Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00228

Full Text





Jomal Pessoal
L C I O F L A V IO P I N T O


ANO XV NO 279 1l QUINZENA DE MAR9O DE 2002 R$ 2,00
LATIN AMERICAN COLLECTIOIL- ,
UNIVE.,ITY OF FLORIDA ELEIA



Ha lugar para uma zebra?

Ameaga ir ao ar mais um capitulo da velha novela eleitoralparaense: diretamente ou atraves
de afilbados, as velbas raposas da political vdo disputar o governor do Estado. Parece nao
haver lugarpara luma candidatura alternative, uma novidade, uma surpresa. Ou ha?


1 : avera lugar na pr6xima eleigfo para
-.. um candidate altemativo ao gover-
Sno do Para? Ou a dispute para va-
ler sera travada entire as velhas ra-
posas da political estadual, diretamente ou atra-
ves de prepostos?
E a pergunta que se deve fazer a media que
vai se delineando o grande antagonism entire o
campo de dominacqo do govemador Almir Gabri-
el e o do ex-senador Jader Barbalho. Permanecen-


do ate o final do mandate, o govemador dara ao
seu candidate o calor da maquina official, mesmo
que o judiciario e o Minist&rio Ptblico venham,
finalmente, a se manter atentos aos abuses do go-
vemo, que costumam sera marca registrada da pre-
senga do govemo na estaco eleitoral. Sera un can-
didato forte mesmo que ndo tenha forca pessoal.
Teria de um terqo a 40% dos votos validos.
A candidatura de Jader Barbalho ao govemo
do Estado, pela quarta vez (o que seria um recor-


de estadual em eleic6es), preenchera outro gran-
de espago. Ele tem, ao mesmo tempo, o maior
eleitorado cativo e o maior indice de rejeiCio do
Para. Um tergo dos eleitores votam nele em qual-
quer circunstancia. Mais de 40% nele nio votam
de maneira alguma. Haveria uma faixa aproxi-
mada de 15% do colegio eleitoral que ainda pode
votar nele, dependendo da conjuntura no moment
da votaqio. E o que dizem as pesquisas, essas
emulag6es despudoradas do oriculo de Delfos.


A. LLt-c LLLEL1AKCLk K,. LC PLLOLL-- (LiZL. )L


-GT








2 JOURNAL PESSOAL 1V QUINZENA DE MARO/2002


A ser verdadeira essa partilha de votos, o que
sobrar para terceiros candidates Ihes permitiria
apenas uma participaqdo secundaria no 10 tumo.
O 20 tumo estaria reservado para o candidate do
govemador e o ex-senador Jader Barbalho. Seja
Simao Jatene ou qualquer dos outros politicos que
postulam o lugar dentro da coligaq~o situacionis-
ta o nome que Almir Gabriel carregara, uma vit6-
ria no 20 tumo sera por estreita margem de votos,
para um ou para o outro lado.
A isso se resume o enredo eleitoral paraense
deste ano? Aparentemente, sim. O fatalismo du-
alista, porem, pode ocultar surpresas. O gover-
nador pode se convencer da inviabilidade elei-
toral do seu delfim, o secretario especial da pro-
duqgo, Simao Jatene, ou o pr6prio candidate
jogar a toalha. Optar entao pelo vice-govema-
dor Hildegardo Nunes significara, para Almir
Gabriel, desligar-se da principal dispute. Ele
poderia deixar o govemo e candidatar-se ao se-
nado. Mas, para garantir a condiqao de franco
favorite a uma das duas vagas, enfrentando Ana
Julia Carepa ou Ademir Andrade, vai precisar
contar com o decidido apoio do seu substitute
na chefia do executive paraense. Rei morto cos-
tuma ser rei posto. E o lugar de vice nao 6 um
cargo, mas um formigueiro.
Certamente o filho do ex-govemador Ala-
cid Nunes oferecera a Almir todas as garantias
que ele Ihe cobrar para passar-lhe o bastdo, e
provavelmente cumprira o acerto. Nao sera
mais, entretanto, o candidate do governador.
Havera compromissos entire eles, mas ja estao
suficientemente distanciados e desgastados para
que um nao se sinta o continuador do outro, se
eleito. Par se sentir outra coisa 6 s6 uma ques-
tao de oportunidade.
Essa sucessAo nao linear afetara nao apenas a
carreira de Almir Gabriel como senador (e, de-
pois, de possivel candidate a prefeito de Belem
ou a govemador do Estado), como podeir ser um
golpe mortal num germinante almirismo. Hilde-
gardo, que ainda 6 apenas um politico bi6nico,
sem eleitorado pr6prio, se afirmaria como uma
nova lideranqa e poderia comeear a tentar former
um novo grupo politico no Estado.
Uma outra surpresa pode estar em formaqgo
para o ex-senador Jader Barbalho no curso da
conturbada campanha eleitoral que o aguarda. Se
nao contar com uma boa estrutura de suporte, sua
palavra pode nao ter uma difusdo no vasto e de-
mograficamente pulverizado interior paraense a
altura da ofensiva que seus adversarios fario con-
tra a sua imagem, batendo insistentemente nas
questoes de malversaq o de dinheiro ptblico e
enriquecimento ilicito que o t6m acompanhado.
Ainda que osjaderistas empedemidos nao mu-
dem mais sua escolha, a significativa faixa de vo-
tos flutuantes seri decisive pam uma nova-e desta
vez decisive derrota do ex-govemador.
O flanco do ex-ministro, que e largo e ex-
posto, continue a se ampliar. Na festa de desa-
gravo que seus correligionarios realizaram, no
sabado passado, Jader dividiu o palanque com o
ex-govemador Helio Gueiros. As relaqbes entire


os dois seguiram a trajet6ria de um b6lido malu-
co, ora unha-e-came ora inimigos mortais. Na
eleiqgo de 1990, Gueiros carregou em todas as
tintas, mesmo as mais sensacionalistas e agres-
sivas, para acusar seu ex-aliado de ladrio, ten-
tando eleger o ex-prefeito Sahid Xerfan seu su-
cessor. Uma d6cada depois, discursa em defesa
daquele que foi o alvo dos seus ferozes ataques
moralistas. O eleitor estara disposto a esquecer
o passado ou concluira que um merece o outro,
mas nao o voto de quem quer mudar o Para na
busca de caminhos melhores para o Estado?
O eleitor existe, mas ele esta ao alcance do
candidate? E existe mesmo esse candidate al-
ternativo, uma zebra que pode se aproveitar das
hip6teses viciadas colocadas a disposiqgo do
eleitorado paraense?
A primeira dificuldade result das condic6es
fisicas, demograficas, sociais e ecoiiomicas do
Estado. Em um col6gio eleitoral mais restrito e
melhor qualificado, como o da capital, um candi-
dato correndo por fora p6de chegar em primeiro
lugar, como ocorreu com Edmilson Rodrigues,
pelo PT, em 1996. Mas num Estado pobre e mal-
servido de infraestrutura, com 6 milhoes de habi-
tantes dispersos por um territ6rio de 1,2 milhao
de quil6metros quadrados, concentrando-se na ca-
pital apenas pouco mais de 20% desse contingen-
te, dispor de avido e outros meios de transport,
estrutura receptive em cada um dos 143 munici-
pios e produtos de divulgacio, 6 uma diferenqa
que conta muito, quase decisivamente.
0 PT 6 o unico dos partidos de esquerda,
de oposiq o ou nio absorvido pela alianqa si-
tuacionista que disp6e do minimo dessas con-
dicqes para seguir em paralelo com a maquina
official e o esquema de Jader Barbalho. Mas o
PT nio tem um candidate de peso para levar


Desigualdade
Em 1999 a Amaz6nia possuia 5% do PIB
(Produto Interno Bruto) national. A regiao
mais pr6xima, o Centro-Oeste, tinha uma fatia
de 7%. O Nordeste, 13%. O Sul, 16%. E o
Sudeste, a bagatela de 59%.
Em 2000 o BNDES destinou i Amaz6nia
4% das verbas do program criado para redu-
zir as desigualdades regionais no Brasil. O
Centro-Oeste ficou corn 9%, o Nordeste corn
12%, o Sul com 18% e o Sudeste cor 57%.
No ano passado o Norte perdeu mais um
naco dos recursos: sua raqio baixou para 3%.
Ao Centro-Oeste foram reservados 7%, ao
Nordeste 13%, ao Sul 19% e ao Sudeste 58%.
Assim, a Amaz6nia recebeu, em 2001,
25% menos recursos que o banco Ihe finan-
ciara em 2000, 40% abaixo da sua participa-
qSo no PIB. Ou seja: se defender do BNDES,
a desigualdade crescera ao inves de diminuir,
ao menos da perspective amaz6nica. Talvez
porque, na sofisticada sede do BNDES, no
Rio de Janciro, Amaz6nia nao rime corn de-,
senvolvimento, ou civilizaqao.


ao interior, de onde virio mais de dois tercos
dos votos, mais da metade dos quais de nucle-
os atrasados, pouco alcangados pelos meios
modernos de comunicagio.
A autofagia petista, privilegiando os interes-
ses das facq6es sobre os do partido, se encarre-
gou de, mais uma vez, afasta-lo do centro da dis-
puta. Ainda que os dois principals candidates ofe-
regam seus costados para a critical vergastadora, a
ret6rica oposicionista nito sera o bastante para
transformar a simpatia pelo PT em votos sufici-
entes para de seus quadros surgir o novo gover-
nador do Para.
Se, reconhecendo essa situaq~o, o PT deci-
dir, ao inv6s de lancar um candidate pr6prio
para fazer figuragco, colocar sua forga a servi-
go de uma coligacgo que nao lidere, a unica
opqio possivel e trabalhar pela candidatura do
senador Ademir Andrade, do PSB. Mas nto
seria uma nova figuracio, que poderia at6 ser
incorporada ate as ultimas conseqtiancias pela
dire9~o partidaria, mas nio pela militincia pe-
tista? Seria possivel montar dois palanques lo-
cais distintos, para Lula e Garotinho? Haveria
confianqa mutua para a montagem de um pro-
grama comum e a formag~o de um governor ver-
dadeiramente de alianga, depois da vit6ria?
Para isso, ao inv6s de continuar a procura de
um nome qualquer para substituir aqueles pou-
cos politicos petistas que tem um perfil de can-
didatos, mas nao querem ser tandidatos, o PT
teria que adotar uma definigio clara e a tempo
de dar ao seu candidate, em alianca com outros
partidos, uma expressao estadual que, por en-
quanto, nao possui. Sem o que o Para vera, mais
uma vez, a dispute eleitoral ser travada entire os
mesmos caciques, mudando apenas a posigao
das peas nesse tabuleiro viciado.


Os outros
Os investigadores, na policia, no Minist&rio Pfibli-
co e najustiqa, avanqaram bastante na identificaqao de
quadrilhas e aproveitadores individuals que desviaram,
dentro da pr6pria irea beneficiada, recursos dos incen-
tivos fiscais administrados pela Sudam. S6 nao chega-
rio aosfinalnentes, identificados os autores dos cri-
mes e recuperando o dinheiro ilicitamente apropriado,
se houver acidentes e desvios de percurso.
Tudo bem. Mas e os escrit6rios de corretagem de
incentives estabelecidos no sul do pais, principalmen-
te em SAo Paulo? E as empresas que simularam partici-
paqao societiria em projetos incentivados pela Sudam,
assinando contratos de gaveta, recebendo de volta boa
parte da divida para com o imposto de renda que devi-
am aplicar na Amaz6nia? Estes personagens nio fa-
zem parte da mesma fraude?
De 30 a 40% do dinheiro teoricamente aplicado na
regilo ficou no ponto de origem, tao irregularmente
como foi a sangria dos projetos fantasmas, cor suas
contas superfaturadas ou enxertadas de documents
falsos? Essa outra parte da maqc podre estdi fora da apu-
raq~o da safra de malversacio?
Cor a palavra, quem pode responder.


L----n







JOURNAL PESSOAL I1 QUINZENA DE MARCO/2002 3





Intolerancia na selva


Sc as forcas federais nao tivcssem intervindo,
a luta contra a discriminac5o racial nos Estados
Unidos teria sido mais morosa e apresentaria rc-
sultados muito mais modestos do que os exibidos
entire as d6cadas de 50 c 60, quando os choques
foram mais violentos, freqientemente sangrentos.
Para cumprir as decis6es de Washington, que ex-
pressavam a media da opiniao p6blica national, re-
presentantes do poder central foram mandados ao
sul atrasado para quebrar as ferozcs resistencias ao
reconhecimento dos dircitos civis (e humans mes-
mo) dos negros. Era uma luta de elites, umas sen-
siveis aos apelos por mais equanimidade entire os
diferentes ou opostos, c, outras, numa intolerant
defesa do status quo segregacionista. Nem por isso
deixou de scr um choque podcroso.
Da para pensar nessa refer6ncia, ainda que a
ajustando a um cenario corn menor antagonismo (ao
menos por enquanto), diante do crescimento das di-
ferenqas entire o poder federal c o poder local na
Amaz6nia, o primeiro identificado corn propostas
e praticas consideradas lesivas pelo segundo, le-
vando a uma rcjeicAo antes de haver a possibilida-
de de identificaqio mnitua.
Um caso exemplar desse conflito e a tentative
de criaqao, pelo governor federal, do que seria a mai-
or reserve extrativista da Amaz6nia, coin 2,3 mi-
lh6es de hectares, no ParL. O projeto foi concebido
em Brasilia e apresentado diretamente aos clients
potenciais da reserve, natives de uma area ainda
densamente coberta por floresta, mas sobre a qual
avanca urna feroz frente madeireira. Essa frente esta
consumindo as ultimas grandes concentrac6es de
mogno, a mais valiosa das espCcies florestais da
regiao, entire os vales do Xingu c do Tapaj6s, no
oeste do Estado. A espCcie, segundo uma corrente
de pesquisadores estd ameacada de extincdo pela
exploracqo intensive.
A t6tica adotada pelos tecnocratas federais pa-
recia certa: cles aglutinavam apoios entire os que iri-
am sc beneficiary da media para so abrir o debate e
enfrentar resistEncias numa posiqlo de forca, corn
legitimaFio. Mas essa titica tambem embutia um
risco, o do pr6prio sigilo. Ao se antecipar aos idea-
lizadores na divulgaqfo do piano, seus adversirios a
apresentaram como uma conspiracao contra os inte-
resses da regifo, uma manobra de estrangeiros e maus
brasilciros para congelar a atividade produtiva c
transformar a Amaz6nia num museum a service dos
alienigenas, o que ji estaria explicit no pr6prio ti-
tulo da reserve ("Verde para sempre"). A campanha
foi reforcada corn a incorporaqio do governador Al-
mir Gabriel, um correligionario do president Fer-
nando Ienrique Cardoso.
Era a senha que parecia star faltando para en-
grossar a oposic;o ao projeto dos ministerios do nmeio
ambient e da reform agraria. Na ultima sexta-fei-
ra, as duras palavras de critics i iniciativa cederam
lugar a atos concretes: os prefeitos de trEs dos cinco
municipios que tcrao de ceder terras para a reserve
recrutaram 800 pessoas c invadiram a terceira das
audiencias piblicas de consult i populatao. Ndo
foram para debater o projeto. O que queriam era in-
viabilizar o encontro e mandar um recado categ6ri-
co: nao aceitaram a criaco de mais uma unidade de
conscrvacao federal na regiao.


Umra tropa da Policia Militar foi convocada as
pressas para proteger os organizadores da audiencia
e permitir que eles pudessem sair do local do encon-
tro, no municipio de Santa Maria do Para. Os repre-
sentantes dos 6rgAos publicos prometeram pedir a
instauraqfo de inquerito policial contra os tries pre-
fcitos, acusando-os de incitaqgo A populacro e de
estimular as agress6cs fisicas aos participants do
event, alCm de ameacar de more tres deputados do
PT c depredar bens pliblicos.
A transformacqo foi sintomatica. Antes dos po-
liticos levarem o assunto ao conhecimento ptbli-
co, apresentando-o corn as tonalidades fortes de
uma conspiracao de lesa-Estado, as audiencias ti-
nham sido realizadas sem qualquer incident, em-
bora em meio a polemicas. Logo em seguida as de-
clara~6es dos politicos e do governador, a terceira
audiencia empacou num quebra-quebra organiza-
do pelos tres prefeitos, que conseguiram mobilizar
muita gente coin a agressiva rctorica anti-reserva.
Como sera a quarta audiencia? Havera uma quarta
audiencia? A criaqao da reserve extrativista conti-
nuara cm andamento?
Certamente s6 se os executores do projeto con-
tarcm corn uma reforcada cobertura da Policia Fe-
deral e corn una massive campanha de convcnci-
mento sobre o acerto da media. E se os te6ricos
da providencia, baixando de scus distantes e prote-
gidos gabinetes no Distrito Federal, aceitarem tra-
var a batalha de opinido public in situ. Num siste-
ma aberto, mesmo id6ias positivas e benfazejas s6
dio certo, ou so "vingam", se sao adotadas sob con-
vencimento geral, nao se chegam para cumprimen-
to compuls6rio.
Isso ocorria na epoca dos "projetos de impact"
dos governor do regime military: urdidos nos labora-
t6rios da tecnocracia, baixavam no cenirio como pro-
dutos prontos e acabados, eliminando resistincias
atrav6s do fato consumado. As vezes a iniciativa ti-
nha o efeito purgativo dos remedios: ainda que fos-
sem adotadas para o bern, era natural a reaqfo do
paciente. Remrdio born tern gosto ruim, 6 o que os
autocratas pensam e dizem para que os demais pen-
scm da mesima maneira. E aceitcm a mcdicacao.
Na epoca em que militarcs e tecnicos, de mnAos
dadas, faziam scus raids de reform autoritIria e mo-
dernizacio impositiva sobre a Amaz6nia, instalan-
do enclaves exportadores no meio da floresta, a elite
local se voltava romanticamente para o passado.
Bons eram considerados os tempos do extrativismo,
nos quais seringalistas e donos de castanhais manti-
nham a floresta intacta para autenticos servos da gle-
ba coletarem os frutos das Arvores ou extrairem-nos
do scu lenho, na forma de amendoas de castanha ou
litex, produtos que cram embarcados para distantes
mercados, juntamente corn os filhos das families
abastadas, em busca de instrucqo superior. Era para
li que tambem ia parte dos seus rendimentos. Ah,
esse extrativismo, como era ecol6gico (omitia-se, c
claro, seus anacronismos sociais e economicss.
Produtos tradicionais como esses sairam da li-
nha de frente da pauta de exportagio ou mesmo das
estatisticas de producao. Seringalistas e donos de cas-
tanhais nao se importaram em passar em frente suas
terras tio logo novos pioneiros se apresentaram para
adquiri-las e transforlm-las em camnpos de pastagem.


Levaram consigo sua consciencia ecol6gica (criada
remissivamente), que se tornou decorative, scm se
prcocupar corn o quc ficaria no fiont, quase scmpre
um selvagem preconceito antiflorestal, ou um total
desprezo a integridade da paisagem original.
As elites que se reciclaram aderiram ao novo
"modelo" de ocupaq5o da terra, ora como parceiros
sccund6rios dos atores principals ora como porta-
vozes dessa nova ordem (principalmente politicos e
advogados). Guiada pela logica do lucro ripido, ela
6 ferozmente imediatista. Em seus parimetros, criar
gado 6 sempre melhor porque isso os pioneiros sa-
bem fazer. Transformar frvores em madeira s6lida,
tamb6m. Ainda mais quando apenas umas poucas
esp6cies temr accitaqco certa no mercado e podem
chegar a preqos tao bons que, no caso do mogno,
nao c exagcro chanma-la de ouro verde.
Este c o status quo consolidado pela coloniza-
gdo em curso. Ela rcsulta da conjuga;io de intcres-
ses de pioneiros corn nativos, infiltrando-se pelas
estruturas do poder local. Os personagens t6ln pres-
sa, estao atras de resultados imediatos, sejam cles
politicos carentes de votos ou empresarios aventu-
reiros. As reprcsentac6es da sociedade local estao
ocupadas por esse tipo de gentc, para a qual a atual
estrutura de producqo e comercializaqio de produ-
tos amaz6nicos deve ser mantida para que scus be-
neficios continue a fluir.
O governor federal represent um caleidosc6pio
de interesscs mais matizados. Ha dentro dele in-
crustaqbes desse modo conventional de encarar a
Amaz6nia e segments apostando na inovacio, que,
em algumas situaq6es, significa recriar o passado.
Entre estas 6ltimas tendencias estio aqueles que
acreditam na sobrevida do extrativismo, nao cor
os barges da terra a frente, mas abrindo alas para
aqueles que a eles estavam submetidos, numa rela-
clo que levou alguns intelectuais do passado a en-
contrar resquicios medievais na estrutura de pro-
ducao da Amaz6nia (e nao s6 nela, alias). Eles
acham que um extrativismo de novo tipo podcr dar
certo se conciliar tecnologia e conhecimentos mo-
dernos corn o ignorado ou desprezado habitante na-
tivo, sob a tutela do Estado, ao menos durante a
fase inicial, de amadurecimento.
Teses e teorias nfo faltam na (c sobre a) Ama-
z6nia. Algumas slo logo postas sob suspeicio, no
mercado das praticas correntes, por suposta ori-
gem international, servir de instrument a inte-
resses geopoliticos estrangeiros, defender o con-
gelamento da produtlo da regiao, reduzirem-na a
um muscu para turista alienigcna ver, favorecer a
pirataria, etc. Excetos pelas situaq6es de compro-
vada dimensao criminal e definitive lesividade ao
interesse national, essa pluralidade e um patrimo-
nio valioso para uma regiao que sofre gravcmente
a carencia de conhecimcnto.
Pior do que ideia equivocada e reprimi-la atra-
ves da violencia, sufocando, antes de poder mani-
festar-se, qualquer proposta heterodoxa, alternative
ou incomoda. A intolerancia c erva daninha na mai-
or fronteira de recursos naturals do planet. Mas, pelo
jcito, ela estA commando a medrar comno epidemic,
apoiada por quern quer continuar a agir como se fosse
o xcrife da selva, um fantasma-que-anda scm roman-
tismo, mas poderoso.







4 JOURNAL PESSOAL I QUINZENA DE MARCO/2002


M


SPVEA
0 poeta Mario Faustino (dos San-
tos) foi nomeado chefe da secgo
da SPVEA (Superintendencia do
Piano de Valoriza go Econ6mica
da Amaz6nia) em fevereiro de
1954, corn salario de 7 mil cru-
zeiros. Na mesma data, outro po-
eta, Cauby Cruz, foi designado
assistente juridico, corn direito a
8,4 mil. Ja o advogado Daniel
Coelho de Souza (que viria a ser
reitor da UFPa, entire outros car-
gos), era designado consultor ju-
ridico, com salario de Ce$ 10 mil.
Maria Lidia Mendonqa, irma do
tambem advogado Otavio Men-
don9a (e future esposa do coro-
nel Gustavo Moraes Rego Reis),
era admitida como assistente ad-
ministrativa e salario de Cr$ 3,6
mil, o mesmo de Paulo de Carva-
Iho, que iniciaria ai uma longa
carreira, sobrevivendo a substitui-
gao da SPVEA pela Sudam.


Dinheiro
Em 1954 a prefeitura de Belem
guardava, encaixotadas, cedulas de
libra esterlina inglesa em valor
equivalent a seis milh6es de cru-
zeiros (900 meses de salario de um
chefe de seqco da SPVEA, como
Mario Faustino), que tomara em-
prestado e nao usara. A divida da
PMB em moeda estrangeiraja era
vultosa naquele ano, mas as notas


da moeda da Inglaterra continua-
vam guardadas. O prefeito Celso
Malcher decidiu entao oferecer
esses caixotes de libras ao Minis-
terio da Fazenda por conta da
amortizagAo do debito.


Bolsa
Em 17 de fevereiro de 1954 foi
instalada a Bolsa de Valores do
Para, tendo como sindico o cor-
retor Ruben Martins. Ate entao
Belem estava sob ajurisdicio de
Recife, a bolsa mais proxima.
Corn a instalagao da SPVEA e a
execuqgo do piano de valorizadgo
econ6mica da Amaz6nia, inicia-
da no ano anterior, o Para passou
a sentir a necessidade de um agen-
te regulador do mercado de titu-
los. Toda a estrutura da bolsa foi
criada por Ricardo Borges, asses-
sor econ6mico da Associaaio
Commercial do Para, em cuja sede
a nova instituitAo funcionou.


Salinizagao
Em outubro de 1955 o prefeito de
Belem, Celso Malcher, comunicou
a populagao que "a falta de ener-
gia eletrica que se vem verifican-
do na cidade e em conseqtiUncia
do excess de salinidade na agua
que alimenta na agua que alimen-
ta as caldeiras da usina do Depar-
tamento Municipal de Forqa e Luz,


ouca gene lembra. mas depois
que o lornal O E\iadi, ,h S Paiir. con-
w.eguindo furar a barreira da censure. no-
riciou pela primeira ie uiical 'e a ae\stencia dia
guerrllha do Parudo Comunista do Brjail no .\ra-
Vjuaiad, o go'.erno i[ jinbim n -e referii' ja dsunio,,
ante,- de colocar tum lapide de silencio sobre ele
Em 3 de ouiubru de I '2 o Cnomandu M iliar
da Amnazoni dit ulgou noua oFicial. a-minada pelo
teennte coronel Paulo HFenrque Li boa. chefe da
5' SeqI j. comunll icndo o asu ass-in.ao do 2'- sr-
gento Mario Abrahim da Sil\a. do I Balalhio de
Int'antaria dJ Se'la U\ () lir 1o1 balejdor n od In ne
de 2,' de s~eerlfbro, quando fazia "a fiscalizaj io
de poos de scgurn,'a Inmsjljdo, para o E\erci-
to". como pane das "manobras que o E\ercnto
realiza\a nuquela area. conm parti.'pagloda 12'
Regi o Militar e de ouirjs grande-s unidude-". ()
-argento loi "itraiioeiramienitc" inglido por um ireo
disparado por tin "'iminiig dj paiai"


cujos tubos, por esse motive, vem
sofrendo perfuraqao".
Isso, 30 anos antes da inaugu-
raco da hidreletrica de Tucurui,
quando o tema da salinizaqao se
tornou polemico e popular.


Expressdo
Aloysio da Costa Chaves foi es-
colhido o professor do ano de
1961 pela Sociedade Paraense de
Educaqao, numa solenidade pre-
sidida pelo vice-governador,
Newton Miranda, no exercicio do
cargo de governador pela ausen-
cia do titular, Aurelio do Carmo.
Respondendo a sauda~Ao do ad-
vogado Otavio Miranda, o future
reitor assinalou a importancia da
revoluqco de 1930 na formagao
da mentalidade da sua geratao,
uma geraqio que '"no foi atingi-
da pela espurcicia dos que trans-
formaram as funq6es publicas em
fontes inesgotaveis dos mais es-
p6rios beneficios".
Anos depois,ja quando gover-
nador, o professor Aloysio utili-
zaria expressao do mesmojaez: o
verbo esgaivar. Forgou muita gen-
te boa a correr para o dicionario.


TV
Em outubro de 1961 a TV Mara-
joara apresentou a novela "O
Morro dos Ventos Uivantes",
adaptacao do famoso romance de


A noia dil/a que "uim ierrorista" ha\ la
sido o author do disparo. admmindo que "o error
iombou mais um dedicado ser dor da Patria e
e\emplar chele de i'amili". mas que. longe de
repre-,entar uma ltoria para mnau- braslleiros.
corlnitu[ira majs uma moiital\ o para ququ aqueles
que main a nossa terra lutein eml todos, o: camn-
po-, c'ontra atentidos de tal natureza". Segundo o
coiniucjdo. as ulnmas pala\ ra., dtias pelto sar-
genio logo depots de erido r"Atferrenm-e ao ter-
reno. \arram a area corn troe nmnienham a regu-
ran.a"i ""ho deecoar por today a Amazonia como
liqao de responsabilidade e amnor .o Brasil".
Antes de morrer. Abrahim renar chamado o
sargento Bonilalcloe Ihe passado o commando coin
as derradeiras pala\ras. "A boma-\erde e sua.
companheiro Comande nosseo homes para que
a Pariaa pennaneha Ih reedemnocrautca". OC() (
injndou rezar missa pela memnora do sargento
mono na C(aedral lMeropolitana die lanaus.


Charlotte Bronte, cor Daniel
Carvalho no papel principal, de
Heatclift. A novela fez parte do
TV Romance, indo ao ar as quar-
tas e sextas-feiras, a partir de oito
e meia da noite.


Russo
O cargueiro Sretensk foi o primei-
ro navio russo a aportar em Belem,
no dia 8 de novembro de 1965.
Trouxe 280 toneladas de adubo
quimico, carga desembarcada sob
a discreta vigilancia de agents do
DOPS (Delegacia de Ordem Poli-
tica e Social), que tambem acom-
panharam corn a mesma e not6ria
discricao as saidas dos tripulantes
pela cidade, subversives em poten-
cial por sua origem, conforme a
cartilha daqueles tempos. O navio
ficou apenas 24 horas na baia do
Guajara, o suficiente para provo-
car olhares curiosos.


Paraense
Em 1965 o medico Sergio Martins
Pandolfo obteve "honrosa classifi-
cadao" numa selegao de medicos
feita pela Superintendencia dos Ser-
vigos Medicos do Estado da Gua-
nabara (hoje Rio de Janeiro), em
1965. Formado dois anos antes pela
Faculdade de Medicina do Para, fi-
Iho de Rocco Rafael Pandolfo, con-
sultor tecnico do Banco de Credito
da Amaz6nia, e de Clara Martins
Pandolfo, membro da Comissao de
Planejamento da SPVEA, era mais
um paraense a vencer no sul, co-
memorava a Folha do Norte em sua
antol6gica seg~o.


Jornalistas
Em novembro de 1965 o Clube
dos Jornalistas do Para comemo-
rou seu primeiro aniversario de
funda Ao corn um almooo na sede
social do Para Clube (que era na
avenida Nazare, onde foi levan-
tado o edificio Emestino Souza
Filho), organizado pelos diretores
Odir Macedo e Carlos Rocque.
Para o mss seguinte, os diretores
seriam a colunista Jeanette Blan-
che (pseud6nimo de Elanir Go-
mes de Sousa, que tambem e
Lana) e Joao de Jesus Paes Lou-
reiro, de A Provincia do Para.


C







JOURNAL PESSOAL 1a QUINZENA DE MARCO/2002 5


A Doca
Este era o panorama da hoje
muito valorizada Doca de
Souza Franca, entire Gaspar
Viana e Senador Lemos, no
final de 1965. A paisagem
ainda era a de um igarape
natural, o das Almas (ou das
Armas, na polemica condenada
a nunca acabar). 0 leito do
igarape estava torado de
vegetaaio aquatica e
sedimentado, o que provocava
inundaCdes (e a delicia dos
moleques das
circunvizinhancas). Os 6nibus,
que circulavam intensamente
por esse perimetro, ofereciam
aos seus passageiros duas
paisagens, que se inverteramn
com o tempo: um igarape
maltratado pelos despejos
hunanos, mnas ainda na sua
configuraado original, e uma
criacdo humana ainda viva, a
dasfabricas, em plena atividade,
corn seu circulo de operarios
(cuja presenga o padre holandes
Thiago Way gravitou para o
Circulo Operdrio), atualmente
cemiteriosfabris. Muita
mudanCa em menos de quatro
decadas para tudo mudar pouco.


B I

T aWro Poeira


.OJE E3 Sess-es a partir das


19 horns SENSATIONAL
-.t
ESTREIAS


0 Maior Presente Para Os


Paraenser"


LINDA BATISTA

A main, a.son a a olr, t(r*-a q4o 1* "A51i, nunm teiper it Nmo get .M otnt r.
1indd.,i. Eu. l. i. m q w r m i .mm.wt C- aI gr..v nd. r.pIrrw.i, 9u.t. .. 0 l d.. d,,t1. mn
do IaTIAO PUl*A. tm Mn unAit Com sunk 10 amd t meoed, "o t Ipot $ atf rnSjolwt


Outra Sensacional Esreia Hoje: ROIALI N 0 Mai

Famose Crntorcionista E Equilibrista International

UM ELEfCO GRANDIOSE NUM PROGRAM DUPLO
SMNHA VI.P(AL DAl MOA$ AOi I1EOis FOiUL*Ai S l ; ADULTOI C6 11.5;:

S' "" ''"'" ".Nf-ta ce$ 6,00. n
he" ^^ MI


0 Poeira
Linda Batista, "a
maisfamosa e a mais
cara cantora do
Brasil", se apresentou
no teatro Poeira, em
1955, em tres sessoes
continues a partir das
sete da noite, durante
dois dias. Na sua
companhia,
Simplicio, "o mais
complete humorista
brasileiro e de
Roialino, "o mais
famoso contorcionista
e equilibrista
international".
Haveria urn "vesperal
das moas ",
naturalmente. Na
epoca, Linda ainda
faziajus ao nome.
Arrastava multid6es,
mesmo quando a
coreografia cenica
atrapalhava sua voz.
Em outubro de 1956 o
Teatro Poeira reabriu,
masja com o nome de
Cinema Nazare,
depois de amplas
reforms, que o
tiraram da sua
primitiva (inas
divertida) condiCdo,
de sitio de
molecagens e
aventuras, antes,


I -
...1-^-. _' ..a, ,.. ,"* !

S .-., *-
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., -- -*, ^*,


durante e depois da exibicdo
dosfilmes. Passou a contar corn
umra ampla entrada e sala de
espera, salio de projegdo corn
piso encerrado em tacos de
madeiras regionais, corn 1.500
poltronas. A tela tinha 13
Smetros de largura. A grande
novidade e que passava a
contar coin instalaVoes de
Cinemascope, soin magnetic,
equipamento importado dos
Estados Unidos. Belem passava
a ser a terceira capital do Norte
,a receber essa melhoria.
No festival de reinauguracio
foram exibidos 0 manto
Sagrado, Demetrio o Gladiador
A Fonte dos Desejos, Carmen
Jones, Suplicio de uma
Saudade, As Aventuras de Hajji
S Babd e 0 Principe Valente.


R


P







6 JOURNAL PESSOAL 1l QUINZENA DE MARCO/2002


0 escritor de


primeira linha no


seu lugar de direito


(ou: os iguais se proximam)


S rcio Souza colocou o ponto final
Sno seu 6ltimo livro, Desordem (se-
-J gundo volume da programada te-
tralogia sobre o Grao-Para), no Delmonico
Hotel, em New York (conforme escreveu), no
dia 26 de margo de 2000. Quase dois anos de-
pois estava em Moscou. Foi la que soube da
repercussdo negative da entrevista que conce-
deu a antrop6loga Priscilla Faulhaber, incluida
no livro Conhecimento e Fronteira: Histdria
da Cidncia na Amaz6nia, organizado pelo Mu-
seu Emilio Goeldi para comemorar os 50 anos
do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvi-
mento Cientifico e Tecnol6gico).
Corn a referencia ao bom hotel novaior-
quino e a capital moscovita, Marcio estava
tentando dizer que e um intellectual cosmopo-
lita, um cidadao do mundo, e nao mais o re-
presentante de uma cultural regional, circuns-
crito ao universe provinciano. Como viaja
muito around os quatro continents, o presi-
dente da Funarte, 4rgdo do Ministerio da Cul-
tura para as artes em geral, com sede no Rio
de Janeiro, nao p6de se prevenir contra o tiro-
teio que se seguiu ao aparecimento em letra
de suas (muitas) infelizes declarac6es na en-
trevista. Entre as quais, a de que atualmente o
Para "nro ter literature, o Para nao tem mtsi-
ca, o Para nao ter nada. O Par6 nao tern tea-
tro, nao ter dramaturgia. Ter artes plasticas,
ter fotografia, ter algumas coisas, mas foi
perdendo a sua identidade".
Pela finada Agenda Amaz6nica, fui o
primeiro a reagir as palavras de Marcio Sou-
za, depois de esperar por dias que alguem
falasse antes, ciente que estou do desagra-
do dele is minhas critics aos seus tiltimos
cometimentos literarios (movido que esta-
ria por inveja, despeito ou frustra'cio, apud
MS). Nao o fiz para defender o Para das
agressoes de um amazonense, que, contra-
riando o seu passado, fazia renascer um bair-
rismo provinciano, tolo e imitil na dispute
entire Para e Amazonas.
Fiquei chocado ao ver esse prop6sito nas
palavras de quem era um dos mais brilhantes
intelectuais da Amaz6nia. Ficava evidence a
intencgo do president da Funarte de destacar
o Amazonas, e especificamente Manaus, no
embalo da depreciac.o do Para e de Bel6m.
Essa, porem, era a face da entrevista a que


menos se devia dar atenq~o. Mis graves eram
os erros de informaqao e as interpretaq6es
equivocadas de Marcio na entrevista.
A reaqfo, da qual teve ci6ncia em Mos-
cou, como fez questdo de frisar, obrigaram-
no a procurar um journal que decretou como
sendo de primeira classes, O Liberal. igno-
rando soberbamente o que havia said "num
journal de segunda linha [o Didrio do Para]
corn uma s6rie de depoimentos de gente de
segunda linha". Era uma tentative de desau-
torizar no nascedouro, por 6dito emanado do
trono carioca do burocrata das artes nacio-
nais, a celeuma localizada, antes que ela se
irradiasse, podendo ecoar por ambientes ca-
pazes de desencadear presses sobre o cargo
tao zelosamente mantido pelo escritor ama-
zonense. Que, sagazmente, tratou de incen-
sar um intellectual organico de O Liberal, o
fecundo ficcionista (ao menos quantitativa-
mente falando) Salomao Laredo, equiparan-
do-o a Haroldo Maranhao como exemplares
de uma excelencia literaria paraense que
Marcio se permit reconhecer.
Abusando da descortesia e do tom fo-
Ihetinesco, desviado de seu sitio apropria-
do, na literature, Marcio Souza tentou eli-
minar de pronto o affaire em forma~go. Atri-
buiu a culpa a sua entrevistadora, que nao
Ihe teria submetido o texto da entrevista para
aprovacgo e que cometera certa leviandade
ao passar a letra de forma uma conversa gra-
vada, imprecisa por definico, ainda mais
porque o entrevistado se disp6s a falar "en-
tre duas reunites dificeis dentro da institui-
cgo" (atencgo, povareu: o doutor Marcio e
muito ocupado, as usual).
A direcqo do Museu Goeldi expli-
cou, em nota official, que, ao contra-
rio da versAo do criador do Boto
Tucuxi modern e urban, o texto
da entrevista Ihe foi mandado por
e-mail para que o revisasse, cor o
pedido de autorizaqao para publica-
Fgo, autorizacqo essa concedida, em
contato telef6nico, por sua secreta-
ria, que disse estar falando
em nome do chefe. V' 4 I
Digamos que esse nao
e um padrdo de edigio ;.T. '
compativel cor a impor-" ,
.,*- :'4 ^' '; ,


tancia que devia ter um livro (de 800 paginas)
publicado para assinalar o cinqientenario de
uma instituiqao como o CNPq. Houve certa
neglig6ncia, ou, talvez, ingenuidade da parte
da editor da publicaqio, que foi tambem a
entrevistadora do escritor. Mas esse 6 um pe-
cado francamente venial. No maximo, Prisci-
la Faulhaber impediu que Marcio, em instan-
cia final, expurgasse de sua manifestaqao li-
malha impertinente, ociosa ou incongruente.
A pesquisadora, porem, nfo introduziu no tex-
to o que noo tivesse sido dito pelo entrevista-
do, o que, ai, sim, seria pecado mortal.
O president da Funarte ameaqou, na en-
trevista a 0 Liberal, interpelarjudicialmente
o Inpa [no que cometeria urn erro, derivado a
outrance do seu iracundo bairrismo, ja que o
6rgdo responsdvel pelo livro e o "Goeldi"]
para que o institute, sediado em Manaus,
"apresente a comprovaqdo de que a publica-
qao do texto foi autorizada", esperando, cor
essa iniciativa, levar a que "o livro seja retira-
do do mercado e o capitulo excluido".
Se a vontade de primeira linha de Marcio
fosse cumprida, nao seria de todo ruim. Os
editors do livro (Priscila e Peter Mann de
Toledo) ja recolheram uma vez a publicaqco
para expurgar erros de impressed e revisao.
A exclusro da entrevista de Marcio faria at6
um bem ao conjunto de depoimentos reuni-
dos no livro. O que o president da Funarte
disse e um amontoado de incorre6oes, inver-
dades, desprop6sitos e prirarismos, total-
mente deslocado do espirito da obra (no que,
alias, Marcio concorda, admitindo que suas
baboseiras sobre cultural paraense ficaram








JOURNAL PESSOAL 1I QUINZENA DE MARQO/2002 7


deslocadas "numa publicacao sobre a hist6-
ria de ura instituicio cientifica").
A entrevista foi publicada sem a revisao fi-
nal do autor, mas, como afinna o pr6prio Mar-
cio, "O problema nio e o que eu falei, mas o
que saiu". Ou seja: ele realmente disse o que
aparece no livro como sendo sua manifesta~ao.
O problema e que essas declaraq6es nao deve-
riam ter sido publicadas. Em O Liberal (jomal
de primeira linha ouvindo escritor de primeira
linha), porem, Marcio express opini6es e da
informac es em contradigao corn o que esta no
livro. Do teatro paraense, que era nada na en-
trevista, surge pelo menos cinco espetaculos
"de altissima categoria", submetidos ao proje-
to "Em Cena Brasil", da Funarte. Quanto a
musica, o Para "tern se destacado na execucAo
de musica classica, com belas orquestras" (es-
tamos todos aguardando o roteiro do dirigente
da Funarte para usufruir essas maravilhas).
Estamos diante de um caso classico de es-
quizofrenia ou e mesmo evidencia de ma-fe?
O Marcio de O Liberal sabe o que faz o Mar-
cio do livro do "Goeldi", que, por sua vez,
tem alguma remota ideia do que foi o Marcio
de Manaus, aquela inteligencia viva e criati-
va, o intellectual que absorveu e reescreveu a
hist6ria da sua terra, que deu a forma critical
de farsa ao enredo da elite da borracha e aos
delirios da Zona Franca, o amigo de boas e
longas conversas corn outros amigos de urma
bela geracgo, como o alegre poeta Aldisio Fil-
gueiras, que montou sua trincheira no Jornal
do Amazonas, de hist6ria gloriosa?
Esse Marcio Souza dandi em journal parve-
nu e tao carreirista que, criticado por genuinos
intelectuais, escritores poderosos, como Vicente
Cecim, da nossa mesma geragao, orgulho de
todos n6s, s6 se preocupa em mandar recado a
um governador, como o doutor Almir Gabriel,
que entire suas muitas qualidades nao esta a de
poder se apresentar como um leitor de infijlios
nem exatamente como um militant cultural
(mas que carrega consigo a caneta de assinar
convenios e pode fazer chegar sua voz ao Pala-
cio do Planalto ou ao gabinete do inchado mi-
nistro Weffort): "O proprio governador me co-
nhece, conhece meus livros, sabe que eu nao
diria isso", proclama, como a se imunizar con-
tra eventuais bicadas tucanas ao seu honoravel
cargo burocratico, escaldado por incidents
nada edificantes em qtiiproqu6s passados, como
o que arrastou Ferreira Gullar, um grande poe-
ta, autor de pelo menos um livro inesquecivel
(Poema Sujo, onde estao alguns dos mais be-
los versos que uma cidadeja mereceu na litera-
tura universal), mas sujeito a epidemias de bair-
rismo, vaidade e mesquinharia.
Pairando acima de intelectualidades paroqui-
ais, mas ja tendo levitado tanto que passou a
pairar sobre as letras em geral, exceto as dos atos
burocraticos e sua fauna acompanhante, Marcio
Souza 6 todo atengao c desvelo para corn seus
pares na dircrio da cultural official, como Paulo
Chaves Fernandes, no Estado, e Marcio Meira,


no municipio. E esse o pliblico que interessa ao
Marcio Souza dandi, um important intellectual
da Amaz6nia que a hidra do cosmopolitismo
engoliu, sem a menor garantia de que venha a
ser tratado como o Jonas da Biblia. O Marcio
que sumiu no venture do ilusionismo intemacio-
nal, esse nao volta mais. Pode-se acender a vela


Historia

A presenca humana na Amaz6nia tem oito
mil ou nove mil anos. A europeia, cinco secu-
los. A ocupaqao colonial definitive ainda nao
completou 400 anos. Qualquer ponto de par-
tida que se tome, porem, o percurso ate o ponto
de chegadaja e um tanto long e bastante com-
plexo. Ha especificidade na hist6ria amaz6-
nica, nao s6 por sua geografia original, mas
pela organizagao que a ela deu o ocupante co-
lonial, o de presenca mais important (quan-
do nada, por ser o vencedor).
O Brasil, porem, acha que nossa hist6ria e
um residue da hist6ria national; e que o que
nos resta e nos enquadrarmos aos ditames do
bwana, seja o de lingua estrangeira ou o nosso
conterraneo. A tarefa de escrever uma hist6ria
regional aut6noma nos compete e s6 a n6s,
ou aos que aderirem a essa perspective de au-
tonomia, de identidade pr6pria. Desde que nao
nos deixemos seduzir pela bitola do provincia-
nismo, nao confundamos autonomia cor iso-
lamento e nem aceitemos propostas ou suges-
t6es apenas por terem sido feitas por gente da
terra, sem submete-las ao teste da verdade.
Com Marxismo, Socialisino e os Militan-
tes Excluidos (Editora Paka-Tatu, 171 paginas),
Vicente Salles oferece rico material para a his-
t6ria regional. Nao a que as elites e seus histo-
ri6grafos esculpiram em pedra, mas a criatura
em sangue, came e osso ainda em busca de mo-
delagem, carente do arcabouco te6rico que Ihe
de fonna, quejunte suas parties num todo dota-
do de significaqio. Cor sua incansavel pes-
quisa em fontes primarias ou em fontes secun-
darias maltratadas, Vicente esta impedindo o
des'carte de temas inc6modos ou indesejaveis
no bric-a-brac da historiografia dos notaveis.
Os trabalhos reunidos nesse livro, que ti-
veram a primeira forma nas paginas dejornal
ou nas her6icas microediq6es do autor, pro-
poem uma agenda real, de series determina-
dos, nao de her6is que nao resisted a pergun-
tas que nao constam do catecismo official. Ele
pr6prio ainda nao tern as respostas. Mas nao
apenas ajudou a enriquecer o questionario,
como abre algumas perspectives mais positi-
vas de reconstituicao dos fatos e de decifra-
cao de alguns enigmas. Um livro precioso pelo
que trata c pela forma simples e clara com que
trata. Um present para todos n6s dos 70 anos
desse bravo caboclo de Igarape-Agu.


e entoar o canto funebre. De preferencia, em ale-
mao, frances ou ingles. Ainda que apenas para
repetir sons, sem necessidade de saber o signifi-
cado das belas palavras entoadas. O significado
nao e o que significa, mas o que gente como
Marcio quer fazer significar em suas significan-
cias chapas brancas.


Reparo

Ronaldo Brasiliense publicou na sua co-
luna, no ultimo numero do journal O Para-
ense: "O Jornal Pessoal, dojornalista Ll-
cio Flavio Pinto, esta nas bancas corn uma
edirao extra sobre 'A prisao do Barbalho'.
Diz Lucio na materia que Jader 'parece con-
denado a ser novamente candidate ao go-
verno do Para'. Governar o Para, para L6-
cio, agora virou castigo. Eu, hein!".
O titulo correto da materia de capa e "Pri-
sao do Barbalho". Ronaldo acrescentou-lhe
o artigo inicial. E aduziu um significado ine-
xistente. No seu context, a frase explica que
Jader esta condenado a ser novamente candi-
dato a govemador porque a outra alternative,
da sua preferencia, a de senador, dificilmente
se viabilizara. Jader preferiria o mandate par-
lamentar, que remeteria seus processes para
o Supremo Tribunal Federal. Corn a outra van-
tagem do cargo, a imunidade parlamentar, ele
s6 poderia ser processado depois que o Sena-
do concedesse justiga licenqa para tal.
Em tese, ele podia arriscar concorrer a
uma das duas vagas senatoriais em dispute
neste ano. Na pratica, porem, estaria com-
prando brigas desgastantes, a partir do pri-
meiro moment em que assumisse o man-
dato, sujeitando-se a um destiny ingl6rio
como o do ano passado. Para a opiniao p6-
blica national, ele e a expressao do mal-
versador de recursos publicos.
Por isso, esta condenado a ser novamen-
te governador. Nao que o Para represent um
castigo para quem seja eleito governador (o
contrario, porem, e possivel). Foi o que acon-
teceu em 1994, quando Jarbas Passarinho
nao queria ser o candidate de Jader ao go-
vemo, mas teve que se submeter ao patrono
por nao Ihe poder apresentar uma negative.
A expressao se inspira nao no model
criminal, mas no padrao literario, como qual-
quer pessoa com alguma intimidade corn o
tema percebera sem dificuldade. Interpretar
o contririo e sinal de desqualificaqao, ma
vontade ou ma fe. Depois de ter dedicado
grande parte da minha vida a viver, estudar,
divulgar e procurar defender o Para, aqui
mantendo meu domicilio permanent, se eu
pensasse o que Ronaldo Brasiliense apregoa
que penso, seria um insano. Sou?
Corn a palavra, o leitor.











Pobreza
Em 1991 a regiao amazonica
tinha o maior percentual de do-
micilios sem qualquer tipo de ren-
dimento, corn 6,26% do total. O
Nordeste vinha em segundo lugar,
corn 4,35%. Em 2000, dobou a
quantidade de domicilios sem ren-
dimento na Amaz6nia: eles pas-
saram a representar 12,87% do
universe regional. A situacao pi-
orou proporcionalmente mais no
Nordeste, cujo indice saltou para
11,84%, mas sem tirar a infeliz
lideranqa do Norte.
As duas regi6es tiveram as
piores varia6oes nessa decada,
permanecendo acima do indice
national, em condigqes mais gra-
ves do que as existentes nas tres
outras regi6es do pais. O percen-
tuial de domicilios sem rendimen-
to cm todo o Brasil passou de
3,69% em 1991 para 9,15% em
2000, mostrando que nesse peri-
odo houve deterioracao dos ren-
dimcntos dos trabalhadores, se-
gundo os resultados de uma pes-
quisa realizada pela Secretaria do
Desenvolvimento, Trabalho e
Solidariedade de Sao Paulo, corn
base nos dados do IBGE.
Num quadro national negati-
vo, corn crescimento de 198% dos
domicilios sem qualquer tipo de
rendimento, a gravidade e ainda
maior nas duas regioes cada vez
mais pobres do pais. Gravidade
que nao 6 percebida pela opiniao
pTiblica, no caso amaz6nico, por
causa de seus baixos valores em
tcrmos absolutes.
Isto significa que mesmo corn
o crescimento mais acentuado,
proporcionalmente, dos investi-
mentos ptiblicos na Amaz6nia do
que nas demais regimes, da aber-
tura de frentes econ6micas priva-
das e da participacio mais acen-
tuada da regiao no comercio ex-
terior, continuaram a crescer os
lares sem qualquer tipo de rendi-
mento, completamente a margem
da cxpansiio da atividade produ-
tiva. Dc cada 15 pessoas que mo-
ram na Amaz6nia, uma vive de
favors ou trocas corn terceiros-
parentes, amigos ou vizinhos -
por nao dispor de
Squalquer for- m a
de renda.



(A=


(In)seguranga
0 Para foi o sex-
--- I to Estado mais
Ibern aquinhoa-
1i do corn verbas
j do Fundo Naci-
onal de Segu-
S ranqa Publica
S previstas para
este ano. Abaixo
apenas do Rio
de Janeiro, Pernambuco, Distrito
Federal, Espirito Santo e Santa Ca-
tarina, o Estado devera receber 14
milh6es de reais, que deverio ser
usados para complementary as apli-
cacoes estaduais no setor. Na pres-
tacio de contas dos recursos rece-
bidos no ano passado, o govemo
do Pard usou, indevidamente, di-
nheiro de destinagio especifica em
seguranqa public para comprar
seis antenas parab6licas e quatro
balanqas de pesagem de veiculos.

Bauxita
A receita bruta da Mineracao
Rio do Norte foi, no ano passado,
27% inaior do que a alcancada em
2000, passando de 435 milhOes de
reais para R$ 551 milhoes. Ja o lu-
cro liquid cresceu mais de 40%,
pulando de R$ 171 milh6es para
nada menos do que R$ 241 mi-
lhoes. Significa que a maior em-
presa de minera;.o de bauxita do
Brasil e uima das maiores do mun-
do conseguiu, em 2001, uma ren-
tabilidade excepcional, equivalen-
te a um quarto do seu ativo total.
Num unico ano, a empresa teve de
volta 25 de cada 100 reais que in-
vestiu para montar seu empreen-
dimento, no Para.
Esses resultados foram obtidos
apesar de uma discreta reduqdo na
produqio de bauxita, que foi de
10,7 milh6es de toneladas, reflexo
do "desaquecimento da economic
mundial", segundo o relat6rio da
diretoria da empresa, que acompa-
nhou o balango, divulgado na se-
mana passada. Mas os investimen-
tos para elevar a capacidade da
mina estio continuando, devendo
ser concluidos em dezcmbro deste
ano. Em 2001 chegaram a quase 90
milhoes de d6lares. A MRN deve-
ri alcangar a produFio record de
16 milh6es de toneladas de mine-
rio em 2003, ocupando a lideranga
do ranking mundial.
Embora a empresa realize um
destacado projeto de recuperagio


Andando -
0 gabinete de Romulo Maiorana era
urn lugar demnocratico: ele franqueava o
acesso a esquerdistas e direitistas, jovens
e velhos, boenios e gente de vida regrada, '" ,,
profissionais de todos os stores, politicos de
todas as tendencias. Roinulo sempre se ser: ,
dessa pluralidadepara dar maiorconsistlncia as '%ia 1I/ -
cisdes, antecipando-lhes as conseqiincias.
Seu principal herdeiro nto tern esse born si ,,' c I a,- O'
apenas de iguais, dando ao gabinete originaJu L pI1,, IuI,. ,i ,
inonocdrdio, sua expressio literal. Talvez por isso nuio hja nin-
guen corn ascendencia sobre Romuilo Maiorana Junior para alerta-
lo para o ridicule atroz da p6gina inteira que vein sendo publicada
h6 vwirios dias seguidos em 0 Liberal, coin sua foto, anunciando a
retoinda ado projeto "A ndando pelo Pard ".
Imagine-se utn Mesquita, umn Frias ou umr Marinho permitindo-
se protagonizar urn autentico out-door dentro dos seus jornais, po-
sando para umafoto como sefossem astros de televisao (o antincio
de 0 Liberal, muito sintomaticamente, anuncia: "'Vemi ai, inais urn
campedo de autdiencia').
Nao que ion dono dejornal nao posso liderar uina campanha de
divulgacdo dos inunicipios do seu Estado. E desej(ivel e ineritorio que
o fjaa. Mas ndo para tomar o lenma como pretexto para umra campa-
nha de promocdo pessoal (no caso da "Andando ", patrocinada pela
Companhia Vale do Rio Doce, que cede recursos e o prestigio do seu
nome para uima acdo de Jancaria), transformando o que devia ser o
objetivo da iniciativa em pano dejfindo no proscenio. Os mnunicipios
sdo secundirios. 0 que import e a estampa do principal executive
do grupo Liberal, agora devidamnente "sarado ".
As viagens sao meteoricas, quase em circuit fechado. Umna vez en-
cerrada apassagem da comitiva real, o vinculojornal-nunicipio se vola-
tiliza. 0 mrunicipio e apenas um mole para tirar dinheiro da CVRD. 0
pior e que a posture editorial do grupo de comuinicacdo permanece a
mesa: desinjbrnada, desatenta, negligent para corn os temas locals.
Alkn do aspect commercial, o retorno da campanha significaria
que, desta vez, Romulo Juinior sera candidate a senator? Os que es-
peculam corn essa possibilidade exibeim llma outra evidencia: ate hoje
o nome do vice-presidente das OrganizaCoes Ronulo Maiorana niio
voltou ao expediente dojornal. Seria para ndo incompatibilizi-lo para
a dispute de urn cargo eletivo, embora coin extraordincriia antecipa-
cio. No entanto, essa possibilidade e tco crivel quanto o interesse do
executive pelos temas ligados ao "desenvolvimento, a economnia e a
realidade dos inunicipios paraenses ", como anuncia a peca proinoci-
onal ao "Andando de Rominho pelo Par(.


ecol6gica do Lago Batata, que
durante alguns anos poluiu e as-
soreou, depositando nele os re-
jeitos da lavagem do minerio, os
investimentos em meio ambien-
te no ano passado representaram
menos 1% do faturamento liqui-
do. Ja os recolhimentos de im-
postos, royalties e contribuiq6es
sociais ficaram em 7% da recei-
ta liquid da empresa, que 6 con-
trolada pela Companhia Vale do
Rio Doce, em associaCao corn
sete outras empresas, i frente as
multinacionais Alcan e Billiton
e a national CBA, do grupo Er-
mirio de Moraes.


Faganha
Dos 10 municipios brasileiros
cujos chefes de familiar tem us pi-
ores rendimentos de todo o pais,
seis estao localizados no Mara-
nhio (Cantanhede, o mais pobre,
Belagua, Palmeirandia, Serrano
do Maranhfo, Nina Rodrigues e
Mat6es do Norte) e quatro no
Piaui (Morro do Chap6u do Piaui,
Cabeceiras do Piaui, Caraubas do
Piaui e Joqa Marques).
Mais uma realizaqao da fami-
lia Sarney: ajudar o Maranhao a
ganhar o trofeu miseria do Piaui,
campeao ate entfo.


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