador Ala- cid Nunes oferecera a Almir todas as garantias que ele Ihe cobrar para passar-lhe o bastdo, e provavelmente cumprira o acerto. Nao sera mais, entretanto, o candidate do governador. Havera compromissos entire eles, mas ja estao suficientemente distanciados e desgastados para que um nao se sinta o continuador do outro, se eleito. Par se sentir outra coisa 6 s6 uma ques- tao de oportunidade. Essa sucessAo nao linear afetara nao apenas a carreira de Almir Gabriel como senador (e, de- pois, de possivel candidate a prefeito de Belem ou a govemador do Estado), como podeir ser um golpe mortal num germinante almirismo. Hilde- gardo, que ainda 6 apenas um politico bi6nico, sem eleitorado pr6prio, se afirmaria como uma nova lideranqa e poderia comeear a tentar former um novo grupo politico no Estado. Uma outra surpresa pode estar em formaqgo para o ex-senador Jader Barbalho no curso da conturbada campanha eleitoral que o aguarda. Se nao contar com uma boa estrutura de suporte, sua palavra pode nao ter uma difusdo no vasto e de- mograficamente pulverizado interior paraense a altura da ofensiva que seus adversarios fario con- tra a sua imagem, batendo insistentemente nas questoes de malversaq o de dinheiro ptblico e enriquecimento ilicito que o t6m acompanhado. Ainda que osjaderistas empedemidos nao mu- dem mais sua escolha, a significativa faixa de vo- tos flutuantes seri decisive pam uma nova-e desta vez decisive derrota do ex-govemador. O flanco do ex-ministro, que e largo e ex- posto, continue a se ampliar. Na festa de desa- gravo que seus correligionarios realizaram, no sabado passado, Jader dividiu o palanque com o ex-govemador Helio Gueiros. As relaqbes entire os dois seguiram a trajet6ria de um b6lido malu- co, ora unha-e-came ora inimigos mortais. Na eleiqgo de 1990, Gueiros carregou em todas as tintas, mesmo as mais sensacionalistas e agres- sivas, para acusar seu ex-aliado de ladrio, ten- tando eleger o ex-prefeito Sahid Xerfan seu su- cessor. Uma d6cada depois, discursa em defesa daquele que foi o alvo dos seus ferozes ataques moralistas. O eleitor estara disposto a esquecer o passado ou concluira que um merece o outro, mas nao o voto de quem quer mudar o Para na busca de caminhos melhores para o Estado? O eleitor existe, mas ele esta ao alcance do candidate? E existe mesmo esse candidate al- ternativo, uma zebra que pode se aproveitar das hip6teses viciadas colocadas a disposiqgo do eleitorado paraense? A primeira dificuldade result das condic6es fisicas, demograficas, sociais e ecoiiomicas do Estado. Em um col6gio eleitoral mais restrito e melhor qualificado, como o da capital, um candi- dato correndo por fora p6de chegar em primeiro lugar, como ocorreu com Edmilson Rodrigues, pelo PT, em 1996. Mas num Estado pobre e mal- servido de infraestrutura, com 6 milhoes de habi- tantes dispersos por um territ6rio de 1,2 milhao de quil6metros quadrados, concentrando-se na ca- pital apenas pouco mais de 20% desse contingen- te, dispor de avido e outros meios de transport, estrutura receptive em cada um dos 143 munici- pios e produtos de divulgacio, 6 uma diferenqa que conta muito, quase decisivamente. 0 PT 6 o unico dos partidos de esquerda, de oposiq o ou nio absorvido pela alianqa si- tuacionista que disp6e do minimo dessas con- dicqes para seguir em paralelo com a maquina official e o esquema de Jader Barbalho. Mas o PT nio tem um candidate de peso para levar Desigualdade Em 1999 a Amaz6nia possuia 5% do PIB (Produto Interno Bruto) national. A regiao mais pr6xima, o Centro-Oeste, tinha uma fatia de 7%. O Nordeste, 13%. O Sul, 16%. E o Sudeste, a bagatela de 59%. Em 2000 o BNDES destinou i Amaz6nia 4% das verbas do program criado para redu- zir as desigualdades regionais no Brasil. O Centro-Oeste ficou corn 9%, o Nordeste corn 12%, o Sul com 18% e o Sudeste cor 57%. No ano passado o Norte perdeu mais um naco dos recursos: sua raqio baixou para 3%. Ao Centro-Oeste foram reservados 7%, ao Nordeste 13%, ao Sul 19% e ao Sudeste 58%. Assim, a Amaz6nia recebeu, em 2001, 25% menos recursos que o banco Ihe finan- ciara em 2000, 40% abaixo da sua participa- qSo no PIB. Ou seja: se defender do BNDES, a desigualdade crescera ao inves de diminuir, ao menos da perspective amaz6nica. Talvez porque, na sofisticada sede do BNDES, no Rio de Janciro, Amaz6nia nao rime corn de-, senvolvimento, ou civilizaqao. ao interior, de onde virio mais de dois tercos dos votos, mais da metade dos quais de nucle- os atrasados, pouco alcangados pelos meios modernos de comunicagio. A autofagia petista, privilegiando os interes- ses das facq6es sobre os do partido, se encarre- gou de, mais uma vez, afasta-lo do centro da dis- puta. Ainda que os dois principals candidates ofe- regam seus costados para a critical vergastadora, a ret6rica oposicionista nito sera o bastante para transformar a simpatia pelo PT em votos sufici- entes para de seus quadros surgir o novo gover- nador do Para. Se, reconhecendo essa situaq~o, o PT deci- dir, ao inv6s de lancar um candidate pr6prio para fazer figuragco, colocar sua forga a servi- go de uma coligacgo que nao lidere, a unica opqio possivel e trabalhar pela candidatura do senador Ademir Andrade, do PSB. Mas nto seria uma nova figuracio, que poderia at6 ser incorporada ate as ultimas conseqtiancias pela dire9~o partidaria, mas nio pela militincia pe- tista? Seria possivel montar dois palanques lo- cais distintos, para Lula e Garotinho? Haveria confianqa mutua para a montagem de um pro- grama comum e a formag~o de um governor ver- dadeiramente de alianga, depois da vit6ria? Para isso, ao inv6s de continuar a procura de um nome qualquer para substituir aqueles pou- cos politicos petistas que tem um perfil de can- didatos, mas nao querem ser tandidatos, o PT teria que adotar uma definigio clara e a tempo de dar ao seu candidate, em alianca com outros partidos, uma expressao estadual que, por en- quanto, nao possui. Sem o que o Para vera, mais uma vez, a dispute eleitoral ser travada entire os mesmos caciques, mudando apenas a posigao das peas nesse tabuleiro viciado. Os outros Os investigadores, na policia, no Minist&rio Pfibli- co e najustiqa, avanqaram bastante na identificaqao de quadrilhas e aproveitadores individuals que desviaram, dentro da pr6pria irea beneficiada, recursos dos incen- tivos fiscais administrados pela Sudam. S6 nao chega- rio aosfinalnentes, identificados os autores dos cri- mes e recuperando o dinheiro ilicitamente apropriado, se houver acidentes e desvios de percurso. Tudo bem. Mas e os escrit6rios de corretagem de incentives estabelecidos no sul do pais, principalmen- te em SAo Paulo? E as empresas que simularam partici- paqao societiria em projetos incentivados pela Sudam, assinando contratos de gaveta, recebendo de volta boa parte da divida para com o imposto de renda que devi- am aplicar na Amaz6nia? Estes personagens nio fa- zem parte da mesma fraude? De 30 a 40% do dinheiro teoricamente aplicado na regilo ficou no ponto de origem, tao irregularmente como foi a sangria dos projetos fantasmas, cor suas contas superfaturadas ou enxertadas de documents falsos? Essa outra parte da maqc podre estdi fora da apu- raq~o da safra de malversacio? Cor a palavra, quem pode responder. L----n JOURNAL PESSOAL I1 QUINZENA DE MARCO/2002 3 Intolerancia na selva Sc as forcas federais nao tivcssem intervindo, a luta contra a discriminac5o racial nos Estados Unidos teria sido mais morosa e apresentaria rc- sultados muito mais modestos do que os exibidos entire as d6cadas de 50 c 60, quando os choques foram mais violentos, freqientemente sangrentos. Para cumprir as decis6es de Washington, que ex- pressavam a media da opiniao p6blica national, re- presentantes do poder central foram mandados ao sul atrasado para quebrar as ferozcs resistencias ao reconhecimento dos dircitos civis (e humans mes- mo) dos negros. Era uma luta de elites, umas sen- siveis aos apelos por mais equanimidade entire os diferentes ou opostos, c, outras, numa intolerant defesa do status quo segregacionista. Nem por isso deixou de scr um choque podcroso. Da para pensar nessa refer6ncia, ainda que a ajustando a um cenario corn menor antagonismo (ao menos por enquanto), diante do crescimento das di- ferenqas entire o poder federal c o poder local na Amaz6nia, o primeiro identificado corn propostas e praticas consideradas lesivas pelo segundo, le- vando a uma rcjeicAo antes de haver a possibilida- de de identificaqio mnitua. Um caso exemplar desse conflito e a tentative de criaqao, pelo governor federal, do que seria a mai- or reserve extrativista da Amaz6nia, coin 2,3 mi- lh6es de hectares, no ParL. O projeto foi concebido em Brasilia e apresentado diretamente aos clients potenciais da reserve, natives de uma area ainda densamente coberta por floresta, mas sobre a qual avanca urna feroz frente madeireira. Essa frente esta consumindo as ultimas grandes concentrac6es de mogno, a mais valiosa das espCcies florestais da regiao, entire os vales do Xingu c do Tapaj6s, no oeste do Estado. A espCcie, segundo uma corrente de pesquisadores estd ameacada de extincdo pela exploracqo intensive. A t6tica adotada pelos tecnocratas federais pa- recia certa: cles aglutinavam apoios entire os que iri- am sc beneficiary da media para so abrir o debate e enfrentar resistEncias numa posiqlo de forca, corn legitimaFio. Mas essa titica tambem embutia um risco, o do pr6prio sigilo. Ao se antecipar aos idea- lizadores na divulgaqfo do piano, seus adversirios a apresentaram como uma conspiracao contra os inte- resses da regifo, uma manobra de estrangeiros e maus brasilciros para congelar a atividade produtiva c transformar a Amaz6nia num museum a service dos alienigenas, o que ji estaria explicit no pr6prio ti- tulo da reserve ("Verde para sempre"). A campanha foi reforcada corn a incorporaqio do governador Al- mir Gabriel, um correligionario do president Fer- nando Ienrique Cardoso. Era a senha que parecia star faltando para en- grossar a oposic;o ao projeto dos ministerios do nmeio ambient e da reform agraria. Na ultima sexta-fei- ra, as duras palavras de critics i iniciativa cederam lugar a atos concretes: os prefeitos de trEs dos cinco municipios que tcrao de ceder terras para a reserve recrutaram 800 pessoas c invadiram a terceira das audiencias piblicas de consult i populatao. Ndo foram para debater o projeto. O que queriam era in- viabilizar o encontro e mandar um recado categ6ri- co: nao aceitaram a criaco de mais uma unidade de conscrvacao federal na regiao. Umra tropa da Policia Militar foi convocada as pressas para proteger os organizadores da audiencia e permitir que eles pudessem sair do local do encon- tro, no municipio de Santa Maria do Para. Os repre- sentantes dos 6rgAos publicos prometeram pedir a instauraqfo de inquerito policial contra os tries pre- fcitos, acusando-os de incitaqgo A populacro e de estimular as agress6cs fisicas aos participants do event, alCm de ameacar de more tres deputados do PT c depredar bens pliblicos. A transformacqo foi sintomatica. Antes dos po- liticos levarem o assunto ao conhecimento ptbli- co, apresentando-o corn as tonalidades fortes de uma conspiracao de lesa-Estado, as audiencias ti- nham sido realizadas sem qualquer incident, em- bora em meio a polemicas. Logo em seguida as de- clara~6es dos politicos e do governador, a terceira audiencia empacou num quebra-quebra organiza- do pelos tres prefeitos, que conseguiram mobilizar muita gente coin a agressiva rctorica anti-reserva. Como sera a quarta audiencia? Havera uma quarta audiencia? A criaqao da reserve extrativista conti- nuara cm andamento? Certamente s6 se os executores do projeto con- tarcm corn uma reforcada cobertura da Policia Fe- deral e corn una massive campanha de convcnci- mento sobre o acerto da media. E se os te6ricos da providencia, baixando de scus distantes e prote- gidos gabinetes no Distrito Federal, aceitarem tra- var a batalha de opinido public in situ. Num siste- ma aberto, mesmo id6ias positivas e benfazejas s6 dio certo, ou so "vingam", se sao adotadas sob con- vencimento geral, nao se chegam para cumprimen- to compuls6rio. Isso ocorria na epoca dos "projetos de impact" dos governor do regime military: urdidos nos labora- t6rios da tecnocracia, baixavam no cenirio como pro- dutos prontos e acabados, eliminando resistincias atrav6s do fato consumado. As vezes a iniciativa ti- nha o efeito purgativo dos remedios: ainda que fos- sem adotadas para o bern, era natural a reaqfo do paciente. Remrdio born tern gosto ruim, 6 o que os autocratas pensam e dizem para que os demais pen- scm da mesima maneira. E aceitcm a mcdicacao. Na epoca em que militarcs e tecnicos, de mnAos dadas, faziam scus raids de reform autoritIria e mo- dernizacio impositiva sobre a Amaz6nia, instalan- do enclaves exportadores no meio da floresta, a elite local se voltava romanticamente para o passado. Bons eram considerados os tempos do extrativismo, nos quais seringalistas e donos de castanhais manti- nham a floresta intacta para autenticos servos da gle- ba coletarem os frutos das Arvores ou extrairem-nos do scu lenho, na forma de amendoas de castanha ou litex, produtos que cram embarcados para distantes mercados, juntamente corn os filhos das families abastadas, em busca de instrucqo superior. Era para li que tambem ia parte dos seus rendimentos. Ah, esse extrativismo, como era ecol6gico (omitia-se, c claro, seus anacronismos sociais e economicss. Produtos tradicionais como esses sairam da li- nha de frente da pauta de exportagio ou mesmo das estatisticas de producao. Seringalistas e donos de cas- tanhais nao se importaram em passar em frente suas terras tio logo novos pioneiros se apresentaram para adquiri-las e transforlm-las em camnpos de pastagem. Levaram consigo sua consciencia ecol6gica (criada remissivamente), que se tornou decorative, scm se prcocupar corn o quc ficaria no fiont, quase scmpre um selvagem preconceito antiflorestal, ou um total desprezo a integridade da paisagem original. As elites que se reciclaram aderiram ao novo "modelo" de ocupaq5o da terra, ora como parceiros sccund6rios dos atores principals ora como porta- vozes dessa nova ordem (principalmente politicos e advogados). Guiada pela logica do lucro ripido, ela 6 ferozmente imediatista. Em seus parimetros, criar gado 6 sempre melhor porque isso os pioneiros sa- bem fazer. Transformar frvores em madeira s6lida, tamb6m. Ainda mais quando apenas umas poucas esp6cies temr accitaqco certa no mercado e podem chegar a preqos tao bons que, no caso do mogno, nao c exagcro chanma-la de ouro verde. Este c o status quo consolidado pela coloniza- gdo em curso. Ela rcsulta da conjuga;io de intcres- ses de pioneiros corn nativos, infiltrando-se pelas estruturas do poder local. Os personagens t6ln pres- sa, estao atras de resultados imediatos, sejam cles politicos carentes de votos ou empresarios aventu- reiros. As reprcsentac6es da sociedade local estao ocupadas por esse tipo de gentc, para a qual a atual estrutura de producqo e comercializaqio de produ- tos amaz6nicos deve ser mantida para que scus be- neficios continue a fluir. O governor federal represent um caleidosc6pio de interesscs mais matizados. Ha dentro dele in- crustaqbes desse modo conventional de encarar a Amaz6nia e segments apostando na inovacio, que, em algumas situaq6es, significa recriar o passado. Entre estas 6ltimas tendencias estio aqueles que acreditam na sobrevida do extrativismo, nao cor os barges da terra a frente, mas abrindo alas para aqueles que a eles estavam submetidos, numa rela- clo que levou alguns intelectuais do passado a en- contrar resquicios medievais na estrutura de pro- ducao da Amaz6nia (e nao s6 nela, alias). Eles acham que um extrativismo de novo tipo podcr dar certo se conciliar tecnologia e conhecimentos mo- dernos corn o ignorado ou desprezado habitante na- tivo, sob a tutela do Estado, ao menos durante a fase inicial, de amadurecimento. Teses e teorias nfo faltam na (c sobre a) Ama- z6nia. Algumas slo logo postas sob suspeicio, no mercado das praticas correntes, por suposta ori- gem international, servir de instrument a inte- resses geopoliticos estrangeiros, defender o con- gelamento da produtlo da regiao, reduzirem-na a um muscu para turista alienigcna ver, favorecer a pirataria, etc. Excetos pelas situaq6es de compro- vada dimensao criminal e definitive lesividade ao interesse national, essa pluralidade e um patrimo- nio valioso para uma regiao que sofre gravcmente a carencia de conhecimcnto. Pior do que ideia equivocada e reprimi-la atra- ves da violencia, sufocando, antes de poder mani- festar-se, qualquer proposta heterodoxa, alternative ou incomoda. A intolerancia c erva daninha na mai- or fronteira de recursos naturals do planet. Mas, pelo jcito, ela estA commando a medrar comno epidemic, apoiada por quern quer continuar a agir como se fosse o xcrife da selva, um fantasma-que-anda scm roman- tismo, mas poderoso. 4 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE MARCO/2002 M SPVEA 0 poeta Mario Faustino (dos San- tos) foi nomeado chefe da secgo da SPVEA (Superintendencia do Piano de Valoriza go Econ6mica da Amaz6nia) em fevereiro de 1954, corn salario de 7 mil cru- zeiros. Na mesma data, outro po- eta, Cauby Cruz, foi designado assistente juridico, corn direito a 8,4 mil. Ja o advogado Daniel Coelho de Souza (que viria a ser reitor da UFPa, entire outros car- gos), era designado consultor ju- ridico, com salario de Ce$ 10 mil. Maria Lidia Mendonqa, irma do tambem advogado Otavio Men- don9a (e future esposa do coro- nel Gustavo Moraes Rego Reis), era admitida como assistente ad- ministrativa e salario de Cr$ 3,6 mil, o mesmo de Paulo de Carva- Iho, que iniciaria ai uma longa carreira, sobrevivendo a substitui- gao da SPVEA pela Sudam. Dinheiro Em 1954 a prefeitura de Belem guardava, encaixotadas, cedulas de libra esterlina inglesa em valor equivalent a seis milh6es de cru- zeiros (900 meses de salario de um chefe de seqco da SPVEA, como Mario Faustino), que tomara em- prestado e nao usara. A divida da PMB em moeda estrangeiraja era vultosa naquele ano, mas as notas da moeda da Inglaterra continua- vam guardadas. O prefeito Celso Malcher decidiu entao oferecer esses caixotes de libras ao Minis- terio da Fazenda por conta da amortizagAo do debito. Bolsa Em 17 de fevereiro de 1954 foi instalada a Bolsa de Valores do Para, tendo como sindico o cor- retor Ruben Martins. Ate entao Belem estava sob ajurisdicio de Recife, a bolsa mais proxima. Corn a instalagao da SPVEA e a execuqgo do piano de valorizadgo econ6mica da Amaz6nia, inicia- da no ano anterior, o Para passou a sentir a necessidade de um agen- te regulador do mercado de titu- los. Toda a estrutura da bolsa foi criada por Ricardo Borges, asses- sor econ6mico da Associaaio Commercial do Para, em cuja sede a nova instituitAo funcionou. Salinizagao Em outubro de 1955 o prefeito de Belem, Celso Malcher, comunicou a populagao que "a falta de ener- gia eletrica que se vem verifican- do na cidade e em conseqtiUncia do excess de salinidade na agua que alimenta na agua que alimen- ta as caldeiras da usina do Depar- tamento Municipal de Forqa e Luz, ouca gene lembra. mas depois que o lornal O E\iadi, ,h S Paiir. con- w.eguindo furar a barreira da censure. no- riciou pela primeira ie uiical 'e a ae\stencia dia guerrllha do Parudo Comunista do Brjail no .\ra- Vjuaiad, o go'.erno i[ jinbim n -e referii' ja dsunio,, ante,- de colocar tum lapide de silencio sobre ele Em 3 de ouiubru de I '2 o Cnomandu M iliar da Amnazoni dit ulgou noua oFicial. a-minada pelo teennte coronel Paulo HFenrque Li boa. chefe da 5' SeqI j. comunll icndo o asu ass-in.ao do 2'- sr- gento Mario Abrahim da Sil\a. do I Balalhio de Int'antaria dJ Se'la U\ () lir 1o1 balejdor n od In ne de 2,' de s~eerlfbro, quando fazia "a fiscalizaj io de poos de scgurn,'a Inmsjljdo, para o E\erci- to". como pane das "manobras que o E\ercnto realiza\a nuquela area. conm parti.'pagloda 12' Regi o Militar e de ouirjs grande-s unidude-". () -argento loi "itraiioeiramienitc" inglido por um ireo disparado por tin "'iminiig dj paiai" cujos tubos, por esse motive, vem sofrendo perfuraqao". Isso, 30 anos antes da inaugu- raco da hidreletrica de Tucurui, quando o tema da salinizaqao se tornou polemico e popular. Expressdo Aloysio da Costa Chaves foi es- colhido o professor do ano de 1961 pela Sociedade Paraense de Educaqao, numa solenidade pre- sidida pelo vice-governador, Newton Miranda, no exercicio do cargo de governador pela ausen- cia do titular, Aurelio do Carmo. Respondendo a sauda~Ao do ad- vogado Otavio Miranda, o future reitor assinalou a importancia da revoluqco de 1930 na formagao da mentalidade da sua geratao, uma geraqio que '"no foi atingi- da pela espurcicia dos que trans- formaram as funq6es publicas em fontes inesgotaveis dos mais es- p6rios beneficios". Anos depois,ja quando gover- nador, o professor Aloysio utili- zaria expressao do mesmojaez: o verbo esgaivar. Forgou muita gen- te boa a correr para o dicionario. TV Em outubro de 1961 a TV Mara- joara apresentou a novela "O Morro dos Ventos Uivantes", adaptacao do famoso romance de A noia dil/a que "uim ierrorista" ha\ la sido o author do disparo. admmindo que "o error iombou mais um dedicado ser dor da Patria e e\emplar chele de i'amili". mas que. longe de repre-,entar uma ltoria para mnau- braslleiros. corlnitu[ira majs uma moiital\ o para ququ aqueles que main a nossa terra lutein eml todos, o: camn- po-, c'ontra atentidos de tal natureza". Segundo o coiniucjdo. as ulnmas pala\ ra., dtias pelto sar- genio logo depots de erido r"Atferrenm-e ao ter- reno. \arram a area corn troe nmnienham a regu- ran.a"i ""ho deecoar por today a Amazonia como liqao de responsabilidade e amnor .o Brasil". Antes de morrer. Abrahim renar chamado o sargento Bonilalcloe Ihe passado o commando coin as derradeiras pala\ras. "A boma-\erde e sua. companheiro Comande nosseo homes para que a Pariaa pennaneha Ih reedemnocrautca". OC() ( injndou rezar missa pela memnora do sargento mono na C(aedral lMeropolitana die lanaus. Charlotte Bronte, cor Daniel Carvalho no papel principal, de Heatclift. A novela fez parte do TV Romance, indo ao ar as quar- tas e sextas-feiras, a partir de oito e meia da noite. Russo O cargueiro Sretensk foi o primei- ro navio russo a aportar em Belem, no dia 8 de novembro de 1965. Trouxe 280 toneladas de adubo quimico, carga desembarcada sob a discreta vigilancia de agents do DOPS (Delegacia de Ordem Poli- tica e Social), que tambem acom- panharam corn a mesma e not6ria discricao as saidas dos tripulantes pela cidade, subversives em poten- cial por sua origem, conforme a cartilha daqueles tempos. O navio ficou apenas 24 horas na baia do Guajara, o suficiente para provo- car olhares curiosos. Paraense Em 1965 o medico Sergio Martins Pandolfo obteve "honrosa classifi- cadao" numa selegao de medicos feita pela Superintendencia dos Ser- vigos Medicos do Estado da Gua- nabara (hoje Rio de Janeiro), em 1965. Formado dois anos antes pela Faculdade de Medicina do Para, fi- Iho de Rocco Rafael Pandolfo, con- sultor tecnico do Banco de Credito da Amaz6nia, e de Clara Martins Pandolfo, membro da Comissao de Planejamento da SPVEA, era mais um paraense a vencer no sul, co- memorava a Folha do Norte em sua antol6gica seg~o. Jornalistas Em novembro de 1965 o Clube dos Jornalistas do Para comemo- rou seu primeiro aniversario de funda Ao corn um almooo na sede social do Para Clube (que era na avenida Nazare, onde foi levan- tado o edificio Emestino Souza Filho), organizado pelos diretores Odir Macedo e Carlos Rocque. Para o mss seguinte, os diretores seriam a colunista Jeanette Blan- che (pseud6nimo de Elanir Go- mes de Sousa, que tambem e Lana) e Joao de Jesus Paes Lou- reiro, de A Provincia do Para. C JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE MARCO/2002 5 A Doca Este era o panorama da hoje muito valorizada Doca de Souza Franca, entire Gaspar Viana e Senador Lemos, no final de 1965. A paisagem ainda era a de um igarape natural, o das Almas (ou das Armas, na polemica condenada a nunca acabar). 0 leito do igarape estava torado de vegetaaio aquatica e sedimentado, o que provocava inundaCdes (e a delicia dos moleques das circunvizinhancas). Os 6nibus, que circulavam intensamente por esse perimetro, ofereciam aos seus passageiros duas paisagens, que se inverteramn com o tempo: um igarape maltratado pelos despejos hunanos, mnas ainda na sua configuraado original, e uma criacdo humana ainda viva, a dasfabricas, em plena atividade, corn seu circulo de operarios (cuja presenga o padre holandes Thiago Way gravitou para o Circulo Operdrio), atualmente cemiteriosfabris. Muita mudanCa em menos de quatro decadas para tudo mudar pouco. B I T aWro Poeira .OJE E3 Sess-es a partir das 19 horns SENSATIONAL -.t ESTREIAS 0 Maior Presente Para Os Paraenser" LINDA BATISTA A main, a.son a a olr, t(r*-a q4o 1* "A51i, nunm teiper it Nmo get .M otnt r. 1indd.,i. Eu. l. i. m q w r m i .mm.wt C- aI gr..v nd. r.pIrrw.i, 9u.t. .. 0 l d.. d,,t1. mn do IaTIAO PUl*A. tm Mn unAit Com sunk 10 amd t meoed, "o t Ipot $ atf rnSjolwt Outra Sensacional Esreia Hoje: ROIALI N 0 Mai Famose Crntorcionista E Equilibrista International UM ELEfCO GRANDIOSE NUM PROGRAM DUPLO SMNHA VI.P(AL DAl MOA$ AOi I1EOis FOiUL*Ai S l ; ADULTOI C6 11.5;: S' "" ''"'" ".Nf-ta ce$ 6,00. n he" ^^ MI 0 Poeira Linda Batista, "a maisfamosa e a mais cara cantora do Brasil", se apresentou no teatro Poeira, em 1955, em tres sessoes continues a partir das sete da noite, durante dois dias. Na sua companhia, Simplicio, "o mais complete humorista brasileiro e de Roialino, "o mais famoso contorcionista e equilibrista international". Haveria urn "vesperal das moas ", naturalmente. Na epoca, Linda ainda faziajus ao nome. Arrastava multid6es, mesmo quando a coreografia cenica atrapalhava sua voz. Em outubro de 1956 o Teatro Poeira reabriu, masja com o nome de Cinema Nazare, depois de amplas reforms, que o tiraram da sua primitiva (inas divertida) condiCdo, de sitio de molecagens e aventuras, antes, I - ...1-^-. _' ..a, ,.. ,"* ! S .-., *- , ., :- ,. v- , ":,*.; , ,,., ,,- ., -- -*, ^*, durante e depois da exibicdo dosfilmes. Passou a contar corn umra ampla entrada e sala de espera, salio de projegdo corn piso encerrado em tacos de madeiras regionais, corn 1.500 poltronas. A tela tinha 13 Smetros de largura. A grande novidade e que passava a contar coin instalaVoes de Cinemascope, soin magnetic, equipamento importado dos Estados Unidos. Belem passava a ser a terceira capital do Norte ,a receber essa melhoria. No festival de reinauguracio foram exibidos 0 manto Sagrado, Demetrio o Gladiador A Fonte dos Desejos, Carmen Jones, Suplicio de uma Saudade, As Aventuras de Hajji S Babd e 0 Principe Valente. R P 6 JOURNAL PESSOAL 1l QUINZENA DE MARCO/2002 0 escritor de primeira linha no seu lugar de direito (ou: os iguais se proximam) S rcio Souza colocou o ponto final Sno seu 6ltimo livro, Desordem (se- -J gundo volume da programada te- tralogia sobre o Grao-Para), no Delmonico Hotel, em New York (conforme escreveu), no dia 26 de margo de 2000. Quase dois anos de- pois estava em Moscou. Foi la que soube da repercussdo negative da entrevista que conce- deu a antrop6loga Priscilla Faulhaber, incluida no livro Conhecimento e Fronteira: Histdria da Cidncia na Amaz6nia, organizado pelo Mu- seu Emilio Goeldi para comemorar os 50 anos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvi- mento Cientifico e Tecnol6gico). Corn a referencia ao bom hotel novaior- quino e a capital moscovita, Marcio estava tentando dizer que e um intellectual cosmopo- lita, um cidadao do mundo, e nao mais o re- presentante de uma cultural regional, circuns- crito ao universe provinciano. Como viaja muito around os quatro continents, o presi- dente da Funarte, 4rgdo do Ministerio da Cul- tura para as artes em geral, com sede no Rio de Janeiro, nao p6de se prevenir contra o tiro- teio que se seguiu ao aparecimento em letra de suas (muitas) infelizes declarac6es na en- trevista. Entre as quais, a de que atualmente o Para "nro ter literature, o Para nao tem mtsi- ca, o Para nao ter nada. O Par6 nao tern tea- tro, nao ter dramaturgia. Ter artes plasticas, ter fotografia, ter algumas coisas, mas foi perdendo a sua identidade". Pela finada Agenda Amaz6nica, fui o primeiro a reagir as palavras de Marcio Sou- za, depois de esperar por dias que alguem falasse antes, ciente que estou do desagra- do dele is minhas critics aos seus tiltimos cometimentos literarios (movido que esta- ria por inveja, despeito ou frustra'cio, apud MS). Nao o fiz para defender o Para das agressoes de um amazonense, que, contra- riando o seu passado, fazia renascer um bair- rismo provinciano, tolo e imitil na dispute entire Para e Amazonas. Fiquei chocado ao ver esse prop6sito nas palavras de quem era um dos mais brilhantes intelectuais da Amaz6nia. Ficava evidence a intencgo do president da Funarte de destacar o Amazonas, e especificamente Manaus, no embalo da depreciac.o do Para e de Bel6m. Essa, porem, era a face da entrevista a que menos se devia dar atenq~o. Mis graves eram os erros de informaqao e as interpretaq6es equivocadas de Marcio na entrevista. A reaqfo, da qual teve ci6ncia em Mos- cou, como fez questdo de frisar, obrigaram- no a procurar um journal que decretou como sendo de primeira classes, O Liberal. igno- rando soberbamente o que havia said "num journal de segunda linha [o Didrio do Para] corn uma s6rie de depoimentos de gente de segunda linha". Era uma tentative de desau- torizar no nascedouro, por 6dito emanado do trono carioca do burocrata das artes nacio- nais, a celeuma localizada, antes que ela se irradiasse, podendo ecoar por ambientes ca- pazes de desencadear presses sobre o cargo tao zelosamente mantido pelo escritor ama- zonense. Que, sagazmente, tratou de incen- sar um intellectual organico de O Liberal, o fecundo ficcionista (ao menos quantitativa- mente falando) Salomao Laredo, equiparan- do-o a Haroldo Maranhao como exemplares de uma excelencia literaria paraense que Marcio se permit reconhecer. Abusando da descortesia e do tom fo- Ihetinesco, desviado de seu sitio apropria- do, na literature, Marcio Souza tentou eli- minar de pronto o affaire em forma~go. Atri- buiu a culpa a sua entrevistadora, que nao Ihe teria submetido o texto da entrevista para aprovacgo e que cometera certa leviandade ao passar a letra de forma uma conversa gra- vada, imprecisa por definico, ainda mais porque o entrevistado se disp6s a falar "en- tre duas reunites dificeis dentro da institui- cgo" (atencgo, povareu: o doutor Marcio e muito ocupado, as usual). A direcqo do Museu Goeldi expli- cou, em nota official, que, ao contra- rio da versAo do criador do Boto Tucuxi modern e urban, o texto da entrevista Ihe foi mandado por e-mail para que o revisasse, cor o pedido de autorizaqao para publica- Fgo, autorizacqo essa concedida, em contato telef6nico, por sua secreta- ria, que disse estar falando em nome do chefe. V' 4 I Digamos que esse nao e um padrdo de edigio ;.T. ' compativel cor a impor-" , .,*- :'4 ^' '; , tancia que devia ter um livro (de 800 paginas) publicado para assinalar o cinqientenario de uma instituiqao como o CNPq. Houve certa neglig6ncia, ou, talvez, ingenuidade da parte da editor da publicaqio, que foi tambem a entrevistadora do escritor. Mas esse 6 um pe- cado francamente venial. No maximo, Prisci- la Faulhaber impediu que Marcio, em instan- cia final, expurgasse de sua manifestaqao li- malha impertinente, ociosa ou incongruente. A pesquisadora, porem, nfo introduziu no tex- to o que noo tivesse sido dito pelo entrevista- do, o que, ai, sim, seria pecado mortal. O president da Funarte ameaqou, na en- trevista a 0 Liberal, interpelarjudicialmente o Inpa [no que cometeria urn erro, derivado a outrance do seu iracundo bairrismo, ja que o 6rgdo responsdvel pelo livro e o "Goeldi"] para que o institute, sediado em Manaus, "apresente a comprovaqdo de que a publica- qao do texto foi autorizada", esperando, cor essa iniciativa, levar a que "o livro seja retira- do do mercado e o capitulo excluido". Se a vontade de primeira linha de Marcio fosse cumprida, nao seria de todo ruim. Os editors do livro (Priscila e Peter Mann de Toledo) ja recolheram uma vez a publicaqco para expurgar erros de impressed e revisao. A exclusro da entrevista de Marcio faria at6 um bem ao conjunto de depoimentos reuni- dos no livro. O que o president da Funarte disse e um amontoado de incorre6oes, inver- dades, desprop6sitos e prirarismos, total- mente deslocado do espirito da obra (no que, alias, Marcio concorda, admitindo que suas baboseiras sobre cultural paraense ficaram JOURNAL PESSOAL 1I QUINZENA DE MARQO/2002 7 deslocadas "numa publicacao sobre a hist6- ria de ura instituicio cientifica"). A entrevista foi publicada sem a revisao fi- nal do autor, mas, como afinna o pr6prio Mar- cio, "O problema nio e o que eu falei, mas o que saiu". Ou seja: ele realmente disse o que aparece no livro como sendo sua manifesta~ao. O problema e que essas declaraq6es nao deve- riam ter sido publicadas. Em O Liberal (jomal de primeira linha ouvindo escritor de primeira linha), porem, Marcio express opini6es e da informac es em contradigao corn o que esta no livro. Do teatro paraense, que era nada na en- trevista, surge pelo menos cinco espetaculos "de altissima categoria", submetidos ao proje- to "Em Cena Brasil", da Funarte. Quanto a musica, o Para "tern se destacado na execucAo de musica classica, com belas orquestras" (es- tamos todos aguardando o roteiro do dirigente da Funarte para usufruir essas maravilhas). Estamos diante de um caso classico de es- quizofrenia ou e mesmo evidencia de ma-fe? O Marcio de O Liberal sabe o que faz o Mar- cio do livro do "Goeldi", que, por sua vez, tem alguma remota ideia do que foi o Marcio de Manaus, aquela inteligencia viva e criati- va, o intellectual que absorveu e reescreveu a hist6ria da sua terra, que deu a forma critical de farsa ao enredo da elite da borracha e aos delirios da Zona Franca, o amigo de boas e longas conversas corn outros amigos de urma bela geracgo, como o alegre poeta Aldisio Fil- gueiras, que montou sua trincheira no Jornal do Amazonas, de hist6ria gloriosa? Esse Marcio Souza dandi em journal parve- nu e tao carreirista que, criticado por genuinos intelectuais, escritores poderosos, como Vicente Cecim, da nossa mesma geragao, orgulho de todos n6s, s6 se preocupa em mandar recado a um governador, como o doutor Almir Gabriel, que entire suas muitas qualidades nao esta a de poder se apresentar como um leitor de infijlios nem exatamente como um militant cultural (mas que carrega consigo a caneta de assinar convenios e pode fazer chegar sua voz ao Pala- cio do Planalto ou ao gabinete do inchado mi- nistro Weffort): "O proprio governador me co- nhece, conhece meus livros, sabe que eu nao diria isso", proclama, como a se imunizar con- tra eventuais bicadas tucanas ao seu honoravel cargo burocratico, escaldado por incidents nada edificantes em qtiiproqu6s passados, como o que arrastou Ferreira Gullar, um grande poe- ta, autor de pelo menos um livro inesquecivel (Poema Sujo, onde estao alguns dos mais be- los versos que uma cidadeja mereceu na litera- tura universal), mas sujeito a epidemias de bair- rismo, vaidade e mesquinharia. Pairando acima de intelectualidades paroqui- ais, mas ja tendo levitado tanto que passou a pairar sobre as letras em geral, exceto as dos atos burocraticos e sua fauna acompanhante, Marcio Souza 6 todo atengao c desvelo para corn seus pares na dircrio da cultural official, como Paulo Chaves Fernandes, no Estado, e Marcio Meira, no municipio. E esse o pliblico que interessa ao Marcio Souza dandi, um important intellectual da Amaz6nia que a hidra do cosmopolitismo engoliu, sem a menor garantia de que venha a ser tratado como o Jonas da Biblia. O Marcio que sumiu no venture do ilusionismo intemacio- nal, esse nao volta mais. Pode-se acender a vela Historia A presenca humana na Amaz6nia tem oito mil ou nove mil anos. A europeia, cinco secu- los. A ocupaqao colonial definitive ainda nao completou 400 anos. Qualquer ponto de par- tida que se tome, porem, o percurso ate o ponto de chegadaja e um tanto long e bastante com- plexo. Ha especificidade na hist6ria amaz6- nica, nao s6 por sua geografia original, mas pela organizagao que a ela deu o ocupante co- lonial, o de presenca mais important (quan- do nada, por ser o vencedor). O Brasil, porem, acha que nossa hist6ria e um residue da hist6ria national; e que o que nos resta e nos enquadrarmos aos ditames do bwana, seja o de lingua estrangeira ou o nosso conterraneo. A tarefa de escrever uma hist6ria regional aut6noma nos compete e s6 a n6s, ou aos que aderirem a essa perspective de au- tonomia, de identidade pr6pria. Desde que nao nos deixemos seduzir pela bitola do provincia- nismo, nao confundamos autonomia cor iso- lamento e nem aceitemos propostas ou suges- t6es apenas por terem sido feitas por gente da terra, sem submete-las ao teste da verdade. Com Marxismo, Socialisino e os Militan- tes Excluidos (Editora Paka-Tatu, 171 paginas), Vicente Salles oferece rico material para a his- t6ria regional. Nao a que as elites e seus histo- ri6grafos esculpiram em pedra, mas a criatura em sangue, came e osso ainda em busca de mo- delagem, carente do arcabouco te6rico que Ihe de fonna, quejunte suas parties num todo dota- do de significaqio. Cor sua incansavel pes- quisa em fontes primarias ou em fontes secun- darias maltratadas, Vicente esta impedindo o des'carte de temas inc6modos ou indesejaveis no bric-a-brac da historiografia dos notaveis. Os trabalhos reunidos nesse livro, que ti- veram a primeira forma nas paginas dejornal ou nas her6icas microediq6es do autor, pro- poem uma agenda real, de series determina- dos, nao de her6is que nao resisted a pergun- tas que nao constam do catecismo official. Ele pr6prio ainda nao tern as respostas. Mas nao apenas ajudou a enriquecer o questionario, como abre algumas perspectives mais positi- vas de reconstituicao dos fatos e de decifra- cao de alguns enigmas. Um livro precioso pelo que trata c pela forma simples e clara com que trata. Um present para todos n6s dos 70 anos desse bravo caboclo de Igarape-Agu. e entoar o canto funebre. De preferencia, em ale- mao, frances ou ingles. Ainda que apenas para repetir sons, sem necessidade de saber o signifi- cado das belas palavras entoadas. O significado nao e o que significa, mas o que gente como Marcio quer fazer significar em suas significan- cias chapas brancas. Reparo Ronaldo Brasiliense publicou na sua co- luna, no ultimo numero do journal O Para- ense: "O Jornal Pessoal, dojornalista Ll- cio Flavio Pinto, esta nas bancas corn uma edirao extra sobre 'A prisao do Barbalho'. Diz Lucio na materia que Jader 'parece con- denado a ser novamente candidate ao go- verno do Para'. Governar o Para, para L6- cio, agora virou castigo. Eu, hein!". O titulo correto da materia de capa e "Pri- sao do Barbalho". Ronaldo acrescentou-lhe o artigo inicial. E aduziu um significado ine- xistente. No seu context, a frase explica que Jader esta condenado a ser novamente candi- dato a govemador porque a outra alternative, da sua preferencia, a de senador, dificilmente se viabilizara. Jader preferiria o mandate par- lamentar, que remeteria seus processes para o Supremo Tribunal Federal. Corn a outra van- tagem do cargo, a imunidade parlamentar, ele s6 poderia ser processado depois que o Sena- do concedesse justiga licenqa para tal. Em tese, ele podia arriscar concorrer a uma das duas vagas senatoriais em dispute neste ano. Na pratica, porem, estaria com- prando brigas desgastantes, a partir do pri- meiro moment em que assumisse o man- dato, sujeitando-se a um destiny ingl6rio como o do ano passado. Para a opiniao p6- blica national, ele e a expressao do mal- versador de recursos publicos. Por isso, esta condenado a ser novamen- te governador. Nao que o Para represent um castigo para quem seja eleito governador (o contrario, porem, e possivel). Foi o que acon- teceu em 1994, quando Jarbas Passarinho nao queria ser o candidate de Jader ao go- vemo, mas teve que se submeter ao patrono por nao Ihe poder apresentar uma negative. A expressao se inspira nao no model criminal, mas no padrao literario, como qual- quer pessoa com alguma intimidade corn o tema percebera sem dificuldade. Interpretar o contririo e sinal de desqualificaqao, ma vontade ou ma fe. Depois de ter dedicado grande parte da minha vida a viver, estudar, divulgar e procurar defender o Para, aqui mantendo meu domicilio permanent, se eu pensasse o que Ronaldo Brasiliense apregoa que penso, seria um insano. Sou? Corn a palavra, o leitor. Pobreza Em 1991 a regiao amazonica tinha o maior percentual de do- micilios sem qualquer tipo de ren- dimento, corn 6,26% do total. O Nordeste vinha em segundo lugar, corn 4,35%. Em 2000, dobou a quantidade de domicilios sem ren- dimento na Amaz6nia: eles pas- saram a representar 12,87% do universe regional. A situacao pi- orou proporcionalmente mais no Nordeste, cujo indice saltou para 11,84%, mas sem tirar a infeliz lideranqa do Norte. As duas regi6es tiveram as piores varia6oes nessa decada, permanecendo acima do indice national, em condigqes mais gra- ves do que as existentes nas tres outras regi6es do pais. O percen- tuial de domicilios sem rendimen- to cm todo o Brasil passou de 3,69% em 1991 para 9,15% em 2000, mostrando que nesse peri- odo houve deterioracao dos ren- dimcntos dos trabalhadores, se- gundo os resultados de uma pes- quisa realizada pela Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de Sao Paulo, corn base nos dados do IBGE. Num quadro national negati- vo, corn crescimento de 198% dos domicilios sem qualquer tipo de rendimento, a gravidade e ainda maior nas duas regioes cada vez mais pobres do pais. Gravidade que nao 6 percebida pela opiniao pTiblica, no caso amaz6nico, por causa de seus baixos valores em tcrmos absolutes. Isto significa que mesmo corn o crescimento mais acentuado, proporcionalmente, dos investi- mentos ptiblicos na Amaz6nia do que nas demais regimes, da aber- tura de frentes econ6micas priva- das e da participacio mais acen- tuada da regiao no comercio ex- terior, continuaram a crescer os lares sem qualquer tipo de rendi- mento, completamente a margem da cxpansiio da atividade produ- tiva. Dc cada 15 pessoas que mo- ram na Amaz6nia, uma vive de favors ou trocas corn terceiros- parentes, amigos ou vizinhos - por nao dispor de Squalquer for- m a de renda. (A= (In)seguranga - 0 Para foi o sex- --- I to Estado mais Ibern aquinhoa- 1i do corn verbas j do Fundo Naci- onal de Segu- S ranqa Publica S previstas para este ano. Abaixo apenas do Rio de Janeiro, Pernambuco, Distrito Federal, Espirito Santo e Santa Ca- tarina, o Estado devera receber 14 milh6es de reais, que deverio ser usados para complementary as apli- cacoes estaduais no setor. Na pres- tacio de contas dos recursos rece- bidos no ano passado, o govemo do Pard usou, indevidamente, di- nheiro de destinagio especifica em seguranqa public para comprar seis antenas parab6licas e quatro balanqas de pesagem de veiculos. Bauxita A receita bruta da Mineracao Rio do Norte foi, no ano passado, 27% inaior do que a alcancada em 2000, passando de 435 milhOes de reais para R$ 551 milhoes. Ja o lu- cro liquid cresceu mais de 40%, pulando de R$ 171 milh6es para nada menos do que R$ 241 mi- lhoes. Significa que a maior em- presa de minera;.o de bauxita do Brasil e uima das maiores do mun- do conseguiu, em 2001, uma ren- tabilidade excepcional, equivalen- te a um quarto do seu ativo total. Num unico ano, a empresa teve de volta 25 de cada 100 reais que in- vestiu para montar seu empreen- dimento, no Para. Esses resultados foram obtidos apesar de uma discreta reduqdo na produqio de bauxita, que foi de 10,7 milh6es de toneladas, reflexo do "desaquecimento da economic mundial", segundo o relat6rio da diretoria da empresa, que acompa- nhou o balango, divulgado na se- mana passada. Mas os investimen- tos para elevar a capacidade da mina estio continuando, devendo ser concluidos em dezcmbro deste ano. Em 2001 chegaram a quase 90 milhoes de d6lares. A MRN deve- ri alcangar a produFio record de 16 milh6es de toneladas de mine- rio em 2003, ocupando a lideranga do ranking mundial. Embora a empresa realize um destacado projeto de recuperagio Andando - 0 gabinete de Romulo Maiorana era urn lugar demnocratico: ele franqueava o acesso a esquerdistas e direitistas, jovens e velhos, boenios e gente de vida regrada, '" ,, profissionais de todos os stores, politicos de todas as tendencias. Roinulo sempre se ser: , dessa pluralidadepara dar maiorconsistlncia as '%ia 1I/ - cisdes, antecipando-lhes as conseqiincias. Seu principal herdeiro nto tern esse born si ,,' c I a,- O' apenas de iguais, dando ao gabinete originaJu L pI1,, IuI,. ,i , inonocdrdio, sua expressio literal. Talvez por isso nuio hja nin- guen corn ascendencia sobre Romuilo Maiorana Junior para alerta- lo para o ridicule atroz da p6gina inteira que vein sendo publicada h6 vwirios dias seguidos em 0 Liberal, coin sua foto, anunciando a retoinda ado projeto "A ndando pelo Pard ". Imagine-se utn Mesquita, umn Frias ou umr Marinho permitindo- se protagonizar urn autentico out-door dentro dos seus jornais, po- sando para umafoto como sefossem astros de televisao (o antincio de 0 Liberal, muito sintomaticamente, anuncia: "'Vemi ai, inais urn campedo de autdiencia'). Nao que ion dono dejornal nao posso liderar uina campanha de divulgacdo dos inunicipios do seu Estado. E desej(ivel e ineritorio que o fjaa. Mas ndo para tomar o lenma como pretexto para umra campa- nha de promocdo pessoal (no caso da "Andando ", patrocinada pela Companhia Vale do Rio Doce, que cede recursos e o prestigio do seu nome para uima acdo de Jancaria), transformando o que devia ser o objetivo da iniciativa em pano dejfindo no proscenio. Os mnunicipios sdo secundirios. 0 que import e a estampa do principal executive do grupo Liberal, agora devidamnente "sarado ". As viagens sao meteoricas, quase em circuit fechado. Umna vez en- cerrada apassagem da comitiva real, o vinculojornal-nunicipio se vola- tiliza. 0 mrunicipio e apenas um mole para tirar dinheiro da CVRD. 0 pior e que a posture editorial do grupo de comuinicacdo permanece a mesa: desinjbrnada, desatenta, negligent para corn os temas locals. Alkn do aspect commercial, o retorno da campanha significaria que, desta vez, Romulo Juinior sera candidate a senator? Os que es- peculam corn essa possibilidade exibeim llma outra evidencia: ate hoje o nome do vice-presidente das OrganizaCoes Ronulo Maiorana niio voltou ao expediente dojornal. Seria para ndo incompatibilizi-lo para a dispute de urn cargo eletivo, embora coin extraordincriia antecipa- cio. No entanto, essa possibilidade e tco crivel quanto o interesse do executive pelos temas ligados ao "desenvolvimento, a economnia e a realidade dos inunicipios paraenses ", como anuncia a peca proinoci- onal ao "Andando de Rominho pelo Par(. ecol6gica do Lago Batata, que durante alguns anos poluiu e as- soreou, depositando nele os re- jeitos da lavagem do minerio, os investimentos em meio ambien- te no ano passado representaram menos 1% do faturamento liqui- do. Ja os recolhimentos de im- postos, royalties e contribuiq6es sociais ficaram em 7% da recei- ta liquid da empresa, que 6 con- trolada pela Companhia Vale do Rio Doce, em associaCao corn sete outras empresas, i frente as multinacionais Alcan e Billiton e a national CBA, do grupo Er- mirio de Moraes. Faganha Dos 10 municipios brasileiros cujos chefes de familiar tem us pi- ores rendimentos de todo o pais, seis estao localizados no Mara- nhio (Cantanhede, o mais pobre, Belagua, Palmeirandia, Serrano do Maranhfo, Nina Rodrigues e Mat6es do Norte) e quatro no Piaui (Morro do Chap6u do Piaui, Cabeceiras do Piaui, Caraubas do Piaui e Joqa Marques). Mais uma realizaqao da fami- lia Sarney: ajudar o Maranhao a ganhar o trofeu miseria do Piaui, campeao ate entfo. loirn: l Pc ,s: '. -. c 11', "k -. -'; c ; 31... ,_ "n *f-' f e s |
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